coisas imediatas

[1996-2004]

Heitor .erraz Mello

Coisas imediatas
[1996-2004]

Jardim Botânico 674 sl.erraz Mello/ — Rio de Janeiro: 7Letras. 417 Rio de Janeiro RJ CEP 22461-000 (21) 2540-0130/0037 editora@7letras.erraz Mello Equipe de produção Isadora Travassos Marília Garcia Valeska de Aguirre MELLO.7letras. 2002 © 7Letras 2001 © Moby Dick 2004 © Heitor . Heitor .erraz Coisas imediatas / Heitor . ISBN COLEÇÃO GUIZOS: ISBN 85-7577-096-9 2004 Viveiros de Castro Editora Ltda.br .com. R.com.br www. 2004.1996 © Ateliê editorial 1997.

.............................................................................. 51 Arco de proteção ................................................................................................... 21 A escada no vácuo .......................... 45 Morte no cabide ..................................... 17 Um problema de imagem . 30 Outras panes ................. 29 Conversa no banco ............................................................................... 44 Entre a delegacia e o convento ....................................... 19 ................................... 33 HOJE COMO ONTEM AO MEIO-DIA (2002) Escolho às vezes um objetivo para minhas caminhadas .................................................................................................................... 49 Explicação .. 42 Minha rua .............................................. 43 Minha casa ......................................................................................... 40 Leiteria Mineira ........... 47 Três irmãs bandeirianas ........... 32 Velórios .............................................................................................................................. 18 Água branca ...............................Sumário PRÉ-DESPERTO (2004) Pré-desperto ........................................................................................................................................... 23 Os olhos do guará ......errolho ....... página13 A catedral se impõe (às 17h45) ............................ 41 Viaduto ......................................................... 25 Walking the dog ............................................................................................ 37 A forma de uma cidade ..................rancisco ............................. 38 O homem especial ............. 22 Não te disse que era capaz? .................. 50 ........ ou um quebra-cabeça? ...................... 15 Máscara.............................................................................................................................. 14 Dois nadadores ................................. 39 Galeria a céu aberto ................... 20 O pescoço da miss Japão ....................................................................................................... 52 ........................................................... 46 Ninguém .......................................................... 28 Prolapso .............. 48 O lago secreto .......................................................... 24 Saturno ...................................................................................................................... 27 Nossas microbiografias .................. 31 Caso de família ...................................................................... 26 Happy-hour ............................................... 16 Oficina mecânica .......................................................................................................

.................... 88 Parada de São Sebastião do Paraíso ...........................................................................Antes da pedra ......... 93 Onde o núcleo ..................................... 76 GOETHE NOS OLHOS DO LAGARTO e outros poemas (2001) Álbum de família ..................................................................................................................................................................................................... 54 Burrice é cicatriz ...... 69 Ela amava as coisas ............................. 96 ............................................. 73 Aparição repentina ...... 59 Mula sem cabeça ........................ 64 Engano e perfídia . 55 Dois lados ................................ 60 O primeiro morto .............. 79 Conversa de mãe e filho ............................................... 81 Sombras .................................................................................................................................................................................................................................................... 68 Prevertiana .................... 70 Leite talhado ..... 94 Cidade morta ............................................................. 75 Agradecimentos: ........................................................................... 57 Perspectiva da volta ................................................................... 62 Como uma cortina de flores ................................................................................................... 63 As distâncias ........................................................................................................................................................................................................................ 53 A cicatriz ................................................................................................ 74 Espelho ..................... 82 Mãos ...................................................... 71 Smoke poem ...................................................................................... 67 Artigos de casa .................................................................................................................................................................................................................................................... 84 A cidade navega ...................... 95 Dentaduras duplas ....................................................................... 61 Véspera ..................................................................................................................................... 86 Goethe nos olhos do lagarto . 58 Mofo ......................... 56 Paralisia ........................................................ 83 Meio-dia ..............................im do amor .......... 87 Ladeiras ............................................. 80 Lembrança de um velho .................................. 89 A MESMA NOITE (1997) Galo .............................................................. 66 ........................... 85 Anjo de pedra ........................ 65 Empenho ..... 72 Na medida certa ......................

Signo ........................................................................... 97 Noite no quintal ........................................................... 98 Mais uma vez Prados .................................................... 99 .icção ........................................................................ 100 Sono .......................................................................... 101 Pequena prece ............................................................ 102 Noturno 1 .................................................................. 103 Noturno 2 .................................................................. 104 Noturno 3 .................................................................. 105 Noturno 4 .................................................................. 106 Noturno 5 .................................................................. 107 Insônia ....................................................................... 108 Matéria de insônia ...................................................... 109 A velha casa ................................................................ 110 Visão .......................................................................... 111 Sexta-feira .................................................................. 112 Amar-amaro ............................................................... 113 Estrangeiro ................................................................. 114 Manhã de dezembro ................................................... 115 Tardinha breve ........................................................... 116 A janela ...................................................................... 117 A morte do vizinho .................................................... 118 As maritacas ................................................................ 119 Paisagem .................................................................... 120 Outros resíduos .......................................................... 121 S/título ...................................................................... 122 Noves fora .................................................................. 123 Praia do Chapéu Virado ............................................. 124 Poema de 88 .............................................................. 126 Depois do filme .......................................................... 127 Balada do Aniversário ................................................. 128 Sem profissão ............................................................. 129 RESUMO DO DIA (1996) Poeta .......................................................................... 133 Jardim ........................................................................ 134 Lenda ......................................................................... 135 O sapo ....................................................................... 136 Procissão .................................................................... 137 Memória .................................................................... 138 Homem morto: .......................................................... 139 Um prédio ................................................................. 140 Infância ...................................................................... 141 Casa ........................................................................... 142

Uma italiana ............................................................... 143 Noite ......................................................................... 144 Quatro cantos ............................................................. 145 O quarto .................................................................... 146 O deus ....................................................................... 147 Noturno ..................................................................... 148 Quarto de costura ....................................................... 149 Todas as manhãs ......................................................... 150 A velha teia das cidades ............................................... 151 Atibaia ....................................................................... 152 Prados ........................................................................ 153 Depois de Guignard ................................................... 154 O casamento .............................................................. 155 Encontro .................................................................... 156 Concha ...................................................................... 157 Roda .......................................................................... 158 Amarelinha ................................................................. 159 Rua José Bonifácio ..................................................... 160 As bailarinas ............................................................... 161 .im de tarde ............................................................... 162 Clair de Lune ............................................................. 163

(e aqui sou José, Leovigildo, Heitor, homem urbano em geral)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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PRÉ-DESPERTO [2004] .

capitaneada por el amor. la vida familiar es una vida de convivencia permanente. pero siempre. contestar el teléfono. con los discos compactos tirados en la sala. y llamar la atención a una de mis hijas. con los teléfonos que no contestan. todo a la vez. ANTONIO CISNEROS . a veces angustiante y torturante. Entonces la vida cotidiana no sólo es una celebración. Y aunque te parezca broma yo puedo escribir un poema. claro.Yo soy un hombre que trabaja en su casa. Yo tengo que convivir con las toallas mojadas.

Apenas um quarto antigo contrapondo-se ao quarto deste outro hotel com a fumaça da caldeira: a máquina do hotel funcionando. os dois pés estão calçados. Crianças de uniforme fazem algazarra entrando e saindo de túneis de plástico. o prazer ou desprazer momentâneo dos paralelepípedos soltos. [13] . Projetadas no teto. Pela manhã. Sonho que caminho pela rua. apenas o embaciado da luz dentro dos olhos pré-despertos. as sombras de galhos e de um tanque de lavar. o meio-sono irriga imagens de um quarto antigo. Caminho pela rua com a sensação de que estou sem um dos meus sapatos. de que caminho meio-descalço. apenas uma pia branca de bordas brancas. Olho novamente para meus pés: sim. não encontro os paralelepípedos de outras ruas.PRÉ-DESPERTO Certa modéstia de alguns quartos de hotel. sem banheiro no quarto. um hotel antigo. a rotina das cortinas fechadas vazando pouca luz.

atrás dos prédios É a forma de uma catedral que se desenha no asfalto úmido com suas agulhas espichadas pelos pneus dos carros O que observo com o corpo levemente fora da janela é que o dia acaba do lado de fora contra a continuidade do mercúrio [14] . na alameda Ministro Rocha Azevedo É o lilás de um fim de tarde em contraste com o resíduo dourado do sol se pondo em algum lugar.A CATEDRAL SE IMPÕE (ÀS 17H45) O que observo deste 9º andar de um prédio comercial em São Paulo.

Sim.DOIS NADADORES Nem chegamos ao fim – apenas uma pedra modelava suas costas assim como em suas costas uma seqüência de estrelas modelava ou tatuava a constelação de escorpião. Poderia abrir os olhos por um momento abrir os olhos mareados de maresia a areia aderindo aos pés. Poderia olhar o nítido de uma pintura nativa com o mínimo pesqueiro ao fundo recém-acordado fora do ritmo das ondas. poderia chegar mais fundo e onda e corpo e pedra e mar resultariam numa arrebentação. [15] .

de forma. com que se diga dor Não se compreende onde dói o que e por que dói Há um certo agitar de asas entre falsas folhagens Tudo é impreciso desde o início: os olhos negros os cabelos negros não sentem a dor nem sabem da dor o seu preço Dentro do carro diante da estátua do velho empedernido com sua ampulheta irritante (o olhar escondido da coruja estilizada na pedra) a dor se instalou vaga vaga taquicardia que não se sabe Sabe-se apenas que a experiência não se acumulou não se depositou (e a dor a verdadeira dor se desmascara) [16] .MÁSCARA. OU UM QUEBRA-CABEÇA? A dor adormece entre os travesseiros – a dor é a falta de experiência.

Amigos na praia. comprou máquina fotográfica. cabia no bolso da calça. antes de colocarem a cabeça. 2. Entortava os dedos. A vida mecânica corria pelos dedos. 3. A chegada do hidroavião Jahu.otografou com a máquina fotográfica sua própria duplicação sobrepondo sua imagem sobre outra sua imagem. .O. O óleo espesso dos dias corria pelos dedos.ICINA MECÂNICA 1. entregando a si mesmo o mesmo jornal do dia. . .urava os dedos. . [17] . tocando violão numa praia em Niterói. em roupas de banho.otografou o Cristo pela metade.urava os dedos. Amigos sentados numa pedra. Morou no Rio. Entortava os dedos.

[18] .UM PROBLEMA DE IMAGEM Ele gostaria de segurar o tempo não como a ampulheta do velho entre as mãos mas apenas segurar o rosto que o tempo havia revelado diante de seus olhos Não apenas o rosto.lores cresceriam por convicção em vasinhos de flores nos beirais das janelas e os siriris voltariam com o tempo seco o calor atípico em pleno inverno. mas as coxas o jeans e a comissura dos lábios que logo fugiriam pela porta .

ÁGUA BRANCA Tento acompanhar meus passos olhar para baixo de cabeça baixa a crista baixa e o silêncio que percorre folhagens secas quase sempre secas Se fosse mais velho falaria de roubo e peculato e da vontade de entender o que acontece Mas acompanho o desespero dos peixes que deslizam e se desmontam embaixo do meu tênis Algumas manhãs são assim arrastando pedras no parque quando não atrás de meu filho que corre atrás de uma bola até o lago espesso e sem reflexo sucessivamente [19] .

.RANCISCO Debaixo de seu chapéu verde você esconde os olhos o rosto enquanto vasculha na areia da praia algum palito de sorvete alguma concha algo que possa rapidamente ser transformado pelas palavras que acabam de chegar Há um limite tácito entre esteiras e guarda-sóis mas que você desconhece e já revira sob o olhar assustado de um garoto e sua mãe o baldinho amarelo de água que agora também é seu Debaixo de seu chapéu verde (que usamos para encontrá-lo) o limite é a extensão de todos os espaços e a onda pode subir ou baixar o susto é o caldo [20] .

O PESCOÇO DA MISS JAPÃO De manhã o sol entrou por aquela porta ali atravessou todo o corredor levantou uma constelação de poeira e foi iluminar a fotografia que estava escondida no fundo na última parede [21] .

A ESCADA NO VÁCUO (de um poema de Adília Lopes) A casa já foi derrubada mas ainda resta no espaço sem tijolos entre cáries e tapumes a escada que sobe para o vácuo que range ao peso do corpo O tempo não conta o tempo perdido entre o primeiro e o último degrau Conta somente a escada como deve ser – atada ao chão desatada ao céu [22] .

lores rápidas. e passei a madrugada montando a estante de livros. com manias arqueadas de velho. Numa noite. E eu estava com raiva de alguém que me disse que eu não passava de um velho. . mudei todos os quartos de lugar.NÃO TE DISSE QUE ERA CAPAZ? Havia um festival de salmão. [23] .

OS OLHOS DO GUARÁ Os olhos do guará do outro lado da janela desorientam o tempo e a mulher de casaquinho preto que se despede com um aceno   [24] .

Tudo que a cerca é um detalhe que foge e se fixa longe – um vinco a dobra saturniana do lençol Ou apenas isso: um único fio branco que brilha furiosamente na densidade de seus cabelos pretos. [25] .SATURNO p/Cláudia Diante do espelho ela se fixa em algum detalhe que não percebo.

corpo de feltro largado na estrada Mal me levanto e já me sinto ensanduichado esborrachado esprimido e reduzido ao olhar do cão fugindo atravessando a rua com direito de cidade como os de Jude Stefan – ou seria embalado liofilizado como no réquiem de Ruy Belo? Com os sentimentos atolados em coisas imediatas deixo o cão seja de um ou de outro As coisas imediatas (em conflito permanente) me levam para o carro   [26] .WALKING THE DOG Mal me levanto tomo o café-da-manhã e penso no cão.

[27] . de nenhum outro lugar – da luz de mercúrio. do vidro fumê. entre um bloqueio e outro de fora e de dentro É deste lugar.HAPPY-HOUR p/ Tarso de Melo É daqui que eu falo. do abajur aceso no prédio em frente e que se torna tão nítido que quase se isola dentro da janela É daqui apesar de eu mesmo sentir que me falto e me falto tanto que nem sei se sou eu ou a saudade que não consola É daqui. quando a tarde baixa entre coisas replicadas. onde pertenço.

IAS Às vezes acontece do acaso inconfortável abrir uma brecha na rasteira do presente e alguma imagem que estava presa se libertar Do silêncio escapa um rumor de risos e vozes (talvez na ponte sobre um velho ribeirão) e braços longos e desajeitados de um garota longa e desajeitada se acomodam sob as coxas e outra garota esconde a timidez de uma gargalhada colocando a mão na boca [28] .NOSSAS MICROBIOGRA.

você fez todos os exames. com os filhos) ou nem tempo da cabeça cair para o lado [29] .ulminado: sem saber se haveria um logo depois (na sala. o pânico de uma dor incerta como se fosse angina pectoris Ou apenas lá de dentro soando o alarma invisível – “a vida é um adeusinho” Na enfermaria. e aguardou o diagnóstico no conta gotas do soro .PROLAPSO No caminho de volta apalpando o peito.

[30] . de morto-vivo sem projeto imediato. Ela se projeta sem qualquer outro objetivo – dar uma volta no parque sentar num banco de cimento as mãos no joelho e observar patos e gansos se bicarem dentro e fora da lagoa escura. mas apenas como se projeta no presente. Nunca pergunte por ela: quando você a pressente não é como ela é.CONVERSA NO BANCO p/Marcos Siscar Não se sabe onde ela se encontra ou onde a encontraremos se com as mãos metidas no bolso ou a capa preta cobrindo o rosto. Cria aquela sensação de vácuo de escada aberta.

OUTRAS PANES Tudo parece uma besteira. a memória e outras funções inevitavelmente se perdem e o corpo procura um ponto de fuga. um lugar onde se resguardar como se acobertasse um crime [31] . até que vem uma dor de cabeça uma ressaca de tudo: o amor. a experiência diluída no cotidiano.

[32] .CASO DE . Essas coisas acontecem os episódios não são reconstituídos como crimes nos jornais: os órfãos não choram a morte trágica do pai o sangue não penetra as escadarias de azulejo – apaga-se.AMÍLIA Tudo se torna folclórico o trágico familiar caindo no riso na gargalhada a morte numa escada de bar depois de um briga estúpida perde o sentido como os acontecimentos a preocupação a dor. como o nome mastigado numa conversa de cozinha.

Seria assim: novamente eu passaria pelo Velório da Quarta Parada. se colocariam em movimento (algumas até morreriam. O cabelo acaju. O pé que foi descascando. cheio de micro-furos. elas existiriam. o ar em volta também pára. depois disso. Isso foi num outro velório. Ele saiu. de uma tia que morreu de infecção generalizada. sem ar. tomou uma pinga e voltou. O trilho amarelo dos dentes. Mas isso foi num outro velório. Primos circulam pelos corredores brancos com o cheiro estufante de flores. A loja de produtos religiosos. [33] . Primos que envelheceram muito enquanto eu permaneci o mesmo. O ar de fora também se encontraria parado. elas estariam tal e qual a minha espera e. Já observei isso: quanto mais olhamos e velamos nossos mortos. ou da memória que eu faço delas). a idéia de que as coisas são imutáveis logo após. Obras de reparo na piscina da academia. as deixarmos onde estavam? As coisas e as pessoas. a linha da testa. Um pequeno véu. cobriria seu rosto. velhas e cansadas da mesma posição. ou melhor. aos 79 anos. Nunca faça promessas para defuntos. os cabelos raros brancos.VELÓRIOS Como se eu imaginasse: como seria no dia em que voltasse. foi ao bar. enquanto eu estivesse ali. descascando até ser amputado e já era o início de um câncer de pele. ao como seria. E fica difícil retornar ao início. a saliência do nariz. ou mesmo séculos após. Estava um pouco grogue. As faces afundadas. fixamente. No dia em que retornasse. algo mais recorrente. Encontraria as mesmas pessoas me aguardando para o velório do meu avô paterno. enfim libertas dessa prisão da minha memória.

de cimento áspero. * Envelheci muito. enquanto embaixo corre a água rala de um ribeirão. Lembrar já não tem mais serventia. de colunas baixas e ásperas. ou na memória que faço deles. Todos estáticos numa mureta baixa. ou sentados na borda. [34] . todos encostados. Não faço promessas. Seria possível encontrá-los todos parados dentro do tempo como agora se encontram em minha memória.como seria se eu retornasse à mesma cidade onde estive há muitos anos.

HOJE COMO ONTEM AO MEIO-DIA [2002] .

são trinta anos hoje como ontem ao meio-dia .para Cláudia. Chico e Isabel Afinal.RANCISCO ALVIM . meu velho.

Três ruas pretas. com pássaros retráteis. Uma rua que só tenha canto de rua uma rua sem [números uma rua lotada de carros estacionados uma rua com escadas uma rua plana uma rua baixa. Examino o desenho das calçadas. duas ruas brancas. Uma rua sem alegria uma rua calma uma rua abstrata [uma rua carregada de signos. Uma rua acariciada pelas árvores. Conto vasos de flores. Sigo por uma rua cujo nome me seduziu.ESCOLHO ÀS VEZES UM OBJETIVO PARA MINHAS CAMINHADAS (desentranhado de Poésie: de Jacques Roubaud) Escolho às vezes um objetivo para minhas caminhadas. suas fraturas. [37] . Uma rua inverossímel uma rua tranqüila uma rua [crápula. lavanderias e janelas. minha caderneta de ruas. Sigo por uma rua que alguém indicou para minha [coleção de ruas particulares.

ORMA DE UMA CIDADE Tenho acompanhado a cidade: contemplo-a do alto do teto – o hospital silêncio de pedra cortado por sirenes E os doentes? – Silêncio. [38] . Do alto a cidade é circular e a única mulher é sombra perna janela – um gato reconhece a ruína e não desce me olha de longe me esquadrinha e não desce.A .

O HOMEM ESPECIAL
O homem especial caminha na hora do almoço Entra num restaurante e procura um lugar de onde possa ver a rua através da imensa vidraça O homem especial mastiga a comida e vê a rua que passa em frente ondulações de cabeças e a esgrima de guarda-chuvas e jornais O homem especial come calado destroça uma torta de morangos – a hora especial de sua torta de morangos e névoas de café

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GALERIA A CÉU ABERTO
O pequeno comércio persistente a tudo transforma em 1,99 as lonas os cadeados perfilados foram gerados sem muito custo como se sempre estivessem ali naquele trecho de rua com cartões telefônicos .alar com quem? onde mora a mulher do estrangeiro que acorda? A túnica de lixo preto cobre meu corpo Eis-me aqui cada dia mais moço vendendo brinquedos e guarda-chuvas – velho príncipe de um país chuvoso

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LEITERIA MINEIRA
Com pão petrópolis torrada seca torrada americana enquanto Sofia não chega enquanto Sofia não divise lá da frente a mesa do fundo aveia com ovo maizena com um ovo cremogema com um ovo e peça um conselho e fale de um livro com gestos e xícara de chá a xícara de chá de volta ao pires entre uma gota e outra gota delicadamente sorvidas Torrada com mel Mingau sem ovo? Antes que Sofia chegue e fale e tome delicada seu chá a espera pede uma torrada Petrópolis a demora pede uma torrada à francesa e uma gorjeta fora da nota

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VIADUTO Agora sei que não deveria ter olhado como quem espia aquelas janelas sucessivas que se vê do alto do viaduto aquela mulher que arqueada costurava em silêncio (um silêncio que não pedia meus olhos invasivos) aquele cara sem camisa numa pensão barata limpando a caneta de lata na esquadria da janela e que num relance olhou a rua logo abaixo [42] .

MINHA RUA Em três quarteirões seis salões de beleza uma delegacia [43] .

MINHA CASA Minha casa é um refúgio De noite quando o sono não chega vou até o portão para fumar um cigarro O homem protegido sob uma pequena marquise de uma garagem fala sozinho igual ao meu filho quando brinca O homem imita conversas e revolve uma sacola de supermercado Afasto-me do poema que os olhos espiões poderiam indicar Refugio-me entre artigos da casa retirando preços Aquele homem sob a marquise permanece inabordável [44] .

ENTRE A DELEGACIA E O CONVENTO Entre a delegacia e o convento de freiras a intermitência de sirenes e rostos (o que se banha na torneira de uma casa vazia e o que não se banha na torneira de uma casa vazia e esfrega o nariz na manga da camisa) Esta rua tem olhos espessos sob o arco complexo da sobrancelha Talvez seja melhor não persistir A duração de cada ato de cada movimento de rosto é curta A respiração é curta A distância até a morte é curta Todas essas horas são curtas e aguardam a [invariável sirene que estoura vermelha e azul no muro das casas [45] .

MORTE NO CABIDE p/Vanderlei Há pouca realidade num morto preso a um cabide um morto que já não está no corpo e é apenas a roupa que vestia pouco antes de morrer As pernas de suas calças balançam no vento. balançam dentro de uma noite que abandonou o dia [46] .

muitos pássaros Do lado de fora os gatos em posição de unhas choram mais alto que meu filho Os gatos arranhados fora do sono as pernas como num gesso de Giacometti Os gatos de luz sem luz Me levanto atordoado ouço não tem ninguém Meu filho dorme Minha mulher dorme Os gatos somem [47] .NINGUÉM Preso dentro do sono o peso enorme da cabeça que tenta um giro as pernas enganchadas na grade do berço da noite que se altera por uns poucos.

todos os dias. neles caberia a noite.TRÊS IRMÃS BANDEIRIANAS Janaína. todas as noites. E nos olhos de Moema caberiam os meus – somente os meus. o sol. Janaína. que lindos olhos. Nos olhos de Yara. [48] .

satisfeita. diz que fez o lago Titicaca – a outra procura um balde de água) Pelos buracos fugiram 19 presos que estavam nas celas do 23º DP Os helicópteros sobrevoam nossa casa. com metralhadoras suspensas Meu irmão morreu em cima da árvore As crianças se escondem dentro de túneis de lata Procuro a senha (uma data) [49] .O LAGO SECRETO Tua cabana entre duas camas o “esconderijo secreto” as crianças cavam buracos no chão (uma. voam baixo.

EXPLICAÇÃO Não sei explicar o que me motivou a colocar fogo naquele pinheiro em frente de casa Não era a beleza “da chuva vermelha” Nem a necessidade de calor numa manhã sem abrigo Havia um fósforo uma caixa de fósforos [50] .

ERROLHO O vento põe barriga nas cortinas – faz um corpo inteiro se desprender da janela Com o vento essas coisas podem acontecer com as bochechas do vento tudo pode acontecer Recolho os olhos impossíveis no desejo de me arremeter contra o ar das cortinas [51] ..

ARCO DE PROTEÇÃO Assim passam os dias o estalido monótono dos trituradores A cabeça cheia desse rumor que não se sabe bem de onde vem Cinza cinza cinza cinza alterando os guarda-chuvas com grande variedade A esgrima da esquina era por um pedaço de pão? por um gole de chuva? As grades de proteção já não permitem ver e barram os ouvidos moucos O menino de colo segura nas grades com as duas mãos e sorri de uma folha que estala na árvore [52] .

ANTES DA PEDRA
Antes de dormir, meu filho brinca na cama cutuca meus olhos, a saliência sobre a pálpebra cavuca orelhas, nariz e boca Repete o jogo num divertimento de embalo Antes de dormir, fecho a porta, confiro janelas A mariposa sobre a mesa azul parece uma pedra Sopro sobre ela As asas se movimentam um pouco acertando-se com a resistência do vento e retornam coisa entre coisas uma pedra Meu filho volta-se para o lado e dorme (caminho às [escuras) A mariposa sobre a mesa A mariposa morta sobre a mesa talvez não durma

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A CICATRIZ
De repente era uma curva de rua uma noite cheia de interrogações como tantas outras – escorpião era a cicatriz no céu Não sei se era dor ou simples contentamento de quem caminha e topa com a constelação a mesma que rege o dia do nascimento A cicatriz de quem se agacha para lavar os pés na bacia velha de alumínio e depara com a marca do tempo e um punhado de estrelas

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BURRICE É CICATRIZ
Memória zero zerada desde o início esqueceu o que foi lido palavras que aprendeu num caderno com desenhos O exercício de matemática era um caramanchão derramado na página colchetes e chaves chaves e colchetes A memória aprisionada onde? onde não há traço nem cicatriz

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DOIS LADOS Era um pátio um pátio entre janelas e cascalhos do chão Um homem chega de lambreta e diz que ele está muito doente É preciso rezar muito Um garoto atravessa o pátio abrindo caminho entre os cascalhos do chão e a fileira de janelas Já não se pode ver o movimento dentro do quarto O padre com asas de urubu levantando-se da cadeira A lambreta arranca por uma alameda repetindo berros de urubu [56] .

PARALISIA Depois de todos os esforços continuou o empurra-empurra foram parar mais longe num difícil acesso A estrada de terra passa diante de um hospital municipal com algumas janelas acesas Na fotografia ele estava na frente de um bar fechado tinha trabalhado na obra Talvez tenha sido depois pouco tempo depois que morreria na cozinha mastigando a couve do almoço Quando telefonam: a saudade e a netinha que nasceu (a cabeça era uma geléia) Um frio no ouvido aquele bar fechado e a bolinha de tênis na mão [57] .

PERSPECTIVA DA VOLTA A perspectiva é a de um carro não a de um carro estacionado as horas contando no bilhete azul Um carro em movimento numa cidade chuvosa eternamente chuvosa alagada onde as ruas contam de modo diferente Os irmãos sentados na porta de uma mercearia de bairro Os irmãos doentes ele e ela sempre doentes e de óculos verdes mentalmente doentes quando o carro passa em frente A imagem se confunde entre as mãos na direção a janela molhada e os dois irmãos doentes na porta da mercearia Sorriem para alguém que está fora Dentro do carro o observador anônimo como de dentro do ônibus ou num táxi alguém que volta para trazer presentes mostrar os filhos a perspectiva oblíqua do carro – a chuva em movimento [58] .

MO.O Mal acomodado em bancos azuis o bairro passa num relance ele não sabia de onde vinha nem para onde ia O açougue de 1922 a mercearia vizinha Houve época em que os bancos eram vermelhos como as carnes expostas em ganchos Eram vermelhos e não cicatrizavam o corte dos estiletes O pai e seus filhos todos velhos óculos fundos de garrafa todos velhos infantilizados pela doença Uma pomba caminhava na frente enxotada pela bengala Mudaram a cor dos bancos pintaram a fachada do açougue Seu André morreu Dona Preciosa morreu As carnes pelo lado de fora enchem-se de moscas [59] .

MULA SEM CABEÇA A coisa se passou em Poços quando ainda era muito [criança Depois que a sombra de uma velha bruxa apareceu refletida na parede do quarto do hotel tudo poderia acontecer E foi assim que atrás de um muro alto num terreno baldio o relincho de uma mula-sem-cabeça retiniu na noite e vibrou nas calçadas [60] .

O PRIMEIRO MORTO O primeiro morto estava estendido numa tosca mesa de madeira no porão escuro da Santa Casa Morava na Banheira e tinha parado de beber para não dar mais desgosto aos filhos [61] .

como dói o resíduo que brilha nessa correnteza desfigurada lentamente [62] .VÉSPERA Uma caixa escura roxo manto que a recobre sem clarinetas ou requintas Só o sussurro de sandálias lixando as pedras da rua Aprendemos a carregá-la sobre os ombros A força dos braços resistem ao peso morto ao rubi que escorrega pelo rosto polido A noite se fecha por dentro enquanto a cera das velas queima as mãos – dói.

LORES A manhã tinha o horrível cheiro de sangue couro e cabeça de boi morto Os lençóis eram ásperos e o colchão era duro Não havia vaga nos hotéis e alguém me indicou esse lugar no final da estrada com um cachorro na porta Como cheguei aqui depois de ter viajado à noite inteira a procura de uma cidade da qual só me lembrava da fumaça protegendo os telhados? Na janela uma cortina de flores disfarçava a paisagem do matadouro e alguma coisa como nódoas de tempo se abriam ininterruptas [63] .COMO UMA CORTINA DE .

AS DISTÂNCIAS Há muita distância entre um homem e uma mulher as costas grudadas na areia da praia nuvens velozes como pernas numa maratona ou aros invisíveis de bicicletas pelas montanhas francesas As distâncias cronometradas pelo corredor de uma casa enquanto a fúria deixa registros doloridos na areia da praia O homem sonha A mulher também: a inscrição nas nuvens e nas ondas que ainda podem correr [64] .

ÍDIA Essas mulheres poderiam estar aqui ou em outro lugar Por exemplo.ENGANO E PER. nada revelam dos seios redondos [e intactos Os mamilos respingando na janela do carro A úmida luz de uma marquise Voltam para casa cansadas da chuva Atravessam a rua abraçam-se pela cintura numa determinação de gesto sem abandono ou engano [65] . quando saem da academia com roupa [de ginástica nada escondem.

rói o quarto Enterrei meus amigos no quintal num buraco que Janaína cavou meus amigos me traíram nessa hora em outras horas.EMPENHO Um colar de pérolas acondicionado numa caixa de madeira escondida atrás do armário Essa mágoa como as traças rói. mesmas horas que a boca do peixe engoliu Empenho esse colar de pérolas que minha mulher ganhou do primeiro marido essa mágoa de amigos [66] .

.IM DO AMOR Tenho passado não noites inteiras fora de casa como gostaria mas parte delas e não sei se é pelo fim do amor ou tão somente pela calma incessante que ele traz e minha alma não contenta Quem disse que filho é para sempre? Um dia se vão Ai de você se esperar [67] .

ARTIGOS DE CASA Domingo chuvoso A persiana aberta pela metade para entrar um pouco de luz Gotas batem aqui e ali molham o teclado Esta hora igual a tantas horas aqui dentro ali fora um corredor que atravessa o tempo meu tempo de rixas O amor entra no banho sai do banho veste as sandálias e volta para cama [68] .

PREVERTIANA Um guarda-chuva cai no chão de braços abertos Um homem sonha em partir e a mulher tem uma furiosa vontade de viver Enquanto a mão que alisa o seio lã vermelha que palpita alisa o pescoço e o tronco marcado pelo canivete do beijo pela lembrança do fósforo riscado no escuro [69] .

ELA AMAVA AS COISAS Ela amava as coisas com muita delicadeza Ela amava os vasos as xícaras as toalhas Ela amava os brinquedos os aparelhos elétricos os secadores de cabelo seus cabelos com muita delicadeza Como as flores e a chuva interminável no pátio interminável como seu amor o amor que ela sentia e era forte pelas coisas da casa os pequenos detalhes da sala em ordem O cheiro de lavanda creme de lavanda para pele café com leite pela manhã pão e manteiga Ela amava as coisas e hoje me inclino no vento e a vejo saindo sem as coisas que ela amava [70] .

LEITE TALHADO “Bebo leite de lata” MANUEL BANDEIRA Estragou-se o domingo como o leite talhado numa pequena panela sobre o fogão da cozinha O poeta Manuel Bandeira usava uma panelinha onde cabia o leite certo para uma xícara de leite algo como 200 ml de leite um quinto de uma garrafa de leite quando o leite ainda vinha em garrafas de vidro Depois o leite passou a ser vendido num saco plástico uma teta plástica que se contorcia nas mãos e hoje temos o leite A e B em garrafas de plástico e o leite U.T o que significa dizer Ultra Alta Temperatura no qual é envasado em segundos numa caixa de papelão forrada por dentro com material asséptico [71] .H.

perdoem. Aqui.SMOKE POEM A fumaça que sobe do cigarro numa sala mal-iluminada roça o nariz tateia os olhos e logo desaparece na sombra – As idéias se recolhem absortas na fumaça. não há nenhum pensamento. [72] .

NA MEDIDA CERTA Procuro um cinzeiro preciso muito desse cinzeiro de vidro suas três pequenas depressões onde apóio o cigarro enquanto nado na inconseqüente fumaça Esse cinzeiro ajuda a compor o ambiente a janela que dá para o pátio Não é um deus de vidro nem nada que o transcenda É a piscina de cinzas o arquivo morto das descobertas pessoais [73] .

APARIÇÃO REPENTINA (de um texto de Naum Gabo) Uma estrela cadente cortando o escuro traça a respiração da noite como o tempo breve da luz numa agulha ou a tesoura que desliza sobre o pano num quarto de costuras Imagens que não tenho como alcançar A estranha dor na perna amputada e a respiração do sonho recorrente: baratas entrando e saindo por uma fenda no teto [74] .

ESPELHO Antes de sair conheço o itinerário que a cada manhã repito que todas manhãs refaço Um itinerário que o tempo não aborda por este canto esta margem de calçada Repito fraturas de cimento domesticadas pelo sapato Conheço o itinerário o rosto por dentro do armário (apenas uma nova mancha revela que outras árvores nasceram no calçamento entregues ao acaso) [75] .

AGRADECIMENTOS: Bolsa Vitae de Artes Zuca Saldanha Carlito Azevedo Revista Inimigo Rumor Manuel da Costa Pinto .

GOETHE NOS OLHOS DO LAGARTO e outros poemas [2001] .

rancisco .Para Cláudia e .

ÁLBUM DE .AMÍLIA Então ele se sentou num banquinho ajeitou o chapéu de feltro colocou o filho mais velho ao seu lado em pé e se deixou fotografar Então ela se sentou no murinho da casa esticou o vestido cobrindo os joelhos sorriu para a lente e também se deixou fotografar [79] .

CONVERSA DE MÃE E .ILHO Morreu na cozinha mastigando a couve do almoço [80] .

LEMBRANÇA DE UM VELHO Desde que o puseram sentado numa brecha que havia no muro do cemitério o tempo começou a fazer pequenos estragos no manto de pedra na ampulheta de pedra na mão direita e no braço estendido à esquerda [81] .

SOMBRAS “Ao menos. há sombra” (ADÍLIA LOPES) Gostava de entrar na igreja na hora do almoço o centro apinhado de corpos o sol batendo nas vidraças as vidraças batendo nos meus olhos e dentro da igreja tudo era silêncio escuridão e frio o olho ainda embaçado do choque e como quem acorda num canto um santo com o rosto erguido para o céu e nos seus pé o braço amputado de um ex-voto. dentro da igreja. [82] .

MÃOS as mesmas que envelheceram e foram como galhos saindo do prumo [83] .

MEIO-DIA Na hora do almoço o sol do meio-dia recorta um triângulo na sombra onde o operário em frente come sua marmita e toma um refresco de laranja – as máquinas paradas dão a impressão de que ele se acomoda num ventre de luz [84] .

A CIDADE NAVEGA (desentranhado de uma entrevista de Chico Alvim) Tenho a sensação de estar no mar venta muito as casas rangem você está num bonde e de repente uma gaivota passa ao lado. [85] .

[86] . sento no quintal da casa de meus avós e a boca escura do barracão me lembra o anjo [de pedra meu avô e suas ferramentas de trabalho.ANJO DE PEDRA Apenas um anjo de pedra bem ao lado do túmulo as asas com marcas de bala e o rosto completamente [desfigurado (Nilza viu no jornal que os vizinhos têm reclamado dos tiroteios que ocorrem durante a noite [no cemitério) Então.

digo. um lagarto que tinha nos olhos o demônio do medo a pedra desabou do morro o lagarto se esgueirou e a empregada viu dois olhos brilharem no meio da mata [87] .GOETHE NOS OLHOS DO LAGARTO Ninguém olhou para cima para cima. para o morro que cercava a casa para o morro que guardava a pedra. a pedra que escondia um lagarto.

se funde.LADEIRAS p/ Guido Campos É tempo de subir a ladeira – amoldar o pé que já se esquecia sentir que a sola do sapato é um couro a forma exata do pé e se ajusta pouco a pouco à forma antiga do paralelepípedo se ajusta como se encontrasse no chão o que não mais existia um certo prazer irregular de quem anda se mistura. [88] .

[89] .PARADA DE SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO (de um verso de Haroldo de Campos) Ninguém caminha por essas ruas ninguém aparece numa janela num mínimo rasgo de porta para olhar o ônibus passando de madrugada (a cidade se reduz a uma rua uma única rua fria de lâmpadas amarelas) O alto-falante silencioso espera o sol nos olhos do boi para a primeira oração.

.

A MESMA NOITE [1997] .

o essencial é viver! CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE . obrigado.Aos amigos da Von Martius Clara manhã.

crimes de tolice e descuro.04.95 [93] . A janela se abre em abismo de tanto britar angústia própria de morituro. perfume agressivo rebentando o muro.GALO Tenho dado cabeçadas. cometido erros. A vida perdeu suas flores. Do fundo alguém grita (três vezes o galo canta) – por onde me apuro? 01.

10.ONDE O NÚCLEO Onde o núcleo que tanto ansiava? talvez uma cidade engolida pelo mapa ou pela própria ruína de suas fachadas talvez ainda a palma da mão de linhas confusas (outro mapa de obscuro destino) onde o núcleo que bombeia estes olhos este sentimento cada vez mais confuso? talvez flores bagagens descarregadas em bairro novo.96 [94] .

04.CIDADE MORTA Elas vivem em mim como cidades enrodilhadas uma cutucando a outra através de uma janela uma fachada cansada ou o cheiro tão comum nos finais de tarde de ensolarado outono Ouço mesmo daqui vozes de um menino me mostrando na sala o assoalho velho marcado pelo tempo pelos pés do seu avô e num cochicho: “aqui moram os mortos” Posso estar distante dividido por uma estrada um mata-burro o edifício alto – quando menos espero as duas se desenrolam e uma vira outra outra antiga e jamais.97 [95] . 01.

17.97 [96] .DENTADURAS DUPLAS Os primeiros dentes procuravam sua sepultura nos telhados. E lá ficaram cravados no espaço.03.

97 [97] . solavanco de memória e estrelas reconduzidas ao céu posto. 17. Se caminho pela rua. espero um pouco mais. calçada irregular.03. nenhuma pedra.SIGNO Todo dia.

97 [98] . 30.NOITE NO QUINTAL p/ Noeli Pomeranz A noite no fundo do quintal lembra o cinema de sombras na parede vento no arbusto sacudindo medo (formas de bruxas noturnas terror de mula-sem-cabeça) – o fundo da noite estampado na memória me puxa pelos pés.03.

São as escadas espirais talhadas em pedra e traição. São os sinos da igreja ou o grito desesperado de uma requinta anunciando os dias escoados. são os sinos de igreja que no meio da noite me atormentam.93 [99] . É a janela do quarto. 24.06.MAIS UMA VEZ PRADOS São os sinos. aberta de madrugada e um lobo-guará como guarda-noturno. retângulo de madeira.

ICÇÃO Sabendo-me defunto com todas barbas de molho acompanho o dobre sineiro pela escada em caracol de pedra Na extrema-unção meus passos escavam pouco mais seus degraus São séculos arrastados em arenoso silêncio.91 [100] .09.. 19.

06. Impulso de fuga para o país vário da insolência do sol. 23. O sono vai correndo ardiloso todas as formas. da tempestade temperada em sonho. dentes.SONO Tudo vai revertendo em sono forte.96 [101] . E o coração pára diluído no copo d’água ao lado. olhos por fora.

09.PEQUENA PRECE Já não peço muito coisa além deste vento. 30.95 [102] . desta lua sem grandes mistérios nem tumultos: simplesmente ficar envolvido confuso sem que nada mais nos una.

NOTURNO 1 O coração não sabe por que pulsa nem os olhos o que olham. Já sem luz.96 [103] .01. A noite avança com todo seu peso esmagando céu e desejos. a noite condensa os contrários. 19.

NOTURNO 2
A lua tamanha não mais seduz. Para sossego do corpo o céu é ausência completa de luz. Já não consigo o olho complacente: pureza é dor, incomunicável morte dos sentidos.

24.01.96

[104]

NOTURNO 3
Ausência de mar e montanhas. Ausência de corpo que entrebraços se insinue de pele terra molhada e nua (aberta) Ausência de abismo e horizonte. Ausência de algo mais ou estas mãos vazias.

24.01.96

[105]

NOTURNO 4
Vênus cada vez mais distante – céu sufocado de nuvens Olhos procuram uma brecha rastro provável de provável avião Vênus dissimulada acima de tudo acima de todos Vênus distante no horizonte no colo discreto do mar

25.01.96

[106]

96 [107] .NOTURNO 5 Apenas a lâmpada me retira da solidão me devolve a este canto deitado no sofá .01. 29.echo os olhos com força tento desligá-la desligar-me Apenas os olhos – rivais da noite – se acostumam à solidão e desnudam.

gemidos. 13. altas horas incomodam: febril armadilha deixando nos olhos um duplo incêndio.97 [108] .01.INSÔNIA A vida incomoda este vaso sem flores fora do lugar estas vozes repentinas – risos.

20. no relance.02. falso luscofusco espalha-se na parede fundindo nos olhos uma dupla imagem Ultrapassa a própria mulher.MATÉRIA DE INSÔNIA Recolhe-se nos nervos. além da fusão. revela. pego desapercebido. o último suspiro do umbigo. o batente da barriga onde reside o desejo e a dissolução dos ossos Parece mais meia-lua num meio-vestido fresco recortada sutilmente pela símile memória do sol Todo corpo recostado oferecido em parêntese (fechado em parêntese) fluindo nas pálpebras E só de olhá-la. lua de ninguém.97 [109] . matéria de insônia – mulher. recostada na soleira Ao fundo.

Corríamos pela casa como duas crianças e sacudíamos os lençóis com nossos corpos. 29.06. E mesmo hoje no passado em que já nos encontramos distantes ainda corremos pela casa pela casa desabitada. Tínhamos em comum a admiração da lua e um certo jeito de olhar o mundo.97 [110] . E só.A VELHA CASA Havia sempre no passado o momento de grande gargalhada.

05.96 [111] .VISÃO Escuto os sapatos socando as pedras do corredor numa pronuncia particular Eis que avançam passo a passo e saias dançam sem embaraço Vão pisando com tanta força – é em mim que eles pisam Vão marcando com tanta força – no corredor não passa ninguém. 21.

07.EIRA p/Paulinha Calcanhares pontudos caminham pelo andar de cima.97 [112] . Calcam angústia vontade de mudar de nome endereço de vida – nessa ilha de paredes brancas Robinson urbano diante da fatalidade irremediavelmente só.SEXTA-. 06.

11.AMAR-AMARO Me desfaço de qualquer conclusão ou expectativa – A manhã avança desfazendo-se da insônia e de todos ruídos (seriam estrelas. síntese em campo áspero?) A ansiedade não me convém deixo todas notas pendentes (no fundo da xícara raspo o melado café – dociamargo amaramaro insolúvel) 01.96 [113] .

cigarro na boca de mais uma manhã mais uma manhã trocando olhares medindo gestos – somos todos estrangeiros nesta cidade neste corpo que acorda 07.ESTRANGEIRO O café tomado na esquina – meio de lado no balcão a ponto de observar a manhã que se reproduz e se mistura em pernas rápidas O café pago no caixa – troco. obrigado.06.97 [114] .

12. da falta de idéias – ponto pleno de sol (ignorado sol) 06.MANHà DE DEZEMBRO (de um poema de Valéry) Ponto ignorado dos astros do vôo retilíneo dos aviões da multidão das saias (coxas queimadas de sol) (dentro desse ponto outros pontos ignorados do próprio círculo) Estirado na cama – depois do banho. do café.96 [115] .

24. olhos escavando paredes Nenhum passado me serve de consolo (fragmentos de uma tarde e bicicletas) Nada que reponha por um segundo o tamanho exato do sol na aspereza dos dias.03.97 [116] .TARDINHA BREVE Quando esticado no sofá da sala baforando cigarros e café mãos vazias.

os últimos raios do sol através da janela quadriculada de vidros a luz brinca na cama muda de lugar os livros eu mesmo transito entre o olhar pra fora e o olhar pros móveis: a parede de dentro A janela cria pinturas que vivem poucas horas e nunca se incomoda pois a vida é transitória.A JANELA p/Carlito A janela se entrega para a paisagem não tem como domá-la somente a enquadra enquadra o vôo rápido do pássaro da tarde que leva consigo.97 [117] .03. no bico. 26.

Esvaziam sua casa.97 [118] . 24. o quadro na parede roubam sua sombra todo ruído fica somente a memória cativa na janela se chego em casa.03. levam todos seus móveis.A MORTE DO VIZINHO A morte é assim.

amiga.97 [119] .06.AS MARITACAS Repara. neste final de tarde: maritacas atacam o céu numa conversa que jamais compreenderemos como jamais compreenderemos asas agitadas que se banham de lençóis 29.

Toda uma noite consumida em que o amor surge por indecifráveis sonhos sacudindo esta natureza convulsiva.97 [120] .03. 11.PAISAGEM Os lençóis criam ondulações de mar armam no espaço do quarto montanhas barrocas.

ica a marca da cabeça deitada no travesseiro (às vezes um fio de cabelo para restituí-la em silêncio). . .ica a lua – a meia-lua – que banal comparei ao seu sorriso (lembra?).ica você que caminha. Seu corpo indeciso muda e mudo se desmembra.OUTROS RESÍDUOS .97 [121] . . 19.ica um par de brincos em cima da cômoda. na gaveta.08. .ica um elástico solto como retrato.

dos grandes bombardeios? – Sou fraco.97 [122] . E rumino. porém silenciosa. e a tudo desmorona com a força. sempre soube disso.07. não de corpo. 21. as gramas desordenadas desse jardim feito de amor e espaço. pois também sou bicho.S/TÍTULO Como se opor à ruína quando ela se desenha no ar? São fragmentos. Como deter aqui mesmo o sofrimento que se avizinha sem pedir licença perdão. memória formando paisagens.

29. E o mais que quisesse.10. sorriam estampas na minha vida vazia. nove musas cada uma no seu quadro. duas mãos pálidas e sem linhas. dezoito mãos que acenavam distantes de minhas poucas. Eram nove como nove vidas (como se de sobra restassem duas) cada uma exercitava as ramagens do desejo. Eram nove. nove!).NOVES . olhando-me de dia.ORA p/João Ângelo Oliva Neto Eram nove. e o mais que queria (eram nove.96 [123] . rindo-se de mim à noite.

PRAIA DO CHAPÉU VIRADO (legenda de foto para Mário de Andrade) Na praia do Chapéu Virado (quando estou triste corro os olhos nesta imagem) a onda quebrando se confunde com os dentes – ondas e dentes ou dentes e ondas? Na praia do Chapéu Virado (nunca fui lá talvez jamais irei nem sei se hoje existe a praia do Chapéu Virado – assim sonora começo de balada) Na praia do Chapéu Virado o sorriso se quebra de ponta a ponta – corpo esticadão na água é todo delícia de espuma é todo onda estridente Na praia do Chapéu Virado (não importa onde esteja no Litoral Norte ou banhando na Bahia) [124] .

97 [125] .02.– sempre me lembrarei com ingênua alegria do corpo estirado nas ondas do riso nas águas da praia.. Praia do Chapéu Virado. 12..

POEMA DE 88 Depois do filme – olhos negros – chove na Paulista O carro espirra a poça. Dentro desvio a vista para um ponto anterior – o mundo não tem graça As imagens se recompõem silenciosas até o entorpecer de carne e de ossos Normalmente do carro só acompanho os sinais que mudam de cor no solo úmido da avenida e paro – quando vermelho Normalmente do carro acompanho só a câmera que desprega e solta entre vidros. 1988 [126] . o limpador de parabrisas. de mim. as gotas. vão e vêm as cenas do filme. a direção. e do amor que costuma ser perigoso. entre os olhos que vão e vêm.

volto de carro pela avenida (ainda úmida de chuva.ILME p/Augusto Massi Quando. ainda úmida de imagens) outra câmera se abre em descontínua linha de luz e entre um farol e outro – paro. depois do filme. tudo é vermelho – novo filme passa a rodar dentro deste túnel de cenas que a janela enquadra e ao mesmo tempo barra: pequena mão inofensiva que num gesto de quase vôo arrebenta o vidro nos olhos e rebobina falsos recortes. 19.96 [127] .DEPOIS DO .11.

BALADA DO ANIVERSÁRIO p/ Cristina .11.96 [128] .ino Não culpo o retrato equilibrando o menino que engraxa sapatos que volta da escola de azul e branco Não culpo a ampulheta apostando corrida no meio da rua em veloz bicicleta Não culpo o caminhão fazendo mudanças mudando os amigos apertando o quarto trocando o pátio das aventuras Não culpo ninguém nem mesmo o cigarro fumado escondido. 20.

SEM PRO.ISSÃO Logo dirão – afoitos – que ele não larga o pé da infância que seus olhos se esquadrinham por janelas enormes que vive cruzado entre duas. na pia batismal na confederação das almas? [129] . três cidades e um mapa que a firmeza da mão cedeu para a tremedeira de fumante convicto que em pouco tempo embrenhou-se numa prosa mais de bar que poesia Mas o que esperar de um homem comum carteira assinada? Que ele deve no banco.

01.04.97 [130] . manco na vida.Nada se deve esperar – as batatas da perna latejam de tanta rua engolida e ele é manco. manco no verso.

RESUMO DO DIA [1996] Resumo do dia .

A Manuel da Costa Pinto e Rodrigo Lacerda .

Sento. [133] . Amo uma mulher e isso é problema meu.POETA Acabou o fôlego. Penso repetido. O verso por tempo me bastou. Toda a vida era para o branco ocioso do papel. E o coração já desgastado de tanto metaforizá-lo bate sem convicção. A cabeça é vazia de qualquer palavra. nunca houve esforço em pensar. Acabou o fôlego e não me basto a mim mesmo.

Repouso a cabeça nas raízes da árvore. [134] . largo malas e óculos. Não me interrogo. Viravolta numa interrogação. Não fixo olhares em objetos que passam. mas não há descanso. ao corpo. ao jardim onde pastam idéias.JARDIM Estou cansado. Bagagem esparramada sem ordem ou lógica. Olhos e orelhas se aferram às formigas.

[135] . Era lenda que velho nenhum contava: há muito perderam a voz e calam até a própria memória sem interesse.LENDA Por aqui andou um fantasma que socava o chão com pés duros. E tenho que passar a noite concha de orelha na terra escutando as batidas distintas do fantasma que socava o chão.

[136] .O SAPO A mão mal-educada procura o desenho alguns traços ficam no papel – as ruínas de uma capela o esqueleto distorcido de uma cidade – as linhas estampadas no branco como o couro de sapo atravessado na estrada de terra.

PROCISSÃO Naquela pequena caixa os ossos talvez chacoalhem como num desenho animado. Enquanto meus olhos resumiam o radioso sol de maio. Não houve banda. Mas os domingos retornavam nas ripas de uma cadeira de varanda consumidos numa viagem antiga. nenhum dos santos que sempre voltam pelas ruas. [137] .

tudo como última memória. o sono arrastado. só olheiras.MEMÓRIA (de um poema de Dante Milano) No rosto do morto. [138] . O soco do destino.

HOMEM MORTO: só a barba indiferente continua crescendo em torno do mato e da memória. [139] .

E tudo em volta entramado na pedra é silêncio e memória fugindo pela mão.UM PRÉDIO Nenhum lembrança – o sol batendo no prédio na sacada alta de alta fuligem na pequena área cercada de brinquedos onde procuro meu pai. minha mãe e meu irmão. [140] .

um dia nave. conteve os brinquedos que foram seus galhos. [141] .ÂNCIA Nem mesmo a árvore.IN.

CASA Meu irmão tocava piano na tarde azul e o resto de sol punha um brilho novo nos móveis e vasos. [142] . Um brilho que não sustenta meia volta no relógio da cozinha. Meu irmão tocava piano e eu não pensava em nada nem no brilho se desfazendo nos ponteiros.

Cuidadosamente.UMA ITALIANA Concentra o cabelo branco num lenço estampado de flores Logo pela manhã mistura o leite na polenta e o sol brasileiro entre folhas no quintal Concentrava o cabelo branco. [143] . A gente podia ver A vida estalando de seus olhos.

NOITE Como compor esta. astronômicos. escura e fria? Quadro-negro de mil cálculos suicidas. outra noite. homicidas. clara e quente. [144] . Esta meia sombra de pouca visão desalinha cabelos e verdades – enquanto a noite se condensa na estrela da manhã.

QUATRO CANTOS Na garagem carros relincham línguas de fora Um bar pendura sua lâmpada no feltro verde da mesa de jogo O quarto se abre como uma janela antiga para escutar o choro de um bebê desmamado A fábrica é o latido de cachorros e máquinas Algum canto do mundo – a essa hora – me sacode inteiro. [145] .

Só o quarto. [146] .O QUARTO O quarto móveis disfarçam a parede apagam a infância embutida nos braços quentes de uma russa O quarto a janela aberta a lua abrupta na hora em que descansam os homens O quarto sem cartazes na parede e o meu jeito de tirar os óculos O quarto sem hóspedes e sapatos.

[147] .O DEUS Quando a noite é só o barulho de um galo desregulado e o apito distante de um guarda-noturno Nesta hora em que os corpos procuram a ausência tão necessária e a dor um ponto-de-vista Procuro em cada canto do quarto – olhos de treinada coruja – o deus que me pronuncia.

[148] . Noite fraca noite em frangalhos lençol sacudido pela manhã. E no tumulto do quarto o sonho interroga arruína os desejos.NOTURNO Noite despenteada – o mundo transitório se desarruma A lua recolhe mulheres.

QUARTO DE COSTURA No quarto escuro a máquina de costura cúmplice dos sonhos roda seus ferros refazendo a cada noite o diabo torto sem dramas a matéria míope do rasgado dos dias. [149] .

[150] .TODAS AS MANHÃS Todas as manhãs são violentas – descarregam luzes peixes lonas em barracas de feira: atravessam pupilas com forçabrilho de faca descosturando rastros daquele sonho morte imaginária meteoros de vida que circulavam repletos com a brevidade de todas as manhãs do mundo.

Telhados ganham relevo. Um homem e sua sacola.A VELHA TEIA DAS CIDADES (de um verso de Alcides Vilaça) Existe um certo rumor de estrelas desdobradas em janela pequena movimentando estrada. [151] . O barro é matéria que põe o sol em pé. Lâmpadas fracas e velas tateiam no escuro onde o ronco do motor desperta bois e cavalos. Olhos não sustentam o cinema do ônibus – que não forma enredo e desintegra-se no pó.

[152] .ATIBAIA O sapo que engole – no susto – ah! lua ou este galo que devolve a montanha balofa e o pé de manga carregado de corações de boi.

[153] . casca de noz que cabe no seu próprio ribeiro que cabe na mão na palma da mão (com ouro nas unhas) de seu velho escravo.PRADOS Prados.

[154] . Tudo é belezura.DEPOIS DE GUIGNARD Ela cantou que do galinheiro fez uma garagem que do fogão a lenha fez azulejos. tudo é chiquê – só uma chuva miúda um frio de entrar nos ossos mudam a paisagem: São neblinas doídas dissolvendo o morro.

O CASAMENTO Nossa Senhora do Rosário: a primeira namorada psiu! está se casando e o filho já dorme em sua barriga. [155] .

itou? [156] . As duas cidades não estão no mesmo meridiano. onde? num fogão a lenha numa lareira. De uma. onde? Não são as mesmas casas nem mesmo a língua nem mesmo as constelações girando no mapa. De outra. O cheiro de madeira queimando. Mas por que os sapos – que fascinação os sapos! – espero surgir dessas vinhas de . o mediterrâneo. as montanhas.ENCONTRO Na boca de pedra de um extinto ribeirão espero a saparia que não vem.

CONCHA A concha lembrança do que foi mar. Sem areia. Na palma da mão refaço seu mar. [157] . É orelha sem corpo. sem água. sem barcos caindo no poente. telefone sem fio? Concha bivalve fendida em sua memória.

RODA p/Zé Antonio Apenas a roda sabe do ferro a enferrujada música Apenas a roda sabe do boi o estalo de músculos Apenas a roda sabe da festa a solidão mais rústica Apenas a roda sabe da lua do sol do escudo da composição antiga Apenas a roda range nos meus olhos cheios de oh. [158] .

AMARELINHA Meninos brasileiros brincam de Céu-Inferno quadrados a giz desenhados no chão A pedra cai os pés pulam um passo certo – o Céu um passo torto – o Inferno [159] .

ÁCIO Repara esta moça como é despojada: Seus seios casulam pombos cinzentos Banha-se toda nua (no alto do prédio) em água muda de fonte – mas jamais mergulha.RUA JOSÉ BONI. [160] .

[161] .AS BAILARINAS Quatro meninas depressinha pela escada rolante Quatro meninas gesticulam o que o verbo não alcança Os seios pequenos pulsam e por trás os corações estabanados pulsam os seios pequenos Quatro meninas depressinha no vagão do metrô gesticulam ansiosas e contentes nos olhos de quem as espia.

IM DE TARDE Transitam mais carros e empregadas com saquinhos de pão Três meninas conversam a pressa de seus corações e exercícios de casa (uma delas tem os olhos puxados e o pretexto para todos os meus vícios) Na tristeza do elevador subo sem ser reparado. [162] ..

vasos dissimulavam o passado cativo.CLAIR DE LUNE p/Armando . xícaras. Muito sensata a morte repousava em branca superfície de lua. Óculos.reitas . [163] .ilho Estava na hora da morte o mundo constrangido pedia atirava pedras contra a parede da memória.

segundo o Dr. gatos desapareceram. tem 9 anos. Morais. O Guizos. Entretanto gatos morreram. Estou a escrever isso no computador e não sei do Guizos há três dias.(autobiografia sumária de Adília Lopes 3) Os meus gatos já deixaram há muito tempo de brincar com as minhas baratas. . A Ofélia tem doze anos. seis meses e sete dias.

leonardo martinelli . alexandre artigas 5. heitor ferraz 2.1. COISAS IMEDIATAS. annita costa malufe 3.UNDOS PARA DIAS DE CHUVA. diego vinhas 4. . PRIMEIRO AS COISAS MORREM.

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[169] .

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