Raça e História — Claude Lévi-Strauss

Posted on 03/07/2011 | Deixe um comentário Resenha do texto “Raça e História”, de Claude Lévi-Strauss Lévi-Strauss inicia o texto procurando por um lado refutar a ideia de existirem diferenças psicológicas e de aptidões entre os diferentes grupos étnicos humanos (“raças” biológicas), ideia igualmente contestada pela genética moderna; e por outro lado ressaltar que existem grandes diferenças entre as sociedades humanas, isto é, há uma grande diversidade cultural. O objetivo dessa abordagem é impedir que os preconceitos racistas sejam apenas retirados de sua base biológica, ressurgindo no âmbito sócio-cultural. Isto porque seria inútil conseguir que o homem do povo renuncie a atribuir um significado intelectual ou moral ao fato de ter a pele negra ou branca, o cabelo liso ou crespo, para ficar em silêncio diante de outra questão à qual a experiência prova que êle se agarra imediatamente: se não existem aptidões raciais inatas, como explicar que a civilização desenvolvida pelo homem branco tenha cumprido os imensos progressos que conhecemos ao passo que as dos povos de côr tenham ficado para trás, umas a meio caminho, outras atingidas por um atraso que se conta em milhares ou dezenas de anos? (LÉVISTRAUSS,1970:p 233) Lévi-Strauss desenvolve o conceito de diversidade cultural, ressaltando que devemos levar em conta as diferenças entre as culturas contemporâneas, que coexistem num determinado período de tempo; bem como entre as culturas que ocupam momentos históricos diversos, salientando que no caso dessas últimas não temos acesso ao seu conhecimento pela experiência direta, o que sem dúvida prejudica a observação de toda sua riqueza e complexidade. Ainda, destaca a existência de povos que não adotaram a escrita, fato que inviabiliza o conhecimento preciso de suas formas anteriores. Portanto, não é possível elaborarmos um inventário completo das culturas no espaço e no tempo; jamais seremos capazes de conhecer toda a riqueza cultural que esteve (e está) presente neste planeta. Feitas essas considerações, o autor questiona no que consistem culturas diferentes. Tal questionamento conduz à constatação de que sociedades que “derivam de uma mesma raiz” não apresentam tantas diferenças quanto sociedades que apresentam origens completamente diferentes, embora se constituam em sociedades distintas. é constatado também que em alguns casos observa-se uma “convergência cultural”, isto é, um processo de aproximação entre duas culturas, mesmo quando essas apresentam “origens distintas”. Por trás dessas constatações revela-se uma tensão observada dentro das sociedades humanas, entre uma força que trabalha no sentido de manter as tradições culturais, e outra força que atua no sentido de promover a aproximação com outras culturas. Tal revelação leva à conclusão de que a diversidade cultural não se apresenta de maneira estática e é antes produto do contato entre culturas do que do isolamento. Conseqüentemente, a diversidade de culturas humanas não nos deve convidar a uma observação fragmentadora ou fragmentada. Ela é menos função do isolamento dos grupos que das relações que as unem.” (LÉVI-STRAUSS,1970:p 236) Lévi-Strauss observa que o etnocentrismo, qual seja uma postura de rejeição e de menosprezo perante formas culturais diferentes, é paradoxalmente um traço cultural comum entre a maioria das culturas. O autor fornece uma série de exemplos de posturas etnocêntricas adotadas por diferentes sociedades, no tempo e no espaço: na Antiguidade, os

Nesse sentido. etc. Este é o conceito de evolucionismo social. em seu ápice. Nesse contexto. mas atravessam caminhos tortuosos até se consolidarem em efetiva mudança de patamar. ao contrário do observado sob o aspecto físico. é formulada a ideia de que um determinado observador tende a considerar cumulativa toda a cultura que se desenvolve na mesma direção que a sua — um conceito relativo. mediante as evidências de que não há uma direção única na manifestação do gênio humano. Na verdade. criticado pelo texto. (LÉVI-STRAUSS. que por apresentarem como traço comum a utilização de instrumentos de pedra talhada. o autor propõe a distinção entre dois tipos de história: uma cumulativa. cruzando com outros trens a medida em que se movimenta. das artes. em que nada teria acontecido ao longo dos milênios que essas sociedades ocupam o planeta. Durante dezenas e mesmo centenas de milhares de anos também ali houve homens que amaram. tomando como base especulações filosóficas. todos são adultos.povos que não compartilhavam da cultura greco-romana eram considerados “bárbaros”. da mesma forma a civilização ocidental costuma se referir aos povos que não adotam seus valores como “selvagens”. quando na verdade não existem subsídios concretos — principalmente em relação às sociedades paleolíticas. movimento que se processa com várias mudanças de direção. menciona como exemplo o paralelo que muitas vezes é estabelecido entre sociedades paleolíticas e sociedades indígenas contemporâneas. Dessa forma. e outra estacionária. marcada pelo advento das revoluções industrial e científica. conduzem a afirmações errôneas de que ambas se constituem em culturas semelhantes. que não apresenta uma capacidade de síntese capaz de permitir a acumulação e desenvolvimento dos conhecimentos adquiridos. inventaram.1970:p 243) Desse modo. Para ilustrar a situação. o mesmo “nível” do Ocidente. analogamente. seja no campo da técnica. como se fosse uma manifestação de diferentes “estágios de desenvolvimento”: toda a humanidade estaria destinada a atingir. sofreram. combateram. mas permitem alcançar diversos espaços no tabuleiro. Para tanto. Retomando a discussão sobre história cumulativa e estacionária. da organização social. mesmo os que não conservaram o diário de sua infância e de sua adolescência. e os vários aspectos que apresentam cada civilização. os progressos da humanidade não seguem uma trajetória em linha reta. estabelece um sistema “evolutivo” que procura abarcar toda a diversidade cultural do planeta. Para tanto. Lévi-Strauss pondera que a tentativa de estabelecer analogias entre diferentes culturas a partir de um de seus aspectos pode nos levar a conclusões equivocadas. a ideia de progresso é questionada. somos colocados diante do problema referente ao critério que nos permitiria enquadrar uma determinada sociedade num modelo ou noutro de história. não existem povos infantis. capaz de acumular conhecimentos e engendrar grandes civilizações. A partir dessas constatações. critica a concepção de que existem “povos sem história”. uma nova metáfora é apresentada: a de um observador que se desloca em um trem. portanto. Dada a diversidade cultural no tempo e no espaço. ao observador parece que os trens (culturas) que se movem na mesma direção do seu se deslocam mais rapidamente. ao passo que aqueles que andam por direções e sentidos diferentes dão a impressão de se moverem com lentidão. . Lévi-Strauss se vale da metáfora do movimento do cavalo no jogo de xadrez. odiaram. a cultura ocidental. cujo comportamento não pode ser precisamente reproduzido — para se estabelecer tal relação.

o autor destaca o papel a ser desempenhado pelas instituições internacionais. Nesse ponto é apresentada a metáfora do jogador. a se destacar a técnica. Ora. a Revolução Neolítica. antes. Lévi-Strauss ressalta que os progressos tecnológicos adquiridos ao longo do tempo pelas sociedades humanas — alterando sua relação com a natureza e dentro dos próprios grupos sociais — de forma alguma podem ser consideradas como obras do acaso. contribuindo pouco para os novos progressos. os modos de vida. o autor traça um paralelo com a outra única revolução dotada dessa mesma característica. que num território limitado abarcava uma miríade de povos. com seu aparato militar. principalmente em relação às descobertas mais antigas. Lévi-Strauss observa em curso um processo de gestação de uma “civilização mundial”.S. Raça e História. que marcou a descoberta da agricultura. Raça e Ciência I. Com o objetivo de preservar a diversidade cultural. Vem daí a grande importância de a humanidade preservar suadiversidade cultural. a ciência. se estabelecer coligações com jogadores de outras mesas. por outro lado. mudando definitivamente as feições dos grupos sociais humanos por toda a Terra. Referências LÉVI-STRAUSS. dificilmente conseguirá formar uma série consecutiva longa. . econômico e ideológico para impor sua “dominação”. embora houvesse uma clara inclinação para tal interpretação. 1970 P. tendo contado a civilização ocidental. Menciona como exemplo a Europa na época do Renascimento. Contudo. se não houvesse uma pré-disposição. etc. Isso porque diferentes conhecimentos podem estabelecer “diálogos”. não raro. que procura aumentar suas possibilidades de ganho num jogo de roleta: se optar por jogar sozinho.Por outro lado. os avanços são fruto de intenso trabalho dos inventores. é como se todos os jogadores passassem a fazer as mesmas apostas. fato que seria preocupante na medida em que significaria a redução drástica da diversidade de culturas. Essas revoluções são caracterizadas como grandes “saltos quânticos” na história da humanidade. São Paulo: Ed. Perspectiva. constata que a adoção de tais valores por outras culturas nem sempre se dá de modo consensual. uma vez que seria observável uma tendência de difusão de vários traços culturais ocidentais entre os mais diferentes povos. Mesmo essas circunstâncias acidentais devem ser raras. com as mais diferentes tradições culturais. cujo estopim foi a Revolução Industrial. engendrando novos conhecimentos. Outra constatação importante do autor é de que os progressos realizados pelas sociedades humanas são tanto maiores quanto maior é a diversidade. Lévi-Strauss propõe que todas as civilizações reconhecem a superioridade do Ocidente. diminuindo a possibilidade de estabelecer “diálogos culturais” e consequente geração de novos conhecimentos. C. Sobre esse movimento de caráter “global”. diminuindo as chances de se obter uma sequência longa. Retomando a metáfora do jogador. um desejo subjacente.: texto também disponível em Antropologia Estrutural Dois (clique aqui para baixar o livro). que fazem apostas diferentes. jamais ocorreria uma descoberta acidental. um processo de homogeneização cultural. a possibilidade de estabelecer uma sequência longa se ampliam. Nesse sentido. a quantidade e a intensidade do contato entre culturas.

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