Projeto PERGUNTE E RESPONDEREMOS

ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb (in memoríam)

APRESENTAQÁO DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar preparados para dar a razáo da nossa esperanca a todo aquele que no-la pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora, visto que somos bombardeados por numerosas correntes filosóficas e religiosas contrarias á fé católica. Somos assim incitados a procurar consolidar nossa crenga católica mediante um aprofundamento do nosso estudo.

W_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se

Eis o que neste site Pergunte e Responderemos propóe aos seus leitores: aborda questóes da atualidade controvertidas, elucidando-as do ponto de

"*" no Brasil e no mundo. Queira Deus
equipe de Veritatis Splendor encarrega do respectivo site. que

. • dissipem e a vivencia católica se fortalega
abengoar este trabal no assim como a

se

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003. Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publ¡cacao.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral assim demonstrados.

Celebramos

convenio com

d.

Esteváo

Bettencourt

e

ANO

III

33
SETEMBR< 1 9 6

ÍNDICE

I.

CIENCIA

E

RELIGIAO

1) "Que dizer don famosos casos de 'ressurreigño' obtida por vwio da Medicina? Já acontecen que defimtos comegassem
a viver após intervengño do médico!

Essas experiencias nao demonstran que nao existe alma no homem, mas que a vida é mero produto das reacoes da materia?"
2) "Que diferenga há entre inteligencia e instinto?

.755

Diz-se que os animáis inferiores ao homem nao possuem inteligencia, mas apenas instinto. Porque?"
n.
3) "Que é a Mística?

S62

DOGMÁTICA

Será possivel haver vida mística fora do Cristianismo?"
í) "Que pensar dos faquires?

S71

os prodigios que fwcm?"

Nao estarna munidos de especial assisténcia divina para fazer

ni.

SAGRADA

ESCRITORA

5) "Como .se explica o texto de Silo Mateus 27,52s, que refere a ressurreigño de deftintos no dia da vwrte do Senlwr? Quem eram ésses ressnscitados? Morreram novamente? TerSo mbido ao céu cm corno e alma com Jesús?" 55.7

IV.

HISTORIA

DAS

RELIGIOES

6) "Em que consiste própriamente o credo do Islamismo? Parece haver afinidade nao desprezível entre a religiüo da Maomé e o Evangelho. Como se entende isso?"

3Sr,

CORRESPONDENCIA MIÚDA (Maritain)
COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

,;5;

«PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS»
Ano III — N« 33 — Selembro de 1960

I.

CIENCIA

E

RELIGIaO

ESTUDANTE (Rio de Janeiro):

1) «Que dizer dos famosos casos de 'ressurreicáo' obtida por meio da Medicina? Já aconteceu que defuntos recomecassem
a viver após intervencáo do médico!

materia?»

Essas experiencias nao demonstram que nao existe alma no homem, mas que a vida é mero produto das reacoes da

Meinberg foi vítima de um enfarto do miocardio no Hospital dos Comerciarlos do Rio de Janeiro, vindo a «morrer» sem demora; ¡mediatamente, porém, sobreveio um conjunto de médicos especialistas, que recorreram principalmente a massagens no coracáo da vítima; em conseqüéncia, oito minutos

Em resposta, comegaremos por lembrar um dos casos mais recentes que ilustram o problema: em 1959 o médico Dr. Pedro

após a «morte» o Dr. Meinberg tinha recuperado a vida!

Para elucidar o alcance filosófico-religioso désse e de semelhantes episodios, os parágrafos que se seguem explanaráo
algumas nocóes referentes á alma e á morte do homem.
1. Algo sobre a alma humana

O tema «alma humana» já ioi mais de urna vez abordado em «Pergunte e Responderemos»; tenham-se em vista os fascículos
«P. R.» 5/1958, qu. 1 (distincáo entre espirito e materia);
«P. R.» 7/1958, qu. 1 (origem da vida);

«P. R.» 4/1957, qu. 3 (origem da alma humana);
«P. R.» 2/1957, qu. 5 (imortalidade da alma).

Na presente resposta, deter-nos-emos apenas na consideracao de alguns aspectos de Psicología que interessam aos apregoados casos de «ressurreicáo».

1. Todo ser vivo (planta, animal irracional, homem) possui um principio vital, isto é, um principio imánente que, sob
a agao de Deus, dá vida ao respectivo vívente.

A existencia désse principio vital se depreende da consi deracao das fungóes características de todo e qualquer ser vivo. — Se bem que ninguém até hoje possa dizer qua'l a esséncia ou a estrutura íntima da vida, certo é que esta se distingue por duas manifestagóes inconfundiveis:
— 355 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 1

a) Auto-regula?ao. O organismo de qualquer vívente compóe-se de muitos elementos químicos (hidrogénio, oxigénio,
suas reagóes específicas sao coordenadas e dirigidas para a conservagáo do conjunto (do organismo) a que pertencem.
nao se comportam independentemente uns dos outros, mas

calcio, carbono, ferro, etc.). Ésses diversos elementos, porém,

As fungóes parciais (de célula, de tecido, de órgáo...) num ser vivo, por múltiplas que sejam, sao devidamente concate nadas entre si, de modo a realizar urna única grande fungáo e
a servir a um único sujeito.

ser vivo é a unmade. — Haja vista um ser náo-vivenie como,

Deve-se mesmo dizer que urna das notas mais típicas do

por exempio, urna rocha: quebrada e pulverizada, a peora guardará sua estrutura característica em cada um dos irag-

Ao contrario, quando se corta urna rá ao meio, nao se pode

mentos resultantes do bloco; cada qual déstes aínda será pedra.

que o ser vivo nao existe senáo em sua unidade característica

dizer que ficaráo duas metades de rá ou urna rá em auas metades; em breve cada urna das partes separadas irá perdendo o seu funcionamento e a sua realidade de rá; entrará em decomposigáo, e finalmente tornar-se-á poeira. Donde se vé

ou em sua organizagáo típica. Isto quer dizer que no vívente cada parte só tem razáo de ser em vista do todo e dentro do
todo.
Ainda para avaliar o que é a unidade do vívente, note-se que,

no tocante á alimentagáo, o ser vivo nao ingere qualquer outro ser; antes, escolhe no seu ambiente o que lhe convém e elimina o que nao lhe serve: nutre-se, por exempio, de verduras, frutas, laticinios, carne..., de tal modo, porém, que apás a digestáo ésses alimentos estejam convertidos na estrutura do ser vivo; o que nao possa ser assimilado, o que quebraría a unidade do organismo, é simplesmente

langado íora, segundo sabio processo de metabolismo.

Mais ainda: veriíica-se que qualquer lesáo infligida a um ser vivo afeta em certo grau o organismo inteiro; cada urna das funcSes déste é de algum modo mobilizada para reparar o daño sofrido por um só órgáo que seja.

mindo finalidade superior a cada urna délas; é ésse principio que torna possivel a existencia, de um grande todo, que nao agregado de oxigénio, hidrogénio, ferro, calcio...), mas realidade nova: roseira, cao, corpo humano, etc.

Tais fatos levam a concluir que em todo ser vivo há um principio de auto-regulacao, isto é, um principio que dirige as fungóes particulares dos respectivos componentes, impri-

é simplesmente a soma dos seus ingredientes

(nao é mero

é

reproducáo de si mesmos. Com efeito; o vívente nao se limita
— 356 —

b)

Proliferagao.

Outra propriedade dos seres vivos é a

MEDICINA E RESSURREICÁO

apenas a existir; tende também a se expandir e a se multiplicar, produzindo rebentos da mesma natureza que os genitores. Em urna palavra: todo ser vivo desprende de si células germináis capazes de perpetuar a especie á qual ele pertence. Já que o mineral nao realiza tal fungáo, diz-se que é característica dos viventes; supóe um principio intrínseco de atividade capaz de coordenar e subordinar as atividades dos minerais que compóem
o organismo vivo.

corpóreo.

2. Estabelecida a existencia de um principio vital em cada vívente, faz-se mister frisar que nos irracionais (plantas e animáis inferiores ao homem) ésse principio é material, pois suas funcóes (vegetativas, na planta; vegetativas e sensitivas, no animal) estao estritamente ligadas a órgáos corpóreos e a objetos concretos; a planta, por exemplo, se nutre «déste» conjunto de minerais, «aqui e agora» existentes; o cao vé «éste» ou «aquéle» objeto determinado que se tornará sua presa ouve «tal» ruido concreto que o estimula, etc. Ora a atividade de um ser é a expressáo da sua estrutura ou da sua esséncia. Por conseguirte, atividade limitada pela corporeidade implica esséncia limitada pela corporeidade, ou seja, esséncia corpórea E o eme nos leva a afirmar que o principio vital (principio de atividade) da planta e do animal irracional é material ou No homem, ao contrario, o principio vital nao é material,

mas imatenal ou, como se diz, espiritual. Com efeito; a vida no homem tem afirmacóes que transcendem os limites da materia, do concreto: o homem pode nao sómente adquirir o conhecimento «déste» ou «daquele» objeto bom, belo, forte, justo, sabio, mas por sua inteligencia chega a conceber a nogáo universal da Bondade, da Beleza, da Fortaleza, da Jurtiga,

da Sabedoria. Conseqüentemente, conclui-se que dentro do homem o princ'pio de atividade transcende a materia; é imaterial ou espiritual.

nrOnÉT Prínc'DRio vital espiritual (também dito «aTma humana»)

preenche simultáneamente as fune&es da vida intelectiva, da vida

fn£a ertatlVa; "^ M dU
3.
a)

té *

concernentes á origem e á duragáo da alma.

De quanto foi dito seguem-se proposigóes importantes
O principio vital das plantas e dos animáis irracionais,

genitores deem origem a um embriáo suficientemente orga nizado para ser sede da vida vegetativa ou sensitiva, a própria materia produz de si o respectivo principio de auto-regulagáo
_ 357 —

sendo material, é oriundo da materia mesma. Desde que os

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960. qu. 1

enquanto nao sofre desgaste ou lesáo tais que tornem impossíveis as fungóes da vida.
ascendentes requer um organismo cada vez mais complexo por isto cada vez mais tenue ou delicado. Pode acontecer que urna parte relativamente pequeña de um verme, amputada do seu conjunto con
serve a vida e restaure a figura completa de tal verme; o mesmo,

ou de vida vegetativa e sensitiva. Ésse principio vital passa a atuar no respectivo organismo, e ai permanece enquanto o organismo conserva sua estrutura característica, ou seja,

É conhecido o fato de que a vida em seus graus de perfeicSo

porém, nao se da com urna parte relativamente pequeña de um cao.

sejam os principios de atividade do oxigénio, do hidrogénio, do calcio, do ferro (o organismo morto, perde, sim, sua unidade, e decompóe-se nos múltiplos elementos que o constituianv
torna-se gas e pó...).

Desde que o organismo da planta ou do animal irracional sofra avaria tal que nao seja possível continuar-se ai o exercício das fungóes da vida, o respectivo principio vital é reabsorvido pela materia da qual ele procedeu. Tal principio vital deixa simplesmente de existir; a materia produz em seu lugar outros principios de atividade (já nao atividade vital), como

qual ela presta contas de sua conduta na térra.

condicóes necessárias para o exercício da vida própria do homem (que é vida simultáneamente intelectiva, sensitiva e vegetativa). Separa-se, porém, do organismo desde que éste se ache danificado a ponto de nao poder mais desempenhar as funcóes da vida. Quando o organismo comega a se dissolver, a alma humana nao é destruida, mas volta ao seu Criador, ao

pode originar-se da materia, nem ser reabsorvida por esta. Ela é criada diretamente pelo Autor mesmo da materia ou por Deus; permanece no corpo enquanto éste lhe oferece as

b)

No homem, ao invés, a alma, nao sendo material, nao

Tais nocaes já tendo sido desenvolvidas pelos artigos de «P R» citados no Inicio desta resposta, limitamo-nos aqui a frisar o segu'inté'
a permanencia da alma humana no respectivo corpo depende sempre da conservacüo da estrutura característica de tal organismo Desde

molestia, seja por golpe violento), lnlcia-se o processo de separaclo
alma presente subordina a urna flnalidade superior. Tal processo

que esta venha a ser aletada em algo de essenclal fsejaTpor lente

dt«íí?í,annert¿OMCOrpo: múltiplos em conseqüéncla, perde a sua e aue a °^Sr?0' elementos que o constltuem unidade. decompondo-se nos

SfnS? FfiSV; P?dea t**}™*0 ou rápido, nunca, porém" Instan neo. Ora é justamente malor ou menor morosidade da separacáo

fX

ete nJ» """'i0 q-Ue dá Jugar aos lenomenos enunciados no cabécalho
— 358 —

Sen°S T>a™ °S qU&iS devemos aS°ra diretamente

MEDICINA E RESSURREICAO

2.

Morte aparente e morte real

estudiosos hoje em dia afirmam que, entre a exalagáo do último suspiro e a total extincáo da vida de um ser humano, se registra
um intervalo, ora mais, ora menos demorado, em que a vida
ser reativada.

m!.nlf' N\base de observacóes cada vez mais precisas, os

uniao mutua, constituindo um único principio de atividade. Visto que táo íntima é a uniáo de alma e corpo compreende-se que a respectiva separacáo nunca se dé instantánea-

alma sao duas substancias incompletas que se completam em

pnsioneiro em seu cárcere (o que nao seria natural) nem como um piloto em sua nave (tipo de uniáo demasiado vaga) mas como o carimbo na respectiva cera ou, segundo a linguagem precisa de Aristóteles, como a forma na materia- corpo e

1.

A alma se acha no corpo humano nao como um

permanece em estado latente, podendo mesmo em alguns casos

T

Tractotlm°S °U «deílnltlvo»- ™* *»• »PÓs um intJrvalo acttlm°S

siI?P!es- dir-se-á: ninguém morre no momento geral?P! nguém

Mais precisamente, o Dr. D'Halluin, na obra «La mort cette inconnue» (París, 1940), distingue as seguintes modal¿ dadcs no desaparecimento da vida de um organismo:

diacas tornam-sc miase imperceptiveis, emboía aindf s^ veriflauem
Medíanle

a)

Estado de morte aparente. A respiracáo e as Dulsaeoes car

nía í ™LL7CW%^q,Ua,daS>HPOdem suscita questóes filosófico reli mais normal. — Nao e tal estado que *r «stabe.ecidas emTorma
glosas, ou seja. questóes de «ressurreicáo» ou regr/sso da alma

ratamonl,, que em nossos días nao erare Trespiracao'

TP^¿TVe qUe " "á0 há P^Prleá oessa.áo £\
GCOr;TÜ dcíxaos eletrocardiogramas emudecem Das tres fun<l0 wtCr (lima aKU'ha <lue ° tot1uc- n^« P™clu¿ alguma);
Kslaili. do morli- relativa. A siluagüo é muito mais grave

rT.WVTT™*"1 a Vida - a resP¡raCüo. a circulacao do sangue

Lr ?í.m Id° r Si .Pma neVVOSO -• as duas Prlmelras podom cessar I <>i «omploto fii-amlo. om alguns casos, no paciente certa conocencia
ilo que so da em lórn,, déle. O estado de rnorlo relativa se ve'rSfca M^arnrtCm cVnse(lü^f¡a de sincope, asfixia, destacas de narcoset
dcvidamente remediado, leva por si ao

atrolia de recem-nascidos. etc. — Ésse estado de coisas se n5o é
*."«■««.. se nao e

n,-i:,C> íSiiI?!10 J1*" 7>arte al)sohlta °" real. ou seja, á separacáo próhoraT Sil-, I&m h"13 eH° COrp°'.oralmente alistado, após algumas Ceaa;a« i'lir^8 1f/° ^adaver- Pel° aparecimento de manchas violá
do corpo dev.da a formacáo de gases ou á putrefacto da carne, etc!
— 359 —

ceas ñas extremidades do mesmo, pela intumescencia de certas partes

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960

qu. 1

organismo.

por abertura do tórax ou do diafragma, injecóes intra-arteriais dadas no sentido inverso da circulacáo, transfusáo de «serum» de plasma fresco ou conservado...) pode impedir a total destruicao do conjunto ameagado, ocasionando a ulterior per manencia e novas manifestacóes da alma existente em tal
Sabe-se que numerosos sao os casos em que as funcóes

circunstancias, um tratamento médico aplicado com habilidade (injegoes intra-cardíacas de substancias excitantes, principal mente de adrenalina ou de atropina, massagens do coracáo

Ora é o estado de morte relativa que interessa ao nosso estudo. Em tal situacáo, deve-se dizer que a alma humana se acha no corpo toda presente (a alma nao se decompóe em partes), apenas nao se manifesta porque o organismo já nao Ine oferece as posibilidades para o exercício da mais simples das fungóes vitáis perceptíveis. O individuo, embora pareca morto, na verdade está vivo; sua alma se encontra no corpo respectivo. Éste, porém, se acha na iminéncia de perder o mínimo de organizacáo necessária para ser sede da vida humana (isto é, para que a alma néle permanega) Em tais

necessária para tornar impossível o exercício da vida.

»n™¿ br¿SCamente orto »np¡das. casos portante^ que desagregado interr<»np¡das. o or|anS | aparentemente morto, nao soíreu o det ou a d desgaste
É claro, porém, que, dada a rapidez do processo destrutivo,

^csa^°

a intervencáo dos médicos só será eficaz quando realizada dentro de breve prazo após a extingáo dos síntomas de vida (por vézes um intervalo maior do que o de cinco minutos já e fatal). Caso tal agáo seja bem sucedida, o fenómeno deve ser tido nao como «ressurreigáo» do corpo, nem como «reanimagao» (o que suporia volta da alma ao corpo), mas apenas como «reativacáo» (ou seja, recuperagáo das atividades vitáis).

permanecer no aparente cadáver!).

Compreende-se que o éxito dos processos de reativagáo nao é instantáneo, mas por vézes relativamente lento e tardío. O Dr. d'Halluin conseguiu restaurar as funcóes cardiacas de um paciente tres horas após os primeiros sinais de morte Por conseguinte, em casos de asfixia, afogamento, aplicacáo de corrente elétrica, os peritos recomendam a prolongagáo da técnica de respiragáo artificial durante tres, quatro seis ou mesmo oito horas, pois já se tém visto tratamentos bem sucedidos a táo longo prazo (por tanto tempo a alma pode
— 360 —

MEDICINA E RESSURREICÁO

mais importantes já obtidos neste setor.

A guisa de complemento, podem-se citar alguns dos resultados

Em 1891, Arnaud, injetando sangue defibrinado e oxigenado ñas coronarias, conseguiu reaüvar um coracao parausado havia 25 minutos. Em 1892, Hédon e Gilis, por ésse mesmo método, fizeram pulsar de novo o coracao de um condenado á morte, tres quartos de hora Em 1903 Koubliabko obteve semelhantes resultados em coracóes de mamíferos tres e até cinco dias após a sua paralisia. O mesmo restaurou as funcSes normáis do coracao de criancas vítimas de
Nos últimos anos, dois médicos soviéticos, V Negovisky e A Makarycher, dedicaram-se especialmente aos feridos de guerra tidos adrenalisado e oxigenado, puderam restabelecer as funcSes vitáis perdidas, no intervalo, porém, de tres ou, no máximo, cinco minutos
após a morte aparente ou clínica. pneumonía trinta horas após a morte aparente.
depois da sua execugáo.

por mortos: injetando no coracao por via arterial sangue glicosado,

referir-se aos chamados estados «de hibernagáo» ou «de vida
a ritmo reduzido».
Com efeito, sabe-se que há animáis, como a marmota, que passam os vanos meses do invernó mergulhados no sonó; a respiracáo entáo torna-se-lhes táo iraca que é quase imperceptível; as suas pulsacfies

aparente que acabamos de focalizar, os autores costumam

2.

Para ilustrar o estado de vida latente ou de morte

a necessária humidade. Ficam como que ressequidos e em completa

Há também viventes microscópicos, como os tardígrados ou rotí feros, que perdem tdda atividade vital desde que lhes venha a faltar
senao aparente, pois, urna vez recolocados nagua, maniiestam de novo

difícilmente se deixam apreender; o organismo baixa not&velmente de temperatura; nao comem nem bebem; dir-se-iam seres mortos.

inercia durante meses ou mesmo anos. Contudo essa «morte» nao é

morte

antes do mais atribuir a um principio vital néles existente. Pois bem; é fenómeno análogo que, em proporcOes reduzidas, se verifica quando o homem passa pelos estados de morte aparente e
relativa.

nao é funcáo da Jftumidade ou do ambiente apenas, mas se deve

suas funcfies vitáis. Ésses animaizinhos podem mais de urna vez na sua existencia passar pelas fases de morte aparente e reativagáo; mas após certo número de experiencias, já nao é possível restaurá-los; sobrevém a morte real, o que bem significa que a vida de tais seres

3.

Urna conseqüéncia pastoral

repercussáo no setor da teología pastoral.

As observagóes de Medicina aqui referidas tém importante

Já no séc. XVín um autor beneditino, Frei Bento Jeró nimo Feijoo y Montenegro (f 1764), preconizava a oportunidade de se administrarem bs sacramentos mesmo após o último suspiro de um paciente. Eis os intervalos dentro dos quais ele julgava ser plausível tal ministerio: «meia-hora em caso de doenga; duas ou tres horas em caso de acídente que abrevie
— 361 —

5ggRGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 2_
ocorrente numa pessoa cheia de saúde».

urna enfermidade; dez, doze ou mais horas em caso de morte

o seguinte comentario:

rahs», 2a. ed. 1928, pág. 464, assinalava a obra de Feijoo com
«A nenhum pastor de almas será licito ignorar ésse opúsculo

O Pe. Ferreres S. J. no seu «Compendium theologiae mo-

sacerdotes».

se

para a religiao; e declarou desejar ardentemente que a sua doutrina

em todos os cursos de teología... Pió X também o qualificou como hvro de grande utilidade para o género humano, para a ciencia e torne bem conhecida principalmente entre os médicos e os

como exorta o periódico 'Acta Apostolicae Sedis1; .. o Cardeal Gennari por sua vez, no 'II Monitore' recomenda seja o dito opúsculo adotado

e mesmo muito recomendável, administrar sob condi"áo («se
apos a morte aparente. Alguns assinalam, para éste ministerio,

Hoje em día os teólogos ensinam ser certamente licito,

estás vivo...») a absolvigáo sacramental e a Extrema-Uneáo longa doenca; duas horas, se se trata de morte imprevista (cf A. Vermeersch, Theologia Moralis m 536; V. Heylen, De paenitentia, Malines 1946, 319).

o prazo de meia-hora nos casos de desenlace precedido de

DESCONFIADO (Sao Paulo):

inteligencia, mas apenas instinto. Porque?»

Diz-se que os animáis inferiores ao homcm nao possuem

2)

«Que diferenca há entre inteligencia e instinto?

A questáo ácima tem grande alcance. Visto que «inteli gencia» designa urna faculdade ¡material ou espiritual, e «ins tinto» urna faculdade material ou corpórea, trata-se, em última análise, de saber se há ou nao diferenca entre materia e
espirito ou se existe espirito.

terísticas respectivas do instinto e da inteligencia; a seguir

Em nossa resposta, proporemos primeramente as carac

comportamento do homem e do animal irracional. Dessas

anaiisaremos alguns testes efetuados pelos psicólogos sqbre ó

premissas poderemos por fim deduzir significativas conclus5as.
1.
instinto e da inteligencia

Características resnectivas do

assim caracterizada:

Que se entende por «instinto?» «Instinto» (do latim instinguere, impelir, estimular) vem a ser ua modalidade de acáo ou de reacáo dos seres vivos
— 362 —

1.

DIFERENCA^NTRE_inteLIGÉNCIA E INSTINTO

vagao'dotSSa* ^"^ * necessidades vitáis de conserAssim por exemplo, visa a captura da

, nos quais certos animáis posm seus ovos)!

b)

o instinto é capacidade de agir inata, anterior a

°nosqUDÍnntiího: P°dem,aPeríeiCoar, como cI de apreender^om °o nos pmtinhos ou o de mamar nos mamíferos Os secundarios STa^modul^- VrlaC5et deV¡daS á exPeri«n«a ou ^áf i« assim a^^ VrtrlaC5et em certos pássaros. modulacao do canto

Distinga-se entre instintos primarios e secundarios- os nrimárine

c) Justamente por ser inata, a atividade instintiva repete-se em todos os individuos da mesma especie. Cada animal possui caracteres morfológicos e fisiológicos próprios, que se encontrara em seus genitores e se transmitem aos seus des cendentes; ora entre ésses caracteres estáo os instintos.
especie de ave constrói o mesmo tipo de ninho, de sorte que com fac?
Assim cada especie de aranha tece o mesmo tipo de teia- cada

m,ÍUv?t°^ Aa abeÍhasñas hoje «Geórgicas». que Virgilio decantou de suas trabalham eiatamente como aquilas aquems
se destina a acáo instintiva. Em geral esta é muito complexa e envolve vanas atividades pardais do individuo; contudo o ani mal nao sabe que cada qual de tais atividades está subordinada
A guisa de exemplo de como o instinto é cegó node-se notar o

lidade se depreende, pela anáüse do ninho, qual o pássaro que o

d)

O animal nao tem consciéncia da finalidade a que

a consecugáo de um único grande objetivo.

seguinte: caso se substitua 0 casulo de urna aranha'por

iS^T^^ 6 deíende é
— 363 —

íLéSte'i aliá?" ° mi,stério que paira sobre a vida instintiva- de
lado, ela é inconsciente e cega; de outro lado, porémela tendí

l

Ü

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 33/1960, qu. 2
objetivo. Haja vista o modo como a abelha dispde o seu mel- constrói favos em forma de hexágono de tal modo que possam conter o Leve-se em conta outrossim o proceder de certos insetos hime-

certeiramente, e com arte maravilhosa, á consecucáo de determinado

máximo de mel, com o mínimo gasto de cera.

nopteros carnívoros: procuram assegurar a subsistencia da prole antes que esta nasca; em vista disto, assaltam um grilo urna borboleta ou urna aranha, que o himenóptero assaltante leva para seu nmho a fim de por seus ovos no ventre do mesmo. Surge porém um problema: é preciso que a presa nao seja captada morta, pois,

duzida simplesmente viva no ninho, pois com um golpe de suas
recem-nascida.

urna vez morta, entraría em decomposicáo e nao serviría mais de nutrimento aos filhotes; doutro lado, é preciso que nao seja intro-

patas, debatendo-se, poderia matar o embriáo no ovo ou a larva

nopteros possuem um ferrao na extremidade do abdomen com o qual desferem um ou cinco golpes nos centros nervosos motores da vitima, imobilizando-a por completo; a morte só após longo inter valo decorre désse ferimento. Ora, para atingir tais centros nervosos requer-se minucioso conhecimento de anatomía e prectsáo extra ordinaria no golpear, pois as vítimas sao «encouragadas», de modo que o ferrao do agressor só pode penetrar através de pontos debéis correspondentes ás articulacoes dos segmentos do tórax e do abdomen. O mesmo agressor deve outrossim saber (ou agir como se soubesse) que, assim ferindo. ele imobiliza a vitima sem a matar. Isto tudo quer dizer:... deve ter a competencia que somonte alguns estudiosos especialistas possuem. — Esta qualidade se torna particularmente noto ria se se considera que, conforme experiencias efetuadas por Fabro, a atividade dos referidos himenópteros é de todo inconsciente. da Inteligencia do Criador, que concebeu tais insetozinhos. Assim caracterizada brevemente a atividade instintiva, pergunta-se:
Destarte a vida instintiva vem a ser um testemunho continuo

O problema, porém, resolve-se de modo estupendo. Ésses hime-

2.

E que se entende por «inteligencia?»

góes entre os objetivos que ela conhece. A inteligencia tende, sim, a abstrair das notas singulares que determinam tal indi viduo concreto, formulando conceitos universais que se aplicam a todos os individuos da mesma especie; ela apreende também conseqüentemente é capaz de refletir sobre as suas próprias acóes a fim de as tornar cada vez mais adaptadas á respectiva
finalidade.
O seguinte exemplo ilustra bem o comportamento típico da

Urna de suas expressóes mais obvias é a de estabelecer rela-

«Inteligencia» é a faculdade de conhecer típica dos seres espirituais, ou, no caso que nos interessa,... da alma humana.

as proporgóes vigentes entre causa e efeito, entre meio e fim;

de habitacao ou mansfio, ao construir a sua casa, nao se limita a determinado tipo de arquitetura nem a urna só especie de material de construcáo (pedra. madeira, barro, etc.); ao contrario, o mesmo arquiteto pode edificar as mais diversas habitac5es, desde o abrigo de emergencia até o imponente arranha-céu; cada urna dessas man— 364 —

Inteligencia: o homem, tendo por sua inteligencia o conceito abstrato

DIFERENCA ENTRE INTELIGENCIA E INSTINTO

depreende que o irracional carece da faculdade de perceber as proporcSes vigentes entre os diversos objetos que o cercam.

s6es preenche a sua finalldade dentro das circunstancias em vista das quais ela foi concebida. O animal irracional, ao contrario se restringe a um único tipo de atividade construtora; cada especie e as vézes cada sub-espécie, prové de maneira uniforme ao arranjo de seu mnho ou de seu antro, sem avallar a aptidáo de tal procedimento a luz da situacáo concreta em que o animal se encontra; donde se

Procuremos desenvolver estas breves nogóes de instinto e inteligencia, analisando mais alguns exemplos fornecidos pela
Psicología Experimental.

2.

Algumas experiencias significativas

do-os como abaixo se vé:

Proporemos os casos que interessam ao nosso estudo classifican-

1. Dependencia © independencia de circunstancias parti culares. No animal irracional, a atividade dos sentidos influi de maneira poderosa sobre o respectivo ritmo de vida; o animal dirige a sua conduta em estreita dependencia das informacóes
que os órgáos dos sentidos, «aqui e agora», lhe comunicam; os
morrer sem demora. O mesmo nao se dá com o homem; éste parece ter, além dos sentidos e dos instintos que a estes estáo associados, um principio de atividade que transcende sentidos

irracionais cujos sentidos tenham sido mutilados, experimentam notável diminuigáo de sua vitalidade, chegando por vézes a

e instintos. Em outros termos: o homem caracteriza os objetos de seu conhecimento, de modo a reconhecé-los em qualquer situagáo, independentemente do quadro em que os conheceu pela primeira vez. É o que as seguintes observagóes ilustram:
Urna galinha que esteja a chocar cuidadosamente os ovos, caso venha a quebrar um déles, come tranquilamente o seu conteúdo
como so nao lora o objeto quo ela anteriormente tanto acalentava.

O naturalista Volkelt refere que urna especie de aranha, a «Zilla», além de construir a sua teia, fabrica também um ninho no qual ela se oculta; logo que vé um inseto capturado pela teia, precipita-se sobre ele. Caso, porém, o mesmo inseto lhe seja oferecido dentro do próprio ninho, tal aranha foge, como se nao o reconhecesse. Bierens de Hann narra que os pólipos se mostram geralmente muito atentos e rápidos na caga de pequeños caranguejos; desde,
assustados.

porém, que tais animaizinhos lhes ocorram atados a um fio, íogem

urna coisa é o caranguejo que caminha livremente; outra coisa, o — 365 —

e a mosca na teia; outra coisa, a mosca no ninho. Para o pólipo,

Désses fatos parece poder-se concluir que, para a galinha, urna coisa é o ovo inteiro, visto no conjunto dos demais ovos a ser chocados; outra coisa é o ovo quebrado. Para a aranha, urna coisa

«flERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 2
caranguejo que aparece nagua pendurado a um fio. Dir-se-ia que o animal irracional contempla cada quadro isoladamente, nao chegando a relacionar urnas com as outras as situacoes em que se acha.

mosca ou a determinado caranguejo... A verificacáo déstes íatas permite concluir, como já o fizemos, que a atividade psíquica do homem emerge ácima dos sentidos e dos objetos sensíveis que o cercam.

No ser humano, ao contrario, embora o uso dos sentidos seja de grande valor, a ausencia de um ou mais déstes nSo impede intensa atividade psíquica. Foi o que se deu, por exemplo, com Helena Keller, a qual, cega, surda e muda, alcancou elevado grau de cultura, chegando a redigir obras de íilosoíia. Outras pessoas, mutiladas em sua vida sensitiva, puderam nao obstante, aprimorar sua formacáo intelectual. — Note-se outrossim: o homem pode dizer «o ovo, a mosca, o caranguejo», sem se referir a determinado ovo, a determinada

2. Domesticacáo do animal c educagáo da crianza. Há certos animáis domesticados que parecem táo espertes ou «in teligentes» quanto um ser humano. Tal é o caso, por exemplo, dos macaquinhos de circo, que executam exercícios em trapézio, montam a cávalo,

fumam cigarro, comem á mesa com fidalgüia, etc. Dir-se-ia
que entre ésses animáis e um homem educado há mais afinidade do que entre um indio das selvas e um cidadáo do séc. XX.

andam de bicicleta, tocam

acordeáo,

Observando de mais perto, porém, o estudioso verifica que, aquilo que o macaco executa de estupendo, ele o faz únicamente para imitar o comportamento do homem, sem perceber o signi ficada intrínseco de seus atos (nao foi em váo que os antigos deram ao macaco o nome de «simius», isto é, simulador ou imitador). Em outros termos: a conduta do macaco se deve
a mera associagáo de imagens ou de impressoes; ele aprende

cegamente (isto é, sem saber porque) a realizar tal gesto ou a efetuar tais e tais agóes desde que seja impressionado por

tal estímulo. Com efeito, o animal que aprendeu alguma «arte», nunca evolui nem se aperfeigoa na execucáo da mesma; jamáis chega ao limite máximo de suas possibilidades; ele apenas tolera a arte que lhe ensinaram, sem perceber a finalidade da mesma. Desde que se veja emancipado do seu domesticador, liberta-se dos costumes que aprendeu, ou emprega desproposi tadamente os instrumentos que ele antes parecia manejar com
sabedoria.
Assim um macaco pode aprender a comer com a colher; desde, porém, que o homem o deixe entregue a si mesmo, tal animal usará da colher para brincar ou para qualquer outra atividade, nao, porém, para comer. O macaco que toca acordeáo, assim que o pode, serve-se déste instrumento como se fóra um trampolim, um projétil ou um bastáo para atingir determinada fruta. O simio que veste trajes humanos, nao consegue deixar de comer seus próprios excrementas, apesar dos muttos castigos que lhe sao infligidos.

— 366 —

DIFERENCA ENTRE INTELIGENCIA E INSTINTO

Estes dados mais urna vez mostram que o irracional nao possui a capacidade de apreender proporgóes ou de perceber as relagóes vigentes entre meio e fim ou entre causa e efeito. A crianga, ao contrario, após aprender a manejar deter minado instrumento, tende a perscrutar as leis do seu funcionamento, chegando a desmontar tal objeto, a fim de se tornar consciente das causas dos respectivos efeitos. Se possível, a criatura humana, tendo percebido as relagóes que existem entre as diversas partes do instrumento, ainda procura aperfeigoar a éste, tomando-o mais adaptado á sua finalidade.
Em outros termos dir-se-á: o irracional vive exclusivamente no presente; utiliza, sim, conhecimentos adquiridos no passado,

mas apenas na medida em que beneficiam a situagáo presente; nao possui a capacidade de se emancipar das circunstancias atuais para conceber de algum modo também o futuro; é isto que comunica á conduta do animal a índole prática e realista que por vézes suscita a nossa admirágáo. — O homem, ao invés, tende a abarcar os acontecimentos passados e pre sentes numa só visáo de conjunto, na qual o futuro já é previsto homem costuma dar urna interpretacáo, procurando os fios condutores ou as linhas mestras da historia; e é por essa intere contemplado; ao desenrolar sucessivo dos acontecimentos o

pretagáo ou por essa «filosofía» que a pessoa humana costuma primariamente guiar a sua conduta; a situagáo concreta de determinado momento nao toma entáo senáo valor secundario.
A titulo de complemento, sejam aqui mencionados alguns animáis famosos, que já íoram tidos como seres dotados de inteligencia: o cávalo Hans. de Berlim, os cávalos de Elberferd, o cao de Mannheirri, os macacos Maia de Viena e Basso de Francoforte...; movendo tabuinhas portadoras de letras e números, ésses animáis pareciam saber ler, entender urna língua, distinguir as pessoas pelos respecti vos nomes, executar dlficéis operacSes matemáticas... Contudo a atenta análise das circunstancias désses casos deu a ver que se

de pessoas presentes e, em particular, dos domesticadores. Na verdade, quando se mudavam as circunstancias das experiencias, as agóes aparentemente inteligentes já nao se veriíicavam ou só se processavam de maneira assaz falha. Cf. A. Gemelli, Bestie che pensano e íanno i conti... e uomini che non ragionano, em «Religione e Scienza». Milano 1920, 51-108.

tratava de meros automatismos, dirigidos por movlmentos ou sinais

3. Som do animal e linguagem propriamento dita. Por «linguagem» em sentido próprio entendem-se sons articulados para designar certos objetos. Em toda linguagem há sempre um aspecto puramente fonético ou sonoro (a articulagáo de

sons) e um aspecto psicológico (a atribuigáo de valor simbólico
ou de significado a cada som emitido).

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 2_

fome, o médo, o atrativo sexual...; constituem a expressáo de urna necessidade, nunca urna comunicagáo intencional; sao o movimento reflexo excitado por tal ou tal situacáo concreta.
Verdade é que certos animáis, principalmente o papagaio, aprendem a emitir sons semelhantes aos do homem. Verifica-se, porém, que o, animal irracional nao sabe fazer uso dos seus sons indepen-

Está comprovado que o animal irracional nao emite sons dotados de valor simbólico ou significativo; os sons do irracional nao sao senáo manifestacóes de sentimentos genéricos como a

situacáo, reproduz os mesmos sons, sem perceber o propósito do seu brado. Assim acontece ás vézes que, íora de oportunidade e de maneira ridicula, emitam sons outrora aprendidos e emitidos com propósito. É o que se dá, por exemplo, com o papagaio que ao ser provocado, repete mecánicamente («ininteligentemente») o que lhe íói ensinado; é também o caso do cao que ladra automáticamente,
macica ou material a resposta do animal.

dentemente da situacáo concreta em que ele os aprende pela primeira vez; quando se repete (ou quando lhe parega repetir-se) esta mesma

quando se lhe oferece o sinal convencional. A arte de domesticacáo pouca coisa consegue no sentido de tornar mais plástica, menos

A crianga, ao contrario, com poucos anos de idade, coloca as impressóes recebidas pelos sentidos (vista, ouvido, tato, olfato,...) a servigo de urna faculdade de conhecimento supe rior; esta percebe o significado intrínseco de cada situacáo, sabe também concatenar os acontecimentos da vida, estabelecendo entre éles relacóes de causa e efeito, meio e fim. Em conseqüéncia, emite sons concebidos bem a propósito, palavras
e frases que tém valor perene, universal.
Os estudiosos tém realizado experiencias muito significativas

ao lado de urna criazinha de macaco chamada «Gua», a qual, no inicio da experiencia, contava sete meses de idade. Os observadores subme-

filhinho Donald, dos dez aos dezenove meses de idade, íósse educado

neste setor. Assim, por exemplo, o casal Kellog permitiu que seu

teram o filhote de macaco e a crianca exatamente ás mesmas provas
a urna ordem, etc.). Após minucioso confronto, veíificaram

(necessidade de íazer um desvio ou um circuito para alcancar o seu alimento, subir sobre um tamborete, manejar um objeto, obedecer durante alguns meses Donald e Gua apresentavam semelhantes reagOes aos estímulos extrínsecos; respondiam aos mesmos testes com sucesso variável, mas geralmente obtendo empate final; apenas o

que

enquanto a crianca manifestava mais capacidade de prestar atencáo. Após determinado prazo, porém, observaram que a crianca, por seus progressos, se dlstanciava do concorrente, de sorte a tornar va qualquer ulterior comparacáo. A crianca comecou a falar própriamente; transpós o limiar da linguagem, que a caracterizarla como ser humano.

macaco se mostrava mais hábil e ligeiro nos seus movimentos físicos,

A linguagem constituí um pequeño misterio para quem só leve em conta os dados da materia ou a capacidade que o
corpo humano possui de emitir sons.
— 368 —

DIFERENCA ENTRE INTELIGENCIA E INSTINTO

falar.

Na verdade, a palavra nao procede de um órgáo próprio e exclusivamente seu. O homem fala, sem dúvida, mediante as cordas vocais, mas, ao mesmo tempo, póe em agáo a língua a boca inteira, certas regióes do cerebro, os pulmóes, o aparelho auditivo (pois o surdo de nascenca é necessáriamente mudo). Ora todos estes agentes se encontram também no macaco evoluido, que déles se serve para emitir sons, nunca, porém, para

que falta no chimpanzé; nem na fisiología nem na anatomía do nomem ha sinais claros e suficientes da faculdade de falar.

Quem analisa um cránio humano e o de um macaco, nao dina que a fungáo da linguagem existe no hornera, ao passo

o chimpanzé tenha a,possibilidade fisiológica de falar, mas na realidade nao fale, isto se explica por ser a palavrá em ultima análise, urna funcáo da inteligencia ou do espirito»
(G. Gusdorf, La Parole. París 1953, 4).

corpóreas, no homem sao elevadas a um plano superior, ao nivel de vida de um principio nao orgánico, mas espiritual, que as coordena e faz servir a seu fim transcendente «Que

Déste fenómeno se pode deduzir que as fungóes orgánicas

mní.2. íat° de qUe <a c?nduta de criancinha nad se diferencia da do
cZ™%° no seio materno. Apenas as suas facilidades intelectivas Ser h^man°>desde ?s seus Primeiros dias mesmo desde a concepcSo
permanecem latentes em grau maior ou menor, enquanto nao estáo

macaco nos seus primeiros meses nao quer dizer que o bebé náoseia

fornecem á inteligencia os elementos sobre os qúa°s ela racfocSia!
A medida que o desenvolvimento se dá, a crianca manifesta a presenca e as qualidades do seu intelecto.

Plenamente desenvolvidos o cerebro e. em geral

os sentidos oue

filhinho com o de um chimpanzé a partir de um ano e meio até os quatro anos de idade. Observou que o chimpanzé aprendía, sim, certas facanhas, mas de modo mecánico e rotineiro, sem manifestar tendencia a se aperfeicoar; ao contrario, o menino demonstrava a propensáo a realizar trabalho cada vez mais produtivo, ou seja, a superar continuamente os dados que aprendía. Isto é mais urna vez indicio de que a crianca estava consciente do significado ou das
percebia tais proporcSes.

«M11. tta russa ?ra- Kohts' ^e confrontou o comportamento de seu

Experiencia semelhante a do casal Kellog foi empreendida pela

proporcoes das artes que assimilava, ao passo que o macaco nao

Assim é com razáo que a faculdade de falar constituí o sinal de demarcarlo colocado entre o reino dos irracionais e o do animal racional ou homem; essa demarcacáo é inviolável,
mesmo ao mais perfeito dos viventes meramente sensitivos.
4. Instrumentos de trabalho...

«Instrumento de trabalho» vem a ser um objeto preparado 'lara a execugáo fiel de certa tarefa; deve adequadamente corresponder as

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 2

exigencias dessa tarefa; todo instrumento traz em si a marca do

SU, «* su.f, c°níie"racao exprime tal íinalidade; o balde p!d¡
a íabricagáo do balde.

emprégo que Ihe compete. Assim o balde é fabricado para carregar

contudp éste emprégo é evidentemente alheio á idéia que inspira!

também ser utilizado como instrumento de defesa ou de ataque;

reconstituir o utensilio quando se vir diánte de problema semeIhante. O homem, ao invés, além de talhar previamente o seu instrumento, adaptando-o a urna finalidade bem concebida

ver o «caso», abandona-o, ficando na emergencia de ter que

seu organismo, prolongando com um cajado a extensáo de seu brago; nao tenciona produzir um instrumento para sempre adaptado á consecugáo de tal ou tal objetivo. Em conseqüéncia, o macaco, depois de haver usado urna vez o bastáo para resol

visa apenas alargar, no momento presente,' o raio de acáo de

Ora observa-se que o macaco se pode servir de um bastáo para atingir determinado objeto, chegando por vézes a modi ficar o pau para o utilizar. Tal uso, porém, nao pode ser consi derado «uso de instrumento», pois de modo nenhum depende do proposito de «proporcionar tal meio a tal fim»; o animal

trumento pode passar para o servigo de outras pessoas, as quais por sua vez introduzem novos melhoramentos no utensilioexistencia de quem o usa.

conserva-o após o uso, tendendo a aperfeicoá-lo; o mesmo ins

assim um instrumento chega a ter existencia independente da

multi"
3. Reflexao final

1. Já nao pode restar dúvida de que a faculdade de connecer, no homem, possui a propriedade de se emancipar de
ao passo que o anima] inferior ao homem fica sempre presó
ao objeto singular que Ihe ocorre.

dados concretos para formular conceitos abstratos e universais

Ora a lógica ensina que a atividade de um ser é a expressao da sua esséncia íntima Aplicando esta proposigáo ao nosso tema, deduz-se que no homem o princ'pio de atividade ou o
de ser imateriál ou espiritual; é o que se chama «a alma inte lectiva», a qual se manifesta típicamente pela inteligencia. No animal inferior, ao contrario, o principio vital é imaterial- sua manifestagao tpica é o conhecimento sensitivo, do qual faz parte o instinto, faculdade cega pela qual um vívente prové
as exigencias primarias da sua conservacjío.

principio vital nao pode ser material nem dimensional, mas há

Tal é a diferenga entre inteligencia e instinto.
— 370 —

MÍSTICA-NAO CRISTA

inteligente como o homem?

2. Mas pergunta-se: nao será essa diferenga acidental e superável, de sorte que o animal, hoje tído como irracional, dentro de determinado período se possa tornar racional ou

nima).

Responder-se-á que nao. A diferenca nao é superável, pois espirito e materia nao se distinguem um do outro apenas por questóes de quantidade ou qualidade, mas, sim, por sua esséncia ou constituigáo intrínseca. Já Aristóteles (t322) ensinava que toda e qualquer esséncia é necessária, eterna e imutável. Donde se vé que, de um lado, a esséncia da materia nunca vira a ser a do espirito; de outro lado, desde que o homem existe sobre a térra, é portador do psiquismo que hoje o caracteriza, embora nem sempre tenha manifestado toda a riqueza de sua inteligencia (sabemos que a inteligencia, para se revelar, supóe, além de educacáo e escola, certo desenvolvimento do corpo; ora é inegável que o corpo do homem primitivo apresentava tragos muito mais rudimentares do que o de época posterior, enquanto educagáo e escola eram reduzidas á expressáo mí

n.

DOGMÁTICA

ESCOLÁSTICA (Uberaba):
3) «Que é a Mística?

Será possível haver vida mística fora do Cristianismo?»
Após nos determos sobre os elementos essenciais da vida mística, focalizaremos os fenómenos de tal tipo apregoados em comunidades religiosas nao-cristas.

1.

Em que consiste a vida mística

Nao é raro entender-se por «vida mística» urna vida caracterizada por fenómenos extraordinarios, como visñes, éxtases, estigmas, etc. Tal conceituacao é errónea; nao é nesses feitos extrínsecos, sensíveis, que consiste a esséncia da Mística. Na verdade, a vida mística, longe de ser algo de aparatoso e extraordinario, deve ser tida como urna etapa muito normal na ordem de coisas em que vive o cristáo. Sim; a vida mística é simplesmente a experiencia que o homem faz de
Dens presente no intimo de sua alma.

seguinte.

Para meltior entender esta caracterizacáo, tenha-se em vista o

distintas de conhecer a Deus:

Pode haver em

toda

criatura humana

tres maneiras

— 371 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 3

natural — na base da razáo apenas

na base da razáo e da
Modo de conhecer
sobrenatural
ral

Revelacáo sobrenatu

na base dos dons do Es pirito Santo e da Revelagáo sobrenatural

Vejamos de perto o significado désses termos.
1) O modo natural de conhecimento é o que depende da aplicagáo da inteligencia; pelo raciocinio o homem é levado, sim, aos conceitos de «Primeira Causa, Motor Imóvel do Uni verso, Ser subsistente por si», etc.; foi por esta via que Aristó teles, Platáo e os filósofos em geral chegaram a conhecer a

Deus;

2) O modo sobrenatural de conhecimento pode-se dar segundo duas modalidades diversas: a) pela grasa santificante e pelas virtudes infusas o cristáo é levado a conhecer algo mais do que o que a razáo por si só apreende; entra no conhecimento dos misterios da fé reve lada: a vida intima de Deus (a Santíssima Trindade) e seus designios referentes á salvagáo do homem (os dogmas da Encarnagáo e da Redencáo). Note-se, porém, que a graca santi ficante e as virtudes infusas nao dispensam o cristáo de se mover ou de exercer seu esfórgo humano a fim de progredir no conhecimento de Deus: meditando e discorrendo com sua inteligencia a respeito das proposicóes reveladas, o cristáo vai adquirindo um entendimento cada vez mais profundo dos mis terios da fé. É o que se dá na Teología, a qual só pode ser elaborada segundo o processo lento do raciocinio humano; b) pelos dons do Espirito Santo (sabedoria, inteligencia, ciencia, conselho, piedade, fortaleza, temor de Deus) o cristáo sobe a novo e mais profundo grau de conhecimento. Os dons do Espirito Santo sao, por assim dizer, pontos de apoio que o Senhor coloca na alma do cristáo, a fim de que esta possa receber a acáo de Deus e ser movida segundo um ritmo nao mais natural, mas todo sobrenatural, em demanda do Altissimo. Quando os dons do Espirito Santo entram em atividade, nao é mais a criatura humana que se move á procura de Deus segundo modo humano, mas é Deus ou o Espirito Santo quem diretamente move a criatura, comunicando-lhe urna perspicacia e urna seguranca que ultrapassam de muito a capacidade huma na. A vista disto, os teólogos dizem que, sob o regime dos
— 372 —

MÍSTICA-NAO CHISTA

dons do Espirito Santo, a criatura «padece» a agáo divina («pati divina» é a expressáo técnica já ocorrente ñas obras do Ps.-Dionísio Areopagita no séc. V e repetida por S. Tomaz,
na S. Teol. I/H 68,2).
Urna figura ilustra muito bem tal doutrina. Imagine-se um barco sobre as aguas, dotado tanto de remos como de velas. Pode adiantar-se por impulso dos remos, impulso estritamente dependente da acSo humana dos remadores e, por isto mesmo, assaz lento. Suponha-se, porém, que os remadores resolvam cessar sua acáo e desdobrar as velas do barco para que captem o impeto de um vento que val soprando favorávelmente; entáo a embarcacao se adianta com velocidade nova, maravilhosa; os homens, porém, ficam, em tal caso, numa atitude própriamente passiva, e nao atlva. Pote bem; nesta ímagem as velas simbolizam os dons do Espirito Santo, enquanto o impulso do vento significa a obra do mesmo Espirito, que comunica um modo de agir divino a alma agraciada. — Na prática, verifica-se a acáo dos

dons do Espirito Santo em pessoas muito unidas a Deus, as quais, por exemplo, colocadas na iminéncia de pecar, de repente, sem racio cinio previo, concebem o que devem íazer ou dizer para evitar o pecado.

Ora é éste terceiro modo de conhecer a Deus que cons tituí a nota marcante da vida mística. Em urna palavra, pois: o estado místico é, como dizíamos, o estado em que a criatura humana, sujeita á acáo dd Espirito Santo, faz a experiencia de Deus que lhe está intimamente presente na alma.
É principalmente por efeito do dom da sabedoria que se consegue tal experiencia (dai o caráter saboroso ou deleitoso que caracteriza tal experiencia; sabedoria e sabor vém da mesma raiz latina sapere). Note-se outrossim que a experiencia mística constituí o termo normal do desenvolvimento da vida interior do cristáo. Nao é reser vada a almas privilegiadas, mas vem a ser simplesmente a vocacáo de todo cristáo, desde o dia do seu batismo. Infelizmente, pode-se crer que a maioria dos discípulos de Cristo nao chega a ésse desa brochar normal da vida espiritual; iicam muitos a meio-caminho, nao porque da parte do Senhor faltem os subsidios necessários ao

progresso, mas porque a lentidáo e a covardia da natureza entravam

a agáo désses subsidios. Que o cristáo tenha ao menos cónsciéncia de tal problema, e nao se delxe ficar num pouco sadio conformismo
com a mediocridade!

subconscientes da própria alma humana.

Quanto a fenCmenos extraordinarios (éxtases, estigmas e outros...), podem ser concedidos por Deus ás almas como sinais da íntima uniáo com o Divino Esposo; podem também faltar sem que o estado místico soíra detrimento; em nao poucos casos, sao fenó menos puramente naturais, explicáveis pela atuacáo de faculdades

Estes elementos elucidativos da vida mística já bastam para podermos abordar o tema culminante do cabegalho déste
artigo, a saber:

— 373 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960. qu. 3

2.

A Mística fora do Cristianismo

1. Admita-se o caso de urna pessoa que professe com toda a boa fé um credo náo-cristáo (mugulmano, budista ou mesmo pagáo) e pratique lealmente todos os preceitos decorrentes de tal ideología. Tal pessoa nao tem problema religioso: nao conhece senáo a «teología» que seus pais lhe ensinaram ou, se ouviu falar de outro credo (em particular, do Cristia nismo), éste nao lhe foi apresentado de modo a lhe suscitar dúvidas religiosas. — Pois bem; aderindo consciente e integral
mente a Deus em toda a extensáo do que ela vé e do que ela pode, tal alma recebe de Deus a justificagáo sobrenatural: o pecado original lhe é apagado; a graca santificante, com as virtudes infusas e os dons do Espirito Santo, lhe sao infundidos, á guisa do que se dá no auténtico cristáo (diz-se que essa pessoa possui «o voto implícito do batismo»; o que quer dizer: essa criatura é táo reta e sincera que, se ela tivesse conhecio pedir).

mento do significado exato do batismo, ela nao deixaria de

fio persevere numa atitude de docilidade total aos ditames de
prática, ao que lhe parece ser auténtica mensagem de Deus. Tal alma se vai encaminhando nao para o Deus Brama, des crito pelo hinduísmo, nem para a Mente Cósmica, apregoada
sua consciéncia, jamáis contradizendo, nem na teoría nem na

Suponha-se ulteriormente que ésse fiel durante anos a

místico.

ésse devoto se vai unindo. De etapa em etapa, sua alma poderá entáo fazer a experiencia da presenca e da acáo do Altíssimo, que nela habita; em outros termos: poderá chegar ao estado

por outro credo panteísta, nem para tal ou tal Divindade mito lógica, mas para o Deus único, o qual se revelou por Jesús Cristo: é ao •único Senhor, imperfetamente apreendido através das fórmulas do hinduísmo ou do paganismo, que na verdade

Compreende-se, porém, que tais casos de fidelidade inte gral náose verificam com freqüéncia fora do Cristianismo, pois ao náo-cristáo faltam os cañáis mais ricos da graca sobre natural, que sao os sacramentos, em particular a S. Eucaristía. Se já ao cristáo é difícil vencer a lentidáo da natureza e sair da mediocridade, embora seja continuamente revigorado pelos mais valiosos dons de Deus, para quem nao participa de tais
dons a mesma tarefa há de ser mais ardua ainda.
Era todo caso, os historiadores apontam nomes de fervorosas personalidades nao-crist§s as quais, pelo seu teor de vida e pelos seus escritos, parecem ter desfrutado a experiencia mistica. Sobressai, entre outros, Al-Hosayn-ibn-Mansur-al-Hallaj, muculmano martirizado

pelos seus correligionarios em Bagdad (Siria)
— 374 —

no ano de 922; foi

MÍSTICA-NAO CRISTA

vida marcada por severa penitencia e, posslvelmente, numerosas gracas mistticas; ao termo de muitos anos de preparacao, empreendeu viagens de pregacáo através da india e do Turquestao a íim de difun dir as riquezas de sua vida interior. Dentre os seus dizeres destaca-se
a seguinte prece:

entregue á morte por estimar Jesús ácima de Maomé considerando-O como o Santo por excelencia, o qual voltará á térra para instaurar o juízo final por ocasiao da ressurreicáo dos corpos. Al-Hallaj levou

agradecimento; nao há outro».

«ó Guia dos que se perderam, sei que transcendes... todos os conceitos daqueles que Te procuraran! conceber! ó meu Deus, sabes que sou incapaz de Te oíerecer a agSo de gracas que Te corivém. Deus, vem em mim, para agradeceres a Ti mesmo. Tal é o verdadeiro

Deixamos aqui aberta a questáo: nao seria talvez o grande amor tributado por Al-Hallaj a Cristo o segrédo e a raiz do elevado grau de pureza e caridade a que chegou éste autor nao-cristáo?

Outro nome digno de nota, também pertencente á esplritualidade musulmana, é o de Abubeker-Hohamed-ben-Ali ou, simplesmente, Ibn-Arabi, nascido em Murcia (Andalúsia) no ano de 1164, e falecido em Damasco (Siria) aos 6 de novembro de 1240. ínteres* confrontar alguns dizeres déste autor com paralelos multo semelhantes de Santa Teresa de Jesús, a grande mística crista:
Sta. Teresa assim cantava: «Dá riqueza ou pobreza, Consoló ou pena, Dá-me o inferno ou dá-me o céu; Pois que me entreguei a Ti, Que queres seJa íeito de mim?»
(Obras t. VI 81, ed. Silvério)

Ibn-Arabi, por sua vez, orava: «Teu deleitável paraíso ou teu suplicio infernal sao para mim a mesma coisa, pois teu amor nfio muda nem aumenta. Meu amor terá por objeto o que preferires
a meu respeito». (Fotuhat n 429)

a térra» (Vida XIII).
Joao da Cruz:

de que so ela e Deus existem sobre
Note-se semelhante frase de Sao

«A alma deve tomar consciéncia

Ele (Deus) e tu» (Tadbirat 232).

no mundo só existem dois seres:

«Adquire a conviccáo de que

«Vive neste mundo como se existissem apenas Deus e tua alma».
(Máximas 345)

Estes paralelos, longe de significar dependencia da mística crista em relacáo á mugulmana, exprimem a experiencia que toda alma faz de Deus desde que seja plenamente sincera na sua adesáo ao Todo-Poderoso. Já um escritor antigo. Tertuliano (tdepoisde220), afirmava com muita sabedor¡a: «A alma humana é, por sua natureza, crista»; o que quer dizer: a alma humana traz em si a aspiracáo inata para Deus, para Deus que se revelou ao mundo através do misterio da Encarnacao. ou seja, por Jesús Cristo. Fora dos poucos casos em que houve genufna experiencia mística entre os pagaos, a maioria dos episodios registrados entre estes Com o aspecto de «mística» se refere, na verdade, a fenómenos na turáis' 11/1958, qu. 1). SSo, com efeito, casos em que a alma do paciente, sob o efeito de um choque muito forte, é levada a se comportar de

ditos parapsicologías (a respeito de tais fenómenos, veja-se «P. R.>

— 375 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960 qu. 3 modo novo, estranho, como se estivesse padecendo a agao extraordinaria de um espirito superior ou de Deus. — É o que se verificará de modo particular na resposta n« 4 déste fascículo, onde se tratará
do «faquirismo».
pagaos, veja-se «P. R.» 6/1958, qu. 1.

Sobre a possibilidade de se darem auténticos milagres entre os

2. A distancia que separa a mística crista da maioria dos casos de «mística náo-cristá» se evidencia bem mediante um confronto das afirmacóes de autores cristáos e autores náo-cristáos (hinduístas, gregos antigos, maometanos). Veri^ ficam-se entáo os dois seguintes tragos diferenciáis:
a) o místico náo-cristáo se orienta geralmente por concepgóes panteístas; tende a se identificar totalmente com a Divindade, substancia neutra impessoal, que vai tomando face tas na natureza e no homem. O termo final da mística náo-cristá é muitas vézes a despersonalizagáo do homem e sua fusáo total
com o Divino.
Ao invés, a Mística crista concebe um Deus pessoal, transcendente,

muito bem esta concepcáo, afirmando a respeito de Deus: «Superior a mim do que o que eu possa ter de mais íntimo». Com efeito, Deus, transcendente como é, se digna habitar a alma do justo mediante a graca santificante, de modo a ser o maior tesouro do cristáo ou o
que eu possa conceber de mais elevado, mas também é mais intimo

com o qual a criatura humana deve entrar em íntima uniáo, sem, porém, se confundir ou identificar com Deus. Sto. Agostinho formulava summo meo,. intimior intimo meo. — (Deus) está ácima do que o

Bem que dá valor aos bens humanos.

b) Em conseqüéncia do seu panteísmo, o místico náo-cristáo nao pode conceber a idéia de «graga» ou de «auxilio que Ihe venha da parte de Deus para que ele se eleve»; ele, antes, está convicto de que a experiencia mística há de ser o termo de seus esforgos pessoais ou de seu «atletismo espiri tual»; é o homem quem por si chega a fazer a experiencia da Divindade, purificando seus pensamentos e afetos, emancipan-

do-se da recordagáo de criaturas sensíveis, para dar expansáo á centelha da Divindade que é a sua alma.

O cristáo, ao contrario, concebendo Deus como Ser distinto do homem e do mundo, professa que a experiencia mística é gratuito favor do Senhor, que atrai o homem a Si. O cristáo sabe de um lado, outro lado, nao. ignora que ésse seu heroísmo é antecipado por benévolo auxilio de Deus, de sorte que tudo que o homem faca de belo na procura do Senhor deve ser primariamente atribuido á graca sobrenatural. «Nao Me procurarías, se já nao Me tivesses encontrado», sao palavras que Pascal atribuí ao Senhor Deus, e que completaríamos dizendo: «Nao Me procurarías, se já nSo estivesses sendo atraído

que deve ser um atleta heroico na luta contra si mes'mo, mas, de

por Mim».

— 376 —

O FAQUIRISMO

3. Eis sumariamente indicados os pontos de contato e de divergencia que marcam as relagóes da mística crista com
O reconhecimento de que fora do Cristianismo pode haver — embora em casos raros e difíceis —■- auténtica experiencia mística ou experiencia da presenca de Deus na alma do justo, está longe de sugerir relativismo religioso. A única via para que a criatura chegue ao íntimo contato com Deus fica sendo a via do Cristo e da Redencáo pela Cruz. Acontece, porém, que nem todos os homens tomam conhecimento explícito de Cristo e do Evangelho; nem por isto a Providencia os excluí da sua obra de santificas,áo; podem chegar a grande uniáo com Deus desde que preencham as condigóes descritas atrás. Note-se que entáo as gragas outorgadas a náo-cristáos ainda sao dadas em vista de Cristo ou por aplicagáo dos méritos do Redentor, de sorte que Jesús permanece como Único Mediador entre o Pai e os homens; é destarte que os náo-cristáos, sem o saber, recebem gragas da plenitude de Cristo.
Convém, por fim, observar que foram condenadas pela autoridade da Igreja as seguintes proposites dos jansenistas:
que se Ihes assemelhem, nao recebem influxo algum da parte de Jesús Cristo» (Denzinger, Enchiridion 1295; condenacáo proferida em 1690 pelo Papa Alexandre VIII). «Fora da Igreja nao é concedida graca alguma» (Denzinger 1379; condenacao proferida em 1713 pelo Papa Clemente XI).
Em conclusáo destas consideragOes teológicas, o leltor será levado a admirar a multiforme graca de Deus, que sabe tocar o coracao dos homens de acordó com o grau de capacldade de cada qual, a fim de levar a todos para a visáo face a face do Senhor Deus.

a náo-cristá.

«Os pagaos, os judeus, os herejes e outras criaturas humanas

INICIADO (Bclo Horizonte):

4) «Que pensar dos faquires? Nao estarció munidos de especial assistencia divina para fazer os prodigios que fazem?»
Analisaremos abaixo em que consiste própriamente o faquirismo, a fim de poder proferir um juizo adequado sobre o mesmo.

1.

O regirae de vida e a atuacáo dos faquires

O yocábulo «faquir» provém do árabe faquir, pobre, men digo (sinónimo do persa derwiche, mendigo), e designa homens religiosos, geralmente hindus, que, mediante vida muito pobre e austera, tentam dominar os sentidos e prbcuram alcancar a perfeigáo espiritual. O credo religioso désses devotos pode variar do hinduísmo (bramanismo, budismo...) ao islamismo, — 377 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 4

apresentando nao poucas modalidades de sincretismo. Muitos

religiosa.

minada sociedade religiosa, seguindo regras e ritual comuns; outros, ao contrario, sao independentes de qualquer corporagáo

faquires (principalmente maometanos) vivem filiados a deter

Entre as Insignias características de varios dos tipos de faquires, mencionam-se: urna capa de leltro negro ou branco, as vézes a pele de um animal; pequeño bordüo de madeira ou de metal, um saco de pele de cordeiro, um prato para recolher esmolas, um rosario de 33, 66 ou 99 contas, correspondentes ao número de atributos de Deus,
além de cabeleira e barba longas.

que se podem resumir ñas tres seguintes:

O «Baghavata Pourana» (HE 7, 13), código de espiritualidade hindú, inculca aos faquires algumas normas de conduta,

1) enquanto goza de saúde, o faquir deve adotar a vida errante; possuindo únicamente o seu corpo, detenha-se apenas urna noite em cada lugar habitado e percorra a térra sem se comprometer com
pessoa alguma;

2) tenha como vestuario sómente um pedaco de paño; entre os seus utensilios, nao possua mais do que um cajado e as outras poucas insignias de peregrino religioso;
3) embora seja mendigo, o faquir nutra júbilo íntimo, seja amigo de todos os seres, calmo, insensivel tanto á dor quanto aos prazeres da natureza, procurando unir o seu espirito individual a alma universal (proposicáo panteista).

Modalidade própria de faquirismo é a dos chamados «synniassis», os quais declinam para o plano do irrazoável e faná tico; alguns vivem enterrados até a cintura ou sentados em estrados de pregos; outros dilaceram o corpo a golpes de chicote; mais outros conservam erguido um de seus bracos, deixando crescer urna planta em sua máo semi-cerrada, cheia de térra e terminada em dedos anquilosados; há também os que cerrem perpetuamente os punhos, de modo que as unhas váo penetrando na carne meio-putrefata. O suicidio religioso é praticado entre éles por meio do karivat, meia-lua cortante de cujas extremi dades pendem correntes, rematadas cada qual por um estribo; o faquir coloca a meia-lua sobre a sua nuca, os pés dentro dos estribos e, mediante forte impulso dos pés, amputa violenta mente a própria cabega.

dades e feitos prodigiosos verificados entre os faquires, tais
como

As narrativas de viagens feitas ao Oriente referem quali-

insensibilidade e invulnerabilidade: os faquires podem-se deitar sobre pontas agudas, caminhar sobre o fogo, etc., sem experimentar dores nem chagas; levitagáo ou arrebatamento
— 378 —

O FAQUIRISMO

de corpos á distancia.

ácima do solo; sruspensáo da vida ou morte aparente; aceleraCao de crescimento de vegetáis e animáis; clarividencia; mocáo

dioso, o qual nao se pode furtar á pergunta:
2.

Ésses apregoados fenómenos solicitam a atengáo do estu
Como explicar os portentos do faquirismo?

A resposta se desenvolverá em quatro etapas: aspecto portentoso dos fenómenos faquíricos. Os faquires háo

1)

Será preciso nao exagerar o alcance religioso nem o

de ser considerados, antes do mais, como homens religiosos que, pelo dominio de sua natureza, procuram viver conforme o espirito mais do que conforme a materia; se a sua conduta toma nao raro um caráter teatral ou espetacular (caráter que os palcos e circos do Ocidente exploram quase únicamente), isto nao deve ser focalizado em primeiro lugar nem descrito brámane hindú, Rex Hohini Mohán Chaterje, a quem o escritor francés Paúl Heuzé relatou quanto de portentoso se diz a
respeito dos faquires no Ocidente; o oriental respondeu:
«É motivo de surprésa para nos, hindus, ler os leitos prodigiosos

em termos exagerados. É o que nos inculca um auténtico

que os viajantes descrevem ao se referirem á nossa térra. Nossos faquires sSo simples mendigos ou urna pobre gente que, na medida do possivel, procura ganhar a vida, desenvolvendo eom habilidade algumas artimanhas» (P. Heuzé, Fakirs, Fumistes et Cíe., citado por M. Colinon, Faux prophétes et'sectes d'aujourd'hul. Paris 1953, 24).

Na base déste e de semelhantes depoimentos, vé-se que náo^se devem com facilidade supor intervengóes de Deus nem fenómenos própriamente milagrosos ou sobrenaturais no faqui rismo. A atuagáo dos faquires tem, via de regra, explicacüo
natural, como abaixo se dirá.

reagóes paranormais da alma humana.
N. b.:

2)

Bom número de fenómenos faquíricos é produto de
paranormal é o que fica ao lado do normal, sem por isto

ser anormal ou contrario ao normal. As reagSes paranormais vém a ser as que nao se registram nos estados habituáis da alma humana, pois

permite aproveitar ao máximo as potencialidades de seu organismo.

de alimentacáo, consumo de certas drogas naturais, etc.), que jhe

sao projegóes do cabedal de íaculdades e conhecimentos que toda criatura humana traz latente em sua subconsciencia. As reagoes paranormais, o faquir as provoca submetendo-se a urna rígida disciplina (dominio de seus pensamentos e afetos, regime

Assim é que no faquirismo se apontam, entre outros, os seguintes fenómenos paranormais:
— 379 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 4

o seu abdomen.

A rigidez de corpo faquírica corresponde a um dos graus do sonó letárgico, ou seja, ao estado de catalepsia. Nessa fase letárgica (que é provocada pelos estudiosos sem apelo para a religiáo), o paciente pode realmente repousar sobre dois supor tes apenas (um debaixo da nuca, outro debaixo dos calcanhsres) sem perder o equilibrio; com um pouco de treino, o mesmo pa ciente chega a sustentar o peso de outra pessoa sentada sobre

por estiletes pontiagudos sem experimentar dor é outro estado letárgico, que se produz por meios meramente naturais.
Merece particular atengao o «prodigio» do faquir que se deita tranquilamente sobre urna prancha crivada de pontas de pregos voltadas para cima. Analisando-se de perto o fenómeno, verifica-se que

A insensibilidade ou a capacidade de ser alguém perfurodo

o corpo do individuo, em tal caso, repousa sobre urna media de duzentos pregos distribuidos de modo mais ou menos uniforme (para comprovar isto, coloque-se urna tenue íólha de papel de seda sobre
os pregos e examine-se no papel tanto o número como a colocacáo

das pontas dos pregos). Por conseguinte, cada prego suporta o peso de 350 gr aproximadamente, quando o faquir está deitado a sos, ou de 700/800 gr, dado que outra pessoa se ponha s6bre ele. Ora essas pressóes uniformemente distribuidas nao sSo tais que provoquem
ferimento do corpo humano.

Digno de nota é também o fenómeno da insensibilidade á temperatura; os faquires, como os magos em geral, sao considerados «senhores do fogo»: engolem brasas, tocam ferro incandescente, caminham sobre o f°E°> sem se ferir. Sao tam bém portadores de um «calor mágico» característico; com efeito, o processo de iniciagáo no faquirismo e na magia implica muitas vézes a prova da resistencia ao frió: na Mandchúria, por exemplo, os mestres cavam, em pleno invernó, nove buracos no gélo de um lago ou do mar, e exigem do candidato apareja sucessivamente em cada um désses orificios nadando por debaixo do gélo. Entre os esquimos do Labrador semelhante prova á realizada; já se registrou ai o caso de um candidato que passou

verifica-se a que gr'au de preparo chegou um discípulo do faquirismo, medindo-se a sua capacidade de fazer enxugar panos e lengos molhados pelo simples contato com o seu corpo desnudo em urna noite de invernó e de nevé: os jovens conseguem por essa via fazer secar grande número de panos no
decorrer de urna so noite.

cinco dias e cinco noites no mar gelado, demonstrando final mente que nem sequer estava molhado. Na india e no Tibe

Como se explicam tais fenómenos?

Eis a solugáo: o estado místico é muitas vézes comparado a um estado de fervor ou ardor; o maometano ainda hoje na — 380 —

O FAQUIRISMO

India julga que o homem que entra em comunicagáo com Deus, se torna ardente ou fervente. Excitados por esta imagem, os faquires e magos orientáis provocam em si, mediante um processo parapsicológico ou mediante o transe, um calor interior que os imuniza tanto contra o frió extremo das geleiras e nevadas como contra a temperatura abrasadora do fogo e dos corpos incandescentes. Note-se bem que nisso tudo se trata exclusivamente de fenómenos naturais ou de dominio e aproveitamento requintados das energías latentes no organismo, sem que haja intervengáo de fórgas sobrenaturais.
Quanto aos fenómenos de clarividencia, telequinesia e telestesía, sao evidentemente expressSes de faculdades latentes na alma humana que, sob a acfio de determinados estímulos, se manifestam, acarretando grande surprésa para os espectadores.

O estado de morte aparente, por sua vez, pode ser induzido por via de letargía; assemelha-se ao estado de vida latente, que os biólogos tém reconhecido em animáis vertebrados e invertebrados.

•3) Outra categoría, nao desprezível, de fenómenos faquíricos se explica pelo emprégo de artificios (ou traques). Dizem os estudiosos que ñas térras de faquires, principalmente na India, o público nao se preocupa com a averiguagáo de honestidade ou fraudulencia dos faquires. Estatísticas empreendidas na India entre pessoas interessadas no assunto deram a saber que 81% do público eré que realmente os faquires sao «super-homens» a quem ninguém pode resistir. Ora a opiniáo pública
táo fortemente formada nao sómente sugestiona inconscien temente o faquir, mas também obriga-o a corresponder cons cientemente á expectativa e aos dizeres do povo; o faquir se vé constrangido a se comportar como taumaturgo, como filho dos deuses, ainda que para isto deva recorrer a artificios e
truques.

Narra-se mesmo que Scarha Bey, egipcio sincero dado ao faquirismo, certa vez após urna serie de experiencias resolveu declarar lealmente a seus espectadores: «Nao fago milagres. Tudo que acabo de realizar, é mero resultado de longo treino. Qualquer de vos pode fazer as mesmas coisas». O público entáo pds-se a protestar violenta mente. Alguns dos espectadores subiram ao palco com a intencao de provar ao faquir que ele era. sem o saber, um inspirado, um curandeiro, um adivinho! Apesar de suas renovadas declaragóes, Scarha

Bey nao conseguiu desfazer a ilusao de seus «clientes». — O público quer deleitar-se com a sensacáo do maravilhoso, e difícilmente tolera ser desiludido de suas crendices! (Noticia colhida na obra citada de
M. Colinon, pág. 29).

Alguns dos truques faquLricos tornaram-se de conhecimento geral. Basta mencionar os que ocorrem no «sepultamento» de um faquir. Na India, pode acontecer que um «iniciado» permanece enterrado durante tres ou seis meses e saia vivo do túmulo... Como suporta tal situagao? — É simples, respondem os peritos: o interessado toma

— 381 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 33/1960, qu. 4

tempo da provacjio.

subterránea com o poráo de um Imóvel qualquer, para onde o faquir se retira oportunamente a íim de se reabastecer; está claro que a situagáo é muito incómoda, faz emagrecer, exige heroísmo..., mas nada tem de sobrenatural. Na Franca, dizem, os faquires costumam ficar apenas urna ou duas horas no túmulo (o que certamente já é extraordinario); em tais casos, a única cautela a tomar é a de assegurar que dentro do sepulcro haja o volume de ar necessário para que o faquir respire (muito incómodamente, alias) durante o

providencias

para que o pretenso

túmulo esteja em comunicacao

merecer sería atengáo. Tal é o caso do ropetrick: urna corda atirada ao ar ai parece permanecer suspensa, como que presa as nuvens apenas; urna crianca que suba por essa corda, desaparece; de repente, o seu sangue salpica a multidáo que sobre a térra contempla, pasma, o fenómeno; em breve, porém,
o acrobatazinho é restituido ao solo!

Observe-se mais o seguinte: narram-se alguns fenómenos de faquirismo que os taumaturgos nunca reproduziram em presenga de estudiosos e que, por isto mesmo, nao podem

Pois bem; a respeito déste fenómeno realmente intrigante duas observagóes devem ser feitas: 1) conforme as narrativas, só pode ser «realizado» na India; 2) nunca se encontrou um testemunha ocular de tal prodigio: todas as comissóes de inquérito que foram á India para estudar o caso, voltaram sem o ter presenciado; o jornal «Times of India» chegou a oferecer 10.000 rupias (quantia nao desprezivel) a quem efetuassc tal
experiencia á vista de peritos em Bombay; em váo, porém, pois ninguém se rendeu ao apelo. — Ora estes fatos sao sufi cientes para que num estudo ponderado nao se leve em conta
t

o ropetrick.

requer-se um elemento que ainda falta, isto é, um catálogo de fatos que realmente tenham ocorrido e que venham descritos
com exatidáo.
4) Para ilustrar como pode alguém ser vitima de ilusáo ao apreciar fenómenos extraordinarios, tachando-os de fenómenos reli giosos e místicos, vai aquí citado um caso, entre muitos, famoso. Na India, Mirin Dajo era um asceta holandés, convicto de gozar do dom da invulnerabilidade. Era mesmo cognominado «o homem

Outros prodigios faquíricos sao referidos em narrativas táo imprecisas e contraditórias que já nao podem ser submetidos a urna investigagáo científica. Para se dizer a última palavra na análise das diversas manifestagóes do faquirismo,

invulnerável», pois mandava, par exemplo, que lhe atravessassem de ponta a ponta com urna espada aguda a parte superior do tórax, sem que com isto sofresse daño algum. Numerosos professóres europeus examinaram o caso, nao encontrando explicagáo para o fenómeno,
que certamente nao se devia a fraude ou truque. Mirin Dajo afirmou entáo ser imortal; agregaram-se-lhe alguns discípulos, venerando-o como Deus; em conseqüéncia, o mestre holandés fundou urna nova

— 382 —

RESSURREICAO DOS MORTOS

concluiu que Mirin Dajp nao era nem <super-homem» nem «deus»; aquiparava-se aos demais homens; apenas tinha em seu favor, para realizar grandes faganhas, a consciéncia ilusoria de ser um «iluminado»; era esta que o movia a fazer o que muitos outros homens poderiam eíetuar, mas nao efetuam, porque carecem de tal intuicáo ousada. Mirin Dajo nao contradizia ás leis da natureza; no dia em que tentou derrogar-lhes, colocando no estómago urna longa agulha, veio simplesmente a morrer. «O faquirismo que faz viver tanta gente, matou o único
homem que néle tenha realmente acreditado» (M. Colinon, ob. cit. 31).

A vista disso, os médicos e estudiosos verificaran! que, embora os pulmoes de Mirin Dajo tivessem sido varias vézes traspassados, o coracáo havia ficado intato. Tentaram entáo semelhantes experien cias com animáis, aos quais vararam o íígado, os rins, os pulmSes, em condicóes semelhantes ás de Mirin Dajo, sem que algum tenha morrido nem apresentado graves perturbacdes... Tendo averiguado isto, os médicos descobriram processos de autodefesa do organismo até época recente ignorados (tratava-se principalmente de processos de cicatrizacáo, que foram sendo mais e mais explorados). Assim se

que lhe perfurou o estómago...

religiáo... Um belo dia toda a ilusáo se desfez, porque na verdade o «deus» veio a morrer; mor.reu, sim, por ter engulido urna agülha

III.

SAGRADA ESCRITURA

P. S. S. (Curitiba):

Tcrao subido ao céu em corpo e alma com Jesús?»

5) «Gomo se explica o texto de Sao Mateus 27,52s, que refere a ressurreicáo de defuntos no dia da morte do Senhor? Quem eram esses ressuscitados? Morreram novamente?

da ressurreicáo de Jesús, entraram na Cidade Santa, e apareceram a muitas pessoas» (Mt 27,51-53).

A fim de facilitar a compreensáo do texto, transcrevemo-lo dentro do respectivo contexto: «No mesmo instante (em que Jesús morreu)... a térra tremeu, as rochas se partiram, abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; saindo dos túmulos depois

O sentido desta passagem deve ser elucidado por etapas.

Isso seria pouco ■provável; a Sabedoria Divina nao terá ressuscitado mortos em váo, deixando-os vivos e latentes du rante dois dias no sepulcro. Por tal motivo os exegetas em geral julgam que tanto a ressurreicáo dos justos como a sua saída
— 383 —

quarenta ou mais horas?

ésses defuntos só saíram dos sepulcros dois días mais tarde, isto ó, no domingo após a ressurreicáo de Cristo. Donde a dúvida: teráo entáo ficado vivos nos seus túmulos durante

santa mesma, logo depois do terremoto. Acontece, porém, que

1) Em primeiro lugar, impóe-se a pergunta: quando se deu a ressurreigáo dos mortos de que fala o Evangelista? — Após uma prímeira leitura, dir-se-ia: ... na sexta-feira

<-PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 5

dos sepulcros e seu aparecimento na Cidade Santa se deram no domingo após a ressurreigáo do Senhor Jesús. Éste fica sendo, como Sao Paulo assevera, «o Primogénito dos mortos» (Col 1,18) ou «as primicias dentre os mortos» (1 Cor 15,20);
o que quer dizer:... o Primeiro dos ressuscitados na ordem ¡mediatamente déla se beneficiaram.

de coisas nova, crista; a ressurreigáo de Jesús, Cabega do Corpo Místico, deve ter precedido a de qualquer dos homens que
É possivel, porém, que já na sexta-feira santa os sepulcros tenham

tivas pedras de ingresso.

sido abertos: o terremoto entáo registrado haverá removido as respec

Assim sendo, verifica-se que Sao Mateus, conforme a sua índole muito sistemática, a0 referir os prodigios ocasionados pela morte de Cristo, quis logo mencionar a ressurreigáo dos mortos que se deu no domingo. Trata-se de um proceder estilístico que o leitor atento sabe descobnr e interpretar auténticamente, como acabamos de fazer.

mente artificiáis.

justos se manifestaran! por meio de figuras corpóreas mera
3)

2) O Evangelista visa inculcar verdadeira ressurreicáo dos mortos; em caso contrario, nao teria falado de abertura dos sepulcros, mas apenas de aparicoes dos defuntos na Cidade Santa. Remova-se, portante, a idéia de que as almas désses

solene do Triunfador da morte. Contribuiram assim para realcar a dignidade e a gloria de Cristo perante os habitantes de Jerusalém. — Desta observagáo se seguem mais algumas impor
tantes conclusóes:

— Para dar aos vivos um testemunho muito evidente da Vitoria de Jesús sobre a morte; constituiam como que o cortejo

E porque teráo realmente ressuscitado tais defuntos?

4) Os ressuscitados deviam ser justos recém-falecidos (nao eram pessoas de épocas remotas que os contemporáneos de Jesús nao pudessem reconhecer). Com efeito; para qué a res surreigáo désses justos tivesse significado, era preciso que seus concidadáos os houvessem conhecido em vida e pudessem atestar
que de fato tinham estado mortos.

15,35-44. Nao ressuscitaram, portanto, como Lázaro, num tuindo o cortejo do Divino Salvador, tivessem corpo semecorpo mortal; era, sim, consentáneo que tais justos, consti-

gloriosa, correspondente á que Sao Paulo descreve em 1 Cor

5)

A qualidade dos corpos désses ressuscitados devia ser

a expressáo «apareceram a muitos na Cidade Santa» utilizada

lhante ao do Senhor ressuscitado. É isto, alias, o que insinúa

pelo S. Evangelista: o verbo «aparecer» sugere um modo de
— 384 —

O ISLAMISMO

materia se nos torna visível.

se tornar presente diverso do modo como habitualmente a

citados de Mt 27, 52 nao voltaram ao sepulcro, mas com Cristo subiram diretamente aos céus, em corpo e alma.
julgam haverem tais justos morrido de novo. Esta nao prevaleceu entre os comentadores, sejam antigos os quais ponderam as seguintes razóes: os justos de ressuscitado para dar testemunho da ressurreicáo do

6)

Por conseguinte, é lógico dizer que os justos ressus-

_

É verdade que S. Agostinho (ep. 164,9) e exegetas posteriores
opiniao, porém sejam recentes' Mt 27,52, tendó Senhor deviam

e?*taI Pinamente conligurados a Cristo; ora Jesús, urna vez ressuscitado, já nao morre. Ademáis, se a Providencia os tivesse chamado

isto infligido uma pena, e nSo um beneficio — o que seria pouco condizente com a Perfeicao Divina. p S. Agostinho apoiava sua tese de «condenacáo á marte» na
nao devem atingir a sua consumagáo sem nos, povo da Nova Lei (nao se entendería, portanto, que a ressurreigáo gloriosa e definitiva ja tivesse sido dada a santos do Antigo Testamento). A esta dificulproposicao de Hebr 11,40, segundo a qual os justos da Antiga Lei

f ♦ f «»e -!30V0 para mais uma vez ^ fazer morrer, ter-lhes-ia com

?«p<£, . idade de alSumas poucas excec5es, como teráo sido as que
Mt 27 insinúa.

dade, porém, replicar-se-á que a afirmacao de Hebr 11 nao excluí

7) Fica aberta a questáo: onde estáo localizados os corpos désses justos, dado que com Cristo tenham subido aos céus no dia da Ascensáo solene do Senhor? — Nada de preciso nos diz a Revelagáo sobre o assunto, como já observamos em «P. R.» 27/1960, qu. 3. As conjeturas seriam mais ou menos vas.
IV. HISTORIA DAS RELIGIÓES

AMIGA DA ARTE (Uberaba):

6) «Em que consiste própriamente o credo do Islamismo? Parece haver afínidade nao desnrezível entre a religiáo de Maomé e o Evangelho. Como se éhtende isso?»

^SS^g^SSSí^SSS^':após °que> consideraremos
1. Esbdco biográfico de Maoiné
Maomé nasceu em Meca, na Arabia Central, provávelmente em 580 (e nao 570, data geralmente indicada), vindo a morrer com pouco

propor primeiramente breve esbdco biográfico do seu fundador Muham-

Para entendermos o significado do Islamismo, torna-se oportuno

Koraischitas. Sua infancia acha-se envolvida em muitas lendas

tSSÜ'i Si*

a«?°S .dl?aidi?de' em 632. Era filho da nobre tribo dos

seu, Abu-Talib. Éste, sendo comerciante, levava o sobrinho em viagens
— 385 —

«p,, Arh°T^Vra **?**' Maomé haverá sido educado por um tío

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 33/1960, qu. 6 de caravanas pela Arabia, a Assiria c a Mcsopotámia, o que proporcíonou a Maomé o contato com núcleos de judeus e cristáos os quais nao deixaram de exercer influencia sobre a sua alma profundamente

religiosa.

Aos 25 anos, Maomé, como guia de caravanas comerciáis entrou a servico de rica viúva, Kadija, já quadragenária, com a qual acabou contramdo matrimonio. Em conseqüéncia, o futuro profeta que se

impunha a todos pela sua seriedade e o seu bom senso passou a ser
prestigiado também pelos seus haveres materiais.

Por volla de 610/611. Maomé efetuou a sua «conversáo» que consistiu essencialmente em aderir ao monoteísmo e ao dogma da ressurreicáo (artigos estes que pertencem ao patrimonio da fé judaica
e cnstá). J

nado pela incompreensáo e a desuniáo dos homens entre si, se tornou cada vez mais meditativo; entregava-se a severas práticas de mortificacáo, e retirava-se para a montanha a fim de rezar a sás De urna feita, na «Noite do Destino» ou na «Noite bendita do Corao» tera tido urna visáo: em sonho, estranho personagem lhe apareceu trazendo ñas máos um rolo de paño coberto de sinais e mandando-lhe que lesse; após relutar contra essa ordem no sonho, Maomé acordou, consciente de que finalmente um liv.ro descera em seu coracáo; percebera outrossim urna voz que em nome de Deus lhe atribuía a missSo de reformar as crengas, por termo á idolatría e ás disputas
religiosas de seu povo, indicando a todos o caminho do céu. Multo perturbado e trémulo, contou o ocorrido a sua esposa Kadija, a qual foi consultar um primo seu, Varaka, homem sensato e culto, que exclamou: «Deus escolhe-o para ser profeta de nova fé!». Após

Difícil seria reconstituir as circunstancias desta conversao — Parece que, por volta dos 30 anos. Maomé, profundamente impressio-

habitantes da cidade de Medina resolveu mostrar-se benévolo para com o Profeta; tal gente sotrera a influencia de judeus, que haviam disseminado em Medina a erenga num Messias israelita; assim prepa rados, os medinenses julgaram ver em Maomé as qualidades auténticas de um Redentor árabe. Pelo que, convidaran» Maomé e sua pequeña sociedade para se domiciliarem em Medina. Tendo aceito, o Iluminado de Meca se transferiu para a cidade acolhedora na noite de 16 de julho de 622. Tal acontecimento tomou o nome de Hidjra ou Hegira Fuga, e assinala o inicio da era maometana. Senhor de Medina, Maomé, com inteligencia e astucia consolidou sua pqsicao e foi revelando dotes de hábil cheíe político e legislador civil. Visando unir numa só populagáo coesa e forte seus compatriotas árabes, comecou a estender o ssu dominio por meio de expedigoes de ataque a caravanas comerciáis. Os sucessos obtidos lhe iam assegu— 386

o anjo Gabriel e tu serás o apostólo do Senhor». Doravante, o Iluminado pós-se a pregar nova forma de religiáo: o «Islam» ou, em árabe, a Submissáo, Dedicagáo á Vontade de Deus. Maomé apoiava-se na fé em um só Deus, Allah, criticando os cultos pagaos, predizendo ¡mínente catástrofe e apresentando reivindicayóes sociais era favor dos pobres. Tais proposicñes só fizeram irritar a aristocracia de Meca, de sorte que, ao lado de poucos adeptos (sua esposa, seu primo Ali, seus parentes Abu-Bakr e Otman), o profeta granjeou para si adversarios cada vez mais infensos, temerosos pela sorte de seus ídolos e de suas rendas comerciáis. A situagáo para Maomé se ia tornando insustentável em Meca, quando um grupo de

repetidas visSes, ignorando quem era o misterioso personagem que lhe aparecía, Maomé julgava-se perseguido por espíritos, e pensava em suicidar-se, quando certa vez a estranha voz lhe declarou: -*Sou

O ISLAMISMO rando crescente número de adeptos, até que finalmente em 629, aproveitando-se de um litigio entre tribos árabes, Maomé, sem desíerir golpe algum, eni.rou em Meca e tomou posse do famoso santuario desta cidade dito «a Caaba», donde removeu os Ídolos. Nos anos seguintes, foi dilatando o seu poder mediante guerras, e o envió de legagóes a tribos estrangeiras. Finalmente aos 8 de junho de 632, já cansado, veio a morrer quase repentinamente nos bracos de Ayscha, sua esposa predileta. A obra de Maomé, embora tivesse que passar por vicissitudes varias, estava suficientemente adiantada para desper

tar a consciéncia religiosa e nacional dos árabes e lancá-los, coesos, á conquista de numerosas nagdes estrangeiras mediante a prática
da «guerra santa».

As fontes doutrinárias do Islamismo sao o código sagrado do Corao (em árabe, recitacSo, declamacao, pois o texto devia ser recitado
no culto) e a tradicáo oral dita Sunna.

Para os maometanos, o Coráo representa a palavra incriada de Deus; há. sim. junto a Alá um livro posto sobre u'a mesa, no qual se acha contida toda a revelado. Ao profeta foi manifestada apenas urna parte desta, servindo-lhe de mediador o anjo Gabriel; tal parte, porém, mesmo redigida em árabe, é idéntica e coeterna ao original
celeste!

Nao se pode atribuir a redacáo do Coráo ao próprio Maomé. Éste pronunciava seus ensinamentos geralmente em estado de transe; seus discípulos entáo os recolhiam ou na memoria apenas ou por escrito em peles de animáis, palmas, omoplatas de carneiro, tabuinhas de barro... As proposicOes de Maomé, oráis e escritas, foram, sob Otman (644-655), o tercei.ro califa ou representante de Maomé, colecionadas em um so código de 114 suratas ou capítulos, compreendendo um total de versículos cuja extensáo equivale a dois tercos do Novo Testamento. Os críticos modernos admitem que por essa via o pensamento de Maomé haja sido em algumas passagens imperfeitamente
transmitido e até mesmo interpolado.

Procuremos agora analisar as doutrinas e a mentalidade religiosa que emanam do movimento maometano.

2.

As grandes propositóos do Islamismo

A.

O Monoteísmo

Urna das características mais importantes do Islamismo é a de constituir, ao lado do Judaismo e do Cristianismo, urna das

tres grandes religióes monoteístas atualmente existentes no mundo. Fora destas tres denominagóes religiosas, só se encontram concepgóes ilógicas referentes á Divindade: o politeísmo
(fetichismo, idolatría), sistema que supóe, possa Deus ou o

como substancia neutra, impessoal, identificada com a natureza e o homem (ideología incoerente, porque supóe, possa haver transigáo do Absoluto para o relativo e do relativo para o Absoluto).

Absoluto ser esfacelado e multiplicado; e o panteísmo (hinduísmo, confucionismo, chintoísmo...), ideología que concebe Deus

O Islamismo, portanto, professando um Deus único, distin to do mundo e do homem, situa-se no plano das mais elevadas
— 387 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 6

confissóes religiosas da humanidade. É sómente entre os credos monoteístas que se pode pretender encontrar a verdadeira
religiáo.

Verifica-se, porém, que o monoteísmo islamítico nao é originario da Arabia mesma, mas derivado do monoteísmo judaico-cristáo. Maomé mesmo nunca se apresentou como fun dador de urna religiáo nova; a dogmática e a moral que ele ensinou, nao constituem senáo um amalgama de tres blocos religiosos anteriormente existentes, como reconhecem em geral
os orientalistas; ésses tres blocos seriam

a) a antiga religiáo árabe, de Índole animista e politeísta; caracterizava-se pelo culto das pedras «divinas», consideradas como mansóes de seres superiores, cujas gracas os homens procuravam atrair a si. Tenha-se era vista a «Pedra Negra», que nao é mais do que um
aerolito situado na Caaba, santuario principal de Meca, e objeto da grande veneracáo dos mugulmanos até hoje.

b) a religiáo israelita, professada por judeus domiciliados na Arabia, onde se entregavam ao comercio, a industria e á agricultura. Tal Judaismo, porém, já nao era própriamente o da Lei de Moisés, mas trazia um anexo de observancias e normas, por vézes esteréis, derivadas dos rabinos posteriores (também chamados «Talmudistas»). Foi certamente désse patrimonio judaico que Maomé derivou as grandes linhas da sua orientacáo religiosa: existe um só Deus, o qual se íoi revelando sucessivamente aos profetas da humanidade — Adáo, Abraáo, Moisés, Jesús Cristo — e, por íim, consumou sua revelagáo por meio de Maomé, o maior de todos os profetas. O fato de que Maomé se inseriu na linha do Judaismo, explica o íreqüente uso da Biblia no ensinamento islamítico, assim como alguns dos costumes mugulmanos (as purificac5es legáis, a observancia do taliáo, da
poligamia, etc.).

Contudo Maomé nao se podia identificar plenamente com mento judaico, porque, embora nao visse em Jesús Cristo de Deus feito homem, atribuía a Cristo um lugar eminente enviados de Alá. Sim; o profeta voltou sua atencáo também

o pensao Filho entre os para

Siria. Tais cristáos, porém, nao eram ortodoxos, mas herejes nestorianos e monofisitas, que lhe apresentaram um Cristianismo depaupe rado; o profeta nunca chegou a ler os Evangelhos. Como quer que seja, pode ele dizer: «Os judeus sao infiéis... Nao creram (em Jesús) e inventaram contra Maria urna abominável mentira». Sem se comprometer nem com o Judaismo nem com o Cristia nismo, Maomé deflniu sua posicao religiosa apresentando-se como continuador da religiáo de Abraáo e de seu filho imediato Ismael, personagens muito mais antigos do que Moisés e Cristo na historia sagrada (na verdade, o povo árabe é descendente de Ismael, filho

c) a rcligiilo dos cristilos. Maomé a conheceu principalmente cm suas viagens, cstabelecendo contato com os monges da fronteira da

de AbraSo e Agar). Para justificar sua independencia religiosa, Maomé atribuiu a judeus e eristaos «o grande erro de terem falsificado os
livros sagrados e o monoteísmo de Abraáo e Ismael».

— 388 —

O ISLAMISMO

B.

A dogmática islamítica

-se em tres solenes proposigóes:

A teología de Maomé é relativamente simples, resumindo-

a) Ha um só Deas, invisível, também considerado como o Deus vivo, poderoso, criador, glorioso. O Profeta, porém, nunca O chama «justo», porque na realidade Deus faz tudo que quer e a ninguém presta contas. Em suas relagóes com os homens. Ele é, por excelencia, misericordioso e amável; aos seus fiéis servidores Ele dispensa, neste mundo mesmo, prosperidade e riquezas materiais (para Maomé e o mugulmano em geral, a abundancia de haveres materiais vem a ser sinal
da béngáo divina).

Ele quer, e, a quem Ele quer, conduz pelo caminho reto»; é Deus quem endurece os coragóes dos incrédulos, impedindo-os de chegar á luz da verdade. Foi ésse fatalismo que inspirou muitas das realizagóes fanáticas da historia mugulmana, pro vocando de maneira cega o entusiasmo de uns e o desánimo de outros dos discípulos do Profeta.
Em conseqüéncia de tais idéias, o Islamismo oficial (nao falamos de seitas dissidentes) nao estima a Deus como Pai, a quem o fiel
temor. Assim no «Pai Nosso» dos mugulmanos, inspirado dos Evangelhos, foi substituida a interpelacáo inicial «Pai Nosso» por «Rei
possa ou deva amar, mas, sim, como Senhor, a quem se deve o

O conceito do poder ilimitado de Deus levou o Profeta a admitir a imutável predestinagáo: «Alá faz perecer a quem

Nosso».

b) Existem anjos bons e maus. Os anjos sao espíritos criados por Deus antes de Adáo. Quando éste apareceu, Alá mandou-lhes que se prostrassem diante de Adáo; todos obedeceram, exceto Iblis (forma derivada da palavra grega diábolos) ou Chaytan (nome proveniente do hebraico Sata). Em conse

qüéncia, Alá amaldiQOOU o anjo rebelde, o qual, porém, obteve

a licenga de tentar os homens sobre a térra até o dia do juízo final. Na consumagáo dos tempos, será precipitado no inferno
com os outros maus espiritos que o seguirám.
Além dos anjos própriamente ditos, o mugulmano admite a exis tencia de genios (djinn), seres corpóreos, formados de vapor ou de chama, dotados de inteligencia e imperceptiveis aos sentidos humanos. O desejo de atrair ou afastar tais entes justifica a magia e a superstiá vigentes entre os maometanos ignorantes.

paraíso, sorte dos bons, e o inferno, castigo dos maus (no qual antigos documentos mugulmanos enumeram seis andares, desti— 389 —

c)

Existe urna vida postuma, na qual se distinguen! o

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 6

nados respectivamente aos árabes idólatras, aos brámanes da

india, aos judeus, aos cristáos, aos magcs da Pérsia e aos hipócritas de todas as religióes).
Logo após a morte de um fiel, ensina o credo maometano, o seu cadáver é colocado no sepulcro; a alma fica doravante a vaguear em torno déste. Entáo dois anjos. Mountar e Nakir, apresentam-se ao deíunto, que se levanta no túmulo; interrogam-no sobre as suas obras na térra. O deíunto fiel, após responder, se deita de novo em
sonó pacato; quanto aos tempo que. Alá determine. maus, sao espancados severamente pelo

No fim dos séculos haverá grande luta, pois um «Anticristo» e Jesús compareceráo sobre a térra, tocando a Cristo a Vitoria decisiva. Dar-se-áo entáo a ressurreicáo dos carpos e o juizo universal. Os bons entraráo finalmente no paraíso, que Maomé concebía como parque fértil e ameno, onde, na companhia de mulheres e virgens, os justos se deleitarlo: «No paraíso há cór.regos, cuja agua jamáis se deteriora; córregos de leite, cujo gosto nao se alterará; córregos de

haverá jamáis tocado» (LV 46-78). " Aos maus cabera a geena, lugar de tormentos; os teólogos mugulmanos atuais tendem a afirmar que estes nao seráo eternos, a nao ser para os homens idólatras.

vinho. que faráo as delicias de quem déles beber; córregos de mel puro; toda especie de frutas e o perdáo dos pecados» (Corao XLVII 16s); «os eleitos repousarSo sobre tapetes...; estaráo ao seu dtspor jovens virgens de olhar modesto, que nem homem nem genio algum

G.

A Moral maometana

Os principáis deveres do mugulmano, tidos como «pilastras da Religiáo», sao os cinco seguintes:
1) professar a fé, 2) orar cinco vézes por dia (ao alvorecer, ao meio-dia, pelas 3/4 hs da tarde, ao por do sol, no primeiro quarto da noite), cumprindo-se de cada vez as abluqóes legáis prescritas, 3) jejuar durante o mes inteiro de Ramada, 4) dar esmola aos pobres (o que compreende também a obrigagáo de dar hospedagem momentánea seja a quem fór e a qualquer hora), 5) peregrinar a Meca urna vez na vida.
A respeito do jejum muculmano, observe-se que dura do nascer ao por do sol, í¡cando proibido neste. intervalo ingerir qualquer subs tancia terrestre, nao sómente alimentos, mas também fumo de tabaco, perfumes, remedias, etc. A noite, sao suspensas todas essas restrigóes. — O mes de jejum ou o Ramada pode fácilmente tornar-se urna época de reivindicagSes da carne; acontece nao raro que durante a noite o árabe se desforre das privag5es sofridas durante o dia; assim as noites de Ramada podem ser fases de orgia; e, se a estacáo do ano é quente, o mugulmano entrega-se á inercia ou ao repouso durante o dia, passando a trabalhar e a comer ñas horas noturnas. Os preceitos da lei natural sao menos valorizados na Moral mugulmana. Práticamente o único pecado imputado entre os maometanos é o de apostasia da íé, ou seja, a adesáo á idolatría ou ao

paganismo.

Na opiniao

de bor.s comentadores,

a

moral

isb.mítica

— 390 —

O ISLAMISMO

contribuiu para dar foros de IegitJmidade aos impulsos da cobica humana e, em particular, da cobica árabe; o próprio Maomé teria procurado, mediante cláusulas e leis do Coráo, justificar os desmandos

O instinto belicoso ou a sede de se apoderar de térras e bens dos Maomé, pelo conceito de «guerra santa»: morrer em batalha armada torna o maometano «mártir», ou seja, herói religioso; de resto, o conceito de «predestinacao», que inelutávelmente assinala a cada individuo a hora de sua marte, muito concorreu para precipitar destemidamente os discípulos de Maomé na tareía de assaltar... Portadores do código de doutrina e moral que acaba de ser delineado, os árabes se expandiram através do Velho Mundo, íazendo do maometanismo um importante ator da historia universal. Interessa-nos conseqüentemente averiguar qual seria

(o Corao autoriza todo varao a ter quatro esposas legitimas e tantas concubinas escravas quantas seus recursos financeiros lhe permitam).
povos estrangeiros foi legitimado e até agucado, nos discípulos de

de seus amares, ou seja, a poligamia que ele praticou em alta escala

3.

A mensagem do Islamismo aos nossos dias

Ele nada vos mandou de difícil em vossa religiáo» (XXII 77). As concepcóes de béngáo e recompensa divina estavam. muito associadas, na mente do árabe antigo, as expectativas de bens terrestres: riqueza, posteridade numerosa, pleno sucesso nos empreendimentos temporais, vitória sobre os inimigos, etc. A bem-aventuranca futura é no Islamismo prometida nao propriamente aos pacíficos, mas, sim, aos belicosos, mormente
aos homens que morram na «guerra santa».

da Grecia, e, num espirito totalmente diverso, o Cristianismo. Lé-se mesmo no Coráo: .«Alá quer tornar mais suave para vos a prática da religiáo; quer desafogar-vos, e nao estreitar-vos.

como o acentuam, por exemplo, as religióes da India, o orfísmo

1. Considerada em seus principios doutrinários, a reli giáo de Maomé tende a desenvolver nos seus adeptos a estima de certas observancias exteriores tidas como legáis, ficando em plano muito obscuro o que diz respeito á vida interior. Note-se outrossim — o que é de importancia capital — que o Isláo ignora o pecado original e a conseqüente decadencia da natureza humana; por isto pouco avalia a necessidade de luta interior e de purificacáo da alma solicitada por páixóes desregradas. Estas as vézes vém a ser mesmo legitimadas por alguns itens do Coráo, como vimos a propósito da poligamia, dos instintos de guerra e de rapiña... A legislacáo religiosa muculmana, para promover a honestidade de seus discípulos, nao pode deixar de impor a seus fiéis um mínimo de mortificacáo interior; está longe, porém, de acentuar o valor desta,

rin séc. VII) o ideal da teocracia califas um imperio(segunda metade B?£te¿Í5?Ime."tea pa*rtir *? ou de ©"aladas terrestre regido do
pelo poder religioso impregnou a mentalidade do muculmano, levan— 391 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960, qu. 6

do-o a assodar aínda mais estreitamente os conceitos de béncjio divina e de posse dos bens terrestres; sob os Omaiadas, difundiram-se narrativas segundo as quais Maomé teria condenado nao sómente a ascese excessiva, mas até mesmo a conduta daqueles que negligenciam seus interésses temporais para se dedicar a urna piedade absorvente. Nesse quadro de idéias, entende-se que o celibato voluntario
venha a ser condenado.

Assim o Isláo se apresenta como um sistema religioso que, com pilado do paganismo, do Judaismo e do Cristianismo, exprime típica mente a mentalidade de sen fundador e de seus imediatos discípulos, os árabes do deserto, homens de tempera ardente, profundamente religiosos, mas assaz rudes em sua manéira de pensar e de agir. Segundo alguns historiadores contemporáneos, Maomé representa o tipo da religiosidade semita antiga. O semita, dizem tais estudiosos, tende naturalmente a se sujeitar sem hesitacao ao Governador da historia (Deus), como o escravo ao seu senhor; nada faz sem Deus. e nao se julga chamado a corrigir a Providencia Divina; «plantará árvores onde o AUIssimo nao as faz crescer? Ou poupará a sua vida
na

O semita acha

guerra, se a seta que o deve matar o atingirá até na cama?».

da consciéncia: conseqüentemente mentira, cobica, crueldade e volúpia vém a ser, para Maomé e seus fiéis seguidores, coisas que pertencem a vida humana e que nesta nada tém que ver com a religiáo...
determos

como oracdes, locóes, jejuns, esmolas, peregrinacóes...; .realiza isto tudo com seriedade e exatidáo; mas a tempera ardente de seu ánimo nao se debca dominar pelo senso da responsabllldade ou pela voz

natural

que Deus

exija

déle servigos extrínsecos,

2.

Fixados estes pontos, é preciso observar que nao seria justo
nossa atencáo apenas sobre tal aspecto do

Através da historia, a religiáo de Maomé, implantando-se em térras
como no panorama do Islamismo moderno.

Islamismo.

nao árabes, tomou facetas assaz diversas da que acabamos de delinear, facetas que deixaram forte marca na literatura musulmana assim

Analisemos de mais perto éste outro aspecto do maometanismo.

Entre os dizeres mesmos do Profeta, nao faltam os que inculcam a religiáo interior ou o predominio dos bens do espi rito sobre os da carne. Maomé chegou a falar de purificagáo da alma, apresentou a vida presente como «agua que passa e erva que fenece» (Sur. X 25; XIII 18); afirmou a prevaléncia da devocáo interior sobre os sacrificios rituais (Sur. XXII 28). Assim o Coráo era capaz de inspirar nao sómente urna religiáo formalista, mas também urna piedade muito intensa e profunda. Foi o que se deu nos círculos árabes que entraram em contato com sistemas religiosos dos povos vizinhos, em particular com o Cristianismo; criou-se destarte urna auténtica mística musul mana, da qual dois grandes expoentes sao Al-Hallaj (i 922) e AJ-Ghazali (tllll). Especialmente a corrénte dita «sufita» (nome derivado de souf, veste de lá branca que os ascetas

mugulmanos já no séc. VII usavam á semelhanga dos peni

tentes cristáos) dedicou-se ao cultivo da vida interior e da experiencia mística. Infelizmente, porém, a mística mugulmana, em muitos de seus representantes, se associou a conceitos — 392 —

O ISLAMISMO

filosóficos erróneos, ou seja, ao panteísmo e ao monismo: alguns sufitas professaram tal uniáo da alma com Deus que significava identíficagáo dos dois termos; o místico Bistami (f874), por exemplo, em lugar do tradicional brado Sobhan Allah (= Louvor a Deus!), exclamou Sobhani (=Louvor a mim!), porque em si ele nao percebia mais o próprio «eu», mas apenas o «Eu» divino.
3. Na era moderna, alguns círculos islamíticos, principalmente do Egito e da Turquía, foram contaminados por tendencia oposta á mistica, ou seja, pelo liberalismo e o racionalismo. A Turquía maometana, ortodoxa até o inicio déste século, sofreu urna especie de laicizacáo sob o poder de Mustaphá Kemal (1920-1938): proclamou
a separacao do Estado e da religiao, suprimindo o cargo de Califa

turco o Corüo e as oracoes oficiáis.

(ehefe religioso e Cheíe civil ao mesmo tempo); adotou o código civil suico e o código penal italiano, proclamou a.igualdade de direitos do varáo e da mulher e «desarabizou> o seu Isláo, traduzindo para o
O grande problema do Maometanismo atual é o da adaptadlo

de suas instituidles ao ritmo da vida moderna. Pergunta-se se lsto será possivel sem que a religiao de Maomé se desvirtué por completo. Em resposta nao se poderiam propor senáo prognósticos incertos; sómente o tempo íará ver até que ponto o Islamismo é suscetível de acomodacSes que nao sejam traigSes. Entrementes a religiao maometana apresenta um panorama assaz ampio: ao lado da forma ortodoxa ou conservadora (termo de signi ficado talvez .relativo, pois nao há autoridade central que garanta a unidade e a fidelidade do Islamismo a si mesmo), registram-se nume

rosas seitas consideradas heréticas (sunitas, chutas, karigitas, motazilitas, etc.). O conjunto islamftico abránge um total de 400 milhoes de almas, dos quais 380 milhdes vivem na África (80 milhoes) e na Asia (300 milhoes); neste continente o bloco mais denso se acha situado na India e na Indonesia. — A populacáo árabe constituí um grupo de'25 milhóes de almas apenas dentro da familia musulmana.

Embora as estatlstlcas constltuam Índice por vézes assaz precario e deficiente, a titulo de curiosidade seguem-se abaixo algumas cifras que indicam a porcentagem de muculmanos que praticam os diversos

ritos e preceitos de sua religiao em determinada aldeia do Egito (note-se o ámbito restrito da estatística):

Clrcuncisáo
Jejum

OragSo pública da 6' feira Peregrinacáo a Meca «Shahada» ou rito dos agonizantes

85%

40%

70%
15% 90%

— 393 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 33/1960

CORRESPONDENCIA MIÜDA
Jacques Maritain é herético; em particular,...
de l>amennais.

SAINT-EXUPÉRY:

1.)

0 amigo pergunta se o pensador francés

se é liliado aos erros

— Nos últimos anos, urna controversia em torno do nome de Jacques Maritain empoJgou as escolas da Franja, dos Estados Unidos da América, do Canadá e também do Brasil, tomando por vézes caráter apaixonado. Os ánimos tendern a se acalmar, mas os rumores detxaram

"P. K." 25/1960, qu. 1). Em 1906, porém, sob a influencia do escritor Léon Bloy, converteu-se ao Catolicismo, comegando desde cedo urna proEscolástica tal como íoi apresentada por Sao Tomaz de Aquino; tem procurado torná-la viva e presente no mundQ moderno, focalizando, á Juz dos principios aristotéiico-tomistas, as questoes suscitadas pelas ciencias naturais e pelas correntea filosóficas contemporáneas. Em 1914 íoi convidado para lecionar Historia da Filosofía moderna no "Instituí Catholique" de París. Em 1916 tornou-se membro da Aca demia Romana de Sao Tomaz de Aquino. Mais tarde transferiu-se para a América do Norte, regendo cadeiras filosóficas no Instituto de Estudos Medievais da Universidade de Toronto (Canadá) e na de Columbia (U.S.A.). Após a segunda guerra mundial, exerceu por algum tempo o cargo de Embaucador da Franca junto á Santa Sé (tato éste que do seu modo atesta a ortodoxia de Jacques Maritain). No tocante a questoes de Filosofía especulativa, o pensilmente de Maritain nao tem sofrido contestado; deve-se mesmo admirar a clareza

dúvidas na mente de muitos. Vejamos de que se trata própriamente. Jacques Maritain nasceu em J^aris aos 18 de novembio de 1062. Féz-se primeiramente discípulo do filósofo judeu Henri Bergson (cf.

du{áo Literaria até hoje muito fecunda. Maritain íiliou-se & Filosofía

extremistas.

e a precisáo com que ésse autor aborda as mais arduas questoes. Contudo as opinióes dos comentadores se dividem quando consideram a doutrina político-social do filósofo francés, que nao hesitou cm dcscer aos pontos mais debatidos pelas escolas modernas, tomando posiQÓes aparentemente Qual seria entáo a doutrina de Maritain?

Está claro que éste pensador rejeita a comunismo e o socialismo, denunciando o vicio radical de tais sistemas, a saber: a falsa valorizacáo do homem ou um humanismo antropocéntrico, leigo c ateu. Todavía o ideal da futura sociedade crista que Maritain preconiza, apresenta estrutura comunitaria ou "societaria": na medida do possível, o regime do salario deverá ceder ao da co-propriedade; o operario será chamado a participar da gestáo e da directo da respectiva empresa... Tais idéias, filosófico-teológica, dita "Humanismo integral". Conforme éste modo de ver, o mundo presente se encaminha para um novo tipo de "Cidade Crista", diverso do que se realizou na Idade Media. Com efeito, diz o 'filósofo francés, a Idade Media conheceu urna ordem de coisas "sacral", isto é, urna ordem na qual todas as afirmagóes do cidadáo, mesmo as que chamamos "profanas", cstavam impregnadas de caráter religioso ("aprender a ler", por exemplo, era entre os medievais "psalmos discere — aprender os salmos", pois a crianca tomava já como cartilha, para aprender a soletrar, o livro dos Salmos). Pois bem; na sociedade futura as instituicóes profanas se rao realmente con sideradas profanas, mas ao mesmo tempo estarlo subordinadas aos valores sagrados; os valores temporais seráo tidos como finalidades dignas do labor humano (nao como meros instrumentos dos valores eternos), finalidades,, porcm, subalternas e totalmente orientadas em
Maritain as enquadra dentro de urna perspectiva mais ampia, de índole

demanda de um Fim último supremo (Deus e a vida eterna).
— 394 —

CORRESPONDENCIA MIÚDA

Eis/ era poucas palavras, aa conceptees de Maritain que tém pro vocado atitudes de reserva da parte de bons católicos. ■ Diante das dúvidas apresentadas, interessa-nos aqui dizer, apei.as a titulo de esclarecimento (e nao de apología), que o pensamento de Maritain é plenamente compatível com a ortodoxia católica. A fórga de urna ou outra expressáo do filósofo, ¡solada do seu contexto, talvez sugira alguma tese errónea ou herética; contudo, desde que se consideren! no seu respectivo quadro ou á luz de toda a ideología de Maritain, essas

didático para os mais diversos cursos um único livro — um livro de historia sagrada. Hoje em dia a civilizagáo crista, para ser devidamente eficaz no seu programa de levar os homens a Deus, nao cultiva sómente Rcligiáo e temas religiosos, mas dá atengáo também aos fundamentos se explica que na "Cidade de Deus" contemporánea se propugnem atividades e profissóes que estudam psicología, pedagogía, antropología, geo logía...* sem querer dirimir todo e qualquer problema mediante a autoridade da Revelagao sobrenatural (esta ficará sendo, sim, criterio nega tivo impreterível, isto é, criterio que em muitos casos dirá apenas o

expressóes perdem sua ambigüidade e evidenciam-se católicas. Por exomplo, hoje eni dia pode muito bem alguém crer que seria pouco consentáneo com as condigóes concretas da vida moderna querer dar como livro

da Religiáo que sao a natureza humana e os valores déste mundo; assim

que nao é licito afirmar). Em particular, com referencia ao regime de co-propriedade ou de participado dos operarios na gestáo da empresa, deve-se observar que a doutrina social da Igreja está longe de se lhe opor; ela, antes, o favorece desde que corresponda as* conveniencias da populacáo á qual deva ser aplicado. Eis como a respeito se pronunciava o Santo Padre isto fdr possível, mitigar os contratos de trabalho, comhinando-os com os de sociedade, como já se comegou a fazer de diversos modos, com nfio pcquuna vantagom para os operarios e os pairóos. Dcste modo, os ope rarios sao considerados socios no dominio ou na gestáo, ou compartílham nos lucros". Quanto ao receio de que Maritain seja um continuador das idéias heréticas de Lamennais, é váo. Felicité de Lamennais (t 1854) tornou-se no século passado o que se charnava "um católico liberal", propugnando absoluta independencia das atividades políticas cm relagáo á Religiáo, assim como a necessidade de separar Igreja e Estado; morreu como socialista e livre-pensador, fora da comunháo da Igreja. Maritain, ao contrario, professa explícitamente a subordinagáo da "Cidade dos homens" á "Cidade de Deus". Está claro que ninguém é obrigado a compartilhar as idéias polítieo-

Pió XI na famosa encíclica "Quadragesimo anno": "Julgamos que ñas presentes condigóes sociais é preferivel, onde

escreveu nesse setor, é de valor incontestável.

-sociais désse filósofo. Quem, porcm, délas discorde, aínda pode, com imensa vantagem, apreender as mais puras e sabias lie.oes da Verdade ñas obras de Filosofía especulativa désse pensador. O que Maritain

2) A respeito do mal no mundo e da Bcndade Divina, veja "P. R." 5/1957, qu. 1; 32/1960, qu. 3.

tém o direito á vida sobrenatural, independentemente do credo que pro-

ZÉ (Aparecida): O amigo interroga a respeito da condüta de cidadáos magons em atos de Liturgia da Igreja. Responderemos distinguindo. É desejável que país magons mandem batizar seus filhos na Igreja, desde que nao se oponham á educagáo católica dos mesmos. As crianzas

fessem seus genitores. É evidente, porém, que um niagon nao pode ser padrinho de Batismo, pois isto implica em compromisso de prever á

— 395 —

«P. R.» 33/1960 — CORRESPONDENCIA MIÚDA educacáo católica do afilhado, compromisso que o macón coercntementc
nao pode assumir.

O macón que queira ir á igreja e assistir a Santa Missa, pode fazé-lo, desde que nao perturbe os fiéis nem tenha intencáo malvada. É de crer que quem vai a igreja, vai rezar (a menos que o contrario, eni tal ou tal caso, seja evidente.); ora nao lícito impedir o próximo de procurar
tranquilamente a Deus na oragáo. A rigor, os macons também podem mandar celebrar a Sta. Missa em favor de outrem ou de si mesmos (até cm datas de bodas de prata ou de ouvo). A menos que conste do contrario,

presume-se que quem manda celebrar a Sta. Missa procura de certo modo o favor ou a ben^áo de Deus. O sacerdote celebrante, porém, deverá

tomar todo o cuidado para que o ato religioso assim realizado nao insinué de algum modo aprovagáo da ideología maconica ou da conduta pessoal dos adeptos da magonaria. Nao há dúvida, será difícil evitar esta poasível conseqüéncia, assim como os mal-entendidos e equívocos; dai recomen darse toda a prudencia em tais casos. A Sta. Missa celebrada em favor de macons visará pedir a conversáo dessas almas.
CURIOSO (Alegre, Espirito Santo): A uncáo dos docntes pode ser reiterada no decurso da mesma molestia, caso o paciente, tendo escapado de grave crise (com perigo de morte), recaia noutra; ou caso sobrevenha aleuma complicarlo patológica derivada de outra origem (urna pneumonía, por exemplo, juntando-se a urna crise cardíaca). Nao dispondo de espaco na revista, sem demora responderíamos por carta as sete outras perguntas de V. S. se soubéssemos o respectivo enderégo. KLE1NBERG (Porto Alegre): Assunto muito atual. Queira aguar dar resposta no número de novembro de "P. R.".

FERREIRA (Pinhal): V. S. encontrará os devidos esclarecimentos nos opúsculos de Frei Boaventura Kloppenburg (Ed. Vozes de Petrópolis, Caixa postal 23, Petrópolis, R. J.), ou no livro de Palmes: Metapsfquica c Espiritismo (mesma Editora). MARIANO (Sao Paulo): Enquanto nao lhe podemos satisfazer de outro modo, muito lhe recomendamos, no tocante aos mandamentos da Lei de Deus, a leitura do "Catecismo Católico" (Ed. Herder, Sao Paulo), págs. 189-246.
P. S.: Avisamos a nossos lcitores que saiu nova edicáo do "Plano para ler a Sagrada Escritura": consta de fichas que distribuem os diversos livros da Biblia (a razio de tres capítulos por día aproximada mente) para a leitura cotidiana da Escritura Sagrada, de modo que cm um ano esteja assegurada a leitura de toda a Biblia (excetuados os Salmos e os Evangelhos, que sao de uso freqüente). Prego: Cr$ 30,00. Os pedidos podem ser enviados a qualquer dos dois endereces abaixo.

indicados.

D. ESTÉVAO BETTENCOURT O. S. B.

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«P.R.» 20/1959 qu. 2 e 3)

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