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Imigração e diferença em um estado do sul do Brasil: o caso do Paraná Texto de: Márcio de Oliveira (Doutor em Sociologia e Professor da Universidade Federal

do Paraná (UFPR), Brasi).[18/05/2007]

Entre 1993 e 1997, a cidade de Curitiba viu seu número de parques e bosques públicos crescer de 15 para 22, em um aumento de quase 50%. Destes espaços públicos inaugurados pela prefeitura da cidade, três parques foram dedicados a comunidades étnicas de imigrantes, a saber: Bosque Alemão, Bosque de Portugal e Parque Tingui, destinados respectivamente às comunidades de imigrantes alemães, portugueses e ucranianos (Oliveira, 1996). O “Instituto de Pesquisa da Afrodescendência” (IPAD), com sede em Curitiba, observou que, em meio àquela ação coordenada de homenagens aos grupos de imigrantes, nenhum parque, bosque ou simples praça havia sido destinado à presença negra na cidade ou no estado. A resposta não oficial da prefeitura foi: a população negra não havia sido importante na história da cidade. Esta afirmação poderia ser considerada fruto de um julgamento parcial (ou mesmo discriminatório) não fosse o conteúdo histórico e científico do qual se revestia. De fato, nos estudos sobre a história social do estado, várias teses lastreiam o julgamento feito. Vejamos. A imagem de 1º) um “Brasil mais europeu” uma vez que a sociedade paranaense era “semelhante a que se encontrava no resto do Brasil, mas não era idêntica”, porque fruto de um “laboratório étnico” que havia transformado a sociedade luso-brasileira (Wachowicz, 2001: 145159), 2º) de uma região onde o “paranaense sentiu que estava construindo para o Brasil uma versão diferente de seus estilos mais conhecidos e divulgados” (Pinheiro Machado, 1969: 19), entre outras, são comuns e revelam uma história social vivida e percebida como particular, porque assentada na noção de comunidade, de sua permanência e desenvolvimento através do tempo, processo que teria desembocado numa “nova identidade étnica”. Ainda que estas imagens sejam questionadas - é “como se, no Paraná, a “mancha da escravidão” e mesmo da colonização portuguesa tivessem sido apagadas" (Andreazza e Nadalin, 1994: 62) - reconhece-se que neste “raciocínio simplista e ingênuo, recuperamos e reiteramos aspectos da ideologia imigratória do século XIX...”. De fato, desde o final do século XIX, escritores “simbolistas” e membros da elite intelectual e política paranaense começam a produzir, através de discursos, textos literários e estudos históricos, imagens e metáforas sobre a identidade social e cultural do estado cujo fundamento étnico se assentava na figura “branca” do imigrante não-português de origem européia, e cujo fundamento social residia na presumível particularidade paranaense em relação às demais regiões do Brasil. Essas imagens e metáforas utilizadas na apresentação da versão acima eram encontradas em trabalhos de caráter historiográfico cuja temática geral era a história e/ou a sociedade do estado do Paraná. Nos anos 1920, surge o paranismo, movimento intelectual e político que, secundando aquela primeira geração republicana, manteve a trajetória de invenção de uma história e de uma sociedade para o plano local baseada em uma visão “branca” e particular da sociedade e do próprio estado do Paraná. Como um todo, estas primeiras imagens apresentavam, ainda que de maneira não calculada, uma relação de proximidade com outros movimentos regionais de valorização das identidades locais,

como também de consagração dos grupos que a produziram (Bourdieu. (re)produzidas e difundidas por membros da elite política e intelectual paranaense durante toda primeira metade do século XX. impulsionadas por uma forte atividade comercial (atacadista e varejista) e exportadora. Notamos. as primeiras colônias. com a lenta diminuição e o fim do tráfico (Lei Eusébio de Queirós. Denominamos inicialmente esse processo histórico não orquestrado de “produção de imagens da diferença”. qual é o lastro econômico. porque a forte presença do imigrante europeu – sobretudo a partir da década de 1870 – teria modificado substancialmente o perfil populacional do estado. talvez tenham produzido o “mito de um Brasil diferente”. o estado do Paraná. quando são fundadas. desde os tempos coloniais. parte considerável da . tornando o Paraná “diferente”. demográfico e étnico dessas imagens? O que elas revelam em relação ao campo intelectual e político e qual seu papel na construção/invenção da supostamente diferente história social paranaense? Imigração no Paraná Terra de tardia ocupação e expansão demográfica. a parcela sul do território brasileiro seria uma região social e culturalmente diferente das outras regiões do país. 1969).. porque sua economia. basicamente por três razões. Wachowicz. mas funcionam como uma espécie de mito que (re)cria um certo “imaginário do sul”. social. RS). durante as décadas de 1950 e de 1960 (Balhanaet al. contudo. 1989). 1969. Numa palavra. 2002).existentes em outros estados do Brasil. Em terceiro. O início da imigração para os estados do sul do Brasil data da década de 1820. Segundo Nadalin (2001). porque não teria consolidado o padrão clássico da sociedade luso-brasileira que gravita em torno de relações senhoriais. SC) Rio Negro (divisa entre os estados de SC e Paraná. Aproximavam-se ainda do pensamento social construtor da cultura e da identidade nacional da primeira metade do século XX. Segundo este. As indústrias da madeira e da erva-mate apresentavam uma estrutura relativamente tecnológica e concorrencial. A publicação do livro Um Brasil diferente (Martins. Primeiro. esteve assentada sobre bases capitalistas. são mais que parte de um processo de produção de crenças. mas sim através da afirmação da diferença das comunidades de imigrantes formadoras da sociedade local e de sua trajetória de integração/transformação da sociedade luso-brasileira. foi descrito como “diferente”. cum grano salis: a regionalidade era apresentada não por diluição ou justaposição no todo nacional. sua cultura e suas relações sociais. se aquelas imagens não são o atestado de um “Brasil diferente”. do grande latifúndio e da monocultura de exportação. PR) e de São Leopoldo (Rio Grande do Sul. por grupos de alemães. 1850) e com a elevação do preço do café e sua expansão no estado de São Paulo. Em segundo lugar. com forte impacto sobre textos acadêmicos e escolares. conjugando trabalhadores livres (os “jornaleiros” que colhiam a erva-mate) e escravos (alguns desses também assalariados). que essas imagens. onde se afirma que a imigração de origem européia constitui o principal lastro da formação social e cultural do estado. nas atuais cidades de Itajaí (Santa Catarina. Contudo. mas também sobre o imaginário local. pode ser considerada tanto como o ápice desta trajetória de invenção de uma identidade nãoportuguesa.

população escrava paranaense é vendida para cafeicultores paulistas. Em 1861 e.. A título de exemplo. neste momento. está presente a idéia de “promover a imigração de colonos morigerados e laboriosos”. deveria proceder “por meio da venda de terras devolutas” (Relatório de 1857 apud Balhanaetall. As conseqüências dessas mudanças se fariam sentir também no ordenamento jurídico da sociedade paranaense. Pereira. a população imigrante residindo em Curitiba já era de 1. a câmara de Curitiba proibia o trabalho escravo nas lojas comerciais. parte dos imigrantes que viviam em colônias começa a migrar para as cidades (por exemplo. imigrantes alemães da colônia Dona Francisca. As imagens em torno do caráter benéfico do “imigrante trabalhador” em oposição ao escravo em vias de “desaparecimento” surgem neste momento e.. em 1872. e Adolfo Lamenha Lins. produção agrícola em pequenas propriedades e trabalho livre. 65). afirmava-se que se o governo desejasse promover a “colonização”. Embora. 1969: 161). reconhecia-se que “hoje (. Data daqui. ao final da presidência de Abranches. Magnus Pereira (1996: 58/59) afirma que a venda de escravos para São Paulo teria sido tão importante que o próprio perfil demográfico da região se altera.] onde o europeu se depara com um clima análogo ao de país natal. pode-se ler no “Relatório do Presidente da Província”. provocando uma relativa crise de abastecimento agrícola. 150 km a oeste de . Os imigrantes eram preferidos aos escravos (que deveriam ser “superados”) e mesmo aos nacionais de “classes baixas” (M. a preocupação era de “salvarmos a Província do estado da decadência a que chegou sua agricultura”. todas elas eram fruto de iniciativas particulares: Colônia Theresa (próximo ao Rio Ivaí. apresentam-se dados sobre as principais colônias. 18731875. No Relatório de 1872 (p. No Relatório apresentado pelo Vicepresidente da Província de 1857. foram de fato os Presidentes Frederico de Araújo Abranches. atual Joinville. ou seja. 1996: 85-87). muito provavelmente. A título de exemplo. entre a emancipação (1853) e o fim do governo imperial (1889). 1994). ainda em período escravocrata. 22).) a salutar lei de emancipação dos escravos nos colocou na dependência do braço europeu”. a política de imigração sustentou-se invariavelmente no tripé ocupação dos vazios demográficos.” No Relatório do Presidente de 1855 (p.. que dever-se-ia “encher de população ativa o vasto território [. As primeiras iniciativas paranaenses para promover a imigração estabelecem como objetivo atrair uma população rural e trabalhadora (“morigerada e laboriosa”) com o objetivo de abastecer a “província” de gêneros alimentícios. o nascimento da associação positiva entre imigrante e trabalho. onde procuravam se assalariar nos mais diversos trabalhos ou mesmo montar estabelecimentos comerciais próprios. No Relatório de 1875 (p. SC. 21). ano de 1854 (p. portanto. Durante o período analisado acima (1854-77). uma vez que eram eles os trabalhadores rurais. quem mais efetivamente se empenharam em relação à política de imigração e de colonização. Adicione-se a isto que. afirma que o percentual da população curitibana escrava em 1850 (antes mesmo do grande fluxo imigratório e no momento da Lei Eusébio) já seria de apenas 8%. Nota-se inicialmente que até a década de 1860.339 indivíduos ou 11% do total. 62).. de bons costumes e trabalhadores. deve-se reconhecer que durante todo esse período. a província tenha conhecido nada menos que 41 presidentes. conferindo-lhe uma característica distinta da imigração paulista: a colonização (Andreazza e Nadalin.. Conforme se pode ler no Relatório de 1875. 1875-77. em direção a Curitiba).

“dividir bem lotes”. Não há informações sobre o número de imigrantes. 1969: 174-176). fugindo do alistamento militar obrigatório que lhes fora recentemente imposto (Balhana. somente 3. marcando o fim . devido a uma série de dificuldades que não podemos desenvolver aqui. franceses.Curitiba). Em 1877. O objetivo aqui era dinamizar a economia desta região. Pedro em Curitiba. dizer a verdade aos colonos “sobre a nova pátria”. entre outras (Relatório de 1876. “facilitar-lhe o transporte”. região metropolitana de Curitiba). 70 italianos. Lamenha Lins ressalta ainda o aspecto “florescente” da colônia “do rocio da capital” com já mais de “dois mil habitantes” estrangeiros. Faivre com 87 franceses. 49 alemães e 5 espanhóis). haveria 21 colônias que se instalaram em localidades próximas a Curitiba. contribuindo para a consolidação da imagem positiva sobre a imigração. chegam ao Paraná os primeiros imigrantes russos (ou “alemães do Volga”). apresentando sinais de decadência devido ao isolamento. Em seu Relatório (anual) de 1876. 78-79). O número de lotes rurais variava de colônia para colônia em função do número de imigrantes sendo que seu tamanho médio era de 25 hectares por família. em seu Relatório de 1876 reconhece que a província apresenta condições adequadas à imigração. O Relatório de 1875 apresenta ainda dados sobre imigrantes que estariam se instalando em regiões próximas (hoje bairros) à cidade de Curitiba. fundada pelo suíço Carlos Perret Gentil em 1852 com 85 imigrantes suíços e franceses. fundada em 1860 pelo governo da província com ajuda do governo imperial. São Venâncio e B. que se encontrava em relativa decadência econômica. É taxativo ao afirmar que o “progresso e bem-estar” eram frutos da política de imigração que havia implantado “com a aprovação do governo imperial” (p. Os grupos de imigrantes eram principalmente de poloneses. reconhecendo nas últimas inúmeras vantagens. principalmente.809 imigrantes desembarcaram no Paraná e apenas 50% deles permaneceram. ingleses e suíços estavam sempre em menor número. A colônia de Assungui (atual município de Cerro Azul. no primeiro movimento de migração interna no interior o estado. Superagui (atual município de Guaraqueçaba.295 para a colônia Tomaz Coelho (atual município de Araucária. litoral norte do estado). mas apenas sobre os nomes das colônias: Rocio da Capital. com pico de 1. alemães e italianos. Cachery (atual bairro Bacacheri). O governo provincial demarcou lotes e contribuiu financeiramente com o transporte. Lamenha Lins. contava então com apenas 308 habitantes estrangeiros (sendo 110 franceses. mas que “para isto” era necessário dispor-se dos “meios próprios” e. por exemplo) com aquelas próximas a Curitiba. 74 suíços. Abranches (atual bairro Abranches). O Relatório de 1876 compara ainda as colônias mais distantes (Assungui. 120 km a oeste de Curitiba). O fracasso dessa iniciativa repercutiu negativamente tanto no Brasil quanto na Europa. 79). Segundo Balhanaet al. fundada pelo médico francês João M. Contudo. que havia prosperado enquanto viveu seu fundador. p. Estava em situação de isolamento embora fosse considerado “o melhor estabelecimento deste gênero que conta a província” (Relatório de 1875. “evitar que o imigrante sofra vexames”. encontrava-se também em decadência. Ao total. destinados à região dos “campos gerais” (atual município de Ponta Grossa. inicialmente ocupada por 949 imigrantes. região metropolitana de Curitiba) e um mínimo de 98 para a colônia de D. O número médio de imigrantes por colônia era de 300 indivíduos. estaria previsto que o número de imigrantes. p. giraria em torno de 20 mil. 24). (1969).

9) e. 29). apenas 5. assinado pelo Presidente Miranda Ribeiro a 30 de junho (p. lote e alguma ajuda para manutenção nos primeiros meses. Nesta década o número de imigrantes para o estado foi de apenas 2. quando a política oficial de incentivo já havia acabado.256 poloneses imigrantes chegaram ao Paraná (R.537 imigrantes que teria se instalado no estado entre 1829 e 1911. porém. Durante a década de 1880. A política oficial de incentivo durara até 1896 e consistira no subsídio para o custeio da passagem a partir do país de origem. portanto logo após a abolição da escravidão. Contudo. apresentando. Onze destas foram criadas em Curitiba entre 1885 e 1886. não se cogita mais reeditar os antigos benefícios. 1969: 177-81). Andreazza e Nadalin (1994: 65) apresentam um número final de 85. 1890-96 e 1907-14. 1941: 64-65). Gluchowski (2005: 42-44.030 imigrantes poloneses. que os fluxos de imigrantes para o Paraná não teriam sido muito influenciados pelas políticas oficiais provinciais. Martins.de uma primeira etapa das políticas oficiais de imigração (Balhanaet al. No Relatório de 1888. enquanto Martins (1941: 67) contabiliza 55. como por exemplo. em especial Curitiba.047 imigrantes teriam aportado no Paraná.769 contra 12. 383. um número final de 48. enquanto que apenas para o período compreendido entre 1890 e 1900 (também chamado de período da “febre imigratória”). Gluchowski(2005: 45) chega a um número final de 41. destinada a tonificar o organismo nacional abastardo por vícios de origem e pelo contato que teve com a escravidão”. conforme se pode ler no Relatório (anual) de 29 de dezembro de 1888 (p. Tratava-se então de “fator étnico de primeira ordem. o número total de imigrantes poloneses teria sido . À idéia de colonização.042 imigrantes. A primeira década republicana (1890-1900) apresentou uma nova dinâmica imigratória. transporte para o local da colônia. Apesar da experiência negativa com os “alemães do Volga”. Sobre a imigração polonesa. a atuação do governo provincial limitou-se a apoiar a criação de associações de imigração.500 na década de 1870. reconhecia-se um novo papel para a imigração. 26). enquanto que no ano anterior (1887). o fim da escravidão parecia lembrar às elites locais que o país herdara certos “vícios de origem” que o imigrante poderia corrigir. entre 1871 e 1887. apenas o lote deveria ser vendido por “preço módico e a longo prazo” (ou seja. Segundo o Relatório (anual) de 1901. o que modificaria um pouco a idéia inicial de colonização de todo o território do estado. Os dados apresentados merecem um comentário. para a construção da estrada de ferro ligando o litoral (Paranaguá) a Curitiba. chegaram à Província 7. Não há dúvida sobre os períodos mais intensos da imigração. É possível explicar essa nova preocupação pela diminuição do número de imigrantes contabilizados para aquele ano de 1888. Seja como for. época do apoio oficial. o número havia sido de 801 indivíduos. A preocupação com a imigração assumiu novas feições nos anos imediatamente anteriores à abolição da escravidão (1888). depreendese. em 1901. A partir de 1896. Disseminou-se então um sentimento de que nem todo imigrante era capaz de adaptar-se (as primeiras imagens negativas sobre os imigrantes datam desta época e se referem basicamente aos “alemães do Volga”) e de que as colônias melhor sucedidas tinham um ponto em comum: a proximidade com os núcleos urbanos. em hipótese. 53. os números são relativamente confusos. por exemplo.. De fato.131 (uma diferença de quase 7 mil imigrantes). seria acrescentado ainda o desejo de trazer imigrantes para o trabalho nas grandes obras públicas.646 para o período compreendido entre 1871 e 1914.) afirma que entre 1871 e 1889. financiado) (p.

como visto. realizada por um dos “fundadores” do paranismo.de 20. o “Paraná. contra os alísios. por conseguinte. A primeira particularidade (estendida ao próprio estado) liga-se ao clima da cidade de Curitiba. Vários são os mapas que organizou (“Alguns mapas do século XVII ao XIX”) e trabalhos historiográficos que escreveu (sobre as fundações de Curitiba e Paranaguá e sobre o próprio estado. contra os que querem modelar todos os brasileiros segundo um mesmo padrão: clima temperado contra sol tórrido. o imigrante. Não é também o “mulato”.no seio do qual surge o conjunto de metáforas e representações que denominamos de “imagens da diferença”. um estado com população predominantemente branca e com majoritária influência européia” (Wachowicz. segundo ele ainda mal definidos. Geográfico e Etnográfico do Paraná (1900).286 apenas entre os anos de 1890 e 1894) e de 15. os pomares em flores e florestas virgens”. contudo. Romário Martins. O processo de diferenciação não se esgotava na dimensão climática. 2001: 159). Contudo. a atuação de Romário foi decisiva. mas também de autenticamente brasileiro. em 1899. Desde a publicação. uma constatação: a imigração teria tornado a sociedade paranaense moderna. como se poderia supor. (Bastide.730 para o período entre 1900 e 1914. Ao final. Bega (2002) afirma que o personagem central da identidade regional “inventada” pelos simbolistas paranaenses não é. o que lhe teria valido convite para ser membro de vários institutos históricos estaduais. Paranismo e diferença Entre 1854 (emancipação do Paraná) e o final do século XIX. portanto. em apenas um momento foi produzida uma imagem negativa do imigrante. uma tomada de consciência literária do que o Paraná apresenta de específico.Do “caboclo” ao resgate e a revalorização do papel do “imigrante”. considerado também o “criador” da história regional do Paraná. 1980: 212). Ator de primeira ordem na fundação do Instituto Histórico. seu trabalho se dirigiu também ao estudo dos limites do estado do Paraná. e ao relevo ondulado de suas montanhas. o que aproximaria os escritores locais do “clima” da matriz simbolista parisiense. consolidando sua imagem de historiador. é descrito como um simbolismo particular. foi especialmente vigoroso no Paraná e. considerado frio e europeu. Bastide (1980) encontra aí uma clara manifestação da diferença do sul: “O Simbolismo do Paraná é também a primeira manifestação de um “Brasil diferente” contra o Brasil tropical. O episódio da guerra do Contestado (1912-16) é um ótimo exemplo do processo de “invenção” do Paraná. de seu “História do Paraná”. combinando então com a elaboração/invenção da “primeira” história do estado. bruma esbranquiçada e geada. minuano gelado do Sul. “O Paraná antigo e moderno”). mas sim o “caboclo” que estaria sendo formado pela miscigenação das diversas correntes imigratórias com a população tradicional. tendo como pano de fundo a caracterização do estado e da sociedade paranaense – o Simbolismo .386 (14. é no final deste período que surge um movimento social e literário. em especial devido ao fato de ter sido descrito/eleito pelos paranistas como o momento de afirmação da identidade apesar da . O Simbolismo. embora tendo representantes em vários estados. tudo seria uma questão do lento processo de expansão demográfica e “nacionalização” dos imigrantes.

inclusive com quadros. o que denunciaria a especificidade local em relação ao contexto nacional. gravuras. um grupo de intelectuais e artistas (sobretudo pintores) teria trabalhado com o claro objetivo de “inventar o Paraná. Afirma ainda que uma “das principais preocupações de tal movimento se dará em relação ao verdadeiro xadrez étnico presente no estado pelo incentivo à imigração”. a comemoração do centenário da emancipação do estado (1953) e o livroUm Brasil diferente. trabalhando o tema da imigração. seja por ambos. Luiz Pereira (1996: 75) afirma que. associados ainda à questão do clima. iluminação pública.derrota militar. Esse processo.promovidas pelas novas elites curitibanas ligadas à industrialização e à comercialização do mate e da madeira (Andreazza & Trindade. Romário passou à dimensão social e cultural. quando ocorre o resgate do papel do imigrante. Suas origens remontam ao federalismo republicano das duas primeiras décadas da República (1890-1910) e às transformações econômicas e tecnológicas . o conhecido episódio do “Cerco da Lapa”. sem dúvida. a pinha. É basicamente esta tese que seria retomada peloMovimento Paranista nos anos 1920 e 1930. 1994) . pinturas sobre temas naturais. Trata-se de um movimento intelectual relativamente organizado de busca da identidade regional. O exemplo emblemático da trajetória dessa busca de identidade que desembocou na consolidação do papel do imigrante na história social local é. de Wilson Martins. Tratava-se de uma nova interpretação da história e do papel de imigrante. seja pela vontade de construção de uma identidade assentada nos valores. Em “História do Paraná” (1995). mas o teria dotado de um sentido de comunidade .expansão da rede ferroviária. emblemas. 2001). clima. de progresso e de trabalho que estavam ligados ao imigrante europeu. Seja pela evidência demográfica. etc. povo e trajetória – que seria então representada plástica e literariamente. ocorridas na região de Curitiba e litoral (Brandão. A crença nessa “diferença” modularia a “reescritura” (inventiva) de outros momentos da história do estado como. devido à enorme contribuição das obras de arte (desenhos. reunidos em torno de Romário.terra. bondes elétricos etc. Da dimensão histórica. criando um sentimento de pertença a uma terra que até então não possuía sequer a garantia física de seu território”. mas que tinha por base a incorporação social do elemento imigrante não-português. dotando-o de uma dimensão estética inesperada e duradoura. por exemplo. que se convencionou chamar de estilo paranista de arte. Era igualmente o anúncio informal da tese da diferença cultural e social do Paraná – o “Brasil diferente” – amparada por uma análise que conjugava dados históricos. o pinhão. o pinheiro. tão comuns à época. brasões etc. Romário afirma que o “xadrez étnico” local foi se constituindo de uma maneira distinta em relação ao resto do país. Uma primeira hipótese é que o movimento não apenas teria produzido uma identidade histórico-social para o estado. O “Brasil diferente” . consagraria definitivamente o termo paranismo.). a realidade do estado começa a ser pensada a partir da idéia do amálgama entre os diversos grupos imigrantes (agora reavaliados todos positivamente) e a população tradicional. demográficos e étnicos.

uma vez “que já não há „estrangeiros‟ no Paraná. mas não para todas. Aí residia a diferença. 1989: 5). pelo menos. com especial enfoque sobre os temas da identidade social e da imigração. 2006). em relação ao padrão freyriano da formação social brasileira. à exceção. O autor conclui dizendo que os estudos de Freyre valeriam para algumas regiões do Brasil. Estudar esses processos era necessário porque. Neste período. são inauguradas na cidade de Curitiba. se em termos demográficos o imigrante polonês foi o mais numeroso. o elemento imigrante. De um lado. Wilson Martins. é crítico literário reconhecido e professor da Universidade do Paraná. a renda ou a concentração populacional. desde o final dos anos 1930. de Wilson Martins. período em que é publicado o livro Um Brasil diferente. . Para Martins (1989). para o sul do Brasil. A ambição era realizar. ele assinala. Martins (1989) colocou sobre os ombros do imigrante alemão e seus descendentes a principal influência exercida na constituição da diferença. De outro. em resumo. no Paraná havia se formado um novo homem. duas importantes instituições dedicadas à arte. 1948) e o Salão Paranaense (1944). granjeando ao tema da “diferença” uma aura de cientificidade não esperada. dos que chegaram por último: há o homem paranaense” (Martins. mas nos “estados do sul”. ambas ligadas à secretaria estadual.] (Bega. Com efeito. naturalmente. Era o imigrante. segundo Martins. em Curitiba. não apenas no Paraná. aquilo que o mestre pernambucano havia realizado para o país como um todo em Casa Grande & Senzala. embora gerado no seio de um movimento intelectual cujas origens remontam ao final do século XIX e mesmo que ele possa ser ancorado no movimento paranista. As teses do “Brasil diferente” poderiam ser pensadas como uma “diferença regional”. examinando agora as particularidades criadas pela forte presença do imigrante. a Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP. uma espécie de mestiço “euro-brasileiro de segunda e terceira gerações. havia. A obra. reside aqui sua principal fraqueza porque a suposta diferença era bem seletiva quando se tratava de sua principal inspiração. o grupo herdeiro do espólio deixado por Romário Martins. A revista de literatura e arte Joachim completa a ante-sala do cenário artístico para os anos 1950.. Contudo. estava-se diante de duas formações sociais: uma englobando os estados do sul mais o estado de São Paulo e outra para o “resto” do Brasil.Nos anos 1940. tinha sentido e plano claros. dois grupos disputam o legado do paranismo. “construir a identidade paranaense não por sua similaridade ao nacional. compreender os processos de aculturação dos elementos europeus não-portugueses em terras do sul. mas pelo que tem de peculiar [. não importando como seria recebida. seja. quando da publicação de Um Brasil diferente. O país estava cindido e o critério de corte não era o desenvolvimento.. Contudo. Urgia completar o quadro da formação social brasileira. Ambos os grupos podem ser considerados paranistas e igualmente buscavam. Um Brasil diferente é um livro que. Dados empíricos permitiram apresentar esta nova versão da história do Paraná de maneira “científica”. A inspiração era a obra maior de Gilberto Freyre. 1989: 6). representado pela figura de Walfrido Piloto. está amparado por fontes históricas e por uma criteriosa utilização dos dados dos fluxos migratórios. seja em relação à história do açúcar. a urbanização. duas “zonas de colonização” no Brasil: uma nacional e outra de “predominância estrangeira”. dentre os quais se incluiria também o estado de São Paulo (Martins. isto é. De fato. Wilson Martins e Temístocles Linhares.

o maior progresso econômico dos estados do sul do Brasil. sobretudo. Curitiba: SEED/PR. festas. pode ser considerada a consolidação de uma certa visão da história social do Paraná. e Trindade. Os estudos históricos (Balhanaet al.A título de exemplo. mais do que grupos sociais colonizadores. O resgate da história da imigração e das imagens desse processo talvez seja hoje o caminho para compreender a produção local dessa diferente versão de velhas questões raciais e mesmo do tema da identidade nacional. Bibliografia Andreazza. 2005). de Curitiba. Wachowicz. portanto. hábitos. ancorada no duplo processo de produção e de consagração da imagem da diferença (Bourdieu: 2002). “diferente”. enquanto que à presença alemã são dedicadas 25 páginas (192213). sobretudo. a “diferença” ou a sensação de “diferença” também se manifesta.a combinação de ambos? . ao imigrante polonês é dedicada apenas uma única página (191-192) (Oliveira. Estes fatos consensuais seriam utilizados para explicar não apenas diferenças culturais (comida. .. embora essencial. os fluxos migratórios e o clima .M. Conclusão A imagem do “Brasil diferente”. 2001). 1984). Cultura e educação no Paraná. parecia novamente parte de uma engrenagem de invenção de tradições (Hobsbawn& Ranger. giram em torno e autorizam alguns fatos de base sobre os quais teceu-se um consenso que convém explorar. forte impacto do imigrante e seus descendentes nas estruturas econômico-sociais do estado. etc. etc. E. revelam em relação à questão racial no país: o Paraná é ou simplesmente teria se tornado “branco” e.autorizavam (ainda autorizam?) as teses sobre a “diferença”. 1969. eis a hipótese que lentamente estamos desenvolvendo. com leves variações. Em outros campos da vida social (administração pública. etc. Nadalin. 1969. queiram ou não. valem pela visibilidade que. música clássica. Aparentemente.) do Paraná e. planejamento urbano etc) e cultural (teatro. O imigrante e seus descendentes. L. sem distinção (à exceção do estado de São Paulo). De certa forma. mas. a crença na existência de um “Brasil diferente” vem funcionando como um “mito de um Brasil diferente” ou seja. C (2001). numa quase reedição das explicações raciais de meados do século XIX e princípios do século XX. O imigrante. M. criada nos anos 1950. variação no padrão cultural do estado e da cidade de Curitiba em relação ao “Brasil tradicional”. em relação à média nacional.). São eles: baixo percentual de negros na população. como uma espécie de narrativa das origens que centraliza suas atenções nos aspectos supostamente diferenciadores da cultura local.

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