Friedrich Nietzsche

100 aforismos sobre o amor e a morte
Seleção e tradução de

paulo césar de souza

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As coisas que chamamos de amor O que se pode prometer Amor e justiça Liberalidade proibida Uma doença masculina Uma espécie de ciúme Suspiros diversos Um elemento do amor A unidade de lugar e o drama Não há repouso no amor Casamento estável Natureza de Proteu Amar e ter Máscaras O casamento como uma longa conversa Sonhos de garotas Sem rivais O intelecto feminino Os míopes se apaixonam Mulheres com ódio Amor Quem sofre mais? Do futuro do casamento Próximo demais Sacrifício voluntário 9 11 12 12 12 13 13 13 13 13 14 14 14 15 15 15 16 16 17 17 18 18 18 20 20 . 5. 14. 20. 2.Sumário 1. 17. 3. 10. 15. 6. 8. 21. 25. 23. 13. 12. 16. 24. 11. 7. 9. 22. 19. 4. 18.

43. 35. 50. 46. 45. 42. 40. 52. 49. 58. 34.26. 27. 28. 47. 60. 55. 33. 53. 32. 39. 54. 57. 44. 56. 41. 51. 48. 37. 30. 29. 31. Amor e ódio Amor e reverência O amor como artifício O engano no amor Amor e dualidade “Amor” O cristianismo realizado O que liga e o que separa Duas fontes de bondade O espírito das mulheres Cruel pensamento do amor A fonte do grande amor Vantagem da privação Um atestado de amor O valor da crença em paixões sobre-humanas Pensar mal é tornar mau Uma sugestão “Não egoísta!” Aqui há novos ideais a inventar Em que nos tornamos artistas Temor e amor Amostra de reflexão antes do casamento A mais perigosa desaprendizagem Amor e veracidade Contra o esbanjamento do amor Seduzir para o amor “O amor torna igual” Amor As mães A cor das paixões Sem vaidade É preciso aprender a amar Como cada sexo tem seu preconceito em relação ao amor [O amor a um único ser] [Até onde vai a sexualidade] 21 21 21 22 22 23 23 24 25 25 25 25 26 26 26 27 29 29 29 30 30 31 31 31 32 32 33 33 33 34 35 35 36 38 38 . 38. 59. 36.

62. 65. 71. 68. [O que está no fundo vem à tona] [Diferente ritmo dos afetos] [Jogadora medíocre] [A vontade de superar um afeto] [Quando a sensualidade precipita o amor] [Na vingança e no amor] [A frase mais pudica que jamais ouvi] [Quando uma mulher tem inclinações eruditas] [Comparando o homem e a mulher] De antigas novelas florentinas [O que se faz por amor] [O que o amor evidencia] [Eros envenenado] [Amor ao desejo] [O conhecimento do amor] [Uma concepção filosófica do amor] [Budismo. 87. 79. 85. 69. 84. 66. 94. 72. 67. 88. 91. 82.61. 63. 80. 92. 89. 73. 64. 74. 77. 90. 93. 70. 95. 75. cristianismo e amor] [Pureza ou impureza do corpo] [O amor ao próximo e o cultivo de si] [A guerra dos sexos] O ancião e a morte Impedimento do suicídio A família do suicida Não importa como se morre Depois da morte Na noite Novos atores A morte racional Morte O duelo Nem tão importante assim Santa crueldade Sub specie aeterni O pensamento da morte [Como se despedir da vida] 38 38 38 39 39 39 39 40 40 40 40 41 41 41 41 43 45 47 49 49 52 53 53 53 54 54 55 56 57 57 58 58 58 59 60 . 86. 78. 81. 83. 76.

98. [O pensamento do suicídio] Moral para médicos O homem louco O sentido de nossa jovialidade Descida ao Hades Procedência dos textos 60 60 61 63 65 67 . 99.96. 97. 100.

Nosso amor ao próximo — não é ele uma ânsia por nova propriedade? E igualmente o nosso amor ao saber. As coisas que chamamos de amor Cobiça e amor: que sentimentos diversos evocam essas duas palavras em nós! — e poderia.1. e por isso glorificado como “bom”. do que possuímos seguramente. após passarmos três meses nela. e voltamos a estender os braços. e algum litoral longínquo despertará nossa cobiça: em geral. e toda ânsia por novidades? Pouco a pouco nos enfadamos do que é velho. nem a mais bela paisagem estará certa de nosso amor. e outra vez do ponto de vista dos insatisfeitos. (Pode-se também sofrer da . ser o mesmo impulso que recebe dois nomes. nos quais ele alcançou alguma calma e que temem por sua “posse”. Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de si mesmo. uma vez difamado do ponto de vista dos que já possuem. no entanto. Nosso prazer conosco procura se manter transformando algo novo em nós mesmos — precisamente a isto chamamos possuir. sedentos. à verdade. as posses são diminuídas pela posse.

) Quando vemos alguém sofrer. que desse amor foi extraída a noção de amor como o oposto do egoísmo. que para o amante todo o resto do mundo parece indiferente. pálido. é o que faz o homem benfazejo e compassivo. quer ser amado unicamente. sendo o mais implacável e egoísta dos “conquistadores” e exploradores. o uso linguístico foi determinado pelos que não possuíam e desejavam — os quais sempre foram . se considerarmos. em todas as épocas.10 Friedrich Nietzsche demasia — também o desejo de jogar fora. Nisso. a transtornar qualquer ordem. e que nela tem prazer semelhante ao de uma nova conquista iminente. que também chama de “amor” ao desejo de uma nova posse que nele é avivado. e que ele se acha disposto a fazer qualquer sacrifício. de uma felicidade e fruição. evidentemente. a relegar qualquer interesse: então nos admiraremos de que esta selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha sido glorificada e divinizada a tal ponto. quando é talvez a mais direta expressão do egoísmo. sem valor. pode ter o honrado nome de “amor”. Mas é o amor sexual que se revela mais claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional e única da pessoa desejada. de distribuir. quer poder incondicional tanto sobre sua alma como sobre seu corpo. habitando e dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável. por fim. aproveitamos com gosto a oportunidade que nos é oferecida para tomar posse desse alguém. se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro. Se considerarmos que isso não é outra coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem.

portanto: enquanto eu te amar. mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. 2. prometemos a continuidade da . se eu não mais te amar. A promessa de sempre amar alguém significa. Aqueles que nesse campo tiveram posses e satisfação suficientes deixaram escapar. invariavelmente.100 aForismos sobre o a mor e a morte 11 em maior número. O que se pode prometer Pode-se prometer atos. da fidelidade. Sófocles: mas Eros sempre riu desses blasfemos — eram. — Portanto. pois estes são involuntários. ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel. Quem promete a alguém amá-lo sempre. a uma elevada sede conjunta de um ideal acima delas: mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu verdadeiro nome é amizade. mas não sentimentos. uma espécie de continuação do amor. uma palavra sobre o “demônio furioso”. promete algo que não está em seu poder. os seus grandes favoritos. ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo. continuarei praticando esses mesmos atos. no entanto. pode prometer aqueles atos que normalmente são consequência do amor. aqui e ali. do ódio. como fez o mais adorável e benquisto dos atenienses. aqui e ali. provavelmente. — Bem que existe no mundo. demonstrarei com atos o meu amor. na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça.

mas ocasionalmente também o justo. 5. segundo a Bíblia e a experiência. que. 4. O amor é estúpido e possui uma abundante cornucópia. como se fosse algo muito superior a ela? Não será ele visivelmente mais estúpido? — Sem dúvida. dela retira e distribui seus dons a cada pessoa. nem sequer os agradeça. . sem cegar a nós mesmos. Ele é imparcial como a chuva. ainda que ela não os mereça. juramos a alguém amor eterno. mas justamente por isso mais agradável para todos. Uma doença masculina Para a doença masculina do autodesprezo o remédio mais seguro é ser amado por uma mulher inteligente. 3. Liberalidade proibida Não há no mundo amor e bondade bastantes para que ainda possamos dá-los a seres imaginários.12 Friedrich Nietzsche aparência do amor quando. Amor e justiça Por que superestimamos o amor em detrimento da justiça e dizemos dele as coisas mais belas. molha até os ossos não apenas o injusto.