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Neurociência no Brasil

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Neurociência no Brasil Neurociência no Brasil O que é neurociência? Como ser neurocientista? Entrevistas com neurocientistas Iván Izquierdo (2009) Stevens Kastrup Rehen (2008)

Produção neurocientífica brasileira Pósgraduação em neurociência

suas descobertas. da Associação Brasileira de Ciências. Izquierdo integrou o Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Seu grupo de pesquisa.Oportunidades em neurociência Neurocientistas brasileiros Entrevista: Iván Izquierdo Perfil: . especialista nos mecanismos da memória reconhecido internacionalmente. os efeitos da ritalina sobre a memória – e sobre felicidade. onde Izquierdo é Professor titular de Medicina e coordenador do Centro de Memória. Doutorado e Pós-doutorado). a memória. . a necessidade de esquecer. membro do comitê editorial de muitas revistas científicas e assessor de várias agências de fomento do país e do exterior. fez sua graduação e doutorado pela Universidade de Buenos Aires e pós-doutorado na Universidade da California em Los Angeles (UCLA). está no Instituto do Cérebro da PUC-RS.Distinções: membro da National Academy of Sciences dos EUA. na Argentina. Foi professor da Universidade de Córdoba. em agosto de 2009. e falou sobre jovens cientistas. depressão. onde lidera 33 alunos (entre Iniciação Científica. agora ampliado. incorporando-se posteriormente à Escola Paulista de Medicina (hoje Unifesp) onde fundou um grupo de pesquisas em neurociência. . Naturalizado brasileiro em 1981.000 citações em artigos científicos (o mais citado da América Latina) .Linhas de pesquisa: mecanismos bioquímicos da formação. Confira a seguir a entrevista gentilmente concedida por este grande cientista à equipe do Cérebro Nosso.Coordenador do Centro de Memória da PUC-RS. nasceu em Buenos Aires. alterações na memória com o envelhecimento normal e na Doença de Alzheimer. hoje professores em 25 universidades ou centros de pesquisa do Brasil ou no exterior.Autor de 11 livros e mais de 600 de artigos científicos . Formou mais de 80 Mestres e Doutores. . expressão. e mudou-se para o Brasil em 1973. extinção e reconsolidação de memórias. quando Izquierdo abordou seu principal tema de estudo. Comendador da Ordem do Rio Branco.Mais de 12. Iván Antônio Izquierdo é médico e neurocientista. envelhecimento normal. mecanismos moleculares de plasticidade sináptica. Mestrado. Durante mais de 20 anos.

ou em colaboração comigo. boa parte desta última pesquisa em humanos [sobre a persistência da memória. como a cultura belga e a francesa. e tem outras de 30 que não estão ainda preparadas. Você ainda faz pesquisa experimental com as próprias mãos? Com rato. porque você vai se acostumando.que era depois do doutorado. ao contrário. O Esper Cavalheiro [líder de um grupo na Unifesp] é exemplo de um ex-aluno meu que passou para outro tema. trabalhando sobre os mesmos assuntos? Alguns continuam trabalhando com memória. Outros continuam trabalhando em memória. Seus ex-alunos continuam trabalhando em memória? Acontece de haver competição com eles. incentiva a ida para outros laboratórios? Os pioneiros desta tendência de treinar os alunos durante a iniciação científica e depois continuar com eles durante o mestrado e às vezes no doutorado foram Leopoldo de Meis e eu. Foi muito bonito demonstrar isto. três anos para não competir com meus próprios alunos.principalmente na época em que eu estava no comitê do CNPq . a dos alemães do norte e do sul – quem faz distinção entre as culturas argentina e brasileira é o Galvão Bueno – eles vão e passam uma temporada em Buenos Aires. O que nós fazemos desde que começamos a trabalhar em conjunto com o grupo do Jorge Medina. parei há dois. porque vi que estava tirando o doce deles! Agora. O doutorado também pode ser feito no mesmo laboratório. e outros passam para temas diferentes. epilepsia. depende de muitas variáveis. De quais de suas descobertas você tem uma memória mais querida? Talvez a que mais goste é a descoberta de que as memórias de curta duração e de longa duração são paralelas. Hoje não estou mais tão seguro. Depende de cada um. era uma coisa elegante. Esta com humanos foi exceção. Uma pergunta comum dos jovens é sobre o melhor momento para ir estudar fora. vêem outro povo. Mas é um tema tão grande que não tem por que ter competição. com animais.Suellen. enquanto ainda é aluno de graduação. Os alunos deles também vem pra cá. Às vezes é bom mudar e fazer doutorado em outro lugar. ou trabalhando separadamente. Depende muito de cada um. de encarar as coisas. que menciona mais adiante nesta entrevista] fiz pessoalmente. mas nem sempre isso é ideal. Na sua opinião. com pouca mobilidade entre grupos de pesquisa. é mandar os alunos uma longa temporada para lá. com muitas linhas de pesquisa seguindo em paralelo. Tem pessoas com 18 anos que estão prontas para sair. ou apenas para o pós-doutorado? Antigamente eu achava . ou. Isto é bom porque. em Buenos Aires. e depois o mestrado sai mais fácil. é sair já para fazer o doutorado. Suzana e Luisa entrevistam Iván Izquierdo na UFRJ. 07/08/2009 Você é um pesquisador de sucesso. E isto é útil. Acho que não há regra pra isso. Você acha essa continuidade positiva. muitas pessoas no laboratório. Na época se achava que era um mesmo . porque era fácil. Você também tem um volume grande de trabalho administrativo no laboratório? Mais do que eu gostaria. outra forma ligeiramente diferente de pensar. O argentino vem também pro Brasil e encontra diferenças. Até o mestrado eu acho que sem dúvida é bom ficar no mesmo lugar. Mas a maior parte da minha pesquisa é com animais. embora a cultura argentina e a brasileira sejam basicamente iguais. É uma tradição no Brasil os alunos de iniciação científica permanecerem no mesmo laboratório para o mestrado e até mesmo doutorado.

esta memória vai se gravar melhor. por exemplo. As do medo são necessárias. Qual. O médico pergunta: “veio de ônibus. Ou seja. que tinha estudado casos em humanos. Isso foi o que nós propusemos. paralelamente à amígdala. corticóides. e o estado depende muito das catecolaminas cerebrais. nós inclusive. Essa é uma regulação muito direta. Então essas memórias dependem muito do estado no qual foram produzidas. O que nós estudamos foi o efeito das catecolaminas cerebrais. mas existem outros tipos. ao invés de você precisar pensar racionalmente: “isso é importante. que participam da ansiedade. Mas dopamina e noradrenalina sabidamente são ativadas pela emoção. e mais proteína haverá para formar as sinapses que irão guardá-la. A maioria das outras pessoas. porque já se sabia da possibilidade de que a proteína quinase A. no hipocampo? Sim.. depois as ERKs. E. Nossa cultura dá muito valor à racionalidade. lamentavelmente. evolutivamente. mas os dois pensamos. melhor se gravará a memória. Quanto melhor for a síntese proteica. a memória se guarda na amígdala. administrados à amígdala ou ao córtex entorrinal de ratos.. Só que elas vêm no sonho embaralhadas de uma forma diferente daquela . qual a vantagem disso? A vantagem é basicamente autoprotetora. E quanto mais fosforilado estiver esse fator de transcrição. Eram creio que 11 ou 13 tratamentos que suprimem seletivamente a memória de curta duração e permitem a persistência da memória de longa duração para a mesma tarefa. Aí começamos a pesquisar na bibliografia clínica e vimos que havia dois trabalhos originais. Então. Talvez funcionem até na mesma célula. Por que isso acontece? Do ponto de vista fisiológico. Em todo caso a amígdala é o grande modulador da entrada de memórias aversivas ou alertantes ao hipocampo. a pessoa perdera seletivamente a memória de curta duração. Sua forma mais conhecida é o delirium tremens. das coisas que produzem medo. E estes afetam as vias centrais dopaminérgicas e noradrenérgicas. porque em outra situação de medo é preciso rever essas memórias para saber o que fazer. mas utilizando sistemas metabólicos diferentes. sonhos e as lembranças? O sonho consiste em memórias. algo alertante. achamos que em parte sim. melhor será a síntese proteica. vai ao médico em estado delirante. São moléculas que compõem uma via sinalizadora. mas persistia a memória de longa duração para uma mesma tarefa.. chamada Elisabeth Warrington. Se não nos lembramos bem o que fazer para escapar de algo que mete medo. onde fosforilam fatores de transcrição que regulam a síntese proteica. E no final o paciente às vezes se lembra. que faleceu.. mas não fui eu. o indivíduo não tem memória de curta duração e. porque a memória de longa duração permanece. Em um deles. Como você descobriu isso? Não sei quem descobriu. por exemplo. em uma forma na qual a memória persiste pouco. como dopamina e noradrenalina. E foi até fácil. com lesões muitos restritas no córtex parietal. O médico pergunta: “como você chegou aqui?” O indíviduo responde: “não sei como cheguei aqui”. e uma outra na qual ela persiste muito. Até então todos os tratamentos bloqueavam os dois tipos de memória? Claro. um vai até a quarta estação e volta. mas sua relação com a memória é menos conhecida. Num jantar pensamos: como fazemos para demonstrar se são mecanismos consecutivos ou paralelos? Aí. alguém te trouxe?” O paciente: “não sei”. enquanto outro vai em frente. No delirium. que emite fibras para o hipocampo e avisam para ele: olha. é porque as emoções atuam sobre mecanismos localizados por exemplo na amígdala. A teoria da psicanálise dá um grande valor ao inconsciente e sua influência nos sonhos. O cérebro já faz isso automaticamente.mecanismo. é a relação entre sono. Foi alguém muito antes de mim. e é um trabalho em colaboração então tanto faz que seja um. McGaugh acha que a memória não se guarda na amígdala. etc. Quem primeiro chamou a atenção para isso foi James McGaugh. Cheguei à descoberta dialogando com o meu amigo Medina. as do sexo são necessárias. que variam muito com cada tipo de sentimento e emoção. Ninguém tinha investigado se algum deles bloqueava seletivamente a memória de curta duração. Um outro caso é um quadro clínico que se chama delirium. não me lembro francamente qual dos dois disse. As vias que fazem isso são reguladas por neurotransmissores próprios da emoção. está acontecendo algo emocional! Algo aversivo. estarem relacionadas com a morte (celular) e serem importantes para a memória. faziam isso. de uma pesquisadora inglesa.. da próxima vez que isso acontecer. Se ao mesmo tempo eu estou pensando numa memória. E depois. Então estes dois sistemas em paralelo funcionam na mesma estrutura. em primeiro lugar. que seja outro: era preciso encontrar algo que bloqueasse a memória de curta duração e permitisse a persistência da memória de longa duração ao mesmo tempo.. pra você. com quem faço quase tudo em colaboração. Falando um pouco dos sonhos agora . E encontramos muitos tratamentos que. é bom um animal se lembrar bem. as emoções atuam afetando a liberação de adrenalina perférica. da depressão. o jacaré vai comer a nossa perna. mas você mostrou que o estado emocional influencia a formação de memórias. isso eu quero guardar”. como trens que saem da mesma estação. as da fome são necessárias. que são as vias das emoções. sobre enzimas que regulam a síntese proteica. A serotonina também. e uma revisão destes.

Mas não é bom evocar essas informações a qualquer momento. tem muito de livre associação. sem dúvida! Existem dois. burro. não se interessava e. não existem mais. Não sei se é bom esquecer a ponto de perder essas informações. Era horrível! Ele sempre pensava na mesma coisa. e suas enzimas. McGaugh estudou recentemente dois casos fantásticos de hipermemória: um de uma mulher que era desenhista de tribunais. no dia 12 de Outubro de 1944.como elas vêm na vigília. momentos ruins e etc. em muitos casos. da vida de outras pessoas. são memórias – só que misturadas. Com uma outra lógica? Sim. A gente lembra as coisas mais variadas e se tem ou não tem a ver com coisas que aconteceram nesse dia ou em toda vida da gente. Então. num povoado pequeno do interior do Uruguai.. mas no fundo. existe um custo? Sim. Eu conheci um cara que tinha flashbacks da guerra e era horrível. se lembram de apenas alguns desses eventos. eu não sei. mas e daí? Era um cara que se mexia pouco. No seu livro “A arte de esquecer” você cita que. Ele sabia latim. por exemplo. O que são estas “ilhas”? Como e por que elas são formadas? O que são. Porém. nem que tenham feito coisas valiosas na vida. e de uma forma diferente. E podem ser conjuntos de neurônios que fazem parte de outro circuito que contenha memórias. e não podemos usá-lo ao mesmo tempo para duas coisas. E o Alzheimer se caracteriza por isso. mas que existem anatomicamente.. morava num subúrbio. talvez seja bom retêlas.. um pouco por experiência pessoal e um pouco por experiência das pessoas com quem eu falo. Muitas pessoas gostariam de ter uma memória melhor. Então tudo que aparece nos sonhos são coisas que alguma vez aprendemos. o memorioso”. E com a memória é igual: são células do hipocampo. personagem de Jorge Luis Borges. uma outra lógica! Mas você acredita que isso reflete desejos inconscientes ou tem algum sentido? Francamente não acredito. existem também mecanismos diferentes de esquecimento que ocorrem em paralelo? Sim. Da mesma maneira que você demonstrou que existem mecanismos diferentes de memória. sempre as mesmas cenas e lembranças.” Então esquecer é importante também? Sim! Por que? É justamente porque usamos o mesmo mecanismo pra reter novas memórias? Sim. não é possível usar a mesma célula ao mesmo tempo para duas coisas. que eu tenho suspeita que devem ser basicamente a mesma . na Doença de Alzheimer certas regiões do cérebro literalmente desaparecem: fisiologicamente e funcionalmente. Todas as humilhações. Os indivíduos que tem hipermemória não são pessoas importantes. por exemplo. e começava a ter flashbacks de quando estava saindo no Vietnã em um helicóptero e um cara morria ao lado dele. por exemplo. de um dia para o outro perde-se a capacidade de reconhecer o filho. de lembrar de tudo. já que é impossível se lembrar de tudo. pois usamos literalmente o mesmo sistema para realizar todos os processos de memória. sim. Às vezes. apesar de se lembrar de tanta coisa. que era um pobre infeliz. elas existem. Por exemplo. é preciso maneirar. triste. claro. Você acharia isso desejável? Existe hipermemória? Esquecer é importante? Existe. não vá pedir para estas células. porque não tem como. Formam-se placas de amilóides e emaranhados celulares que obturam por completo a atividade elétrica de determinadas regiões cerebrais.. meio metido. que fossem importantes. e outro de um homem que se lembrava do que aconteceu. às vezes. Mas no caso destas pessoas que têm hipermemória. nem me faça lembrar. como nós. É como as mães geralmente dizem: “não me peça outra coisa. mas muito melhores que as nossas: se aconteceu algo importante numa determinada data. Então seria mais um período de livre associação? Livre combinação de memórias? Sim. o que iria fazer com latim? Era uma vida que não requeria latim para ser feliz. como era o caso do “Funes. que trabalhem dobrado. capaz de poucas conversas. isto é duvidoso. não são criativos. hipermemória. O cara bebia um pouco. E depois tem muitas outras coisas que realmente valem a pena esquecer. Esta mulher do tribunal era também triste. Enfim. São pessoas de uma vida infeliz. portadores da Doença de Alzheimer conservam “ilhas” intactas de boa memória. células do córtex parietal. a hipermemória vem com um custo. que acontecem em paralelo. adquirimos.. o homem iria se lembrar e a mulher também – de eventos da vida deles. eu só tenho duas mãos!”. que tinha uma memória fotográfica fantástica. o que depois podia ser confirmado nos jornais.. mas ao lado das regiões afetadas há outras intactas. suspirava “ai meu Deus. Não há como alcançar o doce lá em cima se estamos lavando louça – tem que primeiro fazer uma coisa para depois fazer outra. São memórias muito longe de perfeitas.

não constatamos isso. A extinção ocorre quando um estímulo deixa de ser associado a outro. e que deve envolver transformações morfológicas. Eu os vi uma ou duas vezes na minha vida e não sei quem eram. e de quantos nos lembramos à noite? E a repressão? A repressão é uma coisa que. mas ela não ganha persistência. Por isso eu suspeito que sejam faces da mesma moeda: repressão e extinção.coisa. E suprime provavelmente não só a evocação das memórias. como o cachorro de Pavlov recebia. a emoção. até agora. É uma nova fase da memória. E o paciente fala “Ai! Não me mostra isso!”. anos depois. é onde estacionamos o carro quando chegamos no trabalho. certamente eu esqueci de crianças que foram comigo no colégio e estiveram lá comigo por um dia ou dois. O cérebro suprime memórias automaticamente. mas disso não . e envolve a amígdala. Tanta gente que a gente vê passando pela rua. através. A pessoa passa a esquecer a conexão entre uma coisa e sua conseqüência. será emocialmente importante. em primeiro lugar. Assim o indivíduo ou o animal passa a esquecer que quando a campainha tocava ele recebia carne. em geral. Mas como e por que não sei. uma memória que se perde em um dia. Agora o que vimos é que a diminuição de fato acontece. Nem lembro se realmente existiram! Essas se perderam pra sempre. Talvez seja a fase sobre a qual queremos agir. Se a memória dura mais de seis horas. para um animal faminto. E se usa na terapia. em geral (às vezes dura dois. inclusive para informações mais fáceis de guardar. O reforço é o que traz. mas às vezes o conteúdo da memória em si. Isso é fundamental de eu esquecer. Isso acontece para muitos tipos de informação. mas não na semana passada. Será que existe um mecanismo que marca: essa memória aqui pode durar tantas horas. a informação. ela foi consolidada. Por exemplo. hipocampo e córtex pré-frontal medial. não? É novo. Você acha que faz algum sentido a permanência da memória diminuir com a idade? Isso é um resultado de acúmulo de memórias ou é uma coisa que simplesmente acontece? Pode ser acúmulo de memórias.. Claro. Mas isso é diferente do que a gente chama de esquecimento normal. um conceito que nós inventamos recentemente. vem o psiquiatra e mostra ao paciente que está com estresse pós-traumático do 11 de setembro uma foto de um avião batendo no outro. Às vezes basta a apresentação do estímulo condicionado para melhorar a memória. E isso também envolve o hipocampo? Não sei. não quero mais lembrar da cara do Fulano de tal” e faz. mas nós. por exemplo. mas não mais que isso). É curioso que o tempo seja parecido no homem e no rato. sem que a gente precise pensar nisso. E faz com que a memória seja ou não emocionalmente saliente.. Pode ser por ausência de formação de persistência. E qual é o papel do reforço nessas fases? O reforço faz com que a memória se forme. isso é novo. No esquecimento você perde a memória. e não necessariamente a consolidação. nem lembro da cara. A gente pode até reprimir memórias voluntariamente. isso é persistência. A extinção também envolve amígdala. consegue. um período de mais transformações moleculares que vem depois da consolidação. Por exemplo. nem quantos eram. em muitos casos. se não vou voltar sempre no mesmo lugar e o carro não vai mais estar lá. A consolidação termina no momento em que a memória passa a durar mais de seis horas. Por exemplo. Lembrar de levantar uma pata quando vem um choque elétrico ou se ouve uma campainha também é emocionalmente muito importante. mas talvez não sejam: a repressão freudiana e a extinção pavloviana. É brutalmente efetiva na terapia do estresse póstraumático. o reforço de carne. Vimos que as pessoas com mais de 40 anos não se lembram de que filme viram há uma semana: sabem o que viram ontem e anteontem. Mas geralmente o cérebro faz isso sem que a gente pense: apaga o que para a gente é desagradável. não tenho nenhuma evidência nem a favor nem contra. se dura dois dias. de mecanismos de reconsolidação. Mas esse conceito de persistência da memória. Envolve o córtex pré-frontal medial. Sim. Por exemplo. como se chamam. a gente consolida uma memória. traz a emoção a memória! O drive. Mas não estou seguro. E evocar memórias também influencia na sua persistência? Seguramente sim. Mas também é possível esquecer o que já persistia antes. se dizer “ai. você está no meu consultório!”. Então o que a gente lembra dias depois de ter aprendido alguma coisa é persistência e não consolidação? Dias depois. é ruim. ela tem persistência. entre outras coisas. o cérebro faz por conta própria. às vezes consegue. Então a pessoa passa a desassociar a imagem da realidade que o traumatizou: passa a ver a foto como apenas uma coisa que o psiquiatra está mostrando em seu consultório. Isso é uma extinção. como no homem e no rato. Ninguém tem. E esse esquecimento é claramente fisiólogico. pra além da consolidação. E o médico diz “Peraí. Agora. Boa parte das pessoas já ouviu falar de consolidação da memória. causadas por BDNF. a motivação. pode-se dizer.

A ritalina não vai atuar especificamente. normais: você notou algum efeito negativo nelas? As pessoas que participaram do meu estudo são normais. não sei se tem algum efeito fora da persistência. mas não tinha tomado por minha indicação. tem que ter. não é? Claro. digamos. as drogas. e não resultava nenhum efeito. realmente. Porque a minha indicação era menos que a dose habitual. sobretudo no tratamento do Alzheimer. você vai lembrar das duas coisas. Menos podemos. com a ritalina. mais do que isso não dá. um certo consumo de gasolina e na vida está sempre numa pequena ladeira. é muito interessante! Seria muito bom. nossa memória está funcionando o melhor que pode. E das coisas ruins inclusive. com informação da área tegmentar ventral. inclusive. que está ficando cada vez mais usada e que você mostrou melhorar um pouco a persistência da memória? A ritalina tem efeito sobre a persistência. não tem como. por exemplo “eu só vou lembrar das coisas da matéria”: vou lembrar de tudo. a velocidade depende de cada um e do estado em que ele se encontra. Aí nessa situação vamos ter a máxima velocidade possível. são muito boas para quem tem a doença. Fizemos um outro experimento com informações irrelevantes. deve existir esquecimento seletivo também. Dado tudo isso. eram todos ex-usuários de ritalina ou pessoas fora do período de aulas. Você acha que a depressão pode estar relacionada com a dificuldade de esquecer coisas ruins. e nenhuma delas relatou nada. Então todos conheciam os efeitos e nenhum deles relatou efeito negativo. mas mais. ou apenas “menos pior”. por exemplo. esse esquecimento pra além do período de vida dessa memória transitória seria natural e útil. Sim. em geral. dado. ter uma memória melhor. E isso deve ser o hipocampo que faz. Agora. Sem dúvida as duas coisas! Todo mundo sempre quer lembrar mais. dado o vento contra. [leia a respeito do artigo recém-publicado onde Izquierdo e sua equipe demonstram isso] E da mesma forma que existe memória seletiva. muito boa. não tem a menor dúvida. na sua máxima velocidade permitida no momento. Não é fácil.. E para que lembrar das diarréia? Quer dizer então que. um teste com pessoas sobre a Copa do . e se perguntem Será que isso é mesmo necessário? E em segundo lugar: tem muitas evidências de que a memória humana – a animal em geral. no tratamento clínico deles. Agora. às vezes menor. por exemplo. a memória da informação irrelevante também fica melhorada? Sim. Explicaria bonito isso. Se 12 horas antes você teve um diarréia horrível ou também viu um filme. Não saberia como investigar isso aí. esse período de vida útil de um neurônio no hipocampo seria o quanto uma memória persiste caso ela não seja transferida pra outras áreas? Pode ser.pode passar? Deve ter. E a ritalina. sim. que tinham tomado mais ritalina. Os dois têm uma vida absolutamente normal. ou a melhor maneira de elas cuidarem da sua memória? Que fiquem calmos. Daria uma função à neurogênese. E eu tenho duas pessoas na família que tomam ritalina por problemas de atenção. porque tem sempre alguém perguntando “Ah. tinham tido um pouco de excitação. É como um carro que tem certa velocidade máxima. Seria uma explicação muito bonita. sempre com uns nascendo e outros morrendo. que todos estamos em algum estado emocional de algum tipo em todo momento da nossa vida. Mas e o uso da ritalina em pessoas. Nós não medimos. todos estamos mais ou menos cansados em todos os momentos da nossa vida. Por que isso explicaria por que até um certo período nós conseguimos nos lembrar de certas coisas e daí em diante nós esquecemos. às vezes maior. O que você diria pra essas pessoas? Qual o melhor exercício. Por isso. mas na pessoa normal não têm efeito nenhum. Pensando assim. não tem como! Menos do que isso. Você acha razoável pensar que se a gente considerar que o hipocampo tem essa rotatividade de neurônios.. mas tomavam no período de aulas. Vai ser muito bom as pessoas lerem isso em uma entrevista. Diziam que alguma vez. de tudo. não é? Inclusive das coisas ruins? Tudo. o que eu posso tomar pra melhorar minha memória?”. professores ou alunos que não estavam tomando ritalina. mas a humana em especial – está sempre funcionando o máximo que pode. Ou algum deles relatou. ou também de não se lembrar de coisas boas? As duas coisas.

Senão. Acertavam em média sete pontos em dez. Esse senhor húngaro tinha 87 anos. depois o teste era repetido sete dias depois. BUSCAR O Cérebro Nosso de Cada Dia é elaborado. com ritalina aplicada 12 horas depois de terem aprendido o texto. 16 ítens sobre a Copa do Mundo de 1954. e sabia o nome de todos os titulares da sua seleção nessa Copa. E todo mundo achava um saco. então as pessoas estavam nem aí. e acertavam dois. pela equipe de Suzana HerculanoHouzel. O teste era ler um texto com dados. dois dias depois. porque não se dá conta do que acontece atrás dele. Porque achavam que era uma besteira. e a Hungria perdeu essa Copa na final contra a a Alemanha. E as pessoas se lembravam bem. faz tantos anos! Então as pessoas liam.. A Hungria era superior. porque começa que o Brasil não se deu muito bem nessa Copa. QUEM SOMOS : A NEUROCIENTISTA DE PLANTÃO : DEIXE SEUS COMENTÁRIOS : NEWSLETTER : FALE CONOSCO : # . é muito bom! Mas não temos obrigação e não existe felicidade permanente. neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ empenhada desde 1999 em trazer ao público não-especializado os conhecimentos que a neurociência gera sobre o ser humano e examinar como eles se aplicam ao nosso dia-a-dia. todo mundo dizia.. Porém. não seria felicidade. nesse mesmo teste tive um paciente que era um húngaro. elas se lembravam sete dias depois perfeitamente bem . E depois.e tinham raiva! Essa era uma memória irrelevante. A felicidade são momentos. cultura inútil. Ele não podia acreditar! Há um trecho no seu livro “Releituras do óbvio” em que você fala sobre a mania que as pessoas têm de ser feliz. não é um estado permanente. 1954. O bobo é perpetuamente feliz. Pra que saber da Copa de 1954?! Agora. com o apoio da FAPERJ e do CNPq. e dois dias depois tinham um teste.Mundo de 1954. três pontos sete dias depois. Hungria tinha ganho de 8 x 3 da Alemanha na fase classificatória da Copa. mas perdeu. e perdeu na final por 3 x 2. ser feliz a maior parte do tempo possível. Agora. claro. da necessidade de se ser feliz o tempo todo. estudavam as informações durante dez minutos...