A inconstitucionalidade e ilegalidade da Súmula 231 do STJ Jorge de Oliveira Vargas1 Felipe Heringer Roxo da Motta2

Sumário: 1. Introdução; 2. O sistema trifásico de aplicação da pena; 3. A Súmula 231 do STJ e suas conseqüências; 4. Interpretação constitucional da Súmula 231 do STJ; 5. A Súmula 231 do STJ e o ordenamento infraconstitucional; 6. Conclusões; Bibliografia.

1. Introdução O termos Código do art. sua Penal 1803 de da 1940 é um misto de posições de da 1937, “morte

ideológicas, outorgado por meio de Decreto-Lei 2.848, nos Constituição em Federal virtude fundado em uma ordem constitucional imposta. Teve vigência prolongada prematura” do Código Penal de 1969 e em 1984, nos últimos anos em que o governo militar ainda tentava se manter, teve sua Parte Geral alterada. Sobreveio a Constituição de 1988 elegendo como seu núcleo os direitos e garantias fundamentais, ser impondo, no conseqüentemente, que todo o restante do texto Magno e da legislação infraconstitucional deve interpretado sentido de lhes dar a maior eficácia possível. Dentre estes direitos, consagrados na cabeça do art. 5º desta Para de
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inviolabilidade à vida, vem o da liberdade. garantir de possível toda a inviolabilidade do direito à liberdade, necessariamente há se interpretar maneira restritiva

Juiz de Direito substituto de Segundo Grau; mestre e doutor pela UFPR; professor na Escola da Magistratura do Paraná, núcleo de Curitiba e na UTP e UNIBRASIL. 2 Formando em Direito pela Universidade Federal do Paraná; Pesquisador no Programa de Iniciação Científica UFPR e bolsista do TN/UFPR. 3 “Enquanto não se reunir o Parlamento nacional, o Presidente da República terá o poder de expedir decretos-leis sobre todas as matérias da competência legislativa da União.”

cujo teor e o seguinte: “A incidência da circunstância atenuante não pode conduzir à redução da pena abaixo do mínimo legal”. é a que o juiz aplicaria se não existisse causa de aumento ou de diminuição. propondo-se sua análise frente à conjuntura portanto. “Art. A pena que tenha de ser aumentada ou diminuída. 2. 42. toda norma que lhe protege. quando a pena já está no mínimo legal” (STJ. de maneira ampla. Cezar Roberto. a conduta deveria ser avaliada de forma geral. São Paulo : Saraiva. atendendo aos antecedentes e à personalidade do agente. os arts. É sobre ela que versará o presente artigo. Já nos moldes daquele.993/RJ. aos motivos. já aplicando as circunstâncias legais e judiciais. dentro dos limites legais. aplicar-se-iam causas especiais de aumento ou 4 5 Bitencourt. Código penal comentado. HC 10. por último.” . com base na qual “perde sentido o exame de atenuantes não aplicadas na sentença. à intensidade do dolo ou grau de culpa. Félix Fischer. j. por outro lado.limitação e. O sistema trifásico de aplicação da pena Durante a vigência da antiga Parte Geral do Código Penal. aplicavam-se as causas especiais de aumento e diminuição. para ser fixada a pena-base. Seguia-se pelas circunstâncias legais e. de forma constitucional começar alguma por e uma a infraconstitucional. Em 1999 sobreveio a Súmula 231 do Superior Tribunal de Justiça. 50. caso necessário. mas que exposição rápida sobre o atual sistema de aplicação da perdeu relevância na atualidade. Por último. É a antiga. II – fixar. às circunstâncias e conseqüências do crime: I – determinar a pena aplicável. Compete ao juiz. 231. para encontrar a pena-base. 42 e 505 suscitaram alguma polêmica quanto ao sistema de aplicação da pena: bifásico ou trifásico? Neste a conduta deveria ser avaliada com base no art. 2002. de quantidade fixa ou dentro de determinados limites. Deve-se. 42 (circunstâncias judiciais). p. 11-4-2000)4. Rel. a quantidade da pena aplicável”. discussão quanto à possibilidade de utilização das circunstâncias atenuantes para aplicar a pena abaixo do mínimo cominado à conduta típica. “Art. dentre as cominadas alternativamente. pena.

em seu art. por exemplo. explica que o princípio da culpabilidade garante que não exista pena sem culpa. . aos antecedentes. p. às circunstâncias e conseqüências do crime. bem como a pena só é aplicada na medida da culpa (“keine Strafe ohne Schuld. Aplicação da pena. São as chamadas “circunstâncias judiciais”. a culpabilidade ou de medição “funciona da pena”8. que ainda hoje é (e deve continuar sendo. Do art. é a questão da culpabilidade. Cezar Roberto. 59 do CP. mas não poderá receber o tratamento devido. 112-113. O magistrado. suscita reflexões de extrema relevância. pp. bem como ao comportamento da vítima. A primeira então está prevista no à art. pois daí é possível atribuir que a pena deve. com a Parte Geral superveniente em 1984. Nilo. Este sistema resulta na aplicação da pena. como é possível deduzir do próprio nome. A questão dos fins da pena. para manter a vigilância crítica) questão bastante discutida. Tal dispositivo é de suma relevância. 29 do CP é possível perceber que no ordenamento nacional. 1. p. Gilberto. à conduta social.diminuição6. Outro ponto que é aqui presente. O trifásico acabou prevalecendo e. 8 BITENCOURT. ter função retributiva (mostrando a reprovação “social” diante da conduta) e preventiva (evitando que o agente – prevenção especial – e outros – prevenção geral – venham a cometer tal conduta novamente). tornou-se modelo fixado no próprio Código. 607. aos motivos. Strafe nur nach dem Mass 6 7 FERREIRA. em três fases. Introdução crítica ao Direito Penal brasileiro. “atendendo culpabilidade. como o caso de função declarada e sua função oculta7. 56. à personalidade do agente. v. como Isso elemento não de determinação ocorre apenas na doutrina nacional. Tratado de Direito Penal. estabelecerá conforme seja necessário e suficiente para a reprovação e prevenção do crime”. BATISTA. no sistema penal vigente. Jescheck. 68.

as noções havendo de culpabilidade diga que são a atacadas constantemente. Salo de. Aplicação da pena e garantismo. tem-se o uso das causas de aumento e diminuição. mas é deixada pois a o ressalva de que a noção de culpabilidade será usada aqui conforme normalmente da pela doutrina. Amilton Bueno de. Hans-Heinrich. 63. Deve sempre uma das deixar claro o fundamento para a aplicação de circunstâncias. Aqui temos a pena “que seria aplicada caso não existissem circunstâncias atenuantes ou agravantes ou causas de aumento ou de diminuição”12. devendo o juiz adequá-los ao caso concreto de acordo com o entendimento próprio. 38. ainda há 9 . 10 FABRICIUS. Retomando a linha de reflexão. Aplicação da Pena. quem culpabilidade é um conceito cada vez mais vazio10. 12 FERREIRA. as agravantes (art. apesar do sistema ser o trifásico. CARVALHO. sendo necessário torná-lo mais preciso11. Culpabilidade e seus fundamentos empíricos. 01:2. bem como a quantia de pena a ser acrescida ou reduzida. o aprofundamento crítica influenciará resultado pretendido neste artigo. 61 do CP) e atenuantes (arts. a partir da qual se trabalham as sucessivas modificações com base nos critérios do Código. Com base nos critérios previstos para esta fase. é a partir do art. É tema amplo e que não poderá ser tratado devidamente usada não aqui. Corresponde à primeira fase da aplicação da pena. Wandlungen des strafrechtlichen Schuldbegriffs in Deutschland und Österreich. p. p. 59 do CP que o juiz estabelecerá a pena-base (caso faça a opção por aplicar uma pena privativa de liberdade). G. JESCHECK. Todavia. Dirk. .der Schuld”)9. 11 CARVALHO. Na segunda fase da aplicação da pena são avaliadas as circunstâncias legais. Não há limites especificados na lei para o aumento ou a diminuição. 65 e 66 do CP). Porém. 14-15. ou seja. o juiz aumentará ou diminuirá a pena (a partir da pena-base). p. p. Em um terceiro e último momento para a definição da quantia de pena a ser aplicada.

59 – trata das chamadas circunstâncias judiciais – permite ao juiz o estabelecimento dos critérios necessários à fixação da pena-base entre os limites da sanção fixados abstratamente na lei penal. . em seguida serão consideradas as circunstâncias atenuantes e agravantes. Julgado em 25/05/2004. 16.DOSIMETRIA DA PENA .DOSIMETRIA EQUIVOCADA . 62. determina que a pena-base será fixada atendendo-se ao critério do art.RECURSO PROVIDO. a pena base tenha sido aplicada no mínimo legal. Exposição de Motivos. Rel. Na esteira de tal finalidade. [in] Jurisprudência Brasileira Criminal. 13 mínimo legal. p. do CP. só com a presença de causa de diminuição de REsp 167432 / DF .O art. aqui também os limites máximo e mínimo in abstrato não podem ser ultrapassados. o art. Muito de tal discussão é anterior a 1984. Nota-se a nítida opção pelo sistema bifásico quando se conclui que na segunda operação o limite mínimo não pode ser ultrapassado.Como tenho afirmado. 68 do Código Penal. de utilizar-se o bifásico. do Código Penal. a nova Parte Geral do Código Penal brasileiro. tornando letra morta o comando do art.07. por último. 59. o fez porque "permite o completo conhecimento da operação realizada pelo juiz e a exata determinação dos elementos incorporados à dosimetria" (CF. . item 51). T5 QUINTA TURMA. 68. ou seja. ao adotar o sistema trifásico para o cálculo da pena. É a discussão que se fará a seguir. anular-se a segunda fase quando. A Súmula 231 do STJ e suas conseqüências No Brasil. na qual são consideradas as circunstâncias legais agravantes e atenuantes previstas nos artigos 61.Estabelecida a pena-base.AGRAVANTES E ATENUANTES INCIDÊNCIA SOBRE A PENA-BASE . publicação DJ 01. RECURSO ESPECIAL 1998/0018532-1. 19. caput. na primeira. quando havia uma presença mais forte da problemática entre os sistemas aquém do trifásico e bifásico14. Sempre houve a afirmação genérica de que a pena-base não pode ser estabelecida pena tal limite poderia ser ultrapassado. James. Ministro Jorge Scartezzini. n. tal como na primeira fase da dosimetria. muito se discutiu quanto à possibilidade de aplicação de circunstância atenuante para levar a pena abaixo do mínimo cominado para a conduta na Parte Especial. . com base na referida Súmula. 14 TUBENCHLAK. 247. Neste sentido este didático julgado13: PENAL . . procede-se uma segunda operação. 65 e 66.uma tendência.2004 p. Atenuantes: pena abaixo do mínimo. 3. as causas de diminuição e de aumento.

estará perto do máximo ou mínimo. estamos situação completamente diferente.). para que se aproxime de um ou de outro conforme o caso” (grifos no original)15. há um momento intermediário (as circunstâncias legais). A posição dominante era a favor da impossibilidade de utilização das circunstâncias legais para levar a pena além ou aquém dos limites previstos no tipo. possui forte herança da doutrina dominante a partir da década de 1940. R. se o juiz “tem a pena de seis a vinte anos para aplicar. 2. não havia muita discussão. pp. quer as legais (. Comentários ao Código Penal. apontam ao juiz o máximo ou o mínimo. foram os argumentos expostos por Roberto Lyra nos Comentários ao Código Penal. LYRA. v.. desde então. a partir dos 16 13 anos para cima ou para baixo. 349-350. para aquela época. com base na Súmula 231 do STJ. como atualmente a dosimetria da pena parte do mínimo legal e não mais da média entre o mínimo e o máximo. p. Assim.. quer as judiciais (. conforme será visto. que foram reaquecidas quando sobreveio a Parte Geral de 1984 adotando as idéias de Hungria. Isso se deve ao 15 16 LYRA.). O que prevaleceu. Porém. já que aquilo que não era causa de aumento ou diminuição da pena. . era usado para estabelecer a pena-base. o que ensejava ainda mais controvérsias. não chamava tanto a atenção a discussão aqui presente. Roberto. salvo se houver o alguma circunstância diante de judicial uma que justifique contrário.. Pelo fato de se partir da média aritmética entre o máximo e mínimo cominados. então. com os quais sustentava que a aplicação partia da média aritmética entre os valores máximo e mínimo cominados.No sistema bifásico. A aplicação atual. v. respectivamente” . Comentários ao Código Penal. 2. as circunstâncias “agravantes e atenuantes. No modelo trifásico.. Nas palavras do próprio autor. 349.

este órgão editou a Súmula 231. discussões decisões ponto pelo STJ. 5º. o próprio legislador estipulou os limites os quais o magistrado deve utilizar. 103-104. G. salvo no caso em que o próprio legislador permite (causas de aumento e diminuição). 5º. XLVI. . inc.seguinte argumento: nas causas de aumento e diminuição da pena. 617. Mas pode ultrapassar esses limites em razão das causas especiais de aumento ou de diminuição porque em relação a estas. da CF). portanto. inc. BITENCOURT. Como a pena só pode existir em virtude de cominação legal. como “a lei regulará a individualização da pena” (art. não há perigo de burla. mais uma vez não cabe ao juiz tomar para 17 18 FERREIRA. Na mesma linha de pensamento. v. haveria um poder discricionário muito grande na mão do juiz. devemos analisar a situação face à Constituição. Aplicação da Pena. C. o juiz “não pode diminuir a pena aquém do mínimo ou aumentá-la acima do máximo legal. o juiz não pode ultrapassar para mais ou para menos os limites impostos pelo legislador. pp. Interpretação constitucional da Súmula 231 do STJ Visto aplicação em de que ponto estão para as discussões a pena quanto abaixo à do atenuantes trazer mínimo. 4. R. Tratado de Direito Penal. p. da CF)18. Aqueles que argumentam em favor da idéia posta pela Súmula 231 do STJ afirmam que levar a pena aquém do mínimo legal na avaliação das circunstâncias legais constitui violação aos princípios da reserva legal (art. XLVI. já muitas tendo vêm em vista que o aumento ou a diminuição Após previamente e estabelecidos reiteradas pelo nesse legislador”17. da CF) e da pena determinada (art. Assim. XXXIX. 1. porque com isto estaria burlando o princípio da legalidade. 5º. inc. enquanto nas circunstâncias legais (caso ultrapassar os limites da pena cominados fosse possível).

LXV. R. Enrique. LXIII. uma Desde outra então já foram A finalizados análise dois das períodos questões autoritários. da CF).. 5º. p. DUSSEL. 5º. LVII. Deve-se ter consciência de que não é a interpretação que deve adaptar a Constituição para manter um status quo resultante de um regime ditatorial. Como foi visto. Em busca das penas perdidas. prevalecer.. de forma alguma. que só gera efeitos no passado quando “beneficiar o réu”.. Da própria Constituição é possível extrair diversos elementos que mostram como deve ser interpretada a norma penal. 198. subsumido à totalidade e interpretado como aquilo que não é. Temos a questão da retroatividade da lei (art. da CF). 19 20 ZAFFARONI. em si. Método para uma filosofia da libertação. Tais entendimentos não podem. o si-mesmo do sistema totalizado20). LXIV. 5º XL. A impossibilidade de ultrapassar os limites cominados na Parte Especial para as diversas condutas é. LXI. p. 270. E. é resquício da polêmica entre os sistemas de Nelson Hungria e Roberto Lyra. da CF). sobreveio nova Parte Geral ao Código Penal e Constituição. dentre diversos outros dispositivos constitucionais que beneficiam a pessoa do preso (art. LXII. infraconstitucionais será procedida adiante. LXVI. ou seja. . fica-se aqui com o tratamento referente à Carta Magna. . uma discussão anacrônica.si tal tarefa e proceder ele mesmo a regulação do citado princípio. mas sim a hermenêutica que deve estar de acordo com a situação existente no país em que há: exclusão dos (muitos) menos favorecidos. só sendo alguém mantido preso quando a lei não admitir a liberdade provisória. Temos um ordenamento constitucional bastante diferente daqueles vigentes a partir de 1937. o fato de que a prisão é ultima ratio (art. incs. seletividade ao punir apenas os que se põem vulneráveis diante do aparato penal19 (em sua esmagadora maioria é o outro..

A Súmula 231 do STJ e o ordenamento infraconstitucional Diversos são os argumentos. no sentido de que ele não terá uma pena cominada acima daquele valor. mas é no momento do juízo que tal previsão ideal deve ser posta em concreto22. quando estas estão presentes. DIAS. XLVI) e o princípio de pena deixar consideração circunstâncias atenuantes. constitui analogia in malam partem. . baseados em normas infraconstitucionais. o limite mínimo. que não há principalmente sem culpa. mas como um referencial. pp. J. dos. é aplicar uma pena sem culpa. é punir em excesso. é punir além da culpa. Jorge de Figueiredo. Assim. C. quando pois esta determina de levar a em individualização da pena (art. 140-141. Já no outro ponto. O máximo de pena estipulado para uma conduta deve ser interpretado como uma garantia do indivíduo. conforme pretende a Súmula 231 do STJ vai de encontro frontal com o proposto pela ordem constitucional. o magistrado tem uma previsão in abstracto do legislador. fundada na proibição de circunstâncias agravantes excederem o limite máximo da pena cominada – precisamente aquele processo de integração do Direito Penal proibido pelo princípio da legalidade”21. É a interpretação restritiva das normas que limitam a liberdade. 5. 5º. deve ser interpretado não como uma barreira. É a interpretação que concede a maior eficácia possível ao direito fundamental da liberdade.Juarez Cirino ressalta que “a proibição de reduzir a pena abaixo do limite mínimo cominado. no mínimo legal. [in] Notáveis do Direito Penal. p. A proibição de aplicação das atenuantes para levar a pena abaixo do mínimo. Teoria da pena: fundamentos políticos e aplicação judicial. Sobre o “modelo” de determinação da medida da pena. usados pelos doutrinadores do Direito 21 22 SANTOS. 216. Os limites da cominação devem ser vistos com finalidades diferentes em cada um dos extremos. na hipótese de circunstâncias atenuantes obrigatórias.

art. R. também. C. 65 dispõe que as circunstâncias presentes em seu corpo “sempre atenuam a pena”. Usa-se a questão do princípio da legalidade (art. Hermenêutica jurídica e(m) crise. p. Porém. Quem tem contato com o caso concreto é o magistrado e não o legislador. p. violando inclusive. da CF). XL. que não há violação ao princípio da isonomia. G. Bitencourt. dado que todos têm o mesmo tratamento23. BITENCOURT. Afirma-se. Tem-se o seguinte impasse: o art. v. por isso este não tem a capacidade de prever todas as possibilidades que podem ser 23 24 FERREIRA. esta (apesar das críticas feitas sobre o tema da culpabilidade) não pode ser prevista plenamente em abstrato. Tratado de Direito Penal. Caso o juiz fosse além ou aquém do limites postos. 5º. a separação dos poderes. não há impossibilidade diante ordenamento constitucional diminuída abaixo do mínimo e. Aplicação da Pena. a Súmula 231 do STJ permite que esse “sempre” só atenue do até os limites previstos na que cominação a pena in seja abstracto da pena. sem que isso caracterize prejuízo ao réu. consoante tal entendimento. que já recebeu o mínimo possível”24. pois estes foram estipulados em lei. 29 do CP de forma a adaptar a norma infraconstitucional Portanto.para impor a proibição de levar a pena abaixo do mínimo cominado ao utilizar as circunstâncias atenuantes. se à Constituição que (e não para o o contrário)25. p. . Como foi visto. 1. é necessário interpretar o art. inc. impedirá sua diminuição. 617. na medida de sua culpabilidade”. ainda que se constate in concreto a presença de uma ou mais atenuantes. explicando que não é possível ultrapassar os limites máximos e mínimos. ter-se-ia uma decisão claramente ilegal. alguém “concorre crime incide nas penas a este cominadas. Lenio Luiz. 104. explica a posição dominante: “quando a pena-base estiver fixada no mínimo. 25 STRECK. 1º do CP. apesar de adotar a posição que permite a fixação de pena aquém do mínimo. 245.

da CF). legitimidade duvidosa. . de de uma de um forma alguma. se assim fosse. é um pouco mais próxima daquilo que propõe a de Constituição. apesar de não ser perfeita. ressalve-se.desdobradas de todas as condutas tipificadas. pois. É. p. 225. muito mais fácil controlar um abuso de um juiz do que o abuso do legislador. Tanto se faz necessário para que haja um controle de tal discricionariedade. E. 28 ZAFFARONI. sendo que a tal não barreira para atingir objetivo. “defesa Muito a menos deve passar o do de em argumento selecionando contra em 27 arbitrariedade da situação como magistrado”26. alguns do poucos virtude que vulnerabilidade indivíduo . períodos de guerra. Ao impedir que as circunstâncias legais sejam capazes 26 27 FERREIRA. R. alguns “inimigos” imaginários para se exibir como ameaça. objetivo da República: art. mas ignora o disposto em uma Parte Geral que. G. 3º. ocultando o verdadeiro problema28. prevalecer que de o argumento limites muito “legalidade” Decreto-Lei observa questionáveis. Idem. A arbitrariedade não pode simplesmente ser passada do magistrado ao legislador e imaginar que o problema foi solucionado. estaria em choque com a Constituição (deixar uma pessoa presa mais tempo do que “merece” não parece uma boa forma de “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. inc III. p. 103. Não deturpado pode. Há casos em que é necessário fixar a pena abaixo do mínimo legal para adequá-la legislação à “culpabilidade” pode ser uma do agente. 270. R. escolhe. E. O sistema penal é arbitrário por essência. p. não isenta o magistrado de fundamentar sua aplicação e a quantidade de pena aumentada ou diminuída. O fato de as circunstâncias legais não terem um limite fixado na própria lei. Aplicação da Pena. ZAFFARONI. Em busca das penas perdidas.

ou seja. C. J. se não for permitida a diminuição para o segundo. ambos também passarão a segunda fase da pena (circunstâncias legais) com a mesma quantia fixada. Tratado de Direito Penal. dos. 30 BITENCOURT. duas pessoas diferentes iguais em situações da noção diferentes mais terão do tratamentos (violação atual princípio da isonomia) e a pena não será aplicada no grau da “culpabilidade” de cada um (violação do princípio da individualização da pena). 31 SANTOS. p. Para uma delas não há qualquer circunstância agravante ou atenuante. enquanto quem apenas tem circunstâncias favoráveis a seu favor tenha-as ignoradas29? A posição de que é possível aplicar as circunstâncias atenuantes para levar a pena aquém do mínimo legal não é recente e nem sequer isolada a uma voz apenas. devolveu à vítima (procurou minorar as conseqüências do crime). p. pp. . [in] Jurisprudência Brasileira Criminal. Imaginemos as situações: dois furtos. furtou para vender o bem para comprar remédio para sua mãe doente (relevante valor social ou moral). confessou o crime à autoridade espontaneamente e o que sobrou do dinheiro usado para comprar o remédio. cometidos por duas pessoas diferentes. Ambos terão a pena-base fixada no mínimo legal (atual prática da magistratura. J. como referência) e. 19. por exemplo. 18. Teoria da pena: fundamentos políticos e aplicação judicial. Assim. Na doutrina há. 617. n. Atenuantes: pena abaixo do mínimo. James Tubenchlak .de fazer a pena descer aquém do mínimo. 29 TUBENCHLAK. 31 Juarez Cirino 32 dos Santos30. 140-141. Agapito Machado . Já a outra é menor de 21 anos. C. v. 1. Outro questionamento feito por Tubenchlak: será válido permitir que alguém que tenha a pena aumentada diversas vezes possa se beneficiar da atenuante. R. que é ver o mínimo legal como ponto de partida para a dosimetria da pena. 33 Cezar Bitencourt . possibilitam-se situações absurdas que violariam o princípio da isonomia e a individualização.

[in] Revista dos Tribunais. 647. pp. que é o valor meta do Estado Constitucional e Democrático de Direito)”34. contam com inconstitucional). 19. afirma: “a tarefa do juiz. As atenuantes podem fazer descer a pena abaixo do mínimo legal. Conclusões: A Súmula 231 do STJ ao não permitir reduzir fere impondo a o um a incidência abaixo de do da que circunstância mínimo legal: a) é inconstitucional uma pena menor porque está princípio excesso individualização da pena. o exemplo de Rosana Andriguetto de Carvalho. v. enxergando a pessoa por trás da máscara estigmatizada do réu. na sentença. J. n. julgado pela 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná em 16 de junho de 2005. 16-19. é a de individualizar a pena. A magistrada. 34 Voto vencido da Apelação Criminal n. sendo posta em cheque constantemente por diversos posicionamentos doutrinários e jurisprudenciais. Agapito.Na jurisprudência há quem batalhe constantemente por uma aplicação do Direito Penal menos autoritária. Mas se a pena mínima não puder ser ultrapassada (em virtude de um posicionamento claramente situações doutrinário presunçoso diferentes. dentre outros. que defende a possibilidade de utilização das circunstâncias atenuantes para fixar a pena provisória abaixo do mínimo. na proporção em que ao deixar de aplicar corresponde a uma pena sem culpa. Atenuantes: pena abaixo do mínimo. Com tudo o que até agora foi exposto. pp. No Paraná temos. 33 MACHADO. 32 atenuante para pena TUBENCHLAK. 388-389. . 275492-5. [in] Jurisprudência Brasileira Criminal. e e jurisprudencial equivocado. é possível perceber como a Súmula 231 do STJ está equivocada frente à Constituição e ao ordenamento infraconstitucional. implica séria colocar-se-á numa vala comum incontáveis condenados que Isso violação ao princípio da igualdade (assim como profundo desrespeito ao valor justiça. 6.

2002. São Paulo: Saraiva. Instituto Carioca de Criminologia. 2004. pode impor penas iguais para pessoas com culpabilidade diferente. c) fere o princípio da isonomia uma vez que. Rio de Janeiro: Revan. ed. 1990. São Paulo: Martin Claret. Cesare. 9. e. BECCARIA. uma vez que impõe a aplicação do sistema bifásico quando anula a fase intermediária relativa a aplicação das circunstâncias atenuantes. Nilo. BATISTA. no concurso de agentes.b) é ilegal porque desatende ao comando do art. Criminologia crítica e crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do Direito Penal. Introdução crítica ao Direito Penal brasileiro. Rio de Janeiro: Revan. Tratado de Direito Penal. Cezar Roberto. ________. 2003. ed. justiça. 2005. v. BITENCOURT. bem como o do 29 que determina a punição na medida da culpabilidade. Alessandro. de maneira mais visível. 10. 68 do Código Penal. BIBLIOGRAFIA BARATTA. 3. Rio de Janeiro: Editora Revan. Punidos e mal pagos: violência. ed. Dos delitos e das penas . segurança pública e direitos humanos no Brasil de hoje. 1. .

FABRICIUS. Editora Unimep. ed. Salo de. n. Ética da libertação: na idade da globalização e da exclusão. Gilberto. de Ester Kosovski. Curitiba: Juruá. 1998. Brasília: Editora Consulex. JESCHECK. Culpabilidade e seus fundamentos empíricos. FERREIRA. 2003. 0501vo. Filosofia da libertação: na América Latina. Lola Aniyar de. 2004. Jorge de Figueiredo. [s. Petrópolis: Editora Vozes. 215-230. 01:1-01:17. pp. 1986. ________. o encobrimento do outro: a origem do “mito da Modernidade”. Electrónica de Ciencia Penal y Criminología. Sobre o “modelo” de determinação da medida da pena. 1983. 2006. Enrique. Aplicação da pena e garantismo. in Wandlungen und des strafrechtlichen Revista Schuldbegriffs Deutschland Österreich. Rio de Janeiro: Forense. Amilton Bueno de. ________.l.es/recpc/recpc05- . Hans-Heinrich. São Paulo: Edições Loyola. pp. 1492. DUSSEL. CARVALHO.URL: <http://criminet. DIAS.CARVALHO. 2. Criminologia da reação social. Rio de Janeiro: Forense. 3. Método para uma filosofia da libertação. São Paulo: Edições Loyola. [online] Disponível na Internet via WWW. Dirk. 2002.]. CASTRO. Petrópolis: Vozes. 1993. ed. ________. 2006.ugr. Aplicação da pena. Trad. 1980. Rio de Janeiro: Lúmen Júris. In: Notáveis do Direito Penal.

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