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ONE MORE FAN

Uma história por Tatiana Mareto

Cheguei em casa e eram quase 6 horas da tarde. Estava muito quente naquela cidade, e eu estava irritada com o trânsito. Tive que reclamar com uns dois ou três motoristas e xingar algumas palavras que não contaria. Coloquei minha bolsa sobre o sofá e chamei por minha amiga umas duas vezes, mas ela não apareceu. Meu relógio nunca combinava com o dela... quase não nos víamos. Mas eu entrei no quarto e lá estava ela escrevendo algo, em sua cama. _O que você está fazendo escrevendo sobre a cama? Isso é péssimo para sua coluna! – Ponderei. _Ok, mamãe. Mas isso é realmente urgente. _Ah... o que é? Minha curiosidade era extrema. Eu tentei olhar sobre seus ombros, ver o que ela escrevia, e parecia uma carta. _Não te interessa. _Sim, interessa... está escrevendo para o namorado? Ou o que? _Não tenho namorado. – Ela riu. Pegou o papel e sentou na escrivaninha. – É a carta para uma competição. Estou tentando participar. _Que competição? _Sobre o Il Divo. – Ela respondeu, concentrada na carta. – O vencedor passará 15 dias com eles em turnê... e pode levar amigos. _OMFG! – Gritei, assustada. – Sério isso??? E você vai me levar? _Claro... mas... eu nem entrei na competição ainda! Por que você não entra também? Assim somos duas... eu levo você e você me leva! _Sim! – Procurei freneticamente por um papel, pronta para escrever. Mas eu não fazia idéia do que escrever! – Ok... mas primeiro... explique-me do que se trata. _Esperava que perguntasse. – Ela riu. – Esse é o ponto... você deve escrever uma história sobre o Il Divo e enviar para a produção. Eles vão selecionar a melhor história e o vencedor pode levar três amigos consigo para passar 15 dias com o Il Divo em turnê. O que acha? _Acho que são completamente loucos! – Gargalhei. – Imagine... quantas histórias terão que ler? _Sei lá, mas a minha está terminada. _Já tenho uma para enviar. _Você vai... enviar uma de suas fanfics? – Mônica arregalou os olhos. – Mas... _Sem mas, darling... _Ok, meu lugar está garantido. _Quem nos dera! ………………………

Eu estava no trabalho e o MSN online. Eu não tinha tempo para internet, mas aquela coisa estava sempre online. Eu esqueci mais uma vez no status online e uma mensagem pulou no meu desktop. “Oie!!” Era Clara. Oh, eu me esqueci de Clara… eu disse a ela que tinha novidades e que contaria depois, mas simplesmente não enviei nenhum e-mail ou mensagem. Amiga relapsa, eu era. “Olá Clara! Como vai??”

“Bem!! E curiosa sobre as novidades que você disse ter...” “Bem... eu acho que deveria contar que estou participando da competição.” Pensei em como dizer aquilo. Sentia-me tão estúpida depois de enviar a carta... quase como uma garotinha de 15 anos. “Que competição?” “A competição do Il Divo em turnê...” “E tem uma competição????” “Sim... você não sabia?” “NÃO!!! Como pode isso? Dê-me detalhes…” Expliquei resumidamente a Clara do que se tratava... “Aaaaaaaaah! Agora me lembro... realmente, tem essa competição! Todo mundo que conheço está participando!” “E agora... todo mundo mesmo.” “E qual história você mandou?” “Dezembro.” “Dezembro? Aquela que você nunca postou para ninguém?” “Sim... essa. Mas nunca vou ganhar... afinal… mas eu tinha que fazer isso, e todos realmente estão fazendo.” “Ok! Agora deixa eu ir... estão me chamando.” Ela saiu offline. Passei tempo conversando na internet outra vez... tempo que eu não tinha. Tinha era sorte de meu chefe nunca me ver fazendo aquilo, porque ele nunca estava no escritório. E ele não entendia nada mesmo de computadores. Bem, eu estava segura. Segura mas ouvindo Dentro Un’Altro Si no fone de ouvido enquanto eu deveria supostamente estar trabalhando... ………………………………… _Anne!!!! – Mônica entrou no meu quarto, era tarde. Ela estava animada, gritando. Eu levantei os olhos e parei a leitura divertidíssima do meu livro de Processo Civil. Ok, eu estava literalmente obcecada por Processo Civil... _O que foi? _Você não vai acreditar. Bem, eu não acreditei. É maravilhoso! É quase impossível! É um sonho! Belisque-me, então eu acredito que não estou sonhando!!!! _Controle-se, mulher! – Eu levantei e sacudi Mônica pelos ombros. Ela estava eufórica e não parecia dentro de si. Era uma criança falando palavras desconexas. – O que houve? O que é sonho? _Você ganhou a competição do Il Divo!! – Ela disse, agarrando meus braços. Eu arregalei os olhos. _Está meio tarde para piadas... – Reclamei. _Não estou brincando! Olhei diretamente nos olhos de minha amiga com uma interrogação enorme na face. O que afinal ela estava me dizendo? Eu simplesmente não acreditava e ganhara nada, porque eu nunca ganhei nada mesmo! Eu jogava todos os jogos, costumava apostar. Mas nunca ganhei! Nada, nem doces! Como eu poderia ter ganho aquela competição? _Você deve estar me zoando. – Tive certeza. _Não estou! Eu provo! Minha amiga me arrastou até o computador. Lá, pude ver a tela do site oficial do Il Divo com o resultado da competição... aproximei meus olhos da tela e... lá estava meu nome. Senti o chão desaparecer e o estômago embrulhar, quando tudo ficou escuro demais. …………………………….

_Acho que deveríamos chamar uma ambulância... – Mônica reclamava. Eu abri um pouco os olhos e pude vê-la com outra pessoa... Clara. Pensei que fosse Clara, mas o que afinal ela estava fazendo tão tarde em casa? _Não se preocupe... ela só está assim por causa da competição! – Clara disse, sorrindo. Então eu me lembrei... a competição! Eu havia ganhado a competição! Acordei e me dei conta que estava em minha cama. Elas tiveram trabalho para me levar para a cama... boas amigas. Clara veio saltitando até mim, visivelmente animada, quando notou que eu havia acordado. _Anne!!! Não acredito que você ganhou!! Céus, e agora? Seus planos sobre isso?? _Não tenho idéia... – Ainda sentia como se estivesse em uma montanha russa. – Não entendi isso ainda... não processei. _É simples. – Mônica tentou me explicar. – Você verá o Il Divo, e ficará com eles por 15 dias. E você poderá levar 3 amigos. E você é a pessoa mais sortuda que existe no mundo. _Oh, isso é tão excitante!! – Clara me sacudia e eu estava completamente desligada do mundo. – Quem você vai levar com você? _Céus, eu nem sei se vou! Dêem me um tempo, vocês duas! _Como assim não sabe se vai? – Mônica espantou-se. _Nada... estou viajando. Ok, vocês duas vão, claro... ainda não pensei na terceira pessoa... _OH, EU VOU! – Clara disse, agarrando-se ao telefone para ligar para todo mundo que ela conhecia. Eu não fazia a mesma coisa porque a minha ficha ainda não tinha caído. Fui até o banheiro lavar o rosto e ter certeza de que não estava sonhando. Em turnê com o Il Divo, aquele era o nome da competição. E eu estaria lá, em turnê com o Il Divo. Aquilo era fantástico, maravilhoso, totalmente inacreditável. E seria o maior desastre que eu poderia imaginar. No dia seguinte, meu e-mail estava cheio, e meu MSN tinha umas duzentas mensagens. Quase não dormi, porque não poderia. Todos os amigos leram o resultado e me enviaram os parabéns. E a maioria deles só queria is comigo. Chato... eu sabia que aquilo aconteceria. Tinha que escolher alguém que jamais se interessaria em mim só por causa da competição... e eu já havia feito a minha escolha.

Day 01 – The meet 09:40 – London’s Palace Hotel

[Urs] Eu achava tudo tão chato… aquela história de encontrar fãs era uma ideia sem pé nem cabeça de Steve e Simon. Eles não tinham ideia de como aquilo poderia ser complicado... eu tinha. Fãs podiam ser pessoas histéricas, gritando por tudo e com todos. Eles não tinham que lidar com elas, então eles não sabiam como era difícil às vezes. Tentei explicar a Steve que colocar fã na história podia ser perigoso. Se as coisas já estavam horríveis antes do último CD, uma fã por 15 dias poderia ser o caos. E não seria uma fã, mas quatro! Mas lá estava eu, sentado por umas 2 horas, em um sofá enorme, como absolutamente nada para fazer. Li todas as revistas que tinha para ler, e nenhuma me trouxe novidades. Carlos e David estavam conversando animadamente, eu não conseguia ouvir do que falavam. E eu tenho que dizer que Carlito e Dave estavam realmente animados. E como se eu não pudesse ouvir, quanto mais olhava para eles, menos entendia o que falavam. E minha cabeça estava queimando com todas as bombas e tempestades que chegavam. Mas aquela animação toda vindo dos dois... era muito suspeito. Eles andavam misteriosos.

Steve ficou de nos encontrar no hotel, mas ele ainda não tinha aparecido. E Simon estava desaparecido também. Não sabíamos nada sobre os concertos; sobre como as coisas seriam. O fracasso do SIEMPRE não era esperado. Foi uma pedrada mortal… esperávamos um estouro depois da World Tour. Mas nossos produtores eram incansáveis... já estavam fantasiando ideias mirabolantes para tornar o Il Divo “mais comercial”. Turnê pela Ásia e encontro com fãs eram duas das mais esquisitas. Meus olhos percorreram o lobby, procurando por algo que pudesse descontrair minha cabeça. Qualquer coisa serviria. Alguém caindo, alguém rindo de quem caiu, uma mala colorida, um hóspede esquisito carregando um cãozinho peludo... mas fiquei chocado quando notei uma mulher linda. Eu não gostava de frases de filmes... e estava assistindo muito lixo com Sébastien, porque ele adorava filmes. E filmes estranhos, tenho que confessar. Mas a mulher que notei era realmente linda, quase perfeita. Meus olhos encontram, finalmente, distração. Ela olhava para o outro lado, e eu pude ver seus longos cabelos claros caindo por sobre o ombro. Ela tinha olhos grandes... era tão frágil que poderia se quebrar. Pisquei umas duas vezes, mas ela ainda estava lá, como que pintada na recepção. Não notei que fiquei mesmo muito tempo olhando para ela... tempo o suficiente para os dois retardados que estavam comigo notarem. “Você começou a babar, Bühler!” David riu, batendo no meu queixo. Sim, eu estava de boca aberta. “Ele está mal... talvez seja a abstinência.” “Não faço ideia do que estão falando.” Ignorei-os. Não estava interessado em ouvir aquelas abobrinhas todas. E... abstinência! Que absurdo… A verdade era que meus olhos não conseguiam se desprender daquela visão. Ela era mais do que linda, mais do que eu costumava ver. Eles nunca viram uma mulher como aquela, porque não era o tipo de mulher que David e Carlos costumavam olhar. Era simples... quase normal. O choque real aconteceu quando Steve e Simon se aproximaram, com mais três pessoas, cumprimentaram a garota e vieram em nossa direção. Eu segui cada movimento de seu corpo desde o momento em que ela se virou para mim e começou a andar. Seus lábios estavam brilhando sob o efeito de algum tipo de gloss. Ela era, realmente, perfeita. Mas o que raios ela estava fazendo com aquele pessoal todo? Ela não poderia “estar” com eles, porque Steve e Simon nunca teriam uma garota como aquela. “Levantem-se, preguiçosos!” Steve-o disse, como normalmente dizia. Ele adorava dar ordens… mas nunca era ouvido. “Gostaríamos de apresentar a vocês Anne, Clara, Mônica e Elizabeth.” Simon nos apresentou a quatro garotas. E a ela, que sorriu tímida. Os estúpidos à minha volta se levantaram e foram cumprimentá-las, mas eu não conseguia me mover. Alguma coisa estava segurando meus músculos naquele sofá patético. “Prazer em conhecê-las” Carlos beijou suas mãos. “E vocês são...” David queria saber mais do que nomes, claro. Saber seus nomes não nos dizia quem elas eram, afinal. “Elas são as fãs que vão passar os 15 dias com vocês na turnê. Anne é a vencedora da promoção e as outras três são suas amigas, que ela escolheu.” Simon riu, mas os dois idiotas não se lembraram da promoção. Não havia sido lançada há muito tempo, quando decidimos que precisávamos de algo... não aquele algo, mas algo. David e Carlos ficaram constrangidos em fazer perguntas estúpidas, e eu, que lembrava daquela besteira toda, nunca poderia imagina que aquele absurdo todo... me traria vantagens. “Ah, claro...” David fingiu que ele entendeu do que eles falavam.

“Bem, Anne escreveu a melhor história para vocês... onde está Sébastien?” Steve finalmente notou que Seb não estava. Como sempre, Seb faltando. Ele estava provavelmente dando uma volta, procurando algo menos constrangedor para fazer. “Não sabemos.” “Muito interessante... vocês não sabem!” Nosso produtor fingiu que não nos queria comer e ajeitou o casaco. “Como eu disse, ela ganhou a competição e com as amigas vão passar 15 dias com vocês, durante a turnê pela China e Japão.” “Vamos para a China?” David celebrou. “Vou conhecer o Dalai Lama…” “Vamos trabalhar, David!” Simon resmungou. “A China é bela e tem seus atrativos, mas vamos a trabalho.” “Ah sim, atrativos...” Todos olharam para mim. Aquela foi a primeira vez que disse algo desde que vi aquela mulher na minha frente, e não foi muito inteligente. Eu estava completamente doido com a sua beleza, maravilhado. E nada me fazia concentrar em outras coisas. Eu podia pensar, e os pensamentos que me escapavam pela pele estavam descontrolados. Como as palavras vindo inconvenientemente para fora da minha boca, contra a minha vontade. Seus olhos me pegaram, mas ela não disse nada. “Eu disse que ele vai mal...” Carlos disse a Simon. Eu estava olhando diretamente para ela, como que hipnotizado. “Urs, você está bem? Você entendeu o que dissemos agora ou precisa de mais tempo para processar a informação?” Steve não perdia a chance de uma brincadeira. Ok, tenho que aceitar que todos adoravam pegar no meu pé, e faziam isso só porque eu me importava. “Sim, estou bem.” Tentei me localizar, achar meu foco. E não deveria ser aquela garota, claro. Eu deveria ter outro foco, achava. “Você simplesmente nos deixou aqui tempo demais, estou me sentido tolo.” “Você não precisa de tempo demais para ser tolo, Urs...” Carlos brincou. Como sempre, ele brincava e eu queria estourar-lhe a cabeça. Ira invadiu-me. Levantei-me e agarrei-o pelo colarinho. “Vamos parar com a briga, garotas.” David implicou, impedindo que eu descontasse a zanga em Carlos. Confesso que não seria uma boa impressão para as fãs. “É uma Dolce & Gabanna, Urs!” Carlos reclamou. 10:30 – The playground [Narrador]

“O que você quer dizer com fãs?” Sébastien resmungou. Os outros três componentes do Il Divo finalmente encontraram o desaparecido no playground. As garotas foram para seus quartos, guardar as malas e tomar um banho. Eles viajariam aquela noite para a Ásia, mas curiosamente ninguém estava muito excitado. “Garotas... fãs que costumam querer arrancar nossas roupas e nos agarrar em locais públicos.” David explicou. “A parte de tirar roupas eu até aprovei...” Carlos implicou. “Eu também…” Sébastien concordou. “Isso é assustador.” David brincou. “Mas essas fãs são assim?” “Claro que não, Seb! Estamos só tentando te assustar.” “Dizendo que uma mulher quer arrancar minhas roupas?” Sébastien arregalou os olhos. “Devo confessar que essa forma de te assustar não é muito eficiente.” Carlos concordou.

Urs olhou para eles e balançou a cabeça negativamente. Ele concentrou-se novamente no que estava fazendo: nada. Semanas a fio aqueles dois dementes brincando com coisas estúpidas. “Gostaria de saber de onde Simon tira essas ideias... pense sobre isso, passar 15 dias em turnê com uma fã!” Sébastien continuou a reclamar, enquanto terminava seu jogo. “Sem reclamações, Seb. Você sabe que precisamos de promoção... essa turnê pode acabar sendo a última...” “Não quero pensar nisso.” “Mas é verdade.” “Pode ser. Quando vou conhecê-las?” “Estão se vestindo...” Carlos ia dizer algo, mas desistiu. Ele pensou sobre garotas se vestindo e achou divertido. Eram fãs bem bonitas, ele tinha que concordar. “Eu bem que gostaria de estar fazendo o mesmo...” “Carlos Marin!” David agarrou o amigo, que deixou uma bolinha passar por entre os flaps. “Ah bom, David... diga-me que não as achou... boas?” Urs olhou sério para os amigos e prestou atenção na conversa. Eles estavam falando sobre algo que lhe interessou. “Então elas são gostosas?” Sébastien riu. “Que vocabulário, Sr. Izambard. Elas são bonitas.” “Urs, diga-me... elas são boas assim ou eles estão exagerando?” Sébastien tentou contactar o amigo que estava em outra dimensão. “Não, ele disse a verdade. Ela é muito bonita.” “Ela? Pensei que fossem quatro…” “Sim… foi isso que você ouviu. Elas são muito bonitas.” 12:40 – The lunch. [Anne] Aquela viagem era tão esquisita... bem, eu me sentia esquisita. Na primeira vez em que olhei os divos, pensei: são eles? Oh, que legal. Ok, parece bastante desanimado, e foi. Digamos que não senti nada quando vi tudo aquilo… Mas pelo menos as meninas estavam animadas. Ainda não tínhamos visto Seb, mas Lise sonhava com aquilo desde que pegamos o avião. Ela estava nervosa, eu pude ver. Bem, ela roia as unhas... e tive que ameaçar tomar a garrafa de café do lobby, porque ela não parava de encher o copinho de plástico. Clara e Mônica estavam controladas. Eu sabia que estavam... Mônica parecia meio dopada com aquilo tudo. David dando beijinhos na mão... e Clara estava se segurando para não dar uma da fã escandalosa. Ela não era, mas era muito animada, e podia dar a impressão errada. E eu, estava achando um tédio. Pensei que veria o Urs e aquela luzinha despertaria dentro de mim, mas me enganei pela segunda vez. Eu não era mesmo uma uber... não com toda aquela paixão que as ubers tinham. Estar com os divos representaria, então, o que na verdade sempre representou: eu seria a fã que sentou no camarim e os viu cantando para mim. _Bonjour. – Uma voz foi ouvida, enquanto estávamos tentando decidir o que comer. Era, finalmente, Sébastien. Todas olhamos imediatamente para ele. Sim, ele era lindo… mais lindo do que nas fotos. E eu achei que aquilo seria muito difícil. _Bonjour Seb! – Todas dissemos. _Já pediram, garotas? – David sorria, gentil como sempre. Por que eu achava que toda aquela gentileza dele era falsa? – Steve disse que podem aproveitar; afinal a conta é da produção. _Ainda escolhemos. _Eu sugiro o salmão. – Carlos sentou-se ao meu lado, e me encarou. Ok, ele gostou de mim? Não fazia ideia, mas ele também não me parecia muito verdadeiro.

_Fico com salada mesmo. – Sorri, e também não me senti verdadeira. Aquela vida de celebridades era... fake. – Não quero exagerar na comida e ficar morrendo de sono depois. _Somos duas! – Clara foi enfática. _E eu que já estou morrendo de sono... – Urs deixou escapulir mais uma. _Cale-se Bühler! – David debochou. – Assim você coloca as fãs para correr, e toda a expectativa do Steve vai por água abaixo. _Que expectativa do Steve? – Sébastien, nas nuvens. _Acorde, homem... _Provavelmente, a expectativa é de que façamos a vossa ascensão ao topo da música, novamente. – Mônica não tirou os olhos do cardápio para falar. E foi seca. _Uau... eu diria exatamente isso, mas com palavras menos educadas. – David implicou. _Elas não são alavancas. Não vão nos catapultar para o sucesso novamente... essa história é ridícula. – Urs debateu-se. – Acho melhor jogarmos logo as cartas e acabarmos com essa chatice. _Que chatice? – Lise franziu as sobrancelhas. – Você quer dizer... nossa estada aqui? _Não, ele não quer dizer isso. – Carlos passou as mãos pelos cabelos, desejando mais do que quebrar o nariz de Urs. – Ele quer dizer que devemos abrir o jogo... não foi ideia nossa essa viagem, e Urs não concorda que seja... produtiva. _Bem, então somos dois. – Olhei para ele, sorriso pálido. – Mas estamos aqui, somos fãs, e queremos ver o Il Divo. Vocês não precisam usar a máscara, mas por favor não exponham os ossos... Continuei a decidir que salada comer. Eu não me intimidava, mas o clima estava pesado. A nossa presença não parecia, então, desejada.

[Narrador] O almoço não foi muito animado, principalmente para as meninas. Ansiosas em encontrar o Il Divo, a recepção não foi exatamente como esperavam. Talvez elas esperassem demais, era verdade. Mas esperavam mais do que lhes fora ofertado. E naquela noite, estariam embarcando em um avião com eles para passar apenas alguns 15 dias na Ásia, um continente que elas jamais imaginaram que conheceriam. Como o Il Divo foi convocado “de urgência” para uma pequena coletiva, arranjada por Simon Cowell, as meninas não tiveram muito o que fazer. Não podiam se afastar, pois temiam perder a hora para o vôo. Foram, então, reunir-se em um dos quartos que ocupavam. De reuniões as mulheres definitivamente entendiam bem. _Reunião divokitty. – Anne disse ao telefone, falando com Lise. Mônica já estava com ela, e Clara batia na porta naquele instante. _Reunião para que?? – Clara animada. – Ah, isso é tão legal! _Sim... muito legal! – Mônica estava meio pensativa. – Ah, o meu angel é tão mais lindo pessoalmente... _Só eu que achei os divos esquisitos? – Anne começou a se sentir um alien. Ela normalmente se sentia fora de órbita mas... Lise apareceu para completar o grupo, mas a conversa continuou. _Só você o que? – Elizabeth perguntou, já curiosa. _Achei os divos esquisitos demais... _Eu também. – Lise ponderou. – Mas... bem, eles são os divos. Você achou que eles seriam diferentes? _Sei lá. _Ah, parem com isso! – Clara protestou. – Eles estão chateados com tudo que vem acontecendo... logo a gente se entrosa.

_É, se entrosa... – Mônica ficou imaginando quantos sentidos aquela palavra poderia ter. Anne lhe deu um tapinha no pescoço, para chamar a atenção. _Acorda, D. Mônica! Pode parar de pensar essas coisas... _E vocês viram o Urs? Gente, ele é lindo demais... – Clara delirava. _Ok, sou mesmo um alien. – Anne dirigiu-se até o frigobar, querendo beber alguma coisa. Mas beber mesmo... porque aquele encontro divino foi um tanto quanto infernal. _Anne... – Lise se aproximou, enquanto Clara ligava para a família, querendo contar as novidades. – Essa coisa de Urs... a Clara e você... _Não se preocupe. – Anne sorriu, finalizando a garrafinha de Johnny Walker Black Label. – Não acendeu a luzinha. _O que? – Lise não entendeu nada. _Eu sei quando me sinto atraída por alguém... tem que acender uma luzinha. É tipo nos desenhos animados... com o Urs, não acendeu nada. Nem uma chaminha.

[Sébastien] A entrevista coletiva foi realmente bastante insuportável, como já era de se esperar. Tudo que o Simon põe a mão é chato. Mas ele é o produtor, e nunca podemos discutir com ele. Dave e Carlitos ficam puxando o saco o tempo todo... Simon para lá, Simon para cá... eu não tenho tanta paciência. E Urs não anda mesmo com paciência para nada, nem consigo mesmo. Aliás, Urs anda muito estranho... deve ser a falta... Depois da tortura com a imprensa, e ter que responder todo tipo de pergunta, finalmente pudemos descansar um pouco. Foi quando me lembrei que não descansaríamos... pois a primeira coisa que aconteceu quando coloquei os pés no lobby foi ver as fãs. Bem, uma delas... a morena. Era a única morena no grupo, as outras eram brancas como europeias. Não poderia deixar de perceber que ela era muito bonita... mas era uma fã, e só por causa disso todos os sinais vermelhos estavam acesos. _Seb! – Carlos apareceu, fazendo estardalhaço. A fã olhou... e me viu ali, parado. Ok, eu estava olhando para ela... mas não era para que ela soubesse. – Viu alguma coisa? _Não. – Menti, descaradamente. – Estava pensando no que fazer... _Vamos para a piscina... _Carlitos, não sei quantas você andou bebendo no almoço, mas acho que o efeito foi forte. Está muito frio. _A piscina é aquecida... vamos nos divertir, ainda temos algumas horas antes de pegar o avião!!! _Sim, claro... mas... – Olhei para a fã, que sorria ali, sem falar uma palavra. Talvez ela esperasse um desfecho da nossa conversa, talvez ela estivesse tão constrangida com aquilo tudo quanto nós, talvez ela aguardasse uma oportunidade para pendurar-se em nossos pescoços. Sei lá. _Você fala das meninas? – Carlos leu meus pensamentos. – Oras... bata na porta delas e as convide também! Que ideia, ir para a piscina sem as mulheres. Rindo como uma hiena, Carlos saiu pela tangente, me deixando com a vara e o peixe. Aproximei-me da fã, mão nos bolsos, claramente demonstrando meu nervosismo. _Bem... você ouviu Carlos. Piscina? – Tentei ser simpático, coisa que os outros três não sabiam fazer. _Não seria má ideia, mas... _Existe um mas. – Olhei em seus olhos. Talvez os outros também não a achassem bonita, mas eu sim. Gostava de mulheres comuns... e esperava que isso fosse uma qualidade interessante. Gostava das mulheres naturais, sem artificialismos, sem neuroses, sem esquizofrenias.

_Não trouxe roupa de banho. Afinal, com o frio que faz... _Isso não é um mas. – Eu ri. – O hotel tem loja... é bastante caro, mas vai por conta da produção. _Bem... _Ora, um “bem” é melhor do que um “mas”... – Como sempre, eu era insistente. Não era fácil me dizer um não... ainda mais uma mulher me dizer um não. Aí, era quase impossível. – Vamos, eu te mostro a loja. Segurei na mão da fã – que eu não sabia qual era, pois não decorava o nome das pessoas nem da minha família! – e a conduzi até o hall. Ela parecia que estava travada, e aquilo foi até divertido. Quem estaria mais constrangido com aquilo, eu não sei. Mas havia alguma eletricidade circulando, ah isso havia! [Narrador] _Vai ver quem está na porta, Clara! – Mônica disse, sem mover um músculo. – Deve ser o lanche... _Você pediu lanche? – Clara estranhou, mas caminhou até a porta. A cara de Elizabeth apareceu, olhos arregalados. – Lise? Você está... de biquini? _Quem está de biquini?? – Mônica esticou-se par aver a porta. – O garçom usa biquíni? _Não é o serviço de quarto, é a Lise... _Vamos para a piscina? – Elizabeth sorria. _Piscina? Mas... _A do hotel é aquecida, e os divos já estão lá... bem, quase todos. Sébastien apareceu no corredor, para ver a conversa. Clara franziu a sobrancelha quando viu o divo. Não que fosse estranho Lise estar com Sébastien, porque ele era seu divo preferido... mas depois dos desencontros no almoço, Clara pensou que não haveria um contato maior até a Ásia. _Olá... – Sébastien fez menção de ter esquecido o nome de Clara. _Clara! – Ela animou-se. _Quem está aí? – Mônica finalmente levantou-se, dando de cara com a convenção que se formara na porta do quarto. – Ops... olá Seb. _Bem, vamos ou não? Os rapazes nos aguardam... a piscina deve ser boa, pois Carlos estava bem animado. _Eu não sei se trouxe biquíni e... _Tem uma loja legal no saguão. – Lise estava meio sorridente demais. _Ok... vamos então! – Clara animou-se mais. – E Anne? Não faço ideia de onde ela está! _Deixamos um recado. As duas resolveram ir atrás de Elizabeth e Sébastien, afinal era aquele o objetivo de tudo. Estar atrás dos divos. Mesmo que eles parecessem bem chatos no início, eles definitivamente teriam que se render à presença delas. Ou viveriam em um inferno por 15 dias. Sébastien não ligava, ele teria garotas por perto... e elas pareciam adorá-lo. _Ah, entendi porque Seb estava demorando... – David gargalhou. – Ele estava vestindo o biquíni. _Muito engraçado, Dave. – Seb jogou a toalha em uma cadeira e tirou a camisa, em um impulso. Lise prendeu a respiração. Clara arregalou os olhos. Mônica ficou querendo saber se aquele era David mesmo… afinal, não era todo dia que ele podia ser visto de bermudão florido e... sem camisa. – Onde estão as outras duas florzinhas? _Foram ao bar. Venham meninas… a água está bem gostosa. Mônica sentiu a língua coçar, mas ela era uma menina muito comportada. Seu cérebro quase gritou o que ela queria dizer, mas apenas um sorriso tomou lugar em seus lábios. Sem pensar muito, deixou as coisas de lado e pulou na piscina. Um convite de David era quase uma ordem. Clara parecia meio desapontada em não ter visto Urs, mas ele logo apareceria. Enquanto Sébastien e Lise conversavam alguma coisa, ela caminhou pela borda

da piscina para colocar sua bolsa e seus chinelos em uma cadeira, mas pisou em uma poça de água e escorregou. Clara ia desabando dentro da piscina com tudo que tinha direito. Incluindo relógio e celular. Mas antes de seu corpo bater na água, sentiu uma força estranha que a puxava para o lado contrário. Antes que pudesse pensar nas aulas de física do colégio, resolveu olhar para cima e ver afinal o que a impedia de se esborrachar na água. _Clara! – Mônica riu, ao ver a amiga parada no ar, olhando assustada para a água que estava bem próxima. – Tinha que ser você... _Você está bem? – Urs perguntou, puxando Clara de volta. Ele voltava do bar na mesma hora em que ela caía, e deixou o drinque cair pelo chão para segurar a garota. _Sim... – Clara olhou em volta. – Desculpe pelo seu drinque... _Está tudo bem. – Urs tentou sorrir, mas estava ainda muito mal humorado com tudo. _O que houve? – Anne surgiu do nada, com algumas sacolas. – Fui atrás das senhoritas e tinha um bilhete que estavam na piscina. Pensei que tinham surtado de vez! _Bem vinda. – David sorriu para Anne. Ela o encarou. Sim, era David Miller... _Obrigada. – Anne olhou para David imaginando… não, tendo certeza que Mônica deveria ter pensado a mesma coisa que ela pensava naquele momento. Com uma diferença. Ela iria dizer. – Então, finalmente estamos tirando a dúvida que toda fã do Il Divo tem. _Que dúvida? – Carlos curioso. _É um segredo de fã, caro. – Anne era implicante. _Não acredito que falou nisso!!! – Lise caiu na risada, corada como uma pimenta. _E eu não acredito que não falaram... aliás, que não me esperaram. Como podem estar na piscina com esse frio? _É aquecida. Anne sacudiu a cabeça, negativamente. Ela estava um poço de negatividade... poderia fazer par com qualquer membro de grupo nazista genocida. Não que ela fosse nazista, mas genocida ela poderia se considerar. Sentouse em uma das cadeiras de praia para observar o movimento. Clara se derretia conversando com Urs, que não parecia então tão rabugento. Lise estava dentro da água com Sébastien, e também conversavam animadamente, incluindo David e Carlos na conversa. Mônica parecia mais retraída... observando. Assim como ela. Bem, observar os divos não era má ideia. Afinal, eles eram todos lindos… e pessoalmente eram ainda mais lindos. Anne deixou que seus olhos repousassem sobre a imagem brilhante de Urs Bühler, que vestia uma sunga branca. Ela jamais imaginaria ver Urs de sunga, e ainda mais... branca. Teve que confessar que aquilo era chique demais. Ele era chique, mas daí a usar roupa de banho branca... Seb e David usavam bermudões. Ela jamais entenderia aquele gosto masculino por bermudas gigantes, mas eles até que estavam bonitos. E Carlos, que parecia sempre igual, vestia sunga preta. Padrão, como ele era. _David Miller! – Steve entrou na área de recreação, papéis na mão, telefone na orelha, vermelho. – Recolha sua tropa, temos mudanças. _Mudanças? – David franziu a sobrancelha. _Desde quando somos uma tropa? – Urs, confuso. _Desde quando somos do David? – Sébastien, gargalhando. _Vamos voar para a Malásia em... duas horas. _O QUE? – Carlos quase derrubou sua margarita dentro da piscina. – Duas horas? Por que? _Fechamos com um programa de TV lá... temos que chegar mais cedo. Vamos mocinhas... temos trabalho pela frente.

[ Narrador ] Quando o avião levantou voo, o clima de animação entre os divos e as fãs não havia acabado ainda. Eles continuavam a diversão da piscina aquecida para o avião, regados a todos os tipos de drinques que lhes foram servidos. Urs estava completamente perdido com Clara... ele a havia admirado desde o primeiro instante, e ela era uma pessoa muito mais maravilhosa do que ele imaginava. Ela era divertida, era simpática. E ele era um canalha... agindo da forma como agia. _Vou dormir. – Anne parecia desanimada. Ela ignorou todas as margaritas que Carlos lhe ofereceu, o que era anormal. _Dormir agora? – Lise olhou no relógio e ainda era bastante cedo... ela sabia que Anne não estava se divertindo, mas não entendia. _Sim... bem, cada uma se diverte com seu divo... – Ela implicou. _Não temos nosso divo. – Lise sussurrou. – O que está havendo com você? _Nada... ta bom, eu estou azeda. Melhor dormir que o amargo passa. Anne caminhou para o final do avião, onde estava silencioso e escuro. Queria afundar a cabeça nos pequenos travesseiros e dormir profundamente até acordar no oriente. Enquanto isso, Mônica e Clara jogavam baralho com David e Carlos. O jogo era truco, e a bagunça deles poderia fazer cair o avião. Urs observava de longe a mulher que lhe encantava. E Sébastien observava Lise, que tentava entender o jogo das meninas. Eles se entenderiam... o tempo ajudaria os divos a entenderem que precisavam das fãs. _Precisamos de um acontecimento. – Sébastien disse, sentando ao lado de Elizabeth. – Por isso Steve e Simon nos colocaram nessa enrascada. _Como? – Elizabeth olhou para ele, meio sem entender. – Um acontecimento?? _Sim... estamos no mesmo faz tempo. E uma tentativa frustrada de nos tornamos pop piorou as coisas. Precisamos de novidades, precisamos mostrar que ainda somos o que éramos. _E vocês são? – Lise sorriu, aceitando o drinque que Sébastien lhe oferecia. – Quero dizer... _Sim, nós somos. – Sébastien entendeu. – E espero que todos possam perceber isso. Talvez a ideia de Steve em colocar as fãs para nos rodearem não seja tão boba, afinal. _Bem, ela deve ter algum sentido... para vocês. Mas não se preocupe... vamos contar a todos que vocês são... _Terríveis. – Sébastien riu. – Somos terríveis. Urs é um chato mal humorado, Carlos é um pentelho, David um almofadinha... _E você? _O que você acha que eu sou? – Sébastien se aproximou. O grupo estava concentrado no jogo, fazendo bastante barulho. Elizabeth não sabia se prestava atenção neles ou em Sébastien, tão perto. _Você é o Seb. – Lise sentiu suas bochechas queimarem. Sébastien se aproximou ainda mais, continuando a conversa sobre acontecimentos, sobre o que eles precisavam para voltar ao topo do sucesso. Lugar no qual, de verdade, eles nunca estiveram. E que ambicionando alcançar, tropeçaram. A madrugada chegava, e ninguém tinha sono propriamente. Chegariam a um fuso horário muito complicado, e não teriam nenhum tempo para se adaptarem. Mesmo assim, estavam dispostos a continuar se divertindo. O jogo acabou por perder a graça, e jogar conversa fora foi a melhor opção. Sébastien continuou ao lado de Lise, e as colegas nem notaram que ela não tinha acompanhado Anne, assim como ela não notou que não fora notada. _Então, Elizabeth... você é uma fã daquelas mais enlouquecidas? Porque você parece tão...

_Eu não sou uma fã enlouquecida. – Elizabeth protestou. – De jeito nenhum... detesto esses faniquitos. _Sim, concordo... e seu namorado não fica enciumado com essa devoção? _Eu não tenho namorado. – Ela foi inocente. _Então ninguém te espera no... Brasil? _Namorado, nenhum. – Ela riu. – Mas… por que essa curiosidade? _Para saber se eu poderia fazer o que pretendo fazer agora.

[Elizabeth] A viagem estava bastante chata, até o momento em que Sébastien decidiu se sentar ao meu lado para conversar. Parecia um sonho, da forma como eu sempre imaginei. Tudo que me passava pela cabeça era Sébastien se sentar e passar horas conversando comigo... jogando conversa fora, qualquer coisa do tipo. Sim, outras coisas também me passavam pela cabeça... mas nada que fosse anterior a significarmos algo, um para o outro. Ele tinha que saber quem eu era, ao menos. E lá estava ele, me servindo drinques, sorrindo, ainda mais lindo sob a luz fraca do avião, enquanto o resto das pessoas ali parecia nem existir. Nem meus gaguejos e seus erros de inglês faziam diferença, porque parecíamos entrosados. Mas sonho que é bom acaba rápido, e o que é ruim vira pesadelo. Do nada, enquanto conversávamos um assunto completamente sem pé nem cabeça sobre namorados, Sébastien se aproximou perigosamente de mim, apoiando seu drinque na banqueta que ficava ao meu lado. E assim, sem muitos avisos e sem nenhuma justificativa, ele dirigiu seu corpo em direção ao meu, olhando-me nos olhos, e intentou me beijar. Minha reação não poderia ser outra que não me assustar e repeli-lo com as mãos. Segurei a camisa dele bem forte e o empurrei para trás, enquanto virava o rosto para o lado. _O que você está fazendo? – Perguntei, atônita. A imagem de cristal estava trincada, os pedaços a cair pelo chão. _Nada que você não queira. Sébastien insistiu na sua pretensão, segurando minha face com as duas mãos e tentou forçar seus lábios contra os meus. Se aquela cena fosse o sonho de toda mulher que se considerasse Siren, era porque nenhuma delas ainda tinha vivido tal situação. Como nos filmes, a mocinha tentava em vão se esquivar do beijo do bandido, que tentava lhe conquistar. _Pare com isso! – Eu o empurrava. E parece que homens estão sempre possuídos por uma força do mal quando estão a beijar uma mulher... ou pelo menos, a tentar. _O que foi? Você não quer? – Ele finalmente se afastou. Eu já estava descabelada, assustada. Ninguém tinha nos notado, o que era ainda mais estranho. _Não! – Falei, enfática. – De onde tirou essa ideia?? _Oras... todas as fãs sempre querem beijar seus ídolos. E nos entendemos tão bem... Pensei que... _Pois pensou errado. – Levantei-me, ajeitando a blusa. Daquela vez, Mônica olhou para ver o que acontecia. Por sorte, não havia nada para ver. – E muito errado. Recolhi-me para o fundo do avião, com Anne. Faria companhia aos sonhos de minha amiga, e ficaria com meu pesadelo pessoal. Como uma coisa tão perfeita poderia se tornar uma coisa tão repugnante, de uma hora para outra?

[Anne]

A viagem para a Malásia foi um breu total. Eu dormi, simplesmente. Não sei o que aconteceu, nem perguntei a ninguém. Estava insuportavelmente entediada e chata. Meu encanto pelo Il Divo estava se desmanchando como um castelo de areia e eu me sentia cruel. Ao olhar Urs, sentia que ele era um chato. E Clara parecia tão deslumbrada com ele... eu precisava deixar que ela o curtisse. Eu não aproveitaria nada ficando ao lado dele. Notei que Lise estava estranha, mas deixei que ela me contasse o que havia de errado. Mônica estava falante, mais do que de costume. Entendi que a noite no avião foi interessante para elas... mas não sabia até quando. Nossa primeira parada foi no hotel, para descarregarmos as malas. O Il Divo causou sensação no aeroporto, e nós fomos escondidas para a van. Não deixaram que as fãs nos vissem. Não entendi nada, porque deveríamos ser bem públicas. O mais possível, para que todas as fãs se sentissem invejosas da nossa posição. Mas eu havia deixado de entender o que se passava naquela viagem desde o início. Nosso primeiro compromisso seria à noite, então teríamos mais um tempo para descontrair. [Mônica] Antes de decidir me desapontar com os rapazes, eu precisava conhecê-los melhor e entender por que estavam agindo daquela forma. Eles eram meus ídolos e eles nunca dexariam de ser. Eu sabia que aquele era um péssimo momento naquela turnê, depois de todo o fracasso do novo trabalho, e que eles precisavam sobreviver. Decidi não colocar nada preto, brilhante ou sexy. Não queria impressionar com algo erado. Eu não sabia, de verdade, que impressão queria causar. Mas nada como se estivesse a fim de me jogar nos braços do primeiro que aparecesse. Pensei na coisa mais confortável que poderia vestir, e decidi por jeans. Ainda teria umas 4 horas até o TV Show e eu não sabia o que fazer. Clara dormia tanto que quase babava. Lise eu não sabia onde estava, e Anne estava uma chata. Parecia o Urs... fariam um bom par. E ficar naquele quarto era como uma prisão. Eu não escolhi ficar ali, porque me trancar não era uma opção à qual eu estava acostumada. E um passeio pelo novo hotel era boa ideia. Eu não me hospedava em hotéis chiques normalmente, e nunca caminhara por corredores tão largos e decorados. Havia carpete nas paredes, e as colunas eram cobertas com veludo. Eu me senti estranha quando vi o elevador e notei que havia um sofá lá dentro. Um elevador não deveria ser grande o suficiente para um sofá, certo? Não seria má ideia tentar encontrar Lise e Anne, mas quanto mais eu andava, mais meu estômago protestava. Eu não havia comido nada, e estava faminta. Só cheguei ao hotel e fui para o quarto, liguei para minha mãe para contar as novidades e tomei um banho. Meu estômago então gritou e eu precisava comer. Definitivamente, ficar no quarto não era uma opção. Fui ao bar do hotel; eu pensei que aquele era o melhor lugar para comer. Não estava certa em encontrar o Il Divo por ali, gostaria de estar com eles quando eles estivessem a fim de estar comigo. Detestava forçar as coisas, e conhecê-los já era bom o suficiente. Eu estava sonhando com um sanduíche... um enorme. O hotel não estava muito cheio, e achei aquilo estranho. Mas era um hotel caro, não deveria haver muitas pessoas podendo pagar diárias à vontade em um lugar como aquele. E eu não sentia nenhum calor humano por ali. Fui até o bar, então, e ouvia uma música. Uma música ruim... pensei que o pianista estava lutando com o instrumento. Eu estava quase desistindo de ir até lá quando me surpreendi vendo que era David Miller sentado no piano. Cabeça baixa, nada animado. Ele parecia em uma batalha com a música, e aquela não era exatamente minha imagem do David. Eu pensei umas 200 vezes se deveria ir até lá, ainda mais porque o cheiro que vinha da cozinha estava me deixando louca. Mas eu deveria ser natural. Eu já esta ali mesmo...

_Procurando por um tom? – Eu disse, sorrindo. Ele levantou o olhar, me mostrando a face suada. Havia somente uma luz fraca no bar, sobre o piano e as mesas. Mas estava quente, um calor maligno que havia se instaurado sobre a Malásia. Eu não sei se gostava de todo aquele calor, mas tive que admitir que os homens costumavam ficar sexy suados. E com menos roupas. _Eu acho que sim. Normalmente eu sei o tom das músicas que canto, mas não sei por que não me lembro agora. _Eu nem sabia que tocava piano. _Eu não toco. – Ele riu. _Posso ajudar? Sentei ao lado dele. Senti que estava frio, mesmo suando muito. Nossos corpos se tocaram suavemente, e coloquei minhas mãos sobre as notas, olhando para David e sorrindo. Nossos dedos também se tocaram. Foi como uma cena de filme, e um filme bastante estranho. Eu, do lado de David Miller, pensando que o ajudaria com o piano? Piada. Mas não era, e aquele toque de pele produziu energia o suficiente para ligar uma lâmpada. _Como acha que vai me ajudar? _Cante a música. – Simplesmente ordenei. David cantou a primeira parte de Ti Amerò. Minha música favorita, nem acreditei que ele queria cantá-la. Como sua voz era suave... eu sempre a tinha ouvido poderosa, acompanhando o Carlos. Comecei a viajar com a letra e desejei que ele pudesse cantar para mim para sempre. Bati os dedos no piano até achar um tom que eu pensei que combinasse. _Bom, agora você tem seu tom. – Sorri. Levantei-me, mas ele segurou minha mão. Se não já fosse complicado demais me sentar ao lado dele, ele segurando minha mão ficou interessante. _Aonde vai? _Vou comer... estou faminta. _Acho que deveria ficar… Steve disse que somos responsáveis pelas fãs. Lá estava o David que conheci. Brincando... eu tive que rir. _Já sou crescida. E não estou vendo minhas amigas escoltadas pelo Il Divo. E estou mesmo faminta... não almocei. _Não precisa de companhia? _Não, mas se quiser vir assim mesmo... [David] Eu deveria estar meio maluco, ou meus olhos brincavam comigo. Já era ruim demais não conseguir tirar nada bom do piano. Os acordes não vinham à cabeça e nada me ajudava lembrar uma música que cantei tantas vezes. Mas eu precisava ouvir aquela voz, e a voz deveria ser exatamente de quem eu não sei se queria ouvir: da fã. Ela sorria para mim, e parecia tão confiante. Por que será que eu desejei beijá-la? Não fazia sentido algum. Eu me senti em um daqueles livros velhos de romance que as mulheres costumavam ler. E que eu odiava. Nunca fui romântico nem fazia a menor questão de ser. Desisti daquele comportamento e expliquei que não conseguia tocar a música que sempre cantei. E ela, sem hesitação ou barreira, como aquelas barreiras tolas que sempre separaram ídolos de fãs; as barreiras que eu mesmo criei para me defender tantas vezes, se ofereceu para me ajudar. Sentou-se ao meu lado, naquela banqueta minúscula. Seus jeans arrastaram-se nos meus, seus dedos

tocaram os meus, e ela quase poderia descobrir que eu havia parado de respirar. Eu não poderia respirar com ela ali, daquele jeito. Para minha surpresa, ela conseguiu o tom que eu precisava. Linda, com um cheiro delicioso, e ainda prestativa. Nem parecia uma fã, porque as fãs não eram pessoas daquele jeito. As fãs era neuróticas desiludidas que depositavam suas esperanças em um dia ganhar um autógrafo ou um beijo. Ela só me ajudou, e então se levantou para ir. Pareci meio desesperado quando segurei sua mão, mas ela felizmente não notou. Eu lhe dei uma falsa razão para lhe segurar daquela forma, ela me disse, displicentemente, que eu poderia ir com ela. Não, eu não podia! Ela é quem deveria ficar comigo; era daquela forma que funcionava a relação fã-ídolo. Pensei que poderia segui-la até o inferno, mas não deixaria o corpo guiar o cérebro. Ela ainda era uma fã, e estaria me perturbando por pelo menos 15 dias. Deveria tratá-la como fã, por mais estranho que aquilo estivesse parecendo. _Desde quando gosta do Il Divo? – Socorri-me à pergunta mais idiota possível. Estávamos no bar esperando pela sanduíche que ela pediu. Eu não quis comer, um suco estava ótimo. _Desde sempre. Eu tenho todos os CDs… _Então é uma fã antiga. _Percebe-se que não sou antiga, certo? – Mônica implicou. – Devo ser da idade das suas fãs mais jovens... – Ela me sorriu e quando sorriu o mundo se abriu em um sol radiante. Pássaros cantaram, e todas aquelas baboseiras de filmes melosos. Eu estava um tanto quanto doente, pensei. Queria mesmo saber o que estava acontecendo. _Não falei de idade... mas sim, percebe-se que é bastante jovem. _Sim, eu sou. _E há algo que queira me perguntar? _Eu sei muito sobre você, acho. Mas o que houve, para ficar tão solícito de repente? Ela jogava duro. Sabia tudo sobre mim, amava o grupo, e era totalmente diferente de qualquer outra fã que já conhecera. Fantástico. Eu não sabia de onde tinha vindo aquela garota, mas ela estava começando a me parecer boa demais para ser de verdade. _Bem, percebo que estou em total desvantagem aqui. Não sei nada sobre você. _Não sou interessante. Sou só uma fã. Minha vida não tem muita graça. Sou uma pessoa comum. A comida chegou, e Mônica se preparou para comer. Era vegetariana, pensei... não havia carne no sanduíche. E então ela me parecia ainda melhor. Tinha ideais. Eu estava fascinado, eu estava completamente débil mental. Quando Carlos soubesse daquilo, ia me trucidar vivo. Eu, David Miller? Que assunto mais descabido. _Teste-me. O que você faz? _Trabalho em uma grande empresa. _Sério? Parece muito jovem para já trabalhar. _Tenho 19, mas não me interesso em ficar à toa. Gosto de aprender coisas novas todo dia. _Então, minha vida deve ser menos interessante do que a sua. Eu não tenho mais muito o que aprender... _Não seja pretensioso. – Mônica implicou. – Todos temos o que aprender... basta você estar aberto às novidades. Meu telefone tocou antes que eu conseguisse replicar. Sorri e identifiquei o número de Carlos. Ele estava sempre ligando nos horários menos convenientes. _Onde está, mocinha? _No bar, Carlos. O que quer? _Venha ao saguão. Estamos partindo para o canal de TV. A fã desaparecida está com você?

_Sim, está – Imaginei que a desaparecida fosse Mônica. _Então traga-a. As meninas vão nos acompanhar. Seja cavalheiro.

[Urs] Voltamos ao hotel exatamente na hora do jantar. Eu estava faminto; não havia comido praticamente nada desde que vira a fã no hall do hotel em Londres. Ela me tirou o apetite? Não costumava ficar tanto tempo sem comer, e meu estômago fazia ruídos estranhos. Foi então que vi, quando cheguei, que Steve as tinha arrastado para os leões. Senti pena quando a vi com a imprensa sedenta por sangue. Pobre fãs, seriam obrigadas a sentir exatamente como nós nos sentíamos, dia após dia. Mas nós havíamos escolhido aquela vida, elas não. Entrei no hotel mas não as vi propriamente. Subi para meu quarto apreensivo... elevadores me causavam apreensão. Tive que subir 30 andares agarrado em qualquer coisa existente dentro do elevador. Em meus dias normais, já estaria com medo... cheguei em meu quarto reclamando por entre os dentes. Era grande, o elevador... pelo menos. Bem, tudo naquele lugar era enorme. Troquei de roupa rapidamente e desci para o restaurante, a fim de calar meu estômago. Eu tinha que encarar mais das brincadeiras infames de David e Carlos, e os comentários nada simpáticos de Sébastien. E eu me sentindo a ervilha no meio do milho. Não foi difícil encontrar a mesa na qual já estavam os meus amigos, porque David Miller estava quase sobre uma cadeira, fazendo alguma piada. Quem visse David nunca acreditaria que ele era daquela forma, por trás de toda a máscara. Eu nem quis saber o que acontecia, mas tive que admitir que o caos estava sobre nosso grupo. Cada membro, sem exceção, estava surtando. Ninguém parecia normal, e aquilo era triste. Cheguei sorrindo, e meu amigo resolveu descer da cadeira porque seu celular tocou. Também não sei quem era, mas me poupou o esforço de fazê-lo descer. Uma voz alta me fez voltar à realidade. _Nossa, nunca vi um hotel tão lindo. Era Clara, aparentemente agitada, com as outras garotas. Estranho era que eu pouco notava as outras garotas... e não estava vendo nada lindo naquele lugar. Edifício alto, elevadores velhos, saídas de incêndio pelo lado de fora... e eu nem gostei da decoração, porque aquilo nunca me importou. Mas lá estava ela, tão... animada. Deveria ser a primeira vez em que eu via alguém tão... surpreso. _Bem vinda à nossa realidade. – Sébastien disse, sem olhá-la. _Estão terminando? – Ela quis dizer o jantar, eu soube. – Steve nos chamou para entrevistas, e nos atrasamos. _Nem começamos. – Carlos dise. – Será um prazer se jantarem conosco. Clara riu. Sentou, levantou, sentou-se de novo, pegou um prato pequeno, então um prato grande, olhou em volta várias vezes até encontrar o buffet. Anne, que estava mais próxima, ria sem parar, como se tivesse cheirado o gás do riso. Estariam ligadas na eletricidade? _O que houve com nossas visitantes? – David notou. – Estão elétricas... _Isso é o que se consegue com açúcar demais no sangue. – Mônica condenou. – Estávamos nervosas em dar entrevistas e essas duas comeram todos os doces que encontraram pela frente. E também amendoins, e chocolates, e caramelos... _Comeram tudo isso de estômago vazio? – Assustei-me. – Não me surpreende estarem tão agitadas... _Bem, eu vou comer algo salgado ou precisarei de remédios. Clara levantou-se e quase derrubou todos os pratos no chão, com os joelhos. Eu me levantei com ela, e não a deixei cair. Pela segunda vez, claro. Segurei-a em meus braços, ela colocou o nariz no meu peito, pernas flexionadas. Levantei-a bem devagar, enquanto seu corpo inteiro era arrastado sobre o meu. Clara me olhou; olhou bem profundamente dentro dos meus olhos. Ela tinha olhos lindos... como o mar em Abril. Respirei fundo e

a coloquei de pé, sem soltá-la. Clara continuou olhando para mim, até que nossos narizes se tocaram. Foi rápido, talvez 10 segundos. Mas segundos intermináveis. Um silêncio insuportável por 10 segundos. _Acho melhor tomar cuidado… - Ela se soltou, um tanto constrangida. Foi sozinha até o buffet. Pude ver que suas pernas não estavam ok, então decidi segui-la.

[Narrador] _Só eu vi aquilo? – Carlos estava assustado. Urs e Clara caminharam para longe da mesa. _Depende. O que você viu? – David comprimiu os lábios. – Eu vi problemas. _O que? – Mônica tentou entrar na conversa. _Dois. – Sébastien concordou. _Problemas por quê? – Lise quis saber. _Eu também não vi nada. – Sébastien ponderou. _Seb, quem vê pensa que você é inocente... não viu as faíscas voando entre nosso querido amigo Urs e a fã? _Sim, eu notei... mas isso é problema? Quero dizer... eu acho que entendo. _A fã tem nome. – Anne foi seca. _Sim, desculpe. – David se corrigiu. – Então agora você entende os problemas? _Urs tem Válerie, ela já é problema o suficiente. Clara é uma fã. Como acha que isso termina? _Terminando, isso é fato. – Carlos concordou. _Mas ainda não aconteceu nada. _Ainda não. [Anne] Eu definitivamente precisava clarear as idéias. A Malásia era um ótimo lugar... eu não conhecia nada, ninguém me conhecia, eu nem falava a língua. Esperava que gente lá falasse inglês. Saí pelas ruas, de manhã cedo, moleton cinza, e fui correr em um parque que havia em frente ao hotel. Sim, eu já tinha sondado o lugar. As pessoas eram diferentes... muito diferentes. Olhos diferentes, roupas diferentes, hábitos diferentes. Não me encontrei com os obesos de tênis correndo. Nem com as madames e seus cães. Senti-me tão fora de casa, e tão feliz. O Il Divo estava quebrado. Eles precisavam fazer algo para que eu me resgatasse. Se eu era quem supostamente deveria ajudar a erguê-los, estavam encrencados. Entrei parque adentro e notei que as pessoas desapareceram. Não via mais ninguém correndo. Depois, notei uma movimentação... pessoas de um lado para o outro, mas não eram transeuntes. Carregavam equipamentos. Fiquei confusa... mas ainda mais curiosa. Fui atrás do movimento, quando vi um set de filmagens montado. Notei que o lugar estava isolado, e que eu, desavisada, havia transposto alguma barreira que ignorei. Olhando para o set, caminhei mais alguns metros para tentar ver o que era, e para não ser vista. Mas eu era mesmo destrambelhada... só perdia para a Clara. Trombei com algo, desabei no chão. Caí sentada, e doeu bastante. Olhei assustada para o que era, e vi quem era. Bem, eu ignorava quem fosse... era asiático. Como tudo ali. Um rapaz segurava um copo na mão, e o líquido estava particionado entre sua camisa e a minha. _Oh oh... – Eu disse, sorriso amarelo. Ele olhou para sua camisa estilosa, arruinada. – Sinto muito, estava correndo e não te vi. *_O que está havendo? – Aproximou-se uma pessoa. O rapaz com quem trombei ofereceu a mão para que eu me levantasse, e eu aceitei. Olhei dentro dos seus olhos... eram bonitos. *_Trombamos... foi sem querer.

Nem preciso dizer que eles conversavam aquela língua esquisita. Seja lá qual fosse. *_Você fala a minha língua? – O rapaz que acabara de chegar me questionou, pelo tom eu percebi. _Sinto muito, só falo inglês. _Ah sim... o que está fazendo aqui? Estamos filmando. _Desculpe... sou turista, eu não vi nada. O rapaz me apontou uma barreira formada por faixas alaranjadas, da qual nem tomei conhecimento. Senti-me ainda mais estúpida... _Ok... desculpe novamente. _Você não veio mesmo ver as filmagens? _Eu nem sei o que filmam. – Fui sincera. – Sou brasileira... primeira vez na Ásia. _E não me conhece? – O rapaz com quem trombei perguntou. _Não... eu deveria? _Pode ficar para assistir, se quiser. – Ele sorriu. – Vamos filmar um vídeo, podemos precisar de um turista perdido. [Narrador] Elizabeth estava preocupada com Anne. Ela rodara todo o hotel atrás da amiga, que simplesmente desaparecera desde o café da manhã. Ela ainda teve que livrar-se de Sébastien, que insistia em andar atrás dela. Ela pensava que sentia algo forte pelo francês, mas depois da tentativa frustrada de beijá-la, a situação ficou estranha. Talvez nada forte, então. Mas Anne desaparecida, Elizabeth foi atrás de Mônica, que lia uma revista no hall de entrada. _Não entendo nada aqui. – Mônica protestou pelo idioma estranho. _Nem eu... mas diga, você viu Anne? _Não... só no café. Por que? _Ela não está em lugar algum, e já é quase almoço... os divos estarão chegando em poucos minutos, pelo que sei, e ela esta desaparecida. Mônica coçou a cabeça, tentando imaginar o que poderia ter acontecido com a amiga hiperativa. Clara acabou por juntar-se ao grupo. _Oras... ela deve ter saído! – Mônica raciocinou. Elizabeth sentiu-se tola em não pensar naquilo, mas nem poderia imaginar que Anne fosse tão estranha a ponto de sair por Kuala Lumpur sem conhecer nada. _Vamos descobri-la. – Clara excitou-se. As três amigas decidiram dar uma “espiada” do lado de fora do hotel, para ver se imaginavam onde Anne poderia ter ido. Mônica viu um parque lindo, teve vontade de ir até ele. Mas foi Elizabeth quem tomou a iniciativa de atravessar a rua. _Ela deve estar aqui. – Lise conjecturou. – Bem, se eu fosse hiperativa, gastaria minhas energias em um lugar lindo como esse. _Concordo. – Clara as seguia, meio para trás. Caminharam alguns passos dentro do parque quando viram Anne vindo na direção delas, com um enorme pirulito e conversando animadamente com alguém... que elas nem imaginavam quem fosse. Elizabeth apertou o passo para alcançar Anne. Mônica resolveu esperar... não valia o sacrifício. Clara ficou tentando imaginar quem era que parecia encantar a sua amiga. _Anne! – Lise chamou alto. – Anne!!! _Lise! – Anne cumprimentou. – O que fazem aqui?

_Eu é que pergunto... – Lise olhou a pessoa que fazia companhia a Anne de cima em baixo, sem querer. Era um rapaz e parecia simpático. – Você desapareceu. _Lise, quero te apresentar ... como é mesmo o seu nome? – Ela perguntou, terminando o doce. _Andy Lee. – Ele estendeu a mão para Lise, que o cumprimentou sorridente. _Andy é americano, está filmando aqui em Kuala Lumpur... ele toca.... atua... _Eu canto. – Ele riu. – Açúcar deixa sua memória comprometida. – Ele implicou. _Açúcar a deixa fora de si. – Elizabeth riu. – Mas hem... D. Anne desapareceu e deixou todas preocupadas. Vamos voltar para o hotel? _Ah não. – Anne protestou. – Andy me convidou para almoçarmos… e eu aceitei. – Anne fez uma misura, como uma adolescente que apronta. _Como é? – Naquela altura, Mônica já ouvia a conversa. Eles se aproximaram mais das outras duas garotas e pararam. _Eu realmente a convidei... Anne invadiu nossas filmagens sem querer, e ficamos conversando... ela é bastante simpática. Não conhece o meu país, e vou levá-la para comer uma comida típica. _Comemos comida malaia no hotel. – Clara não entendeu nada. _Eu não sou malaio. – Andy riu. – Você vem? Os rapazes nos esperam. Anne sorriu para Andy, que se afastou. Ela segurou o passo um pouco e virou para as amigas, em português. _Ele tem amigos lindos. Quem sabe vocês não se interessam também. E rindo, afastou-se das três amigas, deixando-as completamente confusas.

[Narrador] _Alguém me explica o que deu na Anne. – Lise estava inconformada. _Ela gosta de asiáticos? – Mônica ficou fazendo a mesma pergunta. _Acho que ela está meio desiludida. – Clara ponderou. – Também, pudera... com a recepção que tivemos, me surpreende eu estar ainda tão louquinha pelo Urs... _Você está?? – Mônica franziu a sobrancelha. _Não era para ter falado alto... – Clara arrependeu-se. _O assunto era a Anne. Em que parte vocês se perderam? – Lise disse, já se sentando para o almoço. _Na mesma parte que você. O que estamos fazendo aqui, afinal? – Mônica estava interrogativa. Antes que elas pudessem continuar a conversa, os divos apareceram. Eles tinham chegado de um programa de TV e estavam famintos. Sentaram-se em uma mesa maior e David se levantou novamente, caminhando até as garotas. _Vão se sentar conosco? – Ele disse, educadamente mas olhando para Mônica. _Sim, vamos. – Clara levantou-se mais do que depressa. Lise pensou que seria um peixe fora d’água sem Anne, pois as outras estavam bem interessadas em seus respectivos divos. _Está faltando uma. – Seb olhou ao redor, tentando encontrar Anne. _Ela está almoçando com o Andy Lee. – Clara sorriu. _Andy Lee? – Carlos franziu a sobrancelha, como se aquilo fosse novidade. Mônica balançou a cabeça negativamente, querendo dizer que Clara estava com a língua solta naquele dia. Mas Clara nem sabia que a história do Andy Lee era algum mistério. _Sim, ela o conheceu hoje de manhã. _Isso é ótimo. – Urs, mal humorado. – A fã que deveria nos dar suporte e nos fazer subir ao topo novamente está em um encontro no momento em que deveria estar aparecendo na TV conosco. _Que TV, Urs? – Seb olhou em volta outra vez. – Você está meio maluco... de onde tirou isso???

_Nada. – Urs emburrou. Baixou a mão e sem querer o fez sobre a perna esquerda de Clara. Ela olhou para ele assustada, ele envergonhou-se e tirou a mão, nervoso. Ficou corado como pimenta. Clara sorriu sem querer sorrir, ou sem querer demonstrar. _Temos algum compromisso hoje? – Lise tentou ser prática. _Podemos ter. – Sébastien e suas indiretas. _Amanhã cedo partimos para Hong Kong. E Tókio logo depois. _Então a resposta é não? – Mônica olhou para David. _Sim, é não. Na verdade, só tínhamos coisas marcadas para essas duas cidades. A Malásia de última hora foi invenção de Steve, que está sempre arrumando histórias.

[Andy Lee] Convidar Anne para almoçar foi uma boa idéia, eu achei de início. Mas me arrependeria amargamente depois... porque nada poderia ter dado mais errado. De início, notei que ela tinha certa propensão a acidentes. Mas aquilo não seria problema... ela era uma mulher bela. Porém eu nunca perdi a inocência. Levei-a para almoçar com Eric Mun. Justo com Eric. Ele nunca prestou, mesmo. O restaurante estava bastante cheio, e por sorte eu tinha feito as reserves para o grupo. Foi complicado entrar lá... infelizmente eu fui reconhecido pelas milhares de fãs que Eric arrastava consigo. Eu nunca entenderia porque ele chamava tanta atenção. Ele até gostava de ser mesmo, o centro das atenções. _Andy!!! – Eric veio correndo, entrando no restaurante antes que mais alguém o visse. _Aqui Eric... seja bem vindo. – Abracei meu amigo. Devo confessar que Anne nos olhou meio ressabiada. Ela nunca tinha visto dois homens se abraçarem? – Quero que conheça a Anne... esse é Eric Mun. _Prazer. Novamente, achei graça porque ela não entendeu o cumprimento com o corpo. Quis somente dar-lhe as mãos. Via-se claramente que ela nada tinha de asiática... e não eram só os olhos que me diziam aquilo. Eric se sentou, e pedimos o almoço. Eu pedi por Anne porque ela nem sabia o que comer. Ela era um doce, conversávamos tão naturalmente... mas Mr. Mun estava mesmo ali para perturbar. E o pior é que ele não me perturbou... ele chamou reforço! _Então... Anne. É Americana? – Ele perguntou. _Não, sou brasileira… _Que interessante! Nós dois tínhamos nossa residência nos EUA, mas estamos só por aqui agora... _Na Malásia? – Anne estranhou. _Não… ignore-o, ele só fala besteira. – Eu tive que intervir. Mas como era mesmo meu dia de horror e graça, eis que surge pela porta, fazendo alarido como de costume, uma figura bastante conhecida. _Se eu falo besteira, imagine ele... – Eric caiu na risada. *_Andy Leeeeeeeeeeeeeeeee!! – Dongwannie surgiu do nada, como uma bola de canhão. Eu olhei para Eric a fim de fuzilá-lo, literalmente. Sem piedade, colocá-lo no paredão e abrir fogo. – Eric Mun... e desconhecida. – Ele sorria. Bandido... *_A desconhecida é a garota do Andy... que só fala inglês. – Eric levantou-se e o abraçou, puxando-o para a cadeira. Pobre Anne, ficou tão confusa... quanto eu! *_Garota do Andy??? Simpática ela… *_Sossegue Dongwannie. – Respirei fundo. Vire-me para Anne, que sorria com uma interrogação em negrito e letra tamanho 30 na face. – Esse é meu outro amigo Dong Wan... mas ele não fala inglês muito bem. _Falo sim! – Ele ainda protestou.

_Fala nada! – Eric riu. _Você tem vários amigos... – Ela sorriu, estendendo a mão para Dong Wan. Ele a olhou nos olhos, e eu simplesmente detestava quando ele fazia aquilo!!! Lá estava Anne, prestes a ser enfeitiçada por aqueles dois bruxos. Ao menos alguém se divertia, e esse alguém era Eric Mun. *_Você é um patife... como me traz Dongwannie para comer? *_E deixar você ter um encontro às 2 da tarde? Nem pensar! – Eric implicou. _Vamos falar algo que ela entenda. _Vamos comer, afinal o pedido chegou. _Minhas amigas realmente vão adorar isso. _Amigas? – Eric se interessou. _Sim... ah, isso é uma novela. Se quiserem, eu conto.

[Narrador] O relógio marcava dez e quarenta e cinco da noite, e Lise andava pelos cantos do quarto de hotel, nervosa. Mônica e Clara estavam assistindo o programa de TV mais esquisito que elas já tinham visto, enquanto Elizabeth só queria saber onde estava a amiga Anne. _Deixe de ser desesperada, Lise... – Clara disse, bocejando. – Anne está com o Andy Lee... seja lá quem ele for. Ele é até simpático... _Não gosto de asiáticos. – Mônica foi simples. _Nem eu... mas ele é simpático. – Clara riu. _Mas Anne ainda não apareceu!! E olha que horas são??? As palavras proféticas de Elizabeth não fizeram chover no Nilo, mas aconteceram na mesma hora em que a porta do quart se abriu e Anne entrou, rindo como louca. _Shhhh... espera aí, elas devem estar dormindo já. – Ela disse, no hall de entrada, sem notar a presença de Elizabeth. _D. Anne! – Elizabeth a assustou. – Com quem está falando??? _Ops... – Anne não parecia muito sóbria. – Eu vim trocar de roupa... e aproveitar para te convidar para ir com a gente até o clube noturno. _Clube noturno??? – Mônica abriu os ouvidos. – Quem vai para clube noturno?? _Anne! E seja quem for que está do outro lado da porta. _Tem problema, mamãe? _Você alongou bem esse almoço... – Clara riu, indo conferir o que acontecia. _Bem, eu vou. Avise aos divos que não deixarei de pegar o avião para Hong Kong, ok? Vamos, Lise... eles são divertidíssimos!!! E estão deixando Kuala Lumpur amanhã também... _Eu não sou convidada? – Clara protestou. _Nem eu! – Mônica concordou. – Isso é um absurdo... ela vem aqui contar que está se divertindo e só convida a Lise! _Vocês iriam comigo? – Anne fez um bico. – Duvido... por mais divertido que seja, vocês ainda estão apaixonadas pelos divos de vocês. Clara fez uma careta. _Eu bem que podia ir... mas estou cansada. Amanhã temos compromissos. _Os divos têm, eu não. – Anne riu mais um pouco, deixando a conversa de lado e vestindo-se para o evento noturno. Mesmo suada, simplesmente vestiu algo preto e olhou para Lise, desafiadora. Elizabeth não sabia o que fazia... Anne era sempre divertida, ela pensava em segui-la. Mas deixar o hotel tão tarde para ir atrás de rapazes que ela nem conhecia…

_É só diversão. – Anne insistiu. _Está bem... eu acho que vou. – Elizabeth imitou Anne e vestiu qualquer coisa preta. Anne comemorou, enquanto as outras duas tinham certeza de que não iriam. Anne agarrou Lise pela mão e saiu do quarto. Lá fora, aguardavam Eric Mun e Andy Lee, melhores amigos. Dong Wan estava no saguão, aguardando o resto do grupo para encontrarem-se ainda com Minwoo. Anne tratou de ser abusada e apresentar os rapazes a Elizabeth. Que não podia negar, eram bem bonitinhos. Nada de homens feitos como o Il Divo, mas bem bonitinhos. Foram para o clube indicado por hyesung, que não iria comparecer porque estava com compromissos em Tokio. Ele nem tinha ido até Kuala Lumpur com os amigos, e os encontraria em breve no festival. _Você tem algum tipo de estrela? – Elizabeth comentou, já sentada na mesa com o grupo. _Por que? _Ah... primeiro me ganha essa competição e agora está aqui, com tantos rapazes bonitos quanto se poderia encontrar em uma viagem por toda a Ásia... Anne quase morreu de rir do comentário. Aceitou com prazer a margarita que lhe era oferecida. Elizabeth ficou com água mineral, ela não se arriscaria com álcool àquela altura. _Talvez eu tenha uma estrela... – Anne sorriu, olhando sem querer para Eric, que acabava de se levantar para ajeitar a camisa por dentro da calça. Ela deixou que seus olhos percorressem a imagem, que não congelou para que ela aproveitasse o movimento. Se ela tinha uma estrela, era uma bem generosa... que lhe ofertava tantas vantagens em tão pouco tempo. Respirou fundo, suspirando. Apertou os lábios e sorriu, sentindo-se levemente encabulada quando subiu o olhar e ele sorria, percebendo que ela estava admirando talvez o que não devesse ser admirado tão de perto. “Quando foi que eu passei a ser tão fácil?” Ela pensou, assustada com seu comportamento. “Talvez no mesmo dia em que eu tenha passado a achar o Il Divo tão chato...” [Clara] Anne estava esquisita. Demais, para ser bem sincera. Eu fui mesmo dormir, pois era o melhor que tinha a fazer. Mas enquanto Mônica sonhava com o sétimo céu, meus olhos estavam mais abertos do que a janela. Nenhum ruído no quarto, nada. E eu ali, sem sono. Pensei que deveria até ter ido com elas... mas estaria agora no meio de asiáticos pelos quais não me sentia atraída, talvez não tendo nenhuma diversão. Não, eu deveria mesmo ter ficado. Mas deveria estar dormindo. Vesti uma roupa, calcei os chinelos e saí do quarto, pensando em rodar pelo hotel mesmo. Andei pelos corredores enormes olhando até para os números dos quartos. Sim, eu estava entediada... não havia dúvidas. Desci pelo elevador, pensando em ir até o hall do restaurante, porque lá havia um bar. Deveria haver pessoas, ao menos. Coloquei o fone de ouvido do mp3 player, ajeitei o aparelho no bolso e, quando levantei os olhos para sair do elevador, trombei com o peito de Urs, que queria entrar. Ele me segurou pelos dois braços, pela milésima vez, enquanto eu o olhava com uma cara bem tola. _Boa noite... – Ele disse, sobrancelhas erguidas. – O que você está fazendo aqui tão tarde? _O mesmo que você, talvez? – Eu arrisquei. _E o que acha que eu estou fazendo? _Matando o tempo, enquanto não consegue dormir por causa de insônia? – Segundo hound. _Bem, é quase isso. – Urs sorriu, esticando um pouco os lábios. – Precisa de... companhia? Ele disse aquilo, e eu pensei que seria muito louca se dissesse que não. Ele se oferecia para me fazer companhia... e eu deveria estar dormindo e não sabia.

_Talvez. – Fui meio termo. – Não tenho o que fazer mesmo, você tem idéias? _Não. Mas conversando pode ser que a noite passe mais rapidamente. _Ou que eu te embale no sono com minha conversa chata. – Impliquei. _Não seria de todo ruim... – Urs disse bem baixo, como que só para ele. _Como? – Eu realmente não tinha ouvido direito. E se tivesse, não aceitaria que ouvi aquilo. _Nada. – Ele me tirou do elevador. Continuávamos na mesma posição; seus dedos poderiam ter feito marcas em mim de tão forte que ele me segurava. E eu não achei nada ruim. – Venha... o bar está aberto ainda. Sentamos em uma mesa, e eu tive certeza de que não estava, definitivamente, vestida para estar em um bar. Calça de moleton, chinelos, camiseta básica de malha, cabelos sem graça, nenhuma maquiagem. Enquanto Urs estava impecavelmente vestido com jeans e camiseta – sim, a camiseta assassina em versão vermelho... o que a deixou ainda mais assassina! – e tênis, que eu pensei que ele nunca usasse. Talvez até para dormir ele fosse fashion. Eu não sabia,mas dava para acreditar naquilo sem esforço. _Gostaria de me desculpar. – Urs disse, depois de muito tempo em silêncio. A música tocava no meu mp3 player, mas o silêncio era absurdo. Ele tamborilava a mesa com os dedos, e aquilo era agoniante. _Pelo que? – Eu não havia entendido. _Porque está tudo uma bagunça. – Ele disse, aceitando um drinque que era servido. – Sabe, eu acho que cometemos um erro irreversível. E estamos pagando o preço. _Ok, você parece falar em códigos. Eu não estou entendendo onde você quer chegar. – Fui sincera. _O Il Divo. Você viu como estamos rabugentos... nunca estivemos tão baixos desde que começamos. E isso tem quantos anos? Três anos? Não é nada comparado à vida que tínhamos antes… que parecia eterna. Escolhemos um caminho interessante, mas em algum lugar do caminho fizemos a curva errada. Eu entendi, então. Claro, como eu era boba... ele falava do fracasso, ele falava da imbecilidade de se tornarem pop. Eles não eram pop, eles eram Il Divo! E no dia em que deixaram de entender isso, tiveram problemas. Não é mesmo? _Urs, eu acho que você não deveria pensar no que fizeram errado, mas em como acertar. _Você acha que tem como acertar? – Ele me olhou nos olhos. A música parou, naquele instante. Acabaram-se todas, exatamente no momento em que seus olhos capturaram os meus. Senti o estômago revirado. Seu olhar foi, pela primeira vez, sincero. Eu não estava preparada para aquele Urs. Já estava me acostumando com o Urs insuportável, que me impedia de cair na piscina e me jogava dentro dela, ao mesmo tempo. _Sim, tem. – Sorri, constrangida, desejando que meu constrangimento se escondesse por trás de uma barreira invisível. _Obrigado. – Ele segurou minhas mãos nas dele, levou-as até si e as beijou, fechando os olhos. Meu coração parou, o relógio parou, a respiração paralisou de tal forma que pensei estar me afogando em águas profundas. O que significava aquilo, então? Era o mais próximo que ele conseguia chegar de um beijo amigável? Ou era o mais próximo que ele conseguia fazer sem perder o controle? Eu não sei, já estava fora de mim mesma há tempos. E aquelas meninas perdidas pela Malásia... E eu ali, perdida dentro dos olhos de Urs. [Elizabeth] Acordei no dia seguinte depois de dormir por uma hora e quarenta minutos. Por que eu seguia Anne, era a questão relevante. Ela era impossível, já deveria saber. Chegamos em casa praticamente na hora de acordarmos para pegarmos o avião! Eu estava cansada, joguei-me na cama até o momento em que Mônica entrou para nos perturbar. Por incrível que parecesse, Clara também estava esgotada. Como ela podia dormir tanto e acordar com olheiras enormes, eu não sabia.

_Clara, você viu o passarinho verde. – Anne, elétrica ainda, comentou. _Como? _Está com a cara feliz, e completamente perdida. – Mônica riu. – O que houve que eu não sei que houve? Além do passeio de 24h da D. Anne… _Não durou 24h, quem dera tivesse. – Anne jogou-se na mesma cama em que eu estava. Desisti de insistir, era inútil. Como Clara estava esgotada, Anne estava ligada na tomada. Como era possível, eu não sabia. _Anne, você não pode estar tão acordada. – Eu protestei, enquanto Clara se olhava no espelho para tentar descobrir o que estava escrito em sua testa que fazia as meninas pensarem que ela estava com a cara feliz. – Eu mal consigo abrir os olhos. _Isso foi porque ficou sentada o tempo todo! _Mentira! Eu dancei… _Do lado da mesa. _Queria que eu tivesse ido dar show na pista? – Impliquei. _Show? – Clara não parecia melhor, então. – Como estou? _Acabada. – Mônica riu. – Anne vai contar do show dela, e você vai contar por que tem olheiras de quem não dormiu. _Mas eu não dei show. – Anne foi fingida. – Eu fui dançar, na pista de dança. Não tenho culpa se ele era um ótimo dançarino. _Ele? – Clara questionou. _Não… não era ele. – Eu caí na risada. – Eram ELES. _Ok, eu estou com medo de perguntar. – Mônica coçou a cabeça. _Seguinte: saímos com quatro rapazes... o Andy Lee e seus três amigos lindos. Que eu descobri depois que são cinco amigos lindos. Mas bem... depois de todas as margaritas do lugar, Anne foi dançar. E foi dançar com dois... e como eles dançaram, isso eu posso afirmar. A música era boa, não posso negar. Mas ela se esbaldou… bem, feliz é ela. – Eu tive que concordar. _Mas parece que dançar com dois não foi o que o cérebro de Anne processou... – Clara bateu na cabeça de Anne, fazendo “toc toc”. – Eu sei que para ela dizer a frase no singular, é porque seus olhos estavam concentrados em um certo alguém. _Não estavam não. – Anne estava mentirosa. _Então Clara pode vir a esclarecer as coisas para ela, agora. – Mônica não desistiu. Antes que Clara pudesse falar, no entanto, a porta do nosso quarto se entreabriu. Uma voz bastante conhecida nos disse que deveríamos descer. Eu ainda tinha cara de noite passada… por sorte as malas estavam ajeitadas. Era Sébastien, que não se constrangeu em entrar. Ele me sorria, e eu só pensava em como não estar no sorriso dele. Não chegava a acreditar que poderia passar por aquilo com Sébastien Izambard... eu acreditava tanto que ele era o tal. E então, o príncipe virou sapo em tempo record. _Clara, nem pense em não contar. – Mônica disse, sem se preocupar com os divos, enquanto rumávamos para o aeroporto. – Em português ninguém entende. _Não tenho nada a contar... é que tive insônia ontem. _Hum… e deve ter passado a noite com mais um ínsone. – Anne foi uma vidente. Causou um arrepio em Clara. _Er… de onde tirou isso? _Da sua cara de quem passou uma excelente noite acordada. A mesma que a minha.

[Narrador]

Ele chegou na cidade de Tokio três dias antes do festival para o qual foi convidado como apresentador. Ele não estava muito interessado em participar daquilo, mas sua produção achava boa idéia. Ele nem se importava, desde que lhe trouxesse mesmo reconhecimento. Quando já estava cansado de ficar no hotel sem nada para fazer, resolveu tomar coragem e foi passear pela cidade, bastante perdido. De certa forma, era bom perambular pelas ruas sem ser reconhecido; sem se preocupar com fãs. Ele não sabia direito, mas sentia que mais além do que estava previsto aconteceria. Era como se algo lhe soprasse nos ouvidos que o destino estava pronto para lançar algumas cartas na mesa. No avião dos divos, havia uma discussão infinita sobre para onde iriam. Isso porque toda a programação era outra... eles não iriam para Hong Kong. Eles só passariam em Hong Kong na volta da viagem. _Não acredito nisso! – David, irritado. – Eu estou lidando com crianças? Analfabetos, que não sabem ler uma agenda??? – Ele esbravejava. _Você está resmungando à toa, Dave. – Carlos foi realista. – No final, será a mesma coisa... vamos a Tokio de qualquer jeito, vamos a Hong Kong de qualquer jeito. _Engraçado isso... – Anne ponderou, puxando informações do fundo do seu cérebro. – Onde foi que eu ouvi falar sobre esse festival? _No clube, ontem? – Lise arriscou. _SIM! – Anne teve um insight. – Foi lá... mas o que foi mesmo? _Não deve se lembrar, porque você estava cheia de tequila. – Mônica implicou. _Eles disseram que iam a Tokio para o festival, foi assim que você ouviu falar dele. Anne arregalou os olhos, Lise arregalou os olhos, tomando ciência repentinamente do que tinha dito. _Caramba, essa foi a mãe das coincidências!!!! – Clara se arrepiou. _Do que falam? – Sébastien se aproximou, solícito. _Falamos dos homens da Anne. – Clara não perdeu a chance de implicar. _Credo, Clara! Vão pensar o que de mim, desse jeito? – Anne protestou. – É que ontem fomos a um clube com alguns recém conhecidos... que pela maior coincidência desse mundo, também estão indo para esse festival! _Ah sim... recém conhecidos? Malaios?? Quem foi a esse clube, ontem?? – Sébastien e um interrogatório. _Não são malaios... são coreanos, eu acho. – Anne coçou a cabeça. – E eu e Lise fomos... por que? Queria ter sido convidado??? – Anne foi irônica. Sébastien deu de ombros e deixou o grupo, encarando Lise. Ela se sentiu constrangida, e Mônica percebeu que tinha algo estranho. Acabaram por chegar em Tokio algumas horas depois do que fora programado para a chegada em Hong Kong. Todos quase morrendo de tédio. Era só interessante imaginar como tantas pessoas juntas poderiam se sentir entediadas. Todos olhando um para os outros. David vez ou outra deixando escapar um olhar para Mônica, que sempre pegava quando ele tentava observá-la. Clara e Urs não escondiam um do outro que se olhavam, apenas dos demais. E Lise tentava esconder-se de Sébastien. Somente Anne parecia empolgada, adrenalina no sangue, olhando pela janela do avião e esperando reencontrar-se com os rapazes que conhecera em Kuala Lumpur.

[Mônica] Aquelas pessoas pareciam todas doidas. Descemos no aeroporto de Tokio e um monte de mulheres histéricas gritava desesperadamente o nome dos divos. E eles ainda achavam que precisavam de mais sucesso? Mais fama? Aquele exagero todo já me irritava profundamente. Eu podia jurar que via faces conhecidas, imaginem! Provavelmente as neuróticas do fórum... aquelas de quem víamos fotos e pensávamos serem umas coitadas. Elas pensavam que possuíam os divos... mas não possuiriam o meu David, isso não.

Assustei-me em pensar em meu David... ele não se mostrara nem um pouco meu desde que o conheci. Nem parecia a mesma pessoa. Mas eu ainda pensava daquela forma de fã. Eu tinha certeza que Clara e Elizabeth também... só Anne estava irremediavelmente perdida. Estava ela se debandeando para o lado dos asiáticos... era maluca. O Il Divo era tão mais lindo e talentoso... mas fomos para o hotel, em carros fretados, eu ainda ouvindo aquele zumbido de fãs gritando, todos bem mais animados do que na viagem. Nunca pensei que viajaria tanto em tão pouco tempo. Era uma vida meio louca. Mas como as coincidências estavam realmente acontecendo em proporções que eu consideraria desastrosas, ou quem sabe assustadoras... descobri rápido demais que o hotel era o mesmo para todo mundo que participaria do tal festival. Isso porque Anne colocou os pés no tal hotel e fez um escândalo absurdo. Eu me assustei, e sem querer agarrei-me em David... que vinha logo atrás de mim. Foi instintivo... e macio. Posso dizer, foi macio. _EU NÃO ACREDITO! – Foi o berro da minha amiga maluca. – ANDY LEEEEEEEEEEEEEEE!!! – Ela me gritou o nome que até eu já conhecia. _Anne!!! – O rapaz veio em sua direção e a abraçou. – O que você está fazendo no hotel... – Ele olhou para os divos, que olharam para ele. Foi um reconhecimento de machos. _Eu vim com eles. – Ela apontou os divos, que continuavam o reconhecimento. Cheguei a pensar que todos cheirariam seus traseiros, mas aquilo era animalesco demais. Não que fosse de todo ruim... mas tínhamos outras maneiras de cumprimentarmos os outros. – E... bem, não sabia que vocês estariam aqui, nesse hotel... que viagem!! _Como?? _Ignore, é gíria. – Ela parecia bem animada em ver novamente o tal cara, e eu parecia bem confortável com as mãos onde elas estavam: ainda ao redor da cintura de David. Ele me olhou, do segundo andar, talvez imaginando se uma hora eu o soltaria. Senti-me meio envergonhada e o soltei, sorrindo como quem pedisse desculpas sem palavras. – Mas diga... vocês aqui? _Sim... pelo que sei, todos ficam aqui. É tradicional reunir os artistas do festival em um só hotel. Anne continuou sua conversa com o tal Andy Lee e eu decidi deixar aquilo para lá. Fui para o quarto atrás de Clara, que parecia ainda procurando por alguma coisa. Lise já estava dentro do elevador, ela, ao contrário, parecia estar fugindo de alguma coisa. _Aconteceu alguma coisa, Lise?? – Perguntei, jogando a mala no chão do quarto. Estávamos em quartos separados, daquela vez... de dois em dois. Eu ficaria com Clara, foi o sorteio. _Não... por que pergunta? _Parece que aconteceu. Você está estranha… notei algo no avião... você e Seb. Há uma tensão estranha entre vocês! _Você está vendo coisas... – Elizabeth ficou constrangida, eu vi. Ela não ia me enganar, se pensava que podia. _Sim... Vamos, você pode confiar em mim! Me diga, o que houve? _Ah... foi uma coisa chata, na viagem para a Malásia. Nada demais... ele achou que eu era uma das mulheres com quais está acostumado. _Como assim? _Melhor deixar isso para lá. _Fale, Lise!!! – Insisti, me colocando na frente dela. _Ele tentou me beijar. – Lise confessou, em voz bem baixa. _O QUE? – Eu gritei, sem querer. Chamei a atenção de Clara, que vinha do corredor, totalmente avoada. – Como assim ele tentou te beijar???? _Tentando.

_Mas que canalha!!!!! – Eu me indignei totalmente. Que absurdo. Sébastien, um calhorda. Nunca imaginaria… Ah, eu estou irritada! Ele não podia ter feito isso... ninguém é tão ordinário! _Mas ele foi. Ok, eu não gosto de falar nisso... – Lise estava visivelmente chateada. – Vou para o quarto... Anne pelo visto não aparece mais hoje, perdeu-se com Andy Lee de novo. _Quer dar uma volta por aí? _Talvez. [Narrador] Sasha Schmitz perambulava pelo hotel, um tanto quanto desanimado. Não conhecia nada, nem conseguira conhecer. Não falar a língua foi um problema. Ele até acreditou que todos por ali falavam inglês, mas era ilusão. Mão nos bolsos, andou de um lado para o outro tentando ser simpático com as pessoas que encontrava. Sentou-se na área de jogos, onde várias pessoas pareciam se divertir. No meio de tantos olhos diferentes, ele deixou que os seus pousassem sobre os rapazes que jogavam sinuca. Eram europeus, ele apostou. Provavelmente estavam ali pelo festival… talvez ele devesse se aproximar. Eram todos artistas... _Clara!!! – Anne chegou, barulhenta, antes que Sasha pudesse realmente se aproximar. Clara vinha do bar com água, enquanto Urs e Carlos jogavam uma partida de sinuca. Não que Urs gostasse de sinuca... mas ele não tinha nada melhor para fazer. Nada melhor que ele estivesse autorizado a fazer. – Clara!!! Você viu a Lise??? _Não... ela disse que ia ao quarto arrumar as coisas quando eu ainda estava tomando um banho. Desci e não a vi. _Ah... iria convidá-la para sair. _Sair? – Urs estranhou. – Mas não temos compromissos hoje, o festival começa amanhã. _Eu lá vou sair com vocês? – Anne foi positiva. – Eu vou sair com ele! – Ela puxou a mão que arrastava pelo hotel, a mão de Andy Lee. Ele sorria, bochechas marcadas pelas covinhas. Clara riu, achando graça da resposta de Anne. _Você não acha meio complicado isso? – Urs ponderou. – Veio para ficar conosco... era para servir como uma promoção... você venceu o concurso, ganhou a competição, escreveu uma história fantástica e... agora prefere ficar com ele? _Algum problema?? – Clara e Anne falaram ao mesmo tempo. Anne porque não entendia, Clara porque se enciumara. Urs olhou para as duas, sobrancelhas franzidas. Andy Lee continuava ali, esperando uma decisão. Era melhor não se envolver. _Vocês não acham que haja problema? – Ele considerou. – Bem... quem sou eu então para contestar. Mas que é complicado, é. – Voltou às suas tacadas. Clara olhou para Anne, movendo os ombros como quem nada tinha entendido. Anne ignorou as neuroses de Urs e saiu com Andy. Ela iria divertir-se, porque ficar naquele hotel jogando sinuca com o Il Divo não se comparava a passear pela maior cidade do Japão... com direito a seguranças e tudo. Foi a oportunidade que Sasha viu para aproximar-se. O grupo recém disperso depois da conversa com Anne, ele agiu como se voltasse do bar e os encontrasse ali, jogando. E não seria tão estranho um europeu encontrar outros no Japão e querer conversar... seria? [Anne] Aquela conversa do Urs foi muito esquisita... oras, complicado! Como poderia ser complicado eu estar com pessoas legais e... lindas? Andy estava no mesmo hotel, os outros amigos também. Eu só conhecia Eric Mun e Kim Dong Wan, ele me prometeu apresentar os outros três. Era uma quantidade suficiente... seis. Ri dos meus pensamentos impuros, e eles eram. Enquanto esperávamos no hall por algo que eu não sabia bem o que era, o

celular de Andy tocou. Ele atendeu falando uma língua esquisitíssima... eu supus que fosse coreano, claro. Ainda bem que ele falava inglês... ao menos comigo. _Você se importa de irmos até o quarto andar? – Andy disse, desligando o telefone. – Temos que chamar Dong Wan, ele não atende o telefone. JunJin está histérico como uma moça atrás dele... _E ele está no quarto andar? O que tem lá? – Perguntei, levantando-me para segui-lo. Andy colocou as mãos nos bolsos e caminhou, na frente. Ele era muito fofo... eu não achei que fosse bonito. Era fofo, dava vontade de pegar suas bochechas e apertar até ficarem vermelhas. Mas ele tinha amigos lindos, isso era verdade. A amostra foi... suficiente. _Ah, ele está lá sim... o quarto andar tem sauna, piscina, academia... e se não sabemos onde está Dongwannie, é porque ele está na academia. Franzi a sobrancelha e fui atrás de Andy Lee, pensando em o que fazia um homem na academia naquela hora... mas não ia ser tola de perguntar. Entrei naquele elevador que era imenso... ainda maior do que na Malásia. Como podia no Japão ter coisas tão grandes? Ali até as pessoas eram pequenas! Eu andava fazendo perguntas demais, era verdade. Chegamos ao quarto andar, eu sempre seguindo Andy, porque seu celular estava tocando novamente e ele tinha que atender. Homem ocupado, pensei... entramos academia adentro e eu me senti a pior das pessoas por não estar ali suando também. Paramos do lado de um aparelho, eu quase bati nas costas de Andy com o nariz, desatenta. Em uma academia existem várias coisas interessantíssimas para se ver... mas a coisa mais interessante estava bem ali, na minha frente. Ou melhor, na frente de Andy. *_Kim Dong Wan... você está atrasando o grupo!!! – O protesto, em coreano, não foi entendido. Pensei que Andy tivesse dito que não queria alguma coisa, quando na verdade ele apenas chamava o amigo. Dong Wan, o nome mais engraçado que eu já ouvira em muito tempo, parou o que fazia e levantou-se do aparelho, enxugando o suor com uma toalha branca. Meus olhos me enganaram, e aquela peça foi cruel, quando vi crescer em minha frente o homem mais bem definido que eu podia imaginar existir. Aliás, a definição perfeita de homem poderia resumir-se naquilo tudo que eu estava olhando, naquele momento. Fixei o olhar em uma gota de suor que escapou da toalha e escorria por seu pescoço, passando pelo peito até parar, para a tortura da minha alma, no elástico do short azul que ele usava. E meus olhos acompanhando. *_Andy Lee... você está com a sua garota e ainda vem atrás de mim? *_Ela não é minha garota, Dongwannie... vamos, Jinnie está histérico atrás de você, blasfemando o mundo! Dong Wan, o amigo que mais parecia o superman, virou-se para o aparelho e abaixou para pegar uma garrafa de água. Colocou a toalha no ombro, jogou a água sobre a cabeça, e sorrindo se dispôs a ir conosco. _Diosanto misericórdia. – Eu disse, involuntariamente. Escapuliu... _Como? – Andy não entendeu nada. _Er... nada não. – Eu não conseguia parar de olhar para o mesmo lugar, como se meus olhos estivessem sendo atraídos por uma força estranha. _Que língua é essa? – O deus grego, quero dizer coreano... pensamentos confusos, imaginem! Mas ele perguntou. _Italiano. – Sorri. Meus olhos continuavam no mesmo lugar. Andy deu de ombros e rumamos para fora da academia. Aquele pedaço perdido de homem asiático iria tomar um banho, e enquanto isso achei melhor tentar aliciar Lise, novamente, para me seguir. Ela não estava tão na dos divos que não pudesse me acompanhar naquela viagem ao paraíso. Voltei para o salão de jogos, deixando Andy Lee com os amigos, atrás de Elizabeth. Ela ainda não estava por lá, mas os rapazes tinham feito amizade com alguém. Um homem alto, largo, sorriso simpático e uma barba linda

segurava uma cerveja, enquanto conversava amigavelmente com Carlos. Urs não conversaria amigavelmente com ninguém. _Anne. – Clara sorriu ao me ver. – Desistiu do passeio? _Não... vim de novo atrás de Lise. Ela pelo visto não está.... quem é ele? – Perguntei, interessada. _Ah, é o Sasha... ele é alemão, também veio para o festival! Que interessante, não é? Ele o Urs já quase me mataram do coração falando em alemão... _Ah... deve ter sido uma cena linda. – Imaginei, franzindo a sobrancelha. – Antes o Urs falando alemão me interessava mais. Ultimamente tenho me sentido atraída por outras línguas. _Credo, Anne! – Clara mencionou minha cara nada inocente quando falei aquela frase. Foi inevitável... _Ok, se vir Lise fale com ela que estou em tour por Tokio... com Davi, de Michelangelo. _Pensei que a estátua de Michelangelo fosse o Urs. – Clara estranhou. _Eu também!!! – Saí, morrendo de rir. [Narrador] O dia estava desaparecendo. Não havia mais sol e praticamente toda a claridade natural se extinguira. Mônica estava desanimada, sentada no grande terraço do quarto andar. Seus olhos se perdiam-se no horizonte cinza da cidade mais cara do mundo para se viver. Os enormes prédios impecáveis, cheios de vidros e tecnologia, de arquitetura moderna, contrastavam com o rosa avermelhado do céu poluído. Mônica não entendia direito o que estava acontecendo, porque aconteceu tudo rápido demais. Sair em turnê com o Il Divo, e descobrir que eles eram pessoas diferentes do imaginário das fãs. E toda aquela revolução que fazia parecer que Anne não dava a mínima para nenhum deles, e Sébastien tentando beijar Lise à força... Sentiu a presença de alguém, mas não conseguiu parar de olhar para o céu. As estrelas brilhavam timidamente. Ela sabia quem era; seu coração podia compreender a sua presença. Por mais que ela pensasse que detestá-lo seria mais fácil, ela não conseguia. Sabia que seus sentimentos eram verdadeiros. _Entediada? – David perguntou, sentando-se ao lado dela. _Muito. – Mônica foi sincera. Para que mentir? _Sinto muito. Nossa vida é assim mesmo... Steve não podia achar que romancearíamos nossa turnê porque teríamos visitas. – David ofereceu um chocolate quente à Mônica. Ela pensou duas vezes, mas aceitou. _Não precisa romancear nada. Temos que entender a realidade... certo?? – Mônica olhou para ele. Seus olhos extremamente claros estavam refletindo a paisagem. Pareciam um espelho. E ao mesmo tempo, tão transparentes... ela quase pode ver o que havia dentro dele. _Podemos fazer algo hoje à noite... _Sim... só não contemos com Anne. _Eu disse algo eu e você. – David explicou melhor. Mônica olhou novamente para ele, curiosa. Não era um convite para uma noite em grupo, então? Era um... encontro? _Eu acho que não entendi. – Ela precisava ouvir dele. _Poderíamos sair, eu e você... sei lá, fazer qualquer coisa juntos. Suas amigas estão bastante crescidas para ficarem sozinhas, não estão? Mônica riu. Sim, elas estavam... Poderiam se cuidar sozinhas por alguns instantes, ela achava. Mas sair com David? Passar uma noite com ele? Mesmo que não fosse no sentido literal da expressão, ela passaria uma noite com ele. Seria nada saudável, ela tinha certeza. Mas a razão não conseguiu dominá-la e ela acabou aceitando. Sentiu-se pela segunda vez uma adolescente apaixonada, mas daquela vez não era ruim.

Elizabeth resolveu deixar o quarto, depois de longas horas trancada. Anne nem sequer apareceu para trocar de roupa. Ou a amiga estava bastante entrosada ou estava completamente maluca. Ela acreditava que era uma conjugação das duas coisas. Vestiu um jeans e desceu para o saguão, a fim de encontrar Clara e Mônica. Ninguém estava à vista, ela não sabia se esperava por ali ou se procurava o grupo. Interessou-se por uma revista de quadrinhos que estava na recepção, e sentou-se para ler. _Desculpe... mas você está com o grupo que se chama Il Divo? – Uma voz masculina penetrou os ouvidos de Elizabeth, apenas alguns instantes depois dela iniciar a observação do trabalho que tinha em mãos. Ela pensou que fosse um jornalista, quem mais estaria interessado naquela história? Levantou os olhos e sentiu o ar lhe faltar, instantaneamente. _Er... sim, estou. Você... _Sou Sasha Schimitz. – Ele sorriu, estendendo-lhe a mão. Todos os conceitos de Lise foram congelados e descartados naquele minuto. Poderia existir homem mais lindo do que Sébastien? _Ah... – Lise sentiu-se um tanto tola. – E eu deveria saber quem você é? _Não. – Ele continuava sorrindo. – É que hoje de tarde estive conversando com Urs Bühler e Carlos Marin... e parece que além de mim são os únicos que não são orientais por aqui... estou chutando. – Sasha falava inglês com fluência, mas Elizabeth teve certeza que o sotaque não era britânico. Ele devia ser... como o Urs. _Ah... – Elizabeth tinha que fazer um ruído antes de falar. – Bem... eu estou com o grupo sim... você... está procurando eles? _Estou sozinho. – Ele confessou. – Apesar de todo mundo falar inglês por aqui, ninguém tem tempo de conversar, ou ninguém está interessado em conversar. – Pensei em encontrar gente com quem já havia trocado uma dúzia de palavras. _Ah... eles devem estar descendo... eu acho... – Lise tentou ser natural, mas não foi possível. O homem que estava em sua frente, jeans surrado e camisa com botões aparentemente desencontrados não deixaria isso acontecer.

[Mônica] Aquela viagem estava muito chata, mesmo. Péssima, para dizer a verdade... os divos estavam chatíssimos. Anne estava enlouquecida com um grupo de asiáticos e Elizabeth parecia fora do mundo real. Claro, depois do que ela passou... e Clara, ela parecia totalmente na do Urs. Se ele correspondia, eu sei lá. Mas de repente, as coisas começaram e me interessar, de uma forma curiosa. David resolveu se aproximar. Primeiro, eu no terraço. Ele chegou, puxou conversa, foi gentil. Coisa que eu não o havia feito fazer ainda, ser gentil e educado. Ele demonstrou ser uma boa pessoa, por trás daquela casca. E naquela noite, ele me convidou para “darmos uma volta”. Eu normalmente não sei o que faria. Talvez eu caísse de amores por ele, talvez recusasse porque eu não sou fácil. Mas sei que, naquele instante, quando ele apareceu na porta do quarto, roupas casuais, cabelo meio despenteado, olhos brilhantes e um sorriso mortal nos lábios, eu não poderia recusar. Não conhecia o Japão e não teria interesse naquele lugar. Tokio parecia bonita, mas era cinza, cheia de poluição e pessoas pelas ruas. Poluição visual, sonora, do ar... simplesmente, poluição. Mas saí com David, de motorista, para algum lugar. Ele quis me surpreender, acho. Porque não informou para onde íamos... simplesmente, fomos. E desde quando eu falava tanto “simplesmente”?? Fiquei pensando que tinha deixado as meninas de lado, não consegui me desconcentrar. David falava alguma coisa comigo, e eu não prestava atenção direito. Estávamos em um restaurante, que eu não sabia o nome, e

que provavelmente serviria peixe cru. O garçom colocou o cardápio na minha frente, eu nem olhei nada. Me deixei perder ao redor, atenta à decoração que não me parecia nada interessante. _Mônica? – David me chamou, e foi a primeira vez que ouvi-lo dizer algo. _Ahm... fale. – Eu resolvi virar-me para ele. Ele me olhava com certa surpresa. _Você ouviu alguma coisa do que falei? _Não... – Tive que confessar. – Foi importante? _Não sei... pelo jeito, não. – David abriu o cardápio e começou a olhar. _Desculpe-me. – Senti que o havia chateado. – Eu... não sei o que houve, simplesmente me desliguei. _Está tudo errado mesmo, não é? – Ele me olhou, e senti imediatamente um frio na espinha. Ele estava muito bonito naquela noite... e eu ainda não tinha notado. – Quero dizer... desde o inicio essa turnê foi um erro. E ainda por cima, acho que nós gostamos de afastar as pessoas da gente. _Como assim? – Fiquei confusa. Ele estava sendo sentimental, ou eu estava enganada? _Vocês são legais. – Ele sorriu. O sorriso que me fazia congelar. Senti frio... – E nós não fomos exatamente receptivos... estávamos bastante interessados em ver isso dar errado, mas pensávamos que trataríamos com fãs grudentas, velhas que não têm vida. _Você está sendo cruel. – Eu quis rir, e rir muito. Mas tinha que manter a pose. David nunca esteve tão certo, mas eu não precisava dizer aquilo. – Elas adoram o Il Divo... _Eu sei. E dependemos delas... mas não gostaríamos de passar vários dias com elas. _E gostariam conosco? _Agora que as conhecemos melhor, sim. Só tem uma que… não participa de nada. _Anne. – Eu nem precisa que David me dissesse. _É... e ela foi a vencedora, não foi? _Anne anda confusa, mas essa viagem está sendo boa para ela, eu acho. De qualquer forma, estou feliz em ouvir você dizer que nos julgaram mal. Pensei que vocês fossem mesmo uns bobos. David riu. Ele riu porque eu falei que era bobo ou porque bobo era um adjetivo muito leve para o que eles fizeram no início. Um silêncio pesado se instaurou, e resolvemos fazer o pedido. Mesmo sem ter idéia do que comer, era mais seguro que eu ficasse com a boca ocupada.

[Narrador] Mônica estava jantando com David, e Clara bem que ficou um tanto indignada. Isso porque ela estava no quarto do hotel sozinha. Anne, ainda desaparecida. Elizabeth... também. O mais interessante era que Clara não fazia idéia de onde Elizabeth estava, uma vez que sabia que com Anne ela não tinha ido. Desanimada, ela tentou ler alguma coisa. Onde estava aquele suíço Urs Toni Bühler que não havia aparecido para resgatá-la do tédio total e absoluto? Enquanto Clara se entediava, Elizabeth não estava exatamente desaparecida, mas expandindo seus horizontes. Ela estava no bar do hotel há bastante tempo com sua nova companhia, um certo alemão chamado Sasha. E Lise, que costumava pensar que Sasha fosse um nome russo... ela nem estava tão certa, então. _Quer dizer então que tudo isso começou com uma história enviada para um concurso! – Sasha estava admirado com a história das garotas. Estava sentado em uma mesinha redonda, segurando uma cerveja, camisa amarela com desenhos coloridos, tipicamente turista, tipicamente alemão. Elizabeth olhava para ele meio abobada, meio admirada, meio sem saber o que pensar daquele homem tão lindo que aparecera em seu caminho. “Bendita vinda ao Japão”, ela pensou, enquanto deixava esquentar o coquetel de frutas que pedira.

_Sim... nossa amiga Anne ganhou o concurso e nos trouxe com ela. Mas as coisas não saíram como planejado... _Por que não? – Sasha mostrou-se interessado. _Ah, coisas de fã. Você sabe, esperávamos uma coisa, encontramos outra. A Anne mesmo a essa hora está na diversão pura com os coreanos... _Coreanos? _Sim, longa história. Parece-me que Clara e Mônica, ao menos, encontraram em seus divos algo de produtivo. _E você?? – Sasha perguntou. Olhou Lise nos olhos, e ela sentiu um frio na espinha. Que sensação mais adolescente, ela não conseguia parar de pensar. Mas ao mesmo tempo, era inevitável. _E eu o que? _Não encontrou nada no “seu divo”? _Er... – Lise encabulou-se. – Não tem essa de “meu divo”. Eu... gosto do grupo por igual. Ela mentiu. Descaradamente, sem nenhum pudor. Elizabeth não mentia, mas como dizer àquele deus alemão que era apaixonada por Sébastien Izambard e que ele era o maior canalha da face da Terra? Como contar a Sasha que Sébastien foi uma desilusão inaceitável, e que seu coração estava partido em pedaços minúsculos, impossível de ser remendado? Ou ela o assustaria ou despertaria sua compaixão. Ela não queria nenhum dos dois. _Sei. – Sasha riu, não acreditando tanto assim na mentira. – Mas seja lá o que for, você está aqui... comigo. Então me parece que está como sua amiga Anne, fora do jogo. _Sim, eu estou totalmente fora. – Ela riu. – Recebi o cartão vermelho, vou ficar no banco até o final do campeonato. Elizabeh morreu de rir do comentário esportivo. Desde quando aquele senso de humor lhe pertencia, ela não sabia. Mas aquele Sasha despertou em si uma pessoa amável... como ela sempre fora. E como aquela viagem havia feito esquecer-se. _Se está fora de combate, então poderia estar interessada em me acompanhar ao ensaio, amanhã. _Ensaio? – Elizabeth interessou-se. _Sim... o festival é em dois dias, amanhã faremos um ensaio para passar o som... e eu serei host, então devo me familiarizar com algumas coisas. Inclusive com o japonês que terei que falar. _Ah sim... bem, eu... – Lise resistiu em dizer SIM imediatamente. Ela não sabia se deveria. Pensou em Anne e seu total desprendimento quando conheceu Andy Lee. Ela não era Anne e não concordava com tudo que Anne fazia, mas ao menos daquela vez quis ser como a amiga. – eu topo. Podemos ir ao seu ensaio, amanhã.

[Anne] A tarde estava maravilhosa, e quando o sol se pôs eu pensei que o conto de fadas acabaria. Nunca tinha gasto tanto dinheiro de uma vez só. Andy Lee era um comprador compulsivo, e da melhor qualidade: rico. Saímos com os seus amigos todos, incluindo os que eu não conhecia. E eram todos tão lindos que eu imaginei de que lado errado do mundo eu estava. Certamente, era o lado bem errado. Mas na verdade compramos, e gastamos. Além do gastador do Andy, tinha o amigo, aquele com nome engraçado, o que chegou fazendo bagunça no dia do jantar. Seu nome era muito engraçado, e eu não conseguia pronunciar sem rir. Resolvi apelidá-lo de Mr. Don’t Want, porque era assim que eu entendia o seu nome. Na verdade meus olhos estiveram repousando em Eric Mun desde que eu o vira no clube noturno, mas naquela tarde o sol brilhava de um lado diferente. Havia um sorriso contagiante, uma gargalhada que me fazia querer rir também. Havia um aroma cítrico que entrava pelo meu nariz e me deixava embriagada, como se fosse álcool, como se fosse droga. Havia aquele senso de humor eletrizante, de alguém que não parava quieto, de alguém que insistia em implicar com tudo e todos; aquele senso de humor que era tão meu e ao mesmo tempo tão

diferente de mim. Havia aquela camiseta sem mangas, de cor vibrante, que se movimentava lentamente, que virava de um lado para o outro, que era caprichosamente curta o suficiente para exibir um pedaço de pele toda vez que ele se movia. Havia aqueles jeans surrados, que eu achava o must do fashion, mas que não ficavam bem em todo mundo, mas que nele pareciam ter encontrado o par perfeito. Havia alguma coisa no ar naquela tarde, e seja lá o que fosse, era devastador. Meu coração disparou várias vezes quando ele se aproximou e, brincando como uma criança, tentou me fazer cócegas, ou cobriu meus olhos, ou me pregou um susto. Sim, ele parecia uma criança. Mas seus braços fortes quando me seguravam nos momentos de implicância, e sua pele macia e firme quando ele me tocava me diziam que ele não era uma criança. E que eu não parecia interessada nas brincadeiras dele. Voltamos ao hotel só para tomar um banho e sair de novo. Quanta disposição tinha o Hyesung... e eu descobri que ele era sagitariano. Ah, claro. Só assim mesmo para tanta empolgação caber em um homem tão pequeno. Ele era fofo, e parecia menor do que os outros com quem estava acostumada. Eles eram menores, mas isso não os tornava menores. Diferenças me atraíam... diferenças me empolgavam. Elizabeth não estava no quarto, e pensei feliz que estaria sozinha com seis beldades que falavam coreano, por mais uma noite. Seriam seis, se JunJin não desistisse do passeio porque sua namorada, alguém bastante sortuda, ligou querendo encontrá-lo. _Agora vamos esquecer JunJin. – DongWan disse, fuçando o frigobar. Eu tinha ido até o quarto deles, para saber o combinado da noite. Ele dormia com Lee MinWoo, que já estava no banho. Andy estava lá, jogado no sofá, esperando os amigos decidirem algo. Cuidadosamente, eles resolveram falar em inglês na minha frente. Eram muito gentis... mas nem todo mundo ali era bom no idioma. As pronúncias eram cômicas. _Se vocês não forem, vou eu. – Hyesung estava decidido. _Você tomou cafeína. – Eric, implicante. _Vamos sair sim. – DongWan também parecia elétrico. E a elétrica geralmente era eu. – Mas para onde... _Dançar. – Andy empolgou-se. _Você só sabe dançar??? – Eric incomodou-se. – Credo, não pensa em mais nada não?? Não quer interagir com o grupo, algo que possamos fazer todos juntos... _Eric, você parece a mulher dele. – Hyesung caiu na risada. _E você está com ciúmes. – MinWoo saiu do banho, enrolado na toalha, água escorrendo por seu corpo. Por um instante eu fiquei pensando no que estava fazendo ali... mas seja lá o que fosse, era porque eu era uma boa pessoa. Os deuses estavam me recompensando por algo, eu tinha certeza. Não havia outra explicação. – Eu acho que deveríamos nos divertir... vamos dançar muito esses dias. _Boliche. – DongWan teve a idéia. – Adoro boliche... _Eu também! – Andy animou-se mais uma vez. Ele parecia bem fácil de empolgar. _Então vamos jogar. _Eu sou péssima. – Disse. – Jogo muito mal... um fracasso absoluto! _Tudo bem... você joga com o DongWan. – Andy implicou. – Ele também é horrível, então não tem problema. Tá, jogar com ele... aquilo seria divertido, ou seria uma tortura. Principalmente porque ele se vestiu como se fosse para um encontro. Apareceu no saguão usando uma camisa de tecido fino, mole, com uma gola em V indecente, e um aroma ainda mais tentador do que o da tarde. Ele havia se barbeado, dava para ver. Nem sabia que coreanos tinham barba... como eu era ignorante! Eu não consegui olhar nenhum dos outros rapazes, foi como se eles sumissem. O que estava acontecendo comigo, eu não fazia idéia. Eu andava com muitas dúvidas desde que aquela viagem começou, simplesmente porque ela despertou um ser desconhecido dentro de mim. E era um ser estranho do qual eu aprendi a gostar. Não queria voltar a ser outra pessoa novamente. A história do boliche me deixou pensando que eu não teria a oportunidade de vê-lo em movimento como na dança, e daquela vez eu gostaria de vê-lo em movimento. Mas a idéia do Andy Lee de me colocar de dupla com

ele, já que alguém ficaria sem par por causa da ausência do JunJin, foi uma idéia totalmente... produtiva. Eu não imaginava, mas a história de que ele jogava mal era pura conversa fiada. Ele era um jogador ótimo, comparado com os outros. E por isso, nem sentiria falta das minhas bolas na canaleta, ou das vezes em que eu quase fui parar na pista, tentando fazer um strike. _Você precisa de professor. – Ele disse, chegando por trás de mim, falando quase sussurrando nos meus ouvidos. Senti um arrepio, uma coisa estranha me percorreu o corpo todo; senti-me vulnerável. Sem minha permissão, ele encostou seu corpo no meu, e segurou a minha mão que segurava a bola. Meus dedos fraquejaram, e eu precisei ser forte para não derrubar a bola no meu próprio pé. Seria uma cena lamentável. _Deixa a menina jogar, DongWannie! – Andy Lee protestou. Não, deixa ele me ensinar, foi o que quis gritar. Mas eu não tinha voz. Nem para dizer o que queria. E eu não tinha coragem de dizer aquilo, também. Eu não era tão oferecida assim... _Cale a boca, Andy Lee. – DongWan ignorou o amigo e, curvando-se sobre mim, fazendo-me curvar também, sussurrou em meus ouvidos o que eu deveria fazer. Ele conduziu minha mão até que eu largasse a bola. Não foi uma coisa fácil de fazer; concentrar-me em um jogo com tudo aquilo sobre mim. Minha respiração estava bloqueada por algo que se instalara em minha garganta. A bola correu pela pista, o coração parou instintivamente. DongWan olhava para ela com os lábios apertados, sabendo que a jogada era boa. Eu tinha o queixo encostando-se ao chão. Meus músculos estavam fracos, amolecidos, pareciam geléia. A bola bateu nos pinos e cuidadosamente derrubou um por um. Foi um strike, o primeiro que eu me lembrava ter feito. DongWan teve uma reação esperada, mas que causou um efeito assustador em mim mesma. Ele correu até mim e me abraçou, suspendendo-me e girando-me no ar. Sim, ele estava celebrando. E eu ainda não conseguia respirar. Seria errado desejar beijá-lo ali, naquele instante? Continuei pensando em quando eu havia me tornado tão fácil. Se aquilo fosse possível determinar. Mas eu quis, sim, beijá-lo naquele instante. Só que eu, novamente, me controlei.

[Narrador] Elizabeth voltou para seu quarto no sétimo céu. Foi difícil descer da nuvem cor de rosa em que se instalara para poder dormir. Ela nem viu quando Anne chegou e correu para o banheiro, e não ouviu o chuveiro ligado. No quarto ao lado, Clara também não vira Mônica retornar com um estranho sorriso no rosto. Sorriso maroto, que Clara não sabia se reconheceria quando visse. A manhã chegou cheia de novidades e compromissos para todos. Elizabeth tinha o ensaio... com Sasha Schimitz, o alemão que estava ali para o festival. Ele ainda cantava, ela não sabia como poderia ser mais perfeito. Anne ainda não sabia o que faria, mas preferencialmente seria no rastro de Andy Lee, o animado coreano com quem fizera amizade. Clara queria saber por que Urs a deixara jogada no quarto, sozinha. Ele não lhe devia nada, mas ela queria que ele fosse resgatá-la. Complexo. E Mônica... ela não sabia direito como seria o dia, mas havia uma pequena luz piscando indicando o caminho a seguir. Ela só tinha que.... segui-lo. _Diosanto… - Anne chegou no restaurante do hotel fazendo barulho. Mas aquilo era normal. – Diosanto!!!! _O que foi? – Lise levantou-se, pensando que algo havia ocorrido. A amiga chegou esbaforida, resmungando. Virou o pescoço e colocou na cara de Clara, que estava sentada e com um muffin na boca. _Sente isso? – Perguntou. – Sente isso??? _Sinto você com a cabeça na minha cara... – Clara quis rir. – E um cheiro bom. _Sim, um cheiro bom!!!!! – Anne parecia irritada com o cheiro.

_Deixe-me ver. – Mônica curiosa. Lise também quis sentir o tal cheiro que Clara disse ser bom. Era um perfume suave, adocicado, quase não se podia sentir. – Hum, perfume novo? _NÃO! – Anne protestou. – É o perfume dos outros! Maldito coreano dos infernos!!! _Não entendi nada. – Clara continuou comendo. Anne não se sentou. _O que houve?? – Lise insistiu. _Houve é que ele me deixou esse cheiro que não sai! _Hum... isso está estranho. Primeiro, por que não toma banho? E segundo, como ele deixou esse cheiro? – Mônica franziu a sobrancelha. As outras duas encararam Anne, que precisava explicar-se. _Ninguém deixa cheiro no cangote alheio sem motivo... – Clara se segurava para não rir. _Não é nada do que estão pensando! É que fomos jogar boliche... inofensivo, totalmente. Mas aí o JunJin não foi porque ficou com a namorada que veio vê-lo, e então eu tive que fazer dupla com um deles, e o Andy me colocou com ele porque ele jogava mal, mas na verdade ele jogava bem, e nem precisava de mim para ganhar dos outros, mas ele resolveu me ensinar, e então veio para cima de mim ser meu professor, e aí... _Anne!!! – Lise sacudiu a amiga pelos braços. Ela finalmente respirou. Havia dito tudo em um fôlego só. – Acalme-se.... ele quem? De quem está falando, afinal? _Dele!!! – Anne agia como se as amigas soubessem de quem ela falava. _Não me parece ser do Andy.... – Lise ponderou. – E ela está descontrolada... quando recobrar a sanidade, nos conta. _E eu já tomei banho. – Anne continuou. – Dois, para ser mais exata... dois!!!! Os divos chegaram no restaurante. Mônica sorriu timidamente quando David olhou para ela. Clara encarou a amiga, que ficou envergonhada. Ela não queria que todos imaginassem que estava... bastante caída por ele. E pela noite anterior. E pelo quão gentil e simpático ele foi. Tão diferente do David de antes. Urs passou por Clara meio que se esquivando. Ela virou para ele, os dois se encostaram novamente. Ele sorriu… havia ainda algo a ser quebrado. _Quem é ele, Anne. – Elizabeth perguntou, mas aérea. Seus olhos procuravam alguém pelo restaurante. Afinal, ela iria ao ensaio do show com... Sasha Schimitz. _Ele é um coreano dos infernos… um dos amigos do Andy Lee. _E ele tem nome???? - Clara estava curiosa. _Sasha! – Elizabeth disse, involuntariamente, quando viu Sasha entrar no restaurante, aparentemente também procurando por alguém. _Sasha??? Claro que não! – Anne indignou-se. – Isso lá é nome de coreano???? _Não... – Elizabeth levantou-se. – Sasha! – Ela acenou. As meninas olharam para onde ela apontava e viram o homem se aproximar. _Ah... é nome de alemão. – Clara riu. Ela já conhecia Sasha de antes... de quando ele abordou os divos no salão de jogos. _Ok... e depois ainda ficam me fazendo interrogatório!!!!! – Anne indignou-se ainda mais. – Eu pelo menos sempre disse que Il Divo estava de fora... e quem é esse Sasha afinal?? _Eu conto depois. Elizabeth deixou o grupo e foi encontrar-se com Sasha. As três ficaram olhando, um tanto abobadas. Aquele comportamento não era da Elizabeth que elas conheciam. Mas ela foi até Sasha, cumprimentaram-se e ela se sentou com ele em outra mesa. Sorridente, fez com que as amigas resolvessem ater-se aos seus problemas. _Então... já que o nome do coreano não é Sasha... – Clara insistiu. _DongWan!!! – Uma voz ecoou pelo restaurante. Voz estridente. Os ouvidos de Anne se encheram de... uma sensação estranha. – Kim DongWan!!!! _Ok, isso é maldição. – Anne estava certa. – Maldição!!!

_Pare de falar besteira, mulher! – Mônica protestou. – Quem é esse tal de Kim sei lá o que? _Alguém com quem Andy Lee quer muito falar. – Clara mostrou o já conhecido colega de Anne andando atrás de outro rapaz, chamando-o pelo nome. Os dois caminharam até a mesa das garotas, Anne ainda estava em pé. Hiperativa demais para sentar-se, nem percebeu direito quando DongWan se aproximou por trás e, colando os lábios em seus ouvidos, cumprimentou-a pela vitória da noite anterior. _Bela jogada. – Ele disse, mordendo o lábio inferior. Anne ficou imóvel, enquanto todos os pêlos de seu corpo se eriçavam. Clara e Mônica olharam, espantadas, a reação da amiga. Andy sorriu para as meninas e continuou sua perseguição a DongWan até sentarem-se. _Agora entendi. – Mônica terminou seu suco. – Faz sentido como o cheiro dele foi parar aí. Clara caiu na risada. _E vocês jogaram boliche... assim?? _Calem-se, as duas. _Sente-se Anne! Vamos comer… depois você volta para seu coreano.

[Narrador] Elizabeth saiu com Sasha Shimitz para o ensaio. E também saiu Anne com o seu grupo. Clara foi para algum lugar que Mônica não sabia qual. E Mônica ficou ali, meio perdida. Ela ouviu os rapazes dizerem que o ensaio deles seria somente à noite. David aproximou-se dela, que caminhava para seu quarto. _Mônica. – Ele disse. Sua voz foi música para seus ouvidos. _Fale... – Ela lhe encarou. _Vamos para a piscina do hotel??? Carlos disse que está bem cheia... bastante gente. _Piscina... não sei. – Mônica não sabia se era saudável. Mas muita gente seria boa idéia. Mais seguro. _Vamos.... será mais divertido com você. – Ele disse, olhos pidões. Mônica não sabia de onde surgira tanta gentileza nele. Estava escondida, provavelmente. Ela resolveu trocar o biquíni e ir com David. Já Elizabeth, estava mais satisfeita com seu ensaio. Ela tomou café com Sasha, e ele conversando era ótimo. Tinha um sotaque lindo, e era divertido. Depois, foi com ele até o Budokan Hall, onde seria o concerto. Ele era tão espirituoso que Lise chegou a pensar que ele não era real. O lugar do concerto estava muito bonito, todo ornamentado... várias pessoas trabalhando. Sasha chegou com Elizabeth e arrumou um lugar para que ela se sentasse na audiência especial, enquanto ele passava o som. Lise sentou-se confortavelmente e ficou ali, encantada com o palco, e com a pessoa que estava nele. _Quer ouvir algo em especial? – Sasha perguntou, baixa voz, desejando que só Elizabeth ouvisse. _Várias coisas. – Ela disse, sorrindo. – Mas... não conheço suas músicas. _Tudo bem. – Sasha pegou o microfone. – Vou ser óbvio... e cantar uma das mais sossegadas. Um playback começou a tocar de fundo, e Sasha iniciou os primeiros acordes de If You Believe. Era uma canção antiga, que ele adorava. E que Elizabeth não conhecia, mas que despertou algo bastante bom dentro dela. Sim, bastante bom... Sasha cantou toda a música olhando para ela, fazendo gracinhas, sorrindo. E ela não sabia em que mundo paralelo estava, mas aquele homem não existia. Não era, definitivamente, real. Seus olhos a enganavam, seus ouvidos a enganavam. Era como um sonho, mas um sonho bom, do qual ela não queria acordar. _Isso foi... lindo. – Elizabeth disse, quando Sasha terminou o teste e desceu. _Ah, que nada. Música velha. – Ele riu. – Vou testar mais algumas coisas… você não fica entediada?

_Eu??? Claro que não.... pode deixar. – Lise sorriu. Sasha também. Havia algo mais que ele desejara fazer, mas ele não fez. Simplesmente voltou para o palco e continuou passando o som. Enquanto Elizabeth se sentia uma pessoa completa, com todo aquele som angelical vindo de alguém tão... não tão angelical assim. No hotel, já havia passado a hora do almoço. Os divos estavam cansados. Menos Urs e Clara, porque nenhum deles apareceu na piscina. Sébastien estava bastante incomodado com a ausência de Elizabeth, sem saber onde ela estava. Ele se sentia bastante possessivo sobre ela, simplesmente porque ela o havia rejeitado. E ele não estava acostumado a ser rejeitado.... Mônica ia para seu quarto, quando foi chamada por Carlos. Ele vinha correndo, sorridente, cara padrão de sempre. Mônica o achava simplesmente ... boring. _Mônica! – Ele disse, alcançando-a. – David me pediu para... vamos ver um filme? _Filme??? – Mônica não entendeu. – Você quer dizer no cinema? _Não.... no quarto. Alugamos alguns. _Alugaram filmes?? – Mônica coçou a cabeça. _Sim... David pegou vários musicais. Está interessada??? Pode chamar suas amigas também. _Se eu soubesse onde elas estão! – Mônica fez uma careta. – Well, ok... filme me parece a única opção. Ficar no quarto sozinha e à toa eu não vou.

[Sébastien] Eu não tinha nada para fazer. Elizabeth tinha desaparecido desde que resolveu sentar para tomar o café com aquele homem... quem era aquele homem??Quem afinal era aquela pessoa?? Urs disse que era alemão, que ficaram horas conversando... mas o que Elizabeth tinha a ver com isso? Por que eles sentados juntos, sorrindo, pareciam tão íntimos? Eu não sabia de Carlos ou David, menos ainda de Urs, mas eu sabia que deveríamos nos aprontar para o ensaio, logo. Era mais tarde do que deveria, já passava das 18h, e eu ainda não tinha visto sinal do resto do grupo. Resolvi bater na porta de Carlos, mas nada. Fui até Urs... bem, era melhor deixar Urs para lá. Afinal, ele poderia estar.... ele tinha demonstrado interesse por uma delas. Eu não correria o risco de interromper nada. Nada mesmo. Só me restou o quarto de David. Aquele era certo que não estaria fazendo nada... nunca fazia! Bati na porta, e ela abriu sozinha. Eles tinham deixado a porta totalmente aberta... bando de irresponsáveis! _SEUS IRRESPONSÁVEIS, deixando a porta aberta!!! – Entrei gritando, certo de que Carlos estava ali. E dito e feito, ele pulou do sofá. _Sébastien Izambard!! Quer me matar? _Não. – Acendi as luzes. Eles estavam no escuro!! Carlos estava todo amassado, com uma cara horrível. E David e Mônica estavam dormindo lado a lado. – O que raios está havendo? _Estávamos assistindo Chicago... _Sei que sim. O filme está passando, mas vocês estão dormindo! _Estamos dormindo desde... 3 da tarde, eu acho! – Carlos olhou assustado para o relógio. _Preguiçosos. E esses dois? Não acordam? _Bem, David não dormiu direito, e imagino que Mônica também não. Eu me aproximei do casal e cutuquei David. Ele se moveu e deitou sobre Mônica, abraçando-a inconscientemente. Ele não me notou. Eu não costumava decidir acordar alguém e deixar a pessoa dormindo... Eu era Sébastien Izambard! _DAVID! – Eu gritei, com a boca em seus ouvidos. Ele se assustou, e limpou a baba que escorria pelo canto da boca. Olhou em volta bastante tonto.

_Dane-se Sebástien! O que você quer? _Temos um ensaio em poucas horas! E estou entediado, pensei que vocês estavam fazendo algo divertido. Pelo visto, agora só Mônica está... _O que você quer dizer? _Ela ainda dorme. David fez uma careta e segurou Mônica em seus braços, como se segurasse algo importante. Eu e Carlos olhamos um para o outro, mas ficamos quieto. A doença do Urs era contagiosa! E não era conveniente interferir naquela situação... os assuntos de David eram demais para mim. Só para dizer, David Miller era uma manteiga derretida para tudo, sempre tendencioso a mostrar os sentimentos. Como isso o fazia sofrer, se escondia atrás de uma casquinha muito sem vergonha. Mas como negar que era divertido? [Chocolates no quarto – o mistério de Clara] [Urs] Estava um tédio naquele hotel, nada para se fazer. Eu estava cansado, parecia que estava carregando toneladas nos ombros. E minha cabeça doía também. Rodei pelo hotel todo tentando esperar passar a hora para o ensaio, mas nada funcionava. Eu lembrei, então, de uma solução para meus problemas: doces! Comer açúcar não é exatamente recomendado, mas eu precisava de algo para me excitar. Fui até a lojinha do hotel e comprei uma caixa de chocolates. Uma caixa de chocolates enorme. Além de açúcar, eu ainda iria ingerir um monte de ingredientes químicos que realmente me fariam animado. Eu ainda não sabia onde tinham se metido todos, aqueles sequelados. Mas subi pelo elevador com aquela preciosidade nas mãos, pensando no que fazer. Bem, não tinha muitas opções. Mal conseguia carregar o peso dos doces quando bati na porta do quarto de Clara. Tudo parecia tão pesado... ou eu estava muito fraco. Ela se surpreendeu quando me viu na porta. _Urs!!! – Ela disse, com os olhos sobre a caixa de tampa transparente. – O que você faz com... todos esses chocolates? _Pensei em comê-los. E só você poderia me ajudar a fazer isso sem culpa. Ela começou a rir e me pediu para entrar. Eu vi que a amiga não estava... e o quarto cheirava bem. Havia um perfume, mesmo com todo aquele cheiro ácido de corpos suados. Eu, definitivamente, não sabia conviver com o verão. Suor, calor, hormônios... a sensualidade estava flutuando pelo ar e aquilo era ruim. Porque eu me sentia supersexual, sempre. _Mas eu mesma vou me sentir culpada se comer doces. – Ela disse, fazendo um sinal para que eu me sentasse. Escolhi um sofá próximo à cama, onde ela tinha se sentado. _Eu sei... você ajudou a comer todo o açúcar da Terra, esses dias... _Aí está a questão – Clara riu novamente. Havia somente uma luz fraca vindo de fora, do dia que terminava rapidamente. E aquilo a fez ainda mais linda... ela era muito mais irresistível que todos os chocolates. _Ok, então eu vou. Outra de suas amigas me ajuda com eles. – Levantei-me e caminhei para a porta. _Espere! – Ela segurou meus braços. – Eu não disse que não te ajudaria... só não posso dizer que não me sentirei culpada! Aquele método nunca falhava. E métodos com mulheres não eram difíceis de se aprender. Eu sabia como fazer aquilo. Sentei-me ao lado dela na cama e abri a caixa. Clara olhou para mim com os olhos brilhando, visivelmente excitada com a diversão. Eu então peguei um chocolate e tirei um pedaço. _Bom... é de licor! – Eu disse, com líquido escorrendo pelos lábios. Clara tomou o outro pedaço de minhas mãos e comeu. _Perfeito... onde você comprou?

_Na loja do hotel? Quer outro? A questão foi açucaradamente maliciosa. Em poucos minutos, praticamente acabamos com a caixa. Eu comia o primeiro pedaço, dizia o saber, e ela tomava a outra parte dos meus dedos. Era um jogo insano; só servia para piorar o que eu estava sentindo. Enquanto nos divertíamos, deixei a caixa cair no chão. Os chocolates se espalharam pelo quarto. _Urs!! Você não fez isso! – Ela brincou. Instintivamente, ela desceu para pegar os doces, e eu também. Batemos cabeça com cabeça. Nossos olhos ficaram próximos. Nariz com nariz. Eu pude ouvir a sua respiração, por alguns instants. Eu podia sentir o calor pulsando em suas veias. Ela olhou para mim, como se estivesse paralisada. Havia chocolate em seus lábios. _Eu já disse que você é impressionante? – Eu disse, sem pensar. Ela continuou sem reação. Aproximei-me dela e deixei que nossos lábios se tocassem. Clara fechou os olhos. Pensei que eu estava fazendo alguma maluquice, até porque eu andava bem estranho. Segurei-a pelo pescoço e pressionei meus lábios contra os dela. Ela acabou por se render, enquanto eu tirava todo o açúcar de seus lábios. Ela acabou por amolecer em meus braços e eu usei aquilo para deitá-la no carpete. Nossas peles se tocaram, com muito suor. Ela me segurou pela cintura, instintivamente também. Foi o mais delicioso beijo que eu já dera, podia jurar. Mas antes que eu pudesse fazer algo pior, ouvi um barulho. A porta se abriu. _MAS SERÁ QUE TODO MUNDO DEIXA TUDO ABERTO NESSE LUGAR? – Era Sébastien, chegando como um caminhão. Eu me levantei, assustado, e bati a cabeça na cama. Ele estava certo, eu nunca trancava portas. _E você poderia ter batido antes de entrar! – Reclamei. O melhor ataque é a defesa, ou algo assim. _O que você está fazendo aqui, Urs Bülher? Antes que eu respondesse, ou Sébastien continuasse a falar, Calra lenvatou-se, sorrindo. _Ok, vou adivinhar... eu nem quero pensar nisso. Céus, Bühler!!! Eu fui até Sébastien e o encarei como se fosse colocar fim à sua vida miserável. _Cale-se e nem comente nada, Sébastien. Nem tente me testar. O que veio fazer? – Eu disse, entre os dentes. Mas ele me ouviu. _Temos que ir... hora do ensaio. Olhou a hora? Vamos, antes que mais gente apareça. Sébastien saiu, fechando a porta atrás dele. Eu olhei para Clara sem ter o que falar. Ela também não tinha palavras. Eu apenas saí, como Sébastien.

[Anne] E lá estava eu, sendo torturada pela presença insuportável daquele coreano lindo de morrer. Sim, ele era... e eu parecia uma besta babando atrás dele. Não, eu não estava daquele jeito... eu só sentia que estaria se não fosse uma força sobrenatural me mantendo normal. Ok, eu também não estava normal, mas estava tentando, e bastante. A situação seria tranqüila se ele não insistisse em ser engraçadinho o tempo todo... Eu vi os divos e as meninas descendo. Bem, entre meninas leia-se Clara e Mônica. Elizabeth eu não fazia idéia de onde estaria. Pensei que iriam a algum lugar, e desejaria boa sorte. Por coincidência, ou crueldade do destino, Elizabeth também apareceu. Foi como um encontro marcado, só que ninguém tinha combinado nada. _Anne! – Mônica, com cara de quem não estava me entendendo, mesmo. Bem, eu não era para ser entendida. – Vamos para o ensaio.... _Que ensaio? – Eu não sabia, sinceramente.

_O ensaio dos divos... – Clara franziu a sobrancelha. _Ah, não... divirtam-se. Eu vou jogar com os meninos, e o ensaio deles é amanhã de tarde, poucas horas antes do show. _Você não vai ver os divos cantarem? – Clara arregalou os olhos. _Eu vou, no show. – Não entendi a surpresa dela. _Ok... – Mônica desistiu. – Você vem, não é Lise? _Também não. Vejo vocês depois. – Elizabeth, muda até então, me fez olhar assustada para ela. Ok, eu era rebelde... mas Lise?? _O que? – Foi a minha vez de mostrar surpresa. – Como assim não vai? _É que... – Lise caiu na real que seu comportamento poderia causa espanto. – É que eu vou... tenho um compromisso. Eu vejo os rapazes amanhã, no show. _Meu santo... isso está sério! – Mônica arregalou os olhos. – É o alemão? _Sasha! – Clara lembrou-se. Eu já tinha me esquecido do nome do coitado. _SIM, Sasha!!! – Eu dei um gritinho. O irritante do Dong Wan se aproximou. _Andy Lee solicita a sua presença. – Ele implicou. _Já vou... Bem meninas, divirtam-se. Vou fazer o mesmo aqui… As meninas saíram com os divos, e aquilo era estranho. Eu dispensei um ensaio exclusivo com o Il Divo... olhei para o lado e vi o Shinhwa. Entendi então que eu estava perfeitamente normal, apenas vendo as coisas por outra perspectiva. E uma perspectiva meio distorcida, devo acrescentar. Mas fomos, depois da conversa fiada, para o salão de jogos. Eles eram todos hiperativos... bem, quase todos. Hyesung e JunJin eram parados, mas iam com os outros, nas brincadeiras. E sabiam ser engraçados também. O salão de jogos era fantástico, e poderíamos até fazer disputas de vídeo game. Ok, Playstation 2 na minha frente... e Kim Dong Wan quis me desafiar! Eu estava com a impressão errada ou ele me perseguia? Ele quis me desafiar até no Final Fantasy... ele não sabia que eu era “the Queen” no Final Fantasy?? E desde quando se fazia desafios em Final Fantasy?? Como ninguém responderia àquelas perguntas, eu acabei cedendo, e acabei jogando com ele praticamente o final de tarde todo, e quem sabe dizer quase toda a noite. Hyesung já estava quase babando sobre o jogo de cartas com Andy Lee, enquanto eu e Dong Wan, os hiperativos, não parávamos de jogar. E diga-se que ele jogava bem qualquer coisa. Eu não sei se queria descobrir outras coisas no que ele fosse bom. _Vamos? – Eric cutucou Andy Lee. Eu vi de canto de olho. – Estão nos esperando. _Estão quem? – Hyesung despertou. _Vamos sair. – Eric deu um risinho desconfiável. Ele parecia tentado a provocar Hyesung, de alguma forma. _Então vá logo. – Hyesung deu de ombros e levantou-se, desarrumando as cartas. – Eu vou juntar o acampamento e vamos beber algo no bar. _Beber?? – Eu levantei a orelha, como um cão sabujo farejava a caça. – Podemos consumir todas as margaritas do bar? _O que são margaritas? – Dong Wan franziu a sobrancelha. _Você definitivamente não fez essa pergunta. – Eu caí na risada. – Não fez mesmo... Levantei-me, desliguei o vídeo game no meio do jogo dele. Sob protestos, arrastei-o até o bar do hotel, que ficava no mesmo andar. Ah, mas como assim ele não sabia o que era uma margarita? De que planeta ele era? Bem, com aquela carinha de saudável, ele provavelmente não costumava ingerir álcool.

[Narrador] Elizabeth estava sentada no terraço, sentindo a brisa morna da noite em seu rosto. A noite de Tokio estava calma e silenciosa. Ao menos do oitavo andar. Ela não tinha ido ao ensaio do Il Divo e, diferentemente do que pensava, ela não se sentia culpada por aquilo. Aguardava, em uma mesa, um vestido preto, um adorno no cabelo e uma água mineral, aquele que faria sua noite mais suave. Sasha Schimitz marcara de encontrá-la ali. E ela o aguardava, sabendo que ele já estava a caminho. Sasha levou algum tempo para vestir-se, pois não sabia bem o que faria no terraço. Ele se sentiu confuso por um instante. Estava flertando com uma garota que mal conhecia. Isso era normal. Mas daí a se sentir vaidoso... ele vestiu qualquer jeans e qualquer camiseta, resistindo a algumas coisas que se passavam por sua cabeça. Pegou o violão e desceu, sacudindo-se todo. _Pensei que me deixaria aqui. – Elizabeth abriu-se em um sorriso ao ver Sasha chegando. Ele tinha os cabelos úmidos do banho. E o aroma que contaminou o terraço com sua chegada foi dos mais cheirosos que Lise já pensou em sentir. _Nunca. – Ele sorriu, beijando sua mão. – Então... tem fome? Quer comer algo? _Ainda não... _Então vamos conversar um pouco… a noite está linda. – Sasha admirou o luar, que parecia ter lugar somente para eles. _Trouxe um violão? – Elizabeth estranhou e sentiu-se extasiada, ao mesmo tempo. Ela adorava violão, e seu sonho sempre fora Sébastien tocando violão para ela. Mas Sébastien virou um sapo, e o príncipe Sasha parecia dotado dos mesmos atributos. _Sim.... pensei em te mostrar algumas músicas. _Vou vê-las no show. _Vai estar com suas amigas e seus divos... não prestará atenção em mim. Elizabeth quis rir. Como assim, não prestaria atenção nele? Ela logicamente prestaria atenção em cada movimento daquele ... ela pensou em não pensar, mas era tão evidente! Ele usava uma camiseta de malha que evidenciava seus músculos. Ele era sim... grande. Elizabeth baniu, ou pensou que banira, aqueles pensamentos de sua cabeça enquanto Sasha afinava o violão para ela. Ela tinha certeza que era para ela. _E o que vai tocar? – Lise resolveu quebrar o silêncio. _Uma outra que gosto muito... é romântica. Pareço tolo, tocando músicas românticas assim... _Não! – Elizabeth espantou-se. – Ninguém é tolo por ser romântico... _Eu sei. Que bom que pensa assim. Os acordes de Love is All Around preencheram a atmosfera. Elizabeth fechou os olhos e ficou sonhando com a música. Era mais saudável que somente ouvisse. Vê-lo cantar seria talvez problemático. Os dois estava próximos, Sasha havia puxado uma cadeira e colocado-se à frente de Elizabeth, exatamente. Ele cobria todo o seu campo de visão, e o som parecia doubly stereo surround. Se ela já não estivesse tão fora do chão, estaria flutuando em nuvens cor de rosa.

[Narrador] No bar do hotel, três garrafas de tequila esvaziadas demonstravam que o Shinhwa não estaria necessariamente sóbrio. Não havia praticamente ninguém por lá, mesmo com todo o movimento do hotel. As pessoas eram

turistas, e preferiam passear pela noite de Tokio. Mas estavam lá os cinco, excluindo Eric e Andy que saíram com amigos, a tomar tequila com sal e limão. E a falar todo tipo de coisa sem sentido. Tipicamente ébrios, sem controle. Dong Wan e Anne disputavam copos empilhados. JunJin e Hyesung tentaram se conter na bebedeira, e apenas Minwoo tentou acompanhar os outros dois. Rendido logo na metade da segunda garrafa, jogou-se no sofá e adormeceu na frente do enorme telão que passava clipes musicais. _Quero açúcar. – Dong Wan levantou um olho, tentando enxergar as coisas claramente à sua frente. _Peça ao garçom. – Anne brincava com os copos, fazendo-os de óculos. _Quero uma bala, um chocolate... preciso de glicose. _Precisa de um hospital, isso sim. – JunJin sentia seu corpo pensando toneladas. _Me dê uma bala. – Dong Wan insistiu. _Eu não tenho. – Anne fez uma careta. _Tem sim, estou vendo sua boca mastigar algo. Não é limão... você não bebeu tanto assim. Bebeu? _Mais do que tanto assim. – Anne caiu na risada. E quase caiu da cadeira onde estava sentada. – Mas sim, é um doce. _Me dê um. _Não tenho outro... era o último. _Desde quando come doces, Dongwannie? – Hyesung tentou compreender. _Desde quando tenho muito sangue no meu álcool. Vamos, dê-me. – Dong Wan levantou-se, e caminhou vacilante até Anne, do outro lado da mesa. Apoiou-se no tablado e a encarou. _Que parte do eu não tenho você não entendeu? – Anne indignou-se. – Era o último, acabou! _Era de canela? – Ele sentiu o cheiro. _Sim... sou viciada em canela. – Anne prendeu a bala entre os lábios, exibindo-a para Dong Wan. Ele comprimiu os seus lábios, irritado. _Você não devia me provocar. – Ele segurou-a com a face entre as duas mãos e, impulsivamente, levou seus lábios até os dela. Anne arregalou os olhos, e até tentou resistir. Mas Dong Wan era mais forte, e, com alguma habilidade, tomou a bala que estava com ela. Ele não quis beijá-la, apenas pegar o que queria. _Isso não vale! – Anne protestou. JunJin levantou-se, certo de que Dong Wan estava fora do seu juízo. – Devolva-me! _Nem pensar. – Dong Wan deixou que a bala começasse a se dissolver em sua boca. – Hum... adoro canela. _Ok, vocês dois... comportem-se! – JunJin tentou colocar ordem, inutilmente. _Ele começou. – Anne defendeu-se. – Mas agora vai pagar... devolva-me. Em um movimento rápido demais para quem tinha destruído uma garrafa de tequila, Anne escalou Dong Wan, que já estava de volta em sua cadeira. Tentou prender suas mãos com uma das suas, enquanto com a outra insistia para pegar a bala de volta. Hyesung resolveu achar graça, pois nunca vira duas pessoas brigando por uma bala usada de canela. _Isso é nojento. – Hyesung gargalhava. _Vai parar com isso ou não? – JunJin, também se divertindo. _Para que? Diversão garantida.... assistamos. Enquanto os dois observavam, Dong Wan decidiu não perder o jogo. Mordeu a bala com bastante força, até que ela se quebrou inteiramente em sua boca. Anne abriu a boca, deixando o queixo cair, irritada. _Você NÃO FEZ ISSO!!! – Foi sua vez de segurar sua face entre as mãos, com força. _Fiz sim. – Ele disse, com o líquido da canela escorrendo pelos lábios. – Agora você ficou sem.

_Ah, mas não fiquei não!!! _E o que pretende fazer a respeito? _Só tem um jeito. Sem nenhuma cerimônia, Anne aproveitou-se de sua posição e beijou os lábios de Dong Wan, se esforçando bastante para não deixar nenhum resíduo de canela por ali. Mas a canela estava em todo lugar. Ela se acomodou em seu colo, enquanto ele passava as mãos por suas costas, segurando-a firme. Hyesung parou de rir, enquanto encarava JunJin. _Ok, a brincadeira parece ter acabado. – Ele constatou. _É... agora quero ver você ir lá se intrometer. [Andy Lee] Eu nem acreditei quando voltei ao hotel. Estávamos em uma boate, mas nem lá conseguimos consumir tanto álcool quanto aqueles dois juntos! Mas o pior não foi a bebedeira, e sim a cena que estava instaurada quando eu e Eric voltamos. Era mais de meia noite, quase uma hora da manhã... e no bar quase fechado do hotel, Dong Wan e Anne se beijavam de forma um tanto quanto... cinematográfica. Sim, nos filmes você via aquele tipo de beijo. Era uma coisa bem... eu não sabia descrever. E os dois paspalhos do Hyesung e do JunJin lá, olhando. Pelo menos Lee Minwoo estava no sétimo sono. _Vocês dois! – Eu protestei, com a platéia. – O que está acontecendo? _Era uma brincadeira... – Hyesung tentou explicar. – Mas quando vimos, eles estavam assim... se beijando. _E como. – JunJin tinha o olhar parado. _Vocês estão bêbados. – Eric riu. – Desde quando eles começaram essa... brincadeira? _Faz... uma hora. _Uma hora? – Eu senti uma fisgada. – Eles estão se beijando assim há uma hora?? E vocês aí, como se fosse um concurso? Quanto eles beberam? _Das três garrafas, garanto que umas... duas. _Ok, chega. – Eu resolvi ser o mais velho, então. Quanta maturidade... – Kim Dong Wan, eu disse que chega. – Agarrei-o pela camisa e puxei-o, para ver se ele se soltava de Anne. Ele me olhou, com uma cara bastante... ébria. _Ela começou. _Não me interessa. – Fiz-me de firme. – Vamos... vocês dois. _Não preciso de babá. – Anne tentou levantar-se, foi escorada por Eric. _Realmente, precisa de cama. – Eric amparou-a, enquanto eu ajudava Dong Wan a vir comigo. – E vocês dois... acordem Minwoo e subam também. _Vocês chegaram chatos. – Dong Wan resmungou qualquer coisa. _Chegamos sóbrios, essa foi a questão. Vamos... vocês dois já se divertiram por conta, hoje. [ Mônica ] O ensaio dos divos foi lindo. Eu não achei que eles vestindo jeans e camisetas pudessem me encantar tanto, cantando despretensiosamente as músicas que eu adorava. Eu achava que os Armani faziam alguma diferença. Mas na verdade, o Il Divo fazia diferença... não importava como eles se vestissem. Depois que passaram o som com três músicas, tinham que ceder a vez a outros artistas. O tal festival durava o dia todo... eram inúmeros os artistas que tocariam. E quase todos locais... asiáticos.

Era como se eu tivesse sido jogada em um mundo paralelo. Estranho... Mas eles tiveram que ceder o palco, e foram para o backstage. Eu fui atrás, e Clara também. Clara estava esquisita... ela olhava para Urs com um brilho irritante nos olhos. Se eu tivesse aquele brilho também... mas eu não tinha, estava certa. _David. – Eu o encontrei sentado em uma caixa de som. – Onde estão todos? – O lugar parecia vazio. _Já foram. _Já foram? – Eu não entendi. _Sébastien e Carlos queriam conhecer Tokio. _E Clara e Urs? _Ah... você ainda pergunta?? – David riu. Ele parecia cansado... eu me aproximei, alguns centímetros. _Claro... você acha que... tem algo entre eles? _Eu não acho, tenho certeza. Do pouco que conheço Urs, sei que ele esconde algo. E Sébastien esteve no seu quarto hoje... e encontrou os dois lá. _O que?? – Eu arregalei os olhos só de pensar em Clara fazendo qualquer coisa com Urs, e pior... sendo pega! E por Sébastien! E sem me contar nada, bandida! _Calma… eles estavam só lá. Mas Seb disse que havia um clima... _Ah, mas isso há desde que chegamos... não acha? _Sim... Urs deve aprender a se controlar. Eu me aproximei um pouquinho mais. Ele estava quase da minha altura, sentando na pequena caixa de som de retorno. Ele levantou os olhos pela primeira vez desde que a conversa começou. Sim, ele parecia cansado... _Você acha que tem algum problema? – Nem sei que tipo de pergunta foi aquela. _Em Urs? Claro... imagine, ter idéias de ficar com a fã... _E isso é um problema? – Senti um aperto. Era estranho, um sentimento estranho. _Você acha que não? – Ele me olhou nos olhos, também pela primeira vez naquela conversa. _Não... eu nem sei. Se eles querem ficar juntos, que fiquem. São adultos... _Bom saber disso. – David disse. Ele sempre sorria, e daquela vez ele não sorriu. Ele simplesmente e olhou. E eu o olhava, tentando entender qual a razão daquela conversa sem sentido sobre Urs e Clara. Sem aviso, David pegou minhas mãos, puxou-me em sua direção, fez-me quase cair por cima dele. Arregalei os olhos assustada, mas ele me tomou de assalto. Puxou-me pelo pescoço até que meus lábios chegassem até os seus, beijandome. Assim, desse jeito besta.

[Anne] Acordei com dores. Abri os olhos e quase fui cegada pela luz. Sentia algo me incomodando, mas não sabia o que era. Virei para o lado e vi Clara... O que ela fazia no meu quarto? _Anne! – Clara parecia aliviada. – Estou tentando te acordar há séculos! _O que foi? – A voz dela me irritou. Barulho... havia um zumbido em algum lugar. _São nove e meia. – Elizabeth veio do banheiro, com um copo cheio de coisa verde. Eu já imaginava que era um chá... _Ainda? – Puxei as cobertas para cima de mim. _Anne, hoje é o dia do festival! Os divos estão em polvorosa... _E eu estou me sentindo horrível. Péssima.

_O que você fez ontem? – Elizabeth bebeu o chá. Então não era para mim... então não sabiam que eu tinha apagado a noite desde o momento em que finalizei a quinta dose de tequila. – Quando cheguei você já estava aqui dormindo! _Ah... eu fiquei no bar com os rapazes. _E bebeu todo o estoque? Seu suor cheira a álcool!!! – Clara protestou. _Ah, bebi um pouco... onde estão os rapazes? _Urs ligou, disse que resolveu nos esperar para tomar café. Os outros... _Que Urs! – Eu interrompi Clara. Senti dor quando me levantei da cama, quase caí para trás. Minha cabeça queria explodir. – Estou falando do Shinhwa... _E eu que sei? – Elizabeth franziu a sobrancelha. – Provavelmente já acordados e prontos para o café. Ou... eles te acompanharam na tequila? _Não me lembro. – Acabei me entregando. _Nossa... nem quero imaginar a festa. – Lise se contorceu. – Te esperamos em cinco minutos para o café. Esteja lá. [Narrador] Não foi fácil acordar Kim Dong Wan. Depois de várias tentativas, chamaram Lee Minwoo para tentar algo. E foi o único que fez Dong Wan levantar, com um pouquinho de água fria. Os rapazes desceram para o restaurante e, coincidentemente ou não, encontraram o Il Divo com as garotas no restaurante. Todos se encontravam com todos... afinal, estavam no mesmo hotel e com a rotina parecida. Anne estava com um saco de gelo na cabeça, resmungando, enquanto todos falavam animadamente. Clara apenas espiava Urs, que fez questão de sentar-se na mesa com elas. Os dois lado a lado, tentando disfarçar o que todo mundo já tinha percebido, com sorrisos culpados e olhares furtivos. Ele colocou a mão em seu joelho, por baixo da mesa, e ela, instintivamente, segurou-a. Mônica ainda estava meio assustada com David, e ele consigo mesmo. Mas não se arrependia do que tinha feito, mas pensou várias vezes se deveria ter feito da forma que fez. Deveria sim, ele achava. E Elizabeth estava ainda em outro planeta, sobre uma nuvem cor de rosa, pensando em nada mais do que uma romântica serenata de Sasha Schimitz, que ainda não tinha descido para o café. E por quem seus olhos buscavam incansavelmente. _Seu King chegou. – Clara implicou com Anne, lembrando-se do nome do coreano. _Deixem-me em paz. – Anne protestou. _De quem estão falando? – Urs ficou curioso. _Do coreano da Anne. – Mônica riu. _Não tenho coreano algum... droga, que dor infernal. _Andy Lee vem aí. _Quem é Andy Lee? – Urs continuava sem entender nada. _Ah, eu vou te contar essa história... – Clara se ofereceu, e começou a contar para Urs, em detalhes sombrios, a história de Anne e os coreanos. Urs sabia de algo, mas não dos detalhes. Nem Clara sabia... porque Anne simplesmente não se recordava. _Você está bem? – Andy perguntou a Anne, que tinha a cabeça recostada na mesa. _Não. – Ela respondeu, vendo Andy totalmente descolorido. _Nem Dong Wan. Quer vir conosco? Vou pedir um chá muito bom.

_Eu quero chá! – Mônica ouviu uma palavra que ela adorava. _Posso pedir um bule... – Andy sorriu. _Eu vou com você, mas só se você me levar com cadeira e tudo... Andy Lee passou a mão pelos cabelos de Anne, fazendo-lhe um carinho, e voltou para a mesa com os rapazes. Eric levantou-se com ele e foi até a mesa, buscar Anne. Com cadeira e tudo, se fosse preciso. Andy não conseguiria sozinho, mas em dois... David aproveitou a movimentação para sentar-se na mesa das meninas, do lado de Mônica. Só ele achou que ninguém perceberia. Elizabeth, já roendo as unhas querendo saber onde Sasha estava, teve um flashback da noite anterior quando olhou em volta. Clara e Urs lado a lado, conversando algo que parecia privado, só entre eles, como se o mundo não existisse. David que se escorregou para o lado de Mônica e, de forma nada eventual, colocou-se bem próximo dela, a ponto de conversar no pé do ouvido. Anne sendo conduzida pelos amigos coreanos até a mesa onde estava aquele que ela chamava de coreano dos infernos, que lhe deixara impregnada com o cheiro de seu perfume e que compartilhou com ela toda a tequila do bar. “Love is all around...” Elizabeth pensou, sentindo um arrepio. “Que premonição estranha!”

[Sébastien] Aquela turnê estava confusa. No café da manhã, vi Elizabeth ser sumariamente tirada da mesma por aquele alemão. Em verdade, a Anne também foi. Mas com ela eu não me importava. Minha questão era com a Elizabeth, que insistia em me ignorar e não corresponder ao que eu desejava. De qualquer forma, ela foi com ele, com aquele Sasha, para o festival. Ela veio para ficar com o Il Divo e, no entanto, estava se oferecendo toda para um tal de Sasha. Mas eu tive que engolir aqueles sentimentos negativos, porque não desejava compartilhá-los com os demais colegas. Não queria que todos soubessem que eu fui rejeitado por ela, e que agora... sentia ciúmes em vê-la com o alemão. Eu, Sébastien, não sentia ciúmes. Fomos até o lugar do festival com somente duas das quatro fãs: Mônica, a garota que David escondia ser sua, e Clara, a garota que Urs escondia ser sua. Eles mentiam tão mal que qualquer idiota saberia que estavam interessados nelas. E eu peguei Clara e Urs no quarto dela, em uma condição bastante comprometedora. Eu sabia, sim, que algo estava acontecendo entre aqueles dois casais. Mas não me interessava muito com o assunto dos outros. O lugar onde aconteceria o festival era lindo, porém estava tumultuado. Eu mal conseguia pronunciar a palavra Budokan sem errar o som das letras, mas ao menos o espaço era muito bom. A primeira coisa que vi foram asiáticos, e muitos asiáticos, ensaiando performances. E nós, que não dançávamos, nem fazíamos graças, como competiríamos com todas aquelas boybands cheias de energia? _Seb, temos duas horas. – Carlos apareceu. – Você já falou com as meninas que elas têm lugar especial? _Eu não... eles que façam isso. _Eles quem? – Carlos tentava, em vão ajeitar a sua gravata nova. Estávamos no camarim, e eu me olhava no espelho tentando imaginar se eu parecia mais velho. _Os homens delas... Urs e David. _Você andou bebendo algo? – Carlos caiu na risada. – Vamos, ajude-me com essa coisa, estou perdendo a paciência.

_Boa noite. – Urs chegou, radiante. Urs mal humorado era normal, mas Urs radiante era assustador. Ele provavelmente estava com a brasileira... e aquilo era realmente assustador. – As meninas estão na platéia... temos duas horas. _Eu já havia dito isso. Onde está David? _Vindo aí... _Elizabeth está com elas? – Eu tive que perguntar. _Sim... ela e Anne. Por que? _Nada! [Narrador] Quando o concerto começou, as quatro amigas estavam juntas novamente. Depois de passarem bem menos momentos do que pretendiam juntas, elas se reuniram em torno do que sempre as uniu: boa música. Se bem que nem tudo naquele concerto parecia bom... alguns cantores que começaram a se apresentar eram sofríveis. E Anne realmente não gostava de japonês. _Quando vêm os divos? – Mônica questionou, fuçando o programa. _Não sei... mas provavelmente não no meio das dancinhas Backstreet Boys. – Elizabeth implicou, achando o máximo todas aquelas boybands. _Não sei o que tem contra. – Anne doeu-se. – Eu gosto de Backstreet Boys... _Eu também! – Elizabeth defendeu-se. – Mas gostaria de saber quando veremos o Sasha cantar... vocês precisam ver como ele é bom. Clara suspirava à espera da entrada triunfal de Urs, que ela pensava que lhe cantaria uma música. Chegou a sonhar com os acordes de Isabel, porém Urs falava seu nome naquele momento. Sim, ela queria se sentir no lugar da Isabel. Queria que fosse seu nome a ser dito por ele, quando ele parecia cantar tão apaixonado. Depois de várias apresentações, algumas muito boas, Elizabeth sentiu um frio na barriga quando viu Sasha entrar no palco, sorrindo. Ele segurava um microfone e cumprimentava a platéia, solícito. Ninguém entendia o que ele falava, mas ele não ligava. Seria o host das atrações internacionais, juntamente com uma mulher japonesa. E cantaria, ao final das atrações internacionais. Sorrindo sempre, e deixando Elizabeth boquiaberta, Sasha anunciou a entrada do Il Divo. As meninas se assanharam, enquanto Anne ainda sentia dores e ainda sentia um calafrio estranho. Ela queria mesmo lembrarse de tudo que fizera... mas não conseguia. Sasha olhou para Elizabeth algumas vezes, enquanto apresentava. E o Il Divo entrou no palco apoteótico, mesmo com todo o fracasso de vendas. Suas vozes ecoaram pelo Budokan Hall sem piedade ao sufocar qualquer outro ruído. _Eu nem acredito nisso. – Mônica segurou a mão de Clara, enquanto eles começavam Caruso. _Nem eu... – Clara correspondeu à amiga. – Parece um sonho. [ Kim Dong Wan ] Eu esfregava as mãos, ansioso. Sentia algo revirar em meu estômago, mas queria acreditar que aquela era uma sensação de palco. Não queria pensar nas tequilas que tomei na noite passada... e menos ainda no que provavelmente poderia ter acontecido. Estava no camarim, andando de um lado para o outro, meio vestido, aguardando a nossa vez de entrar. Como encerraríamos as apresentações, tínhamos muito o que esperar!

_Dongwannie, você viu aquele minha boina verde? – JunJin procurava algo pelo camarim. Eu estava aéreo. _Vi não... Precisa mesmo usar aquela coisa horrível? JunJin ignorou meus comentários, enquanto Andy aproximou-se sorrateiro. Ele esperou que ninguém estivesse atento para me interpelar. _Wannie, temos que conversar. – Ele me puxou para a saleta. Por sorte ninguém viu, ou pensaria que estávamos a fazer algo escondido. _Sobre o que? – Eu fiquei confuso. – E tem que ser agora, uma hora antes da performance? _Talvez deva ser. O que se lembra da noite anterior? _Nada. Essa é a milésima vez que me perguntam isso... estou acreditando que algo muito sério aconteceu! _Não sei se é sério... mas gostaria de saber se você sente algo pela Anne. _Como assim? – Não entendi mesmo aquela pergunta. Andy parecia falar em códigos. _Você sabe que eu gostei dela no início... mas que ela me viu como um amiguinho. Então, eu não estou mesmo querendo dizer nada disso... eu só gosto dela, aprendi a gostar dela, e não quero ver ninguém de coração partido. _Andy, você está me assustando! – Eu recomecei a esfregar as mãos e a andar em círculos. _Ontem à noite, depois de se embebedarem, vocês dois se beijaram. E muito. Pelo que sei, vocês se beijaram bastante... o suficiente para me fazer pensar que, mesmo estando sóbrios, esse beijo aconteceria inevitavelmente. Franzi a sobrancelha, estarrecido. O que eu tinha feito? Beijado uma mulher bêbada? E pior, eu também estando bêbado? Havia beijado Anne da forma como Andy colocara, e sem me recordar? Desde quando aquele comportamento era meu? _Eu não acredito nisso. – Pensei, ainda assustado. – Como vocês me deixaram fazer isso? _E nos cabia deixar alguma coisa? _Sim! Quero dizer, não... lhes caberia impedir isso?? _Dong Wan... você quis beijá-la, isso está tudo bem. E Hyesung e JunJin estavam bêbados também, ou seja, ninguém faria nada. Mas a questão é... seja lá o que for que você sinta por ela, tente esclarecer isso em sua cabeça antes de fazer isso novamente.

[ Anne ]

Os meus olhos não queriam ver os divos, mesmo que meus ouvidos tanto os quisessem ouvir. Elizabeth aguardava ansiosamente o fim da performance, para ver Sasha Schimitz. Ela também não parecia interessada em ver ou fazer qualquer coisa relacionada a Il Divo. Mas não podíamos negar que a música deles nos preenchia de alguma forma. Eles se resumiram a cantar músicas do Siempre, o que parecia lógico. Mesmo o Siempre não sendo o meu CD favorito, a platéia delirou com os acordes de La Vida Sin Amor. Quem na verdade estava delirando eram minhas duas amigas. Elas pareciam tietes na fila do gargarejo, com seus faniquitos. Nada que eu não faria há alguns meses atrás, lógico. Eu fiquei feliz por elas, afinal poderiam curtir bastante seus divos até o final da viagem. Mas eu tinha um nó atravessado no meio da garganta, algo me dizendo que eu certamente faria algo do que me arrependeria. Eu sempre fazia algo estúpido, aquela não poderia ser uma exceção. Quando Sasha Schimitz cantou, ele nos apresentou duas de suas músicas. Uma que Lise ainda não tinha ouvido, mas que gostou e muito, e a outra que fez despertar em minha amiga algo estranho. Quase pude ver

sair de dentro dela um algo. Era como se Lise entrasse em estado de êxtase e saísse flutuando pela platéia. E a música fazia tanto sentido, se analisada no contexto daquela viagem... o alemão deixava ecoar “love is all around” como se fossem palavras predestinadas a acontecer. E ele olhava para Elizabeth, eu podia ver que olhava. Clara e Mônica estavam muito fora de si com a apresentação do Il Divo para perceberem aqueles detalhes, mas Sasha olhava para Elizabeth, e parecia estar cantando aquela música para ela. Senti um arrepio, eu também queria uma música para mim. Aquilo estava ficando brega. E como! Mas quem procura sempre acha. E eu estava procurando encrenca desde que chegara à Ásia, ou antes. Sem que eu me desse conta do momento, o host japonês anunciou o final do concerto, e o palco se escureceu todo. Olhei em volta pensando onde afinal estavam escondidos os rapazes do Shinhwa, porque eu sabia que eles iriam cantar! E foi do meio do gelo seco e do breu que uma enorme bolha branca surgiu e se desfez, revelando o grupo. Senti uma enorme vontade de gritar, de ter um ataque de fã. Mas eu não era fã deles, afinal. Eu mal conhecia suas músicas! _Eles dançam bem! – Clara comentou. Eu nem ouvia a música direito, e talvez não estivesse percebendo a dança. Kim Dong Wan usando uma calça branca nada autorizada para situações como aquela, e um colete brilhante que o fazia parecer iluminar o céu. Sim, ele poderia ofuscar a lua, e com bastante facilidade. Se eu não havia conseguido atingir o ápice da breguice, aquele era o momento ideal. _Sim, e como! – Elizabeth comentou. – E são bem bonitinhos, tenho que admitir. _Eu não acho asiático bonito. – Mônica protestou. _Está bem, já sabemos. – Clara riu. – Nem eu, mas eles são simpáticos. _Sh! – Eu cutuquei as falantes. – Quero ouvir a música. _E nossa conversa atrapalha? – Mônica espantou-se. A música era barulhenta o suficiente para ser ouvida fora do Budokan Hall. Mas minha concentração perdia-se em um ponto qualquer do palco. _Sh! – Insisti e virei-me novamente para o palco, ignorando as três. Depois de todo o barulho e de tanto pularem no palco, eles conversaram o público em japonês. Eu sabia que era japonês, porque sabia distinguir as línguas asiáticas... Eu não sabia era que eles falavam japonês! A segunda música foi deliciosa... cada um cantava um pedaço, misturando rap e balada, com uma melodia viciante. Eu não consegui ver ou perceber se minhas amigas estavam gostando da apresentação, mas eu imaginava que cada uma tivera, então, seu momento. Urs e David cantaram para Clara e Mônica, bem como Sasha cantou descaradamente para Elizabeth. E eu estava ali, em um estado de prazer tão imenso que eu não sabia descrever. O palco foi tomado por alguns outros artistas, e dançarinos, e o Shinhwa pegou toalhas e bugigangas. E as fãs começaram a colocar coisas no palco, e eu não estava entendendo. Mas a música que eles começavam a cantar era ainda mais linda do que todas, porque ela dizia que não sabia o que dizer. Eu senti que meu coração ia explodir com a melodia, quando percebi os olhos de Dong Wan olhando para mim. Aquele nó que estava na minha garganta ia descendo lentamente, bem lentamente... enquanto ele cantava, o que eu não entendia absolutamente, e me sorria. Seu sorriso iluminava ainda mais do que todo o brilho que ele usava, e eu percebi que Elizabeth me olhava abobada. Ele apontou para mim e cantou algo. _O que ele disse???? – Elizabeth me sacudiu, me tirando do transe. Eu não conseguia olhar para ela. _Eu não sei… é coreano. _Nem tem idéia? _Sim, eu tenho…

[ Narrador ] O concerto acabou, mas a magia continuava no ar. O Il Divo resolveu esticar a noite em comemoração. Voltariam ao hotel para tomar um banho, vestir algo menos formal e desfrutar a noite japonesa. Tokio parecia divertida demais para não ser explorada. Elizabeth teve que voltar para o hotel sem falar com Sasha, porque ele saíra com sua produção. E ela não sabia se o veria naquela noite, mas desejava. Depois de vê-lo, apoteótico, ela desejou estar mais tempo com ele. Anne, no entanto, não sabia se queria mesmo estar com o Shinhwa. Depois da apresentação, depois de Dong Wan ter cantado daquela forma para ela, não seria nada são estar na presença dele, à noite, por um longo tempo. _Elizabeth! – A mulher ouviu seu nome ecoar no salão, enquanto se preparava para subir para seu quarto. – Elizabeth... – As mãos de Sasha Schimitz a seguraram. _Sasha... – Ela sorriu, olhando dentro de seus olhos. – Então você... como foi a performance? Gostou de cantar para os japoneses? _Eu estou acostumado a cantar para todo tipo de público. – Ele sorriu de volta. Ainda a segurava pelos braços, de uma forma gentil, porém impulsiva. – Olhe... estava querendo celebrar... _Celebrar? _Sim... sei lá, dar um passeio. Dizem que Tokio é linda, não acha? _Parece ser linda. – Elizabeth não sabia direito, ainda não tivera tempo de passear pela cidade. _E como... amanhã nós... bem, amanhã devemos... _Eu sei. – Elizabeth respirou fundo, sabendo o que ele queria dizer. Ela sabia que eles se separariam logo, pois cada um tinha seu compromisso, cada um tinha que ir para um lugar diferente. – Vamos celebrar, então. Vou subir e vestir alguma coisa. Ela subiu radiante e ao mesmo tempo desejando deletar de sua cabeça a possibilidade de, no dia seguinte, estar milhas distante de Sasha. Encontrou Anne no quarto, sentada na cama, segurando os joelhos nas mãos, olhar assustado. Elizabeth pensou que a amiga estava surtando... e a razão tinha nome e sobrenome. _Onde vai? – Anne perguntou. _Sair com Sasha... ele me convidou para comemorar. Você... quer ir também? – Elizabeth pensou em fazer a coisa certa. _Claro que não! – Anne espantou-se. – Eu não vou ser castiçal... segurar vela não é comigo. _Mas é que... _É que nada. – Anne enfiou-se sob os cobertores, mesmo no calor. O ar condicionado estava ligado, e ela tremia como se estivesse sentindo muito frio. – Pode ir, divirta-se... estou me flagelando porque preciso me desconcentrar de todo aquele... _Todo aquele? _Ignore-me, Lise. Elizabeth deu de ombros, vestiu-se e desceu para encontrar-se com Sasha. Se Anne quisesse ficar se torturando porque algo supostamente poderia ter acontecido em uma noite de bebedeira, então que ficasse. Nada ela poderia fazer. Encontrou o alemão sempre sorridente, esperando-a. Elizabeth pensou que poderia gostar de que ele a esperasse para sempre. Mas aqueles pensamentos eram foram de sentido. No quarto das meninas, Anne passou a mão no telefone. Seus dedos tremiam e ela mal conseguiu fazer a recepção atender. _Quarto do Sr. Andy Lee, por favor.

A ligação foi transferida. Andy atendeu, já sonolento. _Andy, é Anne... eu preciso de você. _Ok... organize a frase ou posso pensar coisas estranhas. – Ele brincou. _O que foi que Dong Wan disse? _Quando? – Andy ficou em branco. _Na música... na hora em que ele cantou e olhou para mim... _Ah sim... How Do I Say... – Andy relembrou-se do momento. – Ele disse how do I say nan neol reul weonhae… _Ah bom! E o que significa, Andy! – Anne estava nervosa, desde sempre. Era estressada. _Quer dizer how do I say my darling I want you. _Ah… - Anne sentiu uma fisgada. _E devo dizer, Anne... ele realmente disse isso. Andy Lee desligou o telefone. Anne não se sentiu melhor depois de saber o que fora. Ela não poderia imaginar nada tão profundo. Ela não podia imaginar nada tão... convidativo.

[ Clara ] Depois de tomar um banho e não me sentir mais suja, suada e com cheiro de Japão, estava pronta para sair. Sentia-me radiante, e aquilo era tão estranho... eu devia estar apavorada, pois sairia sozinha com Urs. Eu sabia que iríamos sozinhos porque Mônica também se preparava para sair, e eu duvidava que eles estivessem programando algo tão... casal! Não, eles não programavam aquilo... eu duvidava mesmo. Ou ficaria extremamente constrangida. Antes que pudesse descer as escadas, Urs bateu à porta do quarto, com um sorriso perverso nos lábios. Eu não sabia o que ele estava planejando, ou se ele planejava algo, mas ele estava tão lindo que mal podia reconhecêlo. Ele estava mais lindo do que o Urs dos meus sonhos; estava mais lindo do que o Urs que eu desejei. E não foi porque ele vestia aquela mesma calça jeans provocante, mas porque havia um brilho diferente em seus olhos. Os olhos de Urs nunca foram tão significativos. E lindos. _Vamos? – Ele me intimou. Eu negaria? _Claro... Mônica, estou indo. Minha amiga deu um “tchau” com a mão, sem virar-se para mim. Fechei a porta e acompanhei Urs até o sei lá onde para o qual ele me levaria.

[ Mônica ] Clara saiu, e eu fiquei sozinha com as minhas dúvidas sobre como me arrumar. Eu nunca tinha dúvidas, estava sempre sacando uma maquiagem e uma roupa básica perfeita para tudo. Mas eu não queria estar básica, só perfeita. Aquele divo estava me tirando do sério... que coisa mais sem sentido! Primeiro porque eu não o autorizei a me beijar, ele fez aquilo de surpresa, de forma completamente ilícita! E segundo porque... ah, eu estava em crise, só podia! Estava dando importância demais para o que não tinha! Saí do quarto já mal humorada, pensando que descontaria minha insegurança no primeiro que visse. Mas, por sorte da humanidade, o primeiro que vi foi exatamente David, com aquela camisa de mangas dobradas até o cotovelo, meio aberta no peito, aquele cabelo natural sem gel, que lhe dava um ar tão de menino. Eu me abri em

um sorriso insuportável, quando me aproximei. Ah, eu estava odiando homens... e aquele clima romântico que me fazia perder a razão totalmente. [ Sasha Schimitz ] Com a postura mais confiante que eu poderia assumir, levei Elizabeth para um restaurante que me disseram ser fantástico. O ambiente era realmente lindo, com uma decoração típica. Eu esperei que Elizabeth gostasse daqueles contrastes culturais, mas não a levei para comer comida tipicamente japonesa. Eu não sabia se alimentos pouco cozidos seriam saudáveis para aquele jantar. Achei melhor não inventar. Ela parecia bastante natural, conversando como se fôssemos amigos antigos. Eu pensava que poderíamos ser... foi uma identidade interessante. Ela era uma pessoa muito fácil de se gostar... mas eu não teria muito tempo com ela, então não sabia direito o que fazer. Não era o problema de ela estar ali com o Il Divo, mas porque ela voltaria para o Brasil, e eu para a Alemanha. Aquilo significava um oceano de distância. _Então... vai me contar algo sobre você? – Resolvi perguntar. _Não... vou deixar que descubra sozinho o que quer. – Elizabeth implicou. _Isso é injusto, eu sou um cantor... não um detetive! – Caí na risada, enquanto o garçom se aproximava com a carta de vinho. – Você prefere tinto ou branco? _Não deveríamos escolher de acordo com a comida? – Ela não me entendeu. _Geralmente, escolho a comida de acordo com o vinho. – Eu estava piadista. _Ah! – Elizabeth, ao menos, gostou. – Ok... eu prefiro um bem fraco. _Vou pedir um cabernet, então. _Como se eu entendesse de vinhos! Sim, ela era muito divertida... eu pensei sozinho. Era uma pessoa com a qual eu gostaria de conviver, mas não poderia. Aquele drama todo estava começando a me irritar, eu não era daquilo. Escolhemos um prato bastante normal, tomamos a garrafa de vinho e nos divertimos. Eu não fazia questão nenhuma que a noite acabasse, claro. Mas o tempo passava, e uma hora teríamos que voltar para o hotel. Vez ou outra eu me pegava observando seus olhos e pensando que eram olhos lindos. Vez ou outra eu me pegava observando seu sorriso e pensando que ela sorria para mim. _Vamos? – Resolvi terminar o jantar, depois de quase uma hora da sobremesa. _Sim... está bastante tarde... _E como. – Eu divaguei, sem falar coisa com coisa. Voltamos para o hotel, eu subi com ela até o terraço. Elizabeth disse que precisava sentir o cheiro da noite de Tokio mais um pouco. E eu precisava sentir o aroma de seus cabelos. Ela debruçou-se no parapeito e, como criança, olhou as luzes coloridas que iluminavam a cidade. Observou por alguns instantes os letreiros cheios de símbolos que mostravam palavras incompreensíveis. Eu me aproximei, talvez de forma abrupta, chegando bastante perto dela. Elizabeth estava destraída, olhando para o movimento, enquanto eu olhava para ela, somente. Não sei que coisa estranha me dominou, mas foi uma força. E uma força que não me deixou escolha, senão curvar-me para ficar mais próximo do seu cheiro. Como se ela percebesse, naquele mesmo instante Elizabeth virou-se para mim, ainda sorridente. Ela parecia sempre feliz. Nossos olhos se encontraram, e nossos narizes se chocaram. Seria cômico, se eu não estivesse sério demais.

_Aconteceu algo? – Ela perguntou. Eu não respondi. Não aconteceu, mais aconteceria. Isso com toda certeza… porque eu não seria forte o suficiente para lutar comigo mesmo. Sem mover minhas mãos e sem sair do lugar, curvei-me ainda mais e alcancei os lábios de Elizabeth, que pareciam tão esperando por mim. Ela deve ter se surpreendido, pois sua reação foi a de esquivar-se. Mas eu a segurei com as duas mãos pela cintura, fazendo com que ela invertesse o movimento e se aproximasse de mim. Queria sua pele em contato com a minha. Queria sentir o calor de seu corpo. Sem pensar em certo ou errado, sem contabilizar conseqüências, eu simplesmente a beijei, no meio do terraço, de uma forma bastante atrevida.

[ Anne ] Eu tinha medo de mim mesma. Dong Wan não devia ter feito aquilo, e eu não devia ter perguntado a Andy o que significava. Meus pensamentos começaram a se tornar tão perversos que eu nem tinha coragem de compartilhálos. Ao mesmo tempo que eu morria de medo, eu estava totalmente excitada com alguma coisa. Eu não podia mostrar aquilo. Fui para o banho, tentar limpar minha mente de tudo que fosse impuro, mas era inútil. Eu comecei a andar em círculos, pensando no que ele tinha dito. O que poderia significar o que ele tinha dito. E o que poderia significar Andy dizer que ele realmente havia dito aquilo... Durante o ritual de tortura que eu infligia a mim mesma, o telefone tocou. Concentrei-me quando ouvi o ruído, e decidi atender após o quarto toque. Quem afinal poderia estar me ligando? Elizabeth deveria estar muito ocupada para se lembrar que eu existia. E as outras duas também! _Hello? – Eu disse, esfregando as mãos. Eu estava mesmo agiada, e ainda sem comer nada depois do almoço. – Alô... Dong Wan? Eu não sabia por que perguntei por ele, mas eu pensei, por um instante, que pudesse ser Dong Wan. Ou eu queria que fosse Dong Wan. Nenhuma resposta, então eu desliguei o telefone. Continuei andando feito uma maluca, em círculos, falando sozinha. Chutei os meus sapatos umas duzentas vezes, porque eles estavam sempre no meio do caminho. O que Dong Wan queria comigo, eu pensava. Eu nem sei por que sabia que era ele. Eu sonhava, alucinada. Queria pensar em qualquer coisa que pudesse me ajudar a separar o certo do errado. Coloquei os sapatos, então, e fui até o quarto dele.

[ Kim Dong Wan ]

Eu simplesmente peguei o telefone e liguei para a recepção. O suor escorria por minha face e estava pingando sobre a cama, mas eu nem liguei. _Preciso falar com o quarto 10982, por favor. Em poucos segundos, o telefone tocava. Meu coração bateu acelerado quando ouvi uma voz do outro lado da linha. O mais estranho foi que eu não consegui responder. Eu fiquei mudo, minha voz simplesmente desapareceu. Foi roubada de mim. Ela percebeu que fui eu, eu ouvi meu nome e ela desligou. Eu era mesmo um idiota. Eu podia ter qualquer mulher que quisesse, até todas elas. Eu poderia ligar e elas viriam, correndo. Mas não, eu queria exatamente a mais complicada de todas. Não que ela fosse complicada, mas seria. Seria muito complicado. Meu cheiro começou a me incomodar, e eu decidi tomar um banho. Estava quente e eu precisava refrescar as idéias. Deixei a água fria cair sobre meus ombros por algum tempo... eu precisava relaxar. Senti meus ombros

doendo porque eu estava fazendo uma força sobrenatural para me conter. Para lutar contra minha vontade. Fechei o chuveiro e ouvi batidas na porta. Devia ser o serviço de quarto... sempre enviavam coisas para nossos quartos depois dos concertos. _Só um minuto. – Eu gritei. O garçom me esperaria. Cobri-me com um roupão e abri a porta, ainda secando os cabelos com a toalha. Arregalei meus olhos quando vi que era ela. _Estou incomodando? – Ela disse, visivelmente nervosa. _Não... eu estava tomando um banho. Pensei que fosse o serviço de quarto. Entre. Eu a puxei para dentro. Percebi que ela esfregava as mãos... _O que você queria no telefone? Eu sabia que ela sabia! _Eu... eu não sei. Anne, eu só quis ligar, mas eu não sabia o que dizer. _E agora que estou aqui, você sabe o que dizer? – Ela arriscava um jogo perigoso. _Não. _Mas soube, no show. _Eu... _Andy me disse. A porta nos interrompeu novamente. Daquela vez, era mesmo o serviço de quarto, trazendo champagne. Era mais de uma hora, e eu nem tinha fome. _Vai comemorar? – Ela perguntou segurando a garrafa em suas mãos. – Hum... Dom Perrignon! _É coisa da produção... eu nem sei por que enviam essas coisas. _E você vai desperdiçar champanhe? Ela me sorriu, e seus lábios estavam vermelhos como uma maçã. Ela vestia um vestido que nem cobria tudo que eu queria descobrir, e sua pele branca estava brilhando sob a luz artificial. Eu peguei a garrafa das suas mãos e abri. O champanhe estourou, escorrendo pelos meus dedos. Eu servi a taça, só havia uma. Claro que ninguém imaginou que, naquele momento, eu estaria com companhia. _Vamos ter que dividir. – Eu fiz uma menção de entregar-lhe a taça. Mas ela pegou o objeto de cristal e colocou no lugar onde estava. Segurou meus dedos e colocou em sua boca, um por um, retirando todo o líquido que escoreu. Senti um arrepio que me fez amolecer todos os músculos. Com a mão que ela me deixou livre, tratei de me cobrir direito com a toalha, porque aquele roupão não servia de nada. _Continuo sem ter o que dizer. – Eu consegui formar uma frase. _Talvez porque não haja nada para você dizer, agora. _Quer comer algo? Temos... creme de alguma coisa? – Eu não gostei do menu. – Devem estar doidos, em servir champanhe com creme. Ela caiu na risada. _Não estou com fome. _Nem eu. Quer… assitir a TV? Eu não sabia mesmo o que fazer com ela ali. Anne olhou para mim, e eu vi alguma coisa em seus olhos. Parecia um desespero, com se ela quisesse falar, mas as palavras se perdessem em sua garganta. Como eu, no telefone. Ofereci a ela mais champanhe, e daquela vez ela esvaziou a taça. Eu fiz o mesmo, depois de enchê-la outra vez. Depois de toda aquela tequila, eu duvidava que champanhe fosse nos fazer diferença. Eu não queria ficar bêbado, mas talvez fosse a melhor forma de acabar com aquela sensação. A sensação estranha que me fazia sentir doente. Ela ainda me olhava como se precisasse de alguma coisa que ela não sabia pedir.

Deixei a toalha cair no chão e caminhei até ela. Foi tão intenso que nossos corpos se chocaram. Eu tive certeza que encontraria alguns hematomas, depois. Segurei-a em meus braços e a beijei. Eu não quis ser sensível, apenas fiz com que meus lábios atacassem os dela, com certa violência. Pressionei seu corpo contra o meu passando minhas mãos por suas costas. Ela simplesmente desfez o laço que mantinha meu roupão no lugar, e deixou que seus dedos passeassem pela minha pele. Senti aquilo novamente. Eu estava vulnerável, e Kim Dong Wan não era vulnerável. Mas ela fazia o que queria comigo. Beijei seu pescoço, e deixei cair a alça de seu vestido. Coloquei minhas mãos por dentro dele, segurei-a pela cintura e insisti em mantê-la perto. Nossos corpos queimavam, como uma febre. Eu joguei Anne na cama e ela terminou de se livrar do meu roupão. Lentamente, eu abri o zíper do seu vestido e o descartei. Quando alcancei seus lábios novamente, ela parecia no limite de qualquer coisa. Não havia nada mais que impedisse nossos corpos de se unirem. Eu não acreditava que aquelas coisas pudessem ser como nos livros bobos que as mulheres liam. Eu ria daquelas histórias baratas, todas sobre amor e paixão. Aquilo deveria ser simples, e provavelmente por instinto. Mas Anne... ela fez com que as coisas mais bregas que eu pudesse imaginar viessem todas de uma vez. Tudo virou realidade, e tudo passou a ser tão compreensível! Eu poderia me matar por sentir daquele jeito, mas eu simplesmente não consegui evitar. Talvez aquela tenha sido a razão para justificar nossas reações. Eu senti meu corpo doer, meus músculos falharem. Chegamos a ficar tão cansados que eu pude ver isso em seus olhos, sentir isso em sua respiração. Seu coração batia lentamente quando eu me deitei ao seu lado e fiz com que ela se deitasse sobre o meu peito. Daquela vez, eu quis que o tempo parasse para que eu ficasse ali para sempre. [ Narrador ] _O que você está achando da viagem agora? – Urs perguntou a Clara. Os dois caminhavam pelas ruas de Tokio. Era tarde, bastante tarde. Mas ninguém tinha compromisso na manhã, então podiam aproveitar. Depois de terem comido em barracas na rua, e de terem visitado várias lojas de bugigangas, os dois caminhavam olhando as vitrines das lojas 24h abertas. Ninguém os incomodaria; era tarde demais para os fãs estarem acordados interessados em persegui-los. _Agora ela me parece do jeito que imaginei. – Clara sorriu, olhando para Urs. Ele se sentia estranho porque temia tocá-la. Mas aquele sorriso despertou em si uma vontade incontrolável de abraçá-la. Passou o braço por seu ombro e puxou Clara, fazendo-a encaixar-se ao seu lado. – Bem, não... na verdade está melhor do que eu imaginei. – Ela recostou a cabeça nele. _Eu peço desculpas por termos agido de forma tão estúpida no início. É que... não passamos por bons momentos. _Eu sei. _Mas não justifica… _Não mesmo. – Clara riu novamente. – Mas é perdoável. Diga-me, Carlos e Sébastien estão saindo com alguém? _Por que esse interesse? – Urs franziu a sobrancelha e olhou para Clara. _Não sei... é que eu cismei de que Sébastien olha para Lise de uma forma diferente... _Ah sim... bem, ele está sozinho, eu acho. Ao menos não sabemos de nada... e como passamos o tempo todo juntos... _Ok. – Clara resolveu que aquele momento não era ora de falar em Sébastien. Ela devia aproveitar as horas que passava com Urs, pois nunca sabia quando elas terminariam.

Os dois caminharam mais alguns metros até um canal. Recostaram-se no parapeito e observaram o lugar por alguns instantes. _Não pensava que o Japão fosse tão bonito. – Urs disse, olhando diretamente para Clara. Ela levantou o olhar para encontrar os dele. Continuavam lado a lado, ainda abraçados. _É... eu já estive por aqui, mas era muito jovem. O lugar tem suas belezas... mas parece que a noite está provocando algo, não acha? _Talvez... – Urs olhou novamente a lua. – Essa lua está instigativa. _Totalmente... provavelmente ela influencia... Clara deu-se conta da besteira que falaria. Ela nunca imaginou que se sentiria tão à vontade com Urs para falar coisas como aquela! Mas então foi que ela ia dizendo, sem cerimônias, que a lua influenciava os apaixonados. Desde quando ela estava apaixonada por Urs? Clara pensou que desde sempre; afinal ele era Urs Bühler! Ela era apaixonada por ele desde que o vira. Mas... apaixonada? Mesmo? _Eu estava pensando que em oito dias estaremos retornando à Europa... o que se pode fazer em oito dias? – Urs começou a divagar. _Em sete fizemos muita coisa. – Clara tentou se concentrar no que era bom. – Mas... eu não entendi a questão. _É que... bem... agora que parece estar abrindo uma clareira na escuridão... alguém está com o dedo no interruptor para apagar a luz! _Você parece a Anne... ela é quem fala em enigmas! – Clara riu. Urs puxou-a para si novamente, para que ela recostasse em seu abraço. _Você ficaria comigo esses dias? – Urs perguntou, sem olhar para ela. Ele não conseguiria fazer essa pergunta se estivesse olhando em seus olhos. Mas Clara não se conformaria... ela levantou o queixo, desconcentrou-se da paisagem e olhou para Urs, que olhava em direção ao horizonte. _Você fez mesmo essa pergunta? – Ela espantou-se. _Sim... eu tinha que fazer. – Ele ainda não olhava para ela. Clara pensou em dizer que ficaria com ele até no inferno. Pensou em dizer que ficaria com ele de qualquer jeito. Pensou em dizer que ficaria com ele mesmo se soubesse que seria sua última atitude. _Sim... – ela respondeu, voz baixa. – eu ficaria...

[ David Miller ] Minha especialidade não era ser gentil e simpático e aberto. E parecia que Mônica também não se identificava muito com aquele perfil. Ela saiu comigo, mas parecia bastante irritada com algo. Eu não sabia o que, mas era como se eu tivesse feito algo com ela. E eu nem sabia o que poderia ser. Resolvi não perguntar, mas ao mesmo tempo queria perguntar. Estávamos já de volta ao hotel, e eu a deixei no seu quarto. Ela esteve distante. E eu só pensava em beijá-la outra vez. Mas eu não sabia se estava autorizado. Voltei para meu quarto meio chateado, imaginando que havia perdido meu tato. Garotas não costumavam agir daquela forma comigo. Talvez por aquele motivo eu gostasse dela. Sim, eu estava interessado nela. Mais do que deveria? Eu nem sabia se havia uma medida certa para aquele sentimento. Troquei de roupa, lavei meu rosto, escovei meus dentes. Iria para a cama cedo, provavelmente antes até de Sébastien e Carlos. Pensei em ligar para eles, desisti. Já estava quase fechando o olho quando ouvi a porta.

_David. – A voz do outro lado era conhecida. Corri para abrir, nem pensei que apareceria apenas de roupas de baixo. _Aconteceu alguma coisa? – Olhei para Mônica, meio assustado. Lembrei que não estava vestido adequadamente, mas não sabia mais o que fazer. Ela já havia visto. _Não. – Ela entrou. Dei de ombros, afinal. Mulheres eram complicadas. _Parece ter acontecido… _Clara ainda não chegou, estou sozinha. Não gosto de ficar sozinha. – Ela disse, emburrada, sentando-se no sofá. Sentei na beirada da cama, olhei para ela por alguns instantes. Ela parecia ainda mais linda irritada. _Ok... pode ficar aqui até sua amiga chegar. Ou o quanto quiser. _Ah, nem preciso de bondade... _Mônica! – Eu resolvi dar um basta, quando ela se levantou e intentou sair. – Ok, isso está fora de controle... o que houve? Por que está tão irritada, confusa? Ela baixou a guarda e não me olhou. Simplesmente baixou a guarda, sem mover um músculo. Eu a segurava pela mão, para evitar que ela seguisse adiante. Senti que suas pernas não ofereceriam mais resistência. Puxei-a para mim, e ficamos quase na mesma posição de quando nos beijamos. Mas ela não me olhava nos olhos. _Somos adultos. – Eu continuei. – Seja lá o que for... _Desculpe-me... estou meio em crise. _Que crise? Tem algo errado? _Tem. – Ela finalmente me percebeu. – Você! _Eu? – Não entendi nada. _Sim, você!! Ah, mas que coisa... você! Poderia ter continuado o chato rabujento do início, assim eu não teria esse problema. _Você está falando em códigos!!! – Desesperei-me. – Não estou entendendo nada, poderia ao menos me explicar que culpa tenho? _Eu gosto de você! – Ela confessou. Foi uma confissão, de tão difícil que saiu. – Eu não queria gostar. _Isso é bom, gostar de mim... eu também gosto de você. _Mas eu não quero gostar! – Ela insistiu. – Você vai embora, eu vou embora, não quero isso... ah, esquece... Segurei-a pela cintura, sorrindo. Ela era mesmo fofa. Eu nunca pensei que uma mulher pudesse agir como ela... nunca imaginei. Ela era uma mulher e uma criança ao mesmo tempo, e aquilo poderia facilmente me fascinar. Abracei-a, porque tive vontade. Beijei-a, porque era impossível estar ali tão perto dela sem beijá-la. Deitei-me com ela na cama porque ela precisava de alguém para confortá-la. E a amiga não poderia. Recostei-a em mim porque era uma das únicas formas que eu sabia de confortar as pessoas. Fiquei ali com ela, por vários minutos, sem falar nada, porque eu precisava curtir o momento. Coloquei a mão no interruptor e apaguei a luz, deixando um fraco abajour aceso. Porque eu não queria, realmente, que ninguém nos incomodasse naquele instante.

[ SEM CHAVES ]

[ Anne ] Meus olhos fecharam sem permissão, mas eu estava mesmo cansada. Pensei em dormir, uma coisa que não fazia muito. Dong Wan já estava dormindo, me agraçando, como uma criança. Estava muito quente, mas eu não me importava em estar naqueles lençóis bagunçados. Eu dormi pensando na “coisa” que tinha acabado de fazer. Mas eu era adulta, não tinha que me justificar.

Fui acordada por um ruído chato. Abri os olhos, desejando matar alguém, quando me lembrei onde estava. E o barulho era o celular de Dong Wan. _Desculpe... – Ele disse, ajoelhado ao lado da cama. – Eu não queria te acordar. Ele me beijou a testa, e eu não agüentei. Tive que me abrir em um sorriso, foi mais forte do que eu. Eu o via meio de lado, quase de cabeça para baixo. _Bom dia. – Disse, espreguiçando-me. – Quem era? A polícia? _A produção. Dá no mesmo. – Ele riu. – Hyesung está vindo para cá... _Está? – Arregalei os olhos. – Que horas são? _Acho que quase 10h... – Ele olhou no relógio, curioso. Eu levantei assustada, pulando da cama. Sentia dores nos braços e pernas, como se tivesse lutado Ultimate Fighting. E perdido, claro. Levantei fazendo uma bagunça danada,derrubando o resto da garrafa de champanhe e o creme, tudo sobre meu vestido. Fiz um grande barulho. _Ok... preciso ir embora. Eles não... bem, não quero ser vista. _Você não precisa se preocupar com Hyesung... – Dong Wan sorriu novamente. – Mas tudo bem... vista-se, nos vemos depois. _Não posso... meu vestido está uma meleca! – Mostrei a ele o que eu tinha feito. Ele pegou uma blusa de malha que tinha usado antes e colocou nos meus ombros. Eu vesti a blusa, que quase me parecia um vestido. _Use... são apenas alguns andares. Eu sorri para ele, abri a porta e pensei em desaparecer. Se alguém me visse... eu não queria causar problemas para ele. Eu me sentia fazendo algo errado. Andei pelos corredores descalça e vestindo somente uma camisa masculina. Normalmente, a vestimenta de uma mulher que acabara de dormir com o namorado. Mas eu estava no meio de um hotel chique em Tokio, entando escapar. Tudo seria perfeito se eu não chegasse no quarto e me desse conta que... eu havia esquecido as chaves. Claro que as chaves estavam no mesmo lugar que meu vestido, perdidas em algum lugar no quarto de Dong Wan. E no meio de toda aquela nojeira. Eu parei na porta e pensei que teria que acordar Elizabeth. Bati na porta uma vez. Ninguém atendeu... bati mais uma vez. Nada. Quase coloquei a porta abaixo, e ninguém respondeu. “Onde raios se meteu Elizabeth??” pensei nervosa, indo até o quarto das meninas, ao lado. Mais uma vez, acordei todo o hotel e ninguém me atendeu. Claro, deveriam já estar no café. E eu feito uma tonta no meio do hotel. Só tinha uma chance: voltar e pegar minha chave com Dong Wan. Só que, pela hora, Hyesung já estava lá. Voltei seis andares acima, correndo pelas escadas. Comecei a suar, e aquilo era péssimo. Olhei ao redor, ninguém no corredor. Corri para a porta do quarto de Dong Wan quando ouvi o “plim” do elevador. A voz de Hyesung ecoou. Eu sempre era calma, mas naquele momento me enchi de desespero. Ele estava conversando com alguém, e deveria ser da produção! Naquela situação eu não poderia ser pega. Eu não queria, mesmo, causar problemas. Eles não me prenderiam, mas... O pânico parou minhas pernas quando percebi que se aproximavam e que não havia para onde correr. As escadas ficavam depois do elevador, ou seja, eu teria que passar por eles. Precisava me esconder... olhei para o fundo do crredor e encontrei uma janela. Corri até ela e confirmei que era uma passagem para a escadaria externa. Usei meu tamanho reduzido para passar pela janela e cair do outro lado. Sim, eu caí... foi quase uma cena de cinema. Eu desejei ser ainda menor, porque aquela janela era minúscula. Bem, eu caí na escada externa no mesmo instante em que Hyesung e o produtor pararam na frente do quarto de Dong Wan. Coloquei minha cabeça na janela para ver o que eles faziam. Os dois falavam, como se estivessem discutindo. Eu não sabia o que falavam, porque era em coreano, mas pensei que o assunto era sério. Minhas mãos ficaram

geladas. Fazia frio do lado de fora? Eu sentia frio e calor. Meu corpo suava. Bateram na porta de Dong Wan, algumas vezes até que ele atendeu.

[ Narrador ] _Alguém viu a Anne? – Elizabeth chegou ao restaurante, sorrindo. Ela sorria... e nem ligava se todos perceberiam. _Ela não deveria estar com você? – Clara espantou-se. _Não... ela deveria estar com os coreanos. – Elizabeth riu. – Mas é que... ela não dormiu no quarto. _Como não? – Mônica arregalou os olhos, tentando demonstrar espanto. _A cama está intacta... eu não a vi... _Ah, ainda deve estar com os coreanos. – Clara sorriu. _E então, divertiram-se? – Elizabeth sentou-se, faminta. _Não fiz nada demais. – Mônica mentiu. _Nem eu. – Clara mentiu descaradamente. O Il Divo chegou ao restaurante barulhento. Urs fora chamar Carlos, que estava sempre atrasado. Os quarto iriam para uma mesa em separado, como de costume. Mas Urs chegou-se para Clara, não se importando com a presença das demais, e, sorrindo, beijou-lhe os lábios suavemente. _Bom dia. – Ele disse, olhar malicioso. Ela corou, mas não conseguiu não sorrir. _Se eu não visse, não acreditaria. – Mônica, queixo caído. _Clara!! – Elizabeth bateu no ombro da amiga. – Assim, dessa forma? Na frente de todo mundo?? _É, acho que sim... – Clara corou, achando divertido. _Bem… isso está começando a me deixar enjoada, de tanto açúcar! – Mônica protestou, comendo panquecas. _Ah! E por acaso sua história com David não anda não? – Clara questionou. – Não vai me dizer que também não tem um mel escorrendo? _Não tem não. – Mônica mentiu, novamente. – Elizabeth, fale-nos do Shasha. _Sasha, Mô! – Lise caiu na risada. – O que tem para falar? Ele é lindo... canta divinamente... _E vocês estão juntos. _Ah... estamos. Isso te faz feliz? – Lise deu de ombros. _Isso está me parecendo novela Mexicana! Todo mundo briga, todo mundo casa... está faltando o vilão. _Quem casa? – Clara, distraída. _Acorda, Clara. Vamos procurar a Anne? – Mônica se levantou.

[ Elizabeth ] Encontrei-me com Sasha no saguão, depois de comer com as meninas. Elas resolveram procurar Anne, mas eu tinha certeza que Anne estava bem... ela tinha os seus coreanos. Se ela podia ficar atrás de seis, eu podia ficar com ao menos um. Ele estava ainda mais lindo do que na noite anterior, e eu pensei que seria impossível. _Você está linda. – Ele sorriu. _Ah... não estou. – Eu corei. _Vamos sair daqui? – Sasha mostrou-lhe chaves de carro. – Aluguei um carro. E comprei uns mapas. Há lugares lindos para visitar-mos... o que acha? _Ahm? – Não entendi nada. – Como assim, sair daqui? Carro? Mapas?

_Estive pensando se não poderíamos ir passear... eu sei que... – ele parou a frase no meio, olhou para o chão. – Só para descontrair. _Sim! – Eu me empolguei. – Sim, vamos... vou só pegar algumas coisas. Intentei sair, mas ele me segurou pela mão. Olhei para ele sem entender. _Eu poderia te beijar agora? – Ele perguntou. Que pergunta era aquela?? _Como assim? – Joguei o verde. _Eu queria saber se você se importaria se eu te beijasse. Agora, aqui, nesse momento. _Eu... não, eu não… ah, que pergunta sem sentido! Realmente, a pergunta dele era nonsense! Mas ele realmente quis dizer aquilo. Puxou-me para si e beijou-me suavemente nos lábios. Impulsivamente, como quando um casal vai se separar por alguns instantes. Só não entendi que casal éramos. Ou se éramos um casal. [ Narrador ]

Enquanto caminhava pelo hotel, Sébastien viu Elizabeth caminhando para o saguão. Foi atrás dela pensando em falar-lhe, mas surpreendeu-se ao deparar-se com Sasha Schimitz indo em sua direção. Aquele alemão de novo a importunar Elizabeth, pensou. Sébastien chegou a movimentar-se para ir até Elizabeth e resgatá-la daquele imbecil, porém seu sangue congelou quando ele a segurou pela mão e... O beijo que Sébastien presenciou não foi o primeiro, mas ele não sabia. Ele ignorava que os dois passaram a noite juntos, beijando-se sob o luar de Tokio. Ele ignorava que Elizabeth só voltou para seu quarto quando o sol já quase se preparava para nascer. E que ela passara todo esse tempo nos braços do alemão que ele tanto passara a repudiar. Sébastien Izambard não era um bom perdedor. Principalmente se o assunto fosse mulher. Elizabeth o rejeitara. Ela rejeitara seu beijo e então não rejeitava também o beijo daquele outro homem? Ao contrário, ela parecia gostar! O sangue congelado em suas veias repentinamente esquentou a ponto de ferver. Fever como se estivesse em fogo. Em brasa. Sébastien sentiu-se intentado a cometer homicídio. Aquele alemão pagaria caro pore star se intrometendo em seus assuntos. _Seb! O que há? – Carlos apareceu. O amigo estava visivelmente transtornado. _Nada... diga-me, quando vamos embora mesmo? _Amanhã... por que? _Nada. É que eu preciso resolver umas coisas antes.

[ Narrador ] Dong Wan pensava em como torturar Hyesung por ter lhe atrapalhado. Tomou um banho, tentando arrancar aquele cheiro de mulher que estava impregnado em si. Mas queria que Hyesung sentisse dor... muita dor. Um barulho o fez sair de seus sonhos. *_Dong Wan, sou eu. Abra. A voz irritante do Hyesung parecia nervosa. Dong Wan cobriu-se com uma toalha e foi ver o que era. O quarto estava escuro e mal cheiroso.

*_Houve uma guerra por aqui? – O produtor perguntou. Caminhou até a janela e abriu as cortinas. O celular tocou, ele parou para atender. Tempo o suficiente para Dong Wan chutar as roupas de Anne para baixo da cama... e Hyesung ver. *_Mas o que... *_Shhhhhhhh... *_Vamos, temos entrevistas. – O produtor disse, desligando o telefone. *_Que entrevista? Agora? – Dong Wan estava bastante cansado para se colocar na frente das câmeras. Aquela vida ainda o mataria, ele pensava. O produtor deu uma risada, diabólica. Saiu do quarto, deixando os dois amigos. Não sem antes dar uma advertência. *_Aguardo os dois no saguão em dez minutos. Dong Wan foi atrás de algo para se vestir, enquanto Hyesung tentou, sorrateiramente, espiar o que ele havia colocado para baixo da cama. *_Não seja curiso, Jung Pil-Kyo. *_Você tem olhos nas costas! – Hyesung riu. – O que afinal você chutou para cá? *_Nada. *_Nada... e desde quando nada tem cara de vestido de mulher? Dong Wan apareceu de trás da porta do armário, terminando de ajeitar seus jeans. *_Jung Pil-Kyo, você não viu nada nem sabe de nada. Vamos, estamos atrasados.

[ Narrador ] _Onde você vai? – David encontrou com Mônica pelos corredores. Ela parecia ter pressa. _Não sei. – Ela disse, parando. Não olhou para ele. _Quer vir comigo? Não temos nada para fazer até depois do almoço... David segurou a mão de Mônica, puxando-a para si. Seu cérebro se negava a ir com ele, ao mesmo tempo em que seu corpo se entregava. _Não sei. – Ela insistiu. _Você achou interessante hoje, sua amiga e meu amigo? Na hora do café... ele simplesmente chegou e a beijou. Mônica levantou as sobrancelhas e olhou para David. Ele tinha uma cara simpática. Ela não gostava daquela simpatia toda, a deixava vulnerável. _Sim... parece que estão juntos. Clara não conta nada, e não acredito que Urs seja diferente. Mas levando-se em consideração que ela nem dormiu no quarto ontem... _Nem você. – David riu. Mônica sentiu-se corar; sentiu sua pele arder em chamas. _Mas eu... eu não fiz nada. _Fizemos sim. – David puxou-a para mais perto. – Fizemos... talvez não tudo que pudesse ser feito. _Não fiz nada. – Ela relutou. _Algo para você significaria somente sexo? _Ah! Não sei por que estou tendo essa conversa com você! – Mônica tentou esquivar-se. David começou a rir do embaraço dela. _Parece que só você vê problemas em estarmos juntos. Elizabeth não parece constrangida em estar com o alemão, assim como a sua amiga Anne nem aparece mais. E Clara... bem, hoje tivemos a prova de que ela também não liga. É um problema para você? _Desde quando estamos juntos? – Mônica voltou a pergunta. _Para mim, desde que nos beijamos pela primeira vez.

_Ah! E você pretendia me contar isso? _Eu achei que você soubesse... afinal, você participou do beijo também, certo? Mônica não estava com humor para piadas, tentou esquivar-se. Mas David a segurou com os braços fortes e fez com que ela ficasse ali, envolvida naquele abraço. Tomado de um arrobo, como em todas as outras vezes, ele levou seus lábios até os dela e os beijou, suavemente. Prendeu os lábios dela com os seus, brincou com eles lentamente. Aos poucos, pode deixá-la livre. Porque ela não sairia mais dali.

[ Anne ] Quando Hyesung entrou no quarto de Dong Wan com o produtor, pensei que estava perdida. Eles ficariam ali e me impediriam de pegar a chave. Eu teria que sair de onde estava, porque estava há muitos metros do solo. Sentia minhas extremidades geladas, e estava vestindo poucas roupas. Olhei ao redor e pensei que nenhuma outra solução haveria que não voltar pela minúscula janelinha, pegar as escadas e ir atrás das minhas amigas desaparecidas. Mas havia um problema... não era possível voltar! O vidro da janela ficava em uma posição de forma que era possível sair, porém não voltar. Segurança... não, aquilo deveria ser brincadeira comigo. E uma brincadeira bastante perversa! Não havia saída. Pensei no que fazer, perdida ali. Mais uma vez eu olhei ao redor, e percebi que havia algumas varandas que davam para aquele lado. Ótimo, quardos com varandas! Era uma idéia perfeita: eu me penduraria na grade da escada e pularia para a varanda mais próxima. Porque, simplesmente, aquele quarto ali era o de Andy Lee! E Andy Lee era... Andy Lee! Eu pensava que podia contar com ele. Porém minha idéia perfeita tinha um problema só. Eu não era a mulher maravilha ou a mulher gato, e portanto não teria como me segurar se não alcançasse a varanda no salto. Seria uma queda interessante... olhei para baixo e não vi o solo. Nem o veria, se caísse. Enfrentando todos os medos que eu nem tinha, passei uma perna sobre a grade de proteção da escada e pendi meu corpo para o lado. A varanda não estava tão longe... eu poderia mesmo cair lá dentro. Eu deveria, ou aquela história jamais seria contada. Fechei os olhos para encontrar coragem onde não existia, mas pensei que faria aquilo bem melhor se mantivesse os olhos abertos. Passei a outra perna pela grade e projetei meu corpo para frente. Por sorte, a mureta da varanda era mais baixa do que a grade de proteção, então bastava que eu me jogasse. E eu me joguei, caindo como um pacote de entregas, espatifada no chão. Derrubei um vaso de plantas que estava sobre a mesinha e fui parar grudada na porta de vidro. Olhei para mim mesma e me dei conta que todos os músculos estavam intactos. Sim, eu estava viva... ainda. Senti uma fisgada na perna quando me levantei, mas agarrei-me na maçaneta. A porta de Andy estava fechada, porque eu estava com sorte. Passei as mãos pelos cabelos tentando encontrar uma saída, no mesmo instante em que a porta se abriu. _Anne? – Era Andy. – O que você está fazendo aqui? _Apreciando a vista? – Brinquei. Andy olhou para mim bastante duvidoso. – Ok, estou fugindo de Hyesung e sua produção... dá para perceber, certo? _Por que está fugindo? Pensei que isso fosse exclusividade nossa, fugir da produção. – Andy olhou para mim e então percebeu que meus trajes não combinavam muito com o lugar. – O que você está fazendo vestindo a camisa do Dong Wan? E... só a camisa do Dong Wan? _Não queira saber... é uma história longa que começou com um telefonema para você. Mas eu preciso de ajuda... minha chave está no quarto do Dong Wan, e Hyesung está lá com a produção... não quero ser vista.

Andy caiu na risada. Foi uma gargalhada honesta. Entramos no quarto e ele não parava de rir. Minha desgraça deveria mesmo ser divertida. _Só mesmo vocês dois para me matarem de rir depois de tanto trabalho. O que você quer? _Minha chave. Pegue para mim... _Não. Olhei para Andy, incrédula. Ele não me ajudaria. _Mas... _Sem mas. Você e Dong Wan se meteram nessa... resolvam. Eu estou morrendo de pressa, aliás estou atrasado. E nossa conversa rendeu mais minutos de atraso. E daí se Hyesung te ver? Ele já viu coisa pior entre vocês... _Eu não quero causar problemas. _A resposta ainda é não. Andy ria muito, enquanto terminava de se vestir. _Você é perverso. – Eu estava assombrada. _Eu não sou... preciso mesmo ir. _E eu faço o que? _Fique aqui... não me importo. E use a cabeça... a pessoa que mais pode te ajudar está por perto. Para isso temos celulares. Andy deixou o quarto, comigo totalmente boquiaberta do lado de dentro.

[ Narrador ] Elizabeth sentia-se nas nuvens com tudo que vinha lhe acontecendo. Enquanto Sasha guiava o carro, conversando animadamente, ela sentiu um imenso nó na garganta imaginando que aquelas coisas boas acabariam no dia seguinte, quando teria que acompanhar o Il Divo até seja lá onde fosse. Ela não queria era pensar naquelas coisas enquanto estava tão bem. Sasha conduziu-a até um local bastante vazio, no qual ela podia ver apenas casebres coloridos e com telhados engraçados. Elizabeth estava fascinada com o lugar e toda a beleza, mas seus olhos viam somente Sasha Schimitz. _Esse é um mosteiro zen budista. – Ele apontou uma casa enorme no alto de uma ladeira. – Dizem que é lindo, lá em cima. Elizabeth aproveitou que o carro estava parado e desceu, para observar o lugar que Sasha lhe mostrara. _Já me parece lindo daqui... – Ela sorriu. _Vamos lá? Sasha ofereceu a mão para Elizabeth e os dois subiram até o mosteiro. Sasha havia programado uma tarde para os dois, bem interessante. Ele sentia vontade de beijar Elizabeth, e talvez de beijá-la por toda a tarde. Mas sentiu que ela era uma pessoa na qual valia a pena investir, e investir em um relacionamento era uma ótima coisa. [ Anne ]

Eu desejei ardentemente matar Andy Lee. Todo o meu amor por ele estava reduzido à vontade louca de socá-lo, com punhos cerrados. Não entendia por que ele se recusou a me ajudar. Era eu! Mas Andy tinha razão em algo... era para situações como aquelas que existiam celulares. Peguei o telefone de Andy, que ele havia deixado sobre o criado, e procurei na memória o nome de Dong Wan. Não foi fácil achar nada naquele amontoado de letras e palavras em coreano, mas por sorte o nome dos amigos estava romanizado. Sorte... a sorte estava realmente me sacaneando, naquela manhã. O celular era fashion, cheio de botões e cores. Apertei o “send” e aguardei. Alguns chamados até que a voz mais doce de todas atendeu minhas preces. *_Fala Andy! _Dong Wan, sou eu Anne... eu estou com o celular de Andy, você pode falar comigo? Não demonstre que sou eu... _Ah, claro... do que precisa, Andy? _A questão é a seguinte... eu estou dentro do quarto de Andy. Esqueci minhas chaves dentro do seu quarto e não pude voltar para pegar. Não tem ninguém no meu quarto nem em qualquer outro, estou perdida. Não posso descer para pegar a chave reserva. Estou suando tanto que logo, logo sua camisa deverá ser jogada fora! E sinto frio... Dong Wan, eu nunca te pediria nada, mas eu preciso de você. Falei tudo de uma vez só. _Claro Andy... eu vou resolver isso, ok? _Dong Wan... se você encontrar minhas amigas, peça para virem aqui. Ou qualquer outra coisa. Eu desliguei o telefone, pensando em como ele poderia me ajudar. Que eu soubesse, Dong Wan estaria em um canal de TV. Mas não sei por que motivo eu confiava nele. Saí do quarto de Andy e fui até o corredor, ver se os elevadores estavam limpos. Eu queria tentar novamente o meu quarto, talvez Elizabeth tivesse aparecido. Estava bisbilhotando as escadas quando ouvi um baque surdo. O “plam” era um som bem familiar... de porta batendo. Corri até o quarto de Andy novamente. A porta estava fechada. Agarrei na maçaneta, girando inutilmente. Ela não abria por fora, eu devia saber. Olhei para o celular em minhas mãos, apenas um traço de bateria. Joguei-me no chão do corredor, já cansada e desistindo de ser boazinha e certinha.

[ Narrador ] _David... – Mônica resolveu falar algo. Eram minutos, muitos minutos em total silêncio. _Fale... – David aproveitou para respirar um pouco. _Devem estar procurando pela gente... _Ninguém está nem ligando para nós. – David estava um tanto ofegante. Os dois estavam em seu quarto, desde o momento em que ele achou Mônica pelos corredores. Entrou com ela quarto adentro e não se importou se a porta estaria fechada, aberta, ou o que fosse. Luzes apagadas, ar condicionado ligado, cortinas fechadas, o mundo exterior não existia. – Acha mesmo que vão ligar? _Não sei... – Mônica se sentou, refazendo-se. Ajeitou o cabelo, sem sucesso. Estava literalmente amassada, o que era de se esperar com David Miller ao seu lado. – Talvez Clara... _A Sra. Bühler? Não creio. _Anne? – Mônica arriscou. _Mônica... – David segurou-a com as mãos, acariciando seus cabelos. – Se você quiser sair, tudo bem... vamos lá para fora. Mas suas amigas estão muito bem encaminhadas... elas não vão estar procurando por nós. E nem os meus amigos.

Mônica respirou fundo. A razão dizia que ela deveria desaparecer dali; sair do quarto o mais rapidamente possível. David era perigoso... devia ter um rótulo avisando. Mas ela se sentia bem, indescritivelmente bem. Pensou se não seria hora de deixar outra coisa controlar sua vida. Sim, pensou. A razão também dizia que a cama de David era a melhor opção naquela tarde sem graça.

[ Kim Dong Wan ] Anne precisava de mim, e eu naquele canal de TV japonesa. A ligação dela me deixou muito apreensivo... eu não sabia o que fazer. Pensei em ligar para qualquer um, mas ela fazia tanta questão de preservar a história que eu cheguei a entendê-la. Seria mesmo, melhor, que ninguém estampasse nos jornais que o “caso” de Dong Wan havia ficado preso para fora do quarto. E os jornais japoneses seriam cruéis. Se ela estava com o celular de Andy e no quarto de Andy, ao menos eu me sentia tranqüilo. Ela estava protegida, e poderia comer alguma coisa. Pensei em retornar a ligação e falar com ela, mas logo começou a conferência. E Hyesung que não desgrudava!

[ Anne ] Eu tinha certeza que nada poderia ficar pior do que já estava. Sem ânimo, desci até meu quarto e quase destruí a porta. Nada. Ninguém também no quarto de Clara e Mônica. No quarto dos divos eu não bateria nem se fosse minha única opção. Eu tinha duas coisas a fazer: esperar Dong Wan chegar ou descer, vestindo a camisa do homem com quem eu passara a noite, e pegar uma chave reserva. Sim, não eram boas opções. Eu devo confessar que ambas me desesperaram. Notei subitamente que minhas extremidades estavam dormentes. Olhei o relógio do celular, quase sem bateria, e vi que passavam de três horas da tarde. Álcool, noite mal dormida, nenhum alimento. Uma combinação bombástica para meu organismo desorganizado. Quis ligar para Dong Wan, mas tive medo da bateria acabar. Era um pensamento estúpido, afinal para que eu estava salvando a bateria? Pressionei o send novamente, mas o telefone chamou até cair. A opção então era esperar. Senti-me tonta, e eu sabia o que era. Voltei seis andares acima, arrastando-me daquela vez. Sentei-me na porta da escadaria de incêndio e rezei sinceramente para que ninguém decidisse passear por ali naquela tarde.

[ Clara ] _Elizabeth!!! – Encontrei a minha amiga desaparecida n. 02 no saguão. Ela estava com uma cara ótima... aquilo era interessante. – Onde você andou o dia todo? _Ué... não creio que você procurou por mim! Mr. Bühler não está dando conta de te manter ocupada?? – Elizabeth brincou. Ela estava extremamente bem humorada. _Ah bom! Eu procurei todas vocês, não sei onde está ninguém! Nem Anne e nem Mônica! _Bem, você procurou Mô no quarto do David? _Ahm? – Eu arregalei os olhos. _Ah, deixa para lá... estou com fome, vamos jantar? Passei o dia fora, poderíamos fazer algo juntas. _Concordo... eu também passei o dia...

Eu falaria, se não tomasse cuidado. Como eu falava besteira... já ia revelando todos os meus segredos. Que nem eram segredos, eram quase tudo que todos já sabiam. Bleh. _Ah, passou o dia... com Mr. Bühler, eu sei. Afinal, dia de folga é dia de aproveitar. Vamos achar as outras duas? _Sim!! Anne deve estar chegando... acabo de ver o King chegar. Era legal brincar com o nome do coreano de Anne. Ele chegou com o outro, que eu não sabia o nome mas que cantava muito bem, e os dois pareciam apressados. Esperamos mas Anne não entrou no hotel. Eu fui abusada e me dirigi a eles, afinal eu queria noticias da minha amiga. _Er... – Eu me aproximei, sem saber como chamá-los. Eu lá sabia pronunciar aqueles nomes? – A Anne não veio com vocês? Os dois se olharam. _Não. – O King dela falou. – Ela deveria... ela não está com vocês? _Não... não vejo a Anne desde ontem. – Eu me dei conta. _Ela não dormiu no quarto... – Elizabeth lembrou-se. _Bem... ela deve estar com Andy Lee. – O King se deu conta de que ela tinha outro coreano em sua vida. Mas ele parecia ansioso... mal despediu-se da gente e desapareceu. Eu olhei para Elizabeth e achamos mais produtivo tentar o quarto de David do que ir atrás de Andy Lee.

[ Narrador ] Dong Wan subiu nervoso. Hyesung certamente percebeu que ele estava estressado com algo, mas ignorou. Ele pegou o celular e tentou ligar algumas vezes, sem sucesso. _O que precisa? – Hyesung interferiu. _Queria falar com... Andy. – Dong Wan mentiu. Mas ele realmente ligava para o celular de Andy, que não atendia. _Ele já deve estar no quarto dele... já acabou o editorial. – Hyesung olhou no relógio e percebeu as horas. Passava de oito da noite. _Ah, é mesmo. Dong Wan entrou esbaforido em seu quarto, chutando o pé da cama, sem acender a luz, e discou o número do quarto de Andy. O telefone tocou várias vezes até que o amigo atendeu. _Andy Lee, cadê a Anne? – Dong Wan perguntou. _Uai… ela não está com você? – Andy coçou a cabeça. _Não! – Dong Wan ficou nervoso. – Pára de brincar, Andy... ela me ligou do seu celular, e disse que estava no seu quarto! _Dongwannie, quando cheguei aqui não tinha ninguém... pensei que você a tinha ajudado. _Eu estava no KBS Japão!! Vou aí. Ele desligou o telefone e correu até o quarto de Andy. O amigo estava na porta, esperando. _Onde ela está? – Dong Wan estava estressado. _Eu não sei! Viu com as amigas? _Elas não sabem dela!! Andy, ela estava no seu quarto, como você não fez nada? _Eu? Você meteu a menina nessa confusão... eu a deixei ficar aqui eu não sei...

Enquanto os dois discutiam, ouviram um ruído. Olharam para a porta vermelha de incêndio, ao mesmo tempo. Dong Wan arriscou abri-la, para deparar-se com Anne sentada, cabeça entre os joelhos, murmurando alguma coisa. Ela ainda vestia a camiseta que ele lhe emprestara no início do dia. _ANNE! – Ele se ajoelhou ao lado dela, fazendo com que levantasse sua cabeça. Lábios ressecados e olhos vermelhos o encararam. _Ainda bem... – Ela respirou aliviada ao ver o homem em sua frente. Sem cerimônias, abraçou-o como quem abraça o salvador. _O que houve? Por que ficou aqui? _Eu... – ela mal conseguia falar. Dong Wan segurou-a em seus braços e levantou-se com ela, indo até seu quarto. Andy seguiu os dois, curioso. – a porta bateu. A bateria acabou. Eu esperei você. Dong Wan deitou Anne em sua cama, abrindo as cortinas, acendendo a luz e acariciando seus cabelos. Ela se sentia péssima, muito mal. Ficar sem comer e beber água lhe causou uma crise de hipoglicemia; ela ficou lenta. Seus olhos mal abriam. Ele a observou por alguns instantes, consternado. _Vou te levar para seu quarto. _Não. – Ela estava chorosa. – Eu não quero... não quero ver ninguém. _Mas Anne, você... – Andy tentou ponderar. _Não. – Ela insistiu. _Então vou descer e pegar algo para você vestir. Dong Wan foi até o quarto ao lado, socou a porta e arrastou Minwoo de lá. O amigo não entendeu nada, e preferiu nem comentar quando viu Anne na cama, toda encolhida, parecendo doente. *_Fique com ela. – Dong Wan deu a ordem. – Andy, você vem comigo. *_Por que? *_Porque você fala inglês melhor que eu, conhece as meninas melhor que eu, e é tão culpado por ela estar assim quanto eu!

[ Elizabeth ] Eu não esperava que Clara percebesse a minha animação, mas eu acabei por não consegui conter alguns sorrisos. A história do sumiço das meninas era de se esperar... não duvidava que desaparecem. Eu havia desaparecido! Mas lá estávamos nós na porta do quarto de David, decidindo se bateríamos ou não na porta. _David. – Clara decidiu algumas batidas. Nenhuma resposta. – David! – Ela insistiu. Alguns segundos se passaram. Parecia vazio, o quarto. Não se via luz. Porém, sentia-se o ar frio do ar condicionado saindo pela porta. Ou ele deixara o ar ligado ou estava ali. _Deixe que tento. – Assumi. Bati na porta com alguma força. Clara estava delicada demais. Logo, ouvimos o ruído da tranca. Era David, cara completamente amassada. Ele entreabriu a porta e nos olhou, assustado. _Que horas são? – Foi a pergunta. _Quase nove horas... Mônica está com você? – Eu perguntei. _Er... sim, está. Pensei que tínhamos perdido a hora. _Eu acho que perderam. – Clara caiu na risada. _Cadê Urs? – Novamente, uma pergunta sem sentido. _Vamos jantar? – Devolvi com outra pergunta. _Eu estou com fome! – Ouvi a voz de Mônica ecoar de dentro do quarto. _Imagino. – Clara continuava rindo.

_Encontramos vocês no restaurante do hotel... em meia hora! [ Andy Lee ] Sentia-me exclusivamente culpado por Anne ter passado o dia jogada pelo hotel. Talvez ela tivesse se defendido melhor se não estivesse passando mal... ela estava claramente doente. Mas eu e Dong Wan fomos até o quarto das amigas e ninguém atendeu. Batemos bastante, mas nada. O jeito seria que ela ficasse mesmo com aquela roupa até conseguirmos localizar alguém. Voltamos para o quarto, e Minwoo zapeava a TV, sem muito sucesso em encontrar um canal que falasse nossa língua. Ou ao menos inglês... ele entendia melhor do que japonês. Anne continuava na mesma posição, como se sentisse dores. _Anne... venha tomar um banho. – Dong Wan sentou-se na cama, intencionando ajudá-la a se levantar. – Vamos pedir alguma coisa para você comer. _Preciso comer... – Ela disse, bastante grogue. Parecia até que tinha tomado tequila... e uma cena com odor de canela me voltou à cabeça. – Achou as meninas? _Não... eu te empresto outra camisa, você já passou o dia mesmo com essa. Vamos... Dong Wan levantou-a. Ela parecia tão fraca, senti-em bastante mal por vê-la daquela forma. _O que você tem? – Perguntei, curioso demais. _Crise hipoglicêmica. – Ela respondeu, fazendo careta. – Deixa um gosto horrível na boca e a gente fica bastante tonto... _Vocês dois, saiam. – Dong Wan fez um gesto para que fôssemos embora. Eu e Minwoo. – Vou ajudá-la a tomar um banho e a comer alguma coisa. _Pode deixar. – Ela se colocou de pé. – Eu consigo fazer isso sozinha... Anne caminhou para o banheiro, deixando a porta entre aberta. Ela era esperta, mesmo daquela forma. Dong Wan parecia mesmo consternado; sentou-se esfregando as mãos. _O que houve, afinal? – Minwoo teve que perguntar. – Por que ela está assim... vocês assim... o que está havendo? _Não parece óbvio? – Eu tive que rir. – Dong Wan deixou a menina trancada para fora do quarto. _Eu não fiz isso! – Ele se alterou. – Eu... nós... ah, deu para ver... passamos a noite juntos. Ela acabou ficando sem a chave para voltar a seu quarto, e todo mundo ficou fora. Foi isso. Mas Andy... deixe isso. Ainda bem que ele resolveu deixar aquilo. Minwoo seria apenas mais um para me reprovar. _Vocês... – Ele riu. – Bem, melhor pedir algo para ela... comida americana? _Com pouca gordura e nenhum açúcar! – Dong Wan e seus hábitos saudáveis. – Talvez uma salada, água... ela precisa comer coisas leves. [ Narrador ] Clara encontrou Urs no restaurante. Ele sorria, e sorriu ainda mais ao vê-la. Beijou-a nos lábios, segurando-a pela cintura. Clara arqueou o corpo para trás. Elizabeth olhou aquilo, espantada. _Está evouindo, hem? – Ela disse, em português. _Cale-se! – Clara implicou.

Os três sentaram-se em uma mesa, e começaram a conversar enquanto esperavam os amigos atrasados. Naquele mesmo instante, Sébastien perambulava pelo hotel em busca de seu alvo: Sasha Schimitz. Ele já tinha a tática perfeita para seu plano... e o executaria sem piedade. Encontrou o Alemão nos corredores, indo ao encontro de Elizabeth. Sorrindo, abordou sua vítima. _Sasha... certo? – Ele perguntou, cínico. _Sim... você é do Il Divo. – Sasha sorriu. _É! Estou procurando a Elizabeth... você a viu? Sasha franziu a sobrancelha, imaginando por que Sébastien procurava por ela. _Sim... à tarde. Agora não, mas combinamos de nos encontrar no restaurante. _Sério? Que estranho... – Sébastien coçou a cabeça. – Ela disse que se encontraria comigo! _Com você? Agora? _Sim... você sabe... toda fã tem seu divo preferido... acho que vou me aproveitar disso, Elizabeth é uma pessoa ótima. Sasha estava curioso, sem entender direito o que Sébastien falava. _Bem... vamos ao restaurante, ela deve... _Não, eu vou me arrumar... você poderia dizer a ela que nos encontraremos no lugar combinado, onze horas? Sébastien deixou Sasha com muitas interrogações, comemorando a vitória antecipadamente. Foi para seu quarto, certo de que havia lançado uma semente de discórdia. [ Mônica ] _David, estamos atrasados... cinco minutos. – Eu estava rodando, mão na maçaneta, esperando David terminar de se arrumar. Ele era vaidoso... _As suas amigas não vão fugir! – Ele disse, do banheiro. – E precisávamos de um banho... afinal... _Não deixe essas reticências, como se algo tivesse acontecido. – Protestei. _E algo não aconteceu? – David apareceu, totalmente vestido. – Eu às vezes penso que não estamos vivenciando os mesmos momentos juntos... _Claro que estamos. – Senti minhas bochechas arderem. – Mas você falando assim parece que foi mais do que foi. _Para mim foi suficiente. – David sorriu, me beijando suavemente nos lábios. – Ainda vou me acostumar com isso... vamos, estou pronto. Fomos até o restaurante, e ele fez questão de segurar minha mão. Parecíamos um casal de namorados, e aquilo era tão esquisito quanto tudo que estava acontecendo comigo. Conosco. Urs, Clara e Elizabeth já estavam ali... mas Anne não. Para variar. _Ok, mais um jantar sem Anne? – Eu resmunguei. _Deveríamos procurá-la. – Clara considerou. – Não sei por que, estou preocupada com ela. _É. – Elizabeth ponderou. – Vamos? Os rapazes pedem por nós... Se Sasha aparecer, diga a ele que fui buscar a amiga desgarrada. Saímos as três atrás de Anne. Ela só poderia estar em um lugar... com os coreanos. Era só sair batendo nas portas.

[ Narrador ]

Dong Wan acomodou Anne novamente na cama. Ele estava o mais cauteloso possível com ela... não sabia exatamente por que, mas estava. Cobriu-a com um lençol fino, e ficou olhando até que ela se ajeitasse completamente. _Está melhor? – Ele perguntou. _Sim... sinto-me melhor. – Ela tentou sorrir. Mentiria, se fosse para que ele se sentisse bem. _Vamos pedir algo para você comer, mas ficamos sem saber o que. – Andy interferiu. Enquanto Anne pensava o que comeria, visto que estava prestes a devorar toda uma plantação como um gafanhoto desesperado, Lise, Clara e Mônica chegavam naquele instante ao corredor do Shinhwa. Foram direto ao quarto de Andy, bateram na porta e ninguém respondeu. Voltaram pensando se bateriam em todas as portas, até que ouviram a conversa vindo de um dos quartos. Resolveram arriscar aquele, afinal não tinham nada a perder. Bateram à porta e Minwoo abriu. _Oi... – Mônica não sabia o que dizer. Nem sabia quem era ele. _As amigas. – Minwoo sorriu. – Acho que tem dois caras procurando por vocês. _O que foi? – Andy surgiu. Ele elas conheciam. _Andy... estamos atrás de Anne. Quem está procurando pela gente? _Er... eu mesmo. E Dong Wan. _Por que? – Clara preocupou-se. – O que houve? _Entrem. – Andy abriu a porta. As meninas viram, imediatamente, Anne deitada no colo de Dong Wan. Ela tinha uma aparência horrível, pálida, como se fosse um fantasma. Enormes olheiras. Ele acariciava seus cabelos e conversava qualquer coisa com ela, em uma língua ininteligível que aparentemente só os dois entendiam. E ela lhe sorria. _Anne! – Clara exclamou, ao ver a amiga. – Eu... o que houve? _Estamos te procurando há tempo... – Elizabeth ponderou. _Eu estava aqui... – Ela não mentia. _Fomos até vocês procurar roupas para ela. – Andy interviu novamente. _Roupas por quê? – Mônica não se conteve. – Aliás... por que você está vestindo... o que é isso? Uma camiseta? _Sim, é dele. – Anne passou a mão pela face de Dong Wan, que lhe retribuiu com um sorriso. – Olha, sem questionamentos por favor... estou tão péssima. _O que houve? – Clara insistiu. _Anne... – Dong Wan aproximou os lábios de seus ouvidos. – Conte a elas. Anne franziu os lábios e decidiu contar. Explicou às amigas toda a sua saga... desde o momento em que decidiu conferir o telefonema misterioso até aquele instante. Clara ficou boquiaberta, Elizabeth arregalou os olhos, Mônica caiu na risada. _Ah, mas só você mesmo! – Mônica ria. – Isso só aconteceria com Anne... e mais ninguém. _Sente-se melhor agora? – Lise perguntou, em português. _Sim, eu acho... _Você não presta. – Clara ironizou. – Bem, viemos te convidar para jantar... mas acho que você não vai. – Ela riu. _Eu vou. – Anne ameaçou levantar-se, sendo amparada por Dong Wan. – Eu quero jantar com vocês... estou morrendo de fome, preciso comer. _Então vamos! Vou pegar roupas para você, espere.

Elizabeth desceu para o quarto, a fim de pegar roupas para que Anne se vestisse e fossem jantar. Dong Wan pareceu preocupado, não sabia se gostaria que ela fosse até o restaurante, fraca como estava. Mas não era sua função impedi-la, se ela quisesse ir. Depois que Lise voltou, Anne foi até o banheiro e vestiu seus jeans favoritos. _Venha com a gente. – Ela disse para Dong Wan, sorrindo. – Venham todos... será divertido. _Mas... _Você achou mesmo que eu iria te excluir? – Ela caminhou até ele e o beijou suavemente na face.

[ Anne ] Eu nunca me senti pior, e ao mesmo tempo nunca me senti tão bem. Meus músculos tremiam em espasmos irregulares, mas eu estava amparada pelos braços fortes de Dong Wan. Ele desceu comigo, segurando-me, fazendo-me encostar-se nele. Todos conversavam, e em volume alto. Eu sentia dores de cabeça, dores pelo corpo; sentia-me lixo. Mas perto dele nada fazia real diferença. Percebi um sorriso estranho em Elizabeth. E Mônica parecia bem humorada. Aquilo era interessante. Quando chegamos ao restaurante, Urs recebeu Clara com um beijo. O que estava acontecendo?? Romance?? Eu nem podia acreditar... romance naquela viagem era tudo que eu menos esperaria acontecer. Sentamos todos em uma mesa enorme. Eu nem sentei, joguei-me na cadeira. Insistia em repousar minha cabeça, que pesava toneladas, na mais macia das peles que eu já sentira. Tentando não deixar que percebessem que eu preferia que o mundo acabasse naquele instante, sorri bastante e fiquei observando o movimento. _Onde está Sasha? – Eu dei pela falta do alemão. Claro, Elizabeth devia estar com ele... _Ah, não sei. – Ela até parecia desapontada. – Eu combinei de me encontrar com ele... _Seb também não apareceu. – David notou. Lise sentiu um pressentimento estranho. Justo os dois desaparecidos? A comida chegou, depois de três séculos de espera. Eu senti um mal estar súbito quando coloquei o primeiro garfo na boca, mas logo passou. A única pessoa que parecia perceber como eu estava era mesmo Dong Wan. Havia uma conexão. Mas eu tentei deixá-lo notar que eu, apesar de péssima, estava disposta a melhorar logo. [ Elizabeth ] Depois do jantar, eu desliguei-me completamente. Foi ruim estar ali sem o Sasha... ele havia combinado de se encontrar comigo. Mas nada... fiquei pensando se tinha feito algo errado. Ou se aquela coisa que costumavam dizer dos homens seria, fatalmente, verdade. Joguei-me no sofá do hall, na expectativa que ele passasse por ali. Era complicado... pensei em ir atrás dele, mas não iria. Eu já havia cedido demais. Um flashback veio à minha cabeça instantaneamente, enquanto eu considerava o motivo dele ter desaparecido. Descíamos do mosteiro, e paramos em um lugar plano, cheio de árvores, cheirando a orvalho. Não parecia Tokio; aquela cidade cinza e cheia de barulho não podia se transformar radicalmente em algo tão perfeito. Era como cena de filmes, e eu podia arriscar que nem em filmes eu vi um lugar tão lindo. Sasha parou o carro, e descemos. O ar estava fresco. Ele tinha um monte de bugigangas no porta malas, e eu entendi que ele queria ficar algum tempo por ali. Parecia um lugar tão deserto... como podia ter lugar deserto naquela cidade?

“O que você acha?” Ele me perguntou. Eu lá tinha resposta para aquilo? Certamente que não... tudo com Sasha ficava mais perfeito. Eu não achava... eu tinha certeza que ele exercia um poder sobre mim. Sasha cobriu a relva com um pedaço de tecido que eu não identifiquei bem. Já estávamos bem dentro do bosque, e podíamos visualizar um penhasco. Uma vista linda. Tokio parecia distante, muito distante. Lá no final. “Alguém nos vê aqui?” Eu fiquei curiosa. “Quero dizer, alguém vem aqui?” “Ah, eu acho que não... é bem deserto, não acha?” Sim, era bem deserto. Sasha tinha razão. Mas deitada ali com ele, vendo o céu exatamente sobre nossas cabeças, sentindo um cheiro agradável de manhã... era como se ainda fosse manhã! Tudo se misturava com seu perfume, tudo se misturava com seus olhos que me olhavam de uma forma que eu nem sabia se queria identificar. “Você sabe que... esquece. Eu não preciso comentar isso.” “Diga-me”. “Quando você continuar sua viagem... eu sentirei sua falta.” Talvez aquelas tenham sido as palavras mais lindas que alguém já me disse. As palavras mais simples, e as que tiveram, realmente significado. Ele sentiria minha falta... e eu sentiria a dele, mas não consegui dizer. Lembro-me que somente sorri. E olhei para ele, como se fosse uma boba. Eu parecia boba. Sasha envolveu-me em seus braços. Eu não me lembrava direito como aconteceu, e tive raiva da minha memória. Ela se recusava a passar imagens do momento em que ele tocou meus lábios com os seus. Do momento em que ele me segurou e puxou-me para si; do momento em que suas mãos tocaram minhas costas e pressionaram meu corpo contra o seu. Eu não me lembrava direito, mas aconteceu. Peguei-me involuntariamente com aquele sorriso estúpido de novo. Ah, eu realmente estava parecendo uma boba. Minhas amigas que não soubessem de como eu andava perdida. Anne era aquela mesma... sempre igual. Sempre se esperava algo inusitado de Anne. Vindo dela, não era inusitado. Mas de mim esperavam sobriedade. O problema é que Sasha era como álcool. E embriagava.

[ Narrador ] _Anne, preciso lhe falar. – Dong Wan segurou as mãos de Anne, quando ela se arrastava para o quarto. O jantar foi bastante divertido, com todos bem animados e conversando sobre tudo. Parecia que eram amigos. Anne sentiu-se enjoada e acabou por prefeir subir. Dong Wan foi atrás dela para garantir que ficaria bem, mas segurou-a quando ela tentou descer em seu andar. Anne voltou, e o elevador fechou a porta, subindo. _O que foi? – Ele tinha os olhos profundos. _Eu... devia ter te contado uma coisa ontem. _Uma coisa? – Anne sentiu um calafrio. Que coisa Dong Wan poderia ter que contar a ela? E ontem? O elevador chegou ao andar do Shinhwa. Os dois desceram, estavam sozinhos mesmos. A porta do elevador se fechou por trás deles, e Dong Wan, sem tirar os olhos de Anne, abriu seu quarto. _Amanhã estou partindo. – Ele disse, respirando fundo. Anne sentiu dor. Sim, ela esperava por aquilo. Mas não tão rapidamente. _É... uma hora seria assim. _Sinto muito se... eu deveria ter te dado a chance de... _Você acha que se eu soubesse que você partiria amanhã, algo teria sido diferente? Eu não teria subido, não teria passado a noite aqui?

_Você teria a chance de escolher... _Eu teria escolhido você. – Ela disse, sorrindo. – Mesmo que fosse a última vez que pudesse vê-lo, eu preferia ter essa memória. Dong Wan segurou Anne em seus braços, beijando-a. Ela estava tão fraca, tão rendida, tão fora de si que escorreu por entre seus braços, como se fosse feita de líquido. Dong Wan deitou-se na cama com ela e, acariciando seus cabelos, olhou diretamente para seus olhos. _Fique, então. – Ele disse, e seus olhos falavam por ele. _Você quer... que eu durma aqui de novo? _Sim, eu quero. E que todos se danem. – Ele riu. – Não tem problema, não tem nada que esconder... simplesmente fique. _Eu não posso negar isso. – Ela sorriu, retribuindo-lhe o beijo. – Mas amanhã... quando você parte? _Provavelmente, acordará e não me encontrará aqui.