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O Garoto Selvagem, François Truffaut L'enfant sauvage (O Garoto Selvagem) é um longa dramático de 1970, dirigido e protagonizado esplendidamente por

François Truffaut, baseado em anotações autênticas de Jean Itard (17741838), psiquiatra francês que se torna responsável pela educação de Victor de Aveyron (cerca de 1788-1828), capturado no sul da França em 1798. Com trilha sonora de Vivaldi, o filme trata da adaptação restrita de um ser desprovido de contato humano até a pré-adolescência. Seus modos são rústicos, poderia ser comparado a um cão que matara por tentá-lo apanhar. Bebe água esbaforidamente, com a cabeça mergulhada. Abocanha um peixe como faria um urso, e se locomove curvado, feito alguma espécie extinta de hominídeo, sempre a espreita. No topo de uma árvore, a qual chegou com a agilidade de um mico, fazendo estardalhaço pelas folhas em seu sacolejar frenético, inquieto se camufla à gigantesca floresta. Preso em um celeiro, se debate desajeitado em sua camisola. A população local se amontoa quando caminha quadrúpede. Os jornais anunciam: “Após tentativa de fuga, o menino está detido na esquadra de Rodez. A curiosidade é grande na capital e o Ministro do Interior autorizou sua transferência para Paris. Nu e aparentemente surdo-mudo, tem traços surpreendentes. Usa os sentidos na ordem inversa: o olfato parece ser o mais aguçado, depois o paladar, a visão e o tato. Se Deus quiser, irá contar-nos em breve o seu estranho passado”. Desconcertado com uma notícia que recortara, o elegante Dr. Itard decide, no conforto de sua redoma, examiná-lo para maiores averiguações. O garoto é encaminhado para a Instituição dos Surdos Mudos, rodeado por tietes enlouquecidos, de visual mais requintado. Após categorizá-lo: 11 ou 12 anos, 1.39m, rosto oval, pestanas longas, cabelos castanhos, queijo arredondado, boca média, língua e dentição normais, não constataram nada invulgar. Confundia-se com os reflexos no espelho. Embora o aldeão que dele se ocupou na aldeia afirmasse tê-lo visto voltar-se quando se partia uma noz nas suas costas, não reagiu a um barulho forte, logo o professor Pinel o julgou surdo. Perceberam também várias cicatrizes de batalhas com animais, exceto uma provavelmente advinda de instrumento afiado. Pinel o considerava inferior, anormal, enquanto Jean acreditava que sua debilidade e mudez eram advindas do isolamento. Teve apenas o infortúnio de passar anos na floresta, completamente só. Teria sido degolado quando fora abandonado? Por ser ilegítimo ou idiota? Perguntavam-se enquanto ele se alegrava debaixo da chuva noturna. Decidiram então retirá-lo da instituição. Minha governanta olhará por ele. Na creche, fora maltratado pelas outras crianças, explorado pelos guardas, exibido como uma aberração (os parisienses fazem excursões ao colégio para vê-lo, daí a repulsa de Victor a visitas) tornava estridente a sua diferença radical. É perigoso? Come carne? Não, e nada que seja doce. Apesar disso, ninguém o viu chorar. Itard considerava preciso domar sua força para aflorar a sensibilidade. Possuindo a guarda da criança, na difícil tarefa de conceder a ela dignidade, sucedeu-se uma sequencia de primeiras vezes: podaram suas enormes garras*, cortaram seus cabelos, corrigiram sua postura e maneira de andar, enquanto ele ainda batia os dentes e apertava os olhinhos cerrados, assustado. O homem não pode aceitar outro ser de sua espécie na condição de animal. Deve ser domesticado. Diariamente aprendia tarefas rotineiras importantes para se tornar agradável, apresentável, e evitar transtornos. Higiene e etiqueta básica, como colocar os talheres na mesa e não errar ao leva-los à boca. Acostumou-se com as roupas por sua necessidade de se proteger do frio. Adaptou-se aos sapatos. Passou a dormir coberto, e não enfiado embaixo da cama. Mas nada o alegrava mais do que passear no campo. O ritual diário criava nele expectativas. Corria, farejava, sentia-se em casa, seu olhar brilhava. Adquiriu um gosto por leite quase superior a sua predileção por água, que passou a beber civilizadamente em copos, quando não

Itard desenvolveu um aparato com letras de madeira para encaixe.. sentia-se feliz ao fitar o espelho e os reflexos produzidos na parede. Entre os castigos aos quais Victor era submetido: preso no armário. Nem sequer tem nome. Itard buscou despertar a audição indistinta de Victor. sentir com os dedos o local que mexia na traqueia (?). “LAIT” após receber a bebida. Quando emitiu o primeiro som articulado.Victor! ¹ Um copo de água pura e a visão do sol no campo. esperando que continuassem representativos para ele. obtendo assim o desejado. ao perceber nele uma tendência natural para a ordem. Chegou a sangrar pelo nariz de tanto cansaço e stress. deixando apenas as palavras. imitando a intensidade do tocado pelo professor. Tendo os olhos vendados. Seria prático pronunciar a palavra antes. que percebeu a inutilidade em expressar a satisfação em detrimento à capacidade de solicitar. . Victor participou brilhantemente de uma aula experimental de tambor. estabelecendo comunicação prévia e eficaz. até inventar estratégias de organização. Como é mais sensível ao som “o”. .É frequente virar-se quando falam atrás dele. . . de maneira gradativamente mais complexa. Passados três meses da estadia. onde escondia um tira-gosto (funcionava melhor) ou soldadinho de chumbo para dirigir sua atenção. mas por teimosias infantis.¹ Gostava também de ser guiado em um carrinho de mão. . O expôs a ruídos fortes.Talvez. Desenhava objetos de uso corrente em um quadro negro.Se não for surdo. . Jean foi acometido por reumatismo). Acharei uma via adequada para transpor as dificuldades enquanto cada obstáculo dominado o prepara para o seguinte. identificando a hora certa de acionar os sinos na canção. privado das premiações ou passeios menos frequentes (ainda mais quando Dr.Bravo! Bradou Madame Guérin. Criou brincadeiras para treinar sua memória: o jogo dos copos. em acessos de fúria caía no chão e se debatia.. . como que simulando uma convulsão.O que faz aí em cima? Desce e vem estudar! Itard o localizou nos ramos mais altos de uma árvore. às vezes provocava com erros propositais ou grosserias. Jean promovia atividades cognitivas no empenho de tornar o menino apto às demandas de convívio social. ou por se sentir fatigado. Não resolvia as crises com doçura. O quadro vazio em sua mente causou desespero e aflição. sem deixar de mostrá-lo a sonoridade suave com que se assopra uma vela (encantado com a luz do fogo) fazendo-o se observar em movimento.Tens razão. Era capaz de repetir simbolicamente a ordem correta das vogais. Tais prazeres foram usados como recompensas para seus progressos educacionais no método do professor Itard. O doutor sentiu-se culpado pela regressão. Percebia que acertar despontava afeição e um bom convívio. sendo imediatamente punido por isso. talvez aprenda a falar. mas com métodos perturbadores. Dr. visando embutir mais desafio aos “toscos” sistemas de comparação. Era como se esse filho da natureza tentasse unir as duas bênçãos para sobreviver à perda de liberdade. tal feito foi depreciado por Itard.Pobre menino selvagem. Há uma grande diferença entre desenhar e soletrar. Um bebê leva 18 meses a aprender algumas palavras. Em reação aos exercícios e testes excessivos. pedindo que os trouxesse. ao contemplar os bosques pela janela. Agora. . .os quebrava. como se localizasse o som. Apagou os desenhos dos objetos.

não por ordem moral. Entre os cães latindo. pois seu tutor não mais tinha condições de acompanhá-lo. Victor.. Victor se comunicava. tornou-se sujeito a críticas. escreveu a mesma que havia pronunciado. desapontado. com suas peças de madeira. discernir. posicionar ternamente as mãos de seus acolhedores em sua cabeça provando carência. pois deveria ser interiorizada na primeira infância. Infelizmente o Victor fugiu. “Recebemos a natureza por herança. sair das trevas. cobrado por seu saber. Portava trauma fonológico? Mesmo após demonstrações amáveis de inteligência e arrependimento. escondendo-se atrás de uma moita. Victor batia na tigela. Posso afirmar a Sua Ex ª que ele tinha pleno uso dos seus sentidos. e esmurrava a porta quando queria sair.Já não és um selvagem.não era mais o mesmo desde sua captura ele já não era mais o mesmo! Poderia reabituar-se a realidade que fora obrigado a abandonar? Conseguiria viver sem conforto na selva perigosa. e não queria ter causado frustração. foi bastante esperto. contrastando com sua habitual. Victor fez barulho na janela. elevara o selvagem à estatura de um ser moral pelo seu mais nobre atributo. não possuía uma noção definida do que seria propriedade. liberdade? E se vivêssemos assim. Testar seu coração com uma injustiça flagrante. Oxalá meu aluno me tivesse entendido naquele momento. Victor pulou a janela e correu livremente Bebeu água da cachoeira. Pega uma galinha e sai. pronto a renunciar à tarefa que me impusera. mas a cultura não nos pode ser dada senão pela educação. Às vezes lamento ter te conhecido. recuperaria seu instinto. desencorajado. progredia nos desenhos com giz. . bom selvagem. até inventou um suporte. Mal Itard terminou de escrever esse esboço com palavras rasuradas e grafia nervosa. Leve-o para descansar. Itard proclama: .) Se eu não soubesse de suas limitações. se jogou na relva inerte e assim adormeceu entre as folhas. condeno a curiosidade dos homens que o arrancaram de sua vida inocente e feliz. À noite. sabia comparar. sorrindo. mas antes que pudesse o menino o mordeu.O meu menino voltou pra casa sozinho.. Itard não podia afirmar ter inspirado em sua cria um sentido de justiça. deixando os “pais” orgulhosos. vi seu peito arquejar sonoramente. Obedece-me e corrige-se por medo. em sua compreensão muda e incondicional. Mal acabei de falar. A princípio. Mas a linguagem também é música. Confuso. Dr. É a tua maneira de falar. Para obter resultados menos ambíguos devo fazer algo de abominável. Boas notícias chegaram por carta pela manhã. pensaria que me entendeu.” François Truffaut .Estou a perder tempo contigo. acabando por largar seu almoço. Dir-lhe-ia que a sua dentada encheu a minha alma de alegria. A pensão que Madame Guérin recebia para cuidar do rapaz fora renovada. Dava provas constantes de atenção. Itard o observou distante. Disse sua babá. sombrio.. Amanhã retomaremos as lições. usando linguagem gestual ao pedir leite. se refugiou com a lua.. revoltado. a partir de um trabalho direcionado a associação por imagens aos fonemas do alfabeto com sua respectiva função nas palavras. entre gritos que o chamavam ladrão. O rapaz da floresta suportou a clausura dos apartamentos e todas essas mudanças ocorreram em nove meses. se por algum desvio não tivéssemos nos tornado seres tão complexos e cheios de necessidades. Agora. Corre. haveria uma linguagem elaborada? Victor não dominou a linguagem totalmente. Victor aprendeu a escrever o próprio nome. apesar de ainda não seres um homem. como repor o utensílio que havia estraçalhado ou ajudar a colher seus cacos. vigor. Acho que nunca mais veremos o Victor. Jean tentou o trancar no armário. Como poderia rejubilar sem convicção? Comprovei que o justo e o injusto já não eram estranhos a ele. O interesse que um destino tão estranho inspira recomenda a observação da criança e a proteção do governo. Ao mergulhar no universo do conhecimento. e privado das caminhadas. chorando. Ao provocar o sentimento. avaliar e aplicar os conhecimentos aos objetos usados na sua instrução. (Rousseau) Decepcionado com o mundo . castigando-o sem razão após ser bem sucedido. se aproxima de uma vila com naturalidade. Aos poucos. (. interagindo com a natureza.