Bianca Souza Nazaré

ESCÂNDALO POLÍTICO MIDIÁTICO:
Análise da cobertura do escândalo politico envolvendo o ex-ministro do governo Dilma Rousseff, Antonio Palocci, no jornal Folha de S. Paulo

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2012

Bianca Souza Nazaré

ESCÂNDALO POLÍTICO MIDIÁTICO:
Análise da cobertura do escândalo politico envolvendo o ex-ministro do governo Dilma Rousseff, Antonio Palocci, no jornal Folha de S. Paulo

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo. Orientador(a): Prof. Adélia Barroso Fernandes

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2012

Eu agradeço à minha orientadora Adélia Fernandes Barroso pela perseverança e paciência transmitidas e por ensinar, talvez não deliberadamente, a paixão por este assunto que diz respeito a todos nós: a política. Ensinar de uma maneira leve, como somente uma pessoa observadora seria capaz.

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RESUMO

O enriquecimento do então ministro Chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, Antonio Palocci, foi alvo de atenção do jornal Folha de S. Paulo, em maio de 2011. O periódico dedicou 25 dias para falar sobre a suposta irregularidade no exercício de atividades de consultoria realizadas por Palocci, enquanto ele era deputado federal, em 2006. Palocci foi demitido do cargo no dia 7 de junho do mesmo ano. Foi o primeiro ministro do governo Dilma a ser alvo de denúncias de irregularidades. Neste período, o jornalismo se mostrou como uma importante ferramenta de vigilância do poder político, uma vez que a pressão sobre o governo fez com que a credibilidade de Palocci ruísse. Uma vez frágil, o principal articulador político de Dilma não teve como conter a transferência de visibilidade ruim para o governo, afetando as negociações políticas até mesmo na base aliada. Exemplo disso foi a derrota do governo na aprovação do Código Florestal. O episódio também foi o início daquilo que a imprensa denominou de “faxina” no governo. Com o intuito de verificar a importância do jornalismo na política, o presente trabalho analisou a cobertura realizada pelo jornal Folha de S.Paulo, no que diz respeito aos critérios objetividade e imparcialidade, essenciais no exercício de uma profissão que influencia a formulação da opinião pública. Optou-se pela análise discursiva da escola francesa, guiada pelos estudos de Charaudeau (2006, 2008). A análise focou nas categorias estratégias de credibilidade, estratégias de captação, discursos circulantes e níveis de engajamento das fontes. A análise sugeriu que o jornal Folha de S.Paulo não foi objetiva na cobertura dos 25 dias. Houve, na verdade, um equilíbrio entre o uso de estratégias de credibilidade e o uso de estratégias de captação durante o período.

Palavras-chave: Jornalismo Político; Folha de S. Paulo; Antonio Palocci; Imparcialidade.

LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Matérias da Folha de S. Paulo analisadas..............................................................48

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................06 2 MÍDIA E POLÍTICA..........................................................................................................09 2.1 O surgimento da mídia.......................................................................................................09 2.2 Mudanças no significado de público e privado..................................................................13 2.2.1 Problemas na administração da imagem política............................................................14 2.3 Escândalos políticos midiáticos e a democracia.................................................................17 2.4 Enquadramento de notícias................................................................................................19 3 ANÁLISE DO DISCURSO MIDIÁTICO.........................................................................21 3.1 Informação, comunicação e discurso.................................................................................21 3.2 A construção do sentido.....................................................................................................22 3.3 O contrato de comunicação................................................................................................25 3.4 A construção do sentido na comunicação midiática..........................................................28 4 ANÁLISE DO JORNAL FOLHA DE S. PAULO.............................................................31 4.1 Antonio Palocci no cenário político brasileiro...................................................................31 4.2 História do Partido dos Trabalhadores (PT).......................................................................33 4.3 História do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB)...........................................38 4.4 Folha de S. Paulo e a tradição da cobertura política..........................................................40 4.5 O embate Folha de S. Paulo e Antonio Palocci.................................................................46 4.5.1 O contrato de comunicação entre a Folha de S. Paulo e os leitores................................49 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................................69 REFERÊNCIAS.....................................................................................................................72 ANEXOS.................................................................................................................................74 Anexo A – Jornais analisados..................................................................................................74

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1 INTRODUÇÃO

Antonio Palocci Filho foi um dos homens de maior confiança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Palocci ganhou destaque no primeiro governo Lula como ministro da Fazenda, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), sendo até mesmo cogitado como um possível sucessor do ex-presidente, graças à estabilidade e confiança financeira conquistadas por seu trabalho. No currículo de Palocci, consta seu trabalho como vereador do município de Ribeirão Preto em 1989 e 1990, deputado estadual em São Paulo em 1991 e 1992, prefeito de Ribeiro Preto de 1993 a 1996, e novamente em 2000. Também foi deputado federal em 1998 pelo estado de São Paulo, ministro da Fazenda em 2003, e ministro chefe da Casa Civil em 2011.

Disponível no portal do Ministério da Fazenda, o currículo de Palocci registra o recebimento do Prêmio Juscelino Kubitscheck pelo SEBRAE-SP, em 1996, por ter sido o prefeito que mais apoiou as micro e pequenas empresas no município de Ribeirão Preto. Em 2002 ele foi agraciado com o Prêmio Mário Covas, por decisões inovadoras, novamente em favor das micro e pequenas empresas. A UNICEF entregou a ele o Prêmio Criança e Paz, em 1995, reconhecendo o trabalho pela infância, quando prefeito de Ribeirão Preto.

Em 2006, enquanto exercia o mandato de ministro da Fazenda, Palocci foi acusado de mandar a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. O motivo seria verificar se o caseiro havia recebido dinheiro da oposição para acusá-lo de fazer lobby para empreiteiras. Lula demitiu Palocci no mesmo ano. Reerguido, Palocci retorna à política em 2010, coordenando a companha de Dilma Rousseff à Presidência da República. Eleita, Dilma conduziu o exministro da Fazenda para um dos postos mais altos do governo: a Casa Civil. Mas, sua permanência no cargo não durou muito. Em maio de 2011, Palocci foi acusado de enriquecer ilicitamente com atividades de consultoria. O jornal Folha de S. Paulo foi o veículo responsável pela denúncia. Sem condições de provar inocência, e já vítima de enfraquecimento no governo, Dilma demite Palocci em 7 de junho de 2011.

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A queda de Palocci, provocada por denúncias de irregularidades na mídia, configura naquilo que Gomes (2004) chama de jogo político. Segundo o autor, o jogo político seria possível graças à fabricação de escândalos na mídia, para afetar a credibilidade de um líder. Quando a credibilidade do líder é baixa, fica difícil para o governo fazer pressão para a aprovação, ou rejeição, de projetos no Congresso. Ou seja, os escândalos políticos, envolvendo personagens da situação, favorecem a oposição nas práticas políticas ordinárias, segundo Gomes (2004).

Esses escândalos são favorecidos pela extrema exposição de visibilidade nos veículos de comunicação de massa, que obriga os políticos a terem algum controle e preparo em suas apresentações na mídia. Essa administração da visibilidade mídiática, no entanto, não é capaz de evitar problemas de má exposição nos veículos de comunicação, como a gafe, o acesso explosivo, o desempenho de efeito contrário e o vazamento responsável pelos escândalos, segundo Thompson (1998).

Um escândalo político se torna ainda mais forte quando a sociedade é dependente culturalmente da informação da imprensa, como no caso brasileiro. Lima (2006) esclarece que os veículos de comunicação brasileiros vêm desempenhando diversos papeis, como a construção da realidade, a função de partido político e a realização de campanhas eleitorais. Neste caso, as campanhas eleitorais sofrem influência da preferência partidária da mídia. Lima (2006) afirma que a influência dos veículos de comunicação no desempenho desses papeis, citados acima, é fortalecida pela concentração dos veículos de massa nas mãos de poucas pessoas no país, inclusive de políticos. Contribuindo ainda para a influência da mídia brasileira o baixo grau de instrução da população, segundo Lima (2006).

Identificar os sentidos que a mídia dá aos noticiários de escândalo político é possível somente com a compreensão desses fatores sociais e, conforme Charaudeau (2006), fatores históricos. Esses fatores são importantes porque entram em conflito com aquilo que se convencionou chamar de “quarto poder”, para designar o papel da imprensa. Charaudeau (2006) desfaz esse suposto poder dos veículos de comunicação, afirmando que as mídias não são uma instância de poder, como os são a Justiça, o Exército e a Igreja. Charaudeau (2006) ainda coloca que, na realidade, as mídias manipulam a si mesmas e não são capazes de transmitir o que ocorre na realidade social.

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É com esse sentido que se analisam as matérias publicadas no jornal Folha de S. Paulo, na cobertura do caso do enriquecimento do ex-ministro Antonio Palocci. O objetivo deste trabalho é identificar o engajamento das fontes utilizadas nas matérias, inclusive o engajamento do jornal Folha de S. Paulo, os discursos mais utilizados nas matérias, e as estratégias de credibilidade e captação. Buscou-se verificar as consequências que a cobertura lançou na governabilidade.

Para isso, foi utilizado embasamento teórico para explicar a relação entre a mídia e a política, presente capítulo dois, Mídia e Política. A análise das matérias seguirá os estudos de análise discursiva de Charaudeau (2006,2008), apresentado no capítulo três, Análise do discurso midiático. No capítulo quatro, Análise do jornal Folha de S. Paulo, abordaram-se a biografia do personagem Antonio Palocci; contextualizou-se historicamente o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), além do desenvolvimento econômico do jornal Folha de S. Paulo. Por fim, foi feita a análise das matérias publicadas entre os dias 15 de maio de 2011 e 8 de junho de 2011.

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2 MÍDIA E POLÍTICA

Desde o aparecimento da imprensa e das mídias de massa, algumas práticas sociais vêm se transformando consideravelmente. Este capítulo tentará esboçar como a imprensa de Gutemberg (THOMPSON, 1998) se tornou a indústria da informação atual (GOMES, 2007) e como a mídia tornou a política cada vez mais dependente desse palco na modernidade. A mídia traz profundas modificações no cotidiano político: a inter-relação entre o público e o privado e a necessidade do agente político tentar manter o controle sobre a sua própria imagem.

Exposta nos meios de comunicação de massa, a pessoa pública pode ser vítima de gafes, acessos explosivos, escândalos, efeitos contrários e vazamentos. Esses episódios podem arruinar carreiras políticas (THOMPSON, 1998). Sobre esses aspectos também apresentam discussões o autor Venício Lima (2006). Para finalizar, este capítulo apresentará os estudos sobre “enquadramento”, tema que tem ganhado a atenção de diversos estudiosos, segundo Porto (2004).

2.1 O surgimento da mídia

O surgimento da imprensa originalmente datado à época da construção do primeiro tipógrafo criado pelo ourives Johann Gutenberg, por volta de 1440, inaugura a circulação sistemática de notícias de caráter político e comercial na Europa - processo que rapidamente ganhou o mundo. Antes disso, toda a comunicação era realizada dentro de espaços limitados do Estado absolutista, em redes comunicacionais da Igreja Católica ou das elites políticas. Os viajantes e trovadores também desempenharam papel importante na disseminação de informações nas tabernas e mercados (THOMPSON, 1998).

Mas foi a partir da criação da imprensa, em meados do século XV, que as autoridades puderam fabricar notícias para a circulação em folhetos, pôsteres e cartazes que eram vendidos nas ruas em períodos irregulares. “Estes eram uma miscelânea de sentenças oficiais

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ou oficiosas, decretos do governo, folhetos polêmicos, descrições de eventos particulares, tais como encontros militares ou desastres naturais, como gigantes, cometas e aparições” (THOMPSON, 1998, p. 64).

Quanto à evolução da imprensa, Gomes (2007) descreve seu desenvolvimento em três modelos que se relacionam diretamente com a política: o modelo da imprensa da era moderna, ligada à aristocracia e à burguesia que chegava ao poder; o modelo de veículos de comunicação de massa (o rádio, o cinema e a televisão) e por último o modelo da indústria da informação atual.

No primeiro modelo, a imprensa é basicamente um instrumento de discussão e crítica da política praticada pelo Estado absolutista. Um espaço de visibilidade ocupado pela burguesia que não aceitava o exercício político feito às escuras durante o século XVIII. É um espaço de cidadania essencialmente burguês. Quando a burguesia conquista e se divide no poder, a imprensa também se divide e ocupa um lugar de defesa partidária. “Nesse momento, a imprensa de opinião ganhou a forma de imprensa de partido e acrescenta à sua autocompreensão como órgão da esfera civil o entendimento de si como órgão dos partidos políticos” (GOMES, 2007, p. 47). Em consequência da divisão do Estado absolutista em partidos políticos liberais, o confronto partidário é resguardado constitucionalmente com a liberdade de expressão e a de imprensa.

É no segundo modelo que o termo mass media se consolida. É a chegada dos meios de emissão de produtos culturais, além do discurso político, por meio do rádio, do cinema e da televisão que surgia. Os efeitos da difusão massiva de cultura e disposições políticas pelos novos dispositivos, para públicos dispersos e de diferentes níveis social e educacional, começavam a ser estudados.

Os primeiros estudos da recepção da comunicação de massa apontam assim para o efeito de manipulação. No entanto, pesquisas das décadas de 1960 e 1970 mostram que a relação entre os meios de comunicação de massa e o público receptor é mais circular e complexo do que parece. Atualmente, os pesquisadores de comunicação não aceitam a ideia de que o receptor é passivo.

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O terceiro modelo é caracterizado pela formação e consolidação da indústria da cultura e do entretenimento, no século XX. Momento em que se percebe que a informação é um ótimo negócio e que os empresários dedicados a este ramo poderiam ter lucro vendendo informação aos consumidores e garantindo público cativo aos anunciantes – não mais aos partidos políticos. As transformações na esfera civil demandaram também a exigência de informações objetivas, imparciais e independentes.

Para atender esse consumidor que não quer ser conduzido nem enganado e, sobretudo, é pouco interessado no proselitismo político, surge, então, uma imprensa empresarial, que se afirma como disposta a colocar à disposição do consumidor o tipo de informação que ele desejasse, na velocidade com que ele desejasse e sobre qualquer setor da realidade que fosse do seu interesse. À imprensa de posição (de partido, sindical etc.) restou apenas as três opções que foram por ela realizadas durante o último século: converter-se em imprensa empresarial, desaparecer ou manter-se no mesmo formato, pagando nesse último caso o ônus de atingir um público cada vez mais limitado. (GOMES, 2007, p.50).

Na atualidade, a relação entre política e os veículos de comunicação tem desencadeado diversos estudos e interpretações. Primeiramente, se faz necessária uma conceitualização dos termos mídia e política para que se entenda o jogo entre essas duas instâncias. Lima (2006) conceitua mídia como sendo todos os dispositivos utilizados para a comunicação de massa: as emissoras de rádio, televisão (aberta e paga), jornais, revistas e o cinema (acrescentamos hoje a internet a essa lista de dispositivos). A informação transmitida por meio destes dispositivos é chamada de comunicação midiatizada. “Duas características da comunicação midiatizada são suas unidirecionalidade e a produção centralizada, integrada e padronizada de seus conteúdos” (LIMA, 2006, p. 52).

O segundo conceito a ser esclarecido é o termo política, originado da palavra grega polis que diz respeito à cidade, à esfera civil, ao que é público. “Historicamente, a ideia de política está associada ao exercício do poder tanto na relação entre soberano e súditos, como naquela entre governantes e governados, e entre autoridade e obediência” (LIMA, 2006, p. 53). É visível a influência que mídia e política exercem entre si ao longo da história, influência e modificação que Lima (2006) esboça em sete teses.

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Na primeira, Lima (2006) explica que, nos dias atuais, a construção da realidade, ou seja, o conhecimento que as pessoas têm sobre as coisas vem da mídia, papel antes da religião, da família, dos amigos e da escola.

Essa transformação do lugar de referência, deslocado para a mídia, muda consequentemente a ideia sobre o que é visível e público. A segunda tese define que antes da mídia, o conceito de público era entendido como a divisão de um espaço comum e, na atualidade, público se refere ao que é visível na mídia, independentemente do espaço e do tempo. A reatualização do conceito implica mudanças nas práticas políticas porque “os atores políticos têm que disputar visibilidade política na mídia e os diferentes campos políticos têm que disputar a visibilidade favorável de seu ponto de vista” (LIMA, 2006, p. 56).

Com os partidos políticos e os agentes públicos sendo exibidos pelos meios de comunicação, o papel de olho fiscalizador do bem público, antes de responsabilidade dos partidos políticos, também se desloca para a mídia. A terceira tese é que os media vêm ganhando nova função: a de partido político – o que causa crise em vários sistemas partidários. As funções de partido exercidas pela mídia seriam, conforme Lima (2006): “construir uma agenda pública (agendamento); gerar e transmitir informações políticas; fiscalizar as informações do governo; exercer a crítica das políticas públicas e canalizar as demandas da população” (LIMA, 2006, p. 56).

Lima (2006) coloca uma quarta tese que, com a centralização nacional da mídia, as campanhas eleitorais são essencialmente realizadas por meio dela, principalmente na TV, sendo os comícios e viagens marcados para serem transmitidos para a televisão. Graças a este deslocamento do espaço público para a mídia, onde hoje é realizada a campanha política, e não mais exclusivamente face a face, a mídia acaba sendo, ela mesma, um ator político, segundo a quinta tese de Lima (2006), devido às interferências ou preferências partidárias editoriais das empresas jornalísticas.

Finalmente, conforme a sexta tese de Lima (2006), a centralização e concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas pessoas, inclusive famílias de políticos, potencializam o

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poder da mídia no país. Poder que seria aumentado pelo que defende a sétima tese de Lima (2006), que seria o próprio caráter cativo em alto grau dos telespectadores brasileiros, ainda com baixo grau de instrução.

2.2 Mudanças no significado de público e privado

Antes de Lima (2006), Thompson (1998) estudou as transformações sociais ocorridas com o desenvolvimento da mídia, centrando-se nas mudanças de visibilidade e no deslocamento do significado de esfera pública e esfera privada. Na Idade Média, o conceito de público estava ligado às manifestações e eventos em que os indivíduos estavam presentes, ou seja, onde havia a “co-presença” entre a autoridade que se apresentava e aqueles que assistiam, num mesmo espaço comum. Ainda, na Idade Média, público era entendido como “atividade ou autoridade relativa ao Estado e dele derivada” (THOMPSON, 1998, p. 110). A ideia de privado era relativo a tudo aquilo que excluía o Estado. A era moderna trouxe o desenvolvimento industrial e a mídia que alterou o sentido de público e privado no ocidente:

Público neste sentido é o que é visível ou observável, o que é realizado na frente de espectadores, o que está aberto para que todos ou muitos vejam ou ouçam. Privado é, ao contrário, o que se esconde da vista dos outros, o que é dito ou feito em privacidade ou segredo ou entre um círculo restrito de pessoas (THOMPSON, 1998, p. 112).

A mídia modificou totalmente a publicidade de autoridades e eventos. A visibilidade, antes entendida como o compartilhamento de um lugar comum, agora será entendida como o espaço ocupado na mídia e o compartilhamento de uma mesma informação, que pode ser feita para um público disperso e muito maior. “O desenvolvimento da mídia deu origem assim a novas formas de ‘publicidade mediada’ que vêm assumindo um importante papel no mundo moderno” (THOMPSON,1998, p. 114).

Mas hoje não é mais possível restringir do mesmo modo a atividade de auto-apresentação. Querendo ou não, os líderes políticos hoje devem estar preparados para adaptar suas atividades a um novo tipo de visibilidade que funciona diversamente e em níveis completamente diferentes (THOMPSON, 1998, p. 109).

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É neste contexto que os políticos modernos tiveram que se preocupar cada vez mais com a administração da visibilidade na mídia. Apresentações de co-presença facilitam a percepção das reações do público às informações por meio de vaias e aplausos, por exemplo. Mas quando o público passa a ser à distância, as interpretações das informações podem ser variadas, além da possibilidade de interpretações variáveis pelos jornalistas, por exemplo. Thompson (1998) diz que a administração da visibilidade, hoje, está ligada à própria arte de governar:

A condução de um governo exige um contínuo processo de tomada de decisões sobre o que, a quem e como se pode tornar público. A tarefa de tomar e executar estas decisões pode ser confiada em parte a uma equipe especializada de assessores, responsáveis pela administração da relação entre o governo e a mídia (THOMPSON, 1998, p.124).

2.2.1 Problemas na administração da imagem política

A exposição cada vez maior na mídia, mesmo com o recurso da administração da visibilidade feita por pessoas qualificadas, que acabam blindando políticos e autoridades, não impede o surgimento de problemas que atrapalham a boa imagem de políticos. Thompson (1998) fala que, na atualidade, é muito comum sair do controle das equipes de Relações Públicas episódios que mancham a imagem do político.

Thompson (1998) apresenta especialmente cinco acontecimentos que podem tomar proporções enormes na mídia devido à má administração da imagem: a gafe; o acesso explosivo; o desempenho de efeito contrário; o vazamento e o escândalo. Podendo ser vista por milhões de pessoas, a gafe pode significar para um líder político incompetência ou falta de preparo sobre um determinado assunto ou falta de traquejo para comportar-se em determinadas situações. Outra fragilidade que pode ocorrer pela exposição na mídia é o acesso explosivo, que demonstra total falta de controle emocional do personagem. Estes problemas podem culminar na diminuição da confiança de eleitores ou minar campanhas.

O desempenho de efeito contrário não se relaciona com a falta de controle emocional do agente público ou com a falta de conhecimento deste sobre um determinado assunto, mas sim com a avaliação equivocada deste agente sobre a provável reação que o outro terá após lançar

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uma ideia ou uma informação. “Como resultado deste equívoco, a mensagem destinada a produzir um certo efeito, acaba produzindo justamente um efeito contrário, atingindo seu produtor” (THOMPSON, 1998, p. 128).

Apesar disso, nenhum dos problemas acima é mais grave do que vazamentos e escândalos surgidos na mídia. O vazamento é a informação que estava guardada em segredo e é revelada por alguém de dentro de um grupo. Esse vazamento dá-se por interesse político, quando se quer prejudicar alguém ou um grupo. O vazamento é muitas vezes responsável por escândalos políticos. O escândalo político pode ser entendido como a publicidade de atividades que só poderiam acontecer de maneira silenciosa, ou no espaço privado. Quando revelado, o conhecimento dessas atividades gera indignação pública (THOMPSON, 1998).

A transparência das atividades políticas é uma conquista atual de democracias liberais, contudo, Thompson (1998) critica os excessivos escândalos políticos midiáticos presentes atualmente, no que diz respeito ao impacto que eles provocam na crença do cidadão na democracia:

Governos golpeados por escândalos, líderes políticos lutando para reduzir os prejuízos causados por vazamentos e revelações de vários tipos: estas não são as condições sob as quais uma decisiva liderança política pode prontamente se mostrar. Elas são, pelo contrário, as condições que pouco a pouco vão enfraquecendo os governos e paralisando as atividades políticas, e que podem alimentar a suspeição e o cinismo que muitas pessoas sentem hoje com relação aos políticos e às instituições políticas estabelecidas. Elas são também condições que poderiam, quiçá, fornecer férteis razões para o crescimento de um novo tipo de demagogia: a repentina ascensão ao poder de uma figura aparentemente intocada pelos escândalos e pelas sombrias transações de políticos fisiológicos, e cujo apelo se enraíza em parte num penetrante sentido de descontentamento e de desconfiança (THOMPSON, 1998, p. 132).

Gomes (2007) sustenta que uma das bandeiras do jornalismo, a partir do século XVIII, é a sua vinculação com a esfera civil e a defesa dos interesses públicos. Isso significa que a esfera política vira objeto de sua vigilância. Por outro lado, a mídia pode servir como arma para a própria política, na medida em que os veículos de comunicação se tornam o palco principal onde os políticos vão administrar a sua visibilidade pública. Gomes (2007) destaca que há uma dramatização política fabricada tanto pelo político, quanto pelo jornalismo.

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[...] o gosto do jornalismo pelo espetáculo parece se tornar crescente, sobretudo depois do advento da televisão. E se o jornalismo busca desqualificar as encenações protagonizadas pelos atores políticos é porque ele mesmo quer controlar o espetáculo cotidiano da política (GOMES, 2007, p.343).

Para Gomes (2007), o jornalismo rendeu-se à indústria do entretenimento. Isso é ainda mais forte no jornalismo televisivo, que precisa de audiência para os anunciantes – regra que inclui o telejornalismo. Isso justifica o surgimento do jornalismo-espetáculo, dosado com um pouco de drama e exagero. O impresso também se rende ao espetáculo para driblar a concorrência.

Segundo Gomes (2007), existem duas hipóteses que explicam a adaptação do jornalismo impresso à nova linguagem do espetáculo. Para ele, provavelmente, a distribuição desigual de prestígio e a disputa pela audiência e por anunciantes sejam a explicação. Nesse contexto, o jornalista político começa a combinar as técnicas de apuração jornalística às técnicas de escrita dos criadores de ficção.

O elemento que mais salta aos olhos na dramatização da informação política pelo jornalismo é, provavelmente, o enquadramento de conflito como estrutura dramática. Essa estrutura supõe que as pessoas e grupos estão necessariamente em conflito entre si, de forma que o narrador precisa apenas identificar a matéria deste conflito preciso e isolar os antagonistas. Eventualmente, e só eventualmente, há um protagonista, aquele que representa o bem contra o mal, em geral o governo quando este tem grande apoio popular ou das elites, ou a oposição quando se trata de um governo sem apoio. Às vezes, são as ondas do jornalismo, aquele movimento coletivo de adesão ou contraposição a reboque de um jornalista ou de um jornal mais influente, a determinar quem é protagonista e quem o antagoniza (GOMES, 2007, p. 348).

O conflito político com destaque na mídia é tanto melhor quanto maior for a sua noticiabilidade e permanência dos suítes. “Uma proposta, um programa, um acordo, um movimento do jogo político não deve ser narrado por si mesmo pelo que ele significa para a vida das pessoas e para o estado da economia ou da saúde pública, por exemplo” (GOMES, 2007, p. 348). Gomes destaca que o jornalismo-espetáculo passa ao público a mensagem de que a política é basicamente um campo de guerra.

E no meio desta guerra há uma percepção de que a política não se realiza e de que os atores políticos só querem atender aos seus próprios interesses. “Por outro lado, a mensagem que essa cobertura oferece ao público é de que em política nada se faz, fala ou pensa

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considerando-se, ou considerando-se principalmente, o interesse público ou para se provocar algum efeito real no Estado e na vida dos cidadãos” (GOMES, 2007, p.351).

Assim, a cobertura jornalística da política acaba priorizando o espetáculo que vai garantir audiência para o jornal, ou seja, a cobertura política se transforma em outro tipo de dramaturgia da indústria da informação. E é por esse motivo que esse drama terá seus personagens políticos prediletos:

Os personagens políticos prediletos do jornalismo-espetáculo são, em geral, negativos, o seu caráter (literalmente, as marcas estáveis da sua personalidade) consiste frequentemente em não ter caráter (no sentido moral do termo). Por isso, a busca da falha gravíssima de conduta, que gera o desejável escândalo político, ou, ainda mais disseminada, a busca da indicação das incoerências do político como forma de identificação de um defeito seu de caráter (GOMES, 2007, p.351).

2.3 Escândalos políticos midiáticos e a democracia

Para Gomes (2003) a rotina inerente à política, que compreenderia uma "gama de interações entre as forças políticas que incluem o acordo, a articulação, o acerto, as barganhas, as alianças, as retaliações, as composições e as compensações" (GOMES, 2003, p. 01), estaria de fora da análise e interpretação de boa parte dos estudiosos.

Após ter conquistado o poder de decidir quem estará no comando do poder executivo e legislativo, a esfera civil conta com instituições que possam "vigiar" o bom andamento político, como o Ministério Público e os jornalistas. Mas, para Gomes (2003), parte das práticas políticas ocorre às escuras. Isso acontece porque, antes de chegar ao poder, o partido firma alianças com outros partidos para ter uma maioria favorável ao seu plano de governo. E, ao chegar ao poder, pela permissão da esfera civil por meio do voto, o partido da situação terá problemas se não tiver uma maioria favorável no Congresso, ou na Câmara, para ter seus planos aprovados.

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São comuns os casos em que se tenta trazer apoio ao governo por meio dos loteamentos de cargos e facilitações ao acesso de recursos, segundo o autor, métodos da política ordinária, que, se caem no conhecimento do público, podem gerar os escândalos políticos. Gomes (2003) ressalta que com esse modelo de governabilidade, que necessita de apoios e alianças, a maior parte dos escândalos é originada na base de sustentação do governo.

Emergindo o escândalo, por obra do jornalismo político e, hoje em dia, das interações densas entre Ministério Público e imprensa, é a vez da oposição fazer a festa, promovendo as retaliações e procurando enfraquecer o governo diante da opinião pública, através dos jornais diretamente e das CPIs, que também servem para alimentar os jornais e produzir péssima exposição a quem governa (GOMES, 2003, p.13).

Os escândalos políticos midiáticos são “o evento que implica a revelação, através da mídia, de atividades previamente ocultadas e moralmente desonrosas, desencadeando uma sequência de ocorrências posteriores”, segundo Lima (2006, p.13). Sobre os escândalos políticos, Lima (2006) aponta que os jornalistas, adoecidos pelo caso Watergate, abandonam a ética e os princípios jurídicos básicos pela busca do furo. No entanto, um dos princípios básicos esquecidos nos casos de escândalo é a presunção de inocência. No escândalo do “mensalão”1, por exemplo, Lima (2006) demonstra como os principais jornais brasileiros fizeram a cobertura do caso, presumindo a culpa dos acusados.

Segundo o autor, “antes mesmo da revelação pública das cenas de corrupção nos Correios, em maio de 2005, o ‘enquadramento’ da cobertura que a mídia fez expressava uma presunção de culpa que, ao longo dos meses, foi se consolidando por meio de uma narrativa própria e pela omissão e/ou pela saliência de fatos importantes” (LIMA, 2006, p. 95). Enquanto o escândalo do “mensalão” ganhava várias páginas e vários minutos do Jornal Nacional, assuntos, também de interesse público, eram esquecidos ou omitidos.

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Mensalão é como ficou conhecido o esquema de compra de votos de parlamentares da base aliada do governo Lula, comandado por importantes personagens do Partido dos Trabalhadores (PT). O esquema foi denunciado pelo então deputado federal Roberto Jeferson (PTB), em junho de 2005, em entrevista ao jornal Folha de S Paulo. Em 2012 os acusados de participação no “mensalão” começaram a ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

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2.3.1 Enquadramento de notícias

A cobertura do escândalo do “mensalão” é um exemplo do modo como a imprensa enquadra os conteúdos noticiosos. Segundo Goffman (1986) os enquadramentos são interpretações gerais que ajudam as pessoas a entenderam o que está acontecendo em situações de interação social. “Efeitos de formulação podem ocorrer sem ninguém ter consciência do impacto do enquadramento adotado nas decisões e podem ainda ser explorados para alterar a atratividade relativa das opções. Enquadramentos são, portanto, importantes instrumentos de poder” (PORTO, 2004, p.79).

O enquadramento envolve essencialmente seleção e saliência. Enquadrar significa selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-los mais salientes em um texto comunicativo, de forma a promover uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma avaliação e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito (ENTMAN, apud PORTO, 2004, p.82).

Carvalho (2009), orientado pelos estudos de Adelmo Genro Filho (1987), tem uma visão positiva da influência do jornalismo na formação da opinião pública e sobre o impacto do enquadramento nas mentes dos leitores. Carvalho (2009) defende que o trabalho jornalístico, ao fragmentar a realidade, não estaria fugindo de uma universalidade de assuntos para manipular as opiniões. A própria fragmentação das notícias seria uma representação da “diversidade de visões de mundo (culturais, científicas, comportamentais, éticas, morais, religiosas e tantas outras) e dos múltiplos interesses em disputa [...]” (CARVALHO, 2009, p. 01). Carvalho (2009) interpreta a visão goffmaniana de enquadramento de uma notícia como sendo a seleção de aspectos que deem inteligibilidade à narrativa, a partir de quadros de referência que vão conduzir a uma determinada visão, dentre outras possíveis (CARVALHO, 2009, p.5).

Carvalho (2009) afirma que os enquadramentos (ou frames) organizam o entendimento da realidade e a construção social do acontecimento. “Como frames, as ‘estórias’ oferecem definições da realidade social” (CARVALHO, 2009, p. 07).

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Por definição do autor, os enquadramentos noticiosos não seriam construções autônomas das instituições jornalísticas, mas sim o resultado de novas representações sociais e de novos quadros de mudança que surgem na sociedade. Os enquadramentos jornalísticos seriam um reflexo dessas novas representações sociais, já que é na sociedade que o jornalismo tira o seu material.

Mesmo acontecimentos naturais, como furacões ou enchentes, por exemplo, encontram explicações possíveis a partir de quadros de referência marcados por atividades humanossociais, como as interferências sobre o ambiente natural que provocariam, a partir do ‘efeito estufa’, mudanças climáticas e outras alterações que não permitem pensar catástrofes como meras ocorrências do curso regular da natureza (CARVALHO, 2009, p. 09).

Mas isso não impede a fabricação de quadros de referência enganosos que possam levar os indivíduos, pela ingenuidade e credulidade, a interpretações errôneas da realidade. Isso pode ocorrer quando da criação de cenários forjados deliberadamente para dar uma ideia infiel da realidade, que pode ocorrer com notícias falsas – os factoides.

Advertindo para a prática do factoide como uma armação que parte dos próprios jornalistas, dizem-nos Raquel Paiva e Muniz Sodré: ‘o neologismo norte-americano factoid (factoide, algo que parece, mas não constitui um facto) é uma designação bem popular para este fenômeno, recorrente na imprensa anglo-saxónica desde o século XIX’ (PAIVA & SODRÉ, 2005, p. 97)2. Comuns também são os factoides levados adiante por diversos atores sociais, com o intuito de chamarem atenção para si, especialmente das mídias noticiosas (CARVALHO, 2009, p. 10).

3 ANÁLISE DO DISCURSO MIDIÁTICO
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PAIVA, Raquel; SODRÉ, Muniz. Sobre o facto e o acontecimento. Trajectos – revista de comunicação, cultura e educação. Lisboa: Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Nº 6, Primavera de 2005.

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Nesse capítulo, vamos nos apoiar em Patrick Charaudeau (2006 e 2008), analista do discurso francês, para levantarmos as características do discurso midiático e jornalístico que nos ajudem a entender como a Folha de São Paulo tratou do escândalo envolvendo o ministro Antonio Palocci. Conceitos como o contrato de comunicação e seus desdobramentos teóricos podem ser um caminho para desvendar-se o explícito e o implícito no discurso jornalístico.

3.1 Informação, comunicação e discurso

Para Charaudeau (2006), seria mais fácil analisar o discurso político do que o discurso de informação das mídias. A explicação fica clara quando se admite que o discurso político é ligado ao poder, portanto, à manipulação, enquanto “o mundo das mídias tem a pretensão de se definir contra o poder e contra a manipulação” (CHARAUDEAU, 2006, p. 17). A crítica ao papel da mídia na sociedade se deve à autoproclamada função de “quarto poder”, sendo a mídia muitas vezes usada pelos políticos para tentar manipular a opinião pública. O pesquisador deixa algumas questões pré-definidas, que vão orientar a análise deste trabalho.

Em primeiro lugar, para o autor, as mídias não são uma instância de poder. Isso significa que as mídias não possuem meios restritivos para influenciar o comportamento social, como regras de comportamento, normas e sanções. Somente as instâncias da Justiça, do Exército e da Igreja possuem estes poderes, por exemplo.

Outra questão que autor quer que seja considerada é o fato de que as mídias manipulam tanto quanto manipulam a si mesmas quando precisam atingir o maior número de pessoas possível e tendo que simplificar a informação para um nível médio de conhecimento. Sendo assim, a maioria das pessoas atingidas receberia “as mesmas simplificações e os mesmos clichês” conforme Kundera3 (1986, apud CHARAUDEAU, 2006, p. 19).

Charaudeau (2006, p. 20) esclarece ainda que as mídias não transmitem o que ocorre na realidade social. Elas impõem sua própria visão de mundo, assim como as esferas política e
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KUNDERA, M. L’art Du Roman, Paris: Gallimand-Folio,1986.

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civil “constroem para si sua própria visão do espaço público, como uma representação que tomaria o lugar da realidade”.

A ideologia do “mostrar a qualquer preço”, do “tornar visível o invisível” e do “selecionar o que é o mais surpreendente” (as notícias ruins) faz com que se construa uma imagem fragmentada do espaço público, uma visão adequada aos objetivos das mídias, mas bem afastada de um reflexo fiel. Se são um espelho, as mídias não são mais do que um espelho deformante, ou mais ainda, são vários espelhos deformantes ao mesmo tempo, daqueles que se encontram nos parques de diversões e que, mesmo deformando, mostram, cada um à sua maneira, um fragmento amplificado, simplificado, estereotipado do mundo (CHARAUDEAU, 2006, p. 20).

3.2 A construção do sentido

Charaudeau (2006) lembra que o discurso vai além da língua e retorna modificando-a. Esta última é voltada para a organização dos sentidos morfológicos, sintáticos e semânticos.

Resulta da combinação das circunstâncias em que se fala ou escreve (a identidade daquele que fala e daquele a quem este se dirige, a relação de intencionalidade que os liga e as condições físicas da troca) com a maneira pela qual se fala. É, pois, a imbricação das condições extradiscursivas e das realizações intradiscursivas que produz sentido. Descrever sentido de discurso consiste, portanto, em proceder a uma correlação entre dois polos (CHARAUDEAU, 2006, p. 40).

O sentido é dado somente após o processo de semiotização de transformação e transação. Charaudeau (2006) define o termo transformação como sendo o ato de dar forma, de identificar os objetos por meio de categorias para nomear, qualificar, narrar, argumentar e modalizar. A transação é o objetivo dado por quem pratica o ato de informar, que começa em se conhecer o destinatário psicologicamente, socialmente, suas aptidões, enfim, sua identidade. A transação pretende produzir um efeito, criar um tipo de relação com o outro ou, ainda, produzir um “tipo de regulação que prevê em função dos parâmetros precedentes” (CHARAUDEAU, 2006, p. 42).

[...] é o processo de transação que comanda o processo de transformação e não o inverso. A finalidade do homem, ao falar, não é a de recortar, descrever, estruturar o mundo; ele fala, em princípio, para se colocar em relação com o outro, porque disso depende a própria existência, visto que a consciência de si passa pela tomada de consciência da existência do

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outro, pela assimilação do outro e ao mesmo tempo pela diferenciação com relação ao outro. A linguagem nasce, vive e morre na intersubjetividade. É falando com o outro – isto é, falando o outro e se falando a si mesmo – que comenta o mundo, ou seja, descreve e estrutura o mundo (CHARAUDEAU, 2006, p. 42).

A transação estabelece um tratamento específico para uma informação, dependendo do alvo que se pretenda alcançar. Sendo assim, é difícil buscar a neutralidade, transparência e factualidade da informação. “Nem mesmo os organismos de informação especializados em transmitir diretamente o acontecimento (...) e que acreditam estar mais próximos que os outros da factualidade podem escapar aos efeitos desse processo”. (CHARAUDEAU, 2006, p. 43)

Charaudeau (2006) divide o saber em conhecimento e crença. O primeiro é relativo ao conhecimento evidenciado pela experiência e pela ciência. “Esses conhecimentos são considerados suficientes para dar conta do mundo da maneira mais objetiva possível” (CHARAUDEAU, 2006, p. 44).

O saber de crença é o olhar subjetivo sobre o mundo e sobre o homem. É a criação de regras ideais para o comportamento humano em sociedade. São pontos de vista e crenças sobre os comportamentos possíveis e prováveis; sobre julgamentos negativos ou positivos; éticos; estéticos; agradáveis ou desagradáveis; úteis ou inúteis.

Quando essas crenças se inscrevem numa enunciação informativa, servem para fazer com que o outro compartilhe os julgamentos sobre o mundo, criando assim uma relação de cumplicidade. Ou seja, toda informação a respeito de uma crença funciona ao mesmo tempo como interpelação do outro, pois o obriga a tomar posição com relação à avaliação que lhe é proposta, colocando-o em posição reativa – o que não é necessariamente o caso da informação que se refere aos conhecimentos. Ao se dizer “Nova York é uma cidade estranha”, interpela-se duplamente o interlocutor: não só sobre o fato de ele conhecer ou não Nova York, mas também sobre a adesão ou rejeição à apreciação proposta (CHARAUDEAU, 2006, p.46).

Charaudeau (2006, p. 47) lembra que podem ser criadas manchetes de jornais ou determinados comentários que interpelem o interlocutor a um julgamento, a uma “reação avaliativa do leitor”. O saber do conhecimento e das crenças forma uma linha tênue dentro do processo de representações, que são a construção de imagens mentais que produzem os

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valores comportamentais da sociedade. As representações são normas de referência e sistemas de valores do comportamento social.

Charaudeau (2006) explica que o saber do conhecimento é uma busca pelo valor de verdade. Nesse caso, a verdade seria algo exterior ao homem e seria passível de ser descoberta por pesquisa, pela ciência. Por isso, seria a verdade objetiva. O valor de verdade, quando credível, cria o efeito de verdade a partir do momento em que é aceita e compartilhada. Ao contrário do valor de verdade baseado na evidência, o efeito de verdade é baseado na convicção.

O efeito de verdade não existe, pois, fora de um dispositivo enunciativo de influência psicossocial, no qual cada um dos parceiros da troca verbal tenta fazer com que o outro dê sua adesão a seu universo de pensamento e de verdade. O que está em causa aqui não é tanto a busca de uma verdade em si, mas a busca de “credibilidade”, isto é, aquilo que determina o “direito à palavra” dos seres que comunicam, e as condições de validade da palavra emitida (CHARAUDEAU, 2006, p. 49).

O efeito de verdade varia conforme a intenção do ato de informar, que pode ser pedida ou não pedida. A informação pedida é quando o indivíduo precisa de informação para nortear sua conduta, aumentar o saber ou formar opinião com relação a algum fato. Quando não pedida, a informação pode ser sugerida pelo seu teor de importância para os indivíduos, como direitos e deveres etc. Conforme Charaudeau (2006, p. 50) é aí que se instaura uma relação de solicitante e solicitado, cujo vínculo depende de uma situação de troca. “Eis por que existem lugares de informação à sua disposição, que funcionam em serviços públicos ou privados”.

A informação não pedida pode ocorrer em duas situações distintas: aquele que informa por iniciativa própria ou por ser obrigado. O informador pode ser alguém que tenha notoriedade; uma testemunha; pode ser plural (diversas fontes); um organismo especializado. O informador apresenta diversos graus de engajamento (interesse no valor de verdade da informação que transmite):

O informador não explicita seu engajamento: a informação é dada como evidente, sem contestação possível. Essa posição de apagamento do sujeito e de aparente neutralidade do engajamento produz efeito de objetivação e de autenticação. O sujeito que fala traz uma informação como se a verdade não pertencesse a ele e só dependesse de si mesma. É uma das características do

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discurso populista. Mas basta que se possa provar a falsidade da informação para que o informador seja desacreditado e taxado de mistificador.

O informador explicita seu engajamento sob o modo da convicção, afirmando a confiança que deposita em sua fonte. A informação produz, então, efeito paradoxal: o informador, comprometendo-se com o valor de verdade de sua informação (“Estou certo de que...”, “Estou convencido de que...”, “Juro que...”) insiste em manifestar sua adesão e sua sinceridade, mas, ao mesmo tempo, seu engajamento aponta para uma convicção que lhe é própria, e não para a evidência de seu dizer. Basta que se possa taxá-lo de ignorância ou de ingenuidade (“Mas como você é ingênuo, meu caro!”), para que a explicitação de seu engajamento se volte contra ele, fazendo desmoronar todo o valor de verdade de seu dizer. O informador explicita seu engajamento, mas dessa vez sob o modo da distância, expressando reserva, dúvida, hipótese, e mesmo suspeita. Produz-se então um outro efeito paradoxal: o valor de verdade da informação fica atenuado, mas a explicitação do posicionamento prudente do informador lhe confere crédito, o torna digno de fé, e permite considerar a informação como provisoriamente verdadeira, até prova em contrário. Assim, os dois interlocutores estão numa posição de ponderação, de exame da verdade, de verificação da plausibilidade (CHARAUDEAU, 2006, p. 54).

3.3 O contrato de comunicação

Charaudeau (2006) esclarece que as representações criadas em sociedade e que regulam o comportamento do indivíduo no meio social devem ser reconhecidas e respeitadas por cada agente no ato de comunicação. A compreensão das regras sociais devem anteceder o próprio ato de comunicação. O seu reconhecimento mútuo, entre locutor e interlocutor, pressupõe um acordo entre ambos. Assim, um contrato de comunicação precede o próprio ato de comunicação.

O contrato de comunicação terá característica própria, de acordo com os dados externos ao ato de comunicação. Esses dados externos revelam: (i) a identidade dos interlocutores, quem são os envolvidos neste ato de comunicação, quem são o locutor e o receptor, qual a identidade dos parceiros numa troca comunicativa. (ii) A finalidade, que se define através de que todo ato de linguagem seja ordenado em função de um objetivo. Estabelece por meio da expectativa de sentido em que se fundamenta a troca, a responder a seguinte pergunta: “Estamos aqui para dizer o quê?”. (iii) O propósito, ou seja, qual o tema da comunicação, o assunto, une os parceiros do ato comunicativo. E por fim, (iv) o dispositivo que tem a finalidade de que o ato de comunicação se forme através de uma maneira particular, segundo as situações materiais em que se desenvolve, em que ambiente este ato de comunicação está

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acontecendo, em saber qual dispositivo tecnológico sustenta o ato de comunicação (CHARAUDEAU, 2006, p.69).

No caso das mídias, os dados externos referentes à identidade dos interlocutores se dividem em identidade da instância de produção e da instância de recepção. A primeira é a mídia com todos os atores responsáveis pela produção da informação: diretores, responsáveis técnicos e jornalistas de vários tipos e funções. Com relação à instância de recepção, a identidade é muito mais difícil de mensurar.

A identificação mais generalista é de leitores, ouvintes e telespectadores de diversos status sociais, idades, que a instância de produção luta em tentar identificar através de pesquisas que ainda não definem com precição as características psicológicas desse público. A instância de produção visa causar efeitos num destinatário ideal (aquele imaginado por ela), mas os efeitos no destinatário real são variados e dependem de vários fatores psicológicos, culturais etc. É aí que a instância de produção ou enunciação vai produzir informações que possam alcançar alvos intelectivos ou afetivos, dependendo do apelo da informação.

Alcançar alvos intelectivos ou afetivos vai depender da finalidade visada pela instância de informação. Se o objetivo é a produção de informação de utilidade pública e a representação de um organismo com credibilidade, essa produção vai priorizar conteúdos que possam ser comprovados (informação verdadeira) para uso racional. Mas se o objetivo da produção da informação é a captação de receptores, a sedução, a instância de informação usará de estratégias de dramatização, de conteúdos que emocionem pela simples visada de cativar o público (alvo afetivo).

Charaudeau (2006) aponta existir uma tensão entre os pólos credibilidade e captação. Segundo o autor, quanto mais as mídias tendem para a credibilidade, cujas exigências são as da austeridade racionalizante, menos tocam o grande público e quanto mais tendem para a captação, cujas exigências são as da imaginação dramatizante, menos credíveis serão. “As mídias não ignoram isso, e seu jogo consiste em navegar entre esses dois pólos ao sabor de sua ideologia e da natureza dos acontecimentos” (CHARAUDEAU, 2006, p. 93).

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Definida a situação externa à comunicação, é preciso reconhecer os dados internos de um contrato de comunicação, que tem caráter discursivo, o qual permite responder à pergunta “como dizer?”. O intuito é identificar como devem ser os comportamentos dos parceiros da troca, maneiras de falar, os papéis linguageiros que devem admitir, as formas verbais ou icônicas que devem empregar.

Os acontecimentos midiáticos são criados e reconfigurados pela instância midiática em setores predeterminados: política, economia, cidade, mundo etc., construindo o que Charaudeau (2006) chama de universos de discurso, os lugares temáticos que vão guiar o discurso das mídias, como vimos, o propósito da comunicação midiática. No caso do jornalismo, uma informação tem valor de notícia quando determinados critérios são preenchidos. Esses critérios normalmente dizem respeito à atualidade, socialidade (informações de interesse público) e a imprevisibilidade.

Essas são as características atribuídas a um acontecimento. Charaudeau (2006) afirma que o acontecimento existe independentemente do olhar humano. O acontecimento é autogerado conforme as leis da natureza. Contudo, os sujeitos só conseguem identificar um acontecimento como tal, lançando o olhar sobre ele, com a percepção de que algo foge da regularidade. Charaudeau chama o processo de construção de um acontecimento de processo evenemencial. São necessários três processos para a transformação de um fato em acontecimento discursivo: a modificação; a percepção e a significação.

Para que um acontecimento seja reconhecido é preciso que haja uma mudança no estado das coisas, antes imutáveis, estáveis. A segunda condição é a percepção dessa modificação por um sujeito capaz de identificar a ruptura de uma constante e a construção de uma saliência no mundo onde antes não acontecia nada. É então que o acontecimento, como algo que sai de uma ordem natural, precisa se tornar algo de interesse público. O sujeito transforma o acontecimento em algo interpretável para o outro, lançando um olhar de categorização, de organização desse novo fenômeno que faz parte de alguma instância que será definida por ele através desse processo de racionalização, ou seja, de significação.

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Após modificado e percebido, o acontecimento precisa ser significado para que outro o interprete, o receptor. Mas a mensagem significada também sofrerá influência do ambiente e do meio onde ela é transmitida, ou seja, o dispositivo utilizado na comunicação midiática. Charaudeau (2006) compreende o dispositivo como sendo o “ambiente, o quadro, o suporte físico da mensagem, mas não se trata de simples vetor indiferente ao que veicula, ou de um meio de transportar qualquer mensagem sem que esta se ressinta das características do suporte” (CHARAUDEAU, 2006, p. 105).

Com isso, Charaudeau (2006) sinaliza que todo dispositivo formata a mensagem, contribuindo para lhe conferir um sentido. Vários tipos de materiais e suportes dão as condições para que cada tipo de mensagem tenha um tratamento específico. Os materiais são as possibilidades de significação: a oralidade, a escrituralidade, a gestualidade e a iconicidade. O suporte é o dispositivo onde esses materiais serão registrados: papel, tela de cinema ou vídeo, uma parede. A tecnologia possibilita a junção dos materiais e dos suportes. Os três grandes suportes da mídia são o rádio, a TV e a imprensa, com características materiais próprias em cada um deles: a voz para o rádio, a imagem para a TV e a escrita para a imprensa.

3.4 A construção do sentido na comunicação midiática

Como acontece com o processo de comunicação entre dois interlocutores, a comunicação midiática também vai depender da transformação de um acontecimento bruto em estado de mundo midiático construído, levando-se em consideração a transação, que é a forma como a instância midiática imagina a instância receptora, construindo-se um contrato de comunicação midiático. (CHARAUDEAU, 2006, p.114)

Este contrato é o gerador de um espaço público de informação, espaço de criação da opinião pública. O espaço público na contemporaneidade vai se abrir para representar a discussão da cidadania, da opinião pública. Charaudeau (2006) enfatiza que o espaço público não é homogêneo. Ele é o lugar de junção das práticas sociais e das representações relativas aos diversos discursos circulantes. “O discurso circulante é uma soma empírica de enunciados com visada definicional sobre o que são os seres, as ações, os acontecimentos, suas

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características, seus comportamentos e os julgamentos a eles ligados” (CHARAUDEAU, 2006, p. 118). Sendo assim, não se poderia afirmar que as mídias se apoderam do espaço público para manipulá-lo.

As mídias são apenas uma forma de publicização. Sua ação é participar do que constitui, desconstitui, transforma o espaço público, no quadro do contrato de informação midiático. O que acontece, na realidade, é que em certos momentos da história a publicização do espaço público toma uma forma particular; já o foram, cada uma à sua maneira, a Igreja, a monarquia, a festa do bufão na Idade Média, hoje são as mídias, particularmente a televisão (CHARAUDEAU, 2006, p. 120).

Os sentidos construídos na sociedade têm múltiplas origens e participações hipertextuais. Charaudeau (2006) lembra que o ato de linguagem não é um processo linear de produçãointerpretação da informação. Este processo implica uma série de condições pelas quais uma mensagem emitida pode ser interpretada de diversas maneiras. Uma das condições implicadas é a evidência de Circunstâncias de discurso que Charaudeau (2008) define como sendo “o conjunto dos saberes supostos que circulam entre os protagonistas da linguagem, ou seja: saberes supostos a respeito do mundo (...) e saberes supostos sobre os pontos de vista recíprocos dos protagonistas (...)” (CHARAUDEAU, 2008, p. 32).

É com o reconhecimento recíproco das circunstâncias de discurso que o enunciador e o interlocutor serão capazes de interpretar corretamente os signos linguageiros partilhados. Esses podem ter significados explícitos (o significado existe no significante em si mesmo) ou implícitos (o significado existe no significante mas é complementado extralinguisticamente, ou seja, através da Circunstância de comunicação).

Charaudeau (2008) lembra que o único instrumento de análise do pesquisador é o próprio texto. As Circunstâncias de discurso são indispensáveis para a identificação do Explícito e do Implícito no Contrato de Comunicação. Sem dar conta da totalidade dos pontos de vista do sujeito comunicante e nem mesmo do sujeito interpretante, ao analista é dada a função de identificar os possíveis interpretativos. Esses “constituem as representações linguageiras das experiências dos indivíduos que pertencem a esses grupos, enquanto sujeitos individuais e coletivos” (CHARAUDEAU, 2008, p. 63).

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Analisar um discurso jornalístico sobre um escândalo político requer que se observem essas características propostas por Charaudeau e é o que buscaremos realizar no próximo capítulo.

4 ANÁLISE DO JORNAL FOLHA DE S. PAULO

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Neste capítulo serão analisadas as matérias do jornal Folha de S.Paulo, que noticiam o enriquecimento do ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci. Para tal, será utilizado o método de Análise do Discurso francês, segundo os estudos de Charaudeuau (2006 e 2008). O capítulo apresenta a identidade de Antonio Palocci, contextualiza a história do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), protagonistas desse embate político.

4.1 Antonio Palocci no cenário político brasileiro Antonio Palocci Filho foi um dos homens de maior confiança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Palocci ganhou destaque no primeiro governo Lula (2002) como ministro da Fazenda, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), sendo até mesmo cogitado como um possível sucessor do expresidente, graças à estabilidade e confiança financeira conquistadas por seu trabalho. No currículo de Palocci, consta seu trabalho como vereador do município de Ribeirão Preto em 1989 e 1990, deputado estadual em São Paulo em 1991 e 1992, prefeito de Ribeiro Preto de 1993 a 1996, e novamente em 2000. Também foi deputado federal em 1998 pelo estado de São Paulo, ministro da Fazenda em 2003, e ministro chefe da Casa Civil em 2011.

Disponível no portal do Ministério da Fazenda, o currículo de Palocci apresenta que ele recebeu, em 1996, o Prêmio Juscelino Kubitscheck pelo SEBRAE-SP por ter sido o prefeito que mais apoiou as micro e pequenas empresas no município de Ribeirão Preto. Em 2002, ele foi agraciado com o Prêmio Mário Covas, por decisões inovadoras novamente em favor das micro e pequenas empresas. A UNICEF entregou a ele o Prêmio Criança e Paz, em 1995, reconhecendo seu trabalho pela infância, quando prefeito de Ribeirão Preto.

Todo esse prestígio foi abalado, causando consequências negativas para sua imagem, após as acusações de que o ex-ministro se encontrava com lobistas em uma mansão para receber propina de empresários, em contratos de prestação de serviços de coleta de lixo, em Brasília, em 2006. O caseiro da mansão, Francenildo Costa, foi quem relatou as visitas à imprensa. Após ter acesso ao extrato bancário do caseiro, no qual havia indícios de depósitos ilícitos e,

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confiante de que isso indicaria que Francenildo estava sendo pago pela oposição para fazer as denúncias, Palocci assistiu à objetivação da tese de Thompson (1998): o desempenho de efeito contrário.

O fato de ter acessado a conta do caseiro soou negativamente na imprensa e Palocci foi acusado pelo Ministério Público por quebra do sigilo bancário do caseiro, aumentando a gravidade da situação o fato de que ele exercia na época o cargo de Ministro da Fazenda. Em 27 de março de 2006, Palocci foi demitido do Ministério da Fazenda pelo ex-presidente Lula, que dizia ter perdido a confiança no antigo braço direito. Contudo, por falta de provas, o STF julgou Palocci inocente, em 27 de agosto de 2009.

Palocci retornou fortalecido, após se destacar como deputado federal pelo PT e foi convidado para articular a campanha presidencial de Dilma, quando consegue o apoio de empresários e do mercado financeiro para a campanha em de 2010. Esse fato credenciou o antigo ministro da Fazenda a voltar para o primeiro escalão do governo no cargo de ministro chefe da Casa Civil, no governo Dilma, que ele esteve no comando de janeiro a junho de 2011.

Em junho de 2011, o Brasil assistiu ao começo de uma série dramática na política. Foi o mês que marcou a segunda queda do então ministro da Casa Civil, Antonio Palocci (PT). Em 7 de junho de 2011, Palocci foi demitido pela presidente Dilma. Ela não conseguiu mantê-lo no cargo devido às constantes matérias que o acusavam de corrupção, iniciadas pelo jornal Folha de S. Paulo. Palocci foi confrontado quando o jornal publicou matéria informando que ele havia multiplicado seu patrimônio em vinte vezes enquanto exercia o cargo de deputado federal, entre os anos de 2006 a 2010, com prestação de serviços de consultoria privada.

A matéria do jornal Folha de S. Paulo, do dia 15 de maio de 2011, mostra que quando Palocci se elegeu deputado federal, em 2006, ele havia declarado à Justiça Eleitoral patrimônio estimado em R$ 375 mil. Os bens correspondiam, principalmente, a uma casa, um terreno e três carros. Segundo apuração do jornal, o ex-ministro, na época, recebia R$ 974 mil pelo mandato. “A quantia é insuficiente para pagar os dois imóveis que ele adquiriu (um apartamento de luxo de R$ 6,6 milhões e um escritório de R$ 882 mil). Palocci disse que as

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compras foram feitas com recursos da sua empresa, a Projeto Administração de Imóveis.” (MATAIS, Andreza; CREDENDIO, José Ernesto. Palocci Multiplicou por 20 patrimônio em quatro anos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 15 de maio, 2011. Primeiro Caderno, p.4) A Projeto, que estava em nome dele e de sua mulher Margareth Palocci, foi aberta duas semanas após encerrado o prazo para entregar a relação de bens à Justiça Eleitoral, e por esse motivo não estava declarada como bem de Palocci.

Antonio Palocci foi o primeiro de um total de seis ministros a sair do governo Dilma por acusação de corrupção, entre 2011 e o primeiro semestre de 2012. Logo após Palocci, foram demitidos o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (PR), acusado de superfaturamento em obras da pasta; o ministro da Agricultura, Wagner Rossi (PMDB), por acusações de corrupção e propina; o ministro do Turismo, Pedro Novais (PMDB), acusado de usar verba da Câmara dos Deputados para fins particulares, entre 2003 e 2010; o ministro do Esporte, Orlando Silva (PCdoB), após o policial militar João Dias Ferreira acusá-lo de desvio de verbas destinadas à ONGs e o ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), por desvio de verbas do ministério destinadas à ONGs.

4.2 História do Partido dos Trabalhadores (PT)

Como afirma Charaudeau (2006), para analisar um discurso é preciso saber a identidade dos envolvidos num ato de comunicação. Por isso, vamos dedicar este espaço para relembrar a história dos partidos e da Folha de S. Paulo. Neto (1995) elucida que os partidos políticos estão ligados a um determinado momento histórico. “Os partidos estão ligados ao seu tempo, ao meio social em que se organizam, e à consciência de cidadania que expressam” (NETO, 1995, p. 13).

Falar de partidos políticos é o mesmo que considerar a luta pelo poder entre classes sociais e divergências que representam a derrota de uns sobre a conquista de outros e, que, portanto, lutam contra essa derrota. Segundo Neto (1995, p. 13), para compreender o que é um partido é necessário saber a quem esse partido representa, saber quem são os cidadãos, quais os seus interesses no poder, quais as suas divergências.

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Neto (1995) esclarece que, no Brasil, a criação de um partido político autenticamente da classe trabalhadora teve início em 1978, emergido das greves de operários da indústria automobilística, em São Bernardo do Campo, em São Paulo. Este período ainda dominado pela decadente ditadura militar foi um dos mais importantes no mundo no que diz respeito ao levante de trabalhadores, sendo comparado apenas à organização do proletariado polonês no mesmo período.

Líderes sindicais como Luiz Inácio da Silva, José Cicote, Henos Amorina, presidentes dos sindicatos de Metalúrgicos de São Bernardo, Santo André e Osasco; Paulo Skromov, do sindicato dos coureiros; Jacó Bitar, dos petroleiros de Campinas; Olívio Dutra, dos bancários de Porto Alegre; entre muitos outros, foram os responsáveis pela criação do Partido dos Trabalhadores (PT).

Em 10 de fevereiro de 1980 foi fundado o Partido dos Trabalhadores, no Colégio Sion, em São Paulo, apoiado por militantes marxistas, líderes sindicais e por representantes da Igreja Católica, que agora lutavam contra a ditadura e contra o modelo capitalista implantado pelos militares. A primeira disputa eleitoral do partido recém fundado ocorreu em 1982, tendo obtido importantes vitórias em municípios e estados do país todo (AARÃO REIS, 2007, p. 06).

O PT se tornou importante representante dos movimentos sociais, a partir do movimento pelo retorno das eleições diretas para a Presidência da República, em 1983 - as Diretas Já - tendo sido líder do movimento junto a outros organismos de esquerda. A decadência das ideologias socialistas pelo mundo, simbolizada com a queda da URSS em 1991 e o também decadente modelo do Estado de Bem-Estar Social dos governos da Europa Ocidental, fizeram crescer a crença em novas ideologias e modelos governamentais, como o adotado pelos Estados Unidos. O neoliberalismo ganhava o mundo, enquanto, no Brasil, a redemocratização sem Tancredo Neves, fez do então personagem da ditadura militar, José Sarney, o presidente da república, em 1985.

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O plano cruzado, que inicialmente havia controlado a inflação, perdia seus efeitos e novamente os protestos e movimentos surgidos da população em massa ganhavam as ruas. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), diretamente ligada ao PT, movimentava greves em nível nacional. O Movimento dos Sem Terra (MST) surgia em 1985 e também fortalecia os movimentos sociais de então. O PT ganhava cada vez mais presença, dobrando sua bancada na Câmara dos Deputados e, junto dos partidos de esquerda (PSB, PC do B e PDT), pôde conferir à nova Constituição de 1988 compromisso com o Estado de Bem Estar Social. “Surgiram dali, entre os deputados petistas, nomes que se destacariam nos anos 90, como José Genoíno, Vladimir Palmeira e José Dirceu, entre outros” (AARÃO REIS, 2007, p. 10).

A Constituição aprovada em 1988 normalizava as eleições diretas para a presidência da república.

As eleições, marcadas por manifestações e comícios grandiosos, debates entre os candidatos nas televisões, mobilizaram amplamente a sociedade. O PT lançou, naturalmente, seu líder de maior expressão, Lula, como candidato à presidência. Era uma espécie de anti-candidatura, mais para marcar posições do que para disputar efetivamente o posto máximo da República. De fato, as propostas tinham um caráter reformistarevolucionário, ancoradas nas tradições nacional-estatistas mais radicais das esquerdas brasileiras. Previa-se a anulação da dívida externa, uma reforma agrária radical, o questionamento profundo das bases do modelo econômico imposto pela Ditadura, entre outras referências. Naquelas condições, dificilmente se poderia supor que amplas maiorias estivessem dispostas a sustentar a realização de um programa tão radical, nem era presumível que as circunstâncias internacionais e nacionais pudessem permitir tais aventuras, principalmente tendo-se em vista a experiência e os níveis de organização e de disposição demonstrados pelo PT. Assim, a campanha serviria mais para acumular forças, divulgar o programa, provocar discussões, constituir uma corrente de opinião de esquerda, além, é claro, de popularizar as lideranças do PT, Lula em especial, e o próprio partido (AARÃO REIS, 2007, p. 10).

Mas a figura de Lula e seu poder de comunicação superaram o potencial rival de Fernando Collor, Leonel Brizola, o que o levou a disputar o segundo turno. Collor agradava por defender o neoliberalismo como plano de governo, o que assossegava as elites. Foi por esse motivo que as elites sociais e econômicas trabalharam contra a possível vitória de Lula. Sua vitória realmente não ocorreu, sendo Collor eleito presidente da república em 1989. Mas Lula também saiu vitorioso, marcado como o líder da oposição.

O crescimento do PT em postos de comando e a necessidade de continuar expandindo diluiu ideologias mais radicais do partido. O próprio posicionamento do PT em relação à sua

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ideologia de defesa do socialismo não era claro. Mas o fato é que personagens e agrupamentos radicais como a Ação Libertadora Nacional (ALN), a Ação Popular MarxistaLeninista (AP-ML) e a Ala Vermelha do PC do B (ALA do PcdoB), de extrema esquerda, foram saindo de circulação conforme os cargos políticos iam sendo assumidos.

Segmentos de extrema-esquerda perceberam a deriva, a concentração considerada excessiva nas disputas eleitorais e a denunciaram com força. O PT, argumentavam, transformava-se: de um partido de reformadores radicais, ou de revolucionários, em um partido eleitoralista, de gestores das Administrações Públicas e do sistema capitalista. Aonde aquilo iria parar? Mas não tiveram força para reverter a corrente e acabaram expulsos: foram os casos do Partido da Causa Operária/PCO, já em 1990, e da Convergência Socialista/CS4, em 1992 (AARÃO REIS, 2007, p. 13).

Após o impeachment de Collor, apoiado com força pelo PT em 1992, Lula perderia duas eleições presidenciais subsequentes para Fernando Henrique Cardoso, do PSDB (1994 e 1998). Mesmo tendo perdido as eleições, Lula cresceu de 17 milhões de votos (27%) em 1994, para 31,7% dos votos válidos em 1998 (AARÃO REIS, 2007).

Aarão Reis (2007) explica que o desgaste das duas candidaturas de Fernando Henrique Cardoso e a falta de simpatia do então candidato do PSDB à presidência da república, José Serra, foram fatores responsáveis pela esperada vitória de Lula nas eleições de 2002. Lula e o Partido dos Trabalhadores também já haviam aprendido as regras do jogo. Antes mesmo das eleições, Lula havia escrito a Carta aos Brasileiros, comprometendo-se em manter os compromissos firmados pelo presidente anterior. Manobra que tranquilizou as elites temerárias de uma possível revolução vermelha no país. A grandeza do partido propiciou a arrecadação de altos valores para a campanha política, comandada por profissionais de comunicação e marketing. Em 2005, Roberto Jeferson (PTB), então aliado do PT, denunciou esquema de pagamento de mesada a parlamentares para aprovação de projetos do governo. Esquema que ele batizou de mensalão. Foi o momento em que surgiram políticos acusando o governo e o partido de imoralidade e da abertura de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI), que encheram as páginas dos jornais e os noticiários de TV.

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A Convergência Socialista se transformou, em 1994, no Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), organização radical defensora dos movimentos sociais.

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Mas a credibilidade de Lula se recuperou no ano seguinte, 2006. O fenômeno se deve aos resultados das políticas públicas implantadas pelo presidente, responsáveis pela retirada de 8,6 milhões de pessoas da miséria, uma redução de 19,18% de 2003 a 2005, segundo dados apresentados por Aarão Reis (2007).

É preciso lembrar o fator de identificação da população com a pessoa carismática de Lula, operário que chegou à Presidência da República. Essa identificação, segundo Aarão Reis (2007), pode ser responsável pela leitura autônoma que os indivíduos estão fazendo das notícias veiculadas pela grande mídia, buscando formar a imagem de um PT desmoralizado. O autor destaca os jornais O Globo e Folha de S. Paulo como sendo produtores de notícias que não podem ser chamadas de isentas ou objetivas.

Foi a dúvida e a identificação dos eleitores que levaram Lula para o segundo turno das eleições presidenciais de 2006, disputado com Geraldo Alckmin (PSDB). No primeiro turno, Lula obteve 48,6% de votos e Alckmin 41,63%. No segundo turno, surpreendentemente, Lula provou ter a confiança dos brasileiros, recebendo 61% dos votos, enquanto Alckmin caiu consideravelmente, ficando com 39% dos votantes (AARÃO REIS, 2007).

Lula encerrou o segundo mandato, em 2010, com 87% de aprovação, segundo pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística (Ibope). A continuação do governo petista ficou a cargo da ex-ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, apadrinhada de Lula. Até então, o que se sabia de Dilma é que ela havia lutado na ditadura militar e sido torturada pelo regime. A mineira de Belo Horizonte disputou as eleições de 2010, tendo como principal oponente José Serra (PSDB).

Dilma venceu as eleições no segundo turno, com 56% dos votos (José Serra obteve 45%). Mas logo no início do governo vieram os escândalos de corrupção na pasta de ministros, que resultaram nas demissões. A demissão dos ministros rendeu à Dilma o título de presidente que faz a “limpeza” da corrupção, tendo obtido boa aprovação dos eleitores.

4.3 História do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB)

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A fundação do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) foi uma resposta à insatisfação de alguns membros do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). O PMDB havia se originado do antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido que compunha com a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) o sistema bipartidário do período da ditadura, em vigor de 1965 a 1980, ano em que os militares extinguiram o bipartidarismo para instalar o sistema semipluripartidário.

Essas insatisfações decorriam do fato de haver diversos grupos com diferentes tendências dentro do PMDB de então. Essas tendências dentro do partido, enumera Guiot (2006), seriam:

a) o grupo dos “autênticos”, que atuava desde o fim da década de 60 com o objetivo do retorno do Estado de Direito e era constituído por políticos de várias tendências ideológicas; b) o grupo dos “históricos”, que atuavam no partido desde suas origens e eram ligados aos setores progressistas; c) o Movimento de Unidade Progressista (MUP), ala que se definia como à esquerda do partido e d) o “Centrão”, bloco suprapartidário afinado com os interesses do Palácio do Planalto e montado para ser um verdadeiro rolo compressor do empresariado no enfrentamento com as esquerdas em votações centrais e substantivas na Constituinte (GUIOT, 2006, p. 67).

A impopularidade do PMDB com a população devido ao fracasso dos planos econômicos Cruzado I, Cruzado II e Bresser, e as articulações de José Sarney para obter o apoio de parlamentares e militares com a distribuição de concessões de rádio e TV, contribuíram para a necessidade de haver um novo partido “limpo”. “A apresentação da candidatura de João Leiva para a prefeitura de São Paulo, fruto de uma aliança do PMDB com os políticos conservadores do PFL pode ser considerada a ‘gota d’água’ para o rompimento definitivo” (GUIOT, 2006, p.68). Nesse contexto surgiu, em 25 de junho de 1988, o Partido da SocialDemocracia Brasileira (PSDB).

Guiot (2006) destaca outras teorias para a criação do PSDB, além daquela que defende a insatisfação dentro do PMDB. Segundo o autor, a criação do partido poderia corresponder a uma necessidade de políticos não contemplados pelo governo de Sarney de entrar no mercado eleitoral. Nesse sentido, os intelectuais que fizeram parte da criação do PSDB tentaram fabricar um partido que satisfizesse as demandas sociais ainda não contempladas pelos

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partidos existentes e firma-se como o representante da tendência política predominante então nos Estados Unidos, França, Espanha e Portugal – o neoliberalismo.

O PSDB então se apresentou como um partido preparado para gerir a coisa pública, já que seus representantes eram pessoas preparadas para isso (intelectuais) e isso beneficiaria toda a população. Como afirma Guiot (2006) o perfil do partido o credenciaria, facilitaria e auxiliaria a penetrar na “brecha” existente, buscando um mercado eleitoral através de uma atuação pragmática, capaz de acenar claramente aos setores empresariais com um projeto de cunho “modernizador” e, ao mesmo tempo, às classes médias preocupadas com a ascensão dos movimentos sociais, representados pelo Partido dos Trabalhadores.

Guiot (2006) avalia o fato de os membros do PSDB aos poucos demonstrarem a verdadeira linha de orientação política do partido, prioritariamente neoliberal, em favor do capitalismo e de privatizações, incluindo de universidades públicas. No entanto, cabe ressaltar que a maioria dos membros do partido são graduados e pós-graduados em instituições públicas, com destaque para a Universidade de São Paulo (USP). Guiot (2006) ainda sinaliza que todos os membros fundadores do PSDB eram graduados e alguns deles estudaram fora do Brasil, principalmente nos Estados Unidos. Cabe destacar que vários desses indivíduos tiveram algum tipo de função em bancos.

Quando da sua criação, o PSDB levantou questões que impactavam todo o território nacional: a gestão burocrática e fisiológica do Estado. Os dirigentes do PSDB defendiam a “desprivatização” do Estado por uma gestão mais moderna e transparente. Privatização, nesse caso, dizia respeito ao clientelismo e favorecimentos que colocavam a coisa pública como meio de obtenção de desejos privados. A desestatização era uma bandeira defendida pelo partido, por significar a competição de empresas para a realização de funções públicas mais eficazes, que trariam, na sua opinião, benefícios para a população. Ao Estado caberia garantir a oferta de serviços básicos à população e influenciar o mercado quando fosse necessário. Seu projeto enfatizava a defesa do mercado global e competitivo como reza o liberalismo político, e aplaudia a entrada de capital estrangeiro na economia brasileira, como forma de garantir o desenvolvimento da tecnologia e da indústria. O desenvolvimento do mercado seria a solução dos problemas da miséria e da má distribuição

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de renda, segundo o plano do PSDB. Por isso mesmo, desde o início da sua criação, o partido é contra medidas chamadas de “paternalistas”, que presumem a distribuição de renda antes do desenvolvimento da economia.

Mas apesar disso, o PSDB, tendo Fernando Henrique Cardoso como figura mais importante, trabalhava com a população brasileira a ideia de que o partido fazia parte de uma nova esquerda, preocupada com o crescimento do país, mas reformulada por tendências que fugiam do totalitarismo, do paternalismo e do radicalismo da velha esquerda.

Para possibilitar o crescimento do país e garantir a redução da miséria e a inflação que assolava a economia na década de 1980, o PSDB elaborou programa capaz de solucionar a crise do Estado: a) ajustamento fiscal duradouro; b) reformas econômicas orientadas para o mercado; c) reforma da previdência social; d) inovação dos instrumentos de política social (via setor público não-estatal) e, por último, e) a reforma do aparelho do Estado (GUIOT, 2006, p. 139).

4.4 Folha de S. Paulo e a tradição da cobertura política

O que viria a ser futuramente o jornal Folha de S. Paulo teve início em 1921, com a criação do jornal Folha da Noite, fundado por Antonio dos Santos Figueiredo, Mariano Costa, Ricardo Figueiredo, Olival Costa e Pedro Cunha. Na primeira edição da Folha da Noite, Júlio de Mesquita, ainda jornalista do Estado de S. Paulo (futuramente diretor do impresso), escreveu o editorial apresentando o novo vespertino como sendo ideologicamente “oportunista” (TASCHNER, 1992, 41), já que não havia uma linha editorial pré-estabelecida. Oportunista, segundo justifica Mesquita, porque não pretendiam incrustar na memória dos leitores ideias do passado. E assim fez o jornal. Agarrado a determinadas ideologias da década de 1920, a Folha da Noite se posicionou de diversas maneiras com relação à política oligárquica paulista, que combatia, mas, quando São Paulo perdeu a hegemonia política, prejudicada pela revolução de 1930, o jornal não apoiou a revolução. O lucro da Folha da Noite tinha possibilitado a criação de um novo segmento para o vespertino em 1925 - a Folha da Manhã - uma espécie de

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complemento para o primeiro. Taschner (1992) lembra que os cinco envolvidos no projeto inicial, citados acima, nunca ganharam dinheiro com o jornal. Esse é um paradoxo do novo sistema de informação – jornal produzido por jornalistas assalariados que não recebiam salário e empresários que não tinham capital. Isso talvez explique o porquê de restarem somente Olival Costa e Pedro Cunha, quando da criação da nova Folha.

Por outro lado, as Folhas trazem características importantes, quando se pensa em conjunto o processo que desembocou em uma imprensa de indústria cultural: a preocupação de atingir um público de composição social heterogênea, a publicação de mais de um título de jornal pela mesma empresa, a busca de uma feição mais leve e digestiva para a mensagem da Folha da Noite, a seção de esportes, a feminina, o tratamento novelesco de alguns fatos, traços que ganhariam maior relevância na imprensa com o correr do tempo, embora nem sempre nos mesmos tipos de jornal. Mas o caminho das Folhas nessa direção não seria linear (TASCHNER, 1992, p. 49).

O Movimento de 1930 e a vitória da Aliança Liberal fechou esse primeiro ciclo das Folhas, suspensas e, logo depois, vendidas para outros proprietários, após seu empastelamento. Em 20 de janeiro de 1931, o nome da empresa foi alterado para Empresa Folha da Manhã Ltda. e formada por nova diretoria com Alves de Lima, Diógenes de Lemos Azevedo, Guilherme de Almeida e Rubens do Amaral, que permaneceria até 1945.

Alves de Lima era cafeicultor e viu nas Folhas uma possibilidade de defender os interesses da “lavoura”, como foi anunciado por ele no editorial de apresentação. E assim a Folha da Noite e a Folha da Manhã foram espécies de tribunas de defesa dos interesses agrários, da industrialização do campo e contra o protecionismo do Estado no mercado nacional, como nos moldes liberais. Neste período as Folhas deixaram de lado temas populistas e urbanos, tendo demonstrado explicitamente preconceito contra esses temas, além de serem contra a urbanização e a população operária.

A publicação dos jornais se expandiu para o interior do estado de São Paulo. Pôde-se verificar também um desenvolvimento gráfico e um crescimento de notícias internacionais, ocasionados pela necessidade de preencher espaços antes dedicados à política, tema censurado pela ditadura Vargas. Como destaca Taschner (1992), por não ter conseguido a atenção do governo para os problemas do campo, Alves de Lima abdica do jornal e da função

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de jornalista em 1945, passando os jornais para um novo grupo, ainda ligado à agricultura e agora, também, à pecuária.

A nova diretoria, do ano de 1945, era composta por José Nabantino Ramos, Clovis Queiroga e Alcides Ribeiro Meirelles. Taschner (1992) confirma um crescente aumento do capital da empresa após a nova mudança de posse que passou de 2 para 10 milhões de cruzeiros. Três anos depois pulou para 40 milhões e, em 1950, já atingia 100 milhões de cruzeiros. Nabantino foi o responsável pelo complexo desenvolvimento das Folhas. Primeiramente houve a mudança das antigas instalações físicas para um prédio próprio. Construído exclusivamente para receber a redação, administração, publicidade e o novo parque gráfico, em 1953. Em 1947, Nabantino fundou a gráfica Impres, que seria responsável pela impressão dos jornais Folha da Noite e Folha da Manhã e depois também livros.

A antiga Rádio Excelsior foi comprada pela empresa em 1948, mas, já em 1952, os vínculos foram cortados. A administração Nabantino consolidou a ideia de empresa prestadora de serviços jornalísticos, o que fica claro com o Programa de Ação para as Folhas, elaborado em 1948. Ao mesmo tempo, há uma maior preocupação com a imparcialidade, a objetividade e a veracidade da informação. Nesse período, os diretores afirmavam a desvinculação do jornal com a política ou com qualquer partido, mesmo estando ligados ao setor agrário e pecuário.

A democracia foi uma das principais bandeiras defendidas pela empresa, na medida em que somente por ela uma empresa capitalista poderia se desenvolver, como lembra Taschner (1992). Segundo a autora, a concepção das Folhas como empresa, que visa ao lucro, foi também claramente assumida por seus diretores nessa fase, ao declararem que “nada justifica que a indústria jornalística opere em bases de lucro inferiores às normais” (TASCHNER, 1992, p.67).

Mesmo apresentando-se apartidários, Taschner (1992) estuda o Programa de Ação das Folhas onde está implícita e também explícita a posição política liberal. Na fase Nabantino, a empresa demonstra traços democráticos, intervencionistas e pós-liberais (TASCHNER, 1992, p. 70).

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Como demonstra Taschner (1992) a empresa defendia a organização de um Estado federativo “com separação e harmonia de poderes, sufrágio universal e secreto, garantia da livre iniciativa, direito à vida, à propriedade, à liberdade, à opinião, à reunião, à locomoção, à educação, etc. (TASCHNER, 1992, p. 70).

Ao mesmo tempo, nos quadros de um capitalismo selvagem como o brasileiro, em que as contradições de classes tendem a tornar-se objetivamente mais agudas, e num momento histórico em que as classes populares ganham mais peso político, a direção do jornal vê na ‘progressiva socialização da vida’ uma tendência inexorável e se preocupa em resguardar o capitalismo de uma transformação pela força. Procura, ainda que de modo vago e até contraditório, defender princípios que minimizem os efeitos mais perversos da desigualdade social: daí o discurso de ‘combate a todas as formas de exploração do povo’, da ‘progressiva melhoria da condição dos funcionários públicos e trabalhadores em geral (...) para haver verdadeira paz social’, da necessidade de o Estado proteger ‘os menos capazes’, em nome da ‘dignidade humana’ (TASCHNER, 1992, p.72).

A era Nabantino durou até 1962, após crescentes dificuldades financeiras pelas quais passavam as Folhas e a Impres. Antes que isso ocorresse, o empresário decidiu mesclar o nome dos três títulos que mantinha: a Folha da Manhã, a Folha da Tarde (criada em 1949) e a Folha da Noite para simplesmente Folha de S. Paulo, em 1960 – como o jornal era conhecido no interior do estado - mantendo duas edições, a matutina e a vespertina.

As dificuldades geradas pela recessão e a inflação que tomavam conta do país, somadas à dificuldade de importação de papeis, fez com que os lucros das Folhas se reduzissem a cada ano. Esses fatos contribuíram para que Nabantino decidisse vender o jornal e a gráfica Impres em 13 de agosto de 1962 a Otávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho por 1,5 bilhão de cruzeiros antigos. Taschner (1992) lembra que foi com Frias de Oliveira e Caldeira Filho que o processo de produção e distribuição da Folha de S. Paulo assumiu perfis inteiramente industriais e capitalistas. Os dois empresários transformaram o jornal em um conglomerado de comunicação, sem o qual não seria possível sem a existência de uma ditadura militar que apoiava primordialmente o empresariado e a burguesia capitalista. A recessão também foi crucial para a formação do conglomerado. Como lembra Taschner (1992) o final da década de 1950 e início de 1960 foram períodos de quebra de empresas e endividamentos. Isso fez com

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que muitos jornais e empresas consolidadas no ramo da comunicação vendessem seus títulos a preços irrisórios.

Aproveitando essa situação, Frias e Caldeiras adquiriram a Folha da Manhã S.A e a Impres em 1962, a Companhia Lithographica Ypiranga, em 1964, os jornais Última Hora e Notícias Populares, em 1965 e a Fundação Cásper Líbero, em 1968, responsável pela edição dos jornais A Gazeta e Gazeta Esportiva.

A partir da formação do conglomerado, Frias e Caldeiras trabalharam para concentrar a equipe de todos os jornais na sede da Folha de S. Paulo para utilizar o mesmo maquinário e a mesma rede de distribuição. Houve um intenso processo de redução de mão de obra consequência, principalmente, da criação da Agência Folha, em 1967. Com a Agência, foi possível dispor de um único jornalista e fotógrafo nos diversos cantos onde havia uma notícia a ser coberta. A Agência alimentava todos os jornais: a Folha de S. Paulo, o Notícias Populares, o Última Hora e as Gazetas.

Ao terem diversos jornais produzidos pela mesma equipe, os empresários correram o risco de manterem diversos títulos com o mesmo conteúdo. Pensando nisso, Frias e Caldeiras tentaram manter cada jornal com a característica própria da sua criação. Isso possibilitou que os diversos nomes alcançassem diferentes segmentos, tendo cada um dos jornais um papel e um posicionamento específico assumido entre o início e o fim da ditadura. É aí que se perde a própria ideia de jornal politicamente engajado, uma vez que Frias e Caldeiras utilizaram cada um dos jornais para assumir deliberadamente os desejos latentes na sociedade brasileira do durante e do pós-ditadura militar.

Isso foi expresso mais significativamente com o retorno do jornal Folha da Tarde, em 1967. Visando atingir os grupos que protestavam contra a ditadura, o jornal manteve-se engajado com a esquerda, mas, cedo demais, como os próprios diretores assumiram em entrevista a Taschner (1992). Ao verem o erro, representado nas baixas vendas do jornal, o grupo decidiu inverter a posição do periódico, que se colocou em favor dos militares e da direita política a partir de 1969. Resultado: crescimento nas vendas avulsas. Taschner (1992) transcreve trecho

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da entrevista concedida pelo então diretor industrial e administrativo da Folha da Manhã S.A., Pedro Pinciroli Jr., em setembro de 1981, que demonstra a preocupação dos donos do jornal na época.

Hoje, como administradores de jornal, temos que ter vários olhos: temos que manter um olho no governo, um olho em recursos humanos, um na tecnologia, um no mercado, um no concorrente, enfim o administrador tem que ser muito rápido em adaptar-se às novas posições que são dadas no mercado. Estas variações são constantes e é difícil planejar muito tempo para frente, porque hoje o governo se coloca de uma maneira, daqui a duas semanas vem um outro ministro e contradiz tudo o que o anterior falou, então esta flexibilidade é importantíssima... (TASCHNER, 1992, p. 121)

Taschner (1992) avalia essa prática dos diretores da Folha de S. Paulo no que diz respeito à diferenciação dos produtos vendidos.

A diferenciação de produtos em função de orientações políticas foi o coroamento do processo pelo qual o novo complexo empresarial se construiu e consolidou. Acatando a censura sem protestos, alternando os produtos que ativavam e que desativavam, usando um para radicalizar a orientação da mensagem do outro, ora para a esquerda (dentro dos marcos de uma postura capitalista), ora para a direita; jogando sempre dos dois lados nos momentos em que o contexto político se apresentava mais opaco, Frias e Caldeira destruíram qualquer concepção que ainda remanescesse sobre a suposta missão da imprensa, assim como o último elo pessoal que ligara Nabantino a seus jornais. O predomínio inconteste da lógica empresarial e as características específicas do contexto no qual atuaram levaram-nos a montar um aparato através do qual pudessem sempre minimizar os riscos do empreendimento e tirar proveito da direção dos ventos, qualquer que fosse ela (TASCHNER, 1992, p.199).

Na década de 1980, a Folha de S. Paulo era o jornal de maior circulação nacional. Em 1983, o jornal era o primeiro da América Latina a ter toda redação informatizada. No mesmo ano, foi criado o instituto de pesquisas de opinião pública Datafolha. Em 1984, o processo de redação de matérias também ganha uma ferramenta de sistematização, com a criação do Manual de Redação. Durante a segunda metade da década de 1980, segundo informações do portal da Folha de S. Paulo, o jornal lançou um novo projeto gráfico, cuja preocupação estaria focada na publicação de matérias exclusivas e novas técnicas visuais.

Já na década de 1990, ainda segundo dados do portal da Folha de S. Paulo, o jornal se destacou por ter sido o primeiro a pedir o impeachment de Fernando Collor, em 1991. A Folha mantinha a liderança nas vendas avulsas de jornais e ganhava o título de detentora do

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maior parque gráfico da América Latina. Em 1996 é lançado o portal Universo Online (UOL), que no mesmo ano foi unificado com o Brasil Online, do Grupo Abril. Em 1997 o UOL já tinha número de acessos superior aos de sites de notícias americanos, como o CNN. O Universo Online foi premiado como a “Empresa mais admirada do Brasil” e como melhor site e provedor de internet, em 1999. Em 1999, o jornal Folha da Tarde era substituído pelo novo jornal Agora. No ano 2000 o Grupo Folha se associa ao Infoglobo Comunicações, que edita o jornal O Globo, para lançar um novo periódico, publicado em maio, o jornal Valor Econômico.

4.5 O embate Folha de S. Paulo e Antonio Palocci

Para analisar a cobertura do escândalo político que derrubou o ex-ministro chefe da Casa Civil do governo Dilma Rouseff, Antonio Palocci, o material empírico a ser utilizado será o conteúdo de gênero informativo e opinativo (matérias, entrevista e editoriais) publicados no jornal Folha de S. Paulo. A escolha do jornal se justifica por ter sido responsável por trazer o caso à tona.

Para fim de obter as respostas mais aproximadas sobre o envolvimento da Folha de S. Paulo na queda do ex-ministro, a metodologia de análise a ser utilizada será a Análise do Discurso, baseada nos estudos de Charaudeau (2006 e 2008), e demais autores utilizados no embasamento teórico.

As matérias informativas, a entrevista e os editoriais da Folha de S. Paulo selecionados para análise foram publicados entre os dias 15 de maio de 2011, data da revelação do caso Palocci pelo jornal, e 08 de junho de 2011, dia em que o jornal informou a demissão do ministro, num total de 25 dias. Foram encontradas 40 inserções relacionadas ao caso. O corpus da pesquisa é composto por uma entrevista, seis editoriais e 33 notícias. Abaixo está listado o esquema com a data de publicação e o título da entrevista, dos editoriais e das matérias informativas publicadas pelo jornal, a serem analisados.

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TABELA 1 – Matérias da Folha de S. Paulo analisadas Data Edit. 15/05/2011 16/05/2011 17/05/2011 Not. x x x x Ent. Título -Palocci multiplicou por 20 patrimônio em quatro anos -Oposição e OAB cobram Palocci sobre patrimônio -Comissão de Ética afirma que Palocci não informou bens -Para Planalto, assunto “está encerrado”

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18/05/2011 x 19/05/2011 20/05/2011 21/05/2011 22/05/2011 23/05/2011 24/05/2011 25/05/2011 26/05/2011 x 27/05/2011 28/05/2011 x 29/05/2011 30/05/2011 31/05/2011 01/06/2011 02/06/2011 x 03/06/2011 04/06/2011 x 05/06/2011 06/06/2011 07/06/2011 08/06/2011 x

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-Palocci justifica patrimônio citando ex-ministros de FHC -Olhar cuidadoso -Governo manobra e barra convocação de Palocci pela Câmara -Empresa de Palocci faturou R$20 mi no ano da eleição -Empreiteira com negócios públicos contratou Palocci -Empresa de Palocci faturou R$ 10 milhões em apenas dois meses -Planalto define estratégia contra crise -Pena mais dura para riqueza ilícita -Palocci deu verba para projeto de cunhada -Dinheiro para empresa no fim do ano é muita ‘coincidência’, diz OAB. -Estrelas do PT defendem Palocci para esfriar crise -Gabinete de Palocci violou sigilo de caseiro, diz Caixa -Governo acusa prefeitura de vazar dados -Sob pressão, Dilma faz concessões ao Congresso -Pelo interesse public -Procuradoria abre investigação sobre os bens de Palocci -Dilma indica confiança em Palocci e ataca ‘politização’ -Advogado de Palocci diz que investigação é ‘ilegal’ -Lula e Dilma -Temer afirma que elevou o tom de voz com Palocci -Governo faz esforço para conter crise no Congresso -Aliados cobram mais poder de decisão do governo Dilma -Senadora petista defende saída de Palocci do governo -Novo revés no Congresso agrava situação de Palocci -O segredo de Palocci -Sob pressão, Palocci promete romper silêncio e se explicar -Presidente diz que não será “refém do medo” -Dilma já discute como será governo sem Palocci -“Não entrei em detalhes com a presidente” -Palocci desconversa -Dilma ouvirá Lula antes de decidir futuro de Palocci -Mercado passa ao largo da crise política -Medo de desgaste amplia pressão para afastar Palocci -Procurador livra Palocci de investigação criminal -Dilma demite Palocci e muda governo após cinco meses -Dilma após Palocci

4.5.1 O contrato de comunicação entre a Folha de S. Paulo e os leitores

A Folha de S. Paulo é um conglomerado de comunicação, parte do sistema capitalista, e que preza pelo lucro de seu jornal e demais empresas. A Folha defende o neoliberalismo e tende a apoiar os partidos políticos que defendem essa bandeira. Mas para manter uma boa posição no mercado, a empresa precisa vender também uma imagem de jornal imparcial, transparente,

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objetivo, apartidário e que vende notícias “não pedidas”, mas atualizadas e de interesse público. Então, o leitor que quiser se atualizar e se preocupar com o que se passa na sociedade tende a ler a Folha de S. Paulo. Definidas identidade e finalidade dos sujeitos, o propósito da comunicação desse jornal será composto por temas exclusivos, de interesse público e, porque não dizer, de interesse do público. O dispositivo é o jornal impresso, o papel, que tem atualmente tiragem diária em torno de 300 mil exemplares. Compreendido o contrato de comunicação, iremos analisar o corpus de pesquisa com base nos critérios de credibilidade e captação (dramatização), os discursos circulantes e os níveis de engajamento das fontes apresentados no jornal.

As 40 matérias foram analisadas cronologicamente, seguindo as quatro semanas de duração do caso. O esquema a ser seguido então será: semana 1, de 15 de maio a 21 de maio; semana 2, de 22 de maio a 28 de maio; semana 3, de 29 de maio a 04 de junho e semana 4, de 05 de junho a 08 de junho.

Semana 1: Critérios de credibilidade

A Folha de S. Paulo trouxe manchete no dia 15 de maio de 2011 (ver Anexo 1) que informava “Palocci multiplica por 20 seu patrimônio em quatro anos”. A matéria ocupou a primeira página da editoria Poder, destinada aos assuntos políticos. O próposito da matéria é que o então ministro chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, havia adquirido um apartamento de luxo de R$ 6,6 milhões, em 2010. Em 2009, ele havia comprado um escritório no valor de R$ 882 mil. Os imóveis estavam em nome da Projeto, empresa da qual ele era possuidor de 99,9% do capital. A matéria informa que nos quatro anos em que Palocci foi deputado federal (2006 a 2010), o salário total bruto do ex-ministro foi de R$ 974 mil. Foi assim que o jornal entendeu e afirmou que “a quantia é insuficiente para pagar os dois imóveis que ele adquiriu”, que já haviam sido quitados. A Projeto Consultoria Planejamento e Eventos Ltda. havia sido criada duas semanas depois de Palocci ter declado bens à Justiça Eleitoral, em 2006, conforme apurou o jornal.

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Os dados utilizados pela Folha de S. Paulo para comprovar a existência dos imóveis foram: fotocópias do registro dos imóveis; relação de bens que Palocci declarou à Justiça Eleitoral em 1998 e 2006; registros da Junta Comercial, fotos e mapas com a localização dos imóveis; o jornal alega ter ido duas vezes à sede da Projeto e não encontrou indícios de funcionamento de uma empresa ali. Não havia placa na porta da sala e nem havia identificação da empresa na recepção do edifício. A sala estava fechada nas duas vezes em que procuraram a empresa. Uma funcionária da Projeto, que não foi identificada, alega não saber o que a empresa faz. Ela afirma que a Projeto não é administração de imóveis. Além disso, o jornal quis saber os lucros da Projeto, quais os clientes atendem e quais eram as atribuições de Palocci na empresa. Perguntas que não foram respondidas pela assessoria da Projeto.

Após três páginas de anúncios publicitários e com menor destaque, vem a resposta de Palocci. O ex-ministro alegou que os dois imóveis estavam registrados em nome da Projeto e foram adquiridos com recursos que a empresa recebeu no período em que atuou como consultoria. Palocci alegou que havia informado à Comissão de Ética da Presidência da República todas as informações sobre a Projeto e as propriedades que a empresa tem. Afirmou que a empresa foi criada como consultoria financeira e econômica, mas, as atividades de consultoria foram encerradas em dezembro de 2010, antes de assumir a Casa Civil, como estava registrado na Junta Comercial de São Paulo. Palocci afirmou ainda que desde que assumiu o cargo no governo Dilma Rousseff ele não realiza nenhuma atividade relacionada à empresa. Não foi utilizado nenhum documento que comprovasse a veracidade das informações de Palocci.

A Folha de S. Paulo deu manchete no dia 17 de maio de 2011 com declarações da Comissão de Ética da Presidência de que Palocci não havia informado a evolução dos bens nos últimos anos. O jornal ouviu diretamente o presidente da Comissão, Sepúlveda Pertence. O jornal deu ênfase a essa informação, e ainda usou a expressão “derruba informação da assessoria” para dar uma ideia de informação desmentida. Mas Sepúlveda também disse que não investigaria os bens de Palocci porque foram adquiridos antes da posse na Casa Civil. Ele mesmo recomendou Palocci a mudar a razão social da empresa para administradora de imóveis, pouco antes da posse no ministério, em 2011.

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Essas informações que ajudavam Palocci tiveram pouca ênfase, junto com a informação da Controladoria Geral da União que reforçava o argumento da Comissão de Ética de que não investigariam a evolução dos bens de Palocci, por se tratar de época anterior a posse. Para reforçar a dúvida, foi ouvido um professor de direito da Fundação Getúlio Vargas que questiona se Palocci usava o mandato para vender serviços.

A manchete do dia 18 de maio “Ex-ministro vale muito no mercado, diz Palocci” é um exemplo de enquadramento que o jornal deu à nota que a assessoria da Casa Civil enviou aos deputados e senadores para explicar o que estava ocorrendo. A Folha de S. Paulo condensou em três colunas a nota enviada, citando as partes “principais” do documento. As partes principais usadas são aquelas em que Palocci cita integrantes do PSDB que haviam saído do governo e prestado consultoria privada. O jornal diz que a Casa Civil “justificou o aumento do patrimônio do ministro Antonio Palocci lembrando ex-ministros da Fazenda e expresidentes do Banco Central que se tornaram ‘banqueiros’ e ‘consultores de prestígio’ depois de passar pelo governo”. O jornal cita os políticos que trabalharam para FHC para reforçar que Palocci estava ameaçando de alguma forma o partido de oposição. A nota possui oito itens e Palocci cita os políticos em apenas um ítem. Nos demais sete itens ele explica que passou todos os dados da consultoria para os órgãos de controle e ainda cita que não há proibição legal para a atividade de consultoria exercida por parlamentar. A nota foi publicada na parte inferior da página abaixo da síntese que o jornal fez, que deu um enquadramento `a informação. A partir do dia 19 de maio o jornal deixa claro a sua posição no “conflito”. No dia 20 de maio o jornal deu a manchete “Empresa de Palocci faturou R$ 20 milhões no ano da eleição”. Duas fontes não identificadas informaram para o jornal que a Projeto havia faturado R$ 20 milhões em 2010, período que Palocci era deputado federal e coordenador da campanha de Dilma Rouseff à Presidência. O jornal confirma que com essa quantia era possível adquirir os dois imóveis, que juntos somavam mais de R$ 7,5 milhões. A Projeto não confirmou se os dados estavam corretos, mas sim que a empresa obteve faturamento superior em 2010 em relação a 2006 (ano em que obteve R$ 160 mil), devido ao crescimento dos clientes ano a ano e devido às negociações decorrentes do fim das atividades de consultoria, que implicaram a quitação antecipada pelos serviços prestados. A empresa

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reiterou que pagou todos os tributos para os órgãos fiscais e que sempre agiu dentro da legalidade. A Projeto continuou se negando a passar os dados dos clientes devido à cláusula de confidencialidade entre as partes. A Folha de S. Paulo confirmou que a legislação brasileira permite que parlamentares mantenham atividade de consultoria, mesmo durante o exercício do mandato, mas que a lei prevê sanções para parlamentares que defenderem interesses de clientes em sua atuação no Congresso. O jornal fez uma pesquisa e constatou que o faturamento de R$ 20 milhões está no patamar das maiores consultorias econômicas do país. O jornal diz em outra notícia do mesmo dia que a empreiteira WTorre havia solicitado os serviços da Projeto e que a empresa tem contratos com fundos de pensão de estatais e com a Pretrobrás. O jornal não citou fonte de informação. Diz ainda que a WTorre doou recursos para a campanha de Palocci, em 2006 e para a campanha de Dilma Rouseff à presidência, também não cita fontes de informação. A WTorre responde que contratou a Projeto para prestar serviços de consultoria “num assunto corporativo” sobre o qual a empresa não quis se manifestar. A Projeto e Palocci não foram ouvidos quanto à questão WTorre. No dia 21 de maio o jornal deu a manchete “Em 2 meses, após a eleição, Palocci faturou R$ 10 milhões” explorando em mais um dia a “descoberta” do faturamento da Projeto. Desta vez, as mesmas fontes não identificadas disseram que a empresa de Palocci faturou R$ 10 milhões em novembro e dezembro, após a eleição de Dilma. O jornal ouviu o professor da Fundação Getúlio Vargas, Carlos Sundfeld, que afirmou que o enriquecimento sem justificativa pode ser enquadrado no crime de improbidade administrativa, mesmo que não se consiga descobrir o real motivo do recebimento dos recursos. O jornal repetiu as mesmas justificativas dadas por Palocci no dia anterior.

Semana 1: Estratégias de captação De 15 a 17 de maio, a Folha de S. Paulo não utilizou estratégias de captação. Priorizou o fator insólito da informação, a credibilidade e a objetividade. As imagens e os textos foram sóbrios

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nesse período. A partir de 18 de maio, o jornal ofereceu estratégias de sedução pelo editorial, o primeiro da série de reportagens. O editorial “Olhar cuidadoso” apelou para o fato de que “chama a atenção em qualquer parte uma transação imobiliária de R$ 6,6 milhões em apenas duas parcelas”. O jornal interpelou o leitor para a questão de que “vários princípios republicanos palmares não gozam de plena vigência no Brasil”. Tentou dar uma solução para o problema: “o Ministro da Casa Civil só precisa vir a público para deixar patente que essa atividade paralela ao mandato parlamentar não envolvia nenhum conflito de interesses”. A partir de 19 de maio, o jornal se tornou mais “sedutor”. O uso de fotos sugestivas (ver Anexo 1) e infográficos simplificadores do caso começaram a ser usados. Os títulos se tornaram mais acusativos. Nesse dia, o título da matéria foi “Governo manobra e barra convocação de Palocci pela Câmara”, passando a ideia de um governo que tenta blindar o acusado de enriquecimento. O infográfico “Base aliada a postos” também sugere a posição do jornal sobre o caso na medida em que mostrava os votos da base aliada do governo contra a convocação de Palocci para dar explicações na Câmara. O jornal publicou fotos de deputados da oposição que votaram a favor da convocação, como se fosse um prêmio pelo ato heroico. A Folha também publicou fotos dos cartazes pendurados pela oposição com os dizeres “Blindagem do Palocci”. No dia 20 de maio o jornal publicou infográfico (ver Anexo 1) que demonstrava o faturamento de R$ 20 milhões da Projeto. Um pilar no meio da página da matéria, que ocupava quase toda a página, mostrava o faturamento da empresa em 2006 (R$ 160 mil) e em 2010 (R$ 20 milhões). O espaço destinado ao faturamento de 2010 ia até o alto da página e dizia “Empresa de Palocci faturou alto no ano da eleição presidencial”. Estrategicamente, foi colocada uma foto de Palocci ao lado do pilar com uma expressão de apreensão. No mesmo dia foi publicada uma retrospectiva do caso Palocci, com o nome “o dia a dia da crise” dando uma continuidade às matérias, como em uma série novelesca.

Semana 1: Discursos circulantes Na primeira semana, os discursos que circularam no jornal para explicar o caso deram ênfase à oração “Palocci multiplicou patrimônio em 20 vezes durante 4 anos”. A passagem foi

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repetida seis vezes na semana. Para explicar quem era Palocci no governo, o jornal utilizou os discursos “o cargo mais importante do governo Dilma Rousseff”, “principal articulador político” e “um dos homens mais fortes do governo Dilma”. A Folha lembrou do caso Francenildo Costa, desde o primeiro dia da série de matérias. O caso foi citado quatro vezes durante a semana. O jornal só explicou que Palocci foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, em 2009, no dia 21 de maio. Os discursos circulantes que embasaram os argumentos contra Palocci, foram “conflito de interesses” (repetido 8 vezes durante a semana), “dinheiro não nasce no chão” e “tráfico de influência”. O jornal utilizou os discursos “vamos para frente”, “governo decide enterrar caso” e “manobra da base governista” para demonstrar a posição do governo em relação ao caso. A Folha de S. Paulo interpelou o leitor, utilizando as expressões “opinião pública”, “princípios republicanos” e “vigilância sobre a coisa pública”. Palocci se defendeu principalmente utilizando o discurso “tributos devidos”. As consequências que a denúncia provocou no governo durante a semana são representadas pelos discursos circulantes “crise” (citado pela primeira vez no dia 19 de maio e repetido 7 vezes até o final da semana) e “estratégia contra a crise”. A transformação do caso em série novelesca acontece a partir do dia 19 de maio e é representada pelas expressões “caso Palocci” (repetido 2 vezes) e “os negócios do ministro” (repetido 2 vezes). Semana 1: Engajamento das fontes Em seis matérias, a Folha de S. Paulo apresentou engajamento convicto, o mesmo apresentado no editorial do dia 18 de maio. Percebemos isso quando o jornal deixou de apresentar declarações em contrário ao que estava sendo dito e na prevalência do uso do presente do indicativo na acusação a Palocci, ao invés do futuro do pretérito, normalmente usado na linguagem jornalística e científica, para demonstrar dúvida quanto às acusações que estavam sendo feitas. No lugar, há a certeza de que as informações que estão oferecendo são verdadeiras. O jornal não se distanciou quando apresentou provas de que Palocci havia enriquecido em um período curto de tempo, de maneira que a informação parecesse irrefutável, prática perigosa no jornalismo e na ciência.

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Nas demais matérias (quatro) a objetividade foi mais evidente. Em três delas, as manifestações de Palocci e da Projeto (que apareceram em quatro notícias publicadas) foram de engajamento convicto e um evidente, demonstrando a falta de documentos e de evidências oferecidas pelo ex-ministro em sua defesa. O leitor teve que confiar na informação do acusado de que ele havia exercido práticas legais de consultoria econômica, quando era deputado federal. Os aliados do governo, na semana, demonstraram convicção na defesa de Palocci, mostrando confiança na inocência e na competência do ministro. Outros (três) mostraram-se perplexos com as acusações contra o ministro, fazendo acusações contra a oposição e contra o peso das acusações, como se a evidência de que ele fosse inocente fosse algo primário e irrefutável. Lula e Dilma não se manifestaram durante toda a semana.

O engajamento da oposição foi principalmente evidente, na medida em que se mostravam certos de que o governo blindava Palocci para que ele não se explicasse. José Serra estava certo de que Palocci se explicaria (evidente). Uma vez DEM, PPS e PSDB mostraram-se distantes pela dúvida que apresentaram quanto ao enriquecimento de Palocci, propondo uma investigação antes de fazerem críticas.

Semana 2: Estratégias de credibilidade

No dia 22 de maio a Folha de S. Paulo noticiava que Palocci havia doado R$ 250 mil, em 2008, para a Fundação Feira do Livro de Ribeirão Preto, na qual sua cunhada, Heliana da Silva Palocci, era vice-presidente. O jornal não informou a fonte da informação. O propósito da matéria era que a Lei de Diretrizes Orçamentárias veda a destinação de recursos a entidades privadas dirigidas por parentes de agentes públicos dos três poderes. Para confirmar isso, o jornal ouviu o chefe da Consultoria de Orçamento da Câmara, Wagner Figueiredo. Ele afirmou que cunhado é parente, de acordo com o novo Código Civil.

Pela assessoria de imprensa, Palocci disse que apoiou o projeto porque a feira “é uma das quatro mais importantes do Brasil e uma das maiores feiras a céu aberto do mundo”. Palocci disse que cabia ao Ministério do Turismo analisar a transferência da verba. O Ministério do Turismo respondeu que a Fundação passou pela análise da pasta “que considerou que a proposta satisfazia às exigências técnicas e legais”.

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No dia 25 de maio, a Folha publicou a matéria “Gabinete de Palocci violou sigilo de caseiro, diz Caixa”. A Caixa Econômica Federal acusava pela primeira vez Palocci de ter sido o responsável pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. O jornal transcreve trechos do recurso que o banco solicitou à Justiça. A Caixa foi condenada pela Justiça Federal de Brasília a pagar indenização para o caseiro e tentava se livrar da culpa alegando que Palocci, como Ministro da Fazenda na época, é que tinha o poder de mando no banco, e não o contrário. O advogado do caseiro foi ouvido. Palocci respondeu, pela assessoria de imprensa da Casa Civil, que não sabia da ação judicial para o pagamento de indenização por danos morais ao caseiro. O ministro afirmou que o episódio do caseiro foi analisado pelo Supremo Tribunal Federal, que rejeitou definitivamente a denúncia e encerrou o processo. No dia 27 de maio o jornal deu a seguinte manchete: “Ministério Público decide investigar ganhos de Palocci”. O jornal ouviu o Procurador da República, José Rocha Júnior. Ele alegou que Palocci não apresentou publicamente justificativas que permitissem aferir compatibilidade dos serviços prestados com os valores recebidos. O jornal publicou informação passada por algum membro presente em um almoço entre Palocci e os senadores do PT em que explicava a atuação da Projeto. Palocci disse aos senadores que a Projeto recebia taxa de sucesso nos negócios que ajudava a viabilizar. A empresa fazia palestras e seminários, análise econômica e de risco e aconselhamento em negócios como investimentos e fusões. Explicou novamente que encerrou contratos com empresas antes de assumir a Casa Civil e transformou a empresa em administradora de imóveis, por orientação do Conselho de Ética da Presidência. O ministro afirmou que não revelaria o nome dos clientes e disse que nunca fez lobby para empresas, aproveitando sua posição política. Palocci ainda não apresentou nenhum documento que comprovasse sua defesa. No dia 28 de maio o advogado de Palocci, José Roberto Betochio, afirmou que a investigação da Procuradoria da República do Distrito Federal era ilegal. A Folha alegou que a Procuradoria entendeu haver indícios suficientes para abrir investigação preliminar para averiguar suposta improbidade administrativa. A Procuradoria havia solicitado documentos à Receita Federal e à Projeto, enquanto o procurador geral da União, Roberto Gurgel, havia se “limitado” a pedir explicações a Palocci. A Procuradoria-Geral informou que os procuradores de primeira instância têm sim competência para investigar o caso. O jornal ouviu a

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Associação Nacional dos Procuradores da República e Álvaro Dias (PSDB) que estava colhendo assinaturas para abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito contra Palocci. Semana 2: Estratégias de captação O jornal utilizou estratégias de captação durante toda a semana. No dia 22 de maio, na matéria “Pena mais dura para riqueza ilícita empaca no Congresso” (ver Anexo 1) o jornal utilizou gráficos que resumiam leis de punição contra improbidade administrativa e uma linguagem apelativa para o leitor, interpelando o interlocutor para a necessidade de leis mais rígidas como na passagem “se o projeto tivesse sido aprovado, casos como o do Ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, poderiam ser analisados sob a ótica de uma lei mais rigorosa”. No mesmo dia, na matéria “Palocci deu verba para projeto de cunhada”, foram utilizadas fotos sugestivas de Palocci piscando e de Helena Palocci rindo, como se estivessem debochando do leitor. O jornal faz um quadro intitulado “Raio X” relatando o histórico do ministro no governo e os percalços pelos quais havia passado até aquele momento no governo. No dia 24 de maio na matéria “Integrantes fortes do PT defendem Palocci para esfriar crise” (ver Anexo 1), o jornal utiliza fotos em escalada dos principais integrantes do PT, juntos, e uma foto sugestiva de Palocci enfiando a mão por dentro do paletó, no centro de um alvo. Dardos erram o alvo. A foto tem quadros explicativos em volta, que informam resumidamente o caso do enriquecimento de Palocci. O título do quadro é “Fora do alvo”. No dia 25 de maio, na matéria “Gabinete de Palocci violou sigilo de caseiro, diz Caixa” (ver Anexo 1), o jornal usa o título “A volta do caseiro”, em um quadro que relembrava a história de Francenildo. No gráfico, foram desenhadas caricaturas de Palocci usando auréolas e o Planalto com um cifrão. No dia 26 de maio, na matéria “Sob pressão, Dilma faz concessões ao Congresso” (ver Anexo 1), o jornal usa uma foto de Dilma e Palocci lado a lado. Os dois sendo pressionados por uma ferramenta. O jornal faz um quadro resumindo as perdas no Congresso devido a repercussão ruim do caso Palocci. O título do quadro é “Sob pressão”. No dia 27 de maio, na matéria “Ministério Público abre investigação sobre os bens de Palocci” (ver Anexo 1), o jornal dispôs fotos de Dilma e Palocci com feições claramente insatisfeitas. Um diagrama apresenta as empresas que admitiram ter contratado os serviços de

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Palocci. No mesmo dia, em outra matéria (“Dilma indica confiança em Palocci e ataca ‘politização’”) o jornal elabora um quadro, intitulado “Lula em campo”, informando quais as intervenções de Lula até o momento. Lula aparece em foto em posição superior a Dilma, que está abaixo dele em foto menor e com expressão submissa, sugerindo o poder do expresidente. Semana 2: Discursos circulantes Os dircursos circulantes utilizados na segunda semana da série de matérias sobre o enriquecimento e sobre quem é Palocci foram “o 3º deputado federal mais votado de São Paulo pelo PT”, “os negócios do ministro” (5 vezes), “caso Palocci” (2 vezes), “quebra do sigilo bancário do caseiro” (10 vezes), “líder informal” (2 vezes), “vazamento” (6 vezes), “queda do ministro”, “multiplicou patrimônio por 20” (6 vezes), “vazar dados” (4 vezes), “conflito de interesses”, “enriquecimento ilícito”, “improbidade administrativa” (4 vezes), “tráfico de influência” (2 vezes), “taxa de sucesso” (3 vezes), “escândalo”, “enriquecimento do ministro” (3 vezes) e “ministro enfraquecido” (3 vezes), Os discursos circulantes utilizados para a defesa de Palocci, durante a semana, foram “na dúvida, em favor do réu”, “palavras ao vento”, “crise forjada” e “disputa política”. As expressões que representam a tentativa do jornal interpelar o leitor para uma tomada de posição diante do caso foram “transparência” (4 vezes), “caem no esquecimento”, “lei mais rigorosa” e “interesse público” (4 vezes). Os discursos circulantes que representam as consequências do caso para o governo foram “rusgas no PT”, “crise” (10 vezes), “esfriar crise”, “esfriar a controvérsia”, “fogo-amigo” (2 vezes), “derrota” (6 vezes), “ameaça” (3 vezes), “pressão” (3 vezes), “concessões” (3 vezes), “rebelião na base aliada”, “desgaste de Palocci contamina governo”, “insatisfação da base”, “governo derrotado”, “base rachada”, “escândalo”, “CPI” (6 vezes), “pressões fisiológicas”, “enfraquecimento do Planalto” e “balcão de varejo”. Os dicursos circulantes que representam as falas relacionadas ao governo no caso Palocci foram “blindagem de Palocci” (4 vezes), “perseguição política”, “politização” e “boatos”. Lula se envolveu no caso durante a semana. Para representar a entrada do ex-presidente no embate, o jornal utilizou as expressões “vazio político” (3 vezes), “Dilma segue receita de Lula” (2 vezes), “mentor de Dilma” (2 vezes), “volta do ex-presidente” e “homem poderoso”.

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O discurso circulante “Código Florestal5” apareceu oito vezes durante a semana. Semana 2: Engajamento das fontes

O engajamento da Folha de S. Paulo até o dia 24 de maio foi de convicção em todas as matérias. A partir do dia 25 até o dia 28 de maio, o jornal volta a utilizar linguagem mais objetiva e distante6. Palocci se defende com distância usando provas da justiça para se defender das acusações da Caixa de que ele havia sido o responsável pela quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa, mas continua não mostrando provas que sustentassem sua defesa sobre as acusações de enriquecimento ilícito.

Na segunda semana, alguns aliados do governo começam a dar indícios de revolta contra o caso Palocci. Carlos Zaratini (PT) alega que leis que mexam com o poder econômico de parlamentares são mais difíceis de serem aprovadas. Ana Amélia (PP-RS) sugere que Dilma afaste Palocci, seguindo o exemplo de Itamar Franco, quando ele afastou o então Chefe da Casa Civil Henrique Hargreaves, também acusado de irregularidades. Os aliados em defesa de Palocci, como Dirceu, seguro de que estava se formando uma crise forjada. Todos eles com engajamento evidente. Gilberto Carvalho demonstrou convicção na demonstração de que o governo federal sabia que a prefeitura de São Paulo havia vazado informação para a Folha de S. Paulo sobre o faturamento da empresa de Palocci, em tom de ameaça. Não demonstrou provas.

Lula e Dilma se manifestaram pela primeira vez. Lula convicto da inocência de Palocci, alegando sua importância para o governo, chamou-o de Pelé, comparando a habilidade de Palocci na política à habilidade do jogador de futebol. Mas aconselhou o ministro a se manifestar e deu início à prática de consultor de Dilma, o que desagradou oposição e aliados. Lula pediu para Dilma satisfazer as vontades da base aliada devido à “crise” interna. Dilma, por sua vez, deu sua palavra de que Palocci estava dando as explicações necessárias. Citou a
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A reforma do antigo Código Florestal prevê a possibilidade de anistiar antigos desmatamentos e a regulação de novos desmatamentos com a obrigatoriedade de recuperação de áreas exploradas, de acordo com o tamanho da propriedade rural. O ponto discordante do novo Código é a proteção de áreas que poderiam ser usadas para cultivo e a necessidade de preservação do meio ambiente. Os ruralistas são a favor de menor proteção, visando o cultivo, e o governo a favor de maior rigidez na proteção das áreas rurais desmatadas e de mata ciliar. 6 Coincidentemente, na madrugada do dia 25 de maio, o novo Código Florestal havia sido aprovado na Câmara, em favor dos ruralistas.

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aprovação do Código Florestal como insustentável e pediu apoio do PMDB. Nenhum deles forneceu qualquer prova da inocência de Palocci, a não ser a confiança.

A oposição se organizava para levantar assinaturas necessárias para a criação da CPI. Figuras como Demóstenes Torres (DEM) e Floriano Pesaro (PSDB) certos de suas afirmações sobre a necessidade de investigar Palocci. Álvaro Dias (PSDB) estava convicto de que a CPI ajudaria o Ministério Público nas investigações sobre o faturamento de Palocci.

Semana 3: Estratégias de credibilidade Durante a terceira semana, as matérias da Folha de S. Paulo parecem ser resultado de conversas confidenciais com pessoas ligadas diretamente à Dilma e ao governo, que pediram para terem os nomes preservados. O anonimato das fontes nas matérias de quase toda a semana faz com que as notícias se pareçam mais boatos do que informação propriamente. No dia 02 de junho, uma comissão da Câmara dos Deputados aprovou a convocação de Palocci para explicar o que o jornal chamou de “sua consultoria”, uma vez que o ministro já havia explicado que a Projeto agora se tratava de uma administradora de imóveis. O jornal sugeriu que Lula e Dilma e o Partido dos Trabalhadores não se mobilizaram para impedir a convocação do ministro. Pelo contrário, a Folha de S. Paulo disse que Lula e Dilma, em conversas reservadas, ampliaram a pressão para que Palocci rompesse o silêncio. O jornal não informou a fonte das informações. A fragilidade de Palocci já estaria intensa o bastante para que ele evitasse almoço com o PMDB e o PT. O jornal também não cita fontes de informação. No dia 04 de junho, o jornal informava que a presidente Dilma Rousseff já avaliava nomes para substituir Palocci. Era a primeira vez que se considerava com clareza a queda do ministro. A Folha de S. Paulo informou uma lista de nomes que Dilma estaria considerando como potenciais novos ministros da Casa Civil. O jornal não cita a fonte de informação. Publicou ainda que Dilma havia confidenciado a assessores ter ficado surpresa com as informações sobre os negócios de Palocci, razão porque ela estaria evitando defendê-lo enfaticamente.

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No mesmo dia, a Folha publicou entrevista concedida por Palocci ao jornal para explicar seus negócios de consultoria, como havia prometido. Palocci nada acrescentou ao que já havia dito ao longo de todo o tempo. Continuou insistindo que havia informado Dilma sobre a Projeto, antes de assumir o ministério, mas que não havia mencionado nomes de clientes. Disse novamente que havia encerrado todos os contratos de serviços de consultoria antes de assumir o cargo e que a administração da empresa foi repassada a uma instituição financeira. Não confirmou o valor do faturamento da Projeto que o jornal havia “revelado”. Justificou que as relações empresariais são regidas por cláusulas de confidencialidade e que não iria revelar o nome dos clientes porque isso prejudicaria os negócios de empresas importantes no cenário econômico. Deu exemplo do que havia ocorrido com a WTorre, empresa que confirmou ter pedido o serviço da Projeto, que foi acusada por parlamentares de ter sido favorecida pela Receita Federal. Palocci acusa a Folha de S. Paulo de ter informado que solicitaram “em tempo recorde” a restituição de imposto de renda da empresa, devido às acusações dos parlamentares. Palocci explicou que a restituição de imposto havia sido uma ordem da justiça que tramitava há quase dois anos. Palocci disse ainda que ninguém havia apresentado qualquer fato que pudesse sugerir desvio de conduta dele ou irregularidade na atividade da Projeto. Semana 3: Estratégias de captação Durante a terceira semana, o jornal utilizou gráficos para reconstituir a história, que já havia ganhado o nome novelesco “Os negócios do ministro”. No dia 29 de maio, na matéria “Temer afirma que elevou o tom de voz com Palocci” (ver Anexo 1) o jornal usou uma foto de Michel Temer com ar de autoridade acima da foto de Palocci. O ministro foi capturado com semblante tenso. No dia 30 de maio, na matéria “Governo faz esforço para conter crise no Congresso” (ver Anexo 1), foram utilizadas fotos de líderes do PMDB na Câmara para mostrar que estavam em rixa, que havia um desentendimento. Um diagrama com imagens do Planalto com informativos sobre as disputas entre o governo e a oposição.

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No dia 01 de junho, na matéria “Senadora petista defende saída de Palocci do governo” (ver Anexo 1), o jornal usou um quadro para sintetizar as declarações de petistas e aliados do governo que estavam criticando a atuação de Palocci. No dia 02 de junho, na matéria “Comissão aprova convocação para Palocci se explicar” (ver Anexo 1), foram montadas três fotos para explicar a falha estratégica do governo na defesa de Palocci. O editorial do mesmo dia abusava de ironia, comparações matemáticas, como na expressão “o silêncio de Palocci é diretamente proporcional ao ruído que se avoluma à sua volta” e interpelação ao leitor com as expressões “opinião pública”. O jornal usa de intertextualidade para captar o leitor, comparando o caso à lenda da espada de Dâmocles, para expressar que Dilma deveria tirar Palocci do governo, caso ele não consiga conviver com a espada por cima da cabeça para lembrar-lhe que o cargo é público e provisório. No dia 03 de junho, na matéria “Palocci promete romper silêncio e se explicar” (ver Anexo 1), o jornal elaborou um diagrama utilizando uma imagem do ministro subindo em uma corda que estava por um fio, sustentada pela estrela do PT. O jornal faz uma inversão dos fatos, mostrando as estratégias do PT para tentar afastar o ministro. O jornal alega que o partido não impediu a convocação na Câmara estrategicamente. No mesmo dia, na matéria “Presidente diz que não será refém do medo”, foi usada uma foto de Dilma em primeiro plano, em evento, segurando um Cartão Complementação de Renda. Em segundo plano, aparece Palocci rindo, como se o jornal estivesse aludindo ao caso de irregularidade, envolvendo o ministro. No dia 04 de junho, na matéria “Dilma já discute como será governo sem Palocci” (ver Anexo 1), o jornal utiliza um diagrama demonstrando os ministros do governo indicados por ela (de um lado) e os ministros do governo indicados por Lula (do outro lado). Fotos de possíveis nomes que poderiam ocupar o lugar de Palocci na Casa Civil. No editorial do mesmo dia o jornal utilizou de hipérbole para demonstrar a “formidável evolução de patrimônio” de Palocci. A entrevista concedida pelo ministro foi ironizada com a utilização de um jogo de palavras, a partir do título da obra de Shakeaspere “Muito barulho por nada”. O título foi substituído por “Muito silêncio por nada”, demonstrando frustração com as informações prestadas por Palocci, que não haviam adicionado nada ao que ele já tinha dito desde o início do caso.

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Semana 3: Discursos circulantes Na terceira semana do embate entre a Folha de S. Paulo e o ministro Antonio Palocci, os discursos circulantes utilizados pelo jornal para explicar o caso e representar quem era Palocci foram “multiplicou patrimônio por 20” (6 vezes), “pivô da crise”, “o principal articulador político do governo Dilma” (4 vezes), “os negócios do ministro” (4 vezes), “romper silêncio de Palocci” (5 vezes), “convocação de Palocci” (13 vezes), “algo a esconder”, “se explicar” (3 vezes), “crise de Palocci”, “articulação política” (2 vezes), “trânsito político” e “principal auxiliar” (3 vezes). Os discursos circulantes que representam as consequências do caso para o governo foram “ministros rebeldes”, “crise com o PMDB”, “derrota do governo” (3 vezes), “CPI” (4 vezes), “crise no Congresso” (2 vezes), “rachas em votações”, “ameaça velada”, “cargos no segundo escalão” (3 vezes), “coalizão governista”, “PT e PMDB em lados opostos”, “crise” (19 vezes), “paralisia do governo”, “crise política do governo” (2 vezes), “crise de relacionamento”, “chantagens da base aliada”, “pressão” (3 vezes), “refém de chantagens”, “nova configuração política”, “contágio da crise”, “enfraquece governo Dilma”, “não será refém do medo” (3 vezes), “agenda positiva”, “mudanças no perfil”, “perfil técnico” e “Dilma da Dilma”. Nesta semana o discurso circulante Código Florestal apareceu dez vezes7. Os dircursos circulantes que representam as ações do governo no caso foram “afastamento” (2 vezes), “blindagem”, “complacência com a corrupção”, “fazer concessões”, “evitam defesa de Palocci” (3 vezes), “fogo-amigo” (4 vezes), “defesa de Palocci” (2 vezes), “conter crise” (2 vezes). Os dircursos circulantes que representam as consequências da denúnica para Palocci foram “Palocci enfraquecido” (5 vezes), “saída de Palocci” (4 vezes), “sinais de dificuldade do ministro” (2 vezes), “isolamento” (2 vezes), “defesa solitária”, “abandonado pelo próprio partido”, “governo sem Palocci”, “agravamento da situação de Palocci” (2 vezes) e “cenário de queda de Palocci”.

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O jornal Folha de S. Paulo deu bastante ênfase à questão da perda do governo na aprovação do novo Código Florestal, em favor dos ruralistas, relacionando-a a suposto enfraquecimento da influência de Dilma no Congresso, devido à crise Palocci.

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Os discursos circulantes que representam a defesa de Palocci foram “conflito de interesses” (4 vezes), “tornar pública a lista de clientes”, “interesses privados perante o poder público”, “desvio de conduta”, “luta política”, “regidas pela confidencialidade”, “sensibilidade empresarial”, “irresponsabilidade”, “contexto de embate político”, “disputa política”, “motivação política” e “exposição negativa”. Os discursos circulantes que representam as críticas às explicações de Palocci foram “desconversa”, “muito barulho por nada”, “muito silêncio por nada”, “vir a público”, “enriquecimento indevido”, “indícios de tráfico de influência”, “informações privilegiadas”, “isentar a presidente da responsabilidade” e “meias-palavras”. Os discursos circulantes que representam a interpelação do leitor foram “opinião pública” e “vulgaridade”. Ainda foram citados os dircursos circulantes Mensalão (3 vezes) e Escândalo do governo Lula. Semana 3: Engajamento das fontes O jornal Folha de S. Paulo variou entre distante e convicto entre as matérias da semana. O maior número de matérias de engajamento convicto se justifica pelo fato de que o jornal manteve a editoria Poder com “boatos” e informações prestadas por sigilo, provavelmente por pessoas ligadas diretamente à Dilma (assessores da presidente) e ao governo. O propósito das notícias sobre Palocci durante a semana diz respeito à possibilidade de saída do ministro, provocado pelo enfraquecimento da credibilidade de Palocci perante a presidência, o Congresso e perante a opinião pública. Palocci apareceu durante a semana na entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, no dia 04 de junho. Continuou com engajamento convicto, uma vez que continuou sem apresentar provas que sustentassem a sua versão dos fatos. O discurso foi o mesmo daquele prestado anteriormente. Dilma aparece convicta somente para defender a sua função na presidência, que ela alega não ter sido abalada pelo caso Palocci. Durante a semana, nenhum aliado defendeu Palocci no jornal, demonstrando o real isolamento de Palocci pelos membros do PT e pelos partidos aliados. Dois aliados reconheceram que o caso causava uma crise no governo. Temer (PMDB) alegou ter chamado a atenção de Palocci. Garotinho (PR) tentou aproveitar-se

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da crise para conseguir a aprovação da PEC 3008. Pedro Simon (PMDB) aparece dizendo que pediria à presidente o afastamento de Palocci. Não foram ouvidos personagens da oposição nas matérias selecionadas para compor a Semana 3. Lula também não se manifestou durante a semana. Semana 4: Critérios de credibilidade A Semana 4, a última do caso Palocci, apresenta a dúvida com relação ao futuro do ministro, com a sugestão da queda inevitável de Palocci, e as consequências da entrevista que ele deu à Folha de S. Paulo e ao Jornal Nacional. No dia 07 de junho o jornal publicou a matéria de capa “Procurador livra Palocci de investigação”. O Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, entendeu que não era possível concluir que o faturamento da Projeto tem origem em delitos nem que Palocci tenha usado do mandato de deputado federal para beneficiar eventuais clientes de sua empresa perante a administração pública. O jornal teve acesso ao parecer enviado por Gurgel, livrando Palocci da investigação. Gurgel afirmou no documento que Palocci havia fornecido a lista completa de clientes, com os respectivos pagamentos e cópias das declarações de imposto de renda. Palocci respondeu dizendo que esperava que a decisão do procurador geral “recolocasse o embate político nos termos da razão, do equilíbrio e da justiça”. A Folha de S. Paulo com o intuito de desmerecer a decisão de Gurgel, informou que a decisão ocorria em um momento crucial. O nome de Gurgel concorria com outros para ser o chefe do Ministério Público Federal. O jornal deu ênfase ao ouvir fontes contra a decisão de Gurgel. No dia 08 de maio, último dia do caso analisado, o jornal publicou a matéria de capa “Dilma demite Palocci e muda governo depois de cinco meses”. O jornal informou a substituição de Palocci por Gleise Hoffmann e fez um retrospecto do caso Palocci. Lembrou que Gleise foi a primeira ministra petista a sugerir que Palocci fosse demitido. Gleise não constava na lista de possíveis políticos a substituir Palocci, elaborada pelo jornal no dia 04 de junho. O jornal deu ênfase à ideia de que Dilma havia demitido Palocci. Na verdade, o próprio ministro havia
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O Projeto de Emenda à Constituição (PEC), nº 300, propõe que a remuneração dos Policiais Militares, Civis e do Corpo de Bombeiros dos estados não seja inferior à da Polícia Militar do Distrito Federal.

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pedido seu afastamento. Palocci diz que “a continuidade do embate político poderia prejudicar suas atribuições no governo”. Semana 4: Critérios de captação Na última semana, o jornal Folha de S. Paulo utilizou-se de recursos para contextualizar o caso envolvendo Palocci, como gráficos com o resumo do caso. No dia 06 de junho, na matéria “Medo de desgaste amplia pressão para afastar Palocci” (ver Anexo 1), o jornal usou uma foto de Dilma com olhar visivelmente cansado, com o título “Presidente sob pressão”. Complementando o diagrama, há um quadro explicando porque a presidente deveria demitir Palocci. Em 08 de junho, dia da matéria de encerramento do caso “Dilma demite Palocci e muda governo depois de cinco meses” (ver Anexo 1), as imagens de capa da Folha de S. Paulo foram dispostas na página do jornal para explicar o desenvolvimento do caso. Pequenas notas informavam o resumo das matérias publicadas desde o primeiro dia. No mesmo dia, foi publicado o editorial “Dilma após Palocci”, narrando o caso como sendo responsável pelo prejuízo no governo, utilizando estilo literário. O jornal aproveitou para ressaltar a necessidade de Dilma se desvencilhar de Lula e ser mais independente. Semana 4: Discursos circulantes Os discursos circulantes que representam a significação do caso Palocci foram “os negócios do ministro” (4 vezes), “multiplicou patrimônio por 20” (3 vezes), “primeira crise política de Dilma”, “principal auxiliar” (3 vezes), “ministro mais poderoso da República” e “se recusa a revelar”. Os discursos circulantes que representam o momento após as explicações de Palocci em entrevista foram “não esfriou crise”, “presidente satisfeita” e “tarde demais”. Os discursos circulantes que representam as consequências para Palocci foram “Palocci enfraquecido” (2 vezes), “eventual queda do ministro”, “desgaste de Palocci”, “permanência insustentável”, “improbidade administrativa”, “processo arquivado”, “não há indícios de crimes”, “impopularidade” (2 vezes), “credibilidade corroída”, “silêncio de Palocci” (2 vezes),

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“indicado por Lula”, “crise pessoal”, “saída inevitável”, “rifado pelo PT”, “jogou a toalha”, “queda do ministro”, “a segunda queda” e “crise derrubou Palocci”. Os discursos circulantes que representam as ações e consequências para Dilma e o governo foram “crise política” (4 vezes), “em favor de interesses privados”, “não alimentar a crise”, “manter as aparências”, “para encerrar a crise”, “convocação do ministro”, “anular convocação”, “custo político alto para aliados da presidente”, “presidente sobre pressão”, “corroer popularidade de Dilma”, “desgaste político” (4 vezes), “crise” (2 vezes), “medo de desgaste”, “afastar Palocci”, “escalada da crise”, “dano na imagem de Dilma”, “pressão para a saída de Palocci”, “articulação política dos oposicionistas”, “crise contamina Congresso”, “crise paralisa o governo” (2 vezes), “crise aberta pelo ministro”, “recompor autoridade comprometida”, “estilo discreto de governar”, “derrota do Código Florestal”, “fragilidade de Dilma”, “chantagem como arma política”, “independente de Lula”, “rearrumar a casa”, “senadora novata” e “desfecho do caso”. O jornal também utilizou de discursos circulantes para representar a entrada de Lula na cena da crise de Palocci com as expressões “homem forte do governo”, “tutela”, “mentor” e “volta à cena política”. Os discursos circulantes que representam as consequências econômicas provocadas pela crise política foram “reação pessimista”, “reações negativas no mercado financeiro”, “a bolsa tremeu”, “radicalização à esquerda”, “economias líderes patinam”, “risco doméstico caiu”, “nomes radicais” e “bolsas fecharam em alta”. Semana 4: Engajamento das Fontes

Na última semana da série de matérias sobre o enquecimento de Palocci, a Folha de S. Paulo demonstrou principalmente engajamento convicto. Isso devido à clara defesa da necessidade de o então ministro sair do governo. O jornal publicou matérias para embasar esse engajamento durante a semana. Exemplo disso é a notícia publicada no dia 05 de junho “Mercado passa ao largo da crise política”. O jornal deixou claro que o mercado financeiro não seria afetado com a queda de Palocci. O jornal se posicionou com distância na matéria em que informava que a Procuradoria Geral da República livrava Palocci de investigações, até mesmo por ter duvidado das intenções do procurador da república Roberto Gurgel. Palocci apareceu comemorando o parecer de Gurgel, convicto de que o resultado “colocaria o embate

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político nos termos da razão, do equilíbrio e da justiça”. Novamente ele aparece com convicção de que saindo do governo, evitaria prejuízo para as atividades da pasta, até então sob sua responsabilidade.

Os aliados se dividiram durante a semana na convicção de que Palocci havia dito a verdade na entrevista concedida à Folha de S. Paulo. Marco Maia (PT) defendeu que a maioria parlamentar não havia votado a convocação de Palocci na Câmara e queria anular o pedido para que o ministro se explicasse. Um aliado foi contra o parecer de Gurgel que livrava Palocci da investigação. A oposição demonstrou insatisfação com o parecer do procurador. Demóstenes Torres (DEM) disse que o Ministério Público se curvou ao governo. Álvaro Dias (PSDB) defendeu que o procurador deveria ter acionado a polícia federal para investigar o caso. Lira Maia (DEM) convicto de que acusou a vontade da maioria na Câmara para investigar Palocci.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Conforme a terceira tese de Lima (2006), que explica a relação entre a mídia e política, a Folha de S. Paulo fez o seu papel de partido político, na medida em que revelou o caso do enriquecimento de Palocci e enquanto manteve as matérias durante 25 dias que culminaram na queda do ministro do governo Dilma Rousseff, no dia 07 de junho de 2011. Ainda parafraseando Lima (2006), em sua sexta tese sobre a centralização e concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas pessoas, vimos que a Folha de S.Paulo se transformou de um jornal menor, em 1921, para um conglomerado da indústria da comunicação atual, o que reforça o seu poder de influência no país, inclusive na política. Palocci já havia sido demitido do Ministério da Fazenda, em 2006, por ter sido acusado de ter mandado quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, ou simplesmente vítima de desempenho de efeito contrário, conforme Thompson (1998). Novamente, no governo Dilma Rousseff, ele retornou vítima de escândalo político (THOMPSON, 1998), provavelmente iniciado por um vazamento de informação de dentro do governo ou dos inimigos políticos, como o governo de São Paulo. O jornal Folha de S.Paulo se beneficiou do jornalismo-espetáculo (GOMES, 2007) produzido por sua equipe durante 25 dias. Diversas vezes, o jornal deixou de lado a objetividade para dar lugar a instrumentos de dramatização e enquadramento (saliência) de informações de cunho insólito. O jornal não fez enquadramento somente no sentido dado por Carvalho (2009), que seria selecionar informações para ajudar na compreensão da matéria, mas enquadrou para dar mais sentido a algumas “partes” em detrimento do todo, como na matéria do dia 18 de maio “Palocci justifica seu patrimônio citando ex-ministros de FHC”. Num total de 33 notícias, o jornal teve engajamento distante em 17 e engajamento convicto em 16. Isso é preocupante, na medida em que um veículo de comunicação, parte de uma indústria da informação, um conglomerado, alega que tem compromisso com a objetividade, imparcialidade e apartidarismo. Preocupante porque o papel de um jornal, como a Folha de S. Paulo, não seria vender e provocar efeitos de verdade, mas sim informar valores de verdade - informações comprovadas e objetivas. Durante os 25 dias em que a série foi publicada, Palocci não conseguiu mostrar que era inocente, justamente pela falta de provas de suas afirmações. Somente pela confiança e pela convicção de que Palocci era inocente, o que foi

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alegado por aliados do governo Dilma e por Lula, o ex-ministro não conseguiu manter-se no governo. Em síntese, para demonstrar provas das afirmações nas matérias, o jornal Folha de S. Paulo utilizou documentos públicos para mostrar que Palocci havia multiplicado o patrimônio por 20 durante quatro anos de mandato como deputado federal (2006-2010). Para demonstrar o faturamento de R$ 20 milhões da Projeto, no ano de 2010, a Folha de S. Paulo valeu-se de fontes não identificadas. Informação que acabou não sendo confirmada por Palocci e nem pela Projeto. Quanto à denúncia de que a Wtorre teria contratos com fundos de pensão estatais e com a Petrobrás, o jornal não informou a fonte de informação. Essa informação nunca foi confirmada por nenhum órgão público e foi desmentida pela Wtorre, assim como pela Projeto e por Palocci. Na segunda, terceira e quarta semana, a Folha de S. Paulo não demonstrou provas com fontes fiáveis das afirmações sugeridas. O jornal ouviu, durante essas semanas, fontes não identificadas para sustentar boatos dentro do governo. Quanto às estratégias de captação utilizadas pelo jornal durante a cobertura, a Folha de S. Paulo priorizou fotos que sugeriam que Palocci era culpado e a submissão de Dilma em relação à Lula e à base aliada. Gráficos e diagramas foram utilizados durante quase toda a cobertura para sintetizar o “caso Palocci”, para resumir a história. Em algumas matérias e em todos os editoriais analisados, foram identificadas expressões para interpelar o leitor para uma tomada de postura. Essa postura sugeria de maneira implícita e pretendia convencer que Palocci havia enriquecido ilicitamente. Como discursos circulantes, é possível evidenciar a constante presença das expressões “o cargo mais importante do governo Dilma” e “principal articular” para demonstrar o peso político de Palocci no governo. Ao decorrer da segunda, terceira e quarta semana foram tomando lugar os discursos circulantes que demonstravam o enfraquecimento de Palocci. Na primeira semana, é possível verificar a união do governo a favor de Palocci, o que foi se perdendo a partir da segunda semana. Na terceira semana, fica clara, pelos discursos, a insatisfação dos aliados do governo e o racha que o caso estava provocando. Palocci já estava sozinho. Um dos discursos circulantes talvez mais importantes, expresso já na segunda semana, mantendo-se muito citado na terceira foi o relativo ao “Código Florestal”. Essa formação

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demonstrou os interesses do governo, da base aliada e da oposição em sua aprovação. Observamos que dias antes da votação do Código Florestal no Congresso, o jornal Folha de S. Paulo manteve-se com discurso convicto - do dia 19 de maio até o dia 24 de maio. A partir do dia 25 de maio, o jornal voltou a priorizar uma linguagem mais sóbria e distante. Coincidentemente, na madrugada do dia 25 de maio, o novo Código Florestal havia sido aprovado, beneficiando os ruralistas. Em tese, o jornal Folha de S. Paulo tem uma ligação histórica com a agropecuária, como demonstrado em seção anterior. A fragilização política do principal articulador da votação do Código Florestal, papel que estava sendo desempenhado por Antonio Palocci, contribuiria para a aprovação do novo Código em benefício da classe ruralista. Isso explicaria porquê o jornal voltaria a ficar distante, após a aprovação do novo Código, e o motivo da ênfase na necessidade de afastar o ministro, mesmo não havendo provas concretas de que Palocci teria enriquecido ilicitamente. Sustenta nossa tese o fato de o jornal ter informado que o mercado financeiro não ficaria abalado com a saída de Palocci do governo, dando o sinal verde para que Dilma tomasse a iniciativa.

REFERÊNCIAS

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AARÃO REIS, Daniel. O partido dos trabalhadores: trajetória, metamorfoses, perspectivas. NÚCLEO DE ESTUDOS CONTEMPORÂNEOS – UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, 2007. Disponível em: <http://www.historia.uff.br/culturaspoliticas/files/daniel4.pdf>. Acesso em: 01/11/2012. BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. 6. ed. Campinas: Ed. UNICAMP, 1997. CARVALHO, Carlos Alberto de. O enquadramento como conceito desafiador à compreensão do jornalismo. INTERCOM SUDESTE, 2009. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2009/resumos/R14-0206-1.pdf>. Acesso em: 23/10/2012, CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. Tradução de Angela M.S. São Paulo: Ed. Contexto, 2006. CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso: modos de organização. Tradução de Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Ed. Contexto, 2008. GOMES, Wilson. Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Ed. Paulus, 2004. GUIOT, André Pereira. Um “moderno príncipe” para a burguesia brasileira: o PSDB (19882002). 2006. 202f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2006. LIMA, Venício A. de. Mídia: crise política e poder no Brasil. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2006. MIGUEL, Luis Felipe; COUTINHO, Aline de Almeida. A crise e suas fronteiras: oito meses de “mensalão” nos editoriais dos jornais. SCIELO, 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/op/v13n1/v13n1a04.pdf>. Acesso em: 19/03/2012. NETO, Edgard Leite Ferreira. Os partidos políticos no Brasil. 3. Ed. São Paulo: Ed. Contexto, 1995. PINTO, Milton José. Comunicação e discurso: introdução à análise de discursos. São Paulo: Ed. Hacker, 2002. RUBIM, Antonio Albino Canelas. Comunicação e política: conceitos e abordagens. Salvador: Ed. Edufba, 2004.

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TASCHNER, Gisela. Folhas ao vento: uma análise de um conglomerado jornalístico no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1992. THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 3. ed. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1998.

ANEXOS

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Anexo A – Jornais analisados

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