You are on page 1of 2

Página 1

BOLETIM INFORMATIVO MPI

n.º 27 - Dezembro de 2012

Em comunicado de 19/9/2012 a Plataforma Transgénicos Fora comenta que face ao estudo (1) publicado na prestigiada revista internacional Food and Chemical Toxicology sobre milho geneticamente modificado que aponta para efeitos tóxicos "alarmantes"(3) até agora desconhecidos, todos os transgénicos estão em causa, pelo que o Governo tem de tomar medidas de emergência e precaução (previstas aliás na directiva quadro dos transgénicos 2001/18):

O HOMEM QUE FAZ NASCER RIOS
Rajendra Singh, 52 anos, presidente da Tarun Bharat Sangh (TBS), uma organização não-governamental indiana, teve um papel central na suspensão da construção de uma megabarragem, no rio Bhagirathi, um dos principais afluentes do Ganges. Em 2010, o Governo indiano aceitou desmantelar a obra até aí erigida. Depois de uma luta aguerrida, nos anos 1990, o Supremo Tribunal Indiano obrigou 470 minas de mármore a encerrarem, no ParqueNacional de Sariska. Graças este homem, hoje, em todo o Rajastão, um dos mais pobres e áridos Estados indianos, existem mais de 10 mil johads construções que retêm as chuvas das monções, erguidas pelas comunidades rurais, em centenas de aldeias. Através da sua política de conservação e gestão da água e das florestas, onde antes havia zonas desérticas, agora há campos agrícolas; onde havia leitos secos, de pó e pedra, há hoje correntes fortes e peixes; onde havia aldeias sem gente, voltou a haver escolas e serviços de saúde. Pode um homem mudar o mundo? Parece que sim. Quando o líder da comunidade de Golpalpura, Maangu Meena, chamou Rajendra Singh, estava com cara de poucos amigos. Disse-lhe: "Você e os seus companheiros são boas pessoas, mas estão a fazer tudo mal! Nós não precisamos dos vossos medicamentos, nem da vossa educação. Podemos ter tudo isso na cidade. Se querem fazer algo útil, resolvam o problema da falta de água!" DE MÉDICO A CAVADOR Foi um choque. Como podiam voluntários com cursos superiores ser tratados assim? Singh, então com 26 anos, era licenciado em medicina e tinha uma pós-graduação em literatura hindu e os seus amigos também eram "doutores". Haviam largado tudo, abandonado os empregos e as famílias, e há sete meses que se dedicavam às populações daquele distrito. "Vínhamos para fazer a revolução, combater as injustiças, não para tratar da água", recorda. Os outros foram-se embora, desiludidos. Ele ficou. Aprendeu com os velhos camponeses a construir uma johad, um reservatório tradicional de recolha de chuva, usado durante séculos nas aldeias rurais da Índia. Construídas nos declives naturais, em forma de pequenos lagos ou barragens, as johads serviam para armazenar, durante o ano, a água que caía nas monções. Além de ser usada para usos domésticos e agrícolas, a água capturada ia-se infiltrando e recarregava os lençóis freáticos. Mas já nada disto acontecia, em que nos anos 1980, as mulheres passaram a ser obrigadas a caminhar durante sete ou oito horas para recolherem cerca de 30 litros. Os homens tinham abandonado as aldeias para procurar trabalho na cidade, porque as terras eram tão áridas que não havia agricultura. Com o seu voluntariado, a johad que construiu recolheu tanta água que algumas nascentes de poços secos começaram a correr. O fenómeno não era visto há décadas e isso revelou a Singh a sua verdadeira missão. Decidido a espalhar a boa nova, organizou uma peregrinação para divulgar a sua forma de combater a seca: palmilhou as povoações que viviam nas margens do rio Arvari, morto há mais de 60 anos. A condição que impôs para ensinar os aldeões a construir johads foi a de que uma assembleia local, onde cada família tivesse o seu representante. Além disso, todas as decisões relativas ao uso da água e à gestão das florestas e das pastagens tinham de ser tomadas em conjunto. Conseguiu assim que fosse toda a comunidade a colaborar na resolução dos problemas que mais a afectavam: a seca extrema, a erosão dos solos, a desertificação. Nos anos seguintes, as populações ribeirinhas, com a ajuda da organização criada por Rajendra, construíram 375 estruturas, ao longo do rio e recuperado os caudais dos rios!

n.º 27 - Dezembro de 2012

BOLETIM INFORMATIVO MPI

Página 2

JOHAD: construção que retém as chuvas das monções, erguidas pelas comunidades rurais, em centenas de aldeias.

DEMOCRACIA VERDE Quando chegou a água, chegou também o Governo, pronto a concessionar a exploração pesqueira no rio, agora com peixe em abundância. Mas as populações opuseram-se fortemente. Criaram o Parlamento do rio Arvari, uma assembleia constituída por representantes das 72 aldeias sediadas nas margens do curso de água … e reivindicaram para si a gestão do rio. "Quanta água podemos tirar? Que culturas se devem plantar? Quanta madeira se pode cortar das árvores? Foi este tipo de responsabilidade que os habitantes assumiram", explica Singh. Mais: a TBS fomentou uma política de igualdade de género, criando concelhos específicos em que os pareceres das mulheres são vinculativos. Estas batalhas culturais são difíceis mas comparando-as com as tentativas de assassínio por parte de industriais das pedreiras ou com os processos judiciais movidos pelo Estado contra si ou a sua organização (377 acusações, das quais foi sempre absolvido), parecem muito simples. "Se vives para a natureza, ela dá-te sempre a protecção de que precisas." É a máxima deste activista agora convidado pelo primeiro-ministro para integrar a Autoridade Nacional para a Bacia do Ganges, uma agência estatal autónoma, com plenos poderes e meios financeiros, cuja missão é despoluir o rio sagrado. Adaptado do artigo Pedro Miguel Santos, 9/7/2012, em http://visao.sapo.pt/o-homem-que-faz-nascer-rios=f673705#ixzz209QH8NUv Nota da redacção: É notável o que o activista indicado, Rajendra Singh, conseguiu e está a fazer! Igualmente notável é a sua humildade que “descendo” do seu pedestal de licenciado ousou ouvir as populações rurais e atender aos seus problemas! Prova que afinal um homem (ou mulher) pode mesmo mudar o mundo! Agora que se fala tanto em economia verde, deveria sim ser considerado o conceito de "Democracia verde".