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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
5

ERGUNTE
e

Responderemos

SETEMBRO 1957
BMDICC

' ' Páginas

I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

1) "Como se explica o mal no mundo? Parece incompatível com a


existencia de Deus" 3

II. DOGMÁTICA

2) "Se afééum dom, porque algumas pessoas nao a tém, dizendo


desejá-la tanto?" IB

III. LITURGIA

3) "Porque é celebrada a Missa em latim?" 12

IV. MORAL E DIREITO

4) "Que responder quando as pessoas casadas dizem que nao podeiir


ter filhos e, por isto, fazem tudo para evitá-los?" 17

5) "Porque a Igreja proibe a cremacáo de cadáveres? 20

6) "Nao se sabendo o que se passou no último instante entre a


alma e Deus, porque nega a Igreja assisténcia religiosa (en
terro, Missa solene, etc.) aos suicidas?" 24

7) "Porque nao colaborar com a Legiáo da Boa Vontade?" .'. 25

8) "Porque é que os católicos nao aceitam a irmanaíáo de todas


as Religióes?" , 2T
y

9) "Qual a posicáo da Igreja perante os concursos de beleza, táo


comuns em nossos tempos?" 29

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


í

— 2 —
«I
'PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
N.° 5 — Setembro de 1957

I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

ARIEL (Rio de Janeiro):

1) Como se explica o mal no mundo? Parece incompatí-


vel com a existencia de Deus".

A questáo é das mais disputadas de todos os tempos Con-


tudo ela só admite urna solugáo, que vamos procurar expor
refletindo serenamente. *
Antes de perscrutarmos a origem e a razáo d« ser do mal
faz-se mister definir o que é o mal. '

1. Que é o mal?

1) _ O mal, longe de ser urna entidade positiva.é um nao-


-ser; nao constituí urna afirmagáo, mas urna negagáo.
Com efeito, nao há, nem pode haver, substancia cuja na-
tureza seja por si essencialmente má; esta seria algo de estra-
nho ou absurdo no mundo: nao poderia agir, porquanto ne-
nhum ser age senáo em virtude de urna perfeigáo que ele possui
e atua. A serpente, o escorpiáo, a bomba atómica... só produ-
zem sua acao nociva ou má porque néles há urna entidade posi
tiva que o naturalista ou o físico-químico admiram profunda-
mente. O mal, portante, é urna negagao ou ausencia de ser
2) Nao é, porém, qualquer ausencia de ser; é apenas a
ausencia do ser devido ou do ser pertencente á natureza de
tal individuo (em caso contrario, todo individuo seria mau por
nao possuir toda e qualquer das perfeigóes espalhadas pelo
mundo). Na prática, ninguém diz que a ausencia de asas no
homem é um mal ou urna desgraga, mas todos reconhecem que
a falta de olhos ou a cegueira no mesmo é um infortunio, pois
o homem nao foi feito para ter asas e* sim, para ter olhos- a
criancinha, pelo simples fato de nao falar, nao está afetada'de
um mal, ao passo que o adulto na mesma situacáo padece au
téntico mal. V
Em outros termos: o mal é a falta de conformidade do su-
jeito com o respectivo arquetipo ou exemplar. Essa falta de
conformidade pode-se verificar na ordem física (tem-se entao
um corpo doente ou mutilado) ou na ordem moral (tem-se en
tao urna agáo alheia ao Fim último devido ou um pecado).

_ 3 —
Resumindo esquemáticamente:
Todo SFR por si é um BEM.

ou mera negado, ausencia de entidade nao devida:


p. ex., a falta de asas no homem. Nao é nem Bem nem Mal.

ou carencia, privacáo de entidade devisa a natureza

O NAO SER é \ na ordem física: p. ex., )


..... v MAL FÍSICO,
falta de vista no homem. )

na ordem moral: p. ex.,


fülta de conformidade do
ato humano a Deus, Fim ( MAL MORAL.
Ultimo.

3) Por conseguinte, o mal supóe sempre um bem, ao qual


ele sobrevem; só se encontra onde ha um valor real, e tem
proporcóes tanto mais vultuosas quando maior é o bem no qual
esteja encravado; basta lembrar a hediondez da perversáo de
um genio, da corrupcao de um santo. É o fato de que o mal
está sempre aninhado no bem que Ihe dá a aparéncia de enti
dade positiva.

A experiencia comprova que o mal nunca pode ser isolado


Nao se encontra o mal como tal (a cegueira ou a surdez subsis
tentes em si mesmas), mas alguém ou alguma coisa boa em
SEiSS?8 a lacuna'° maí, <° ólho Pr*ado de visáo, o aparelho
auditivo carecente de audicao). Nao há quem veja as trevas
ÜÜSlm ° f 10; eSte/? SÓ Sá0 aPreendidos se se apreenderam
previamente os respectivos contrarios (luz e ruido).
Disto se segué que o mal nunca poderá, nem no indivi
duo nem na sociedade, ser táo vasto que absorva e destrua todo
o bem, pois em tal caso o mal extinguiría o suporte da sua exis
tencia e aniquilaría a si mesmo. O mal só pode existir respei-
tando em certo grau o bem; jamaisrconseguirá triunfar total
mente sobre o bem; para ter realidade, ele há de ser uma ne-
gacao menor dentro de uma afirmacao maior (concretamente
isto quer dizer que os auténticos motivos de tristeza, como sao

i
4
as calamidades físicas para o homem, nunca sao tao ponderosos
que sobrepujem os auténticos motivos de alegría; no plano mo
ral, nunca o pecado marcará decisivamente o curso da histo
ria...)-
4) Onde há ser limitado, mesclado de nao-ser, há' possi-
bilidade de passar do ser para o nao-ser, da vida para a morte,.
da integridade para a mutilacao. Sómente naquele que é o Ser
simplesmente dito, que tem em si mesmo a justificacáo do sea
ser, é que nao pode haver deficiencia ou mal; isto se dá apenas
em Deus.
Na raiz de cada criatura, ao contrario, há um vazio, um
nao-ser. A criatura hoje existente nao era, foi tirada do nada;
a sua fonte e razáo de ser estáo fora déla. Por isto ela pode!
tende mesmo, a recair no nao-ser donde procede. Traz em si
um principio de deficiencia; é boa, viva, justa, bela até certo
grau apenas. Nao se identifica com a Bondade, a Vida, a Jus-
tica, a Beleza... Por conseguinte, urna criatura por si mesma
(abstracáo feita de prerrogativa concedida pelo Criador) inde
ficiente ou infalível é contradicao.
Eis brevemente o que se refere á existencia do mal. Pas-
semos agora a questáo:

2. Donde vem o mal?

Até aqui consideramos o mal no plano abstrato da espe


culado. Procuremos ver como entrou na realidade concreta,,
histórica.

1) Deus, em seu designio eterno, quis difundir o seu Ser,,


a sua Bondade, pois, segundo um axioma já formulado pelos
Neo-platónicos (séc. 3.° d.C), o Bem é essencialmente difusivo
de si. Para isto, decretou tirar do nada criaturas que em grau
finito exprimissem, cada qual do seu modo, a infinita Perfei-
§áo Divina.

2) Criou, pois, os mineráis, os vegetáis e os animáis irra-


cionais. Destinados a dar gloria ao Criador, éles sao movidos,,
nao se movem própriamente, em demanda do seu Fim;_náo tént
a capacidade de reconhecer^a Deus e de optar conscientemente-
por seu supremo objetivo.
Ácima dessas criaturas na escala dos seres, e justamente-
destinado a mové-las (suprindo o que lhes falta), acha-se o ho
mem. Éste é dotado de conhecimento intelectivo e da liberdade-
de arbitrio daí decorrente (veja "Pergunte e Responderemos'"

5
3/1957, qu. 4). Deus chamou-o também a dar gloria ao Criador
mas de maneira consciente e espontánea. '
A producáo de urna criatura livre representava (em lin-
guagem humana) certo "perigo" ou "risco" para o Criador Nao
há dúvida, ser livre é grande perfeicáo, maior do que ser autó-
mato; e foi esta perfeicáo que Deus visou ao conceber o ho-
mem. Todavía, a liberdade de arbitrio criada, justamente por
ser criada, é falível, capaz de fraquejar na sua opcáo; represen
ta, pois, urna arma de dois gumes...

3) Consoante o seu plano, o Criador, depois de ter feito


o homem, colocou-o diante da opgáo: Deus ou a criatura (em
ultima análise, o próprio Eu humano). Nesta consulta atuou-se
a possibilidade menos feliz...: o homem quis ser como Deus
rejeitando o Exemplar Divino. '

Os povos mais antigos costumam professar, sob forma de


narrativas graciosas, a consciéncia de que ñas origens da his
toria se deu urna desobediencia grave dos homens contra o So
berano Senhor, donde resultaram os males crónicos que nos
cercam. Cf. E. Bettencourt, Ciencia e Fé na historia dos pri
mordios, 3.a ed. AGIR 1958, págs. 178-181.
A Biblia refere a mesma verdade no episodio do pecado
de Adao e Eva (Génesis 3): o homem livre cometeu urna aeáo
(cujos pormenores nao se podem precisar) ,á qual faltava a con-
íormidade com o Modelo ou com a Palavra de Deus — o que era
um mal moral, um pecado; e acrescenta que désse mal moral
decorrem, a guisa de sancáo lógica, os males físicos (doencas
miserias, morte); a desordem material foi, pois, acarretada
pela desordem espiritual. Donde
LIBERDADE DE ARBITRIO — MAL MORAL, PECADO — MAL FÍSI
CO (SOFRIMENTO E MORTE).

Por conseguinte, o principio de toda desgrana vem a ser


a livre vontade do homem, que, sem deixar de querer o bem,
preferiu, por sua falibilidade natural, o bem aparente ao Bem
Real. O primeiro de todos os males vem a ser o mal moral ou
pecado; donde se segué que pior é cometer a iniustica (mal mo
ral) do que a padecer (mal físico).
Hoje em dia os homens sofreni e morrem poraue o pri
meiro pai pecou (afastou-se da Felicidade e da Vida, que é
Deus) e transmitiu a seus descendentes urna natureza desre-
grada, além do mais colocada num mundo em que os seres in
feriores nao servem sempre ao homem (como o primeiro no-
»

— 6 _
mem nao serviu a Deus). Nem todo sofrimento é conseqüéncia
de um pecado pessoal, mas reduz-se, em última análise, á deso
bediencia de Adáo.

4) E porque Deus nao impediu que Adáo pecasse?


O Senhor deu ao primeiro pai os meios suficientes para
nao pecar; nao quis, porém, intervir na vontade do homem,
forgando-a a escolher o Bem Real, pois isto equivaleria a retirar
ou mutilar um dom outorgado em vista de maior dignidade e
gloria do género humano.
Deus é Pai, nao ditador, e quer ser considerado como Pai.
Ora, na parábola que Jesús narra em Le 15, 11-32, o pai deixa
partir o filho que lhe pede a heranga para ir gozar da vida;
embora anteveja os desmandos que o jovem está para cometer,
deixa-o ir, justamente porque é pai, nao tirano, e quer usar de
confianga ao tratar o seu filho; espera ao menos que éste, fa-
zendo as suas experiencias livremente empreendidas, reconhega
mais livre e conscientemente a felicidade que há em aderir ao
Pai. Assim Deus deixou (e deixa) o homem partir pela via do
pecado, segundo a sua livre opeáo, pois o que Deus quer é o
amor filial do homem, nao a adesáo inconsciente de u'a má
quina.

5) E porque Deus, sabedor dos pecados de Adáo e dos


seus descendentes, nao fez, nem faz, sómente individuos fiéis
ao Fim Supremo?
O Senhor certamente poderia proceder assim; só haveria
criaturas boas, sem que o Criador tivesse que coagir alguma.
Fazendo isso, porém, Ele desfiguraría, mutilaría o conceito de
livre arbitrio. Éste implica duas possibilidades opostas urna á
outra: o Sim e o Nao. Mais precisamente, em se tratando dos-
homens: implica o Sim ao Criador (o que é o Sumo Bem) ou o
Nao ao Criador (o que é o Sumo Mal). Por conseguinte, é nor
mal, decorrente do conceito mesmo de criatura, e criatura livre,
que no conjunto da historia parte dos homens diga Sim a Deus,
optando pelo Bem Real, outra parte diga Nao, falhe, escolhendo
o bem apenas aparente ou o mal; nao se poderia esperar, outro
resultado, a menos de um retoque artificioso, pelo qual Deus
solaparía a idéia de livre arbitrio; urna historia do género hu
mano em que todos só escolhessem o bem, nao representarla
mais a natureza da criatura livre, o exercício da liberdade com
todas as suas riquezas e sutilezas (a experiencia ensina que,
onde muitos tém a possibilidade de fazer alguma coisa, alguns
realmente a fazem; num veículo, por exemplo, onde quarenta
pessoas tenham a possibilidade de fumar, urna porcentagem de

— 7 —
fato fuma; o resultado contrario seria estranho, nao correspon
dería á idéia de liberdade de que goza cada qual dos passa-
geiros). ^

6) Mas entáo Deus nao será de algum modo culpado do


pecado que o homem comete?
Nao; a culpa do pecado nao recai sobre Deus. Vejamos
bem: em todo ato mau (pecaminoso) há sempre urna entidade
positiva, boa, pois todo ato é afirmagáo de perfeigóes (só o ser
imperfeito nao age ou age pouco); ésse valor positivo se deve,
sem dúvida, ao Criador, pois nao há entidade que nao se derive
de Deus. O mal sobrevém a essa entidade ou a ésse bem, como
sabemos, pois o pecado nada mais é do que um ato (um valor)
que carece de algo..., que carece de conformidade com o seu
Exemplar, com o Sumo Bem (Deus). Ora essa carencia ou
lacuna nao se deriva, nem pode derivar, de Deus (porque é um
vazio); deve-se únicamente á criatura que, oriunda do nao-ser,
traz a tendencia ao náo-ser, a tornar o s~er lacunoso. — A título
de ilustracao, admitamos que um músico se ponha a tocar com
urna flauta desafinada; empregará toda a sua arte para pro-
duzjr a mais bela das melodías com tal instrumentos resultado
porém, nao codera deixar de ser desarmonioso, nao por defeito
musical do artista, mas em virtude da "má disposicáo" do ins
trumento. Assim Deus, tendo criado o homem livre e aplican-
do-lhe a mogáo suficiente para o bem, nao o fará produzir um
ato bom, se o homem nao estiver bem disposto (o que depende
4e sua vontade livre) a receber a boa dádiva do Senhor.
Como se vé, o mal, em última análise, se assenta sobre o
misterio da liberdade humana, que pode escolher o erro sob
a aparéncia de bem. É verdade que" Deus quis criar essa li
berdade sem desconhecer o "risco" que isso acarretava; Ele o
quis, porém, únicamente em vista de um bem maior..'.
E Deus sabia que ésse bem maior jamáis seria frustrado,
mesmo que a liberdade humana falhasse. Nesta hipótese, o pe
cador se tornaría, sem dúvida, infeliz por causa do seu pró-
prio pecado, mas Deus ainda assim seria proclamado e glorifi
cado por ele, pois, em última análise, se o pecador sofre pelo
pecado, sofre porque a sua natureza feita para Deus protesta
■contra a violentacao, a detorsáo que a livre vontade do indivi
duo lhe impós. Ésse sofrimento vem a ser a afirmagáo so-
lene de que Deus é o Sumo Bem; ora desde que a criatura o
afirme, mesmo que esteja infeliz, ela tem pleno sentido no
conjunto dos seres criados, pois o centro em vista do qual tudo
íoi feito e ao qual tudo se destina, recebendo déle seu significa-

-8-1
do auténtico, é Deus, nao o homem (veja-se o que está dito a
S5££° d° *?ferno no fascículo «Pergunte e Responderemos"
qu. 5).

7) A última palavra, porém, em se tratando do mal, é


dita pela Redencáo e pelo Cristo crucificado. Esta figura pro
jeta luz que penetra todos os aspectos do problema, mesmo os
mais misteriosos.

Sim; Deus nao quis ficar indiferente á desgrana do ho


mem. Voltaire dizia a Júpiter que, ao criar-nos, tinha feito "une
froide plaisanterie", um frió gracejo. Quanto isto é errado!
Deus levou muito a serio o drama do homem. Embora nao
precisasse da criatura, quis salvar o género humano. Em vista
disto, tomou a miserável carne humana fazendo-se "Filho do
Homem", Jesús Cristo, e padeceu a nóssa sorte, morrendo.
Cristo, porém, nao ficou na morte; atravessou-a, venceu-a res-
suscitando. Com isto comunicou sentido novo e inestimável va
lor aos nossos padecimentos; se aquilo que Deus toca nao pode
deixar de ser divinizado, a dor e a morte foram divinizadas de-
pois que Cristo as experimentou; deixaram de ser mera sancáo
a fim de tornar-se canal, passagem para nova vida, para a glo
ria eterna. Hoje em dia a iustiga cumpre-se no cristao quando
este sofre e morre em conseqüéncia do pecado; mas nao é a
justica que enfecha a historia do homem; é o amor de Deus
Pelos seus padecimentos e morte aceitos em uniao com o Re
dentor, o cristao desdiz ao egoísmo, identifica-se com a Justiga
do Senhor, tornando-se apto a participar da efusao do amor do
Pai Celeste.

Para o homem fiel só há urna desgrasa auténtica: a perda


da uniáo com Cristo ou o pecado, pois, enquanto está unido a
Deus, o cristao vence com proveito ou mérito os maiores sofri-
mentos (doenga, pobreza, perseguigóes e morte).
Em conclusáo: o Cristo pregado a Cruz vem a ser o teste-
munho mais eloqüente de que a existencia do mal, como a co-
nhecemos, nao é incompatível com a existencia de Deus; para
quem considera o Filho de Deus crucificado, torna-se vá'qual-
quer tentagáo de acusar de in/ustiga ou maldade o Criador pelo
fato de que Éste permite o sofrimento livremente acarretado
pelo homem sobre si mesmp. "Ninguém tem maior amor do
que aquéle que dá a vida por seus amigos", dizia Jesús (Jo
15,13). Fora, porém, da perspectiva da Cruz de Cristo o mal
constituí problema insolúvel, como atesta Voltaire:

— 9 —
"A felicidade é apenas um soiho, e a dor é a reaüdade. Ha vinte e
quatro anos que o experimento. Nao sei tomar outra atitudte senfio a de
me resignar e dfcer que, assün como as moscas nasceram para ser consu
midas pelas aranhas, assim também os homens naeceram para ser devorados
pelo sofrimento".

ó homem, nao queiras sofrer a tal ponto! Lembra-te de


Deus,... de Deus que se revelou em Cristo, e... alegra-te!
(Pode-se consultar, a respeito, P. Siwek, O Problema do
Mal. Rio de Janeiro 1942, na "Biblioteca Francesa de Filoso
fía" de Desclée de Brouwer).

II. DOGMÁTICA

I. M. H. (Rio de Janeiro):

2) "Se a fé é um dom, porque algumas pessoas nao a tém,


dizendo desejá-la tanto?"

Quem sinceramente diz que desejava ter fé. já a tem, em-


"bora disto nao seja consciente.
Em verdade, a fé nao é o produto de um raciocinio que,
tem arquitetado, mova inelutávelmente a inteligencia a dizer
"Sim". As verdades que se podem provar racionalmente sao
verdades naturais, que nao ultrapassam a exigua capacidade
do intelecto humano. Ora as verdades da fé sao estritamente
sobrenaturais, transcendem (nao contradizem, porém) nossa
fraca compreensáo; elas sao por si evidentes a Deus, e sómente
a Deus. Por isto, ninguém de mente sá poderá negar que "dois
e dois sao quatro"; esta proposicáo por sua evidencia se impóe
ao intelecto, queira-o ou nao o queira a vontade. Ao contrario,
a proposlgáo "Deus é uno em sua natureza e trino em suas pes
soas" nao é por si evidente de modo a forcar a inteligencia á
aceitacáo; o assentimento fica, no caso, dependente da vonta
de; e a esta que compete mover a razáo a dizer "Sim" ou "Nao"
Donde se vé que, em última análise, o ato de fé depende do
"querer"; nao se espere que decorra de urna iluminacao extra
ordinaria da inteligencia (um "estalo") que dissipe as trevas.
A fé também nao se identifica com ó deleite, a vibracao sen-
sível, o entusiasmo natural, que alguém possa experimentar
quando lhe é enunciada urna verdade sobrenatural. É sempre
a vontade que impele á fé; e éste impulso é válido..é a^radável
a Deus independentemente das reacóes da nossa sensibilidade
mesmo na aridez, na noite dos sentidos. O que a inteligencia
pode fazer, é preparar o ato de fé. examinando as credenciais
das proposicñes reveladas (a autoridade de quem revelou, de
*

— 10 —
quem transmitiu, os frutos produzidos pelo Evangelho na his
toria, etc.) ou ainda certificando-se, pela análisé dos termos,
propostos, de que os artigos de fé háo sao absurdos nem contra-
ditórios a razáo, mas antes plausíveis.

Justamente porque o ato de fé depende da vontade é que o


homem se pode engañar: muitos dos que dizem que desejariam
ter fé, na verdade nao qucrcm (talvez sem ter plena conscién-
cia disto) assumir as conseqüéncias práticas de um ato de fé;
deveriam dizer "Adeus" a um prazer ilícito, e isto éles nao ó
querem ou julgam nao o poder (tenham confianga, porém, e
déem o passo; Deus nao lhes faltará com a sua graga!).
Por conseguinte, quem deseja ter fé saiba que, já por éste
simples desejo, encontrou a Deus ou recebeu de Deus o dom
da fé ("Nao me procurarías se já nao me tivesses encontrado",
dizia muito bem Pascal, interpretando o próprio Senhor). Só
resta a essa pessoa assegurar-se do conteúdo da Revelagáo, das.
suas credenciais (caso lhe seja necessário) e dizer o seu "Sim"
ao credo, um "Sim" interior devidamente exteriorizado. Dora-
vante tal pessoa procurará viver conforme a doutrina revelada
e seus mandamentos; a principio, isto talvez exija grande es-
fórgo; aos poucos, porém, Deus se vai manifestando a quem
Lhe é fiel; Ele se dá a conhecer mais e mais pela experiencia,
pelo contato vivido. Assim, a fé se vai tornando cada vez mais-
profunda e influente na conduta do cristáo.

Alias é importante frisar que a fé tem sua certeza muito


firme; esta certeza, porém, nao se deriva da visáo direta do
objeto de fé. Donde entao provém? Ela decorre do fato de que
"estou unido a Alguém que vé, ou seja, a Deus". É pela doagáo
generosa de toda a personalidade da criatura á infinita Perso-
nalidade do Criador que o homem mais e mais vé as coisas que
Deus vé, como Deus as vé. Saindo de si e do seu egocentrismo
para se entregar ao Senhor, o cristáo se identifica com o modo-
de ver do Altíssimo; e é nesta identificagao que consiste a fé.
A minha crenga será firme na medida em,que eu estiver unido
por todo o meu teor de vida, (nao sómente pela inteligencia)
Aquele que vé a plena verdáde.

Para ilustrar o que é a vida de fé, vem muito a propósito


o episodio de Sao Pedro a caminhar sobre as aguas (Mt 14,23-
33): certa noite, quando remavam sobre o mar da Galiléia, os
Apostólos viram ad longe um clarao pouco distinto que os dei-
xou assustados; Jesús, porém, sem demora lhes disse que era
Ele quem assim se manifestava. Entao Pedro, crendo no Se-

— 11 —
nhor, langou-se as aguas para Lhe ir ao encontró; e — coisa
inesperada — o mar o sustentou, permitindo-lhe caminhar
para Cristo. Pedro assumira o risco da fé, e tal risco era bem
sucedido... Quando, porém, se achava a meio-caminho, pós-se
a considerar o perigo que corría, mais do que a voz do Mestre;
em conseqüéncia, inspirado pela visao meramente natural das
coisas, concebeu médo e logo... comegou a afundar. Foi entao
que Jesús o tomou pela máo e disse: "Porque duvidaste, homem
de pouca fé?". A fé de Pedro conseguirá o que o cálculo huma
no veio a perder.

Esta passagem do Evangelho contém profunda mensa-


gem: quem quer abrasar a fé, saiba que Deus dá a todo homem
a luz, os sinais suficientes para comec.ar a praticar. Faga entao
um ato de fé conseqüente, movendo-se para o Senhor. Isto nao
poderá deixar de representar para a pobre razáo humana um
salto no "semi-obscuro"; na verdade significa perder consisten
cia no "eu" imperfeito para ganhar esteio em Deus Perfeito.
Passo ante passo, o individuo percebe o valor do "arriscar-se"
por Deus; a Personalidade do Primeiro Ser se lhe vai tornando
cada vez mais manifesta, dando-lhe já aqui na térra um ante
gozo do Bem Infinito, que sacia os justos no céu.

III. LITURGIA

ISOLINA ROCHA (Belo Horizonte):

3) "Porque é celebrada a Missa em latim?"

Como é evidente, nao há preceito divino concernente ao


idioma do culto cristáo. Jesús na última ceia instituiu a S. Eu
caristía falando aramaico, a linguagem usual doseu povo. Do
mesmo modo os Apostólos e as gerac.óes subseqüentes de cris-
táos, propagando o Evangelho fora da Palestina, celebravam a
Liturgia servindo-se do idioma local: grego, armenio, etíope,
geórgio, etc.
Com o decorrer dos tempos, porém, foram-se diversificando
as circunstancias da vida civil no Oriente e no Ocidente.

No Oriente, os bispos e missionários nao hesitaram em ce


lebrar o culto em novas línguas, desde que correspondessem
aos costumes dos povos a quem pregavam. Assaz significativo
é o caso dos Santos Cirilo e Metódio; estes, provindo de Cons-
tantinopla, no séc. 9.° puseram-se a evangelizar os eslavos da
Moravia; seguindo o costume dos missionários bizantinos, tra-

— 12 —
duziram a S. Escritura e as preces da S. Missa para o eslavó-
nico, língua materna dos recém-convertidos! Alguns cristaos,
porém, duvidaram da liceidade desta praxe; alegando que o
título da cruz do Senhor fóra redigido em hebraico, grego e
latim apenas, concluiam que só estas tres línguas eram dignas
de louvar a Deus. Ao argumento respondeu em 880 o Papa
Joáo VIII:

"Nao é contrario á reta fé e doutrina cantar a Missa ou ler as Escrituras


do Antigo e do Novo Testamento bem traduzidas e interpretadas, nem sal
modiar as horas canónicas, em língua eslava, pois Aquéle que fez as tres
íinguas principáis, criou também todas as outras para o Seu louvor e gloria"
<Bula "Industriae tuae").

Conservando o costume tradicional até nossa época, os


missionários bizantinos (separados de Roma ou cismáticos
desde o séc. 11) adotam no cuito a língua dos povos recém-cate-
quizados: ñas regioes bálticas recorrem ao alemao, ao estonio,
ao letónio; ñas térras do Alaska e vizinhangas, ao esquimo é
até a idiomas dos indios; na China e no Japáo, ás respectivas
línguas... Também certos grupos de cristaos orientáis e esla
vos unidos a Roma guardam suas línguas litúrgicas próprias
(grego, sirio, etíope, páleo-slavo).
No Ocidente, a historia tomou rumo diverso. No decorrer
do séc. 3.°, a língua grega, comum no Imperio Romano, foi
■cedendo ao latim, de sorte que a liturgia crista, a partir do séc.
4.°, já era exclusivamente celebrada em latim.
Nos sáculos seguintes, o Imperio Romano sofreu as inva-
soes dos germanos, vindo Roma a cair em 476. Sobre as ruinas
da antiga civilizagáo formou-se outra, a qual, aproveitando os
valores da cultura romana, obedecía a urna inspiracfio funda
mentalmente crista. Assim o latim, idioma do antigo Imperio
do Ocidente, ficou sendo a língua de nova civilizacao ou da
civilizacáo ocidental crista e, por conseguinte, também o idio
ma da liturgia. Ñas diversas regioes da Europa através da Ida-
de Media iam-se formando línguas neo-romanas e germánicas,
pobres, porém, e insuficientes para exprimir o sentido rico das
.fórmulas latinas. Por isto até o fim da Idade Media nao se
punha própriamente a quéstáo do idioma a ser usado no culto;
embora as línguas novas fóssem enriquecendo o seu vocabula
rio e literatura, o latim cbntinuava a ser na Europa a língua
dos documentos governamentais, dos tribunais, dos estudos,
em urna palavra: o idioma da vida seria, ao passo que as novas
línguas serviam principalmente para a literatura popular
< novelas, folclore).

— 13 —
No séc. 16, porém, o latim já nao era entendido senáo pelos
eruditos; principalmente os humanistas, á guisa de élite, o cul-
tivavam. Istolevou o rei Francisco I da Franca a decretar em
1536 que para o futuro todos os documentos oficiáis seriam
redigidos em francés; o latim, porém, continuou em uso ñas
Universidades, ñas casas dos eruditos e na Igreja.
Foi no mesmo século que os protestantes tentaram reme
diar á separagáo que havia entre a língua vulgar e a do culto,
propugnando a celebragáo da liturgia em vernáculo. Lutero, a
principio, hesitou bastante sobre o problema,'dada a forma-
gáo humanista de que estava imbuido; em 1923 publicou em
latim a "Formula Missae et Communionis pro Ecclesia Wittem-
bergensi"; em breve, porém, teve que ceder as tendencias dos
outros ps.-reformadores da Alemanha e da Suica (Zwingli, Cal-
vino), que desejavam total mudanga do culto.

A adogáo do vernáculo na oracáo oficial dos cristaos nácr


constituía tese em si condenável (antes, correspondia á praxe
antiga da Igreja). Contudo as circunstancias em que os ps.-re
formadores a propunham só podiam provocar suspeita por par
te do Magisterio eclesiástico; com efeito, ao postulado da lín
gua nacional na liturgia se prendiam falsas idéias dos Protes
tantes relativas ao culto cristao: entendiam a liturgia como
simples instrumento de catequese e pedagogía para o povo, ne
gando o valor transcendente da Missa e dos sacramentos; por
isto julgavam que, se o culto nao fdsse celebrado em vernáculo
carecería de todo valor e utilidade. '
Esta maneira de por o problema fez que as autoridades da
Igreja se manifestassem contrarias á tese protestante; o Conci
lio de Trento (1543-1565) recusou-se formalmente a mudar a
língua da liturgia; esta, mesmo celebrada em latim e nao sem-
pre compreensível para o povo, nao se tornaría inútil, pois os
seus frutos nao dependem tanto da compreensao humana ou
do "opus operantis" como do poder santificador da graca e dos
sacramentos ("opus operatum").

De resto, a tese dos Protestantes fóra precedida de dois mo-


vimentos análogos durante a Idade Media. Nos séc. 11/12 eram
os Albigenses ou Cataros, corrente herética fanática, que pror
pugnavam aadogao da língua popular na liturgia; mas o ri
tual-francés que áp'resentavam, estava longe de ser a tradugao
das fórmulas latinas; constava quase únicamente de leituras
do Novo Testamento e da recitagáo do "Pai Nosso", que os Al
bigenses julgavam ser a única prece válida. Como se entende,

14
a inovagáo propugnada nao logrou aceitacáo por parte da Igre-
ja. No séc. 15, os Valdenses (discípulos de Pedro Valdes). ten-
do-se unido aos tchecos Hussitas (seguidores de Joao Huss),
puseram-se também a apregoar a mudanc,a da língua do culto
sagrado; contudo esta tese era veiculada com um conjunto de
heresias, que so serviam para a desacreditar aos olhos da auto-
ridade eclesiástica.
Depois do solene pronunciamento do Concilio Tridentino,
o vernáculo foi de novo reivindicado para a liturgia, sempre,
porém, por correntes heréticas e como expressáo capciosa de
erros dogmáticos.
Tal foi, por exemplo, a atitude dos Jansenistas nos séc.
17/18; desejavam a celebragáo do culto em francés a fim de
propagar de maneira mais suave e penetrante idéias heréticas.
A artimanha désses inovadores chegava ao ponto de só pro-
pugnarem explícitamente a recitagáo do Canon (parte princi
pal) da Missa em voz alta; caso isto fósse praticado (uso que
parecía de todo inocente), esperavam que o povo em massa se
pronunciasse em favor do vernáculo na liturgia. Aconteceu
mesmo que em 1709 o Cónego Ledieu editou o "Missal Melden-
se" ou "deMeaux", com a seguinte particularidade: no Canon
da Missa as palavras da Consagrado eram seguidas do sinal
B./ (resposta) e de "Amen"; o mesmo "R/ Amen" se via no fim
de todas as preces do Canon que terminam em "Per Christum
Dominum Nostrum"; dando lugar explícito ás respostas dos
fiéis, o novo Missal coagia o celebrante a recitar o Canon em
voz alta.

As astutas cavilares foram decididamente rejeitadas pelos


Sumos Pontífices; o Papa Alexandre VII aos 12 de Janeiro de
1661 chegou a condenar urna traducáo francesa do Missal e
proibiu fóssem feitas outras, mesmo para o uso particular dos
fiéis; ainda no século passado, Pió IX por duas vézes rejeitou
traducoes vernáculas do Ordinario e do Canon da Missa (nao,
porém, de outras partes do Missal). A atitude da Santa Sé se
enrijeceu quando no fim do séc. 18 o movimento de Pistóia
(Italia), também imbuido de heresias, reafirmou o postulado
■de vernáculo na liturgia;. Pió VI o rejeitou em 1794.
Eis, porém, que, passada a onda jansenista-galicana, a
partir de fins do século passado térh sido levantadas algumas
das proibicóes antigás: em 1877, por exemplo,-a Sagrada Con-
gregacáo dos Ritos permitiu de novo o uso de traducóes ver
náculas do Missal devidamente aprovadas pelos bispos. Em
jiossos dias de maneira geral as traduces dos livros da sagra-

— 15 —
da liturgia nao sómente nao sao proibidas, mas tém sido mais
e mais incentivadas pela autoridade da Igreja e multiplicadas
por teólogos e filólogos eminentes. Mantém-se, porém, o latim
como língua oficial da Liturgia Romana.
Éste breve esbóco histórico dá a ver que a adesáo fiel da
Santa Sé ao latim nao se deve a motivos dogmáticos, mas úni
camente á intengáo de preservar incontaminado o dogma ca
tólico, do qual a S. Liturgia é expressivo porta-voz. A historia
atesta um fato (contingente, nao há dúvida, mas real): os ino-
vadores da língua do santuario no Ocidente foram geralmente
corruptores da fé que se queriam servir da liturgia paira propa
gar o erro. Temendo éste perigo, a Santa Sé, do século 16 para
cá, renunciou ao costume de fazer coincidir o idioma do culto
com o idioma contemporáneamente falado pelo povo. O latim,
principalmente nos séc. 16/18, tornou-se a pedra de toque da
ortodoxia. Contudo pode muito bem dar-se que, urna vez cessa-
do o risco de heresia, as autoridades eclesiásticas adotem os
idiomas nacionais na liturgia. É, de resto, o aue era parte já
tem acontecido em diversos países, inclusive o Brasil: algumas
secgoes do ritual do batismo, do matrimonio e dos sacramen
táis sao ditas na língua local. Em 1920, por exempío, foi conce
dida aos católicos da Tcheco-Slováquia a celebragáo da S. Mis-
sa de certas festas em língua páleo-slávica; quanto ao idioma
vernáculo, é usado oficialmente na Tcheco-Slováquia e na
Franga por ocasiáo das Missóes solenes, para se cantar a epís
tola e o Evangelho depois que tenham sido cantados em latim.
Contudo, ao encerrar o Congresso Internacional de Litur
gia celebrado em Assis no mes de Setembro de 1956, o Santa
Padre Pió XII declarava:

"Serla supérfluo lembrar ainda urna vez que a Igreja tem graves motivos
para manter firmemente no rito latino a obrigacáo incondicional, para a
sacerdote celebrante, de usar a língua latina, e de desejar igualmente, quando
o canto gregoriano acompantoa o santo Sacrificio, que isto se faca na lin-
gua da Igreja" (o texto completo se pode encontrar na "Revista Eclesiástica
Brasileira" XVI [1956] 1004-1014).

É certamente a solicitude pela unidade do rebanho que


leva o Santo Padre a se manifestar em tais termos. Por ora,
enquanto se'lhes pede que participem da Liturgia em latim,.
saibam os fiéis que a mudanga de língua está longe de ser con-
digáo essencial para usufruirem os beneficios da S. Eucaristía;
esta é por excelencia o "misterio da fé". A fé, portante, será,
sempre o instrumento primordial para se perceber o conteúdo»
da'SJ'Missa e beneficiar do imenso dom de Deus. Donde se vé a

— 16 —
imperiosa conveniencia que há em renovar, juntamente com o-
idioma da Liturgia, a fé, a formac.áo crista da sociedade con
temporánea. Aquéle empreendimento sem éste nada resolvería.

IV. MORAL E DIREITO

LEGIONARIA (Rio de Janeiro):

4) "Que responder quando as pessoas casadas dizem que


nao podem ter filhos e, por isto, fazem tudo para evitá-los?"

A atitude que convém a cónjuges católicos (e a seus inter


locutores) em tal situado depende evidentemente do conceito
cristáo de matrimonio. Para o discípulo de Cristo, o casamen
to é um estado que ele assume por chamado d* Deus, nao pelo
mero desejo ou pela necessidade de satisfazer á natureza; ma
trimonio, portante, vem a ser tarcfa, missao. Os atos da vida
conjugal nesta perspectiva nao sao regidos pelos caprichos nem
pela procura do gozo, mas pela Lei de Deus, que visa fazer dés-
ses atos o instrumento de santificacao dos cónjuges e de pro-
criacáo de novos cidadáos para o Reino de Deus. Destarte sa
crificio e abnegagáo entram necessáriamente no programa de
vida conjugal de um católico. Em particular, no que diz respei-
to á procriacáo, que é o fim primario do casamento, há de se
fazer sentir essa exigencia de heroísmo.
O Senhor Deus em sua sabedoria quis associar á fungáo
sexual ou aos atos da reprodujo da especie um certo prazer,
como o associou também ao ato de comer, que visa a conserva-
gao do individuo. Ésse deleite tem o sentido de mero estímulo
para facilitar o preenchimento da fungáo ou a consecucáo de
determinado fim; nao pode ser cobicado como finalidade ex
clusiva; a reta ordem manda que o homem só consulta no
prazer do ato conjugal caso aceite a possível fecundagáo que
lhe está anexa; jamáis, portanto, empregue meios artificiáis
para gozar sem ter que arcar com as graves responsabilidades
da paternidade ou da maternidade. De "resto, a idéia de que as
fungoes da procriacáo sao' algo de que o homem nao pode
dispor a seu contento, maB' de que deve prestar contas ao seu
Autor, está tao arraigada ña consciéncia dospovos que, explí
cita ou implícitamente, era afirmada ñas religioes antigás;
estas costumavam associar a fecundacáo a urna intervengáo
da Divindade e cercavam de respeito religioso tal fungáo.
Déstes principios .decprre que dqis cónjuges católicos nao
dirao fácilmente que nao podem ter filhos. Veraáde'é que nin-

— 17 —
guém está obrigado a procriar (o preceito "Crescei e multipli-
cai-vos" se. dirige á especie humana, nao a todo e qualquer in
dividuo); aqueles, porém, que Deus chamou ao matrimonio-
sao muito especialmente incumbidos desta fungáo pelo Cria
dor, e déste recebem a graca necessária para satisfazer a tal
«encargo. Por conseguinte, nem o comodismo nem o egoísmo
covarde nem a vaidade seráo motivos válidos para que um
cónjuge ou um casal católico pense em "limitacáo de prole".
Admita-se, porém, que motivos reais existam para dissua-
dir a procriagáo; tais seriam débil saúde da esposa, perigo de
transmissáo de doencas, penuria de recursos financeiros, difi-
«uldades para educar a prole, etc. Em tais casos, os cónjuges
■católicos recorrem
a) ou á continencia total, que ao menos transitoriamente,
<em período de crise esporádica, poderá ser praticada sem gran
de dificuldade;
b) ou á continencia periódica, regrada segundo a tabela
de Ogino-Knaus ou conforme os métodos ainda mais recentes
de medicáo da temperatura ou da glicose. Ésses processos, in
dicando as fases em que a mulher é fecunda, possibilitam aos
«esposos escolher, para a realizacáo do ato matrimonial üni-
.camente os períodos de esteriiidade natural.
Com efeito, a partir de 1928 os médicos K. Ogino, japonés,
<e H. Knaus, austríaco, fizeram estudos que hoje em dia per-
ünitem calcular quais os dias de infecundidade da mulher. Ser- ■
Tóndo-se déste recurso por motivo serio, os cónjuges nao pe-
•cam, pois de modo nenhum mutilam a natureza para evitar a
prole (e nisto se diferenciam daqueles que separam da consu-
macáo do ato o prazer anexo a éste); praticam o comercio
sexual em pleno acordó com as leis do organismo, aproveitan-
do-se exclusivamente dos períodos de esteriiidade natural. Esta
•exclusividade nao lhes pode ser censurada desde que razoes
imperiosas o ditem; a Lei de Deus nao exige "nascimentos em
<quota máxima", nem "nascimentos sem discriminacáo".
O recurso á tabela de Ogino-Knaus foi, a principio, im
pugnado por alguns moralistas católicos que o julgavam "obra
de morte, derrogacáo ao preceito divino". Nao resta mais dú-
Tida, porém, a seu respeito, desde que o Santo Padre se pro-
nunciou numa alocucáo á Uniáo Católica Italiana das Partei-
ras em 29 de outubro de 1951. Eis oTtrecho que nos interessa:
"Podem os ídnjugos ser dispensados dessa obriga^áo positiva (de procelas)
anesmo por multo tempo, até mesmo pela duratáo inteira do matrimonio,
por motivos serlos, como os de índica?áo médica, eugénica, económica, social.
Honde se segué que a observancia das" épocas Infecundas pode ser lícita sob
<o aspecto moral, e, ñas condiedes indicadas, o é realmente. Entretanto, se

— 18 —
consoante um juízo razoável e justo, nao há semelhantes motivos gravea,,
quer pessoais, quer decorrentes das circunstancias exteriores, a vontade, nos-
esposos, de evitarem habltualmente a fecundidade da sua uniao, embora
continúen» a satisfazer plenamente a sua sensualidade, só pode provir de
urna falsa apreciacáo da vida e de motivos estranhos ás regras da sá moral.
Contudo talvez insistáis agora, observando que, no exercíclo da vossa
profissáo, vos achais ás vézes diante de casos multo delicados, em que nao-
se pode exigir se corra o risco da maternidade e em que mesmo esta últi
ma deve ser absolutamente evitada, casos em que. p-r outro lado, a obser
vancia dos períodos agenésicos ou nao proporciona seguranza suficiente ou nao'
pode ser praticada por outros motivos E perguntais como é que entáo ainda
se pode falar de um apostolado a servico da maternidade.
Se segundo o vosso juizo, seguro e experiente, as condicóes requerem.
absolutamente um "nao", isto é, a exclusáo da maternidáde, seria um erro e
um mal impor ou aconselhar um "sim". De fato, trata-se aqui de fatos-
concretos e, por conseguinte, de urna questáo nao de teología, mas de medi
cina; ela é, pois, da vossa competencia... Mesmo nesses casos extremos-
toda manobra preventiva e todo atentado direto á vida e ao desenvolvi-
mento do germen sao proibidos em consciéncia e excluidos;... um só cami-
nho fica aberto: o da abstencáo de toda atividade completa da facuMade
natural. Ai o vosso apostolado obriga-vos a ter um juízo claro e seguro c uma
calma firmeza.

Mas objetar-se-á que uma tal abstencáo é impossivel, que semelhante


heroísmo nao é praticável... E, para provar isso, aduz-se o seguinte racio
cinio: Ninguém é obrigado ao impossivel e nenhum legislador razoável pode
ser suspeito de querer obrigar por sua Jei mesmo ao impossívCK Mas, para,
os esposos, a continencia de longa duragáo é impossivel. ESgo nSo sio
obrigados á continencia; a Lei Divina nao pode ter éste sentido.
Assim de premissas parcialmente verdadeiras tira-se uma conseqfiéncia:
falsa. Para disto nos convencemos, basta inverter os termos do raciocinio:
Deus nao obriga ao impossivel. Ora Deus obriga os esposos a continencia,
se a sua uniáo nao se pode efetuar segundo as regras da natureza. Logo
nestes casos a continencia é possível
Por conseguinte, no exercicio da vossa profissáo e no vosso apostolado-
nao vos deixeis perturbar por ésse termo pomposo de impossibilidade... É.
fazer injuria aos homens e as mulheres do nosso tempo consiaera-los inca-
pazes de um heroísmo continuo. Hoje em dia por muitos motivos... o heroís
mo exerce-se em grau e em medida que nos tempos passados se tóriaitn.
acreditado impossíveis": (Pode-se ler o discurso por inteiro na "Revista
Eclesiástica Brasileira" Xn [1952] 193-208).

As palavras do Santo Padre, suficientemente claras,


pensam comentarios. Em última análise, constituem uma.
exorta§áo a que os cónjuges cristáos nutram entre si o espirito?
de fé, diferente da merítalidade do mundo.

Ainda se pode observar qué a doutrnia exporta" nada-tem


que ver com o Malthusianismo, como é comumente entendido"
restricáo da natalidade mediante o emprégo de meios artifi
ciáis. De resto, o ministro anglicano Roberto Malthus. em sea
livro '*An essay -on the. principie jof pqpulation" (1798), mos-
trava-se preocupado com as desoladoras condicóes éconómi-

— 19 —
«as em que viviam os povos e propunha-se remediar ao mal
pela diminuicao do número de nascimentos; nao entendía,
porém, de modo nenhum o uso de meios anticoncepcionais
mas apenas a abstencao de relagóes sexuais anteriores ao casa
mento, a continencia por parte dos cónjuges que nao pudessem
gerar ou educar filhos sadios de corpo e alma'; Malthus chega-
va mesmo a aconselhar o celibato casto. O verdadeiro arauto e
sistematizador do controle de natividade é, antes, o filósofo e
matemático N. Caritat, marqués de Condorcet, fautor e depois
vituna da Revolucáo Francesa; a ele se deve a doutrinacáo con-
cernente ao emprégo dos meios anticoncepcionistas.

C. S. F. (Rio de Janeiro):

5) "Porque a Igreja proibe a cremacao de cadáveres?"

Para se entender aposicáo da Igreja, será útil breve esbo


zo histórico da maneira de tratar os cadáveres
Na medida em que se pode julgar, o homem da pré-histó-
ria praticava a inumacáo dos mortos, como o atestam as ossa-
das fósseis encontradas ñas cavernas: em Aurillac, Cro-Mag-
non, Mentón, teráo existido lugares de sepultura'regular á
entrada dos quais havia restos de sacrificios e banquetes cele
brados em honra dos mortos. Contudo a cremacao parece ter
estado em uso na mesma época, pois se encontram também
onzas de cadáveres humanos.
Nos tempos históricos anteriores a Cristo, o modo de tratar
os corpos dos defuntos variava de povo a povo, com predomi
nancia, porém, da inumacáo.
Entre os romanos, a praxe mais antiga era o sepultamento.
Sob a República, porém, comecaram a aplicar o fogo aos cadá
veres, julgando que assim ajudariam o espirito a se libertar do
corpo; a cremagáo contudo nunca suplantou por completo o
rito primitivo; a Lei das Doze Tábuas no ano de 308 da fun-
dagáo de Roma reconhecia a plena legitimidade de um e outro
costume.
Os semitas em geral, inclusive os israelitas, nao queima-
vam, mas sepultavam os seus mortos. A Lei de Moisés manda-
va inumar os supliciados no dia mesmo da execugáo capital
(cf. Dt 21,22s); os judeus só incineravam em casos extraor-'
dinários de guerra ou peste; tenham-se em vista a sorte/do&ca-
dáveres de Saúl e seu filhos (1 Sam 31,12s) e a profecía de
peste consignada por Amos 6,9s.
Eis o fundo ao qual sobreveio o Cristianismo.

— 20 —
Éste nunca praticou senáo a inumagao. Até mesmo com
perigo de vida os antigos discípulos de Cristo' recolhiam os
restos moríais dos seus mártires para os sepultar. Os pagaos
por vézes se compraziam em violar os túmulos dos cristáos; em-
bora o pudessem evitar praticando a cremagáo, os fiéis nao ado-
tavam éste costume. Os perseguidores, em certas casos, manda-
vam mesmo queimar os cadáveres dos mártires e atirar suas
cinzas ás aguas ou aos ares, entendendo assim combater a fé
crista na ressurreigáo; ao que retrucavam os fiéis que nem por
ésse recurso ficaria coibida a Onipoténcia Divina, que prome-
teu ressuscitar os mortos.
Terminada a era antiga, Carlos Magno em 789 publicava
severa lei contra a cremagao ainda praticada esporádicamente
como reminiscencia do paganismo; ao transgressor seria im
posta a pena de morte.
Em plena Idade Media (séc. 13/14) tem-se noticia de cris
táos que faziam ferver os cadáveres em agua, principalmente
os de dignitários e nobres, a fim de separar carne e ossos e os
transportar mais cómodamente para a sepultura! Contra tal
uso, tachado pelo Papa Bonifacio VIII de "ímpio e cruel", a
Igreja reagiu punindo de excomunháo os que assim procedes-
sem (Extravag. com. 1. III, t. VI, Decretal." "Detestandae feri-
tatis").
Na Idade Moderna, representantes da Revolugáo France
sa, mediante urna petigáo apresentada ao Cónselho dos Qui-
nhentos no dia 21 do Brumário do ano V (11 de Novembro de
1796), tentaram implantar a cremagáo na Franca, sem encon
trar, porém, o devido apóio : Finalmente, a partir de fins do
século passado, a Magonaria, propugnando tal praxe, tem con
seguido o reconhecimento oficial da mesma por parte de
alguns governos. A campanha se abriu na Italia, onde Bru-
netti em 1872 fez algumas experiencias; em 1873 o Senado Ro
mano permitiu ás familias recorrer a tal rito. Em conseqüén-
cia, o primeiro caso de cremagao legal se registrou em Miláo
aos 22 de Janeiro de 1876. Por essa pcasiáo, fundaram-se em
Dresden, Zürich, Gotha, Londres e París, numerosas socieda
des que visavam propagar a praxe. O sucesso por elas obtido
explica a existencia, nos'nossos dias, de estabelecimentos e for-
nos crematorios na Europa, nos Estados Unidos e em outras
nágoes; contudo, fora do Japáo (onde a incineragáo parece
ser praticada sem repugnancia alguma por parte do povo), o
seu funcionamento é relativamente exiguo; os que desejam
ser incinerados ainda constituem urna excegáó.

— 21 —
E essa excegáo, por muito que se queira justificar, conti
nua sendo reprovada pela Igreja, a qual manda aos seus fiéis:
1) abstenham-se de mandar queimar os seus próprios ca
dáveres ou os de outras pessoas;
2) tenham por inválida a ordem de cremagao do próprio
cadáver expressa por outrem, quando ainda em vida;
3) os serventes e oficiáis subalternos nao colaborem em
cremagáo a nao ser que conste claramente que tal servigo, no
caso dado, nao significa reprovagáo da doutrina católica nem
profissáo de ideología acatólica;
4) nao déem seu nome a sociedades promotoras da inci-
neragáo.
Em particular, a respeito de membros (bragos, pernas,
etc.) amputados em intervengóes cirúrgicas, Religiosas que tra-
balhavam num hospital dos Estados Unidos da América, nao
sabendo como proceder, interrogaram a Santa 3é a propósito;
aos 3 de Agosto de 1897 receberam em resposta as seguintes
normas: seria desejável, ñas dependencias do hospital se reser-
vasse pequeño espago de térra, que, após a béngao do Ritual,
ficasse destinado a receber os membros extraídos de católicos;
caso, porém, esta praxe fósse difícil ou inexeqüivel, se confor-
massem aos costumes vigentes no lugar, ou sepultando em
térra profana ou, se os médicos o mandassem, recorrendo á
cremagáo.
E quais os motivos de tal atitude da Igreja?
Nao é própriamente o dogma, nem mesmo o da ressurrei-
gáo dos corpos, que a inspira; o cristáo sabe perfeitamente que
na ccnsumagáo dos tempos o Senhor poderá reconstituir o
corpo próprio a cada alma humana, independentemente da
sorte que tenha tocado ao cadáver.
Contudo a Igreja se deixa mover
1) pelo respeito á natureza. O senso cristáo reverencia as
obras de Deus; julga nao lhe ser lícito retocar o curso natural
das coisas instauradas pelo Criador; é esta urna norma geral
que se aplica ao caso da decomposigáo dos cadáveres e (com
muito mais preméncia ainda) a tudo que diz respeito á geragao
de novo ser humano;
2) pela consciéncia da dignidade sobrenatural do corpo
humano. O Filho de Deus, encarnando-se, tccou e santificou a
carne. Mais ainda: esta, pelo-batismó; é feita portadora de
Deus, templo da Santíssima Trindade; a Eucaristía a póe em
contato íntimo com o corpo santíssimo de Cristo. Sendo assim,
repugna espontáneamente ao cristáo tratar o corpo humano,
principalmente o corpo de quem pelo sacramento foi exertado
i'

— 22 —
no Cristo, como se trata urna porgáo de materia tornada inútil,
lancada ao lixo e destruida pelo fogo; a carne que* conforme
Santo Agostinho, "o Espirito Santo usou para toda obra boa"
(De cura pro mortuis gerenda 2), merece respeito, respeito que
os antigos já na pré-história tributavam aos seus mortos, em-
bora se inspirassem em motivos diferentes. Ó sepultamento ex
prime bem a fé na ressurreicao ou a idéia de que a morte é,
como diziam os antigos, um sonó; e o cemitério (koimetérion,
em grego), um dormitorio, onde os defuntos aguardam o dia de
despertar e ir ao encontró do Senhor. Se é com a morte que co-
meca a verdadeira vida, porque praticar com os cadáveres um
rito que insinúa a total dissolugáo do sujeito?

3) Acresce que nos tempos modernos o movimento pro-


-cremacao tem sido inspirado pela ideología racionalista da
Eeyolucao Francesa e da Maconaria, e freqüentemente equi
vale a urna profissáo de fé anti-catóüca ou de materialismo.
Os que propugnam a incineracúo em nossos tempos nao raro
visam em primeiro lugar incutir concepgóes filosóficas contra
rias ao Cristianismo.
Sao estes os motivos da posicáo da Igreja. Em casos espo
rádicos, porém, principalmente quando se trate de salvaguar
dar o bem comum ameacado por guerra ou epidemia, as auto
ridades eclesiásticas nao se opoem á crema§áo.
A éste propósito nao se poderia objetar que, mesmo fora
dos casos de epidemia, a cremagáo, suprimindo o perigo de
emanaeoes nocivas dos cadáveres, é mais condizente do que a
Inumacáo com a higiene pública. Os peritos médicos ensinam
que a putrefagáo normal no seio da térra equivale a lenta cre-
macáo, cujos produtos, quer parciais, quer definitivos, sao
inócuosi nao acarretando perigo nem para as aguas nem para
a atmosfera; com efeito, o poder natural de depuracáo do solo
impede que as aguas provenientes de terrenos de inumacáo
venham á flor da térra contaminadas; também se tem averi
guado que a composicáo do ar dos cemitérios nao difere da
das cidades adjacentes. Naturalmente, para garantir essa imu-
nidade, impóem-se cautelas de higiene (certa distancia das
aglomeracóes de casas,^drenagem adequada...) a que se deve
conformar qualquer projeto de cemitério.

Ademáis pesa em favor do sepultamento um motivo de in-


dole médico-legal: excetuados certos casos de envenenamento,
a crema§áo extingue qualquer vestigio de morte violenta e tor-
na-se impossível um ulterior exame do cadáver; o sepultamen-

_ 23 —
to, ao contrario, sempre deixa margem a urna autopsia judi-
ciaria.

6) "Nao se sabendo o que se passou no último instante


entre a auna e Deus, porque nega a Igreja assistencia religiosa
(enterro, Missa solene, etc.) aos suicidas?"

A legislacáo da Igreja, no assunto, se pode circunscrever


nos seguintes termos:

a) visa apenas aqueles que recorrem "de maneira delibe


rada, deliberato consílio" (cf. can. 1240 § 1 n. 3) ao suicidio;
o que, na interpretacáo comura dos canonistas, significa "aque
les que se suicidam sem estar em reconhecidas condicóes de
amencia ou neurastenia crónica, aguda", pois tais já nao sao
responsáveis por seus atos. Embora nao se possa dizer que todo
suicida carece do uso de suas faculdades mentáis, muitas vézes
é difícil averiguar se algüém se suicidou "de maneira delibera
da", como diz o Direito Eclesiástico; sómente Deus vé a cons-
ciéncia e os fatores que em grau maior ou menor a inibem.
Desde, porém, que conste que o suicidio nao foi premeditado
nem voluntario, nao se aplica a sancáo eclesiástica;
b) supóe-se que tais suicidas nao tenham dado sinal de
retratacáo e penitencia antes de expirar. O Papa Gregorio XVI
em sua carta "Officium" de 16 de Fevereiro de 1842 declarou
nao ser lícito admitir, sem mais, que todo suicida nos últimos
instantes se arrepende de suas faltas. Para se afirmar isto em
determinado caso, requerem-se indicios explícitos, como o ós
culo do crucifixo, o desejo de estar com um sacerdote ou algu-
ma atitude semelhante. Caso se tenha verificado algum déstes
sinais, é preciso torná-lo notorio, a fim de evitar o escándalo
público;
c) tém-se era vista únicamente os suicidas reconhecidos
como tais. Por conseguinte, para tratar alguém como suicida,
nao basta encontrar um cadáver enforcado, afogado, morto por
urna arma, aínda que esta se ache junto aos despojos do de-
funto.
Pois bem; a quem morra ñas circunstancias de delito áci
ma enunciadas, a Igreja de modo nenhum atribuí a condena-
gáo eterna. Sómente Deus sabe o que sé dá no foro interno da
alma, quais as suas últimas disposicóes depois de desferir o
golpe mortal; um suicida que se tenha sinceramente arrepen-
dido, embora nao haja podido manifestar-se como tal, recebe
de Deus o pleno nerdáo.
•/
— 24 —
Contudo, abstrapo feita do foro interno, a Igreja, a.bom
direito, julga que nao pode dar aos seus fimos que morrám
em aberta contradicho a Deus e á natureza o mesmo trata-
mente que aos demais; a ac.áo má (na medida em que ela apa
rece ao público) deve ser denunciada e repudiada. Por isto é
que os cánones eclesiásticos privam de certas honras os ditos
delituosos, negando-lhes o ritual da sepultura eclesiástica e a
celebragáo pública, solene, da Santa Missa em sua intencáo;
nao lhes recusam, porém, a aplicacao do S. Sacrificio em ca-
ráter particular ou privado. Ora os católicos sabem aue os
frutos do Sacrificio Eucarístico de modo nenhum depéndem
da solenidade externa que se dá ao rito; sendo assim, o
suicida nao é destituido dos sufragios que se costumam fazer
na Santa Igreja em prol dos defuntos; caso esteja no purga
torio, pode ser beneficiado como as demais almas ai existen
tes.
Vé-se, pois, que a legisla§áo eclesiástica nao implica
algum juízo sobre o destino eterno da alma do suicida.

BOA VONTADE (Teófilo Ottoni, Minas):

7) Porque nao colaborar com a Legiáo da Boa Vontade?"

Há certas palavras que fazem vibrar o íntimo da alma hu


mana, pois representam elevado ideal; tal, por exemplo, a ex-
pressáo "Boa Vontade". É o que em grande pairte explica a di-
fusáo da "Legiáo da Boa Vontade" entre nos. Esta sociedade
parece estimular ao extremo a nobreza de afetos; dir-se-ia que
•o "legionario" é o homem magnánimo por excelencia, capaz
de abracar a todos e a tudo em sua mente dilatada, ao passo
que os adversarios da LBV fazem o papel de mesquinhos, into
lerantes. .. Atraídos por tal cartaz, muitos católicos aderem
á Legiáo.
Na realidade, quem reflete um pouco percebe que a cam-
panha da LBV é um dos mais requintados fatores da destruigáo
de qualquer empreendimento.
Vejamos bem.
Aquilo que tanto seduz na campanha de Alziro Zarur, a
pregac,áo da caridade, nao | em absoluto próprio da Legiáo da
3oa Vontade; o Santo Evangelho já há vinte séculos o ensina
através da Igreja Católica; nesta nao faltam instituí?,oes de be
neficencia (orfanatos, asilos, colegios, etc.) que, talvez por se-
rem tradicionais, menos chamam a atengáo e as vézes se váo
.sustentando com dificuídade. "Quotidiana vilescunt", diz o

_ 25 —
adagio; o que é costumeiro perde o seu caráter interessante,
nem se nota mais; ao contrario, as novidades seduzem as mas-
sas, que pouco refletem. Nao é preciso, pois, que um católico
se inscreva na Legiáo da Boa Vontade para que tenha ocasiáo
de trabalhar em prol dos necessitados; torne-se, antes, um
católico de fibra, o qual nao se dá por satisfeito com rótulos
ou palavras apenas.

O que caracteriza o movimento de Zarur é "querer desco-


nhecer a filosofía ou a religiao que cada um professa", é querer
fundir todos os que créem (no que quer que seja) e os que nao
créem, mima só campanha.

Mas nao seria isto ótima coisa?

Tal postulado implica necessáriamente o fracasso do bem


ou da boa vontade. Com efeito, nenhum homem pode prescin
dir de urna certa ideología que lhe dé urna explicacáo da vida
e oriente os seus passos; todos procuram espontáneamente
a resposta para certas perguntas básicas: "Donde vimos? Para
onde vamos? Que significa o homem, com o qual devo tratar?
Que vem a ser o bem? Que é o mal e donde vem?" É a solu-
cáo dada a estas questoes que vai nortear a conduta de cada
um. Quem eré em Deus, encara a vida diversamente de quem
nao eré; quem aceita a doutrinagáo espirita, nao considera a
vida presente como o católico. Ora cedo ou tarde, em qualquer
empreendimento de relevo vém á tona tais interrogacóes; e, se
os colaboradores nao lhes dáo a mesma resposta, separam-se,
nao podem continuar a obra. Quantas vézes nao se ouve falar
de iniciativas que falharam por causa de desentendimentos!
Nem se poderia esperar outra coisa. Como nao riñamos se
alguém nos dissesse: "Vamos trabalhar juntos em tal painel
ou na caiagáo de tal paréde, sem pensar na luz que ilumine
nossa oficina, nossas máos' e nosso material"? Trabalhar
sem levar em conta o fator "luz", só atendendo ao fator "ener-
gia", é impossível; a luz é anterior ao emprégo da energía;
torna-se indispensável que os operarios tenham todos o mesma
tipo de olhos, iluminados pela mesma luz (branca, azul, ver-
melha, etc.), de modo a verem como vermelho o que é verme-
lho, como grande o que é grande, como redondo o que é re
dondo, etc. Se nao se preenche previamente esta condicáo, é
impossível' comegar a colaboracáo. — Pois bem. Tal observacáo,
verídica no plano do trabalho material, é igualmente (ou mais
ainda) verídica no plano das atividades espirituais, caritati
vas, etc. A luz que se deve acender previamente para que haja

— 26 —
beneficencia, sao certos principios doutrinários (o que é a
vida, quem é o homeme qual o seu destino...); se os"preten
sos colaboradores nao sao todos iluminados pelas mesmas pro-
posigóes, assemelham-se a cegos que querem atingir em
comum o mesmo objetivo, atirando cada um conforme o seu
próprio parecer, arranjado ou improvisado. Que pode resultar
disso?
De resto, pelas afirmagoes da Legiáo da Boa Vontade ve-
rifica-se que esta sociedade nao se pode furtar a propor certas
idéias e combater outras; a tese da reencarnacao, por exemplo,
parece ser um de seus principios prediletos; e essa tese nos leva
para as regióes do espiritismo e do hinduísmo. Já se tem propa
lado mesmo que "Alziro Zarur é Elias redivivo"... talvez para
preparar o fim do mundo. Quantas idéias se váo assim incu-
tindo a quem. se chega a Legiáo da Boa Vontade! No mínimo,
o "legionario" irá formando em si um conceito relativo ou
cético de Verdade. E isto é tremendo, pois solapa totalmente o
ardor e a alegría. O homem possui tal grandeza de alma que
só se pode satisfazer dando-se Aquele que é o Absoluto; ora o
Absoluto é um só, tem urna só face, a qual fala nao sómente de
Amor, mas também de Verdade única, inconfundível.

GERALDO (Sao Paulo):

8) "Porque é que os católicos nao aceitam a irmanagáo


de todas as Religioes?"

O católico nao denega boa vontade ou amor a nenhum dos


seus semelhantes, pois sabe que todos valem o prego do san-
gue de Cristo. Nao recusará, portante, aliviar as indigencias
espirituais e corporais de um protestante, de um espirita ou de
um budista.
A Legiáo da Boa Vontade, porém, sob o pretexto de fomen
tar a caridade e a uniáo das fórgas benéficas, propóe "irmana-
cjío das religioes", querendo colocar práticamente no mesmo
piano todas as crengas. Ora isto é totalmente desarrazoado.
Com efeito. Refutamos um pouco: admita-se que tres enge-
nheiros desejem colaborar entre si na construgáo de urna pon
te. O primeiro, porém, afirma que "dois e dois sao quatro"; o
segundo, na sua matemática, diz que "dois e dois sao tres", e
o terceiro que "dois e dois sao cinco". Ora está claro que, diver-
gindo assim sobre os principios do cálculo, nao se poderáo con
jugar para fazer um projeto de ponte, por maior que seja a sua
caridade mutua ou a sua vontade de auxiliar aos concidadaos.

— 27 —
Aquéle que pensa "dois e dois sao quatro", tendo a evidencia
de estar com a verdade, preferirá dispensar a colaborado dos
dois colegas, pois sabe que esta só poderá ser nociva, acarre-
tando falhas e vicios na obra. Alias, é o próprio bem comum
que pede que o engenheiro possuidor da verdade nao queira fa-
zer como se estivesse no erro. Quanto áquele que julga que "dois
e dois sao cinco", pelo fato de se achar no erro, nao estará se
guro na sua posigáo (o erro nunca é evidente por si mesmo);
por conseguinte, nao terá dificuldade em proceder como se
"dois e dois fóssem tres"; a fusao com as opinioes de outros
pode ser vantajosa para quem está no erro. É isto que nao se
dá com quem está na verdade; sabe que, para empreender urna
a?áo comum fecunda, deve haver entré os colaboradores con
cordia baseada sobre a VERDADE.
Tal caso explica bem a situagáo dos católicos perante a
chamada Legiao da Boa Vontade. Esta, por estar no erro (é de
fundo espirita ou meramente liberal), pode propor aos cató
licos, esquecam na prática as verdades que diferencian! o seu
credo dos outros credos e procedam como se nao pensassem de
outro modo... A Igreja responde que um tal nivelamento é
ilusorio; comprometería o sucesso da agao, pois o BEM está
fundado na VERDADE. Só aquéle que afirma "dois e dois sao
quatro" é capaz de conceber e executar urna ponte sólida; se
ele se comportar como se "dois e dois fóssem cinco" para satis-
fazer ao seu companheiro, ele deixará de ser amigo désse com-
panheiro e o Bem Comum protestará, porque será violado.
Assim se entende porque os católicos, embora amem (e
justamente porque amam) profundamente a qualquer protes
tante ou espirita, nao podem aceitar a "irmanacáo das reli-
gióes"; tém que afirmar a verdade inteira, sem dissimular o
que ela possa apresentar de alheio as crengas de outrem, por
que, do contrario, estariam pondo o candieiro debaixo da mesa
e prejudicando a todos. Sómente em pontos que nao impliquem
desdita aos grandes principios doutrinários da Verdade ( como
o combate ao materialismo e ao bolchevismo), pode haver ac.So
comum entre católicos e náo-católicos.
Ainda se deve notar quao confusa é a expressáo "religioes
irmanadas". Dá a entender que cada religiáo é produto do bom
senso de um povo ou de um grupo de homens e que cada indi
viduo escolhe a sua religiáo segundo a sua boa vontade. Longe
disto, porém, está a verdade.
"Religiáo" significa "ligagáo, intercambio entre Deus e os
homens". Neste intercambio é Deus quem tem a primazia,.

— 28 —
pois, por definigáo, Ele é o Senhor do homem. Por conseguinte,
é Deus quem dita o modo como a criatura O deve procurar e
atingir, é Deus quem revela a religiáo; nao toca aos homens a
tarefa de conceber a religiáo ideal. Ora, já que a religiáo é di-
tada por Deus, e Deus é um só para todos os homens, so pode
haver urna Religiáo; os outros cultos ou credos sao sistemas
humanos que nao merecem ser chamados "Religiáo", muito
menos irmanados com esta.

E a única Religiáo é a que Deus mesmo ensinou (e conti


nua a ensinar), tendo-se feito homem após longa preparagáo
e prolongando o seu ensinamento até hoje na Sua Igreja sem-
pre vital e fecunda.

GAUCHO (Cachambi):

9) Qual é a posicáo da Igreja perante os concursos de


beleza, táo comuns em nossos tempos?"

Os concursos de beleza internacionais, tais como se tém


realizado em nosso século, só podem merecer formal desapro-
vagáo por parte da consciéncia crista. Levando em conta ape
nas a beleza física, só fazem excitar vaidade e concupiscencia
desregrada; haja vista a serie de criterios estabelecidos (até
mesmo exames médicos sao prescritos) para se atribuir a vi-
tória a tal ou tal candidata. A mentalidade que inspira ésses
torneios parece ser profundamento paga ou paganizante.
Pode contudo haver quem hesite em aceitar éste juízo, vis
to que o Santo Padre Pió XII recebeu a senhorita Carletti,
jovem italiana vencedora em recente concurso de beleza. É
de notar, porém, que por tal gesto Sua Santidade se dignou
reconhecer o significado de um certame diferente dos habi
tuáis, ou seja, de um concurso em que nao se considerou ape
nas o físico humano, mas também se deu alto apréco as quali-
dades de espirito das concorrentes. Com efeito, a agencia tele
gráfica United Press transmitiu ao mundo a seguinte noticia:

"A audiencia de hoje, á quSl a jovem Carletti foi acompanhada por


seus pais e duas irmás, é considerada como expressáo de estímulo do Papa
aos concursos em que também se levam em considerac&o outros dotes pes-
soais, sJém da beleza física.
A esbelta senhorita Carletti, que costurou ela próprta o vestido com que
eompareceu á audiencia no Vaticano, nao possui apenas a beleza, mas tam
bém os seguintes predicados, que contribuirán! para que lhe íósse concedido
o titulo: sabe lavar e passar a ferro, encerar a casa e limpá-Ia com aspira-

— 29 _
<dor de pó; faz excelentes pastéis, guisados e spaghetti; sabe costurar, bardar,
«te.; é. decoradora, nadadora e ciclista; nao fuma; danga com moderac&o;
nao tem interésse especial pelos automóveis; nao lé historias em quadrí-
nhos; está sempre de bom humor e goza de perfeita saúde".

Como se vé, a exigencia e a apreciasao de tais qualidades


em uma jovem denotan um conceito de natureza humana que
já nao é o do pagáo antigo ou moderno. Diante de concursos
que contribuam para que as jovens se apliquem ao trabalho,
ao calejamento das máos (se necessário), levando-as a preen-
cher a sua fungao na sociedade e a alcangarem o seu Fim Su
premo, a Moral crista nao se mostra infensa; tais certames,
longe de degradar, só fazem aprimorar a consciéncia; em vez
de prostrar as pessoas interessadas na moleza frivola, mórbida,
estimulam o cultivo da virtude. Nada impede que, juntamente
com esta- se leve em aprégo, dentro de certos limites, o as
pecto físico das concurrentes, já que a natureza humana consta
nao sómente de alma, mas também de corpo (corpo, porém,
que em tudo há de ser subordinado ao espirito). Sabemos, alias,
que a gra$a sobrenatural existente em uma alma pode chegar
a "transparecer" no rosto do justo, comunicando-lhe um en
canto, uma gra<ja natural, que deleita os homens (antecipa-se
assim em termos pálidos o que se dará na final ressurreic.áo da
carne); a Sagrada Escritura mesma menciona a éste propósito
os exemplos de Judite e Ester; a hagiografía registra, entre
outros, o famoso caso do Cura d'Ars.

Vé-se, pois, que a audiencia concedida pelo Santo Padre


Pió XII tem o significado de estimular o desenvolvimento das
qualidades de ánimo da mulher no mundo moderno, nao impli
cando, em absoluto, ratificagáo dos lascivos certames de beleza
meramente corpórea que empolgam a sociedade contempo
ránea.

D. Esteváo Bettencourt — O. S. B.

30 —
ERRATA

Concernente a"P.R." 5/1957

A RedacSo de "Pergunte e Responderemos", consciente de erros


'tipográficos que tém ocorrído em números anteriores da Revista, pede
desculpas aos seus leitores e envia-lhes a seguinte lista de correcóes a
ser feitas em "P. R." 5/1957:
Pág. 2, 1. 5: em vez de Deus?", ler Deus".
" "1. 10: em vez de o Missa, 1er a Missa.
Pág. 3, 1. 6: em vez de Deus?", ler Deus".
•" " 1. 12: em vez de í. O que..., ler 1. Que...
" " 1.5 de babeo para cima: em vez de ao passo que adulto,
: ■ ler ao passo que o adulto.
¡ " " 1.2 de baixo para cima: em vez de exemplo, ler exemplar.
• Pág. 4: eis a figura auténtica do quadro sinótico:
Todo SER por si é um BEM.
ou mera negagáo, ausencia de entidade
nao devida: p. ex., a falta de asas
no homem. Nao é nem BEM nem MAL.

ou carencia, privagáo de entidade devida á natureza

O NAO-SER é na ordem fisica: por ex.,


MAL FÍSICO
falta de vista no homem.

na ordem moral: por ex.,


falta de conformidade do
MAL MORAL
ato humano a Deus, Fim
Último.
Pág. 4, 1. 21: em vez de vultosas, ler vultuosas.
Pág. 5, no sub-título: em vez de II, ler 2.
Pág. 6, 1. 1 no inicio: ler 3/1957, qu. 4.
" " 1. 22: em vez de podem precisar á quál, ler podem preci-
Pág. 8, última linha: em vez de afirma, ler afirme.
Pág. 9, 1. 4 e 5: ler "Pergunte e Responderemos" 3/1957,qu. 5).
Pág. 11, 1. 16: em vez de tivesse, ler tivesses.
Pág. 12, no enunciado da questáo: ler latim?"
Pag. 13, 1. 1: em vez de Mirávia, ler Moráuia.
" " 1. 21: em vez e Japáo. ler e no Japáo.
Pág. 15, 1. 14: ler Jansenistas.
" " 1. 34: em vez de Pió XI, ler Pió IX.
Pág. 17, 1. 3: ler juntamente com o idioma.
Pég. 19, 1. 12: em vez de agnésicos, ler agenésicos.
Pág. 20, L 5 de baixo para cima: ler Dt 21,22s.
Pág. 21, .1. 3: em vez de pagóes, ler pagóos.
" " 1. 12: em vez de 189, ler 789.
" " 1. 20: em vez de Bonifacio VII, ler Bonifacio VIII.
1 " " 1. 6 de baixo para cima: em vez de crematorios, ler
__, , crematorios.
Pág. 22, 1. 23: em vez de ou, os médicos, ler ou, se os médicos.
Pág. 24, 1. 12: em vez de neurastenia, ler neurastenia.
Pég. 25, 1. 5: em vez de a repudiada, ler e repudiada.
" " 1. 17: em vez de prejuízo, ler jufzo.
Pág. 26, 1. 2: ler diz o adagio; o que.
Caro amigo, nao há quetn nao se panha a pensar e nao
conceba sem demora importantes problemas ("Afinal que faco
neste mundo? Qual o sentida da vida presente? Que se Ihe
seguirá?"). Nao sufoque nem despreze essas questóes. Sem luz
sobre tais assnntos ninguém se pode sentir plenamente tranquilo
e feliz.

Para o ajudar na procura das solucóes que Ihe interessam,


V. S. tem a sua dlsposicáo urna Caixa Postal e um fascículo
mensal de 40 páginas publicado sob os cuidados de D. Estéváo
Bettencourt O. S. B. Poderá propor questóes filosóficas, moráis
e religiosas ao seguinte enderéco:

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Caixa Postal 2666

Rio de Janeiro

A resposta será enviada gratuitamente a V. S. em fascículo


impresso. Queira, pois, indicar enderéoo e pseudónimo.

A colecáo dos fascículos "Pergunte e Responderemos" pode-


-sc obter também por assinatura (a serie se iniciou em mar?o
de 1957). Preso da assinatura anual: CrS 100,00. Número avulso:
Cr$ 10,00. Pedidos ao Instituto Pío X, Rúa Real Grandeza 108,
Botafogo — Rio de Janeiro (tel.: 26-1822).

N. B.: — Tudo que se refere a REDACAO dcve, ser enviado


a D. Estéváo Bettencourt O. S. B. (bu "Pergunte e Respondere
mos"), Caixa Postal 2666, Rio de Janeiro. O que diz respeito
á ADMINISTRACAO seja dirigido a Diretoria do Instituto Pió
X, Rúa Real Grandeza 108, Botafogo, Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro:
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Botafogo.

LIvraria "Lumen Christi" — Caixa Postal 2666;

Livraria "Vozes Ltd." — R. Senador Dantas,118-A;


Livraria Missionária — R. 7 de Setembro, 65-A;

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r
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