You are on page 1of 36

Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTTAQÁO
DA EDI9ÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir {1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristao a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
6

ERGUNTE

Responderemos

(OIJTUBRO 1957
I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

1) "Quais as provas da existencia de Deus?" 3.

II. DOGMÁTICA

2) "Dada a transcendencia de Deus, qual o sentido da expressio


ofensa a Deus?" 9
3) "Como pode Maria, urna criatura, ser Máe de Deus?" 1S

III. ESCRITURA SAGRADA

4) "Porque se diz que a "Biblia protestante" difere da Biblia


Católica?" 15
5) "Que vém a ser livros canónicos e livros apócrifos?" 17
6) "Desejava a explicacáo dos textos de Sao Mateus 1,18: "Es
tando Maria desposada com José, antes de coabitarem, achou-sc
ter concebido do Espirito Santo" (isto quer dizer que depois
coabitaram?);

1,25: "E ele (José) nao a conheceu, enquanto ela nao deu á
luz o seu filho primogénito "(isto quer dizer que depois a
conheceu e déla teve filhos?)" ljj>

TV. HISTORIA DO CRISTIANISMO


7) "As igrejas luterana, balista e metodista pertcncem a um mesmo
núcleo? Sao elas que constituem a sociedade dos chamados
Protestantes? E estes serlo assim designados porque protestam
contra a virgindade de Nossa Senhora?" 21
8) "Qual é afinal a diferenca entre Igreja e Seita?" 22

V. MORAL

9) "Será lícito, na Moral crista, o aborto terapéutico?" 2*


10) "Porque é que a Igreja impóe o Índice dos Livros Proibidos?
Há inconveniente em se ler obra de outra religiáo ou moral,
com a finalidade de melhor conhecer a divergencia daquela
para a nossa (católica)?" 26

VI. LITURGIA

11) "Qual o significado da vela acesa a urna imagem?" 29


12) "Porque os católicos acendem velas durante o día sobre os
altares?" 29

COM APROVAC.AO ECLESIÁSTICA

— 2 —
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

N.° 6 — Outubro de 1957

I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

MAURÍCIO (Rio de Janeiro):

1) "Quais as provas da existencia de Deus?"

Os argumentos clássicos em favor da existencia de Deus,


já parcialmente esbocados pelo filósofo grego Aristóteles (t322
a. C), podem-se resumir ñas tres seguintes vias:

1. A contingencia do movimcnto.

a) Há no mundo movimento e mudanzas contingentes,


transitorios.
Proposigáo evidente, ditada pela experiencia cotidiana.
b) Ora todo ser que se mova contingentemente, é mo
vido por outro.
Com efeito, "entrar em movimento" ou "mudar" signi
fica "receber urna perfeigáo ou determina§áo nao possuída".
Doutro lado, "mover" implica "dar tal perfeigáo". É, porém,
impossível que o mesmo ser receba e dé ao mesmo tempo a
mesma perfeigáo, pois, para receber, é preciso nao ter; para
dar, requer-se que tenha. Dada a impossibilidade de ter e nao
ter ao mesmo tempo o mesmo objeto, conclui-se que todo ser
que entra em movimento ou se move contingentemente (após
um estado de inercia), recebe de outro (causa eficiente ou mo
triz) o principio de seu movimento. Se ele fósse o próprio
principio adequado de.seu movimento, estaría sempre em
movimento e mover-se?ia necessariamente, nao contingente
mente, deveria estar agindo antes de comegar a agir — o que
é absurdo.
c) Na serie das causas motrizes, deve haver urna, Su
prema e Absoluta, que explique o movimento das demais e por
nenhuma outra seja explicada. Urna serie infinita de causas
motrizes dependentes e contingentes nada explicaría, cada,
qual seria mera transmissora, nenhuma apresentaria a razáo

.3
de ser do movimento; tal serie se poderia comparar a um canal
que se prolongasse muito, mas fósse destituido de fonte; ora,
se nao há fonte, nao há nem intermediarios (ou canal) nem
há efeito. Um conjunto numeroso (diga-se: infinito) de es-
pelhos a refletir urna imagem nao dá conta, por si só, da ima-
gem néles refletida; cada um apresenta urna figura espelhada
dependente, a qual supóe a figura que se espelha, absoluta.
Poder-se-ia replicar que o processo do movimento se veri
fica desde toda a eternidade; por isto, nao tem principio. Neste
caso, porém, seria desde toda a eternidade que a serie dos mo-
ventes dependentes exigiría um Movente Absoluto, indepen-
dente; o simples fato de haver movimento o pede; o tempo ou
a duracáo é apenas medida do fato, mas nao constitui urna
fonte de energia.
Existe, portante um Principio de todo movimento, o qual
por si mesmo pcssui a sua atividade, sem depender de outro.
E tal Movente Absoluto é chamado Deus.

2. Os graus de perfeicáo dos seres.

a) Observa-se que nada no mundo é absolutamente per-


feito, mas tudo parece aproximar-se "mais ou menos" da per
feicáo simplesmente dita ou do ideal. Quem se serve dos bens
desta térra, vive num perpetuo "encanto desencantado", pois
só encontra valores que se desvalorizam. O homem mais pren
dado de bens materiais e espirituais aínda tem capacidade
para apreender mais alguma coisa; também o homem mais
santo se vé sempre inferior aos seus propósitos.
b) Ora o relativo supoe necessáriamente o Absoluto.
Todo homem que fala de "mais" e "menos (bom, belo, ve
raz. ..)", só o faz porque tem em mente, implícito, o conceito
do Máximo, daquilo que é "por excelencia", sem restricáo nem
limitacáo. Quem experimenta o caráter relativo das coisas, re-
conhece a presenca de um Ser Absoluto e Exemplar; é só-
mente a existencia déste que justifica a apreciagáo mais ou
menos favorável que se faz dascoisas relativas.
Em linguagem mais técnica, as consideracóes ácima se po-
deriam assim formular: observem-se as perfeieñes que por si
mesmas nao dizem imperfeicáo alguma — a bondade, a bele-
za, a justica, a ciencia (há, sim, perfei§6es que em si implicam
imperfeigáo; assim o "arrepender-se", o conhecimento sensi
tivo, sempre restrito, o "raciocinar progressivamente", sempre
sujeito a erros...). Aquelas perfeigóes em seu conceito nao
incluem negacáo nem lacuna; se a incluissem, dever-se-ia dizer

— 4 —
que a bondade é, por sua própria esséncia, a maldade,... que
a beleza é, por sua esséncia, a feiura, etc. Se, portante, existe
no mundo bondade, mas bondade restrita; se existe beleza,
mas beleza restrita déste ou daquele modo; se existe vida, mas
vida limitada em tais e tais seres reais, estes seres supoem ne-
Géssáriamente outro que néles tenha limitado a bondade, a be
leza, a vida, e que por nenhum outro seja limitado. Em outros
termos: supoem outro que néles tenha feito a composigáo da
bondade, da beleza... com aquilo que as restringe, pois tal
composi?ao nao se explica pela natureza da bondade
mesma nem pela da beleza mesma. E ésse Composi
tor há de ser a Bondade Absoluta, irrestrita, a Beleza Absoluta,
a Justica Absoluta — medida e causa eficiente dos seres li
mitados.
c) Existe, pois, a Perfeicáo Ilimitada.
O parágrafo b), ácima, levava a concluir: existe o abso
lutamente Belo, o absolutamente Bom, o absolutamente Ve
raz, etc.
Contudo, se se reflete mais um pouco, verifica-se que Bon
dade, Beleza, Verdade nao sao senao modalidades do ser; signi-
ficam o ser sob determinado aspecto (o ser comparado á in
teligencia, o ser comparado á vontade, o ser comparado ao
senso estético...). Em conseqüéncia, afirmar-se-á: há um Ser
que é ao mesmo tempo Bom sem limite (a Bondade mesma),
Veraz sem limite (a Verdade mesma), Belo sem limite (a Be
leza mesma). Éste Ser nao recebe sua Bondade nem sua Vera-
cidade nem sua Existencia de urna fonte extrínseca, mas file
as tem de per si, por sua própria entidade; se as recebesse de
fora, file so as poderia receber de maneira limitada, partici
pada (ou em parte). Por conseguinte, ésse Ser nao tem, mas é,
sua própria Perfeicáo. A Ele se atribui o nome de Deus.

3. A ordem e a finalidade existentes no universo.

a) Quem considera o universo, nao pode deixar de néle


verificar ordem estupenda e tendencia de múltiplos elementos
(por si indiferentes a múltiplas possibilidades de concate
nado) em demanda de um fim bem determinado.
O "macrocosmos", por exemplo, ou o mundo dos astros
apresenta um conjunto de corpos sabiamente coordenados
dentro de proporgóes "astronómicas", ou seja, que escapam as
cifras com que o homem habitualmente lida na térra.
O "microcosmos" ou o mundo do átomo reproduz simé
tricamente a estrutura do "macrocosmos" ou, mais precisa-

— 5 —
mente, do sistema solar; as minúsculas dimensóes e as enor
mes velocidades dos corpúsculos que giram dentro de um
átomo atingem por sua vez cifras astronómicas.

No mundo dos viventes, a harmonía dos elementos que


constituem um vegetal ou um animal causa surprésa, dada a
complexidade das funcóes concatenadas em vista da conser-
yacao e da defesa da vida. Basta recordar a estrutura de um
ólho, de um ouvido. Tenha-se em vista outrossim que, quando
se extrai um rim de um organismo doentio, o outro logo se
desenvolve além das proporcóes necessárias ao metabolismo
normal. Porque isto? — Porque a natureza parece querer pos-
suir urna reserva, "prevendo" o caso eventual de se tornar
necessário o trabalho equivalente ao de dois rins. Tais exem-
plos se poderiam multiplicar.
b) Táo maravilhosa ordem, táo segura tendencia a um
fim supóem exista urna Inteligencia que as tenha concebido e
produzido.

Ordem significa adaptacáo de diversos elementos entre si


em vista de certa finalidade a ser obtida. Ora a adaptacáo
. supóe a intuicáo de um efeito ainda nao existente na realidade
concreta, mas existente idealmente, ou seia, num intelecto,
de modo espiritualizado, superior ao modo corpóreo, sensívei.
,Ordem supóe a intuigáo da natureza intima ou da esséncia
de cada um dos seres que estáo para ser adaptados; supóe o
.conhecimento daquilo que é perene e latente sob os fenóme
nos sensíveis e variáveis que cada corpo dá a ver. Sómente
quem percebe a estrutura íntima dos seres, sabe utilizá-los
como meios para obter determinado efeito.

Pois bem; um conhecimento tal é característico de um es


pirito ou de um ser dotado de inteligencia (inteligencia e
espirito se evocam mutuamente; cf. "Pergunte e Respondere
mos" 3/1957, qu. 1). Só a inteligencia é capaz de comparar
e apreender as qualidades que podem relacionar ou ligar ele
mentos aparentemente desconexos entre si.

Quem realiza a análise física e química de um relógio, parece explicar


perfeitamente as propriedades de cada urna d'as suas pecas: a resistencia
dos metáis, a fórca das molas, o processo das alavaneas, etc. Ccntudo
. ésse estudioso nao explica a escolha de tais pecas, nem a sua associacáo
em um maquinismo apto á contagem do tempo. A razáo de ser de tal as
sociacáo nao é indicada pela análise das pepas do relógio; nao se ficha
latente em nenhuma de suas molas; nenhuma, por sua natureza, explica
porque está assim correlacionada com as demais. Tal razáo de ser está,
sim, contida fora do relógio, num Ser real existente; foí éste que por sua
inteligencia concebeu e realizou a combinaqáo de elementos necessárm ao
fim preconcebido de marcar o tempo. f

— 6 —
.. O ser inteligente que por via déstes raciocinios se chega a
descobrir há de ser absoluto, ilimitado, incriado, pois a Ele
se deve nao apenas o ato de dispor em ordem alguns ou muitos
seres preexistentes (deixando de parte outros, como poderia
fazer um homem), mas igualmente o de conceber e realizar
o plano do universo inteiro e de cada um de seus componen
tes. A inteligencia que concebe e dá existencia real a cada
ente desde as raízes do seu ser (das quais emanara suas pro-
priedades e atividades), só pode ser o Ser simplesmente dito,
o Infinito, que por definigáo se chama Deus.
Dir-se-á, porém: quem sabe se todas essas estruturas e
suas atividades nao poderiam ser igualmente produto do
acaso?

Nao há serio pensador que hoje em dia aínda recorra ao


acaso; éste expediente implicaría um sofisma clamoroso. De
fato; o acaso nao é urna causa, nem um agente, mas o cruza-
mento nao necessário de causas independentes urnas das ou-
tras; vem a ser, portante, urna relacáo entre elementos pree
xistentes, um mero acontecimento verificado entre estes. A in-
tervencáo do acaso nao explica a origem dos agentes que "ca
sualmente" se encontram e combinam. O seguinte exemplo,
muito famoso, aínda concorre para evidenciar o absurdo da
Tiipótese do acaso: considere-se urna só molécula de proteína,
substancia que entra na constituicáo de qualquer corpo vivo;
suponha-se, para simplificar os cálculos, que tenha o peso mo
lecular 20.000 e conste de 2.000 átomos pertencentes a duas es
pecies apenas. A probabilidade de se formar por acaso urna tal
molécula se reduz a
- 321 1
2,02 x 10 ou 2,02 x . O volume de substancia
321
10
Tiecessária para que urna tal probabilidade se realize, seria
82
o de urna esfera cujo raio exigiría 10 anos de luz para
lhe percorrermos a distancia. Quem lancasse ao acaso os áto
mos componentes de tal molécula de proteína ao ritmo de
500 trilhoes de vibracq'es por segundo, dispondo de um vo-
243
mme de átomos igual ao da esfera terrestre, precisaría de 10
bilhóes de anos para obter urna só molécula de proteíná. ííáo
■esquecamos, porém, que a Térra só existe há dois bilhoes de
anos e que a vida nela apareceu há cérea de úm bilháo de arios
apenas! Leve-se outrossim em conta que um ser vivo se compoe

7
de bilhoes de células de proteína e que, segundo a linguagera
dos fósseis, bilhoes de seres vivos tiveram origem sobre a térra
em lapso de tempo notávelmente breve. É o que leva a rejeitar
perentoriamente a origem aleatoria do mundo.
Os tres grandes argumentos ácima, de índole metafísica,
sao confirmados pelo testemunho da natureza humana mes-
ma:

a) todos os povos através dos séculos professaram a cren-


ga em Deus. Esta proposigáo foi lancada em descrédito no sé-
culo passado, quahdo Dárwin comunicou ao mundo ter encon
trado na Terrado Fogo um grupo de indios, os Yamana, desti
tuidos de religiáo (1834). Novas explorares, porém, empreen-
didas no século 20 por estudiosos austríacos, mais competentes
em Etnología do que o naturalista Darwin, levaram a ver que
os mencionados aborígenes tém religiáo, e religiáo assaz pura.
Ulteriores pesquisas entre as tribos primitivas do mundo atual
incutiram mesmo a conclusáo seguinte: quanto mais simples
é o grau de cultura de um clá, tanto mais simples e puro é
também o seu conceito de Deus; o politeísmo, a magia sao des-
virtuamentos da religiáo primitiva, desvirtuamentos que o no-
mem é tentado a realizar quando entra em contato [mais assí-
duo com as fórgas da natureza; tende entáo ilógicamente a
esfacelar o conceito de Deus e distribuir os atributos divinos-
pelos seres materiais de que ele depende para efetuar sua in
dustria e seu comercio;
b) também merece atencao o brado de todo individuo
humano em demanda de bem-aventuranca. Nao há quem nao
queira ser feliz, e feliz sem limites, pela posse de um bem que
nunca se acabe. Ora tal sede inata só se explica razoávelmente
se de fato existe o Objeto infinitamente bom a ela correspon
dente; a natureza se manifesta em tudo harmoniosa, coerente
consigo mesma. É o Bem Infinito que fala pela consciéncia
de todo individuo, chamando-o a si mediante a norma gravada
no íntimo de cada um: "Faze o bem, evita o mal". É ésse mes
mo Ser que se faz ouvir pelo remorso conseqüente a urna vio-
lágáo da consciéncia.
ó grandeza do homem, a de nao estar condenado a viver
e morrer de si para si! É, ao contrario, entre o Alfa e o Ome-
ga que ele se move neste mundo!
f •; .( "r
Sobre o tema abórdíwlo'nesta resposta, pode-se consultar com pro-
reito: •
P. Cerruti, A Camlnho da Verdade Suprema. Universidades Católica
do Rio de Janeiro 1954, 461-584.
J. A. O'Brien, Deus existe? Editora Vozes de Petróoolis 1949.
. "l*comte du Noüy, O homem e o seu destino. Editora Educacáo Na
cional. Porto 1953. { ,

_ 8 —
II. DOGMÁTICA

NELANDIA (Belo Horizonte):

2) "Dada a transcendencia de Deus, qual o sentido da


«xpressao ofensa a Deus?"

A resposta crista a esta questáo aparecerá com toda a


clareza se se focalizar primeiramente o que o homem ante
rior a Cristo entendía por "pecado".

Os povos primitivos manifestam a consciéncia de culpa


ou desobediencia a Deus; exprimem-na, porém, acompanhada
de erros e deformacoes evidentes. Os indios da América, por
exemplo, identificam nao raro impureza fisiológica ou ritual
com pecado; a violacáo das tradigóes convencionais do clá é
considerada ofensa á Divindade, porque os aborígenes tsm
essas tradicóes na conta de instituidas e tuteladas pelos deu
ses (os ancestrais e os heróis do cía sao freqüentemente en-
deusados após a sua morte); por conseguinte, julgam que
derrogacáo aos costumes da tribo acarreta a vinganca dos
deuses; o suicidio pode assim tornar-se ato de expiagáo espon
tánea, agradável á Divindade.
As concep?oes dos antigos gregos exigem mais atencáo da
nossa parte, dadas as suas relacóes com o Cristianismo.

A raiz grega hamart, correspondente á nocao de pecado,


significa originariamente "falhar o objetivo, errar o alvo
aberrar". Por conseguinte, a acepQáo primaria de pecado (ha-
mártema) para o grego é a de urna falha contra a técnica,
contra a estética, a lingüística, a política, a higiene, falha que
provém de impericia ou inabilidade, mas em si mesma nao en-
volve culpa moral.

No séc. 5.° a. C, Sócrates (t399 a.C.) voltou toda a sua


atencáo para o problema da virtude e as faíhas cometidas
contra esta. Afirmava que a derrogacáo á virtude ou o pecado
tem sua raiz na ignorancia; é, portante, isento de culpa mo
ral, pois ninguém peca voluntariamente (!); o homem que
saiba em que consiste a virtude, pratica-a; a virtude vem a
ser urna ciencia, que acarreta necessariamente um ato bom.
Assim o pecado toma índole estritamente intelectual; muito
tenue, quase nulo se terna o senso de responsabilidade moral.
Platlo (^347 a.C.) mitigou um tanto o intelectualismo
ético de seu mestre.

— 9 _
Apesar disto, Aristóteles (f322 a.C), que se assentou na
escola de Platáo, nao possuia a consciéncia de "pecado —
culpa moral". No setor da Ética, julgava que o pecado nao é-
injustica, mas um ato pouco hábil, golpe de vista infeliz, que*
alguém executa de boa fé; reduz-se a ignorancia inculpada,
(cf. Et. Nic. II p 1106b 28ss; Et. Eud. VIII 1 p 1246a 32ss;
Polit. III 11 p 1231b 28).
Qual a razáo de ser de táo manca nogáo de pecado em um.
filósofo que tanto se elevou na Metafísica?
A raiz da deficiencia é o conceito que de Deus tinha Aris
tóteles. Embora haja reconhecido a existencia de um Primeiro
Motor Imóvel, o filósofo grego julgava que éste move os-
demais seres de maneira inconsciente ou apenas como causa,
final, como objeto que, contemplado pelos entes inferiores, os-
atrai pelo simples fato de existir, e existir como tipo do ser
perfeito. A Divindade, portanto, nao tem conhecimento dos;
homens nem lhes impóe as leis da Ética, que os encaminham.
para o seu Ideal Supremo; é- sim. o próprio homem que, na
base de seu raciocinio e experiencia, tem de formular
as normas da sua conduta neste mundo. Estes princi
pios tiram á Moral o seu caráter transcendente, tornando-a,
muito dependente da habilidade do homem, que só aos poucos.
(sem poder evitar tropegos) vai aprendendo a arte de cami-
nhar na vida. Em urna tal filosofia entende-se que o pecado-
se reduza a impericia, longe de ser violacáo de urna- ordem di
vina ou de ser urna ofensa a Deus. Toda a Ética de Aristóteles-
tem que ser antropocéntrica, pois visa apenas tornar o homem.
perfeito (sem levar em conta a gloria de Deus); se, pois, tal
ou tal individuo humano nao se quer elevar na prática da vir-
tude, é ele só quem sofre as conseqüéncias da sua recusa.
Posteriormente a Aristóteles, os estoicos envolveram no>
conceito de pecado a nocao de Deus. Faziam-no, porém, na.
base do seu panteísmo: identificando o logos ou a razáo hu
mana com a Divindade, concluiam naturalmente que despre-
zar as normas da razáo era desprezar a Divindade. É de notar'
que, para afirmar isto, o estoico tinha que deprimir ou des
virtuar espantosamente a idéia de Deus apregoando o pan
teísmo.
Por fim, no limiar da era crista, urna religiosidade nova, a.
dos "cultos de misterios (de Cibele, Isis, Mitra..,)", vinda do»
Oriente, avivou nos pagaos a consciéncia de que o pecado h
nódoa hedionda e obstáculo á salvagáo. Tendiam, porém, a
identificá-lo com impureza ritual, cúltica, nao dando suficién-

— 10 —
te atenc.áo ao aspecto moral do ato, á responsabilidade da
consciéncia.
Foi sobre éste fundo de idéias que surgiu o Cristianismo,
acarretando profunda mudanza ñas concepgoes religiosas da
género humano.
Para o cristáo, urna verdade básica é que Deus se identi
fica com o Amor, e o Amor que primeiro amou os homens; fé-
-los imagem e semelhanga sua e imprimiu-lhes na conscién
cia as normas universáis para conseguirem o seu Fim Último;
pela consciéncia o único Deus fala a todo homem, de qualquer
época ou nagáo que seja, chamando-o, atraindo-o a Si. Dista
se segué que burlar a voz da consciéncia nao equivale simples-
mente a transgredir urna lei da sabedoria humana, mas é
repulsa de um chamado do Amor, e do Amor que tem absoluto
direito a ser o primeiro amado. O pecado é um ato que atinge
a natureza humana (como de certo modo já o percebia o pa-
gáo) e, além disto, atinge também a Deus. com a diferenga,
porém, de que a natureza humana é maltratada, punida pelo
seu próprio pecado, ao passo que Deus nao sofre detrimento
em conseqüéncia da revolta do homem (Deus nada perde nem
ganha, nem tem sentimentos ou paixSes); mas, na medida
mesma (medida plena) em que Deus é Valor (o Primeiro
Valor), pode-se dizer que Deus é o primeiro injuriado e ofen
dido pelo pecado; éste equivale a um atentado contra os di-
reitos do Sumo Bem, visando rebaixá-lo e colocar um ser
inferior no lugar do Supremo.
É dentro desta perspectiva que a Sagrada Escritura,
desde os seus livros mais antigos, inculca insistentemente que
Deus tem horror ao pecado (cf. Dt 12,31; 17,1; 18,12; Prov
3.32; ll,l.2O; 12,22; 15,3s.26). Nao se trata, porém, de um
horror que leve simplesmente a condenar e criar distancia
entre o Santo e o réu. Ao contrario, o Deus que repudia o pe
cado, nao repudia o pecador; por isto o Criador se quis fazer
também o Redentor do homem culpado, numa efusao de
amor aínda mais estupenda do que a que deu origem ao mun
do. É ao contemplar Cristo sofrendo os horrores da agonia
no horto das Oliveiras que se compreende quanto e como
Deus horroriza a culpa: o pecado vem a ser morte, e Deus é a
Vida mesma; mas nem por isto Deus feito homem se recusou
a experimentar a morte a fim de libertar os que esta detinha
cativos sob o seu imperio.
Destas verdades se depreende que o concertó cristáo de
pecado envolve estritamente a idéia de Deus, e Deus que é
surpreendentemente bom. Por causa de tal pressuposto é qu&

_ 11 —
por vézes custa ao homem crer no pecado e conceber a autén
tica nocáo do mesmo. Se Deus fósse apenas Primeiro Motor
Imóvel, frió e fechado em sua majestade, seria lícito acreditar
que o pecado nao O ofende; mas Deus, além de ser o Movente
Absoluto dos filósofos, é também o Pai de Nosso Senhor Je
sús Cristo e dos irmáos adotivos do Salvador. Ninguém ne
gará seja misterio (o misterio da iniqüidade; cf. 2 Tes 2,7) o
fato de que o homem possa dizer Nao ao seu Deus, pois até
a última fibra de seu ser e agir a criatura é dependente do
Todo-Poderoso; o seu Nao, ele só o profere prevalecendo-se do
Amor que o sustenta; o pecado é, pois, a revolta da criatura
contra o Amor sem o qual ela nao existiria. é contradicho fla
grante localizada no mais íntimo do homem. Eis o que dá ao
pecado o seu caráter táo trágico e terrível.
No séc. 17 houve doutores cristáos que quiseram, por
assim dizer, mitigar a nocáo crista, distinguindo entre pecado
filosófico e pecado teológico. Aquéle seria um ato contrario á
natureza humana e á reta razáo; por muito vultuoso que
fósse, nao seria ofensa a Deus, desde que o pecador,, ao come-
té-lo, nao pensasse no Senhor; tal culpa nao rompería a ami-
zade com Deus nem seria merecedora do inferno. Sómente o
pecado teológico ou urna transgressáo livre da lei divina re-
conhecida como tal separaría do Pai celeste e acarretaria a
ruina da alma. Essa distincáo foi condenada pelo Papa Ale-
xandre VIII em 1690 (cf. Dz 1290) como contraria á doutrina
do Evangeiho. Nao se pode, pois, ofender a natureza humana
ou a lei natural sem ofender também a Deus. Disto aínda se
segué urna verdade muito bela: a sanc,áo infligida ao pecador
nao decorre de urna sentenca arbitraria e reformável de Deus,
mas é, antes, a reacao, o protesto existencial da nalureza hu
mana e das demais criaturas violentadas pelo livre arbitrio
do pecador.
A fim de ainda melhor evidenciar a significado do pe
cado na teología católica, seja permitido referir como o Isla
mismo (única religiáo que professa um Deus único e pessorl,
fora do Cristianismo) concebe o mesmo ponto de doutrina.
O Isláo considera o homem lamentável muito mais por causa
de sua insignificancia física ou metafísica do aue por motivo
de sua miseria moral; inculca que Deus é grande e o homem
pequeño mais do que o fato de que Deus é- o Santo e o homem
o nao-santo. Em conseqüéncia, nao tem cabimento, para o
muculmano, a idéia de um Deus que procure a ovelha desgar
rada. Diz-se. alias, que nisto está a diferenca psicológica
essencial entre o maometano e o cristáo. O Islamismo nao dá
i
— 12 _
grande atencáo ao pecado; considera só haver uma falta im
portante; a de nao crer na unidade de Deus e na divina mis-
sáo dos profetas. É éste o kofr ou o chirk, o pecado caracte
rístico dos infiéis. Qualquer outra falta é tida como infracáo
de um interdito (haram), remissível com facilidade; somente
os infiéis seráo entregues ao fogo do inferno.
Como se vé, o Cristianismo tem do pecado uma concep§áo
muito mais pungente, dilaceradora. É que nela entra o grande
paradoxo: a nocao de um Deus que é Amor..., e naturalmen
te Amor Perfeito, forte como a morte (cf. Ct 8,6) ou, melhor,
mais forte do que a morte!

METODISTA (Sao Goncalo):

3) "Como pode María, uma criatura, ser Máe de Deus?"

A afirmacáo de que Maria é Máe de Deus pode parecer


paradoxal: seria Maria anterior a Deus?... algo mais do que o
próprio Deus? O aparente paradoxo, porém, é mera conse-
qüéncia do misterio de Cristo ou da reta fé em Cristo. Mere
ce atencáo o fato de que os teólogos comecaram a focalizar a
Maternidade Divina por ocasiao de seus estudos sobre Cristo;
foi, pois, por causa de Cristo, e para corroborar verdades con-
cernentes a Cristo, que Maria se tornou objeto de considera-
cáo especial da teología e da piedade cristas, táo intimamen
te está ela associada a Jesús! — É o que passamos a ver.
No inicio do séc. 5.° em Constantinopla o Patriarca Nestó-
rio pós-se a explicar de modo erróneo o misterio de Cristo:
atribuía a Jesús duas naturezas e duas personalidades, afir
mando assim uma uniáo assaz vaga entre o Divino e o huma
no no Redentor. O Filho de Deus estaría contido no homem
Jesús como a estatua está no templo. A conseqüéncia disto
era que Maria nao deveria ser chamada Máe de Deus (Theo-
tókos), como se fazia desde tempos remotos; seria apenas a
máe do homem Jesús, ao-qual sobreveio a pessoa do Filho de
Deus para néle habitar em uniáo meramente moral, em con
cordia semelhante á que se pode dar entre duas pessoas jus-
tapostas. No máximo, idizia Nestório, Maria poderia ser dita
Máe de Cristo (Christdtókos), pois gerou uma pessoa huma
na que, uma vez unida a Deus, se chama Cristo. O Patriarca
assim resumía toda a sua doutrina na negacáo da Materni
dade Divina de Maria; rejeitando o título Theotókos, julga-
va ter afirmado sua nova Cristologia.
A tese de Nestório, porém, nao satisfazla aos dados da Re-
velacáo, a qual afirma uniáo muito mais íntima entre o hu-

_ 13 —
mano e o Divino em Cristo; a nossa Redengáo implica uma
consagracáo muito mais rica do humano. Em conseqüéncia,
os bispos e teólogos da Igreja reunidos no concilio geral de
Éfeso (Asia Menor) em 431 declararam, inspirando-se na fé
tradicional, haver em Cristo duas naturezas, sim, (a divina
e a humana), mas uma só Pessoa (a Divina).
Que significa exatamente esta fórmula?
Por "natureza" entende-se a esséncia de um ser, aquela
estrutura íntima que faz que ele seja tal e atue como tal; é,
pois, em linguagem técnica, o principio radical da atividade
de um ser. A natureza do homem, por exemplo, aquilo que faz
que ele seja nomem. nao é nem a sua estatura ereta, nem a
sua linguagem, mas a sua racionalidade; é desta que decorre
o modo de agir característico do homem no conjunto das cria
turas. Todos os homens tém necessáriamente a mesma natu
reza, como se entende; em caso contrario, deixariam de ser
homens.
Sabemos, porém, que na realidade concreta nao se encon-
tram animáis racionáis simplesmente ditos, indiferenciados
uns dos outros; o ser racional só subsiste revestido de notas
que o individualizam e o distinguem dos outros individuos
possuidores da mesma natureza. Sim; Pedro, Paulo e Joao sao
homens, tém a mesma natureza humana, mas cada um tem
sua personalidade própria, que o individualiza; é sómente
debaixo de tais personalidades individuáis que a natureza se
encontra no mundo.
Distingue-se, portanto, da natureza a personalidade. Esta
é o que da subsistencia real aquela; é o Eu que, com suas
modalidades individuáis, utiliza as faculdades da natureza
ou do fundo comum a todos os homens.
Pois bem; a fé ensina que em Cristo havia duas nature
zas ou dois principios de ac.áo — o Divino e o humano — nao
mutilados, mas íntegros. Acrescenta, porém, que a natureza
humana em Cristo nao subsistía por efeito de uma persona
lidade humana e, sim, porque a Segunda Pessoa da Santís-
sima Trindade Ihe dava subsistencia ou personalidade; esta
mesma Pessoa, em virtude da Encarna§a.o, passou a subsistir
em duas naturezas: a Divina, na qual se achava desde toda
a eternidade, e a humana, que ela tomou no seio de Maria
Santíssima. Táo íntima era a uniáo do humano com o Divino
em Cristo que o Eu de Jesús nao era um Eu humano, mas Eu
divino.
Destas premissas se concluí que Maria pode e deve ser
dita Mác de Deus. De fato, pelo S. Evangelho sabemos que

— 14 —
«la gerou a Cristo, ésse individuo que subsistia em virtude de
oima personalidade divina. Ora, visto que quem gera, gera
urna pessoa, nao urna natureza abstraía, Maria, gerando a
•natureza humana de Cristo, gerou também a personalidade
divina que lhe estava unida; gerou-a nao de maneira a lhe
■dar o ser simplesmente, mas gerou-a como Pessoa Divina
subsistente na natureza humana.
Nao basta, portanto, dizer que Maria é Máe de Cristo ;(na
acepgáo nestoriana). Quem lhe denega o título de Máe de
Deus, nega ao mesmo tempo o misterio de Cristo e a sublime
.maneira pela qual o Pai Eterno quis realizar a Redencáo do
nosso género; esta nao implica menos do que a divinizagSo
da natureza humana, segundo a bela concepgáo dos Santos
Doutores:

"Para que os homens nascesíem de Deus, nasceu Deus primeiramente


<dos homens-
Cristo é Deus e Cristo naEceu dos homens.
Na térra só prccurou máe, porque já tinha Pai no céu.
Nasccu de Deus aquéle por quem havíamos de ser formados, e nas-
.ceu da mulher aquéle por quem havíamos de ser reformados...
O Verbo quis naícer do homem..., para que tu realmente nascesses
de Deus e díssesses a ti mesmo: 'Nao foi em váo que Deus quis nascer do
liomem. Apreciou-me como se eu fó?se coisa importante, a ponto de me
.tomar imortal, nascendo Ele mortalmente por meu amor" (S. Agostinho,
<Comentário em S. Joáo tr. 2,1).

Vé-se assim que a fórmula "Maria, Máe de Deus" vem a


ser urna breve síntese das verdades centráis da fé católica.

III. ESCRITURA SAGRADA

DEOIrINDO (Belo Horizonte):

4) "Porque se diz que a "Biblia protestante" difere da


•"Biblia católica"?"

Quem abre o índice de moderna edigao protestante da Sa


ngrada Escritura verifica nesta a ausencia de sete livros con-
tidos ñas edigóes católicas, a saber: Baruque (com a epístola
•de Jeremías), Tobías, ffudite, 1.° e 2.° dos"Macabeus, Sabedo-
lia, Eclesiástico; faltam outrossim as segoes segúintes: Ester
10,4-16,24; Daniel 3,24-90; 13,1-14,42.
Donde vem tal diferenga?
Entre os judeus estavam em vigor dois catálogos dos li
aros inspirados: um, usual na Palestina, era o catálago res-
írito. que excluia os sete livros e os fragmentos ácima referi-

— 15 _
des. C outro se achava em uso na florescente colonia judaica
de Alexandria no Egito; era o catálogo ampio, que re:onhecia
es escritos ácima mencionados.
A razáo de ser desta dupla recensáo é provávelmente a se-
guinte: até o inicio da era crista os judeus, tanto da Palestina
como da Diáspora (Dispersáo), muito estimavam todos os seus
escritos sagrados, inclusive os sete ácima recenseac'íos. No
século 1.° da nossa era, porém, quiseram definir oficialmente
o catálogo bíblico (empreendimento que até entáo nao os
preocupara). Os fariseus entáo, que orientavam a opiniáo pú
blica na Térra Santa, fizeram prevalecer seu espirito reacio-
nário contra qualquer influxo estrangeiro (como se sabe, em
ccnseqüéncia da tentativa de paganizacáo que Israel sofreu
per parte dos sirios em meados do séc. 2.° a. C. os Farisaus cul-
tivavam urna religiosidade nacionalista, fechada em si, ten
dente a esterilidade espiritual). Parece, pois, que. inspirados
pela hostilidade ao helenismo e, em particular, aos Hasmo-
neus (dinastía liberal que governou Israel durante o séc. 2.°/
1.° a.C.), estipularam quatro condic.6es para que um livro
fósse reconhecido como inspirado por Deus:
1) fósse conforme com c Feniateuco ou a Leí ds Moisés
(entendida no sentido assaz formalista dos fariseus):
2) fósse antigo, isto é, nao posterior a Esdras <séc.
5.°/4.° a.C);
3) tivesse sido redigido e conservado em hebraico, nao
nao em aramaico (sirio) nem em grego;
4) tivesse tido origem na Palestina, nao no estrangeiro.
Aplicando estes criterios, os fariseus quase eliminaram do
catálogo bíblico o livro de Ezequiei, por fríes parecer destoar
da Lei de Moisés. Excluiram o Eclesiástico, o 1.° e o 2.° dos
Macabeus, por serem posteriores a Esdras. Por motivo de idio
ma, rejeitaram a Sabedoria, ás referidas seccoes de Ester e
taníbém o 2.° dos Macabeus. escritos em grego; Tobías e Ju-
dite, provávelmente redigidos em aramaico após os tempos de
Esdras. Por ter-se originado fora da Palestina, nao reconhe-
ceram, a novo título, o livro da Sabedoria. Quanto á profecía
de Baruque, á epístola de Jeremías e aos mencionados frag
mentos de Daniel, no inicio da era crista só eram conservados
em grego, por se haver perdido o seu texto original.
Em Alexandria, ao contrario, nao se verificou a reagáo
dos Fariseus; por conseguinte, a colonia israelita, de menta-
lidade muito mais simples e aberta, nao consebeu dificuidades.
para recenhecer oficialmente como inspirados os seis mencio
nados livros que eram lidos com os demais do Antigo Testa-

— 16 —
meneo e faziam parte da ed'.cáo da Sagrada Escritura intitu
lada ".. .dos Setenta Intérpretes" (edigáo grega confecciona
da em Alexandria por tradutores e escritores diversos, entre
300 e 130 a.C.)
É esta a sentenca que com mais probabilidade explica a
existencia de dois catálogos bíblicos em uso entre os judeus.
Ora os cristáos, desde o inicio da sua historia, usaram a
edigáo grega dos LXX; os Apostólos mesmos, escrevendo os S.
Evangelhos e suas epístolas, reíerem o Antigo Testamento
nao segundo o texto hebraico, mas recorrendo á versáo dos
LXX; das 350 citacoes do Antigo Testamento que ocorrem no
Novo, 300 sao tiradas do texto dos LXX (mesmo quando éste
diverge acitíentalmente do hebraico; cf. p. ex. Hebr 10,5-7). A
traducáo grega dos LXX gozava de extraordinaria autorida-
de entre os próprios judeus (mesmo na Palestina). Em conse-
qüéncia, também o catálogo de livros sagrados estipulado iv>
sa edicáo"— catálogo ampio — foi naturalmente adotado pe
los cristáos (embora um ou outro escritor manifesta ose suas
dúvidas a respeito) e sancionado pela autoridade da Igreja,
á qual o Espirito Santo assiste. Tal catálogo representa a li-
nha auténtica da fé judaica, ao passo que a recensáo restrita
dos fariseus da Palestina se parece ressentir dos exageras de
urna faegáo reacionária.
Por toda a antigüidade até fins da Idade Media estsve
em voga na Igreja o catálogo ampio. Eis, porém, que no séc.
16 Lutero o rejeitou, dando preferencia á lista restrita. Se-
guiram-no os outros ps.-reformadores (Calvino, Zwingli e os
modernos fundadores de seitas). É esta a razáo principal poi
que a Biblia editada pelos protestantes difere da católica.
Deve-se, além disto, observar que a "Biblia protestante"
nao costuma ter notas explicativas do texto, mas apenas refe
rencias a textos da Sagrada Escritura paralelos a determinada
passagem. A Igreja Católica, porém, exige que toda edicáo
dos livros sagrados seja ilustrada por breves observac.6es que
ajudem a en*^nder os versículos mais dificéis, removendo os
possíveis erros de interpretado.

MARÍA TELLER (Niterói):

5) "Que vém a ser livros canónicos e livros apócrifos?"

A terminología livros canónicos e livros apócrifos tomou


no séc. 16 as suas modalidades hoje vigentes. Fercorramo-las
brevemente:

17
Canon (em grego. kanón) significava "medida, norma"
■e, por extensáo, "catálogo, índice, registro". A partir do séc.
4.° aplicou-se o vocábulo ao catálogo dos livros inspirados por
Deus no Antigo e no Novo Testamento.
Dos livros canónicos (isto é, catalogados) ou inspirados
por Deus, era preciso na antiga Igreja distinguir outros, que,
embora tivessem grande semelhanca de estilo com as Escri
turas Sagradas, eram obra meramente humana, por vézes
-edificante, por vézes herética ou fantasista. Para estes li
vros se reservou o título de "apócrifos" (apókryphoi, em gre
go) , isto é, ocultos, nao lidos no culto público oficial (embora
fóssem lidos em caráter particular); tais eram a "Ascensáo
de Isaías", o "Evangelho de Pedro", o "de Nicodemos", os "Atos
de Tomé", os "de Paulo com Tecla", etc.
No séc. 16 introduziu-se entre os teólogos católicos a dis-
tingáo meramente terminológica entre livros protocanonicos
•e deuterocanónicos. Ela se deve a Sixto de Sena (1520-1569),
judeu que, urna vez batizado, se tornou franciscano e depois
■dominicano. Éste autor, na sua "Bibliotheca Sancta", chamou
-"protocanonicos", em grego "primeiramente (introduzidos)
no canon", os livros sobre cujo valor inspirado nunca se re-
gistraram dúvidas; "deuterocanónicos", isto é, "em segundo
lugar (inseridos) no canon", aqueles escritos que só depois de
hesitares foram oficialmente recenseados no catálogo bí
blico. Como se vé, a distin§áo significa apenas diferenca crono
lógica, de modo nenhum implicando menor autoridade ou
menor grau de inspiracáo para os "deuterocanónicos".
Entre os deuterocanónicos, contam-se, além dos sete li
vros do Antigo Testamento nao incluidos no canon palesti-
nense (Baruque com a epístola de Jeremías, Tobias, Judite,
1.° e 2.° dos Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico), os sete se-
guintes escritos do Novo Testamento: a epístola aos Hebreus,
a de Sao Tiago, a 2.a de S. Pedro, a 2.a e a 3.a de Sao Joáo, a
de Sao Judas e o Apocalipse. As hesitacóes sobre o valor de
tais livros dos Apostólos eram devidas principalmente aos
abusos que désses documentos faziam os herejes; prolonga-
ram-se nesta ou naquela regiáo até os séc. 4."/5.°. Em 393,
porém, o concilio regional de Hipona (África Setentrional)
definia o catálogo dos livros sagrados, incluindo néie tanto os
protocanonicos como os deuterocanónicos do Antigo e do Novo
Testamento. Esta declaragáo foi repetidamente inculcada
pelo Magisterio da Igreja nos séculos subseqüentes até os
nossos dias.

_ 18 —
Os Protestantes, nao reconhecendo os livros deuteroca-
nónicos do Antigo Testamento, usam de outra nomenclatura,
que vai abaixo confrontada com a dos católicos:

Católicos Protestantes
LIVROS PROTOCANÓNICOS CANÓNICOS (simplesmente)
DEUTEROCANÓNICOS APÓCRIFOS
APÓCRIFOS PSEUDO-EPIGRAFOS
"Pseudo-epígrafos" significa "falsos títulos" ou livros fal
samente intitulados, falsamente atribuidos a tal ou tal homem
de Deus (Henoque, Sao Tomé, Nicodemos.. .)•
Donde se vé que, no concernente ao termo "apócrifos" em
particular, se requer especial atenerlo: quando os Protestantes
falam de "apócrifos", referem-se a livros que na verdade sao
inspirados por Deus; o mesmo nao se dá quando é um católico
que usa tal vocábulo.
Mais precisamente, eis as razóes por que no iníe'o da era crista fot posta
em dúvida a canonicidade de sote escritos do Novo Testamento:
a epístola aos Hebreus era nos séc. 2.°/3.° falsamente utilizada por
rigoristas (Montañistas e Novacianos), os quais, apelando para Heb 6,4
aíirmavam haver pecados irremissiveis. Os defensores da fé, em vez de
refutar o erro propondo a genuina exegese do texto, as vézes preferiam negar
a índole inspirada da epístola aos Hebreus;
o Apocalipse também era explorado por herejes, os quais do c. 20
deduziam que, entre a segunda vinda de Cristo e a consumacáo da his
toria, haverá na térra um reino glorioso do Senhor, protrafdo durante mil
anos. Em conseqiiéncia, alguns autores ortodoxos, visando tirar a ¡lutori-
dade ao texto mal interpretado, negavam ser Sao Joáo o autor do Apo
calipse; outros simplesmente excluiam éste livro do catálogo bíblico;
a epístola de Sao Tiago, principalmente em 2,14-26 (inculcando h inu-
tilidade da fé, sem as boas obras) parecía contradizer a Rom 3,27s: 4,1-íi
(o primado da té sobre as obras expresso em linguagem paulina...}, pelo
que alguns cristáos duvidavam da orlgem divina da carta de Sao Tiago;
a 2.a epístola de Sao Pedro, a 2.a e a 3.» de Sao Joáo sao documentos
breves, que nao apresen tam doutrina característica e raramente eram ci
tados;
a carta de Sao Judas, citando no seu v. 14 o fantasista livro "de He-
noque", parecía a alguns leitores pouco fidedigna.

I. T. A. (Carangola):

6) "Desejaria a explicacáo dos textos de Sao Mateus:


1,18: "Estando María desposada com José, antes de coa-
bitarem. achou-se ter concebido do Espirito Santo" (isto quer
dizer que depois coabitarám?);

1,25: "E ele (José) nao a conheceu, enquanto cía nao


deu á luz o seu filho primogénito" (quer dizer que depois a
conheceu e déla teve filhos?)"

1. A respeito do primeiro texto, note-se a distincáo entre


noivado e casamento, pressuposta pelo Evangelista: aquéle

— 19 _
era um contrato realizado em vista déste; as leis rabínicas o
valorizavam altamente: a noiva infiel era punida pela lapi-
dagáo, á semelhanca da esposa culpada; era equiparada a
uma viúva, caso lhe morresse o noivo; o filho por ela conce
bido de seu noivo era considerado prole legítima. Contudo
noivo e noiva nao coabitavam, aguardando, para isto, o con
trato matrimonial (cf. Dt 20,7).
Subentendidos estes costumes, Sao Mateus dá a saber
que Maria concebeu durante o período de noivado, sem a par-
ticipacáo de José, por intervengo direta do Espirito Santo
(cf. 1,18). Acrescenta que, passada a perplexidade do varáo
justo, a quem o anjo tranqüilizou, os dois noivos contrairam
matrimonio e coabitaram, como o dá a entender a historia da
infancia de Jesús (cf. Mt 1,24; 2,13. 19-22).
Será que esta coabitacáo implicou consorcio carnal?
A sadia exegese dos textos bíblicos, corroborada pelo con
tinuo ensinamento da tradicáo crista, leva a afirmar que nao;
Maria nao teve filho além de Jesús, embora ha i a vivido sob o
mesmo teto com José, que fazia as vézes de tutor do Menino
Deus e de Maria. A respeito dos chamados "irmáos de Jesús",
veja-se "Pergunte e Responderemos" 3/1957 qu. 13.
2. Note-se ainda o sentido de Mt 1,25. A expressáo que
neste versículo se traduz por "enquanto ela nao deu á luz"
(na versáo de Ferreira de Almeida: "até que deu a luz..."),
corresponde ao grego heos hou e ao hebraico 'ad ki. Ora sao
conhecidas as passagens da Sagrada Escritura onde essas par
tículas ocorrem para designar apenas o que se deu (ou nao
se deu) no passado, sem se indicar o que se havia de dar no
futuro. Tenha-se em vista, por exemplo:
Gen 8,7: o corvo que Ñoé soitou no fim do diluvio, nao
voltou á arca "até que as aguas secassem". Significaría isto
que depois do diluvio a ave voltou á arca?
Salmo 109, 1: Deus Fai convida o Messias a sentar-se á
sua direita "até que Ele faga dos inimigos do Messias o supe
dáneo dos seus pés". Quer isto dizer que, depois de termi
nada a luta e vencidos os inimigos no fim da historia, o Mes
sias deixará de se assentar á direita do Fai?
Ainda hoje na vida cotidiana nao se recorre a semelhan-
te modo de falar, quando por exemplo se diz: "Tal homem
morreu antes de ter executado os seus planos" ou "ante; de
ter pedido perdáo"? Poderia alguém concluir disto que, de
pois da morte, o defunto executou os seus designios ou pediu
perdáo? Diz-se outrossim: "O juiz condenou o acusado antes
de o ter ouvido"; seria lícito deduzir destas paiavras que o

— 20 —
ouviu depcis de o ter condenado? — Estes sao casos em que
se faz referencia ao passado- prescindindo do futuro. Tal lo
cuelo era freqüente entre os semitas e constituí, sem dúvida,
a base pressuposta do texto de Mt 1,25, como alias bem reco-
nhecem críticos protestantes do valor de Klostermann. Em
conseqüéncia, a traducáo mais clara da passagem de Mt 1,25
seria: "Sem que ele (José) a tivesse conhecido (isto é, toma
do em consorcio carnal, marital), ela (Maria) deu á luz...".
Análogamente diríamos para explicar as frases ácima citadas:
"Tal homem morreu sem ter executado seus designios"; "o
juiz condenou o acusado sem o ter ouvido"; "as aguas do di-
iúvio secaram sem que o corvo regressasse á arca".
Quanto ao vocábulo "primogénito", ele nao se encontra
no original de Mt 1,25, mas ai foi introduzido por influencia
de Le 2.7: "Maria deu á luz seu filho primogénito, envolveu-o
em faixas e deitou-o nu'a mangedoura". O Evangelista su-
blinha o caráter milagroso, virginal dessa natividade, fazendo
notar que Maria mesma dispensou os primeiros cuidados ao
recém-nascido.
O termo "primogénito" nao significa que a Máe de Jesús
tenha tido outros filhos após Ele. Em hebraico bekor, primo
génito, pedia designar simplesmente o "bem-amado", pois o
primogénito é certamente aquéle dos filhos no qual durante
certo tempo se concentra todo o amor dos pais; além disto, o
primogénito era pelos hebreus iulgado objeto de especial amor
per parte de Deus, pois devia ser consagrado ao Senhor desde
es seus primeiros dias (cf. Le 2,22; Éx 13,2; 34.19). Mesmo
fora de Israel podia-se chamar "primogénito" o menino que
nao tivesse irmáo nem irmá mais iovem; é o que atesta urna
inscri(jáo descoberta em Tell el-Yedouhieh (Egito) no ano de
1922: lé-se ai que urna jovem mulher, chamada Arsinoé, mor-
veu "ñas dores do parto de seu filho primogénito". Nótese de
novo nestes textos o modo de falar que observamos a respeito
de Mt 1,25: "primogénito" vem a ser apenas o filho antes do
qua! nao houve outro, nao necessáriamente aquéle apes o
qual houve outros.

IV. HISTORIANDO CRISTIANISMO

WALTER (Matías Barbosa, M. G.):

7) "As igrejas luterana, batista e metodista pertencem


a uin mesmo núcleo? Sao cías que constituem a sociedade
dos chamados Protestantes? E estes seráo assim designados
porque protestani contra a virgindade de Nossa SesnJhora?"

_ 21 —
8) "Qual é afinal a diferenga entre Igreja e Seita?"

As perguntas nos levam a reconstituir sumariamente a


historia do movimento religioso que comeca com Lutero
(1483-1546).
Éste em 1517, julgandq que quinze séculos de vida haviam
corrompido a mensagem do Evangelho, quis cancelar de seu
horizonte a tradigao crista e colocou-se ¿mediatamente diante
da Sagrada Escritura; comegou a interpretá-la exclusivamen
te á luz do que lhe parecía certo, sem levar em conta a autori-
dade de um milenio e meio de magisterio. Assim fazendo, jul-
gava "redescubrir" o Cristo encoberto pela tradigao; o Senhor
Deus teria permitido que através dos séculos se perdesse o
genuino senso do Cristianismo.
A principal doutrina que Lutero "achou" na Biblia, dou-
trina nuclear de toda a ideología luterana, é a seguinte: o
pecado nunca é apagado na alma, pois o cristáo continua
sempre a sentir a concupiscencia, e esta é o próprio pecado.
Por conseguinte, nao se pode falar de graca santificante que
transforme ou regenere ontológicamente o homem batizado;
apenas Deus se digna nao imputar o pecado, atribuindo-nos
como simples título extrínseco os méritos de Cristo. Disto se-
segue, outrossim, que as boas obras (tao entravadas pela
concupiscencia) nao sao necessárias á salvagáo; basta crer
ou ter confianga inabalável no Cristo para ser salvo. A
negagáo da virgindade de Maria, a rejeigáo das imagens e
outras teses do luteranismo vém a ser pontos secundarios em
comparagáo com esta doutrina central.
O movimento de Lutero tomou o nome de Protestantismo
por motivo assaz acidental: o Parlamento alemáo instalado
em Espira no ano de 1529 decretou que a pretensa "Reforma"
luterana seria detida em seus progressos (nao, porém. cance
lada) até se reunir um concilio ecuménico para julgar a situa-
gáo; entrementes o culto e os direitos dos católicos continua-
riam a ser reconhecidos ñas regióes onde nao haviam sido
supressos. Tal medida provocou o protesto de seis príncipes e
quatorze cidades da Alemanha aos 19 de Abril de 1529. Donde
a designagáo de Protestantes daí por diante atribuida aos
discípulos de Lutero; embora os "reformados" tenham repe
tidamente deplorado éste título, ele prevaleceu.
Lutero encontrou entre os seus contemporáneos quem.
de perto lhe seguisse o exemplo, encabecando semelhantes
movimentos inovadores, de modo a formar, fora da Alemanha,
blocos religiosos mais ou menos congéneres; tais eram Ulrico=

— 22 —
Zwingli (1484-1531) na Suica alema (Zürich) e Joáo Calvino
(1509-1564) na Suica francesa (Genebra) e na Franca. As
doutrinas passaram para a Inglaterra pouco depois que o rei
Henrique VIII em 1534 se separou da Igreja Católica por mo
tivo de seu divorcio; lá constituiram o bloco anglicano. É a
estas modalidades da Ps.-Reforma oriundas da primeira rae-
tade do séc. 16 e ainda hoje existentes (o Zwinglianismo se-
fundiu em breve com o Calvinismo) que se costuma atribuir
o nome de Igrejas Protestantes (tenha-se. consciéncia, porém,
de que esta denominacáo é impropria, pois só pode haver urna
Igreja de Cristo: aqueía que remonta ininterruptamente até os
Apostólos e o próprio Cristo). Sao animadas por um espirito
assaz serio e tradicional; conservam certa etiqueta e nobreza
próprias do tipo angio-saxáo; seus adeptos tém contribuido
com estudos valiosos para o progressu da filología e da exe-
gese bíblicas.
Contudo o que no Brasil e no mundo contemporáneo em
geral tem chamado a atengáo por seu espirito proselitista nao
e o Protestantismo das Igrejas Protestantes; sao facc,5es reli
giosas que nos sáculos 17/20 (mormente no séc. 19) se separa-
ram de umá Igreja Protestante, produzindo urna "reforma da
Reforma", urna "heresia da heresia"; as vézes só tém de co-
mum com o Luteranismo, o Calvinismo ou o Anglicanismo o
repudio da tradigáo, o principio da livre interpretacáo da Bi
blia. Sao para o Protestantismo aquilo que as superstigóes e-
heresias sao para o Catolicismo.
A tais grupos dissidentes se atribui a denominado de sci-
tas; existem centenas destas (sómente nos Estados Unidos da.
América do Norte se contam 343 reservadas á populacho de
ra§a branca; as seitas dos cidadáos de raga negra ainda sao
mais numerosas). As mais famosas sao as dos Batistas, Meto
distas, Presbiterianos, Adventistas, Testemunhas de Jeová,
Pentecostais, etc. Compreende-se muito bem ésse fraciona-
mento progressivo do bloco protestante; urna vez admitido o
principio de Lutero segundo o qual todo cristáo, por seu livre
exame, independentemente de algum magisterio tradicional,
é intérprete das Escrituras, "cada Protestante, tomando a Bi
blia ñas máos, se tornou Papa" (ou cabera de urna Ps.Igreja),
como diz Boileau (Sátira XII 224). As Federagóes Protestan
tes da Europa e da América geralmente nao admitem em seu
gremio as seitas; por sua vez, algumas destas se opóem tanto-
ao Catolicismo como ao Protestantismo tradicional.
Há na verdade sobe i o motivo para se manter a distingáo?
entre "Igrejas" e "seit.V' do Protestantismo, pois estas últi—

— 23 —
mas sao animadas por mentaüdade bem característica: em
geral originaram-se de urna reacáo contra o aburguesamiento
de um dos antigos blocos protestantes (a atitude psicológica
básica de um fundador de seita freqüentemente é a de reco-
mecar a partir do zero, como se ninguém entendesse mais o
Evangelho em sua época): seu entusiasme é, nao raro, des
pertado e alimentado peio anuncio de urna nova revelacáo,
que se justapoe á Revelacáo bíblica (e as vézes chega a sufo-
cá-la); também acontece que as seitas esperem o fim do mun
do para breve, baseando-se em exegesc rebuscada de textos
bíblicos; apresentam-se como a arca em meio á corrupeáo
universal; por vézes prcmetcm, e parecem realizar, curas ma-
ravilhosas; em geral seus membros se deixam guiar mais pela
experiencia subjetiva c pelo sentimento do que por sólida
cempreensáo das Escrituras e do Cristianismo!
Por fim, nao se uoderia deixar de notar que o pulular
das seitas modernas tem seu significado positivo: é urna aíir-
macáo vibrante da alma humana naturalmente religiosa, se-
quiosa do Místico e do Transcendente, em reacáo contra os
credos materialistas e mecanicistas que tém sido apresenta-
rios as geragóes dos séculos 19 e 20.

V. MORAL

CAPICHABA (Vitoria):

9) "Será licito, na Moral crista, o aborto terapéutico?"

Por "aborto terapéutico" entendemos abaixo a interven-


cao médica que tem por objeto extrair do seio materno um
feto vivo, ainda nao viável. a título de salvar a vida materna.
Trata-se, pois, de urna acáo que atinge dirctamente a vida da
enanca, extinguindo-a; pouco imperta, no caso, que nao se
vise como íinalidade suprema da intervencáo a morte do feto
como tal, mas a preservacáo da vida da gestante.
Cerno pe ; errpreende. urna tal operacáo apresenta foros
de liceidade ? w.ente que nao possui o aborto vulgar, prati-
cado por cemocii: nio ou outro motivo baixo. Em vista disto,
as leis recentes o:1 a'^umas nacces tem permitido e oficializado
o aborto terapéutico.
A Moia: criü.ia. porém. condena formalmente tal praxe,
pois com pler-i r;v;;ic a tem na conta de assassínio di reto. O
fato de se iníenv 'or:.ir um termo ulterior mediante o mortici
nio nao e?.rc?b¡ : eviavidade do mesmo. A esta norm?. de Mo
ral é preciso acrexjr.lar a seguinte observacáo: na basa de
experiencias modernas, pode-se afirmar que o aborto dito
"terapéutico" nao se impóe como necessário ao tratamento
de molestia alguma. Entre outros testemunhos, seja lícito
citar o de numerosos médicos especialistas que se reuniram
em estudos na Academia de Deontologia Médica de Madrid
nos anos de 1933 e 1934; concluiram com urna dcclaracáo
acompanhada de sólido aparato científico, a qual afirma "nao
haver indicagáo nem da obstetricia nem da cirurgia em geral
que leve a tachar de terapéutico o aborto provocado" (cf. Sur-
bled, La Moral en sus relaciones con la Medicina. Barcelona
1950, 292-3).
A fim de tornar plenamente persuasivo éste testemunho,
os estudiosos tém reexaminado os principáis casos para a tera
péutica dos quais se costumava outrora apontar o aborto. Cha-
mam em nossos dias a atencáo para os recursos de qus dispoe
a Medicina moderna para curar eficazmente, sem recurso ao
aborto, tanto os vómitos incoerciveis como a anemia perniciosa
e a tuberculose pulmonar; quanto as lesoes cardíacas, a técnica
permite dizer que exigem cuidados especiáis durante o proces-
so de gestagáo e maternidade, mas nao o impedem.
Em suma, eis eloqüente estatística publicada pelo "Catho-
lic Medical Quarterly" de abril de 1956, 89-90. No "Margaret
Hagne Hospital" (U. S. A.), entre os anos de 1944 e 1951 veri-
ficaram-se 66.101 partos, sem que se haia cometido um só abor
to "terapéutico"; ora a mortalidade materna, em tais circuns
tancias, atingiu as proporcóes de 0,103% apenas. Em outros
dois grandes hospitais norte-americanos, onde se praticava o
aborto "terapéutico", a mortalidade materna chegou a 0,12%
num total de 21.990 casos e a 0,21% em outra serie de 20.679
casos. O Dr. Samuel Cosgrove, abalizado obstetricista, que soli-
citou aos hospitais os dados da estatística ácima, concluiu nao
se poder legitimar por título nenhum o aborto dito "terapéu
tico" (cf. "Theological Studies", marco 1953, 42). Por conse-
guinte, o médico que esteja realmente disposto a tratar da
cliente, tem recursos científicos para fazé-lo, recursos que pou-
pam a vida da crianca e sao mais dignos do que o aborto.
Escaparía ao ámbito da questáo tratar aqui do aborto pro
vocado por razóes de eugenesia, ou seja, em vista de evitar in
dividuos defeituosos ou sélécionar os tipíos raciais. mais fortes.
Seja apenas dito que também tal modalidade de intervengo é,
como assassínio injusto, repudiada pela Moral crista. Esta parte
do principio de que o homem nao é gerado meramente a fim de
servir á sociedade; ele tem o direito de receber do seu seme-
lhante algo mais do que a paga dos prestimos que llie possa

— 25 —
tributar. Independentemente das suas possibilidades de pro-
duzir, a criatura humana possui urna personalidade baseada
em sua natureza espiritual e destinada a um finí postumo; todo
e qualquer individuo tem o direito e o dever de passar por esta
vida temporal em demanda da eterna: "Os homens nao sao ge-
rados primariamente para a térra e o tempo, mas para o céu
e a eternidade", ensina Pió XI na encíclica "Casti connubü".
Ademáis, quem praticasse o aborto por eugenesia, nao teria
motivo para nao querer outrossim eliminar da sociedade os
doentes incuráveis, os anciáos, aqueles cuja existencia pareca
(segundo um criterio qualquer) carecer de valor.
A respeito da prenhez ectópica, veja "P. R." 8/1957
qu. 12.

LEONARDO (Sao Paulo):

10) "Porque é que a Igreja impóe o índice dos Livros


Proibidos? Há inconveniente em se ler obra de outra religiáo
ou moral, com a finalidade de mclhor conhecer a divergencia
daquela para a nossa (católica) ?"

Os livros sao "o eterno alimento da alma", como diz vene-


rável documento medieval (a Regra dos Cartuxos). As idéias
que éles veiculam nao podem deixar de ter influencia na for-
macáo dos leitores. Se a Palavra de Deus é Vida (cf. Jo 6,64),
a Palavra do Erro é certamente veneno (grangrena, diz Sao
Paulo em 2Tim 2,17) portador de morte. "As más companhias
corrompem os bons costumes", como iá verificava o poeta
grego Menandro citado por Sao Paulo (cf. 1 Cor 15,33); ora o
livro sempre foi considerado um dos companheiros mais ínti
mos do homem... "Nao há talvez poder de sugestáo compa-
rável ao da leitura, pois nao há outro que tanto se aproxime
da auto-sugestáo" (J. Forget, índex, em 1>Dictionnaire Apolo-
gétique de la Foi Catholique" II. Paris 1911, 706).
Sendo assim, entende-se nao ser desejável que qualquer
pessoa leia qualquer livro, mesmo que o faca com intengáo de
defender a verdadeira religiáo; seo leitor nao possui sólida
formacáo (coisa que nao se pode sem mais supor na multidao
dos homens), deixa-se fácilmente enredar pelo erro. É esta a
razáo por que a Santa Igreja, consciente da sua missáo de san
tificar o mundo, vigia sobre os livros que seus filhos escrevem
e léem, impondo-lhes oportunas restfigóes. Nao há pai nem
máe que nao detenham seus filhos de brincar com o fogo ou
manusear urna arma perigosa. — De resto, e isto é muito im
portante, a própria leí natural, anteriormente a aualquer de-

— 26 —
claracao positiva, nos diz que pessoa nenhuma tem o direito de
continuar a ler um livro que ela perceba estar-lhe causando
efeitos nocivos; esta proibicáo do Direito natural foi parti
cularmente inculcada pelo Santo Oficio em 1943; a Santa Sé
deseja que os Srs. Bispos a recordem aos fiéis (cf. "Acta Apos-
tolicae Sedis" XXXV 144 s). Nao há dúvida, maior é o núme
ro de iivros proibidos pela lei natural do que o de obras vedadas
pelo índice da Igreja.
O desejo da preservar do erro (real ou presumido) pare
ce ditado pela mesma lei natural a toda sociedade que estima
seus valores. Foi, sim, posto em orática desde remota anti-
güidade pelas autoridades religiosas nao cristas: já antes de
Cristo, por exemplo, os rabinos proibiam aos jovens de Israel,
de menos de vinte anos de idade, a leitura do Cántico dos Cán
ticos, assim como a de varios capítulos do Génesis e de Eze-
quiel, por julgarem que tais textos poderiam excitar peri-
gosamente a imaginacáo dos adolescentes. Conforme refere o
historiador cristáo Eusébio de Cesaréia (t 339), o rei Ezequias
de Judá (716-687) mandou atirar ao fogo livros que, falsamen
te atribuidos a Salomáo, eram aptos a levar a idolatría. Entre
os pagaos, semelhantes cautelas estavam em vigor: referem
Cicero (De natura deorum 1,23) e Latáncio (t após 317 d. C,
De ira Bei 9) que o demagogo Protágoras de Abdera (t411 a.'
C.) foi banido de territorio de Atenas por haver publicado um
escrito com os seguinles dizeres: "A existencia dos deuses
eis algo que eu nao saberia nem afirmar nem negar". A obra
foi queimada em plena praca pública. Tito Lívio (L. XXV 1)
cita um decreto do pretor romano M. Attilius, que mandava
destruir os livros de profecías dos cartagineses. — No séc. 16,
os preprios "reformadores" protestantes nao hesitaran! em se
guir tal praxe: Lutero lancou ao fogo o 'Corpus Juris Canonici';
seus discípulos proscreveram as obras dos "reformados" zwin-
gliancs e calvinistas, provocando igual reacáo por parte déstes.
Na Igreja Católica a condenagáo de livros, ao menos sob
forma esporádica, é oraticada desde os primeiros tempos. Co-
nhece-se o chamado •Fragmento de Muratori", documento re-
digido por volta do ano de 196, em que, ao lado de livros bíbli
cos e outros edificantes/sao mencionadas obras herejes, "as
quais nao podem ser aceitas na Igreia". No séc. 5.° o "Decreto
Gelasiano" apresentava semelhante catálogo. Foi, porém, a
partir do séc. 15, após a descoberta da imprensa, que se mul-
liplicaiam es livros nocivos, exigindo vigilancia mais assídua
por parte das autoridades: o Imperador Carlos V, recorrendo
á colaboracáo dos teólogos da Universidade de Lovánia, man-

— 27 —
dou em 1529 redigir um catálogo de livros a ser proibidos nos
Países Baixos. O Papa Paulo IV por sua vez publicou em 1557 e
1559 um índice de livros vedados. Para assegurar a tarefa de
censura, o santo Pontífice Pió V em 1571 fundou em Roma a
dita "Congregacáo do índice", a qual exerceu suas atribuigoes
até que em 1917 o novo Código de Direito Canónico as trans-
ferisse para a Congregacáo do Santo Oficio (á qual toca a cen
sura das doutrinas e dos costumes em geral).

Hoje em día. além dos livros explícitamente proibidos pelo


índice, outros há que sao proscritos por cláusulas gerais do
Direito Canónico, independentemente de qualquer declaragao
especial da autoridade eclesiástica (cf. can- 1399). Tais sao,
em resumo:

a) as obras que diretamente ataquem a religiáo, a fe


crista ou os bons costumes;

b) os escritos que tratem explícitamente de assuntos las


civos e obscenos, seja sob a forma de narrativa, seja sob a de
tratado sistemático (está claro que nem todo romance de amor
cai sob esta categoria);

c) os livros e brochuras que narram aparicóes, revela-


cóes, visóes, profecías, milagres ou preconizam novas devocóes,
sem ter sido previamente submetidos á aprovacáo eclesiástica
(cf. can. 1385 § 1);

d) os livros que ensinam ou recomendam a supersticáo,


a adivinhacáo, a magia, a evocacáo dos espíritos e práticas aná
logas;

e) as edigóes da Sagrada Escritura que nao apresentem


notas explicativas nem aprovagáo eclesiástica.

Como se compreende, a intencáo da Igreja, ao impor res-


tricóes á leitura, nao é em absoluto a de dominar pelo obscu
rantismo nem retardar o progresso da ciencia. Por isto os fiéis,
principalmente os que estudam. lecionam e escrevem, podem
obter licenga para ler obras proibidas. desde que apresentem
válidos motivos. Em vista disso, é necessário se dirijam ao
Bispo diocesano de que dependem, o qual dará autorizagáo em
casos urgentes (cf. can. 1402), ou encaminhará ao Santo Ofi
cio o pedido, acompanhado da respectiva justificagáo e reco-
mendagáo. Freqüentemente os Nuncios e Delegados Apostó
licos possuem as faculdades para conceder a devida permissáo.
A fim de simplificar c trámite, recomenda-se aos fiéis interes-

— 28 —
sados consultem seu Pároco ou seu confessor, que lhes dará a
orientado precisa a seguir.

V. LITURGIA

PEDRO (Rio de Janeiro):

11) "Qual o significado da vela acesa a urna imagam?"

JULIA (Barbacena):

12) "Porque os católicos acendem velas durante o dia


sobre os altares?"

O fogo tem, por sua natureza, rico valor simbólico. Sen


do fonte de luz e calor, está intimamente ligado com a vida, e
representa aptamente a alma humana dotada de inteligencia
(luz) e amor (caler) naturais ou dotada de fé e caridade
sobrenaturais. Além disto, o fogo, ardendo enquanto consomé
a materia, é sinal da reverencia e homenagem que alguém
queira tributar a personagem muito estimado.
Isto explica que o fogo, ardendo em cirios ou velas, tenha
sido utilizado desde a era pré-cristá para exprimir o senso re
ligioso do homem. Em particular, interessam-nos os testemu-
nhos dessa praxe entre os romanos: Cicero, por exemplo, men
ciona o incensó e as velas que se acendiam no culto sagrado
(De officiis III 80); o historiador romano Amiano Marcelino
(i 440 d.C.) refere que o filósofo Asclepíades, em visita ao tem
plo de Apolo em Dafnes, acendeu velas diante da estatua em
sinal de veneractáo (Rer. gest. 1. XXII14). Em dadas ocasióes,
velas acesas eram levadas processionalmente diante de digni-
tários do Imperio Romano; a imagem do soberano era por
vézes exposta sobre u'a mesa quadrada, juntamente com qua-
tro velas (julga-se eme o uso de se levarem velas processional
mente diante do. Santo Evangelho ou diante do Sumo Pontí
fice e de bispos provém désse costume romano).
Entre os iudeus, a Lei mosaica prescrevia solenemerrte
que dia e noite ardesse urna lamparina de óleo na tenda do
Senhor (cf. Éx 27,20s; Lev 24,2s). Estava igualmente em uso
o candelabro de sete brac'os, confeccionado de ouro puro se
gundo o modelo indicado a Moisés sobre o monte, objeto de
grande estima na piedade de Israel (cf. Éx 20, 31-40; 39,37;
Lev. 24,4; Núm 8,4). No templo de Salomáo havia o candela
bro de ouro puro junto ao "Santo dos Santos" (cf. 3 Rs 7,49;
2 Crón 4,7). A Casa do Senhor restaurada após o exilio (cf. 1
Mac 4,49) tinha, cerno outrora, o tradicional candelabro de

— 29 _
sete bracos. Por fim, sao sete candelabros que Sao Joáo no
Apocalipse (note-se bem: temos aquí um texto do Novo Tes
tamento) vé em torno do Filho do homem, realzando a Ma-
jestade do Senhor Jesús (cf. Apc l,12s).
Instruidos por estes precedentes, os cristáos nao hesita-
ram, desde os inicios da Igreja, em fazer uso de velas, lampa-
rinas e candelabros para exprimir a fé e o ardor de sua alma.
Junto ao altar, principalmente por ocasiáo do S. Sacrificio da
Missa, as velas acesas atestam a adoracáo prestada a Deus.
Quando se acendem diante de imagens de santos ou simples-
mente em honra déstes, as velas e lamparinas significam a
atitude de alma congruente, ou seja, veneraeáo (nao adora-
cao) aos amigos de Deus. Junto aos cadáveres ou túmulos dos
defuntos, exprimem o respeito dos vivos perante o misterio
da morte, sobre o qual só Deus tem poder; para os católicos,
equivalem a uma profissáo de fé na imortalidade da alma e na
ressurreicáo dos corpos. Nem mesmo os liberáis se recusam a
exprimir reverencia aos mortos mediante uma lamparina
sempre arden te; é o que se verifica em mais de uma n&qao,
por exemplo, junto ao túmulo do "Soldado desconhecido".
Deve-se mencionar ainda o costume, vigente em familias
católicas, de colocar ñas máos do moribundo uma vela acesa.
Que pode significar isto? — Supce-se que a veia tenha sido
benta na igreja; tornou-se destarte um sacramental, isto é,
objeto que a Santa Igreja seqüestrou do uso profano, pedindo
ao Senhor que todos aqueles que déle usem com fé e devogáo
obtenham gragas para a alma e para o corpo; sobre tal objeto
pesa, por assim dizer. o valor da prece da Igreja, a qual nao
pode deixar de ser agradável a Deus e meritoria para os ho-
mens. Por conseguinte a fé e a devocáo dos fiéis que, diante
da morte, recorrem ao sacramental da vela benta, se revestem
de nova eficacia para impetrar as gracas de um santo desen
lace. De modo semelhante, alias, a agua benta, o pao bento, a
medalha benta (que sao outros tantos sacramentáis...),
usados com piedade, dáo novo esteio á oragáo dos fiéis; a
Santa Igreja mesma como que se empenha de modo especial
juntamente com quem usa dos sacramentáis, por obter efeitos
salu tares.
Vé-se, pois, que o uso de velas nada tem que ver com su-
perstigáo. É claro, porém, que se podem verificar abusos; as
almas simples lhes atribuem as vézes efeitos desproporcionáis;
é ' que se deve de todo modo evitar nos santuarios católicos.

D. Estéváo Bettencourt O.S.B.

— 30 —
E RRA TA

Concernente a "P. R." 6/1957

Juntamente com nossas desculpas, aprese'ntamos aos nossos esti


mados leitores o pedido de levarem em conía as seguintes corregóes:

Pág. 2, n.° 6): ler


6) "Desejaria a explicacao dos textos de Sao Mateus
1,18: "Estando María desposada com José, antes de coabitarem,
achou-se ter concebido do Espirito Santo" (isto quer dizer que depois
coabitaram?);
1,25: "E ele (José) nao a conheceu, enquanto ela nao deu á luz
o seu filho primogénito" (quer isto dizer que depois a conheceu e déla
teve filhos?)"...
Pág.4, 1. 5 de baixo para cima: depois de "raciocinar progressi-
vamente", acrescentar:
"sempre sujeitu a erros...). Aquelas perfeigóes em seu con-
ceito nao incluem...".
Pág. 4, 1. 4, de baixo para cima : cni vez de cíizer a bondade, ler
dizer que a bondade...
Pág. 4, 1. 1.a de baixo para cima : em vez de rstrita, ler restrita.
Pág. 5, 1. 23: depois de mas, acrescentar:
"Ele as tem de per si, por sua própria entidade; se as recebesse
de fora,..."
Pág. 6, 1. 9: em vez de citar indefinidamente, ler multiplicar.
" " '1. 27 no inicio: ler mos" 3/1957, qu. 1.
Pág. 7, 1. 5 de baixo para cima : em vez de dispende, ler dis
pondo.
Pág. 8, 1. 13: em vez de compreendidas, ler empreendidas.
" " 1. 16/17: em vez de Ulteriormente, ler Ulteriores.
" " 1. 25: em vez de industria seu, ler industria e seu.
Pag. 10, 1. 3: em vez de orna, ler torna.
" " 1. 8: após Ética, acrescentar julgava que.
Pág. 11, 1. 29/30: as citacóes bíblicas sao Dt 12, 31; 17,1; Prou
3,32; 11,1. 20; 12, 22; 15, 8 s. 2C.
Pág. 12, 1. 17: em vez de vultoso, ler vultuoso.
" " 1. 8 de baixo para cima: em vez de inculta, ler inculca.
Pág. 15, 1. 8 de baixo para cima: em vez de 3,24190, ler 3,24-90.
Pág. 16, 1. 20: ler o seguinte trecho omitido :
"... nao posterior a Esdras (séc. 5.°/4.° a.C);
3) tivesse sido redigido e conservado em hebraico, nao em ara-
maico (sirio) nem em grego;".

Pág. 16, 1. 29); em vez de Por ter originado, ler Por se ter ori
ginado.
Pág. 17, 1. 13: em vez de ígreja; a qual ler Igreja, á qual.
Pág. 18, 12: ler "Bibliotheca Sancta".
19: ler de modo nenhum implicando.
22: em vez de incluido, ler incluidos.
32: no fim: ler como os deuterocanónicos.
Pág. 19, 3: ler Nicodemos.
1. 25: ler inutüidade da fé sem as boas obras),
parecía ■ ■ •
Pág. 20, 1. 18 no fim: ler 3/1957, qu. 13.
" 1. 30: ler Salmo 109, 1:
Pág. 22, 1. 10: em vez de Biblia doútrina, ler Biblia, doutrina.
" " 1. 25: em vez de pretendida, ler pretensa.
" 1. 36: em vez de Ihes, ler Ihe.
Pág. 23, 1. 30: em vez de "Cada, ler "codo.
" 1..4 de baixo para cima: em vez de seitas, ler seita.
Pág. 25, 1. 26: em vez de nenhum aborto, ler nenhum o aborto.
1. 7 de baixo para cima: em vez de Ihes, ler Ihe.
Pág. 27, 1. 12: ler historiador cristáo Ensebio de Cesaréia.
" 1. 33/34: após Igreja", ler No séc. 5." o "Decreto Gela-
siano" apresentava semelhante catálogo. Foi, porém,
a partir..."
" " 1. 38: em vez de Jovánia, ler Lovánia.
" 1. 40/41: em vez de 1557 o, ler 1557 e.
Pág. 29, penúltima linha: em vez de com, ler cottio.
Pág. 30, 1. 1: ler Novo Testamento) vé em torno...
" 1. 14: ler para os católicos, equivalem a urna profissdo...

., A REDACÁO
"Pergunte e Responderemos"
Caro amigo, nao há quena nao se ponha a pensar e nao
conceba sem demora importantes problemas ("Afinal que faco
ueste mundo? Qual o sentido da vida presente? Que se lhe
seguirá?"). Nao sufoque nem despreze cssas questóes. Scm luz
sobre tais assunlos ninguém se pode sentir plenamente tranquilo
e feliz.

I'ara o ajudar na procura das solucóes que lhe interessam,


V. S. tcm a sua disposicáo urna Caixa Postal e um fascículo
mensal de 40 páginas publicado sob os cuidados de D. Esléváo
Bettcncourt O. S. B. Poderá propor questóes filosóficas, moráis
c religiosas ao seguintc endereco:

«PERGÜXTE E RESPONDEREMOS"

Caixa Postal 2666

Rio de Janeiro

A resposta será enviada gratuitamente a V. S. em fascículo


impresso. Qucira, pois, indicar endereco c pseudónimo.

A colecáo dos fascículos "Perpunte e Responderemos" pode-


-sc obter tambem por assinatura (a serie se iniciou em marco
de 1957). Prpco da assinatura anual: Cr$ 100,00. Número avulso:
Cr$ 10,00. Pedidos ao Instituto Pió X, Rúa Real Grandeza 108,
Bolafogo — Rio de Janeiro (tel.: 26-1822).

N. B.: — Tudo que se refere a REDACAO deve ser enriado


a D. Estéváo Bettencourt O. S. B. (ou "Pergunte e Kespo.idcrc-
inos"), Caixa Postal 2666, Rio de Janeiro. O que diz respeito
á ADMINISTRACAO seja dirigido á Dirctoria do Instituto Pió
X, Rúa Real Grandeza 108, Botafogo, Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro:
Instituto Pió X do Rio de Janeiro — R. Real Grandeza, 102 —
Botafogo.

Livraria ''Lumen Christi" — Caixa Postal 2666;

Livraria "Vozcs Ltd." — R. Senador Dantas,118-A;


Livraria Missionária — R. 7 de Setembro, 65-A;

Livraria Agir — Caixa Postal 3921;

Livraria Dom Bosco — R. da Gloria, 106

O Sao Paulo (Capital).


Edicóes Paulinas — Praga da Sé 184 — 1.° Andar.

e Rio Grande do Sul:


Livraria Tabajara C. Postal 1918 — Porto Alegre

e Minas Gerais:
Livraria Editora "Lar Católico" — C. Postal 13 — Juiz de Fora.
«PEKGUNTE E RESPONDEREMOS»

REDADO ADMINISTRADO
Caixa Postal 266G *• Re^ Grandeza 108 - Bolafogo-