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Resumo A narrativa “O tesouro” descreve a história de três irmãos de Medranhos: Rui, Guanes e Rostabal, que viviam em plena miséria

a ponto de, em noites de frio intenso e nevasca, pernoitarem no estábulo que abrigava suas três éguas, já que a velha choupana em que habitavam era descoberta de telhas e vidros. Em certa manhã de domingo, enquanto procuravam pegadas de caça, encontraram em Roquelanes um velho cofre de ferro, com três fechaduras e três chaves. Ao mesmo tempo em que abriram o cofre e mergulharam no ouro, a desconfiança tomou conta dos três, que imediatamente levaram as mãos ao cabo de suas espadas. Rui, descrito como sendo aparentemente o líder dos três, argumenta que o tesouro vinha de Deus, e que deveria ser dividido em três partes. Porém, parecia perigoso sair dali com tanto ouro, sendo necessário arrumarem uma maneira segura de transportá-lo. Decidiram que Guanes, por ser o mais leve dentre eles, deveria pegar uma parte do ouro e ir à cidade de Retortilho comprar alforjes, vinho e comida para eles e para as éguas a fim de aguetarem a caminhada de volta. Guanes, então, assegura-se de levar consigo a sua chave e sai em cavalgada até a cidade para comprar os mantimentos e, no caminho sai cantarolando: Olé! Olé! Sale la cruz de la iglésia Vestida de negro luto... Enquanto aguardam o irmão mais novo voltar, Rui e Rostabal conversam entre si que Guanes não deveria estar com eles, pois havia se recusado mais cedo a fazer a caminhada, e que isso deveria ser má sorte para ele. Ambos chegam à conclusão de que Guanes também era egoísta, que jamais dividiria o tesouro com eles, por isso decidem matá-lo. Rostabal esconde-se aguardando a volta de Guanes, com a espada em punho, quando escuta Guanes se aproximando: Olé! Olé! Sale la cruz de la inglésia, Vestida de negro luto...

Rostabal desfere um golpe de espada abaixo do ventre do irmão, a pedido de Rui, que também não se esquece de pedir para Rostabal pegar a chave de Guanes. Após o feito, Rostabal, ao lavar-se do sangue do irmão, é atacado no coração por Rui, com um golpe pelas costas.

e prova que os meios de vida interferem e corrompem a mente humana. Nessa época. incorporado à língua corrente em Lisboa. nas suas formas de expressão: temas. que viviam em extrema miséria. Rui que até então era o mais safo entre eles. e percebe que o que tomara era veneno e que a intenção do irmão mais novo era igual à dele: de matar os irmãos e ficar com o tesouro sozinho. revelar o relacionamento humano. Deliciando-se com a comida. por meio de contato com as novas ideias filosóficas e científicas que circulavam a Europa. A ideia de “ou tudo ou nada” representada pelas atitudes dos personagens. apesar das mudanças no cenário político e cultural. remete ao bom leitor a uma ideia oposta. Rui abre o cofre. livre e transparente.Possuindo agora as três chaves. também contribuiu para aumentar seu público. em poucas páginas. as azeitonas e a carne assada que Guanes trouxera e. e o Realismo foi o “esvaziamento” dessas ideias. Sobre o autor Eça de Queirós (1845 – 1900) é considerado o mais importante ficcionista do Realismo em Portugal e um dos maiores em língua portuguesa. grita então pelos irmãos Guanes e Rostabal. Agonizando. Rui morre envenenado. olha as garrafas de vinho. trazendo-lhes um final trágico. diante de situações conflitantes e atípicas ao indivíduo. sendo consolidado o liberalismo. mas também sobre as literaturas brasileiras e espanholas. inveja e cobiça: características marcantes do Realismo. Exerceu influência não só sobre escritores portugueses. têm suas mentes corrompidas diante de tantas dificuldades e ao se depararem com um tesouro que mudaria suas vidas. decide comer e beber. O objetivo do autor em seus escritos foi adequar sua visão de mundo. O Realismo em Portugal Além de significar uma renovação da própria literatura. A cobiça seguida de traição é a característica marcante do conto que prende a atenção do leitor. a escola literária representou uma tentativa de tirar todo o país da mentalidade romântico-cristã e levá-lo à “modernidade”. o caráter de egoísmo. linguagem e visão de mundo. Porém. O conto “O tesouro” e suas características no Realismo Eça de Queirós consegue. que. . A história conta que até hoje o tesouro encontra-se na mata de Roquelanes. em uma linguagem expressiva. seu verdadeiro e mais deprimente caráter é revelado. O Realismo teve início em 1865 com a questão Coimbrã. A exemplo disso. Eça utiliza-se de simbologia. os irmãos Medranhos. com o vinho e com o tesouro em suas mãos. O autor mostra que. haviam cessado as lutas entre os liberais e as facções que representavam a monarquia deposta pela revolução de 1820. a literatura portuguesa ainda se encontrava impregnada de velhas ideias românticas e árcades. ganância. tudo perde”. de “quem tudo quer. revelam-se egoístas. criando um estilo solto. Rui sente que algo o queima por dentro. sentindo fome e ignorando o fato de que havia ali apenas duas garrafas do vinho. fina ironia.

aspectos do caráter psicológico da alma humana. nem fervia panela de ferro. diante da vasta lareira negra. na qual esta última revela o poder do egoísmo e suas consequências... mas quando o ambiente é destelhado. nas altas chamas da lareira por noites de neve.. citados na bíblia. a telha é citada fazendo parte da imaginação de Rui.” LAREIRA A lareira.... subjetivando dois temas: fraternidade familiar versus ambição.” . na simbologia. ela é descrita primeiramente como “lareira negra”.. que. três chaves nas suas três fechaduras.” “.” “.... é o “centro de vida”. Temos isso nos respectivos fragmentos: “. o vento da serra levara vidraça e telha. como no exemplo abaixo: “Os três irmãos de Medranhos. numa respectiva hierarquia.Simbologia O conto “O tesouro” é enriquecido com uma simbologia que passa para o leitor nãoamador. pois traz calor e luz ao lar. Simbolistas também utilizam o “três” em associação aos três reis magos.” “.. é citada em uma das viagens psicológicas de Rui. Detalhes desses símbolos tornam o espaço na obra macabro e sombrio. a comprar três alforjes de couro. passando a ter significado oposto.. além de outros significados... No segundo. pensava em Medranhos coberto de telha nova. Como uma família.. três maquias de cevada.. “telha” significa proteção.. realista em terceira pessoa.. e por uma segunda vez.. nota-se a presença marcante do número três. os irmãos Medranhos possuem tal hierarquia.. três empadões de carne e três botelhas de vinho.” “. refere-se na obra à representação de um inteiro.. nas altas chamas da lareira por noites de neve. que é representada por pai.” TELHA Faz-se referência à ausência de vidraça e telha na casa dos irmãos no primeiro momento. Temos isso em vários fragmentos. TRÊS Durante a narrativa. “. ao imaginar-se rico. mãe e filho. No conto. a representação católica da trindade. pensava em Medranhos coberto de telha nova. onde desde então não estalava lume. passavam eles tardes desse inverno. Segundo a simbologia.. além de existir também... as más influências corrompem o homem.

A simbologia da água é riquíssima. personagem bíblico que trai Jesus. o corvo representa mau agouro.. Segundo alguns estudiosos. na obra. “Então Rui. e a “purificação” tanto em seu nascimento (fonte) como em seu estado inerte (tanque). é a ave negra dos românticos. cantando. ela aparece por duas vezes. sem um gemido. entre uivos. segundo a simbologia. era ruivo. adiante. aparece quebrada. Desde as iniciais de seu nome. Sangue este. que recebia pelos olhos. estava cheio de dobrões de ouro!” . até as bordas. “Rostabal.. Judas Escariotes.” OURO Embora a simbologia do ouro seja repleta de significados. o ruivo representa fogo impuro. a água é citada.” RUIVO Rui.” “A fonte. lavava o outro morto. com a face na água. No conto. Segundo a simbologia. os longos cabelos flutuando na água. é um homem ruivo. fugindo com a pluma do sombrero quebrada e torta. cortando a possibilidade de dessa comunicação.” VINHO O vinho. a pluma de Rostabal é citada como quebrada e torta.. mostram que a simbologia do ruivo é muito importante na obra. Temos tais referências nos fragmentos: “Rostabal caiu sobre o tanque. até suas atitudes. “E dentro.. na última. CORVO A figura do corvo aparece no conto por mais de uma vez. Após o assassinato de Guanes. Segundo a simbologia. sendo que. aplica-se bem a seguinte significação: O ouro moeda (tesouro) é de perversão e exaltação impura dos desejos.” “. Tanto em forma de “fio de água”. representa sangue. como “fonte”. pelos cabelos.ÁGUA Em muitos trechos. personagem mais ativo desde o começo até o fim do conto. mas representa principalmente a “vida”. procurava o fio de água.. grasnando” PLUMA A pluma é representada na simbologia um canal que faz com que as orações subam até o céu. que lavava o morto.. que era gordo e ruivo. derramado por todos os personagens do conto. “Um bando de corvos passou sobre eles.

Willian Roberto . Robert Laffont S. a fraqueza de espírito existente nos personagens e mostrou até que ponto o poder corrompedor que a vida. de forma brilhante.A. a sociedade e os meios podem exercer sobre o caráter humano que é refletido em suas atitudes.Jean Chevalier/Alain Gheerbrant Mitos. figuras. no Brasil. costumes. É um conto realista de leitura obrigatória. . Conclusão O escritor realista expôs.A. sonhos. e Ed. Jupiter. . cores. 1982 Direitos adquiridos para a língua portuguesa. e preconizava má intenção: Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia. Vestida de negro luto . . pela LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA S. formas. gestos. Ed.MÚSICA FÚNEBRE A música cantada por Guanes em sua partida e em sua chegada representa luto. Bibliografia: Dicionário de Símbolos .10ª edição Panorama da Literatura Portuguesa CEREJA. números.

o mais velho. até que compreendeu que bebera vinho envenenado e morreu. Rui convence Rostabal a assassinar Guanes e depois dividirem o dinheiro pelos dois. onde encontraram.. •Conclusão (dois últimos parágrafos) – Situação final. •Desenvolvimento (até ao penúltimo parágrafo) – Descoberta do tesouro. Enquanto esperavam pelo irmão. Thereza Conchar Editora Atual. para trazer de lá três alforges de couro para transportar o outro. se considerarmos a história dos "três irmãos de Medranhos". .ainda lá está. Esta pobreza em que viviam tornou-os mais miseráveis. Certo dia. ao invés. ESTRUTURA DA ACÇÃO •Introdução (dois primeiros parágrafos) – Apresentação das personagens e descrição do ambiente em que vivem. estamos perante uma narrativa fechada.. começou a gritar pelos seus irmãos. Rui decide beber uma das duas garrafas de vinho que Guanes trouxera. De repente sentiu um grande ardor que lhe subia pela garganta. três empadões de carne e três botelhas de vinho. um velho cofre de ferro. chamados Rui. Rostabal debruçou-se sobre Guanes e assassinou-o. decidiu que o tesouro seria dividido pelos três e Guanes partiu para a vila de Rortilho. levando consigo uma das chaves do cofre. 1997 Por Mônica Lima Falsarella Resumo do conto: “O Tesouro” de Eça de Queirós Nesta história é retratada a vida miserável de três irmãos de Medranhos.Magalhães. espetando-lhe uma espada."). Guanes e Rostabal. dado que ele continua por descobrir (". Rui. três maquias de cevada. na mata de Roquelanes. Da conclusão infere-se que. quando foram caçar e apanhar tortulhos e decidiram ir então ir à mata de Roquelanes. Desesperado. Quando este regressou da vila. teremos de considerar a narrativa aberta. Na posse das três chaves do cofre e senhor de todo aquele tesouro. decisão de partilha e esforços para eliminar os concorrentes. com três fechaduras. cheio de dobrões de ouro. se nos centrarmos sobre o "tesouro".

Por sua vez. como que sublinhando o predomínio do egoísmo individual sobre a aparente fraternidade. personagens) e reflexões. os traços de traição e premeditação de Rui e Guanes são deduzidos a partir do seu comportamento (caracterização indirecta). A articulação das sequências narrativas (momentos de avanço) faz-se por encadeamento. o desenvolvimento tem também uma estrutura tripartida: •Descoberta do tesouro e decisão de o partilhar. As personagens começam por ser apresentadas colectivamente ("Os três irmãos de Medranhos. á medida que a acção progride. barba longa. enrugado desconfiado. morte de Rostabal. calculista. •Rui e Rostabal decidem matar Guanes.. PERSONAGENS CARACTERIZAÇÃO FÍSICA CARACTERIZAÇÃO PSICOLÓGICA RUI gordo e ruivo avisado. objectos. a sua caracterização vai-se individualizando. traiçoeiro GUANES pele negra. mas. já que os árabes invadiram a península ibérica no século VIII (a ocupação iniciou-se . visto que a maior parte das informações sãonos dadas pelo narrador. morte de Guanes. TEMPO Tempo histórico – A referência ao "Reino das Astúrias" permite localizar a acção por volta do século IX."). pescoço de grou. Os momentos de pausa abrem e fecham a narrativa e interrompem regularmente a narração com descrições (espaço. cabelo comprido. impulsivo Predomina o processo de caracterização directa. •Rui apodera-se do cofre e morre envenenado. olhos raiados de sangue ingénuo. calculista.. No entanto. traiçoeiro ROSTABAL alto.

A condensação de um tempo da história tão longo (presumivelmente três ou quatro meses) numa narrativa curta (conto) implica a utilização sistemática de sumários ou resumos (processo pelo qual o tempo do discurso é menor do que o tempo da história). a morte."). A parte inicial da acção é localizada no Inverno (". E é no Inverno que nos são apresentadas as personagens. a noite está a surgir ("Anoiteceu. a analepse permite esconder do narratário pormenores importantes para a compreensão dos acontecimentos. por uma silenciosa manhã de domingo. sugere uma vida nova. sem no entanto a atingir. sem nunca ter sido concluída). à cor. É possível também identificar no texto um outro processo de redução do tempo da história. Quanta à ordenação dos acontecimentos. . O Inverno está conotado com a escuridão. A acção central inicia-se na manhã de domingo e progride durante o dia. mas concentra-se num domingo de Primavera. para revelar o modo como Guanes tinha planeado o envenenamento dos irmãos. a parte central.") e logo a seguir o narrador remete-nos para a Primavera ("Ora.. Somente o episódio do envenenamento do vinho é situado num local um pouco mais longínquo. com a morte sucessiva dos irmãos. de períodos mais ou menos longos da história).passavam eles as tardes desse Inverno..em 711 e prolongou-se por vários anos. na vila de Retorquilho. desde a manhã até à noite. mantendo assim um suspense favorável à tensão dramática. quando o narrador abandona a postura de observador e adopta uma focalização omnisciente . bem como a argumentação de Rui para excluir Guanes da partilha) o tempo do discurso tende para a isocronia (igual duração do tempo da história e do tempo do discurso). nos "Paços de Medranhos" e. a parte inicial. Só na parte final nos surge uma analepse (recuo no tempo). À medida que a noite se aproxima a tragédia vai-se preparando. Quando tudo termina. ao renascimento da natureza. Nos momentos mais significativos da acção (decisão de repartir o tesouro e partilha das chaves. favorável ao renascimento espiritual. do discurso. manifestando dessa forma a natureza traiçoeira do seu carácter.. predomina o respeito pela sequência cronológica. que sucedeu ao das Astúrias. associa-se à luz. no isolamento social e na degradação moral ("E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.. o sono.. Tempo do discurso – A acção estende-se do Inverno à Primavera e o seu núcleo central concentra-se num dia. estendendo-se de manhã até à noite. ESPAÇO A acção é localizada nas Astúrias e decorre.. Frequentemente. por outro lado. na Primavera. a Primavera tem uma conotação positiva. envoltas na decadência económica. enquanto o domingo é um dia santo. que é a elipse (eliminação. no século X encontramos já constituído o Reino de Leão. na mata de Roquelanes.")."). Por sua vez. a noite. Tempo da história – A acção decorre entre o Inverno e a Primavera.

porque — imaginamos nós — cresceram como lobos. do mesmo modo que os três. são três os irmãos. A miséria em que vivem é acompanhada por uma degradação moral que o narrador não esconde ("E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.. caía sobre uma vasta laje escavada. num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos. Rui.um fio de água. nem comida) e a estrebaria. Desde logo. não são capazes de concretizar. antes de se escoar para as relvas altas. aliás. E. Enquanto isso "as duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro". brotando entre rochas. mãe. nem filhos. não é um simples cenário onde decorre a acção. Não há.. como se eles nunca tivessem existido. e os três irmãos circulam entre a cozinha (sem lume. como se a natureza sentisse o horror do crime que estava para ser cometido. tremiam. manifestação visível do renascimento da natureza.. os sacrifícios. Sem a presença modeladora dos pais (ou alguém que os substituísse).. SIMBOLOGIA À leitura do conto ressalta de imediato a referência insistente ao número três .. o espaço exterior. "para aproveitar o calor das três éguas lazarentas". que facilmente imaginamos inquietas. Guanes e Rostabal dificilmente poderiam desenvolver sentimentos humanos: vivem como "lobos".estalaram a rir. quando Rui e Rostabal esperam. Depois de assassinado Guanes. como veremos. imperfeita — nem pais. A "relva nova de Abril". "um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos". Essa ausência da narração é. renascente (". De igual modo. a mais leve referência aos progenitores dos fidalgos de Medranhos. sugere o renascimento espiritual que as personagens. onde fazia como um tanque. depois dos três terem contemplado o ouro (". contrasta com o espaço interior das personagens.. . o irmão. O facto de três fidalgos passarem os seus dias entre a cozinha e a estrebaria. por exclusão (".. os lugares menos nobres de um palácio. de todos os números aquele que carrega maior carga simbólica. é significativo: caracteriza bem o grau de decadência económica em que vivem. claro e quieto. filho(s). de certo modo. não formam uma família e sempre pela mesma razão: porque são incapazes de sentir o amor.")."). Mas aqui encontramos uma família truncada. calma.a que o vento da serra levara vidraça e telha. pacífica. apesar dos laços de sangue e de viverem juntos."). As descrições da natureza têm também um carácter significativo. em roda."). com exclusão dos demais. e o três é também um símbolo da família — pai. a mata de Roquelanes. A natureza.. Esse contraste tinha já sido posto em evidência antes. Eles próprios não foram capazes de constituir uma família verdadeira. a "moita de espinheiros" e a "cova de rocha" simbolizam as dificuldades. que é necessário enfrentar para alcançar o objecto pretendido — são obstáculos que é necessário ultrapassar. Do mesmo modo. apenas três irmãos. perturbadas pela visão do ouro e ansiosas por dele se apoderarem. agitadas..O paço dos Medranhos é descrito negativamente. onde dormem. os dois regressam à "clareira onde o sol já não dourava as folhas". emboscados.. um símbolo da sua ausência na educação dos filhos.

O tesouro está guardado num cofre. um sentimento mais elevado.. para isso. escoando-se por entre a relva que cresce e Rui procura combater o veneno com ela) e de purificação (com a água. A sua utilização é significativa do carácter precioso do conteúdo. pela convergência de interesses e esforços que é possível alcançar o "tesouro" por todos almejado. Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia.. Igualmente significativo é o facto de o cofre ser de ferro. Três fechaduras — novamente o número "três"! — preservam o conteúdo do cofre (Da curiosidade? Da cobiça? Da apropriação indevida?. Só a cooperação dos três proprietários permite aceder ao tesouro.. criar laços de solidariedade e verdadeira fraternidade. que lhes foi permitido contemplar o "tesouro". há uma possibilidade de redenção. é ele próprio símbolo de perfeição. a Primavera. Vestida de negro luto. é possível alcançá-lo. Obviamente. à sua frente. mas não passam despercebidos ao leitor atento. a elevação a uma forma superior de vida. o ouro .três alforges de couro. Foi apenas porque. material resistente. equilíbrio e perfeição. É pela solidariedade.. Por outro lado. Vivem com os animais e como animais. mítico.. só por si. Note-se: nenhuma delas. E porque não souberam manter esse espírito de cooperação. O dístico em letras árabes mal legível. vencer o egoísmo. a tragédia é anunciada antecipadamente por indícios. Não se lhes conhece uma actividade útil. permite que o seu conteúdo permaneça intocado ao longo do tempo. simboliza a salvação. três maquias de cevada. preserva. Mas há também a água. que as personagens ignoram. os três cooperaram. largar a cobiça. É possível encontrar no conto outros símbolos. . uma idade de ouro que poderá ser recuperada por quem conseguir encontrar o "tesouro. um tempo de paz. não lhes foi permitido possuir o "tesouro". símbolo de vida (vemo-la na clareira. Os fidalgos de Medranhos vivem mergulhados na decadência material e na degradação moral. três empadões de carne e três botelhas de vinho. o número "três" volta a aparecer insistentemente (". à força e à corrupção. um afecto. O "tesouro" está ali. remete para um passado distante. E quando Rui expõe a estratégia a seguir. mais espiritual.. simultaneamente. É esse o verdadeiro bem. mas as três em conjunto."). material precioso e incorruptível. como para todo o ser humano. mas três chaves permitem abri-lo sem dificuldade. é necessário enfrentar dificuldades. o domingo assumem neste contexto. O simbolismo aqui é evidente. Vimos já o significado que o Inverno. para além do seu valor material.). na narrativa. Mas para eles. momentaneamente. menos animal. INDÍCIOS TRÁGICOS Frequentemente. pela cooperação. É o caso da cantiga que Guanes entoa ao dirigir-se à vila e continua a cantarolar quando regressa. Um cofre protege. como que a sublinhar o irredutível individualismo que os vai conduzir à tragédia. mas. o verdadeiro tesouro. Rostabal pretende livrar-se do sangue do irmão que assassinou).

Rui e Rostabal. Guanes e Rostabal) que vivem no Reino das Asturias talvez os mais famintos e miseráveis fidalgos do reino. As personagens começam por ser apresentadas colectivamente. Como se vê. O conto baseia-se na vida de três irmãos de Medranhos (Rui. Rui estranha o facto. Mas são incapazes disso e é desse lento aproximar do desenlace e da incapacidade das personagens para o evitar que resulta a dimensão trágica da narrativa. Assim decidem que Guanes irá a vila mais próxima (Retortilho) e trará comida e alforges para . indo depois deitar-se no estábulo para aproveitar o calor das suas três éguas. Passavam os dias no Paço de Medranhos junto à lareira. Certo dia. Outro indício trágico são as duas garrafas que Guanes trouxe de Retorquilho. Com isso Rui decide que o tesouro será repartido irmãmente. [INÍCIO] [TOPO] [ESCRITORES] [MATERIAL] [ESTILÍSTICA] [GRAMÁTICA] [LEGISLAÇÃO] [DOWNLOAD] [MAPA] Tesouro é um conto de Eça de Queirós reunidos em Contos. mas. como que sublinhando o predomínio do egoísmo individual sobre a aparente fraternidade. pedaços de pão esfregados em alho. nenhuma das três personagens é capaz de reconhecer esse sinal. o autor reflete sobre a natureza humana e a sua relação com a riqueza material. luxo e ostentação. Os protagonistas são três irmãos (os irmãos de Medranhos): Guanes. mas não suspeita da traição. Nele. à noite. a sua caracterização vai-se individualizando. Se as personagens fossem capazes de interpretar esses indícios poderiam fugir ao destino.A "cruz" e o "negro luto" são referências claras à morte que Guanes planeia para os irmãos. Obcecados por retornarem às suas vidas de bem-estar. Devoram. quando passeavam na mata de Roquelanes. o que faz com que fiquem enfurecidos e a duvidar dos seus próprios irmãos. acharam numa cova de rocha um velho cofre de ferro com uma inscrição árabe este tinha três chaves e as suas respectivas três fechaduras. Mas ironicamente prenuncia também a sua própria morte. publicado em 1902. com iguais quantidades por todos. Aviso: Este artigo ou se(c)ção contém revelações sobre o enredo. que há muito que não se acendia. à medida que a acção progride.

enquanto Guarnes foi à vila ia cantado " Olé! Olé! sale la cruz de la iglesia.carregar o tesouro. [editar] Ver também Obras de Eça de Queirós traduzidas [editar] Ligações externas Atalho para o livro Contos de Eça de Queirós no Projeto Gutenberg Atalho para o conto O Tesouro no Projeto Gutenberg O Wikisource contém fontes primárias relacionadas com este artigo: O Tesouro Este artigo sobre Literatura é um esboço. assim se passou. mas levado pela sofreguidão não se importa. Guanes é morto e à primeira oportunidade Rui mata Rostabal. Rui tenta pedir ajuda aos seus irmãos mortos. Começa a beber o vinho e a comer o Capão que o irmão trouxera. Vestida de negro luto. e tenta sugar a frescura da água mas está revelasse como metal derretido. ficando assim o Tesouro só para ele. Assim todos os irmãos morrem e o tesouro continua na mata de Roquelanes. queimando-o.Rui). quando carregava o ouro do tesouro para os alforges começa a sentir um malestar. e assim teriam que dividir o tesouro só por dois. . porque este fazia troça dele e iria gastar o dinheiro mal gasto." enquanto isso Rui tenta persuadir/manipular o seu irmão Rostabal a matar Guanes .. como se uma chama se acendesse dentro dele e quanto mais ele a tentava apagar mais a sentia. Enquanto Rui "saboreava" está vitória sobre os seua irmãos e imaginando como seria ser o novo Senhor de Medranhos (intitulandose D. repara que o seu irmão só trouxera duas garrafas de vinho para três irmãos. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o..