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OS RADICAIS NO LÉXICO DO PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO

Alina Villalva, FLUL e CLUL

Se a definição de palavra representa um desafio teórico considerável que qualquer linguista terá, em algum momento, de enfrentar, também a identificação dos constituintes das palavras e, por consequência, das unidades lexicais é assunto que merece trabalho de pesquisa e confronto de análises. A distinção entre radicais e afixos é comummente aceite e geralmente pouco questionada, mas, na verdade, nem sempre é possível traçar uma fronteira clara, quer pelo lado dos afixos que parecem radicais, quer pelo lado dos radicais que não se distinguem bem dos afixos.

Fio condutor. A preocupação de rigor na categorização das unidades de análise constituise como pré-requisito em qualquer domínio do conhecimento. No caso da análise morfológica, essa preocupação pode ser justificada por duas ordens de razões: (i) A primeira razão resulta da necessidade de conhecer o estado da arte e da dificuldade de compreender os diferentes autores de referência, dado que etiquetas como morfema ou lexema nem sempre correspondem aos mesmos conceitos. (ii) A segunda razão resulta da necessidade de escolher e definir o que numa análise particular é o quê. Em trabalhos anteriores (cf. Villalva 1994, 2000) discuti o conceito de morfema nos termos definidos por Hockett (), ou seja, como menor unidade portadora de significado. A existência de unidades relevantes para a análise morfológica, mas semanticamente irrelevantes 1, como as vogais temáticas, justifica que se considere que as unidades de análise morfológica sejam referidas como constituintes morfológicos. O aspeto mais relevante dessa minha proposta não é, porém, o terminológico. Um outro aspeto, que defendi, na sequência das propostas de Lieber , relaciona-se com a caracterização

Aronoff (1976) também discute a adequação do conceito de morfema para a análise morfológica, referindo que prefixos e radicais como os que ocorrem em palavras como admitir, demitir, emitir ou transmitir não têm valor semântico intrínseco.
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com este ou outro nome. em 1981. subclasse de sufixos que. [café]núcleo [particul] [ar]núcleo [café] [s]núcleo [gat] [o]núcleo [gat] [a]núcleo [gat] [o] [s]núcleo [começ] [o]núcleo [começ] [a] [r]núcleo [começ] [a] [va] [mos]núcleo [gat] [ão]núcleo [gat] [inh]núcleo [o] casos que a Regra de Atribuição do Núcleo à Direita resolve adequadamente casos que a Regra de Atribuição do Núcleo à Direita não resolve adequadamente A exclusão dos sufixos de flexão. b. situação muito mais frequente em Português do que em Inglês. sendo os radicais predicadores intransitivos (não seleccionam qualquer complemento) e os sufixos derivacionais predicadores transitivos (que seleccionam obrigatoriamente um complemento-que é a sua forma de base): . já em palavras que têm presente um índice temático e/ou um (ou dois) sufixos de flexão.dos constituintes morfológicos a partir da função gramatical que desempenham na estrutura das palavras. a razão que me levou a distinguir os afixos especificadores dos afixos modificadores e dos afixos derivacionais (cf. proposta inovadora apresentada por Williams. Villalva 1994. A sua regra de atribuição do núcleo à direita era no entanto problemática: se em palavras simples (ou seja. a regra gera resultados indesejáveis (cf. c. 2000). Foram os contrastes entre os sufixos avaliativos (tipicamente os avaliativos) e os restantes sufixos formadores de radicais complexos. ou em palavras que integram sufixos avaliativos. à semelhança do que se verifica com os radicais de palavras simples. Só estes últimos. ao sufixo (cf. desejavelmente. a tradição gramatical geralmente isola dos restantes. 1a). e em palavras derivadas a regra atribui a função de núcleo. em estruturas não ramificadas) o núcleo é atribuído ao único constituinte que está presente (cf. mas não a totalidade. podem ser núcleo de palavra: ambos têm uma função predicadora. 1b). resolve uma parte do problema. Este tipo de análise teve início com a identificação de um constituinte como núcleo de uma palavra. 1c): 1. a.

os especificadores ocorrem à direita do núcleo e os modificadores podem surgir quer à esquerda quer à direita. [gat] radical núcleo predicador intransitivo [o] sufixo temático especificador morfológico [s] sufixo de flexão especificador morfo-sintáctico b. [particul] radical complemento [ar] sufixo derivacional núcleo predicador transitivo c. [super] prefixo avaliativo modificador [cas] radical complemento de -eir [eir] sufixo derivacional predicador transitivo [inh] sufixo avaliativo modificador [o] sufixo temático especificador morfológico [s] sufixo de flexão especificador morfo-sintáctico núcleo Em suma. por ser essa a função gramatical que desempenham na palavra) de todos os outros sufixos. não é por ser radical ou sufixo derivacional que um dado constituinte é núcleo da palavra – essa função é atribuída a partir da posição que um ou outro destes constituintes ocupa na estrutura da palavra. é possível estabelecer uma generalização do tipo da Regra de Atribuição de Núcleo à Direita. . relativamente ao seu complemento. (i) só distinguindo os sufixos derivacionais (a que agora gostaria de passar a chamar sufixos predicadores. [particul] radical complemento [ar] sufixo derivacional predicador transitivo [idad] sufixo derivacional [e] sufixo temático predicador transitivo especificador morfológico radical derivado complemento de -idad núcleo d. a.2. [re] prefixo avaliativo [começ] radical modificador predicador intransitivo [a] sufixo temático especificador morfológico [r] sufixo de flexão especificador morfo-sintáctico núcleo f. o núcleo é final. [gat] radical núcleo predicador intransitivo [ão] sufixo avaliativo modificador e. nas estruturas morfológicas do Português. (ii) ou seja.

Vejamos um exemplo. ama-vei(s)). mas. aparentemente. amável) ou pela ocorrência do alomorfe do plural do sufixo (cf. A distinção entre radicais e afixos é comummente aceite e geralmente pouco questionada. nestes casos particulares. Qualquer que seja a definição que se encontre para cada categoria. a verdade é que sempre existem unidades que poderiam ou não pertencer-lhe. Vejamos então os segundos (cf. dado que os constituintes que precedem as bases ocorrem no Português como preposições (cf. sobre a mesa) ou advérbios (cf. quer pelo lado dos radicais que não se distinguem bem dos afixos (cf. 4a). palavra palavra radical radical radical radical radical sufixo derivacional sufixo avaliativo modificador sufixo temático especificador morfológico sufixo(s) de flexão especificador morfo-sintático radical tema prefixo modificador Questões de fronteira. mas.3. ocupam a posição de prefixos. amável ]Adj amavei(s) ]Adj mente]Sufixo/Palavra? zinhos]Sufixo/Palavra? [dotado]Adj [alinhado]Adj sobre]Prefixo/Preposição? não]Prefixo/Advérbio? Deixemos os dois primeiros casos. como se pode constatar pela preservação da base como um domínio de acentuação (cf. eu não vou). a. A par dos problemas suscitados pela categorização vem o problema das fronteiras entre categorias. que ocorre apenas quando a forma ocorre como palavra. nem sempre é possível traçar uma fronteira clara. 4b). A questão que aqui se coloca está relacionada com a discussão acerca da natureza dos radicais. que são. quer pelo lado dos afixos que parecem radicais (cf. b. na verdade. dado que é fácil argumentar que se trata de sufixos que selecionam palavras.4b): 4. mais fáceis de resolver. que poderiam pertencer a uma outra categoria ou mesmo justificar a criação de uma terceira. .

Quando ocorrem como predicadores intransitivos (cf. amargo repolho ‘chucrute’ 2 . i) ou o Alemão (cf. a conjugação. o radical da esquerda comporta-se como um modificador: 8. norte-americano. para além de propriedades de natureza sintáctica. 5) quer dos que ocorrem como complementos de sufixos derivacionais (cf. comporta-se como um radical transitivo. [X]RN [al] cf. [baf] radical modificador [o]2 vogal de ligação especificador [metr] núcleo radical predicador transitivo [o] sufixo temático especificador morfológico Poder-se-ía pensar que estruturas deste tipo são pouco frequentes no Português 3. ii): redhead lit. [X]RADJ [idad]e cf. seleccionando este sufixo radicais nominais. 6 e 7). sendo estes compostos geralmente caracterizados como palavras eruditas. Mas este radical não deixa de ser um modificador na estrutura do composto. cabeç]RN. mex] er RV Como complemento de sufixos derivacionais (cf. 2ª e 5a). centro-europeu). vermelha cabeça ‘ruiv(o/a)’ sauerkraut lit. sufixo que selecciona radicais adjetivais: 6. formadas a partir de A vogal de ligação não está presente em casos em que o radical da esquerda tem uma natureza adjectival (cf. 3 Este tipo de compostos é muito fecundo em línguas como o Inglês (cf. sul-africano. pertencendo a uma dada categoria sintáctica e a subcategorias morfológicas dela dependentes (o género. [+fem] mex]RV. nos verbos). os radicais devem também ser categorialmente especificados (as subcategorias são aqui irrelevantes). Nestes casos. 2ª conj cf. dado que os sufixos derivacionais selecionam elementos de categorias específicas. Em (6) estão presentes formas adjectivais derivadas por sufixação em –al. em (7) mostra-se a formação de radicais nominais por sufixação em –idad(e). 6 e 7). os radicais são lexicalmente especificados. núcleo da estrutura composta. o radical da direita. semântica e fonológica. teatr] RN grip]RN acident]RN al]RADJ al ]RADJ al ]RADJ 7. cabeç a RN cf. brev]RADJ idad]RN e teatr]al]RADJ idad]RN e Os radicais que ocorrem em estruturas de compostos morfológicos têm um comportamento distinto quer dos radicais que ocorrem como predicadores intransitivos (cf. -a. 3b e 3c. ou traços estritamente idiossincráticos: 5. nos nomes.

o exemplo em (8) e outros neologismos do Português Brasileiro (cf. habitação. ecomuseu. lógico). demasiado restritiva. desde logo. ecossistema. Esta caracterização é. ecospécie. ecoproteína. porém. de compostos que. então. mas sim de radicais deduzidos. por vezes. já em cultismos do sXIX em diante: ecocídio. ec(o)antepositivo. talvez tenham recorrido a radicais neoclássicos. ecúmeno. 9): 9.ou 'casa. bens. gregos. aqueles que. orign. [ec] [o] [turism] o [ge] [o] [referenciação] [mot] [o] [táxi] [porn] [o] [chanchad] a cf. economia e econômico (os primeiros em curso na língua desde o sXIV e sXVI e os últimos desde o sXVII). de forma mais ou menos intuitiva. originalmente. como ecônomo. do que se verifica com os afixos (cuja caracterização exige a identificação da função gramatical que desempenham. para fins terminológicos específicos (cf.] 1. geografia Sobre a natureza dos radicais. em cuja segmentação o isolamento das formas não e mente se confronta com a sua caracterização como afixos (prefixo e sufixo. como se pode verificar pela transcrição dos verbetes respetivos do dicionário Houaiss. respetivamente) ou radicais. Este problema é facilmente ilustrado por palavras como nãoalinhado ou viciosamente. a sua identificação como afixos predicadores. ecologia. 4 Em muitos casos não se trata exatamente de radicais neoclássicos. ou seja. econometria.radicais gregos ou latinos4. 9a). Radical é o nome que identifica um determinado tipo de constituintes morfológicos. zoologia. b. como o demonstra. especificadores ou modificadores). ecólogo. à semelhança. pejorativamente) . ecologia cf. ver -écio ecologismo n substantivo masculino 1 movimento que visa a um melhor equilíbrio entre o homem e o seu meio natural. aliás. livro) ou derivadas (eg. Consideremos. ecogeografia. ecumenicidade. assim como à proteção deste [Baseia-se na defesa de que apenas mudanças radicais na estrutura da sociedade industrial moderna podem reintegrar o homem à biosfera. mas sim para a semântica de ecologismo. se considera estarem na origem das palavras. livraria) dos que só podem ocorrer em palavras complexas (eg. É o que se verifica num caso como eco-turismo.. onde o radical da esquerda remete não para o valor clássico de ec-. talvez por truncamento. a existência de radicais de diferentes tipos. economato. a.1 corrente política que defende tais ideias 2 movimento de ação e ideias que patrocina a luta por postulados ambientalistas (us. economista. economizar. ecológico. oîkos. ocorre já em voc. ecumenizar. econométrico. Mas como se define esta categoria? E como se pode caracterizá-la? Tratar todos os radicais da mesma forma torna problemática a definição dessa categoria. ecumenismo. do gr. família'. ecumênico. ecosfera. ecótipo. distinguindo aqueles que podem ocorrer em palavras simples (eg.

o elenco de palavras em que estes radicais ocorrem apresenta informações contraditórias: cefal. porque ocorrem em palavras simples. misc. em palavras formadas apenas por um radical inanalisável e por especificadores (morfológico e morfosintáctico(s)).ocorre por exemplo no adjectivo miscível e no verbo miscigenar. na existência de um conjunto de radicais no léxico do Português que não são categorialmente especificados. Já nos dois últimos casos.ocorre. explicável que. apesar de partilharem um mesmo radical. pelo que a ele se pode atribuir a capacidade de definir cefálico como adjectivo (e porque –iz forma verbos. ou seja.ou misc-? A facilidade da identificação da categoria nos dois primeiros casos não pode deixar de se relacionar com a presença destes radicais nas palavras cabeça e mexer. A existência deste léxico pseudo-antigo no léxico do Português contemporâneo é interessante a vários títulos. no nome cefaleia.). cefalizar é um verbo. e. Radicais vernáculos cabeç] a RN Radicais neoclássicos cefal] eia cefal] izar cefal] ico cefal] ópode misc] igenar misc] ível mex] er RV Relativamente aos primeiros. no decorrer dos últimos 3 ou 4 séculos.A caracterização dos radicais enquanto unidades lexicais exige a identificação da sua categoria sintáctica. entre outros. regra geral. em palavras simples. cuja categoria sintáctica não pode vir senão de uma propriedade inerente do radical.é um radical verbal. de radicais de origem latina ou outro étimo antigo.é um radical nominal ou que mex. Quanto ao segundo conjunto. Estes radicais que ocorrem apenas em palavras complexas são formas tomadas de empréstimo ao Grego Antigo ou ao Latim. pois. trata-se de palavras complexas. . no verbo cefalizar. consequentemente. pertençam a diferentes categorias sintácticas: -ic é um sufixo que forma adjectivos. Vejamos dois exemplos. no adjectivo cefálico. etc. mas nem sempre é fácil fazê-lo: não é problemático afirmar que cabeç. ou seja. daí o nome de radicais neoclássicos. pois. que estão atestados no Português desde cedo). sendo. na incapacidade de se poder atribuir uma categoria aos radicais que integram estas palavras. podem estes radicais ser considerados vernáculos (apesar de se tratar. O problema está. mas que categoria tem cefal.

é sabido que a relação semântica entre formas divergentes de origem latina não é tão posta em causa pela distância formal (cf. Construção de uma hipótese.De um modo geral. dos que . receber qualquer ajuda da análise morfológica. pétreo). Com efeito. ainda que não haja trabalho experimental já realizado. e que tipicamente integram léxicos especializados. como a que afecta pares constituídos por um radical vernáculo (cf. ‘fish market’ radical neoclássico petr----petr+ific+a+r ‘petrify’ icti----icti+os+e ‘ichthyosis’ Um outro aspecto interessante nestes radicais neoclássicos diz respeito ao reconhecimento destas formas pelos falantes do Português. distinguindo-se aqueles que ocorrem em palavras simples. núcleo. modificador ou complemento) e não do sua categoria morfológica (ie. para a maior parte dos falantes. sufixo). de que são núcleo. especificador. ‘quarry’ peixpeix+e peix+ari+a ‘fish’. Os dados apresentados e a reflexão desenvolvida permitem construir uma hipótese de caracterização dos constituintes morfológicos que parte da sua função gramatical (ie. sendo bastante estáveis na passagem de língua para língua: radical vernáculo radical palavra simples palavra complexa Inglês radical palavra simples palavra complexa Inglês pedrpedr+a pedr+eir+a ‘stone’. trata-se de duplicatas semânticas. Este conjunto de dados e a análise anteriormente proposta permite concluir que os radicais vernáculos podem desempenhar qualquer função gramatical na estrutura da palavra. Esta hipótese é inovadora no que diz respeito aos radicais. peix-) e um helenismo (como icti-). enquanto os radicais neoclássicos se vêem impedidos de ocorrer como predicadores intransitivos. prefixo. radical. Daqui se infere que a compreensão das palavras que contêm radicais neoclássicos não pode. pedra. cuja ocorrência se regista apenas em compostos morfológicos e derivados que integram sufixos também neo-clássicos.

e ainda dos que são modificadores: Núcleo de palavra radical intransitivo radical transitivo sufixo derivacional Especificador constituinte temático começ] a] sufixo de flexão vogal de ligação Complemento radical tema palavra Modificador prefixo sufixo avaliativo radical modificador re] modificador CT gat] baf] o] metr] particul] ar] núcleo o núcleo o núcleo r SF começ] a] r] baf] o] VL metr] o particul] am] a]] complemento ar] ment] e clar] a] [-plu] ] complemento vel] complemento começar o o] politan] o gat] inh] soter] modificador modificador Esta hipótese permite compreender a dificuldade de distinção entre as sequências iniciais de sobredotado ou não-alinhado e de eco-turismo ou moto-taxi. Referências . todas elas correspondem a modificadores do núcleo.só ocorrem como núcleo de palavras complexas e seleccionam. um modificador. Na verdade. obrigatoriamente.