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DEFESAS E MECANISMOS DE DEFESA

Substantivo Abwehr (Defesa), significados do verbo abwehr: Defender, no sentido de rechaçar; Rejeitar, repelir, não aceitar; Afugentar, por em debandada, afastar; Impedir 1. Em ―As neuropsicoses de defesa‖ [Freud, 1894a], Freud introduziu o termo defesa no sentido de defesa contra uma representação incompatível* que se opunha aflitivamente** ao ego do paciente. Esses pacientes gozaram de boa saúde mental até o momento em que houve uma ocorrência de incompatibilidade em sua vida representativa — isto é, até que seu eu se confrontou com uma experiência, uma representação ou um sentimento que suscitaram um afeto tão aflitivo que o sujeito decidiu esquecê-lo, pois não confiava em sua capacidade de resolver a contradição entre a representação incompatível e seu eu por meio da atividade de pensamento. A tarefa que o eu se impõe, em sua atitude defensiva, de tratar a representação incompatível como ―non-arrivé‖, simplesmente não pode ser realizada por ele. Tanto o traço mnêmico como o afeto ligado à representação lá estão de uma vez por todas e não podem ser erradicados. (Cf. Freud, As neuropsicoses de defesa, 1894, Edição Standard, Vol. III). *inconciliável, insuportável, incompatível. **aflição: 1. estado daquele que está aflito; 2 sentimento de persistente dor física ou moral; ânsia, agonia, angústia;3 profundo sofrimento. 2. Em ―Inibições, Sintomas e angústia‖ (1926 [1925]) Freud retomou o conceito de defesa. A análise desse texto permite: a) a diferenciação entre defesa enquanto método e defesa enquanto técnicas. b) a diferenciação entre o processo de formação de sintoma e as técnicas defensivas; c) relacionar as formas especiais de defesa com as estruturas neuróticas, perversas, psicóticas.

a) diferenciação entre defesa enquanto método e defesa enquanto técnicas Uma defesa enquanto método seria o recalcamento (repressão). As defesas enquanto técnicas seriam os mecanismos de defesa (negação, formação reativa, projeção e introjeção, isolamento, regressão, anulação, racionalização, inversão contra o eu e reversão, defesas contra os afetos – deslocamento em relação ao objeto). Essa diferenciação pode ser encontrada ao final do texto, em: Adendos C (Repressão e Defesa) Constituirá uma vantagem indubitável, penso eu, reverter ao antigo conceito de ‗defesa‘, contanto que o empreguemos explicitamente como uma designação geral para todas as

enquanto deslocamento. mas à medida que a doença se prolonga.. produzindo-se angústia. e permitindo. pois agora não há conflito por odiar o pai. Houve deslocamento do objeto (do pai para o cavalo) e inversão da pulsão (de agredir para ser agredido). ao contrário. substituindo as defesas. mas inibição. III: sobre o caso Pequeno Hans: O impulso instintual [leia-se pulsão] que sofreu repressão em ‗Little Hans‘ foi um impulso hostil contra o pai. c) Os métodos especiais de defesa não seriam as formas fundamentais de negação da castração (recalcamento. de forma simbólica. a fim de alcançar essa finalidade muitas vezes faz uso das trilhas associativas mais engenhosas. III].. desmentida e foraclusão) que formariam as estruturas neuróticas. a satisfação pulsional. Cap. III). A formação de sintomas assinala um triunfo se consegue combinar a proibição com a satisfação. de modo que o que era originalmente uma ordem defensiva ou proibição adquire também a significância de uma satisfação. não poder sair à rua. parágrafo 3): Os sintomas que fazem parte dessa neurose [obsessiva] se enquadram. A formação reativa. constitui o mecanismo alternativo que permite um conflito devido à ambivalência ser solucionado sem o auxílio da formação reativa. estando apaixonado pela mãe. que zombam de todas as medidas defensivas.técnicas das quais o ego faz uso em conflitos que possam conduzir a uma neurose. levam vantagem. incidentalmente. b) a diferenciação entre o processo de formação de sintomas e as técnicas defensivas No Cap. Sua reação emocional teria sido inteiramente compreensível. uma solução em falso. Se ‗Little Hans‘. e que. Sintomas e angústia. enquanto mecanismo de defesa. manteria o conflito sem solução. Hipótese interpretativa: Quando as defesas não conseguem conter as pulsões. trata-se de uma solução. permitiu satisfação pulsional. negativos quanto à natureza — ou são. que tem o direito de ser denominado de sintoma. as satisfações. O sintoma. Sintomas e angústia‖ (1926 [1925]) (Cap. portanto. negativo dos sintomas é o mais antigo dos dois. satisfações substitutivas que amiúde aparecem em disfarce simbólico. de compromisso. Relacionando com o texto de Freud: ―Inibições. não devemos ter direito algum de dizer que ele tinha uma neurose ou fobia. (Inibições. cada um tendo uma tendência oposta. ao passo que conservamos a palavra ‗repressão‘ para o método especial de defesa com o qual a linha de abordagem adotada por nossas investigações nos tornou mais bem familiarizados no primeiro exemplo . vindo a fragilizar o equilíbrio precário de forças (pulsão constante = defesa constante).. mostrara medo do pai. em geral. O que a transformou em uma neurose foi apenas uma coisa: a substituição do pai por um cavalo. O grupo defensivo. [o caso do pequeno Hans que foi abordado no cap. São ou proibições. em dois grupos. perversas e psicóticas (as doenças específicas)? Esta é uma leitura possível do adendo C (Repressão e Defesa) . V. precauções e expiação — isto é. É esse deslocamento. os sintomas vêm em auxílio.

Esse tema já havia sido enfocado em (4) A organização genital infantil (1923e). um conflito entre a exigência da pulsão e o veto da realidade. Em 1938. sintomas e angústia. Para pensar a desmentida como uma forma de defesa é importante retomar o (5) texto freudiano ―A perda da realidade na neurose e na psicose‖ (1924). A importância dessa nomenclatura é realçada se considerarmos a possibilidade de que investigações ulteriores poderão revelar haver estreita ligação entre formas especiais de defesa e doenças específicas. reconhece (Anerkennt) o perigo da realidade. 3. Inibições. mas que aumentará com o tempo. entre repressão e histeria. Os meninos primeiramente crêem ver um membro apesar de tudo.O processo de defesa abrange todos os processos que tenham a mesma finalidade — a saber. a estrutura constituinte. ou se ele desmente (verleugnet) a realidade. onde a situação de conflito entre satisfação da pulsão e realidade é analisada desde uma comparação entre neurose e psicose. a fim de perseverar na satisfação. 1926. Vale observar que a pergunta referente ao quando (na cronologia de uma vida) de sua ocorrência não encontra respostas em uma teoria que pensa por estruturas constituintes. Além disso. podemos antecipar a possível descoberta de ainda outra importante correlação. assume a angústia como um sintoma a padecer e a seguir busca defender-se dele. como neurótico ou como psicótico. encobrem a contradição entre observação e preconceito mediante o subterfúgio de que ainda seria pequeno e que vai crescer. pensa que todos os seres vivos possuem um órgão genital semelhante ao seu. e para nele classificar a repressão como um caso especial. rejeita (Abweist) a realidade por meio de certos mecanismos e não se deixa proibir nada. e depois pouco a pouco chegam a conclusão de que sem dúvida esteve presente e logo foi removido. e antes da formação de um superego. o aparelho mental faça uso de diferentes métodos de defesa dos quais ele se utilize após haver alcançado essas fases de organização. inicialmente. acreditando que nada há a temer. Observamos que houve a introdução de uma defesa diferente do recalcamento: trata-se da desmentida (Verleugnung). Um dos últimos trabalhos de Freud chamou-se Die Ichspaltung im Abwehrvorgang (A cisão do eu nos processos de defesa) (1940e [1938]. desconhecem (leugnen) essa falta. Pode muito bem acontecer que antes da sua acentuada clivagem em um ego e um id. Freud analisa as duas reações possíveis ao conflito da visão da falta de pênis nas mulheres: O menino precisa decidir se ele reconhece o perigo real e se inclina diante dele e renuncia à satisfação das pulsões. que nunca se reparará. Nesse texto. É. adendos C). As duas reações contrárias diante do conflito subsistem como núcleo de uma cisão no eu (Ichspaltung). O resultado é alcançado às custas de uma fenda (Einrisses) no eu. O menino responde ao conflito com duas reações simultâneas: por um lado. é retomado o caso da criança de sexo masculino que. como. por exemplo. As defesas e a divisão do eu Podemos perceber que há uma relação importante entre defesa e divisão do eu. (Freud. isto é. onde Freud relatava: É notória a reação diante das primeiras impressões da falta do pênis. A constituição do sujeito. Mas que logo a seguir descobre que as meninas não têm. a proteção do ego contra as exigências pulsionais —. estaria relacionada ao modo como se operou primordialmente essa defesa do eu: essa seria a cisão constituinte. por outro lado. O exemplo clínico é oferecido pelo caso Elisabeth von N (6) Dos . portanto.

Sublimação. do conflito entre a pulsão e a realidade. em ―O Ego e os mecanismos de defesa‖. A alucinação do dedo seccionado será retomada por Lacan com o matema: Ce qui n‘est pas venu au jour du symbolique. no sentido de uma supressão cujo efeito será uma abolição simbólica do que foi expulso do pensamento. Uma reação psicótica nesse caso seria o desconhecimento ou desmentida (Verleugnung) da morte da irmã. diante do leito de morte da irmã. afirma que: somente o ego pode ser observado diretamente. passa a . Freud observa: 1) Uma pulsão (trieb) pode passar pelas seguintes vicissitudes: Reversão a seu oposto. Na segunda. mas. Esse pensamento é recalcado (amnésia e sofrimento histérico) e a paciente volta as costas à experiência de realidade (exigência pulsional). uma afirmação ou juízo de existência). nada pode ser observado do conteúdo do id (pulsões). tal como o id. pois era como se ela não existisse. inicialmente o paciente rejeitara (verwarf) a castração e apegara-se a sua teoria da relação sexual pelo ânus. recalcando a exigência pulsional (o amor pelo cunhado). para o paciente. em julgamento da sua existência. Um outro caso tratado por Freud. na verdade. Isso não implicava. retornará no real. Enquanto que na Verwerfung é como se não houvesse sido formulado um juízo sobre a existência da castração. 1895d. Quando digo que ele a havia rejeitado. Lacan traduzirá Verwerfung por foraclusão. O máximo que podemos fazer é reconstituí-las em retrospecto. 2) Tendo em mente a existência de forças motoras que impedem que uma pulsão seja elevada até o fim de forma não modificada. Ficou mudo. apparaît dans le réel = O que não veio à luz DO simbólico. aparece no real. A castração. Freud refere: Quando criança. Apesar de todas as medidas defensivas do ego contra o id serem levadas a efeito silenciosa e invisivelmente. prostrado. 4. o paciente lembra-se (agora adulto) de uma cena de infância: ele estava brincando ao lado da babá e cortava com o canivete a casca de uma nogueira. Por fim acalmou-se e viu que o dedo estava ileso. Lacan também salienta que Freud já demarcara a oposição entre Verwerfung e Verdrängung. As pulsões (Triebe) e suas vicissitudes. Retorno em direção ao próprio eu (self) do indivíduo. A paciente. Durante o tratamento. tivera o seguinte pensamento em relação ao cunhado recém viúvo: ―Agora ele está livre e pode se casar comigo‖. quando repentinamente notou aterrorizado que cortara fora o dedo mínimo da mão de modo que ele se achava dependurado. o significado imediato é que ele não quis saber dela segundo o sentido do recalcamento (Verdrängung). de modo que não se verifica oportunidade para uma pulsão invadir o ego em busca de satisfação e aí produzir sentimentos de tensão e dor. Se prevalecer a satisfação. era como se a castração nunca houvesse existido. preso apenas por uma pele. Anna Freud. também podemos considerar essas vicissitudes como modalidades de defesa contra as pulsões. Repressão. incapaz de olhar para o dedo novamente. As defesas do ego e as vicissitudes das pulsões: No texto de 1915. afastando o valor de mudança que ocorrera na realidade.―Estudos sobre a Histeria‖. (7) Uma neurose infantil (O homem dos Lobos) também oferecerá um exemplo da tentativa de resolução. ―O superego. enquanto alucinação da perda do dedo. que não foi simbolizada. algo já veio à luz pela simbolização primordial (Há uma Bejahung primária. A neurose é a tentativa de solucionar o conflito. pelo sujeito.

pois ―toda e qualquer vicissitude a que as pulsões possam estar sujeitas. Escritos. Edição Standard das obras psicológicas completas. Lacan. Otto. (p. Versão em CD-ROM. O ego e os mecanismos de defesa. (originalmente publicado em 1966). os processos pulsionais descritos como vicissitudes das pulsões: inversão contra o eu e reversão – devem ser considerados como métodos de defesa.ser perceptível no estado que gera dentro do ego: por exemplo. Rio de Janeiro: BUP. Fenichel. 56). 1968. Referências: Freud. Para Anna Freud. (originalmente publicado em 1957). todas as pulsões conheceriam um único destino: o da gratificação‖. 1998. Jacques. quando a crítica suscita um sentimento de culpa‖ (p. Sigmund. . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Teoria psicanalítica das neuroses. 18). Não fosse a intervenção do ego ou daquelas forças externas que ele representa. (originalmente publicado em 1946). Freud. Anna. tem sua origem em alguma atividade do ego. Rio de Janeiro: Imago. do ponto de vista do ego.