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MUNIZ, Jacqueline . Os direitos dos outros e outros direitos: um estudo de caso sobre a negociação de conflitos nas DEAMs/RJ.

In: Luiz Eduardo Soares. (Org.). Violência e Política no Rio de Janeiro. Ed.Relume & Dumará, 1996, pp: 125-164.

OS DIREITOS DOS OUTROS E OUTROS DIREITOS: UM ESTUDO SOBRE A NEGOCIAÇÃO DE CONFLITOS NAS DEAMs/RJ[1] Jacqueline Muniz Iuperj - 1994 A História de Qiu Ju Numa pequena vila ao norte da China, Qiu Ju espera seu primeiro filho. E durante uma manhã de inverno, explode uma discussão entre Qinglai, seu marido, e Wang Shantag, o lider local: Qinglai e o ancião Wang Shantag discordam quanto à utilização de uma pequena porção de terras e trocam ofensas. Wang, desmerecido como "reprodutor" - sua prole é constituída somente por mulheres - devolve a agressão "nos mesmos termos" chutanto os testículos de Qinglai. Na aldeia todos concordam que ambos erraram, mas se espera do ancião, chefe da aldeia, maior discernimento e prudência. Como "não se faz isso com um homem", Qiu Ju considera excessiva a humilhação sofrida pelo marido. Ela quer um pedido de desculpas. O casal ainda não tem filhos, mas Qiu Ju está nos últimos meses de gravidez. ( Na China, a lei determina que cada casal tenha apenas um filho. Entretanto, para os moradores da aldeia, mais importante do que seguir esta lei é ter um filho do sexo masculino.) Qiu Ju está preocupada: a possível vinda de um menino pode aumentar a inveja e o ressentimento de Wang. Será esta a sua única chance de engravidar? "Será que por causa desse chute seremos obrigados a respeitar o controle de natalidade?" Aumenta sua apreensão. Após levar seu marido ao médico e atestar sua impossibilidade de trabalhar por algumas semanas, Qiu Ju, sempre acompanhada da cunhada adolescente, vai à presença do "juiz de paz" . Conhecedor da história da aldeia e de seus moradores, ele é o responsável pela manutenção da tradição, pela negociação dos pactos e dissipação dos rancores e desentendimentos. Ele reconhece que Wang abusou na punição imposta a Qinglai e propõe como um castigo justo o pagamento de uma multa de $ 200,00. Qiu Ju, contudo, se satisfaria apenas com um pedido de desculpas. O juiz de paz vai pessoalmente conversar com Wang (este jamais é chamado a "depor") e diz tê-lo convencido. Mas, quando a protagonista vai receber o ressarcimento na casa do ancião, não o encontra arrependido: jogando as vinte notas de $10,00 no chão, ele quer vê-la humilhar-se vinte vezes diante dele. Qiu Ju não aceita a humilhação e declara guerra a Wang Shantag. Desde então, o juiz de paz tenta, de diversas maneiras, encerrar a discórdia. Mas Qiu Ju está irredutível. Se na aldeia não há quem possa obrigar o ancião a se desculpar, o jeito é ir até a cidade. O caminho coberto de neve, a viagem dispendiosa, o medo da cidade grande não são suficientes para dissuadi-la. Nem mesmo os comentários jocosos de que seu marido virou "pau mandado", só fazendo o que ela quer, impedem Qiu Ju de buscar o seu intento. Qinglai tenta convencê-la a desistir: ele está quase bom e já foi recebido pelo ancião, tendo comido em sua casa. Mas, sem as desculpas, Qiu Ju não se dá por satisfeita. A batalha continua. Idas e vindas, advogados, juízes, toda sorte de instâncias burocráticas. Tudo o que Qiu Ju consegue é um acréscimo de $50,00 à multa. Resta-lhe recorrer ao Tribunal do Povo. Ela o faz. Chega o Ano Novo e com ele o filho - um menino - de Qiu Ju. O parto, no entanto, complica-se. O marido recorre ao ancião que, a princípio, se mostra resistente - "por que vocês não chamam o tribunal?" - mas acaba por socorrê-la. O nascimento do desejado menino celebra um novo momento, o tempo do acordo. Se não fosse a ajuda de Wang, Qiu Ju sabe que teria morrido junto com a criança. Por isso, o ancião é o convidado de honra na comemoração do primeiro mês de vida de seu filho. A solução privada do desentendimento, no entanto, é ignorada pelo mundo jurídico exterior. Os representantes do Tribunal do Povo haviam constatado que as dores que Qinglai sentia no peito eram consequência de uma costela fraturada. O que o "juiz de paz" identificara como um prenúncio

"do rancor que oprime o peito" era, para o Tribunal, evidência suficiente para autorizar a prisão de Wang. Em vez de ir à festa comemorar a reconciliação, o ancião é levado para a cadeia. Qiu Ju corre, tentando impedi-los. Tarde demais. O Filme "A História de Qiu Ju", do diretor Zhang Yimou, com roteiro de Liu Heng, nos leva a acompanhar a longa peregrinação de uma aldeã chinesa por uma enorme rede de instâncias burocráticas, no intuito de resolver um caso de desrespeito aos padrões tradicionais de conduta, reguladores da vida comunitária em seu pequeno povoado. Trata-se de uma fábula moderna sobre a incansável paciência chinesa. Sua narrativa lenta, linear, reforça a sensação de desconforto vivenciada pela protagonista em relação ao modo pelo qual sua "queixa" vai sendo processada, ou melhor, reinterpretada segundo a lógica institucional das diversas agências oficiais acionadas pela protagonista. Qiu Ju insiste em querer apenas um pedido de desculpas. Entretanto, a transferência do caso para o mundo jurídico formal parece distanciá-la ainda mais de sua solicitação original. A legitimidade de sua demanda não encontra expressão dentro dos limites legais da justiça. Ao invés da desejada retratação lhe são oferecidas outras soluções. O descompasso entre a expectativa de nossa heroína e as respostas jurídicas possíveis, vai sendo ampliado à medida que transcorre a narrativa. A reivindicação convertida em "denúncia pública" se autonomiza e prossegue seu curso institucional a despeito da reclamante: o recuo ao mundo informal não é capaz de fazer cessar a engrenagem judiciária. Estranha ao mundo exterior da legalidade, a resolução privada do conflito é ignorada. O caminho oficial que vai das multas à prisão não se deixa sensibilizar por um pedido de desculpas, apenas. Tarde demais! *** O dilema apresentado pela "História de Qiu Ju" muito se aproxima das histórias que acompanhei nas Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher - DEAMs, em Caxias e Niterói, no Rio de Janeiro[2]. Durante o período em que estive no campo pude constatar que parte significativa das solicitações que chegavam à Delegacia - agência estatal sem poder judicante - parecia requerer soluções distintas daquelas oferecidas pela lógica-em-uso do mundo jurídico formal. Mesmo em alguns casos que diziam respeito à prática objetiva de ilícitos penais, podia-se notar que a demanda das reclamantes não requeria o processamento efetivo da lei. Este é o caso do drama de Dona Fátima[3]: AS CINCO LATAS DE LEITE Dona Fátima é uma jovem senhora de 18 anos, solteira, preta, que precisa dar sustento para a sua filhinha de 1 ano e 2 meses. Analfabeta, ela não tem medo de trabalho e ganha a vida como Camelô no centro de Caxias. Além de trabalhadora, Dona Fátima é crente e freqüenta a Universal do Reino de Deus. Conta que foi na Igreja do Bispo Macedo que ela encontrou resposta para o seu problema de cabeça: Dona Fátima, mesmo doente dos nervos, tem muita disposição para o serviço e luta com dificuldade para criar sua filha sozinha. Tudo começou porque, na madrugada do dia da queixa, Dona Fátima foi até a casa de sua irmã pedir para que ela tomasse conta de sua filha. Vicente, muito embriagado, não concordou com o pedido da cunhada. Pronto, estava armada a confusão: Vicente gritando partiu para cima de Dona Fátima com uma faca na mão. Dona Fátima correu, sua irmã tentou separar, mas não houve jeito: "ele cortou um pedaço da minha orelha com a faca".

Dona Fátima conseguiu fugir e foi atendida no Posto de Saúde da redondeza. O médico que realizou os primeiros socorros sugeriu que ela procurasse um hospital e a "Delegacia da Mulher". Dona Fátima, então, esperou o dia clarear e foi tomar as devidas providências. Na DEAM, ela contou que seu cunhado, apesar de trabalhar também como camelô, não gosta muito de serviço. Sr. Vicente tem 24 anos, é preto, limpo na polícia e, segundo Dona Fátima, a religião dele é a cachaça. Além de perdido pelo vício, seu cunhado tem problemas de cabeça e sofre perturbações espirituais que fazem com que ele tenha um comportamento muito agressivo. A queixa da parte ofendida foi tipificada como ameaça e lesão corporal gravíssima pela detetive de plantão e seguiu o curso oficial. Afinal, as marcas no corpo e o sangue confirmavam que a ação delituosa tinha materialidade. Imediatamente foram efetuados o Registro de Ocorrência, a guia de encaminhamento ao Instituto Médico Legal, o "convite" para o agressor e a abertura de inquérito. Entretanto, Dona Fátima insistia em desconsiderar as medidas legais necessárias. Ela não queria entrar na justiça e nem "prender ele". Sob os olhares perplexos das policiais e das pesquisadoras ali presentes, Dona Fátima, com a roupa ainda manchada de sangue e o rosto parcialmente encoberto pelas ataduras, afirmava que "isso não vai resolver o meu problema". De nada adiantou explicar-lhe que o fato ocorrido consistia em crime de ação penal pública. Dona Fátima, irredutível, não queria mais confusão. Afinal, ela procurou a polícia porque espera que a Delegacia da Mulher apresente outra solução : "obrigar o Vicente a pagar os dias que eu não posso trabalhar (eu não posso pegar poeira na orelha) e dar cinco latas de leite para minha filha". A maior parte das queixantes procura as DEAMs mas não quer "fazer mal". Assim, "saber dos meus direitos", "dar um jeito nele", "chamar para conversar", "me dar uma ajuda nas despesas", "pedir orientação", "ter uma chance", "firmar a palavra na frente da autoridade", "dar um susto", "curar o vício da bebida", "fazer ele sair de casa", "devolver a minha geladeira", etc, aparecem nas falas das informantes como respostas mais imediatas e eficazes do que uma possível execução judicial. Na verdade, para um conjunto expressivo da clientela atendida nestas Delegacias, a justiça oficial com suas diversas instâncias e linguagem altamente técnica e especializada - apresenta-se como uma realidade distante, inacessível e até mesmo ininteligível. "Entrar na justiça" é algo ambíguo, misterioso porque, no limite, "você tem que estar muito certa do que você vai fazer, porque pode sobrar para todo mundo". Ora desconhecido, ora imprevisível, o mundo jurídico "pode prejudicar" pois nunca "se sabe direito como é que isso termina". Indiferentes aos rigores conceituais, as mulheres entrevistadas[4] nas DEAMs fazem uso da palavra "justiça", ou melhor, da expressão "fazer justiça" como uma espécie de moeda ordinária, prática cujo cálculo da equivalência se realiza através de um jogo de compensações morais. A "Justiça" é também uma expectativa que pode se concretizar na "providência divina", "nas coisas do destino", no "jeito correto de levar a vida", "no merecimento pela obrigação cumprida" e , às vezes, na própria polícia. É curioso notar que as agências policiais são objetos com o sistema judicial, destes sentimentos de desconfiança. Entretanto, elas são também reconhecidas como o espaço público disponível para a resolução de conflitos. O arbitramento extra-oficial convive, ao mesmo tempo que destoa das práticas discricionárias da polícia, tradicionalmente exercidas contra a clientela que solicita os seus serviços. No exercício "ilegal" de negociação de litígios, a polícia, ao contrário do que ocorre nas suas ações repressivas, conta com a cumplicidade voluntária dos demandantes[5]. De fato, os sentimentos de desconfiança e incerteza em relação à justiça não constituem um fenômeno recente na realidade brasileira[6]. Sidney Chaloub, em seu estudo sobre as ruas no Rio do Janeiro, no início do século XX, revela que "o sentimento de desconfiança dos populares [da cidade

1986:190). um sentimento profundamente enraizado na alma popular. Não tendes escolha: é preciso organizar a justiça pública" (apud Vianna. os fatos em versões. quanto das exigências regimentais para a sua aplicação. o nosso universo legal está longe de contemplar as demandas jurisdicionais que há muito se fazem presentes na vida brasileira. Sobre estes sentimentos acerca da justiça Joaquim Nabuco proferiu o seguinte alerta à elite política da época: "[O]u organizais a justiça. em Campinas: ". Apesar da incorporação de "novos direitos" civis e sociais pela atual constituição . Conforme observa Mariza Corrêa. Resulta daí que uma parte significativa dos litígios que compõem o vasto mapa da conflitualidade social não desagua nas instâncias judiciais.242). completa. não conseguiu monopolizar a produção e distribuição da justiça: desde o Império a justiça não tem se apresentado como o locus privilegiado de resolução da conflitualidade. é o real que é processado. Neste sentido. no momento em que os atos se transformam em autos. A nossa legislação possui determinadas limitações provenientes tanto da sua estrutura. 1993:144). pública. como também pelo fato de que certos litígios não são reconhecidos como delitos pelo "mundo jurídico"[8]. Observemos o que diz o Editorial do jornal Correio da Manhã. Constata-se que o Estado Brasileiro. até que se possa extrair dele um esquema elementar sobre o qual se construirá um modelo de culpa e um modelo de inocência" (Corrêa.do Rio de Janeiro] em relação á justiça era sem dúvida bastante profundo e generalizado" (apud Junqueira. de 26 de janeiro de 1905: "[ A ] falta de confiança na imparcialidade da Justiça é. . não há duvidar. Isto parece ocorrer não só em virtude de uma atuação historicamente seletiva e excludente da justiça[7]. o concreto perde quase toda sua importância e o debate se dá entre os atores jurídicos. o inferno dos pobres e humildes. 1949:v. geralmente. que encaram a má solução dos seus pleitos e dos seus processos como resultância pura e simples da miséria e da ausência de proteção" (Chaloub.2.e das atualizações realizadas nos Códigos Penal e Civil. ou legitimais a vendeta popular.. reconhecimento das uniões consensuais. etc .direito do consumidor. no período de 1952 a 1972. A lógica-em-uso do nosso ordenamento jurídico tende a desterritorializar os conflitos na medida em que os abstrai da arena onde estão inseridos. verdadeira. real. Se por um lado as percepções correntes sobre a justiça reiteram os altos custos sociais de acesso ao sistema judiciário. A conseqüente autonomia da justiça em relação ao universo social dos litigantes e a proposição de soluções exclusivamente "técnicas" e "objetivas" são interpretadas pelo imaginário jurídico brasileiro como garantias necessárias à aplicação imparcial. por outro. neutra e universal da lei.. cada um deles usando a parte do real que melhor reforce o seu ponto de vista. a respeito dos processos judiciais relativos a homicídios e tentativa de homicídios envolvendo casais. Os tribunais são considerados.1983:40). moído. parecem acenar para a incapacidade deste mesmo sistema de responder adequadamente às demandas formuladas pela população. próximo à virada do século XXI.

coativas ou não . seus litígios não seriam resolvidos satisfatoriamente pela justiça. * com redação determinada pela Lei nº 7. Pouco importa. este tipo de arbitramento especial oferecido pelas instituições policiais só parece poder ser implementado através da aplicação de princípios não-judiciais : é importante frisar que.) está cumprindo o papel exato que dela esperam os que a procuram. "(.. um ato para ser considerado legalmente crime no Brasil deve ser previamente definido pela lei. 1984: 44. se um determinado fato não pôde ser "tipificado" é porque ele não existe na linguagem jurídica e conseqüentemente não pode também ser resolvido pelas agências jurídicas formais. e não para que seja feito um inquérito que instruirá uma futura ação penal no Judiciário" (Oliveira. são menos cerceadas pela lei do que o judiciário.dadas as suas restrições legais .e até mesmo certos conflitos . fazem parte da realidade social e são.não teriam lugar no interior do direito oficial e suas práticas processuais. ultrapassam o recurso da administração privada. Ora. isto é. portanto.. em virtude de suas próprias atribuições legais.apenas poderia oferecer como solução a condenação ou absolvição do réu. do ponto de vista da demanda. elas estão mais abertas à utilização de práticas informais . a polícia. num desses locais. 1988. onde a lógica jurídica formal .) é que ela vai até a delegacia ou posto policial para buscar prestação jurisdicional aí mesmo. e sim para que ele lhe aplique um corretivo. de 11 de julho de 1984". as instituições policiais.ou porque não possa pagar a prestação jurisdicional .. ( Ed. em muitos casos. que determina no seu "artigo nº 1" : Anterioridade da lei. Eis aqui uma interessante questão.certamente desconhece . ao tratar dessas questões (.. esperam um tipo especial de julgamento. 26ª edição). vivenciados como litígios e demandam resoluções que. se um certo evento não se enquadra no universo previsto pela lei. De acordo com esta perspectiva. Dito de outro modo: a mulher que apanha do seu companheiro não procura o comissário para que ele processe o seu agressor.. .certamente não pode.. Note-se que a teoria jurídica brasileira estabelece que "o que não está na lei não está no mundo"[11]. desconhecidos pela ordem legal. sobretudo em boa parte dos casos de violência doméstica denunciada...no processamento do conflito do que a própria justiça. que ela não se valha do Judiciário porque desconheça o direito oficial . "Não há crime sem lei anterior que o defina..45). De fato. Em outras palavras. quando solicitam a arbitragem exercida extra-oficialmente pelas DEAMs. no caso. Não há pena sem prévia cominação legal. que ultrapasse o modelo da adjudicação[9] proposto pelo mundo jurídico oficial.Estas limitações podem ser percebidas em algumas situações concretas. Luciano Oliveira esclarece que. Não me parece arriscado afirmar que os litigantes. Saraiva. O que importa (. Segue-se que a atuação judicante não-oficial da polícia pode introduzir o acordo informal entre as "partes".) ao que tudo indica.209. uma vez que as soluções requeridas . Entretanto estes mesmos casos. deve se encontrar "tipificado" pelo Código Penal Brasileiro[10]. ou melhor. Segundo os princípios gerais da Legislação Penal. Em seu estudo sobre as práticas judiciais da polícia quando confrontadas com pequenos casos de natureza penal protagonizados pelas classes populares no Grande Recife..

As Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher começaram a ser implantadas no Estado do Rio de Janeiro em 1986. E apesar do processo de democratização ter introduzido algumas iniciativas nesta direção. as DEAMs são um passo importante na direção do reconhecimento público da violência doméstica presente na sociedade brasileira. deixa de considerar uma parte importante dos serviços prestados por estas delegacias: a arbitragem extra-oficial tende a ficar confinada à invisibilidade das denúncias não registradas. o movimento de informalização e desregulamentação da justiça é discreto[13]. na maior parte dos casos. A atuação das DEAMs é alvo de inúmeras discordâncias tanto de certos setores do mundo policial quanto de alguns segmentos do movimento feminista. Entretanto. o "desvirtuamento" de suas funções são algumas das críticas freqüentemente realizadas[16]. a escassa dotação de recursos. produção de registros de ocorrências e subseqüente instrução de inquéritos[17]. para a explicitação e ordenação de uma demanda antes dispersa e oculta. Observe que um tipo de apreciação. a pouca especialização das policiais e. Conforme já mencionei. ora da prática das atribuições legais. a rotina numa delegacia da mulher é. é . Mas que elementos provindos ora da natureza da demanda. basicamente. Para alguns policiais as DEAMs são vistas como "Delegacias de Papel" porque "não prendem" e só "chamam para conversar"[18]. exclusivamente voltada para as atividades formais das DEAMs. Elas vêm contribuindo. é precisamente neste universo. A mediação de interesses não aparece nas estatísticas policiais porque segue um percurso alternativo à expectativa oficial de "tipificação" penal dos fatos. principalmente. Uma vez que. decisivamente. Tenho a impressão que este diálogo pode ser melhor equacionado através da constituição. O arbítrio nos conflitos da intimidade e vizinhança constitui um bom exemplo da expansão e adequação dos seus serviços às especificidades da clientela ou de seus problemas. por um lado. No Brasil. um exemplo de delegacia que chama para conversar. à primeira vista inexistente. não se pode falar da existência de um consenso acerca da sua eficácia na prevenção e combate à "violência contra a mulher". a polícia tem atuado como um filtro. ampliação e implementação dos espaços públicos informais de negociação de conflitos. afins e conhecidos. os delitos denunciados apresentam uma matriz interativa. evidencia a existência de obstáculos e casuísmos históricos presentes no diálogo entre o estado e a sociedade. contribuem para o exercício de funções não instituídas ? * DEAM. No curso destes 8 anos elas vem assumindo funções extraordinárias nem sempre previstas pelas suas atribuições legais[15]. que parecem residir aquelas atuações que produzem respostas alternativas e práticas à demanda difusa das "ofendidas". Contudo. por outro lado. Experiência inédita em todo mundo. preenchida por "queixas" provenientes das redes de sociabilidade que envolvem parentes. A precariedade material de suas instalações e equipamentos. De certo modo. uma espécie de elo intermediário entre a vasta demanda dos litigantes e o restrito sistema jurídico.Se. este intervalo entre a ordem real e sua "tradução" legal aponta para constrangimentos de natureza social (a impossibilidade de conversão integral e automática da vida social em racionalidade jurídica[12]). O ponto central da controvérsia sobre sua atuação incide sobre a prática usual no meio policial de negociar litígios. as lacunas existentes têm sido historicamente preenchidas pelas instituições policiais[14].

Diante de fatos criminosos reais a polícia tem de encaminhá-los ao judiciário e agir como quem recebeu delegação do judiciário.consiste nos expedientes de investigação criminal. os métodos de vigilância e investigação ajustados ao atendimento de uma demanda volumosa e extremamente diversificada viabilizam a exótica composição de princípios que regem diferentes sistemas de julgamento. Na prática. arranhando a lei. Mas uma certa abertura para o exercício de práticas não-oficiais não se explica apenas pelas características da demanda e seus interesses específicos e emergenciais. que dão apoio à sua autoridade no seio das classes mais baixas da população.definida como um braço auxiliar da justiça . Se isto de fato procede. goza de liberdade limitada. na rotina policial. mais claramente. aparece enclausurada dentro de duas lógicas formais não necessariamente convergentes. Enquanto o desempenho das chamadas funções administrativas pressupõe uma razoável liberdade de ação. não sobre fatos criminosos reais. Ela também se reporta à interpretação policial de suas atribuições oficialmente instituídas. exercendo seus poderes de vigilância. as atividades policiais parecem se equilibrar na fronteira entre o legal e o ilegal. A combinação de atribuições administrativas e judiciárias na experiência policial viabiliza a produção de resultados paradoxais. um dos muitos efeitos desta combinação: "Se a polícia recusa formalmente arbitrar esses conflitos estará obedecendo à lei mas está abdicando de suas funções de vigilância. a função judiciária. O autor esclarece que. Nota-se que a instituição policial. estas atribuições acabam se misturando porque a polícia "contamina" sua atividade judiciária com seus métodos e critérios de vigilância. Em síntese. em harmonia com o sistema judicial. Kant de Lima (1994) chama atenção para os dilemas e paradoxos existentes na organização e prática policiais que favorecem as atuações ilegais. Nas "Delegacias da Mulher". usando as práticas e princípios do judiciário" ( 1994: 111. os próprios fundamentos legais parecem contribuir para que as agências policiais (e em especial as DEAMs) se convertam numa espécie de híbrido institucional mimetizador de funções e práticas regimentais distintas.112). no próprio cumprimento dos seus poderes delegados. se a polícia afirma sua autoridade. Se a função judiciária deve se limitar àquelas condutas previamente tipificadas pela lei. A convergência necessária desta dupla atribuição faz com que a polícia. está agindo em desobediência à lei: seus poderes de vigilância devem ser exercidos unicamente sobre os fatos criminosos "potenciais". adequando o rigoroso universo da legalidade às singularidades das práticas e experiências policiais. e a atividade judiciária . Na atuação arbitral da polícia pode-se ver. a função administrativa deve "prevenir" o crime através de conjecturas a respeito da conduta social dos indivíduos. Como se pode observar. em algum nível. qualquer ação policial vai estar. As funções policia Civil no Brasil são oficialmente divididas em duas partes: a atividade administrativa diz respeito aos trabalhos de vigilância da população para a prevenção da criminalidade. as DEAMs conjugam procedimentos do Direito Civil (onde o acordo é legalmente possível) com dispositivos do Direito Criminal. tal como acima caracterizada. inaugure espaços de interpretação e aplicação autônomas da lei.bastante provável que as DEAMs se encontrem mais atreladas às solicitações dos litigantes que outras agências policiais. A utilização de um amplo estoque de recursos na negociação .

ª Delegada é autoridade e tem diploma de advogado". a autoridade policial aparece como a manifestação mais efetiva e concreta da legalidade: "a Dr. então. É preciso destacar que nesta modalidade de crime o acordo não é judicialmente permitido[20] e. se é possível afirmar que este tipo especial de julgamento revela uma aliança sutil entre a autoridade policial e sua clientela "contra" a lei.extra-oficial. o resultado prático de espaços públicos improvisados para negociação de conflitos não resolve a crise institucional que envolve as agências policiais e jurídicas. Para os litigantes que solicitam a mediação das DEAMs nas "brigas de marido e mulher". A utilização exclusiva das agências policiais como instrumentos de mediação. "Ela sabe da lei". nas "confusões com o vizinho". Como possuidora somente de "poderes delegados". mantém uma relação de complementaridade com o tradicional modelo jurídico brasileiro[26]. mesmo que contrariando ostensivamente a lei. na medida em que fazem aparecer um outro direito no interior do direito estatal oficial. Ao atender o caráter social e coletivo dos conflitos que não são ou que não podem ser resolvidos dentro dos limites estreitos do ordenamento jurídico atual. pois estas mesmas decisões se encontram respaldadas pelos interesses emergenciais da demanda. Mas que outras juridicidades e percepções de direitos são colocados em prática pelas DEAMs e a sua clientela ? Que tipo de normatividade resulta da adequação do mundo legal à concreção dos casos? * O direito de todos e outros direitos.agências estatais sem poder judicante . . sem a necessária contrapartida da estrutura judicial . uma vez realizada a denúncia na delegacia. Entretanto. pode contribuir para a ampliação do grau de incerteza.sua informalização e desregulamentação -. é uma clara demonstração deste tipo de composição. apesar de uma certa garantia de "funcionalidade" desta relação. é também necessário esclarecer que para estes atores os serviços de mediação não são interpretados como atividades propriamente ilegais. Assim.restringe-se à tarefa de coligir provas e circunstâncias relacionadas à notícia-crime e a instrução de inquéritos[22]. aliviam o sistema judicial. principalmente sobre o sistema jurídico. a instituição policial acaba por substituir a legalidade pela legitimidade de suas decisões. Em outras palavras. Todavia. na medida em que têm se mostrado capazes de absorver uma parte expressiva da conflitualidade social[24]. As mediações policiais. Um outro aspecto importante a ser evidenciado é que através de "atalhos" ilegais o arbitramento policial acaba auxiliando o judiciário[23]. As instituições policiais . agir nos trabalhos de investigação criminal sob estrita supervisão do sistema jurídico: sua função judiciária . acatando os interesses das partes.é importante insistir . Em virtude do que foi acima exposto é razoável afirmar que as agências policiais.desconfirmam a própria ordem legal. Ao contrário. nas "disputas pela posse da mesinha de centro e pelo guarda-roupa duplex". que vai da singela sugestão de "usar um atraente babydoll vermelho para animar o marido" até a enfática ameaça do "teje preso". a negociação extra-oficial praticada nas delegacias ajuda a desafogar um sistema judiciário menos congestionado pela incorporação de direitos emergentes. e mais paralisado pelo excesso de formalismos e expedientes altamente burocratizados[25]. A esta altura do texto parece evidente que a atividade não-oficial da polícia na regulação de litígios amplia as ambigüidades já existentes no cumprimento de suas atribuições legais. tem competência legal para ordenar o arquivamento dos autos[21]. não é incomum que as DEAMs. no "desvirtuamento" de suas funções. etc. cabe à polícia. elas são percebidas como acordos legítimos que pertenceriam ao mundo da legalidade porque "fazem justiça" e porque têm a chancela da polícia. mediante insuficiência de provas. apenas o juiz. atuem em certos litígios como se estes não constituíssem um "crime de ação pública"[19].

A constatação da existência de mais de um direito ou a caracterização da realidade jurídica como plural confronta-se com os pressupostos do estado moderno. sob o ângulo da legalidade.como é o caso do poder judiciário[29] e. Assim. não somente em setores diferenciados da realidade social. Reconhecendo a existência de outros direitos. por um lado. Observe que não se trata aqui de defender ou converter ingenuamente as legalidades denominadas "paralelas" e "alternativas" em legalidade oficial. a perspectiva antropológica constrói uma noção operativa. em particular. nem a .até mesmo institucionalizado . o conhecimento etnológico sobre a realidade sócio-política de outras culturas faz com que a ciência antropológica contrarie o pensamento jurídico ocidental e amplie o universo das concepções jurídicas.72). a despeito do "desvirtuamento" de suas funções. Mas é possível classificá-los como uma forma de exercício do direito. Os estudos antropológicos sobre as chamadas "sociedades tribais" constatam a utilização de formas distintas de produção jurídica e. Como observa Boaventura de Sousa Santos em seus trabalhos sobre sociologia jurídica. a figura do direito é expandida e inclui. as relações. O tipo de normatividade que ali se processa encontra-se. ordenadoras do nosso mundo jurídico-formal. esta normatividade aparece como "legal" e legítima para aqueles que dela participam. considerados justiciáveis num dado grupo. acordos. " [Um] conjunto de processos regularizados e de princípios normativos. que delegam à ordem estatal o monopólio da produção do direito. esclarece o autor. Apesar de não pretender esgotar a problemática inter-disciplinar sobre os princípios e proposições que circunscrevem as noções de direito. à margem do campo jurídico oficial. É preciso compreender de que maneira ele se deixa observar nas chamadas sociedades complexas. legitimidade. cabe à ordem estatal-legal o privilégio constitucional de garantir a soberania do "Estado de Direito". de amplitude variável. legalidade. a vida social parece produzir outras juridicidades até mesmo contrárias ou concorrentes[28]. Não se pode negar que diferentes ordens legais e "ilegais" de produção de direitos convivem na modernidade.. a perspectiva antropológica coloca em evidência uma importante questão.. a concepção de diferentes sistemas de processamento de conflitos[27]. até porque nem a ordem legal tem autoridade simbólica para excluir do real outras formas reativas ou espontâneas de juridicidades. Se. por outro. por conseguinte. que contribuem para a criação e prevenção de litígios e para a resolução destes através de um discurso argumentativo. Mas a questão do pluralismo jurídico pode ser entendida sem prejuízos para a afirmação da ordem estatal-legal. no mínimo.Do ponto de vista do direito legal brasileiro e de sua lógica-em-uso. processos decisórios. apoiado ou não pela força organizada" (Santos:1988. adequada às exigências empíricas. etc. mas dentro de um único cenário . transações realizados nas DEAMs seriam ilegais ou. as DEAMs vêm se transformando gradualmente num "fórum jurídico" em torno do qual têm se desenvolvido uma prática e um discurso jurídicos muito peculiares. Conforme já foi mencionado. da negociação de conflitos nas DEAMs. juridicamente nulos. mesmo que extraordinária? A extensão das qualificações de "direito" e de "legalidade" a certas práticas não previstas pela lei comprometeriam o sentido e a aplicação destas noções ? À primeira vista a idéia de pluralismo jurídico parece se restringir à constatação da existência de outras formas de normatividade existentes em sociedades outras cujo modelo de organização social e política difere substantivamente da nossa. Assim.

estaria ali se processando um "direito alternativo" ? É fato que a cultura jurídica brasileira[31] não reconhece a desigualdade social e o caráter excludente de nossa cidadania[32]. A produção de juridicidades outras resultaria apenas e exclusivamente da distância objetiva e subjetiva em relação ao mundo jurídico oficial? No caso específico da mediação informal de conflitos das DEAMs. outras importadas. umas nativas. umas emergentes outras em declínio.susposta ordem jurídica informal tem força suficiente para substituir .o direito de todos e não o simples reconhecimento de seu outro direito. que se pode qualificar de interlegalidade. O que parece relevante não é. Estas espacialidades internas ao direito são porosas e se interpenetram. a vida sócio-jurídica. Uma outra virtude que merece ser evidenciada é que esta perspectiva. Elas procuram a agência policial para ter acesso ao direito oficial: "Eu vim aqui para saber dos meus direitos". umas novas. apesar de não serem sincrônicos. portanto. entre as formas de percepção dos direitos oficial e informal.mesmo que através de atalhos e inúmeras adequações . Na prática. ou seja. que esta função seletiva da ordem jurídica é exercida. A idéia da interlegalidade. Os diferentes direitos oficiais e informais. constata-se uma espécie de polissemia semântica que faz aparecer múltiplos eixos de significados. Entretanto. Sem correr o risco de descaracterizar o mundo jurídico formal. Inversamente. portanto. É precisamente esta intersecção. ao iluminar as juridicidades informais. complexas. nos tempos da modernidade. e até certo ponto a conivência. a lógica-em-uso da justiça realiza uma triagem daqueles conflitos que podem ser justiciáveis. a tentativa retórica de formalização mecânica de "direitos achados na rua"[30].. de um direito poroso constituído de múltiplas redes de juridicidade que nos forçam a constantes transições e transgressões" (Santos. umas testemunhais. outras velhas. não se pode esquecer que aqueles que procuram as DEAMs estão solicitando . o que se pretende neste texto é mostrar a convivência. 1990:36). ainda restam algumas perguntas a serem feitas. As pessoas que solicitam os serviços de mediação informal das "Delegacias da Mulher" já ultrapassaram o limite das resoluções privadas de seus interesses e parecem ter elegido uma agência pública como terceira parte. estabelecem um dialogo num corte horizontal : "(. principalmente. aparece como uma razoável possibilidade de ultrapassar uma possível leitura etnocêntrica da noção de "direito". no Direito Processual Civil[33].mesmo que pelo uso da violência . contribui para o esclarecimento dos problemas que obstacularizam a relação entre a justiça e a população. . Talvez mais que em nenhuma outra época.) as configurações de sentidos jurídicos que pomos em ação nos diferentes contextos da nossa prática social são freqüentemente complexas misturas de concepções jurídicas discrepantes e de normas de gerações diferentes. um tipo de manifestação fenomenológica do pluralismo jurídico. Em outras palavras. também de porosidade jurídica. Afinal. tal como foi acima apresentada. Na realidade das sociedades de mercado. esta noção incorpora a "desfuncionalidade" presente na vida moderna e permite que outras práticas de negociação e resolução de litígios possam ser investigadas e adjetivadas como "jurídicas".a ordem legal. Observa-se. apresenta-se como um lugar de cruzamento entre diferentes fronteiras jurídicas. vivemos num tempo de porosidades e.. espacialidades no interior do campo significacional do mundo jurídico. outras impostas.

1982). Produzido no interior de uma agência pública . parentes e conhecidos. assiste-se a uma complexa operação de convergência entre vários sistemas classificatórios não necessariamente coincidentes.a delegacia de polícia -. de um "uso alternativo" do direito oficial. a pretensão deste direito parece ser a de traduzir os atos reais em fatos legais. tarda ou é inexistente. As diversas modalidades de violência interativa[35]. mesmo que informal. Todavia. este direito apresenta-se como uma interação jurídica plural. apenas processados através de recursos normativos privados e ilegais. entre formas distintas de percepção do mundo das regras. precisamente. Ela aparece traduzida na histórica alegação da "justiça feita com as próprias mãos". o direito interativo mantém uma relação de homologia com o direito oficial.Parece. o exercício privado da justiça não deve ser entendido apenas como uma resposta social àqueles contextos onde a lei falha. A juridicidade que ali se constitui é um direito não-oficial que conjuga os princípios do direito de todos. instituinte. nas quais se incluem os altos índices de violência doméstica. não menos violentos. Quando a DEAM é chamada a resolver um conflito. É através desta perspectiva relativizadora que procuro interpretar o tipo de normatividade processada nas "Delegacias da Mulher". instituído pelo estado. Sua clientela é basicamente composta de homens e mulheres provenientes das regiões periféricas da cidade e inseridos numa ampla faixa etária. Os baixos níveis de instrução e a baixa especialização profissional indicam que se trata de um segmento cuja renda mensal é pouco significativa[38]. De certo modo. quanto o quadro valorativo que ordena a experiência ordinária.o tradicional arbitramento policial. em alguns casos. De todo modo. por exemplo . O desafio que se coloca é. . no entanto. contribui para que litígios ou disputas de natureza pública sejam. Não se trata. A violência como instrumento normativo de resolução de conflitos também tem se mostrado uma prática tradicional na sociedade brasileira[34]. Não se pode esquecer que certas práticas judicantes informais . no sentido de um simples ajustamento da norma legal aos interesses das partes. quase sempre entre cônjuges. cuja origem está no universo valorativo da clientela que solicita os serviços das DEAMs. ele se encontra à margem da justiça.antecedem historicamente as leis penais em vigência. é importante relativizar esta discussão. e um outro direito. é acionada uma dinâmica flexível capaz de absorver o caráter heterogêneo e descontínuo da demanda. apenas. procurando compreender porque o sistema jurídico não conseguiu se impor frente a essa realidade[37]. estas evidências anunciam a desconstrução simbólica da lei enquanto elemento ordenador do espaço público[36]. evidente que a justiça brasileira. da vida ordinária e da instância jurídica. este direito interativo. com sua atuação elitista e distanciada. * No Plantão de Atendimento. Assim. Na verdade. Neste direito que passo a chamar de interativo. sem permitir a autonomização da função jurídica e a conseqüente objetificação dos litigantes e suas demandas. como os sistemas simbólicos do mundo policial. constituem claras demonstrações de que a violência aparece como uma "possibilidade real e concreta de manifestação da sociedade brasileira" (Da Matta. Mais que isto. não pode prescindir de tomar de empréstimo alguns dos expedientes do direito oficial. Ele incorpora de maneira seletiva e criteriosa tanto as normas e procedimentos que regem as atribuições jurídicas e administrativas da instituição policial. mas não à margem das outras agências estatais responsáveis pela manutenção da lei e da ordem. Em outras palavras. então. fazer coincidir estes planos da linguagem. na legitimidade moral da "defesa da honra" e em outros mecanismos sutis.

Seu marido Elvis Presley. Segundo Dona Jurema. Segundo os relatos das policiais mais antigas. Quando esteve no Brasil. a detetive de plantão. também foi assassinado: ele morreu envenenado. Roberto Carlos aparece na narrativa como o principal vilão da história. Cristina. com quem teve uma filha de nome Anne Marie. pedidos de informação sobre outras agências públicas. ela me explica que sua aposentadoria não tem sido paga desde a década de 70: "os funcionários do INSS estão me enganando. A esta altura. no dia de seu plantão. Após sua saída. Depois de matar os donos. pergunto-lhe sobre a razão de sua queixa. a queixante para me acompanhar até a sala da Assistência Social. tais como solicitações de viatura para a remoção de doentes e transporte de parturientes. 8 de dezembro de 1993. apresento um caso atendido na DEAM-NITERÓI. Apesar dos seus poucos dentes. Como também pretendia prejudicar Dona Jurema. Dona Jurema é uma senhora de 63 anos de idade. Conta-me que foi visitá-lo em sua casa ao lado do Cristo Redentor. além da mediação dos litígios de natureza civil e criminal. o ex-Beatle John Lennon. Algumas destas histórias foram coletadas durante o trabalho de campo. então. Enquanto preencho a petição. Seu semblante transmitia um ar de tranqüilidade e sobriedade.O volume e a multiplicidade de serviços solicitados faz com que as DEAMs realizem uma triagem dos casos durante o atendimento. por exemplo.Roberto Carlos e Silvio Santos. ela comenta que aquele ali não liga para ninguém. Seu iate Lady Laura. . Agradeço-lhe o depoimento e a encaminho de volta à sala de atendimento. Para efeito de ilustração. assim como Roberto Carlos. Indagada sobre a motivação do crime. Indago-lhe sobre como teria obtido informações sobre estes negócios ilegais? Dona Jurema. No que diz respeito às atividades informais de negociação. a detetive pede que eu "pegue o caso". Muito atarefada. revela-me que tomou conhecimento dessas imundices por intermédio das primas de Roberto Carlos que moram num barraco perto de sua casa. Silvio Santos. etc. das rugas e dos trajes modestos. as DEAMs recebem toda sorte de situações atípicas. foi adquirido através de meios ilícitos: ele procurava saber quem eram os donos dos iates e depois mandava os capangas dele matar. eles ficam com o meu dinheiro". muito circunspecta. Cristina. Outro membro ilustre da família de Dona Jurema é o Papa João Paulo II. Conta-me que os maiores interessados em seus minguados proventos são "dois homens muito importantes" . Mas "John" não foi a única vítima da conspiração de Roberto e Sílvio. outros serviços extraordinários são incorporados à rotina das Delegacias da Mulher. eles puseram um negócio na bebida dele. Dona Jurema despede-se satisfeita e promete retornar. os casos são também diversificados. ele uniu-se ao Rei. usou de práticas desonestas para construir sua fortuna: foi tudo roubado. ele passava os iates para o nome dele. com um simpático sorriso. informa-lhe que o seu caso continua sendo investigado e marca uma nova visita para o mês seguinte. Dona Jurema afirma que tudo que ele tem é roubado. pois. A SAGA DA VIÚVA DE ELVIS PRESLEY[39] Quarta-feira. E foi assim que ele conseguiu as coisas. Chorosa. ela aparentava ter sido uma mulher muito bonita quando jovem. Cristina comenta que o atendimento de Dona Jurema faz parte das "recomendações do médico" e que sua filha havia procurado a delegacia para informar a delicada saúde de sua mãe. explica-me que ela sempre aparece para saber sobre o problema da sua aposentadoria: "Eu dei assunto e ela acabou voltando mais vezes". o pontífice presenteou-a com um lindo anel de ouro.para me prejudicar. eles "não agem sozinhos". Convido. Diante do meu espanto sobre a situação de abandono dos parentes do Rei. É bonita! Seu relato termina com um abrupto e demorado silêncio. minha informante já enraivecida desabafa: Os dois vivem me perseguindo! Uma das atrocidades cometidas por Roberto Carlos e Silvio Santos foi o assassinato de seu primo. Dona Jurema com os olhos baixos e a fala trêmula respondeu . Esta não é a primeira vez que Dona Jurema vai à DEAM darqueixa "daquele perneta safado que casou com a Miriam Rios". Ele é descrito como alguém que não mede esforços para prejudicá-la. Eu já fui na casa dele.

numa data fixada. Esta vasta coleção de episódios singulares exige que as DEAMs ofereçam um atendimento flexível e diversificado. Como "todo mundo tem vez para falar" nas audiências. Segue-se que a acareação . Na rotina da delegacia. os litigantes são. Segundo a "psicologia prática" das policiais: "a gente aqui tem que ser psicólogo. da possibilidade de tipificação[43] jurídica da queixa.deve. a delegada titular toma ciência dos fatos ocorridos no balcão de atendimento e devolve o expediente para os plantonistas. Enquanto a queixante é auxiliada no preenchimento da petição[41] . informados sobre o . nos casos considerados mais urgentes. sem dúvida. De acordo com as policiais é necessário confirmar a relevância da queixa no intuito de coibir intenções desonestas. naqueles casos que apresentam algum litígio. que aparece como um dos elementos mais importantes para a aceitação da denúncia. movidas pela "vontade de vingança" ou pelo "desejo de só prejudicar". para "tratar de assunto do seu interesse". assistente social. sucessivas vezes. ser conduzida pela própria policial que realizou o primeiro atendimento. na maior parte das vezes.rito policial onde se processa a negociação . isto é. a detetive plantonista "ouve a parte". questionados sobre a convicção de suas posições. realiza uma breve inquirição de modo a certificar-se da "materialidade"[42] do fato. as discussões costumam ser animadas e calorosas.rito preliminar que antecede a elaboração do registro de ocorrência -. esclarecidos sobre o conteúdo da decisão a ser tomada. podem ocorrer outras audiências consideradas necessárias para a produção de acordos ou a sua confirmação[46]. Quando eu me aposentar acho que vou abrir um consultório sentimental. sempre que possível.A história de Dona Jurema é. Além da acareação. No intuito de garantir uma melhor eficiência nos trabalhos de mediação. parentes e vizinhos que podem ou não participar ativamente da discussão. Mas. o "convite"[44] não é entregue por um policial e sim pela própria queixante. por último. O comparecimento das partes no dia marcado para a acareação. o atendimento segue uma determinada rotina. são efetuadas diligências. cada dupla de plantonistas[45] possui a sua "pasta de casos". a outra parte é então "convidada" a comparecer "para ter uma conversa na Delegacia". para dar conta dessa gente. Durante as negociações." Uma vez aceita a queixa. por vezes. somente aquelas situações que apresentam extrema gravidade são transferidas para os "chefes de seção". No plantão de atendimento. da natureza e "seriedade" do litígio e. cabendo à policial orientá-las e proferir a decisão . um exemplo radical do tipo de demanda que chega às Delegacias da Mulher. coincide com a sua própria história de vida: a descrição do fato que propiciou a "queixa" aparece dissolvido no interior da narrativa. "Testar a parte para saber se ela não está inventando tudo isso" através da prática do interrogatório faz parte da rotina policial. Em virtude das precárias condições materiais e de pessoal destas delegacias. mostra-se problemático e várias medidas costumam ser adotadas para assegurá-lo. A experiência de longa data adquirida para resolver estas "brigas de marido com mulher" é de tal forma valorizada. a "parte"[40] ofendida apresenta uma denúncia que. da competência para resolvê-lo. Novos convites são enviados e. Assim. As partes quase sempre aparecem acompanhadas por amigos.um tipo de compromisso moral assumido pelos presentes que estabelece as obrigações que devem ser cumpridas reciprocamente.

Sr. me deixe em paz!" Sr Francisco. incomodada com o seu silêncio. Maria. Maria. muitas rugas. Maria. os litigantes são informados de que em virtude do acordo firmado passarão algum tempo sendo observados pela polícia[47]. loura. D. dirigindo-se a todos os presentes. Uma das características fundamentais da juridicidade produzida na acareação consiste no fato de que as decisões processadas não emergem da aplicação unilateral das leis aos casos concretos. Maria anda nervosamente de um lado para outro. que é "mulher direita". de aparência discreta e humilde. mas de seu marido.Maria revela que Sr. De repente. Maria é plenamente visível: suas mãos tremem. Os elementos estruturantes deste discurso são extraídos da ampla agenda de valores que pauta a experiência ordinária. Maria alega não saber. Ela suplica: -" Sr. eu sou uma mulher honesta. Francisco ameaça "contar tudo" a seu marido. Maria. D. pelo jogo argumentativo. Basta seu marido "virar as costas" para começar a "perturbação". Francisco vem transformando sua vida "num verdadeiro inferno". Francisco "visse ela como mulher". exaltada. Sr. segurando uma criança nos braços. que D. os "princípios morais". "mãe de família". Neide. aqui ele não diz uma palavra. presentinhos. Sr. fala pela primeira vez. a desejasse. que o Sr. nem tão pouco aceitar. comenta com a mediadora: "Está vendo. O ASSÉDIO DE SEU FRANCISCO[48] No banco de espera. inconformada. O nervosismo de D. Francisco ouve as queixas calado. vai até o balcão e avisa à plantonista: " o safado já chegou". duas mulheres: uma muito jovem. Maria. Francisco conseguiu fazer com seu filho o que ela teme que seja feito com seu marido . amigo não só dela. indaga sobre as razões do conflito. Neide. testemunhando a "sem-vergonhice do velho". então.desagradável expediente de "ficar sujo na polícia" e alertados sobre a importância do compromisso firmado e da seriedade da "palavra empenhada na frente de uma autoridade policial". elas se apresentam como produtos da utilização seletiva e reversível de dispositivos retóricos que conjugam elementos discursivos das linguagens jurídico-policial e do senso comum. a policial convoca a parte ofendida a assinar o "Termo de Desistência" da queixa e reafirma solenemente os termos da reconciliação. D. etc. Nos últimos quatro anos. a elaboração discursiva da decisão. esperando um "safado" para a acareação. questiona: "O que a vizinhança vai falar?" "Já está todo mundo falando". Logo com ela. E foi este "tudo". surge um senhor de mais ou menos 70 anos. Maria. A policial-mediadora convoca as partes e acompanhantes a se encaminharem para a sala da Assistência Social. * Direito Interativo. Os "lugares comuns". Velho sem-vergonha!" D. confissões de amor. diz-lhe que está sendo perseguida pelo Sr. Francisco. Francisco. da dimensão concreta do conflito em questão. Diz que "simplesmente já não agüenta mais". Pede que D. que passa pelo corredor cumprimentando a todos. "casada há muitos anos". interrompe abruptamente a fala do Sr Francisco e desmente a "pouca-vergonha". Maria não seja ingrata: "E os presentes que eu te dei? Do radinho você gostou! E quando a gente íamos pros matagais fazer amor?" D. Dando início à acareação. outra baixa. que ele a importuna freqüentemente. "Ante tal amizade e estima" não poderia acreditar. lamenta D. onde será realizada a audiência. pelo amor de Deus.todo o seu passado "jogado fora". acrescenta Neide. A policial mediadora intervém: . que este "velho cismado" foi contar a um de seus filhos: "Um filho desprezou a própria mãe". a mediadora. amiga de D. Antes de serem dispensados. Convites para saírem juntos. sua voz embarga ao dizer que está sendo perseguida por quem tinha "grande consideração". O campo discursivo do direito interativo abre espaço para a instrumentalização de pontos de vista e opiniões previamente sabidos e comumente aceitos. Ao contrário. emolduram e dinamizam um tipo de normatividade que vai se tornando persuasiva à medida que se aproxima. Chama-se D. Uma vez confirmada a decisão.

. Que coisa feia. os passos de D. Mas a referência ao recurso da prisão não é feita de forma exclamativa ou imperativa. Mais uma vez ele cumprimenta os presentes e sai. sobretudo. O que aconteceu entre vocês dois não é pra sair comentando por aí. Faço isso porque gosto dela". Maria. Se eu tiver com dinheiro. Seja homem. tendo perdido. da integridade e dignidade (não fica bem uma pessoa como o Sr. do ótimo marido. promete para a "doutora" que vai "se endireitar". Eles se amam demais. era pura amizade foi se transformando numa ardente paixão. pela policial-mediadora. estes princípios morais são utilizados segundo o tipo de conflito em questão. onde sofreu diversos choques e acidentes. quer ser preso? Já pensou. Maria.. dois não brigam! O senhor sabe que isto não está direito. eu gosto dela. Ela não quer. então. para se encontrar. Sr. à distância.faltando com respeito pela mulher que o senhor diz que gosta. não pode fazer isso. D. Seu Francisco. Seu Francisco." A policial mediadora interrompe e argumenta: _ "O senhor é homem. responde: "Eu não tô perseguindo ninguém. eu não sou o primeiro. coça a cabeça e descruza as pernas. "Toma Vergonha na cara.. mãe de família. Seu Francisco não pode. Maria. Maria se cala e desvia o olhar." Sr Francisco. Puxa um saco de balas do bolso e oferece à policial. ser trabalhador). é uma coisa bacana os encontros da gente. perseguindo a mulher?" Sr Francisco começa. a narrar a sua versão. fazer uma coisa dessa). Francisco se despede de todos. "tudo" começou há 7 anos. ter decência. Mas. Ele sabia que D.quando um não quer. Maria ele exclama: "Isso eu quero ver ela negar!". Seu Francisco!" Sr. Como "todo bom filho de Deus" ele tem "discernimento das coisas". um homem na sua idade na cadeia?" A velhice é acionada como um importante coibidor moral.-"O Sr. A intervenções compreensivas da mediadora volta e meia cedem lugar as ameaças de prisão. .Maria era "uma mulher direita. etç. temente a Deus. Mas.. Mas. ao ponto do Sr. D. D. indignado. cumprimento da obrigação)." As noções de justeza e cooperação caracterizadas nos atributos de boa mãe. Ela é muito carinhosa. dessa idade. Seu Francisco. Com um ar sério. alguns dentes. A policial responde secamente: "por enquanto. né Seu Francisco? O senhor tem que cooperar. O que ele pode fazer se os dois se amam? Olhando nos olhos de D. apesar dela continuar negando. trabalhou duro numa companhia de eletricidade.. os rumos da negociação e o nível de persuasão que eles podem exercer sobre os litigantes. Maria tentou resistir. trabalhadora".. A paixão eclodiu: _" a gente fica esperando o marido dela ir para a obra. nem o último a deitar com mulher dos outros. ela "obviamente" não aceita. Mesmo "temente a Deus". deixar D.. levo ela prum motel. da honra. Isto não é papel de homem de bem!" Sr. Ele também é um "homem correto". fazer o quê. O senhor não vê que ela já está com problemas de nervos por causa das suas atitudes? Isto não é coisa de homem decente. as imagens da responsabilidade (falta de juízo. O que. Francisco não parece gostar muito da advertência da policial: -"Eu sou católico. Isto não pode ficar assim. Maria é mulher casada. um homem da sua idade sem juízo? Por que o senhor está fazendo isso. a Doutora sabe. Ele não é homem para ela. surpreso com a recusa de D. no início.Às vezes a gente vamos prum terreno que eu tomo conta. e "hoje cada um tem seu rumo na vida". Deus existe para perdoar". Difamando! Vê se toma vergonha na cara. Sr.. ao invés de afastá-lo. Criou e educou os filhos e enteados. mas indagativamente: "O senhor. Puxa da perna. mas "o amor da gente foi mais forte". são freqüentemente acionadas no jogo retórico. tais atributos o seduziam ainda mais.. Francisco. acompanhando. inclusive. pois. Francisco ensaia um sorriso e pergunta se não vai ser preso. da honestidade (andar na linha. "se o amor não tem idade"? A policial insiste: "O senhor também vai tomar um rumo. não".. De acordo com o seu "entendimento". Ela é uma mulher legal. do bom vizinho. Francisco começar a fazer "qualquer coisa para ficar perto dela". Na maior parte dos casos. Quando a detetive comunica que todos estão "dispensados". ela é mulher.

Os procedimentos rotineiros de "reconhecimento" ou identificação policial são também acionados no decorrer da argumentação. Expressões como "Eu acho que te conheço"."Eu estou aqui gastando o meu tempo com vocês. Ora. capaz de convidar os litigantes a permanecerem na dinâmica discursiva. eu vou logo despachar para o cartório.. Souza Santos (1988). constata que no "Direito de Pasárgada" as remissões ao mundo jurídico oficial revesam sua importância estratégica com os lugares comuns. a princípio. apesar destes dispositivos serem operacionalizados com um razoável grau de liberdade. a utilização de recursos coativos é mais efetiva e evidente. fazer aparecer . Os provérbios.argumentos que sejam aceitos pelas partes e pelo auditório. eu vou colocar na mesa da Delegada. mesmo quando não aceitos. num primeiro momento. estes recursos morais ampliam sua força persuasiva na medida em que vão se adequando as situações vividas. ou que. Se vocês não querem chegar a uma conclusão. etc. Do conjunto dos elementos coativos disponíveis.. é a possibilidade mesma de trafegar de um plano mais geral a uma dimensão estritamente particular que confere eficácia simbólica a estes artefatos da sabedoria popular. eles não são acionados de forma aleatória ou indiscriminada. Isto porque eles se reportam a um repertório valorativo previamente sabido. O mesmo pode ser observado no processamento de conflito nas DEAMs. outras manifestações do "poder de polícia" participam da retórica da mediação.. Inversamente.Como se pode notar. Citações formais e solenes aos Códigos Penal e Civil acompanham as exortações ao "poder de polícia". um mesmo lugar comum pode ser aplicado às situações mais diversas. Entretanto. eu estou segurando. continuar a engrossar.Se não quer conversar. aproximar a distante e abstrata realidade do mundo jurídico da concreta realidade dos fatos. em seu trabalho sobre a produção informal de juridicidade na Associação de Moradores." MOSTRANDO A PETIÇÃO : "por enquanto está na minha mão. . do mesmo modo que não excluem da sua composição a força das metáforas afetivas e imagens não-racionais[49]. monopólio da policial mediadora e um dos seus propósitos parece ser o de desmantelar instrumentos coercitivos concorrentes. produzindo uma interação sutil entre instrumentos formais e informais.passo a passo e por diversos ajustes . Vai ou não vai conversar? Se o Sr. Num segundo. nas delegacias da mulher. quebrando um galho. E os lugares comuns se misturam aos esclarecimentos sobre artigos e penas . Aliás. O uso extensivo de princípios morais articula-se com freqüentes e perspicazes referências às leis.. sustentem uma carga moral suficiente. numa conhecida favela carioca. Inicialmente genéricos." Não obstante. eu vou levar ao conhecimento da Delegada. "Eu já te vi em algum lugar" deixam transparecer os riscos de "ficar manjado" pela polícia ou de apresentar um comportamento intolerante na negociação. a carceragem é aqui no 1º andar. acionados entre as partes.alguns deles violentos . os mais utilizados no jogo argumentativo são a ameaça de abertura de inquérito e a prisão: . as máximas morais. eles obedecem à economia discursiva do direito interativo e suas estratégias coercitivas para a construção da decisão. carregam e transmitem um tipo de saber cotidiano que se adapta aos constrangimentos impostos pelos desafios da vida prática. O emprego regular destes dispositivos .torna mais preciso o contraste entre os direitos oficial e interativo. Sua utilização é. Tenho a impressão que o objetivo tático destes expedientes retóricos é.

Uma dinâmica discursiva regida pela linguagem ordinária é. provérbios. clichês. cede lugar. A contiguidade semântica entre o suposto agente monopolizador do discurso (a policial mediadora) e os litigantes. sem dúvida. Conforme esclarece Souza Santos (1988). estas alegorias permitem a constituição de uma normatividade estável. O uso exclusivo da linguagem técnica jurídico-estatal. estes dispositivos retóricos coativos reiteram a importância da "presença da autoridade" policial e a legitimidade da mediadora. Não se observa na construção retórica da decisão o nítido abismo linguístico entre profissionais e leigos. ao "governo". ultraespecializada. Eles parecem funcionar na teatralidade da ordem discursiva. O jogo argumentativo. considerada relevante pelas partes. Para o autor. Mas além dos princípios morais e dos elementos formais. As propriedades semântica e moral destas alegorias tornam mais amplo e flexível o campo discursivo deste direito. eles contribuem para criar uma ambiência de oficialidade. ou seja. Eis aqui uma das marcas distintivas do direito interativo em relação ao direito oficial. que se pode fazer circular a palavra. A dissolução deste abismo contribui para minimizar o impacto da diversidade das demandas. uma dinâmica suscetível às influências de discursos afins. por outro. não-profissional. isto é. para a atuação de uma linguagem que emoldurada pelo senso comum. a normatividade desenhada no direito interativo faz uso de outros elementos retóricos com estrutura muito semelhante aos lugares comuns. Como parte integrante da argumentação. e por conseguinte. Ora. aberto e flexível. promovida . Isto significa dizer que as referências constantes aos procedimentos da prática policial podem ser entendidas como dispositivos de recuo e aceleração. uma vez que facilita sua tradução jurídica no interior do fórum informal. nesta linguagem ordinária. é por todos compartilhada. estas insinuações seletivamente empregadas não decidem mecanicamente os acordos. ao mundo público. a serviço da implantação persuasiva da normatividade. assentada na força moral consentida dessas mesmas alegorias. no direito interativo. pois. como válvulas distribuidoras que emprestam múltiplas direções e sentidos à engrenagem discursiva da decisão. engloba a participação de integrantes não-especialistas e os sustenta como sujeitos de seu discursos e intérpretes de seus litígios. Uma outra característica a ser mencionada refere-se ao fato de que neste tipo de campo retórico a palavra é franqueada a todo auditório. na medida em que inscrevem uma moldura institucional que reforça os objetivos conciliatórios e empresta ritmo às linhas do discurso no percurso para a decisão. Ditados populares. É. Na verdade. máximas morais. isto é o mesmo que dizer que a própria constituição do campo retórico é negociada. diminui o grau de institucionalização da sua função jurídica e aproxima os participantes. a estrutura tópico-retórica destes direitos não-oficiais se converte num freio eficaz ao "legalismo"[50]. o uso extensivo de lugares comuns e similares tende a revestir as juridicidades informais de uma coloração ético-social que impossibilita que a cada momento do jogo argumentativo ocorra insulamento ou autonomia da sua dimensão jurídica. exclusivamente referida aos princípios e normas da racionalidade jurídica. trechos bíblicos e demais alegorias enriquecem as performances discursivas da mediadora e dos litigantes. sua vinculação à lei. Por um lado. a ausência de uma atuação padronizada. impessoal. comum no direito oficial[51].No entanto. O modo pelo qual se processa a circulação da palavra torna fluida a rígida divisão do trabalho jurídico oficial. motivam reações e posicionamentos singulares que fazem do processo decisório um discurso aberto e em movimento. Estes artifícios da linguagem ordinária operam simbolicamente como elementos detonadores do discurso. No direito interativo.

Aqui vocês vão ter que conversar feito gente. Aqui parece ser permitido "começar tudo de novo".. etc. tem que ser na conversa. Em certos momentos do jogo decisório não é incomum que a mediadora ou qualquer outro integrante da negociação sente no "banco dos réus" e os demais encenem provisoriamente o lugar de juízes: (. o nome disso é responsabilidade. Este é um dos mecanismos que imprime eficácia aos acordos instaurados entre as partes. construída na negociação. Por oposição à arquitetura discursiva sistemática.. é possível romper fronteiras e visitar províncias consideradas íntimas . eu fui à luta. desse jeito não vai dar para continuar. olha para mim: você acha que eu consegui isto aonde? Só este ano eu ganhei mais 10 Kgs. na medida em que progridem as negociações. O que que vocês estão pensando? Isto aqui é uma delegacia de Polícia! Eu convidei vocês para conversar. Ao contrário. "Agora.. com um ar visivelmente cansado. dorme com uma responsabilidade dessa na cabeça!"[52] De certa maneira. para tudo nessa vida tem um jeito... eu fui buscar.. permite. o produto do discurso e o discurso pretendido pelos atores envolvidos . Suely conclui: "Agora. simultaneamente. pela entorpecentes. eu corri atrás.polícia e litigantes. comigo... Voces precisam é tomar um rumo. Face ao exposto pode-se dizer que no direito interativo a própria "sentença" é também processada..pela linguagem ordinária. assiste-se à confecção de uma retórica jurídica cíclica.se não deu para segurar [o casamento]. o negócio foi partir para outra... encontram uma tolerante e razoável acolhida no interior do direito interativo. Agora.) Problema. a constante relativização dos pontos de vista e a redefinição de posições iniciais. levando a minha vida do jeito que eu acho que tem que levar. levanta-se da cadeira e desfere um soco na mesa.. policial responsável pelo caso e "chefe de secção".Não caiu nada do céu para mim não. Estas inversões momentâneas não parecem colocar em risco o lugar destinado aos participantes.. Eu fui buscar: fiz concurso para polícia e estou aqui.. não. que se deixa invadir pela possibilidade permanente de acidentes de percurso.) A esta altura da audiência. os atalhos. Suely.. isto é. por meio da teatralidade. "voltar à estaca zero" ou mesmo "falar o que ainda não se disse". interrompendo abruptamente a calorosa discussão do auditório: "Parem com essa brigaria. Agora. Note-se que este tipo de artimanha do discurso exerce uma tal força reativa sobre os participantes que. Eu tentei colaborar.. durante o processo decisório. O acordo que dali emerge é.. Eu não fiquei dependendo de homem não. Sabe o nome disso? O nome disso é preocupação.. todos os presentes dramatizam a possibilidade de ser árbitros dos outros e de si mesmos.eu já sou rodada. tem que ter vontade." Dirigindo-se à pesquisadora. Os recuos. à autoridade arbitral.. que continua conferida com seus recursos coativos à mediadora. os desvios de rota.. faz com que no processo de negociação possam ocorrer sucessivas inversões de papéis. Aqui. (. Dificuldade todo mundo passa .. as recusas.. todo mundo tem.. Suely desabafa.Nem homem e nem mulher põe banca na minha frente. Diante de um silencioso auditório..Eu sou policial! Já passei pela homicídios.

desde o início da acareação. mesmo que informal. a adesão irrefletida a esta perspectiva tem provocado erros de avaliação sobre a violência doméstica tanto por parte de certos setores feministas. o suposto "agressor" começa a negociação em desvantagem moral -. os litigantes encontram-se enredados em densas vinculações. códigos. isto é. podem fazer parte da narrativa apresentada sobre o conflito. aos procedimentos e expedientes legais.ou sigilosas em relação. a separação existente no direito formal entre o conflito processado e o conflito real. conduza "naturalmente" a rupturas na ordem da intimidade. é importante observar que os níveis de proximidade e convivência entre os participantes do conflito fazem com que o contexto da decisão incorpore a malha interativa desses atores. Como a litigiosidade envolve atores próximos e afins. no processamento dos litígios. Assim. Esta correspondência pode ser esclarecida quando se observa que na maior parte dos casos atendidos. uma mecânica de concessões e ganhos recíprocos[53]. A primeira vista parece razoável supor que o processamento público de um litígio. avaliações sobre o comportamento sexual dos envolvidos no litígio. etc. ao mesmo tempo. No processo de negociação. Testemunhos da intimidade conjugal. a expectativa de que a formulação pública da denúncia acarretaria necessariamente a cisão radical dos laços de afinidade parece não poder ser generalizada. empobrecida de relações de longa data antagônicas entre familiares. que costuma economizar a expressão jurídica da conflitualidade social. revelações de prazeres secretos. Na prática. testemunhos. vizinhos e conhecidos[56]. Todavia. Entretanto. No campo retórico da decisão. parcialmente. em relações múltiplas onde a continuidade dessas mesmas relações. tanto às regras do mundo legal. O modelo da mediação parece melhor adaptar-se ao tipo de resolução demandado pela clientela que solicita as DEAMs. quanto de algumas policiais das Delegacias da Mulher. quanto aos critérios morais da vida ordinária. A estrutura da mediação acionada inscreve. depoimentos. dramatização de fatos presentes e passados. a intervenção mediadora da autoridade policial aparece como condição de distanciamento necessário e provisório entre as partes e. o acordo processado não se caracteriza como um resultado do tipo soma-zero. encontra-se lugar para que elementos alheios à tipificação do delito sejam incorporados ao processo de decisão. os interesses das partes possam caminhar no sentido da redefinição de pactos domésticos[54]. no jogo argumentativo entra toda sorte de intervenções estranhas ao mundo jurídico formal: flashs da intimidade. tem alimentado preconceitos e posturas conservadoras quanto aos propósitos conciliatórios dos litigantes e das agências mediadoras[55]. como recurso de reaproximação através da redefinição das alianças no interior do processo decisório. pois. recortes biográficos e projetos de vida misturam-se à contabilidade impessoal dos indícios e provas. petições confundem-se com as idiossincrasias da experiência ordinária. provas. em certos momentos. A construção discursiva do acordo não se restringe. E isto de tal modo que o suposto objeto que motivou a queixa se reduz a uma atualização simplificada. É evidente que o tipo de acordo que o direito interativo faz aparecer não resulta da aplicação exclusiva do modelo jurídico da adjudicação. Mesmo que uma das partes possa ser reconhecida. . A capacidade do sistema de mediação informal de assimilar as redes interativas permite dissolver. O desconforto em relação ao fato de que. como mais "vencedora" do que a outra . informações sobre as práticas anti-conceptivas usuais. se impõe como um valor que parece ultrapassar as razões imediatas da denúncia.afinal. as linguagens dos autos. sejam elas estruturalmente conflituosas ou harmônicas.

assim como uma denúncia de espancamento pode se transformar num caso de possessão ou "pertubação espiritual". Para conseguir alguma coisa deles. toda sorte de performances emocionais. são os que mais se destacam na rotina policial. O momento é delicado e sensível: seu ritmo é pontuado pelas desmesuras. Mas. parece maximizar as possibilidades de produzir o acordo final.. da mesma forma que entrega inicialmente o controle do discurso às partes envolvidas no litígio.. As proposições da policial-mediadora não necessariamente . Segue-se que o fato-denúncia tende a ser ampliado. ora da disputa pela posse de bens no interior destas redes de sociabilidade. a conversão da queixa em objeto de conflito é.. ao invés de inviabilizar a desejada conciliação. uma das policiais-mediadoras. Penso que esta forma performática de reconstruir o objeto do conflito. extensão e conteúdo à medida que a negociação avança. o objeto da queixa não é determinado no início da audiência. A demanda das Delegacias da Mulher pode ser ordenada a partir dos tipos de litígios mais frequentes. enfim. mas você se acostuma com o movimento. disputando a atenção silenciosa da mediadora. Este tipo de licenciosidade consentida faz aparecer o campo moral e afetivo da conflitualidade. O que parece ser importante neste primeiro estágio é emprestar voz e propriciar a catarse coletiva. envolvendo sociedades de fato e de direito. ele vai alterando sua forma.* O conflito e o seu objeto. A primeira impressão que se tem é que se está diante de uma ruidosa manifestação babélica incapaz de fazer prosperar qualquer tipo de resolução. objeto de acordo entre os participantes.) "o trabalho não é moleza. De fato. Os conflitos propriamente conjugais. criar um espaço inaugural no interior do campo retórico para a dramatização e o mapeamento das múltiplas alegações que. através da negociação da palavra. você tem que deixar eles desabafarem. preenchendo de intensidade o início do processo decisório. No direito interativo. no jogo retórico. as "crises de nervos". as intervenções da policial-mediadora e dos litigantes podem tanto caminhar no sentido da restrição. quanto da ampliação da queixa inicial. É o jeito deles. ora da ruptura das expectativas em relação à interpretação dos códigos normativos que regem as relações cotidianas. às picuinhas e às acusações. a natureza interativa destes conflitos contagia a mecânica do seu processamento. despropósitos. além das chamadas "brigas de marido e mulher". Na prática. Os ânimos ficam exaltados e todos falam ao mesmo tempo. isto é. Segue-se que.Você tem que ter muito jeito para lidar com os problemas dessa gente. chegando a se confundir com o próprio campo de sociabilidade dos atores: no curso da argumentação. aos choros. do ponto de vista dos atores. já que reconhece as relações e seus atritos como cenário da discussão. o contorno do objeto do litígio se confunde com sua matriz interativa. Durante os trabalhos de mediação uma queixa de "abuso sexual" pode ser convertida numa "história de amor". justificam e conferem sentido às suas hostilidades. tem que fazer eles se acalmarem". Rosane. A sua primeira apresentação pelas partes envolvidas constitui apenas um momento preliminar que marca a abertura das negociações. Ao contrário do que acontece no Fórum Jurídico oficial. as DEAMs atendem àqueles conflitos que emergem. comenta a importância dos momentos iniciais da negociação: (.. Os gritos se misturam às súplicas.

Neide. o que será considerado relevante ou irrelevante no curso da decisão. o jogo argumentativo pode priorizar episódios narrados que.. um episódio vivido num tempo passado (mesmo que narrado com imprecisões) pode ser incorporado como "objeto do processo". incorpora tudo aquilo que é colocado no jogo retórico sem ser dito. não procura a D. Em várias situações pode-se observar que o tratamento do conflito ocupa-se de questões que não foram expostas anteriormente pelas partes. chama atenção para o fato de que este tipo de procedimento se estende àquelas situações vivenciadas antes da instauração do conflito. . Aqui o não-dito adquire um carater normativo. isto é obrigação do marido e da mulher. por conseguinte. testanto o marido da queixante. hesitações. As questões já discutidas podem retornar ao debate. por outro. distribuição e consumo no interior do campo retórico orienta o processamento do sentido das intervenções e os rumos da discussão.)"Tem quanto tempo que o Sr. tem que procurar a D. a princípio. respirações profundas. O Sr. Talvez se possa dizer que o campo retórico da decisão informal possibilita uma espécie de verticalização semântica da cronologia dos eventos acionados: a temporalidade do fato-denúncia é de tal maneira esgarçada que se confunde com a própria biografia dos litigantes[57]. O não-dito é partilhado e manipulado pelos presentes e sem ele a parte visível. com precisão. "tem uma intenção" e. silêncios abruptos. Num certo momento da resolução de um caso de disputa pela posse de bens domésticos. acidentais ou inconsistentes pela mediadora ou pelos participantes. ou melhor. Assim. aos níveis de adesão destes mesmos participantes ao próprio processo discursivo através do qual se desenvolve a negociação[59]. mas trazidas ao debate pela mediadora. Se o mundo jurídico oficial desconsidera formalmente o discurso implícito. comuns ao sistema jurídico estatal. Sua anterioridade histórica em relação à queixa não aparece como razão suficiente para o acionamento automático da prescrição.. que o forum informal das DEAMs faz um uso extremamente flexível dos princípios do "caso julgado" e dos prazos de prescrição. Neide? O casal tem que viver bem. Os fatos passados são. remete para algum lugar.ª está ouvindo D. Contagiado pela linguagem do senso comum. por um lado. a policial Cristina. Observa-se. reaparece na distinção formal entre as questões explícitas e implícitas. Sousa Santos (1988). A Sr. A mesma imprecisão que se faz notar entre as matérias consideradas relevantes e irrelevantes. isto é. De certa maneira. falada do discurso torna-se incognoscível. consentem. foram considerados secundários. aos graus de identificação e proximidade entre os participantes. Ele fala. ao descrever o "direito de pasárgada". tem que ter aquela união. reeincenados. então. censuram. alimentando a dinâmica da produção do acordo[58]. Sua produção. anda comparecendo? O Sr. pois. não se pode observar a existência de um único critério que distinga. Em função do grau de amplitude do campo retórico do processamento informal de litígios. faz a seguinte pergunta: (." Do mesmo modo. reiventados no processo de resolução de conflitos. refletem. Pausas.Neide ? Seu Isaías. quer dizer alguma coisa porque sempre pode haver "algo por trás escondido". E o jogo retórico que daí emerge faz com que a matéria em discussão vá sendo fechada e reaberta. até o final da negociação. o direito interativo delega um lugar estratégico à dimensão implícita das narrativas ali apresentadas.coincidem com as alegações e os interesses das partes e dos demais presentes. se no curso das negociações estas mesmas questões forem consideradas importantes pelos participantes. o fórum informal das DEAMs faz uso dos lugares invisíveis da linguagem. o uso extensivo dos recursos implícitos da linguagem se reporta.

onde faz parte da rotina produzir e "levar . uma reverência à própria palavra negociada. Não resta dúvida que o caráter informal do direito interativo amplia o espaço de argumentação.conforme já afirmei .a Delegacia de Polícia. Tanto as partes quanto a mediadora percebem a palavra escrita como revestida de uma carga maior de compromentimento. segundo os participantes. O formalismo do direito interativo também confirma a relação de assimetria entre a palavra oral e escrita. Tratando da distinção entre as linguagens oral e escrita.estrategicamente acionados como fundamento da decisão. não se observa na variedade de casos atendidos nas DEAMs. Na instituição do direito interativo. ele a elabora de uma maneira peculiar. é evidente que a relevância conferida à palavra escrita encontra-se previamente garantida. segundo a própria dinâmica da negociação[60]. portanto. Ela reforça a ambiência de oficialidade no interior da negociação informal. Para as pessoas que procuram os serviços de mediação a idéia da verdade aparece associada à materialidade dos atos. Se a mediação informal valoriza a oralidade em virtude da sua capacidade de adaptar-se aos diversos tipos de público e demandas. articula-se com a produção da "verdade". Na frente da autoridade policial conta-se "tudo". O forte apelo à "honestidade" da descrição é. O uso genérico destes dispositivos formais ajusta-se à flexibilidade da dinâmica informal do direito ali processado: a falta de cumprimento de uma formalidade ou de um requisito processual não parece prejudicar o jogo decisório. a flexibilidade nos procedimentos. tem-se a impressão que discursam através dos seus protagonistas. A linguagem é o ato e vice-versa: os fatos e as palavras são percebidos como uma mesma e única realidade e. A dimensão acessível de sua linguagem ordinária. Contudo. a palavra não é apenas um substituto instrumental da coisa em si. não aparece como uma entidade abstrata cuja produção é exterior ao que é contado. Ela se apresenta como a própria coisa. ainda que algumas vezes estes mesmos dispositivos sejam . a palavra contém. ela do mesmo modo reafirma a força moral da palavra escrita. Tal como no direito oficial. Assim. ou melhor. A palavra escrita aparece como o lugar privilegiado do registro. uma espécie de exílio da memória que atesta a legitimidade e a suposta "legalidade" do acordo produzido. Sua aplicação varia em função da sua instrumentalidade em cada situação. A verdade. Ela é consequência das exigências normativas internas que vão se definindo no curso do processo de prevenção ou de resolução dos conflitos. O "escrito" atesta o "cumprimento do dever" e o não esquecimento da materialidade e da "verdade" que . uma uniformidade na utilização dos mecanismos formais. os episódios descritos concorrem entre si não como simples versões relativas. isto é. pode-se reconhecer que alguns princípios são por eles compartilhados. ela parece fazer parte da própria narrativa.O revesamento entre as intervenções implícitas e explícitas durante o processamento dos litígios. Em outros momentos deste texto chamei atenção para o modo pelo qual este tipo de juridicidade se apropria das formas e procedimentos do direito estatal. A mediação informal de conflitos ocorre numa agência estatal oficial . Apesar das diferenças existentes entre os direitos oficial e interativo. o direito interativo também se ocupa de construí-la. As cenas relatadas. na verdade. Ao contrário. esta falta de padronização não significa uma abertura retórica para o caos. eles testemunham suas histórias de vida. às vezes. à concreção das histórias narradas. os atores não interpretam. mas entram no jogo retórico como peças concretas que se juntam na reconstituição da realidade. a generosidade na distribuição da palavra permitem uma maior participação na produção do acordo. no entanto. De fato.

carnês da previdência. De todo modo. quanto como signos de distinção e prestígio[65]. os formulários. Todavia o "valor do papel" e sua manipulação pelos participantes adquire um significado bastante singular no rito de acareação. notas fiscais de eletrodomésticos. instituidora de normatividade . a gente não é nada". Às vezes. confundem-se com as certidões e carteiras de identificação oficiais (quando existentes). revela um procedimento singular de ordenação da memória e de diferenciação da identidade no interior do próprio grupo.P.documentos". O "gosto popular" pelos registros. estes "objetos oficiais" anunciam o prévio distanciamento entre a instância policial . por exemplo. Na gramaticalidade do direito interativo o mobiliário. Pode-se argumentar que esta excessiva importância emprestada aos "comprovantes". estes comprovantes adquirem uma força normativa menos em função de seus conteúdos singulares e mais por serem peças escritas e.s[62] são incorporados outros tipos de "comprovantes" que na maior parte das vezes possuem apenas efeito simbólico.e as vontades privadas das partes. Ora.terceira parte. auto-referida substituindo o próprio sujeito. percebidas como oficiais[64]. do plantão de atendimento à carceragem estes objetos se fazem presentes. é importante salientar que esta cidadania atestada pelos papéis além de apontar para a exclusão objetiva do mercado dos direitos. que podem ser classificados como dispositivos promotores de normatividade e enunciadores de conflito. carimbado. fica-se com a impressão de que os documentos constituem uma realidade em si mesma. Além das petições. respeito e consideração[66]. etc. bilhetes. anunciando a manifestação virtual da lei e a pertinência da ordem. Recibos de luz. Além da circulação da palavra. o campo discursivo da mediação de litígios empresta voz aos objetos . ou melhor. A organização administrativa do espaço. Aquilo que é registrado. comprovantes. . dos recursos de dramatização. Isto porque no processamento retórico da negociação. No interior do direito interativo. registros de ocorrência e V. tem que "mostrar os documentos". fotos da família. são interpretados como instrumentos acessórios na geração de ordem. informam que se está diante de uma "Repartição do Governo". certificados. parece adquirir vida própria na medida em que ganha autonomia em relação às vontades ou interesses que lhe deram origem[67]. compondo um vasto leque de "documentos" espontaneamente apresentados pelos litigantes no curso do processamento do conflito[63]. notinhas de supermercado. além de denunciar a vontade de reconhecimento e legitimidade. das alegorias. eles constituem um patrimônio moral que confere ao portador dignidade.I.as "coisas". assim como os elementos que singularizam os usos e sentidos de cada divisão física. etc. os carimbos. rotineiramente. Assim. Os papéis manipulados durante a negociação não se restringem aos documentos oficiais produzidos pela polícia[61]. antigos crediários quitados. as placas indicativas. de uma Agência Pública. etc. Pode-se dizer que a convocação do espaço oficial para resolução de disputas particulares resulta da aceitação desta distância impressa concretamente nas "coisas" que compõem. parece indicar que os "papéis" operam tanto como instrumentos através dos quais as histórias de vida são contadas e contabilizadas. * As Coisas e sua conversa. é uma espécie de reflexo do modo pelo qual a tradição burocrática e autoritária do estado brasileiro tem dialogado com as classes menos favorecidas que. receitas médicas. por isso mesmo. uma delegacia. extratos de poupança. os murais. pois "sem os documentos a gente não faz nada.

entretanto pública da mediação[69]. pois. etc. se forem doações do marido à mulher antes do contrato conjugal. etc.De certo modo estes objetos operam simbolicamente como separadores mecânicos que alertam a clientela de que "dar entrada" na Delegacia significa ultrapassar a esfera da administração privada dos litígios. enfim. salvo exceções previstas na lei. Cumpre observar que a adesão da clientela às regras informais do jogo decisório. retratos da família. estas mesmas parafernálias aparecem como elementos de disputa entre os litigantes. No mundo jurídico oficial estas "coisas" podem ser classificadas como bens antifernais. toda sorte de bens reservados[70] não constituem. pela concordância em relação ao modo pelo qual os conflitos são ali processados. A própria autoridade policial. o enxoval. então. personificação da normatividade solicitada. principalmente. anunciar esta estratégica descontinuidade. É através da disputa pelas "coisas da casa" que os dilemas intersubjetivos e as rupturas de expectativas nas interações cotidianas são. os "livros". a televisão. a água potável retirada do poço. Através destas "coisas" oficiais. experiências. Eles constituem. Observa-se que uma parte significativa dos casos atendidos nas DEAMs dizem respeito à regulação da partilha ou a definição da posse e regulamentação do uso dos bens domésticos. 263 os bens que são excluídos do contrato conjugal. em instrumentos retóricos de negociação que ultrapassam as vontades privadas que lhe deram origem: as situações vividas e narradas no fórum informal migram do controle exclusivo das partes para a dimensão informal. enfim. os papéis timbrados. o gabinete da delegada. o aparelho de som. histórias vividas são metamorfoseados em confissões. na verdade. . aliança de casamento. atestando o deslocamento da ordem privada para a instância pública. deles deve se diferenciar no intuito de executar o arbitramento dos seus conflitos. No interior das redes de sociabilidade os objetos aparecem como a expressão concreta e pontual do litígio. no universo dos litigantes as "coisas" ensejam contendas. o guarda-roupa. por outro lado. Em outras palavras. Se por um lado o Fórum Jurídico das DEAMs é uma espécie de configuração sócio-política das expectativas dos demandantes. é parte deste necessário e desejado afastamento. e por conseguinte. quando adquiridos na vigência do matrimônio e. os objetos oficiais parecem. estabelece no art. episódios descritos. apresentam-se como entidades motivadoras de conflitos na gestão da vida familiar. objetos fomentadores de estranhamento. a mesinha de centro. os brinquedos da criança. objetos de comunhão ou de partilha entre os contratantes. o exercício da mediação pressupõe que este Fórum produza um mínimo de alteridade em relação às partes[68]. petições. o disco do Elimar Santos. As "roupas de uso pessoal". Sua legitimidade para o arbitramento informal está secundada pela referida distância formal da instituição. os carimbos assim como a sala de investigação. bens aqüestos. "instrumentos de profissão". dramatizados. são. o cartório. revela um tipo de identificação entre a demanda e os serviços de mediação cujo substrato é o próprio distanciamento existente entre a instituição policial e os litigantes. Assim. os arquivos. A máquina de escrever. Entretanto. denúncias. bens parafernais se no regime dotal do casamento. a presença virtual do conflito. A geladeira. constituem propriedade da mulher e encontram-se sob sua administração e gozo. Mas se no mundo policial os objetos trazem normatividade. documentos. É importante salientar que a parte especial do Código Civil Brasileiro sobre o "Direito de Família". na maior parte das vezes.

isto é. Nota-se que no seu imaginário a categoria "dever" é substituida pela idéia de "obrigação". pois. A prestação informal de serviços jurídicos realizada pelas DEAMs. Segue-se que. interpretado como uma realidade perene que deve ultrapassar a temporalidade e os riscos das ações individuais. Segue-se que neste tipo de concepção. os desencontros nas expectativas são vivenciados como rupturas de compromissos moralmente assumidos. não é umdireito adquirido e violado que deve ser restabelecido. Na verdade. O mundo das obrigações é. Para a clientela das Delegacias da Mulher. A estabilidade dos bens sugerida pela idéia formal propriedade é. revela um modo singular de aquisição de cidadania. ganhar a vida honestamente. este tipo de percepção retrata o distanciamento de certos segmentos da sociedade em relação ao mercado dos direitos. "tratar bem os vizinhos". Ele é. Simultaneamente concreto e efêmero. Portanto. como algo que previamente se sabe e que. uma expectativa. Esta idéia do direito como emergente do jogo conflituoso parece indicar que ele é não só um "bem" a ser adquirido. ao trazer as disputas . etc. O mundo das obrigações é. é também aqui que se pode gerar conflitos. orienta a convivência social: deve-se "honrar a palavra". Ele é percebido como um patrimônio coletivo. pretendido e partilhado assim como o fogão. disputado. precisamente. Observa-se que as disputas. As obrigações são uma espécie de repertório de juízos pragmáticos que. o direito de todos é uma realidade a ser conhecida. o liquidificador. primeiro precisa ser concretamente estabelecida. através das disputas pelas coisas podese observar o modo pelo qual os litigantes constroem sua percepção sobre o "direito". Se por um lado. Se a ordem política estatal concebe o cidadão como sujeito de direitos. anel de noivado. a percepção ordinária daqueles que freqüentam fórum informal das DEAMs revela que esses direitos não aparecem como um atributo inalienável dos indivíduos. Numa relação de complementaridade com o mundo das obrigações. a percepção dos direitos aproxima-se do destino conferido aos objetos domésticos: os direitos solicitados podem perecer. por outro lado. portanto. O direito que se institui no fórum informal possui uma natureza interativa na medida em que é instituído através da negociação entre os participantes.Pode-se dizer que as "coisas" da vida doméstica ocupam a centralidade do discurso daqueles que procuram os serviços de mediação das DEAMs. Este modo de interpretar o direito emerge de uma realidade que parece estruturar-se na precária e frágil imagem da posse. por isso mesmo. um conjunto de premissas morais cujo conteúdo tende a ser naturalizado na prática da experiência interativa. "servir o marido". etc. "chegar junto". com base neste "mundo das obrigações" que os contratos sociais são efetuados e cumpridos. a ser instituída no ato mesmo da negociação ou no restabelecimento das obrigações. os "direitos" são percebidos como entidades tão provisórias e vuneráveis quanto as coisas colocadas em disputa. o direito aparece transvestido nas próprias coisas. Ora. perder a serventia ou simplesmente mudar de dono[71]. É. e sim as chamadas "obrigações" firmadas. a princípio. os litígios. portanto. ser bom marido. no universo dos litigantes. como também objeto de acordo no processamento dos litígios. ser boa mãe. dispensa ser formalmente conhecido. isto é. isto significa dizer que o "estado de direito" tal como é definido pelo mundo da legalidade é reconhecido como uma demanda que antes de ser restaurada.

de alguma maneira. reversível e extremamente seletiva. a incorporação da malha interativa na definição do litígio. . Nota-se. Teresa. no exercício extraordinário de funções judicantes.A Política dos Outros: O Cotidiano do Moradores da Periferia e o que Pensam do Poder e dos Poderosos. Walter P. As Delegacias da Mulher. está. etc. 10ª edição. que os mecanismos de resolução dos conflitos acionados no direito interativo. Os trabalhos de mediação.O Processo Penal. a normatividade construída no ato mesmo do processamento dos litígios. Relume Dumará.de interesses para esfera pública. são algumas das características do discurso jurídico processado nas DEAMs. Rio de Janeiro. O campo retórico estruturado na linguagem ordinária. * Bibliografia. Conforme foi demonstrado. O direito instituído na reunião das partes. 1974 . da necessidade premente de se viabilizar um acesso democrático à justiça no Brasil. Ed. subordina a utilização dos princípios jurídicos formais às necessidades do jogo argumentativo. como fórum jurídico. Acosta.Sobre Violência. a baixa especialização jurídica dos policiais em relação aos litigantes. encurtando a distância existente entre a legalidade e os interesses dos demandantes. na prática policial. Guardadas as devidas cautelas. a participação ativa do auditório no processo decisório. assim como a presença de um padrão de arbitramento centrado na mediação das partes aproxima o "ilegal" Fórum Jurídico das DEAMs do tipo de prestação jurídica oferecida pelas "Juntas Conciliatórias" oficiais. constitui uma valiosa demonstração. este direito faz um uso intenso e complexo da prática jurídica oficial. Arendt. uma tarefa pedagógica que se desdobra em duas direções: o fórum das DEAMs transpõe para o mundo jurídico os conflitos. assim como outras experiências não-oficiais. então. Ed. Acosta. 1994 . A informalidade resultante destas adaptações nos expedientes formais. fazem aparecer um tipo de "legalidade" cuja característica básica é a constituição de uma oferta de serviços jurídicos compatível com as singularidades da demanda. Ed. Caldeira. *** As atividades das DEAMs. Rio de Janeiro. não parece constituir uma juridicidade paralela ou uma declarada recusa à ordem legal. revelam uma dinâmica flexível. São Paulo. consistem na ratificação de acordos estabelecidos entre as partes e na resolução das disputas ou litígios emergentes. Brasiliense. ao mesmo tempo que traduz para os litigantes as normas e princípios do mundo legal. Hannah. aconselhamento e conciliação das partes constituem. Ainda que distinto. 1984 . Walter P. é possível afirmar que a eficiência das atividades de conciliação desempenhadas pelas Delegacias da Mulher.

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Estou sendo_______________pelo Sr. telefone__________. faz parte da linha de pesquisa sobre Violência e Criminalidade do Núcleo de Pesquisa do ISER. nacionalidade___________. ._____ de ____________ de 1994.(a)_________________________________telefone_____________________________ Residente_______________________________________________________________ Sr. profissão_____________. Venho expor a V. Luiz Eduardo Soares. Márcia Skaba e Patrícia Teixeira.Sª e ao final requerer providências. nascido em ___________. nº de identidade_____________. coordenada pelo professor Dr. residência___________________. Eu. telefone__________. nas Delegacias. endereço do trabalho_____________________. ________________. Registro nossa gratidão pela generosidade das Delegadas e demais funcionários que. [1] A pesquisa que resultou na elaboração deste texto. prestou informações e nos introduziu a seus respectivos arquivos. Idade_____. natural do________. filha de ________________e ______________________.Modelo de Petição ILMª DRª DELEGADA DA DEAM-NITERÓI. por ser pobre.Nacionalidade__________. PETIÇÃO____________913-02/94. profissão___________. telefone________. Estado Civil ___________. Luciana Villela. filho de ____________________e______________________. endereço do trabalho___________ ___________. residente_______________________.(a)__________________________________telefone__________________________ Residente_______________________________________________________________ Declaro não possuir meios para prover a custas do processo._________________________. nº de identiadade_______________. Sua supervisão foi realizada pela Antropóloga Barbara Musumeci Soares e contou com a participação das pesquisadoras Bianca Freire. nos recebeu. nascida em_________. pelo seguinte fato:____________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ TESTEMUNHARAM O FATO: Sr.EstadoCivil_______________. Idade_____. Niterói. telefone__________.

Realizamos também uma aproximação comparativa destes dados com as informações nacionais reunidas pela C. XIX as pessoas acusadas de determinados crimes eram submetidas a uma modalidade especial de julgamento no Brasil. No período de setembro de 1993 a fevereiro de 1994. em janeiro de 1994. a sofisticação tecnológica. arts 121 e 122). Contudo. O trabalho procurou combinar os procedimentos tradicionais de análise quantitativa com as técnicas de investigação qualitativa. que favorece uma das partes com exclusão das restantes. [10] O Código Penal ainda em vigor no Brasil é um Decreto-Lei do Estado Novo . Tanto Luciano de Oliveira (1984) quanto Kant de Lima (1994) observam que os bordões da polícia são extraídos do "imaginário popular" e promovidos a categorias classificatórias da ação policial.[2] A Pesquisa sobre Violência contra Mulher foi desenvolvida no âmbito do Núcleo de Pesquisa do ISER . A pressão dos índices de criminalidade e suas novas espécies. foi realizado um levantamento dos Relatórios Mensais das Atividades das DEAMs/RJ e uma pesquisa por amostragem nas "fichas de atendimento" referentes ao ano de 92.P. foram registradas 48 histórias de vida através de questionários abertos. 1993. [5] Para as chamadas camadas populares a polícia se constitui na autoridade local conhecida. a rejeição social dos apenados e seus reflexos no incremento da reincidência. parágrafo 2 e 7. que altera a fisionomia da criminalidade contemporânea.209 de 11-7-1984. além dos depoimentos informais. 1974:22. Em julho de 1993." [13] Sobre os Movimentos Críticos do Direito e as iniciativas de informalização da Justiça no Brasil. O recurso formal ao conjunto de sentenças transitadas e julgadas pelos Tribunais Superiores às questões de direito é conhecido no mundo jurídico como "Jurisprudência". [4] Durante o trabalho de campo. O código Penal Imperial de 1832 atribuía o julgamento desses crimes . a equipe realizou visitas semanais regulares nas duas Delegacias selecionadas para o trabalho de campo. A síntese apresentada neste texto foi inspirada no diário de campo da assistente de pesquisa Márcia Skaba. de 7 de dezembro de 1940. Este dispositivo permite a interpretação reiterada de casos concretos submetidos a julgamento. A segunda etapa deu seqüência ao trabalho de mapeamento das fontes e incluiu incursões ao campo. abre espaço formal para que decisões judiciais anteriores reiterem futuras decisões. ver Nader. Lei nº 7. do total de pessoas que estiveram envolvidas em conflitos nos últimos cinco anos. [12] Na "Exposição de Motivos da Nova Parte Geral do Código Penal". a legislação penal continua inadequada às exigências da sociedade brasileira. [3] Esta história foi coletada na DEAM Caxias. Este primeiro esforço de sistematização das fontes disponíveis resultou na publicação do relatório "Violência contra a Mulher: levantamento e Análise de dados sobre o Rio de Janeiro em contraste com Informações Nacionais". Nesta primeira etapa.848. [14] A arbitragem policial representa ainda uma atividade tradicional da polícia brasileira.juntamente com prostituição e desordem . na reforma processual que reforçou o papel da polícia no sistema judicial. designa um sistema de decisão que se caracteriza pela imposição de uma determinação. Confira Sousa Santos (1988).I da Violência contra a Mulher e as tabelas produzidas pela PNAD-1988 sobre vitimização. Mas a proximidade da políciacom a população pobre pode ser compreendida pelo fato de que muitos policiais são provenientes dos setores pobres e parecem estar mais próximos do modo pelo qual eles interpretam e resolvem seus conflitos. ver Junqueira . . em seu sentido técnico. [7] A respeito da mentalidade jurídica no Brasil e sua lógica em uso. [8] É importante salientar que a própria legislação brasileira dispõe de instrumentos legais para resolver as falhas e lacunas existentes no tratamento objetivo da lei. Para uma discussão sobre as Fontes do Direito e a interpretação das lacunas e falhas do Direito objetivo. normativamente fundada. demos início às nossas atividades de pesquisa.ao juiz de paz (art. a constância da medida repressiva como resposta básica ao delito. ou seja. Um desses crimes era a já mencionada vadiagem. 1988. hoje classificada como contravenção penal pela legislação brasileira. [9] O termo adjudicação.Decreto-Lei nº 2. "Desde o séc. O código Penal Imperial de 1830 arrolava tanto a mendicância quanto vadiagem como crimes (arts. 45% entraram com ação judicial e 55% não utilizaram a justiça. 295 e 296). no Brasil . são fatores que exigem o aprimoramento dos instrumentos jurídicos de contenção do crime. confira Junqueira. [11] Ver Acosta. [6] O suplemento especial "Justiça e Vitimização" da PNAD-88 revela que. o então Ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel reconhece no 5º parágrafo que : "Apesar desses inegáveis aperfeiçoamentos. ainda os mesmos concebidos pelos juristas na primeira metade do século. Nas situações consideradas atípicas a justiça pode fazer uso das fontes indiretas (costumes e doutrina jurídica) para proferir sua decisão. 1993.12.

Este sistema é composto de um inquérito policial preliminar que pode ou não ser incorporado ao inquérito judicial ou processo. arts. das cinco delegacias especializadas: 1986* 1987** 1988 1989 1990 256 960 833 738 1072 * ano de implantação da DEAM Centro-Rio. 1994. estupro. 1991*** 1992 1993 1155 1696 1809 *** ano de implantação das DEAMs Nova Iguaçu e Campo Grande. parágrafo 4. A "Exposição de Motivos" da referida legislação justifica a necessidade do sistema de duplo inquérito esclarecendo que a proximidade e o possível comprometimento emocional com os crimes apurados possibilita erros na avaliação policial que devem ser corrigidos pelo judiciário. na prática. no estado do Rio de Janeiro. com atuação restrita ao Município de Niterói. É o caso dos "Crimes de Ação Penal Privada" onde o processamento da ação depende da iniciativa da parte que se considera lesada. Regulamento 120. [24] Pode-se imaginar que se todos os casos que chegam às delegacias fossem submetidos a rigorosa . aborto provocado por terceiro. quando os interesses são considerados "privados.A DEAM-NITERÓI. [15] No mural da DEAM-NITERÓI criada em 1987. [21] A restrita liberdade de atuação dos juízes criminais dificulta a aplicação de "penas alternativas". porque "aqui você trabalha muito e não vê o resultado". Para uma apreciação histórica das perspectivas feministas ver Grossi. os crimes de lesão corporal (dolosa). * 2º. rapto. maus tratos. [22] O Código de Processo Penal de 1941. 31 de dezembro de 1842)" ( De Lima. A distribuição destes inquéritos numa série histórica oscila segundo o ano de implantação. restabelece o sistema de duplo inquérito instituído pela primeira vez no Brasil em 1870 . atentado violento ao pudor. remeterão à DEAM-NITERÓI cópia dos Registros de Ocorrência dos casos verificados na respectiva circunscrição envolvendo ofendida. foram instruídos um total de 8. a decisão reduz-se a uma questão de autoridade e não de regra.3. sedução." [16] A clássica crítica feminista às DEAMs consiste na alegação de que estas delegacias se distanciaram de sua vocação e se transformaram num "consultório sentimental". ameaça. para controle e análise dessa unidade especializada. abandono de incapaz. Os Titulares das unidades policiais sediadas no Município de Niterói. 4 . sequestro e cárcere privado e realizará todas as medidas de polícia judiciária pertinente. Observe que este tipo de sistema viabiliza. nestes oitos anos de atuação das Delegacias da Mulher. ainda em vigência. [18] Durante o trabalho de campo era comum ouvir toda sorte de observações sobre a "Delegacia da Mulher". concorrentemente com as Delegacias Policiais sediadas no aludido Município. 1994. até o dia 25 de cada mês. corrupção de menores.519 inquéritos. o "Boletim de Serviço" informa: "Art. [17] De acordo com as informações coletadas nos Livros-Tombo. isto é. conhecerá. a competição entre as fontes pela melhor verdade. ** ano de implantação das DEAMs Niterói e Caxias. Como parece não existir um conjunto de regras que possa decidir onde está a verdade.esses crimes passaram a ser julgados pela polícia (art. Para uma rica análise histórica das atribuições judiciárias da polícia brasileira ver Lima. constrangimento ilegal. [23] Oliveira (1984) e Kant de Lima (1994) apresentam uma valiosa contribuição sobre paradoxos e contradições existentesentre a lógica-em -uso na justiça e os procedimentos policiais. Segundo certos policiais "ficar ali era um castigo" para aqueles que não tinham prestígio dentro da corporação. mas deveria também "ser feito por assistentes sociais e psicólogas". [20] Segundo a legislação criminal o acordo só é legalmente permitido em situações específicas. 111 e 193. Já para uma boa parte das policiais o "trabalho é bonito e de responsabilidade". [19] A história das "Cinco latas de Leite" é um bom exemplo deste tipo de resolução. 1994:99).

[39] Esta história foi editada a partir do diário de campo da assistente de pesquisa Patrícia Teixeira. Alguns demonstravam uma certa vergonhaquando perguntados sobre suas remunerações. [36] Para Roberto Da Matta.NAIR. [34] A privatização de conflitos e o uso informal de recurso coativos são também encontrados nas relações de trabalho no mundo rural. tais como vestuário. em contextos e momentos distintos. "Structure and Function in Primitive Society" de Radcliffe-Brown. na relação entre justiça e sociedade. através de outros indicadores. caracterizá-los como provenientes das "camadas populares". resguardando as possíveis imprecisões. "Justice and judgment among the Tiv" de P. para sistematizar a sua proposta de um humanismo dialético. ou seja. "Crime and Custom in Savage Society" de B. De todo modo. linguagem. [27] A bibliografia antropológica sobre formas não-ocidentais de decisão de conflitos é razoavelmente extensa. [32] Santos. [33] Uma parte significativa dos litígios processados nas agências policiais e societais referem-se a conflitos de natureza civil. a vida social é também composta por ações coletivas. o Brasil vive uma espécie de dilema estrutural entre as éticas igualitária e hierárquica que favorece a produção de um "espaço social relacional" através da interpenetração das ordens pública e privada. "The Nuer" de Evans-Pritchard. isto é. a diferentes espacialidades e temporalidades a que os sujeitos estão submetidos. fundador da Nova Escola Jurídica Brasileira . a teoria do direito brasileiro. para o modelo liberal clássico. das organizações criminosas que. um dos grandes desafios é procurar entender porque o sistema jurídico não tem se mostrado capaz de monopolizar a produção. ainda não incorporou as transformações ocorridas no próprio pensamento liberal. . [37] Luciano de Oliveira (1984) observa que. do "coronelismo". [38] Raríssimas vezes os litigantes respondiam com precisão sobre sua renda. o da produção. Este conceito é pensado a partir da definição de quatro eixos básicos de produção formal de direito: o universo doméstico. Ela foi construída por Roberto Lyra Filho. [26] Lima.obediência da lei . [25] Junqueira. 1994. Se. herdeira da tradição liberal clássica. [30] A expressão Direito Achado na Rua. uma filosofia jurídica que permita transformar o direito em instrumento de libertação. "The judicial Process among the Barotse of Northern Rhodesia" e "Law and Ritual in Tribal Society" de Max Gluckman. isto é. [28] Este parece ser o caso dos poderes paralelos do jogo do bicho. além de indivíduos existem grupos distintos competindo por recursos escassos. Todos eles correspondem a quatro modos de legalidade. em seu livro "Razões da Desordem"(1993) realiza uma rica análise sobre os altos custos de participação política-social no Brasil e o consequente acesso desigual ao mercado da cidadania. [35] Ver Soares (1993a e 1993b). 1993. distribuição e circulação do direito na sociedade brasileira. comportamento. [31] Segundo Junqueira (1993). etc é possível. É neste sentido que o autor faz uso da noção de interlegalidade. a sociedade é constituída somente por indíviduos com suas carências e interesses. ambicionam concorrer com a ordem pública. do "patronato". Parte expressiva das pessoas que procuram às DEAMs pertencem ao mercado informal. [29] Boaventura de Sousa Santos (1988) adverte sobre a existência de vários pólos de produção jurídica à medida que se adicionam novos contextos. seria materialmente e politicamente impossível o já sobrecarregado sistema jurídico resistir à falência. na perspectiva "neoliberal". refere-se às normatividades produzidas por grupos sociais marginalizados. o da cidadania e o global (mundialidade). Bohannan são apenas algumas das obras dedicadas ao estudo da realidade jurídica das sociedade "exóticas". Malinowski.

previamente definido por lei como delito. enquanto a polícia convida as partes a prestarem esclarecimentos. "Tipificar" consiste em ajustar o fatos trazidos ao conhecimento policial a algum tipo legal. [52] Trecho de uma acareação. um convite da polícia adquire a força de uma ordem judicial. petições. Para o autor. Segue em anexo o modelo da petição utilizada na DEAM-NITERÓI. etc. [49] Certamente esta discussão acerca da retórica ordinária. realizada pelo marido "viciado em cachaça". . mais propriamente.[40] As policiais das DEAMs preferem utilizar o termo técnico "parte" do que os qualificativos "vítima" e "agressor". da antiga ficha de atendimento (suprimida em algumas delegacias no 2º semestre de 93) pressupõem que o agressor seja homem e que seja conhecido da vítima. a "petição" só se faz necessária nos casos de ação privada. "as delegacias da mulher são uma fachada". tal como me foi sugerido pelo Prof. reduzindo-os a um número de parâmetros bem definidos. [54] Esta possibilidade de interpretação foi incialmente apresentada por Soares (1993a)." evidenciam o modo pelo qual o conflito será processado. a justiça ordena o comparecimento no tribunal. em função do alto grau de especialização e das complexas conceitualizações. [43] Conforme já foi mencionado. o legalismo é uma espécie de efeito perverso da excessiva especialização das funções jurídicas. [44] As notificações policiais são chamadas de "convites". O motivo da queixa consistia na venda da "geladeira das crianças" para um vizinho. [46] É comum estas audiências acontecerem antes do registro de qualquer ocorrência policial de natureza criminal. [47] No final das negociações. o plantão de atendimento funciona com dois policiais .só permanecerão arquivados mediante cumprimento do acordo. etc. Pode-se dizer que a queixa proferida não se reduz a apresentação de um delito. registros. a "Ideologia do Legalismo" consiste na emergência de uma forma arbitrária de eliminar a complexidade moral e social dos conflitos. As delegadas e as policiais alegam que a presença masculina no atendimento "ajudar a impor respeito". um breve histórico do litígio e uma declaração de que a parte ofendida não tem recursos para custear uma futura ação judicial. tem o seu direito também" ou "isso aqui é uma delegacia da mulher. o que parece não acontecer no caso da notificação policial. a classificação técnica das denúncias é chamada de tipificação. a linguagem jurídica oficial costuma ser interpretada pelo senso comum como uma linguagem indecifrável. [45] Em todas as delegacias de mulher. Elas esclarecem que enquanto o termo "parte" é um atributo neutro. os "papéis voltam a correr". a policial-mediadora costuma informar aos participantes que as fichas. mas eu estou disposta a ouvir o Sr. Na petição devem constar os dados da "vítima" e do "agressor". [53] Certas assertivas como "nós estamos aqui para defender a mulher. sobretudo. mas o Sr. Acompanhando mais de perto a sociologia das policiais. assim como na própria instrução do inquérito. Ao contrário. para os litigantes. Não se pode deixar de comentar que o modelo da petição e. [48] História baseada no material de campo de Bianca Freire e de Patrícia Teixeira. as palavras "vitima" e "agressor" sugerem uma versão dos fatos que pode não ser a verdadeira . realizada em Niterói. [51] Lembro que. A tipificação pode se alterar no curso da investigação policial. Na fala dos informantes o sentido desta categoria é acionado com relação à veracidade das histórias narradas. [42] O termo "materialidade" pertence ao bordão jurídico-policial e se refere à avaliação policial sobre a consistência e objetividade das provas e indícios sobre o ocorrido. Entretanto. [50] Segundo Sousa Santos (1988). [41] Segundo as explicações que me foram fornecidas. Note-se que a rede de sociabilidade é acionada no discurso dos informantes como o lugar do conflito. Luiz Eduardo Soares. Esta distinção se justifica pelo fato de que o não atendimento à intimação do juiz pode ocasionar consequências legais.. o que parece ser denunciado é a própria história de vida. Uma vez rompido o pacto estabelecido. à idéia de inclusão numa rede de relações. sua gramaticalidade e estratégias discursivas pode tornarsemais rica e complexa quando incorporar a perspectiva hermenêutica. Assim. observa-se que a idéia de parte remete à imagem de pertencimento ao todo e.uma mulher e um homem. [55] É comum nos meios policiais ouvir comentários jocosos tais como "as mulheres gostam de apanhar". "elas vem aqui dão trabalho e depois retiram a queixa". Dr.

Estes ritmos são como bússolas de condensação. [59] Não se pode deixar de comentar que o imaginário policial confere um expressivo destaque à face oculta dos discursos. o direito interativo não destróiintegralmente a distinção entre objeto real e objeto processado. um número significativo dizia respeito a relações cujo tempo de existência ultrapassava cinco anos. "Eu vou te dar esse direito".25% não tem cadastro de pessoa física -CIC. a respeito do surgimento da escrita faz o seguinte comentário: "Aparentemente parece que a sua aparição não deixaria de determinar modificações profundas nas condições de existência da humanidade. conforme as necessidades argumentativas da mediadora. etc. 36. e que essas transformações deveriam ser principalmente de natureza intelectual. A posse da escrita multiplica prodigiosamente a aptidão dos homens para preservarem os conhecimentos.com idade igual ou superior a 18 anos. presente no direito estatal. da população de mulheres residentes na região sudeste. 68. Durante o processamento do litígio observa-se a constituição de direfentes ritmos. [67] Levi-Strauss (1986: 295). por exemplo. uma vez que concebe a realidade como repleta de regiões secretas e práticas escondidas.. Concebê-la-íamos de boa vontade como uma memória artificial. esta distinçãopode ser acionada. 13.21% não possui carteira de identidade. [61] Estes documentos nem sempre se fazem necessários para dar início ao processo de resolução de conflitos. são extremamente comuns durante a negociação. 28. como também a baixa especialização dos atores institucionais. a indicação do xadrez. "vale o escrito". "Dos Direitos da Mulher". [68] Não se pode deixar de comentar que estes movimentos de aproximação e afastamento dizem respeito ao fato de queneste tipo de processamento informal de litígios constata-se não só o uso não exclusivo da tecnologia conceitual específica do mundo jurídico. [64] Este "gosto" pela oficialidade dos papéis talvez possa indicar uma espécie de crença na figura do contrato e um desejo de conferir legalidade aos acordos informais.I é o primeiro trabalho de investigação chamado "Verificação de Procedência de Informação". "Eu estou no meu direito. o revólver. cujo desenvolvimento deveria ser acompanhado por uma melhor consciência do passado. [71] Espressões como "Esse direito é dela". [62] Na rotina policial. redefinição e distribuição das múltiplas intervenções feitas pelos participantes ao longo da negociação. 43. [57] Apesar da ausência de rigidez na qualificação das matérias ao longo da negociação.69% não possui conta bancária. etc.56% não possui certidão de nascimento. [65] Com razoável frequência os litigantes relatavam que certos documentos como certidões de nascimento e casamento eram plastificados. [58] Um ponto importante a ser ressaltado é a articulação entre os discursos explícito e implícito. [66] No universo popular outras práticas valorizam a palavra e seu registro. [70] Segundo o Capítulo III. pertencem a um conjunto de medidas normativas utilizadas teatralmente para desmantelar os jogos de poder interno aos participantes. [69] Observa-se que as coisas geradoras de normatividade fazem parte dos dispositivos coativos acionados no processamento do conflito." . No jogo do bicho.76% não tem carteira de motorista. portanto. O borrão para "fichar".   .54% não tem título de eleitor.24% não tem carteira de trabalho e 82. "Esse direito aí é meu". por exemplo. a qualquer momento. Mesmo relativizada. a V. emoldurados e pendurados na parede. 24. [60] Estes elementos estão a serviço da implantação persuasiva da normatividade. por uma maior capacidade para organizar o presente e o futuro". entende-se por bens reservados o produto do trabalho exercido e os bens com ele adquiridos.P. que marca a temporalidade interna do jogo argumentativo. [63] Segundo o levantamento da PNAD-88. o reforço da autoridade policial.[56] Do conjuto de histórias de vida coletadas nas DEAMs.