You are on page 1of 26

O PERFIL DO ADOLESCENTE INFRATOR EM CHAPECÓ-SC

Viviane Cezimbra Balen Pós-Graduanda em Direito Trabalhista e Previdenciário da Faculdade Exponencial – FIE Graduada em Direito Rodrigo da Costa Vasconcellos Professor da Faculdade Exponencial - FIE Mestre em Desenvolvimento Regional. Especialista em Direito Imobiliário. Graduado em Direito

RESUMO Este artigo é oriundo de uma pesquisa realizada no ano de 2003, que teve por objetivo analisar o perfil social, econômico, psicológico e familiar dos adolescentes autores de atos infracionais residentes no município de ChapecóSC,quando da prática do ato, para se detectar as causas de tal delinqüência, obtendo como resultado, uma redução de sua incidência e possível e subseqüente contribuição à sociedade local. Analisou-se o perfil social, econômico, psicológico e familiar dos adolescentes infratores residentes no município de Chapecó-SC, através de pesquisa de campo realizada no Centro de Internação Provisória – CIP e no Centro Educacional Regional – CER, ambos neste município.Constatou-se que nos Centros de Internação e Educação, somente em nível teórico, o Estado cumpre com sua função, ao fornecer condições mínimas e físicas – assistência médica, psicológica, educacional e vocacional – ao adolescente internado, tornando-se indigente no que se refere ao desenvolvimento de ações que visem o aprimoramento do crescimento moral dos jovens infratores. Evidenciou-se que o adolescente em análise traz consigo uma carência afetiva muito grande, adentra no mundo das drogas relativamente cedo, tem pouco estudo, suas condições financeiras são escassas, residindo em bairros humildes e violentos, porém em uma residência relativamente boa, além de não apresentar problemas físicos, mentais ou psicológicos. Palavras-chave: Perfil, Adolescente, Infrator. 1. INTRODUÇÃO Hodiernamente, uma das causas que mais assombra os povos é a violência cotidiana mundial – de maneira não aprazível, já rotineira. Além de originar assombro, traz ainda consigo um sentimento de insegurança e surpresa à sociedade quando é cometida por seres humanos em desenvolvimento, de doze, treze ou quatorze anos de idade. A consagração dos direitos da criança e do adolescente em nossa legislação pátria é oriunda de uma positiva evolução histórica ocorrida mundialmente, ao longo do tempo.

2

Antes dessas substanciais modificações sociais ocorrerem, a criança e o adolescente eram tidos como objetos de direito e não como sujeitos do mesmo. Destarte, enquadravam-se como seres incapazes. O primeiro grande marco concedente de direitos fundamentais à criança e ao adolescente foi a Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de outubro de 1988, a qual acolheu a doutrina da proteção integral, em seu artigo 227. Como o referido artigo se tratava de uma norma constitucional de eficácia contida, necessitando de regulamentação específica complementar, adveio para consagrá-lo o Estatuto da Criança e do Adolescente, através da Lei n. 8.069/90. O Estatuto da Criança e do Adolescente, como concessor de direitos, também os retém à medida que a legislação penal é infringida. A esse adolescente em conflito com a lei, cabem as chamadas medidas de proteção e/ou medidas sócioeducativas. E foi com o intuito de contribuir para o decréscimo da delinqüência juvenil, trazendo suas causas e efeitos, que se pretendeu realizar o presente estudo. A presente pesquisa buscou conhecer o perfil do adolescente infrator em Chapecó-SC, nas quatro esferas supra referidas, trazendo, ainda, possíveis ações vindouras à sociedade que ensejem uma melhoria na ressocialização e desenvolvimento moral desses jovens, sujeitos de direito. 2. DOS ATOS INFRACIONAIS Aspectos Históricos do Ato Infracional no Brasil Primordialmente, urge a necessidade de se conceituar duas palavras de extrema importância para a realização da presente pesquisa: adolescente e infrator. O Dicionário Larousse da Língua Portuguesa conceitua como adolescente aquele que está na adolescência; aquele que se encontra no período intermediário entre a infância e a idade adulta, caracterizado pela maturidade genital e por uma nova interação do sujeito consigo mesmo e com seu meio social1. E, infrator, aquele que infringe, transgride; que viola, que não respeita2. O Estatuto da Criança e do Adolescente, obra sagrada dos direitos e deveres da criança e do adolescente em nossa pátria, conceitua como ato infracional toda atitude tida como crime (Código Penal) ou contravenção (Lei de Contravenções Penais), praticada pelo adolescente entre 12 e 18 anos de idade. A primeira menção que se tem em nosso país sobre os atos infracionais data de 1830, do Código Penal Imperial, que considerava os menores infratores entre 14 e 18 anos como criminosos. Os mesmos somente tinham como benesse, sua pena atenuada. Até aquele momento, os menores de 14 anos eram inimputáveis. Todavia, predominava a Teoria da Ação com Discernimento3. A imputabilidade estava baseada na condição pessoal de maturidade do agente frente ao ato ilícito praticado,

1 2 3

LOVISOLO, Helena et al. Dicionário língua portuguesa. São Paulo: Nova Cultural, 1992, p. 22. LOVISOLO, H. et al. Idem, p. 630. Se tivessem cometido o ato com total conhecimento da sua natureza ilícita, poderiam ser encaminhados até a presença de um magistrado, que solicitaria internação na Casa de Correção, respeitando a idade limite de 16 anos.

Aqui. Em 5 de janeiro de 1921. Acesso em: 24 janeiro 2003. considerando-os como sujeitos de direito. em Breve Histórico da Evolução dos Direitos à Cidadania das Crianças e dos Adolescentes no Brasil4. . moral e intelectual. através da Lei n. urgiu a necessidade de criação de instituições governamentais que proporcionassem educação moral e escolar. com o golpe de 1964. Breve histórico da evolução dos direitos à cidadania das crianças e dos adolescentes no Brasil. Esse Código conseguiu amalgamar leis e decretos que desde 1902 tratavam da questão do menor de idade. como reza seu artigo 208. o surgimento e/ou crescimento de uma delinqüência juvenil. Assim como o Direito.O maior de todos os avanços foi o fato de ela deixar de considerar a criança e o adolescente como menores. Disponível em: <http://buscalegis. fundamental e gratuito para todos. O Estado deveria disciplinar. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 teve grandes significações em termos de direitos sociais. compreendido entre 1889 até 1964. Em seu artigo 138. a visão do Estado pelo menor abandonado e infrator brasileiro passa a ser outra. 4 VERAS NETO. de 12 de outubro de 1927 criou o primeiro Código de Menores do Brasil e da América Latina. A primeira preocupação fática com a situação da criança órfã ou abandonada no Brasil surge no período chamado de filantrópico-científico-higienista. ela preceitua que incumbe à União. acabou sendo omissa quanto à situação da infância e juventude. que acabou por considerar o menor infrator de 14 anos como inimputável. aos Estados e aos municípios amparar a maternidade e infância e proteger a juventude contra toda exploração. conforme seu artigo 23. caput. como consta na redação do artigo 227.br/>.ufsc. O Decreto n. 17.943-A. afastou-se a Teoria da Ação com Discernimento. bem como contra o abandono físico. evitando. reprimir e reeducar para que ela não se tornasse um elemento de oposição contra o sistema democrático capitalista. A primeira Constituição republicana e brasileira a mencionar questões vinculadas à infância e juventude foi a 3ª Constituição Brasileira. bem como ensino obrigatório. todos os outros segmentos de uma nação passam a ser reflexo dos acontecimentos históricos nela ocorridos.ccj. deixando margem para que se criasse uma legislação específica para tratar dos menores que realizassem condutas ilícitas antes dessa idade. associado aos ideais positivistas republicanos de Marechal Deodoro da Fonseca. garantindo à criança e ao adolescente a idade mínima de 14 anos para ingresso no trabalho. O enfoque dado: questão de segurança nacional. 2000. apesar de ser oriunda do período filantrópico-médico-higienista.242. alimentação e capacitação profissional para a criança.848. Em seu artigo 228 traz a inimputabilidade penal para os menores de 18 anos. 2. destarte. 4. ficando os menores de 18 anos sujeitos às normas estabelecidas em legislação específica. datada de 16 de julho de 1934.3 segundo Veras Neto. e não mais de assistencialismo. A primeira Constituição Republicana promulgada (1891). criou-se o Código Penal Brasileiro que aumentou a idade penal para 18 anos. Francisco Quintanilha. tendo como seu autor o jurista e legislador José Cândido Albuquerque de Mello Mattos (Código Mello Mattos de 1927). alíneas c e d. através do Decreto-lei n. Destarte. Em 7 de setembro de 1940.

599. O Estatuto da Criança e do Adolescente trouxe um conjunto de medidas a serem tomadas pela família. tendo como agentes ativos. São Paulo: Harbra. stress. 3. buscar-se-á elencar algumas das prováveis razões para o adolescente levar-se e/ou ser levado às drogas e ao mundo do ilícito penal. Destarte. vontade do agente e meio social. 8. pela escola. Todavia. é aquele que recorre repetidamente às drogas para lidar com sua insegurança. como a oposição à Guerra do Vietnã. seria sinônimo de sensibilidade da pele. 3. Ou se melhor exemplificativo ficar. Haveria muita prepotência. p. além de um notável desconhecimento da realidade social. o jovem em maior perigo não é aquele que vez ou outra bebeu alguns drinques ou experimentou maconha com os colegas “por farra”. seria sinônimo de preocupação exacerbada. essas mesmas manchas na pele poderiam ser algo remanescente de vidas passadas. adolescentes e jovens: pressão entre companheiros. . o grito de liberdade sexual e o fim da opressão racial. hoje tal alienação estaria ligada a um sentimento muito maior de desligamento. como por exemplo. Para a maioria das pessoas que trabalham com adolescentes.069/90). distúrbio emocional. O ADOLESCENTE INFRATOR Das Possíveis Causas Para a Delinqüência Juvenil Assim como tudo na vida. Como se verificará. Ainda consoante seu pensamento. baseado em políticas de proteção integral. de solidão. alegar que para a delinqüência juvenil houvesse uma única causa primária. há várias verdades para um só fato. Não se poderia olvidar de mencionar que a droga está diretamente ligada à prática de outros atos ilícitos. pelo Estado. fuga das pressões da vida. relacionamentos entre pais e filhos. Tomemos por base o fato de uma pessoa possuir hematomas em seu corpo durante a vida toda. Desenvolvimento e personalidade da criança. sociais e vocacionais e o estabelecimento de relações interpessoais gratificantes. e de uma diminuição no senso de propósito e de uma direção na vida. pondo fim a situações repressivas do Código do Menor de 1979 e da FUNABEM. pela sociedade e por entidades de atendimento a fim de resguardar os direitos dos menores.4 Em 13 de julho de 1990 criou-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. Para um dermatologista. um linchamento em praça pública. ou. há várias causas para um resultado. alienação ou rejeição social. para a acupuntura. a psicologia traz a essa questão alguns fatores que podem amalgamar-se-á à(s) causa(s) da delinqüência. É hoje o que temos de mais especial em termos protetivos à criança e ao adolescente. Paul Henryet al. para um terapeuta de vidas passadas.ed. 1995. antigamente a alienação dos jovens estava associada a valores de luta histórica e social. a alienação é uma rejeição profunda dos valores da sociedade ou um isolamento das outras pessoas que vai além do ceticismo do adolescente médio. para um médico estudioso da cultura oriental. conflitos e frustração. Deixar de enfrentar essas exigências essenciais através de fugas repetidas para o mundo das drogas acarreta 5 MUSSEN. Segundo Mussen5. outras tarefas chaves incluem o desenvolvimento de habilidades cognitivas.

e em parte porque não acreditam realmente. o risco de sério envolvimento com drogas geralmente é pequeno. H. em sua obra. As primeiras técnicas disciplinares às quais os delinqüentes foram submetidos provavelmente tenham sido negligentes. p. uma vez que estão ligados diretamente. Idem. P. Mussen expõe que: O relacionamento entre pais e filhos pode influir no envolvimento dos jovens no uso contínuo de drogas. Idem. que possa lhes acontecer algo desastroso7. P. 602. H. ibidem. Continua ele. Provavelmente. H. et al. p. H. . Mussen. et al. 601. P. et al. H. fazem isso para provar que são valentes e por um senso de aventura. P. afirma que: Dentro de um grupo de classe social. principalmente se o melhor amigo é usuário8. Seguindo o pensamento de Conger. com autoridade. tomemos como base os mesmos motivos que o levam a fazer uso de drogas. Para justificar os motivos que levam o adolescente a delinqüir. Por exemplo. e que são negligentes (francamente permissivos) ou autoritários e hostis. expõe que realmente. agora mencionando o pensamento de Conger: Os adolescentes têm curiosidade de expandir seu mundo. citando Johnston. Idem. ibidem. Uma razão pela qual os adolescentes podem experimentar uma droga é simplesmente por ser facilmente disponível. MUSSEN. Pressão de companheiros O autor supra ainda cita Brooks. p. ao afirmar que os companheiros desempenham uma parte importante no uso das drogas. agora Mussen faz alusão ao fato de que em tais casos. que aceitam seus filhos (principalmente aqueles com valores relativamente tradicionais) e permitem o desenvolvimento gradual da independência. op. ora mencionando Jessor. as relações familiares são os melhores previsores da delinqüência. Idem. para os filhos de pais democráticos. P.. MUSSEN. Para aqueles cujos pais não foram afetuosos. MUSSEN. o risco de uso significativo de drogas é muito maior9.5 o despreparo do adolescente para fazer frente às demandas adicionais do responsável mundo adulto6. et al. afirma que as razões pelas quais os adolescentes usam drogas variam amplamente. MUSSEN. Relacionamentos entre pais e filhos Voltando a citar Jessor. erráticas ou excessivamente estritas. 599. cit. Mussen. um dos melhores previsores do uso de drogas de um adolescente é se seus amigos são usuários. um jovem pode usar drogas como forma de ódio ou revolta – ou simplesmente para fazer os pais reagirem mostrando que se importam com eles10. Além disso. assim como o comprometimento no uso de drogas. envolvendo punição física 6 7 8 9 10 MUSSEN. et al. Mussen. pelo menos no início. Mencionando Olweus. conforme comprovou-se através de pesquisa de campo. são muito mais inclinados a assumir riscos do que os adultos.

ou não saber onde a criança está na maior parte do tempo. que um estudo longitudinal verificou que 39% dos meninos com pais criminosos se tornavam delinqüentes. afeição mútua e apoio14. 611. ao mencionar Farrington. agora seguindo a linha de pensamento de Cressey. Idem. ibidem. Ainda segundo o autor referido. outros estudos apresentaram resultados semelhantes13. dissensão ou – não raramente – abuso e violência sexual . p. Mussen explicita: Lares desfeitos associam-se à alta incidência de comportamento delinqüente. et al. ao mencionar Canter. 610 –611.cit. Com essa idéia em mente.. pais de delinqüentes tendem a ter aspirações mínimas para seus filhos. na sociedade como um todo e. há hostilidade mútua e rejeição paterna. . P. pesquisadores estão agora procurando descobrir as condições ambientais ótimas que permitam que a semente da atenção e compaixão pelos outros amadureça em crianças. Idem. que comuniquem à criança que ela é responsável pelo seu próprio comportamento e que usem a argumentação para ajudar a direcionar a 11 12 13 14 MUSSEN. Os pais não acompanham as atividades dos jovens. Em vez disso. MUSSEN. Mussen.] todos os seres humanos podem ter como dom natural a “semente da compaixão”. por meio dos nossos próprios esforços direcionados – essa “semente” vicejará. indiferença. a variável familiar que se associava mais fortemente à delinqüência era a fraca supervisão paterna. H. a ter problemas emocionais e pessoais e a ter registros policiais. Continua ele.em casa. H. indicada por itens como não exigir que as crianças digam aonde vão e quando voltarão para casa. freqüentemente falta intimidade de comunicação. p. De forma muito interessante. et al.6 em vez de uma inadequadas11. P. orientando-se pela citação de Patterson. indiferença ou apatia e falta de união. em comparação com 16% daqueles cujos pais não tinham registros criminais. Usando a linha de pensamento de Alstrom. argumentação com a criança sobre condutas Ainda segundo o autor. et al. que estabeleçam limites adequados para o comportamento dos filhos. quando as têm. ora com a posição de Wilson. que sejam modelos de comportamento atencioso. p. et al. reagem com incoerência ao comportamento inaceitável e não dispõem de meios eficazes para lidar com conflitos familiares12. MUSSEN. MUSSEN. Em um estudo na Inglaterra. Já identificaram alguns fatores: ter pais capazes de moderar suas próprias emoções. Idem. que alega: Pesquisas recentes indicam que um fator crítico pode ser a falta de supervisão paterna. P. 610. expõe que: Famílias de crianças e adolescentes agressivos e delinqüentes também parecem ter poucas “regras familiares”.. Entretanto. op. foi mostrado ainda que a probabilidade de adolescência delinqüente é muito mais alta em lares não desfeitos caracterizados pela hostilidade. [. H. Quando exposta às condições adequadas . P. mais tarde talvez. do que em lares desfeitos (em geral apenas com a mãe) em que há união. evitando se envolver em atividades de lazer como família. H. Ainda consoante Mussen. a ser hostis e indiferentes com relação à escola. entendimento mútuo e afeição no relacionamento de delinqüentes com seus pais.

o medo ou o fracasso. op. 6768. uma meta importante de um programa de tratamento. ibidem. 17 MUSSEN. doenças não tratadas e lares desfeitos.. a depressão. A arte da felicidade. Consoante Luce. cognitivas e vocacionais –. Ao mencionar Conger. o autor supra menciona que em alguns casos. Em alguns casos. P. além de ajudar os jovens a aprender a lidar com problemas pessoais e estabelecer amizades genuínas com os companheiros. Idem. era simplesmente ensinar algo que muitos desconheciam: como se divertir sem drogas18. a dependência de drogas pode refletir um distúrbio emocional. p.7 atenção da criança para estados emocionais ou afetivos bem como para as conseqüências do seu comportamento sobre os outros15. Distúrbio emocional Ainda consoante Mussen. 18 MUSSEN. ou a falta de objetivos. Mussen menciona que: Em outros casos. os temas comuns relatados tanto por membros da equipe quanto por usuários que estão se recuperando são sentimentos de rejeição paterna ou indiferença. P. Dalai Lama XIV et al. principalmente para os usuários de diversas drogas. Fuga das pressões da vida Segundo Mussen. social ou racial. et al. na linha de pensamento de Conger: Para os jovens. Alienação ou rejeição social Citando Conger. para indícios de dificuldades do jovem. 16 MUSSEN. 602. 2000. . Idem. Entre adolescentes em centros de tratamento residencial e internatos para alcoólatras e usuários de drogas. Muitos se confrontam com discriminação econômica. condições de vida impossíveis. podem interferir no preparo do jovem para enfrentar a exigência ainda maior de responsabilidade do mundo adulto16. Mussen acredita que: Alguns jovens que usaram álcool ou drogas continuamente desde a préadolescência reconhecem que nunca viram outra forma de lidar com a ansiedade. uma vez mais. precisamos olhar os distúrbios nas relações familiares durante o curso do desenvolvimento. H. et al. ibidem. et al. falta de aceitação pelos companheiros. na menção e pensamento de Johnston. H. o uso de drogas pelo adolescente pode refletir alienação e uma reclusão para o mundo das drogas que alteram a mente. se as drogas são usadas como fuga das tarefas de desenvolvimento da adolescência – aprender a lidar como stress e adquirir habilidades sociais. Como resultado. “outra razão que os adolescentes freqüentemente dão para usar drogas é escapar da tensão e das pressões da vida ou do tédio”. uma sociedade indiferente é rejeitadora. Comoventemente. P. o tédio. H. Muitos jovens enfrentam o futuro sem esperança. que o jovem tenta esconder aparentando ser ‘cuca fresca’17. isolamento emocional e baixa auto-estima. podem desistir de procurar sua identidade e uma 15 Bstan-‘dzin-rgya-mtsho.cit. p. São Paulo: Martins Fontes. Como foi notado antes.

altas taxas de delinqüência parecem se relacionar pelo menos em parte a mudanças na estrutura da sociedade. Assim sendo. trazido ainda pelo autor retro mencionado: As pesquisas indicam que a privação econômica provavelmente leve ao crime e à delinqüência quando associada a desigualdades marcantes na distribuição dos recursos sociais. como ser em desenvolvimento físico. Mussen. ao afirmar novamente a linha de pensamento de Conger. o desemprego e cortes nos programas sociais para os pobres intensificaram a frustração e a necessidade financeira daqueles que se encontram nos limites de pobreza ou abaixo deles20. expõe que: 19 20 21 MUSSEN. p.8 vida significativa. Destarte.de forma diversa dos adultos. et al. ao trazer o pensamento de Conger. não poderíamos deixar de esclarecer que. Em um estudo. cit. principalmente. Além disso. escapando para o esquecimento dos narcóticos pesados. cabe o mesmo em relação às escolhas do menor que acaba por delinqüir. Assim. Livre arbítrio do agente Como é de conhecimento empírico e notório. MUSSEN. que já são absolutamente responsáveis por seus atos e. ibidem. Idem. E é por essa e outras razões que se possui o livre arbítrio em nossa vida. Assim. 608. cabe salientar que a vontade do agente/adolescente deve ser entendida de forma relativa. O aumento da mobilidade geográfica abalou padrões culturais bem estabelecidos e laços familiares. em nossa sociedade e absorve. A pobreza e condições precárias de vida constituem um conjunto de fatores. somos responsáveis por nossos atos e seus efeitos. mental e. P. originariamente por um simples princípio da física e da vida: ação e reação. Idem. Todavia. op. juntamente com grandes mudanças que destroem a estrutura e o funcionamento das sociedades. nenhuma pessoa é obrigada a fazer ou deixar de fazer algo se não for em virtude de lei. deveriam possuir total raciocínio sóciomoral. estes agem conforme influências ambientais . ou o que um adolescente viciado chamou de “morte sem permanência. P. em nossas escolhas. et al. ibidem MUSSEN. haja vista que se faz presente o seu livre arbítrio em delinqüir x o que vê em seu lar. moral. P. expõe que: Tanto as condições sociais quanto as experiências individuais contribuem para a delinqüência juvenil. em nossa sociedade . H.o que vêem em seus lares. teoricamente. vida sem dor”19. no que concerne a mudança social e a pobreza. nos Estados Unidos e em outras nações altamente industrializadas. Mudança social e pobreza Mussen. Segundo o estudo de Braithwaite. A disparidade na renda entre os pobres e aqueles que ganhavam uma renda média mostrou-se um bom previsor de índices de crimes21. num período de mais de seis anos. . como a desorganização social e as mudanças populacionais nas grandes áreas metropolitanas. inúmeros índices de desigualdade foram usados para prever índices médios de crimes em 193 cidades. H. H. et al.

feriram ou mataram muitos professores. Embora muitos desses grupos encorajem a delinqüência. Conger também é citado por Mussen. Em estudos recentes. P. aparentemente sujeita às mesmas influências ambientais? Ao abordar esse problema. 609. 608 MUSSEN. ibidem. estáveis e relativamente isoladas. Mussen traz o pensamento de Campbell. Os membros de gangues de cidades grandes aterrorizaram. uma vida social significativa. os delinqüentes. Nesses locais. ibidem. parecem ser mais prováveis em situações em que um sentimento de solidariedade da comunidade e a integridade da família foram seriamente abalados (por exemplo. H. Também atacam-se mutuamente: 60% das vítimas de violência de gangues são membros de gangues24. principalmente os reincidentes (aqueles com condenações repetidas). classe social e etnia se torna delinqüente. et al. gangues de cidades do interior tornaram-se cada vez mais desorganizadas e violentas. P. os investigadores usaram um projeto de pesquisa em que delinqüentes e não-delinqüentes com as mesmas bases culturais gerais são comparados com relação às características e relacionamentos entre pais e filhos em várias idades25.9 Aumentos na delinqüência. et al. p. p. ibidem. escola. conseguem resultados mais baixos do que a média em testes de QI e têm uma incidência ligeiramente mais alta de retardo mental26. como no caso de algumas cidades pequenas. São menos prováveis em situações em que esses vínculos foram preservados. Citando Grace. P. no passado. cidadãos mais velhos e jovens que não participavam de gangues. em guetos urbanos e em algumas comunidades suburbanas que estão surgindo). bem como outras dificuldades de adolescentes. MUSSEN. Fatores de personalidade e relacionamento entre pais e filhos Mussen expõe: Mesmo em localidades demasiadamente pobres. et al. MUSSEN. MUSSEN. Mussen expõe que como grupo. H.cit. Idem. a aceitação do grupo de companheiros e a autopreservação23. Por que uma criança de uma determinada localidade. entretanto. afirmando que: Jovens de classe baixa em guetos urbanos têm mais probabilidade do que os da classe média para se unir a gangues delinqüentes. Companhias e gangues No que tange a companhias e gangues. H. P. P. Idem. et al. Idem. Idem. et al.. ao expor que: Desde os anos 70. 22 23 24 25 26 MUSSEN. os aumentos parecem ser maiores em comunidades e famílias caracterizadas por um alto grau de mobilidade geográfica e social e uma falta de laços estáveis com outras pessoas e instituições sociais22. as gangues mais bem organizadas e menos violentas também ajudavam a encontrar as necessidades comuns a todos os jovens – um sentido de valor pessoal. op. o qual é citado na obra daquele. muitos adolescentes não se tornam delinqüentes. H. . o grande aumento nos índices de delitos juvenis ocorreu nos subúrbios. enquanto isso não acontece com outra criança. H.

et al. 609. Estudiosos como C. P. Isso sugere que os fatores genéticos podem desempenhar algum papel indireto para aumentar a predisposição do indivíduo a se envolver em comportamento delinqüente. Disseram que. 65-66. 65. a delinqüência e a criminalidade adulta são mais intimamente relacionadas ao comportamento de seus pais biológicos do que dos pais adotivos. Bstan-‘dzin-rgya-mtsho. esse comportamento em si não é ativado de modo automático. atenciosas. quando aqueles que se uniam e faziam parte de um grupo tinham uma chance maior de sobreviver.10 Complementando com o que pensa Hirschi. ibidem. 66. Dalai Lama XIV et al. Não há nada na nossa neurofisiologia que nos obrigue a agir com violência. MUSSEN. p. realizaram numerosas pesquisas ao longo dos últimos anos que demonstram que os seres humanos têm uma tendência ao comportamento altruísta [. Ao longo das duas ou três últimas décadas. Ao examinar o tema da natureza humana essencial. Talvez a declaração mais abrangente sobre as pesquisas mais recentes esteja resumida na Declaração sobre a Violência de Sevilha de 1986. Bstan-‘dzin-rgya-mtsho. a maioria dos pesquisadores no campo percebe atualmente que no fundo temos o potencial para nos tornarmos pessoas serenas. Bstan-‘dzin-rgya-mtsho.]30.. Essa necessidade de fortes vínculos persiste até hoje [.]31. Não só isso. Idem. P. Esse comportamento não está programado geneticamente na natureza humana”. . poderia estar desenvolvendo programas de caridade e exercitando a benevolência. sociais. Idem. situacionais e ambientais. pessoas menos favorecidas 27 28 29 30 31 MUSSEN. cit. a respeito da influência de fatores genéticos no desenvolvimento da delinqüência.. p. tendo como agentes ativos os jovens delinqüentes e no outro pólo. H. agressivas. A partir dessa conclusão. op. cit. mas a idéia de que os seres humanos têm um egoísmo inato humano também está sofrendo ataque. o governo. Dalai Lama XIV et al. tendo sido criada no passado remoto.. pode estar profundamente enraizada na natureza humana. da Arizona State University. Dalai Lama XIV et al. em ações destinadas ao bemestar dos outros tanto quanto ao próprio. que foi redigida e firmada por vinte cientistas de renome. Mussen explicita que: Entre as crianças que foram adotadas logo depois do nascimento. pelo menos. sim. o autor supra mencionado ainda afirma que entretanto. op. H. p. mas afirmaram categoricamente que “é incorreto em termos científicos dizer que temos uma tendência herdada para entrar em guerras ou para agir com violência. A tendência de criar fortes laços com outros. Pesquisadores contemporâneos refutaram a idéia da agressividade inata da humanidade. Nesse texto. houve literalmente centenas de estudos científicos que indicaram que a agressividade não é essencialmente inata e que o comportamento violento é influenciado por uma variedade de fatores biológicos. apesar de termos o sistema neural necessário para agir com violência. do mundo inteiro. talvez através de maior impulsividade ou desvio28. p. eles naturalmente reconheceram que o comportamento violento ocorre. Daniel Batson ou Nancy Eisenberg.. O impulso que acaba sendo realçado é em grande parte uma questão de treinamento29. e a falta de inteligência em si não parece ser um fator primário na delinqüência27. Idem. Na linha de Hutchings. um QI médio.. em suas três esferas. a maioria dos delinqüentes tem. ou pessoas violentas. et al..

P. ibidem. P. Mussen expõe que muitos desses traços parecem ser de natureza defensiva. Idem. sem motivação para realização . confusões criadas. 610. ainda citado por Mussen: Na verdade. et al. H. sendo que podem existir “muitas 32 33 34 35 MUSSEN. e um sentido do eu francamente integrado. há várias causas para esse fato. Consoante o pensamento de Arbuthnot. P. Menciona também. Mussen.] é mais provável que eles não sejam solidários. Concluindo o que se pensa a respeito dos fatores que levam o adolescente a delinqüir. enquanto outros afirmam que os delinqüentes continuam a ter um auto-conceito negativo e vêem-se a si próprios como pessoas indesejáveis33. mais distraídos e menos persistentes em seu trabalho escolar. H. Parafraseando Gold. H. Idem.cit. Mussen explicita: verificou-se que os delinqüentes têm maior probabilidade que os não delinqüentes de ser socialmente assertivos.. não tenham raciocínio sócio-moral. nem capacidade de resolução de problemas interpessoais. ousadia e impopularidade. Alguns pesquisadores mantêm que a delinqüência pode servir para aumentar a auto-estima. refletindo auto-conceitos inadequados e sentimentos de inadequação. P. parcela contributiva para diminuição de reincidência em atos infracionais e aprimoramento de qualidades e valores morais. trazendo. desafiadores. Esses problemas sociais e escolares pareciam refletir problemas emocionais subjacentes. Tal ato viria a criar e/ou aumentar sentimentos nobres nesses jovens. Características de personalidade Conforme o pensamento de Farrington. o autor acima referido. numerosos estudos longitudinais sugerem que os esforços para defender-se contra a baixa auto-estima e a incerteza. et al. que [. H. ibidem. menos responsáveis e mais impulsivos. Diversos estudos verificaram que futuros delinqüentes. hostis. p. diferem significativamente dos nãodelinqüentes aos 10 anos em índices de honestidade. embora comportamentos delinqüentes claramente definidos possam aparecer somente mais tarde. também ainda menciona Conger: Diferenças entre não-delinqüentes e delinqüentes no comportamento social e nas características de personalidade evidenciam-se precocemente. MUSSEN. ibidem. et al. rejeição emocional e frustração da necessidade de auto-expressão32. Idem. são importantes no desenvolvimento da delinqüência. através de Arbuthnot. Futuros delinqüentes de ambos os sexos foram classificados como menos respeitosos e justos ao lidarem com os outros. em problemas de comportamento e problemas de atenção e dificuldades escolares34. de lares conturbados35. et al. Também diferem nas classificações feitas por professores em termos de “desajustamento agressivo”. MUSSEN. menos amigáveis. na opinião de seus professores.11 materialmente ou até mesmo em patamar igual de indigência material. destrutivos e sem controle. principalmente meninos. com mais freqüência.. e se opunham mais à autoridade. Eram ainda menos queridos e aceitos pelos companheiros. suspeitos. além disso. os futuros delinqüentes vinham. MUSSEN.. op. indo ao encontro do que já se mencionou em termos de psicologia entre jovens. . destarte.

ibidem. H. et al.ou mais do que o dobro – para jovens que não tinham feito parte do programa. MUSSEN. como mencionado anteriormente. H. resistir à pressão dos companheiros para se envolver em comportamento delinqüente. et al. que atualmente os métodos comportamentais parecem ser os mais promissores para o tratamento da delinqüência36. Tais esforços podem ter mais sucesso se forem adotados precocemente e fizerem parte de um programa mais amplo de cuidados psicológicos e físicos. educação e treinamento dirigido para o desenvolvimento ideal – um compromisso que nossa sociedade não parece estar desejando assumir40. o índice de reincidência dos jovens que tinham participado do projeto era de 23%. MUSSEN. as tentativas de prevenção e intervenção têm pouca chance de sucesso. ibidem. as tentativas de ajudar diretamente o delinqüente devem ser dirigidas para a melhoria de suas habilidades sociais. a menos que incluam esforços para mudar o ambiente familiar das crianças ou do adolescente. Cinco anos mais tarde. ibidem. ora citando Saranson: Em um projeto institucional.] estatísticas revelam que famílias daquelas pessoas com forte crença religiosa costumam apresentar índices mais baixos de delinqüência. Dalai Lama XIV et al. O psicólogo americano continua. para o aprimoramento de sua competência social de modo geral. et al. op. O envolvimento com qualquer grupo religioso pode gerar uma sensação de identificação com os pares. aquelas necessidades de se preparar para um emprego.. H. Idem. Idem. citando Rutter: Dados de pesquisas recentes revelam várias implicações. A modelação. O que também contribuiria para a questão da formação moral do adolescente seria o que propõe Dalai Lama41: “[. inexistindo espaço para somente “um fator originário”. Idem.12 verdades”. P. p. enquanto estavam na instituição38. Uma delas é que. P. de abuso do álcool e drogas. Ainda consoante o pensamento de Mussen. Outra é que na maioria dos casos. Ele oferece um espaço significativo no qual podemos entrar em 36 37 38 39 40 41 MUSSEN. MUSSEN. o foco principal era o treinamento em habilidades sociais (por exemplo. em comparação com 48% . p. resolver problemas pessoais e planejar seu futuro)37.. 610. cit. Bstan-‘dzin-rgya-mtsho. em longo prazo. MUSSEN. bem como os padrões de relacionamento entre pais e filhos. 614. H. Idem. o desempenho de papéis e o treino de como se comportar em situações-problemas incluíam-se entre as técnicas usadas. et al. p. um vínculo de interesse pelos companheiros de fé. muitas explicações para um jovem se levar e/ou levar-se a tal. Colocava-se forte ênfase no desenvolvimento de habilidades comportamentais que poderiam ser amplamente aplicadas na vida diária. H. . de laços de comunidade. et al. P. citando Garret. ainda. em vez de apenas procurar suprimir comportamentos anti-sociais39. 344. P. e de casamentos desfeitos”. a fim de resolver problemas e.cit. op. Métodos Comportamentais e Outras Possíveis Decréscimo da Delinqüência Juvenil Contribuições Para o Expõe Mussen. P..

porém com algumas alterações. Ministério Público do Estado de Santa Catarina. destarte. VIEIRA. psíquico. econômico. pela verificação da autenticidade das mesmas. cit. não se responsabilizando. nas referidas datas da coleta de dados. 4. no Centro de Internação Provisória (CIP) e no Centro Educacional Regional (CER). quando do cometimento do ato infracional. e os outros 9 (nove) remanescentes se encontravam no Centro Educacional Regional de Chapecó. Procuradoria-Geral de Justiça. Crenças religiosas firmemente enraizadas podem nos dar um profundo sentido de objetivo. que traçou o perfil social. Centro das Promotorias da Infância. 345. conferindo significado à nossa vida. Perfil do adolescente infrator no Estado de Santa Catarina. A presente pesquisa foi realizada nas datas de 20 e 21 de agosto e 06 de setembro de 2003. p. familiar e econômico do adolescente infrator que residia no município supra. sempre com o objetivo final de se poder estabelecer futuras ações para órgãos governamentais e não governamentais no desenvolvimento de práticas para a diminuição da delinqüência juvenil. Essas crenças podem fornecer esperança diante da adversidade. Foram entrevistados 18 (dezoito) adolescentes que residiam em Chapecó quando do cometimento do ato infracional e que se encontravam nos já citados Centros de Internação e Educação. Podem nos ajudar a adotar uma perspectiva eterna que nos permita sair de dentro de nós mesmos quando estivermos dominados pelos problemas diários da vida42. do sofrimento e da morte. Desse total de 18 (dezoito) jovens. Alterações que se referem à inclusão de 6 (seis) perguntas de cunho subjetivo no citado questionário. Dalai Lama XIV et al. 42 43 Bstan-‘dzin-rgya-mtsho. . 9 (nove) deles estavam no Centro de Internação Provisória. bem como o de sua situação econômica e familiar. E nos proporciona um sentimento de aceitação. Florianópolis: 1999. Para a realização da coleta de dados. aplicou-se o questionário utilizado pelo Ministério Público de Santa Catarina43 em 1997. op. durante as datas supra.13 contato e nos relacionar com os outros. psicológico e familiar do adolescente infrator em nosso estado-membro. e que se encontrava cumprindo medida sócio-educativa no Centro Educacional Regional de Chapecó ou aguardando a referida medida no Centro de Internação Provisória no mesmo município. Mister se faz elucidar que se buscou manter a veracidade das informações prestadas pelos entrevistados.). Buscou-se analisar quantitativamente e qualitativamente o perfil social. Henriqueta Scharf (org. 109-115. p. ambos em Chapecó-SC. O PERFIL DO ADOLESCENTE INFRATOR EM CHAPECÓ-SC Aspectos Relevantes a Serem Considerados na Realização da Pesquisa de Campo Com o intuito de melhor analisar o comportamento psíquico e social do adolescente infrator em nosso município. urgiu a necessidade de se estar traçando o perfil do referido agente nestas quatro esferas.

No que concerne ao registro civil de nascimento. Acredita-se que essa “adoção” de uma religião entre os não-praticantes se deva mais em razão dos costumes entre seus familiares. averigua-se uma total escassez na existência da mesma para os adolescentes. bem como saúde. quando da coleta de dados. 17% possuíam registro no Cadastro de Pessoas Físicas.14 Identificação e Documentação A maioria dos referidos adolescentes (32%) possuía a idade de 17 anos. pelos progenitores. nos quais se verifica. os outros 50% em escolas cuja obrigação de manutenção era do município. dentário. Não se registrou nenhum adolescente que tivesse estudado em escola particular. A parte vespertina do dia vinha em consonância com a matutina (29%). Bairro e Documentação Civil Quanto à moradia. 39% dos jovens em questão tinham Carteira de Trabalho e Previdência Social e apenas 6% possuíam Título Eleitoral. grande parte deles parou de estudar na 5ª série do Ensino Fundamental. todos eles residem em bairros classes C e D de nosso município. 45% eram portadores de Carteira de Identidade. psicológico e atividade profissionalizante. a maioria dos jovens adota a Católica (54%). sendo que os outros 78% que nasceram em Chapecó nunca haviam morado em outra localidade – o que vem a desmistificar o fato de que o crescimento da delinqüência juvenil estaria associado de uma maneira diretamente proporcional à mobilidade geográfica e social. são nãopraticantes das mesmas. Do tempo de abandono escolar Verifica-se que a maioria deixara de freqüentar as aulas há menos de um ano – coincidentemente com a data do cometimento do ato infracional. Todavia. Em relação à documentação civil. 62% de todos os adolescentes que afirmaram ter uma crença religiosa. Inquiridos sobre a documentação civil que possuíam. Da série do abandono escolar Conforme se analisa. Boa parte dos entrevistados freqüentava a escola no turno noturno(42%). Situação Escolar Perguntados sobre sua situação escolar. alimentação. e. Os outros 17%. observou-se que todos possuíam Certidão de Nascimento. Isso se deve em boa parte à obrigação do Estado em fornecer educação aos internos. provavelmente por desconhecimento e/ou desinteresse em encaminhá-las. Religião No tocante à religião. Surpreendente o fato de apenas um dos internos ter freqüentado o Ensino Médio. verificou-se que 78% deles estudavam no momento da coleta de dados. Metade dos adolescentes entrevistados estudava em escolas estaduais. demasiada pobreza e violência. 83% deles foram feitos pelas genitoras. Apenas 22% deles eram naturais de outros municípios. de forma empírico-notória entre a população chapecoense. atendimento médico. .

poucos permaneceram mais de um ano nas respectivas atividades laborais. no tocante ao recebimento . sem registro na Carteira de Trabalho e Previdência Social. Como se verifica. Todavia. continuando o álcool e a maconha a serem os mais utilizados entre os jovens entrevistados. Da pessoa que o levou ao uso das drogas Inquiridos sobre como adentraram o mundo das drogas. Da droga usada atualmente A droga mais utilizada entre os internos tem sido a maconha (27%). Como se verificará adiante. vem o tempo de permanência dos mesmos no emprego. Desse percentual. Situação Funcional No que concerne a atividade laboral. 71% respondeu que fora por influência de amigos. Motivo da saída do emprego Os motivos para a pouca permanência nos empregos são os mais variados. também. Pouco aprazível foi a realidade verificada: 87% dos adolescentes trabalhavam como trabalhadores informais. Expressiva experiência laboral anterior se deve à construção civil (46%). seguida do álcool (23%). quando se confirmou que a causa maior para o abandono escolar (33%) se deu em razão da prática de atos infracionais. Questionados se freqüentavam a escola quando da prática do ato infracional. empregados dos Centros de Internação e sociedade em geral. sendo que apenas 31% dos referidos jovens se encontravam em situação de primeiro emprego. Da droga usada anteriormente No tocante ao tempo anterior à internação. que 43% deles abandonaram os estudos na 5ª série ginasial. 56% retornou à instituição escolar após o cometimento do ilícito penal. Saúde Expressiva parcela dos internos ainda tem acesso e faz uso às drogas (71%). Constatou-se. 56% dos entrevistados trabalhavam quando da época do ato. prevalece o cometimento do ato infracional (25%). Das atividades laborais A maior parte desses jovens trabalhava na construção civil. Do tempo médio de duração no emprego Contrastando com a boa porcentagem de adolescentes infratores que trabalhavam à época do ato infracional. Considerável parcela dos adolescentes infratores já havia trabalhado anteriormente (69%). 89% fazia uso de drogas. Fato esse que tem preocupado o Ministério Público Estadual. seguida do surgimento de oportunidades de trabalho e desistência por interesse próprio (17%). consoante análise constatada.15 Se freqüentava a escola quando praticou ato infracional Qual não foi a surpresa. metade deles responderam que a freqüentavam.

Parcela significativa dos jovens entrevistados procurou fazer o teste supra por iniciativa própria (33%). Grande parte deles (67%) foi encaminhada ao Grupo de Apoio por iniciativa do Conselho Tutelar. Desse percentual. tem-se que 17% já o freqüentaram. Desses 17%. Os 33% remanescentes foram encaminhados por familiares. apenas 11% já as possuiu.16 de visitas nos Centros de Internação. No que tange à Internação. nenhum adolescente respondeu ter sido internado em hospital para o referido tratamento ou suposto caso de overdose. Na modalidade Ambulatório. Da idade quando experimentaram drogas pela 1º vez Constata-se que expressiva parcela (23%) adentrou ao mundo das drogas com uma idade relativamente muita baixa – 12 anos. 67% foram 1 vez e os outros 33% freqüentaram o referido Grupo 3 vezes. Metade dos jovens infratores que buscaram Centros de Recuperação/Internação permaneceu internado por um período de 6 a 9 meses (25% permaneceram por menos de 1 mês e 25% de 1 a 3 meses). nenhum adolescente ter sido encaminhado à Internação através de iniciativa familiar. 22% dos adolescentes infratores afirmaram ter procurado Centros de Internação para sanar a dependência química. que parcela muito significativa dos jovens em questão (66%) teve sua primeira experiência com as drogas por curiosidade. Apenas 6% apresentam problemas psiquiátricos. a existência de adolescentes infratores que experimentaram drogas com apenas 6 anos de idade. Surpreende o fato de nesse caso. sendo este para bronquite. quando iniciavam a puberdade. No tocante a doenças sexualmente transmissíveis. Ademais. Do motivo a experimentar as drogas Verificou-se. todos responderam que atualmente não possuíam nenhuma doença. . Verifica-se. Constatou-se que apenas 6% tomam medicamento. Em seqüência. Na modalidade Grupo de Apoio. 50% internou-se uma única vez (25% internou-se 2 vezes e os outros 25% internouse 4 vezes). com o popular chato. Somente 29% deles freqüentaram programas para tratamento de drogas. questionou-se quanto à origem da iniciativa para a realização do teste de HIV. todos obtiveram resultado negativo quanto à existência da doença. com a análise dos dados supra. Os outros 25% foram feitos pelo Juízo da Infância e Juventude. 75%). Um adolescente já esteve com gonorréia. sendo que nenhuma vez precisou ser internado pelo referido problema. Novamente a maior parcela de iniciativa ao encaminhamento do adolescente infrator para curar-se da dependência química tem sido feita pelo Conselho Tutelar (nesse caso da Internação. Desse total. são esses mesmos amigos que não os visitam no Internato – nenhum adolescente internado respondeu que recebia visitas de amigos. Da iniciativa para realização de teste de HIV No que tange a AIDS. ainda. e o outro. parcela significativa dos internos não realizou teste de HIV (67%).

averigua-se que a composição da mesma não é das mais simples. apesar de se localizar nos mais mais pobres e violentos da cidade. carregador. Não surpreendendo.17 Composição Familiar Apenas dois dos dezoito internos que se enquadravam como objetos da pesquisa possuíam filhos.00 mensais. 76% trabalhava na construção civil e 24% em atividades diversas (jardinagem. No tocante à saúde dos familiares. 44% eram donas de casa e apenas uma delas (6%) era vendedora do comércio varejista. pelo próprio progenitor. A média salarial geral da família ficou em torno de R$ 415. boas condições de moradia. No que concerne à estrutura física da casa. Mais dessa metade (67%) justificou as fugas não por conflito familiar. Dos 89% que possuíam figura paterna e materna em casa. Metade deles internou-se uma única vez. em grande parcela. o que relativa e teoricamente proporcionaria uma boa estrutura emocional para o não cometimento de ato infracional. 50% eram empregadas domésticas e/ou diaristas. água encanada (72%) e luz elétrica (89%). Pouco aprazível foi ouvir de um interno (e ter obtido confirmação pelos monitores) de que o mesmo fugira de casa com oito anos de idade. e sim. O tempo de permanência nos referidos Centros variou de 3 a 6 meses (50%) e de 6 a 9 meses (50%). Preocupante foi constatar que 55% dos adolescentes já fugiram de casa mais de 4 vezes. sendo que a outra parte procurou os Centros de Internação por três vezes. estão presentes no histórico familiar. a maconha e o álcool vêm em parcela expressiva de uso. após a morte de seu progenitor. em consonância com as drogas usadas pelos internos. indo ao encontro do constatado na composição da casa do adolescente catarinense – ou seja. Das mães. haja vista que 61% dos entrevistados afirmaram ter tido parentes que as usam ou já fizeram uso das mesmas. 25% da figura masculina em casa era exercida pelo padrasto. levando consigo o irmãozinho. Um deles com idade de 3 anos e o outro com 11 meses de vida. . Os outros 75%. Com quem residia na época do ato infracional Verificou-se que 61% dos entrevistados residiam com a família. Em relação aos pais e padrastos. destarte. buscando como apoio os Centros de Recuperação (100% deles). com então seis anos. Somente 17% dos familiares já procuraram tratamento para a dependência química. padeiro e fabricante de móveis). por interesse próprio. Relação com a Rua Metade dos adolescentes entrevistados afirma já ter fugido de casa. Grande parte das residências dos internos possui banheiro interno (89%). Atestando. uma vez que 27% dos jovens possuíam sua residência com seis peças. Essa porcentagem de drogas entre os familiares é maior entre os irmãos do interno (59%). verificou-se que as drogas. quantitativamente um bom número de peças. A média de irmãos ficou em torno de 3 por interno.

chegam aos contra a liberdade sexual e contra a vida. em geral. que se refere à permanência com outros adolescentes no cubículo. segundo o relato de um interno. À Cela Especial. Mais da metade dos adolescentes infratores (56%) afirmou já ter sido atendida pelo Conselho Tutelar. 11% até três vezes e . sendo que. Questionados acerca da origem em voltar para casa. 22% deles uma única vez. gradualmente.18 No que concerne a ficar morando na rua. então. A causa maior para as fugas era a vontade própria do agente (66%). Acredita-se que o portal para os ilícitos penais. Mais da metade (56%) dos adolescentes em questão já sofreu violência policial. . seguida de conflito familiar (17%) em consonância com a influência exercida pelos amigos (17%). 33% afirmou já ter se encontrado nessa situação. Do horário da prática infracional Em relação ao horário do cometimento do ato infracional. Isso denota uma certa freqüência no cometimento de atos infracionais ou uma situação de rua ou doméstica pouco aprazível entre tais jovens. expressiva parte dos jovens em análise voltavam por interesse próprio (38%) ou. constatou-se uma preferência entre às 21 horas e a meia-noite. Os mais freqüentes vão desde aqueles que representam menor potencial lesivo (furto) àqueles que representam maior potencial lesivo (homicídio). Ato Infracional No que se refere ao ato infracional. iam 4% dos referidos jovens. também 11% mais de dez vezes. quando não pelo Conselho Tutelar (25%). Na mesma proporção (4%). Verificou-se que 75% dos internos quando eram apreendidos pela Polícia Militar iam para o Centro de Internação Provisória (CIP). 4% eram encaminhados a alguma cela sozinho e outros 4% citaram outros tipos de estabelecimento. comece pelos crimes que atentam contra o patrimônio. sendo que mais uma vez. é que há uma preferência por dias chuvosos – onde poucos se encontram nas ruas – e também por dias muito quentes – nos quais as pessoas saem de suas residências e deixam janelas abertas. pela Polícia Militar (37%). encaminhavam-se os entrevistados à Cela Comum (com adultos junto). Não há uma predileção por determinada estação do ano para o cometimento do ato infracional. uma vez que são praticados durante todo o período anual numa proporção eqüânime (21% na primavera. bem como da meia-noite às 3 horas da madrugada. Tal afirmação tem também como base uma simples análise da situação dos adolescentes infratores nos Juizados da Infância e Juventude. 23% no inverno. O que se constatou. parcela preocupante (50%) afirmou ter morado acima de um ano na rua. Ainda. mais da metade dos jovens (56%) já foi apreendido pela Polícia de 3 a 10 vezes. Do tipo de prática infracional Os atos infracionais variam de um extremo a outro. Das vezes em que fora atendido pelo Conselho Tutelar Verificou-se que 70% deles foram atendidos mais de 5 vezes pelo Conselho Tutelar. 28% no verão e os outros 28% no outono).

referidas casas (Casa da Acolhida e Casa Lar. quando 12% permaneciam na rua. Desse total. 14% afirmaram ter cometido o delito infracional por influência de amigos. uma série de cometimento de atos infracionais.o que denota. no mínimo. e outros 14% por conflito familiar. 50% não soube responder a questão. outros 12% compravam drogas e 6% cometiam atos infracionais subseqüentes. Alguns (21%) ainda afirmaram que seria para sua própria manutenção – aquisição de bens . 78% já haviam recebido medida de proteção alguma vez. a ser cumprida no Centro de Educação Regional de Chapecó-SC. prevalece o uso do álcool (33%) e da maconha (25%). Mais da metade (62%) afirmou estar sob efeito de drogas quando do cometimento do ato infracional. Ainda. Novamente. sendo que 79% o estavam sob a companhia de outros adolescentes. 17% a cumpriu em Centros de Recuperação para dependentes químicos e 67% deles em casas especiais mantidas pelo município. 83% já haviam recebido e se encontravam cumprindo medida sócio-educativa. Todavia. Inquiridos sobre o que pensavam acerca do ato infracional praticado e da medida sócio-educativa atual. seguida da autoria do outro adolescente que o acompanhava (43%). . Após a prática do ato infracional. Sob efeito do crack. Dos entrevistados. A idéia para a prática do ato geralmente partia do próprio entrevistado (48%). Entre os jovens infratores que se encontravam no CIP e no CER nas já mencionadas datas da realização da coleta de dados.. Surpreende o resultado no qual 37% deles afirmam tê-la recebido mais de 5 vezes . grande parte (46%) dos adolescentes em questão fugia para casa. 39% afirmou que tal punição seria condizente com a gravidade do ato e 11% acreditou que deveria receber uma medida mais grave. Esses mesmos 21% alegaram que seus salários eram muito baixos e que com os furtos conseguiam lucrar financeiramente mais do que aquilo que percebiam mensalmente no mercado de trabalho lícito e convencional. Todavia. nosso Estatuto da Criança e do Adolescente não prevê medida mais severa que a de Internação. sem envolver o consumo de drogas. bem como 17% com uso de cocaína quando da prática do ato delituoso. 14% com outros adultos e 7% com crianças. todos haviam recebido medida de internação de 6 meses a 3 anos. nas quais o jovem recebe instrução escolar e orientação médica. por exemplo) não se caracterizam como centros de internação. Ainda. Cerca de 71% dos entrevistados estava acompanhado quando da prática delituosa. encontravam-se 17% dos entrevistados.19 O motivo principal para a prática dos atos infracionais seria o sustento do vício (51%). logo após o cometimento do ato ilícito. Os 8% remanescentes afirmaram estar usando cola no referido momento infracional. que ora cumpriam internados. Boa parcela dos entrevistados (24%) procurava desfazerse dos objetos furtados. sendo que desse percentual. ambas em nosso município. Do número de advertências Questionou-se a respeito do número de vezes em que o adolescente fora advertido pelo magistrado do Juizado da Infância e Juventude da Comarca de Chapecó-SC.

Salienta-se que conforme o que fora constatado na presente coleta de dados. sendo um tipo de sentimento muito mais esporádico que freqüente. 35% dos entrevistados chegaram ao CER e.Ressalta-se que nas duas oportunidades (7%) em que o sentimento de alegria foi citado. Sob efeito de drogas. 72% deles afirmou recebê-la. Inquiridos sobre quais os motivos que os levaram a delinqüir. Da pessoa com a qual melhor se relaciona no internato Constatou-se que 38% dos adolescentes entrevistados afirmaram ser a companhia de outro adolescente a que melhor lhes há. No que concerne a opinião dos internos sobre a Instituição. Na realidade. os internos comentaram que tal existência se referia a brincadeiras/chacotas que os internos faziam entre eles. Justamente por saberem que a legislação os protege mais que . 72% deles afirmam não a receber. preferindo a prática de outras atividades. Todos os adolescentes internados têm assistência jurídica de advogado do Estado. 72% afirma ser o CER . a legislação para o adolescente infrator seja mais severa. afirmou ter chegado à Instituição em condições normais. Todavia. 22% o acha péssimo e 6% uma Instituição regular. sem estar com lesão corporal ou sob efeito de drogas. seguido do de raiva (22%). Do sentimento predominante que possui Constatou-se que o sentimento predominante entre eles era o de tristeza (41%). uma vez que todos eles aprontavam ali dentro e sabiam que os monitores não poderiam machucá-los e nem sequer algemá-los. 11% dos inquiridos respondeu não ter acesso ao mesmo.Chapecó um lugar bom. 10% com lesões corporais. Questionados se recebiam orientação a respeito de sua conduta anterior. Todavia. Outros 24% afirmou ter agido delituosamente por influência de amigos e 20% reconheceram ter agido por vontade própria. 50% foi maltratado por outro adolescente e os outros 50% por monitor. os adolescentes em questão recebem visita semanal de um padre da igreja católica. o motivo da pobreza já abrangeria a escassez financeira da situação do adolescente para a obtenção da droga. Cerca de 89% deles se encontra internado há menos de um ano e os 11% remanescentes estão de um a dois anos no estabelecimento.20 Complementação . segundo o próprio relato de um interno. 56% disse não a possuir – o que pode denotar insegurança ou falta de perspectiva vocacional. por desconhecimento ou por não estar tendo informações recentes acerca de seu processo. grande parte dos internos não respeita os monitores e guardas da Instituição. Questionados se tinham aspiração profissional clara. Faz-se necessário que. No que tange a orientação religiosa.Adolescentes Internados Cerca de 55% dos adolescentes internados no Centro Educacional Regional de Chapecó no momento da coleta de dados. parcela eqüânime (28%) respondeu ter delinqüido por pobreza e para obtenção de drogas. Dos 11% que responderam que já o haviam sido. 89% afirmou que não. quando perguntados se obtinham informações de seus processos. O comportamento inadequado mais freqüente seria a elevação do tom de voz dos adolescentes para com os funcionários e o suposto desafiá-los. e que residiam no município retro quando do cometimento do ato infracional . quando do encontro. Questionados se já haviam sido maltratados na Instituição.

hoje. 100% dos que a empreendiam permaneciam num quarto por dez dias. Nesses dois casos concretos nos quais os adolescentes foram maltratados. Amigos estes que conforme se comprovou através da presente pesquisa. Afirmaram ter voltado ao Centro Educacional Regional de Chapecó através da Polícia. internos. por fim. o que denota uma total dubiedade em termos de mudança de comportamento tanto para o jovem.21 aos adultos. sendo que 40% deles fugiram mais de duas vezes. Os 17% restantes voltaram por si próprios. primos e irmãos. Apenas um deles (6% da amostra) não sentiria desejo em se desligar do estabelecimento – coincidentemente ou não. são os mesmos que ofereceram drogas pela primeira vez aos. Fato ainda curioso. a volta aos estudos (32%). outros 20% fugiram três vezes e. nenhum dos internos as recebe. Expectativas diante da vida Observou-se que 39% respondeu ter como ação principal o trabalho. respondeu não ter havido nenhum que se enquadrasse como feliz. além da pobreza e muitas vezes . Perguntados se se sentiriam preparados para uma mudança na sua conduta. sendo que 17% consideram ainda a inaptidão para o desligamento. Apenas 29% dos entrevistados afirmaram ter fugido da Instituição. era o único interno que não recebia visitas e que possuía pais falecidos. Expressiva parcela (33%) não soube responder. 83% deles. saindo somente para tomar sol em horário diferenciado dos demais internos. Tal assertiva também se justifica pelo fato de os adolescentes ousarem mais e possuírem menos medo do risco. um só deles (50%) permaneceu por algumas horas a mais no quarto como punição. Com punição à fuga. é que os adolescentes possuem esse tipo de atitude – fato este comprovado pela contradição que existe entre o comportamento em sistemas de internação para adolescentes e para os de adulto. Cerca de 94% dos adolescentes infratores entrevistados manifestaram interesse em sair da Instituição. seguida dos irmãos (28%). grande parte deles está relacionada à perda de entes queridos e da permanência na Instituição. uma vez que em penitenciárias (internação de infratores adultos) o respeito por parte dos reeducandos adultos em relação aos funcionários do estabelecimento é muito maior que aquele constatado entre os juvenis. é que inquirido sobre o momento mais feliz de sua vida. enquanto 6% responderam o inverso. Do momento mais triste na vida No que se refere ao momento mais triste na vida dos internos. e em segunda posição. quanto à sociedade. Como explicitado anteriormente. No que tange as dispensas em finais de semana. 20% uma única vez. Das pessoas que o visitam A pessoa que o mais visita é a mãe (32%). Em relação à preparação para o desligamento da Instituição. Do momento mais feliz na vida Apesar de possuírem um histórico familiar não muito aprazível. os amigos (faz-se questão de frisar) são os únicos que não visitam os internos. 83% afirmaram estar aptos para voltar ao convívio social convencional. com envolvimento de drogas entre tios. 61% deles afirmaram que sim. os 20% remanescentes afirmaram ter fugido mais de três vezes.

perante tais jovens. nesse caso.. situação essa. Ressalta-se que tal adolescente já possui seus pais falecidos e adentrou o mundo das drogas aos 6 anos de idade. que. como os momentos mais felizes de suas vidas. Expressa ela. porém a mudança somente ocorrerá se a desejarem. não se sendo inocente. Ainda na questão do ser humano mais admirado pelo interno. por si só coatora. auxílio. a não ser de seu livre arbítrio – merecem ajuda. muitos comentaram que terminariam com a violência. ações e reações e que isso não depende de mais ninguém. Esqueceram-se ou ainda não se tornaram conscientes de que fazem parte do processo para exterminá-la. Salienta-se que um interno. ou não se conscientizando de que somente eles são responsáveis por suas vidas. abrangendo bons adjetivos como. Há um princípio da vida que diz que ninguém e bom ou mau 100%. Responderam também que gostariam de mudar suas vidas e seu comportamento – ainda na mesma linha crítica de análise. pessoa batalhadora e calma. Surpreende o fato de dois internos terem respondido que não mudariam nada no mundo. surgiu a menção de uma pessoa desconhecida. muito menos. Nesse caso. que é o único. apoio e força. além do fornecimento de bons conselhos. um ser que se encontra em formação moral. esquecendo-se.. sim. que não expressa desejo em sair da Instituição (talvez por insegurança e falta de perspectiva na vida) e que manifestara que não mudaria nada no mundo.22 violência doméstica. Do sonho do interno . da qual o jovem só sabia o nome. uma vez que têm sido agentes ativos e passivos da mesma. características extremamente positivas como calma. Seguindo a mesma análise. Apesar de infratores e algumas vezes violentos. afirmou que o que mais admirava em seu pai era o fato de ele ter sido sempre pobre. a figura de um cantor de banda de rock (banda essa que faz apologia ao uso de drogas) como pessoa mais admirada por ele. O que o interno mudaria no mundo Acerca do que mudariam no mundo. a figura materna é a mais lembrada. Adolescente este. A figura paterna é a segunda mais recordada positivamente. que o adolescente se encontrava internado. grande parte dos entrevistados (34%) recorda-se com muito saudosismo. Triste constatação. comportamentos. ao recordar-se de seu progenitor. porém honesto. como mencionado anteriormente. poderia influenciar na resposta dessa pergunta – não desconsiderando o fato de que muitos devem realmente ter se arrependido da prática do ato infracional. muitos mencionaram que terminariam com as drogas – mais uma vez esqueceram de que fazem parte do processo para contribuir com seu extermínio. aqueles passados no convívio familiar. Fora ainda mencionado por um adolescente. que com muita freqüência o ajudava quando se encontrava em situação de rua. uma festa de final de ano com a família e até mesmo um colo de mãe. Há de se considerar aqui. todos demonstraram muita carência afetiva quando se mencionava a questão familiar. Da possibilidade de o interno mudar algo que tivesse feito Aqui. 66% responderam que não teriam praticado o ilícito penal. foram citados um simples assistir de televisão. Da pessoa que o interno mais admira No que tange a pessoa mais admirada pelo interno. não tendo feito o que o jovem em questão havia cometido. confiança.

tédio e incertezas. uma vez que o Estado pouco ou nada tem feito em termos . As diferenças sociais sendo vistas em camadas mais pobres da população também podem ocasionar um acréscimo na delinqüência praticada por jovens. abrangendo questões como violência e drogas em ambiente doméstico. de um sujeito de direito. a ansiedade e a depressão. a partir do momento em que não encontram outra forma para lidar com o tédio. etc). Questionados acerca de seus sonhos. a partir do momento em que não conseguem controlar questões como ansiedade. Fatores genéticos como grau de impulsividade e agressividade podem estar ligados ao desencadeamento de um maior ou menor índice de violência no adolescente. consolidando cada vez mais a idéia de que não se trata de um objeto. Procurou-se não amalgamar as respostas à essa questão em grupos. Constatou-se que adolescentes infratores geralmente têm espírito menos solidário. acredita-se que a presente pesquisa conseguiu traçar o perfil social. e sim. Corelacionam-se de uma maneira diretamente proporcional à delinqüência e ao uso de drogas. Características de personalidade também fizeram parte do quadro de fatores que podem interferir na delinqüência juvenil. ter vida digna. grande parte manifestou desejo em arrumar um emprego (20%) e em ter uma moradia (19%). à falta de afeição e à baixa auto-estima perante o ambiente familiar e social. Quase todos os sonhos estão relacionados à família e a valores essenciais subjetivos (ser feliz. Poucos manifestam desejos unicamente materiais. física e moral – tem-se a obrigação de Estado e sociedade atuarem juntos na melhoria da construção do caráter desses seres em desenvolvimento. inclusive vocacionais. para se verificar se os mesmos estavam mais à esfera material que essencial-espiritual. sempre com o objetivo maior de sociedade e poder público poderem contribuir para a melhoria da formação pessoal desse ser em desenvolvimento moral. justamente para buscar manter a autenticidade das respostas. comportamento mais hostil e desafiador. Verificou-se que a mobilidade geográfica da família não é um dos fatores determinantes da desestabilidade emocional do grupo familiar. ao sentimento de indiferença. ser alguém na vida. O relacionamento entre pais e filhos é um grande previsor de delinqüência. uma vez que se verificou que a maioria dos adolescentes infratores no mundo possui um distúrbio emocional muito forte relacionado à rejeição paterna.23 Inquiriu-se acerca dos sonhos que o interno almejava. Partindo-se do pressuposto de que nada é perfeito. econômico e familiar do adolescente infrator em nosso município. Destarte. As drogas têm sido a válvula de escape para esses jovens ao delinqüirem. a reação dos adolescentes às diferentes pressões da vida. depressão. CONSIDERAÇÕES FINAIS Constatou-se que os jovens absorvem o que vêem e vivem em seu âmbito familiar. como os do carro próprio. e de que no caso em estudo se tratam de adolescentes – pessoas que se encontram em formação psíquica. e fazendo uma analogia ao fato de nenhuma pessoa ser sempre boa ou má. sem auto-controle e destituídos de raciocínio sócio-moral. psicológico.

Alternativa essa. 1998. simplesmente objeto e não sujeito de direito.24 de desenvolvimento de programas para os adolescentes aprenderem a lidar com seus problemas pessoais. através de teatros em CIPs. saúde. com o intuito de desenvolver programas para melhoria da formação de caráter desses jovens. bem como do meio em que vivem. até pouco tempo. como drogas. Com a finalização do presente estudo. ou seja. Uma alternativa simples e viável seria a simulação. poder-se-iam estabelecer algumas diretrizes de ações à sociedade e ao Estado. Os referidos adolescentes estariam no pólo ativo da compaixão. CERs e escolas. Com base nos estudos realizados. deve-se incentivar uma real ou suposta conduta inversa àquela que à indesejada tomada por determinada pessoa. v. entende-se importante sugerir que Prefeitura Municipal e Governo Estadual desenvolvam e incluam nos CIPs e CERs da cidade e do Estado. através de estudos realizados. os órgãos governamentais têm negligenciado no que tange o desenvolvimento moral desses seres em formação. econômico. Antonio Fernando do. seguindo orientação de livros de psicologia infantil e de crescimento pessoal. familiar e psicológico do adolescente infrator residente no município de Chapecó-SC quando do cometimento do ato infracional e que se encontrava no Centro de Internação Provisória -CIP ou no Centro Educacional Regional – CER deste município. Pelas constatações feitas e. com alta probabilidade de efetividade nos resultados. . Percebe-se apenas a oferta de atividades essenciais fisicamente . Dalai-Lama expõe.5. altamente viável e de pouco custo para os órgãos governamentais. educação e profissionalização (ressalta-se que as atividades educacionais e vocacionais são opcionais àqueles internos que as desejarem). A psicologia também ensina que para se obter um resultado eficiente numa mudança de comportamento. O mito da inimputabilidade penal e o estatuto da criança e do adolescente. que induzissem o jovem a agir e reagir corretamente em situações difíceis. diminuindo níveis de agressividade entre os que a praticam. o Estado deveria desenvolver programas que atendessem essas necessidades. através da prática da compaixão. que a semente da compaixão faz crescer o sentimento de amor ao próximo. programas semanais que desenvolvam a caridade entre os jovens infratores e a sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARAL E SILVA. Para os jovens lidarem com seus dilemas e problemas pessoais de forma correta. pôde-se traçar o perfil social. In: Revista da Escola Superior da Magistratura do Estado de Santa Catarina. Verifica-se que na efetividade não há uma ação dos órgãos públicos que vise desenvolver essa melhora de comportamento e crescimento moral.esporte. Florianópolis. Destarte. conflitos familiares e falta de oportunidade de emprego. os internos desenvolveriam caridade para com pessoas em situação idêntica ou tão mais desfavorecida que a deles. reconduzindo-o ao convívio social e tornando-o útil à sociedade. ante os problemas analisados. sempre com o objetivo de que sociedade e poder público possam contribuir para a melhoria do desenvolvimento moral desse ser. AMC. Seguindo essa mesma linha.

3.ed.ufsc. 2000. Código penal. VERAS NETO. Breve histórico da evolução dos direitos à cidadania das crianças e dos adolescentes no Brasil. BRASIL. São Paulo: Malheiros.ccj. Constituição (1988). São Paulo: Malheiros. A arte da felicidade. LOVISOLO. Estatuto da criança e do adolescente comentado.br/>. Do ato infracional. 2002 BRASIL. FERNANDES. ed. MUSSEN. São Paulo: Saraiva: 1999. Roberto. LIMA. São Paulo: Universitária. 1993. 2002. Estatuto da criança e do adolescente comentado. Delinqüência juvenil: uma abordagem transdisciplinar. O adolescente infrator e a liberdade assistida: um fenômeno sócio-jurídico. 14. Dicionário língua portuguesa. 5. José. O direito do menor. 2002. FREITAS. Anisio Garcia. Jorge. 1998.br/>. Francisco Quintanilha. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Acesso em: 24 janeiro 2003. 5. (Série Legislação Brasileira).jus. ed. Augusto César da Luz. 1995 SARAIVA. São Paulo: Malheiros.com. Estatuto da criança e do adolescente comentado. 2002. Promulgado em 13 de julho de 1990. 01 janeiro 2000. 1998. São Paulo: Nova Cultural. Lei 8069/90. Rio de Janeiro: CBCISS. São Paulo: Malheiros. BERGALLI. Disponível em: <http://buscalegis. ed. São Paulo: Harbra. ed. MARTINS. 5. CAVALCANTE. TRINDADE. 2002. Vera Maria Mothé.25 BARROSO FILHO. Acesso em: 24 janeiro 2003. . de 04 de junho de 1998. Conceição. BRASIL. São Paulo: Saraiva. João Batista Costa. Dalai Lama XIV et al. Estatuto da criança e do adolescente comentado. Helena et al. ed. Paul Henry et al. Miguel Moacyr Alves. ed. Estatuto da criança e do adolescente. Disponível em: <http://www1. 1992. São Paulo: Malheiros. 01 janeiro 2000. Emenda n. 1999. Bstan-‘dzin-rgya-mtsho. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Ana Maria Gonçalves. Estatuto da criança e do adolescente comentado. São Paulo: Martins Fontes.19. MOUSNIER. 5. 1988. Desenvolvimento e personalidade da criança. 5. Adolescente e ato infracional: garantias processuais e medidas sócio-educativas.

. Florianópolis: Ministério Público do Estado de Santa Catarina. Perfil do adolescente infrator no Estado de Santa Catarina.). Procuradoria-Geral de Justiça. 1999. Henriqueta (org.26 VIEIRA. Centro das Promotorias da Infância.