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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS)

DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

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ANÁLISE DO DISCURSO CRÍTICA E EMANCIPAÇÃO:

CONTRIBUIÇÕES A PARTIR DA VISÃO DE BAUMAN

1 – INTRODUÇÃO

Guilherme Ferreira

Santos 1

Cristiane Alvarenga Rocha Santos 2

A Análise do Discurso (AD), enquanto disciplina, possibilita um diálogo produtivo

com outras áreas de estudo, em especial no que tange às Ciências Humanas e sociais,

como, por exemplo, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a História e a Filosofia (MAINGUENEAU, 1997, p. 11). Esse diálogo permite articular categorias e conceitos que auxiliam na compreensão de aspectos relacionados direta e indiretamente com a noção de discurso. A Análise do Discurso Crítica (ADC), tendo como um de seus principais fundadores Norman Fairclough (2001), tem contribuído proficuamente para com as pesquisas em torno do discurso, apresentando um diálogo permanente com as Ciências Sociais.

A ADC concebe o discurso enquanto parte de nossas práticas sociais. Esta teoria

entende “práticas sociais” como “maneiras habituais, em tempos e espaços particulares, pelas quais pessoas aplicam recursos – materiais e simbólicos – para agirem juntos no mundo” (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999, p. 21 apud RESENDE; RAMALHO, 2006, p. 35). Destarte, o discurso é um modo de ação historicamente situado, sendo constituído socialmente e constitutivo de identidades sociais, relações sociais e sistemas de conhecimento e de crença (FAIRCLOUGH, 2001). Fairclough (2001, p. 92) pressupõe, então, uma relação dialética entre discurso e sociedade. Essa relação dialética também foi perspectivada por uma importante teoria social: a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt que retoma, de forma propositiva e revisada, princípios marxistas para compreender as relações sociais de sua época. No contexto de sua produção, Adorno, Horkheimer e, posteriormente, Habermas estavam preocupados, em especial, com as questões sociais e filosóficas que perpassavam as formas de relações sociais do mundo ocidental de sua época. Com isso, a emancipação humana e o despertar da consciência crítica eram os principais objetivos desta corrente teórica. Na conjuntura desta teoria, a noção de crítica inspirou diversas correntes seguintes em diversos campos do saber, inclusive no campo

1 Graduado em Educação Física. Universidade Federal do Espírito Santo. 2 Mestre em Linguística e Língua Portuguesa. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

do Espírito Santo. 2 Mestre em Linguística e Língua Portuguesa. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
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da Linguística. Considerando a importância da ADC para as pesquisas na interface entre discurso e sociedade, percebemos que esta abordagem ancora sua Teoria Social do Discurso na noção de crítica citada anteriormente, objetivando contribuir para o debate sobre as relações de dominação através de atos discursivos e sobre a possibilidade de emancipação humana. A partir do exposto, o objetivo de nosso trabalho é apresentar uma discussão inicial acerca das possíveis contribuições de uma abordagem contemporânea e significativa da teoria social para a ADC: a apresentada pelo polonês Zygmunt Bauman. Segundo esse autor (BAUMAN, 2001), as noções de crítica e emancipação propostas pela Teoria Crítica precisam ser revistas no âmbito do debate sobre o entrecruzamento dos espaços públicos e privados. Para Bauman (2001), na sociedade contemporânea, por causa dos processos individualizantes e privatizantes da política-vida, a consciência da crítica é cada vez maior, porém, a receptividade a ela é cada vez menor, colocando em risco os objetivos emancipatórios tão enfatizados pela Teoria Crítica. Assim, se a abordagem de Bauman estiver correta, perguntamo-nos: como a ADC pode, então, realizar seus objetivos sem levar em consideração esse risco? Com esta questão pretendemos, a partir de uma metodologia ensaística, refletir sobre as ideias de Bauman no que concerne às noções de crítica e emancipação para, com isso, contribuirmos, mesmo que inicialmente, com a ADC enquanto uma ferramenta de estudo discursivo no âmbito social-crítico.

2 – A ADC E A LINGUÍSTICA CRÍTICA – A IDEOLOGIA COMO CONCEITO

CHAVE

De acordo com Magalhães (2005, p. 2), a AD, em termos gerais, objetiva o debate teórico e metodológico do discurso, isto é, do uso da linguagem enquanto prática social. Ainda para a autora, “nesse sentido, a análise do discurso, seja qual for a sua orientação, se opõe à linguística formal” (MAGALHÃES, 2005, p. 2). No caso específico da ADC, há uma sequência de estudos que surgiu anteriormente a ela: a então denominada Linguística Crítica. Para Gouveia (2001, p. 335), a publicação das obras Language and Control de Fowler et. al (1979 apud GOUVEIA, 2001, p. 335) e Language as Ideology de Kress e Hodge (1979 apud GOUVEIA, 2001, p. 335) foi o ponto de partida da especificidade da Linguística Crítica, de que a atual ADC é herdeira (GOUVEIA, 2001, p.

335).

Nessa linha, Gouveia nos diz que esses primeiros teóricos da Linguística Crítica estavam preocupados, fundamentalmente, “com as correlações entre a estrutura

teóricos da Linguística Crítica estavam preocupados, fundamentalmente, “com as correlações entre a estrutura
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linguística e a estrutura social, sobretudo as que estavam à margem e para além do que, à data, se fazia em muitos estudos em sociolinguística” (GOUVEIA, 2001, p. 335). Pretendiam, então, “demonstrar, com as suas análises, que os grupos e as relações sociais influenciam o comportamento linguístico e não-linguístico dos sujeitos, incluindo a sua atividade cognitiva” (GOUVEIA, 2001, p. 335). Tal forma de enxergar a relação entre a estrutura linguística e a estrutura social foi uma ideia não apenas “contra” a corrente linguística da época, mas também “a favor” de outras teorizações sociológicas que já abordavam diferentes relações com esse mesmo pensamento. Devido à influência que as Ciências Sociais exerceram sobre a Linguística Crítica, os conceitos que costumavam cercar as narrativas da primeira também foram apropriados pela segunda e, consequentemente, pela ADC. Um desses conceitos principais é o de ideologia. Advindo da tradição marxista, tal conceito serviu de base para os propósitos de identificação das variáveis sociais as quais, segundo a Linguística Crítica, constrangiam os discursos dos sujeitos no sentido de produzirem uma falsificação da verdade ou uma crença baseada nos interesses, sendo estes de acordo com a posição social dos falantes em questão. Em sua gênese, a ADC, no entanto, não hesita em discordar de algumas ideias da Linguística Crítica, apesar de tê-la como base. Na década de 1980, segundo Magalhães (2005, p. 2), Norman Fairclough, na Universidade de Lancaster, na Inglaterra, “usou a expressão ‘análise do discurso crítica’ pela primeira vez em artigo seminal no Journal of Pragmatics”. Esse autor inglês desenvolveu uma abordagem bastante específica de AD, com um crescendo que supera, em alguns pontos, os postulados da Linguística Crítica. Um desses pontos é, exatamente, o maior equilíbrio que se atribuiu entre os aspectos linguísticos do texto e sua exterioridade social (BRANDÃO, 2004), isto é, começa a se atribuir um sentido dialético à relação entre a estrutura linguística e a estrutura social. Entretanto, no interior da própria teoria social, essa noção (que, no caso, é mais ligada à relação entre sociedade e indivíduo, ou entre a posição social do ser e o pensamento/consciência/cognição do mesmo) dialética não surgiu logo no início. Conforme nos relata o sociólogo alemão Norbert Elias, na tradição marxiana, o pensamento pode estar ligado aos interesses e isso é observado, especialmente, no que diz respeito ao conceito de luta de classes (ELIAS, 2001, p. 118). Essa formulação, de acordo com Elias,

] [

lado, um ser social desprovido de consciência e, por outro, uma consciência

acossada pelas vagas. [

as mudanças do ser desvinculado de qualquer pensamento são responsáveis, como causas, pelas mudanças do pensamento, que constituem seus efeitos. (ELIAS,

suscita a ideia de um dualismo ontológico, isto é, que há no homem, por um

]

trata-se de uma simples causalidade de bola de bilhar:

de um dualismo ontológico, isto é, que há no homem, por um ] trata-se de uma
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2001, p. 118)

No interior dessa tradição, segundo Elias (2001, p. 117), surge a figura do húngaro Karl Mannheim, o qual desenvolve alguns traços dessa corrente em um sentido bastante preciso (ELIAS, 2001, p. 118). Na formulação marxista colocada, os pensamentos ou a consciência eram considerados ideológicos apenas quando havia algum nível de oposição na relação social (ELIAS, 2001, p. 118). Mannheim leva tal asserção a um nível bem mais radical, afirmando, segundo Elias, a necessidade de se mostrar que “a totalidade da consciência como expressão de uma certa ‘situação do ser’ está ligada [necessariamente] a uma posição particular” (ELIAS, 2001, p. 119). E isso ocorre “não apenas pela totalidade da consciência dos adversários, quer se trate de grupos ou de indivíduos, mas também pela totalidade de sua própria consciência” (ELIAS, 2001, p. 119). Assim, conforme o autor, Mannheim supera a formulação marxiana no sentido de levar até as últimas consequências sua base lógica. No entanto, há continuidade em relação à separação ontológica entre o ser social e o pensamento ou a consciência (ELIAS, 2001, p. 118). Portanto, para Marx, assim como para Mannheim, há a ideia dualista de um ser social meramente desprovido de pensamento, em quem este parece se acrescentar pelas causalidades da bola de bilhar. No entanto, para Marx, a ideologia só ocorre na produção de uma crença ligada aos interesses sociais quando tais interesses estão em franca oposição a interesses de outros indivíduos ou grupos (ELIAS, 2001, p. 118). Já para Mannheim, todo e qualquer pensamento, assim como toda e qualquer consciência, independentemente de serem produzidos ou não em relações de oposições, são ideológicos (ELIAS, 2001, p. 119). Segundo Elias, essa linha leva Mannheim a uma “armadilha intelectual”:

Se julgarmos isso pelo que ele próprio diz, qualquer um que defenda essa opinião

não produz outra coisa senão ideologia. Por que, nesse caso, se dar ao trabalho de empreender pesquisas, uma vez que toda afirmação está ligada a uma posição, não

sendo por conseguinte senão ideologia? [

condenaríamos de fato todos os esforços de pensamento dos homens. (ELIAS, 2001, p. 119-120)

se fôssemos ao fim desse raciocínio,

]

Mannheim, no entanto, recuou diante dessa lógica, além de ter realizado diversas tentativas de resolução dessa problemática (ELIAS, 2001, p. 120). Para Elias, porém, a linha de continuidade da formulação marxiana é que imprime o caráter de armadilha às ideias sobre ideologia de Mannheim (ELIAS, 2001, p. 118-119). Esse autor havia sido pupilo de Mannheim e, em um sentido localizado, inaugura a crítica ao dualismo ontológico. Segundo ele, “o modo como Mannheim, assim como Marx, aborda esse

inaugura a crítica ao dualismo ontológico. Segundo ele, “o modo como Mannheim, assim como Marx, aborda
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problema peca pelo fato de que ambos o formulam sem levar em conta que a consciência e o pensamento são eles próprios elementos constitutivos da sociedade humana” (ELIAS, 2001, p. 118-119). Isto é, o autor começa a enxergar uma visão dialética na relação entre indivíduo e sociedade – não há como considerar o indivíduo separadamente da sociedade e nem vice-versa. 3 Do mesmo modo, a ADC, a partir das contribuições de Fairclough, aborda uma visão dialética entre discurso e sociedade. O próprio Fairclough explica:

Ao usar o termo “discurso”, proponho considerar o uso da linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis

implica uma relação dialética entre o

discurso e a estrutura social, existindo mais geralmente tal relação entre a prática social e a estrutura social: a última é tanto uma condição como um efeito da primeira. Por outro lado, o discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido mais amplo e em todos os níveis: pela classe e por outras relações sociais

em um nível societário, pelas relações específicas em instituições particulares, como o direito ou a educação, por sistemas de classificação, por várias normas e convenções, tanto de natureza discursiva como não-discursiva, e assim por diante. Os eventos discursivos específicos variam em sua determinação estrutural segundo o domínio social particular ou o quadro institucional em que são gerados. Por outro lado, o discurso é socialmente constitutivo. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 90-91).

situacionais. Isso tem [

]

implicações. [

]

Com tal citação, fica claro que Fairclough, já em um trabalho inicial, 4 percebe a limitação da consideração unidirecional da relação entre discurso e sociedade, (a qual é também criticada por Elias). Contudo, o mesmo não supera integralmente a posição marxiana de ideologia como relativa apenas a situações onde há relações de oposição. Ao estabelecer o seu conhecido “quadro tridimensional de análise” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 101), Fairclough coloca algumas categorias analíticas pré-definidas tanto para a análise textual, quanto para as análises da prática discursiva e da prática social. Em trabalhos mais recentes, o autor desenvolve ainda mais tal quadro, afirmando a dispersão de tais análises na prática de pesquisa. 5 Em se tratando da prática social, as categorias, mesmo em seus trabalhos mais recentes, relacionam-se ao conceito de ideologia no sentido de produção de crenças apenas em situações em que ocorre a citada relação de oposição:

Todo discurso é ideológico? Sugeri que as práticas discursivas são investidas ideologicamente à medida que incorporam significações que contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder. Em princípio, as relações de poder podem ser afetadas pelas práticas discursivas de qualquer tipo, mesmo as

científicas e as teóricas. [

Mas daí nem todo discurso é irremediavelmente

ideológico. As ideologias surgem nas sociedades caracterizadas por relações de dominação com base na classe, no gênero social, no grupo cultural, e assim por diante, e, à medida que os seres humanos são capazes de transcender tais

]

3 Cf. Elias (1994).

4 O texto citado data de 2001 em sua publicação no Brasil. A publicação original é de 1992.

5 Cf. Chouliaraki e Fairclough (1999).

data de 2001 em sua publicação no Brasil. A publicação original é de 1992. 5 Cf.
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sociedades, são capazes de transcender a ideologia. Portanto, não aceito a

concepção de Althusser [

que é inseparável da própria sociedade. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 121)

de ‘ideologia em geral’ como forma de cimento social

]

Esse tipo de posição, segundo Gouveia, tem relação bastante estreita com o

caráter crítico da abordagem analítica em questão, o qual recebeu influências da “teoria social, nomeadamente da teoria crítica, ligada aos membros da chamada Escola de

Frankfurt [

]

ou aos seus herdeiros” (GOUVEIA, 2001, p. 341).

3 – A CONCEPÇÃO CRÍTICA DA ADC E AS POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DE ZYGMUNT BAUMAN

Nesse ínterim reside o ponto central da problemática proposta aqui. As categorias relacionadas à análise da prática social desenvolvidas por Fairclough (2001) são intimamente ligadas ao conceito de ideologia referido acima, o que é explicado através da influência da Teoria Crítica. Entretanto, segundo Bauman, na atual sociedade líquido- moderna, esse conceito, referido especificamente dessa maneira, é bastante ineficiente para os propósitos maiores da Teoria Crítica. Grosso modo, para Bauman, a Modernidade, em termos de sua concepção, objetivava “derreter sólidos” – antigas ordens baseadas na tradição, no passado e no sagrado (BAUMAN, 2001, p. 9) – para construção de novos sólidos, ou seja, novas ordens, melhores e legítimas, porque embasadas, agora, na ciência e na filosofia. A esse estágio, Bauman denominou modernidade sólida. Porém, esse projeto de estabelecimento da ordem e do progresso, embasado cientificamente, acabou por gerar, de maneira não planejada, em vários “pontos” da modernidade sólida, a desordem e o caos, pois, segundo o autor, uma das condições essenciais para a realização do projeto moderno-sólido foi o aumento relativo da liberdade individual de escolher e de agir (2001, p. 11). Por causa desse aumento (e graças também à noção do indivíduo – do homem – como centro e fundamento epistemológico, ético e ontológico), a ordem como tarefa do projeto moderno-sólido não aconteceu totalmente. A partir da segunda metade do século XX, então, houve uma consequência paradoxal do projeto moderno-sólido, já que alguns traços principais da ação moderna (o destronamento do que é velho, do que é passado, do que é tradição para sua reformulação em novas formas que fossem “realmente” duradouras e estáveis) passam para um outro nível, chegando-se ao que Bauman chamou de modernidade líquida. Nesta nova fase, o que se vê no processo social não é uma ruptura completa da modernidade sólida, mas a característica de fluidez e de não capacidade para manter a forma. Logo, nessa nova fase da Modernidade, a utopia de emancipação da Teoria Crítica

de não capacidade para manter a forma. Logo, nessa nova fase da Modernidade, a utopia de
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parece ser cada vez mais difícil, visto a “indisposição” inicial das pessoas para a própria emancipação (BAUMAN, 2001, p. 23). O grande problema, no bojo de tal teoria, segundo Bauman, é que ela mesma, em diversos momentos, não enxergou esse entrave e tentou “forçar” a emancipação (BAUMAN, 2001). De acordo com Bauman,

Devermos nos emancipar, “libertar-nos da sociedade”, não era problema para Marcuse. O que era um problema — o problema específico para a sociedade que “cumpre o que prometeu” — era a falta de uma “base de massas” para a libertação. Para simplificar: poucas pessoas desejavam ser libertadas, menos ainda estavam dispostas a agir para isso, e virtualmente ninguém tinha certeza de como a “libertação da sociedade” poderia distinguir-se do Estado em que se encontrava. (BAUMAN, 2001, p. 23, grifos do autor)

A Teoria Crítica, como visto, não se atentou para isso e não voltou sua atenção para as consequências de tal fato ocorridas na modernidade líquida. Para Bauman, uma dessas principais consequências se relaciona com o sentido de comunidade. Em alguma medida, a singela contribuição que pretendemos dar, aqui, relaciona-se com a igual percepção limitada (ou com a não percepção) da ADC a essas consequências, especificamente no que diz respeito às ideias colocadas por Zygmunt Bauman. De acordo com Bauman (2001), o discurso da emancipação posto pela Teoria Crítica acabou por se “misturar”, involuntariamente, ao discurso da liberdade, a qual era “pregada” exatamente por quem estava no poder, isto é, pelas classes sociais altas. Assim, o autor chama a atenção para um processo rígido e fatal na modernidade, o qual pode ser considerado um de seus traços mais “drásticos”: o processo de individualização. Quando Bauman (2001, p. 39-40) discorre sobre a individualização e sobre a possibilidade de emancipação/liberdade na sociedade moderna, ele se utiliza de uma interpretação dessas ideias com base em dois trabalhos de Ulrich Beck os quais “historicizam”, segundo o polonês (BAUMAN, 2001, p. 40), a “Sociedade dos indivíduos” de Elias no contexto atual. De acordo com essa interpretação “historicizada”, mesmo com o reconhecimento da interdependência entre indivíduo e sociedade, a Modernidade faz questão de apresentar seus membros apenas como indivíduos (BAUMAN, 2001, p. 40). Nesse ponto, os ideais do Estado moderno e da moderna economia liberal “casam- se” perfeitamente para regerem as ações políticas, pois o primeiro se certificaria da segurança e do governo públicos, enquanto a segunda daria, enfim, a liberdade individual para os negócios econômicos (empreendedorismo, projetos de vida, objetivos de produção, etc.). Na modernidade sólida, a individualização ocorre, segundo Bauman (2001, p. 41), de modo mais “idealizado” do que “real”, já que a esfera econômica produziu “a divisão em classes (ou em gêneros)” (BAUMAN, 2001, p. 41), sendo tal divisão “um resultado secundário do acesso desigual aos recursos necessários para

(BAUMAN, 2001, p. 41), sendo tal divisão “um resultado secundário do acesso desigual aos recursos necessários
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tornar a autoafirmação [a individualidade] eficaz” (BAUMAN, 2001, p. 41). Dessa forma, o que se almejava, além da ordem, era que o Estado e a economia fossem reconhecidos institucionalmente como os novos sólidos (agora bons e duradouros) criados pela modernidade sólida. É importante ressaltar, todavia, que o citado acesso desigual às “condições de libertação” (ou às “condições de individualização”) produziu o caos e a ambivalência. Em termos processuais, por causa das ambivalências produzidas pelo impulso da ordem, foi-se deixando de confiar nos sólidos ditos “bons e duradouros” (BAUMAN, 1999). Após ações que foram consideradas como tragédias produzidas pelo Estado (holocausto, guerras, etc.), os maiores medos das mulheres e dos homens modernos começaram a se relacionar às ações desses sólidos (isto é, das instituições estatais e de seus líderes). As ansiedades e os terrores que começaram a sondar a sociedade, após o holocausto e após outros “absurdos” do Estado, eram de que houvesse um desequilíbrio na interdependência entre indivíduo e sociedade, havendo um sobrepeso do lado da sociedade, isto é, do Estado e de sua “política de eliminação”. O receio de que os “absurdos” do Estado pudessem se repetir foi o princípio dessas ansiedades e o debate em torno de tais questões fazia parte, na época, da esfera pública e da vida Política. Como estratégia para superar esse “trauma”, surgiram novos discursos em favor da liberdade e da individualização (e aqui entra a Teoria Crítica). O que diferencia tais discursos dos antecedentes libertários é que, agora, a individualização total – tratada por Bauman (2000a, p. 38-55) como estratégia “puramente autônoma”, em contrapartida das estratégias anteriores, a puramente heterônima e a heteroautônoma – era condição sine qua non para a liberdade; esse processo deveria ser direito de todos; e ele deveria significar a desconfiança para com o Estado e para com outras possíveis agências que poderiam vir a tomar a liberdade do ego (BAUMAN,

2000a).

Assim, com o passar do tempo (e com o passar da modernidade sólida para a modernidade líquida), segundo Bauman (2001), o que aconteceu foi um “redirecionamento” dos alvos de derretimento. Ainda se utilizando da metáfora da liquefação, Bauman diz que

a tarefa de construir uma ordem nova e melhor para substituir a velha ordem

defeituosa não está hoje na agenda — pelo menos não na agenda daquele domínio

em que se supõe que a ação política resida. O “derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que

tudo, foi redirecionado a um novo alvo [

Os sólidos que estão para ser lançados

] [

].

no cadinho e os que estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações

coletivas — os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de coletividades

coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de
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humanas, de outro. (BAUMAN, 2001, p. 12)

Ambivalentemente, o processo de derretimento das ligações entre indivíduo e sociedade vai não em direção a um “reequilíbrio” da interdependência, mas sim a um “novo” desequilíbrio, em favor, agora, do lado oposto. Com isso, os problemas públicos e a Política (com “P” maiúsculo) são descasados da ação individual (BAUMAN, 2001). Essas análises de Bauman são bastante interessantes e inovadoras na medida em que abordam tanto um nível macro como um nível micro da sociedade. No caso da incerteza e da insegurança, o autor coloca que, em termos particulares, há incerteza por causa de processos gerais, os quais acabam por vir de incertezas particulares. Para ele:

A dúvida se torna um círculo vicioso. Com a arte de negociar interesses comuns e

destinos compartilhados caída em desuso [

sendo marcada com as marcas da suspeita, da ameaça, da nebulosidade e da tolice, a busca por segurança em uma identidade comum – ao invés de em um

acordo de interesses comuns – emerge como a mais sensata, efetiva e produtiva maneira de proceder; porém, as preocupações com a identidade e suas defesas

contra a poluição fazem da ideia de interesses comuns [

a mais incrível de todas

e também a mais fantástica, sendo a habilidade e a vontade para persegui-las as

características menos prováveis de aparecerem. (BAUMAN, 2000b, p. 106, tradução

nossa)

]

e com a ideia de “bem comum” [

]

]

O interessante dessa citação é que, para o autor, “identidade comum” é diferente de “interesses comuns”, “destinos compartilhados” e “bens comuns”, pois tais interesses, destinos e bens podem estar relacionados a pessoas com identidades das mais variadas. Assim, o que ocorre atualmente é esse ciclo em que o diálogo para se debater esses interesses, destinos e bens fica “de fora”, ou, se se prefere, não é uma opção. Em meio ao medo da incerteza, a estratégia de vida que aparece, então, como a mais sensata, efetiva e produtiva é a busca por segurança em uma identidade comum. Porém, essa “identidade comum” não necessariamente leva à formação de uma comunidade em sentido pleno (BAUMAN, 2001). Tradicionalmente, pelo menos nos Estados Unidos, essa “identidade comum postulada” tem sido traduzida por etnicidade (BAUMAN, 2001, p. 125). No caso dos americanos, apenas ter a etnicidade em comum nunca foi garantia de se formarem verdadeiras comunidades, mas, para o autor, tem sido um intensificado impulso à uniformidade, já que o “conviver com estranhos” surge como um perigo (BAUMAN, 2001, p. 124). Isto é, conforme Bauman (2001, p. 195), um paradoxo do comunitarismo no bojo da modernidade líquida. Comunitarismo, para ele, não revela a ideia de uma comunidade real (que se preocupa com a Política), mas sim de uma “roupagem” leve – o mais leve possível – que deve ser vestida por pessoas que “se identificam” umas com as outras em

leve – o mais leve possível – que deve ser vestida por pessoas que “se identificam”
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ocasiões públicas para ser tirada imediatamente quando da volta à privacidade do indivíduo (BAUMAN, 2001).

4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS – PROPOSTA CATEGÓRICA À ADC A PARTIR DAS CONTRIBUIÇÕES DE ZYGMUNT BAUMAN

Baseados nas análises realizadas por Bauman, vemos que a própria ADC, como herdeira da Teoria Crítica, não tem se atentado suficientemente para os problemas que apontamos. Ao lidar com o conceito de ideologia da maneira que citamos, a ADC visualiza, inicialmente, as lutas de classe em prol da emancipação da classe dominada (FAIRCLOUGH, 2001). Posteriormente, contudo, esse conceito é mais referido em um sentido o qual Bauman chamou de “positivo” (BAUMAN, 2000a, p. 124). Tal sentido é a resolução da armadilha intelectual na qual Mannheim se colocou (ELIAS, 2001, p. 120). Desse modo, a ADC enfoca, de modo “relacionista”, qualquer outro tipo de oposição em desigualdade – como, por exemplo, as de gênero, raça, etnia etc. (FAIRCLOUGH, 2001). Observamos tais visões como formas interessantes de se aplicar o caráter crítico da abordagem de Fairclough. No entanto, não deixamos de notar que tais visões não contemplam o sentido que o comunitarismo (como junção de ideologias semelhantes) seguiu na modernidade líquida, isto é, o processo de individualização e a perda do caráter comunitário real da sociedade humana. De acordo com Bauman,

O poder político perdeu muito de sua terrível e ameaçadora potência opressiva —

mas também perdeu boa parte de sua potência capacitadora. A guerra pela emancipação não acabou. Mas, para progredir, deve agora ressuscitar o que na

maior parte de sua história lutou por destruir e afastar do caminho. A verdadeira libertação requer hoje mais, e não menos, da “esfera pública” e do “poder publico”. Agora é a esfera pública que precisa desesperadamente de defesa contra o invasor privado — ainda que, paradoxalmente, não para reduzir, mas para viabilizar a liberdade individual. Como sempre, o trabalho do pensamento crítico é trazer à luz os muitos obstáculos que se amontoam no caminho da emancipação. Dada a natureza das tarefas de hoje, os principais obstáculos que devem ser examinados urgentemente estão ligados às crescentes dificuldades de traduzir os problemas privados em questões públicas, de condensar problemas intrinsecamente privados

em interesses públicos [

novo destinatário. O espectro do Grande Irmão deixou de perambular pelos sótãos

e porões do mundo quando o déspota esclarecido deixou de habitar as salas de

estar e recepção. Em suas novas versões, moderno-líquidas e drasticamente encolhidas, ambos encontram abrigo no domínio diminuto, em miniatura, da política-vida pessoal; é lá que as ameaças e oportunidades da autonomia individual — essa autonomia que não se pode realizar exceto na sociedade autônoma — devem ser procuradas e localizadas. A busca de uma vida em comum alternativa deve começar pelo exame das alternativas de política-vida (BAUMAN, 2001, p. 62-

63)

].

Essa tarefa coloca a teoria crítica cara a cara com um

A nosso ver, no que tange à análise da prática social, a ADC deveria começar a

a teoria crítica cara a cara com um A nosso ver, no que tange à análise
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abordar categorias dessa prática a partir não apenas de ideologias em oposição, mas de termos específicos de cada corpus de análise os quais, a partir de estudos e levantamentos localizados, relacionam-se diretamente com a manutenção desse processo de individualização e dessa perda do sentido Político. As abordagens podem sim (e devem, em nosso entender) relatar as desigualdades e as relações de oposições. Todavia, isso não significa se prender apenas a tais relações, mas, sim, perceber (e o desafio é grande) como tais relações estão localizadas no contexto social mais amplo, que, hoje, não se resume a lutas de classe ou a “lutas” de gênero ou de etnia.

5 – LISTA DE REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z. Em busca da Política. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000a.

Liquid modernity. Cambridge: Polity, 2000b.

Modernidade e ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BRANDÃO, H. H. N. Introdução à análise do discurso. 2. ed. rev. Campinas: Ed. da UNICAMP, 2004.

CHOULIARAKI, L.; FAIRCLOUGH, N. Discourse in Late Modernity: rethinking Critical Discourse Analysis. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1999.

ELIAS, N. A sociedade dos indivíduos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

Norbert Elias por ele mesmo. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Tradução Izabel Magalhães. Brasília: Ed. da UNB, 2001.

Jorge Zahar, 2001. FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social . Tradução Izabel Magalhães. Brasília: Ed. da
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GOUVEIA, C. A. M. Análise crítica do discurso: enquadramento histórico. In: CORREIA, C. N.; MATEUS, M. H. M. Saberes no tempo: homenagem a Maria Henriqueta Costa Campos. Lisboa: Colibri, 2001. p. 335-351.

MAGALHÃES, I. Introdução: a análise de discurso crítica. Delta: Documentação e Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 21, n. especial, p. 1-9, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/delta/v21nspe/29248.pdf>. Acesso em:

08 nov. 2009.

MAINGUENEAU, D. Novas tendências em análise do discurso. Tradução Freda Indursky. 3. ed. Campinas: Pontes; Ed. da UNICAMP, 1997.

RESENDE, V. de M.; RAMALHO, V. Análise de discurso crítica. São Paulo: Contexto,

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