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FILOSOFIA E XAMANISMO: REFLEXÕES CRÍTICAS SOBRE A TRADIÇÃO CONTINENTAL

Ora, não há porque nos torturarmos angustiados. Pois lá onde faltam conceitos, Lá colocamos uma palavra no momento certo. Com palavras se discute com elegância, Com palavras se constrói um sistema, Em palavras pode-se facilmente acreditar, De uma palavra não se deixa nem um jota roubar.* J. W. Goethe (Mephistopheles, Faust)

Funções do xamã são a de exorcisar os espíritos maus que habitam os corpos dos enfermos e assegurar a harmonia espiritual aos membros do clâ. Em geral os xamãs têm consciência de que tudo o que conhecem são apenas truques, de que a sua magia é ilusória, uma consciência que se perdeu no caso das religiões mais desenvolvidas de nossa civilização. O religioso cristão, por exemplo, acredita honestamente no valor transcendente de seus rituais... Ora, com o filósofo não tem sido muito diferente. Ele freqüentemente age como o ministro religioso e desconfio que por vezes também como o xamã, promovendo de maneira mágica a regeneração da cultura e a harmonia espiritual das hordas intelectuais. Nesse ensaio pretendo investigar as manifestações xamanísticas da filosofia lá onde elas são mais evidentes, ou seja, na assim chamada tradição continental, que reúne pensadores como Kant, Fichte, Hegel, Husserl, Heidegger e mesmo Habermas, e que foi importada para a França por Sartre e Merleau-Ponty,

tornando-se, através de filósofos como Foucault, Deleuze e Derrida, o sangue e a carne da filosofia francesa contemporânea.

I Quero introduzir meus comentários expondo algumas recordações pessoais que remontam à década de 1970. A primeira é do tempo em que, ainda estudante de medicina, pela primeira vez abri o livro de Michel Foucault intitulado As Palavras e as Coisas (Les Mots te les Choses). Ele começava com uma citação de Borges e continuava em uma linguagem requintadamente literária, que me deixou encantado. Eu quase nada entendia do que estava lendo, mas já sabia que estava diante da maior expressão do pensamento francês pós-Sartre e, por conseguinte, talvez da “maior” obra filosófica produzida na segunda metade do século XX. Essas impressões ingênuas de leigo, que certamente se dão também a outras pessoas que amam a literatura e que nada entendem de filosofia, só foram desfeitas anos mais tarde, quando comecei a perceber que as teses mais propriamente filosóficas defendidas por Foucault, embora veiculadas em meio a um discurso de grande estilo e sofisticação, tinham muito de trivial ou simplesmente equívoco. A tese central de As Palavras e as Coisas (Les Mots et les Choses) é a afirmação anti-humanista da morte do homem. O homem ainda não existia na época clássica (entre os séculos XVI e XVIII), pois esta se caracterizou pelo domínio da razão e da ciência, nela não havendo espaço para a subjetividade humana. O conceito do humano foi inventado pela modernidade (a partir do iluminismo), tornando-se central através de pensadores como Darwin, Hegel, Marx e Freud. Atualmente, porém, como o paradigma epistêmico que permitiu a invenção do humano

longe de reprimir a sexualidade como meio de permitir a vida . Claro que essas observações seriam vistas por um foucaultiano como inadequadas. apenas que as suas roupas são invisíveis. mas que continuarão a existir mesmo quando o discurso humanista tiver perdido qualquer função ideológica. Essa pergunta era: se o homem foi uma invenção da modernidade. mas de minha inocente pergunta acerca da ausência de roupas do rei. assisti algum tempo mais tarde. quero oferecer um segundo exemplo do tipo autobiográfico. o rei está vestido. após o esgotamento do humanismo renascentista. controle e prorrogação da satisfação sexual. o que dizer do humanismo greco-latino? O que dizer do humanismo renascentista? Foi Sócrates quem colocou pela primeira vez de forma explícita a natureza humana no centro de sua perspectiva intelectual. Hoje o discurso humanista perde a força ideológica.está desaparecendo. um curso sobre o seu livro História da Sexualidade I. Embora o texto seja importante como estudo empírico dos mecanismos culturais de uso e controle da sexualidade. uma tese subliminarmente defendida era a de que Freud estava errado. A época clássica foi apenas um desses períodos nos quais o discurso humanista voltou a ser latente. nada de civilização. Mas para Foucault a nossa civilização. Já desconfiado da importância de Foucault como filósofo. Freud pensava que a civilização só seria possível através da limitação. de modo que a sua fórmula um tanto espartana era: sem repressão. Ainda quanto a Foucault. e o humanismo parece ter sido desde então constituido de exagerações ideológicas de insights legítimos acerca da natureza humana. ele diria. com ele também morre o homem! Não me lembro mais dos detalhes dessa tese. na medida em que a sua substituição por equivalentes mais científicos se deixa presentir como necessária e possível. que podem ter sido mais ou menos tematizados culturalmente em diferentes períodos da história. em Ipanema.

maximamente exemplificada em clássicos como Anna Karenina e Madame Bovary. Acho esse um dos pontos mais fracos e contraditórios do pensamento de Nietzsche. um filósofo que por sinal tinha uma saudável aversão aos artifícios discursivos típicos da filosofia continental. escreve Marcuse. mesmo quando as condições econômicas para a sua emancipação já se encontram presentes. que é uma repressão desnecessária. por exemplo. Há uma terceira sugestão de Foucault que eu gostaria de brevemente comentar. . Segundo essa tese a verdade é uma invenção. Com isso fica teoricamente explicada a produção da sexualidade sugerida por Foucault. produz sexualidade.civilizada. Basta ver o samba da garrafa para se entender isso. “limita o alcance da sublimação ao diminuir a energia erótica intensificando a energia sexual”(1). Essa maisrepressão se produz principalmente através do mecanismo de dessublimação repressiva. que consiste na liberação de formas insublimadas de erotismo feita em combinação com um simultâneo controle repressivo de suas formas mais sublimadas. A realidade tecnológica. posto que alienadora e limitadora das potencialidades espirituais do ser humano. Segundo esse filósofo. sem que a equação freudiana fazendo civilização implicar em repressão precise ser essencialmente rejeitada. Essa dessublimação institucionalizada age. estimulando o sexo em motéis e ao mesmo tempo ridicularizando a paixão romântica. que é a sua interpretação e defesa implícita de Nietzsche como um filósofo que vê na verdade uma mera invenção do poder(2). potencialmente perigosas para o funcionamento da sociedade tecnológica. A sexualidade é inventada em formas cada vez mais diversificadas. A primeira coisa que me veio a mente ao considerar essa idéia foi a tese da dessublimação repressiva proposta por Herbert Marcuse. a civilização tecnológica do capitalismo avançado possui mecanismos pelos quais produz o que ele chama de mais-repressão.

Na primeira aula fui informado que o curso seria um exercício sobre um único minúsculo texto. Mas como filósofo ele foi um teórico menor. Foi em um curso que assisti na mesma época sobre o último Heidegger. Uma exageração como essa é uma reação compreensível à defesa do exagero oposto. Como pensador ele foi um historiador da cultura original e iconoclasta. Essa tese é. desta vez sobre Heidegger. pois ao privar as pessoas de um conceito diretivo tão central arrisca produzir efeitos devastadores em sua formação intelectual. mas como filósofo. cujas teses mais importantes são geralmente equívocas. a crença ingênua em tudo aquilo que autoridades declaram verdadeiro. com ricas e penetrantes constatações empíricas. a questão da produção ideológica de pseudo-verdades. por isso mesmo tratando-se de uma ideologia passageira. perdido entre as muitas . a tese de que a verdade é mero instrumento do poder é perigosa. já no mestrado da UFRJ. Com essas considerações não quero avaliar Foucault como pensador. como as anteriormente consideradas. no caso. que é para muitos o candidato – junto a Wittgenstein – ao título de “o maior” filósofo do século XX (a própria questão é ao meu ver equívoca). uma exageração ideológica a partir de um fato sócio-cultural que pede um exame isento.a servir de instrumento para a aquisição e preservação do poder(3). destinada a perder a sua eficácia com a perda de eficácia daquilo a que se opõe. quando não constrangedoramente falsas. Por essa época eu já era estudante de filosofia e não me deixava mais mistificar tão facilmente. II Quero expor ainda outro fato autobiográfico. Se levada a sério. contudo. assim como o anti-humanismo de Foucault é uma reação compreensível ao humanismo existencialista.

Diversamente de Edwards. posto que eu concluira que para os meus intentos não valeria a pena perder muito tempo com o original.milhares de páginas desse grafomaníaco pensador. E diversamente de Edwards eu considero Ser e Tempo uma obra de grande originalidade e sugestividade. mas que consegue rolar palavras. alguma coisa quase ao nível do Greenpace. escrito com base em civilizada exposição do essencial por Wolfgang Stegmüller. foi artisticamente tematizada de várias maneiras. reconheço que Heidegger foi capaz de discernir coisas importantes sobre o nosso mundo interior. Segundo Stöhr. todavia. por exemplo. e rolando palavras. o metafísico glossogônico é aquele que não consegue dizer nada sobre o mundo. que o meu juízo nunca foi de todo negativo. Minha avaliação é bem menos pessimista do que a de Paul Edwards. Após uma ou duas aulas tornou-se-me claro que embora o professor tivesse se adestrado em combinar das mais variadas maneiras as tiradas hermético-altissonantes de heidegger. A idéia heideggeriana de que o homem é um ser para a morte. Minha reação foi desaparecer e só voltar no final do curso com um resumo de Ser e Tempo. Heidegger sucede em provocar transportes extáticos em algumas pessoas. se o essencial de toda aquela algarávia fosse traduzido em termos civilizados. creio que sem paralelo na antropologia filosófica contemporânea. nota Edwards. ainda que hiperdimensionando-as na forma de mistificações glossogônicas. que tomando de empréstimo uma classificação do filósofo alemão Adolf Stöhr. não só no conto de Tolstoy. que acabam por se converter nos pastores e pastoras do ser(4). Em suma. mas em uma pintura como A . o resultado seriam trivialidades humanístico-ecológicas do tipo “O ser humano contemporâneo encontra-se alienado da natureza e de si mesmo”. qualificou Heidegger como um metafísico glossogônico. Preciso reconhecer. A Morte de Ivan Ilitch (citado em Ser e Tempo).

que em algum sentido as fundamenta. de Picasso. mas creio que posso fazer aqui uma breve análise desmistificadora do conceito de Ser em sua última fase. aparecem em primeiro plano. um magistrado. a menos que queiramos considerar Platão. enquanto a morte e a perda aparecem em segundo plano. Pouco conheço de Heidegger. como não poderia deixar de ser. diz ele. devemos recuperá-lo. no sentido de considerar as questões sem referenciais teóricos anteriores. No conto de Tolstoy. em preto e branco. a juventude. em cores. Mais auspiciosa seria a interpretação da idéia de Heidegger à luz da crítica . De fato. Não há dúvida de que a consciência de que podemos morrer a qualquer instante molda em profundidade o nosso ser. O Heidegger dessa fase cisma mais do que nunca com a palavrinha ‘ser’. é despertado para os valores fundamentais da existência pela descoberta de uma doença que logo o conduzirá à morte.Vida. antes disperso em preocupações fúteis. Aristóteles. o homem é o seu pastor. às coisas. Kant e Wittgenstein filósofos menores. Nessa última. meramente esboçadas. Uma tese central aqui é a do esquecimento do ser: devemos recuperar o ser do ente. o amor e a paternidade. razão pela qual a tentativa de estabelecer a relação entre autenticidade e finitude em uma teoria filosófica da condição humana sempre pareceu-me aquilo que Heidegger tinha a oferecer de mais original e profundo. o ser que subjaz aos entes. Ivan Ilitch. e não antropologia filosófica travestida de ontologia fundamental(5). O Ser. Mas isso não significa necessariamente decadência ou perda de vigor. etc. após os pré-socráticos a filosofia perdeu a originariedade. a linguagem é a casa do ser. Essa tese também hiperdimensiona algo verdadeiro. Só considerei perda de tempo útil tentar decifrar a algarávia original pelo fato de que o meu interesse maior era mesmo metafísica. foi esquecido pela tradição metafísica que após os filósofos pré-socráticos se tornou decadente.

portanto localizado e limitado a certas perspectivas. ou como sinônimo de realidade. permanência etc. decadentes?). Mas Heidegger vai além em seu uso das propriedades semânticas da palavrinha ‘ser’. tradicionalmente considerado “o mais . basta abrir o dicionário. ou seja. para indicar existência na linguagem poética (“Nos altos cumes é serenidade”). aos olhos de Nietzsche. Mas essa tese é polêmica: a cristianização parece ter sido um fenômeno secundário. O verbo ser. como tal. Outra dificuldade é que. Ele possui uma grande variedade de significados na linguagem ordinária. Mas ele é usado também para afirmar identidade (“O Everest é o Chomolungma”). em pouco tempo passaremos a ler ‘o blablá’ como se fosse ‘o outorgado’. produzindo sofismas que não importa considerar aqui. como o de ser digno. ou mesmo Dante. grandemente limitado à filosofia dos valores. O que dizer da tentativa heideggeriana de recuperar o sentido do ser? Em meu juízo. A função logicamente mais relevante e comum é a de introduzir uma predicação (ex: “Risoleta é alegre”). mais facilmente ela adquirirá um sentido metafórico quando sistematicamente usada no lugar de outra.. da totalidade das coisas etc. Como sabemos. estado. Se em um texto jurídico a palavra ‘o outorgado’ vier sempre substituida por ‘o blablá’. Heidegger utiliza a palavrinha ‘ser’ de forma multiplamente equívoca. Por isso o conceito de ser. ser vivo. à perda dos valores afirmativos. como parte da doença que propõe diagnosticar.nietzscheana à “cristianização” da filosofia a partir de Sócrates. Se você quiser saber o que ele significa. ser humano. a maneira como Heidegger expõe a sua tese – como esquecimento do ser – também seria vista como decadente. nada tem de misterioso. além de fragmentário (quem consideraria Shakespeare. Filósofos tradicionais compreensivelmente confundiram diferentes sentidos da palavra. além de sentidos adventícios. quanto mais sem conteúdo for uma palavra.

insinuados e não-admitidos. pois os significados dos termos heideggerianos estão sempre sujeitos a modificações arbitrárias. falha em captar qualquer coisa verdadeiramente relevante que não possa ser melhor expressa por outros meios. por exemplo. presta-se particularmente a esse papel. (A assim chamada diferença ontológica entre os entes (ou seres) e o Ser dos entes. posto que em sua forma substantivada – raramente usada na linguagem coloquial – possui a potencialidade de uma “metáfora universal”. nenhum dos dois admitido pelo autor. mas sem os quais o seu discurso já carente de inteligibilidade dificilmente insinuaria significados. o ser. nos textos de Heidegger. é geralmente um reflexo da diferença teológica entre a criação e o criador como ele é em si mesmo – o que não pode ser generalizado. O primeiro é o multiplamente metafórico. revelando-se uma espécie de versão laica de . se. substituirmos palavras como ‘ser’ pela palavra ‘Deus’. recém-aludido. mas insistindo que o seu intento é elucidar uma coisa única. Ora. principalmente. produzindo apenas uma tal impressão em leitores menos profundos e preparados. mas que realmente está lá. fazendo isso sem admitir o que está fazendo. impostas ao capricho do momento. o que Heidegger faz é valer-se dessa indeterminação da palavra ‘ser’ para usá-la de forma multiplamente metafórica ao situá-la de forma variadamente sistemática de um contexto para outro. Minha convicção. muitas passagens tornam-se até mais claras. contudo. essência e. Há em meu juízo dois modos de uso principais da palavra ‘ser’ no segundo Heidegger.) Seja como for. é a de que todo esse jogo equívoco de significados. inacessível ao espírito superficial e despreparado. que em sua transcendência foge à possibilidade de ser adequadamente capturado pelos meios da linguagem.geral e o mais vazio”. Deus. O Ser (ou mesmo o ente) é uma metáfora para coisas relevantes como sentido.

Essa confusão teria tido grande importância na Idade Média. com a qual ele espera captar o sentido do ser de forma mais genuina(6).prédicas religiosas. tem a propriedade de ser aplicado ao menos uma vez. sua forma. como se esta denotasse algo pertencente às coisas. qual seja. permanece. nada encontraremos. donde podemos dizer que Saturno existe. Edwards sugere que Heidegger. a existência não é uma propriedade de coisas. Quero antes explicar essa idéia. sua textura. a razão pela qual muitos continuam e continuarão por muitos anos a cultuar a sua filosofia. Mas se procurarmos entre essas propriedades a sua existência. Isso explica o fenômeno notado por Edwards dos pastores e pastoras do Ser. Contudo.. No dizer de Frege. mas de conceitos. A confusão da existência com uma propriedade de coisas é facilitada pela linguagem. o endereço certo para quem busca um substituto filosófico para a religião. Ele evidentemente o negaria.. usar a palavra apropriada ao invés da metáfora polissêmica tornaria a coisa um tanto corriqueira e desinteressante. Quando consideramos um objeto existente. O outro uso não admitido da palavra ‘ser’. de que a existência não é propriedade das coisas. quando foi usada como condição para a prova anselmiana da existência de Deus. mais proeminente no último Heidegger. . apontado por Edwards. ex-estudante de teologia é. porém. Hoje. aliás. reina a) serenidade”. usando o conceito de ser em seu sentido existencial. O conceito de planeta Saturno. redescobre de maneira equívoca a velha idéia sugerida por Kant e desenvolvida por Frege. por exemplo. é o existencial. que usa a palavra ‘existe’ predicativamene. como atesta a sua ênfase em uma frase como “Nos altos cumes é (existe. mas o contexto de suas considerações mostra que o ser é comumente entendido ao menos também como o existir. percebemos uma série de propriedades nesse objeto: sua cor. a propriedade que alguns deles têm de serem aplicados ao menos uma vez(7). Heidegger.

o ser-essência.. .. que Heidegger está preparado para principiar o seu cerco a um mistério tão grande que mesmo muitas milhares de páginas não ousarão decifrar. o ser-melhor. como o ser-belo. Essa ocultação. escreve Edwards. e ainda inúmeros seres ainda menores. porque por detrás do remetimento a algo misterioso. E por que não? Ora.muito poucos são os que pensam que a existência seja uma propriedade de coisas. pois quem é senão Deus o responsável pelo mantenimento das coisas em sua existência? É. muito pouco existe além da descontextualização de trivialidades e da fabricação de simulacros. mistificando isso como se fosse o desvelamento de um insondável enigma: a “ocultação do ser”. o ser-relevante. A tese de Edwards é que Heidegger redescobre confusamente a velha idéia de que a existência não é uma propriedade das coisas. . o ser-Deus e ainda o ser-sentido. mas que subjaz necessariamente a todo ente dado. pois. o serpositivo. a ‘revelação’ do ser é um meio desnecessariamente apologético de dizer que as coisas apesar de tudo existem. Com efeito. com o auxílio roubado de bacamartes como o ser-existência. Nós podemos honestamente caracterizar a descoberta heideggereana da ‘paradoxal natureza do Ser’ como uma redescrição bombástica desses fatos. que nada faz para esclarecê-los(8). é essa redescoberta que permite a Heidegger perguntar-se que ser é esse que não é um ente junto aos entes. todos eles contextualmente afirmados e explicitamente negados. E com isso voltamos encobertamente ao ser-Deus..é um modo de referir ao fato de que quando buscamos a existência nas coisas nós não podemos encontrá-la. que paira além dos meios usuais de expressão lingüística..

Consideremos o primeiro passo. pela originária abertura do comportamento (o que só faz sentido como uma maneira metafórica de se falar dos atos verificacionais pelo sujeito da experiência). significa também desvelamento. Heidegger rejeita essa explicação teológica subseqüente. a essência da verdade é a liberdade. confusão e banalidade. a verdade é o re-velar-se do ente em sua totalidade. como a palavra grega para a verdade. O argumento de Heidegger pode ser resumido assim(9). produzindo assim a experiência do mistério que define as errâncias inexoráveis do homem historial. Terceiro passo: aqui se descobre que o des-velamento é também velamento. Segundo passo: essa liberdade é o abandono à abertura do ente. mas a reintroduz mais tarde. Primeiro passo: a adequação só é possível por um deixar surgir. É possível dizer que a abertura do comportamento (que entendo como o ato verificacional em um sentido amplo). assim. que criou as coisas em adequação com as suas idéias e nos tornou capazes de ter acesso a essas idéias verificando a adequação. ao seu desvelamento. ou seja. Heidegger conclui que a essência originária da verdade é o desvelamento do ente. que ao se mostrar se vela novamente. Deus torna-se assim o fundamento último da verdade. alétheia. mas a liberdade. Ele admite que em um sentido secundário verdade é a adequação do enunciado à coisa. Ora.Um outro exemplo do procedimento heideggeriano está em sua análise da verdade como desvelamento (alétheia). A teologia fundamentou essa adequação recorrendo a Deus. em sua idéia da verdade como desvelamento. que permite a . a qual só é possível onde houver liberdade. a essência da verdade não é a adequação. como pensou a tradição filosófica desde Platão. Uma análise desse sugestivo “argumento” mostra que Heidegger nele combina brilhantemente equívoco. transformada. se o que fundamenta a adequação é a liberdade.

ela também é uma condição de qualquer ato mental e ação racional.. isso não significa que z seja a essência de xRy. ou seja. a ação. que faz o que é dito parecer muito mais elevado e importante do que realmente é. exigindo o apelo à autoridade filológica do logos grego. pois a primeira é uma propriedade do sujeito. como também outros atos mentais como a crença. Além do mais. Assim. é condicionada a alguma forma de liberdade. o desejo. o que seria absurdo. não pode chegar a saber que ele é verdadeiro.constatação da verdade como adequação. . que proceda à verificação de um enunciado. Mas isso não nos permite concluir que a essência da verdade é a liberdade! Se a relação R entre x e y pressupõe uma condição z. no segundo é a da obscuridade. pois um ser não-livre.g. enquanto o segundo é uma propriedade do ente apresentado ao sujeito. E a conclusão de que a verdade é liberdade e também desvelamento é inconsistente.. um autômato. O segundo passo. já no terceiro a artimaha é a da pseudoprofundidade. isso não quer dizer que a essência da hemofilia de João sejam certos genes recessivos portados por seus pais.. Ou. No primeiro a artimanha é a do raciocínio equívoco. Cada um desses passos exemplifica uma diferente artimanha discursiva usada pelo autor. é desesperadoramente obscuro e confuso. e. que permite a um autor provar qualquer coisa. em um exemplo concreto: se uma condição da hemofilia de João é que seus pais sejam portadores de genes de hemofilia. com o qual Heidegger conclui que a essência da verdade é também o desvelamento. no mesmo sentido em que a liberdade é uma condição da abertura comportamental (verificação). o recurso a um linguajar poético-impressionista-aglutinador. um raciocínio similar ao de Heidegger poderia levar-nos a concluir que o pensamento consciente constitui-se essencialmente pela liberdade.

Podemos traduzir isso mais claramente como a seguinte banalidade: Se consideramos apenas as questões da vida comum.) todas essas questões que não surgem de nenhuma inquietude e estão seguras de si mesmas são apenas transições e situações intermediárias nos movimentos da vida corrente e. inessenciais. (. Pelo contrário. Considere essa outra passagem sobre a existência humana no erro: A errância em cujo seio o homem se movimenta não é algo semelhante a um abismo ao longo do qual o homem caminha e no qual cai de vez em quando. a dissimulação como acontecimento fundamental caiu no esquecimento(10)..Para exemplificar essa última artimanha. Traduzido em linguagem civilizada isso quer dizer apenas: . entretanto.. a errância participa da constituição íntima do seraí à qual o homem historial está abandonado(11). mas o ser confundido é coisa inevitável em investigações mais aprofundadas. considere a seguinte passagem do texto. não somos em geral confundidos. acerca do desvelamento que dissimula: Instalar-se na vida corrente é. portanto. em si mesmo o não deixar imperar a dissimulação do que está velado. Lá onde o velamento do ente em sua totalidade é tolerado sob a forma de um limite que acidentalmente se anuncia.

que é o ente enquanto tal.. que é através do exercício de nossa liberdade que nos tornamos capazes de chegar a grandes verdades. nosso acertos são fatalmente associados a erros.. Há um estado de ânimo que nos revele o nada? Sentimentos como o tédio e a alegria revelam-nos a totalidade do ente e afastam-nos do nada. o nada nadifica o ser-aí. que é o da mais profunda e originária angústia. que é capaz de revelar-nos o nada. qual seja. que é um estar para além do ente em sua totalidade que lhe foge. Um último exemplo é a tese de Heidegger sobre o nada em “O que é Metafísica”(12). uma certa alienação é mesmo parte da condição humana. não seria si-mesmo. como foi demonstrado por todo o curso da história. nas quais a natureza se revela.. denunciando Heidegger como o mestre supremo na técnica de inflar balões metafísicos. . mas que. Quando nos desfazemos dos equívocos e dos artifícios retóricoliterários que geram a pseudoprofundidade. conduzindo-o à sua transcendência. a tese final de Heidegger.. Como a essência do nada é o nadificar. Ela pode ser resumida assim. Mas há um sentimento raro.O homem não é alienado apenas de vez em quando. Nessa angústia de estranha tranquilidade. o ser-aí (Dasein: o ser do homem) torna-se suspenso dentro do nada. não seria livre. o que resta arrisca-se a se tornar penosamente trivial. Só nessa clara noite do nada surge a abertura para o seu oposto. considerando que somos inevitavelmente falíveis. Sendo assim. Sem o nada o ser-aí não teria a revelação do ente enquanto tal. de que a essência da verdade é liberdade e desvelamento dissimulador do ente só ganha sentido como uma forma equívoca e impressionante de dizer alguma coisa bem mais trivial.

Tendo isso em mente. tornando-nos por isso plenamente livres em nossos julgamentos e escolhas.. para cuja descrição ainda não encontramos palavras. força sugestiva. seria um exemplo dessa angústia de estranha tranquilidade referida por Heidegger. parece que é sob esse prisma que a sua filosofia pode ser lida com algum proveito. fossem irresgatáveis por apontarem para algo novo. que se referem ao afastamento dos objetos intencionais na angústia (a fuga do ente em sua totalidade).. a tese de Heidegger sobre o nada pode ser traduzida como algo ainda importante. passando a ver a nós mesmos e ao mundo ao redor de forma realista e desilusionada. quando este recuperou a lucidez. embora menos portentoso. profundidade. Enfim: se os usos metafóricos de palavras como ‘ser’. ‘verdade’. ‘nada’. Mas como as suas metáforas só chegam a fazer sentido quando resgatadas em termos de antropologia filosófica.Em que pese aquilo que não quero negar. quando isso acontece tornamo-nos capazes de nos concentrar no essencial. ou seja: certas formas de angústia produzem em nós um sentimento de vazio tão profundo que faz com que as auto-ilusões que permeiam e possibilitam a nossa existência cotidiana percam a razão de existir. o discurso heideggeriano poderia adquirir a relevância abissal por ele pretendida. nas quais a palavra ‘nada’ vem no lugar de expressões como ‘sentimento de vazio’. originalidade. As últimas horas da vida de Don Quixote. a tese de Heidegger sobre o nada só parece ganhar sentido como uma exposição metafórica e hiperdimensionada de idéias da psicologia profunda. III . ‘ente’. revendo em consciência plena as absurdidades de sua vida pregressa.

Coisas que poderiam ser ditas claramente e em poucas palavras são apresentadas por ele de forma intrincada e altissonante. certamente. Paton. Kant produziu grande mistificação mesclada a grandes insights. Strawson(14). Spinoza e Leibniz também. dos méritos mais . que permitiu a Kant colar as peças de seu sistema. nas palavras de H. foi rigorosamente assimilada por Fichte e levada à maturidade no idealismo alemão. como é o caso da famosa dedução transcendental das categorias (cujo estudo.Façamos agora algumas considerações de ordem genética. chamava-se Immanuel Kant(13). como se fossem revelações de uma pitonisa prolixa. Dificuldades intrínsecas ao sistema – que me parecem patentemente insuperáveis – são ocultadas através de emboladas argumentativas. Os empiristas eram todos muito claros. cujos efeitos fulgurantes estão muito acima. passando por Platão. Sua desculpa foi dizer que não teve tempo de escrever a Crítica de maneira mais clara. a filosofia procedia através de argumentos que pelo menos aspiravam a clareza. O problema é que. F. mas sabemos que era apenas uma desculpa. J. Um filósofo como Hegel – também ele um homem de gênio – produziu um sistema omniabrangente que se lê como uma algarávia filosófica desmedidamente pretenciosa e confusa. em um jargão obtuso e pedante. Desde os pré-socráticos. Descartes era claro. como notou P. A regra era: nada de truques. Essa estratégia. pode ser comparado à travessia do grande deserto árabe). por Aristóteles e por quase todos os filósofos medievais. os quais fizeram de sua obra a mais influente e provavelmente a mais importante de toda a filosofia moderna. ainda que esta acabasse quase sempre irremediavelmente turvada pelas dificuldades intrínsecas ao próprio questionamento filosófico. lamento informar. Como começou a tradição continental? Quem foi o culpado? O grande iniciador dessa tradição. Mas Kant fundou a tradição de fazer poeira em torno das idéias.

Ela . que adquire as mais bizarras formas. há algo de inerentemente perverso nessas estratégias. priorizando artifícios retórico-discursivos que obscurescem o pensamento. portentosamente mais do que simplesmente. Como pretendo ter feito notar. da história e da arte. obscuramente mais do que claramente – e a abandonar o argumento racional pela retórica. intimidatório e intrinsecamente desonesto. mas apenas o de produzir um efeito de aquiescência e deslumbramento na audiência. nos quais cada vez mais o que encontramos é uma nevoada de experimentalismo retórico descompromissado. mas que quando faz sentido o suficiente para poder ser traduzido em linguagem civilizada evidencia-se como banalidade ou bobagem. que dificultam a detecção da verdade. como não há o objetivo de se chegar a um entendimento efetivo sobre coisa alguma. mesmo que institucionalmente respaldado e inconsciente. o processo todo arrisca-se a se tornar emocional. A continuação da estratégia de produzir um vendaval retórico em torno das idéias com o objetivo de fazê-las parecer mais profundas foi levada ao extremo pelo segundo Heidegger e por filósofos franceses como Gilles Deleuze e Jacques Derrida.modestos que ele possui pela sugestão de idéias seminais em domínios como os da filosofia da cultura. e que transformam o discurso filosófico em uma maneira de fazer a cabeça do leitor. Através do estilo continental de se fazer filosofia aprende-se a não considerar as questões com rigor e objetividade. Brian Magee resumiu esse ponto de forma um tanto dura nas seguintes palavras: Como forma de treinamento mental a filosofia continental é contraprodutiva: ela ensina os estudantes a se exprimirem inautenticamente – em um jargão morto mais do que em uma linguagem viva.

um livro com dois textos paralelos de quase trezentas páginas. aprender filosofia não é como aprender a dançar(17). apelar para o elemento estético. uma delas sendo boa apenas se a outra for ruim e vice-versa. Quando Derrida publicou Glas. sugerindo que a ela também pode ser concebida como arte. em defesa da filosofia continental. O mesmo não ocorre com a arte. mas ainda assim é preciso apontar para o fato de que há uma diferença categorial relevante entre a situação do filósofo e a do artista. o que pode (mas não precisa) orientar-nos em direção à verdade. e a grande arte é ilusão consciente capaz de produzir em nossas mentes ao menos uma aptidão para uma ampliação de nossa compreensão da condição humana. Como notou Ernst Tugendhat. e ao fazer essas coisas ela corrompe as suas mentes(15). o objetivo era claramente o de produzir um shock semelhante ao que é produzido por certas instalações em artes visuais. obras de filósofos como Deleuze e Derrida seriam melhor avaliadas em termos estéticos. E quando duas filosofias sugerem soluções opostas para um mesmo problema é porque uma delas deve estar certa ou pelo menos mais próxima da verdade em um ou mais aspectos. sendo isso o que costuma produzir tensões. Esse caráter não-diretivo da relação entre . Mas em filosofia entra a questão da verdade. Certo. Quando aprendemos a dançar não faz muita diferença entre uma forma e outra: uma pessoa pode dançar o foxtrote pela manhã e o maxixe à noite. um deles comentando a metafísica sistemática de Hegel. o outro comentando a sodomia sistemática de Jean Genet(16). A arte é apenas ilusão consciente. De fato. Obras de arte não competem entre si. Pode-se aqui.ativamente treina-os a não pensar e a serem falsos. A arte não é diretamente heurística: com ela nós não pretendemos comunicar a verdade ou conduzir o intelecto.

se nós levarmos as suas conclusões demasiado a sério. diversamente da arte. pode ser oposto ao da experiência da obra de arte. ao menos de alguma coisa que se encontra além da mera ilusão. terminando em um estreitamento dogmático de nossas aptidões para perceber novas e mais legítimas alternativas em nossa visão da realidade. do nihilismo. que são limítrofes à arte e não pretendem nos impingir coisa alguma) o estilo continental não é tanto o da ilusão consciente. ou. numa auto-indulgência que tende a fazer desse estilo filosófico. uma comparação nietzscheana entre Nietzsche e Heidegger sugere considerarmos o primeiro como o filósofo da afirmação destemida dos valores vitais e o último como uma vítima do . uma atividade inevitavelmente mistificadora. mas não retórico-confusivos. O resultado. Embora haja exceções (como os devaneios de Bachelard. Paradoxalmente. Produz-se ilusões fazendo-se de conta que se trata da revelação da verdade. um filósofo que por ser claro e usar argumentos metafóricos. Para ele esse modo de filosofar seria uma manifestação da decadência. Essa ilusão pode ser propiciada pela religião. não pode ser confundido com os filósofos continentais que exemplificam as minhas considerações. Uma razão pode ser encontrada em Nietzsche.arte e verdade impede que a arte qua arte seja mistificadora. servindo à fraqueza do ser humano que precisa da ilusão para suportar a vida. tão comum à filosofia continental. se esta última for suposta não existir. Mas o mesmo não podemos dizer de ao menos parte do que se escreve sob a rubrica de filosofia continental. mas também pela retórica discursiva deliberadamente obscura e pseudoprofunda. Podemos nos perguntar pela razão da emergência de uma filosofia da ilusão em contraste com a filosofia da verdade. mas o de uma filosofia da ilusão. oposta a da verdade.

a adicionar um breve excurso sobre os elementos sofísticos mais próximos das formas tradicionais que vigem dentro desse estilo filosófico. O cientismo consiste em se assimilar procedimentos e questionamentos filosóficos aos das ciências particulares. Quero terminar considerando algo acerca da relação entre filosofia continental e a sofística. para ser equitativo. Strawson e se chama cientismo(18). quero sugerir que ela foi o principal veio do pensamento sofista no século XX. terminologia e quadros conceituais de maneira excessiva e perversa. é um vendedor de ilusões. sem esperança de generalização para além disso. métodos. em alguns casos mais do que em outros. Se o filósofo continental. Wittgenstein e Habermas . mais do que outros. Contudo. e como a filosofia analítica ou pós-analítica anglo-americana parece estar se tornando plenipotenciária. A filosofia continental por nós considerada distingue-se por ser mais voltada para a produção de ilusão do que para a aproximação da verdade. a abrangência que sempre a caracterizou. F. como esse veio mistificatório não é de modo algum o único. O primeiro e mais grave defeito da filosofia analítica contemporânea foi ao meu ver apontado por P. O resultado disso é uma espécie de fragmentação positivista do campo da investigação filosófica. passando a ser satisfeita pela construção de uma multiplicidade de discussões localizadas e conflitantes umas com as outras. na qual ela perde o seu poder de síntese. sou forçado. importando standards de precisão. a refugiar-se em um universo de simulacros verbais sempre mais poéticos e vazios.nihilismo. não seria ele um exemplar daquilo que Platão chamou de sofista? Sem cair no grande exagero que seria dizer que a filosofia continental é em si mesma sofista.

Ele consiste no desenvolvimento de idéias que se chocam de modo frontal e – o que é decisivo – completamente gratuito com o senso comum. a estratégia de Quine é: “Se você chegar a uma conclusão totalmente implausível. Quine. devido às liberdades propiciadas pela ênfase “formalista” da filosofia da linguagem ideal da qual são herdeiros. R. ensinando-nos algo ao forçar-nos a refutá-las. Nos Estados Unidos. V-O. particularmente com as suas famosas teses da indeterminação das tradução. o expoente fundador dessa tendência foi W. a rejeição gratuita de . um imaginoso escapista cujo pensamento se torna particularmente debilitador ao conjugar em um único discurso as duas fontes de sofisma acima mencionadas: de um lado. Essa estratégia foi bem assimilada por filósofos como Saul Kripke (com a sua irresgatável doutrina do “batismo” dos nomes próprios). tendo transbordado para fora dela em filósofos como Daniel Dennett (que escreveu um livro tentando demonstrar que a consciência fenomenal não existe) e ainda em Richard Rorty (que rejeita a possibilidade da epistemologia). Como ouvi de J. Dentro do cientismo.foram. cada um ao seu modo. Rorty é. os últimos filósofos capazes de resistir a essa tendência. Hilary Putnam (que acha que existem pensamentos fora das mentes) e David Lewis (que quer nos fazer acreditar que os mundos possíveis existem). da referência etc. aliás. perdendo nisso o necessário equilíbrio reflexivo que bem ou mal havia sido conservado pela tradição filosófica(19). não culpe o seu argumento. Embora essas teses sejam brilhantemente argumentadas e intelectualmente incitantes. Searle. isso não nos deve fechar os olhos para o fato de que elas são obviamente falsas. proclame-a uma descoberta!”. há um procedimento que eu gostaria de apontar como particularmente problemático e que emerge da falta de compromisso da investigação com a totalidade de nossa visão de mundo.

pois. caso as condições econômicas o possibilitem – uma crença negada por Freud e de modo muito vívido também por escritores como Dostoiévski e Ibsen. Roberto Machado). p.“ 1 Ideologia da Sociedade Industrial (trad. 2 Ver “Verdade e Poder” e “Nietzsche. as produções culturais resultantes das epistemes (dos pressupostos das manifestações culturais de cada época) não são comparáveis entre si. Há nisso uma certa redução do psicológico ao social. uma das ilusões difundidas por Marx e assimilada de maneira não-crítica pela escola de Frankfurt foi uma crença idealizada na capacidade humana de viver em consciência plena da realidade. sendo as suas verdades relativas./ Mit Worten lässt sich trefflich streiten. 83. contudo. Penso haver um óbvio elemento de ingenuidade na identificação feita por Marcuse do papel social da maisrepressão: a dessublimação repressiva efetivamente existe. de outro. veremos que a dessublimação repressiva não é um produto dispensável.e. como ele a deu a entender. por que ele não desfez o mal-entendido negando-a? 3 Foucault sugere que os discursos. que o permite adaptar-se a qualquer novo estilo filosófico que venha a aparecer. mas não é.intuições do senso comum./ Von einem Wort lässt sich kein Jota rauben. Com efeito./ An Worte lässt sich trefflich glauben. possui um prodigioso poder de transmutação. Foucault: A Genealogia do Poder (ed. Parece. em M. Rio de Janeiro. que sugeriu serem os paradigmas científicos (i. 1979. a semelhança de um vírus. o recurso a estratégias retóricoliterárias(20). Se levarmos em conta esse fato. que o xamanismo filosófico mantém-se ainda hoje um fenômeno insidioso e ubíquo que. bras.. a Genealogia e a História”.e. em uma sociedade inevitavelmente estratificada e diversificada. como ele pensava. A tese é paralela à de Tomas Kuhn../ Da stellt ein Wort zur rechten Zeit sich ein. para fazer face às contingências que o envolvem. A favor de Foucault já foi notado que ele nunca defendeu explicitamente essa idéia./ Mit Worten ein System bereiten. um produto dispensável do capitalismo. mas algo que nasce expontaneamente como a melhor alternativa que o ser humano encontra./ Denn eben wo Begriffe fehlen. i. de The Unidimentional Man) (Zahar: Rio de Janeiro 1969). imposto pela ordem econômica. . Notas: * “Nur muss man sich nicht allzu ängstlich quälen.

Frege: Die Grundlagen der Mathematik (Hamburg 1988 (1884)). 9 M. 5 Sobre isso é bom notar que Heidegger sugeriu em Ser e Tempo que pelo fato de (1) “formularmos a pergunta sobre o sentido do ser” nos tornamos. 103-122) 13 Devo essa sugestão ao professor Fernando Fleck. XLV (Abril Cultural: São Paulo 1973). Heidegger: “Sobre a Essência da Verdade”. Philosophy. Os Pensadores. 45. Edwards: Ibid. 1989. in col. p. 14 P. Heidegger: Introdução à Metafísica (Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro 1999). p. 340 (Cf. R. Lógica das Ciências Sociais (Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro 1978). está na base de uma fértil perversão antropocêntrica de nossa maneira de ver a filosofia e a sua história. Pode-se argumentar que esse é um juízo demasiado severo. p. F. Edwards: “Heidegger’s quest for Being”. Esse método de parafrasear em linguagem comum o que certos filósofos escrevem foi usado por Popper em sua crítica a Adorno em “Razão ou Revolução?”. Os Pensadores (Abril: São Paulo 1973) (“Was ist Metaphysik?”. Strawson: The Bounds of Sense. 8 P. porém. 6 M. p. p. Popper. 340-41 (“Vom Wesen der Wahrheit“. par. com quem tive enriquecedoras conversações acerca do tema desse artigo. Wegmarken. Wegmarken. o que para ele dá à sua antropologia o direito de tornar-se ontologia fundamental. Isso é . 64. pois a falta de clareza pode ter um valor heurístico ao permitir que certas visões de mundo sejam sistematicamente desenvolvidas até o limite de sua racionalidade. e o fato de eu mesmo ser uma coisa particular. 196). 10 “Sobre a Essência da Verdade”. 464. 53. pp. pp. p. em nada garante que eu próprio deva ser o objeto mais apropriado de uma investigação sobre a natureza das coisas particulares. A tentação é a mesma. prefácio. 4 P. London 1966..os pressupostos da ciências de cada época) não-comparáveis entre si (incomensuráveis). in Wegmarken (Vittorio Klostermann: Frankfurt 1996) pp. Essa maneira de ver implausível. se a última ficar restrita aos saberes nãocientíficos produzidos pela cultura. Wegmarken. Mas nada garante que (1) implica em (2)! Por exemplo: o fato de eu formular uma pergunta sobre a natureza de coisas particulares. 11 “Sobre a Essência da Verdade” p. in col. 195). 116. publicado em K. como seres humanos (Daseins) (2) “o tipo de entidade cujo ser deve ser propriamente questionado”. 340-1 (Cf. mas a conclusão de Kuhn (concernente à ciência) é muito menos admissível que a de Foucault. 12 “Que é Metafísica?”. vol. 7 G. sendo as suas verdades também relativas. 177202).

. 18 P. p. New York 1999. creio. como é hoje cada vez mais freqüente. Magee: Confessions of a Philosopher. F. Há um limite para além do qual o uso de recursos retórico-discursivos deixa de sugerir possibilidades interessantes e começa a assumir uma função tuteladora e mesmo limitadora do pensar. 20 Para uma crítica a Rorty e ao relativismo contemporâneo. Em filosofia analítica o equilíbrio reflexivo ideal encontra-se. Strathern: Derrida em 90 Minutos (Zahar: Rio de Janeiro. prefácio. eu creio. 15 B. a meio caminho entre a superficialidade de uma filosofia da linguagem ordinária que não vai muito além de uma lexicografia. Tugendhat: Vorlesungen zur Einführung in die Analytische Sprachphilosophie (Suhrkamp: Frankfurt 1976). nada tem de gratuito. 16 P. creio. o choque com o senso comum em Leibniz. 2002). 61. por exemplo. 429. p. quanto a filósofos analíticos continentais. Manifesto of a Passionate Moderate: Unfashionable Essays (Chicago University Press: Chicago 1998). como o Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus (a virtude máxima da filosofia continental está. A questão da falta de clareza é. usualmente modelada por uma fragmentação positivista do universo do saber). em produzir visões sistematizadoras e abrangentes do mundo. o que inclui um momento de síntese especulativa legítima que a torna diferente da filosofia analítica. ver o livro de Susan Haack. 19 Considerando a Weltanschauung religiosa da época. contudo.verdade. 17 E. Strawson: Scepticism and Naturalism: Some Varieties (Columbia University Press: New York 1985). quantitativa. e a arbitrariedade de uma filosofia da linguagem ideal que depende da constante invenção de novos usos para as palavras da linguagem ordinária sem encontrar justificação suficiente para tal.