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ROGER DUARTE SOPRANI

A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À SOBERANIA, LIBERDADE,


DIREITOS E CONQUISTAS SOCIAIS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como exigência parcial, para a obtenção do
grau no curso de Direito, da Universidade de
Franca.

Orientadora: Profa. Isabela Ribeiro de


Figueiredo.

FRANCA
2003
ROGER DUARTE SOPRANI

A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À SOBERANIA, LIBERDADE, DIREITOS E


CONQUISTAS SOCIAIS

Orientadora: __________________________________________________
Nome: Profa. Isabela Ribeiro de Figueiredo.
Instituição: Universidade de Franca.

Examinador(a):_________________________________________________
Nome:
Instituição:

Examinador(a):_________________________________________________
Nome:
Instituição:

Franca, ____/____/____
DEDICO este estudo aos meus pais, por seu amor, dedicação e
possibilidade de concluir um curso superior;

à Dra. Maria Rafaela Junqueira Bruno Rodrigues, que muito


contribuiu para que meu nome figurasse no rol dos trabalhos
científicos;

e às amigas Talita Mendonça Rodrigues, Maria Marlene Bertolindo,


Gabriela Rezende Junqueira e Mateus Barros Nascimento pela
paciência e dedicação.
AGRADEÇO em primeiro lugar a Deus, que iluminou meu
caminho, concedendo-me forças nos momentos que mais precisei,
diante das provações da vida;

à minha orientadora, Dra. Isabela Ribeiro de Figueiredo, por sua


dedicação e empenho, pois seu auxílio foi imprescindível para a
confecção deste;

à Dra. Selma Aparecida Alves, um exemplo de profissional do


Direito;

à Maria Teresa Segantin, Kátia Maria Ranzani e Renata Helena


Pimenta Gil;

e a todas as pessoas que colaboraram direta ou indiretamente para


a realização deste.
A fragilidade dos meios de resistência de um povo acorda nos
vizinhos mais benévolos veleidades inopinadas, converte contra ele
os desinteressados em ambiciosos, os fracos em fortes, os mansos
em agressivos.
Rui Barbosa
RESUMO

SOPRANI, Roger Duarte. A ALCA e sua “oposição” à soberania, liberdade, direitos e


conquistas sociais. 2003. 44f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito).
Universidade de Franca, Franca.

Apesar da complexidade e dimensão do tema “A ALCA e sua “oposição” à soberania,


liberdade, direitos e conquistas sociais”, o estudo do mesmo se torna imprescindível; não se
trata do interesse de uma só nação, mas de várias. Por ser um tema complexo, que envolve
economia, política e direito internacional, acaba sendo deixado de lado pela sociedade. É
comum não se dar valor àquilo que se desconhece, principalmente quando o assunto trata de
algo que a coletividade julga não ser de seu interesse. Isso é um grande equívoco, pois a
ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), tem tudo a ver com os interesses do país, para
ser mais exato, não só deste, mas de todo continente americano, uma vez que irá determinar a
modificação de uma grande parte do sistema financeiro nacional, alterando não só a
economia, como também muitos preceitos legais. É possível que a população só tome
consciência da gravidade da situação quando for tarde demais. É imperioso que iniciativas
sejam tomadas para se atenuar o máximo possível o que se parece inevitável. Mas o governo
brasileiro não parece muito preocupado com essa questão; há interesses maiores e urgentes,
sobretudo quanto à questão da atual conjuntura econômica e o fato do governo brasileiro estar
cada vez mais dependente de ajuda internacional, principalmente do Fundo Monetário
internacional (FMI). É um país sem dúvida soberano, mas com tanta dependência
internacional que se é possível até levantar uma questão, até quando será? É mister que a
sociedade se atente para o que pode acontecer ao país. Ainda há tempo, pode ser evitado,
basta coragem e vontade dos representantes eleitos de dizerem não a ALCA.

Palavras-chave: Direito internacional, soberania, liberdade, conquistas sociais, economia.


ABSTRACT

SOPRANI, Roger Duarte. A ALCA e sua “oposição” à soberania, liberdade, direita e


conquistas sociais. 2003. 44f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito).
Universidade de Franca, Franca.

Despite the complexity and the dimension of the subject "The FTAA and its Opposition" to
the sovereignty, the Liberty, the rights and the social conquests", the study of this theme
becomes essential; and it is not relevant to only one nation, but for several. Because it is a
complex subject, which involves economy, politics and international law, the society put out
of their mind. It is common not to value the unaware things, mainly when the subject deals
with something that the collective judges not to be of its interest. This is a great mistake,
therefore the FTAA (Free Trade Area of the Americas), has everything to see with the interests
of the country, to be more accurate, not only of this, but of all America continent and it will
determine the modification of a great part of the national financial system, modifying not only
the economy, but also many legal rules. It is possible that the population will become aware of
the gravity of the situation when it will so late. The initiatives should be taken to attenuate
what is possible from what is looked like inevitable. But the Brazilian government does not
seem worried about this question; there are bigger and urgent interests, specially concerning
to the question of the current economic conjuncture and the fact of the Brazilian government
is becoming more dependent of international aid, mainly of The International Monetary Fund
(IMF). It is without any doubt, a sovereign country, depending a lot upon international aids,
and it is possible to raise a question, until when? The society must have to be aware to the
things that could be happen to the country. And there is time, it could be prevented, depends
on the courage and the goodwill of the elect representatives to say no to FTAA.

Key-Words: International law, sovereignty, liberty, social conquests, economy.


SUMÁRIO

LISTA DE SIGLAS.................................................................................................................09
INTRODUÇÃO......................................................................................................................10
METODOLOGIA..................................................................................................................12
HISTÓRICO ..........................................................................................................................13
CONCEITO ..........................................................................................................................16
1 A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À SOBERANIA, LIBERDADE, DIREITOS E
CONQUISTAS SOCIAIS..........................................................................................18
1.1 A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À SOBERANIA.......................................................21
1.2 A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À LIBERDADE.......................................................25
1.3 A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” AOS DIREITOS E CONQUISTAS SOCIAIS.........33
CONCLUSÃO........................................................................................................................39
REFERÊNCIAS.....................................................................................................................42
LISTA DE SIGLAS

ALCA – Área de Livre Comércio das Américas.


CARICOM - Mercado Comum do Caribe.
CEE - Comunidade Econômica Européia.
CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina.
CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas.
EUA – Estados Unidos da América do Norte.
FGTS - Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.
FHC – Fernando Henrique Cardoso.
FMI – Fundo Monetário Internacional.
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
MERCOSUL – Mercado Comum do Sul.
NAFTA – Acordo de Livre Comércio da América do Norte.
OCDE - Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos.
OMC – Organização Mundial do Comércio.
ONU - Organização das Nações Unidas.
PIB – Produto Interno Bruto.
UE – União Européia.
INTRODUÇÃO

Este estudo tem como meta a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e
sua relação com a soberania, liberdade, direitos e conquistas sociais, constituindo, portanto,
estudo de inegável importância, seja para o equilíbrio da sociedade, seja para assegurar aos
Estados a igualdade de oportunidades num mercado altamente competitivo, principalmente
quando estão em jogo princípios, direitos e garantias fundamentais assegurados pelos artigos
primeiro ao quinto da Constituição da República Federativa do Brasil.
Um tratado internacional deve envolver no mínimo dois países, tendo reflexos
diretos e indiretos nas leis internas de cada um, tornando-se difícil escrever sobre tais
contratos internacionais sem mencionar os interesses nacionais que serão afetados,
principalmente quando esses interesses colidem com os dos idealizadores do projeto.
Os norte-americanos são os maiores interessados na consignação dos demais
países ao futuro tratado, visto que a ALCA, ainda é apenas um projeto audacioso. Há um
grande esforço, por parte dos norte-americanos, para se antecipar as negociações, tanta pressa
tem uma explicação, o acordo é imprescindível para que a economia norte-americana não
fique atrás na disputa pelos mercados emergentes, além disso, precisam fazer frente aos
poderosos blocos econômicos que se fundam por toda a Europa.
Porém, há um grande obstáculo às pretensões norte-americanas, a razão
principal do fracasso em antecipar as negociações são as inúmeras controvérsias entre os
interesses brasileiros e os norte-americanos, sobretudo, ao que se refere ao protecionismo
norte-americano quanto aos seus produtos, o que irá acarretar ao acordo um desequilíbrio tão
imensurável que praticamente tornará inviável a sua aceitação.
Os idealizadores do projeto ALCA deram pouca importância às questões
sociais, pelo próprio nome, Área de Livre Comércio das Américas, ressaltando a sua primária
intenção, o comércio, e por conseqüência as enormes cifras macro-econômicas, o lucro, é uma
prova desta assertiva.
Mesmo conscientes do grande número de desempregados que a ALCA irá
gerar, dos inúmeros direitos que os trabalhadores irão perder, do enorme transtorno que
sofrerá a soberania dos países membros, dentre outros, tudo será válido, afinal, trata-se do
controle sobre todo um continente.
O Brasil é um país muito importante, é uma peça fundamental nesse complexo
jogo de interesses, os norte-americanos sabem muito bem disso e tentarão de todas as formas
incentivar, seja por meios idôneos ou não, a entrada do Brasil “no jogo”. Não terão muito
trabalho, pois os Estados Unidos são, juntamente com o Fundo Monetário Internacional
(FMI), os maiores credores do Brasil, razão pela qual o país de praxe acaba seguindo seus
preceitos.
Por ser um assunto de extrema relevância, importante se torna demonstrar se
este acordo que provavelmente, mais cedo ou mais tarde, tanto o Brasil como os demais
países vão acabar aderindo, será bom ou ruim, especialmente é claro, para o Brasil. Será que
se está diante de uma enorme ameaça, ou de uma excelente oportunidade? O que poderá advir
ao Brasil caso este projeto seja concretizado? E como fica a soberania, a liberdade, os direitos
e conquistas sociais? Será que serão respeitados? Das três Américas, a mais privilegiada será a
América do Norte ou essa assertiva é um equívoco?
São vários os questionamentos sobre o assunto, e é justamente por apresentar
tantas divergências, que se elaborou o presente estudo, com o intuito de amenizar as
obscuridades que o circundam e obter o melhor posicionamento possível quanto ao tema, e
outras questões inerentes ao mesmo que possam surgir no seu transcorrer.
METODOLOGIA

O presente trabalho monográfico procura situar o tema “A ALCA e sua


“oposição” à soberania, liberdade, direitos e conquistas sociais” sob a ótica do Direito perante
a codificação constitucional brasileira. Para isso, será utilizado o método dedutivo, partindo
das teorias e leis atinentes a ALCA, para atingir conclusões particulares, cercando-se sempre
no desenvolvimento da obra dos critérios de coerência, consistência e não contradição. Os
materiais utilizados são provenientes principalmente de palestras, jornais, livros, CD-ROMs e
da internet.
Para atingir esses objetivos serão adotados os seguintes processos
metodológicos:
 Aplicado: no qual é realizado um estudo das leis e teorias com a finalidade de
testar e comparar estudos realizados em culturas e locais diferentes;
 Histórico: no qual se descreve a evolução histórica do assunto, desde a origem,
sua comparação com o presente e projeções para o futuro;
 Comparativo: no qual é feita uma análise do assunto, ainda pouco explorado no
país, sendo mais amplamente abordado por outros países;
 Bibliográfico: por meio de pesquisas de textos elaborados por diversos
doutrinadores e estudiosos das ciências jurídicas, econômicas, sociais e políticas;
 Dogmático jurídico: no qual é feito um estudo em conjunto dos textos
normativos, doutrinários e jurisprudenciais do assunto em estudo;
 Hermenêutico: no qual é realizada uma interpretação dos textos legais com
esclarecimentos pessoais.
HISTÓRICO

Foi com a globalização, processo típico da segunda metade do século XX, que
surgiu por volta da década de 80, e que é uma realidade no mundo contemporâneo, que
eclodiu, por todo o mundo, os blocos econômicos, dentre os quais, o da União Européia (UE),
o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e o Mercado Comum do Sul
(MERCOSUL).
Há também aqueles precedentes ao processo de globalização, e que podem ser
considerados, de certa forma, os precursores dos blocos da década de 80, mesmo porque,
guardavam em sua essência os princípios que regem os blocos atuais, como o Mercado
Comum do Caribe (CARICOM) (1973), cuja intenção era criar uma zona de livre comércio
na região, e a Comunidade Econômica Européia (CEE) (1957), que, conforme descreve a
Encyclopaedia Britannica Barsa:
[...] pretendia criar um mercado comum e aproximar progressivamente as políticas
econômicas dos membros, a fim de promover um desenvolvimento harmônico de
toda a Comunidade, sua expansão equilibrada e contínua, estabilidade crescente,
elevação do padrão de vida da população e relações mais estreitas entre os
membros.1

Com o fenômeno da globalização, os Estados estão cada vez mais procurando


difundir seus mercados, seja por meio de investimentos financeiros, seja pela elevação das
exportações, seja em razão da criação de blocos econômicos.
É neste contexto que nasce a Área de Livre Comércio das Américas, mais
conhecida pela sigla ALCA, considerado um projeto recente, pois data de 1994, embora tenha
surgido em 1990, pela iniciativa de George Bush, pai do atual Presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush.
Quando ainda nem se cogitava sobre a ALCA, a Constituição Federal já
preceituava em seu artigo 4º, parágrafo único, a integração entre os povos da América Latina,
assim prescrevendo: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica,
política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma
comunidade latino-americana de nações.”2
1
GARSCHAGEN, Donaldson M. (Ed.). Nova enciclopédia Barsa. Direção Geral de Carlos Augusto Lacerda.
Rio de Janeiro, 1999. 1 CD-ROM. Produzida por Lexicon Informática Ltda.
2
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 19 mar. 2003.
Embora tenha surgido da iniciativa de George Bush, foi o ex-presidente dos
Estados Unidos, William Jefferson Clinton (originalmente William Jefferson Blythe III), mais
conhecido comumente por Bill Clinton, que entre os dias 9 e 10 de dezembro de 1994,
convocou os chefes de Estado das três Américas para uma reunião em Miami, Flórida, a
Primeira Reunião de Cúpula das Américas, para propor a implantação da ALCA, o maior
bloco comercial do mundo que agregaria aproximadamente 800 milhões de pessoas, dando
assim continuação ao projeto concebido pelo seu antecessor.
Desde o mencionado encontro em 1994, os Ministros de Comércio do
hemisfério ocidental, já se encontraram seis vezes para a discussão e efetivação de um plano
de ação para o acordo. O primeiro encontro foi em junho de 1995 em Denver, Estados
Unidos; o segundo foi em março de 1996 em Cartagena, Colômbia; o terceiro foi em maio de
1997 em Belo-Horizonte, Brasil; o quarto foi em março de 1998 em San José, Costa Rica; o
quinto foi em novembro de 1999 em Toronto, Canadá e o último em abril de 2001 em Buenos
Aires, Argentina. A próxima reunião ministerial está marcada para se realizar entre os dias 20
e 21 de novembro de 2003, em Miami, Flórida.
Assim, em dezembro de 1994 foi realizada a Primeira Reunião de Cúpula das
Américas, em Miami, Flórida, onde foram traçados os objetivos dessa integração e dado
início efetivo à constituição da ALCA. Em abril de 1998 houve a Segunda Reunião de Cúpula
das Américas, em Santiago, Chile, onde foi dado prosseguimento às negociações,
estabelecendo-se diretrizes para se atingir princípios e objetivos gerais de uma maneira
transparente, com especial atenção aos países menos desenvolvidos, para facilitar a integração
total dos mesmos ao projeto.
Em abril de 2001 realizou-se a Terceira Reunião de Cúpula das Américas, em
Quebec, no Canadá, sob o amparo do Presidente norte-americano George W. Bush, reunião
esta que ficou caracterizada pela pressão deste, para que o projeto tenha eficácia plena o mais
rápido possível. Nesta reunião foram dados novos passos para a implantação da ALCA. O
supracitado encontro foi realizado em meio a diversos protestos de organizações que
combatem a globalização e a exclusão social, mas isso não impediu o andamento das
negociações que prosseguem até hoje.
Essas negociações devem estar concluídas o mais tardar até janeiro de 2005 e a
implementação do acordo deverá ocorrer em dezembro de 2005, apesar das diversas tentativas
dos Estados Unidos, conjuntamente com o Chile, de antecipar a conclusão das negociações
para 2003, proposta essa que não foi aceita pela maioria dos chefes de Estado.
Em entrevista concedida à revista Leader, Lima afirmou que:
A implementação do acordo ALCA no Brasil - se for assinado pelo Governo e
aprovado pelo Congresso - não se fará do dia para a noite, e sim num prazo de pelo
menos dez anos, a começar em 2006.3

CONCEITO

3
LIMA, José Alfredo Graça. Entrevista concedida à Revista Leader. Revista Leader, 15. ed. 20 jun. 2001.
Disponível em: <http://www.iee.com.br/leader/edicao_15/entrevista_01.htm>. Acesso em: 19 mar. 2003.
A Encyclopaedia Britannica Barsa conceitua a área de livre comércio como
“Forma elementar de complementação econômica que se caracteriza pelo compromisso de
eliminação das restrições tarifárias, cambiais e monetárias.” 4
Segundo Ferreira, “área de livre comércio é a associação de países
caracterizada pela eliminação de obstáculos ao comércio recíproco, como tarifas
alfandegárias”.5
A concepção dada pelos norte-americanos ao termo ALCA é em parte
semelhante ao de mercado comum, que conforme preceitua Ferreira, é a “Associação de
países que visa a estimular o comércio recíproco, pela eliminação de tarifas alfandegárias
entre eles, e pelo estabelecimento de política comercial comum quanto aos demais países.”6
É um projeto internacional, uma integração continental que interessa
principalmente aos Estados Unidos, e que segundo este, irá facilitar e estimular a permuta de
mercadorias e serviços entre os países das três Américas, com exceção de Cuba. O acordo irá
abranger uma área que vai desde o Estado do Alasca, nos Estados Unidos, até a Terra do
Fogo, no sul do Chile.
Conforme preceitua Acquaviva, o tratado internacional é uma “Convenção ou
acordo entre dois ou mais Estados Soberanos. Sua motivação é variada: acerto de fronteiras,
comércio, isenção de tarifas aduaneiras, intercâmbio cultural.”7
A Encyclopaedia Britannica Barsa, assim descreve sobre tratados:
As relações que necessariamente devem manter entre si os países, sujeitos ao
direito internacional em virtude de sua soberania plena, exigem uma regulação
entre as partes interessadas, para que os litígios não sejam resolvidos por
improvisação, arbitrariedade ou guerra. A essa regulação respondem os tratados.
Em seu sentido mais amplo, o termo tratado abrange os acordos concluídos entre
dois ou mais sujeitos de direito internacional (países e organismos aos quais se
reconhece personalidade jurídica internacional), com a finalidade de criar,
modificar ou extinguir relações jurídicas correspondentes àquele direito. É
portanto, um ato jurídico em expressão plena. No uso diplomático moderno, o
termo tratado se reserva para acordos internacionais mais importantes, enquanto
outros acordos de menor importância se denominam convênios, protocolos e atas.8

O interesse da sociedade pelo assunto vem crescendo muito. A sociedade do


século XXI não é mais tão omissa quanto à do século passado, visto que ela não assiste mais,
de braços cruzados, as decisões tomadas pelos seus dirigentes a portas fechadas; tanto é
verdade que várias organizações estão realizando plebiscitos contra e a favor do acordo, o que
4
GARSCHAGEN, op. cit.
5
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio eletrônico – século XXI. 3. ed. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1999.
6
Ibidem.
7
ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Dicionário Jurídico Brasileiro. 7. ed. São Paulo: Jurídica Brasileira, 1995. p.
1407.
8
GARSCHAGEN, op. cit.
pode não afetar diretamente as decisões tomadas, mas com certeza causa um certo transtorno
àqueles que querem decidir, sem sequer ouvir sugestões.

1. A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À SOBERANIA, LIBERDADE, DIREITOS E


CONQUISTAS SOCIAIS
Em primeiro lugar, vale esclarecer a razão de se ter colocado a expressão
“oposição” entre aspas, no título deste trabalho. É evidente que os criadores do projeto não
iriam colocar cláusulas que expusessem claramente as conseqüências do mesmo para os
países que o assinassem, principalmente porque àquelas afetariam de forma direta a soberania,
a liberdade e os direitos e conquistas sociais, não só do Brasil, mas de todos os envolvidos na
relação comercial.
A ALCA está sendo criada com o escopo de promover a democracia, o
progresso, o bem-estar social, a proteção do meio ambiente para as futuras gerações, e o mais
relevante, a integração econômica e o livre comércio, ou seja, melhorar as relações comerciais
entre os países da América do Norte, da América Central e da América do Sul, salvo Cuba,
devendo se constituir na maior integração comercial do planeta, nas palavras de Torres “um só
bloco sem barreiras e sem fronteiras”.9
Consta no parágrafo anterior, duas flexões do verbo “integrar”, que tem como
um de seus sinônimos, o verbo “associar”, aliás, expressão que de fato deveria predominar no
futuro tratado; aquele, porém, não é, e jamais foi sinônimo do verbo “entregar”, no entanto, é
quase isso o que efetivamente irá ocorrer com a consignação do futuro tratado.
Tanto da parte dos cidadãos como do Estado brasileiro há – de modo geral, com
exceções, embora – uma postura de auto-suficiência que os impede de ter
consciência do tanto que já se delegou poderes a instâncias intergovernamentais e
internacionais, o que tornou-os, de certo modo “receptores” e não “produtores” de
regulamentos. (grifo nosso).10

Apesar dos termos animadores “democracia” “progresso” “bem-estar social”


“proteção do meio ambiente”, contidos no projeto do tratado, o que interessa na verdade são
as cifras macroeconômicas envolvidas, sendo certo que essas prevalecerão sobre qualquer
outro aspecto abrangido.
A ALCA deverá movimentar aproximadamente 27,5 trilhões de reais, sendo
que dessa enorme quantia, 22,5 trilhões são dos Estados Unidos, 1,5 trilhões do Brasil, que é a
quantia aproximada que o Brasil movimenta por ano, e 3,5 trilhões dos demais países
membros do acordo. É exatamente nesses cinco trilhões que o mercado americano está
interessado.
Deixando-se de lado os outros países, e voltando as atenções especialmente
para o Brasil, constatar-se-á facilmente o que poderá ocorrer com a efetivação do contrato.
9
TORRES, David. Apresentação. In: SINAFRESP. O Brasil e a Alca: tributação e integração. São Paulo: Forma
3, 2001. p. 9.
10
BRAITHWAITE apud BAPTISTA, Luiz Olavo. Alca: seu impacto sobre o sistema jurídico brasileiro. In:
ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon et al. Relações internacionais e sua construção jurídica: aspectos
históricos, jurídicos e sociais. São Paulo: FTD, 1998. p. 37-38.
Para isso não é preciso ir longe, basta observar o que ocorreu no México após assinar o Nafta;
se por um lado a economia mexicana cresceu, por outro cresceu também o desemprego e a
miséria. Esse assunto será tratado de forma mais minuciosa no capítulo referente a ALCA e
sua “oposição” aos direitos e conquistas sociais.
Anuindo-se a ALCA, o Brasil terá que abrir mão de sua soberania, seu poder de
supremacia, sua independência. É o que afirma Pires, em outros termos:
O acordo com o governo dos Estados Unidos é profundamente nocivo ao interesse
nacional, ao nosso desenvolvimento, violenta a Constituição, fere a soberania e
limita a participação nacional nos benefícios da transformação tecnológica e
científica do nosso tempo. Não é um acordo. É a submissão a interesses
econômicos e comerciais que estariam sendo inexplicavelmente impostos ao
Brasil. (grifo nosso).

Continuando sua narrativa, explica no penúltimo parágrafo de seu texto:


O acordo assinado impede o desenvolvimento tecnológico do País, em suas
cláusulas. Interdita, a rigor, nossa relação científica, imediata ou futura, que tanto
nos convém, com os países tecnologicamente mais avançados do setor, como a
Rússia, a França, a Ucrânia, a China, a Índia, Por quê? Para salvaguardar a
tecnologia norte-americana, que nos é negada? (grifo nosso).11

“Ao aceitarmos a Alca estaremos consentindo com a adoção de normas


comerciais ainda mais nocivas aos nossos interesses do que as estipuladas pela Organização
Mundial do Comércio (OMC), cujos efeitos poderão ser nefastos.”12
Como afirmar que um país é detentor de soberania quando se está “nas mãos”
de terceiros: “A dívida externa coloca o Brasil de joelhos diante de seus credores. Em nome
dos interesses dos credores, o Fundo Monetário Internacional (FMI) impõe reformas e pacotes
econômicos que produzem desemprego e miséria.”13
Vale ressaltar que a poderosa nação norte-americana é um de nossos maiores
credores.
A política neoliberal aplicada à Região nas duas últimas décadas tem aumentado
os níveis de dependência e subordinação dos nossos países e a adoção da ALCA os
aprofundará ainda mais, suprimindo o que ainda resta de soberania nacional. Este
quadro vem se agravando, nesse período, em função de níveis de crescimento que
foram apenas a metade do que a Comissão Econômica para América Latina
(CEPAL), das Nações Unidas, estabeleceu como indispensável para poder dar-se
início à redução das distâncias entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, com
a conseqüente redução da pobreza. O número de pobres na América Latina,
segundo a ONU, já chega a cerca de 45% da sua população, ou seja, cerca de 250
milhões de pobres, dos quais aproximadamente cem milhões de indigentes. (grifo
nosso).14

11
PIRES, Waldir. Acordo violenta a Constituição. Jornal da campanha contra a Alca. n. 2, p. 3, ago. 2002.
12
HOFFMANN, José Hermeto. A adesão do Brasil à Alca será positiva? Não. In: Revista Leader. 15. ed. 20 de
Jun. 2001. Disponível em: <http://www.iee.com.br/leader/edicao_15/debate2_nao.asp> Acesso em: 18 mar.
2003.
13
A DÍVIDA e(x)terna e a Alca: ameaça à soberania do Brasil. Jornal da campanha contra a Alca, n. 2, p. 2,
ago. 2002.
A liberdade de ir e vir entre os países membros do acordo também será
colocada de lado, visto que o projeto tem como principal objetivo a comercialização de
produtos e serviços, combatendo a migração de mão-de-obra, com isso, nenhum brasileiro
poderá ir trabalhar nos Estados Unidos. Não é de hoje que eles tentam manter os estrangeiros
a distância. Por fim, o futuro tratado irá eliminar diversos direitos e conquistas sociais
previstos na Constituição Federal bem como na Consolidação das Leis Trabalhistas.
Um grande impulsionador da aderência do Brasil a ALCA é o FMI (Fundo
Monetário Internacional). O FMI tem pressionado o governo brasileiro a aceitar o acordo sem
impor condições, sob pena de não renovar o contrato com o Brasil. O Canadá e o México já
estão nas mãos dos Estados Unidos, uma vez que assinaram o Nafta. Se o Brasil assinar a
ALCA, será mais um nas mãos dos Estados Unidos, juntamente com todos os outros que o
assinarem.
A ALCA é em sua essência uma cópia do Nafta. A intenção dos Estados
Unidos era realizar a ampliação do Nafta, mas como isso não foi possível, criou-se a ALCA.
Veja a explanação de Castro acerca do assunto:
Outro ponto polêmico que gerou divergências foi a forma de criação da ALCA.
Inicialmente, os Estados Unidos imaginavam fazê-lo por meio da ampliação do
NAFTA, atual Zona de Livre Comércio que reúne Estados Unidos, Canadá e
México. Essa alternativa, porém, se choca com a política brasileira de
fortalecimento do Mercosul, bloco que engloba Brasil, Argentina, Uruguai e
Paraguai, além dos aliados Chile e Bolívia.15

A verdade é que, tanto na Europa como na Ásia, reduzem-se os espaços de


dependência e surgem novos competidores. Desta forma, os EUA procuram
reorganizar-se geopolítica e economicamente nas Américas na tentativa de garantir
sua hegemonia e um mercado cativo para seus produtos.16

1.1 A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À SOBERANIA

Tendo-se em mente o conceito de ALCA, torna-se também mister esclarecer o


de soberania, porquanto é imprescindível o entendimento de ambos para as análises que serão
realizadas deste ponto em diante.
Dentre as inúmeras conceituações existentes, ressalta-se as seguintes:

14
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. ALCA: integração ou submissão? Disponível em:
<http://www.pcb.org.br/alca.html>. Acesso em: 17 jan. 2003.
15
CASTRO, Carlos Roberto de. ALCA: Temeridade ou oportunidade? Disponível em:
<http://www.alcamerc.hpg.ig.com.br/governo_e_politica/72/index_pri_1.html>. Acesso em: 11 jan. 2003.
16
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. 2003, loc. cit.
“Trata-se de um dos elementos formais do Estado, ao lado da Ordem Jurídica,
e pode ser definida como a qualidade do poder do Estado que o situa acima de qualquer outro
no âmbito interno, e que o coloca no mesmo plano do poder de outros Estados.”17
“[...] soberania [...] poder absoluto, indivisível e incontrastável de organizar-se
e de conduzir-se segundo a vontade livre de seu Povo, e de fazer cumprir as suas decisões
inclusive pela força, se necessário.”18
[...] um poder político supremo e independente, entendendo-se por poder supremo
aquele que não está limitado por nenhum outro na ordem interna e por poder
independente aquele que, na sociedade internacional, não tem de acatar regras que
não sejam voluntariamente aceites e está em pé de igualdade com os poderes
supremos dos outros povos;19

Para corroborar o parágrafo retro, no que concerne ao Estado e sua soberania


interna e externa, utilizar-se-á das palavras de Mattos, quando assim prescreveu: “O
importante é que ele, o Estado, seja autônomo e independente, i.e., soberano, tanto interna,
como externamente.”20
“É a capacidade de editar suas próprias normas, sua própria ordem jurídica (a
começar pela Lei Magna), de tal modo que qualquer regra heterônoma só possa valer nos
casos e nos termos admitidos pela própria Constituição.”21
Preceitua o texto “O Brasil e suas Forças Armadas” que:
Soberania é a manutenção da intangibilidade de uma nação, assegurada a
capacidade de autodeterminar-se e de conviver com as demais nações em termos
de igualdade de direitos, não aceitando qualquer forma de intervenção em seus
assuntos internos, nem participação em idêntico processo em relação a outras
nações.

Segue o texto afirmando que:


Nossa soberania permanecerá preservada, em particular nos aspectos em que tal
conceito se mostra mais central: a posse e jurisdição de nosso território, a sua
indivisibilidade e a possibilidade de sustentarmos ações políticas que visem a
preservar todos os nossos interesses vitais.22

A flexibilização dessa assertiva de soberania não pode ultrapassar esse limite,


sob pena de correr o risco de estar suprimindo o Estado Brasileiro.
A soberania é um dos elementos formadores do Estado, sendo uma unidade
indivisível, imprescritível e “inalienável”, constituindo-se no primeiro de cinco princípios

17
SOBERANIA. Disponível em: <http://207.21.196.110/constitucional/soberania.htm>. Acesso em: 15 mar.
2003.
18
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2001, p. 55.
19
CAETANO, Marcelo. Direito constitucional. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1987. p. 169. v. 1.
20
MATTOS, Adherbal Meira. Direito internacional público. Rio de Janeiro: Renovar, 1996. p. 68.
21
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2001. p. 48.
22
O BRASIL e suas Forças Armadas. Disponível em:
<http://www.defesa.gov.br/Publicacoes/IndOBrasil01.Html>. Acesso em: 19 mar. 2003.
fundamentais da Nação, elencados pela Constituição Federal em seu art. 1º, inciso I, assim
prescrevendo: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos
Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e
tem como fundamentos: I – a soberania;”23
Como referido supra, vige no Brasil o Estado Democrático de Direito, ou seja,
o povo se submete a uma Constituição criada pelos seus legisladores, a qual também, o
próprio Estado, deve se submeter. Com a entrada da ALCA, o Estado continuará a ter a sua
Constituição, com a diferença, de que na prática, quem irá dar as ordens é um terceiro que não
estará preocupado com as conseqüências advindas de suas imposições para o país que terá o
dever de executá-las.
“Acordos como a ALCA representam um obstáculo para a consolidação
democrática. Canais democráticos são essenciais para a criação de mecanismos de
cumprimento efetivo dos direitos fundamentais”.24
A ALCA irá afetar, sem dúvida, a legislação brasileira. Com uma afirmação tão
categórica, provável o surgimento da dúvida: como isso irá ocorrer e o que trará de bom ou de
ruim para a legislação brasileira? Certo também é a incontestável alteração que a soberania irá
sofrer. Para Baptista “A criação do direito internacional representa um paradoxo na medida
em que sendo fruto da soberania, ela se vai esgotando à medida em que o gera.”25
Ao analisar a assertiva de Baptista, verifica-se que apesar de ser o Estado,
simultaneamente, criador e destinatário de suas normas, ao adotar tal projeto, acaba-se
submetendo a esse, diminuindo assim, sua soberania, sua autonomia. Vale ressaltar, que a
defesa da soberania, nos seus múltiplos aspectos, é responsabilidade de toda a sociedade, pois
exige um esforço global.
Outro ponto relevante, nessa complexa relação, é a alteração nos sistemas
econômicos, o que irá acabar repercutindo no ordenamento jurídico, já que é praticamente
impossível alterar a economia de um país sem tocar em seu ordenamento jurídico.
Existe a possibilidade do Estado não perder a sua soberania, mas isso implicará
em alterações substanciais no mecanismo estatal, o que não é difícil, visto que cada vez mais
o país se mostra receptível às normas internacionais.
Há um grande contra-senso no fato dos Estados Unidos propor o acordo de
livre comércio, pois que é ele “O mesmo país que, desde 1966, tem se recusado a aceitar todas

23
BRASIL. op. cit.
24
MARTINS, José Renato Vieira. ALCA: temeridade ou oportunidade? Disponível em:
<http://www.alcamerc.hpg.ig.com.br/governo_e_politica/72/index_pri_1.html>. Acesso em: 11 jan. 2003.
25
BAPTISTA, op. cit.
as convenções internacionais que tentaram estabelecer princípios morais e de direitos
humanos entre os povos, alegando que estas contrariam a sua soberania.”26 Não quer submeter
a sua soberania a um tratado internacional, mas quer submeter a de outros países ao seu
tratado.
O que se é percebido nestes tempos é que de nada vale o Direito Internacional
composto de preceitos descartados por um país que manda no mundo através de
ações antagônicas às suas ideologias, explicitando seu Poder Soberano Desumano.
O que assusta é o fato de a potência boreal ocidental prometer prosperidade e
cessação de injustiças, se a mesma comete atrocidades e desrespeita tratados
internacionais de extrema importância, como o Tratado de Quioto.27

Segundo Powell:
Nós queremos vender mercadorias, tecnologia e serviços norte-americanos, sem
obstáculos e restrições, para um mercado único de 800 milhões de pessoas, com
uma renda total de II trilhões de dólares anuais, num território que irá do Ártico até
o Cabo de Horn.28

Segundo Blythe: “Nós temos 4% da população do mundo e controlamos 22%


da riqueza do mundo. Se querermos [sic] manter essa fatia de riqueza, nós precisamos vender
para os outros 96% da população.”29
Em teoria, por ser um futuro tratado, deverá ingressar na legislação brasileira
em grau de igualdade com as demais leis ordinárias, ficando abaixo das leis complementares,
e por conseqüência, das emendas à Constituição, como descreve o artigo infracitado da
Constituição Federal:
Art. 59. O processo legislativo compreende a elaboração de:
I - emendas à Constituição;
II - leis complementares;
III - leis ordinárias;
IV - leis delegadas;
V - medidas provisórias;
VI - decretos legislativos;
VII - resoluções.
Parágrafo único. Lei complementar disporá sobre a elaboração, redação, alteração
e consolidação das leis.30

Porém, na prática, não será bem isso que irá ocorrer, pois o projeto acabará
atingindo preceitos constitucionais.
A real intenção desse futuro tratado é a predominância da economia norte-
americana na economia mundial, ou não se tendo êxito em atingir esta, pelo menos garantir
26
QUEM está propondo esse acordo? Plebiscito nacional sobre a Alca, p. 4, [2002].
27
SOARES JÚNIOR, Sérgio. Poder soberano desumano. Jornal Universitário, Franca, Ano 1, n. 2, p. 6, 12 maio
2003.
28
General Colin Powell: Secretário de Estado do Governo Bush. In: QUEM está propondo esse acordo?
Plebiscito nacional sobre a Alca, p. 4, [2002].
29
William Jefferson Blythe III (Bill Clinton): In: QUEM está propondo este acordo? Plebiscito nacional sobre a
Alca, p. 4, [2002].
30
BRASIL. op. cit.
que aquela não fique para trás na disputa pelos mercados emergentes; eles não querem perder
a posição de maior do mundo: “O governo e as grandes empresas dos Estados Unidos querem
fazer do Continente um grande mercado para seus produtos, sob o pretexto de integrar os
diversos países.”31
Outro objetivo visado pela economia norte-americana é o de evitar um declínio
ainda maior de sua economia, perante o crescimento dos blocos econômicos, o que se tem
visto por todo o mundo.
A interferência norte-americana é tão audaciosa que chegou ao absurdo de
determinar ao governo brasileiro que sua população não poderia ultrapassar 200 milhões de
habitantes antes do ano 2000. Com certeza essa determinação deve ter sido empregada com
eufemismo, pois, caso contrário, ficaria evidente demais que estariam se sobrepondo à
soberania brasileira com tal afirmação. O governo norte-americano só não explicou o porquê
dessa determinação. Caso o Brasil chegasse a cifra de 200 milhões de habitantes, isso
representaria uma ameaça a economia externa deles.
O medo é tanto, que há investimentos externos dos Estados Unidos como de
outros países desenvolvidos para que o Brasil não cresça demograficamente, pois isso poderia
significar o domínio brasileiro da economia de grande parte da América Latina, o que
definitivamente não é interessante para os países desenvolvidos.
A interferência norte-americana não cessa jamais, prova disso é que apesar do
acordo ainda não ter se concretizado, os norte-americanos já entram e saem do país com
cargas que sequer podem ser fiscalizadas, passando por cima da soberania do país:
Em 2000 o Governo FHC assinou um acordo com os Estados Unidos cedendo a
área da Base de Lançamento de Alcântara para os EUA. O acordo permite que a
área seja transformada em base militar dos americanos [A Base Militar de
Alcântara foi criada em 1980 com o fito de realizar o lançamento de foguetes, ela
está situada no município de Alcântara, interior do Maranhão], que passariam a ter
total controle da área. Inclusive o direito de decidir quem pode ou não entrar nela.
Pior: a alfândega brasileira não teria permissão nem de fiscalizar as cargas que
chegarem dos Estados Unidos para a Base. (grifo nosso).32

[...] o verdadeiro objetivo dos EUA não é simplesmente o lançamento de


foguetes, mas sim avançar em seu controle militar sobre a região
amazônica. A estratégia dos EUA inclui a integração de Alcântara com as
suas bases militares instaladas na Bolívia, Equador e Colômbia.33

A intervenção já é nítida antes mesmo de concretizado o acordo, o que dirá


depois.
31
PLEBISCITO nacional sobre a Alca: vamos dizer “não” ao império. Jornal da campanha contra a Alca, n. 2,
p. 1, ago. 2002.
32
ACORDO de Alcântara agride a soberania do Brasil. Jornal da campanha contra a Alca, n. 2, p. 2, ago. 2002.
33
MANIFESTO contra a entrega de Alcântara para os EUA. Jornal da campanha contra a Alca, n. 2, p. 3, ago.
2002.
1.2 A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” À LIBERDADE

A liberdade a que se refere o título desse capítulo é, dentre outras, aquela


viciada pela coação, uma vez que se está praticamente sendo imposto ao Brasil,
principalmente pelo FMI, a aceitação do projeto do tratado, e o pior, de forma irrestrita, como
será demonstrado no próximo tópico. Vale dizer que a sede do FMI fica em Nova York, mas
isso pode não passar de mera coincidência.
Não se pretende aqui, negar a importância deste órgão internacional, que tanto
tem auxiliado o Brasil, pelo menos essa é a concepção que ele procura transmitir. A questão
que se levanta é quanto a sua exagerada intervenção, que teoricamente deveria resultar em
uma ascensão econômica, mas que de fato, nem sempre ocorre.
A interferência ou intervenção internacional é um assunto, que sem dúvida, os
EUA e o FMI entendem muito bem:
Antigo e permanente anseio de todos os povos, a autonomia na escolha da forma
de governo e do modo de vida viu-se sempre limitada por grupos internos ou
poderes externos que se utilizaram de meios diversos, entre eles a intervenção,
para impor a outros sua vontade ou interesses próprios.
Intervenção internacional é a ingerência de um estado [sic] nos assuntos internos
ou externos de outro que não está sob sua dependência. Com esse ato se procura
usurpar atribuições soberanas alheias, para impor uma vontade estranha à nação
submetida.
Desde 1880, a intervenção econômica tornou-se ostensiva com a chamada
"diplomacia do dólar". No início do século XX, Theodore Roosevelt inaugurou a
política do "big stick", corolário da doutrina Monroe segundo o qual, se a América
é para os americanos, os Estados Unidos tinham o direito de intervir militarmente
sempre que, a seu juízo, o continente estivesse em perigo. Com essa base
ideológica, Washington conseguiu impor à constituição de Cuba um dispositivo
que previa a intervenção americana. A Emenda Platt, como se chamou, foi
utilizada como pretexto para diversas ingerências até ser revogada, em 1934.
Em 1933 os Estados Unidos já tinham praticado cerca de sessenta intervenções em
países da América Latina, com ou sem uso de força armada. (grifo nosso)34

Conforme se verifica, as conseqüências são, dentre elas: ou a intervenção


ocorre de forma camuflada, pelo manto das cifras macroeconômicas (que é o caso da ALCA,
com o apoio do FMI), ou ela se dá de forma direta, pela intervenção armada.
O paradoxo que se apresenta, é o fato de um país que pregava a não-
intervenção, passar a utilizá-la de forma displicente, com o argumento de que tem o dever de
resguardar interesses internacionais, no entanto, passando por cima de decisões a ele

34
GARSCHAGEN, op. cit.
superiores, oriundas de um órgão internacional que prescreve as diretrizes que o mundo deve
tomar.
A menção supra se refere à doutrina criada por James Monroe quando
presidente dos Estados Unidos, doutrina esta que se tornou imortalizada pela frase “A
América para os americanos” e que pregava em síntese a não-intervenção americana na
Europa e vice-versa; mais uma vez protegendo interesses particulares, sendo que, se
realmente se importassem com o que ocorre no mundo, como afirmam, deveriam ter pregado
a não-intervenção seja em seu país ou em qualquer outro do mundo.
Em 1904 o então presidente norte-americano Theodore Roosevelt acrescentou
à doutrina Monroe uma disposição que:
“[...] concedia aos Estados Unidos o poder de polícia no continente. Para ele,
algumas nações latino-americanas não eram suficientemente civilizadas e poderiam
descumprir compromissos como o pagamento da dívida externa [...]”35

Em que pese algumas nações não serem, como afirmam, suficientemente


civilizadas, não disseminam a desgraça humana como faz os norte-americanos.
Mesmo conscientes da antipatia mundial que vem crescendo, especialmente
depois da invasão ao Iraque, os norte-americanos pouco tem feito para amenizar a situação,
pelo contrário, já estão com planos de intervenção armada em outros países, só ainda não o
fizeram por medo do arsenal bélico que podem encontrar. O raciocínio é simples, precisam
vender, precisam lucrar, quanto mais guerras, mais armas são necessárias, e “eles” são um
dos maiores fabricantes de armas do mundo.
Presidente dos Estados Unidos entre 1817 e 1825, James Monroe foi o
primeiro chefe de estado a reconhecer a independência das colônias espanholas.
A intervenção internacional não é assunto novo no que se refere aos Estados
Unidos, esse processo vem ocorrendo desde o século retrasado:
A intervenção americana nos negócios dos demais países do continente tornou-se
transparente a partir de 1823, quando a doutrina Monroe foi estabelecida.
A partir de 1824 os Estados Unidos intervieram em diversos países da América
Latina. O exemplo mais dramático foi a tomada de metade do território do
México, com a anexação do Texas em 1836 e, na guerra de 1846 a 1848, a
conquista dos atuais estados de Novo México, Arizona, Califórnia e parte de
Colorado e Utah.36

Em se tratando de intervenção, é possível considerar a ALCA o maior dos


feitos norte-americanos, talvez, o mais audacioso, em termos comerciais.
O melhor exemplo de que o FMI não é tão bom conselheiro e que sua
intervenção nem sempre é plausível, é que a Argentina, que já foi considerada uma das
35
Ibidem.
36
GARSCHAGEN, op. cit.
maiores economias da América do Sul, é hoje, uma das piores, e o FMI pode ter contribuído
muito para que ela chegasse a tal ponto, como se verá no próximo tópico. A miséria na
Argentina já atinge hoje 45% da população. Em dezembro de 2001 a classe média saiu as ruas
saqueando supermercados.
Não será um espanto se ficar constatado também o envolvimento dos Estados
Unidos nessa catástrofe econômica ocorrida com o desfalecido vizinho, pois, o ex-presidente
argentino Carlos Saúl Menem, durante o seu governo, liberou o comércio argentino, o que
possibilitou a instalação de empresas americanas no país, as quais, o que é bem provável,
enviaram tudo o que arrecadaram para o seu país.
É evidente que a Argentina não se encontra nessa situação apenas porque
algumas empresas americanas retiraram os seus ganhos do país, mas que isso contribui para o
caos, parece não haver dúvida. É simples entender o processo, as empresas americanas vêm,
se instalam no país, arrecadam tudo o que podem e vão embora, deixando para trás
desemprego e miséria.
A própria minuta do acordo37, aborda em seu capítulo sobre investimentos,
mais precisamente em seu artigo 9°, que trata das “transferências”, essa possibilidade de
retirada de investimentos, assim prescrevendo:
[1. Cada Parte permitirá que [em seu território] [todas transferências relacionadas
ao investimento de um investidor de outra Parte][todas transferências relacionadas
a um investimento coberto][em seu território][em território da] [Parte] sejam
realizadas livremente e sem demora [tanto dentro quanto fora de seu território]. [As
referidas][Essas] transferências incluem:]
[1. Cada Parte permitirá aos investidores da outra Parte Contratante a livre
transferências dos investimentos e de seus rendimentos [e, em particular embora
não exclusivamente, de:]]:
[1. As Partes assegurarão a um investidor de outra Parte, com relação a um
investimento coberto pelo presente Acordo, a livre transferência dos investimentos
e dos lucros deles decorrentes. O investidor poderá transferir igualmente:]
a) [contribuições de capital;] [capital e os montantes adicionais necessários à
manutenção e ao desenvolvimento dos investimentos;]
b) [lucros, dividendos, juros, ganhos de capital, pagamento de royalties, gastos de
administração, assistência técnica [e outras despesas], lucros em espécie e [outros]
montantes decorrentes do investimento;]
[os lucros, rendimentos, rendas, juros, dividendos e outras receitas correntes;]38

Esta previsão retro, favorece os Estados desenvolvidos, sobretudo, os Estados


Unidos, pois permite que qualquer país membro do acordo retire todos os seus investimentos
de um país a qualquer momento, o que poderá levar o país, acometido por tal circunstância, a

37
SEGUNDA minuta do acordo. Capítulo sobre investimentos. Disponível em: <http://www.ftaa-
alca.org/ftaadraft02/por/nginp_1.asp#art19>. Acesso em: 14 ago. 2003.
38
Os colchetes apontam que há divergências quanto ao texto neles contido; vale ressaltar que todas as menções
quanto ao texto da minuta são meras previsões, posto que o tratado ainda não entrou em vigor.
um colapso econômico, como ocorreu na Argentina, quando os investidores estrangeiros
retiraram o que haviam aplicado no país.
Outra liberdade que está sendo tolhida é o direito de entrar e sair dos Estados
membros do futuro tratado, principalmente é claro, por parte dos Estados Unidos, visto ser
evidente a insatisfação, para não dizer “discriminação” dos norte-americanos, com a presença
de indivíduos não natos em seu país, tendo verdadeira xenofobia a eles, especialmente àqueles
de países subdesenvolvidos, sendo apenas complacentes com os naturalizados. Como prova
do exposto, dispõe a minuta do acordo39 em seu capítulo sobre serviços, art. 8°, que:
[3. Nada neste capítulo deverá impedir que uma Parte aplique suas leis,
regulamentos e requisitos com relação à entrada e permanência, trabalho, condições
de trabalho e estabelecimento de pessoas físicas, entendendo-se que, se o fizer, não
se aplique de forma a anular ou limitar os benefícios obtidos por qualquer das
Partes em virtude de alguma disposição específica deste capítulo.]]40

A arrogância americana não tem limites, vale lembrar que os norte-americanos


se recusaram a aceitar inúmeras convenções, dentre elas:
“Convenção de 1979, sobre a eliminação de todas as formas de discriminação
contra as mulheres; O mesmo país que se retirou da Conferência Mundial Contra o
Racismo na África do Sul em 2001. O mesmo que instituiu Tribunais Militares de
Exceção, autorizando, inclusive, a decretação de pena de morte para
estrangeiros!”41

A discriminação dos norte-americanos por estrangeiros e negros dispensa


maiores comentários, pois os fatos notórios não necessitam de provas.
É imperioso para que o acordo seja imparcial, como preceitua seus
idealizadores, que nele haja a ausência de opressão, pois havendo esta, aquele se torna
viciado.
A aquiescência do Brasil ao acordo, pode representar aos seus cidadãos uma
submissão às decisões tomadas por um grupo de pessoas que visam, sobretudo, a supremacia
de seu país, em todos os aspectos, fazendo com que pessoas que moram do outro lado do
continente e que antes possuíam liberdade, deixem-na de possuir, imperando assim, o que o
grupo almejava, ou seja, o controle social. Litrento, assim aborda o assunto: “Uma questão,
talvez, a mais importante, em se tratando de sociedade, é aquela que indaga da submissão de
indivíduos anteriormente livres a um sistema de controles e de coação sociais.”42

39
SEGUNDA minuta do acordo. Capítulo sobre serviços. Disponível em: <http://www.ftaa-
alca.org/ftaadraft02/por/ngsvp_1.asp#Serviços>. Acesso em: 14 ago. 2003.
40
Os colchetes apontam que há divergências quanto ao texto neles contido; vale ressaltar que todas as menções
quanto ao texto da minuta são meras previsões, posto que o tratado ainda não entrou em vigor.
41
QUEM está propondo esse acordo? op. cit.
42
LITRENTO, Oliveiros. A ordem internacional contemporânea: um estudo da soberania em mudança. Porto
Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991. p. 9.
Segundo Mineiro: “Os Estados Unidos estão a um passo de considerarem o
Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) como o inimigo número um nas Américas.”43 Com
essa assertiva, fica nítida a intenção dos norte-americanos de acabarem com a liberdade tanto
do Brasil como dos demais países do Mercosul de acolherem o acordo que melhor lhes convir.
O MERCOSUL estava tentando estabelecer uma certa preferencialidade no
interior dos seus países-membros, frente aos produtos de outras procedências, para
atender aos interesses das grandes empresas da Região, cujo capital é integrado
internacionalmente. Para os EUA, portanto, inviabilizar o MERCOSUL
significaria impedir uma integração própria, autônoma, na América Latina e
Caribe. Simultaneamente, os EUA tentam inviabilizar também a Comunidade
Andina, o Mercado Comum Centro-americano e o CARICOM, no Caribe. Com
isto, a ALCA restaria como única possibilidade de comércio no continente.44

Não estão querendo apenas tolher o direito de escolha, estão querendo acabar
com o Mercosul e impor o seu projeto. Apesar de toda pressão para que o Brasil integre a
ALCA, o governo brasileiro considera o Mercosul sua prioridade e fará o possível para que
ele exista com ou sem a ALCA.
Uma das principais preocupações do Brasil é a preservação do Mercosul no
processo de construção da ALCA. E elas se centram não apenas nos efeitos das
importações provenientes dos EUA sobre o mercado regional, mas também nas
possibilidades de aumento das exportações dos países membros.45

O ministro das relações exteriores, Celso Amorim, e o presidente argentino


Eduardo Duhalde, têm consciência da necessidade de se priorizar o Mercosul, o que ficou
evidente na visita realizada à Argentina.
“É muito melhor para o Mercosul que estejamos juntos”, disse o Ministro
Brasileiro, que esteve ontem na capital Argentina, Buenos Aires, onde se reuniu
com o presidente Eduardo Duhalde, empresários e representantes do governo
argentino.46

Outro fator importante é o que se refere à liberdade de concorrência. Os


Estados Unidos possuem a maior economia do mundo, é um país desenvolvido, com alta
qualidade de vida, embora tenha a maior dívida interna do mundo. Em 2000 o PIB dos EUA
foi de quase dez trilhões de dólares, no mesmo ano o Brasil apresentou um PIB de quase
seiscentos bilhões. Com tal desproporção fica difícil imaginar como este país irá competir
com o poderoso mercado norte-americano.
Segundo Queiroz:
A maior parte das lideranças empresariais, contudo, tem consciência dos riscos que
a adesão ao bloco poderá acarretar. Levam em conta, preliminarmente, que os

43
MINEIRO, Procópio. Alca, nova doutrina Monroe. Cadernos do terceiro mundo, Rio de Janeiro, ano 22, n.
199, p. 40, abr./maio 1997.
44
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. op. cit.
45
MARTINS, op. cit.
46
BILLI, Marcelo. Argentina e Brasil negociarão juntos na Alca. Folha de São Paulo, São Paulo, 5 fev. 2003.
Caderno Dinheiro, p. B 10.
produtos de fabricação nacional não têm condições de competir, em qualidade e
preços, com os de procedência norte-americana, seja no mercado interno, seja nos
mercados dos pequenos países já dominados pela presença dos produtos
importados dos Estados Unidos. A não ser por concessões generosas da potência
hegemônica. (grifo nosso).47

Essa situação econômica repercutirá diretamente no índice de desemprego do


país, que vem aumentando muito nos últimos anos conforme tem sido divulgado nos meios de
comunicação e conforme prova os dados estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), que constantemente apresenta novos dados corroborando a assertiva retro.
Os empresários brasileiros e certamente os dos demais membros do futuro
tratado não terão condições de continuar com suas atividades: “Provocará a
desindustrialização do Brasil, que poderá ser transformado em colônia agrícola.” 48 Um maior
número de desempregados irá agravar o que já está péssimo, como será analisado no tópico
subseqüente.
Dentro desse grande processo internacional, encontra-se outro grande
problema, o protecionismo norte-americano, que nada mais é do que a iniciativa adotada pelos
Estados Unidos de defender os interesses de seus produtores, por meio da cominação de
barreiras a mercadorias estrangeiras, restringindo assim, a liberdade dos outros membros do
acordo de competir de forma igualitária.
No caso do Brasil, temos que levar em conta que o protecionismo norte-americano
vem criando todo tipo de entraves e barreiras à entrada dos produtos brasileiros no
seu território. Além disso, os produtos brasileiros têm dificuldade para competir
com os produtos norte-americanos.49

O próprio Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, reconhece, em


seu programa de governo, os empecilhos de se assinar tal acordo:
O governo brasileiro não poderá assinar o acordo da ALCA se persistirem as
medidas protecionistas extra-alfandegárias, impostas há muitos anos pelos Estados
Unidos. Essas medidas foram agravadas recentemente pelas condições definidas
no Senado norte-americano para a assinatura do tratado e pela proteção à
agricultura dos Estados Unidos. A política de livre comércio, inviabilizada pelo
governo norte-americano com todas essas decisões, é sempre problemática quando
envolve países que têm Produto Interno Bruto (PIB) muito diferentes e desníveis
imensos de produtividade industrial, como ocorre hoje nas relações dos Estados
Unidos com os demais países da América Latina, inclusive o Brasil. A persistirem
essas condições a ALCA não será um acordo de livre comércio, mas um processo
de anexação econômica do Continente, com gravíssimas conseqüências para a
estrutura produtiva de nossos países, especialmente para o Brasil, que tem uma
economia mais complexa. Processos de integração regional exigem mecanismos
de compensação que permitam às economias menos estruturadas poder tirar
proveito do livre comércio, e não sucumbir com sua adoção. As negociações da

47
QUEIRÓZ, Álvaro. Alca, mercado continental sem equilíbrio. Cadernos do terceiro mundo, Rio de Janeiro,
Ano 26, n. 230, p. 24, jan. 2001.
48
POR QUE dizer não à ALCA. Plebiscito nacional sobre a Alca, p. 3, [2002].
49
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. op. cit.
ALCA não serão conduzidas em um clima de debate ideológico, mas levarão em
conta essencialmente o interesse nacional do Brasil.50

“Há que se levar em conta que a legislação que regula o comércio exterior dos
EUA é duramente protecionista e certamente não será amenizada somente porque o restante
do continente decidiu abrir-se ainda mais aos produtos ianques.”51
Os empresários norte-americanos temem pelos seus investimentos, mas os
idealizadores da ALCA não foram omissos nesse ponto:
A ALCA seria como um manto de proteção total e sem riscos para os investimentos
diretos norte-americanos, [...] protegendo, assim, qualquer tipo de atividade das
suas transnacionais e escamoteando, por outro lado, o controle exercido por esses
investimentos.52

Além disso, existem documentos do projeto de criação da ALCA que expõem


claramente o propósito de ampliar, por todos os meios e modos, as privatizações e
expropriações das empresas mais importantes e rentáveis dos países do sub-
contimente [sic], além de estabelecerem normas e regras que visam a impedir
esses países de adotar medidas que limitem os lucros exorbitantes das
transnacionais norte-americanas.53

Em que pese o Brasil tratar o capital estrangeiro com certas regalias, estas
parecem ser insuficientes, os grandes investidores sempre procuram os países que lhes
proporcionam as melhores vantagens, e de preferência que tenham um mercado desregulado,
para que possam movimentar suas aplicações como bem entenderem:
O capital especulativo precisa de um mercado desregulado que lhe permita correr
livremente para os lugares onde possa obter maior rentabilidade, maiores taxas de
juros, enfim, maior lucratividade. O Brasil já vem preparando esse caminho há
anos; foram extintos os instrumentos de controle sobre a movimentação do capital e
concedidas isenções tributárias para aplicações de residentes no exterior,
privilegiando o capital financeiro internacional.54

A audácia parece insaciável, querem que os membros do acordo tratem o


capital estrangeiro como se nacional fosse:
É necessário, pois, impor aos países da Região que dêem ao capital estrangeiro o
que eles chamam de “tratamento nacional”, ou seja, o capital norte-americano, no
caso, deverá receber tratamento igual ou até melhor do que os mercados locais.55

A ALCA está sendo negociada à revelia da opinião pública:


Trata-se de uma imposição, não de um processo de negociação. Este tratado está
sendo negociado à revelia dos povos. Está avançando de maneira clandestina, sem
discussão democrática. Nem os povos da região, nem organizações sindicais e
sociais, nem os parlamentares puderam participar dos debates e conhecer os

50
PARTIDO DOS TRABALHADORES. Programa de governo. Disponível em:
<http://www.lula.org.br/obrasil/programa_int.asp?cod=37>. Acesso em 19 mar. 2003.
51
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. 2003, loc. cit.
52
Ibidem.
53
Ibidem.
54
IMPLICAÇÕES e objetivos da ALCA. Plebiscito nacional sobre a Alca, p. 1, [2002].
55
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. op. cit.
avanços dos acordos. Somente grandes grupos empresariais norte-americanos
puderam atuar nas negociações. (grifo nosso).56
Nem mesmo os parlamentares dos países participantes estão tendo acesso ao
que está sendo discutido, saciando assim, a liberdade e os direitos do povo à informação e
participação na elaboração do projeto, principalmente no que diz respeito à participação,
porque com relação à informação, pode-se dizer que essa existe apesar de escassa e pouco
divulgada, principalmente pelos meios de comunicação de massa, que são as mídias
eletrônicas, digitais e as impressas.
Os acordos intergovernamentais não somente colocam em jogo a responsabilidade
do Estado em face dos demais signatários, como, também, aos seus cidadãos. É
aqui que o impacto da Alca pode-se fazer sentir de modo pungente. As pessoas não
estão sendo informadas suficientemente do vem sendo desenvolvido e como são
elaborados os textos. Trata-se de negociações que forçosamente se fazem num foro
que não é amplo e de participação restrita, razão pela qual as opções que se
oferecem não tem sido discutidas nem examinadas pelo homem comum, da rua.
Sem dúvida os grupos de interesse têm acompanhado e mesmo elaborado ou
influenciado na elaboração dos documentos de trabalho. Mas sua visão é
monocórdica.57

Conforme menciona Martins:


É inadmissível que negociações dessa natureza, com impactos sobre toda a
sociedade, sejam conduzidas exclusivamente pelos poderes executivos sem
consulta ou participação de organizações da sociedade civil. Sequer os parlamentos
são consultados.58

Apesar de todo o esforço dos organizadores do acordo de encobrir os assuntos


tratados nas reuniões, felizmente, muito não pode ser escondido, devido ao vazamento de
informações que ocorreu por parte de negociadores e políticos, o que afirma Queiroz ao
prescrever:
Tudo se discute em sigilo nos grupos negociadores. Alguns assuntos tornaram-se
de domínio público apenas por vazamentos, através de fontes diplomáticas e
políticas que desconfiam desse livre mercado e prevêem um pesadelo para os
povos, governos e empresários latino-americanos. 59

Em 1822 o Brasil conquistou sua liberdade política, mas é bem possível que
em 2005 perca sua autonomia para os norte-americanos, mediante o manto da ALCA.
Segundo Hoffmann: “[...] esta não é uma proposta de integração e, tampouco, mera abertura
econômica, pois atende a interesses comerciais que põem em risco a autonomia do Brasil
como nação.”60

56
POR QUE dizer não à ALCA. op. cit.
57
BAPTISTA, op. cit.
58
MARTINS, op. cit.
59
QUEIRÓZ, op. cit.
60
HOFFMANN, op. cit.
1.3 A ALCA E SUA “OPOSIÇÃO” AOS DIREITOS E CONQUISTAS SOCIAIS

Não é de hoje que o país passa por dificuldades no seu quadro econômico,
social e político, isso se deve principalmente a má distribuição de renda e a má administração
do país pelos seus governantes. Uma prova disso é o fato do Brasil enviar constantemente
bilhões de reais ao exterior para pagar juros de dívidas que crescem como uma “bola de
neve”, o que vem sendo feito desde o século passado: “Para garantir o pagamento dos juros da
dívida externa, o governo tira do povo os serviços básicos.”61
Inúmeros são os feitos norte-americanos que evidenciam a sua negligência
quanto aos direitos e conquistas sociais, que facilmente podem ser demonstrados e provados
mediante o repúdio de tal nação a diversas convenções internacionais como:
Pacto sobre direitos econômicos, sociais e culturais de 1966; Protocolo adicional de
1988 à Convenção americana de direitos humanos em matéria de direitos
econômicos, sociais e culturais; Convenção criadora do Tribunal Penal
Internacional, de 1998, cuja incumbência é julgar os responsáveis pelos crimes de
genocídio, crimes contra a humanidade, os crimes de guerra e o crime de agressão
(Cabe observar que apenas 6 países se negaram a assinar a Convenção, além dos
Estados Unidos: China, Iraque, Israel, Qatar e lêmen [sic]).62

Para que o futuro tratado atinja sua eficácia plena, será necessária uma reforma
nas leis trabalhistas, essa reforma vai influir diretamente em muitos direitos e conquistas
sociais, alterando de modo substancial muitos preceitos contidos na Consolidação das Leis
Trabalhistas (CLT), tais como: eliminação do 13º salário, do Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS), das férias, da licença maternidade, do pagamento de horas extras, entre
outros direitos que terão que ser revogados ou derrogados:
Degradará mais ainda os direitos trabalhistas. A fim de assegurar a mais absoluta
liberdade para o capital, as leis trabalhistas deverão ser “flexibilizadas”, salários
rebaixados e as jornadas de trabalho poderão ser ampliadas.63

Pelo exposto, fica claro que o acordo não demonstra muito interesse pela parte
social, visto que essas modificações irão afetar substancialmente as condições de vida do
trabalhador brasileiro, que já não são boas, tendo que sobreviver com um salário mínimo.
Os trabalhadores brasileiros têm motivo para se preocupar quando se trata de livre
comércio. Desde que teve início a abertura indiscriminada do país, milhares de
postos de trabalho foram eliminados, os salários arrochados e as relações de
trabalho tornaram-se ainda mais precárias e inseguras.64

61
A DÍVIDA e(x)terna e a Alca: ameaça à soberania do Brasil. op. cit.
62
QUEM está propondo esse acordo? op. cit.
63
POR QUE dizer não à Alca. op. cit.
64
MARTINS, op. cit.
As modificações nas leis trabalhistas serão essências para a vigência do
acordo, visualizando isso e temendo represálias do FMI, o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso tratou logo de modificar a CLT, com vistas a flexibilizar o mercado de trabalho,
seguindo, assim, o que determinou o FMI:
Esta medida é fundamental para o sucesso da ALCA, pois as normas trabalhistas
não podem servir de empecilho para que o capital consiga impor seu projeto. É por
isso que o governo FHC está tão empenhado em aprovar as alterações da CLT no
Brasil. Ele está comprometido com o FMI, que condicionou a renovação do
contrato com o governo brasileiro à adesão irrestrita à ALCA.65

Segundo o ex-presidente americano Bill Clinton, a ALCA iria impulsionar de


imediato a economia americana com a criação de mais de um milhão de empregos. Enquanto
lá o número de pessoas empregadas irá aumentar, a tendência aqui é inversa, o Brasil não
possui a tecnologia de ponta para garantir preços e qualidade equivalentes aos produtos
americanos, que certamente irão invadir o mercado brasileiro levando as empresas nacionais a
pedirem concordatas ou falências, o que irá elevar por conseqüência o número de
desempregados no país. “Entre os objetivos da ALCA está o de conseguir controlar todo o
comércio da América Latina e Caribe e reforçar as vantagens que tanto as empresas de
importação como as de exportação dos EUA já têm sobre as empresas do sub-continente.”66
[...] excetuando-se alguns poucos produtos, tais como suco de laranja, amendoim,
limão e carnes bovinas, são pequenos os benefícios potenciais decorrentes de
reduções tarifárias no mercado norte-americano, uma vez que suas alíquotas já são
baixas;67

“As transnacionais vão abocanhar até as compras governamentais. Ou seja, o


governo poderá ser obrigado a importar até merenda escolar.”68
Os salários serão ainda mais reduzidos. As empresas vão se instalar nos países
onde são pagos os salários mais baixos. Vão tentar jogar os trabalhadores de um
país contra os de outro. Algo desse tipo já aconteceu no México, a partir de 1994,
quando o país entrou para a Área de Livre Comércio da América do Norte, com os
Estados Unidos e o Canadá. Os salários, no México, foram reduzidos em 20%.
Aumentou o desemprego e a pobreza: os pobres, que eram 40% da população, hoje
somam 75%.69

Até os serviços básicos estarão comprometidos: “A ALCA aprofundará a


privatização dos serviços sociais e da medicina, pois o acordo obriga os Estados a garantir o
direito das empresas privadas a concorrer com os serviços públicos.”70

65
IMPLICAÇÕES e objetivos da ALCA. op. cit.
66
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. op. cit.
67
MARTINS, op. cit.
68
AS CONSEQÜÊNCIAS da Alca em sua vida. Jornal da campanha contra a Alca, n. 2, p. 2, ago. 2002.
69
Ibidem, p. 2.
70
POR QUE dizer não à ALCA. op. cit.
Para se ter uma idéia de quanto os direitos e conquistas sociais serão afetados
com o acordo, basta verificar o que as políticas econômicas neoliberais71, difundidas pelo
Banco Mundial, pela OMC e pelo FMI, acabam acarretando aos países que as seguem, são
elas: desemprego, condições inadequadas de ensino e tratamento médico, fome e destruição
do meio ambiente.
Como prova do exposto, vale lembrar o que aconteceu ao México, quando este
passou a seguir os preceitos oriundos do FMI: mais de 12 mil empresas mexicanas falidas e
milhões de pessoas passando a viver na pobreza. É claro que o FMI negou responsabilidade
pelo fato, declarando que houve falências e pobreza em razão da má administração da
economia pelos mexicanos, e não em razão de seguirem suas metas. Acontece que os
mexicanos seguiram fielmente as metas estabelecidas pelo FMI, portanto, não houve má
administração, houve sim, confiança dos mexicanos no plano receitado pelo “conselheiro”
FMI.
Em se tratando de meio ambiente, é pouco provável que os Estados Unidos
combatam a poluição ambiental com toda ênfase que é abordada no projeto do tratado, pois
isso “[...] afetaria a economia americana (os Estados Unidos, sozinhos, emitem 36% dos gases
poluentes que estão provocando os buracos na camada de ozônio que envolve o nosso
planeta).”72
A ALCA privilegia o mercado acima de tudo e representa enorme risco de
biopirataria para a nossa rica biodeversidade (o Brasil detém 23% da biodiversidade
do planeta). Os Estados Unidos concedem patentes a espécies vegetais e são contra
a legislação que visa proteger a propriedade intelectual ligada às pesquisas
realizadas nessa área.73

É nítida a omissão deles em relação ao meio ambiente, em 1998 eles se


recusaram a assinar o Protocolo de Quioto, o qual tratava da limitação de emissão de gases
poluentes que agravam o efeito estufa:
“Os norte-americanos diziam que originalmente poderiam reduzir 300 milhões de
toneladas de CO2 por esse método [método que trata da redução de emissão de
gases poluentes], mas mudaram essa estimativa para 125 milhões de toneladas.”74
Os Estados Unidos é um dos países que mais polui o mundo. Para que
houvesse uma diminuição dessa poluição, seria mister uma modificação na estrutura das
indústrias, e isso gera gastos, sendo certo que as empresas não estão preparadas
economicamente para arcar com tais despesas.

71
São aquelas que dentre outras coisas pregam a privatização, a abertura comercial plena para a invasão de
importados e a ausência de interferência governamental.
72
QUEM está propondo esse acordo? op. cit.
73
POR QUE dizer não à Alca. op. cit.
74
NEGOCIAÇÃO de última hora tenta salvar tratado sobre o clima. Disponível em:
<http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2000/001124_clima.shtml>. Acesso em: 14 ago. 2003.
O governo norte-americano com certeza não irá prejudicar o seu lucrativo
negócio industrial, e nem colocar o seu sistema financeiro em colapso por uma causa como
essa, por mais relevante que seja. “Com a ALCA, qualquer norma nacional destinada a
preservar o meio ambiente ou a saúde poderá ser contestada judicialmente se as empresas
entenderem que estas ferem suas expectativas de lucro.”75
Os textos da ALCA colocam, ainda, exigências descabidas aos governos da
Região, pois legislam sobre o direito das transnacionais de recorrerem a tribunais
internacionais à sua escolha, como a OMC, por exemplo, para se ressarcirem de
eventuais prejuízos ou mesmo por não terem auferido as taxas de lucro previstas,
impedindo os governos de exercerem o mesmo direito. A ALCA visa, também, a
garantir não só mais liberdade para os investimentos como a eliminar todo tipo de
barreiras ao seu livre trânsito.76

Se é verdade que nenhum país pode viver isolado, isto não significa que o livre
comércio seja a única ou melhor forma de promover a inserção na globalização.
Sobretudo quando ela se dá por meio de acordos como a ALCA, essencialmente
comerciais, sem qualquer compromisso com o desenvolvimento sustentável, o
meio ambiente, os direitos humanos, sociais e sindicais.
O desprezo pelos compromissos sociais
Dos quatro compromissos assumidos na I Cúpula das Américas (Miami, 1994)
apenas o livre comércio foi motivo de preocupação permanente e
encaminhamentos. Nada se fez sistematicamente para cumprir os demais: avançar
no processo de democratização, erradicar a pobreza, promover o respeito pelos
direitos humanos e garantir um desenvolvimento sustentável.
A exclusão do tema do desenvolvimento sustentável da agenda oficial da II Cúpula
das Américas (Santiago, 1998) mostra a falta de seriedade por parte dos governos
no tratamento desses temas. Nada garante que o mesmo não venha a ocorrer com o
tema da educação, introduzido na conferência de Santiago. O alargamento da
legitimidade da ALCA não se dará pelo tratamento superficial
de temas sociais, utilizados como moeda de troca nas negociações comerciais.
A rigor, o desprezo pelos compromissos sociais não é exclusivo das
negociações da ALCA. Nossos governos não fizeram quase nada para implementar
os compromissos da Conferência de Desenvolvimento Social de Copenhague ou
mesmo para respeitar a Carta da Organização dos Estados Americanos,
especificamente no que concerne ao capítulo sobre "Desenvolvimento Integral".
Não há nenhuma garantia de que os compromissos sociais assumidos em Santiago
venham merecer a mesma atenção que os governos conferem à liberalização
comercial.77

Caso o Brasil se torne signatário do acordo, as conseqüências advindas serão


inevitáveis, na medida em que o país terá que se submeter ao estipulado, em outras palavras,
isso pode significar ao país, utilizando-se de uma expressão grotesca, dizer sim a escravidão
ou se tornar novamente, mas de forma camuflada, colônia de outro país, “Na verdade, tudo
não passa de um novo projeto de colonização dos países pobres.”78
“O neoliberalismo tornar-se-ia aquilo ao que se destina: uma versão moderna
de colonialismo, em nome dos novos padrões de acumulação e reprodução do capital.”79
75
NÃO DITO. Plebiscito nacional sobre a Alca, p. 2, [2002].
76
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. op. cit.
77
MARTINS, op. cit.
78
PLEBISCITO nacional sobre a Alca: vamos dizer “não” ao império. op. cit.
79
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. op. cit.
[...] um “justiceiro” provido das conhecidas regiões do Texas assumiu a
superpotência global, com discurso tendo como lema estabelecer a “paz e justiça”
entre os povos; esta mesma superpotência que dota [sic] o monopólio do Ter, Saber
e Poder, submetendo demais nações à condição de carência tecnológica e
econômica, impedindo o desenvolvimento autônomo daquelas, a chamada
“Colonização Contemporânea”, como quer fazer com a América implantando a
Alca. (grifo nosso).80

Consta na minuta do acordo, mais precisamente no item obstáculos técnicos


ao comércio, que os países mais desenvolvidos, se lhes for razoavelmente possível, deverão
auxiliar os menos desenvolvidos, assim descrevendo: “Com vistas a ajudar as Partes menos
desenvolvidas deste Acordo a cumprirem seus compromissos, as Partes mais desenvolvidas
farão tudo o que esteja razoavelmente a seu alcance para prestar assistência técnica;”81
É nefasto para o desenvolvimento dos países que lutam para crescer. Garante
apenas os interesses do grande capital transnacional norte-americano, não
contempla as disparidades entre nações e representa o retrocesso no sistema de
compromissos internacionais. (grifo nosso).82
Em que pese o preceito acima, vale lembrar que nem mesmo as determinações
da Organização das Nações Unidas (ONU) os Estados Unidos seguiu, e em discordância ao
que tal órgão pregava, invadiu um outro país, sendo posteriormente provado que o mesmo não
possuía as armas químicas mencionadas pelo invasor.
Se a maior potência econômica do mundo, que deveria dar o exemplo,
desrespeita a opinião de um órgão tão importante como a ONU, o que dirá dessa
determinação de prestar assistência as partes menos desenvolvidas. Caso realmente a potência
hegemônica venha a prestar alguma assistência, esta certamente não será por cortesia ou
determinação do acordo, e sim em razão de algum interesse.

80
SOARES, op. cit.
81
SEGUNDA minuta do acordo. Obstáculos técnicos ao comércio. Disponível em: <http://www.ftaa-
alca.org/ftaadraft02/por/ngmap_6.asp#OBSTÁCULOS>. Acesso em: 14 ago. 2003.
82
POR QUE dizer não à ALCA. op. cit.
CONCLUSÃO

O interesse econômico é a principal força motriz de todo esse processo


comercial, os norte-americanos, ao contrário do que procuram transparecer, estão afundados
em dívidas, tanto que possuem a maior dívida interna do mundo. Com a consignação do
acordo, os norte-americanos esperam amenizar a situação financeira de seu país, essa é uma
das principais razões da pressão oriunda deles para se antecipar as negociações.
Por tudo que se procurou demonstrar deste acordo, que praticamente é
inevitável, percebe-se, como foi sutil a estratégia, por sinal muito bem elaborada, para que o
Brasil a ele cedesse. Aproveitando-se da difícil conjuntura econômica do país, torna-se nítida
a intenção, tanto por parte do FMI como do governo norte-americano, de compelir o governo
brasileiro a aceitar o acordo. E o fazem com respaldo em vários argumentos, e chegando,
muitas vezes, até a utilizarem meios não idôneos, como estipular que empréstimos ao governo
brasileiro só serão concedidos caso o mesmo aceite a proposta dos norte-americanos.
Defender a soberania, os direitos e conquistas sociais, é um dever da
coletividade, não apenas daqueles que representam o povo no Congresso Nacional. Porém,
esse dever só poderá ser exercido, se ao povo for transmitido, o que deles é de direito, a
informação, sem lhes negar acesso às mesmas, como vem ocorrendo. Só assim, será possível
a cada cidadão brasileiro avaliar, o que de fato irá ocorrer com sua vida e seus direitos, se o
acordo for concretizado. Se o acordo fosse realmente tão benéfico aos que a ele irão aderir,
certamente não estaria sendo discutido a portas fechadas.
Enquanto o Brasil depender de empréstimos e do auxílio dos Estados Unidos,
não se poderá afirmar sua completa soberania, pois que, de forma indireta, o país sempre vai
estar nas mãos deles. Enquanto não assinar o acordo, o país estará, pelo menos de direito, com
sua soberania, liberdade e conquistas sociais protegidas, mas caso contrário, o país não só
poderá perder sua soberania de direito, como também a de fato, que parcialmente já perdeu há
tempos.
Para se evitar essa lastimável situação, o projeto deve ser revisto em muitos
aspectos controvertidos, como, por exemplo, quanto ao protecionismo norte-americano e os
direitos trabalhistas. Só após um consenso, que chegue a um acordo não “leonino”, o Estado
poderá assinar, sem medo, o acordo.
Como essa situação hipotética é quase inexistente, posto que os Estados
Unidos não têm o hábito de voltar atrás em suas decisões, considerando ainda o seu “ar de
superioridade”, o Brasil não deve assinar o acordo da forma que proposto, pois agindo assim,
comprometerá toda a nação, com reflexos diretos na sociedade e conseqüências irreparáveis.
O ideal seria dar prosseguimento ao que já se alcançou com a experiência do
Mercosul. É interessante deixar de lado certas vantagens particulares em prol de um conjunto,
ainda mais quando se trata de um bloco econômico. Mais vale fazer parte de um pequeno
grupo e vencer, do que estar dentro de um tratado que envolve um continente inteiro e perder.
É essencial que tanto o Brasil, como os demais países que possam vir a
integrar a ALCA não abandonem os blocos regionais do qual façam parte. A melhor saída para
o problema está literalmente bem ao lado, e atende pelo nome de Mercosul.
Para se aderir a ALCA, o Brasil terá que modificar inúmeros ordenamentos
jurídicos, principalmente quanto aos direitos e conquistas sociais adquiridos no âmbito
trabalhista e ao sistema econômico do país, pois que esses são apenas dois dos requisitos para
que o acordo atinja sua eficácia plena. Essa modificação ocorrerá da pior forma possível, seja
com a restrição de direitos, ou simplesmente com a sua eliminação.
Os benefícios de tal modificação no sistema jurídico brasileiro são mínimos
quando comparados aos prejuízos que ocorrerá no setor da economia e no trabalho. Não há
dúvida que teoricamente será mais fácil a comercialização dos produtos brasileiros,
principalmente se isso reverter em alguma vantagem para a potência hegemônica, caso em
que esta não medirá esforços para auxiliar o seu “sócio” no acordo.
É praticamente impossível se colocar em vigência um projeto tão complexo
como a ALCA com dimensões continentais, sem se alterar o ordenamento jurídico interno dos
países contratantes.
Com o acordo não haverá um desenvolvimento harmônico de toda a
Comunidade, mas certamente a América do Norte será uma exceção, sobretudo, os Estados
Unidos, pois representa a maior economia do mundo.
Participar de um tratado internacional é, a princípio, bastante vantajoso para
qualquer país, pois propicia uma melhor comercialização de produtos e prestação de serviços,
além de possibilitar um intercâmbio de conhecimentos, tecnologias e várias outras vantagens.
Mas isso deve ser feito em igualdade de condições, sem imposições ou
chantagens, tendo-se em vista a capacidade de competitividade de cada país membro do
tratado. Os interesses devem ser coligados e homogêneos, sem a supremacia de um sobre os
outros. Se essas diretrizes fossem respeitadas, poderia-se afirmar estar diante de uma
excelente oportunidade, e não de uma ameaça.
Como se demonstrou de modo incisivo no presente estudo, as conseqüências
da consignação de tal acordo afetarão a soberania, a liberdade e os direitos e conquistas
sociais. O melhor exemplo dessa assertiva foi o que ocorreu no México quando aderiu ao
Nafta, conseqüências essas que perduram até hoje e que fazem com que o mencionado país
permaneça “nas mãos” dos norte-americanos; afirmar que o México, assim como o Brasil, são
detentores de soberania, liberdade, direitos e conquistas sociais plenos, é no mínimo uma
utopia; não se nega aqui que de direito possuem tais tributos, porém, de fato não. Se assinar o
acordo, o Brasil será apenas “mais um nas mãos deles”, como é o México por meio do Nafta,
essa é a conseqüência que poderá advir ao país, caso o acordo seja concretizado.
Cogitar que os norte-americanos irão respeitar a soberania, a liberdade e os
direitos alheios é uma extrema ingenuidade, pois não respeitaram nem mesmo as diretrizes da
ONU, órgão representante dos interesses internacionais, o que dirá de um acordo de livre
comércio que visa primordialmente o lucro.
O Brasil está negociando com um país que desde 1966 vem repudiando todas
as convenções que prezam pelos direitos humanos, como a convenção de Ottawa, o Protocolo
de Quioto, a convenção criadora do Tribunal Penal Internacional, dentre inúmeras outras.
Não se deve mais admitir que o maior país da América do Sul, que está em
uma posição geográfica privilegiada quanto aos seus vizinhos, e que detém o maior PIB da
América do Sul, continue dependendo de empréstimos internacionais oriundos principalmente
do FMI e dos Estados Unidos.
Enquanto essa humilhante situação perdurar, nenhum presidente que venha a
assumir o cargo de chefe do Poder Executivo poderá afirmar: somos um país soberano, nossa
liberdade é um direito respeitado assim como as nossas conquistas sociais.

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