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Dias, Menezes & Seabra

ALTERAÇÕES DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Natália Martins Dias
Psicóloga, Mestre e Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, Universidade Presbiteriana Mackenzie - Bolsista FAPESP

Amanda Menezes
Psicóloga, Mestre em Avaliação Psicológica e Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, Universidade Presbiteriana Mackenzie – Bolsista Mérito MackPesquisa

Alessandra Gotuzo Seabra
Doutora e Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo Docente do Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, Universidade Presbiteriana Mackenzie - Bolsista de Produtividade do CNPq Resumo Funções executivas constituem um conjunto de processos cognitivos que permitem a regulação da cognição e do comportamento, possibilitando o engajamento do indivíduo em ações complexas. Essas habilidades estão comprometidas em uma diversidade de condições clínicas e este artigo teórico teve como objetivo oferecer uma revisão não-sistemática de alguns quadros nos quais estas habilidades apresentam-se prejudicadas, sobretudo em crianças e adolescentes. Verificou-se que condições como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, transtorno obsessivo-compulsivo, síndrome de Tourette, transtornos globais do desenvolvimento, transtornos de aprendizagem como a dislexia e a discalculia, além de alterações cromossômicas, como a síndrome de Down e de Prader-Willi, cursam com algum grau de comprometimento do funcionamento executivo. Este conhecimento tem implicações à prática e à pesquisa psicológica e pode ser útil a profissionais que atuam com crianças e adolescentes com alguma destas condições, contribuindo a um maior conhecimento acerca das funções executivas e suas alterações. Palavras-chave: funcionamento executivo, neuropsicologia, desenvolvimento.

EXECUTIVE FUNCTIONS DAMAGE IN CHILDREN AND ADOLESCENTS

Abstract Executive functions are a set of cognitive skills that allows the cognition and the behavior regulation, enabling an individual to take part in complex actions. Those abilities are committed in a diversity of clinical conditions and this theoretical article aimed offer an unsystematic revision of some conditions in which these abilities are injured, especially in children and adolescents. It was verified that conditions as Attention Deficit Hyperactivity Disorder, ObsessiveCompulsive Disorder, Tourette Syndrome, Pervasive Developmental Disorders, Learning Disabilities, like as Dyslexia and Dyscalulia, beyond cromossomic alterations, as Down’s and Prader-Willi Syndromes, follow with some degree of executive functioning compromise. This knowledge has implications to the psychological practice and research, and can be useful to professionals who act with children and adolescents with some of these conditions, contributing to a greater knowledge about executive functions and its damages. Keywords: executive functioning, neuropsychology, development.

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Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 1, n. 1, p. 80-95, jun. 2010

Se constató que los problemas como el trastorno por déficit de atención e hiperactividad. p. desenvolvimiento. Gazzaniga. INTRODUÇÃO As funções executivas são um conjunto de habilidades cognitivas que permitem ao sujeito engajar-se em comportamentos orientados a objetivos. Howieson e Loring (2004). como alguns transtornos psiquiátricos. trastornos del aprendizaje como la dislexia y discalculia. se producen con algún grado de daño en el funcionamiento ejecutivo. Segundo Lezak. 2000. emocionais e sociais. especialmente en niños y adolescentes. os processos componentes Estudos Interdisciplinares em Psicologia. Atualmente. Palavras clave: funcionamiento ejecutivo. Estas habilidades de alta ordem estão diretamente relacionadas ao córtex pré-frontal (Gazzaniga et al. Huizinga. demências. realizando ações voluntárias. contribuyendo a un mayor conocimiento de las funciones ejecutivas y sus alteraciones. neuropsicología. aquisição filogênica dos mamíferos. 1. y puede ser útil a los profesionales que trabajan con niños y adolescentes con alguna de estas condiciones. Este conocimiento tiene implicaciones para la práctica y la investigación psicológica. 1. García-Sánchez & Barraquer-Bordas. Estas habilidades están comprometidas en una variedad de condiciones clínicas y este artículo teórico tiene como objetivo ofrecer una revisión no sistemática de algunas condiciones que tienen estas habilidades perjudicadas. 2002). Ivry & Mangun. jun. 80-95. v. n. trastornos generalizados del desarrollo. entre outros. 2006. 2003. independentes. y alteraciones cromosómicas como síndrome de Down y síndrome de Prader-Willi. 2006). déficits executivos podem estar relacionados a diferentes condições. 2006). Londrina. Gil. Segundo o autor. Tal estrutura. adaptação ou flexibilidade do comportamento para as demandas do ambiente (Elliott. tais funções são fundamentais ao direcionamento e regulação de várias habilidades intelectuais. Dolan & Molen. 2010 81 . síndrome de Tourette. Estas habilidades são especialmente importantes diante de situações novas ou em circunstâncias que exigem ajustamento. há na literatura relativo consenso de que estas habilidades constituem um construto multidimensional. Goldberg (2002) enfatiza que nenhuma outra perda cognitiva pode ser tão comprometedora para o comportamento humano quanto a das funções executivas. el trastorno obsesivo-compulsivo.Alterações das funções executivas em crianças e adolescentes ALTERACIONES DE LAS FUNCIONES EJECUTIVAS EN NIÑOS Y ADOLESCENTES Resumen Las funciones ejecutivas son un conjunto de procesos cognitivos que permiten la regulación de la cognición y del comportamiento. lo que permite al individuo a realizar acciones complejas. Ou seja. auto-organizadas e direcionadas a metas. lesões traumáticas. encontra-se mais desenvolvida na espécie humana do que em qualquer outra (Estévez-González.

Emerson. caracterizando a chamada síndrome disexecutiva. no comportamento de perseverante novos ou estereotipado. 2009. 2008). Fuster. seqüenciar e monitorar seus comportamentos e cognições (Gazzaniga et al.Dias. 2000). n. 1997. 2004. tais como dificuldades na seleção de informação. e monitoramento das atitudes (Duncan. Menezes & Seabra das funções executivas caracterizam operações distintas. Johnson. ilustrando alguns quadros nos quais há relatos na literatura de comprometimentos nas funções executivas. Sternberg. Menezes. flexibilidade cognitiva e comportamental. impondo uma série de problemas à vida diária (Muñoz82 Estudos Interdisciplinares em Psicologia. 2003. 2000). Huizinga et al. com crianças e adolescentes. As funções executivas e suas alterações O comprometimento das habilidades executivas. Friedman. Lezak et al. integração e manipulação das informações relevantes na memória de trabalho. Miyake et al. 2004. controle de impulsos. 1. Londrina. considera-se que as funções executivas envolvam diferentes processamentos cognitivos. jun. efetivação das ações. 2010 . p. Elliot. associadas ao prejuízo de seus processos componentes. Araújo (2004) relata. por exemplo. as quais têm sugerido evidências da existência de diferentes aspectos relacionados ao córtex pré-frontal e às funções executivas (Dias. dificuldades de abstração e de antecipação das conseqüências de seu comportamento. que lesões em diferentes partes dos lobos frontais produzem síndromes clinicamente diferentes. Este conhecimento é útil a profissionais que atuam. 2006. como a atenção seletiva. esses processos cognitivos agrupados sob o termo ‘funções executivas’ permitem a um indivíduo iniciar. Gazzaniga et al. distratibilidade. 2006. 1997. Pliszka. Witzki & Howerter. 80-95. 2004). sobretudo nos contextos clínico e escolar. pode compreender alterações cognitivo-comportamentais diversas. Pliszka. v. De forma conjunta. Este artigo teórico tem como objetivo oferecer uma revisão nãosistemática. dificuldade estabelecimento repertórios comportamentais. ainda que relacionadas (Miyake. planejamento. dificuldades na tomada de decisão. 2006. Essa visão multifacetada é corroborada por pesquisas realizadas com baterias de avaliação neuropsicológica e técnicas de neuroimagem. 2008. planejar. o que corrobora a idéia de diversidade funcional e complexidade da região. problemas de organização. 1. Swales & Frees. intenção. Corroborando tal visão.

jun. 2005. 2006). como a 83 Estudos Interdisciplinares em Psicologia. especificamente em crianças e adolescentes. Assef. Todos esses apontamentos são bem exemplificados no estudo de Rojas. A essas dificuldades. 2007). Os autores avaliaram um menino de oito anos com agenesia da região pré-frontal do lobo frontal.Alterações das funções executivas em crianças e adolescentes Céspedes & Tirapu-Ustárroz. 2001. Em suma. como a dislexia (Beneventi. Schwartzman. pacientes com lesão pré-frontal apresentam prejuízo em uma variedade de medidas. 2008. Yañez e De La Cruz (2008). 2010 . como nos transtornos de comportamento disruptivo. 2010. Franco e Mattos (2002) destacam os prejuízos em habilidades de planejamento. 1. 2004). Em situações de testagem. Balbi. Lent (2001) acrescenta o imediatismo comportamental e o prejuízo no ajuste social do comportamento. dificuldades na inibição e na mudança de respostas. n. Strauss. Brunoni. memória evocativa e mesmo em linguagem expressiva. Reiter. assim como pobre memória de trabalho e ocorrência freqüente de erros perseverativos. 2005. e também naqueles caracterizados por alterações cromossômicas. a impossibilidade de internalizar regras sociais e ausência de limites. Teste de Stroop e testes de fluência (Strauss et al. alterações no controle executivo já têm sido relatadas em uma diversidade de casos.TDAH (Alfano. transtornos de aprendizagem. 2006). 2004. como a dificuldade de julgar ações. 2007. Orsati. 80-95. Londrina. Lima & Ciasca. mesmo aquelas de cunho recreativo. na geração e implementação de estratégias. transtornos invasivos ou globais do desenvolvimento. 2008) e a discalculia (Argollo. 2008). Mais especificamente. v. Coutinho et al. como no Teste de Classificação de Cartas de Wisconsin. Mecca & Macedo. Salgado. Tønnessen. 2005. indivíduos com disfunções executivas tendem a apresentar pobre iniciação. McLean & Hitch. 2005. 2008. alterações estruturais ou funcionais dos lobos pré-frontais ou de seus circuitos podem ocasionar diversos transtornos comportamentais desadaptativos (García-Molina. 1. tal como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade . 1999). Ersland & Hugdahl. De fato. quadros neurológicos. 2008). Wolfe. a exemplo daqueles compreendidos no espectro autista (Landa & Goldberg. Steele. Minshew. 2008. além de problemas motivacionais para encerrar atividades iniciadas. e Saboya. p. como a epilepsia (Levav. Tucha & Lange. os autores descreveram a presença de problemas comportamentais. Sherman & Spreen. problemas de planejamento e organização da tarefa. Nigg. Para além de prejuízos em testes formais do funcionamento executivo. Tapia. Luna & Sweeney.

2008). Londrina. 2008. E não somente nos quadros supracitados as alterações executivas se fazem presentes. aludindo que o TDAH reflete uma alteração no funcionamento executivo. Gathercole. em estudos longitudinais de seguimento. 2006). 80-95. n. p. O autor levantou a hipótese de que talvez os déficits executivos no TDAH tipo desatento estariam mais relacionados 84 Estudos Interdisciplinares em Psicologia. 2010 . Alloway. Apesar dos diversos quadros nos quais alterações do funcionamento executivo foram relatadas. Mahone e Silverman (2008) apontam que a disfunção executiva é frequentemente mais severa na presença da tríade de comorbidades entre TDAH. enquanto alguns dados apontam para déficits menos expressivos no controle de interferência e resultados ainda inconclusivos com relação às tarefas de inibição cognitiva. Além. Para além de quadros clínicos bem definidos. Em artigo de revisão. um prejuízo na habilidade de inibir o comportamento. tem sido também relatados prejuízos executivos. com o objetivo principal de verificar evidências de um déficit primário na habilidade de inibição subjacente ao transtorno. Willis & Adams. 1. Nigg (2001) também partiu desta premissa e focou uma série de estudos que avaliaram o controle inibitório em crianças e adolescentes com TDAH. o autor concluiu que a aceitação de um déficit no controle inibitório como central ou causal ao TDAH carece ainda de comprovação. Em uma revisão acerca dos transtornos do funcionamento executivo. em crianças prematuras de baixo peso ao nascimento (Cuevas & Waisburg. considerando somente o tipo combinado. Alguns dados interessantes do estudo mostraram que indivíduos com TDAH tipo combinado apresentam um déficit pronunciado em tarefas de inibição motora. Síndrome de Tourette e Transtorno ObsessivoCompulsivo (TOC). Alberti & Vianello. Jerman. Papazian e colaboradores (2006) concluíram que alterações em tais funções foram relatadas também em crianças com quadros diversos. como traumatismo cerebral fechado. sobretudo déficits de flexibilidade cognitiva e planejamento. grande número de evidências está disponível discorrendo sobre a disfunção executiva no TDAH. De modo geral. mais especificamente.Dias. Síndrome de Tourette e TOC. Dal Pont. 2007). Menezes & Seabra Síndrome de Down (Lanfranchi. 2010) e a Síndrome de Prader-Willi (Jauregi et al. v. jun. apesar de sua freqüente associação com o transtorno. relações também tem sido estabelecidas entre as habilidades executivas e o desempenho escolar (Capovilla & Dias. 1. o que teria conseqüências diretas sobre o auto-controle do indivíduo. Rebollo e Montiel (2006) consideram e resgatam a proposta de Barkley (1997).

2008). em crianças. dificuldade em organização e hierarquização. inibição e memória de trabalho associadas ao diagnóstico (Im-Bolter. 2005. 2008. p. Como se pode observar. 1. As conclusões da revisão de Mahone e Silverman (2008) dão algum suporte às de Nigg (2001). 2010. especificamente. jun. 2010 85 . McLean & Hitch. Também prejuízos atencionais foram relatados em uma amostra não clínica de crianças e adolescentes com sintomas de TDAH (Coutinho et al. 80-95. 1. v. De fato. 1999). Outras investigações também têm sugerido comprometimento destas habilidades nos quadros de transtorno de aprendizagem. Perante estas dificuldades. porém a maturação das áreas motoras primárias destas crianças é adiantada.Alterações das funções executivas em crianças e adolescentes a dificuldades de inibição cognitiva do que à supressão de uma resposta motora. deficiência em memória de trabalho e prospectiva. para estes autores o TDAH deve ser compreendido como uma síndrome disexecutiva. Johnson & Pascual-Leone. Lima & Coutinho. postergar tarefas e/ou não finalizá-las. dificuldade em focalizar e sustentar a atenção. ainda imaturo. memória. Reiter et al. sugerindo prejuízos em habilidades de atenção. Por exemplo. Balbi. estes achados sugerem um desenvolvimento neurológico atípico que conduziria a uma excessiva atividade motora destas crianças e uma falha em inibir tais comportamentos inadequados pelo córtex pré-frontal. Algumas evidências de alterações executivas em crianças com Distúrbio Específico de Linguagem (DEL) também foram encontradas. déficits no funcionamento executivo estão frequentemente associados ao diagnóstico de TDAH e podem conduzir a comprometimentos em diversas atividades cotidianas. Estes pesquisadores verificaram que a maturação do córtex pré-frontal de crianças com TDAH é atrasada de dois a cinco anos em relação a controles. Ou seja. sobretudo na escola. 2007). Londrina. 2008) e a discalculia (Argollo. são alterações executivas frequentemente relatadas em associação com o transtorno e que levam a significativo impacto no desempenho funcional do indivíduo (Saboya. o que pode ocasionar o esquecimento de datas e compromissos. Estudos Interdisciplinares em Psicologia. mesmo na presença de boas habilidades de reconhecimento de palavras (Mahone & Silverman. Palmini. Saraiva. 2008. Estudos futuros devem endereçar esta questão. 2006). por exemplo. 2007). n. a dislexia (Beneventi et al. Salgado et al. prejuízos na memória de trabalho muito frequentemente podem incorrer em dificuldades na compreensão de leitura.

em relação ao grupo controle. Por exemplo. Algumas evidências nesta direção são oferecidas pelo estudo de Cutting. Londrina. p. No âmbito nacional. Porém. Já a avaliação da resolução de problemas mostrou-se parcialmente comprometida. Godoy e Seabra (no prelo). 2010 . também Salgado e colaboradores (2008) encontraram evidências de prejuízo em algumas habilidades executivas em crianças com dislexia. e controle inibitório. jun. As autoras ainda hipotetizam que seria plausível que as alterações executivas. Seus resultados também indicaram que os disléxicos apresentavam comprometimento na memória de trabalho. tanto em relação aos controles quanto aos pares com dificuldades na leitura de palavras isoladas. n. por sua vez. Os autores investigaram os processos neuropsicológicos associados a diferentes tipos de dificuldades de leitura. sobre os processos de decodificação. reduzida ativação nos córtices préfrontal e parietal. 1. a memória de trabalho. dificuldades na leitura de palavras isoladas e déficit na compreensão de leitura. tendo menor efeito. no subsistema visoespacial da memória de trabalho em crianças 86 Estudos Interdisciplinares em Psicologia. prejuízo em funções executivas. enquanto a habilidade de formação de conceitos não apresentou comprometimento. Menezes & Seabra Por exemplo. Os dados permitiram identificar que o grupo com dislexia apresentou. conforme apontam Dias. buscaram averiguar a relação entre a dislexia e uma das habilidades executivas. Menezes. além do cerebelo. 2002). Materek. Cole. fluência verbal e de figuras. não é claro qual papel estes comprometimentos executivos podem ter na manifestação dos principais sintomas da dislexia. quando avaliado por tarefas complexas. Apesar de crianças com ambas as dificuldades apresentarem prejuízo em fluência de leitura e habilidades de linguagem oral em relação aos controles. Levine e Mahone (2009). 1. Evidências apontam ainda para um comprometimento das habilidades executivas na discalculia ou Transtorno da Matemática (conforme APA. especificamente na habilidade de planejamento e organização. ou seja. v. Seus dados mostraram que as crianças com o transtorno de leitura apresentavam desempenho inferior ao do grupo controle em tarefas de memória de trabalho. McLean e Hitch (1999) verificaram prejuízo executivo e.Dias. se algum. Trevisan. 80-95. as crianças e adolescentes com déficits específicos de compreensão mostraram. Reiter e colaboradores (2005) investigaram diversos aspectos das funções executivas em crianças com diagnóstico de dislexia. Beneventi e colaboradores (2010). de modo mais específico. prejudicassem a compreensão de leitura. como por exemplo o comprometimento na memória de trabalho.

2010 87 . pode ter repercussões em como o indivíduo opera sobre este meio. No âmbito nacional. 80-95. Por exemplo. TID conforme APA. Também Balbi (2008). 2005). prejuízo na regulação da atenção e na preparação da resposta (sacada preditiva). 1993. ou seja. Estudos tem provido tais evidências utilizando distintas formas de mensuração. Londrina. Argollo (2008) realizou estudo com a bateria Nepsy II e observou que. crianças com discalculia apresentaram prejuízo no processamento visuoespacial. Os autores observaram nos participantes autistas erros por perseveração e pobres estratégias empregadas para a resolução das tarefas. a partir de dois relatos de caso com crianças de sete e oito anos com o mesmo diagnóstico. bem como prejuízos no desempenho atencional. conforme mensurado por protocolo de observação (Landa & Goldberg. Em 2005. Ambas as medidas se mostraram positiva e moderadamente relacionadas com a idade. v. 2002) há relatos de alterações no funcionamento executivo. por sua vez.Alterações das funções executivas em crianças e adolescentes com o transtorno. quando comparadas a controles sem o transtorno de aprendizagem. com o aumento da idade há uma melhora na regulação da atenção e preparação para resposta requerida. Os autores postularam que as diferenças na execução e inibição dos movimentos oculares na população com TGD poderiam estar relacionadas à forma como estes indivíduos extraem informação do meio e esta. Verificaram que os participantes com TGD apresentaram maior dificuldade em ambas as tarefas. função sensóriomotora e de percepção social preservadas. Esta suposição faz perceber a importância das habilidades executivas no TGD. conduzidos com amostras mais específicas. Este estudo corrobora outros. ou seja. apesar de habilidades de linguagem. tanto quanto na inibição da resposta preponderante. Landa e Goldberg encontraram evidência de prejuízo em memória de trabalho espacial e planejamento em 19 crianças e adolescentes autistas de alto funcionamento. tanto quanto em inibir e controlar movimentos reflexos e respostas preponderantes (anti-sacada) em relação aos controles. p. 1. encontraram correlação positiva e significativa entre a medida de memória de trabalho e uma de funcionamento social. 1. jun. Também Steele e colaboradores Estudos Interdisciplinares em Psicologia. além. Orsati e colaboradores (2008) utilizaram técnica de rastreamento de movimento ocular para avaliar habilidades executivas com recurso às tarefas de Sacada preditiva e Anti-sacada. relatou alterações na memória de trabalho associados ao quadro. memória visual e em atenção e funções executivas. n. Também nos transtornos globais ou invasivos do desenvolvimento (TGD conforme OMS.

Tal dificuldade se tornava mais evidente progressivamente com o aumento da demanda da tarefa. é possível que estes resultados tenham sido encontrados em função de dificuldades inerentes à avaliação de crianças nesta faixa etária. conforme apontam Yerys. apesar de não comentado pelos autores. De modo geral. Tal fato levou à suposição de que um déficit em tais funções poderia ser primário ao distúrbio. o que poderia auxiliar na compreensão dos mecanismos subjacentes ao déficit de cognição social e desordem de comportamento social frequentemente associados à síndrome. Os autores concluem que o prejuízo executivo parece não ser primário ou causal ao autismo e que tais déficits aumentam com a progressão da idade nesta população (Yerys et al. 1. Rowe et al. n. Pennington e Rogers (2007). Encontraram que seus participantes com Prader-Willi. v. porém verificou-se que as crianças autistas até três anos de idade não demonstraram déficits em comparação aos seus controles. Porém. 2006). 2007). eles objetivaram verificar se os déficits executivos estariam já presentes em crianças autistas antes dos três anos de idade e determinar se tais déficits seriam secundários ao transtorno ou se deveriam ser referidos como fatores de risco cognitivo para o distúrbio. demonstraram déficit atencional e em habilidades executivas. conduzidas com adultos e crianças em idade escolar. porém não com outras. inibição e flexibilidade. com dificuldades de organização e 88 Estudos Interdisciplinares em Psicologia. jun. 2010 . pareados em idade e QI. entre elas. Mais especificamente. 2010. 80-95.Dias. Na primeira. Alterações nas funções executivas foram também descritas na Síndrome de Prader-Willi (Jauregi et al. Foram tomadas medidas de memória de trabalho. 1. cabe citar a possibilidade de uso de testes pouco sensíveis e psicometricamente inadequados à avaliação de amostras tão jovens. p. entre adolescentes e adultos. tanto os pareados por idade mental quanto cronológica. os autores tinham como objetivo identificar os processos prejudicados. Hepburn. os resultados de pesquisas tem sido consistentes em apontar prejuízo no funcionamento executivo em indivíduos com TGD. Londrina. Foi com o objetivo de verificar esta hipótese que estes autores delinearam seu estudo. O desempenho similar em idades precoces seria consistente com um déficit secundário das funções executivas no autismo e é condizente com pesquisas realizadas com pré-escolares. 2007) e na Síndrome de Down (Lanfranchi et al. Menezes & Seabra (2007) encontraram prejuízo de memória de trabalho em 29 adolescentes e adultos autistas de alto funcionamento em relação a controles de desenvolvimento típico.

prove informação útil ao entendimento das alterações executivas associadas a esta condição. n. porém não discutiram se estas diferenças podem ser devidas à deficiência intelectual. Um estudo recente corroborou estes achados em uma amostra de adolescentes com a síndrome (Lanfranchi et al. 2007). Estudos Interdisciplinares em Psicologia. jun. possibilitando seu melhor manejo (Jauregi et al. sobretudo. 1. das funções executivas e funções de memória é de extrema importância na Síndrome de Down. Os autores argúem que alguns resultados podem ser específicos da síndrome de Prader-Willi. sobretudo. sobretudo em medidas de flexibilidade e atenção sustentada. haja a alta incidência de demências em idade precoce nesta população. adolescentes com Síndrome de Down e crianças de desenvolvimento típico pareadas por idade mental. Porém. p. possível conseqüência de um prejuízo no desenvolvimento do córtex pré-frontal. v. Ressaltam a importância das funções executivas no comportamento e funcionamento adaptativo. 80-95. apesar de seu estudo ter sido conduzido com adultos. com prejuízos. 2010). A avaliação neuropsicológica e. Londrina.Alterações das funções executivas em crianças e adolescentes planejamento. Os autores concluíram que o déficit nas funções executivas é uma característica da Síndrome de Down. Já o estudo de Rowe e colaboradores (2006) examinou aspectos do funcionamento executivo em indivíduos com Síndrome de Down em comparação a controles com diagnóstico de Transtorno de aprendizagem e. a defasagem no funcionamento executivo dos participantes sindrômicos foi evidente. nas tarefas de flexibilidade. Os grupos foram pareados em função de uma medida de vocabulário. Os autores aplicaram a seus participantes. mesmo em comparação com um grupo controle que também apresentava comprometimentos. 1. e outros estudos devem investigar de modo mais controlado tal questão. Os resultados evidenciaram comprometimento executivo nos adolescentes sindrômicos. memória de trabalho e inibição. mas podem também refletir a deficiência intelectual. de modo que a avaliação e o delineamento do perfil cognitivo de cada síndrome são relevantes e podem ampliar o conhecimento atual de cada quadro. seus achados também sustentaram que um melhor desenvolvimento cognitivo não caracteriza fator de proteção contra os déficits neuropsicológicos evidenciados. planejamento e resolução de problemas. uma vasta bateria de avaliação neuropsicológica. Verificou-se que. 2010 89 .

90 Estudos Interdisciplinares em Psicologia. n. Barreto e Haase (2008). 1. pois. Dias (2009). p. Tais estudos ainda são escassos no Brasil. 1. espera-se que este artigo possa ser uma ferramenta informativa ao alcance de clínicos e educadores. Teodoro. Dentre as implicações práticas pode-se mencionar. As possíveis implicações à pesquisa. com um aluno com diagnóstico de transtorno de aprendizagem e de posse do conhecimento de que déficits de memória de trabalho estão associados a esse diagnóstico. seria pertinente a atuação para estimular o desenvolvimento destas habilidades ou suplantar seu comprometimento com suportes externos. somente conhecendo o desenvolvimento normal destas habilidades será possível compreender mais profundamente as alterações e desvios em relação a este. Compreender estas alterações faz-se importante e tem conseqüências diretas à prática e à pesquisa em psicologia e neuropsicologia. Menezes (2008) e Natale. jun. Por fim.Dias. sendo auxiliado neste processo pelo psicólogo escolar. v. poderia propor tarefas mais estruturadas. oferecer instruções breves e objetivas. Não caracteriza uma revisão sistemática e tampouco pretende esgotar o tema. remetem essa discussão a dois pontos principais. assim como de outros profissionais que atuam com crianças e adolescentes que apresentem os diversos quadros sumariados. Primeiramente. Mas sumaria um razoável corpo de estudos que revelaram alterações nas funções executivas em quadros bastante diversos como TDAH ou TOC e algumas síndromes genéticas. retomar com maior freqüência os objetivos da tarefa. em contexto de sala de aula. a exemplo das contribuições de Argollo e colaboradores (2009). mas algumas investigações já tem se direcionado a estas questões. 80-95. outro ponto de destaque. é igualmente importante mapear as tendências desenvolvimentais de cada uma destas habilidades ao longo de uma ampla faixa etária. por sua vez. aquelas de cunho psicoeducacional. Desta forma. No âmbito clínico. 2010 . como ilustração. Para isso. Menezes & Seabra CONSIDERAÇÕES FINAIS Este artigo teve o objetivo de apresentar algumas condições nas quais as distintas habilidades envolvidas nas funções executivas encontram-se comprometidas. é fundamental dispor de instrumentos psicometricamente adequados à avaliação das habilidades executivas em crianças e adolescentes e. poderá ser útil a um maior conhecimento acerca das funções executivas e de suas alterações. um professor poderia minimizar as demandas das tarefas propostas sobre esta habilidade. Londrina. Por exemplo.

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