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KARL POPPER

Karl Popper (Viena, 28 de Julho de 1902 — Londres, 17 de Setembro de 1994) foi um filósofo da ciência austríaco naturalizado britânico. É considerado por muitos como o filósofo mais influente do século XX a tematizar a ciência. Foi também um filósofo social e político de estatura considerável, um grande defensor da democracia liberal e um oponente implacável do totalitarismo. Nascido numa família de classe rica de origem judaica secularizada, foi educado na Universidade de Viena. Concluiu o doutoramento em filosofia em 1928 e ensinou numa escola secundária entre 1930 e 1936. Em 1937, a ascensão do Nazismo levou-o a emigrar para a Nova Zelândia, onde foi professor de filosofia em Canterbury University College, Christchurch. Em 1946, foi viver na Inglaterra, tornando-se assistente (reader) de lógica e de método científico na London School of Economics, onde foi nomeado professor em 1949. Foi nomeado cavaleiro da Rainha Isabel II em 1965, e eleito para a Royal Society em 1976. Reformou-se da vida académica em 1969, apesar de ter permanecido activo intelectualmente até à sua morte, em 1994. Recebeu a insígnia de Companheiro de Honra (Companion of Honour) em 1982. Popper recebeu vários prémios e honras no seu campo, incluindo o prémio Lippincott da associação americana de ciência política, o prémio Sonning, e o estatuto de membro na sociedade real, na academia britânica, London School of Economics, Kings College de Londres e o Darwin College de Cambridge.de Popper A filosofia de Popper, o racionalismo crítico, ocupa-se primordialmente de questões relativas à teoria do conhecimento, à epistemologia. Ainda na Áustria, em 1934, foi publicado o seu primeiro livro, Logic der Forschung ( A Lógica da Pesquisa Científica (Popper, 1985) na versão brasileira), que se constituiu em uma crítica ao positivismo lógico do Círculo de Viena, defendendo a concepção de que todo o conhecimento é falível e corrigível, virtualmente provisório. O pensamento de Popper também abrangeu a esfera da política e da sociedade. Em A Sociedade Aberta e seus Inimigos (Popper, 1987b e 1987c) e A miséria do Historicismo (Popper, 1980b) transpõe seus ensinamentos epistemológicos para o campo da ação política racional. Como todo o nosso conhecimento é imperfeito, estando sempre sujeito a revisões críticas, qualquer mudança na sociedade deverá ocorrer de maneira gradual para que os erros possam ser corrigidos sem causar grandes danos. A idéia de uma sociedade perfeita, atingível através de uma revolução social, é criticada e considerada irracional. A seguir as idéias de Popper sobre a teoria do conhecimento, a epistemologia e sobre o problema cérebro-mente.

AS EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS E A LÓGICA DEDUTIVA Uma das tarefas da ciência é a explicação. Ao longo da história da prática da explicação, muitos métodos e tipos diferentes foram tidos como aceitáveis, mas todos eles têm algo em comum: “consistem todos de uma dedução lógica; uma dedução cuja conclusão é o explicandum - uma asserção da coisa a ser explicada” (Popper) e de um conjunto de premissas - o explicans - constituído por leis e condições específicas. Qualquer explicação envolve no mínimo um enunciado universal (lei) que, combinada com as condições específicas, permite deduzir o que se deseja explicar. Apenas condições específicas não são suficientes para se produzir uma explicação. Por exemplo, se quisermos explicar o aumento da resistência elétrica de um fio de cobre pela elevação da temperatura, podemos supor um enunciado universal que afirma que os condutores metálicos possuem resistência variando com a temperatura. Lei: a resistência elétrica dos condutores metálicos varia com a temperatura. Condições específicas: a temperatura do fio de cobre variou de 20° C para 6° C.

Outras tarefas das ciências. a construção de uma ponte. – retransmissora da falsidade. sendo a conclusão verdadeira. ou seja. obtendo-se algo que ainda não foi observado. A estrutura dedutiva das explicações científicas e as propriedades da lógica dedutiva são importantes para a filosofia da ciência de Popper. independentemente de quão numerosos sejam estes. como. justificando o fenômeno macroscópico (a variação da resistência) a partir deste nível microscópico. haver justificativa no inferir enunciados universais de enunciados singulares. A derivação de predições parte do suposto conhecimento das leis e das condições específicas. Acreditavam os indutivistas ser possível justificar logicamente a obtenção das leis. O PROBLEMA DA INDUÇÃO Um dos problemas da filosofia da ciência investigado por Popper é o chamado “problema da indução”. por exemplo. com efeito. "É comum dizer-se “indutiva” uma inferência. ou seja. às teorias científicas. das teorias científicas a partir dos fatos. poderá ser parcialmente ou totalmente falso o explicans. Segunda premissa: X é A. independentemente de quantos cisnes brancos possamos observar. Ela transmite a verdade do explicans para o explicandum. Uma explicação desta ordem envolveria uma longa cadeia dedutiva para finalmente atingir o explicandum. O importante na presente discussão é o aspecto dedutivo das explicações e a necessidade de se recorrer a no mínimo uma lei e às condições específicas. poder-se-ia. de premissas falsas é possível se obter conclusões verdadeiras.. ou seja. em especial no método crítico exposto mais adiante. Ela retransmite a falsidade do explicandum para o explicans. Outras explicações mais profundas e complexas recorreriam a leis e condições específicas sobre a estrutura da matéria. ela é: – transmissora da verdade. Ora.). isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos" (Popper).Conclusão: a resistência elétrica deste fio de cobre variou. se a conclusão é falsa. utilizando a lógica indutiva. chegar às leis universais. está longe de ser óbvio de um ponto de vista lógico. para enunciados universais. então uma ou mais premissas são falsas. O que se procura então são condições específicas que possam ser tecnicamente realizadas. caso ela conduza de enunciados singulares (. – não-retransmissora da verdade.. como a derivação de predições e aplicações técnicas. A lógica dedutiva desempenha um papel de grande importância no conhecimento científico. qualquer conclusão colhida desse modo sempre pode revelar-se falsa. Ela não retransmite a verdade do explicandum para o explicans. Nas aplicações técnicas são especificados os resultados a serem obtidos. Obviamente que esta não é a única explicação possível. O problema da indução também pode ser formulado de outra maneira: há leis universais certamente verdadeiras ou provavelmente verdadeiras? É possível se justificar a alegação de que uma teoria é verdadeira ou provavelmente verdadeira a partir de resultados experimentais ou de observações? . e são admitidas certas leis e teorias relevantes. Segundo Popper. tais como hipóteses ou teorias. sendo verdadeiras as leis e as condições específicas. tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos. será necessariamente verdadeira a conclusão. também “podem ser analisadas por meio de esquema lógico que apresentamos para analisar a explicação” (Popper). Essas três propriedades da lógica dedutiva podem ser exemplificadas através do raciocínio dedutivo abaixo: Primeira premissa: todos os A são B. Conclusão: X é B. Em outras palavras.

Se os fatos apoiarem as conclusões. “As teorias são nossas invenções. – Todos os cisnes são brancos ou vermelhos ou azuis. Como exemplo. Além disso. – Todos os cisnes são brancos ou negros. Conforme o exposto anteriormente é possível de premissas falsas se obter conclusões verdadeiras. intuição. Não há caminho estritamente lógico que leve à formulação de novas teorias. mas em teorias metafísicas (é o caso da teoria copernicana). . A história da ciência mostra exemplos que teorias que passaram a corrigir os fatos que pretensamente teriam servido como “base indutiva” das mesmas (a mecânica newtoniana assim o fez). Ou seja: . Outra razão contra a existência da lógica indutiva está em que um conjunto de fatos sempre é compatível com mais de uma generalização (rigorosamente com um número infinito de generalizações). há exemplos de teorias científicas que se originaram não em fatos.). psicologia. sociologia. etc. algumas possíveis generalizações são as seguintes: – Todos os cisnes são brancos. O método da ciência se caracteriza pela discussão crítica do conhecimento científico e pode ser denominado método crítico de teste dedutivo. Tendo Popper negado a possibilidade de uma solução positiva ao problema da indução. química. Para Popper. criatividade. Dada uma teoria.Hipótese: a velocidade de queda de um corpo é proporcional ao seu peso. Qualquer enunciado que afirma o observado e um pouco mais (ou muito mais) será compatível com as observações ocorridas. Não importa quantas asserções de teste (resultados experimentais ou de observações) se tenha. Não importando quantas “confirmações” de uma teoria tenham sido obtidas. etc. biologia. nossas idéias – não se impõe a nós” (Popper). derivar conclusões. O MÉTODO CRÍTICO Não é tarefa da lógica do conhecimento “a reconstrução racional das fases que conduziram o cientista à descoberta” (Popper) da teoria científica. é sempre logicamente possível que no futuro se derive uma conclusão que não venha a ser confirmada. não há retransmissão da verdade para as hipóteses com alto nível de generalidade (as leis universais). consideremos a teoria sobre a queda dos corpos que afirma ser a velocidade de queda proporcional ao peso. com auxílio de condições específicas (ou iniciais ou de contorno) e com auxílio da lógica dedutiva. se as conclusões forem dadas como verdadeiras. tais como a imaginação. há necessidade de se combinar as leis universais com condições específicas e derivar dedutivamente hipóteses ou conclusões com baixo nível de generalidade. As teorias científicas são construções que envolvem na sua origem aspectos não completamente racionais. São tentativas humanas de descrever e entender a realidade. Em outras palavras. Por exemplo. Estas podem em princípio ser confrontadas com os fatos. não deve a epistemologia se preocupar em reconstruir a inspiração do cientista (isto é tarefa da psicologia da ciência) e não é importante para a questão da validade do conhecimento em que condições o cientista formulou a teoria. a tarefa da epistemologia ou da filosofia da ciência é reconstruir racionalmente “as provas posteriores pelas quais se descobriu que a inspiração era uma descoberta ou veio a ser reconhecida como conhecimento” (Popper). O confronto da teoria com as asserções de teste nunca é direta.Aqui também a resposta de Popper é negativa. é possível. pois a lógica dedutiva não retransmite a verdade. não é possível justificar a verdade de uma teoria. se todos os cisnes até hoje observados são brancos. parte então para uma resposta à questão do método das ciências empíricas (física.

como a lógica dedutiva não é retransmissora da verdade. quer isto dizer.. as falsificações não se encontram livres de críticas e nenhuma teoria pode ser dada como “definitivamente ou terminantemente ou demonstravelmente falsificada” (Popper). como a lógica dedutiva é retransmissora da falsidade.Condições específicas: este tijolo é mais pesado do que esta pedra pequena. teoria de erros de medida. a teoria foi corroborada. como padrão de que podemos ficar abaixo” (Popper). neurofisiológicas que interpretam os estímulos. se as condições específicas forem verdadeiras. na filosofia indutivista o importante é a verificação. nos dando as sensações. No primeiro caso. ora. passou pelo teste empírico. aquelas que aconteceram como decorrência de tentativas de teste (de refutação). Popper destaca que “todo o nosso conhecimento é impregnado de teoria. Na terminologia de Popper. fatos neutros (livres de teoria). inclusive as falsificações das teorias. por mais corroborada que uma teoria seja. através dela. “Não há órgãos de sentido em que não se achem incorporadas geneticamente teorias antecipadoras” (Popper). Os indutivistas sempre enfatizaram a necessidade de se verificar as teorias através das suas conseqüências. A história da ciência mostra teorias que durante um certo período de tempo foram corroboradas e. acabaram se tornando problemáticas. apesar disso. Sempre haverá a possibilidade de no futuro derivar da teoria uma conseqüência que seja incompatível com os fatos e. no mínimo uma das premissas é falsa. portanto. Para Popper. as teorias científicas são sempre conjecturas. tais como a da ótica do telescópio. Casos verificadores são facilmente encontráveis para quase todas as teorias.Conclusão: o tijolo atingirá o solo antes da pedra. Os fatos aqui seriam resultantes de um processo de observação astronômica. Não há forma de se provar a verdade de uma teoria científica. Exemplifiquemos mais uma vez com a mecânica newtoniana: a fim de testar a previsão de uma determinada órbita planetária. refração da luz na atmosfera. qualquer astrólogo é capaz de apresentar um número grande de previsões concretizadas. inclusive nossas observações” (Popper). A concepção de que as teorias científicas perseguem a verdade objetiva coloca a filosofia popperiana . Poderá então a conclusão ser incompatível com os fatos ou ser compatível. pois. poder-se-ia justificar a verdade ou pelo menos a probabilidade das teorias. então a teoria foi falseada ou falsificada ou refutada. etc. não é necessariamente verdadeira a teoria. não está livre de crítica e no futuro poderá se mostrar problemática e poderá ser substituída por outra. A ciência está à procura da verdade apesar de não haver critérios através dos quais se possa demonstrar que uma dada teoria seja verdadeira. A atitude crítica pressupõe a “verdade absoluta ou objetiva como idéia reguladora. A inexistência de fatos livres de teoria implica a insustentabilidade de uma versão de falseacionismo ou refutacionismo ingênuo que erradamente é atribuída a Popper. é necessário confrontar posições previstas para o planeta com posições observadas a partir da Terra. Todo o nosso conhecimento é conjectural. Esta predição (conclusão derivada da teoria e das condições específicas) pode então ser confrontada com os fatos. propagação da luz no espaço interplanetário. Aliás. No segundo caso. as verificações relevantes são aquelas que colocaram em risco a teoria. Não existem dados puros. estes fatos são interpretações a partir de diversas teorias. . As severas tentativas de refutar uma teoria e que resultam em corroborações são as que realmente importam. algumas corroborações da mecânica newtoniana mostram que a lógica indutiva é insustentável. Ambos são abandonados simultaneamente a 2 m do solo. O exemplo mais impressionante é o da mecânica newtoniana: durante mais de duzentos anos foi corroborada espetacularmente. Mesmo os fatos que são baseados apenas em nossa percepção também estão impregnados de teorias. Exemplificando mais uma vez com a hipótese de que a velocidade de queda de um corpo é proporcional ao seu peso: é possível se encontrar uma imensidade de casos verificadores constituídos por pares de corpos do tipo pedra e pena. Outro bom exemplo de alto grau de verificação pode ser encontrado na teoria astrológica. os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso incorporam teorias físicoquímicas.

Popper nega que as teorias científicas possam ser verificadas: verificadas. quando combinadas com as condições específicas. idéias nossas. de objetos cuja existência independe de nossa mente) e que estes podem ser conhecidos. Este é um dos problemas da filosofia da ciência para a qual Popper propôs uma solução. O CRITÉRIO DE DEMARCAÇÃO “Como é que se pode distinguir as teorias das ciências empíricas das especulações pseudocientíficas ou metafísicas?”(Popper). "Assim. se existir pelo menos um enunciado que descreva um fato logicamente possível que entre em conflito com a teoria. o que foi claramente percebido pelos idealistas epistemológicos. os positivistas (o positivismo é uma epistemologia empiricista. É por esta razão que o realista tem razão” (Popper). algumas dessas teorias são tão ousadas que podem entrar em conflito com a realidade: são essas as teorias testáveis da ciência. ou do astrólogo que vaticina “alguém importante morrerá brevemente”. segundo o meu critério. Se a verificabilidade for apenas uma exigência para as conclusões derivadas de teorias científicas. No entanto. devem proibir algum acontecimento que é logicamente possível de ser observado.como realista. As teorias científicas eram obtidas a partir Dos fatos e podiam por eles ser verificadas. Em outras palavras. deverá ser considerada científica. corroboradas podem ser algumas conclusões obtidas da teoria com auxílio das condições específicas. refutabilidade ou falsificabilidade para as teorias científicas. as teorias são invenções nossas. Entretanto. se e só se existir. não possuem falsificadores potenciais. ou usando a terminologia popperiana. Os realistas afirmam a existência das coisas em si. As teorias pseudocientíficas. como critério de demarcação. possuem falsificadores potenciais. é uma propriedade estritamente lógica das teorias científicas: significa em princípio que elas são falsificáveis. a verificabilidade não pode ser o critério de demarcação pois. Além disso. então a teoria do feiticeiro que prediz que amanhã chove ou não chove (não precisamos esperar até amanhã para saber que será verificada). ou seja. Popper nunca aceitou tais pontos de vista. são altamente abstratas e especulativas. O critério de demarcação proposto por Popper é a testabilidade. embora parcialmente e por aproximações sucessivas. quando isto ocorre. Os astrólogos argumentavam que a sua “ciência” se apoiava em grande abundância de observações e verificações. Adicionalmente Popper constata que muitas crenças supersticiosas e procedimentos práticos encontrados em almanaques e livros como os de interpretações de sonhos “tinham muito a ver com a observação. É importante notar que a refutabilidade. como a teoria geral da relatividade. Nota que as teorias físicas. facilmente conseguiam encontrar grande quantidade de fatos confirmadores da teoria astrológica. não é lícito tomar como verificada a teoria pois não há retransmissão da verdade das conclusões para as premissas. “Um enunciado ou teoria é falsificável. E quando podem entrar em conflito. principalmente as modernas. indutivista) tinham uma atitude antimetafísica. Do ponto de vista estritamente lógico. Os positivistas tomavam o termo metafísico como pejorativo. conforme exposto nas secções anteriores. aí sabemos que há uma realidade. A solução mais aceita tinha estreita relação com a questão do método: “a ciência se caracterizava pela sua base na observação e pelo método indutivo. considerando as teorias metafísicas destituídas de sentido por serem não verificáveis. as teorias científicas. enquanto a pseudociência e a metafísica se caracterizavam pelo método especulativo” (Popper). pelo menos um falsificador potencial” (Popper). não científicas ou metafísicas são irrefutáveis pois não proíbem nada. Esta questão lógica não pode ser confundida com a de quando uma prova experimental ou observacional . baseando-se muitas vezes em algo parecido com a indução” (Popper).

“Com efeito. A falsificabilidade das teorias científicas é coerente com a atitude crítica. sem significado. O método de procurar verificações para as teorias. Não é possível observar tudo e. se afastando então do empirismo radical. a psicologia individual de Adler e o materialismo histórico de Marx. os atomistas gregos admitiram que os átomos que se desprendiam dos objetos. é impossível negar que. entretanto a ciência pode perseguir a verdade através da exclusão de teorias falsificadas. “Ameaçava assim destruir a atitude de racionalidade. irrefutáveis. adlerianos. as observações são sempre seletivas. Apesar da falta de testabilidade ou de conteúdo empírico das teorias metafísicas. de argumentação crítica” (Popper). em caso afirmativo. A TEORIA DO CONHECIMENTO Popper denominou de “teoria do balde mental” a concepção de que nosso conhecimento consiste de percepções acumuladas ou percepções assimiladas. Entre essas teorias pseudocientíficas.preconceitos que habitam a mente humana e a obscurecem .e assim o sujeito tornar-se-ia uma criança. Os acessos ao balde são propiciados pelos órgãos dos sentidos. o conhecimento era determinado como um quebra-cabeças que se montava a si próprio. se resiste a essas críticas" (Popper). "Essa é uma concepção de ciência que considera a abordagem crítica sua característica mais importante. marxistas e astrólogos. entrando nos órgãos do sentido. mesmo os mais primitivos. assim. com o passar do tempo. se se expõe a críticas de todos os tipos e. mas não a qualquer . além de ser acrítico promovia uma atitude acrítica nos leitores. Kant (1987) negou que as percepções possam ser puras e afirmou que os nossos conhecimentos são uma combinação de percepções com ingredientes adicionados pelas nossas mentes . Aristóteles já afirmara que nada há no intelecto humano que antes não tenha estado nos órgãos dos sentidos. Outro exemplo importante de como a metafísica inspira as teorias científicas é a revolução copernicana. que são capazes de dar conta de qualquer fato e. conjectura ou teoria que nos oriente a selecionar as percepções pretensamente relevantes à solução do problema. Não há formas de se provar a veracidade do conhecimento científico e. Para avaliar uma teoria o cientista deve indagar se pode ser criticada. respondem a certos estímulos. Para planejarmos o que observar temos que ter anteriormente uma hipótese. portanto. uma tábula rasa diante da natureza. Bacon aconselhava um processo de depuração mental para afastar os “quatro ídolos” (Bacon) . mas uma percepção que é planejada e preparada” (Popper). ele coloca a psicanálise de Freud. substituindo-as por novas teorias que poderão se aproximar mais da verdade. Os empiristas radicais aconselham que interfiramos o mínimo possível com o processo de acumulação do conhecimento. Ela é antecedida por um problema. por algo que é especulativo ou teórico. O conhecimento verdadeiro é conhecimento puro. como queriam os positivistas. utilizado pelos freudianos. Popper sempre notou que. Os seres vivos.terminantemente falsifica uma teoria. “Uma observação é uma percepção.as formas da sensibilidade e do entendimento -. Anteriormente. portanto. nossa mente se assemelha a uma vasilha – uma espécie de balde – em que percepções e conhecimento se acumulam” (Popper). as falsificações reais são sempre conjecturais e sujeitas à crítica. Popper assevera que a “teoria do balde” está equivocada pois o que realmente importa ao Conhecimento científico é a observação. Popper constata a existência de teorias. convertiamse em sensações. elas não são necessariamente sem sentido. têm surgido outras – tais como o atomismo especulativo – que o favorecem” (Popper). livre dos preconceitos que tendemos a agregar às percepções. separadas e classificadas. apesar das teorias científicas serem falsificáveis em princípio. a par de idéias metafísicas que dificultaram o avanço da ciência. tidas como científicas. por algo que nos interessa. “De acordo com essa concepção.

. como foi notado anteriormente. O uso da argumentação crítica é regulado pela idéia de validade. teorias. O conhecimento científico que sobreviveu até o presente momento poderá no futuro ter que ser substituído por outro melhor. não contraditório. o conhecimento humano cresce por um processo que é de tentativa e eliminação de erro. sendo os mais prementes os da sobrevivência. demonstrando que o conhecimento atual não está adaptado à realidade. que se adapta (ou que antecipa) a um estado do ambiente ainda por vir” (Popper). É com nossas hipóteses que “aprendemos que tipos de observações devemos fazer: para onde devemos dirigir nossa atenção. A aprendizagem pela experiência é uma mudança na disposição para reagir não decorrente apenas do desenvolvimento do organismo – maturação – mas também das mudanças de seu ambiente externo. por outro que melhor explique os fatos. Os seres vivos estão empenhados em resolver problemas. A linguagem é o veículo através do qual podemos nos apropriar do conhecimento produzido pelos outros. pode. A lógica formal pode ser vista como um sistema de argumentação crítica. “Podemos dizer que a função argumentativa da linguagem criou o que é talvez o mais poderoso instrumento de adaptação biológica que já apareceu no curso da evolução orgânica” (Popper). a argumentação crítica ocorre em relação às hipóteses.. são as funções superiores da linguagem: a função descritiva e a função argumentativa. nos indicando para onde dirigir a atenção. a mais elevada das funções. É ela que permite.) Nenhuma teoria científica é sacrossanta ou fora de crítica” (Popper). que as nossas teorias morram em vez de nós. pode ser encontrada em atividade nas discussões críticas. que possibilitaram a existência do conhecimento objetivo (o Mundo 3. A função argumentativa da linguagem. Ela é a culminância da capacidade humana de pensar racionalmente. Um argumento é válido quando se mostra consistente. O número de respostas é limitado. Elas são nossos guias que iluminam a realidade. “Nenhuma teoria em particular. A “teoria do balde” supunha que as hipóteses surgiam a partir das observações. Em verdade. determinados geneticamente. onde ter um interesse” (Popper). Uma expectativa é uma disposição para reagir. é a crítica racional. De acordo com a teoria de Popper.estímulo. objetivo. A TEORIA DOS TRÊS MUNDOS E O PROBLEMA CÉREBRO-MENTE . por ele denominada “teoria do holofote”. para Popper. Usualmente os argumentos são contra ou a favor de alguma proposição ou asserção descritiva. As mais importantes criações humanas. coerente. Nem todas as expectativas são conscientes. que possibilita o avanço do conhecimento. em oposição ao dogmatismo. Assim ele se torna comunicável. conforme será visto na secção seguinte) de um modo geral e do conhecimento científico em particular. expectativas. A noção de aprendizagem está intimamente ligada à noção de expectativa e também de expectativa desiludida. teorias. Isto poderá se dar se a pressão seletiva de nossa crítica aumentar. ou “um preparativo para a reação. As respostas dependem do estado interno do organismo. O ponto de partida deste processo é os conhecidos inatos. acessível a outros seres humanos e criticável. as observações são secundárias às hipóteses. determinado por um conjunto inato de disposições a reagir. em proposições” (Popper). A aquisição de um novo conhecimento “desenvolve-se sempre como resultado da modificação de conhecimentos prévios” (Popper). A existência de um problema é o ponto de partida para a aprendizagem nos seres vivos de um modo geral. jamais. este pode permanecer constante com o tempo ou pode se alterar talvez em parte sob influência das sensações. “O que há de especial no conhecimento humano é que ele pode formular-se na linguagem. Na discussão científica. ser considerada absolutamente certa: cada teoria pode se tornar problemática (.

percepções. ou seja. O Mundo 3. partem Popper e Eccles para o problema cérebro-mente. livros. físico-químicos do mesmo. alterando. Aliás. crenças e os estados inconscientes. Eles formularam a hipótese dualistainteracionista. a energia. disposições psicológicas. mas também tem diferenças importantes.Juntamente com John Eccles (prêmio Nobel de neurofisiologia). o homem não age sobre ele. Ela pode ser vista nas conseqüências não intencionadas pelos criadores da teoria. Entretanto. Faz parte do Mundo 3 toda a cultura humana (as histórias. não poderá ser reduzida aos mecanismos neurofisiológicos. Uma das funções mais importantes da mente é a produção dos objetos do Mundo 3 com os quais ela interage. Todos os seres vivos estão constantemente resolvendo problemas mesmo que inconscientemente (os mais prementes são os da sobrevivência). ao produzir uma nova obra de arte. os seres vivos. O Mundo 1 é constituído pelos objetos e estados físicos. A mente autoconsciente é um produto da evolução biológica. não o modifica. uma teoria científica pode levar a que os cientistas explorem suas conseqüências. não é apenas a materialização que confere realidade aos objetos do Mundo 3. máquinas. Ambos escreveram a obra “The self and Its Brain” (Popper e Eccles). para bem ou para mal. O aparecimento das funções descritiva e argumentativa da linguagem em uma determinada etapa da evolução é a raiz do poder humano de produzir os objetos do Mundo 3 e discuti-los . Os objetos do Mundo 3 são reais apesar de imateriais. A linguagem humana. um material (o cérebro) e outro imaterial (a mente) que interagem. a face da Terra. o Mundo 2 é uma emergência do Mundo 1 e o Mundo 3 emerge posteriormente. O Mundo 3 é uma criação humana. A existência de três mundos é o ponto de partida dessa teoria.). imaginação. portanto. em especial as teorias científicas agem sobre o Mundo 1. Eles crêem na existência da mente autoconsciente como uma emergência do cérebro e que. os argumentos críticos. sonhos. Popper abordou um antigo problema da filosofia: o problema corpo-mente ou cérebro-mente. para a qual todos nós temos aptidões inatas. desempenha um papel importante na formação da consciência plena. é um órgão capaz de propor soluções conscientemente e examiná-las criticamente. a discutam criticamente. existem dois órgãos. Eles também são reais porque podem induzir os homens a produzirem outros objetos. Para Platão. As soluções erradas são capazes de perecer através da crítica. as matemáticas. O Mundo 2 é constituído pelos estados mentais subjetivos ou pelas experiências subjetivas. mesmo sendo uma criação humana. todos os artefatos construídos pelo homem (ferramentas. Fazem parte deste mundo os estados de consciência. o ordenamento dos três mundos obedece à cronologia histórica. inclusive no Mundo 1 (um escultor. a mente. etc. tem uma certa autonomia em relação aos seus criadores. obras de arte . etc. apenas por intermédio do seu intelecto o capta. Os objetos do Mundo 3 são reais porque podem agir sobre o Mundo 1. A autonomia (parcial) das teorias em relação aos seus criadores é notória ao longo da história da ciência. pode animar escultores a produzir obras semelhantes. não existe anteriormente aos seus criadores e é mutável. as teorias científicas ou não. Este mundo é um produto da mente humana que passa a ter existência independente dos seus criadores. etc. na qual desenvolvem a sua teoria. Fazem parte deste mundo a matéria. emoções. máquinas. Eles podem até ser materializados ou incorporados. ela emerge em um dado momento da história evolutiva e traz um novo valor de sobrevivência para o homem. pelo conhecimento subjetivo. Tendo como base a teoria dos três mundos. criatividade. com seus poderes de concentração. criem aplicações práticas). uma teoria científica pode estar materializada em um livro e as suas aplicações tecnológicas em ferramentas. O Mundo das Idéias ou das Formas de Platão tem similaridades com o Mundo 3. enquanto o homem que as formulou sobreviverá. os mitos.). o Mundo das Idéias é anterior ao homem e eternamente imutável. O Mundo 3 é constituído pelos conteúdos de pensamento ou pelo conhecimento objetivo.

FILOSOFIA POLÍTICA Vítima do terror nazista que se bateu sobre a Alemanha e a Áustria. o poder de invenção. mas em estado menos desenvolvido que o homem.A história da humanidade não tem um sentido concreto que antecipadamente possa ser conhecido.O progresso da humanidade é possível. A realimentação do Mundo 3 sobre o Mundo 2 é a essência da formação do eu. assim de uma visão da história que os justificava. A formulação de teorias sobre a extensão do nosso corpo e sua continuidade no tempo. O caráter social da linguagem permite que falemos sobre nós a outras pessoas e possibilita compreendê-las quando falam sobre si mesmas. mas também objeto do nosso pensamento. o Mundo 2 cria o Mundo 3. . por sua vez. “Como eus.A razão humana é essencialmente falível. A única atitude justificável para atingir a verdade é através do diálogo. mas também a mente. é um produto de incontáveis mentes humanas” (Popper e Eccles). ao mesmo tempo. como seres humanos. do nosso juízo crítico. Na política significa que cada um deve aceitar o risco de ver as suas propostas serem recusadas por outros no confronto de idéias ou projetos. o Historicismo. . Eles são desprovidos do eu (self) ou da consciência plena. Hegel e Marx foram por ele apresentados os principais teóricos destes regimes. está na base da formação do eu. O executor de tudo isto não é apenas o cérebro. o confronto de idéias por meios não violentos. As suas idéias podem ser resumidas nos seguintes tópicos: . tais como o poder de concentração em um problema (quando freqüentemente perdemos a consciência de nossa própria existência. Popper procurou refletir sobre a gênese e fundamentação ideológica dos regimes totalitários. o único sentido que possui é aquele que os homens lhe dão. o dogmatismo não tem. provém da necessidade de explicar uma série de características humanas. Na ciência significa aceitar o risco de formular hipóteses que venham depois a ser refutadas pela experiência. O surgimento do eu somente foi possível com o desenvolvimento da linguagem humana. e não carece de um critério último de verdade. THOMAS KUHN .criticamente. cria as teorias e sofre a influência destas mesmas teorias. através da qual o homem pode conhecer outras pessoas. de criatividade para gerar o Mundo 3. a mente. Nós somos. somos todos nós produtos do Mundo 3 que. pois qualquer fundamento. Os animais provavelmente também possuem consciência. Platão. não apenas sujeitos. A idéia de um órgão imaterial. nos envolvendo intensamente na tentativa de solucionálo). apesar das interrupções da consciência através do sono.

Kuhn tornou-se professor em Harvard. mesmo não sendo um livro de filosofia. que foram apresentadas em outro livro chamado Teoria do corpo negro e descontinuidade quântica 1894-1912. que pela primeira vez. Kuhn morreu a 17 de Junho de 1996. Após ter concluido o Doutoramento. um ensaio intitulado Reconsiderando os paradigmas e. com a publicação do livro Estrutura das Revoluções Científicas que Kuhn se tornou conhecido não mais como um físico. Kuhn percebeu que a o desenvolvimento da ciência. um texto produzido e direcionado a um público filosófico. Kuhn criticava o positivismo sem conhecê-lo em profundidade. já na segunda edição. publicado em 1979. A estrutura desta disciplina baseava-se em nos casos mais famosos da História da Ciência. então. Em 1956 Kuhn foi lecionar História da Ciência na Universidade da Califórnia. Formou-se em Física (summa cum laude) em 1943. Taylor Pyne de Filosofia e História das Ciências. a ciência é entendida como uma atividade completamente racional e controlada. conforme ele mesmo dizia. Em 1971 Kuhn foi lecionar para o MIT. ele escreve. Mas foi em 1962. publicado em 1957. foi na Universidade de Harvard. Kuhn ocupou-se principalmente do estudo da história da ciência. pela Universidade de Harvard. refinados e modificados. (PERSPECTIVA FORMALISTA). EUA. Dessa experiência. a obra de Kuhn abriu espaço pra toda uma nova abordagem de estudos chamados Social Studies of Science(estudos sociais da ciência) que desembocou no Programa Forte da Sociologia. Recebeu desta mesma instituição o grau de Mestre em 1946 e o grau de Doutor em 1949. em Cincinnati. em 1974. ele utilizou exemplos históricos de progressos científicos. logo depois. para responder às acusações de irracionalismo. onde permaneceu até terminar a sua carreira acadêmica. no qual mostra um contraste entre duas concepções da ciência: . mas como um intelectual voltado para a história e a filosofia da ciência. Kuhn apresentou um pós-escrito. Em 1964 tomou a posição de Professor M. Lecionou uma disciplina de Ciências para alunos de Ciências Humanas. Este fato foi determinante para o desenvolvimento da sua obra. vítima de cancro. O livro Estrutura das Revoluções Científicas foi. em alguma medida.Por um lado.Kuhn nasceu a 18 de Julho de 1922. Tornou-se professor efetivo desta instituição em 1961. etc). era muito diferente da apresentada nos textos de Física ou mesmo de Filosofia da Ciência. Especula-se que Kuhn tenha se apropriado de muitas das idéias de Ludwick Fleck (como paradigma. médico polonês que pouco escreveu sobre história da ciência e que permaneceu e permanece desconhecido de muitos. desenvolve com maior profundidade as descontinuidades históricas. E. Ken Wilber defende (em seu livro A União da Alma e dos Sentidos) que a idéia de paradigmas proposta por Kuhn tem sido apropriada e abusada por grupos e indivíduos que tentam fazê-la parecer uma declaração de que a ciência é arbitrária. pelo que Kuhn foi obrigado a familiarizar-se com este tema. em Ohio. revolução paradigmática. Todavia. em 1970. anomalias. O PENSAMENTO DE KUHN Thomas S. na Universidade de Princeton. Seu primeiro livro foi A Revolução Copernicana. no qual seus pontos de vista são. A polêmica sobre a obra de Thomas Kuhn gira em torno da noção de paradigma científico e da "incomensurabilidade" entre os paradigmas. ambos na área de Física. numa perspectiva histórica. em Berkeley. A repercussão do seu livro foi tão grande na comunidade acadêmica que. Entretanto. Isso porque. ciência normal. . assim como não se sentia influenciado pelo pragmatismo de William James e John Dewey. quando teve que preparar um curso de ciências para não cientistas.

como defendia o modelo formalista. Kuhn mostra que a ciência não é só um contraste entre teorias e realidade. Também é verdade que. Isto demostra que na atividade científica influi tanto interesses científicos (ex: a aplicação prática de uma teoria). Finalmente se produz uma revolução científica quando um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional.Ciência normal . que ademais supõe a proliferação de novos paradigmas que competem entre si tratando de impor-se como o enfoque mais adequado. cujo objetivo é esclarecer as possíveis falhas do paradigma ou extrair todas as suas consequências. a ciência é entendida como uma atividade concreta que se dá ao longo do tempo e que em cada época histórica apresenta peculiaridades e características próprias. Esta fase ocupa a maior parte da comunidade científica. Então é quando se estabelece uma crise. Este contraste emerge na obra A Estrutura das Revoluções Científicas. uma revolução na reflexão acerca da ciência ao considerar próprios da ciência os aspectos históricos e sociológicos que rodeiam a atividade científica. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal. a ciência desenvolve-se segundo determinadas fases: . . e não só os lógicos e empíricos.Em outro lado. o paradigma não é capaz de resolver todos os problemas. Thomas Kuhn se guia por um paradigma para estudar a formação dos paradigmas. e começa-se a considerar se é o marco mais adequado para a resolução de problemas ou se deve ser abandonado. Porém.. um marco ou perspectiva que se aceita de forma geral por toda a comunidade científica (conjunto de cientistas que compartilham um mesmo paradigma e realizam a mesma atividade científica) e a partir do qual se realiza a atividade científica. . que podem persistir ao longo de anos ou séculos inclusive. tensões e até lutas entre os defensores de distintos paradigmas. como subjetivos. não podem ser objetivos. o qual estava a ser desafiado pelo enfoque historicista de Kuhn. e ocasionou o chamado giro histórico-sociológico da ciência. a existência de coletividades ou grupos sociais a favor ou contra uma teoria concreta. E é precisamente nesse debate ou luta onde se demostra que os cientistas não são só absolutamente racionais. como por exemplo. consistindo em trabalhar para mostrar ou pôr a prova a solidez do paradigma no qual se baseia.Estabelecimento de um paradigma . o enfoque historicista dá importância a fatores subjetivos que anteriormente foram passados por alto na hora de explicar o processo de investigação científica. ou a existência de problemas éticos. senão que há diálogo. e neste caso o paradigma gradualmente é posto em cheque. senão que sempre estão imersos em um paradigma e interpretam o mundo conforme o mesmo. Desta maneira. A ciência normal é o período durante o qual se desenvolve uma atividade científica baseada num paradigma. epistemologicamente falando.Revolução científica A noção de paradigma resulta fundamentalmente neste enfoque historicista e não é mais que uma macroteoria. pois nem a eles é possível afastar-se de todos os paradigmas e compará-los de forma objetiva. ENFOQUE ESTORICISTA Segundo o enfoque historicista de Kuhn. debate.Crise ou anomalia. em determinadas ocasiões. (PERSPECTIVA HISTORICISTA). de tal maneira que a atividade científica vê-se influenciada pelo contexto histórico-sociológico em que se desenvolve.

como sumariamente referi na introdução. de forma que. e como exemplo de um instrumento metolológicocientífico. Kuhn retrata este período como um puzzle simultaneamente de natureza teórica e experimental: os problemas de articulação do paradigma são ao mesmo tempo teóricos e experimentais. não procurando o cientista. Kuhn reconhece que a existência de anomalias ou problemas é comum. o paradigma inclui igualmente os instrumentos necessários para que as leis do paradigma suportem o mundo real. quanto maior é o conteúdo informativo. Os cientistas pressupõem. não é pela simples existência de uma anomalia que se instala uma crise. o fracasso reside em falhas cometidas pelo jogador e não nas regras de xadrez que funcionam perfeitamente. Avança-se nos problemas que o paradigma permite detectar e resolver. como nos deixa antever Kuhn: A característica mais surpreendente dos problemas de investigação normal (…) é a de tão pouco aspirarem a produzir novidade. . Como exemplo de um elemento metafísico. trata-se de uma espécie de "variação em torno do mesmo". maior e mais fácil é ser desmentido. generalizada e aceite sobre a natureza da luz. leis e técnicas para a aplicação dessas leis. fatos que o cientista não consegue resolver dentro do paradigma (um exemplo de uma anomalia é. posso referir um certo tipo de suposição que governou o paradigma newtoniano no século passado: A totalidade do mundo físico é explicada como um sistema mecânico operando sob a influência de várias forças. Neste período entendem-se problemas bem definidos que contêm implicitamente as suas soluções. Todavia.PARADIGMAS E CIÊNCIA NORMAL Não houve nenhum período desde a antiguidade mais remota até aos fins do século XVII em que existisse uma opinião única. elementos de ordem metafísica que gerem o próprio trabalho dentro do paradigma. a observação dos satélites de Júpiter por Galileu). A ciência normal não é nem mais nem menos do que o período em que se trabalha num determinado paradigma. a aplicação do paradigma newtoniano à astronomia. dentro dele. e é sabido que quanto mais se diz. "tais novidades aparecem necessariamente uma vez que se articulação teórica do paradigma aumenta. o período que antecede a adoção de um paradigma é um período do gênero do acima descrito. do que como uma inadequação do paradigma tal como. suposições teóricas e formas de aplicar essas leis. No entanto. O paradigma comporta ainda. reciprocamente. caracterizado pelo desacordo constante e pela discussão de fundamentos. implicou a utilização de todo um conjunto de telescópios. A ciência normal significa então uma investigação que se baseia em problemas que uma comunidade científica reconhece em particular durante um determinado período de tempo como fundamento para a sua prática posterior. a novidade. ou seja. havia numerosas escolas (…) competidoras e todas realçavam como observações paradigmáticas. adotado por uma comunidade científica. juntamente com técnicas que permitam corrigir os dados recolhidos com a ajuda daqueles. quando num jogo de xadrez um jogador perde. Por exemplo. a culpa é atribuída a ele e não ao jogo de xadrez. ou seja. de acordo com as leis do movimento de Newton. ou seja. É então o paradigma que coordena e dirige a atividade de grupos de cientistas que nele trabalham. Em termos de paradigma. Para além de leis estabelecidas. consequentemente aumenta o conteúdo informativo da própria teoria. e metodológico-científica. neste sentido. E o que compartilham esses homens? Um conjunto de suposições teóricas gerais. Este período assume ainda um caráter cumulativo uma vez que se procede à construção de instrumentos mais potentes e eficazes. uma comunidade científica consiste em homens que compartilham um paradigma. por exemplo. Em vez disso. o conjunto particular de fenômenos ópticos que lhes podia explicar a sua teoria. se efetuam medições mais exatas e precisas. que o paradigma fornece os meios para resolver os puzzles. maior é o risco de engano. É neste contexto que se explicam as anomalias. uma falha na resolução destes puzzles é vista mais como uma falha do cientista. uma afirmação do tipo: Faz todas as tentativas para adequares o teu paradigma à natureza. Nas próprias palavras de Kuhn um paradigma é o que os membros de uma comunidade científica compartilham e.

como se passa de um paradigma a outro? Como aceitam os cientistas o novo paradigma? De acordo com Kuhn não há nenhum argumento lógico que possa demonstrar. a nova configuração. Se um pode. estamos perante uma outra configuração dos fatos. neste sentido. Os diferentes paradigmas irão considerar diferentes tipos de questões como legítimas ou significativas: O nascimento de uma nova teoria rompe com a tradição da pratica científica e introduz uma nova. um método e um conjunto de normas. quer das próprias soluções propostas. No fundo. a revolução galilaica do século XVII. a superioridade de um paradigma relativamente a outro e. nesta medida. um período de mudança de paradigmas e o que muda é a maneira de olhar o mundo. ao passo que o outro não. tomando como exemplo a observação das manchas solares feita por Galileu. como é o caso da revolução galilaica e assim. Mas à medida que vão surgindo mais e mais anomalias. aplicando com mais força ainda. uma espécie de "caleidoscópio" e quando muda. necessariamente são alterados os critérios que determinam a legitimidade quer dos problemas. Mas então. Isto é compreensível na medida em que ao abraçar um paradigma. E um paradigma é. o cientista adquire uma teoria. eventualmente. E como reagem os cientistas à crise? Perdendo a confiança no paradigma anteriormente perfilhado e esta perda manifesta-se nas discussões filosóficas sobre fundamentos e métodos a que recorrem os cientistas que expressam descontentamento explícito tudo isto são sintomas de uma transição de uma investigação normal para uma não ordinária. o que se leva a cabo com regras diferentes e dentro de um universo de razões também diferentes e assim envolve diferentes e incompatíveis modelos. mesmo dando-se conta de que elas não são absolutamente corretas. o método e o tipo das suas investigações. Todavia. por exemplo. O período de revolução científica é. quando muda o paradigma. A crise só é tida como verdadeiramente séria e grave se ameaça os fundamentos de um paradigma ao resistir a todas as tentativas empreendidas pela comunidade científica para removê-la. abre-se a porta à revolução: a transição para um novo paradigma é a revolução científica. o que se altera é o jogo de espelhos.CRISE E REVOLUÇÃO Durante um período de ciência normal. as regras da ciência normal. um novo paradigma. instala-se a crise. à priori. Há momentos da história da ciência em que se mudam esses espelhos. pois. sentir-se atraído pela teoria copernicana em virtude da sua extrema simplicidade. mas uma reconstrução do campo de investigação a partir de novos fundamentos: A tradição científica normal que surge de uma revolução científica é incompatível com as que existiam anteriormente. são encontradas falhas que se podem tornar sérias. O que há é um conjunto de fatores que se encontram envolvidos no julgamento que o cientista faz dos méritos de uma teoria. constituindo uma crise para o paradigma que poderá levar á rejeição deste e à sua substituição por um outro. Galileu configura. o cientista trabalha confiante na área ditada pelo paradigma que lhe dá um conjunto de problemas e de métodos que ele acredita poderem resolver os problemas. A prática científica pressupõe sempre uma pré-compreensão do real que determina o objeto. Ele observa-as através do telescópio e outro cientista não as vê nas mesmas condições. Enfraquecido e minado um paradigma. neste sentido. obrigue o cientista a adotar um e não outro. a ciência aparece-nos como algo de conservador. Por quê? Por que se trata de dois paradigmas diferentes: um permite ver as manchas solares. Um grande marco de uma revolução paradigmática é. O primeiro esforço de um cientista em face de uma anomalia é dar-lhe estrutura. Vê-se facilmente como funciona um paradigma.esse é o paradigma. Para além das razões individuais que condicionam a . um outro pode rejeitá-la por motivos do foro religioso. A seriedade de uma crise aprofunda-se quando surge um paradigma rival que será muito diferente a até incompatível com o anterior uma vez que. na medida em que se agarra aquilo que permite evitar o caos. a transição de um paradigma para outro não é um processo cumulativo.

embora Kuhn apresente alguns critérios que. POPPER Vs. Enfim. Em suma.adoção de um novo paradigma. mas por toda uma comunidade científica. não por um cientista individualmente. KUHN . particularmente e predição quantitativa. sendo a transição sucessiva de um paradigma para outro por meio de uma revolução. o modelo ideal de desenvolvimento de uma ciência madura. etc. há também todo o conjunto de modelos a fixar e diferentes princípios metafísicos. revolução científica chamamos ao abandono de um paradigma e á adoção de um outro. o balanço entre matérias esotéricas e as matérias ordinárias. há todo um conjunto de razões de tal forma interrelacionadas que não se pode afirmar a existência de algum argumento lógico que. obviamente. entre eles: a exatidão da predição. por si só. obrigue o cientista a abandonar um paradigma a favor de outro. que os paradigmas rivais propõem. podem ser tidos em linha de conta para considerar uma teoria melhor do que outra.

por exemplo. e o avanço da ciência se efetiva nas descobertas acumuladas. Já Thomas Kuhn estabelece como critério para a validação de um sistema científico a aplicabilidade do paradigma aceito na resolução dos problemas graves na ciência. foram operadas na história por Copérnico. Para Kuhn. A teoria científica persistirá somente se resistir aos testes propostos pelo critério apontado acima. o newtoniano. Porém. O critério de demarcação que propõe para separar a ciência da metafísica é o da refutabilidade ou da falsificabilidade.Sensível ao caráter altamente abstrato e especulativo de algumas teorias epistemológicas contemporâneas. neste sentido. E. Também podemos observar uma divergência no que diz respeito ao princípio da crítica e da forma de superação dos enunciados epistemológicos vigentes. na medida em que tal teoria científica resista a provas criteriosas e severas e não seja suplantada por outra. de crises paradigmáticas. há situações privilegiadas. ao negar que o progresso do conhecimento epistemológico tenha se dado a partir do critério estabelecido pelo ideal da refutação. no curso do progresso científico. No entanto. Nas fases da Ciência normal. os princípios de superação e revolução das teorias científicas e paradigmas existentes se diferenciem quanto ao aspecto referente ao critério de demarcação entre as ciências empíricas e a metafísica. Einstein e Heisenberg. no que diz respeito ao desenvolvimento da ciência. BIBLIOGRAFIA . a Ciência progride pela tradição intelectual representada pelo paradigma. é importante acentuar que pelo critério da refutabilidade uma decisão positiva só pode proporcionar alicerce temporário à teoria científica. e sua superação vai se dar na revolução científica que outro paradigma construído pode possibilitar. o paradigma. serve para auxiliar os cientistas na resolução dos seus problemas. Thomas Kuhn se contrapôs à teoria de Karl Popper. Revoluções científicas s e paradigmáticas. Popper rejeita simultaneamente o mito dos dados observacionais de base bem como a lógica indutiva. Em Popper. A proximidade entre Popper e Kuhn está no fato de admitirem um desenvolvimento possível para o conhecimento epistemológico da realidade. que é um modelo e visão de mundo comunicada por uma teoria ou sistema científico. Darwin. ela permanecerá válida e comprovará sua qualidade. e isto ocorre quando o paradigma aceito já não resolve uma série de anomalias s acumuladas. Newton. pois neste processo de refutabilidade as subseqüentes decisões negativas sempre poderão constituir-se em motivo pra rejeitá-la.

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GABRIELA GARCIA KARL POPPER E THOMAS KUHN Trabalho acadêmico apresentado à disciplina Filosofia da Ciência e da Tecnologia. Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Campus de Curitiba. CURITIBA 2010 .