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CARTOGRAFIA ESCOLAR: A CONSTRUÇÃO DE MAPAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS AÉREAS DE PIRACICABA.

ANDREA COELHO LASTÓRIA1 (COLÉGIO SALESIANO DOM BOSCO – ASSUNÇÃO) INTRODUÇÃO A Cartografia Escolar2 é uma área do conhecimento que se encontra em construção, tanto em âmbito científico quanto no âmbito escolar. No âmbito escolar, podemos observar que a Cartografia não consta no currículo oficial do ensino fundamental ou médio como uma disciplina. Ocorre que as noções cartográficas são ensinadas, em muitas escolas brasileiras, como um conteúdo curricular do programa de Geografia para as séries finais do ensino fundamental e médio. Muitas vezes, tal conteúdo apresenta-se “descolado” dos demais conteúdos abordados, sendo listado juntamente com outras noções científicas a serem ensinadas. O Parâmetro Curricular Nacional para o ensino de Geografia de quinta à oitava série explicita a Cartografia como um eixo temático para o terceiro ciclo do ensino fundamental. Sob este aspecto, o parâmetro coloca a Cartografia enquanto instrumento na aproximação dos lugares e do mundo. Dentro deste eixo são destacadas três questões principais: a primeira relaciona-se à alfabetização cartográfica; a segunda diz respeito à leitura crítica e a terceira ao mapeamento consciente. A Cartografia é destacada em tal documento como uma área necessária ao ensino da Geografia e, portanto, é necessário a desmistificação da Cartografia como uma ciência que apenas propõe mapas acabados aos usuários. Ao contrário disto, a alfabetização cartográfica deve ocorrer num processo no qual os alunos consigam aprender a leitura crítica de mapas, cartas e plantas, ultrapassando a simples localização dos fenômenos estampados nos mesmos, para se tornarem mapeadores conscientes que conseguem elaborar maquetes, croquis, mapas e outros, sabendo entender e optar por símbolos e pelas convenções cartográficas. Este trabalho apresenta uma prática educativa que vem sendo desenvolvida nas quintas séries do ensino fundamental do Colégio Salesiano Dom Bosco – Assunção e que toma a Cartografia Escolar como parte integrante do conteúdo programático da Geografia. OBJETIVOS O objetivo geral deste trabalho pauta-se numa reflexão sobre a prática pedagógica do professor de Geografia, tendo em vista as inúmeras dificuldades que o próprio ensino desta área do conhecimento vem passando nas últimas décadas. Os objetivos específicos referem-se à: - divulgação de uma experiência bem sucedida que relaciona Geografia e Cartografia Escolar nas quintas séries; - apresentação de uma metodologia de ensino viável e ainda pouco trabalhada em nossas escolas brasileiras. METODOLOGIA Apresentamos aqui um detalhamento de como desenvolvemos parte de nossa prática pedagógica.
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Licenciada em Geografia e Pedagogia, bacharel em Geografia e Doutora em Educação na área de Metodologia de Ensino. 2 A própria denominação desta área está sendo discutida pelos pesquisadores brasileiros. A denominação Cartografia para crianças também é utilizada por alguns segmentos.

Ao iniciarmos o terceiro bimestre, propomos a leitura individual de um livro paradidático denominado A Terra vista do Alto3 aos alunos das quintas séries. Nosso objetivo é contextualizar o processo de ocupação e transformação do espaço regional dos próprios alunos, o que justifica nossa opção pelo referido paradidático4. Justificamos que nossa ação se faz necessária à medida que reconhecemos a importância de um ensino de Geografia que se propõe partir da localidade de vivência dos alunos e não apenas do espaço apresentado nos livros didáticos, que nem sempre contemplam as especificidades da região, estado, município, bairro e rua dos alunos. Normalmente, o espaço que o livro didático apresenta é “virtual” e objetiva a transmissão de conceitos desconectados do próprio espaço dos alunos. Nossa prática tem mostrado que o ensino do espaço de vivência dos alunos é facilitado quando partimos do ponto de vista vertical para focalizar o processo de organização espacial e suas transformações. Tal ação pedagógica serve como elemento facilitador para os alunos descreverem os elementos da paisagem a partir do que eles vêem do alto. Experiências como; a observação da cidade através do último andar dos edifícios, são estimuladas. Relatos sobre como é a nossa cidade a partir do alto de um balão5 ou mesmo de um avião 6 são socializados pelos alunos em sala de aula. A partir do reconhecimento dos diferentes pontos de vista (vertical e horizontal), apresentamos fotografias aéreas de Piracicaba7 na escala 1:5000 para os alunos manipularem. Utilizamos os laboratórios de informática do colégio para que cada aluno observe toda a área urbana fotografada, aprendendo a ler os elementos principais das fotos aéreas, reconhecendo áreas centrais, áreas verdes, o rio Piracicaba e o rio Corumbataí, a localização do colégio e da residência de cada aluno. O efeito zoom8 e a fotoíndice9 foram utilizados como um apoio neste trabalho para que os alunos e a professora optassem por algumas fotos aéreas para serem mapeadas. Orientamos que diferentes áreas urbanas fossem privilegiadas, como exemplo, as fotos que apresentam o bairro do colégio, um bairro de casas populares, um bairro de casas privilegiadas, um distrito industrial, uma parte da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, etc. Tais fotos contêm elementos que demonstram os diferentes usos e ocupações do solo urbano de Piracicaba, facilitando uma leitura crítica a respeito de como se dá a organização espacial numa sociedade capitalista como a nossa. A segunda parte desta prática envolveu uma breve aula teórica a respeito da história da fotografia aérea, dos diferentes pontos de vista das fotos aéreas (oblíquas ou lateral e
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De autoria de Fernando Carraro, editora FTD, São Paulo, ano 2000. O cenário do livro abrange um trajeto que começa na planície litorânea paulista, atravessa as cidades localizadas entre a serra do Mar e da Mantiqueira, as cidades da depressão periférica paulista até chegar na planície do pantanal do Mato Grosso do Sul. 5 A história do paradidático “A Terra vista do alto” tem como base uma viagem de balão realizada por um menino adolescente, sua irmã e uma equipe de balonismo. O livro descreve o trajeto de Ubatuba-SP até o pantanal do Mato Grosso do Sul, apresentando os principais compartimentos do relevo, o tipo climático predominante, as áreas de preservação permanente, as hidrovias, áreas de cultivo e criação, etc. Dois estados brasileiros são retratados por figuras, mapas, desenhos e perfil topográfico. São eles: São Paulo e Mato Grosso do Sul. 6 No ano de 2002, os alunos contaram com a palestra do piloto Alexandre Becarri, do aeroclube de Piracicaba, que sorteou alguns vôos panorâmicos para que a professora e seus alunos pudessem observar Piracicaba do alto. 7 As fotografias aéreas referem-se ao levantamento aerofotogramétrico de 1989 que foi realizado sob encomenda do Serviço Municipal de Água e Esgoto – SEMAE. Tais fotos foram emprestadas pelo departamento técnico da empresa municipal mediante apresentação do plano de estudos a ser realizado. 8 O efeito “zoom” refere-se a alteração da escala da foto para aproximar detalhes e, conseqüentemente, facilitar o reconhecimento da localidade. 9 A fotoíndice é um mosaico de fotos seqüenciais e numeradas que facilita a identificação das fotos aéreas.

vertical) e as principais características de uma fotografia aérea. Tal aula foi facilitada pela apresentação de uma linha do tempo contendo os principais acontecimentos (desde a confecção de mapas através de observações na própria superfície terrestre até o desenvolvimento do uso de fotos aéreas para fins civis e militares). A apresentação de duas diferentes fotos aéreas (uma com o ponto de vista vertical e outra com o ponto de vista oblíquo) e, ainda, a explicação sobre as características mais importantes das fotos através da projeção de uma foto aérea de Piracicaba (onde é possível que os alunos identifiquem as diferentes tonalidades, o aspecto liso e rugoso, a forma e o tamanho dos objetos e áreas fotografadas) também facilitou nosso trabalho. A última fase desta prática envolveu a própria confecção de um mapa rústico (croqui) pelos próprios alunos. Os materiais utilizados foram: papel vegetal cortado no tamanho das fotos aéreas, lápis grafite no. 2, borracha macia, lápis de cor, canetas hidrográficas e fita adesiva. Tendo em vista um melhor desempenho, organizamos as carteiras em grupos de quatro alunos. Cada aluno recebeu uma cópia de uma fotografia no tamanho do papel sulfite A4 e prendeu (com fita adesiva) a mesma na carteira. O mesmo procedimento foi realizado com um pedaço de papel vegetal. Orientamos que os elementos principais das fotos fossem desenhados (áreas verdes, vias públicas, rios, quarteirões etc) e depois organizamos uma pequena exposição10 das fotos na própria sala de aula para socializarmos as diferenças existentes entre as mesmas. Nesta ocasião, as fotos foram colocadas ao lado dos respectivos mapas e as dificuldades no processo de mapeamento foram verbalizadas pelos alunos. Esta última fase da prática se fez necessária para garantir que o significado maior que envolve o mapeamento consciente fosse percebido e apreendido pelos alunos. Este significado envolve a “generalização” de determinados elementos da paisagem e a opção por alguns elementos em detrimento a outros. RESULTADOS Vários são os aspectos que podem ser analisados neste trabalho. O primeiro deles relaciona-se ao nosso objetivo geral e incide sobre a própria prática pedagógica do professor de Geografia que, atualmente, passa por dificuldades relacionadas ao pequeno número de aulas semanais por classe e a grande dificuldade em trabalhar com manuais didáticos que não abrangem o espaço de vivência dos seus alunos. É imperativo que o professor das quintas e sextas séries do ensino fundamental ensine Geografia focalizando o espaço local para que, gradativamente, o geral passe a ser estudado. A ausência de recursos materiais dificulta tal prática. Neste sentido, este trabalho indica uma alternativa viável que subsidia a prática de ensino em Geografia e apresenta alguns resultados diretos que tal prática proporcionou aos nossos alunos da quinta série. São eles: aprendizagem a respeito do espaço regional brasileiro em que o aluno vive (estimulado pela leitura e discussão coletiva e avaliação escrita do livro paradidático);

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No ano passado (ano letivo de 2002) os resultados desta prática de ensino foram expostos, pela professora e seus alunos, na sala intitulada “Piracicaba vista do alto” durante a Semana Cultural promovida pelos Colégios Salesianos Dom Bosco e Assunção. Vários mapas construídos pelos alunos foram expostos, juntamente com um mosaico de fotos aéreas e dois micros computadores contendo arquivos de todas as fotos aéreas de Piracicaba a serem manipuladas pelos visitantes do evento. Sob orientação dos próprios alunos, os visitantes puderam encontrar seu bairro e, com o efeito zoom, visualizar seu quarteirão e residência. Tal sala contou com o apoio dos técnicos em informática (André Santana e André Petrocelli), do professor de Ciências (Flávio Boaretto) e com a assessoria pedagógica da coordenadora do ensino fundamental (Eliana Senicato).

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aprendizagem relacionada à leitura e descrição de fotografias aéreas de Piracicaba (estimulada pelo uso de tais materiais nas aulas teóricas e práticas); aprendizagem que envolve as noções cartográficas básicas, ou seja, legenda, escala, título, pontos cardeais etc (estimulados durante a prática de construção dos mapas); aprendizagem sobre as diferenças e semelhanças existentes entre os diversos setores municipais mapeados (estimulados pela observação das áreas residenciais de pessoas privilegiadas e das áreas de residências populares, a ausência de áreas verdes, etc); aprendizagem a respeito da ocupação e transformação do espaço regional e municipal dos alunos (estimulado pela reflexão e desenhos ilustrativos do livro paradidático e dos mapas construídos pelos próprios alunos); aprendizagem a respeito do conceito de mapeamento não como um conceito a mais a ser “ensinado” no ensino fundamental, mas como um conjunto interligado ao ensino do espaço em suas diferentes composições (relevo, hidrografia, clima, vegetação, urbanização, etc).

A prática educativa apresentada não se esgotou num único semestre. Ela se pauta na idéia de que as noções cartográficas devem ser ensinadas juntamente com os demais conteúdos programáticos a serem desenvolvidos no ensino fundamental. Deste modo, as noções dos diversos compartimentos do relevo de nossa região, por exemplo, são focalizadas juntamente com a construção de perfis topográficos e mapas de uso do solo (construídos a partir de fotografias aéreas). BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, R. D.; CAZETTA, V. Um estudo em Cartografia para escolares: a utilização de fotografias na elaboração de mapas de uso do solo. Rio Claro: Unesp, 1998. Relatório Parcial de Pesquisa de Iniciação Científica – Fapesp. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Geografia – terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. 156P. LASTÓRIA, A.C. Aprendizagem profissional de professores do ensino fundamental: o projeto Atlas. 2003. 222f. Tese (Doutorado em Educação) – Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos. LASTÓRIA, A.C. Projeto Integrando Universidade e Escola através da Pesquisa em Ensino. Rio Claro: UNESP/Departamento de Educação, 1999. 76p. LASTÓRIA, A. C.; MIZUKAMI, M. G. N. Construção de Atlas escolares e processos de aprendizagem profissional da docência: investigando conhecimentos profissionais de professoras do ensino fundamental. In: Simpósio Ibero Americano de Cartografia para Criança, 1.,2002, Rio de Janeiro. Resumo... Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Cartografia, Geodésia, Fotogrametria e Sensoriamento Remoto, 2002. p.100. LESANN, J.G. Do lápis à internet: reflexões sobre mudanças teórico-metodológicas na elaboração de Atlas escolares municipais. Boletim de Geografia, Maringá, n.2, p.130138. 2001.

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