VASUBANDHU (Sec. IV d.C.

) VINTE VERSOS SOBRE CONSCIÊNCIA PURA (Vimsatika-Karika)1 A Realidade enquanto consciência pura
Tese de Yogacara2 : Na Filosofia Mahayana ..., [a realidade é] vista como consciência pura .... Mente (citta), pensamento (manas), consciência (chit), e percepção (pratyaksa) são sinônimos. A palavra “mente” (citta) inclui estados mentais e atividades mentais em seu significado. Sobre a palavra “pura” é entendida a negação da existência de qualquer objeto exterior à consciência. Reconhecemos que “representações mentais parecem estar relacionadas com objetos externos (não-mentais); mas isso não deve ser diferente de situações nas quais as pessoas com desordens de visão “vêem” cabelos, luas, e outras coisas que ‘não estão aqui’”. [Verso 1] Objeção: “Se existe percepção e consciência sem nenhum objeto externo correspondente, nenhuma idéia poderia surgir a qualquer momento ou em qualquer lugar, nem mentes diferentes poderiam conter idéias de diferentes objetos ao mesmo tempo e lugar, e os objetos poderiam funcionar de formas inesperadas”. [Verso 2] Em outras palavras, (1) se a percepção de um objeto surge sem nenhum objeto existente externo à mente, por que é que ela surge somente em certos lugares e não em todos os lugares; e mesmo naqueles lugares, por que é que ela surge somente às vezes e não sempre?(2) E por que é que ela surge nas mentes de todos que estão presentes em um tempo particular e em um local particular e não somente na mente de um, assim como a aparência do cabelo, etc, surge nas mentes daqueles que são afetados por uma desordem ótica, e não nas mentes de outros? (3) Por que é que o cabelo, abelhas, etc, vistos por aqueles que sofrem de uma desordem ótica não executam as funções de cabelo, abelhas, etc. vistos por aqueles não tão afetados por esta desordem? Comida, bebida, roupas, venenos, armas, etc, que são vistos em um sonho não executam as mesmas funções de comida, bebida, etc., enquanto experimentadas em um estado de alerta. Uma cidade ilusória/imaginária não executa as funções de uma cidade por causa de sua não-existência, enquanto uma cidade existente executa tais funções. Se os objetos externos não existem, estes fatos da experiência não podem ser considerados. Contestação de Yogacara: “Mesmo nos sonhos, certas idéias surgem somente em certos lugares e em certos momentos” [Verso 3a]. Isto é, em um sonho, mesmo sem objetos externos à consciência, somente certas coisas são vistas – por exemplo, abelhas, jardins, mulheres, homens, etc – e somente em alguns lugares e não em todos os lugares, e mesmo naqueles lugares, são vistos somente às vezes e não o tempo todo. Desta forma, mesmo sem um objeto externo de percepção ou pensamento, uma idéia particular pode surgir somente em certos lugares e em certos momentos.

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1 Capitulação e edição de George Cronk. 1998. Vasubandhu’s Os Vinte Versos da Consciência Pura [Vimsatika] (junto com o seu comentário [Karita], que é também por Vasubandhu) foram originalmente escritos em Sânscrito. As seguintes são duas traduções em Inglês padrão do trabalho: Os Vinte Versos e seus Comentários, em Sete Trabalhos de Vasubandhu, trans. e ed. Stefan Anacker (Delhi, India: MoTilal Banarsidass Editores, 1984), pp. 157-179; e Um Tratado em Vinte Estrofes e suas Explicações, em Uma Experiência de Doutrina Budista, trans. E ed. Thomas A. Kochumuttom (Delhi, India: Motilal Banarsidass Editores, 1982), pp. 260-275. 2 Yogacara (Yogachara) (“aplicação da Yoga”), também conhecida como Vijñanavada (“o caminho da consciência”), é a Escola de Filosofia à qual Vasubandhu pertenceu. A doutrina central da Yogachara é que a realidade é “consciência pura” (uma forma de idealismo metafísico).

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“E no estado infernal, todos os espíritos condenados (pretas) percebem o mesmo rio de pus e outros cenários infernais.” [Verso 3b] Um “rio de pus” é um rio cheio de pus [assim como urina e fezes] ... Todos os espíritos condenados (pretas) experimentaram um estado infernal como forma de punição pela vida de maldade que eles tiveram, tendem a ver o mesmo rio cheio de pus, urina e fezes, guardados por homens segurando pedaços de paus e espadas ... Deste modo, mesmo sem a existência real de objetos externos, mentes diferentes podem experimentar as mesmas coisas. “Todos aqueles que estão no inferno percebem os mesmos “guardiões-do-inferno” e outros fenômenos infernais [rios de pus, cães e corvos vorazes, montanhas que se movem, etc.] e também experimentam os mesmos tormentos”. [Verso 4b] Tudo isso, os guardiães do inferno, rios, cães , etc, não existem realmente, o que significa que os tormentos sofridos no inferno (assim como o próprio inferno) são de natureza psicológica e não fundamentados em objetos externos à mente.1 Além disso, “nos sonhos, o que é experimentado pode funcionar exatamente como funciona no estado de alerta/vigília, o que pode ser ilustrado no caso de ejaculações noturnas.”[Verso 4a] Mesmo sem um casal ter tido de fato a relação sexual, um homem sonhando com uma relação sexual pode ter um orgasmo e ejacular ... Por estes vários exemplos, fica claro (1) que a mente pode ter somente certas idéias em certos momentos e em certos lugares; (2) que mentes diferentes podem experimentar as mesmas coisas; e (3) que as coisas experimentadas podem funcionar de formas esperadas – tudo na ausência de objetos externos à mente. Objeção: Por que você diz que as coisas experimentadas em estado infernal não existem? Contestação de Yogacara: Por causa dos guardiões do inferno. Parece [do que é dito sobre o inferno em nossas tradições sagradas] que os guardiões, aqueles que atormentam os espíritos condenados, não sofrem os tormentos do inferno eles mesmos (por exemplo, a terrível sensação de ser queimado, de pé, sobre um chão feito de ferro incandescente). Os guardas são também pecadores que merecem as punições do inferno ou não. Se eles são, então não há nenhuma razão pela qual eles deveriam estar “trabalhando” no inferno como torturadores/atormentadores de espíritos condenados; se eles não são eles mesmos espíritos condenados, então não há razão para que eles estejam lá com aqueles que merecem estar lá. [Faz mais sentido pensar nos guardiães do inferno e nas outras coisas experimentadas no inferno como as imagens mentais dos condenados]. A Percepção e seus Objetos: Não-eu / Nenhuma-Coisa Objeção: O próprio Buda ensinou que existem 12 fundamentos do conhecimento (ayatanas), denominados os seis sentidos2 e seus objetos. Se, de acordo com o Buda, a consciência surge através dos sentidos em resposta aos objetos externos aos sentidos, como pode a realidade ser consciência pura? Contestação de Yogacara: “Este ensinamento de Buda foi somente para os neófitos [isto é, recém-convertidos ao Budismo, no início de seus estudos]. Em outras palavras, este é um ensinamento exotérico (apresentado publicamente), mas ele tem um significado esotérico (escondido ou secreto)”... [Verso 8] Por fim, Buda frequentemente afirmava que não existe nenhum ser vivo e consciente e nenhum ego (anatta), mas sim somente os eventos e suas causas. O significado interior ou escondido (esotérico) de seus ensinamentos nos 12 ayanatas estão expressos no seguinte Verso:
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No texto original dos Doze Versos, este parágrafo é seguido de uma apresentação e discussão de Vasubandhu sobre o Verso 4a. 2 Adicionalmente aos cinco sentidos físicos da visão, audição, olfato, paladar e tato, os pensadores indianos consideram a percepção mental (pensamento) também como um sentido.

“Subjetividade (atman) e objetividade (dharma) ambas surgem no inconsciente (o alayavijñana = o domínio da ‘semente-consciência’)1. A percepção [por exemplo a visão] surge de uma semente [no inconsciente] e origina um objeto aparente [por exemplo, cor]... [Verso 9]

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E porque Buda apresenta seu ensinamento desta forma? Por que ele o apresenta mais de uma forma exotérica do que simplesmente revelando seu significado esotérico? Surge a resposta: “Desta forma, os discípulos são gradativamente iniciados em um entendimento da insubstancialidade do ego e da insubstancialidade dos objetos, isto é, ego e objetos construídos através das experiências usuais/ comuns”. [Verso 10] Os seis níveis da percepção2 são somente representações (aparências) da consciência que originam-se no inconsciente (o alaya-vijñana). Uma vez que o discípulo, através de seus estudos do Dharma [os ensinamentos de Buda], percebe que não há de fato nenhum “vidente, ouvinte, cheirador, provador, tocador nem pensador”, ele iniciará o entendimento da insubstancialidade do ego, e quando ele aprender que os objetos da percepção são também representações (aparências) da consciência pura, e que não existe de fato nenhuma entidade experimentada que tenha características de objetividade externa3, então o discípulo iniciará o entendimento da insubstancialidade dos objetos [experimentados], porém, conforme a última frase do Verso 10 indica, nós devemos fazer a distinção entre realidade [eu e objeto] construída pela consciência usual (especialmente a imaginação) e a realidade tal como ela é, em sua “totalidade” (tathata). Entre a dualidade do eu e seu sujeito-objeto, há uma inefável (anabhilaphya) transcendência do eu (na qual a dualidade do sujeito e do objeto não surge), o que é conhecido pelo Buda e por outros iluminados. Isso é o eu construído e seus objetos construídos que são insubstanciais, meramente transformações e representações da consciência ...[o inefável (e verdadeiro) Ego é substancial (dravyatah), isto é, “realmente real.”]4 Atomismo e Experiência Objeção: Como realmente sabemos que Buda teve a intenção de dar um significado esotérico quando ele falou dos sentidos e seus objetos? Eles não são externos?, realmente elementos existentes? [isto é, átomos] ... que quando agregados formam os objetos percebidos através dos sentidos? [ Buda não reconhecia a estrutura atômica subjacente ao mundo material?]5 Contestação de Yogacara: [Buda não podia ter aceitado a teoria atômica.] “A existência dos átomos não pode ser provada porque um objeto de percepção nunca é uma entidade unificada [isto é, um todo sem partes], nem são vários átomos distintos, nem mesmo uma agregação de átomos.”[Verso 11] O quê isto significa? Pegue um objeto perceptível. Ele é sempre uma entidade unificada? [um todo, sem partes] ... ?6 É sempre um grupo de átomos distintos e separados? Ele é sempre uma agregação de átomos? Ele não pode ser uma entidade unificada porque é impossível experimentar um todo independentemente de suas partes [isto é, todos os objetos de percepção são experimentados como coisas que tem partes, e que são divisíveis em partes.]

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Para a filosofia Yogacara, o alaya-vijñana (o armazém da consciência) é a consciência adjacente a tudo que existe. Esta é a essência fundamental fora da qual todas as coisas surgem. É um armazém de experiências de todas as vidas individuais e contém as “sementes” de toda construção mental (percepções, idéias, etc.). 2 Visão, audição, olfato, paladar, tato e pensamento. 3 Isto é, não há experiência das “coisas por si só”. 4 O verdadeiro Ego é consciência pura? 5 Atomismo foi uma teoria metafísica – cosmológica suportada por várias escolas da filosofia clássica indiana. As principais escolas atomísticas foram a Vaisheshika (uma filosofia associada ao hinduísmo) e a Vaibhashika (uma escola de filosofia budista). 6 Uma entidade absolutamente unificada, um todo sem partes, seria indivisível, seria um átomo (em um sentido), e átomos são imperceptíveis.

Nem pode um objeto de percepção ser experimentado como um grupo de átomos distintos e separados porque os átomos não podem ser percebidos individualmente. E, finalmente, um objeto de percepção não pode ser experimentado como uma agregação de átomos porque tal agregação seria composta por simples átomos, cada um é absolutamente imperceptível [e uma agregação de imperceptíveis não é mais perceptível do que seus componentes individuais].1 [Existem mais problemas lógicos com relação ao atomismo. Pense em uma agregação de átomos. Como tal agregação é formada?]

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Um átomo anexado a seis outros átomos teria seis lados. [Para que os outros seis anexassem-se a eles]. Ou os outros seis átomos ocupariam o mesmo local [no espaço] que o primeiro? O sétimo não seria então um?[Isto é, não haveria somente um átomo ao invés de sete?[Verso 12] Se existe a conjunção de um átomo com outros seis, então o átomo um deve ter seis lados, [conforme afirmado acima], e seis lados são seis partes. Mas um átomo, por definição, é indivisível, ele não pode ter partes. Logo, segundo esta alternativa, um átomo não é um átomo – uma total contradição! Ou todos os sete átomos ocupam um e o mesmo local? Mas então a agregação não seria somente um átomo [porque dois ou mais corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo], o que significaria que a agregação não é realmente uma agregação? Isso não é outra contradição? Além disso, alguns atomistas2 argumentam que, desde que um átomo não tem partes, é impossível para eles agregarem-se. E ainda, estes mesmos atomistas reinvindicam que agregações de átomos podem unir-se a outras agregações para formar agregações ainda maiores. “Mas, se os átomos não podem se agregar, em um primeiro momento, porque eles não têm partes, como pode haver alguma agregação atômica para subsequentemente agregar-se a uma outra ...?” [Verso 13] Agora, ou os átomos têm partes ou eles não têm. “Qualquer coisa que tem partes não pode ser uma unidade [isto é, não pode ser indivisível].” [Verso 14a] Se um átomo pode estar “em frente de”, ou “atrás de”, ou “sobre”ou “entre” outro átomo, logo aquele outro átomo deve ter uma parte da frente, uma parte de trás, uma parte de cima e uma parte de baixo – isto é, deve ter partes e logo ser divisível, e neste caso então não é um átomo, [o que é uma contradição].3 Mas, se os átomos não têm partes, como eles podem estar sujeitos a obscurecerem-se ou ocultaremse? [Verso 14b] Se um átomo não tem partes, isto é, se ele é absolutamente indivisível, logo ele não pode ter uma extensão ou uma localização no espaço. Logo, assumindo que o mundo é composto por tais átomos que não se extendem, como poderia haver a luz solar em um lugar e a sombra em um outro lugar ao amanhecer? Se um átomo não tem partes, logo ele não pode ter um lado iluminado e outro lado na sombra, porque ele não tem lados. Logo é impossível para um átomo fazer sombra ou esconder um outro [porque é impossível para alguma coisa estar em frente ou atrás ou em cima ou embaixo de outra coisa que não possui parte da frente ou parte de trás ou de cima ou de baixo] .... E também se um átomo não tem partes, são totalmente indivisíveis e não tem extensão e nem localização no espaço, uma agregação inteira de átomos é realmente um simples átomo porque eles estão localizados em um mesmo lugar ao mesmo tempo!5
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Os filósofos atomísticos que Vasubandu tem em mente neste parágrafo são os Vaisheshikas, que defendem que os objetos de percepção são, de fato, uma combinação de átomos, mas os átomos isolados são, não só imperceptíveis mas absolutamente imperceptíveis. 2 A Kasimira Vaibhashikas (uma escola de filosofia Budista). 3 Se um átomo possui partes e extensão no espaço, ele não pode ser uma unidade (não pode ser indivisível), e logo não pode ser um átomo. 4 Talvez o que Vasubandhu quer dizer aqui é que desde que o espaço é infinitamente divisível, o que estiver localizado no espaço deve também ser infinitamente divisível, e, portanto, alguma coisa que é absolutamente indivisível não pode estar localizada no espaço. 5 Isto não significa que o “lugar” onde todos os átomos estão localizados seja “lugar nenhum” e nem que o tempo no qual todos eles estão situados seja “tempo nenhum”?

Objeção: Por que não podemos dizer que é a agregação de átomos (não os átomos individualmente) que está sujeita ao obscurecimento e a ocultação? Contestação de Yogacara: Mas então você concorda que uma agregação de átomos é alguma coisa [metafisicamente] diferente dos próprios átomos? Objeção: Não, não podemos concordar com isso. Contestação de Yogacara: “Não pode ser argumentado que a agregação de átomos está sujeita ao obscurecimento e a ocultação a não ser que as agregações sejam consideradas [metafisicamente] diferentes dos átomos que a compõem.” [Verso 14c] Se não existe nenhuma diferença essencial entre os átomos e as agregações de átomos, logo tais agregações não estão mais sujeitas ao obscurecimento e a ocultação do que os próprios átomos....
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Monismo e Experiência Pergunta: [Examinamos o atomismo, que apresenta uma visão pluralista da realidade. Que tal pensar na realidade como uma unidade absoluta e indivisível (monismo metafísico)?] Contestação de Yogacara: “Se a realidade fosse uma unidade absoluta, não haveria nenhum movimento gradual, nenhuma percepção e não-percepção ao mesmo tempo; não haveria nenhuma distinção entre os seres e não haveria nenhuma ‘não-visão’ do que é mais sutil.” [Verso 15] Se a realidade fosse uma unidade absoluta, não haveria nenhum movimento gradual de um lugar para outro. Seria impossível “ir” ou gradualmente chegar a qualquer lugar porque um “estaria” simultaneamente em todo lugar. Também seria impossível olhar para um objeto e ver somente um lado dele enquanto, ao mesmo tempo, não ver o outro lado dele. Ainda mais, não haveria distinção ou diferenças entre elefantes, cavalos e vários outros seres, uma vez que eles seriam todos um só. Todas as coisas também estariam exatamente no mesmo lugar, desde que a unidade absoluta de todas as coisas faria a separação das coisas diferentes em espaços impossíveis. E coisas invisíveis, tal como uma bactéria aquática, seriam tão visíveis quanto uma [montanha] [Tudo isso é contra a experiência real.] [Parece que o monismo é tão inaceitável quanto o pluralismo atomístico] Ambos foram refutados pela experiência, que revela um mundo fundamentado na consciência pura.] Estado de sonho e estado de alerta Objeção: Existe uma diferença significante entre o estado de alerta e o estado de sonho. Todos reconhecem que os objetos experimentados em sonhos não são reais e sim construídos mentalmente, mas isso não é reconhecido com relação aos objetos experimentados em estado de alerta .... Contestação de Yogacara: Este argumento não sustentará sua posição porque alguém que não está acordado não reconhece a irrealidade dos objetos experimentados em um sonho.” [Verso 17b] Somente aquele que está acordado está apto a “ver através” dos objetos experimentados enquanto ele estava sonhando. Da mesma forma, somente aquele que atinjiu a iluminação está apto para discernir a irrealidade do mundo apresentada no que é usualmente tido ser [mas o que realmente não é] o estado de alerta. Assim, a experiência do sonho e a experiência de alerta são similares [na qual elas são ambas substituídas por uma ‘consciência superior’].

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O ponto aqui parece ser o seguinte: desde que os átomos não têm partes e são absolutamente indivisíveis, eles não tem extensão espacial, e átomos sem extensão não podem formar agregações extendidas no espaço. Logo, se há alguma agregação de átomos, ela não está extendida no espaço e portanto não está ‘lá’ para ser iluminada ou obscurecida.

Objeção: Você diz que não há diferença essencial entre o estado de sonho e o estado de alerta no sentido de que são ambos possíveis sem a existência de objetos extra-mentais. Por que é então que com respeito às boas ou más ações, nós não estamos moralmente preocupados com as consequências do que nós fazemos nos sonhos, considerando que nós estamos moralmente preocupados com as consequências do que nós fazemos quando estamos acordados? Contestação de Yogacara: “No estado de sonho, a mente está entorpecida pelo sono e portanto tem pouco controle sobre suas ações e suas consequências, considerando que a mente tem maior controle sobre o que acontece no estado de alerta. Logo, as consequências das ações no estado de alerta devem ser consideradas com mais seriedade moral do que as ações no estado de sonho.” [Verso 18b] Interações entre os indivíduos

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Objeção: Se os objetos de percepção originam-se dentro de um fluxo de consciência da mente e não realmente a partir dos objetos externos existentes [como argumentado acima], então como pode uma mente ser influenciada por uma outra? Como, por exemplo, poderiam minhas idéias serem influenciadas por outras mentes de amigos bons ou maus, ou pela minha simples audição a ensinamentos falsos ou verdadeiros? Realmente, se não existe nenhum objeto externo, logo, não podem haver nem amigos e nem ensinamentos fora de nossa própria consciência. Contestação de Yogacara: “Os fluxos de consciência nas diferentes mentes influenciam-se mutuamente.” [Verso 18a] Esta é uma maneira das diversas consciências (ou mentes) influenciarem a direção de uma outra, mas esta interação de mentes não mostram de jeito nenhum que existem objetos [materiais] exteriores a elas .... Objeção: Se a realidade é consciência-pura então os corpos ... não existem. Como então pode uma ovelha, por exemplo, ser assassinada por açougueiros [se nem os açougueiros e nem as ovelhas têm corpos?] E como podem os açougueiros serem culpados pela ofensa de tirar uma vida? Contestação de Yogacara: “O assassinato é um rompimento de um fluxo de consciência por um outro fluxo de consciência ... “[Verso 19] É conhecido e atestado em muitas escrituras bíblicas que o poder mental de uma pessoa pode causar mudanças em uma outra mente (por exemplo, perda de memória, possessão demoníaca, telepatia, ocorrência de sonhos, etc.) .... Matar uma outra pessoa é alterar fatalmente a força da sua vida e fazê-la fluir em uma direção diferente .... O Problema das Outras Mentes Objeção: Se a realidade é consciência pura, como é possível para uma mente ter conhecimento de outras mentes [ou seja, de outras mentes que não ela mesma]? E, se existe o conhecimento de outras mentes, isso não refuta a sua tese de consciência pura? Contestação de Yogacara: “Os não iluminados não são somente incapazes de conhecer as mentes dos outros, mas também não têm nenhum conhecimento da verdade natural de suas próprias mentes, considerando que os iluminados conhecem não só as suas próprias e verdadeiras mentes como também as verdadeiras mentes dos outros. As coisas conhecidas pelos iluminados são desconhecidas para os não-iluminados.” [Verso 21] [Os Vinte Versos na realidade contém 22 versos.] Os não-iluminados são limitados pela ignorância e são assim confundidos em pensamento sujeito-objeto. Ao nível da consciência comum/ordinária, nós podemos somente deduzir a existência de outras mentes na base da analogia com nossas próprias mentes, mas o que é considerado como mente não é a Verdadeira Mente, e o que é considerado como ego não é o Verdadeiro Ego. Os iluminados se libertaram da ignorância e transcenderam a consciência sujeito-objeto. Eles conhecem suas próprias mentes assim como as mentes dos outros. Eles atinjiram a verdadeira Pureza .....

Conclusão Yogacara [Vasubandhu]: A doutrina da consciência pura é infinitamente profunda e sutil, e não há limites para a sabedoria que ela oferece. “Escrevi este tratado sobre a consciência pura com o melhor de minha habilidade, mas não sou capaz de compreender toda a sua complexidade. Ela pode ser extendida em sua totalidade somente pelos iluminados.” [Verso 22] A totalidade da doutrina transcende a lógica, e certamente transcende a minha compreensão. É conhecida totalmente pelos iluminados, para eles origina-se acima de todos os obstáculos para o verdadeiro conhecimento.

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Traduzido por Andréa U.N. de Carvalho – Cel (031) 9148-3798

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