Francisco Cândido Xavier

Entre a Terra e o Céu
7o livro da Coleção “A Vida no Mundo Espiritual”

Ditado pelo Espírito

André Luiz

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio - RJ - Brasil

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Francisco Cândido Xavier - Entre a Terra e o Céu - pelo Espírito André Luiz

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Coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
01 - Nosso Lar 02 - Os Mensageiros 03 - Missionários da Luz 04 - Obreiros da Vida Eterna 05 - No Mundo Maior 06 - Libertação 07 - Entre a Terra e o Céu 08 - Nos Domínios da Mediunidade 09 - Ação e Reação 10 - Evolução em Dois Mundos 11 - Mecanismos da Mediunidade 12 - Sexo e Destino 13 - E a Vida Continua...

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Índice
Entre a Terra e o Céu ................................................................... 5 1 Em torno da prece .................................................................... 7 2 No cenário terrestre ................................................................ 11 3 Obsessão ................................................................................ 16 4 Senda de provas...................................................................... 21 5 Valiosos apontamentos........................................................... 27 6 Num lar cristão....................................................................... 33 7 Consciência em desequilíbrio................................................. 40 8 Deliciosa excursão ................................................................. 48 9 No Lar da Bênção................................................................... 55 10 Preciosa conversação............................................................ 61 11 Novos apontamentos ............................................................ 68 12 Estudando sempre ................................................................ 73 13 Análise mental...................................................................... 79 14 Entendimento ....................................................................... 85 15 Além do sonho ..................................................................... 92 16 Novas experiências............................................................... 98 17 Recuando no tempo ............................................................ 104 18 Confissão............................................................................ 110 19 Dor e surpresa .................................................................... 115 20 Conflitos da alma ............................................................... 121 21 Conversação edificante....................................................... 128 22 Irmã Clara .......................................................................... 133 23 Apelo maternal ................................................................... 139 24 Carinho reparador............................................................... 146 25 Reconciliação ..................................................................... 153 26 Mãe e filho ......................................................................... 159

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Preparando a volta.............................................................. 165 Retorno............................................................................... 172 Ante a reencarnação ........................................................... 178 Luta por renascer................................................................ 185 Nova luta ............................................................................ 192 Recapitulação ..................................................................... 202 Aprendizado ....................................................................... 211 Em tarefa de socorro .......................................................... 221 Reerguimento moral ........................................................... 231 Corações renovados............................................................ 239 Reajuste.............................................................................. 247 Casamento feliz .................................................................. 254 Ponderações ....................................................................... 261 Em prece ............................................................................ 267

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Entre a Terra e o Céu
Desta história, recolhida por André Luiz entre a Terra e o Céu, destacam-se os impositivos do respeito que nos cabe consagrar ao corpo físico e do culto incessante de serviço ao bem, para retirarmos da romagem terrena as melhores vantagens à vida imperecível. Neste livro não somos defrontados por qualquer situação espetaculosa; nem heróis, encarnando virtudes dificilmente acessíveis; nem anjos inabordáveis. Em cada capítulo, encontramos a nós mesmos, com nossos velhos problemas de amor e ódio, simpatia e desafeto, através da cristalização mental em certas fases do caminho, na penumbra de nossos sonhos imprecisos ou na sombra das paixões que, por vezes, nos arrastam a profundos despenhadeiros. Em quase todas as páginas, temos a vida comum das almas que aspiram à vitória sobre si mesmas, valendo-se dos tesouros do tempo, para a aquisição de luz renovadora. Aqui, os quadros fundamentais da narrativa nos são intimamente familiares... O coração aflito em prece; A mente paralisada na ilusão e na dor; O lar varrido de provações; A senda fustigada de lutas; O desvario do ciúme; O engano da posse; Embates do pensamento; Conflitos da emoção.

Ajuda aos que te cercam.Francisco Cândido Xavier . . somos induzidos a fitar a amplidão celestial... Dele surge a voz inarticulada do Plano Divino.. no chão de nossas experiências e de nossas possibilidades. Em muitas ocasiões. não olvides que o teu “hoje” será a luz ou a treva do teu “amanhã”!. no rumo do porvir. EMMANUEL Pedro Leopoldo. Neste livro. muitas vezes somos constrangidos a observar o trilho terrestre. auxiliando a ti mesmo! O tempo não pára e. a necessidade de valorização dos recursos que o mundo nos oferece para a reestruturação do nosso destino. a fim de entender o passado a que o nosso presente deve a sua origem. exortando-nos sem palavras: – A Lei é viva e a Justiça não falha! Esquece o mal para sempre e semeia o bem cada dia!.pelo Espírito André Luiz 6 E sobre a contextura dos jatos puros e simples paira. se agora encontras o teu “ontem”. por ensinamento central.Entre a Terra e o Céu . entretanto. para que não nos falhe o equilíbrio à jornada redentora.. somos forçados a contemplar-nos por dentro. 23 de janeiro de 1954. incorporando energia para conquistar o futuro.

do socorro.pelo Espírito André Luiz 7 1 Em torno da prece No Templo do Socorro1. conferindo-lhe recursos para alcançar os objetivos que se propunha atingir. Da luz suprema à treva total. temos igualmente. atendem às criaturas. manifesta-se a tudo e a todos. continuou: – Em nome de Deus. – Quem teria respondido aos rogos. transubstanciadas de maneira infinita. tanto quanto possível. As correntes centrais da vida partem do Todo-Poderoso e descem a flux. No caso a que nos reportamos. convertendo a própria energia em fruto que alimenta a vida. é um ser que ansiou por multiplicar-se.Francisco Cândido Xavier . imprimindo significativa entonação à voz. – Todo desejo – dizia.. o Ministro Clarêncio comentava a sublimidade da prece e nós o ouvíamos com a melhor atenção.. tranqüilo: – A Lei. convincente – é manancial de poder. da planta? O venerando orientador respondeu. através de seres incontáveis.. E. escalonados em todos os tons do 1 Instituição da cidade espiritual em que se encontra o Autor. Assim como possuímos em eletricidade os transformadores de energia para o adequado aproveitamento da força. em todos os domínios do Universo.Entre a Terra e o Céu . as criaturas. A planta que se eleva para o alto. (Nota do Autor espiritual) . como representação de nosso Pai Celestial. o Sol sustentou o vegetal. e vice-versa. – Mas todo petitório reclama quem ouça – interferiu um dos companheiros. sem palavras. temos o fluxo e o refluxo do sopro do Criador. do esclarecimento. os transformadores da bênção.. através dos múltiplos agentes que a servem.

.. A prece. gradativamente. paira na região em que foi emitida ou eleva-se mais. à medida que se aperfeiçoa e se santifica. No Reino Espiritual. que passava pela Terra e se perdia nos céus. O mentor generoso fez pequeno intervalo. Impulsos de expressão algo mais nobre são amparados pelas almas que se enobreceram. Cada consciência. que modificam a energia divina. compete-nos considerar igualmente os princípios da herança. Quebrando o silêncio que se fizera natural para a nossa reflexão.. de acordo com a graduação do trabalho evolutivo.. qualquer que ela seja. em diversas idades e posições.Entre a Terra e o Céu . da humanidade e da angelitude. é ação provocando a reação que lhe corresponde. que nos criou a todos para o Infinito Amor e para a Infinita Sabedoria. como a dar-nos tempo para refletir e acentuou: – Cada prece.... respondendo às solicitações da vida.. Desejos banais encontram realização próxima na própria esfera em que surgem. Sabemos que a Humanidade Universal. harmonizando-se. Cada degrau da vida está superlotado por milhões de criaturas. à maneira de estações receptoras.pelo Espírito André Luiz 8 instinto. da razão. aprimora em si qualidades do Pai Celestial.. recebendo a resposta imediata ou remota. se caracteriza por determinado potencial de freqüência e todos estamos cercados por Inteligências capazes de sintonizar com o nosso apelo. Conforme a sua natureza. mais amplo é o seu poder de cooperar na execução do Plano Divino. segundo as finalidades a que se destina. está constituída pelas criaturas de Deus. o irmão Hilário perguntou: .Francisco Cândido Xavier . com a Lei. tanto quanto cada emissão de força. da inteligência. O caminho da ascensão espiritual é bem aquela escada milagrosa da visão de Jacob. ou menos.. em nome de Deus. no meio em que se encontram. Ideais e petições de significação profunda na imortalidade remontam às alturas. Quanto mais elevada a percentagem dessas qualidades num espírito. nos infinitos mundos da grandeza cósmica.

segundo a nossa solicitação. atraindo e formando a realização que nos propomos atingir e. bondoso –. em qualquer setor da existência. e lembrou: – Estejamos convictos. por fim. porém. Por isso mesmo. de imediato. porquanto o nosso pensamento voará. em cujas furnas nos ligamos. a fim de que por intermédio dela mesma se efetue o reajustamento moral dos espíritos que a sustentam. digamos “invocação”. diante de nós.Francisco Cândido Xavier . Analisemos com cuidado a nossa escolha.Entre a Terra e o Céu . é fácil cairmos no enredado poço do crime. guardando temporariamente aqueles que o criaram.pelo Espírito André Luiz 9 – Contudo. de semelhante posição. a certas mentes estagnadas na ignorância. Todas as nossas aspirações movimentam energias para o bem ou para o mal. E acrescentou: – Quando alguém nutre o desejo de perpetrar uma falta está invocando forças inferiores e mobilizando recursos pelos quais se responsabilizará. qual se fora um quisto de curta ou longa duração. a vida responde. O Ministro sorriu. de . benevolente. de que o mal é sempre um círculo fechado sobre si mesmo. quando se trate do desequilíbrio – aduziu Clarêncio. O Senhor tolera a desarmonia. a dissolver-se. que se fazem instrumentos de nossas baixas idealizações ou das quais nos tornamos deploráveis joguetes na sombra. Através dos impulsos infelizes de nossa alma. no bem infinito. quando estivermos à frente de propósitos malignos? Um homem que deseja cometer um crime estará também no serviço da prece? – Abstenhamo-nos de empregar a palavra “prece”. Seremos devedores dela pelo que houvermos recebido. à medida que se reeducam as Inteligências que a ele se aglutinam e afeiçoam. como interpretar o ensinamento. a direção delas permanece afeta à nossa responsabilidade. em qualquer problema ou situação do caminho que nos é dado percorrer. muitas vezes descemos às desvairadas vibrações da cólera ou do vício e.

atentamente.Francisco Cândido Xavier . delas escravos infortunados ou felizes tutelados. O prestimoso instrutor convidou-nos a acompanhá-lo e seguimo-lo. Pedimos e obtemos. A responsabilidade é principio divino a que ninguém poderá fugir. Todos somos senhores de nossas criações e. mas numa prece refratada. preocupado.. ao mesmo tempo. uma de nossas pupilas do quadro de reencarnações sob suas diretrizes pede socorro com insistência. falou algo aflita: – Irmão Clarêncio. – É assunto inquietante. mas pagaremos por todas as aquisições. que é o inamovível fundamento da Lei.Entre a Terra e o Céu . dirigindo-se ao nosso orientador.pelo Espírito André Luiz 10 vez que o mal reage sobre aqueles que o praticam.. auxiliando-os a compreender a excelência e a imortalidade do bem. uma jovem de semblante calmo penetrou no recinto e. . – É um apelo individual urgente? – indagou o Ministro. Nesse instante.

no mundo. Em seguida. meu companheiro considerou: – Mas.Francisco Cândido Xavier . mais complexo é o mapa de trabalho a ser obedecido.. espontâneo: – Ainda agora.pelo Espírito André Luiz 11 2 No cenário terrestre Numa sala ampla. em suas características morais. – Sim. todavia. porém. Parte de uma devotada servidora que se ausentou de nossa cidade espiritual. na reencarnação há um programa de serviço a realizar. exibindo o documento que trazia nas mãos. O Ministro deteve-se alguns instantes. E. subordinam-se a certos ascendentes do espírito. comentou.. há precisamente quinze anos terrestres. quanto mais vastos os recursos espirituais de quem retorna à carne. sem dúvida – aclarou o instrutor –. analisando a pequenina e complicada ficha. Não seguiu. como se provocasse a continuidade da lição que recebíamos. Permanece sob nossa orientação. jazem confiados a leis biológicas de cuja execução se incumbem Inteligências especializadas.Entre a Terra e o Céu . para determinadas tarefas na reencarnação. significando . O nascimento e o renascimento. indiscutivelmente. cauteloso. Clarêncio recebeu da jovem um pequeno gráfico que passou a examinar. em que numerosas entidades trabalhavam solícitas. Eis um fato que nos ilustra os conceitos. explicou: – Temos aqui uma oração comovedora que superou as linhas vibratórias comuns do plano de matéria mais densa. Nisso está o programa. contudo. desassistida. Quase todos temos do pretérito expressivo montante de débito a resgatar e todos somos desafiados pelas aquisições a fazer. falávamos de responsabilidade. sob o ponto de vista físico.

quando se trata de Espíritos sem méritos absolutos. no entanto o orientador sossegou-nos. entretanto. tanto quanto eu. a habilitação depende dos educadores. – A prece refratada é aquela cujo impulso luminoso teve a sua direção desviada. contudo. também relativo. Alguns momentos passaram. reclama o endosso de autoridades competentes. marchamos em verdadeira interdependência. esclarecendo: – Esperem. Reconhecerão comigo que nos achamos todos imanados uns aos outros. em todos os planos. Inclinávamo-nos a desfechar novas perguntas. que o livre arbítrio. os filhos precisam dos pais. mordido de curiosidade.Entre a Terra e o Céu .Francisco Cândido Xavier . Não podemos olvidar.pelo Espírito André Luiz 12 em si uma espécie de fatalidade relativa no ciclo de experiências que nos cabe atender. falou para a jovem que o observava. podemos gerar circunstâncias em nosso benefício ou em nosso desfavor. . que. Aqui. Reconhecemos. Em seguida. os doentes necessitam dos médicos e os moços não prescindem do aviso dos mais velhos. Hilário fora igualmente médico no mundo e. é uma realidade inconteste em todas as esferas de evolução da consciência. assim. – Mas. que vem a ser uma oração refratada? – indagou o meu colega. permanecia em tarefas ligadas à responsabilidade de Clarêncio. Nas linhas da experiência física. respeitosa: – Chame a irmã Eulália. passando a outro objetivo. adquirindo conhecimentos especializados. a conduta é sempre nossa e. rápidos. até certo ponto. o amparo eficiente exige quem saiba distribuí-lo e a transferência de domicílio para trabalho enobrecedor. dentro dela. e a cooperadora mencionada apareceu irradiando bondade e simpatia.

cuja volta ao aprendizado na carne foi garantida por nossa organização. Chorava. diante da fotografia da mãezinha desencarnada... Odila. o pequeno desencarnou afogado. porém. desde a morte do pequenino Júlio caiu em profundo abatimento. em desespero. Ainda anteontem. Reparávamos o pequeno gráfico em Silêncio. de tal modo. vem sustentando imensa luta moral. acha-se desorientada. suplicando-lhe proteção. por sua vez. pude vê-la. A madrasta. contudo. a segunda esposa de Amaro. chegam até aqui. tem insistido com tal vigor na obtenção de socorro espiritual que as suas rogativas. Vive.. depois de perder o maninho em trágicas circunstâncias. – A genitora de Evelina? – Sim. por parte de nossa desventurada Odila. Ainda não se resignou a perder a primazia feminina no lar. O egoísmo desbordante fá-la esquecida dos compromissos que abraçou. comovedoramente. porém. Zulmira. Ela. entretanto. apesar da fragilidade do novo corpo. quebrando a direção. que chegou a desejar-lhe o desaparecimento por não amá-lo. Evelina.pelo Espírito André Luiz 13 – Irmã – disse Clarêncio. o Ministro fixou Hilário e indagou: . consoante as provas de que se fez devedor. não se mostra capaz de corresponder à confiança e à ternura da menina. este gráfico registra aflitivo apelo de Evelina. Parece-me estar a pobrezinha em extremas dificuldades. preciso –. enovelada nos laços escuros do ciúme e não nos ouve. Sustando a pausa longa.... ela mesma. – Sim – concordou a interpelada –. O pai. sobrecarregado de questões íntimas. crê-se culpada.Entre a Terra e o Céu .. Há dois anos empenho energia e boa vontade por dissuadi-la.. Evelina. encontrando-se sob as sugestões da mulher que a precedeu nas atenções do marido. tem a saúde periclitante e a madrasta vem sofrendo obstinada perseguição. Como não ignoramos. envolvida nas teias das próprias criações mentais. entre o genitor aflito e a segunda mãe.Francisco Cândido Xavier .

Eulália.Francisco Cândido Xavier . para instruir-nos com segurança. assumindo com mais propriedade o papel de mentor do nosso grupo. à guisa de gabinete de trabalho e biblioteca.. a sós. desdobravam-se publicações diversas. Tem. . Clarêncio. Desejava inteirar-se.. o chefe da casa. gentil: – Este é Amaro. todavia. Na secretária singela.. Passeando em nós o olhar muito lúcido. no momento preciso. Sem delonga na viagem. Clarêncio. o caso fascinava-nos a atenção. O relógio citadino acusava exatamente vinte e uma horas. Entramos. O orientador. no entanto. num dos bairros do Rio de Janeiro. Hilário e eu encontramo-nos em residência modesta. foi marcada e. complicados compromissos. achávamo-nos a postos. a súplica de nossa irmãzinha vara os círculos inferiores e procura o apoio que lhe não faltará. usou projéteis e lâminas de ferro para o mal. Hoje. mas a solicitação não se perde. com visíveis sinais de preocupação. denunciando-lhe os estudos.pelo Espírito André Luiz 14 – Compreendem agora o que seja uma oração refratada? Evelina recorre ao espírito materno que não se encontra em condições de escutá-la. Em estreito compartimento.. recomendou esperássemos dois dias.Entre a Terra e o Céu . é servidor categorizado numa ferrovia. Nossa excursão. mas confortável. no longo pretérito. um homem de trinta e cinco anos presumíveis lia. concluiu: – Desejariam cooperar conosco na tarefa assistencial? Sem dúvida. um manual de mecânica. quando estivéssemos a usufruir-lhe a companhia. de todas as ocorrências. informou. Desferida em elevada freqüência. Em muitas ocasiões.

revelou indefinível contentamento interior. desde séculos remotos. mas trouxe também consigo a tarefa de auxiliar os progenitores. Encantadora adolescente de catorze anos bordava iniciais num lenço de linho. Não nos assinalou a presença... pelos méritos já acumulados na vida espiritual. passamos a gracioso quarto próximo. A fotografia é uma lembrança da mãezinha que já partiu. ao contacto das mãos espirituais do Ministro. Sorriu. por alguns instantes. mas. Veio ao encontro de criaturas e situações das quais necessita para a garantia da própria ascensão. qual se conversasse com a imagem. parecia concentrar a mente nos olhos grandes e serenos. faz alguns anos. comovido. No momento. Instintivamente. Abracei. ainda em luta. cuja reencarnação foi por nós organizada. enquanto Clarêncio nos dizia: – Esta é a nossa Evelina.Francisco Cândido Xavier . é ela mesma quem continua socorrendo o coração materno. através de imenso amor.pelo Espírito André Luiz 15 Em seguida. desviou o olhar do pano alvo e fixou-o num retrato de mulher que pendia da parede. Evelina está ligada aos pais. a mocinha extática. meditei na grandeza do amor e na sublimidade da oração. acredita-se amparada pela mãezinha.Entre a Terra e o Céu . . Magra e triste. entretanto. enlevada. que se guardava em luminoso halo de tranqüilidade e.

Entre a Terra e o Céu .Francisco Cândido Xavier . Indiferentes ambas à nossa presença. todavia. a primeira esposa de Amaro e mãezinha de Evelina. identificando-se-lhes a posição de verdugo e de vítima. aproximadamente. mostrava no semblante torturado harmoniosa beleza. e fios cinzentos que lhe fluíam da cabeça. Empenhada em combater aquela que considera inimiga. .pelo Espírito André Luiz 16 3 Obsessão Penetramos o mais espaçoso aposento da casa. Clarêncio explicou: – A jovem senhora é Zulmira. e a irmã desencarnada que presentemente lhe vampiriza o corpo é Odila. Conservava a destra sobre a medula alongada da senhora vencida e doente. imanta-se a ela. a segunda orientadora deste lar. à maneira de tentáculos dum polvo. O rosto delicado parecia haver saído de uma tela preciosa. com a suavidade das linhas fisionômicas contrastavam a inquietação e o pavor dos olhos escuros e o abandono dos cabelos em desalinho. Recostada num travesseiro de grandes dimensões. contudo. a vaguidão do olhar e o halo obscuro de que se cercava. não nos deixavam dúvida quanto à sua posição de desequilíbrio interior. sem o veículo físico. envolviam-lhe o centro coronário. como se quisesse controlar-lhe as impressões nervosas. descansava outra mulher. obliterando-lhe os núcleos de força. Arrancando-nos da indagação silenciosa em que nos demorávamos. dolorosamente transfigurada pelo ciúme a que se recolheu. Ao lado dela. Moça de vinte e cinco anos. onde uma senhora de aspecto juvenil repousava abatida e insone. dava a idéia de proteger a moça indiscutivelmente enferma. foi possível observá-las atentamente.

arrojando-o ao fundo. muitas vezes emitiu silenciosamente o anseio de vê-lo afogar-se na praia em que se banhavam. Certa manhã. dominando a complicada rede de estímulos nervosos e influenciando os centros metabólicos. Revoltava-se. com o que lhe altera profundamente a paisagem orgânica. custodiando os enteados. permitindo ao petiz mais ampla incursão nas águas. sem mágoa. A segunda mulher nunca suportou. Incapaz de reequilibrar-se. Júlio voltou cadaverizado à superfície. o carinho do genitor para com os órfãos de mãe. E porque as atenções de Amaro se concentravam particularmente sobre o menino. perplexo. choramingava e doía-se constantemente. Amaro sempre foi pai afetuosíssimo. por isso mesmo. O ferroviário sentiu-se psiquicamente distanciado da segunda esposa.Entre a Terra e o Céu . Pretendia possuir o coração do homem amado. a nossa amiga encarnada. acabrunhada com o acontecimento e guardando consigo a responsabilidade indireta pelo desastre havido. formosa criança de oito anos.Francisco Cândido Xavier . caiu no mesmo padrão vibratório – aclarou o instrutor –. . – Mas. perdeu a existência no mar. Zulmira. Ela também se devotou ao marido com egoísmo aviltante. porque não há reação por parte da perseguida? – inquiri. classificando-a como relaxada e cruel com os filhinhos. O sofrimento familiar foi enorme. Em suas preocupações doentias. O objetivo foi atingido. com absoluto exclusivismo.pelo Espírito André Luiz 17 através do veículo perispirítico. caiu obsidiada ante a influência perniciosa da rival que a subjugava do plano invisível. diante das menores manifestações de ternura paternal. – Porque Zulmira. arrebatada pela morte. O matrimônio anterior deixou-lhe um casal de filhinhos. na região cerebral. mas o pequeno Júlio. a seu turno. Uma onda rápida surpreendeu o miúdo banhista. entrelaçando-se. com as desvairadas energias da irresignada companheira de Amaro. separou Evelina do irmão. Zulmira chegou a desejar a morte de uma das crianças.

inacessível aos olhos humanos comuns. As duas se encontram ligadas uma a outra. A exasperação da mulher desencarnada pesaria .. Calara-se o Ministro. Clarêncio afagou-lhe a fronte e disse.Entre a Terra e o Céu ... através dele.. E contemplando a enferma com expressão terrível. pelo remorso destrutivo. gritou: – Ninguém a libertará! Sou infeliz mãe espoliada. Mataste meu filhinho! Morrerás também!. Qual se nos registrasse a presença por intuição. Extrema palidez cobriu-lhe a face. mas o instrutor generoso detevenos com um gesto.. calmo: – Pobre moça!. Farei justiça por minhas próprias mãos....Francisco Cândido Xavier . Separá-las à força seria a dilaceração de conseqüências imprevisíveis. Zulmira. Odila movimentou-se e.. mas. sombrias forças se insinuam.. Hilário e eu. acrescentava: – Assassina! Assassina!. instintivamente abeiramo-nos de Odila para afastá-la com a presteza possível.. É um caso em que a medicina terrestre não consegue interferência. tombou no mesmo nível emocional de Odila e ambas se digladiam num conflito de morte. envolta na onda magnética que a enlaçava. A doente abriu desmesuradamente os olhos. Não ouvia as palavras da adversária que lhe era invisível. advertindo: – A violência não ajuda. sentia-se morrer. agarrando-se à pobre senhora com mais força..pelo Espírito André Luiz 18 Clarêncio fez ligeiro intervalo e continuou: – O sentimento de culpa é sempre um colapso da consciência e.

não podemos esquecer que a organização cerebral da vítima permanece excessivamente martelada. então – clamou Hilário. desapontado. contrafeito –.. a cápsula física é precioso isolante das energias desequilibradas de nossa mente. nem energia contundente. admirado. em nosso plano de ação. assim de momento. . – Nada custa uma conversação de censura. obtemperou sem alterar-se: – Talvez. A preparação é indispensável. cujo corpo pode ser comparado a uma lâmpada de fraca receptividade. – Sim.. Nossa intervenção no campo espiritual de Odila deve ser envolvente e segura para evitar choques e contrachoques. exortando-a? O Ministro. uma doutrinação pura e simples seria cabível.. – alegou meu companheiro. deslocando-lhe o centro mental e conferindo-lhe outros interesses e diferentes aspirações. – Que poderíamos fazer? – indagou Hilário. como extinguir essa união indébita? Não será justo afastar o algoz da vítima? Clarêncio sorriu e ponderou: – Aqui.. – Mas. – E não podemos começar. contudo. A inutilização seria completa. sobre a qual seria perigoso arremessar uma corrente superior à capacidade de resistência a que se enquadra. essas forças desbordam ameaçadoras sobre a infortunada mulher.Entre a Terra e o Céu . É imprescindível dar outro rumo à vontade dela. o quadro é diverso. entretanto.Francisco Cândido Xavier . sereno. que repercutiriam desastrosamente sobre a outra. Na esfera carnal. no problema que observamos. não pudéssemos ou não soubéssemos. Nem doçura prejudicial.pelo Espírito André Luiz 19 demasiado sobre os centros cerebrais de Zulmira e a lipotimia poderia acarretar a paralisia ou mesmo a morte do corpo. – Precisamos atuar na elaboração dos pensamentos da infortunada irmã que tomou a iniciativa da perseguição.

inclinando-a ao serviço da conversão própria. Refletiu alguns instantes e aduziu: – Contamos em nossas relações com a irmã Clara. em seguida. em passes calmantes. de mansinho. Recomendou a Eulália assistisse Evelina para o refazimento psíquico de que a menina necessitava e. Modificará Odila com o seu verbo coroado de luz. Qual se fosse brandamente anestesiada. somente nos é possível a dispensação de algum alívio e nada mais. aplicou recursos magnéticos sobre Zulmira. . de nossa parte.pelo Espírito André Luiz 20 O instrutor dirigiu piedoso olhar às duas mulheres e prosseguiu: – A questão nesta casa surge realmente melindrosa.Entre a Terra e o Céu . Rogaremos o concurso dela. de longo curso.Francisco Cândido Xavier . a enferma passou da irritação à serenidade e pareceu dormir aos olhos do esposo que chegara. É necessário buscar alguém que já tenha amealhado na alma bastante amor e bastante entendimento para conversar com o poder criador da renovação. Por agora. acomodando-lhe os travesseiros.

.. Com evidentes sinais de terror.. cai no pesadelo agitado. de inopino. não!.. bondoso.Entre a Terra e o Céu . exclamando: – Que fizeste de meu filhinho? Assassina! assassina! Pagarás muito caro a intromissão no lar que é somente meu!. Armarei o coração de Evelina contra ti!.. – Não matei! Não fui eu quem matou!. não me furtarás o afeto de Amaro.pelo Espírito André Luiz 21 4 Senda de provas Zulmira ausentara-se do corpo. Zulmira ainda não se libertou das aflitivas reminiscências de que se vê possuída. Zulmira desembaraçou-se.. Enlaçada por Odila. E... mas não desfrutava a paz que se lhe estampara na máscara física. – Hipócrita! acompanhei os teus pensamentos. a conversação fez-se ativa.. antecipando-as no trajeto.. enquanto nos afastávamos. teus desejos. Pusemo-nos na direção do mar. submissa. Premida pelo assédio de nossa irmã desequilibrada. Acompanhemo-las. – respondia a vítima. Dirigem-se à praia. dos braços que a envolviam e correu para fora. Destroçarei tua vida. – Não. a cujo olhar dominador se inclinava..Francisco Cândido Xavier . Esclarecendo-nos. . onde ocorreu a morte do pequenino.. não nos identificou a presença. seguida pela outra. Clarêncio observou: – Quando a pobrezinha consegue sossegar o corpo. ouvia as objurgatórias da rival que a acusava. teus votos.

Para não repetirmos esclarecimentos aos quais já nos reportamos. passava a dormir ao lado do caçula. ralada de despeito. desejou ardentemente a morte da criança.. preciso: – Segundo as anotações que já recolhemos da irmã Eulália. rodeando-o de mimos. em razão disso. – comentou Hilário. Sabendo-o sem o carinho materno e reconhecendo que a madrasta não primava pelo amor. porém. “Assemelhavam-se a dois velhos amigos. – Porque tamanha provação se não é ela a autora do crime? – inquiri por minha vez. chegando mesmo a favorecê-la. tão minudenciado quanto possível. prosseguiu: – “Amaro experimentava imensa devoção afetiva pelo filhinho. O Ministro. com loucas ciumadas do marido. passou a ver no menino um adversário de sua felicidade doméstica. A madrasta nada sentia contra ela. lendo-lhe histórias ou escutando-lhe. junto dos enteados. Quando tornava a casa. Júlio. desvelava-se à cabeceira do petiz com ilimitada ternura. Quando Júlio adoecia. mas o pequeno excitava-a. Depois de breve pausa. Zulmira não é propriamente a autora. mas. as narrativas infantis.Francisco Cândido Xavier . pensativo. A dedicação de Evelina para com o genitor não lhe doía tanto. sem olvidar a segunda mãe em seu culto de amizade. cada dia. Zulmira. . examinando o problema aflitivo do casal.pelo Espírito André Luiz 22 – Não posso compreender porque a infeliz se declarou inocente. A filha mais velha era mais doce e mais reservada.. atencioso. informou. com benevolente sorriso. Zulmira.Entre a Terra e o Céu . no extremado apego ao genitor. costumava exagerar-se em traquinadas e caprichos que Amaro desculpava sempre. Comedida em suas manifestações. a se bastarem um ao outro. sabia dividir gentilezas. confiava-se a longas conversações com o filho. faremos ligeiro retrospecto.

Foi então que o cérebro da moça deixou nascer escuras divagações. encantado. desceu. e. Amaro e a filhinha distanciaram-se. Foi nessa disposição de espírito que acompanhou a família ao banho matinal. ao padrão vibratório de Odila que a segui- . chorou amargosamente a perda do filhinho.Entre a Terra e o Céu . salvando-a. de algum modo. em clara manhã domingueira. o caçula de Amaro interessou-se mais vivamente pelas conchas multicores a se multiplicarem na areia. perseguindo-as. Júlio. Chegava mesmo a estimular-lhe indébitas incursões na via pública. em sua curiosidade infantil.Francisco Cândido Xavier .. de alma repentinamente dobrada pelo remorso. poderia ter retrocedido alguns passos.. alimentando o secreto anseio de presenciar-lhe o fim. Torturado.. não resistiria à atração para o seio das águas. pelo mar a dentro. Entregues ao contentamento da excursão. enquanto Zulmira assumia a guarda do garoto. esperou que o mar concluísse o horrível trabalho que não tivera coragem de executar. retirou para fora o corpinho inerte. características de sua idade. com o auxílio de companheiros.. permitiu que o ódio lhe ocupasse o coração e deixou que o ciúme a enceguecesse a ponto de suspirar pelo desaparecimento do alegre rapazinho. mas era tarde. Em se vendo a sós. “Passou do projeto à ação e de pronto se afastou.pelo Espírito André Luiz 23 pouco a pouco. Amaro acorreu. Quando notou que o enteado havia desaparecido. recriminando a mulher. até que uma onda veloz lhe chicoteou o corpo tenro.. em espírito. pedindo-lhe amparo. Despreocupava-se intencionalmente pela assistência que lhe devia e abandonava-o às extravagâncias.. dominada pelo arrependimento e atormentada pela noção de culpa. Foi então que Zulmira. obrigando-o a mergulhar.. A criança gritou. Realmente. admitindo que algum veículo podia fazer o que não tinha coragem de realizar com as próprias mãos. numa lancha pequena. precípite. começou a clamar por socorro. Ninguém poderia culpá-la.. mas vencida pelos sinistros pensamentos que lhe dominavam a cabeça. Não seria aquele o momento azado para consumar o velho propósito? E se relegasse o menino a si mesmo? Decerto.

qual se fossem estranhos entre si. condenando a si mesma. sem pestanejar. guardando a intuição clara do serviço imediato a fazer. no entanto. são a expressão gritante de nós mesmos. no sentido real da Lei.pelo Espírito André Luiz 24 a. Ela e o marido respiram agora sob o mesmo teto. Clarêncio. como se morasse num castelo fortificado. Nossos desejos são forças mentais coagulantes. em silêncio. quem de nós não é responsável pelas idéias que arroja de si mesmo? Nossas intenções são atenuantes ou agravantes das faltas que cometemos. A forma de nosso pensamento dá feição ao nosso destino. esclarecendo: . à frente da Lei. revoltada. no fundo. Os frutos falam pelas árvores que os produzem. desde esse dia. retomou o fio central do assunto. enlevados. significativamente.” O Ministro fez leve pausa de repouso e prosseguiu: – A pobre senhora.Entre a Terra e o Céu . Zulmira não é culpada. Zulmira é culpada? – perguntei com interesse. mas. na esfera viva de nossa consciência. Hilário e eu ouvíamos. perdeu a ventura doméstica e a tranqüilidade própria. continuou: – Todavia. defendia-se naturalmente contra a perseguição invisível. Enquanto se mantinha com a paz de consciência. constituem o verdadeiro campo em que a nossa vida se movimenta. O sábio mentor sorriu. deitando-nos um olhar mais expressivo que de costume. resvalou em deplorável perturbação. para não delongar-se em digressões filosóficas. à maneira de alguém que desertasse de uma casa iluminada. embrenhando-se numa floresta de sombra. e considerou: – Não. Entretanto.Francisco Cândido Xavier . Nossas obras. – Mas. materializando-nos as ações que.

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– Júlio trazia consigo a morte prematura no quadro de provações. Era um suicida reencarnado... A segunda esposa de Amaro, porém, sofre o resultado das infelizes deliberações que albergou no espírito. Padece o retorno das vibrações envenenadas que arremessou na direção do menino. Pelo ciúme, criou ao redor de si mesma um ambiente pestilencial, em que os seus próprios pensamentos malignos conseguiram prosperar, assim como um fruto apodrecido desenvolve em si mesmo os vermes que o devoram. Supondo-se responsável pela morte da criança, de vez que asilou o delituoso plano a que nos referimos, Zulmira abandonouse ao mal que trazia consigo, imantando-se, ainda, ao mal de que a adversária é portadora, e tornou-se, por isso, enferma e dementada. – E o pequeno, em toda a história? – inquiri, admirado. – Júlio foi conduzido à região que lhe é própria. – Mas, Odila não poderia vê-lo, certificando-se de toda a verdade? – Infelizmente – explicou o venerando instrutor –, a infortunada criatura tem o centro genésico plenamente descontrolado e isso lhe impede a visão mais ampla. Não consegue querer senão o marido, em vista do apego enlouquecedor aos vínculos do sexo, que a paixão nada faz senão desvirtuar. Odila possui admiráveis qualidades morais que jazem, por enquanto, eclipsadas... Desencarnou em largo vigor de seu idealismo feminino, sem uma fé religiosa capaz de reeducar-lhe os impulsos, justificando-se, desse modo, a superexcitação em que se encontra. Semelhante estado, contudo, é transitório e esperamos se submeta, de boa vontade, ao tratamento de reajuste que lhe será dispensado, em breve. Melhorada a situação dela, creio que o problema terá imediata e construtiva solução.

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Ia perguntar algo de novo, mas atingíramos a praia e Clarêncio determinou nos puséssemos a observar.

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5 Valiosos apontamentos
Alcançáramos a orla do mar, em plena noite. A movimentação da vida espiritual era aí muito intensa. Desencarnados de várias procedências reencontravam amigos que ainda se demoravam na Terra, momentaneamente desligados do corpo pela anestesia do sono. Dentre esses, porém, salientavase grande número de enfermos. Anciães, mulheres e crianças, em muitos aspectos diferentes, compareciam ali, sustentados pelos braços de entidades numerosas que os assistiam. Conversações edificantes e lamentos doloridos chegavam até nós. Serviços magnéticos de socorro urgente eram improvisados aqui e além... E o ar, efetivamente, confrontado ao que respirávamos na área da cidade, era muito diverso. Brisas refrescantes sopravam de longe, carreando princípios regeneradores e insuflando em nós delicioso bem estar. – O oceano é miraculoso reservatório de forças – elucidou Clarêncio, de maneira expressiva –; até aqui, muitos companheiros de nosso plano trazem os irmãos doentes, ainda ligados ao corpo da Terra, de modo a receberem refazimento e repouso. Enfermeiros e amigos desencarnados desvelam-se na reconstituição das energias de seus tutelados. Qual acontece na montanha arborizada, a atmosfera marinha permanece impregnada por infinitos recursos de vitalidade da Natureza. O oxigênio sem mácula, casado às emanações do planeta, converte-se em precioso alimento de nossa organização espiritual, principalmente quando ainda

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nos achamos direta ou indiretamente associados aos fluidos da matéria mais densa. Passávamos agora na vizinhança de uma dama extremamente abatida, quase em decúbito dorsal à frente das águas, recolhendo o auxílio magnético de um benfeitor que se iluminava no serviço e na oração. Clarêncio deixou-nos por momentos, conversou algo com um amigo, a pequena distância, e regressou, informando: – Trata-se de irmã do nosso círculo pessoal, assediada pelo câncer. Foi retirada do veículo físico, através da hipnose, a fim de obter a assistência que lhe é necessária. – Mas – objetei, curioso – esse tipo de tratamento pode sustar o desequilíbrio das células orgânicas? A doente conseguirá curarse, de modo positivo? O Ministro sorriu e aclarou: – Realmente, na obra assistencial dos espíritos amigos, que interferem nos tecidos sutis da alma, é possível, quando a criatura se desprende parcialmente da carne, a realização de maravilhas. Atuando nos centros do perispírito, por vezes efetuamos alterações profundas na saúde dos pacientes, alterações essas que se fixam no corpo somático, de maneira gradativa. Grandes males são assim corrigidos, enormes renovações são assim realizadas. Mormente quando encontramos o serviço da prece na mente enriquecida pela fé transformadora, facilitando-nos a intervenção pela passividade construtiva do campo em que devemos operar, a tarefa de socorro concretiza verdadeiros milagres. O corpo físico é mantido pelo corpo espiritual a cujos moldes se ajusta e, desse modo, a influência sobre o organismo sutil é decisiva para o envoltório de carne, em que a mente se manifesta. Nesse ponto das explicações, porém, o Ministro abanou a cabeça e ajuntou:

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– Nossa ação, contudo, está subordinada à lei que nos rege. No problema de nossa irmã, o concurso de nosso plano conseguirá tão somente angariar-lhe reconforto. A moléstia, em razão das provas que lhe assinalam o roteiro pessoal, atingiu insopitável extensão. – Quer dizer que ela, agora, apenas se habilita à morte calma? – indagou Hilário, atencioso. – Justamente – confirmou o orientador –. Com a cooperação em curso, despertará no corpo desfalecente mais serena e mais confortada. Repetindo as excursões até aqui, noite a noite, habituar-se-á, com entendimento superior, à idéia da partida, transmitindo aos familiares resignação e coragem para o transe da separação; aprenderá a contribuir com o seu esforço, no sentido de aliviar-lhes as aflições pela humildade que edificará, dentro de si mesma... pouco a pouco; desligar-se-á da carne enfermiça, acentuando a luz interior da própria consciência, a fim de separar-se do ambiente que lhe é caro, como quem encontra na morte física valiosa liberação para serviço mais enobrecido. E, assim, em algumas semanas, mostrar-se-á admiravelmente preparada ante o novo caminho... Clarêncio silenciara. O assunto requisitava-me a novas observações. – Nesse caso – comecei a falar, hesitante. O Ministro, porém, sorriu compreensivo e atalhou, esclarecendo: – Já sei a tua conclusão. É isso mesmo. A enfermidade longa é uma bênção desconhecida entre os homens, constitui precioso curso preparatório da alma para a grande libertação. Sem a moléstia dilatada, é muito difícil o êxito rápido no trabalho da morte. Nesse instante, contudo, Zulmira e Odila chegavam à praia, em sítio não longe de nós.

Zulmira ensaiava o gesto de quem se propunha a regressar precipitadamente a casa.. converter-me-ei em serva de tua filhinha. Rodeamo-las.. infeliz! Lembra-te da horrível manhã em que te fizeste assassina! Onde colocaste meu filho? Porque afogaste um inocente? – Não. destruirei a própria casa de que te apossaste e me pertence!. Tão pouco pareciam interessadas pelo movimento no logradouro. reiterando. Odila martelava o cérebro da outra. entre a aflição e o pavor.pelo Espírito André Luiz 30 Clarêncio recomendou-nos atenção. prestamente. não matei... contida pela companheira.. qual se fossem irmãs enfermas. – Sim. Nem uma nem outra nos identificavam a presença. mas. – concordava Zulmira.. terrificada –. não! – gritava a pobrezinha dementada – não fui eu! Juro que não fui eu! Júlio foi tragado pelas ondas. desapiedada: – Recorda o crime. enquanto que a vítima revelava na expressão facial o intraduzível terror dos que se abeiram do extremo desequilíbrio.. cujos passos orientarei .. sim.. sob a nossa guarda.Entre a Terra e o Céu . alimentarei a antipatia dele contra ti. A primeira esposa de Amaro centralizava o olhar sobre a presa.Francisco Cândido Xavier . – E porque não velaste pela criança que meu marido levianamente confiou às tuas mãos infiéis? Acaso. Não permitirei que Amaro te ame. Serei uma escrava de teu marido e restitui-lo-ei aos teus braços.. avançava. repetindo as mesmas acusações que já ouvíramos.. atormentarei as pessoas que te desejarem socorrer. Impostora! impostora!. mas não fiz o que me competia para salvá-lo! Perdoa-me! perdoame! Prometo empenhar-me no refazimento da paz de todos. não te acusa a própria consciência? Onde situas o senso de mulher? Pagar-me-ás alto preço pelo relaxamento delituoso.. E.

Francisco Cândido Xavier . na competição a que se entregavam. pôs-se-lhe no encalço. perturbada e ensandecida.. sem perdê-las de vista.. – Nunca! nunca! – bradava a interlocutora. .. Sentindo-lhe a aproximação. Varando a casa. rudemente – aqui consumaste o sinistro plano de extinção da nossa felicidade. Qual se fora tangida de secretos impulsos. cruel –. friamente – tua falta é imperdoável. Zulmira despertou. Mataste! Deves confessar o delito perpetrado. ambas se achavam à frente de determinada nesga da praia.. deixa-me viver! Liberta-me! Compadece-te de mim!. – Foi aqui! – rugiu a perseguidora..pelo Espírito André Luiz 31 para o bem. incontinenti. Odila. por piedade. aflita: – Júlio! Júlio!. Acompanhamos as duas. Os olhos da pobre obsidiada adquiriram estranho fulgor. – Não! não! – suplicava Zulmira. Zulmira rodou sobre os calcanhares e disparou de volta ao lar. penetrando as águas. no entanto.. mas. Dobrar-te-ei a cerviz! Serás recolhida à penitenciária.. clamava.Entre a Terra e o Céu . a segunda mulher de Amaro desprendeu-se dos braços que a constringiam e. alagada de suor.. dando a idéia de que o corpo adormecido era poderoso magneto a atraí-la. com sinais comoventes de angústia. para que te mistures às delinqüentes de tua laia!. – Se não aniquilaste meu filho – bradava a outra. devolve-o aos meus braços! Devolve-o! devolve-o! Nesse momento.. à frente da polícia!. conservando no cérebro de carne a impressão de que vagueara em terrível pesadelo..

Francisco Cândido Xavier . . Foi então que a desventurada senhora conseguiu gemer.Entre a Terra e o Céu . A dispnéia castigava-a com violência.pelo Espírito André Luiz 32 Tentou gritar. vagarosamente. Clarêncio aproximou-se e aplicou-lhe fluidos salutares e repousantes. enquanto as coronárias se mostravam intumescidas. Acalmou-se-lhe o coração. mas não conseguiu. Faleciam-lhe as forças em colapso nervoso. clamando por socorro. o campo circulatório tornou à feição normal. insopitável.

é necessário voltar à retaguarda. Eulália deve acompanhar duas de nossas irmãs encarnadas à visitação dos filhinhos que as precederam na grande viagem da morte e que se encontram no mesmo sítio em que Júlio se demora asilado. ele mesmo nos socorreu. não é aconselhável indagar por indagar. Procuremos o objetivo. Não sabíamos como interpretar-lhe a palavra. – Poderíamos seguir agora? – perguntou Hilário. e aduziu: – Sei que amanhã.. convém o contacto com outras personagens do drama que se desenrola. para compreender o serviço que nos compete e avançar com segurança. – Oh! será um prazer! – clamei. não só para cooperar. e.. a favor de suas melhoras.pelo Espírito André Luiz 33 6 Num lar cristão Propúnhamo-nos seguir o caso de Zulmira. à noite. é preciso marchar para a frente. depois de ligeira pausa: – Para realizarmos um estudo geral da situação. uma visita ao pequeno Júlio. encantado. mas. dele ouvimos judiciosas ponderações. Sernos-á interessante.Francisco Cândido Xavier . a utilidade e a colaboração no bem. contente. Pensou. mas também para registrar os ensinamentos possíveis. Poderemos substituir nossa . O Ministro refletiu por segundos e observou: – Nas responsabilidades que esposamos.Entre a Terra e o Céu . entretanto. pensou. armando-nos de lições que nos esclareçam. explicando. para isso. no domicílio espiritual em que estagia. solicitando o concurso de Clarêncio. Não nos achamos em férias e sim em trabalho ativo. para auxiliar em processos dessa natureza. – Sim – disse –.

Trarei comigo a outra companheira de nossa viagem. Tem sabido resgatar com valor as dívidas que trouxe do pretérito próximo.Francisco Cândido Xavier . com três dos quatro filhos que o Senhor lhe confiou. para comprometer-se em delituosas aventuras. Seguiremos em lugar dela. até que eu volte. A dona da casa. há quatro anos. Quanto a vocês. triste velhinho desencarnado como que se colocava à escuta.pelo Espírito André Luiz 34 cooperadora no serviço a fazer. Num recanto do compartimento humilde. atacado de fulminante pneumonia. dois rapazinhos entre onze e doze anos e uma loura pequerrucha. Trabalha com diligência numa fábrica de tecidos e educa os rebentos do lar com acendrado amor ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus. Uma senhora ainda jovem. aguardamos a noite próxima. e com ele se encontrará. descemos à matéria densa. Perdeu. o pequeno Marcos. depois de informar-nos: – Aqui reside nossa irmã Antonina. porém. em busca das irmãs que seguiriam conosco. achava-se de pé. Incapaz de vencer as tentações da própria natureza. mas extremamente abatida. Prestaremos assistência às nossas amigas e examinaremos a situação da criança. há meses. Na hora aprazada. certamente a caçula da família. junto de três lindas crianças. o marido abandonou-a. Hilário e eu penetramos a sala desataviada e estreita. auxiliem nas orações e nos estudos de Antonina. Anotando a preciosa lição de trabalho que aquelas expressões encerravam. com ansiedade real. de oito anos. . que pousava na mãezinha os belos olhos azuis.Entre a Terra e o Céu . Deixou-nos o Ministro numa casinha singela de remota região suburbana. não desanimou. de modo a seguirmos todos juntos. depois da prece que proferirá com os pequeninos.

ao acaso. restituindo o livro às mãos maternais. minha filha.Francisco Cândido Xavier . Lisbela abriu os olhos. Dona Antonina sorriu. A genitora. falou carinhosamente: – Se não me falha a memória. satisfeita. creio que a prece de hoje deve ser feita por Lisbela. tomou um exemplar do Novo Testamento e sentou-se. Logo após. recitou: – Pai Nosso que estais no Céu. o poder e a glória para sempre. convidando: – Abra. A pequenita levou as minúsculas mãos ao rosto. santificado seja o vosso nome. e exclamou: – Você orou muito bem. leu os versículos 21 e 22 do capítulo 18º das anotações do apóstolo Mateus: – “Então Pedro. Vejamos a mensagem cristã para os nossos estudos da noite. porque vosso é o Reino. aproximando-se dele. perdoai as nossas dívidas. de novo. seja feita a vossa vontade assim na Terra como nos Céus. assim como perdoamos aos nossos devedores. apoiou graciosamente os cotovelos sobre a mesa e. venha a nós o vosso Reino. até quantas vezes pecará meu irmão contra mim e eu lhe perdoarei? . O rapazinho escolheu o texto. Assim seja.pelo Espírito André Luiz 35 Dona Antonina colocou sobre a toalha muito alva dois copos com água pura. entregou o Evangelho a um deles. e procurou silenciosamente a aprovação maternal. cerrando os olhos.Entre a Terra e o Céu . emocionada. E dividindo agora a atenção com os dois meninos. não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos de todo mal. Henrique. o pão nosso de cada dia dai-nos hoje. disse: – Senhor.

Quem não sabe desvencilhar-se dos dissabores da vida. Uma pessoa que esteja parada em lembranças desagradáveis caminha sempre com a irritação permanente. dona Antonina fitou o primogênito e perguntou: – Você. iniciando a conversação. como quem aguardava a manifestação de curiosidade dos jovens aprendizes. Imaginemos vocês na escola. Uma pessoa que não sabe desculpar vive comumente isolada. meus filhos. Se não conseguirem esquecer os pequeninos aborrecimentos nos estudos. O pequeno Henrique. desmoralizando a escola e prejudicando o próprio nome e a saúde. Hoje é um colega menos amigo a preparar lamentável brincadeira. perguntou. Ninguém estima a companhia daqueles que somente derramam de si mesmos o vinagre da queixa ou da censura. com simplicidade: – Mãezinha.” Calou-se dona Antonina. não poderão aproveitar as lições. amanhã é uma incorreção do guarda enfadado em razão de algum equívoco.Entre a Terra e o Céu . inclinavanos ao melhor processo de viver em paz. quando tem sede preferiria beber a água escura de um cântaro recheado de lodo? . Nessa altura do ensinamento. Se vocês imobilizarem o pensamento na impaciência ou na revolta. não pode separar-se do mal.Francisco Cândido Xavier . que o Divino Mestre. em nos ensinando a desculpar todas as faltas do próximo. a senhora replicou: – Somos levados a crer.pelo Espírito André Luiz 36 Até sete? Jesus lhe disse: – Não te digo que até sete. mas até setenta vezes sete. assim tão grande? Demonstrando vasto treinamento evangélico. porque Jesus recomendava um perdão. afligindo a professora. poderão fazer coisa pior. Haroldo.

Jesus aconselhava-nos a perdoar infinitamente. – Assim somos também.Francisco Cândido Xavier . de semblante apoquentado. cristalina. inquieta. para que o amor. A alma que não perdoa. em nosso espírito. indagando: – Mas a senhora crê. Teu pai. assemelha-se ao vaso cheio de lama e fel. mas. Não é alguém capaz de ajudar-nos a vencer nas dificuldades da vida. Porque alimentar rancor contra o homem que te deu a vida? Como condená-lo se não sabemos tudo o que lhe aconteceu? Seria realmente melhor para o nosso bem estar se ele estivesse conosco. Não é coração que possa reconfortar o nosso. interferiu. escolherei água pura.pelo Espírito André Luiz 37 – Ah! isso não – replicou o mocinho muito sério –. Expressivo intervalo fez notar. que devemos perdoar sempre? – Como não. observando-o. se devemos suportar a ausência dele. papai abandonou-nos quando mais precisávamos dele. . Se apresentamos nossa mágoa a um companheiro dessa espécie.Entre a Terra e o Céu .. retendo o mal consigo. quase sempre nossa mágoa fica maior. que os nossos melhores pensamentos o acompanhem.. em se tratando de nossas necessidades espirituais. seja como o Sol brilhando em casa limpa. meu filho? – Ainda mesmo quando a ofensa seja a pior de todas? – Ainda assim E. dona Antonina acentuou: – Porque tratas deste assunto com tamanha preocupação? – Refiro-me ao papai – disse o menino algo triste –. Por isso mesmo. O jovem Haroldo. mãezinha. Seria justo esquecer o mal que nos fez? – Oh! meu filho! – comentou a nobre mulher – não te detenhas nesse problema.

todavia. Rogo a vocês não darmos curso a qualquer idéia triste. A reduzida assembléia recolhia as explicações. graciosa: – Mãezinha. Há serviços que não podemos pagar senão com amor. Marcos partiu ao encontro de Jesus.Francisco Cândido Xavier . mas sim que nos cabe a obrigação de honrá-los com o nosso amoroso respeito. o que a senhora quer dizer. quando Moisés. espontâneas. apressada.Entre a Terra e o Céu . ainda ponderou: – Compreendo. talvez que Marcos não tivesse morrido. em torno da memória do anjo que nos precedeu. Nada lhe faltou. Haroldo mostrou-se conformado. foi ao monte receber a revelação divina. o grande profeta. Recordando talvez que a família se achava num curso de formação cristã. uma das mais importantes determinações por ele ouvidas do Céu foi aquela em que a Eterna Bondade nos recomenda: – “Honrarás teu pai e tua mãe”. Nossa dívida para com os pais é dessa natureza. sejam eles quais forem. Nossos pensamentos acompanham no Além aqueles que amamos. Por esse motivo. Marcos nos vê? . A Lei enviada ao mundo não estabelece que devamos analisar a espécie de nossos pais. ante a evocação do filhinho. é credor de teu maior carinho. de olhos felizes e iluminados..pelo Espírito André Luiz 38 meu filho. e continuou: – Seria um erro permitir a queda de nossa confiança no Pai Celestial. Teríamos o dinheiro suficiente para tratá-lo. Nesse ponto da conversação. com a permissão do Céu. porque Jesus o chamava. mãezinha. Dona Antonina enxugou. deu-te o corpo em que aprendes a servir a Deus. Lisbela inquiriu. a dona da casa acrescentou: – Um dia.. se papai estivesse junto de nós. Entretanto. as lágrimas que lhe caíram.

Dona Antonina. A dona da casa repartiu com os pequenos alguns cálices da água cristalina que Hilário e eu magnetizáramos e. emocionada – ..Entre a Terra e o Céu . pensativa e saudosa. O petiz repetiu a prece dominical. ele nos ajuda em espírito. minha filha – esclareceu dona Antonina.pelo Espírito André Luiz 39 – Sim. devemos auxiliá-lo com as nossas preces e com as nossas melhores recordações. pedindo a Jesus forças e bênçãos para nós. e o trabalho terminou. Quando o relógio assinalou o fim do culto. retirou-se com os filhinhos para a câmara em que se recolheriam todos juntos. Enquanto os meninos comentavam com interesse os ensinamentos da noite. . mentalizando a imagem do pequenino. rogando ao Senhor abençoasse a mãezinha. demorava-se absorta. pareceu asfixiada por enormes saudades. solicitou a Henrique fizesse a oração de encerramento. Por nossa vez. porém. logo após..Francisco Cândido Xavier .

no estreito recinto em que se processara o culto familiar. dementado.. Conservando integrais remanescentes da vida física. que trazem um vulcão no centro do crânio.Francisco Cândido Xavier . Lembrei ao meu companheiro que poderíamos densificar o nosso veículo. Agora. fornecendo a impressão de recémchegados. E antes que nos pronunciássemos. Comentários dessa natureza devem ser reservados para pessoas aflitas como eu.. parecia inquieto. conseguíamos reparar o ancião desencarnado com mais atenção. acentuando: – Quem trouxe aqui a idéia de perdoar? Em que ponto me situaria na questão? Devo perdoar ou ser perdoado? Não entendo a necessidade de discussão em torno de um assunto como esse entre fraca mulher e três crianças. abatido e trêmulo. pela concentração da vontade... e apressamo-nos na providência. começou a chorar. Tentamos debalde uma aproximação.. aguardamos dona Antonina. atraímos-lhe o interesse. Não nos via. . convulsivamente. O velhinho precipitou-se para nós. Em momentos breves.pelo Espírito André Luiz 40 7 Consciência em desequilíbrio Consoante as recomendações que havíamos recebido. exclamando: – São oficiais ou praças? Estão pró ou contra? Aquele olhar esgazeado era efetivamente o de um louco..Entre a Terra e o Céu . Hilário e eu trocamos impressões de curiosidade e espanto.

por mim confiada à pérfida mulher? Durante um mês longo e terrível.. encontrei-a nos braços do traidor. qual se temesse a presença de alguma testemunha invisível.Entre a Terra e o Céu . mas surpreendi-os juntos. entretanto. e prosseguiu: – Ouçam. agira sem descansar. ante a minha aproximação deu-se pressa em . porém. mas não fui além de Tacuaral.... A formosa Ibarruri não mais me pertencia. Era propósito do Marechal requisitar-me para seu serviço exclusivo. contudo. Quando tornei ao lar. Gritando quase. Entregara-se ao amigo desleal. o que lhes digo! Ele não somente pretendia afastar-me dos favores do Marechal doente. Quem disse que não me sacrifiquei na aquisição da encantadora casinha. Devia regressar a Luque e regressei.. Lola tentou desculpar-se. sofri transferência injusta. Além de assaltar-me os direitos de enfermeiro no Quartel General. as tropas deixariam a cidade. Nosso inesperado amigo vasculhou com os olhos os recantos da sala. O infame Esteves. O General Polidoro não me abandonaria...Francisco Cândido Xavier . Sem dúvida.. naquela estrelada noite de maio.. ... por influência do meu miserável perseguidor...... daí a três dias. Afigurou-se-nos mais distante da realidade.. mais inconsciente. espetando-o com meu punhal. desviara a atenção de Lola.. mas planejava furtarme a mulher. Quis vingar-me.. de imediato... que se esgueirara na sombra. e o meu inimigo. continuou: – Tudo teria sido modificado se me houvessem facultado o encontro com o novo Generalíssimo. alteraram-se-lhe as feições fisionômicas.pelo Espírito André Luiz 41 Assim dizendo. suspirei pelo retorno aos carinhos dela.. todavia. fui constrangido a sair. Nossa pequena chácara de laranjeiras e nosso jardim estavam esquecidos.. Sua Alteza compreenderme-ia a situação. Lola Ibarruri! Como não haveria de querê-la com a paixão que me inspirou? Porque teria eu de seguir para Fecho dos Morros? O intento de me prejudicarem era evidente.

.Entre a Terra e o Céu . O ódio passou a dominarme. tanto tempo de convívio com este monstro a fitar-me..Francisco Cândido Xavier . continuou: – Ó senhores.. mas este homem realmente não me abandona! Lutei tanto!.. reconheço que este homem continua a perseguir-me por dentro!.. porque ele era impudente.... Fez breve pausa e. Encontrá-lo-ia em alguma parte. na esperança de soerguer meus restos e.. em seguida. contudo. escondendo-me neles.. ajoelhando diante de nós. procurei o sepulcro.. passou a clamar. de novo.. esquecer. se eu não tivesse o arrojo de liquidá-lo. dentro de mim!.. Assim fiz. Compreendendo. buscando autoridades que me socorram. sorrindo. desfrutei os benefícios dos santos sacramentos e admiti que tudo estivesse amplamente solucionado. imperturbável... aflito e infeliz. e. não bastaria à expiação que me compete ao resgate? Se eu confessasse o crime e me demorasse .. ainda mesmo que o meu erro fosse tão clamoroso assim.. Aparentei ignorar a realidade e busquei-o. Assassinar-me-ia. fugi para sempre do lugar que me asila os despojos e devoro ruas e praças. que somente me abalancei a semelhante ato. no rumo de Itauguá. a serviço. Devotei-me à religião. que meu desejo era de todo frustrado. entretanto.... cruel..... abraçálo-ia com a mesma cordialidade fingida com que me abraçara pela primeira vez e arrancar-lhe-ia a vida. depois de retirar-me do corpo físico sob a imposição da velhice e da enfermidade. enxugando as lágrimas. Faz muitos anos que me despedi dos ossos fatigados e perambulo.. em alta voz: – Oh!. Creiam... enceguecendo-me... esquecer..pelo Espírito André Luiz 42 viajar. carregando o inferno. por quem são!.. libertino.. estou certo de que pratiquei a justiça. longe de encontrar o céu que parece cada vez mais distante de mim. para mim. porém. sorrindo. Depois de passar as mãos pelo rosto. enveneneio. A princípio. Casei-me e organizei grande família!...

.. Gastão de Orleães era o novo comandante em chefe. Doente.. meu irmão! Quem de nós não terá desacertado no caminho da vida? Sua dor não é única.. reavivando-lhe a memória. Pelas citações que ouvíramos. percebi que o nosso interlocutor se reportava ao tempo da Guerra do Paraguai e. Contudo.Francisco Cândido Xavier . afastaram-me dele. mas muito me pesava o afastamento do Marechal. Nesse instante. Esteves. indaguei: – A que novo Generalíssimo se refere? – Ah! ignoram? E dando-nos a idéia de quem vivia profundamente arraigado a particularidades do pretérito. começou a queixar-se.. a crescer dentro de mim! Observa-me com asco e ainda lhe ouço as últimas . – Qual deles? – perguntei. como se estivesse atenazado no íntimo por forças terríveis.. buscando penetrar o labirinto de suas palavras que estabeleciam ligação do passado com o presente. Esbugalharam-se-lhe os olhos e. O Príncipe D.. As lágrimas de desesperação desajudam a alma. precisava de mim. desesperado: – Ah! não posso continuar!. Era meu amigo. aduziu: – Recordo-me com precisão. o cão infiel.... novamente ele. diante dos tribunais? Sentindo que algo nos caberia dizer à guisa de consolo... meu protetor. Ele.Entre a Terra e o Céu .... não estaria redimido. cansado.. insondáveis à nossa observação. a voz extinguiu-se-lhe na garganta. – O Marechal Guilherme Xavier de Souza. Também nós trazemos o espírito pejado de aflitivas recordações. afaguei-lhe a cabeça branca e falei. porém. Sim..pelo Espírito André Luiz 43 por menos tempo no cárcere.. tentando ser gentil: – Acalme-se... a proclamação dele era de 16 de abril.

meu amigo. até agora. Você tem orado? Tem pedido a Jesus amparo e assistência? – Sim. acrescentou: – Mas. com evidentes sinais de angústia – hei de libertar-me! hei de libertar-me! Tenho fé! Comovidamente. informando que o meu caso seria tomado em apreço. recordando. acerquei-me do pobrezinho e considerei: – Sim. Roguei-lhe proteção ao que me respondeu. a fé representa o milagroso salva-vidas de todos os náufragos. – Prometa ajudar-me! Compadeça-se de mim! – gritou o infeliz. sim. como sempre.. não tive o menor sinal de renovação do caminho... e tanto rezei que tive a felicidade de ver o Marechal. Estava mais moço e incompreensivelmente refeito.Francisco Cândido Xavier . de que a bondade de Jesus não nos faltará. que me apareceu. .. porém.. exibindo um gesto de profundo abatimento.. hipotequei-lhe a decisão de colaborar em sua paz e soerguimento. de súbito. agora. Não! Não! – bradava ele. De coração.. fui à Igreja do Rosário. intimamente tocado por semelhante apelo... Acariciei-lhe a nevada cabeça e considerei. comovidamente: – Esteja convencido. que eu descansasse... na véspera de minha partida para a guerra.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 44 palavras no estertor da morte. maior é a compaixão de Deus que nunca nos desampara. E. – E ainda não lhe chegou qualquer sinal de socorro celeste? O infortunado centralizou em mim o olhar inquieto e informou: – Há alguns dias. pois ainda que os nossos erros sejam grandes. a visita que fiz até lá.

porém. na tela das recordações que o atormentam. guiando a outra pupila que nos acompanharia na excursão. Saudado pelo velhinho. afagou-lhe a fronte e avisou-nos: – Permanece dementado.. . guardou-o nos braços com paternal carinho. manteve-se a distância. meu irmão? – Venho suplicar o socorro de Antonina.Francisco Cândido Xavier . Podemos conhecer o delito. foi empregado do Marechal Guilherme Xavier de Souza e hoje conserva a mente detida num crime de envenenamento em que se envolveu.. A missa é celebrada em pleno campo por um frade capuchinho. O mentor.. Nosso amigo. só ela me oferece asilo na oração.. É a única pessoa que se lembra de mim com amor.. conquistando-lhe a confiança e inquiriu: – Que procura. Vimo-lo concentrar-se por momentos. Mais experiente que nós outros. E. informou: – Temos aqui nosso irmão Leonardo Pires. após cumprimentar-nos.. densificando-se para auxiliar com mais presteza. A mente dele fixou-se em recordações que o obcecam. muito moço ainda.. 11 de julho de 1869..Entre a Terra e o Céu . Quando jovem.. está presente..pelo Espírito André Luiz 45 Quando o infortunado ancião procurava abraçar-me. em seguida.. Não se mostra. Simpática e humilde.. É um domingo de festa em campanha. num átimo. porque reiniciasse as referências lamuriosas. quando integrava as forças brasileiras acampadas em Piraju. no Paraguai. o Ministro colocou a destra sobre a cabeça de nosso interlocutor... Dentre os numerosos membros de minha família. em suas particularidades. Clarêncio chegou. desencarnado há cerca de vinte anos. O Conde d’Eu. aparece no corpo da infantaria. minha neta... como a sondar-lhe o íntimo em minuciosa perquirição e. compreendeu o que se passava. com a luzida oficialidade do seu Quartel General.

.. demorando-se agora em outros setores de luta. enfermeiro em serviços especiais. mas Leonardo Pires vive com a imagem do assassinado que se revitaliza. no ato religioso.. Pires. que pronuncia brilhante e inspirada alocução para os convidados.... experimenta estranhas vertigens e morre praguejando. Olvida quase todos os demais episódios da existência para centralizar-se apenas nesse. convida Esteves para refeição mais íntima.. Esteves entrosa-se com as impressões de Leonardo. Convive ainda com a requestada mulher. com os seus trinta anos bem feitos... O acontecimento é recebido com admiração. contudo. finge ignorar-lhe a situação e insinua-se maneiroso e gentil.. inconformado com os favores da criatura amada para com o patrício que ele odeia.Entre a Terra e o Céu . lhe oferece um copo de vinho com o veneno fatal. deixando vários descendentes. valetudinário... Um médico argentino é chamado a opinar e verifica o envenenamento. de regresso à terra natal. desinteressa-se dela e casa-se no Brasil.. As tropas deveriam seguir rumo a Paraguari e o caso é encerrado sem maior investigação. Fita com impertinência um companheiro recém-chegado de Itauguá. que abandonou o marido e um filho pelo prazer da aventura. Desencarna.pelo Espírito André Luiz 46 interessado nas graves advertências do sacerdote. na memória dele.. confia nele e conversa. Terminada a festa.Francisco Cândido Xavier .. loquaz.. Leonardo acompanha o Exército para a vanguarda e tenta esquecer o ocorrido. irrequieto brasileiro de olhos escuros e inteligentes. reconhece que a lembrança do crime lhe castiga o mundo interior. de garboso porte..... comentam entusiásticos as noitadas do Rio.. por mais algum tempo... nem no apelo ardente e patriótico do Generalíssimo. E. o irmão que observamos. José Esteves já reencarnou. O companheiro bebe. juntos. até que o vingativo colega.. na taverna improvisada.... mas. ao influxo das sugestões da própria consciência que se considera .. todavia. as autoridades julgam o silêncio mais acertado.. no leito de morte. cada dia.... Partilha com o nosso amigo o afeto de linda mulher desquitada. ansiosos pelo retorno às seduções da retaguarda. É José Esteves.

. Como vemos. .pelo Espírito André Luiz 47 culpada... surgiu à porta da câmara em que o seu corpo dormia. vindo ao nosso encontro. natural. em seu veículo sutil. porém. é a Lei de causa e efeito a cumprir-se. Nesse instante. Antonina.Entre a Terra e o Céu .Francisco Cândido Xavier ..

. o meu ferrenho inimigo. O velho sorriu conformado e aquietou-se.pelo Espírito André Luiz 48 8 Deliciosa excursão O velhinho desencarnado demonstrava absoluta indiferença. mas.Francisco Cândido Xavier .. cumprirão a palavra. como se a presença da nobre senhora lhe despertasse novo interesse. Não me abandones!. recomendou: – Você pode igualmente auxiliá-la.Entre a Terra e o Céu . Amanhã.. paternal. ante a descrição do nosso orientador. E abraçando-o.. fixou-o. que fora do corpo denso se mostrava muito mais delicada e mais bela.. por sua vez. por algumas horas. no momento. . decerto. Tenho medo! muito medo!. Guarde-lhe a casa. Tentava agora enlaçá-la. fitou-a. morando em minha consciência. e inquiriu com amargurado semblante: – Vovô. A interpelada. Ele. em nossa companhia. com exceção de ti. Assemelha-se a um demônio. de olhos subitamente iluminados. mas Clarêncio interferiu.. e bradou: – Antonina! Antonina!.. Socorre-me. enquanto os meninos repousam. precisa ausentar-se. o socorro de que necessita. aflito. amigo! Nossos irmãos prometeram ampará-lo e. me tortura por dentro.. que fazes? O ancião curvou-se e implorou: – Ajuda-me! Todos na família me esqueceram. Nossa abnegada Antonina. receberá. indicando-nos: – Ouça. triste.

entretanto. de modo a solver com dignidade nossos velhos compromissos. Somos viajores nos milênios incessantes. devemos abraçar a luta na carne. sem jamais desmerecê-la. Atingindo formosa paisagem. compreendemos quanta inquietação punge o espírito reencarnado. de longe. maravilhada: – Porque não transformar esta excursão em transferência definitiva? Pesa o corpo. hoje nos cabe auxiliar. Entrelaçando as mãos e conservando nossas irmãs no circuito fechado de nossas forças.. largando para trás o deslumbramento da aurora. é indispensável saibamos louvar a oportunidade de servir. que se mostravam extáticas e felizes.pelo Espírito André Luiz 49 Deixando-o a sós. empreendemos a formosa romagem. – É verdade – concordou a outra irmã. Ontem fomos auxiliados. Quem na Terra poderá imaginar as deliciosas sensações da alma livre? Viajando com a rapidez do pensamento.Francisco Cândido Xavier . olvidando os pesares e os dissabores do mundo? – Compreendemos – ajuntou o Ministro. generoso –. quando conseguimos sentir a Terra.. mormente quando desperto para a beleza da vida superior. ...Entre a Terra e o Céu . Dona Antonina. que se sustentava em nós –. na sala estreita. à maneira de insuportável cruz de carne. saímos para a noite. Achamo-nos ainda distantes da redenção total e todos nós. avançamos à frente da sombra noturna. porque não nos é dado permanecer. banhada de suave luz. em colorido e cantante dilúculo. com alternativas mais ou menos longas. em que um parque imponente e acolhedor se distendia. inquiriu. fixei o semblante de nossas companheiras. amparando-se em Clarêncio qual se fora uma filha apoiada nos braços paternos.

Clarêncio sorria. vocês visitarão filhinhos abençoados que a morte lhes arrebatou temporariamente ao convívio terrestre. revigorando-nos as energias e induzindo-nos a respirar a longos sorvos. Vocês se sentem como que num palácio dourado. Flores de contextura delicada pendiam abundantemente de árvores vigorosas.pelo Espírito André Luiz 50 À medida que avançávamos. mesclada de alegria. Emudecera-se-lhe a palavra. ondas de perfume acentuavamse. de imediato: – Se hoje abandonassem o veículo de matéria densa. embalsamando as leves virações que sussurravam encantadoras melodias. como se estivesse irradiando insopitável curiosidade.. Sentíamo-nos todos magnetizados e enternecidos ante a beleza do quadro que nos prendia a admiração. mas sem perder a brandura que lhe era peculiar. considerou. voltou a exclamar: – Ah! se morrêssemos hoje!. fitando Antonina com bondade misturada de compaixão.Francisco Cândido Xavier . se a carne não nos pesasse mais!. O Ministro. mas. Como se trouxesse agora todo o busto engrinaldado de luz... O atormentado lar humano cresceria de . em pleno paraíso de amor. quem diz que seriam felizes? Quem de nós obterá a suprema ventura. imprimindo mais grave entonação à voz.. e os filhinhos que ficam? Haverá Céu sem a presença daqueles que amamos? Teremos paz sem alegria para os que moram em nosso coração? Imaginemos que as algemas do cárcere físico se partissem agora. bondoso.. contudo.Entre a Terra e o Céu . observou: – Agora... em torno de nós.. sem a perfeita sublimação pessoal? E. Antonina. porém.

o instrutor continuou: – Somos devedores uns dos outros!. à maneira de forte raiz retendo a árvore no solo escuro.Francisco Cândido Xavier . e nós. – É pelo trabalho – prosseguiu o orientador – que nos despojamos. de nossas imperfeições. tanto quanto não existe purgatório integral para quem regressa ao humano sorvedouro! O amor é a força divina. repentinamente vivificadas. experimentei mais alta veneração pela Natureza. Nossas irmãs... A Terra...Entre a Terra e o Céu ..pelo Espírito André Luiz 51 vulto na saudade que as tomaria de assalto. tocadas por júbilo inexprimível. as lutas e as provas dos rebentos menos felizes da existência lhes falariam ao espírito mais imperiosamente que os cânticos de bem-aventurança dos filhos afortunados e.. diante de nós. a favor das criaturas amadas. naturalmente. Na paisagem banhada de luz. desceriam do Céu para a Terra. em todas as esferas. é sempre um livro revelador da Eterna Sabedoria. As duas mulheres ouviram as sensatas ponderações sem dizer palavra. não há paraíso perfeito para quem volta da Terra. pouco a pouco. Por enquanto. A lembrança dos filhos aprisionados no Planeta acorrentá-las-ia ao mundo carnal. . não é senão energia condensada em época imemorial. preferindo a posição de angustiadas servas invisíveis. Os rogos e os gemidos. agitada e transformada pelo trabalho incessante.. de vez que a ventura maior de quem ama reside em dar de si mesmo. afiguravam-seme formosas madonas de sonho. alimentando-nos em todos os setores da vida e o nosso melhor patrimônio é o trabalho com que nos compete ajudar-nos mutuamente.. em sua velha expressão física. Laços mil nos jungem os corações. trocando a resplendente glória da liberdade pelos dolorosos padecimentos da prisão. que. Finda a pausa ligeira.

a serviço de nosso espírito imortal... enquanto nossa deliciosa excursão prosseguia.. que parecia mais acordada que a sua companheira. qual ouro que se acolhe no chão. Nosso amor ainda é insignificante migalha de luz. não sabemos orientar os nossos desejos para o melhor. em constantes peregrinações...Francisco Cândido Xavier . arrastando-se.. Todavia. sepultada nas trevas do nosso egoísmo. de ascensão em ascensão. sim. no corpo gigantesco da escória. em movimentação para a glória da verdadeira vida e só pelo trabalho. adquirindo experiências que lhe são valiosas. Assim como as fibras do cérebro são as últimas a se consolidarem no veículo físico em que encarnamos na Terra.Entre a Terra e o Céu . no templo de nossa alma. trabalha em benefício do solo e de si mesmo. conquista os valores indispensáveis à sublime ascensão. célere –. nos mais diversos degraus da escada evolutiva. em luta perene. perguntou. o vegetal. alcançaremos o real objetivo de nossa marcha! Antonina. a memória perfeita é o derradeiro altar que instalamos. é útil à gleba em que se desenvolve. com enlevo: – Porque não guardamos a viva recordação de nossas existências anteriores? Não seria bendita felicidade o reencontro consciente com aqueles que mais amamos?. respirando e frutescendo. – Sim. no Planeta. – confirmava Clarêncio. nossa memória gradativamente converte-se em visão imperecível. em definitivo. ajuda a atmosfera e auxilia-se. ajustado à Lei Divina. mas. na condição espiritual em que ainda nos situamos.pelo Espírito André Luiz 52 as criaturas de Deus.. em porções infinitesimais. ainda se encontra em fases iniciais de desenvolvimento... O verme. O animal. de existência a existência. que. É por isso que nossas recordações são fragmentárias. através do serviço... para a contemplação do excelso quadro que nos circundava. através de formas variadas. Somos filhos da eternidade. aprimoramos faculdades e crescemos em conhecimento e sublimação. . e nossa alma..

arquivando em si mesmo todos os lances da vida. mas somente mais tarde. Ainda não sabemos querer sem desprezar. Viveremos. é que conquistaremos a soberana serenidade. com os resultados de nossas ações.. por enquanto. identificando-os. Sem o esquecimento transitório. O Ministro fez ligeiro intervalo. é invariavelmente a Lei. em qualquer trato do solo. que se consagra aos desígnios superiores. quando o amor e a sabedoria sublimarem a química dos nossos pensamentos. indiscutivelmente. bondoso – e. não saberíamos receber no coração o adversário de ontem para regenerar-nos.Entre a Terra e o Céu . assim como a árvore. se pudéssemos rever os semblantes amigos de outras eras. sem paixão. – aventurou Antonina.. seria recuperar igualmente os piores – atalhou Clarêncio. contudo. O firmamento parecia responder às sugestões da palestra admirável. capaz de abranger o pretérito em sua feição total. para formar com eles o mapa do destino.. produzirá conforme a espécie a que se subordina.pelo Espírito André Luiz 53 – Mas se pudéssemos reconhecer no mundo os nossos antigos afetos.. . reverente. De qualquer modo. A Lei é sábia. padece deploráveis inclinações. de acordo com os princípios de causa e efeito que nos governam a estrada. Nossa afetividade. – Retomar o contacto com os melhores. não olvidemos que nosso espírito assinala todos os passos da jornada que lhe é própria. porém. não possuímos até agora o amor equilibrado e puro. em qualquer parte. sorriu paternalmente para nós e rematou: – A Lei. Bandos de aves mansas pousavam na ramaria que brilhava não longe de nós. regenerando-o. amparar sem desservir.Francisco Cândido Xavier .

provocando indefiníveis combinações de cor e luz.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . até agora desconhecidos à apreciação comum na Terra. harmonioso casario surgiu ao nosso olhar. Centenas de gárrulas crianças brincavam entre fontes e flores de maravilhoso jardim. Por abençoada e colorida colméia de amor. .pelo Espírito André Luiz 54 O Sol apresentava perceptíveis raios diferentes.

– Nesta hora. Nossas companheiras pareciam agora tomadas de jubilosa aflição..pelo Espírito André Luiz 55 9 No Lar da Bênção Clarêncio movimentou a destra.Francisco Cândido Xavier . vibrava no ar. precipitando-se para os anjinhos que cantarolavam alegremente. colando-selhe ao peito. de inopino. muitas irmãs da Terra chegam em visita a filhinhos desencarnados. porém.Entre a Terra e o Céu . indicando-nos o quadro sublime a desdobrar-se sob a nossa vista. gritando. – É o Lar da Bênção – informou o instrutor. como a solicitar-lhes .. – Mãezinha! Mãezinha!. dona Antonina abraçou um pequeno de formoso semblante. Aqui e ali. misto de escola de mães e domicílio dos pequeninos que regressam da esfera carnal. interrompeu-se. Enquanto a que nos era menos conhecida enlaçava louro petiz. que se responsabilizavam pelos entretenimentos no parque.. – respondeu a criança. de improviso. com infinito contentamento a expressar-se em lágrimas.. feliz: – Marcos! Marcos!. qual se fossem atraídas por forças irresistíveis. satisfeito. cantando um hino delicado de exaltação do amor materno. Temos aqui importante colônia educativa. O Ministro. sob tufos de vegetação verde-clara. Doce melodia que enorme conjunto de meninos acompanhava. Clarêncio fez sinal para as irmãs vigilantes. muitas senhoras sustentavam lindas crianças nos braços. Vimo-las desgarrar.

desabrochavam profusamente. A irmã Blandina recebeu-nos sorridente. no assunto. Ainda sofre anormalidades que lhe não permitem o convívio com as crianças felizes. bondosa. onde um menino repousava num leito muito branco. de mistura com outras flores. em seguida: – O pequeno Júlio não se encontra no grupo. Desejávamos avistar o pequeno Júlio. coroadas de trepadeiras em flor. respondeu gentilmente: – Ah! com muito prazer! E. Ainda grita sob pesadelos inquietantes. apresentando-nos uma senhora simpática que lhe fora avozinha no mundo. em que se destacavam as ogivas azuis. todos os dias. Acha-se no lar da irmã Blandina.Francisco Cândido Xavier . Chama pelo pai constantemente. direto. chegávamos diante de pequenino castelo muito alvo. Mariana. Blandina. que em plena juvenilidade trazia nos olhos os característicos de sublime madureza de espírito. embalsamado de aroma. explicou. até hoje. que havia desencarnado por afogamento. Rosas opalinas. Clarêncio tocou. e dissenos. Atravessamos extenso jardim. .Entre a Terra e o Céu . Em poucos minutos. nossa nova amiga. ignoradas na Terra. encaminhando-nos a iluminada peça. sem afetação: – Nosso Júlio. ainda não se refez completamente. apesar de parecer mais receptivo ao nosso carinho. cumprimentou-nos. Rumemos para lá. ornamentada de róseos enfeites.pelo Espírito André Luiz 56 proteção e carinho para as nossas associadas de excursão. como se estivesse a sofrer sob as águas. Insiste pela volta a casa. Findas as saudações usuais.

acrescentou: – É um paciente difícil. Traz a mente desorganizada por longa indisciplina. em voz rouca. antes da reencarnação que o aguarda. Bem humorada. Entretanto. – Que te incomoda. dispomos da cooperação de nossa devotada Mariana. meu filho? . Passes e remédios não faltam. Eulália tem vindo até nós. – clamou o pequeno. permaneceu mudo e impassível. com humildade –. erguendo-se e enlaçando Blandina. Foi preciso segregá-lo neste quarto. – E a irmã conhece o caso em suas particularidades? – Sim.Entre a Terra e o Céu . até que retorne ao lar terrestre. Lastimo que a mãezinha de nosso doente não esteja em condições de ampará-lo. ninguém mais da família o ajuda. – Ainda não se mostrou em condições de partilhar os estudos com os outros? – perguntou o Ministro. Creio que o concurso dela poderia insuflar-lhe novas forças. mas. O menino lançou-nos um olhar de atormentada desconfiança. – Não – informou a interpelada. os nossos benfeitores Augusto e Cornélio. – Diariamente recebe o auxílio necessário – esclareceu Blandina.Francisco Cândido Xavier . que o adotou por filho espiritual. com exceção da irmãzinha que se lembra dele nas orações. tamanha é a gritaria a que se entrega por vezes. aliás. que nos amparam freqüentemente. – Mãezinha! Mãezinha L. – Mas não tem recebido o tratamento magnético aconselhável? – indagou Clarêncio. Felizmente.. são de parecer que ele não conseguirá adquirir aqui qualquer melhora real. pálido e inquieto. eu mesma sou a enfermeira. solícita –. conheço. contido pela ternura da irmã que o assistia.pelo Espírito André Luiz 57 Acercamo-nos do berço largo em que descansava. interessado. atencioso.

meu filho? O menino.. com ternura. induzi-lo ao descanso.. caminhou para o Ministro. resolvendo. O orientador aplicou-lhe recursos magnéticos especiais e. visivelmente satisfeita. sentou-o numa poltrona e solicitou a colaboração de Clarêncio. Quando tornou à sala. – lamentou-se o rapazinho. pediu-lhe abrisse a boca e. É impossível que a dor não fuja apressada. hesitante. A abnegada jovem acolheu-o. Júlio voltou à tranqüilidade. principalmente na região das cartilagens aritenóides. e recomendou: – Não te aflijas. em poucos instantes. tenho sono. afetuosa – onde está agora a garganta dolorida? E. notamos que a fenda glótica. Como é que um moço de teu valor pode chorar.Entre a Terra e o Céu . beijou-lhe a destra com respeitoso carinho e balbuciou: – Muito agradecido. . O Ministro. cuidadoso.pelo Espírito André Luiz 58 – Dói-me a garganta.Francisco Cândido Xavier . assim por nada? Imagina! Temos três médicos em casa. Clarêncio informou que doara ao enfermo energias anestesiantes. Logo após.. osculando-lhe os cabelos. apresentava extensa chaga. mas Júlio correu para o seu regaço. por isso. choramingando: – Mãezinha. surpreendidos. amparando-o.. – Então? – falou Blandina. Blandina ia dizer algo. Notara-o fatigado. acrescentou: – Já agradeceste ao nosso benfeitor. reconduzindo-o ao repouso. A jovem benfeitora abraçou-o.

sorveu grande quantidade de corrosivo. todavia. encontra dificuldades naturais para recuperar-se. Lutará muito.Entre a Terra e o Céu . talvez porque nos percebesse o cérebro esfogueado de indagações. Uma criança doente é sempre um espetáculo comovedor.Francisco Cândido Xavier . Infelizmente. de múltiplas maneiras. Salvo. aniquilando o veículo físico que lhe fora emprestado por valiosa bênção. . A Bondade Divina nos assiste. mas em todos os lugares viveremos jungidos às conseqüências dos próprios atos. sobreviveu à intoxicação. sem recuar. confiou-se a extrema revolta. quanto àquela minúscula garganta ferida. nela encontrando o afogamento que o separou do envoltório carnal. de vez que somos herdeiros de nossas próprias obras. Júlio envolveu-se em compromissos graves. burlou a vigilância dos companheiros que o guardavam e arrojou-se a funda corrente de um rio. sofreu muito. carregando consigo as moléstias que ele mesmo infligira à própria garganta e os pesadelos da asfixia.pelo Espírito André Luiz 59 E. antes de incorporar-se a novo patrimônio físico. no século passado. até que reencarnou. Rendendo-se à paixão. o Ministro explicou: – É pena. Ninguém pode trair-lhe os princípios. Foi assim que. alimentou a idéia de suicídio. não se conformando com o auxílio dos colegas que o puseram fora de perigo. comentávamos a sublimidade da Lei. Desentendendo-se com alguns laços afetivos do caminho. porém. acentuou: – Há poucos instantes. assinalando-nos decerto as dúvidas. depois da morte do corpo. Registrávamos aqueles apontamentos com dolorosa admiração. em razão das úlceras que se lhe abriram na fenda glótica. o prestimoso amigo. junto das almas com as quais se mantém associado para a regeneração do pretérito. não obstante enfermo. Ainda aí. a tempo. amparando-nos o reajustamento. Não nos atrevíamos a manifestar nossos pensamentos de estranheza. Na vida espiritual. mas perdeu a voz.

busquei aspirar. a longos haustos. antes de enunciar qualquer pergunta. que carreavam para o recinto vagas sucessivas de agradável perfume.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . mas.pelo Espírito André Luiz 60 O assunto constituía preciosa sugestão para interessantes estudos. . as baforadas frescas de vento.

Não cuidam senão dos próprios interesses. Poderíamos receber de sua experiência alguns exemplos objetivos? – indagou Hilário.Entre a Terra e o Céu . curioso. contudo. E sorrindo. como frutos verdes da árvore em que se desenvolvem. considerou.... gentil – temos para demonstração mais prática os absurdos da megalomania intelectual. violentamente. à espera de oportunidades favoráveis para a aquisição dos valores de que necessitam. entretanto tenho observado milhares de meninos que. com interesse: – Efetivamente.Francisco Cândido Xavier . Tenho visitado departamentos de reajuste em que se demoram irmãos nossos. que parecia bastante versada nas questões da infância. de perto. bondosa. na Terra. – ponderou a nossa interlocutora. Quase sempre dispõe de afeiçoados que a seguem. acrescentou: – O caso de Júlio não é para mim dos mais dolorosos. – Ah! são muitos!. associando-se à conversação que Clarêncio desenvolvia. a Lei é invariável. abominam o sentimento elevado que interpretam por pieguismo e transformam a cabeça num laboratório de perversão dos valores da vida. sofrem muitíssimo.pelo Espírito André Luiz 61 10 Preciosa conversação Blandina.. que não se acautelam contra os desvarios da inteligência e fazem da astúcia e da vaidade o clima em que respiram. amparando-lhe o destino. Insistem na inércia do coração.. pela natureza das provações em que se envolveram. a criança desencarnada muitas vezes é problema aflitivo. não amam senão a si . Há pessoas.. arrancados à carne. Processos de mente enfermiça que só abençoadas estações regenerativas na carne conseguem curar.

jazem obcecadas pela idéia do prazer e da posse e. contudo. contudo. há mulheres cujo coração ainda se encontra em plena sombra. as delongas na solução dos compromissos assumidos acarretam enormes padecimentos nas criaturas que se submetem aos cho- . na luta mundana. carinho e renúncia. necessitados de silêncio e solidão para se desvencilharem dos envoltórios inferiores em que se enredaram. teríamos tão somente pevides secas. lhes favorecem a morte. O solo expulsá-las-ia e. assim como a semente precisa do isolamento na cova escura para desintegrar os elementos pesados que a constringem. Semelhantes criaturas naturalmente são vítimas de si mesmas e sofrem os mais complicados desequilíbrios mentais. em vez dos germens libertados para a vitória da plantação. O infanticídio inconsciente e indireto é largamente praticado no mundo. dispostas a sofrer e a morrer pelo bem-estar dos rebentos que a Providência Divina lhes confiou às mãos ternas e devotadas. A moça esboçou inteligente sorriso e continuou: – Imaginemos que a terra se recusasse a auxiliar as sementes que esperam reviver. voltam à carne.Francisco Cândido Xavier . Mas. conhecidos e desconhecidos. esse êxito é ilusório. após a transição da morte. que se ressecam interiormente e nem imaginam os resultados cruéis da cerebração para o mal. despreocupando-se dos filhinhos. Não percebem. Depois de períodos mais ou menos longos de purgação. Freqüentemente. Caem sob o guante da morte com grande alívio dos contemporâneos e passam a receber-lhes as vibrações de repulsa. em aflitiva inquietude. Em verdade.Entre a Terra e o Céu . desorientando a lavoura. para novo desabrochar. E como o débito reclama resgate. Mais fêmeas que mães. com vastíssimo potencial de influência sobre amigos e adversários. a maioria das mães é constituída por sublime falange de almas nas mais belas experiências de amor e sacrifício. avultam na condição de dominadores poderosos.pelo Espírito André Luiz 62 mesmos.

Em regra geral.pelo Espírito André Luiz 63 ques biológicos da reencarnação e vêem prejudicadas as suas esperanças de quitação com a Lei. entretanto. muitas vezes somos constrangidas a assistir ao malogro de nossos melhores propósitos. conseguimos restabelecer a harmonia. – Nesses casos. com a recuperação desejável. mas. Inquiri: – Mas a Lei não traçará princípios inamovíveis? Pretenderá a irmã dizer que uma criança pode desencarnar. através de rixas incessantes. comprometendo a estabilidade orgânica dos recém-natos. atendendo a serviços de socorro e sublimação.. que reclamam desvelado carinho... e encontramos mulheres invigilantes que confiam o lar a pessoas ainda animalizadas. há um programa estruturado na Espiritualidade para as nossas tarefas humanas. Em algumas ocasiões. multidões de criaturas cedo se afastam do veículo carnal. sem dúvida – atalhou o Ministro.Entre a Terra e o Céu . . arruinando-lhes a saúde. – interferi.Francisco Cândido Xavier . – Aqui – explicou Blandina. projetam raios magnéticos de natureza mortal sobre os filhinhos tenros. no entanto. em numerosas circunstâncias a negligência e a irreflexão dos pais são responsáveis pelo fracasso dos filhinhos. delicada – recebemos muitas solicitações de assistência. a benefício de pequeninos ameaçados de frustração. fora do dia indicado para a sua libertação? – Sim. pertence-nos a condução dos próprios impulsos dentro delas. que. não se envergonham de ministrar hipnóticos a entezinhos frágeis. Vemos casais que. buscando maiores esclarecimentos. à cata de satisfações doentias. que nos escutava –.. Temos irmãs que por nutrirem pensamentos infelizes envenenam o leite materno. Ante a pausa que se fizera natural.

Entre a Terra e o Céu . a sua personalidade de adulto. Aquilo que não se realiza num século. mais cedo atinge a vitória. é o que acontece – esclareceu Blandina. de imediato. Contudo. supúnhamos que os inocentes. E com o formoso sorriso que lhe bailava no semblante juvenil. e. porque o tempo é inflexível e porque o trabalho que nos compete não será transferido a ninguém. depois da morte. Hilário. permaneciam recolhidos ao descanso do limbo. que acompanhava a conversação com extremo interesse. Nossa boa vontade e nossa aplicação aos Desígnios Divinos podem abreviar qualquer espécie de serviço. Conhecemos grandes almas que renasceram na Terra por brevíssimo prazo. sem a glória do Céu e sem o tormento do inferno. afinal. – Em muitas situações. recobrando. percebendo-me a indagação íntima. logo após o serviço levado a efeito. assumindo o comando mental de si mesmo. afetuosa –. pode efetuar-se em outro. quando o Espírito já alcançou elevada classe evolutiva. para a grande maioria das crianças que desencar- . adiantou: – Nesses casos. acreditávamos que o menino desencarnado retomasse. simplesmente com o objetivo de acordar corações queridos para a aquisição de valores morais. As provas e tarefas sofrem dilação no tempo. mas serão cumpridas. nos últimos tempos. na Terra. porém. adquire o poder de facilmente desprender-se das imposições da forma. Quem persiste na direção do bem. a respectiva apresentação que lhes era costumeira. acrescentou: – Não vale fugir às responsabilidades.Francisco Cândido Xavier .. considerou: – Antigamente.. ainda e sempre. com as novas concepções do Espiritualismo.pelo Espírito André Luiz 64 Blandina. a Lei é invariável. conforme a teologia clássica. superando as dificuldades da desencarnação prematura.

podemos entender com mais segurança. com emoção –. por isso.Entre a Terra e o Céu . depois do conflito biológico da reencarnação ou da desencarnação. acham-se relativamente longe do autogoverno. Sempre fui possuído de aflitivo assombro. Blandina sabia associar a compreensão e a graça. – E que dizer dos desastres irremediáveis – considerou Hilário. na tenra organização infantil. Encantávamos as exposições claras e simples de nossa interlocutora. os processos dolorosos das enfermidades congênitas e das moléstias insidiosas que assaltam a meninice no mundo. E a variação desse tempo dependerá da aplicação pessoal do aprendiz à aquisição de luz interior. Em suas fórmulas verbais singelas e acessíveis. Jazem conduzidas pela Natureza. cuja palavra tangia com tanta felicidade graves problemas da vida. da encefalite letárgica e da meningite.pelo Espírito André Luiz 65 nam. à maneira das Criancinhas no colo maternal. instruindonos com discernimento. o tempo deve funcionar como elemento indispensável de restauração. o caminho não é o mesmo. diante das anotações que lhe definiam a valiosa posição cultural. Ponderei: – Usando semelhantes apontamentos. Almas ainda encarceradas no automatismo inconsciente. É por esse motivo que não podemos prescindir dos períodos de recuperação para quem se afasta do veículo físico. da lepra e do câncer. através do próprio aperfeiçoamento moral. Não sabem desatar os laços que as aprisionam aos rígidos princípios que orientam o mundo das formas e. penetrávamos inquietantes enigmas da puericultura. exigem tempo para se renovarem no justo desenvolvimento. Comovido. para quantos se acham nos Primeiros degraus da conquista de poder mental. na fase infantil.Francisco Cândido Xavier . à frente do mongolismo e da epilepsia. de vez que. dos desastres que arrebatam adoráveis flores .

que ali se achava. perante corpinhos dilacerados. na essência. Pesado silêncio pairou no recinto. para que não seja um quadro de conclusões falhas ou de todo irreais. procurei resposta às terríveis inquirições que nos atormentam. absorvendonos os tóxicos e resíduos de sombra que trazemos no corpo substancial.Entre a Terra e o Céu . de súbito. Porque se dedicara ela. acentuou: – A carne. junto de nós. – Sim – esclareceu a enfermeira. não atingiríamos o próprio reajustamento. Bem humorado.pelo Espírito André Luiz 66 do lar. sem elas. com mais insistência. com discrição. mas também uma espécie de carvão milagroso. deixando inconsoláveis pais e mães? Por vezes numerosas. perguntando. de certo modo. Voltando à Terra. a trabalhos tão complexos? Não seria mais justo ouvir aquela conversação dos lábios da simpática Mariana. em sua posição de matrona respeitável? Externei os meus pensamentos. . – Cada qual de nós renasce na Terra – apreciou o Ministro – a exprimir na matéria densa o patrimônio de bens ou males que incorporamos aos tecidos sutis da alma. a figura suave de Blandina. atraímos os acontecimentos agradáveis ou desagradáveis. como flor aberta que se fechasse. então. nos hospitais de sangue. bondosa –. Blandina apagou a luz do sorriso que lhe adornava o semblante. mas. Reparei. segundo os títulos de trabalho que já conquistamos ou conforme as nossas necessidades de redenção. à jovem o porquê da grave tarefa de que se incumbia. assim. sem conseguir ausentar-me do escuro labirinto.Francisco Cândido Xavier . A patogenia. em muitas circunstâncias não é apenas um vaso divino para o crescimento de nossas potencialidades. as reparações nos martirizam na carne. envolve estudos que remontam ao corpo espiritual.

quase conselheiral: – Fui casada em minha última existência e somente há três anos terrestres me vejo. na vida espiritual. sinto grande afeição pelas crianças..Entre a Terra e o Céu . Clarêncio fez mudo sinal para mim e a conversação foi canalizada para outro rumo. O assunto descambava para um círculo particular. . Contudo. em meus sonhos recentes de mulher. Não pude acariciar um filhinho.. adoçou a expressão fisionômica e falou. mas hoje sei que preciso reeducar-me no amor de mãe. Realmente. tenho igualmente enormes dívidas morais para com elas.Francisco Cândido Xavier . Por isso mesmo. consoante os débitos que contraí no passado. de novo. que devia ser sagrado aos nossos olhos. generosa e simples.pelo Espírito André Luiz 67 Mas.

Entre a Terra e o Céu . em serviço de cooperação. sob os meus cuidados. nossa casa é uma larga escola. nos quais muitas almas femininas se reajustam para a venerável missão da maternidade e conosco multidões de meninos encontram abrigo para o desenvolvimento que lhes é necessário. entretanto. ao que ela informou. O nosso educandário guarda mais de duas mil crianças. permanecem apenas doze. O parque é uma das várias dependências de vasto estabelecimento de assistência e educação. Tenho tarefas variadas aqui e alhures. esmiuçador. do qual somos hoje tutelados. em benefício dos que vão renascer na carne e dos que se dirigirão. aderindo à renovação da palestra. na antiga casa de fé religiosa a que me afeiçoei. indagou da irmã Blandina se ela era a dirigente do parque em que nos achávamos. dotada com todos os recursos indispensáveis ao nosso aproveitamento. – E a direção central? – inquiriu meu colega. mais tarde.Francisco Cândido Xavier . salientando-se que quase todos se destinam ao retorno à Terra para a reintegração no aprendizado que lhes compete. . – Não reside aqui. Os melhores processos de habilitação espiritual funcionam conosco. mas o amor que ainda trago por velhos companheiros de luta humana constrange-me a larga demora. mas. às Esferas Superiores. sou mera servidora. – Mas possuem aqui até mesmo os cursos primários de alfabetização? – Não estranhem. Partilho com Blandina o estudo das leis divinas para renovar-me em espírito. com vistas ao grande futuro. Somos um grande conjunto de lares. No fundo.pelo Espírito André Luiz 68 11 Novos apontamentos Hilário. com humildade: – Não me atribua tamanho crédito.

quase sempre mantida pelo sacerdócio nos ofícios. segundo as possibilidades de recepção que demonstrem. A mente que se coloca em prece estabelece um fio de intercâmbio natural conosco. As instituições e as almas que se voltam para o Pai Celestial recebem o suprimento de recursos de que necessitam.Francisco Cândido Xavier . – Mas não de maneira ostensiva – alegou o nosso companheiro. qual vem sendo levado a efeito.Entre a Terra e o Céu . é sempre possível algo fazer em benefício do próximo. constituem sólido entrave contra o auxílio celeste. superando tais obstáculos.. Interessado. enquanto a atenção da alma se prende a exterioridades. irradiando-se para todos. mais ampla é a zona lúcida de que se serve para registrar o socorro espiritual. Os interesses rasteiros.. porém. o culto da oração é o meio mais seguro para a nossa influência. – A intuição beneficia em toda parte e. nos tempos modernos. nos apontamentos que surgiam. inutiliza por vezes os nossos melhores esforços. sensato – o auxílio divino é como o Sol.pelo Espírito André Luiz 69 – Aliás – ponderou o Ministro. respeitável. estudioso. . Ainda assim. conduzidos à igreja. porque. indiscutivelmente. cada vez mais valiosos. não favorece o contacto das forças superiores com a mente popular. O culto público. quanto mais alto é o teor de qualidades nobres na criatura. – Pelo pensamento – explicou a interlocutora. prestimosa –. E a preocupação de riqueza e pompa. as forças contrárias ao bem e à luz encontram facilidades positivas para a cultura do fanatismo e da discórdia. Hilário indagou: – Em que base se formará o processo de auxílio nas igrejas? Com o impedimento de nossa comunicação direta. como será possível cooperar em favor dos nossos irmãos católicos romanos? – Muito simplesmente – esclareceu Mariana.

o culto se reveste de grande valor. quais as que são mandadas celebrar por parentes ambiciosos que. ávidos que se mostram de lhes pilharem os despojos. partilhado por mentes e corações sinceros. realizadas aos primeiros cânticos da manhã. há missas de almas que constituem escárnio à dor dos que foram recolhidos pela morte. são reais sacrilégios. Mas. a nossa colaboração resulta invariavelmente nula. Por mais desagradáveis se nos mostrem os quadros de luta. até mesmo se alegram com a ausência do morto. a nossa obrigação é servir. as missas humildes. pelas vibrações de paz e carinho que arremessa na direção daquele a quem é endereçado.Francisco Cândido Xavier .pelo Espírito André Luiz 70 – Durante a missa. em nome do Cristo. por vezes.Entre a Terra e o Céu . em que os devotos da fortuna material ou da perversidade incensam a desregrada conduta de pessoas inescrupulosas? Há missas solenes de consagração a políticos astuciosos e a magnatas do ouro que. como os túmulos em que se lhes asilou a carne desfigurada. sorrindo: – Que teríamos a fazer num ato bajulatório. Podemos. observador –. inclinados à caridade evangélica e centralizados na luz da oração. com os melhores sentimentos que possuem. Essas missas fortemente adubadas a dinheiro estão para eles tão frias. Por outro lado. em verdade. Freqüentemente. por exemplo prosseguiu Hilário. é viável o seu trabalho de cooperação? Mariana fixou uma expressão facial de bom humor e aduziu: – Somos grandes falanges de aprendizes da fraternidade em ação. continuou: – Quando a missa obedece a pura convenção social. se o ato religioso é simples. . são as mais favoráveis ao nosso concurso. com mais segurança. funcionando como exibição de vaidade ou poder. E. Finda ligeira pausa. na corrida a testamentos e cartórios.

recorrem aos altares.Francisco Cândido Xavier . Em que situação estaria o templo que lhe fosse consagrado? Mariana registrou a pergunta. mas de um serviço que lhe honra o nome e que merecerá dele certo reconhecimento mesclado de responsabilidade. à frente do Senhor. tanto quanto lhe seja possível desdobrar-se-á para enriquecê-la de bênçãos. Isso expressa uma obrigação para o grande místico europeu? – Certamente não se trata de uma obrigação escravizante. se algum servo do Senhor está ligado a obra por fazer. implorando esclarecimento. – Mas. qualquer que ele seja.. confiam-se a desequilibradas emoções. desligadas do corpo. permanece ligado a Jesus.pelo Espírito André Luiz 71 articular as possibilidades ao nosso alcance e ambientá-las a benefício daqueles que esperam de nós o amparo necessário. Hilário pensou alguns instantes. sem mérito bastante... Inumeráveis são as almas que. e na hipótese de algum santuário surgir. invocan- .. No entanto. contudo. sincera – o trabalho é complexo e divide-se em múltiplos setores. – E o tipo de assistência? é de renovação espiritual ou de mero socorro aos crentes encarnados? – Ah! – comentou Mariana.. e explicou: – Numa contingência dessas. depois da morte. dedicado a suposto herói da virtude? Figuremos alguém da Terra sendo conduzido ao altar por imposição da autoridade humana. valendo-se do intervalo que surgira na conversação e obtemperou: – Possuímos nas igrejas a questão do patrocínio. Não está limitado à esfera da experiência física.. que o trabalho do bem. Outras. Imaginemos que determinado templo foi erguido à memória de Gerardo Majela. distribuindo aí os benefícios adequados aos merecimentos e necessidades de cada um. Devemos reconhecer. Os crentes encarnados atribuir-lheiam poder de que não conseguiria dispor...Entre a Terra e o Céu . cortesmente. mensageiros de Jesus responsabilizar-se-iam pela instituição.

.Francisco Cândido Xavier . perscrutador.. Um sinal de Clarêncio fez sentir que havíamos alcançado o momento da volta. Nosso Senhor. O progresso assim exige. Todos somos filhos do Pai Celestial e onde houver o mínimo gérmen de Cristianismo aí surgirão recursos de recuperação do homem e da coletividade para o Cristo. A lógica de Mariana encantava-nos. acredita a irmã que a organização católica é suficiente para conduzir o mundo moderno? Ela sorriu com tristeza e redargüiu: – Meu amigo. mas não se preocupa em praticá-la. Agora. cabe-nos considerar as religiões que envelhecem como frutos fortemente amadurecidos. A polpa alterada pelo tempo deve ser colocada à margem. – Mas. A conversação era fascinante e as perguntas pareciam brilhar ainda. maravilhado tanto quanto nós. devemos injetar um pensamento reconstrutivo nessa ou naquela mente extraviada. apesar de consciente da verdade que a separação do veículo físico nos impõe. mas a hora esgotara-se. ante as elucidações que recebia. depois é imprescindível harmonizar circunstâncias. estabeleceram grandes perturbações para a alma popular. .. As igrejas nascidas do Cristianismo caminham para grande renovação. prosseguiu indagando..Entre a Terra e o Céu . em vez de acusá-las. Hilário.. A maioria das pessoas aceita a religião. na hierarquia eclesiástica. É preciso corrigir aqui e ajudar além. Auxiliemos as igrejas antigas. entre cooperar e aprovar. contudo as sementes são indispensáveis à produção do futuro. As idéias de céu e inferno e os excessos de natureza política. porém. há sensível diferença. Entretanto.pelo Espírito André Luiz 72 do a proteção dos Espíritos santificados. em favor desse ou daquele necessitado.. Daí nasce o terrível aumento das aflições e dos enigmas. A sociedade ajuda a criança sem infantilizar-se. nos olhos de Hilário.

Clarêncio restituiu a companheira de Antonina ao lar. notando que a Antonina de nossa maravilhosa viagem aderira ao corpo denso. no caminho terrestre. A mãezinha de Marcos demonstrou experimentar leve e doce vertigem.. Dir-se-ia teimava em permanecer. achávamo-nos. sem maiores delongas. Antonina mostrava-se calada. Com a fisionomia calma e feliz. porque as primeiras cores da alvorada tingiam o distanciado horizonte. demoramo-nos em observação. qual se fora por ele sugada. .. perdera a acuidade mental com que se caracterizava junto de nós. junto do pequenino que a precedera na longa viagem da morte. mas o espetáculo do céu não diminuíra em beleza.. Todavia.. em penetrando o estreito santuário familiar. O Ministro. de coração novamente atraído para os outros filhinhos. em pouco tempo.Entre a Terra e o Céu . dirigiu-se apressadamente ao quarto. repentinamente engolida por bainha de sombra. despertou no veículo pesado. Da faixa de luz solar. fê-la deitar-se e aplicou-lhe recursos magnéticos sobre os centros corticais. retomamos as excursionistas sob a nossa guarda e. à maneira de formosa mulher. depois de afetuoso adeus. de forma sutil e semilúcida. Em se justapondo ao cérebro físico. demandamos o ninho doméstico de nossa amiga.pelo Espírito André Luiz 73 12 Estudando sempre Às despedidas.. para sempre.. de novo. Atendendo ao orientador. paternal. E.Francisco Cândido Xavier . tristonha. tornamos à imersão na sombra noturna.

novamente dormiu. em poucos minutos não lhe restava na alma qualquer reminiscência.. tema central do seu amor. vibrante: – Oh! meu Deus.. como se a envolvesse em fluidos calmantes e a simpática senhora restabeleceu a sombra no recinto. – Raros Espíritos estão habilitados a viver na Terra. nas cobertas agasalhantes do leito.Entre a Terra e o Céu . rápidas. Abraçando a caçula que repousava ao seu lado. fez luz e ouvimo-la pensar. Marcos. sim. Marcos. – Nossa amiga não poderá guardar positivas recordações – informou Clarêncio com atenção.. O Ministro abeirou-se dela. Lembrava-se. Só a imagem do filhinho.. Antonina movimentou-se. ansiosa. acariciou-lhe a cabeça. admirado. porquê? – indagou Hilário.Francisco Cândido Xavier . Nossa presença e todas as demais particularidades do vôo sublime lhe acudiam à lembrança por acessórios fantásticos a se lhe perderem nos obscuros escaninhos da imaginação. acomodada à escuridão do recinto. todas as palavras que ouvira do filho abençoado. – Mas. que saudades. das valiosas observações de Clarêncio.pelo Espírito André Luiz 74 Contudo.. a consolada mãezinha procurava. que alegria! pude vê-lo perfeitamente! Quero guardar a recordação deste sonho divino!.. Era agora simplesmente a mulher humana. com as visões da vida eterna. lhe persistia clara e movimentada na memória. Antonina não mais nos viu. buscando retê-las no escrínio do coração. nos arquivos da própria mente. mas através de impressões a se esfumarem. meu filho!. A penumbra interior é o clima que lhes é . Por isso. do passeio ao Lar da Bênção. Como quem seleciona preciosidades.

Recordar-se-á porém. para que nossa alma não afrouxe o interesse de lutar dignamente até o fim do corpo. Leonardo subordina-se a todos os fenômenos da existência vulgar. Antonina lembrarse-á de nossa excursão mas de modo vago. assim. Examinamo-lo mais detidamente. do repouso para refazerse. Não prescinde. enquanto nos demoramos no envoltório terrestre. O contacto com o reino espiritual. explicou paciente: – Cada estágio na vida se caracteriza por finalidades especiais.Francisco Cândido Xavier . na fase em que se encontra. não pode ser dilatado em toda a extensão. o bastante para sentir-se reconfortada e convicta de que Marcos a espera na Vida Maior. – Será sono? – perguntou Hilário. benevolente –. como quem traz no campo vivo da alma um belo quadro de esbatidos contornos. segundo os princípios organogênicos que presidem à constituição . penalizado O Ministro todavia.pelo Espírito André Luiz 75 necessário. Semelhante certeza ser-lhe-á doce alimento ao coração. mas não deve ser ministrado indiscriminadamente. mais novo que eu na vida do Além. Reclama dosagem para não vir a ser importuno laxativo. do filhinho mais vivamente. quase de imediato convidando-nos a socorrer o velhinho que nos aguardava. O silêncio passou a dominar o recinto mas Clarêncio quebrou-o. Sem dúvida.Entre a Terra e o Céu . – Como isso é lamentável! – alegou o meu companheiro. o ancião trazia um veículo semelhante ao fosso. – Sim – Confirmou o instrutor. O mel é saboroso néctar para a criança. Dormitava o ancião numa velha cadeira. A exata lembrança para ela redundaria em saudade morta.

o orientador observou: 2 Do grego: psyké.Entre a Terra e o Céu . ponderou: – A hereditariedade é dirigida por princípios de natureza espiritual. vindo ao encontro do meu pensamento. imprimindo grave entono à voz. Detemos tão somente o que seja exclusivamente nosso ou aquilo que buscamos. sofre a alma encarnada os efeitos da herança recolhida dos pais. que produziram filhos monstruosos ou medíocres. alma. O Ministro não se fez rogado e explicou: – O psicossoma2 ou o perispírito da definição espírita não é idêntico de maneira absoluta em todos nós. Se os filhos encontram os pais de que precisam. meu colega inquiriu sobre as razões de tal obscurecimento. assim como. corpo. na essência. E há beberrões desencarnados que se aderem àqueles que se fazem instrumentos deles próprios. (Nota da Editora. os pais recebem da vida os filhos que procuram. Após lhe observar o aspecto desagradável. Deixei a Hilário os pruridos de curiosidade que em outro tempo me assaltavam de inopino. entretanto.pelo Espírito André Luiz 76 do corpo espiritual. apesar das peças semelhantes. antes de renascer. ele mesmo já se confiava ao vício do álcool.) . contudo mostrava-se tão pesado e tão denso como se ainda envergasse a túnica de carne. Renascemos na Terra junto daqueles que se afinam com o nosso modo de ser. Cada criatura vive num carro celular diferente.Francisco Cândido Xavier . quase sempre. mas sim. No círculo de matéria densa. a lei da herança funciona invariavelmente do indivíduo para ele mesmo. impostas pela lei das formas. Lembrei-me repentinamente de alguns dos grandes gênios da humanidade. Mas. E. e soma. não existem dois corpos físicos totalmente iguais. na realidade. O dipsômano não adquire o hábito desregrado dos pais. espírito.

Clarêncio deteve-se na contemplação do velhinho que repousava e continuou comentando. ódio. os pais usam. Somos herdeiros de nós mesmos. e se nosso irmão trabalhasse? Se depois da morte procurasse conjugar o verbo servir? – inquiriu meu colega. aflição e condensou semelhantes forças em si mesmo. mais difícil se faz para nós a superação dos obstáculos .Francisco Cândido Xavier . coagulando-as desse modo. o serviço estabelece caminhos outros que realmente funcionam como recursos de libertação. preocupado – Ah! indiscutivelmente o trabalho renova qualquer posição mental.Entre a Terra e o Céu . o constante apelo do Senhor à ação e à fraternidade se estende. acrescentou: – Na família consangüínea ou na família humana. pode confiar-se aos sublimes rasgos do amor.pelo Espírito André Luiz 77 – No campo das grandes virtudes. Todavia. a compaixão reedificante. junto de nós. por vezes.. desencanto. Quem já acertou as próprias contas com a justiça. Gerando novos motivos de elevação e novos fatores de auxílio. Nossas obras ficam conosco. Nosso amigo entregou-se. se dispõem a buscar afetos que permanecem a distância. Daí. no passado. demasiado às criações interiores do tédio. mais particularmente com Hilário: – Conforme a vida de nossa mente... enquanto nos demoramos na vestimenta terrestre. Temos no mundo mulheres e homens admiráveis que. em tentativas heróicas de auxílio e reajustamento. E. obtemos o que buscamos. assim vive nosso corpo espiritual. diariamente através de mil modos. no veículo que lhe serve às manifestações. esse aspecto escuro e pastoso que apresenta. consolidando qualidades superiores na própria alma. – Mas. empenhando-se em tarefas de sacrifício.. quando não nos devotamos ao trabalho. sorrindo. Em seguida. Por isso mesmo.

A tênue claridade da manhã penetrava o recinto.. por vezes. desse modo. o Ministro convocou-nos à retirada. a provação e o sofrimento. durante tempo indefinível. Clarêncio lembrou que para socorrer o ancião ensandecido não dispensaríamos algum trabalho de análise da mente e. as aves matutinas anunciavam o novo dia. que precisará. O prosseguimento da tarefa assistencial. únicos elementos reparadores. porém. É para esse fim que o Pai Celestial nos concede a dor e a luta.pelo Espírito André Luiz 78 mentais.Entre a Terra e o Céu . é imprescindível descondensá-lo pela sublimação incessante de nossa mente. fixando-as. centralizar-se no esforço infatigável do bem. Lá fora.Francisco Cândido Xavier . suscetíveis de produzir em nós o reajuste necessário. quando nos pomos em desacordo com a Lei. então. Se pretendemos possuir um psicossoma sutilizado capaz de reter a luz dos nossos melhores ideais. foi marcado para a noite seguinte. que não deviam ser incomodados na paisagem diurna.. porque semelhante serviço demandaria talvez a cooperação de companheiros encarnados. . porque a indolência trazida do mundo é tóxico cristalizante de nossas idéias.

calma. Fitando-nos de modo significativo.. resignado. crendo que apenas lhe serviriam as palavras decoradas. quando tornamos ao singelo domicílio de Antonina. Emocionados com aquela petição que nos renovava igualmente as disposições interiores. implorando-lhe proteção e segurança para quem se mostrava tão desarvorado e tão infeliz. o Ministro ponderou: .Entre a Terra e o Céu . O velhinho. A casinha dormia. Clarêncio. bondoso. logo após a oração.. começou a aplicar-lhe forças magnéticas no campo cerebral. Acocorado a um canto.Francisco Cândido Xavier . e. o velho Leonardo mantinha-se na sala.. O paciente revelou-se mais intensamente abatido. elevando a voz. convidou-o a acomodar-se na poltrona simples e induziu-o à prece. alegou total esquecimento das orações que formulara no mundo.. reconhecendo-nos. ergueu-se e começou a gritar: – Ajudai-me. Clarêncio. A cabeça pendeu-lhe sobre o peito. por amor de Deus! Estou preso! preso!. mas o orientador. ante a visão dele.. pensando. observamos que o avô de Antonina se aquietara. contudo. pensando. com o intuito evidente de sossegá-lo na confiança íntima. desgovernada e sonolenta. Adensamo-nos.pelo Espírito André Luiz 79 13 Análise mental O relógio terrestre assinalava meia-noite e três quartos. pronunciou comovente súplica à Divina Providência..

. com a mesma facilidade com que atualmente extrai um apêndice condenado. jamais se confundem.Francisco Cândido Xavier . pode e deve sofrer intervenções para reequilibrar-se. o médico terrestre desentranhará um labirinto mental. é preciso recorrer aos arquivos mentais. de modo a produzir certos tipos de vibração. em se superpondo umas às outras. a memória pode ser comparada a placa sensível que. dentro da vida. conservada em prodigioso arquivo de imagens que. completando-lhe a conceituação: – A mente. tanto quanto o corpo físico. tanto quanto hoje vai avançando em técnica operatória. ao influxo da luz. qual a que desejamos movimentar. é uma adição de experiência. Cada existência de nossa alma. Mais tarde. a benefício dele mesmo.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 80 – A corrente de força devidamente dinamizada no passe magnético arrancá-lo-á da sombra anestesiante da amnésia.. a ciência humana evolverá em cirurgia psíquica. Assistido por nossos recursos. ainda. No grande futuro. no curso de seus inumeráveis aprendizados. com vistas às necessidades do veiculo de matéria carnal. então. se lhe apagou nos lábios. informando-nos quanto à causa que o retém junto da neta. – Quer dizer então que. A frase de Hilário.. como também para descerrar os escaninhos da mente. sondar-lhe o íntimo com mais segurança. sobre prováveis ligações que nos conduzirão à chave do socorro. perplexo. Poderemos. nas fibras recônditas em que ela detém as suas aflições e feridas invisíveis. aclarandonos. – Mas o retrocesso das recordações poderá verificar-se de improviso? – indagou Hilário. guarda para sempre as imagens recolhidas pelo espírito. em determinada expressão da forma. a memória dele regredirá no tempo. Em obras de assistência. – Sem dúvida – respondeu o instrutor –. não só para atrair a presença de companheiros ligados ao irmão sofredor que nos propomos socorrer. porque o Ministro atalhou. porém.

. Sem mão que ajude. Ergueu a fronte. diante de nosso intraduzível assombro. fez muito. Recorda! Recorda!. ainda por alguns instantes.. O orientador fixou-o. contudo.. mas não lhes estendeu eficiente bálsamo curativo. mas toda verdade sem amor é como luz estéril e fria. onde adquiriste o remorso que hoje te retalha o coração! A dor. Não bastará conhecer e interpretar. O velhinho. a cabeça do ancião e. para sanar as desarmonias do espírito. É indispensável sublimar e servir.Francisco Cândido Xavier . como detinhas a razão!. como viste a verdade!.. mas fizera-se mais jovem. quase sempre. ainda encarcerada nas teias da vida inferior. é culpa sepultada dentro de nós.. mas seu rosto alterara-se de maneira sensível. acordou de olhos transtornados.Entre a Terra e o Céu . O médico do porvir. em voz quase gritante: – Ah! Freud.. em seguida. E exclamou. O grande cientista observou aspectos de nossa luta espiritual na senda evolutiva e catalogou os problemas da alma. Sustentava iniludivelmente os traços fundamentais. paternalmente e aduziu: – Freud vislumbrou a verdade. retirando-o do próprio coração. mas não o bastante.pelo Espírito André Luiz 81 Hilário arregalou os olhos.. . Assinalou a presença das chagas dolorosas do ser humano. de manso: – Leonardo. calou-se.. Retrocedamos ao ponto inicial de teu sofrimento!. espantado feliz. O Ministro.. a palavra erudita morre no ar. chamou-o. Acariciou. recorda! Volta ao Paraguai. precisará mobilizar o remédio salutar da compreensão e do amor.. dando-nos a entender que o momento não comportava digressões filosóficas.

sereno. Repentinamente refeito. não obstante continuar obscuro e pastoso. Leonardo soerguera-se. desse modo.. O corpo. na simpatia ou na aversão. com movimentos mais intensivos que as moléculas do corpo carnal. clamou: – Lola! Lola! estás aqui? Sinto-te a presença. . A consciência. Isso. segundo o tipo de emoção que lhe flui do âmago. Onde te ocultas? Ouve-me! ouve-me! Com inexprimível espanto. como se fosse tangida no imo da personalidade por misteriosa influência. no corpo espiritual com que a divisáramos na véspera. Avançou ao nosso encontro.pelo Espírito André Luiz 82 Registrando a surpreendente transfiguração. semelhantes transformações são mais rápidas e exteriorizam aspectos íntimos do ser.Entre a Terra e o Céu . com facilidade e segurança. aliás. não é novidade.. a máscara física altera-se na alegria ou no sofrimento. extremamente surpreendida. renovando-se igualmente aos nossos olhos. por excelência vibrátil. Na própria Terra. e esclareceu: – Não nos esqueçamos de que temos diante de nós o veículo espiritual. expressa-se. Em nosso plano. O corpo da alma modifica-se. vigoroso e móbil. avistando o avô transfigurado. e. estampou súbita alteração facial. não nos descuidemos do serviço a fazer. Clarêncio relanceou o olhar pelo recinto e acrescentou: – Entretanto. na matéria sutil com poderes plásticos mais avançados. Parecia animado de estranha energia. revelava-se desempenado. Nesse ínterim. profundamente. vimos dona Antonina escapar do aposento. perguntando: – Oh! que força mágica será esta? Nosso orientador fitou-o. Hilário interferiu. porque as moléculas do perispírito giram em mais alto padrão vibratório. por fulcro anímico.Francisco Cândido Xavier .

na teia infinita do tempo. e vimo-la realmente mais bela. Em contra-posição às facilidades delituosas do passado. hoje é mãe amorosa e digna. Enfim! E prorrompeu em pranto convulso. atravessa atualmente aflitivos obstáculos para viver. Aterrada. que conduz para o bem. Leonardo está vinculado a ela por laços de imenso amor. todavia.pelo Espírito André Luiz 83 As linhas do semblante modificaram-se. contudo. o Ministro falou em voz baixa: – Nossa irmã exige tão somente leve auxílio magnético para lembrar-se. Recebeu. Estupefatos. A mulher irresponsável de ontem. antigos associados de destino por filhos do coração. relegou-a ao esquecimento. em não a entendendo agora. generoso: – Repararam? Antonina é Lola Ibarruri reencarnada. . porém. ouvimos Clarêncio que nos informava. Simpatia incoercível inclinou-nos para aquela mulher em provas tão ríspidas.Entre a Terra e o Céu . menos serena e menos espiritualmente. foi induzida a desposar um homem animalizado. com quem se encontra igualmente enleada por laços do pretérito e que. Favorecendo-nos o máximo proveito nas observações.. Tendo abandonado outrora o marido. Ambos procedem de lutas enormes. Basta-lhe a emotividade anormal do reencontro para cair na posição vibratória do passado. de vez que ainda não se encontra quitada com a Lei. irradiando no olhar ódio e padecimento intraduzíveis bradou: – Enfim!. à procura da própria regeneração. de inopino. Antonina rojou-se de joelhos aos pés do ancião que se rejuvenescera ao influxo dos passes de Clarêncio e gritou: – Leonardo! Leonardo! Ele..Francisco Cândido Xavier .

A voz do orientador.Entre a Terra e o Céu . no entanto. . O momento determina auxiliar.pelo Espírito André Luiz 84 O ensinamento que a vida ali nos ofertava era efetivamente sublime. era clara e segura a recomendar: – Ajudemos.Francisco Cândido Xavier .

A consciência não dorme. esfregava os olhos como quem não desejava acreditar no que via..Entre a Terra e o Céu .. Oh! Lola.Francisco Cândido Xavier . – Não me rebentes o coração! – E acaso o meu não vive estraçalhado? O diálogo prosseguia comovente e Antonina. – É preciso olvidar.... – Não me reconduzas ao passado!. – Lola..pelo Espírito André Luiz 85 14 Entendimento Antonina. explodindo em angustiosa crise de lágrimas. porquê. implorou com mais força: – Não golpeies minhas feridas mal cicatrizadas! Não se rouba ao devedor o ensejo de pagar! – Entretanto. continuou: – Compadece-te de mim! compadece-te!. – Para mim é como se o tempo fosse o mesmo.. genuflexa... Trazias nos olhos a traição disfarçada.... Amei-te e perdi-me. resignando-se à evidência. – Não me induzas a lembrar!... – Nunca! O remorso é um monstro invisível que alimenta as labaredas da culpa.. . enredei-me no crime.. O inferno não tem horas diferentes. por ti – gemeu o interlocutor –... mas. – Não lembrar? Que condenado no tormento da expiação será capaz de esquecer? A culpa é um fogo a consumir-nos por dentro. modificada.. porquê?..... A dor paralisa a vida dentro de nós. donde vens? – perguntou o infeliz.

. por tua causa. na desilusão e na fome da meretriz desprezada e doente? Acaso. como ave sem ninho.. Exterminei minha alma.Francisco Cândido Xavier .. Sabes o que seja o caminho da mulher aviltada.. poderás perceber o que seja a flagelação de quem espera a morte. entre o arrependimento e a aflição? Meditaste. como um carro de higiene pública reclama o lixo da sarjeta... Enlouqueceste.. – Naquele tempo – alegou a infortunada –. porém. mais amargosa!... é verdade! Mas. – Matei. envileci o mandato que Deus me concedera.. ante o doloroso acento com que essas palavras eram pronunciadas.. sob o sarcasmo de todos.. vagueei aflita. Por muitos anos.. aniquilada. refugiada no espinheiro de dor que cultivara em mim mesma. crestando todas as flores de minha felicidade!.. semidesesperada – acusas-me de infiel. alguma vez. Vi-me sozinha. quando. fiz pior. mais triste: – Leonardo.. Sofri muito. entre a sede e o suor? Tudo isso conheci!. Esmolei proteção. Estarás habilitado a compreender-me o sofrimento em toda a extensão?. procurando outras novidades e outros rumos !.. A morte recolheu-me na vala da miséria. junto da- . a pobre mulher suplicou. – Feliz? – bradou Antonina.. infundindo compaixão.. enferma.. realizar o reerguimento que ainda não consegui.. Foste. acordou-se-me a consciência. feliz!. a perturbação que me atacou era mais lastimável. algum dia. porque..pelo Espírito André Luiz 86 E. troquei o altar doméstico pelo mentiroso tablado do gozo fácil.. quando o desencanto e a enfermidade me relegaram à margem da vida. desapiedada... – Pudeste. Esposa. inculpando-me..Entre a Terra e o Céu . no martírio do coração feminino. Debalde busquei afogar no vinho do prazer a horrível impressão do abismo em que me precipitara. no entanto. mãe. relegado à penúria e ao abandono? Refletiste. – tartamudeou o mísero. como tantos outros... te cansaste de mim. perdoa-me!.. em suma.

. torturada pela incapacidade mnemônica que a assaltara de improviso.pelo Espírito André Luiz 87 queles que me haviam sido afetos estimulantes da juventude. Emudecera.. figurando-se-nos incapaz de prosseguir recordando... certamente sou culpa- . caíram sobre mim como bálsamo refrigerante. Interrompeu-se Antonina. Sim... As tuas divagações. Parecendo haver encontrado a imagem que ansiosamente procurara. Até que um dia. até que um dia.. Antonina passou a destra pela fronte pálida. – Não posso saber – gritava Leonardo –. o nosso orientador acercou-se dela e afagou-lhe a cabeça.. arrancando ao pretérito as raras reminiscências felizes que poderíamos identificar.Francisco Cândido Xavier . Seu olhar adquirira a assustadiça expressão dos enfermos que a febre torna dementados.... no aconchego da família que tiveste a ventura de constituir. Findos alguns instantes. Rememoravas alguns traços elogiáveis de nossa vida. senti que me chamavas com pensamentos de carinho e de paz. recompondo na lembrança as festas que organizávamos em favor dos combatentes mutilados. Chorei aliviada e adormeci em tua casa. Via-se que esbarrara com insuperáveis impedimentos íntimos. não consigo coordenar as idéias que me são próprias.. contudo. exibiu no rosto a surpresa de quem se banha num relâmpago de luz..Entre a Terra e o Céu ... não posso saber! Desde que meu espírito foi ocupado por “ele”. deixando perceber que a auxiliava magneticamente na recuperação das próprias forças. como se evocasse velhas recordações fortemente trancadas na memória.... continuou: – .. Ninguém se recordava de mim.. Não me cabia recolher uma gratidão que eu não semeara.

pelo Espírito André Luiz 88 do...Entre a Terra e o Céu . Podias ter recebido meu concurso... Não me reconduzas. Tens razão. pois. Não me move outro desejo senão o de renovar-me! Sofri muito. aprendi duramente!..... ao passo que outros empalidecem. Mais calma. Não me cabia pensar em ti como se fosses tão somente mulher. determinados centros da memória se reavivam. que Leonardo e Antonina sob o controle paternal de Clarêncio. Em tais recursos utilizados por nosso plano. melhorados para a boa luta. é momentâneo. qual se Antonina não devesse avançar na faixa de lembranças. se mantinham detidos na posição vibratória em que haviam subitamente caído. triste: – Agora. no tratamento salutar das moléstias da alma. perdoa-me. O Ministro continuava prestando assistência à nossa amiga.. porém. esclarecendo: – Encontram-se ambos imobilizados em certo momento do pretérito. As sensações do presente dão lugar às sensações do passado. para efeito de reajustamento perante o futuro. assinalando-nos a indagação socorreu-nos. como desejo sejam esquecidas as ofensas que pratiquei contra os outros!... Porque não se recordavam os dois do parentesco que os reunia? Nosso instrutor. . ao passado!.. num encontro provocado por influência magnética.. O fenômeno. Reparávamos com assombro. a pobre interlocutora suplicou.Francisco Cândido Xavier . que te capacitas de minhas dificuldades. Compadeceste de mim!. A explicação não podia ser mais satisfatória nem mais simples. Peço a proteção da Divina Bondade para todos aqueles que me não compreenderam e procuro sinceramente olvidar as ofensas que outros me assacaram. A breves minutos regressarão à consciência normal.

agora.. ofegante e contrariado. Desequilibrado.. corporifica-te e vem!. arrancou do próprio íntimo nova onda de cólera.. porque trago comigo o fantasma dele? Ter-se-á convertido num demônio intangível para arrasar-me a existência? Estaremos no inferno. Era um homem de seus trinta e cinco anos presumíveis.. agiganta-se-me no pensamento!. constrangidamente. mas. desvairado: – Sim.. qual se estivesse ingressando ali. Estou pronto! Acertemos a diferença!. quanto ele vive dentro de mim? Porque me não permite o verdadeiro repouso? Se procuro dormir. cruel.. desperta-me. Foste suficientemente infeliz. Mas.. quando fomos surpreendidos pela entrada de nova personagem na sala. entendo-te. em mim ou fora de mim.. Cerrando os punhos. quase que piedosamente. Leonardo como que arrefecera o ímpeto inicial de desesperação. onde estiveres. agarrados um ao outro? Viverei dentro dele. ensaiou alguns passos no recinto estreito e passou a clamar: – Esteves. Pires ergueu para o teto os punhos retesos.. homem ou diabo. igualmente fora do vaso físico. Passeou no recinto esgazeado olhar. Vítima ou carrasco.Entre a Terra e o Céu . corpo a corpo!. aparece! Que meu pensamento te encontre e te traga!. Que as forças do nosso destino nos reúnam. bradou.pelo Espírito André Luiz 89 Aceitando-lhe os apelos. sim. enfim... estarrecido e agoniado. reconhecendo-os. deteve-se apenas na contemplação de Leonardo e Antonina. sem saber. Fitava-a.Francisco Cândido Xavier . se tento olvidar. . que lhe tingiu a máscara fisionômica. longe de albergar qualquer sentimento positivo de ordem superior. que se abeirava de nós. dando-nos a impressão de que não nos percebia a presença e. Alguns instantes decorreram....

de imediato. Engalfinhar-se-iam sem dúvida. comparece ao desafio.. parcialmente libertado pelo sono.Francisco Cândido Xavier .. Clarêncio confiou-o à nossa vigilância e. Achas-te cansado.. . Esteves.. lacrimosa. Assassino. Vieste mesmo! Vejo-te. Receberás a medicação de que necessita.Entre a Terra e o Céu . Tocado pelo Ministro.. pela atração magnética mais intensivamente facilitada. Semi-apavorado e pondo-se em guarda sacudido pelas próprias reminiscências o recém-chegado respondeu. porém. fora de minha cabeça. Liquidemos nossa conta. – suplicava Antonina. Pires.. dando um salto à retaguarda.. informou prestimoso: – Sob a positiva invocação de Leonardo. concitou: – Meu amigo. Notamos que os três protagonistas da cena que se improvisara jaziam repentinamente hipnotizados por vibrações de assombro e desespero. quando o envoltório de matéria densa exige recuperação. como animais enfurecidos. imobilizando-os prontamente. vejo-te como és!.. enfermo. Esteves enxergou-nos e. sim !. mas o nosso orientador interferiu. bradou: – Agora! agora.... Leonardo. surpreendido aquietou-se. Riscame dentre os vivos ou eu te riscarei! – Piedade! Piedade!. O repouso noturno favorece tais entendimentos. assassino!. extirpa da mente a idéia do crime. dirigindo-se a Leonardo em Voz segura. junto de nós. sob o olhar de Esteves que o observava com visível repugnância.. no entanto parecia não ouvi-la. agressivo: – Conheço-te e odeio-te!.pelo Espírito André Luiz 90 Clarêncio.

conseguiu refazer-se. Em seguida. Vimo-la acordar. então. obedeceu automaticamente. Consideramos.Entre a Terra e o Céu . Revelava-se imensamente confrangida. recomendando-lhe esperar-nos. amedrontado. ausentou-se e regressou trazendo ao recinto dois amigos de nosso plano. . naquela noite assemelhava-se.pelo Espírito André Luiz 91 Num átimo. Logo após. exausta e entontecida. desditosa. em que mais tarde nos receberia a assistência. nosso instrutor acomodou Esteves na poltrona singela. Ainda assim. Algo aliviada. O novo companheiro... que se grande fora a ventura da pobre senhora na véspera. quase inerte. amparando Antonina. a um trapo de sofrimento. os quais transportaram Leonardo semiinconsciente para um santuário de reajuste.Francisco Cândido Xavier . continuava soluçando. sem saber explicar a razão. torturada e apreensiva. Por mais de duas horas mereceu-nos especial atenção. Encontramos grande dificuldade para recompô-la em espírito e para religá-la à vestimenta carnal. procuramos restituí-la ao quarto particular. Somente depois de considerável esforço de Clarêncio. Antonina acreditou-se liberta de estranho pesadelo.

Entramos. na direção do trabalho. Em breve tempo. Cinco horas e trinta minutos. sem molestá-lo. o inimigo de Leonardo retirou-se para a via pública. amparou-o afetuosamente e Esteves. e os autos.Francisco Cândido Xavier . que se esforçava por reaver o corpo físico. o moço voltou-se para nós. seguido de nosso grupo.. desapareceu no interior. No passo vagaroso de quem carrega um fardo de aflição. O Ministro absteve-se de continuar em sua afetiva manifestação. mas o moço prorrompeu em súplica: – Não me prendam! Não me prendam! Sou a vítima!. regressando ao aconchego doméstico.pelo Espírito André Luiz 92 15 Além do sonho Tornando a Esteves. . aqui e ali. e. estacionou à frente de vasto conjunto residencial. em seguida. pouco a pouco. Renovava-se o dia.. Grande relógio próximo exibia o mostrador. Embatucado.Entre a Terra e o Céu . Pedestres marchavam diligentes. Em momentos rápidos. sonolentos. O Ministro. o rapaz. começavam a transitar pelas ruas. Clarêncio ofereceu-lhe o braço amigo. recuperou a calma natural. achávamo-nos diante dele. Seguimo-lo a pequena distância. Bondes rangiam.

onde me surpreendi encarcerado. mas. Ouçamo-lo por alguns momentos. E. E fixando gestos expressivos. não vacilei. de repente. faltando quinze minutos para seis. acreditando tratar-se de algum doente em estado grave. Enfermeiro”. hoje é Mário Silva. notamos que minúsculo cartão de visita lhe caiu do bolso..pelo Espírito André Luiz 93 Mantinha-se em suave modorra. ontem Esteves. Vestindo-se. Depois de saudação carinhosa. E o nosso instrutor reafirmou: – Nosso amigo. ensejando-nos a leitura de um nome: – “Mário Silva..Entre a Terra e o Céu .Francisco Cândido Xavier . o rapaz continuou: – Era um perfeito cubículo de prisão. Corri ao apelo. foi recebido em pequena sala do apartamento por simpática velhinha. com os recursos de imaginação de que dispunha para corresponder às requisições da mente. em cujo olhar adivinhamos a ternura de mãe. Senti tanta simpatia pela moça . junto de um criminoso de mau aspecto e de infortunada mulher em pranto.. meu filho? Seu semblante carregado não me engana. prosseguindo em sua vocação para a enfermagem. quando o despertador tilintou. vi-me. entre os goles do café notificou: – Sonhei que alguém me chamava. mamãe. O rapaz esfregou os olhos.. guardando a impressão de mau sonho. de carantonha amarrada. O moço atendeu às obrigações da higiene e. – Um sonho horrível. ao invés de topar um quarto de enfermo. a distância. apressado. em voz alta. a senhora indagou bem humorada: – Onde esteve esta noite. numa cela mal iluminada e úmida. logo após. de imediato. e.

comentou calma: – Há sonhos que valem por terríveis pesadelos. em soluços não arredei pé do lugar em que me apoiava.. segundo percebi. Achava-me em expectativa. ia precipitar-me sobre ele. O chefe.. Um misto de ódio e sofrimento me tomou de assalto.. apareceu um delegado policial. acomodando-me numa velha cadeira. Tive. rápido. junto deles.. quando. depois.. de um só golpe conteve o meu agressor.. Estava atônito. apesar do desejo de ouvir a mulher ajoelhada. principalmente ao lado do infeliz. mas. porém.. quanta aversão pelo réu de medonha catadura. com o propósito evidente de liquidar-me. Temendo o xadrez. porque me não retirava de tão detestável presença. obrigando-o a sentar-se. ao mesmo tempo. de vez que os policiais se mostravam igualmente dispostos a recolher-me.. não consigo precisar as recordações . reconduziu a jovem para o interior do cárcere. cujo olhar se me afigurava cruel.Entre a Terra e o Céu . o delegado trouxe.Francisco Cândido Xavier . Perguntava. realmente. conquistando-me um respeito tão grande que. Logo após. então. .. a mim mesmo. a impressão nítida de que nos conhecíamos. ignorando se o condenado pretendia assassinar-me ali mesmo quando tentei uma reação à altura! Cego de incompreensível rancor. quando o criminoso avançou para mim.. Por mais estranho que pareça. seguido de dois guardas que entraram na contenda.. vencido. acordei estremunhado e abatido. enquanto o homem me repelia a mulher me provocava o maior enternecimento. em fuga para nossa casa. experimentava o desejo de agredi-lo e de acariciá-la. Depois de palavras enérgicas e rápidas.. Estampou na fisionomia a expressão de quem se propunha inutilmente lembrar-se e. ao passo que a pobrezinha procurava defender-me. impedindo-nos o mau impulso. Sei apenas que me pus a correr. à cela outros ajudantes que arrastaram meu adversário para fora.. A velhinha que escutava atenciosa. decorridos longos instantes de reticência.pelo Espírito André Luiz 94 desventurada... rematou: – Depois.

. Creio que o melhor sentimento para eles dois em minha vida íntima é o ódio com que os reúno em minha lembrança. O moço fixou um gesto de amargura e observou: – Ora. A mãezinha contemplou-o. evitemos recordações sem proveito.. e aduziu: – Cá por mim. E. ajuntou: – Meu sonho foi um simples pesadelo. estou certa de que. e o homem que lhe inspirou tanta repugnância não poderia ser interpretado como sendo o esposo dela? O rapaz cobriu-se de leve palidez. onde o marido é ferroviário de importância. nossa velha amiga. transcorridos alguns instantes... reencontramos as pessoas que amamos ou detestamos. Não desejo revê-los e..Francisco Cândido Xavier . acompanhado de dois filhos!. preocupado.pelo Espírito André Luiz 95 – É o que senti – concordou Mário. o sonho terá alguma relação com a nossa Zulmira? A mulher com quem simpatizou não seria. decidiria nossa transferência para outro rumo. Zulmira não deve reaparecer em minha memória e esse Amaro que ela desposou é um ponto negro em meu coração. bondosa.. acaso. à noite. desapontada.. Alguma preocupação imprecisa ou alguma intoxicação alimentar. triste: – Quem sabe? – Você nunca mais teve notícia de nossa antiga companheira? – Não. e acrescentou: – Meu filho. Nosso espírito.. se eu soubesse que residiam aqui. tantos projetos de felicidade!. em nossa vizinhança. A senhora sorriu. assim. – Nunca pude entender-lhe a atitude. . no sono. mamãe. Tenho apenas a informação de que mora aqui mesmo.Entre a Terra e o Céu . Tantos anos de convivência. por um viúvo. mostrou-se mais taciturno e falou. Trocar tudo. francamente.

pensativa. Não me posso demorar. O hospital não cogita de pesadelos. Preparando-nos para a retirada. Registrando-me a estranheza. O passado fala no presente. indiscutivelmente enfadado. Realmente.Francisco Cândido Xavier . reergueu-se. é a realidade que me espera.. Pretendia desposá-la. A mãezinha acompanhou-o carinhosamente até à porta. abraçou a genitora. trazia o meu cérebro castigado por obsidiantes interrogações. Disso. . O sonho passou e. agora. Acham-se enredados numa teia de compromissos que lhes reclamam resgate. admirado.pelo Espírito André Luiz 96 procura os afetos ou os desafetos do caminho para acertar as próprias contas. Encontráramos um novo capítulo na história da oração de Evelina? Amaro e Zulmira. seriam as mesmas personagens que havíamos visitado anteriormente? Dispunha-me à inquirição. mas foi preterido no coração dela por Amaro. osculou-lhe a cabeça branca e concluiu: O relógio é inflexível. às oito em ponto. que lhe deve assistência e carinho. a senhora obsidiada que conhecemos. Mostrou um sorriso forçado e despediu-se. quando o olhar de Clarêncio cruzou com o meu.Entre a Terra e o Céu . – Inevitavelmente – acentuou o instrutor com voz segura. O filho.. – E reencontrar-se-ão para o desdobramento das lutas redentoras em que se envolvem? – perguntou Hilário. Devo cooperar no serviço operatório de duas crianças. não tenho qualquer dúvida. mencionados pelo enfermeiro. informou: – Já sei o teor de tuas interrogações. retomando os serviços caseiros. o nosso novo amigo foi noivo de Zulmira.

carinhosamente. De regresso. embora movimentando automaticamente a vassoura. mãe devotada e sensível. o Ministro recomendou: – Não convém incomodar nossos amigos no curso das obrigações diuturnas. Sabia quanto custara ao moço renunciar à mulher escolhida. Coração abnegado. reparando que estávamos desejosos de seguir Mário Silva para obter maiores informes.. meditando no sonho do filho. orava por ele. provocando elucidações que seriam desagradáveis e fora de ocasião. Cabia-nos aguardar a noite. generoso: – Nossa irmã Minervina é velha conhecida. às despedidas. quando se estenderiam as nossas experiências.pelo Espírito André Luiz 97 A dona da casa. porque enquanto o corpo físico se refaz a alma invariavelmente procura o lugar ou o objeto a que imanta o coração. .. que lhe sossegaram o coração. O pensamento em prece escapava-lhe da cabeça. Conhecialhe o temperamento enigmático e receava tornar a vê-lo atormentado e vencido. Em seguida. admiravelmente. o orientador no-la apresentou.Entre a Terra e o Céu . Recebeu nos braços meia dúzia de filhos que tem sabido conduzir. Clarêncio abeirou-se dela e transmitiu-lhe forças calmantes. alma rica de fé. como tênue esguicho de luz. Anotávamos-lhe as reflexões na mente preocupada. Abraçamo-la.Francisco Cândido Xavier . Ouvimos o orientador e aquietamo-nos. rogando a Jesus o abençoasse. no desenvolvimento de nossa história que começava a ser fascinante. Aguardemos a noite.

tornamos ao domicílio do enfermeiro. A antiga aversão pelo rival preponderava. Mário Silva. Zulmira. por isso mesmo. O sonho da véspera castigava-lhe o pensamento.. o rival. por mentor diligente e amigo. outrora querida. a companheira de infância... Ruminando as impressões da manhã. com todas as reservas de ódio de que se sentia capaz. seguidos de Clarêncio.. refletia de si para consigo: – “seria realmente Amaro. acaso se recordaria dele? E se as suas conjecturas expressassem a verdade. quem lhe surgira na forma de um criminoso? e aquela mulher chorosa e acabrunhada seria. não acreditava estivesse nele próprio a causa do estranho pesadelo.. Permanecia convicto de que alguém o chamara. estirado nos lençóis.. . dominando-o.Francisco Cândido Xavier . Conhecia-lhe o esposo de relance. Não seria justo acudi-la..pelo Espírito André Luiz 98 16 Novas experiências Noite fechada e alta. porventura. junto de nós. pronunciando palavras que o constrangiam a atender. A chaga do brio retalhado ainda lhe sangrava no coração. cabia-lhe ser surdo aos seus rogos. como sempre. debalde procurava dormir.” Hipóteses inquietantes e perguntas sem resposta lhe assediavam o cérebro toldado de apreensão e rancor. que ainda lhe feria as recordações? Onde o motivo de semelhante reencontro? Teimava em afastar para longe as reminiscências da mocidade. que funcionava.. nem mesmo a pretexto de socorrer. nitidamente. teria o direito de reaproximar-se? Não imaginava isso possível. Ainda mesmo que a mulher.. mas o suficiente para detestá-lo.Entre a Terra e o Céu .. lhe suplicasse assistência. Estaria Zulmira em apuros? E esta.

“Se as almas podiam efetivamente reencontrar-se.pelo Espírito André Luiz 99 Porque não voltar ao sonho da noite anterior. nada vemos e nada registramos senão a própria perturbação.. que se virava. mas. aplicou passes balsamizantes sobre o rapaz. Espantadiço e tateante. continuando. no leito. decerto conseguiria rever o adversário e revidar. de modo a tentar uma solução? A figura de Amaro crescia-lhe no campo mental. extremamente condensado. por isso. pouco a pouco. explicando: . fora do corpo – prosseguia divagando –. o instrutor socorreunos. quando a paixão nos ocupa a fortaleza íntima. observou: – A paixão cega sempre. Chamaria o renegado esposo de Zulmira a explicar-se.” O Ministro contemplava-o. dandonos a idéia de quem se detinha em aflitivos quadros íntimos. começou a extravasar os sentimentos que lhe senhoreavam o espírito. Buscá-loia onde estivesse. Se fora invocado em sonho. desajustado. Concentraria nele o poder do pensamento. Nossa vida mental é a nossa vida verdadeira e. sob a nossa observação. esgazearam-se-lhe os olhos.Francisco Cândido Xavier . ressurgindo em nosso plano... Mário. Todavia. porém. Anotando-nos o assombro silencioso. relaxou os nervos e descansou o comboio físico. Valendo-se dos minutos para ensinar-nos algo proveitoso. vagueou pelos ângulos do quarto no veículo perispirítico.Entre a Terra e o Céu . Não nos assinalava a presença.. em seus mínimos movimentos. Em seguida. compadecido. era lícito invocar quem quisesse. qual se houvera sorvido brando anestésico.

altivamente.. a princípio. Onde ocultaste a mulher que eu amo? Responde. surge alguém ao encontro dele. constituem abençoado entretenimento. desde muito. alheia-se. o esposo de Zulmira. bradou. Observemo-lo! Mário desceu para a rua. de alguma sorte. A mágoa é-lhe inquietante ferida mental. responde!.. Temos contas a ajustar!. ladrão! Amaro.. Embora tenha o seu caso particular. sem direção. que. com voz estridente: – Amaro. em plena via pública. inalando o ar refrescante da noite. em seu corpo sutil.pelo Espírito André Luiz 100 – Qual acontece ao nosso amigo Leonardo. algo suavizado pelas lutas da carne. desligado parcialmente da carne. usurpador! aparece! Se tens dignidade. logo após. com as maneiras do homem mais educado. mas. afronta-me a vingança!. desconcertante: – Não te acovardes.Francisco Cândido Xavier . revelando-se preocupado em evitar conflitos e aborrecimentos.. Silva caminhava semi-ébrio.. .Entre a Terra e o Céu . em se vendo espiritualmente a sós. Enquanto se distrai nas tarefas comuns. Defrontaram-se. por vezes. de súbito. no coração. e. correspondia ao chamado estranho do inimigo.. Não tremerei!. arremessava as palavras no ar. de ânimo revel. ao tormento oculto que transporta consigo. Havíamos dobrado esquinas diversas e eis que. O enfermeiro. porém.. Copiando o impulso do ferro atraído pelo ímã. dá curso ao ódio coagulado. à maneira de louco. não consegue diluir a obcecante recordação do inimigo.. contudo. com veemência e segurança. forneceu a impressão de quem se revigorava. o novo companheiro padece angustioso complexo de fixação. quando menos esperávamos.. bandido! Não fujas!.. Amaro esboçou delicado recuo. entretanto. passando a gritar.

inflexível. sem fé e sem esperança!. Acompanhávamos ambos. onde puseste a mulher que era minha felicidade e minha vida? Quebraste-me os sonhos. Homem terrível. prosseguiu. acaso? – Sim. onde Amaro dispôs-se ao ajuste pacífico. que fizeste de mim? Sou apenas máquina de trabalho. reconheço-te – falou o interlocutor num suspiro –. Demonstrando-se interessado em defender a tranqüilidade familiar. o dono da casa estacou à porta. exasperado –. desapontado – nunca tive a intenção de ofender-te! – Maldito! como sabes dissimular! Onde está Zulmira? Devo exterminar-te para restituir-me a independência? E afrontado pela serenidade do outro. aguardando o provocador. quarteirão a quarteirão. aniquilaste-me os ideais!.Francisco Cândido Xavier . pessoa a quem devoto consideração e respeito. no entanto. não sabia!. até que esbarramos à entrada do abrigo doméstico que já conhecíamos. engodando-a com mentirosas promessas? . – Consideração e respeito? que deslavado fingimento! Onde a prova de apreço. – Então – bradou Silva.. contudo. afastava-se. longe de renunciar ao escuro propósito de agressão. és Mário Silva..Entre a Terra e o Céu . O adversário. – Eu não sabia. é aqui o ninho das serpentes? Levantando os punhos contra o rival humilde. – alegou Amaro. seguia-o. se me arrancaste a noiva... rápido. sem arrefecer no ímpeto.. rixento: – Pagar-me-ás muito caro a intromissão! Infame enganador. o enfermeiro acentuou: – Não me reconheces.pelo Espírito André Luiz 101 O ferroviário..

mais que dilacerado..Entre a Terra e o Céu . Saberias. entretanto. Mário. podes acreditar que não tenho amargado pouco. porventura. Roubaste-me a única felicidade que eu esperava do mundo! a única felicidade que era minha!.. continuo agoniado e desfalecente. Com enternecedora inflexão de súplica. Temos padecido muito. ajuda-nos com a tua compreensão!. a fim de ressarci-las. mortalmente ferido? Se dívidas possuo para com a Divina Providência. Amaro fixou triste sorriso e obtemperou: – E acreditas que eu seja feliz? Admites no casamento apenas a exaltação dos sentidos inferiores? Crês que o homem consorciado deva encontrar na mulher simplesmente uma escrava? Anuo em Zulmira a companheira e a irmã que me cabe proteger. Nem ela e nem eu encontramos na experiência conjugal a ventura das afeições cor-de-rosa. acentuou: – Se ainda consagras amor à criatura que desposei. Nossa aproximação começou por uma série de desajustes..Francisco Cândido Xavier . em torno de minha preferência. teria renunciado em teu favor. agora.. o que seja a desdita de um pai que chora sem lágrimas. inconscientemen- .. nossa casa é um espinheiro de sofrimento. Não ignoras que me casei em segundas núpcias. todavia.pelo Espírito André Luiz 102 – Somente soube de tua velha afeição por ela quando meus compromissos no matrimônio não admitiam qualquer recuo. Desejaria realmente servir-te. vencido.. me houvesse comunicado lealmente quanto se desenrolava. Minha esposa adoeceu gravemente e eu mesmo.. em que o desejo contentado é como a flor que morre num dia.. A morte para mim não passaria de bênção libertadora.. até agora. não me vejo em condições de aceitar-te o desafio! Estou dilacerado e...... Se te fiz algum mal. num terrível desastre.... por isso mesmo. Desde então. não terá recolhido em mim a perfeita alegria que lhe seria lícito esperar. enfurecido – não creio em tua palavra de lobo disfarçado. Se alguém. – Hipócrita! – tornou Mário. Zulmira. que culminaram com a morte do meu caçula. Como podes observar..

Amaro não mais respondeu. Suaves irradiações de esmeraldina luz escapavam-lhe da fronte.Entre a Terra e o Céu .. fala! Explica-te!. perdoa-me! Perdoa-me pelas angústias da minha existência de condenado a horríveis provas morais!. ante a rendição comovente. – Pelo tom da conversa. prosseguia gritando: – Porque silencias. sem hesitar.. Reage! Dominaste Zulmira. As palavras inarticuladas de que se servia.. acompanhamos o nosso orientador.. Arrastados pela simpatia e pela emoção.. meu ódio é inexorável!. Vimo-lo curvar a cabeça em oração fervorosa. ..Francisco Cândido Xavier .pelo Espírito André Luiz 103 te. covarde? Fala. com o auxílio fraterno.... com espanto nosso. Clarêncio convocou-nos. Criminosos de tua laia não merecem compaixão!. Meu desforço é certo. mas abreviá-la-ei com as minhas próprias mãos. Nessa altura do diálogo. alcançavamnos o espírito. qual se fossem ondas caloríferas e harmoniosas de humildade e confiança.. Silva. Mário Silva.. concluo que a justiça começou a expressar-se. incapaz de sensibilizar-se. – Desculpar? Nunca! – exclamou jactancioso. para implorar socorro.. retribuiu com escandalosa gargalhada. mas não me dobrarás um milímetro!. paternal: – Respondamos à prece de Amaro. devidamente.

...... atencioso.. semi-aterrado: – Ah! agora!. de repente. Abriu desmesuradamente os olhos. Como poderia esquecê-lo assim tão infantilmente? Como não rememorar? Disputávamos a mesma mulher... É indispensável te recordes. e exclamou. depois de alguns momentos. Afigurou-se-nos mais elegante. Lola Ibarruri! Quem senão ela poderia oferecer-me o bálsamo do esquecimento? Realmente fiz tudo para separá-los. reparamos que Mário Silva aquietava-se.. em Piraju!...pelo Espírito André Luiz 104 17 Recuando no tempo Depois do nosso esforço de autocondensação. O semblante dele acusou estranha metamorfose. em nos reconhecendo. e. E.... situando a destra na fronte do enfermeiro.. agora me lembro!. Clarêncio abeirou-se dos dois amigos. para o necessário ajuste vibratório. Estamos aqui para que te lembres.. quando conheci a cantora e bailarina admirável. que domingo terrível aquele da praça embandeirada. a juventude e a arte reunidas e eu carregava no peito o esquife dos sonhos mortos. Deslocavam-se as . mais jovem. Deu-me o repouso de que minhalma necessitava. Ele não era o tipo de homem capaz de fazê-la feliz! Lola trazia consigo a beleza.. amigo! – respondeu o Ministro. Achávamo-nos em Luque.. – Não somos quem julgas.... Não precisamos de qualquer delegado aqui!.. Mas. Mário associou-nos a presença ao pesadelo da véspera e passou a clamar: – Meu caso não é com a polícia!..Entre a Terra e o Céu . Meu agressor de ontem é Leonardo Pires..Francisco Cândido Xavier .. restaurou-me. – Acalma-te. com o amoroso poder que lhe era característico.

pelo Espírito André Luiz 105 forças para a caça ao inimigo. aplicou-lhe recursos magnéticos balsamizantes e o rapaz levantou-se. por isso. te rogava não despertasses o ódio naquele que te aniquilaria o corpo físico? Apresentando a expressão de um louco... Mário desferiu desconcertante gargalhada e bradou: – Porque amei Lola Ibarruri? Porque não tive escrúpulos em arrebatá-la ao companheiro que a retinha nos braços? Nosso instrutor afagava-lhe a cabeça com o evidente intuito de reavivar-lhe a memória. porém. consegui a simpatia de Frei Fidélis. com tamanho desvario? Porque não atendeste aos avisos da consciência. O suculento repasto exigia algum trago de vinho e Pires não hesitou. Amaro.. Lola não deveria movimentar-se. Clarêncio ajudou o enfermeiro a firmar-se de novo sobre os pés e perguntou. . ministrando-me o veneno que trazia às ocultas!.Entre a Terra e o Céu ... Arquitetava meus planos. Imaginava..Francisco Cândido Xavier . o favor do Príncipe!.. Mário levou as mãos à garganta. Os maiorais eram meus amigos!.. Não supunha conhecesse ele a deserção da companheira e procurei agradá-lo. advogando-me a causa. Ah! bandido! bandido!.. decerto. como se registrasse enorme sofrimento e caiu. que se mostrava igualmente transtornado. O Ministro. que. quando encontrei Leonardo.. paciente. antes da missa.. aceitando-lhe a companhia. por minha vez... gemendo de dor. Obteria.. naquela manhã de terrível memória. aturdido.. O caridoso capuchinho auxiliar-me-ia.. entretanto.... concitando-o a relembrar: – Por que razão te afeiçoaste à cantora. acompanhava a cena com manifesta aflição.. tornar à retaguarda!. desamparado. a melhor maneira de reencontrar a mulher querida e. poderia.

. Era tudo o que a mocidade ideara de mais lindo para o meu coração. como se surpreendesse o passado ao longe... asilada por respeitável família... para que o nosso consórcio fosse devidamente festejado.. mergulhávamo-nos ambos na rósea corrente dos mais belos sonhos. Imprimindo à voz lúgubre acento. Ah! quando lhe fitava os olhos claros e doces.. Armando e Júlio. sentia-me transportado a céus imensos. na invasão de dezembro de 1864.. Esgares de amargura modificaram-lhe a feição... um sacerdote consagrou-nos o casamento. Minha amiga e minha esposa. O Conselheiro Paranhos prometeu ajudar-nos... como duas aves entrelaçadas no mesmo ninho. O próprio Marquês de Caxias conheceu-a e animou-nos a união. encontrei-a sem parentes. continuou: – Nos arredores da formosa capital paraguaia.... Descansava minhalma na confiança sincera. em nosso pequeno santuário de ventura. Com a desculpa de aliviarem os sofrimentos da campanha. minha esperança e minha razão de ser...... Nela encontrava a divina novidade de cada dia e. tão logo regressássemos ao Brasil. todo o tempo que lhes era disponível.. de súbito..... Lina era o tesouro de meu coração. construíra minha casa e era feliz!. Vivíamos tranqüilos. os dois passaram a gastar. até que um dia. quando tive a desgraça de levar ao nosso templo doméstico dois companheiros de trabalho e de ideal. O semblante do narrador alterou-se. De olhar vagueante..Entre a Terra e o Céu . continuou. seriam eles amigos ou abutres? Sei apenas que Lina e eles se fizeram íntimos em pouco tempo. – prosseguiu Mário Silva. que a adotara por filha estremecida!.. em janeiro de 1869.. alarmado – ausenteime de Assunção com o espírito irremediavelmente desiludido. atormentado: .pelo Espírito André Luiz 106 – Ah! sim!. apesar das vicissitudes da guerra.Francisco Cândido Xavier .. Descendente de uma das famílias de Mato Grosso aprisionadas pelo inimigo. Foi assim que... quando a trégua nos atingira. nos recôncavos da noite. Sim..

. Foi assim que encontrei Lola e Leonardo e não hesitei em exterminar-lhes a felicidade. Viciei-me. Afirmou. Valendo-se da pausa que se evidenciava. Lina. deveria desaparecer. Envergonhado. espontânea....Francisco Cândido Xavier . num minuto. A segurança de caráter que cultivava... invoquei a proteção de superiores amigos e fugi de Assunção.. quando fomos pelos outros desrespeitados. que passei a odiar. atirou-me em rosto o mais frio desprezo. Confiei-me ao álcool e ao jogo.. um dia. efetivamente. brioso. vê destruídas as esperanças da vida inteira?..... rudemente. contudo.. Do militar responsável.. desci à condição de aventureiro infeliz.. Tudo é treva para quem carrega consigo mesmo o carvão dos enganos mortos! Não quis acreditar no que via e interpelei a mulher amada. exibiu sarcástico sorriso e informou: – Lina. Clarêncio indagou: – E nunca recebeste notícias da esposa? Mário Silva. quando vim a saber que Júlio fora i- .Entre a Terra e o Céu . fora abalada nos alicerces. encontrei Lina e Júlio abraçados um ao outro.. porém. Eu era. Achava-me não longe de Assunção. depois de três meses sobre a mágoa terrível que me fora assacada. reconduzido à personalidade de Esteves pela influência magnética. senão como irmã que se compadece de um companheiro necessitado.. É muito difícil albergar respeito aos outros..pelo Espírito André Luiz 107 – Até que. acaso. que não podia amar-me... Cravou em nós o olhar agora coruscante e terrível e acrescentou: – Compreenderão.. que me desposara simplesmente para fugir às humilhações que experimentava numa terra estrangeira e que eu.. era demasiado cruel. como se o tálamo conjugal lhes pertencesse. um homem diferente. a dor do homem que se vê irremissivelmente atraiçoado pela mulher em que se apóia para viver? Entenderão o incêndio que lavra no espírito flagelado de quem.

todavia. seremos viajores perdidos no cipoal das trevas de nós mesmos. em lhe observando o rosto metamorfoseado. o antagonista bradou entre o ódio e a angústia: – Armando! Armando! . O destino marcara-me. recomendada pelo Cristo.. entretanto.. o outro amigo que parecia consagrar-nos estima fraternal. . na caserna. Depois disso. porventura?. encontrou-a nos braços de Armando. Pois és tu? O Amaro que hoje detesto é o mesmo Armando de ontem? Onde me encontro? Enlouqueci. não teremos olhos para a luz. nada mais soube.. depois de alguns dias embebedou-se deliberadamente e arrojou-se às águas do Paraguai.. aniquilando-se.Francisco Cândido Xavier . Socorrido a tempo. generoso: – É necessário esquecer o mal. Certo dia. Revelava-se mais leve e mais ágil e sua face impressionava pelos traços juvenis. de volta ao lar. A morte aguardava-me em Piraju. Júlio esqueceu-se do revés com que me dilacerara. impiedoso. mas. semanas antes.. Silva dispunha-se a responder.. Sem aquela atitude de perdão. e. Haverá paz sem justiça e haverá justiça sem vingança? Nosso orientador ergueu a voz calmante e considerou.pelo Espírito André Luiz 108 gualmente escarnecido por ela... Menos forte que eu mesmo.Entre a Terra e o Céu . meu amigo. incapaz de suportar os males corpóreos decorrentes da intoxicação. Não posso modificar-me.... cego de absorvente afeição. Mário fixou desagradável carantonha e acentuou: – Sou um poço de fel.. Sem amor no coração. Buscou aproximar-se do enfermeiro num gesto natural de cordialidade.. enfim. ingeriu grande dose de corrosivo. Seu veículo espiritual parecia haver regredido no tempo.. conseguiu sobreviver. Amaro fizera ligeiro movimento e mostrou-se-nos singularmente renovado.

voltados então para o ferroviário. pediu. situando-se entre os dois. como animal ferido. Comentaste o pretérito à vontade. cuidadoso. O Ministro. Contido pela força moral da advertência. no entanto. galvanizado de assombro. A justiça. Mário calou-se e.Entre a Terra e o Céu . é o momento de nosso amigo.. de repente.Francisco Cândido Xavier . O esposo de Zulmira procurava estender braços amigos ao adversário que o contemplava. sem afetação: – Agora. recuperando as recordações da época em estudo. não me provoques!. dirigindo-se particularmente ao enfermeiro. . determinou. Clarêncio falou. contudo.. deve apreciar todas as partes interessadas. que se fizera mais simpático pela serenidade de que se investira. em qualquer solução. para que aproveitasse a digressão do antigo companheiro. O sofrimento reparador conferiulhe à mente e à sensibilidade recursos novos. não! não te acerques de mim! Não me provoques. Mário gritou em desespero: – Não.. Bastou-me tocá-lo de leve. É indispensável que Amaro fale por sua vez. rápido: – Não precisei despender grande esforço para que a memória de Amaro tornasse ao pretérito. continuamos à escuta. recuando.pelo Espírito André Luiz 109 Instruindo-nos.. comovidamente: – Tenhamos calma! Respeitemo-nos uns aos outros! E.

recordo-me perfeitamente. solicitando-nos o concurso fraterno para a solução de um problema que reputava importante para o futuro que o aguardava.. Éramos três amigos inseparáveis na caserna e achávamo-nos os três juntos. Lembro-me de que. entusiástico. A curiosidade abafava a exaustão. que conhecera. comunicava-nos o consórcio.. Abordaríamos Assunção. antecedendo-se ao desembarque.. sob a bênção de um sacerdote e com a tolerância dos dirigentes da ocupação. cujo semblante exibia os sinais de renovação a que nos reportamos.. A capital paraguaia. pedia-nos. começou a dizer. recobrando energias e continuou: . na hipótese de perecer em combate.. em angustiosa expectativa. considerando o porvir. procedendo de Santo Antônio. ao amor que os ligava e aos projetos que formavam.. Amaro fez pequena pausa..... em se vendo seguros sobre a presa. Esteves procurou-nos. Referiu-se.. comovido: – Sim. em Villeta. Revejo ainda a fisionomia risonha de Esteves. Júlio e eu.. colocando-nos em guarda.... dias antes..... revelava-se fatigada e desprevenida. notificar sua morte à jovem Lina Flores. Jamais olvidarei a gritaria dos nossos... desde muito aprisionada.Francisco Cândido Xavier .pelo Espírito André Luiz 110 18 Confissão Amaro.. mas o enlace efetuou-se às ocultas. quando se reconheceu são e salvo. Preocupados com a aflição do companheiro. Ninguém realmente podia casar-se em campanha.Entre a Terra e o Céu .... Ele. reconfortamo-lo com palavras de compreensão e esperança.. Na incerteza das ocorrências que nos esperavam. A madrugada do Ano Bom de 1869 ficou marcada para sempre em nossa memória. porém. triunfantes. criando aflitivos problemas para as autoridades. Em breve.. atendendo-se à circunstância de que a noiva era uma pobre menina brasileira..

..Entre a Terra e o Céu . tentei retrair-me. Anotando-lhe o estado d'alma e reconhecendo o direito de Esteves sobre a mulher que desposara.. de imediato. A esposa de Esteves dominara-lhe a mente. Chorou debruçado nos meus ombros.. Se pudesse haver chegado. a inoportunidade de qualquer violência. Insinuou-se junto à recém-casada. Esteves afastou-se. desse modo.. sobre nós. cobriu-a de gentilezas e....pelo Espírito André Luiz 111 – Recordo-me de que Júlio e eu fomos em visita ao lar de Esteves. contudo.. em fevereiro do mesmo ano. impulsivo e irrequieto. antes do companheiro – acentuava enamorado –.. de onde havia trazido a esposa e onde se achavam.. aniquilar-se.. fazendolhe concessões.. nas responsabilidades do casamento. provavelmente. colocados à frente de Lina. nosso embaixador em missão extraordinária.. Calquei o sentimento e procurei o olvido necessário. como era preciso. não lhe cederia o lugar. Assim aconteceu.. junto às Repúblicas do Prata. veio a mim extravasando o coração. retardados. quem sabe? Nas vicissitudes da guerra e quase criança para guardar-se. primeiramente rio abaixo. alguns camaradas enfermos. várias vezes repetiu confidências que me tocavam as fibras mais íntimas. comentando o golpe que recebera. desolado. porém.Francisco Cândido Xavier . Recordo-me do dia em que Esteves me procurou.. mas Júlio. Enfermeiro bem conceituado e protegido do Conselheiro Silva Paranhos. .. intraduzível atração. Lina envolveu-se nas atenções do rapaz.. de súbito... Guardei comigo a surpresa que me possuía. pela primeira vez.. cuja presença exerceu. ambos nos sentimos incompreensivelmente ligados àquela jovem bela e simples. E. na direção de Villeta... A paixão de Júlio era demasiado forte para resignarse.. não lhe seria difícil a retirada de Assunção. a não ser que havia morrido misteriosamente em Piraju.. Desejava desaparecer. aos quais prestaria assistência. Sustentava a impressão de que Lina já lhe havia surgido em sonhos.. Nada mais soube dele... Fiz-lhe observar.

o afastamento do Marquês de Caxias deixava as tropas com larga provisão de tempo para diversões. mas também porque possuía uma noiva no Brasil. Temia por mim mesmo. ao mesmo tempo.. Ela.pelo Espírito André Luiz 112 Evidenciando enorme padecimento moral... todavia. Reparando.. confessou-se.. até o fim. simultaneamente. o assédio de Lina.Entre a Terra e o Céu . Silva estremeceu e. Clarêncio.. A princípio. O jogo alegre e o chá saboroso reuniam-nos os três.. não desistiu do propósito de que se animava. Assinalou a objurgatória do adversário. procurou-me. onde a ocupação concentrava todos os assuntos e documentos de interesse do nosso País. no entanto. Amaro não perdera a calma. Lina. aflita.. resolvi asilar-me no trabalho mais intenso e consegui a designação para servir na vigilância noturna do Palacete Resquin. tentei distanciar-me.. noite a noite.. acomodou o enfermeiro irritado.. como que me registrava a inclinação imanifesta... A sós comigo. contudo.Francisco Cândido Xavier . disfarçada em mulher do povo... Deitava-me olhares que me acordavam. Instado talvez pela companheira. e continuou: – Sim. não somente porque não devia perturbar-lhe a harmonia doméstica. minha confissão deve ser exata e completa. tentei evitá-la... afetuoso. recomendando-lhe esperar a narração. na destruição de minha felicidade? Infames!. Declarava-se atormentada. Certa noite. para a alegria e para a dor. Queria aproximar-me e fugir dela. diante daquelas evocações. fixando triste sorriso. Júlio constrangia-me a freqüentar-lhe a casa. entretanto... busquei isolar-me. ante o sentimento que a moça despertava em meu coração... aproveitando o intervalo que se fizera.. Entendendo que Lina e Júlio se haviam ajustado para a vida comum. Sentira-se amada por . agoniado: – E a tua participação no infortúnio de minha casa? quem me convencerá de que também não te achavas de parceria com Júlio. Amedrontado. bradou. de novo..

O cocheiro sofreou os animais e desci a socorrê-la.. minha esposa e eu tornávamos do teatro.. mas. Júlio ingeriu grande quantidade de corrosivo. decidido a jamais reencontrá-la..pelo Espírito André Luiz 113 Esteves e via-se ardentemente querida por Júlio. Adquiriu estranhos padecimentos da garganta e do esôfago e. porém. passou a destra pelo rosto e prosseguiu. Amaro. até às águas do Paraguai. submeteu-se ao tratamento na caserna.. quando os cavalos em disparada colheram pobre mulher embriagada na via pública.. Prometi-lhe a volta. quando a mulher foi recolhida ao leito.Francisco Cândido Xavier . fugi incorporando-me às tropas que combateriam os derradeiros remanescentes de Solano López.. foi salvo. E foi assim que.. apressados. Experimentando pesados remorsos. de ventre rasgado a esvair-se em sangue. não sabendo como suportar as provações físicas e morais. todavia. amparado suficientemente.... mas não pudera interessar-se pela felicidade junto deles. terminada a luta. caseime e fui feliz.. Numa noite de chuva forte.. depois de breve pausa: – Dez anos correram. arrastou-se.. Desesperado. tornei à pátria por outros caminhos..Entre a Terra e o Céu . em certa manhã de maio.. mais comovido. odiando-os por fim. mas com inesquecível assombro. por minha vez perdi a afeição que me algemava à mulher que nos atraíra e infelicitara e fugi dela.. procurei internar a mísera criatura para a assistência imediata. .. Debalde. E enquanto minha companheira continuava o trajeto para a casa.. um dia.. Amaro confiou-se a longa pausa e continuou: – Quem poderá explicar os enigmas do coração humano? Quem possuirá bastante visão para surpreender os caminhos da alma? Incapaz de dominar-me. meu companheiro encontrou-nos juntos.. Novamente no Rio. Guardas e populares auxiliaramme a empresa.. Lina agarrou-se ao meu afeto com o vigor da hera numa construção sem defesa. na Cordilheira. cometi a falta de assumir um compromisso espiritual que não me competia... supondo encontrar na morte a paz que procurava....

mas o enfermeiro. conquistando o futuro!..Entre a Terra e o Céu .. amaldiçoando o mundo e as criaturas.Francisco Cândido Xavier .. A infeliz reconheceu-me. É preciso solver os compromissos do passado. contudo.. Nosso instrutor. o destino!. para reaver novas faixas da memória.. Compreendi a extensão de meu débito e prometi ressarci-lo. e perguntou: – Onde voltaste a vê-la? O interpelado esboçou o sorriso de quem recolhera a resposta em si mesmo e informou: – Ah! sim. para conquistar a coroa de redenção... . Por dois dias lutou contra a morte... Sim.... Notava-se que o ferroviário esforçava-se.. reencontrei-a na vida espiritual.... não obstante contido pela força paternal de Clarêncio. lado a lado. visivelmente fatigado.. Achava-se unida a Júlio em aflitivas condições de sofrimento depurador. estupefato. Morreu revoltada e sofredora. relacionou as desditas que atravessara. envolvendo-o em renovadas forças magnéticas. Mário Silva. Lutaríamos. Ampará-losia. Auxiliaria os dois na senda terrestre.. começou a chamar por Júlio emitindo brados terríveis.. Calou-se o esposo de Zulmira. tentando a recuperação da felicidade que perdera para sempre.. desde que se viu sozinha no Paraguai.. fixava-o. titubeante. afagou-lhe a fronte. esclareceu que viera ao Rio à minha procura e emocionou-me com a narração do drama angustioso em que vivia.. em vão. Amaro interrompeu-se.. entre o desespero e o pavor.pelo Espírito André Luiz 114 nela identifiquei Lina Flores.. sim.

Envolvidos na doce luz que nos banhou...Entre a Terra e o Céu .... Acha-se doente. invocando. estacou junto de nós.. Júlio não respondeu à chamada. Vossos apelos individuais alteram-lhe o modo de ser. odeio-te! Mas é necessário apareças! Acusa teu desalmado assassino!. alguém surgiu. possesso.. gesticulava a esmo e continuava. entretanto.. conclamando: – Júlio!.. humilde: – Irmãos.. como potro indomesticado. à exceção de Clarêncio que se mantinha calmo.pelo Espírito André Luiz 115 19 Dor e surpresa – Júlio! Júlio! comparece. Compadecei-vos de quem . de improviso.. E percebendo talvez a simpatia que Amaro nos conquistara. Poderia colocar-se mentalmente ao vosso encontro. revel: – Comparece para desmascarar o patife que procura comovernos! Júlio. A irmã Blandina. – bramia o enfermeiro. Blandina rogou. em pessoa. contudo.. Júlio!. covarde! ... O Ministro procurava contê-lo. à face da serenidade com que suportava a situação. Depois de saudar-nos. aflito. aquietamo-nos. qual se fora nominalmente intimada. surpreendendo-nos a atenção. atendei !.. mas Silva. perplexos. Temos Júlio... Sim.Francisco Cândido Xavier . Venho implorar-vos caridade!. por amor a Jesus. bondoso. como se aguardasse semelhante visita. atravessa agora difíceis provas de reajuste. prosseguiu. sob a nossa guarda..

sob a custódia dos arcanjos ou dos demônios.pelo Espírito André Luiz 116 hoje se esforça por olvidar o que foi ontem para regenerar-se amanhã. Na penumbra do quarto que já conhecíamos. Entremos.. porém.Francisco Cândido Xavier . com eficiência! Havia tanta aflição e tanta ternura naquela rogativa que a vibração do ambiente modificou-se. apontando a enferma. não lutarei contra o sortilégio! Não lutarei! Mas preciso arrojar este bandido ao despenhadeiro que merece por suas deslavadas mentiras!. Júlio. a segunda esposa de Amaro jazia subjugada pela outra. e. de súbito..Entre a Terra e o Céu . carinhosamente. provavelmente revoltado contra a emoção que nos senhoreava o espírito. Que Júlio permaneça no céu ou no inferno. todavia. convocados pelo destino que nos algema uns aos outros. exijo que a verdade surja. generoso: . Enquanto Odila se nos afigurava mais rancorosa e mais dura. Comecei a entender com mais clareza a trama obscura do romance vivo que abordávamos... A determinação foi obedecida.. porque Silva. esclareceu. Nosso instrutor.. assumindo a chefia espiritual do grupo. alongar divagações. como um pai que recolhe um filho. de novo: – Anjo ou mulher. Recorro ao testemunho de Lina! Que Lina compareça! Que ela deponha! Se nos achamos aqui. passou a reclamar. o menino doente.. Zulmira revelava-se mais abatida. era o companheiro que voltava na condição de filho do amigo com quem outrora se desaviera.. Clarêncio enlaçou Mário. Não pude. que a pérfida mulher seja ouvida igualmente. inteira!. convidou com energia e brandura: – Lina encontra-se não longe de nós.

atualmente. constrói os alicerces da missão de maternidade para a qual se encaminha. amparando-lhe as angústias silenciosas. então. ontem. Estupefato. em dolorosas reparações. Junto de nós.. Apaga a labareda de ódio que te requeima o coração! Deixa que nova compreensão te beneficie a alma ulcerada!.. Quando amamos realmente. escutou ape- . antes de tudo é a felicidade da criatura amada que nos interessa. regressou em companhia de Armando. Silva exclamou. cambaleante: – Quer dizer então que Zulmira me traiu duas vezes? – Não te refiras à traição – corrigiu Clarêncio.Entre a Terra e o Céu . com atenção respeitosa. mas sim uma associação de interesses espirituais para o trabalho regenerativo. Armando. é imprescindível compreender! Armando. aterrado: – Zulmira! Zulmira. conciso: – Sim. O orientador abeirou-se da doente.. bradou.. O consórcio para eles não foi o castelo de flores de laranjeira. espantadiço e agoniado. com imensas dificuldades.pelo Espírito André Luiz 117 Amigo.. ao reconhecê-la. e mostrou-lhe o rosto ossudo e triste ao enfermeiro que.. Blandina mantinha-se em prece. superando tremendos obstáculos. aceitou o compromisso de reconduzi-la à dignidade feminina. Ajudemo-la com as nossas vibrações de compreensão e carinho. em luta no plano da vida real para reerguer-se.. Não nos cabe prejudicar o caminho de quem procura a regeneração que lhe é necessária! Ante o olhar de Mário. a fim de recuperar-se. Nosso grupo avançou algo mais.. hoje.Francisco Cândido Xavier . acalma-te! Lina Flores. tenta alcançar a altura do casamento digno e. padece na forja da luta e do sacrifício. é Lina que volta? O Ministro acariciou-lhe a cabeça e informou. sem alterar-se –. o Ministro considerou: – Lina.

de modo a se liberarem perante a Lei.. ceitil a ceitil. Silva.. não lhe será lícito fugir. devem ser resgatados. Amaro. é compelido a responder. por isso mesmo.pelo Espírito André Luiz 118 los inferiores.. Jesus-Cristo!. à maneira de pequenas constelações.. gravitando em torno do Sol Magno. absorto. As almas aprimoram-se.. demonstrava-se indiferente. Todos somos devedores uns dos outros. Como um astro que se distancia do núcleo em que se integra. criando embaraços asfixiantes à própria marcha. Prepara-te na fé para congregá-los. Antigamente. não parecia desperto para as verdades que Clarêncio pronunciara. rugindo. no centro de forças em que Leonardo Pires e Lola Ibarruri aguardam-te a precisa cooperação. em verdade. a requisições de natureza edificante. estabelecendo espinheiros dilacerantes entre os dois. grupo a grupo. embora constrangido. igualmente na condição de filho e mãe.. no entanto. abandonaste a órbita de velhos companheiros de evolução. de novo. devidamente. Hipnotizado na contemplação da mulher querida. a fim de que se habilite a auxiliar Júlio. fossem como fossem. pelas vibrações de afetividade e ódio.. separou Zulmira e Júlio. no templo doméstico.. às quais. cabe-lhe reuni-los no carinho familiar. Hoje.. A ligeira preleção trouxera-nos enorme proveito. caindo. Não podemos enganar o Supremo Senhor. Nossos débitos. Agora..Francisco Cândido Xavier . para que na posição de mãe e filho se reajustem na afeição santificadora. noutro tempo. entre o carinho e a aversão.. Depois de fitá-la. de maneira a se redimirem para a bênção do amor puro. Lina Flores reclama alguém que a recambie ao serviço renovador.Entre a Terra e o Céu . Nossas ações são pesadas na Justiça Divina. Amaro dobrara a cerviz. incompatíveis com as responsabilidades de que se via depositário.. desesperado: . isolaste Leonardo da afetuosa assistência de Lola. revelando-se disposto a obedecer aos ditames de natureza superior. quebrou a quietude que envolvera o recinto.

Seu veículo espiritual rodeava-se agora de um halo cinzento-escuro. quanto possível. em colaboração com Blandina. Hilário e eu achamo-nos ao lado de Silva. através de sedativos magnéticos. exclamando: – Não suporto mais! Não suporto mais!.. A aventura provocada pela insistência mental dele mesmo era suscetível de perigosas conseqüências.. . Examinamo-lo. Silva retrocedeu. erguia os punhos cerrados contra a desditosa mulher que jazia no leito.. sob o império de insopitável arritmia. Tão logo se reconheceu sem o controle que lhe sofreava os movimentos.Entre a Terra e o Céu . atentamente.. De imediato. desgraçado de mim!. atraída pelo imã. como fera solta. Nosso orientador libertou-o da influência magnética com que lhe tolhia as energias. E correu para o seio da noite. sibilante. que despedia raios desagradáveis e perturbantes. O enfermeiro. Odiarei! odiarei a infame que voltou!. Novamente enraivecido e inquieto.pelo Espírito André Luiz 119 – Não posso modificar-me. Não podia lembrar a experiência grave daquela hora. Somente a vingança me convém. O peito arfava-lhe. Num átimo. Passes anestesiantes deviam favorecê-lo. retomaria o corpo denso em aflitivas condições de saúde. em lastimável prostração. entramos em ação.Francisco Cândido Xavier . O coração acusava-se desgovernado.. Clarêncio recomendou-nos seguir-lhe o passo.. enquanto prestaria assistência ao ferroviário e à esposa. sossegando-lhe o campo mental.. que aderia ao envoltório de carne com o automatismo da molécula de ferro.. decerto – informou o Ministro prestimoso –. não quero perdoar! Não quero perdoar!.

O pensamento surgia-lhe atormentado... sem palavras. pelos quais foi completamente envolvido de energias revigoradoras. Sabia tão somente que atravessara grande pesadelo cujas dimensões lhe não cabiam na memória. Sim – concordei comigo mesmo –.Entre a Terra e o Céu . Sentia-se chumbado à cama. É a minha única solução”. com mais facilidade.Francisco Cândido Xavier . mergulhando a cabeça nas mãos. despendeu vários minutos para identificar-se. suplicando a Proteção Divina.. de si para consigo: – “Estou evidentemente conturbado. Buscou alinhar recordações. sentia-se morrer. Bastou essa atitude d'alma para ligarse. apesar dos passes. Era preciso continuar na lição. Tentou locomover-se.. hesitante e trêmulo. . cai nas garras da perturbação e da morte. Instintivamente orou. aos fluidos restauradores que lhe administrávamos. Semi-inconsciente. Clarêncio aguardava-nos. como se estivesse fugindo de medonhas tempestades no mundo íntimo. Pouco a pouco. Quem se debate contra o bem. Amedrontado. quase na situação de um cadáver repentinamente desperto. aflito. sentou-se no leito e. contudo. o moço acordou agoniado. consultarei um psiquiatra. afastei-me. mas não conseguiu. ingerindo uma pílula calmante. Suarento. o ódio gera a loucura. não pôde. falou. Com semelhante raciocínio.pelo Espírito André Luiz 120 Ainda assim. readquiriu os movimentos livres e levantouse. nebuloso. Amanhã.

entretanto. fora do veículo denso. ainda conseguimos observálo.Entre a Terra e o Céu . identificando o marido. . prejudica Evelina e transtorna-te!. esforçava-se por dirigir a atenção no rumo de nosso instrutor.. expulsa! Corre com esta mulher de nossa casa! Ela furtou a nossa paz.Francisco Cândido Xavier .. mal-humorada e enfurecida. extrema palidez fisionômica denunciava-lhe agora a inibidora emoção. perdera a serenidade que lhe caracterizava habitualmente o semblante. versando os problemas de ordem moral que lhe absorviam a mente. com aristocrática penetração nos problemas da vida. parecia dividir-se entre o amor e a piedade. Enquanto junto de nós. acentuava: – Porque reténs semelhante intrusa? O interpelado. provavelmente com o auxílio de Clarêncio. abandonara Zulmira por instantes e ajoelhara-se-lhe aos pés. A primeira esposa do ferroviário. perante a mulher que lhe dominava os sentimentos. Matou nosso filho. sob o amparo direto de nosso orientador..pelo Espírito André Luiz 121 20 Conflitos da alma Voltando à residência de Amaro. revelava-se mais acessível ao desequilíbrio e à conturbação. rogando. em conversação com Odila. sustentara calma invejável. Apontando a enferma com terrível olhar. Mostrava-se interessado em responder às objurgatórias que ouvia. súplice: – Amaro. mas talvez torturado pelo reencontro com a primeira mulher. ali. muito triste. Situado entre Odila e Zulmira..

Reparando que o ferroviário manifestava estranha aflição. O dono da casa acordou. que se lhe afigurava implorando socorro. bondoso: – Não. qual acontecera minutos antes com o ferroviário. reconduzisse a mente de Odila às impressões do pretérito. transportando-o para o leito em que o seu carro físico repousava. e cheguei a falar-lhe. partimos. Esperava que o nosso orientador. a fim de acalmar-lhe o coração. abatido. imóvel. Esfregou os olhos. no entanto.. sonolento. nesse sentido. guardando a idéia de ainda estar ouvindo o apelo que vibrava no ar: – Amaro! Amaro! O abalo do reencontro fora nele muito forte.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 122 A genitora de Evelina prosseguia gritando.. de dúvida e sofrimento. mas Clarêncio informou. o Ministro acercou-se dele e paternalmente afastou-o de Odila. o marido assemelhava-se a uma estátua viva. . É aconselhável nossa sustentação no fio de trabalho nascido na prece de Evelina. Da palestra que alimentara conosco não restava traço algum. não convém. A pobre desencarnada tentava agarrar-se a ele. Deixando-o entregue à lembrança fragmentária que lhe assomava à consciência como simples sonho. clamando em desconsolo: – Amaro! Amaro! não me abandones assim! O relógio-carrilhão da família assinalava três da manhã.Francisco Cândido Xavier . Na tela mnemônica permanecia tão somente a fase última de sua incursão espiritual – a imagem de Odila. com inflexão enternecedora. Nossa história cresceria demasiado por espraiar-se excessivamente no tempo.

ao passo que o enfermeiro. O pensamento que desencadeia o mal encarcera-se nos resultados dele. sorrindo. Vimos Leonardo Pires com a imagem de Esteves atormentando-lhe a imaginação e observamos Júlio. Há muita diferença. Porque surgiam em ambos efeitos tão díspares? O menino ainda trazia a garganta doente.Francisco Cândido Xavier . Esteves. porque sofre fatalmente os choques de retorno. Entramos. à frente das silenciosas reflexões que me absorviam. . E. em favor do pequeno Júlio. indaguei do Ministro quanto a certo enigma que me feria a imaginação. Atingíramos a graciosa residência de Blandina. acrescentou: – É natural que assim seja. O suicídio acarreta vasto complexo de culpa.Entre a Terra e o Céu . ao tempo da guerra do Paraguai. que confiara aos cuidados de Mariana. Clarêncio. O mal como que se instala nos recessos da consciência que o arquiteta e concretiza. Esteves foi envenenado. O choro de Júlio infundia compaixão. enquanto nos buscava a companhia. sofrera tanto quanto Júlio o suplício do veneno. enquanto Júlio se envenenou.. Valendo-me da excursão para o Lar da Bênção. em conseqüência de erros deliberados aos quais se entregou há quase oitenta anos.pelo Espírito André Luiz 123 A irmã Blandina solicitava-nos concurso imediato. enfermo até agora. no veículo em que se manifesta.. vitimado por Leonardo. não parecia haver conhecido qualquer conseqüência mais grave. A fixação mental do remorso opera inapreciáveis desequilíbrios no corpo espiritual. explicou afetuoso: – Não tomaste em consideração o exame das causas.

essa providência não deve tardar – considerou nossa amiga. o “habitat” que lhe compete.pelo Espírito André Luiz 124 Após saudarmos a devotada Mariana. é fácil compreender que sublimamos ou desequilibramos o delicado agente de nossas manifestações. para nosso uso. Quanto mais primitiva se revela a condição da mente. Nossa posição mental determina o peso específico do nosso envoltório espiritual e. um veículo de células elétricas. Mero problema de padrão vibratório. o instrutor convidou-nos a observar a infortunada criança. estabelecem. conforme o tipo de pensamento que nos flui da . no veículo eletromagnético em que nos movemos. está na medida da experiência adquirida e arquivada em nosso próprio espírito. o nosso corpo de matéria rarefeita está intimamente regido por sete centros de força. que podemos definir como sendo um campo eletromagnético. O crescimento do influxo mental. Atentos a semelhante realidade. Espero conduzi-lo à reencarnação em breves dias.Entre a Terra e o Céu . Assinalando-nos decerto a curiosidade. vibrando em sintonia uns com os outros. após abandonar o corpo terrestre. comunicando: – Como não desconhecem. induzindo a compulsória aglutinação do ser às regiões da consciência embrionária ou torturada. Cada qual de nós respira em determinado tipo de onda. que se conjugam nas ramificações dos plexos e que. o Ministro examinou-o e notificou à irmã Blandina. ao influxo do poder diretriz da mente. algo inquieta: – Estejamos tranqüilos. mais fraco é o influxo vibratório do pensamento. que o assistia com desvelo maternal. de vez que também percebia Hilário interessado em adquirir informações e conhecimentos em torno dos problemas que anotávamos de perto. conseqüentemente. – Sim. no qual o pensamento vibra em circuito fechado.Francisco Cândido Xavier . onde se reúnem as vidas inferiores que lhe são afins. atenciosa.

é considerado pela filosofia hindu como sendo o lótus de mil pétalas. e quanto mais nos elevamos. que passa a combinar-se facilmente com a beleza. fulgurante sede da consciência. de vez que nele assenta a ligação com a mente. na Terra. o grande . Analisando a fisiologia do perispírito. Considerando em nossa exposição os fenômenos do corpo físico. É. classifiquemos os seus centros de força. no rumo das gloriosas construções do espírito. para estudar com clareza os conflitos da alma. Ouvíamos as preciosas explicações. Esse centro recebe em primeiro lugar os estímulos do espírito. voltou-se para a garganta enferma de Júlio e continuou: – Não nos afastemos das observações práticas. Quanto mais nos avizinhamos da esfera animal. para que vocês consigam fixar com mais segurança os nossos apontamentos. maior é a condensação obscurecente de nossa organização. ao preço de esforço próprio. a terminologia trazida do mundo. sendo o responsável pela alimentação das células do pensamento e o provedor de todos os recursos eletromagnéticos indispensáveis à estabilidade orgânica. Tal seja a viciação do pensamento. comandando os demais. tanto quanto nos seja possível. com a harmonia e com a luz reinantes na Criação Divina. Temos. e satisfazendo aos impositivos de simplicidade em nossas definições. devemos dizer que dele emanam as energias de sustentação do sistema nervoso e suas subdivisões. que reage em nosso corpo a essa ou àquela classe de influxos mentais. vibrando todavia com eles em justo regime de interdependência. por ser o mais significativo em razão do seu alto potencial de radiações. por isso. Apliquemos à nossa aula rápida. aproveitando a lembrança das regiões mais importantes do corpo terrestre. mas Clarêncio. reparando que não nos cabia fugir do quadro ambiente. tal será a desarmonia no centro de força. maior é a sutileza de nosso envoltório. assim. o “centro coronário” que.Francisco Cândido Xavier . enlevados.pelo Espírito André Luiz 125 vida íntima. por expressão máxima do veículo que nos serve presentemente.Entre a Terra e o Céu .

tanto quanto o corpo de carne. a audição. a valer-se de milhares de formas.Francisco Cândido Xavier . constituem a visão. que ordena as percepções de variada espécie. à cultura. e aduziu: . É no “centro cerebral” que possuímos o comando do núcleo endocrínico. tecido com recursos tomados transitoriamente por nós mesmos aos celeiros do Universo. inclusive às atividades do timo. em que se localiza o santuário do sexo. que o nosso veículo sutil. Tudo é trabalho da mente no espaço e no tempo. está sediado no baço. anotamos o “centro cerebral”. Logo após. na vestimenta carnal. assinalamos o “centro esplênico” que. percepções essas que. vaso de que nos utilizamos para ambientar em nossa individualidade eterna a divina luz da sublimação. da tireóide e das paratireóides. com que nos cabe demandar as esferas do Espírito Puro. à arte. que sustenta os serviços da emoção e do equilíbrio geral. temos o “centro laríngeo”. Continuando. como templo modelador de formas e estímulos. Prosseguindo em nossas observações. O instrutor fez pequena pausa de repouso e prosseguiu: – Não podemos olvidar. o tato e a vasta rede de processos da inteligência que dizem respeito à palavra. Clarêncio afagou a garganta doente do menino. no corpo denso. é criação mental no caminho evolutivo. que se responsabiliza pela penetração de alimentos e fluidos em nossa organização e. porém. regulando a distribuição e a circulação adequada dos recursos vitais em todos os escaninhos do veículo de que nos servimos. referente aos poderes psíquicos. temos o “centro genésico”.pelo Espírito André Luiz 126 assimilador das energias solares e dos raios da Espiritualidade Superior capazes de favorecer a sublimação da alma. identificamos o “centro gástrico”. identificamos o “centro cardíaco”.Entre a Terra e o Céu . que preside aos fenômenos vocais. dando-nos a idéia de que nela fixava o objeto de nossas lições. contíguo ao “centro coronário”. por fim. a fim de purificar-se e santificar-se para a Glória Divina. Em seguida. ao saber. Logo após.

Entre a Terra e o Céu . prejudica a harmonia de qualquer um desses fulcros de força de nossa alma. nas quais aprenderá a valorizá-lo. alteração que se expressa por enfermidade ou desequilíbrio a acompanhá-lo fatalmente à reencarnação. de algum modo. No caso de Júlio. com os agradecimentos das duas solícitas irmãs que nos ouviam. Em seguida. naturalmente se escraviza aos efeitos da ação desequilibrante. observamo-lo como autor da perturbação no “centro laríngeo”. será defrontado por lutas terríveis. em virtude de o nosso amigo haver menosprezado a bênção do corpo físico. com mais segurança. de atenção encadeada à dor da garganta. E decerto para gravar. a benefício do pequeno enfermo. edificado com os esclarecimentos ouvidos. despedimo-nos de retorno ao nosso domicílio espiritual. atentamente. recuperar-se-á mentalmente para retificar o tônus vibratório do “centro laríngeo”. se caracterizará por fraca resistência aos assaltos microbianos. lhe retratará a região lesada a que nos reportamos. Com a serenidade invejável de sempre. o Ministro ponderou: – Nosso Júlio. e. a elucidação. o instrutor desdobrou várias operações magnéticas. Sofrerá intensamente do órgão vocal que. obrigando-se ao trabalho de reajuste. constrangido a pensar nela e padecendo-a. e. sem dúvida. concluiu: – Júlio renascerá num equipamento fisiológico deficitário que. porém. . restabelecendo-lhe a normalidade em seu próprio favor.Francisco Cândido Xavier . por atos contrários à Lei Divina. que se mantinha calmo. – E como sanará ele semelhante deficiência? – perguntei.pelo Espírito André Luiz 127 – Quando a nossa mente.

Assim como o homem comum mal conhece o veículo em que se movimenta. concluí que não me cabia perder a oportunidade de mais amplo entendimento com o nosso orientador. na Vida Maior. Lidamos. passamos a apreciar. . os desencarnados. pela expressão dos olhos. pouco a pouco.pelo Espírito André Luiz 128 21 Conversação edificante Enquanto regressávamos ao nosso círculo de trabalho e de estudo.Entre a Terra e o Céu . encorajado pela atitude do companheiro. acentuando. o corpo abandonado à Terra. desfechei a primeira questão. os nossos conhecimentos. Efetivamente. mas somos desafiados pelos enigmas do novo instrumento que passamos a utilizar.Francisco Cândido Xavier . E. em novas condições na vida espiritual. com o carro sutil da mente. penetrando os segredos de sua formação e desenvolvimento. pelo menos na esfera em que nos situamos. Reparei que Hilário. de modo a conhecer-lhe a intimidade. demonstrava não menor anseio de saber. com alusão aos esclarecimentos que nos fornecera. será difícil alcançar o grande equilíbrio que nos outorgará o trânsito definitivo para as eminências do Espírito Puro. somos compelidos a meticulosas meditações para analisar a vestimenta de que nos servimos. quanto às peculiaridades que lhe dizem respeito. também nós. acerca do perispírito. para articular novas providências de auxílio em favor dos protagonistas da história que a vida estava escrevendo. ignorando a maior parte dos processos vitais de que se beneficia e usando o corpo de carne à maneira de um inquilino estranho à casa em que reside. com mais segurança. sustentação e desintegração. considerando: – Inegavelmente.

a Sabedoria Divina despendeu milênios de séculos. – Exatamente. perante as Leis Divinas que nos regem.pelo Espírito André Luiz 129 – Ah! sim – concordou o Ministro. para que tivéssemos na Crosta Planetária um vaso tão aprimorado e tão belo.Entre a Terra e o Céu . atencioso –.Francisco Cândido Xavier . – Compete-nos. – Sim – confirmou Clarêncio –... compelindo-nos a natural cativeiro em derredor das vidas começantes às quais nos imantamos. atribuir importante papel às enfermidades na esfera humana. Para que venhamos a possuir o sublime instrumento da mente em planos mais elevados. – Cada “centro de força” – ponderei – exigirá absoluta harmonia. desempenhando expressivo papel na regeneração das almas. no campo imensurável das formas. usando os multiformes recursos da Natureza. Terá nos tecidos sutis da alma as lesões cabíveis a um europeu super-civilizado. conduzindo mais longe as próprias divagações.. compreensivo. que se entrega à indústria do crime? Clarêncio sorriu. Quase todas estarão no mundo. Hilário. não podemos esquecer que o Supremo Pai se vale do tempo infinito para aperfeiçoar e sublimar a beleza e a precisão do corpo espiritual que nos conferirá os valores imprescindíveis à nossa adaptação à Vida Superior. com grave entono –. contudo. perguntou: – Imaginemos. e acentuou: .. a fim de que possamos ascender no rumo do Perfeito Equilíbrio. que se confia a delitos indiscriminados.. então – observou Hilário. um homem puramente selvagem. quanto o corpo humano. nossos deslizes de ordem moral estabelecem a condensação de fluidos inferiores de natureza gravitante. no campo eletromagnético de nossa organização. a situar-se em plena ignorância dos Desígnios Superiores..

aptos a deixar. em lhes sutilizando a organização. É necessário não confundir a semente com a árvore ou a criança com o adulto. usando múltiplas formas.Entre a Terra e o Céu . como o bloco de pedra rude sob marteladas. antes de oferecer de si mesmo a obra-prima. E. O instinto e a inteligência pouco a pouco se transformam em conhecimento e responsabilidade e semelhante renovação outorga ao ser mais avançados equipamentos de manifestação. Comentávamos. lhes conferirão novas possibilidades de crescimento consciencial. O prodigioso corpo do homem na Crosta Terrestre foi erigido pacientemente. o problema da evolução. embora surjam na mesma paisagem de vida. o caminho das formas. célula a célula. O instrumento perispirítico do selvagem deve ser classificado como protoforma humana. o corpo espiritual foi iniciado também nos princípios rudimentares da inteligência.. .. em definitivo. extremamente condensado pela sua integração com a matéria mais densa. colocando-nos na direção das esferas do Espírito Puro. onde nos aguardam os inconcebíveis. a vida moral está começando a aparecer e o perispírito nelas ainda se encontra enormemente pastoso.. de modo a conquistarem as qualidades superiores que.. nos planos mais elevados. Está para o organismo aprimorado dos Espíritos algo enobrecidos. na esteira dos milênios incessantes. Por esse motivo. Em criaturas dessa espécie. como um macaco antropomorfo está para o homem bem-posto das cidades modernas..Francisco Cândido Xavier . permanecerão muito tempo na escola da experiência. Assim como o aperfeiçoado veículo do homem nasceu das formas primárias da Natureza. os inimagináveis recursos da suprema sublimação... com um olhar significativo. no curso dos séculos. ainda há pouco. Despenderão séculos e séculos para se rarefazerem.pelo Espírito André Luiz 130 – Sigamos devagar. e o delicado veículo do Espírito.. Clarêncio concluiu: – . até que nos transfiramos de residência. vem sendo construído.

vaidade. Sorridente.. consoante as instruções do Divino Médico. nossa vítima receberá dos outros tanta simpatia que. o homem ensinará ao homem. gerando perturbações e doenças em seus instrumentos de expressão. A percentagem quase total das enfermidades humanas guarda origem no psiquismo. assim como o charco é uma coleção de núcleos lodacentos. que se congregam uns aos outros. – Gravá-los-á mais tarde – confirmou Clarêncio. egoísmo. – Um dia.. muito antes que possamos recompor os fios dilacerados . vindo. mas. – Nunca foi – esclareceu o Ministro. tão só porque se lhe arrebente a gaiola. em nosso auxílio.pelo Espírito André Luiz 131 Calara-se o instrutor. realmente podemos ferir ou prejudicar a alguém. Se eliminamos a existência do próximo. em breve. perpetramos esse ou aquele delito no mundo. a morte não é redenção. bondoso. seguro de si.Entre a Terra e o Céu . observei: – É por isso que temos os vales purgatoriais. muita vez..Francisco Cândido Xavier . Quando. que a cura de todos os males reside nele próprio. se restabelecerá. – O pássaro doente não se retira da condição de enfermo. depois do túmulo.. mas o assunto era por demais importante para que eu me desinteressasse dele apressadamente. preguiça e crueldade são vícios da mente. O inferno é uma criação de almas desequilibradas que se ajuntam. ferimos e prejudicamos a nós mesmos.. acrescentou: – Orgulho. No objetivo de aprender. antes de tudo. nas leis de equilíbrio que nos governam.. Recordei os inúmeros casos de moléstias obscuras de meu trato pessoal e aduzi: – Decerto a Medicina escreveria gloriosos capítulos na Terra. sondando com mais segurança os problemas e as angústias da alma. tirania. de consciência inclinada para o bem ou para o mal.

– Sim – concordei –. Aquele era um dos momentos em que. Nosso domicílio. Reeduca-nos a atividade mental. a nosso respeito..Entre a Terra e o Céu . lesamos primeiramente a nossa própria alma.. sobrevive no perispírito. paternal. e de cuja execução não poderemos fugir sem graves prejuízos para nós mesmos.Francisco Cândido Xavier . de vez que rebaixamos a nossa dignidade de espíritos eternos. Quando ofendemos a essa ou àquela criatura. As moléstias conhecidas no mundo e outras que ainda escapam ao diagnóstico humano.pelo Espírito André Luiz 132 de nossa consciência. com vistas ao Plano Divino. como desarmonia espiritual – atalhou o instrutor –. A dor é o grande e abençoado remédio. . estava agora à vista. Os raios dourados da manhã varriam o horizonte longínquo. tenho visto aqui aflitivas paisagens de provação que me constrangem a meditar. desde muito. retardando em nós sagradas oportunidades de crescimento. reestruturando as peças de nossa instrumentação e polindo os fulcros anímicos de que se vale a nossa inteligência para desenvolver-se na jornada para a vida eterna. Depois do poder de Deus. conduzindo-nos ao reajuste. porém. compelindo-nos a indispensáveis modificações. é a única força capaz de alterar o rumo de nossos pensamentos. – A enfermidade. por muito tempo persistirão nas esferas torturadas da alma. Despediu-se o Ministro. se devotava ele à oração.

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22 Irmã Clara
Na noite imediata às experiências que descrevemos, o Ministro convidou-nos a visitar a Irmã Clara, a quem pediria socorro em favor do esclarecimento de Odila. Eu me sentia cada vez mais atraído para o romance vivo daquele grupo de almas que o destino enleara em suas teias. Se me fosse permitido, voltaria de imediato para junto de Mário Silva rebelado, ou para junto de Amaro paciente, a fim de observar o desdobramento da história, cujos capítulos jaziam gravados nas páginas vivas de seus corações. Todavia, era necessário esperar. Enquanto buscávamos a intimidade de Clara, descia o luar em prateados jorros sobre a paisagem que se tapizava de flores. Com o cérebro preso às preocupações resultantes do trabalho que nos exigia a atenção, algo indaguei de Clarêncio quanto à cooperação que pretendíamos solicitar. Por que motivo rogaria ele o concurso de outrem, quando se dirigira com tanto êxito à mente de Esteves e Armando, reencarnados? Não lhes favorecera o retrocesso da memória, até os recuados dias da luta no Paraguai? Porque não conseguiria doutrinar também a desditosa irmã enferma? O Ministro ouviu-me, tolerante, e redargüiu: – Iludes-te. Nem sempre doutrinar será transformar. Efetivamente, guardo alguma força magnética suficientemente desenvolvida, capaz de operar sobre a mente de nossos companheiros em recuperação; no entanto, ainda não disponho de sentimento sublimado, suscetível de garantir a renovação da alma. Sem dúvida,

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dentro de minhas limitações, estou habilitado a falar à inteligência, mas não me sinto à altura de redimir corações. Para esse fim, para decifrar os complicados labirintos do sofrimento moral, é imprescindível haver atingido mais elevados degraus na humana compreensão. Dispunha-me a desfechar novo interrogatório, contudo, nosso orientador indicou-nos bela edificação próxima. Cercada de arvoredo, que servia de enfeite a espaçosos canteiros de flores, a residência de Clara figurou-se-nos pequeno colégio ou gracioso internato para moças. Até certo ponto, não nos enganáramos. A nossa anfitriã não morava num estabelecimento de ensino, entretanto, mantinha em casa um verdadeiro educandário, tão grandes e luzidas eram as assembléias instrutivas que sabia organizar. Recebeu-nos em extenso salão, onde era atenciosamente ouvida por quatro dezenas de alunos de variadas condições, que se instalavam à vontade, em grupos diversos, sem qualquer idéia de escola assinalando o ambiente em sua feição exterior. De olhos rasgados e lúcidos a lhe marcarem magnificamente o semblante com os traços aristocráticos do rosto emoldurados pela basta cabeleira, Clara parecia uma jovem madona, detida entre os melhores dons da mocidade e da madureza. Estendeu-nos as mãos pequenas e finas, respondendo-nos às saudações com alegria sincera. Nosso orientador rogou escusas, pela nossa interferência no trabalho. – Não se incomodem – acentuou a interlocutora, encantadoramente natural –, achamo-nos num curso rápido, acerca da importância da voz a serviço da palavra. Podem partilhá-lo conosco. Nossa aula é uma simples conversação...

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Fitando bondosamente o Ministro, rematou: – Sentem-se. Sou eu quem pede perdão por fazê-los esperar mais um pouco. Em breves instantes, todavia, entraremos em nosso entendimento mais íntimo. E, voltando à poltrona que nada tinha de cátedra, sem qualquer atitude professoral, tão grande era o doce ambiente de maternidade que sabia irradiar de si, começou a dizer para os aprendizes: – Conforme estudamos na noite de hoje, a palavra, qualquer que ela seja, surge invariavelmente dotada de energias elétricas específicas, libertando raios de natureza dinâmica. A mente, como não ignoramos, é o incessante gerador de força, através dos fios positivos e negativos do sentimento e do pensamento, produzindo o verbo que é sempre uma descarga eletromagnética, regulada pela voz. Por isso mesmo, em todos os nossos campos de atividade, a voz nos tonaliza a exteriorização, reclamando apuro de vida interior, de vez que a palavra, depois do impulso mental, vive na base da criação; é por ela que os homens se aproximam e se ajustam para o serviço que lhes compete e, pela voz, o trabalho pode ser favorecido ou retardado, no espaço e no tempo. Dentro da pausa ligeira que se fizera espontânea, simpática senhora interrogou: – Mas, para que tenhamos a solução do problema, é indispensável jamais nos encolerizarmos? – Sim – elucidou a instrutora, calma –, indiscutivelmente, a cólera não aproveita a ninguém, não passa de perigoso curtocircuito de nossas forças mentais, por defeito na instalação de nosso mundo emotivo, arremessando raios destruidores, ao redor de nossos passos... Sorrindo bem humorada, acrescentou:

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– Em tais ocasiões, se não encontramos, junto de nós, alguém com o material isolante da oração ou da paciência, o súbito desequilíbrio de nossas energias estabelece os mais altos prejuízos à nossa vida, porque os pensamentos desvairados, em se interiorizando, provocam a temporária cegueira de nossa mente, arrojando-a em sensações de remoto pretérito, nas quais como que descemos quase sem perceber a infelizes experiências da animalidade inferior. A cólera, segundo reconhecemos, não pode e nem deve comparecer em nossas observações, relativas à voz. A criatura enfurecida é um dínamo em descontrole, cujo contacto pode gerar as mais estranhas perturbações. Um moço, com evidente interesse nas lições, argumentou: – E se substituíssemos o termo “cólera” pelo termo “indignação”? Irmã Clara pensou alguns instantes e redarguiu: – Efetivamente, não poderíamos completar os nossos apontamentos, sem analisar a indignação como estado d'alma, por vezes necessário. Naturalmente é imprescindível fugir aos excessos. Contrariar-se alguém a propósito de bagatelas e a todos os instantes do dia será baratear os dons da vida, desperdiçando-os, de modo inconseqüente, sem o mínimo proveito para si mesmo ou para os outros. Imaginemos a indignação por subida de tensão na usina de nossos recursos orgânicos, criando efeitos especiais à eficiência de nossas tarefas. Nos casos de exceção, em que semelhante diferença de potencial ocorre em nossa vida íntima, não podemos esquecer o controle da inflexão vocal. Assim como a administração da energia elétrica reclama atenção para a voltagem, precisamos vigiar a nossa indignação principalmente quando seja imperioso vertê-la através da palavra, carregando a nossa voz tão somente com a força suscetível de ser aproveitada por aqueles a quem endereçamos a carga de nossos sentimentos. É indispen-

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sável modular a expressão da frase, como se gradua a emissão elétrica... E, ante a assembléia que lhe registrava os ensinamentos com justificável respeito, prosseguiu, depois de ligeiro intervalo: – Nossa vida pode ser comparada a grande curso educativo, em cujas classes inumeráveis damos e recebemos, ajudamos e somos ajudados. A serenidade, em todas as circunstâncias, será sempre a nossa melhor conselheira, mas, em alguns aspectos de nossa luta, a indignação é necessária para marcar a nossa repulsa contra os atos deliberados de rebelião ante as Leis do Senhor. Essa elevada tensão de espírito, porém, nunca deve arrojar-se à violência e jamais deve perder a dignidade de que fomos investidos, recebendo da Divina Confiança a graça do conhecimento superior. Basta, dentro dela, a nossa abstenção dos atos que intimamente reprovamos, porque a nossa atitude é uma corrente de indução magnética. Em torno de nós, quem simpatiza conosco geralmente faz aquilo que nos vê fazer. Nosso exemplo, em razão disso, é um fulcro de atração. Precisamos, assim, de muita cautela com a palavra, nos momentos de tensão alta do nosso mundo emotivo, a fim de que a nossa voz não se desmande em gritos selvagens ou em considerações cruéis que não passam de choques mortíferos que infligimos aos outros, semeando espinheiros de antipatia e revolta que nos prejudicarão a própria tarefa. Um amigo que acompanhava os ensinamentos, com interesse invulgar, perguntou, respeitoso: – Irmã Clara, como devemos interpretar as perturbações da voz, como, por exemplo, a gaguez e a diplofonia? – Sem dúvida – informou a instrutora, solícita –, os órgãos vocais experimentam igualmente lutas e provações quando reclamam reajuste. Por intermédio da voz, praticamos vários delitos de tirania mental e, através dela, nos cabe reparar os débitos contraídos. As enfermidades dessa ordem compelem-nos ao trabalho de

Alguém na Terra precisava ouvi-la. permaneceram no belo domicílio tão somente algumas jovens que encontravam em nossa anfitriã desvelada benfeitora. sofrendo a alheia observação. com carinho. o tema singular com surpreendente primor de definição. de vez que. finda a aula. – Pobre criatura! – disse a orientadora. . que falava com absoluta simplicidade e à maneira de um anjo maternal dirigindo-se aos filhinhos. Certamente. comovida. afirmando-se com tempo bastante para ausentar-se.. afeiçoando-os ao bem. buscávamos reconforto para um coração infeliz num coração que talvez estivesse padecendo ainda mais.. Clara convidou-nos a pequena peça contígua e o Ministro deu-lhe a conhecer o objetivo de nossa visitação.Francisco Cândido Xavier . aureolada de soberanos valores morais..Entre a Terra e o Céu . Depois. E. a fim de modificar-se. acolheu-nos o apelo e dispôs-se a seguir-nos generosamente.. trazia consigo profundas mágoas imanifestas. aprendemos pouco a pouco a governar os próprios impulsos. Compreendi que a nobre instrutora. ainda por alguns minutos. Seus olhos enevoaram-se de lágrimas que não chegaram a cair. quanto às particularidades do serviço que pretendíamos realizar. comentou. vimos imensa compaixão se lhe estampar no rosto. A orientadora. A interlocutora perguntou. Quando se inteirou de que amargurada mulher devia renunciar ao companheiro que permanecia na Terra.pelo Espírito André Luiz 138 recuperação no silêncio. Clarêncio resumiu o drama que nos empolgava a atenção.

apática e desolada. Irmã Clara. alongou os braços em prece. com os dois braços distendidos em forma de asas. como estátua viva de angústia e medo escutando o vento que zunia. passavam as irradiações a tonalidades diferentes. divino. que tanto quanto a enferma não nos percebia a presença.. depois de expressivo entendimento com o nosso orientador.. solicitou que nos mantivéssemos a pequena distância. abeirando-se da genitora de Evelina. Zulmira. prestes a desferir excelso vôo. na residência de Amaro. não mostrava qualquer alteração. do azul celeste ao verde claro e do verde claro ao violeta suave.. que se transfundia em outros aspectos a me escaparem da apreciação. e. Cercava-a enorme halo de dourado esplendor. Assemelhava-se nossa amiga a uma estrela repentinamente trazida à Terra. ..... Gradativamente. atormentada por Odila. do qual se fizera a instrutora o núcleo irradiante. do róseo vivo ao azul celeste.Entre a Terra e o Céu . que realmente lhe vampirizava as forças. em círculos fechados sobre si mesmos. Sob forte emoção. jazia no leito. lá fora. o recinto foi invadido por vasto círculo de luz. Dos revérberos dessa natureza.Francisco Cândido Xavier . exibia comovedoramente a própria exaustão. caminhando dos reflexos de ouro e opala ao róseo vivo. como se ouro eterizado e luminescente lhe emoldurasse a forma leve e sublime. Mais magra e mais abatida. ao nosso olhar.. acompanhei o formoso quadro que se desdobrou.pelo Espírito André Luiz 139 23 Apelo maternal A paisagem doméstica.

A sintonia espiritual perfeita. assim como a vemos. Reparei que a própria Odila se aquietara como que dominada por branda coação. Com efeito. Odila identificar-lhe-á a presença. ao influxo da mente enaltecida. Se partilhássemos com ela a mesma posição evolutiva. procurando esclarecimento em nosso instrutor. então. cuja existência nunca pudera vislumbrar. perceberíamos a mensagem glorificada que lhe nasce do coração. – Reparem – disse Clarêncio. Extático. Em oração.pelo Espírito André Luiz 140 Tive a idéia de que a irmã Clara se convertera no centro de milagroso arco-íris. só é possível entre aqueles que se confundem na afinidade completa. Fizera-se a casa excessivamente estreita para aquela abençoada fonte de raios balsamizantes e indefiníveis. que constituem projeções de harmonia e beleza a lhe fluírem do ser. tocada por aqueles dedos celestes. – Irmã Clara – informou o Ministro. proferiu um grito de encantamento selvagem e caiu de joelhos.. porém. emite as vibrações do seu sentimento purificado. igualmente enlevado – já atingiu o total equilíbrio dos centros de força que irradiam ondulações luminosas e distintas. . mal consegui articular alguns monossílabos. Avançou para a primeira esposa de Amaro e cobriu-lhe os olhos com a destra lirial.. em vez de somente observarmos este deslumbramento de luz e cor. A mensageira transfigurada parecia mais bela. de vez que as irradiações sob nossos olhos são música e linguagem.. sabedoria e amor do pensamento a expressar-se maravilhoso e vivo. entraríamos agora em relação imediata com o elevado plano de consciência em que se exterioriza e..Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . feliz –: ela guarda o poder de ampliar a visão. vimos que a genitora de Evelina.

abraçando-a.. Não te dói vê-la derrotada e infeliz? – Ela desposou o homem que amo!. arrojada a dolorosa prova... – Odila. na centralização do egoísmo aviltante.. acariciando-lhe a cabeça agora trêmula. vingando-me por amor. Quem ama faz justiça pelas próprias mãos!.pelo Espírito André Luiz 141 Naturalmente ofuscada pelo brilho de que se envolvia a visitante inesperada. – Estou aqui. algum ponto de contacto entre amor e vingança? Indicando timidamente a triste companheira que jazia acorrentada ao leito.Francisco Cândido Xavier . socorre-me! socorre-me!. que fazes? – interrogou a emissária com inesquecível inflexão de ternura. cruel: – Devo alijar a intrusa que me assaltou a casa! Esta miserável mulher tomou-me o marido e assassinou-me o filhinho!. – soluçou Odila. – Haverá. combatendo o sofrimento e a morte.. a instrutora aduziu: .. Achamo-nos à frente de infortunada irmã. – Não seria mais justo – ponderou Clara sem afetação – considerar que ele a desposou? E. mais dominada pela influência magnética da mensageira que impressionada por suas belas palavras. não abrigamos outro sentimento que não seja aquele do desvairado apego a nós mesmos.Entre a Terra e o Céu .. – Pobre filha! – revidou Clara. Quem ama semeia a vida e a alegria.. exclamando. Quando nosso culto afetivo se converte em flagelação para os que seguem ao nosso lado.. Odila tentou conservar a atitude que lhe era característica... suplicando: – Anjo de Deus.. porém. começou a chorar.

.” – Não me fales assim! – imprecou a interpelada. todos irmãos.. assim. não sentirias reconhecimento por alguém que te auxiliasse a protegêlos? “Consideras somente os teus problemas.. mas é necessário desenvolvê-la no rumo da Humanidade inteira.... onde te supunhas rainha de pequeno império sem fira. Temos um só Pai que é o Senhor da Bondade Infinita. partes integrantes de uma família só.. o ciúme que não destruímos. “Somos. Por lá. enquanto dispomos da oportunidade de trabalhar no corpo denso. que eras. transforma-se em aflitiva fogueira a calcinar-nos o coração. sem a companhia dele. com evidentes sinais de angústia – Odeio a infame que nos roubou a felicidade.. cerrou-se com os teus olhos materiais! A passagem na Terra é um dia na escola. – Odila.. o homem amado permanece no cárcere de escuros padecimentos íntimos a debater-se com enigmas inquietantes. depois da morte.Francisco Cândido Xavier .pelo Espírito André Luiz 142 – “Odila. Todos os bens que desfrutávamos no mundo de onde viemos constituíam recursos do Senhor que no-los concedia a título precário. A porta do lar terrestre. experimentando-lhe as dificuldades e aflições? Já te colocaste na condição do esposo que asseveras amar? Se te visses no mundo. precisa agora oferecer lugar à mulher de luz que deves ser. com os filhinhos necessitados de consolo e sustentação.. Já te imaginaste no lugar de Zulmira. “Começamos a obra de amor no lar... “Acalma-te! A mulher de carne. que nos centraliza as esperanças.Entre a Terra e o Céu . cujos valores devemos estender. Entretanto. se . reflete! Esqueces-te de que a mulher sempre é mãe? O túmulo não te restituirá o corpo que a Terra consumiu e.. sem que te disponhas a socorrê-lo. raramente nos lembramos de que o tesouro do carinho doméstico é algo semelhante a sementeira preciosa..

é preciso saber amá-lo com o espírito.Entre a Terra e o Céu . Retirando a luz do teu amor das chamas comburentes do inferno de ciúme em que padeces pela própria vontade. Recorda..... simplesmente chorasse. de repente.Francisco Cândido Xavier . tão somente por isso.. Medita! A verdadeira fraternidade ajudar-te-á a sentir naquela que te sucedeu no lar uma filha suscetível de recolher-te o afeto e a orientação. entre as farpas envenenadas do despeito. – Sim – concordou Clara. quase vencida. serás realmente para o homem querido e para a filha que clama por tua assistência uma inspiração e uma bênção!. dando-nos a impressão de que a submetia a suaves operações magnéticas. caso chegasse.. Depois de alguns instantes em que apenas ouvíamos os soluços de Odila transformada. contudo. separando-a dos braços paternais. até nós. transtornada qual te encontras.. A mensageira amimava-lhe a fronte. atribuir-lhe a morte do pequenino. edificarás uma dedicação nobre e leal para enriquecer-te a vida.. afetuosa –.. acrescentando: – Sei que sofres igualmente como mãe atormentada. É inexperiente ainda e a ignorância enquanto nos demoramos na Terra pode impedir-nos a visão. que nossos filhos pertencem a Deus. admito que Zulmira assim se conduzisse...... – Como podes provar semelhante acusação? – A intrusa invejava-lhe a posição no carinho de Amaro. E se a morte colheu a criança que estremeces. Em lugar de forjares uma inimiga na sinistra bigorna da crueldade. matou meu filho!. é que a Vontade Divina determinou o afastamento. – Ela.pelo Espírito André Luiz 143 desejas recuperar a ternura e a confiança do companheiro que deixaste na retaguarda... Talvez porque Odila. a venerável amiga acentuou: . mas não seria justo. porém. a mensageira afagava-lhe os cabelos. Modifica os impulsos do coração! Não suponhas Amaro capaz de querer-te.

irmã querida! Grande é a tua felicidade! Podes ajudar e isso representa a ventura maior! Nada te impede auxiliar o companheiro da humana experiência.Entre a Terra e o Céu . Meu filho!. certo. A emissária do bem abraçou-a com maternal carícia e faloulhe aos ouvidos: – Rejubila-te. E seu pranto convulsivo se fez mais angustiado.pelo Espírito André Luiz 144 – Porque não te dispões a clarear o próprio caminho.. em teus braços... filha! Vamos à procura de nossa renovação com Jesus!. mais comovente. para que venças a reduzida distância entre o teu sofrimento e o filhinho idolatrado!. . como fera jugulada pela dor: – Meu filho!.. gritou. qual se arrojasse para fora de si mesma todos os pesares que lhe senhoreavam os sentimentos. Dominada pelas vibrações da mensageira celeste. com o testemunho de tua compreensão e de tua piedade. a fim de reencontrares o teu anjo e embalá-lo. alcançara o ponto sensível daquela alma atribulada.. prosseguindo em choro convulso.. ao alcance de tuas mãos. de vez que os meus amados ainda não se inclinaram para mim! A voz de Clara parecia mesclada de lágrimas que não chegavam a surgir.Francisco Cândido Xavier . ao invés de te consagrares inutilmente à vingança que te cega os olhos e enregela o coração? Clara.. porque a infortunada genitora de Evelina. enquanto a instrutora repetia com desvelos de mãe: – Vamos. Odila agarrou-se a ela. e basta uma prece de amor puro. de novo.. Há vinte e dois séculos espero por um minuto igual a este para o meu saudoso e agoniado coração.

Clarêncio informou: – Agora.pelo Espírito André Luiz 145 Amparando-a. Zulmira poderá recuperar-se. colada ao próprio peito. acompanhando o nosso orientador. .Entre a Terra e o Céu . afastamo-nos por nossa vez. embora conservando a atenção presa à continuação de nossa edificante aventura. E. Junto de nós.Francisco Cândido Xavier . Clara conduziu-a para fora. A adversária retirou-se sem a violência que lhe prejudicaria o campo mental.

sob o patrocínio da irmã Clara. . sustentava-se no mais absoluto desânimo. Mais calma. A própria Odila favorecer-lhe-á a recuperação. prestimoso: – Acha-se agora liberta. efetivamente.Francisco Cândido Xavier . A segunda esposa de Amaro mostrava-se melhor. Zulmira. da inércia a que se recolhera. mas prosseguia entregue a extrema prostração. porém. Irmã Clara convidou-nos a breve entendimento. continuava livre e tranqüila. visitamos Zulmira. Não saíra. por alguns dias. Clarêncio observou. Falta-lhe a vontade de lutar e viver. Subnutrida. Confiemos. a fim de auxiliar o soerguimento dela. no entanto. A máquina mostrava-se reequilibrada. As peças do corpo funcionavam com irrepreensível harmonia. contudo. entretanto. Mais silenciosa. apática. foi internada numa instituição de tratamento. e. com efeito.Entre a Terra e o Céu . Transcorrida uma semana. mas. mantinha-se preguiçosa. a primeira esposa de Amaro aceitará o imperativo de renúncia e fraternidade para construir o futuro que lhe interessa. reclama estímulo para subtrair-se à exaustão. Atendendo-nos à inquirição habitual. Alijara a excitação de que se via objeto.. exigindo adequadas providências. algo prosseguia faltando. A medida que se lhe restaure a visão espiritual. Comunicou-nos que Odila revelava grande transformação. durante sete noites consecutivas.. em companhia de nosso orientador.pelo Espírito André Luiz 146 24 Carinho reparador Odila.

.. que seguia menos consciente ao nosso lado. para tanto. . quando o ferroviário se rendeu à branda influência do sono. Recomendava-nos trouxéssemos Amaro. No aposento claro e florido do santuário de recuperação em que Odila se localizava.Entre a Terra e o Céu . enlevado: – Odila!. na noite próxima. então completamente transfigurada – sou eu! sou eu quem te pede coragem e fé. – Amaro! – respondeu a antiga companheira. tão logo pudesse ele ausentar-se do veículo físico.. e exclamou.Francisco Cândido Xavier . a quem auxiliaria como irmã. reconhecera o impositivo de sua colaboração com o marido para alcançarem ambos a vitória real nos planos do espírito. em reconhecendo a presença da mulher que amava. Odila!. resultariam decerto os melhores efeitos. até à casa espiritual de refazimento em que Odila se encontrava.. a fim de sondar o passado. reajustandose devidamente para fortalecê-la e ampará-la. E. A solicitação de Clara foi alegremente atendida. Do entendimento entre ambos..... aguardava-nos a instrutora junto dela. Suspirava pelo reencontro com o filhinho. cobrou a lucidez que lhe era possível em tais circunstâncias. combateria a repulsa espontânea que experimentava por Zulmira. ajoelhou-se. guiamo-lo ao sítio indicado. A mãezinha de Evelina estava reformada e daria provas do reajuste. serenidade e valor na tarefa a realizar!. A benfeitora mostrava-se satisfeita. dispunha-se a tudo fazer para ser útil ao esposo e à filhinha. Depois de meia-noite. efetuando o primeiro esforço para a reconciliação.pelo Espírito André Luiz 147 Submetida à assistência magnética. O pai de Júlio.

compreendo! Também eu padeci muito. na orientação de nossos destinos? Não temos sabido cultivar o amor que é sacrifício na Terra para a edificação de nosso paraíso espiritual. falou-lhe com inflexão inesquecível: – Sim.. farto. Amaro....Francisco Cândido Xavier . dilacerado quando nos cabe recompor!.. alisando-lhe os cabelos. – clamou ele. sustentada pela venerável amiga.. acreditando garantir a segurança de nossos filhos para o futuro.. agora em lágrimas a lhe verterem... Temos exigido quando devemos dar. comentou. entretanto. Odila. em voz comovida: – Farto de quê? – Sinto-me entediado da vida. perguntou.. Casei-me.. levantou-se com alguma dificuldade e. triste: – Nosso Júlio morreu num desastre. mas a morte não vem. A esposa.Entre a Terra e o Céu .. quando encerrava para mim as melhores aspirações.pelo Espírito André Luiz 148 – Estou farto.. Fui ludibriado! Em lugar da felicidade. a fim de receber dos outros o concurso de . como deves saber. poderás compreender o que sofro? Tenho rogado a morte ao Céu para que nos reunamos na eternidade. Ah! Odila. Amaro. nossa filha se estiola num quarto sem alegria e a madrasta que lhes impus apodrece num leito!.. hoje reconheço que a nossa dor é agravada por nós mesmos. é indispensável ceder de nós. copiosas. compreensivelmente mais bela pelos pensamentos redentores que agora lhe manavam do ser. com os olhos enevoados de pranto. E.. Porque havemos de converter a distância em rebelião e a saudade em venenoso fel? Porque não reconhecer a Majestade Suprema de Deus. é preciso acalmar o coração para que a vida nos auxilie a entendê-la. de novo.. no entanto.. fitando-a com enternecedora expressão. encontrei o desapontamento que não sei disfarçar!. a mulher que desposei nem de longe chega a teus pés..

Entre a Terra e o Céu . é que nosso amor lhe deve a bênção da felicidade de que nos sentimos possuídos. É o ninho das almas. cujos passos nos compete encaminhar para o bem. por irmã de Evelina.. procurei no silêncio e na oração o roteiro renovador. desalentado: – Isso não impede a terrível realidade. – Achava-me igualmente assim. em cujo doce acon- . admiravelmente inspirada –. Amaro estremeceu e continuou escutando.. atormentando-te o pensamento e perturbando a nossa casa! Mas. Quero melhorar-me. de posse das reminiscências fragmentárias que lhe assomavam do coração.Francisco Cândido Xavier .. reviver.. sim. – Sim.. Na aspereza de meus sentimentos deseducados.. usando a chave da boa vontade!.... ofereceu-lhe ao campo mental o retorno imediato às recordações das dívidas por ele contraídas no Paraguai...... em alguns dias rápidos.pelo Espírito André Luiz 149 que necessitamos.. Clarêncio abeirou-se do ferroviário e. – aprovava agora o interlocutor.. contudo. Nesse instante... adquiri mais ampla penetração em nossos problemas. – Interpretemo-la por nossa filha. Infortunado que sou! Sinto-me desarvorado e infeliz!. tocando-lhe a fronte com a destra. O ferroviário contemplou-a. carinhoso e reverente. vinha eu adubando o espinheiro do ciúme. O lar não é apenas o domicílio dos corpos. colocada entre nós como empecilho à nossa verdadeira união? – Não raciocines desse modo! Ela não permaneceria em tua estrada sem motivo justo. – Se Zulmira foi situada no templo de nosso amor – prosseguiu Odila. e acentuou. progredir. Achamo-nos em dois mundos diferentes. – Que fazer de Zulmira.

infundindo piedade. onde estaríamos humilhando com a nossa saciedade os viajores que passassem por nós. a pretexto de conservar a ventura só para si? Renovemo-nos.. triste –.. Longínquas constelações como que nos acenavam.. . Tocado talvez nas fibras mais íntimas. Aceitemos a provação e a dor. Maravilhoso. valorizando o tempo e a vida!.. o firmamento cintilava.Francisco Cândido Xavier . indicando glorioso futuro. que o teu coração constitui para mim o tesouro maior da vida. Os dois cônjuges instalaram-se em perfumado recanto para a conversação a sós..pelo Espírito André Luiz 150 chego desenvolvemos as asas que nos transportarão aos cumes da glória eterna.. – Não ignoras. enquanto ambos se recolhiam a confortadoras confidências. por tua vez. de algum modo... Valeria realmente o brilho dos oásis fechados? Serviria a construção de um palácio.. Amaro! Nunca é tarde para recomeçar o bem!. E.Entre a Terra e o Céu . Trabalhemos.. sabes quanto te amo!. como abençoadas instrutoras de nossa romagem para Deus. o pai de Evelina chorava convulsivamente. entretanto hoje vejo o horizonte mais largo.. para mais seguro ajuste espiritual. Odila enlaçou-o com mais ternura e Clara convidou-nos a excursão através do grande jardim próximo. Notamos que a orientadora se preocupava em deixá-los entregues um ao outro.. achávamo-nos em plena contemplação do céu... admirando a beleza da noite.. mortificados de sede e fome? Como categorizar o carinho que se pervertesse no isolamento. – Todavia – ponderou o moço.. A breves instantes. distanciamonos. em pleno deserto.

À maneira de colegial em dia de prova. Irmã Clara guardou a pupila nos braços e as duas seguiramnos a romagem de volta. Odila retomará hoje a tarefa. exaltando em cada narrativa o amor e a sabedoria do Pai Celestial. como pequeninos e graciosos reservatórios do esplendor solar. quando a instrutora nos advertiu: – Esperemos. Ambos. Avizinhava-se o novo dia. Em casa. Com simplicidade encantadora. embevecidos. risonho e calmo.. comentava suas viagens a outras esferas de trabalho e realização.. Dispúnhamo-nos à retirada.Entre a Terra e o Céu .Francisco Cândido Xavier . ao término do grande entendimento. Amaro recuperou o corpo físico. O relógio marcava seis da manhã. Amaro despediu-se de nós. de leve. Irmã Clara fascinava-nos com a sua palavra brilhante. animando-nos a cabeça. apresentavam o rosto pacificado e radiante.pelo Espírito André Luiz 151 Virações suaves deslizavam. descerrando os olhos com excelentes disposições... permutamos impressões acerca da excelsitude da vida que se nos revela sempre mais surpreendente e mais bela. Flores de rara beleza vertiam do cálice raios de claridade diurna. Não conseguira relacionar os aspectos particulares da excursão. a transfigurada mãezinha de Júlio fitava-nos com extrema expectação. em cada plano da Criação. Por largo tempo. mas conservava no cérebro a indefinível certeza de que esti- . quais se fossem cariciosas e intangíveis mãos do vento. Tornamos à presença do casal para devolver o companheiro ao lar terrestre.

Sentia vontade de rir e cantar. tornou. onde cantarolou baixinho uma canção que lhe recordava o tempo em que se consorciara pela primeira vez.Francisco Cândido Xavier . reparando que o dia começava alegre e lindo.. querido! Estendamos a nossa felicidade! Zulmira espera por nosso amor.. sorridente. Foi então que Odila o enlaçou carinhosamente e exclamou: – Vamos. Distendeu os braços com a deliciosa tranqüilidade de quem encontra o fim de longa e aflitiva tensão nervosa.. Levantou-se.Entre a Terra e o Céu ..pelo Espírito André Luiz 152 vera com a primeira esposa em “algum lugar” e que a vira reanimada e feliz. sem dar conta de que a alegria e a beleza haviam renascido nele próprio. ao quarto de dormir. . E. depois de ausentar-se do banheiro.

aceitava o ideal de sublimação que se lhe implantara no sentimento e não parecia disposta a perder a oportunidade de reajuste. reconheci que a morte do corpo não exonera o Espírito da obrigação de renovar-se.Entre a Terra e o Céu . .Francisco Cândido Xavier . Dirigiu-se a pequenina copa. entretanto. à procura do bem. Todo bem que fizeres a Zulmira redundará em favor de ti mesma. realiza milagres em nós mesmos. Não esmoreças. de imediato. com o insopitável desejo de comunicar-lhe o estranho contentamento de que se via possuído. não podia sentir. mas recebeu-o como silencioso apelo à vida mental. Os olhos dela brilharam outra vez. mais uma vez. maternal: – Prossigamos firmes. Clara abeirou-se dela e falou.pelo Espírito André Luiz 153 25 Reconciliação Amaro não registrou o convite da companheira desencarnada. ao lhe observar a súbita felicidade com a perspectiva de restauração do carinho para com a segunda mulher. Compreendi o esforço que a iniciativa lhe reclamava ao coração feminino e. pensando em Zulmira. Não seria justo envolver a esposa doente na onda de alegria em que se banhava? Vimos que Odila tremeu um instante. Anotando-lhe a queda de forças. A vontade. plena isenção de ciúme. O sacrifício é o preço da verdadeira felicidade. em forma de palavras ouvidas. Ajuda-te. O abraço afetuoso da benfeitora infundiu-lhe energias novas. No fundo.

exibiu larga nota de espanto. – Zulmira! – perguntou ele. Não julgas seja tempo de reagirmos contra o sofrimento que nos cerca? Preocupo-me por ti... por certo. em nossa felicidade. informou: – Como vemos..Entre a Terra e o Céu .. enxugou as lágrimas que corriam copiosas daqueles olhos macerados e tristes e continuou: – Peço confies em mim! Afinal de contas. auxiliado por Odila.. amanheci pensando em nós. acamada e abatida.. somos companheiros um do outro....pelo Espírito André Luiz 154 Enlaçada ao marido.. desde muito perdera o contacto com qualquer manifestação afetiva por parte do companheiro e. assim. a sinceridade dispõe de recursos característicos. ao lhe ver o semblante carinhoso e feliz. dando-nos a impressão de que os fluidos arremessados sobre ela lhe lavavam o coração. despertando-lhe emotividade incoercível. Notei que do tórax de Amaro emanava largo fluxo de energia radiante.. sim.. A enferma. Emite forças que não deixam margem a enganos. Clarêncio. hesitante. impeliu-o docemente ao leito em que a pobre doente repousava. inclinando-se para o seu rosto ossudo e desconsolado – estás realmente melhor? – Sim. Como poderei ser feliz sem o teu concurso? Não nos casamos para chorar. A desventurada senhora começou a chorar. O sentimento puro com que Amaro se dirige agora à esposa é fator decisivo para que ela se reerga e se cure. . – suspirou a interpelada.Francisco Cândido Xavier . – Escuta! Hoje. assim como um jato de raios de luz verde-prateada que envolveram o busto de Zulmira. calmo. O ferroviário. desde a morte de Júlio.

enquanto o esposo acomodava-se ao lado dela. correu a abraçá-la. Findos alguns instantes. solicitando-lhe a presença.. Vendo a mãezinha.. de olhos reanimados e diferentes. em Espírito. O carinho do meu caçula significava muitíssimo para o meu coração... voltou ao aposento em que seu corpo repousava. . Entretanto.. misturando-se as lágrimas. Ela. contudo. de modo a assisti-la em qualquer dificuldade. em toda parte. A doente sentou-se. todos pertencemos a Deus e acredito que a Divina Vontade vive conosco. vimos Odila. dirigir-se ao quarto da filha. Júlio nos faz muita falta.. E.Entre a Terra e o Céu . Sinto que o remorso me persegue.. colocou a destra sobre a fronte da menina.pelo Espírito André Luiz 155 – Amaro! – exclamou a interlocutora agoniada. Temos Evelina e a nossa felicidade!. Instintivamente acompanhamo-la.. procurando a vitória. Indiscutivelmente. a imagem de Júlio não me sai da lembrança. mas não podemos renunciar à vida que o Céu nos concedeu.Francisco Cândido Xavier . que tudo fazia por ajudálo. Ligado à mente da primeira esposa. conservando ainda os últimos resíduos mentais do complexo de culpa em que se torturava – como te agradeço a alegria desta hora!. prosseguiu com enternecedora inflexão de voz: – Não olvides que pertencemos aos compromissos morais que assumimos. Evelina. de fisionomia satisfeita.. Não fiz tudo o que eu devia para salvar o filhinho que me confiaste!. porém. decidido –.. não pode ser mais importante que o nosso amor!. Fundiram-se ambas num amplexo longo e comovedor. com inefável surpresa para nós.. Refaze-te! Vivamos nossa vida!. É imprescindível lutar.... – Esqueçamos o passado – asseverou o esposo.

pelo Espírito André Luiz 156 – Enfim! enfim!. com os quais devemos valorizar o pensamento religioso. Comecemos por refundir a confiança em tua nova mãe..... Faze-te melhor para ela.. ajuda-nos! Se não nos unirmos sob a luz da compreensão e do trabalho.... e vejo que nos compete algo fazer para restaurar o valor de teu pai e a alegria de nossa casa. em seguida.. – clamou a jovem maravilhada. Evelina. Da saúde e da paz de Zulmira depende a feliz continuação de nossa tarefa. tenho pedido ao seu coração nos auxilie... desdobra-te no trabalho de preservação da tranqüilidade doméstica. Procura-a. a genitora descansou nela os olhos inflamados de esperança. vitimada pelo ruído destruidor de minha própria incompreensão.. tenho orado. no santuário da família. uma peça de roupa cuidadosamente guardada. Uma rosa sobre a mesa. Jesus terá recebido teus rogos. – Minha filha! minha filha! E. – Mãezinha – explicou a jovem extática –. Teu pai e eu não podemos dispensar-te o concurso. Movimenta-te no trabalho encorajador da harmonia.. a fim de que Zulmira se veja segura de teu afeto e de teu entendimento filial. – Sim. – Continuarei orando.. uma vassoura diligente. Não te detenhas tão somente nas boas intenções. algo realizando para contribuir em seu apostolado divino. sei que em tua abnegação não te descuidas da prece.. Achava-me surda.. que minhalma desperta hoje. uma escova no lugar que lhe compete. são serviços de Jesus.Entre a Terra e o Céu . Peçamos o socorro do Senhor. mas a súplica que não age pode ser uma flor sem perfume... porém.. Sinto. Deus não nos reúne para a indiferença ou para o egoísmo e sim para o serviço salutar de uns pelos outros!. pedindo súplice: – Evelina..Francisco Cândido Xavier . querida. nossa casa desaparecerá..... – Não olvides a prece.. Sê o ..

Tão grande se lhe afigurava a própria ventura que detinha a impressão de estar descendo da esfera celestial. ergueu-se de um salto e vestiu-se. Finda a higiene rápida. carinhosa e bela. tenho a impressão de que um anjo penetrou nossa casa. reuniu os dois cônjuges num só abraço e falou...pelo Espírito André Luiz 157 anjo do serviço em nossa casinha singela! Zulmira necessita de uma irmã. de uma filha!. Estendeu as mãos em torno como se ainda pudesse tocar a genitora com os dedos de carne. Evelina. retomou o corpo carnal e acordou deslumbrada.. Intensamente feliz. enlaçou a mãezinha com extremada ternura e beijou-a. – Meu Deus – disse a doente. vimos Odila recolhê-la nos braços. Evelina alcançou o leito. jubilosa: – Sonhei com Mãezinha! Vi-a tão nítida. Amaro e a companheira receberam-na... encantados. sorrindo –. agora.Francisco Cândido Xavier . ocupava-lhe.Entre a Terra e o Céu . Afirmou que necessitamos de amor e recomendou . passando a obedecer à mensageira. conservando perfeita lembrança da inolvidável entrevista. passou pela copa e chegou junto da madrasta. com indefinível contentamento a iluminar-lhe o rosto. muitas vezes. como se ainda estivesse conosco. conduzindo-a igualmente até Zulmira. todo o espelho da mente. A imagem de Odila.. Induzida pela influência materna. Logo após. Aproveita a oportunidade e faze o melhor!. oferecendo-lhe pequena bandeja com a leve refeição da manhã. Tudo hoje amanheceu contentamento e bom ânimo!.

. porém. partido com a melhor espontaneidade da mulher considerada. guardando. Fixando a madrasta.. quando o amor sublime penetra em nosso coração. a seu turno.. a menina acrescentou: – Quero ser melhor. Ah! que felicidade!. Irmã Clara abraçou-a e falou. humilde: – Chora. começou a chorar entre o reconhecimento e o regozijo. . abafou as próprias reminiscências. sentindo-se atormentada pelos ciúmes de Odila. incapaz de suportar a emoção. É muita alegria nesta manhã para que a nossa ventura seja simples sonho ou mera coincidência! Aquele testemunho de gratidão. tocou as recônditas fibras da primeira esposa de Amaro que. você e eu seremos doravante mais felizes.Entre a Terra e o Céu .. satisfeito. Papai. a luz do Senhor passa a reger os passos de nossa vida. e Zulmira.. Odila deve ser o nosso gênio protetor. consigo mesmo as recordações da noite para não ferir as suscetibilidades da companheira. Mamãe ouviu minhas preces! O ferroviário anotou. A pobre senhora suspirou reconfortada e aduziu: – Sem dúvida alguma. a informação.pelo Espírito André Luiz 158 seja eu para Zulmira a filha que ela não tem!. embora lembrasse os repetidos pesadelos que atravessara. por inimiga.Francisco Cândido Xavier . minha filha! Chora de júbilo! Em verdade.. para aderir com toda a alma ao otimismo daquele abençoado momento de paz e renovação.. mais diligente e mais amiga!.. até então. com embevecimento.

– Sim – elucidou Clara. acentuou. o amor puro não te faltará. Sinto-me agora leve e feliz. Mostrando a expectativa de uma colegial preocupada em receber a aprovação dos mentores. à maneira de uma criança nos braços maternais. Abençoarás para sempre este maravilhoso dia de renúncia e doação de ti mesma. como o visco prende o pássaro a distância das alturas. osculando-lhe os cabelos. por isso.. afagando-a. Como não compreendia eu assim. – Não te comovas tanto assim! – apelou a benfeitora..Francisco Cândido Xavier . terna –. perdeste peso espiritual. A venerável amiga conchegou-a de encontro ao coração.. de modo significativo –..pelo Espírito André Luiz 159 26 Mãe e filho A alegria plena coroara o trio doméstico. valorosa – disse. perguntando: – Terei agido corretamente? Lia-se-lhe no rosto a necessidade de uma frase estimulante. a primeira esposa de Amaro respondeu com dificuldade: – Meu pranto não é de sofrimento.... chorando copiosamente. Vimos Odila colar-se a ela. De ora em diante. Odila ergueu os olhos lacrimosos para Irmã Clara.Entre a Terra e o Céu . bondosa: – Vamos! Deste agora o amor puro e. Nossas paixões inferiores imantam-nos à Terra. E. serás aqui bem-aventurada men- . antes!. habilitando-te à elevação de nível. compreendeste o santo dever do amor.. – Venceste. Sensibilizando-nos igualmente.

Extasiou-se na contemplação das centenas de pequeninos. transcorridas algumas horas. transfigurada. aproximando a filhinha daquela a quem devemos querer como irmã. Cedendo o carinho de teu companheiro à outra mulher. Com efeito. de vez que o teu coração permanecerá em serviço dos anjos guardiães de nossos destinos. quando a pausa dos nossos compromissos de trabalho nos ofereceu a oportunidade precisa. Era a primeira vez. Sustentada nos braços de Clara. cujo futuro poderás orientar..Entre a Terra e o Céu .. deslumbrando-se na visão da Natureza saturada de perfumes e adornada de flores. conquistaste nele novo patrimônio de afetividade. convocamo-la ao reencontro. na procura ansiosa do filho. que velam por nós abnegadamente. Nas vizinhanças do sítio para o qual nos dirigíamos. de cuja colaboração necessita ele para redimir-se. quando a reconduzimos ao hospital.pelo Espírito André Luiz 160 sageira. O Sol inundava a Terra de raios vivificantes. a mãezinha de Júlio revelava inexcedível contentamento. ante os surpreendentes jogos da luz. Odila. prorrompendo em exclamações admirativas.Francisco Cândido Xavier . adquiriste o merecimento indispensável para recuperar o filhinho. depois da morte física. para a viagem ao Lar da Bênção. que brincavam festivamente. mais tarde. Muito pálida. . Por isso mesmo. que se confiava a romagem tão linda. inalava o ar tonificante a longos haustos. achava-se mentalmente muito distanciada de nosso grupo.. com a promessa de buscá-la. esperando-nos na Vida Mais Alta. de atenção presa à multidão infantil. estarás ao lado de teu Júlio. Hoje mesmo. estampou no semblante a luz da felicidade que lhe fluía do mundo interior.. deixava-se conduzir qual se fora um autômato. e.

E alongou os braços. Atraída pelo grande berço que se levantava à nossa vista.Entre a Terra e o Céu . Indubitavelmente. atingimos a residência de Blandina. A criança doente transformou-se. . trazendo o filho ao colo.Francisco Cândido Xavier . contente: – Sabíamos que a Divina Bondade não deixaria o nosso doentinho sem a ternura maternal. Não houve necessidade de muitas palavras. Quando se lhe asserenou a desbordante emotividade. Júlio agora terá junto dele a insubstituível dedicação. de súbito. completamente modificado. Em lágrimas. Blandina abriu a conversação geral. – Mãe! Mãe!..... mostrando-lhe a glote extensamente ferida. Indefinível expressão de felicidade cobriu-lhe o semblante. beijando-o enternecida. que nos acolheu com a gentileza habitual. agarrando-se-lhe ao busto. Odila retirou-o instintivamente do leito. – gritou. a Sabedoria Universal colocou imperscrutáveis segredos no carinho materno. Entramos. respondendo. alarmada: – Meu filho! Júlio! Meu filho!. sentouse ao nosso lado. por enquanto. não podemos apreender. contava-lhe quanto lhe doía a garganta. Odila precipitou-se sobre o menino enfermo. Algo de milagroso e divino existe nos laços que unem mães e filhos que. Júlio.pelo Espírito André Luiz 161 Acompanhando Clarêncio. acentuando. E terminada que foi a hora comovente que nos empolgara a todos. bradando.

contudo..Entre a Terra e o Céu . Não tenho bases para entender de uma só vez tudo quanto vejo. sem o corpo de carne. ajuntando bem humorada: – Clarêncio tem a palavra elucidativa. encontrará pela frente variados problemas ligados ao caminho de elevação que lhe é próprio. ante a posição orgânica do menino. Sorrindo. que se mostrava compreensivelmente conturbada. – Aflige-me encontrá-lo assim – alegou a genitora preocupada. Assinalando as doloridas referências maternas. indicando o pequeno enfermo –.. certo.pelo Espírito André Luiz 162 Odila. sentirá prazer em encarregar-se do pequenino. Receberá todos os recursos. por algum tempo. Reparei que o Ministro e a Irmã Clara se entreolharam. a instrutora designou com a destra o nosso orientador. e. através do pensamento. nada respondeu. afetuosa: – Esperamos localizar nossa amiga no Parque... prestimosa.. O passado reflete-se no presente. – Sim – ponderou o Ministro. a Escola das Mães apresenta vastas disponibilidades – informou Blandina.Francisco Cândido Xavier .. como é natural. acrescentou: . de modo expressivo. nossa irmã. cauteloso –. – Sim. Clara considerou. – Odila poderá entregar-se com segurança à tarefa assistencial que Júlio exige. dando-me a idéia de que conversavam. não posso atinar com a razão de uma úlcera tão grande. incapaz de raciocinar. Achamo-nos todos infinitamente longe do Céu que fantasiávamos na Terra e cada qual de nós detém consigo deficiências que será preciso superar. mesmo porque também eu andava louca.

está sempre ligado a ela pela corrente em ação contínua.. a bênção do reencontro. o comentário edificante brilhou na sala. Blandina e Mariana prometeram cooperar.. Sinto que a felicidade pode ser conquistada no mundo a que fomos trazidos pela renovação. É imperioso esforçar-me.. Amanhã. Dispensar-lhe-ei todos os cuidados imprescindíveis ao seu bem-estar. julguei conveniente interpelar o instrutor. acerca dos problemas que me esfervilhavam no cérebro.. Despedimo-nos. A renovada senhora aceitou.. de novo.Francisco Cândido Xavier . Trabalharei quanto estiver ao meu alcance para ver Júlio integralmente refeito. Todos os que amamos virão ter conosco. – Procurarei compreender – disse Odila mais segura de si –. Porque não esclarecer Odila. no educandário a que se destinava. com respeito ao pretérito de Júlio? Seria aconselhável deixá-la entregue a informações deficien- . Passeou o olhar vago e cismarento pelo recinto. mais cedo ou mais tarde. Após nos separarmos de Clara... até situar-se. terei meus familiares aqui... no porvir talvez próximo. a felicidade restaurada. reconhecidamente. felizes. retomando o caminho de volta ao nosso domicílio espiritual. Por mais diferenciado se encontre. Esperanças diferentes me animam o espírito. e não posso olvidar a necessidade de algo fazer para conseguir o abrigo de que necessitamos. como se estivesse contemplando remotos horizontes.pelo Espírito André Luiz 163 – Nosso destino é assim como o rio. Hoje. sou mãe e não posso desvencilhar-me da obrigação de amparar meu filhinho. aquecendo a chama da amizade e da confiança em nossos corações. à distância da nascente que lhe dá origem.Entre a Terra e o Céu . Por largo tempo... em definitivo.. insistindo para que Odila se demorasse junto delas. novos ideais me banham o coração.. e concluiu: – Um lar..

Admirado com os apontamentos ouvidos. encontrará no assunto abençoado serviço de fraternidade.. oferecendo novo corpo ao filhinho. Além do mais. Quando acabei o interrogatório. como de outras vezes. calmo: – A vida é uma escola e cada criatura. Clarêncio. ao passo que. ela própria assumirá a responsabilidade do trabalho alusivo à reencarnação do pequeno. A verdade para a alma é como o pão para o corpo que não pode exorbitar da quota necessária a cada dia. de vez que a segunda esposa de Amaro substitui-la-á na condição de mãe. confiando a ela as deliberações que o caso reclama. a própria Odila virá até nós. quando lhe conhecíamos extensamente os enigmas da organização familiar? Porque não lhe explanar francamente o impositivo da reencarnação do menino? Clarêncio. Toda precipitação gera desastres. Se movêssemos as decisões.Francisco Cândido Xavier . adquirirá novo interesse para auxiliar Zulmira. replicou sem alterar-se: – À primeira vista. . não nos cabe a vaidade de qualquer antecipação a providências que serão agradáveis e construtivas ao amor de nossa irmã. ouviu sereno e generoso. seria efetivamente esse o caminho a seguir. Odila observar-se-ia anulada em sua capacidade de agir. deve dar a própria lição. com o sorriso natural que lhe marcava habitualmente o semblante. Esperemos agora alguns dias.pelo Espírito André Luiz 164 tes. todavia. lembrando para ele a felicidade da volta à Terra..Entre a Terra e o Céu . Interessada em socorrer o filhinho doente. dentro dela. entretanto as recordações do pretérito não devem ser totalmente despertadas. vi-me satisfeito na inquirição. para que ansiedades inúteis não nos dilacerem o presente. Advogando ela mesma essa medida e destinando-se a criança ao seu antigo lar. ao mesmo tempo que se reconhecerá mais responsável. aduziu. Sentindo-se ainda plenamente integrada no carinho materno.

não surtiam efeito. para esclarecer-se convenientemente. e todos. entretanto. Jamais supusera a existência de tantas enfermidades depois da morte. vira inúmeras crianças infelizes. Daria tudo para vê-lo forte e feliz. à uma. em companhia de Blandina..pelo Espírito André Luiz 165 27 Preparando a volta Quatro semanas correram céleres.Francisco Cândido Xavier . contou-nos a experiência inquietante que atravessava. no entanto visitara. no Templo do Socorro.Entre a Terra e o Céu . capaz de atender-lhe o anseio de mãe. Clarêncio. Júlio prosseguia apresentando na fenda glótica a mesma ferida. Hilário e eu recebemo-la quase sem surpresa. Apavorara-se. Instalara-se com ele em aposentos adequados na Escola das Mães e ao filhinho dispensava todo o cuidado suscetível de reerguer-lhe as energias. Tentara obter os bons ofícios de vários amigos. contudo. repetiam sempre que os compromissos morais adquiridos conscientemente na carne so- . outros setores de assistência à infância torturada. a luta continuava. Com respeitosa delicadeza. quando fomos realmente procurados por Odila. Vinha algo triste e preocupada. para um entendimento particular. Recursos medicamentosos e passes magnéticos não faltavam. portadoras de problemas talvez mais dolorosos que aqueles do filhinho bem-amado. Esperava a descoberta de algum milagre..

Depois de ligeira pausa. Assim sendo. por isso mesmo. O corpo físico funcionaria como abafador da moléstia da alma. como planta inculta germinando à toa... Tanto para entrar no reino do espírito. A mãezinha resignada concordou num gesto silencioso. não seria justo renascer no mundo a esmo. – Também creio – prosseguiu o nosso instrutor. a reencarnação para Júlio era o único caminho a seguir. sanando-a.. acrescentou: – Tens grande plantio de amizades puras na Terra? Em questões de auxílio. Nosso Júlio não é uma criatura comum e. Atendamos à hora que passa.. imperturbável – que a reencarnação do pequeno é urgente medida se desejamos observá-lo no caminho da própria recuperação. Que fizera o menino no pretérito para receber semelhante punição? A pobre senhora enxugava as lágrimas que lhe caíam espontâneas.Entre a Terra e o Céu . abnegado amigo!. profundo conhecedor do sofrimento humano. pouco a pouco.Francisco Cândido Xavier . o passado agora não é o remédio próprio.. analisemos o quadro de tuas relações afetivas. no mato da vida inferior.pelo Espírito André Luiz 166 mente na carne deveriam ser resolvidos e que. – Irmã Clara recomendou-me viesse rogar-lhe o concurso.. Temos Júlio extremamente necessitado à nossa frente e o alívio dele é o nosso objetivo mais imediato. – Somos todos irmãos – ajuntou Clarêncio generoso – e achamo-nos uns à frente dos outros para a prestação do serviço mútuo. Ajude-me. por esse motivo. Clarêncio. não podemos perder os nossos sentimentos de vista. falou como sacerdote: – Odila. como para entrar no .

Os olhos de Odila faiscaram de esperança. são a providência básica para que Júlio encontre um clima de confiança. mais amiga. – Devo buscar alguma regra específica? – Creio – ponderou o nosso orientador – que as tuas visitas afetuosas ao antigo lar. – exclamou a interlocutora com algum desapontamento – Sempre ocupada com a nossa casa e com a nossa família. entendo mesmo nesse imperativo de fraternidade a doce determinação do Senhor. – Sem dúvida. completando-lhe a frase –. Sem o lubrificante da cooperação. em melhores condições. Admito que o nosso pequeno reclama especiais atenções. disputando o amor dos outros. nunca pude efetivamente cultivar tantas afeições. entretanto corrigimo-nos e acertamos o passo. consolidando-lhe a harmonia. Realmente – acentuou. compreendo. constrangendo-me a operosa boa vontade para com ela. porem. conside- . é imprescindível te faças mais devotada. Amaro. não podemos dispensar no cometimento o concurso de Zulmira. auxiliando a mim mesma – disse.Francisco Cândido Xavier . – Tudo farei por ajudá-la. não podemos prescindir da cooperação de amigos sinceros que nos conheçam e nos amem..pelo Espírito André Luiz 167 reino da carne. entretanto. – Ah! sim. Para isso. comovida –. – Perfeitamente – atalhou o Ministro. estou certo de que Amaro continuará sendo para o menino um admirável companheiro. bem humorado –. como seria de desejar.. Muito erramos. Um esforço pede outro. reparo quão sublime é a Infinita Bondade do Céu. a máquina da vida não funciona. agora devo lutar em favor de nossa irmã por amar o meu filho. A princípio lutei contra Zulmira. as tuas conclusões são luminoso ensinamento – concordou o Ministro. sorrindo –. quando procuramos.. Precisamos dela no trabalho maternal. desejando ser amada de meu esposo...Entre a Terra e o Céu . em tudo vemos a Eterna Sabedoria..

pode favorecer-lhe ou contrariarlhe o curso.. por si. conseguimos colaborar em todos os serviços do aperfeiçoamento moral em nossas recapitulações. obedece a princípios embriogênicos automáticos. O renascimento na carne funciona em condições idênticas para todos. desfechamos sobre o instrutor algumas perguntas que nos fustigavam a cabeça. é possível ajustar providências que favoreçam a execução da tarefa a cumprir.pelo Espírito André Luiz 168 rando-se-lhe a posição de enfermo. com bases na sintonia magnética. atencioso. Quando Odila se despediu.Entre a Terra e o Céu . . A reencarnação. contudo.Francisco Cândido Xavier .. A reencarnação como lei exigia o concurso da amizade para cumprir-se? Os desafetos da vida influíam em nosso futuro? O trabalho reencarnatório não seria uma imposição natural? Clarêncio ouviu. Quanto mais extenso o nosso raio de trabalho e de amor. Nossa atitude. à medida que se nos desenvolvem o conhecimento e o amor. tanto quanto ocorre nos reinos inferiores à evolução humana. entre os conselhos paternais do Ministro e a sincera humildade da visitante. porém. Nesses casos. em se tratando de criaturas com alguns passos à frente da multidão comum. em favor ou em prejuízo de nós mesmos. contudo. satisfeito: – A lei é sempre a lei. as indagações e respondeu. como a planta. pode ressurgir em qualquer trato de solo. mais ampla se faz a colaboração alheia em nosso benefício. O entendimento alongou-se por mais tempo. a plantação de simpatia é fator decisivo na obtenção dos recursos de que necessitamos. Quem cultiva a amizade somente na família consangüínea. mas não seria justo relegar sementes selecionadas a terrenos incultos. para quem a reencarnação apresenta obstáculos justos. A alma. Cabe-nos tão somente respeitá-la e cumpri-la. dificilmente encontra meios para desempenhar certas missões fora dela.

restabeleceu afinal a saúde orgânica. Odila associou-se. deixamos que a antipatia cresça em derredor de nós? – inquiriu Hilário. como derradeira preliminar do trabalho reencarnatório. . Soubemos. envolvidas em luminosa onda de paz. Mariana. Foi assim que. cercávamos o alvo berço em que o doentinho gemia de quando em quando. com interesse. Odila conduziria a segunda esposa de Amaro ao encontro de Júlio. perdendo o contacto com admiráveis companheiros de nossa jornada espiritual para a Grande Luz. em muitas ocasiões acrescida de lamentáveis compromissos. as três chegaram. gastamos muitos anos. achávamo-nos a postos. – Toda antipatia conservada é perda de tempo. mais tarde. que a genitora de Evelina passou a dispensar envolvente carinho ao ferroviário e à companheira doente. desprevenidos.Francisco Cândido Xavier . de coração.Entre a Terra e o Céu . recebemos um convite da Irmã Clara para uma visita ao Lar da Bênção. O espinheiro da aversão exige longos trabalhos de reajuste. Preparando o retorno do filhinho. Decorrido algum tempo de expectação. Odila demandara o antigo ninho doméstico. para curar as chagas de um desafeto. transcorridas algumas semanas. Hilário e eu. à custa de muito esforço dela. No momento aprazado. Assistida por irmã Clara. Clarêncio. no propósito de acompanhar Zulmira até nós. Blandina. à tarefa de restaurar-lhes a harmonia conjugal e o contentamento de viver. A palavra de Clarêncio impunha-nos graves reflexões e talvez por isso a quietação baixou sobre nós. Em noite próxima. que.pelo Espírito André Luiz 169 – E quando. Em várias circunstâncias. palestrando animadamente em aposentos reservados na Escola das Mães.

e. Conchegá-lo-ei de encontro ao peito! Ó Senhor.. O Ministro. sustentada pelas companheiras.. afagando-o com intraduzível ternura. Abraçou o menino enfermo e afigurou-se-nos. meu Deus? – É verdadeiramente Júlio! – confirmou Odila.Francisco Cândido Xavier .pelo Espírito André Luiz 170 Enlaçada pelos braços das duas protetoras. Zulmira! Poderás auxiliá-lo. identificando-o. e falou em voz quase sufocada pela comoção: – Estou pronta! Devo a Júlio cuidados que lhe neguei. aproximou-se do pequeno enfermo. reconduziremos nosso .. fraternal – para ele te rogamos socorro! Nosso pequeno precisa renascer. Será meu filho.. ampara-me!. sob o império de inesperada introversão.. abeirou-se dela e amparou-a. a ex-obsidiada parecia feliz. espantada. de súbito. Inclinou-se sobre o menino.. incapaz de qualquer sintonia conosco. Amanhã. a inquietantes recordações da fixação mental que atravessara. antes da morte física.. recomendando: – Convém seja nossa irmã restituída ao lar terrestre. atendendo ao apelo de Clara. Talvez religada.. O choque repetido será prejuízo grave. Louvo reconhecidamente a Deus por esta graça! Sinto que assim nunca mais serei assaltada pelo remorso de não haver feito por ele quanto me competia!. pareceu-nos cega e surda. desde então. não obstante a impressão de medo e insegurança que lhe transparecia do olhar. oferecendo-lhe o regaço de mãe? Vimos a interpelada em lágrimas de alegria.Entre a Terra e o Céu . – Será Júlio. sim!. logo após. Respondeu-nos as saudações com a estranheza de quase todos os encarnados que alcançam as esferas superiores da vida espiritual.

. A sugestão foi obedecida. E enquanto Zulmira voltava ao templo familiar.Entre a Terra e o Céu . à espera do dia seguinte.pelo Espírito André Luiz 171 pequeno ao santuário doméstico de onde veio. à tarefa do recomeço.Francisco Cândido Xavier . enfim. arquivávamos nossa expectação. confiando-o.

Não podemos iludi-la. .. – considerou Hilário. no martírio dos pais. por duas vezes deverá experimentar a frustração para valorizar com mais segurança a bênção da vida terrestre.pelo Espírito André Luiz 172 28 Retorno Preocupados com o caso de Júlio. reabilitar-se-á com a cooperação deles. Trata-se tão somente de ligeira prova necessária. confiando-se inutilmente à revolta e à inércia. Com o desequilíbrio emocional de Amaro e Zulmira. na atualidade. por amá-lo. generoso –. talvez porque o assunto nos compelisse a severa meditação. conciso: – O problema é doloroso. ao que Clarêncio informou. já passou pelo afogamento e agora enfrentará a intoxicação. contudo. com duas tentativas de autoaniquilamento. hesitante. entretanto. por esquecê-lo. Júlio arrojou-se a escuro despenhadeiro de compromissos morais e.. – Meus amigos – falou o Ministro. no dia imediato indagamos do orientador sobre a planificação do serviço reencarnatório. Júlio sofrerá o aflitivo desejo de permanecer na Terra. ajuntou: – Quem aprenderá sem a cooperação do sofrimento? – Penso. Depois de estagiar por muitos anos nas regiões inferiores de nosso plano. Tudo isso é lastimável.Entre a Terra e o Céu . mas é simples. no pretérito. o casal. Ontem. suicida que foi. no entanto.Francisco Cândido Xavier . E mostrando significativa expressão fisionômica. a justiça é inalienável. hoje... A palestra esmoreceu. com o empréstimo do corpo físico a prazo longo. inclinouo à queda. garantir-lhe-á o soerguimento.

Clarêncio veio ao nosso encontro. o menino emudeceu. quando integraríamos a caravana da amizade que restituiria a criança enferma ao ninho antigo. Qual se houvera sorvido invisível anestésico. sem dúvida para certificar-se quanto à conveniência de confiarmos o pequenino à sua futura mãe. contudo. a câmara conjugal. Enternecedor espetáculo desdobrou-se à nossa vista. E. quando alcançamos a residência do ferroviário. . Zulmira em Espírito estendeu-nos braços fraternos. Odila chorava. o orientador.Francisco Cândido Xavier . Penetramos a sala humilde. radiante de alegria. calamonos cismarentos. convidando-nos a entrar. Irmã Clara fez expressivo aceno e o nosso instrutor penetrou.pelo Espírito André Luiz 173 Hilário e eu. O reequilíbrio da alma no ambiente que lhe é familiar no mundo constitui base firme para o êxito da reencarnação. conchegandoo ao próprio peito. aureolada por maternidade vitoriosa. Mariana. Blandina. Estava bela. sozinho.. em silêncio. Irmã Clara. solícito. avizinhava-se a madrugada. Hilário e eu rodeávamos ambos. quando recebeu Júlio. pareceu-me sublimada madona. Não prosseguiu. Com efeito. refletindo na absoluta harmonia da Lei. explicou: – O doentinho encontra grande alívio em contacto com os fluidos domésticos. enquanto o Ministro.. Junto de nós. envolvida em sombra. Odila trazia nos braços o filho irrequieto e gemente.Entre a Terra e o Céu . à espera da noite. Transcorridos alguns minutos.

em voz comovedora: – Senhor. desse amor que nos atinge o espírito até à fonte oculta das lágrimas. . fortalece-nos o bom ânimo e a serenidade e modera-nos o coração para que saibamos servir-te em qualquer circunstância!. De almas entrelaçadas na esperança em teu infinito amor e no júbilo que nasce da obediência aos teus desígnios. levaranos à comoção. abençoa-nos!.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . Aquela humildade ingênua lembrava-me a narração evangélica da viúva de Naim com o filho morto aos pés do Cristo e não pude conter o pranto que me vertia do coração. sustenta-nos na grande estrada redentora em que o obstáculo e a dor devem ser nossos guias.. rogamos-te auxilies a nossa irmã que investe sagradas aspirações femininas no apostolado maternal! Santifica-lhe os anseios. o Ministro voltou-se para ela e afagou-lhe a cabeça.. Atraída pelo poder magnético da oração. Igualmente tocado por aquele gesto espontâneo de confiança e fé.pelo Espírito André Luiz 174 Clarêncio ergueu os olhos para o Alto e orou. Algo de sublime devia ter acontecido na alma daquele missionário da abnegação que me habituara a querer com extremado carinho.. Sobretudo. avançou com o menino colado ao regaço até junto de nosso orientador. e ajoelhou-se. sensibilizou-nos ainda mais. todavia. transfigurado. aqui nos achamos... multiplica-lhe as energias para que ela se honre contigo na divina tarefa de criar!. Ó Pai. Senhor.. Zulmira... A palavra do Ministro. saturada de paternal amor. acompanhando um amigo que volta à recapitulação! Dá-lhe forças para submeter-se resignado à cruz que lhe será a salvação!.

e Clarêncio prometeu seguir. conduzindo consigo o pequeno confortado e desfalecente e retiramo-nos. projetavam-se raios de safirina luz. instintivamente. Clarêncio reergueu-a.pelo Espírito André Luiz 175 Jorro estelar descia da Altura.. Em seguida. desde então. Zulmira. inflamando-lhe a fronte e da destra que acariciava a irmã genuflexa. que se enlaçou a ela. de novo. parecia fundir-se nele. Quando nos vimos. os serviços naturais daquela gravidez incipiente. de perto. que tentava recuperar o corpo denso.Francisco Cândido Xavier . afigurou-se-nos integralmente concentrada no filhinho. pura. com a paciência admirável de todos os dias. a sós. enfim. conduzindo-a ao leito com a criança. De outras vezes. à maneira de um molusco a acomodar-se na própria concha.. que exigiam concurso ativo de técnicos do assunto e de benfeitores da vida superior. O Ministro.Entre a Terra e o Céu . Odila encarregou-se da assistência a Zulmira. tomados da alegria que nasce. adelgaçando-se gradativamente aos nossos olhos. É uma descida experimental ao campo da . Júlio dormira placidamente. as indagações surgiram. da obrigação bem cumprida. O corpo sutil do menino como que se justapunha aos delicados tecidos do perispírito maternal. tomou a palavra e esclareceu: – A reencarnação no caso de Júlio não reclama de nossa esfera cuidados especiais. Maravilhosos instantes de expectação correram sobre nós. mas ali o fenômeno era demasiado simples. Irmã Clara e as companheiras oscularam a futura mãezinha. Abraçado ao colo materno. acompanhara trabalhos preparatórios de reencarnação. imperiosas. sustentando-a nos braços.

a aspiração de conquistas espirituais que nos facilitem o acesso à Vida Superior. A lei de causa e efeito executa-se sem necessidade de fiscalização da nossa parte. – Receberia assistência aprimorada na formação do sistema nervoso. com interesse tão somente para ele mesmo e para os familiares que o cercam.. os princípios embriogênicos funcionam. para que lhe não faltasse um instrumento à altura de seus deveres na materialização do pensamento.. com responsabilidades justas nos caminhos alheios. – E se o reencarnante fosse um homem de larga intelectualidade? – inquiriu Hilário. o instrutor continuou: – Contudo. – Merecer-nos-ia cautelosa atenção na estrutura cerebral. Forças de ordem superior seriam fatalmente mobilizadas para a interferência nos cromossomos. estamos invariavelmente animados de um propósito firme.Francisco Cândido Xavier . Porque não mais indagássemos especificamente. assegurando-se-lhe pleno domínio das emoções. em milhares de renascimentos. se ele fosse detentor de méritos indiscutíveis.. o problema seria efetivamente outro. seja o anseio de alijar a dor que nos atormenta.pelo Espírito André Luiz 176 matéria densa. na Terra. basta o magnetismo dos pais. De modo geral. Na reencarnação. garantindo-se o embrião do veículo físico de maneira adequada à missão que lhe coubesse. a influenciar a comunidade. Todavia. – E se fosse um médico? um grande cirurgião por exemplo? – perguntei por minha vez. no momento. o voto de recapitular serviços mal feitos ou o ideal de realizar grandes tarefas de amor entre aqueles a quem nos afeiçoamos no mundo. estudioso.. se a existência do filho de Amaro estivesse destinada. De retorno ao corpo físico. a maioria das . aliado ao forte desejo daquele que regressa ao campo das formas físicas.Entre a Terra e o Céu . cada dia. automáticos.

no tempo e no espaço. A palestra prosseguia valiosa. reproduzindo-lhe o corpo denso. Quem não atendeu com exatidão ao trabalho que a vida lhe delegou.. incentivada pelo magnetismo da carne. A sementeira cresce..Francisco Cândido Xavier . mas o tempo nos convocava a outros misteres e. ao sopro criador da Bondade Divina. como a terra engole a semente para doar-lhe nova germinação. Esse vaso atrai a alma sequiosa de renascimento e que lhe é afim. estimulada pelo magnetismo do solo.. que. fomos constrangidos a interromper o nosso entendimento. depressa se rende ao impositivo de repetição da experiência e o ressurgimento na luta física aparece por bênção salvadora. consoante os princípios que encerra. Milhões de destinos se reestruturam dessa forma. nos oferece recursos ao desenvolvimento para a Sabedoria e para o Amor. em razão disso. Hilário perguntou. Nosso mentor completou-lhe a definição..pelo Espírito André Luiz 177 almas que reencarnam satisfazem à fome inquietante de recomeço. respeitoso: – O seio maternal. . qual se refaz uma grande floresta. a existência corpórea germina de novo. em toda a parte. Maternidade é sagrado serviço espiritual em que a alma se demora séculos. desse modo.Entre a Terra e o Céu . na maioria das vezes aperfeiçoando qualidades do sentimento. Ante a pausa ligeira do Ministro. em torno do que havíamos visto. respondendo: – É um vaso anímico de elevado poder magnético ou um molde vivo destinado à fundição e refundição das formas.

Júlio dormia. Observamos que Júlio se caracterizava por enorme diferença. por esse motivo. Preferia ver o filhinho confiado ao sono profundo. Tive a idéia de que ele e Zulmira. na constituição orgânica de Zulmira. A genitora desencarnada mostrava-se satisfeita e esperançosa. informou a guardiã. representava uma bênção para as inquietantes responsabilidades maternais de que se via detentora.pelo Espírito André Luiz 178 29 Ante a reencarnação Na noite imediata. feliz. Tudo lhe parecia desdobrar-se com segurança. alma com alma.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . como se a futura mãezinha fosse um filtro miraculoso a absorvê-lo. A moça ganhara em plenitude física e vivacidade espiritual quanto perdia o menino na apresentação exterior. O renascimento. Como as pessoas felicitadas por . Penetramos respeitosamente o quarto em que Odila nos recebeu. ao passo que a jovem senhora demonstrava admirável despertamento para a vida. Clarêncio conduziu-nos ao domicílio do ferroviário para observações. Julio adormecera aliviado. Não mais acordara. Tinha a impressão de que o reencarnante desaparecia pouco a pouco. Adelgaçara-se de maneira surpreendente. se fundiam um no outro. atendendo-nos a solicitação. As aflições e os gemidos dele lhe haviam dilacerado o coração. A segunda esposa de Amaro modificara-se de modo sensível. contente e gentil. O corpo sutil do menino denotava espantosa transformação.

– E a forma a rarefazer-se sob nossos olhos? – inquiriu meu colega. em suas propriedades. Constituído à base de princípios químicos semelhantes.Entre a Terra e o Céu . ao hidrogênio. é um choque biológico dos mais apreciáveis. Registrando-nos o assombro.pelo Espírito André Luiz 179 novos títulos de confiança no trabalho. revelava-se mais alegre e mais cônscia das obrigações que lhe competiam. . à maneira de um ímã. o perispírito sofre a influência de fortes correntes eletromagnéticas. então. – Quer dizer então. em sua curiosidade construtiva. A transfusão fluídica era ali evidente. tanto quanto a desencarnação. a redução volumétrica do veículo sutil pela diminuição dos espaços intermoleculares.. Unido à matriz geradora do santuário materno. O organismo materno assemelhava-se a um alambique destinado a sutilizar as energias do reencarnante para restituí-las. que lhe impõem a redução automática. oferecendonos o perispírito esse aspecto de desgaste ou de maior fluidez. na formação do novo envoltório. em busca de nova forma. espantado. quando ligado ao centro genésico feminino experimenta expressiva contração. Toda matéria que não serve ao trabalho fundamental de refundição da forma é devolvida ao plano etereal. – Quero dizer que os princípios organogênicos essenciais do perispírito de Júlio já se encontram reduzidos na intimidade do altar materno e. Observa-se. o instrutor explicou com a sua habitual gentileza: – A reencarnação. – aventurou Hilário.Francisco Cândido Xavier . a se expressarem através de moléculas significativamente distanciadas umas das outras.. vão aglutinando sobre si os recursos de formação do novo vestuário de carne que lhe será o vaso próximo de manifestação. a ele mesmo. à maneira do indumento de carne sob carga elétrica de elevado poder. decerto.

ainda mesmo quando em deploráveis condições de sofrimento e inferioridade. começa a restituir as unidades químicas que o compõem à Natureza que lhos emprestou a titulo precário. com a bela serenidade que lhe assinala o espírito. de acordo com o degrau evolutivo em que se encontra. avança para a libertação relativa. auxiliado apenas pelas nossas preces no culto à fraternidade.Francisco Cândido Xavier . Inspirado talvez na mesma faixa de reflexões que me preocupavam o espírito. automaticamente. É por isso que. em nos reencarnando. para o trabalho que lhe compete. todo o passado que lhe diz respeito. paciente – todos nos achamos na grande marcha de crescimento para a imortalida- . quando. sofremos o processo de volta às teias da matéria densa. todo o nosso pretérito biológico. apenas com a diferença de que a alma desencarnada. revivemos. diante de um caso comum de reencarnação. A maneira simples pela qual Clarêncio esflorava problemas tão complexos.pelo Espírito André Luiz 180 – Está em ativo processo de dissolução. E. na reconstrução da forma em que se exprimirá na Terra. Hilário inquiriu: – Os princípios que analisamos funcionam em igualdade de circunstâncias para os animais? – Como não? – replicou o nosso orientador. continuou elucidando: – Também o corpo físico parece dormir na desencarnação. Ali. quanto à magnitude das Leis Universais. na realidade. obtínhamos vastas elucidações sobre o plano geral da existência. nos primeiros tempos da organização fetal. não obstante orientados por nobres objetivos de evolução. embora apressadamente. induzia-nos a sublimados pensamentos. ao passo que. conduzidos à reconstituição orgânica.Entre a Terra e o Céu . Cada ser que retoma o envoltório físico revive. estacionando na mais alta configuração típica que já conquistou.

com o serviço da hora presente. Nas linhas infinitas do instinto. da razão e da sublimação. restituirá aos reservatórios da Natureza todos os elementos da polpa e dos demais envoltórios que lhe revestem os princípios vitais. mais preciso. – Então. Decomposto em sua estrutura. pouco a pouco. após refletir alguns momentos: – Imaginemos um pêssego amadurecido. no espaço e no tempo. onde se localizam os animais de ordem superior que. em novo pessegueiro. pediu uma explicação tão simples quanto possível acerca da comunhão fisiopsíquica de Zulmira e Júlio naquele instante. tantas vezes quantas se fizerem necessárias. voltou-se para o leito em que mãe e filho jaziam. e sentenciou: – Preocupemo-nos. intimamente associados. porém. ao que Clarêncio respondeu. O instrutor. tanto quanto os homens. tanto quanto eu.Francisco Cândido Xavier . fixando o quadro sob nossos olhos. por isso – acrescentou Hilário. da inteligência.pelo Espírito André Luiz 181 de. O ensinamento não podia ser mais lógico. se mostrava interessado em aproveitar a lição. se encaminham para as gloriosas esferas dos anjos. O apontamento reajustou-nos. reduzindo-se no imo do solo ao embrião minúsculo que se transformará. entretanto. Hilário que. Crisálidas de inteligência nos setores mais obscuros da Natureza evolvem para o plano das inteligências fragmentárias. na grande jornada para Deus. Atacamos experiências múltiplas e recapitulamo-las. permanecemos todos vinculados à lei do renascimento como inalienável condição de progresso. estudioso – é que as crianças desencarnadas reclamam período de tempo mais ou .Entre a Terra e o Céu . a fim de renascer. Estudemos o caso sob nossa observação para que o nosso dever de solidariedade seja bem cumprido. lançado à cova escura. se dirigem para o reino da consciência humana. por sua vez.

Nesses casos.Francisco Cândido Xavier . aprimorando-se em mais altos degraus de sublimação espiritual. sob o ponto de vista moral. por esse motivo. na Terra – ponderou Clarêncio. o Espírito já domina plenamente as leis de aglutinação da matéria. no entanto – considerei –. imperturbável –. que respirava serena. ressurgirá na existência física sem a moléstia que o apoquentava. feliz. Quando a mente já desenvolveu certas qualidades. governa o fenômeno da própria reencarnação sem subordinar-se a ele. qual é aceita nos conhecimentos científicos do mundo. reverente. Em muitas circunstâncias. pode arrojar de si mesma os elementos indispensáveis à composição dos veículos de exteriorização de que necessite em planos que lhe sejam inferiores..Entre a Terra e o Céu . como ocorre na existência comum.. em razão de compromissos adquiridos na carne. cada dia. indubitavelmente. – Isso acontece com a maioria – informou o Ministro –.. – E a questão da hereditariedade? – indagou meu companheiro. perdendo o corpo sutil em que chorava atormentado. na carne encontrará caminho ao próprio reajuste. no campo de luta que nos é conhecido e. e asseverou: – A hereditariedade. ainda mesmo quando se cataloguem distantes uns dos outros. tem os seus limites. quanto o de milhares de criaturas. semelhante imposição não existe. – O problema de Júlio. de maneira expressiva.pelo Espírito André Luiz 182 menos longo para demonstrarem crescimento mental. – Júlio. afigura-senos bastante doloroso. Fitávamos o semblante calmo de Zulmira. guardam sempre afinidade magnética . de vez que há exceções na regra. por herdar fatalmente os característicos biológicos dos pais? O orientador sorriu. Nosso companheiro vencido e enfermo. Filhos e pais. – Doloroso mas educativo..

concluiu: – Como vemos. para a constituição do novo envoltório. pelas nossas conquistas ou débitos que voltam à Terra conosco. A consciência traça o destino. com sensatez. Toda agregação de matéria obedece a impulsos do espírito.Francisco Cândido Xavier . Assimilamos as energias de nossos pais terrestres. emergindo de nossas anteriores experiências. Conversamos de novo. Odila tomou a palavra comentando as suas esperanças para o futuro.pelo Espírito André Luiz 183 entre si. à formação do embrião. – Somos então levados a crer que Júlio transportará consigo a enfermidade que sofria em nosso plano. .Entre a Terra e o Céu . em se mudando de domicílio. Depois de breve pausa. somos herdeiros de nós mesmos. Calou-se o instrutor. nos limites da lei de herança. na medida de nossas qualidades boas ou más.. o corpo reflete a alma. – observou Hilário. não modifica o quadro orgânico. os progenitores fornecem determinados recursos ao Espírito reencarnante. como é justo. influenciando. Júlio renascerá com as deficiências de que ainda é portador. desse modo. mas esses recursos estão condicionados às necessidades da alma que lhes aproveita a cooperação. na mente reside o comando. Assim sendo. Todo o cosmo celular do novo organismo estará impregnado pelas forças do pensamento enfermiço de nosso irmão que regressa ao mundo.. Nossos pensamentos fabricam as formas de que nos utilizamos na vida. satisfeito –. porque. o problema é de natureza espiritual. Durante a gravidez de Zulmira. – Isso mesmo – elucidou o Ministro. para o destino enobrecido ou torturado a que fazemos jus. a mente de Júlio permanecerá associada à mente materna. animadamente. embora favorecido pelo material genético que recolherá dos pais. à maneira de alguém que. no fundo.

logo após.pelo Espírito André Luiz 184 E.Francisco Cândido Xavier . .Entre a Terra e o Céu . uma prece do Ministro encerrava para nós a deliciosa reunião.

. havia contraído perigosa amidalite. olheiras arroxeadas e faces rubras de febre.pelo Espírito André Luiz 185 30 Luta por renascer Um mês correra célere sobre os acontecimentos que vimos de narrar. via baldadas todas as providências. poderia ameaçar-lhe a tarefa maternal com a aplicação de recursos impróprios. A supuração das amídalas poluíra-lhe o hálito e lhe impunha dores lancinantes. Sofria muito. por liberá-la de semelhante aborrecimento físico. quanto lhe era possível. Clarêncio não se delongou na assistência precisa. no leito. atormentada. Por seis dias consecutivos. Zulmira. Era noite.Francisco Cândido Xavier . ignorando a verdadeira posição da cliente. demorava-se em aflitiva prostração. entretanto. suplicando ajuda. Cabelos em desalinho. Rogava-nos. incompreensivelmente para ela. informou nossa amiga inquieta. mas o facultativo não atinava com a causa íntima da enfermidade e. Vinha triste. Esforçara-se. por isso.Entre a Terra e o Céu . no que foi obedecida. parecia aguardar a chegada de alguém que a auxiliasse na debelação da crise. achava-se no trabalho de vigilância. quando Odila nos procurou. socorro imediato. Zulmira. induzira Amaro a trazer um médico. Desolada. quando demandamos o ninho doméstico que já se nos fizera familiar.

Os pensamentos do ser que se acolhe ao santuário íntimo envolvem-na totalmente. prodigalizando-lhe sublimadas emoções e convertendo a maternidade. Precisamos garantir-lhe o êxito na missão esposada.. cuidadosamente. O esposo e a filha desdobravam-se em carinho. aplicou-lhe recursos magnéticos. ao que Clarêncio respondeu. A mulher grávida. determinando significativas alterações em seu cosmo biológico. Carinhosamente. semi-sufocada. além da prestação de serviço orgânico à entidade que se reencarna. durante a gestação.pelo Espírito André Luiz 186 A pobre senhora apenas gemia. e. mas no processo de Júlio observamos duas almas que se ajustam nas mesmas . revelava-se agora profundamente abatida. seguro: – A questão é sutil. propiciando-lhe repouso. trinta dias antes. consegue auxiliar o campo materno. que sempre constitui um sacrifício quando se trata de alguém com escuros débitos de consciência. é igualmente constrangida a suportar-lhe o contacto espiritual. detendo-se de modo particular na região do cérebro e na fenda glótica. Reabilitou-se o movimento circulatório. disse comovido: – Zulmira reclama nosso concurso diligente.. Se o filho é senhor de larga evolução e dono de elogiáveis qualidades morais. sofre verdadeira enxertia mental. que tão violenta se apresentara. habitualmente dolorosa. exausta. Nosso instrutor examinou-as. A febre decresceu.Francisco Cândido Xavier . mas Zulmira. corada e bem disposta. procurando reanimá-la. Hilário indagou sobre a causa da moléstia insidiosa. e o sono reparador surgiu por fim. favorecendo-lhe a recuperação.Entre a Terra e o Céu . Drogas variadas alinhavam-se em prateleira próxima. em estação de esperanças e alegrias intraduzíveis. que deixáramos. percebendonos a admiração. A organização feminina. A doente acusou melhoras imediatas.

tanto quanto os de Júlio revelam expressivo poder sobre a nova mãezinha. de algum modo. com devoção paternal. parecia ela a mais preocupada com as lições ouvidas. mantendo-se em permanente comunhão. Os pensamentos de Zulmira guardam imensa força sobre Júlio. De semelhante associação. levou a efeito diversas operações magnéticas de auxílio à cavidade pélvica. Clarêncio continuou: – Se Zulmira atua. O Ministro fez longa pausa. Influenciam-se mutuamente. estabelecendo fenômenos perturbadores em sua constituição de mulher. . É que o trabalho da maternidade assemelha-se a delicado processo de modelagem. As mentes de um e de outro como que se justapõem. atenciosa. que os reproduz no corpo em que se manifesta. Certos estados íntimos da mulher alcançam. De todos nós. requisitando.Entre a Terra e o Céu . A corrente de troca entre mãe e filho não se circunscreve à alimentação de natureza material. marcando-o para a existência inteira. o menino atua vigorosamente nela. Em seguida.pelo Espírito André Luiz 187 dívidas e na mesma posição evolutiva. A permuta de impressões entre ambos é inevitável e os padecimentos que Júlio trazia na garganta foram impressos na mente maternal. por isso. a benefício da enferma. na formação do novo veículo do menino. de maneira decisiva. tornando aos passes. estende-se ao intercâmbio constante das sensações diversas. até que a Natureza complete o serviço que lhe cabe no tempo. procedem os chamados “sinais de nascença”. Odila acompanhava-o. o Ministro.Francisco Cândido Xavier . muita cautela e harmonia para que a tarefa seja perfeita. o princípio fetal. Identificava-se-lhe o interesse de tudo aprender para tornar-se ali mais útil. Findos alguns instantes.

com interesse – a inopinada aversão de muitas gestantes contra os próprios maridos. a gestante revela decréscimo de vivacidade mental e. O orientador sorriu e obtemperou: – A explicação é muito clara. e isso acontece quase sempre. A transformação do sistema nervoso. A gestante é uma criatura hipnotizada a longo prazo. outras se recolhem a fantasias tão inesperadas quanto injustificáveis..Entre a Terra e o Céu . . é indiscutível. nessas circunstâncias.Francisco Cândido Xavier . talvez tentando converter aquela hora de fraternidade tanto quanto possível em hora de estudo. acrescentando: – É comum a verificação de exagerada sensibilidade na mulher que engravida. a fim de resgatar débitos contraídos para com aquele que lhe servirá de pai. Meu colega. isso ocorre sempre que um inimigo do pretérito volta à carne. avançando mais longe. – Sim. perguntei a mim mesmo se a gravidez. enuncia propósitos da mais rematada extravagância. em vista do complicado e difícil desenvolvimento de Júlio reencarnante. na maioria dos casos. à maneira de um médium.. a mente maternal é suscetível de registrar os mais estranhos desequilíbrios.. Quando o futuro filho não se encontra suficientemente equilibrado diante da Lei. estará transmitindo opiniões e sensações da entidade que a empolga. Tem o campo psíquico invadido pelas impressões e vibrações do Espírito que lhe ocupa as possibilidades para o serviço de reincorporação no mundo. porque. recordou algumas de suas experiências médicas. Em muitas ocasiões na Terra. não raro. Muitas vezes.pelo Espírito André Luiz 188 afirmando a necessidade de socorro ao útero. não acarreta temporária loucura. – Afligia-me observar – lembrou Hilário. Há mulheres que adquirem antipatias súbitas..

Zulmira. em tais ocorrências. A elucidação clara e lógica satisfez-nos plenamente. curioso – em que na ribalta do mundo vemos filhas que foram evidentemente fortes desafetos das mães em passado remoto ou próximo. os casos – ponderei. vê-se o marido docemente impulsionado a oferecer maior coeficiente afetivo à companheira. vivendo psiquicamente em harmoniosa associação com eles e distanciadas espiritualmente das mãezinhas que. por devotamento ao companheiro. a primeira esposa do ferroviário tornou até nós. tal a animosidade que lhes caracteriza as relações. facilitando a tarefa maternal da mulher. . no entanto. dá muito mais de si mesmo em atenção e carinho. cruelmente. Reparamos que. ao nosso círculo de trabalho comum. em se tratando de alguém com intensa afinidade junto ao chefe do lar.pelo Espírito André Luiz 189 – Temos.Francisco Cândido Xavier . informou aflita.Entre a Terra e o Céu . de vez que se sente envolvido por forças duplas de atração. Vômitos incoercíveis perturbavam-na. solicitando nova intervenção. O sistema digestivo apresentava alterações profundas. Regressamos. as filhas são muito mais afins com os pais. A esposa. Palestramos ainda por alguns minutos. depois de alguns dias. Não tolerava a mais leve alimentação. tudo fazem debalde para quebrar as barreiras de separação. edificados. nos quais o nosso orientador ministrou variadas instruções a Odila. atravessava estarrecedora crise orgânica. surgirão obstáculos à reencarnação? Clarêncio fitou-me de maneira significativa e respondeu: – De modo algum. habilitando-a para socorros de emergência. por vezes. contudo. Em ligações dessa natureza. Sob dobrada carga de simpatia. cede facilmente à necessidade da alma que volta ao reduto doméstico para fins regeneradores e.

O tempo desdobrou-se semana após semana. submeteu-a a passes magnéticos de longo curso. em toda a sua experiência médica na Terra não conseguira explicar. no fundo. Daí. o desequilíbrio é de essência espiritual. Clarêncio. funciona como um exaustor de fluidos em desintegração. absorvendo as emanações da entidade reencarnante. com segurança –. porém. . declarou ele. Deveres diversos convocavam-nos a presença.Entre a Terra e o Céu . a razão dos engulhos freqüentes. até que. de tratamento até agora muito difícil. que. em condições ameaçadoras.Francisco Cândido Xavier . fluidos esses que nem sempre são aprazíveis ou facilmente suportáveis pela sensibilidade feminina. Revelava-se a gestante. Não nos delongamos para a execução do trabalho assistencial. mas. Semelhante nota oferecia-nos valioso material de meditação. encontrando definições de ordem fisiológica para tais conflitos. em outros setores. Hilário perguntou pelo motivo de semelhante fenômeno.pelo Espírito André Luiz 190 O médico agia baldadamente. certa manhã. visto que o estômago da enferma zombava de todos os recursos. Insistimos na visitação à residência de Amaro. Ainda assim. As náuseas repetidas provocavam a gradativa incursão da anemia. de quando em quando. convocados ou não para o trabalho. depois das despedidas. – Estamos certos de que a ciência do porvir ajudará a mulher na defesa contra essa espécie de aborrecimento orgânico – asseverou o Ministro. O organismo materno. prometendo que a medida se faria seguir das melhoras necessárias. efetivamente.

De conformidade com a aprovação da pequena família. . voltamos a abraçá-lo. anunciando que o menino tornara à luz terrestre. Comungamos da sua profunda alegria e. chamar-se-ia novamente Júlio.Francisco Cândido Xavier .pelo Espírito André Luiz 191 Odila veio até nós com o júbilo de uma criança feliz. com a solidariedade dos amigos sinceros.Entre a Terra e o Céu .

procurava assistência para Zulmira. agora demandava auxílio para Júlio. rememorando os trabalhos que lhe haviam precedido o regresso ao mundo. conchegamo-lo ao coração. novamente. assinalando a ternura otimista com que Odila. num dia de grande trabalho para nós. quando nova luta surgiu. Extensa ferida na glote dificultava-lhe a nutrição. Entretanto. em todos os recantos. todavia. Desvelavam-se os pais por assisti-lo convenientemente. O inverno chegara rigoroso e vasto surto de gripe espalharase ameaçador. trazia doloroso estigma na garganta. O pequerrucho já começava a falar por monossílabos. transformada em generosa protetora da família. quando. Farinhas suculentas concorriam com o leite materno para robustecê-lo. A tosse e a influenza compareciam pertinazes. que sentiam em seu rostinho tenro um ponto vivo de entrelaçamento espiritual.pelo Espírito André Luiz 192 31 Nova luta O pequeno Júlio desenvolvia-se como flor de esperança no jardim do lar. por mais adequados se categorizassem os tratamentos recalcificantes. eis que a genitora de Evelina veio. mas em vão. contudo. enfermiço. sempre mirrado. era uma bênção de felicidade para os genitores e para a irmãzinha. apesar dos cuidados que exigia. ao nosso encontro. em vésperas do primeiro ano de renascimento.Francisco Cândido Xavier . Dantes. . lhe acompanhava o desabrochar. Muitas vezes.Entre a Terra e o Céu .

o clínico voltou-se para a dona da casa. preocupadas. compelindo-o a refletir com a maior atenção. pela vestimenta pesada dos transeuntes. como se fora defrontado por insolúvel enigma. o domicílio de Amaro. fitavam o médico. úmido. davam ao Rio o aspecto de uma cidade fria. A garganta minúscula apresentava extensa placa branquicenta e a respiração se fazia angustiada. era indubitavelmente constrangedor. sem perceber-nos a presença. chamando-o da oficina. Enquanto a senhora telefona para o marido. trarei comigo um pediatra. sibilante. O quadro. Clarêncio passou a reparar-lhe todos os movimentos. sem detença. Com efeito.Entre a Terra e o Céu .Francisco Cândido Xavier . assaltado por teimosa amidalite.pelo Espírito André Luiz 193 O menino. e colocou a destra na fronte do facultativo. à via pública e. rápida. Dirigimo-nos incontinenti para o lar do ferroviário. à nossa vista. corria até o armazém próximo para dar ciência ao . no instante preciso em que o médico da família efetuava meticuloso exame. Alcançamos. enquanto Evelina. Após longo silêncio. As ruas. O médico tornou. A torturada mãezinha conteve a custo as lágrimas que lhe borbulhavam dos olhos. sobre o largo espelho da Guanabara. o vento soprava. O instrutor meneou a cabeça. cismarento. Zulmira e Evelina. febril. afirmando: – Creio devamos procurar um colega imediatamente. jazia prostrado. Penetramos o aposento em que a criança gemia semiasfixiada.

A deficiência congenial da glote favoreceu a implantação dos bacilos. Mantendo vigilância junto ao doentinho. decidindo transportar consigo mesmo o material necessário à inspeção. permutando impressões em voz baixa. Ambos os médicos submeteram o petiz a prolongado exame. reclamou a análise de laboratório. conduzido pelo colega. quando o pediatra.. Se a hipótese se confirmasse. exclamou. ingressou no aposento. presumindo-se a sós. prometeu opinar. quando o ferroviário. a Hilário e a mim. reservava o diagnóstico definitivo para depois. Nada pude indagar. Notificou ao pai agoniado que tudo lhe fazia crer tratar-se de garrotilho. dentro de algumas horas. abraçouse ao doentinho e. Senhor!. deu entrada na humilde residência. O instrutor começou a mobilizar recursos assistenciais de maior expressão. Zulmira.. após manifestar a suspeita de crupe. Entretanto. O pranto que lhe corria na face queimava-me o coração. O especialista. Não me deixes agora sem ele. mas o nosso orientador. Ao sair. É imprescindível o socorro urgente. sereno como sempre.pelo Espírito André Luiz 194 genitor de quanto ocorria.Francisco Cândido Xavier . desolado.. chorando livremente. compadecido: – A difteria está perfeitamente caracterizada. Conversando com a mulher. . acompanhar o pediatra. apreensivo. Seguimo-lo sem hesitar. o Ministro recomendou-nos. de modo a prestar-lhe a colaboração possível ao nosso alcance.. enviaria um enfermeiro de confiança para a aplicação do soro adequado. ciciou: – Ó meu Deus. com tanto amor recebi o filho que me enviaste!. tentava reanimá-la. em vista da emotividade que me tomara o espírito.Entre a Terra e o Céu .

palestrava com dona Antonina que acomodava ao colo a pequena Lisbela. Mário. para a medicação da filha. fomos defrontados por uma surpresa que nos impunha verdadeira estupefação. onde o nosso amigo procurou a sala em que certamente se recolhia para os trabalhos que lhe diziam respeito. às vinte e duas horas.pelo Espírito André Luiz 195 O crepúsculo. certa vez. ambas tiveram acesso a gabinete particular. onde o facultativo diagnosticou uma pneumonia. ressalvando: – Bem. Mário Silva. mas preciso de seu concurso em bairro distante. Em minutos breves. O rapaz assumiu o compromisso de regressar a tempo e um táxi recolheu o trio. caía rápido. Ante o inesperado daquele encontro. ao ambiente doméstico. Antonina foi aconselhada a voltar. Chegados a estreito recinto. encharcado de uma garoa fina. aguardava o especialista. em seu traje branco. A jovem senhora. Amparadas por Silva. demonstrando imenso carinho pela criança. A penicilina devia ser administrada sem qualquer dilação. rolando na direção da casinha que visitáramos. você pode cooperar com as nossas clientes. . trazendo a filhinha à consulta. prontificou-se a assisti-la.Francisco Cândido Xavier . Traria um automóvel e atenderia ao caso pessoalmente. de imediato. francamente atraído para a simpática visitante. O chefe passeou o olhar pelo mostrador do relógio e aquiesceu. que não mais víramos.Entre a Terra e o Céu . sentimos necessidade de um entendimento seguro com o nosso orientador. pálida e ofegante. atravessávamos o pórtico de vasto hospital.

A lei está reaproximando os nossos amigos uns dos outros e Mário precisa fortalecer-se para exercitar o perdão. Agradavelmente surpreendido. Corremos ao domicílio da valorosa mulher.. segundo notícias recebidas . A mãezinha.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 196 Tornando ao quarto.. E a simpatia não se patenteava tão somente no coração dele.. viemos a saber que nossa amiga se enviuvara. agora acamada.. sentia-se ali como se fora em sua própria casa. Com efeito. Somente no decurso da afetuosa palestra.Francisco Cândido Xavier . Clarêncio escutou com interesse e ponderou. Dirijamo-nos à casa de Antonina. o enfermeiro declarava de viva voz estar experimentando uma paz que há muito não conhecia. Silva fixava a dona da casa. Intimamente deslumbrado. depois de haver iniciado o tratamento providencial da menina. com o que Antonina se regozijava. deu curso a animada conversação em torno do futebol. de quando em quando. preparando o café. sorrindo. Percebendo que Haroldo e Henrique se mostravam apaixonados pelas disputas esportivas. Os raios de ódio da parte dele podem apressar aqui o serviço inevitável da morte. ingressava no alegre entendimento. preocupado: – Não podemos perder tempo. O esposo. onde o pequeno Júlio piorava sempre. conquistando-lhes o carinho. quando a palavra deles se evidenciava menos construtiva. a fim de podar o entusiasmo dos meninos. fizemos breve relato do acontecido. Guardava a nítida impressão de haver conhecido Antonina em algum lugar. A senhora e os filhos cercavam-no de atenções. perguntando a si mesmo onde vira aquele torturado perfil de madona.

hoje temos nosso culto evangélico.pelo Espírito André Luiz 197 de metrópole distante. havia falecido num desastre. E. Antonina. Vimos o nosso orientador acercar-se do recipiente de água cristalina. sem afetação. abeirar-se de Silva.Francisco Cândido Xavier . indicando o enfermeiro. o rapaz concordou. fitando o hóspede inesperado.Entre a Terra e o Céu . com graciosa malícia. convidou com simplicidade: – Sr. acomodados os companheiros. Antonina recomendou a Henrique fizesse a rogativa inicial. que não desejava perder o benefício das orações. que lhe recebeu as irradiações. Um copo de água pura foi colocado junto à cabeceira da pequenina. pediu a Jesus a saúde da irmãzinha doente. – Certamente nosso amigo nos fará essa honra – disse a genitora. O menino recitou o “Pai Nosso” e. . magnetizando-a. e. Lemos no olhar de Silva o contentamento com que obtinha semelhante informe. Às oito em ponto. Começava a registrar insopitável interesse pela vida naquele ninho agasalhante que se lhe afigurava pertencer-lhe. nessa noite. de pronto. com enternecedora súplica. em seguida. logo após. A reunião. em favor da enferma que parecia expressivamente confortada ante a oração ouvida. de Novo Testamento em punho. foi efetuada ao redor do leito de Lisbela. vitimado pela própria imprudência. Mário. Quer ter a bondade de partilhá-lo? Incompreensivelmente feliz. – Quem abrirá hoje o Livro? – perguntou Haroldo.

” A dirigente do culto. algo trêmulo na participação de um serviço espiritual inteiramente novo para ele. sem perceber o amparo que o envolvia. O moço.Francisco Cândido Xavier . de modo ingênuo. acolheu o pequeno volume. enquanto te encontras a caminho com ele. – Haroldo – indagou a genitora. . A palestra parecia ameaçada de esmorecimento.Entre a Terra e o Céu . qual se agisse a esmo. como devemos interpretar um inimigo em nossa vida? O menino replicou. que. a senhora nos ensinou que conservar um inimigo em nosso caminho é o mesmo que manter uma ferida perigosa em nosso corpo. se revelava mais retraída. ignorando como expressar a felicidade que lhe fluía do coração. pediu a interpretação dos meninos que. impondo-lhe a destra sobre a fronte. afirmando que sempre adquiriam a paz. que leu em voz pausada o versículo vinte e cinco do capítulo 5º das anotações do Apóstolo Mateus: – “Concilia-te depressa com o teu adversário. se reportaram às experiências da escola. quando lhe via a boa vontade e Henrique salientou haver aprendido no culto do lar que era muito mais agradável o esforço de viver em harmonia com todos. mas o nosso orientador aproximou-se de Antonina e. influenciando-o para a descoberta do texto adequado. de olhos brilhantes –. para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial para que sejas encerrado na prisão. Haroldo asseverava que a professora sempre sorria contente. sob a atenção de Clarêncio. abriu em determinada passagem. que lhe tocava o busto e as mãos. buscando desculpar as faltas dos companheiros.pelo Espírito André Luiz 198 Mário. sem pestanejar: – Mãezinha. naquela noite. passando o livro a Antonina. como que a impelia ao comentário justo.

prestandolhes serviço para que renovem a conceituação a nosso respeito. Se fomos ofendidos.Francisco Cândido Xavier .. a existência na Terra seria uma aventura intolerável. Precisamos desculpar os outros para que os outros nos desculpem.pelo Espírito André Luiz 199 – A definição foi bem lembrada – falou a viúva com espontaneidade encantadora –.. apareceram Amaro e Zulmira.. o irmão de todos.. constrangido.. sem que ele pudesse controlar a eclosão das próprias reminiscências. caminhando para a morte com aflitivos problemas. por todos os meios ao nosso alcance. em verdade também ofendemos por nossa vez. porque a vida não termina neste mundo e é possível que. Aquelas conclusões feriam-lhe. como . Tão desajustado se revelou escutando aqueles apontamentos que Antonina.Entre a Terra e o Céu . sim. compete-nos tentar. sem a compreensão fraterna que nos garante o culto da gentileza. ponderou. não tenho adversários. buscando a justiça em nosso favor. – Sim. Mais vale para nós o acordo pacífico que a demanda mais preciosa. o modo de ser. Além disso. indubitavelmente considerava que a razão nunca vive inteira ao nosso lado. gaguejou o moço. sorrindo: – O senhor decerto nunca teve inimigos... estejamos cristalizando a cegueira do egoísmo em nosso próprio coração. sem o perdão que olvida todo mal. quando Jesus nos ditou a lição que recordamos hoje. Silva estava pálido. na tela mental. sem qualquer dúvida. fundo. Alimentar ódio ou despeito é estender inomináveis padecimentos morais no próprio espírito.. em lhe registrando a estranheza. Quando abraçamos o ideal do bem. Mas. a justa conciliação com todos os que se encontrem conosco em desarmonia. Coração que conserva rancor é coração doente. Um enfermeiro diligente será.

Entre a Terra e o Céu . Além de tudo. não conseguia recordar onde. odiava-os – pensou de si para consigo –. jamais suportaria um acordo com semelhantes adversários.pelo Espírito André Luiz 200 os desafetos que ele. Odiava-os. cercada de três filhinhos. no âmago do espírito. Os olhos de Mário cintilaram. superando talvez obstáculos dos mais inquietantes para viver. constituía um exemplo de quanto podia edificar o espírito de sacrifício. cuja presença nos perturba. a sinceridade da interlocutora encantava-o. Aquela viúva jovem. Fitando-a. com quem se simpatizara à primeira vista. Sentia.. porém. laços de vigorosa afinidade impeliam-no para aquela mulher. como e quando a conhecera. entretanto a oração é o remédio eficaz de nossas moléstias íntimas. porque então um caminho de reajuste surgirá para nossa alma. Em nenhum ambiente encontrara antes aquele calor de fé pura necessário às grandes construções de ordem moral. que a palavra dela lhe impunha indefinível bem-estar. ocultando-se. não conseguia desculpar. é importante recorrer à prece. perguntou: – A senhora julga que devemos procurar a conciliação com qualquer espécie de inimigos? – Sim – respondeu a interpelada sem hesitar.Francisco Cândido Xavier . Todos necessitamos da alheia tolerância em determinados aspectos de nossa vida. sim.. e obtemperou: – Entendo que há sofrimentos morais quase intoleráveis. – E quando os adversários são de tal modo inconvenientes que a simples aproximação deles nos causa angústia? Antonina compreendeu que algo doloroso vinha à tona daquela consciência que lhe ouvira a dissertação. Por mais vasculhasse as próprias lembranças. com enternecimento. Se temos a infelicidade de possuir inimigos. Entretanto. rogando a Deus nos conceda forças para que o desequilíbrio desapareça. .

Deu instruções a Antonina. acompanhado de um bolo humilde. penetra a natureza humana e entra na posse da grande compaixão.Francisco Cândido Xavier . felizes. na sua tarefa.Entre a Terra e o Céu . Em seguida. preocupado. ainda mesmo quando não desejemos? – inquiriu. afirmando-lhe que seria sempre bem-vindo. Quem socorre os doentes. seguiu dentro da noite. As mãos que curam não podem ferir. o primogênito da casa fez a prece de encerramento.. todavia o hóspede consultou o relógio e reparou que o tempo lhe exigia a retirada. . e pediu. Silva empalidecera.. desculpa facilmente. amparada por nosso instrutor que a enlaçava. é um missionário do amor fraterno. respeitoso. rematou considerando: – Um homem. Quem procura conhecer a si mesmo. paternal. para voltar no dia imediato. A conversação prosseguia animada. com um sentimento novo a lhe brilhar nos olhos. A viúva serviu o café reconfortante. não somente para rever Lisbela. mas também para palestrar com os amigos. e Mário. como quem caminhava tangido por abençoada esperança.. porém. quanto à medicação da doentinha. – Não há ódio que resista aos dissolventes da compreensão e da boa vontade. A senhora e as crianças aquiesceram.. Antonina percebeu que o tema lhe fustigava o coração e. ao encontro de novo destino.pelo Espírito André Luiz 201 – E quando o ódio nos avassala.

acabrunhado – era aquela casa que lhe cabia atender? Se soubesse de antemão.. se experimentava ímpetos de incendiar-lhe a casa? Entretanto. tartamudeava alguns monossílabos.Entre a Terra e o Céu . não ocultou a perplexidade que o possuiu.pelo Espírito André Luiz 202 32 Recapitulação De volta ao hospital.. Não pretendia reaproximar-se dos desafetos dos quais se havia distanciado. de assalto.. rememorando o passado. tomavam-lhe a tela mental.. Revelava-se-lhe a decepção na extrema palidez do rosto.. calculava quanto ao melhor meio de aniquilar-lhe a existência. o enfermeiro não encontrou pessoalmente o chefe. Abominava o homem que lhe furtara a noiva e não podia lembrar-se de Zulmira sem observar-se tocado de insólita aversão.Francisco Cândido Xavier . Acolhido cortesmente pelo dono da casa. exigia socorro imediato.. algo interferia em suas reflexões. perfeitamente caracterizado nas indicações. Muita vez.. desapontado. Identificado pelo ferroviário que lhe exprimia gentileza e contentamento na saudação. atenciosamente.. Silva rodou num ônibus para a casa de Amaro. que se ausentara. Antonina e os filhinhos. O rapaz leu a ficha. mas recebeu das mãos de velha auxiliar a papeleta de instruções. Um menino. constrangido por serviço urgente. no culto do Evangelho. Então – refletia. De posse do endereço e munindo-se do material imprescindível ao tratamento. . atacado de crupe. espantadiço. Porque lhe competia revê-la? Porque salvar-lhe o filho. teria solicitado um substituto.

perturbado.” “Um enfermeiro diligente será. sem dúvida. sentiu que estranha aflição lhe oprimia o peito. Tinha a impressão de odiá-la. obedeceu maquinalmente.... a deserção – pensava de olhos fixos na maternidade dolorosa que ali se exteriorizava em mortificante padecimento.pelo Espírito André Luiz 203 Parecia-lhe ouvir. sobressaltado.” Anotando-lhe a hesitação e propondo-se colocá-lo à vontade. impassível. Zulmira pagar-lhe-ia. um inocente com tanta veemência? Mas. Já me entendi com o médico pelo telefone e sei que o crupe foi positivado. caro.. A volúpia da vingança enceguecia-o. Incapaz de controlar-se. acrescentou: – Zulmira está lá dentro com o nosso filhinho. Como podia detestar. Quando viu a mulher que amara apaixonadamente. Varou a câmara.Entre a Terra e o Céu . o irmão de todos... de novo. de longa data..” “A vida não termina neste mundo... O enfermeiro.” “Precisamos desculpar os outros para que os outros nos desculpem. assim. lívido.Francisco Cândido Xavier .. Mário! conforta-me reconhecer que receberemos o concurso de um amigo. repetindo-lhe ao coração: “As mãos que curam não podem ferir. trazendo o pequenino ao colo. Amaro solicitou em voz súplice: – Entre. indicando o quarto próximo... acredi- . a palavra meiga e sincera daquela mulher valorosa.. Ele próprio se surpreendia. Contemplou a criancinha que a dispnéia agitava e deu curso a incontida animosidade. E.. registrou súbita vertigem de revolta.

naquela hora.. não procurou analisar-se.. Os conflitos sentimentais desenrolavam-se-lhe na consciência em breve minuto. cerimonioso. A idéia de que Amaro e a esposa sofreriam irreparavelmente. acercou-se da ex-noiva torturada.Francisco Cândido Xavier .” “Ninguém se eleva aos mais altos níveis da vida com o endurecimento espiritual. ali. Contudo.. auxiliando aquele rebento enfermiço a desaparecer? A pergunta criminosa traspassou-lhe o pensamento como um estilete de treva. tentando cumprimentá-lo.” “Nunca sabemos realmente até que ponto somos ofendidos ou ofensores. no lar de Antonina.. Correspondeu à saudação. que o reconheceu de pronto. voltava-lhe à cabeça. Quase cambaleante.. o fruto de uma ligação que lhe era insuportável..” Os retalhos da palestra edificante afiguravam-se-lhe rédeas intangíveis a lhe sofrearem a expansão dos malignos desejos. acalentou-lhe o duro propósito de desforço.pelo Espírito André Luiz 204 tando justificar a terrível disposição de espírito com a circunstância de achar-se..Entre a Terra e o Céu ... As consoladoras afirmações da mãezinha de Lisbela regressavam-lhe aos ouvidos: “Vale sempre mais o acordo pacífico... A felicidade daquele templo doméstico dependia. E se cooperasse com a morte.. dispondo-se ao serviço.” “Quem ajuda é ajudado. de sua atuação.” “Não devemos nutrir qualquer espécie de aversão.. a lembrança do culto de oração.” “O perdão é vitória da luz.. com a morte do petiz. .

logo após. atenazavam-lhe a consciência. exaltando o perdão.Entre a Terra e o Céu . Naquela hora.. porém. mas naquele instante soberana indiferença enrijecia-lhe o espírito... teria exterminado o petiz sem piedade.. buscava refazer-se. tateou-lhe a sensibilidade. como se carregasse um gênio infernal na própria mente. recomendou fosse a criança restituída ao leito e. qualquer pedido daquela boca lhe impunha inquietação. decerto.. Será crível deva agora vê-lo morrer? Lágrimas copiosas seguiam-lhe os soluços que lhe emudeceram a garganta. Todavia. Noutro tempo.Francisco Cândido Xavier . os princípios evangélicos da fraternidade e da conciliação. o semblante de Antonina dominava-lhe a memória. Se viesse àquela casa na véspera – considerou consigo mesmo –. favoreceria a rápida extinção do enfermo. suportando os maiores sacrifícios. agoniada – compadeçase de nós! ajude-nos! Esperei meu filhinho.. assinalou as criminosas sugestões que lhe atravessavam o cérebro esfogueado.pelo Espírito André Luiz 205 – Mário! – implorou a pobre senhora. Recorreria à eutanásia para justificar-se intimamente. Ainda assim.. anos antes. Júlio encontrava-se à beira da sepultura. apenas o impeliria a precipitar-se nela sem mais delonga. como pensamentos intrusos. De pensamento martelado pelas idéias recolhidas no estudo evangélico da noite e contido pela suave lembrança de Antonina. . A ministração de medicamento impróprio.. não lhe cabia rir-se agora? De semblante rude... Que lhe importava a dor da mulher que o abandonara? Zulmira rira-se dele.

certo. vigilância. E talvez porque nossa irmã decepcionada ensaiasse nova perquirição. preservando-o contra a influência do visitante. que chamara Blandina e Mariana até nós. Ante o assombro com que observávamos a exteriorização daquele visco enegrecido. carinho. ao nosso orientador –. fez a aplicação do soro antidiftérico. é tempo de penetrares a verdade.pelo Espírito André Luiz 206 Esperou. nosso instrutor elucidou de boa vontade: – São fluidos deletérios do ódio com que Silva. paternal: – Odila. inconscientemente. Júlio reclama assistência. – Abnegado amigo – dirigiu-se. deveriam induzi-lo a comunicar-se com o médico responsável. mas Clarêncio. inquieta. de vê-lo transformar-se em veneno destruidor. embora assinalasse graves complicações que. contudo as nossas defesas estão funcionando. pousando a destra sobre o pequenino. contudo. . calmo: – Não indagues agora. Odila.Entre a Terra e o Céu . Reparamos que as mãos de Mário expeliam escura substância. porém. Fortalece-te. mantinha-o isolado de semelhantes forças. denunciando humildade e disciplina. acredita que Júlio possa recuperar-se? Clarêncio. silencioso. O menino deixará o corpo talvez em breves horas. ansiosamente.Francisco Cândido Xavier . procura envolver a infeliz criança.. o devotado condutor pediu-lhe. desejoso. O futuro dele exige a frustração do presente. acompanhava a medicação. meneou a cabeça e falou. a reação do menino ofegante e.. que estabelecera extensa faixa magnética em torno do doentinho. expressa na Lei que nos rege. A Vontade Divina. A interlocutora recompôs a expressão fisionômica. Saberás mais tarde. faz sempre o melhor.

enquanto o ferroviário se despejava porta a fora. observando-lhe as contrações faciais. Júlio. procurou os olhos de Amaro. Júlio estremeceu. recomendando-lhe.. somente a concessão divina. . Preocupado. confiemos o caso a Deus. empalidecendo.. ao despedir-se. qual se estivesse a hipnotizálo para a morte. e deu-lhe instruções. Os genitores fixavam igualmente a criança.. em coma. respirava dificilmente. Zulmira deixou escapar um grito rouco. Silva. sendo socorrida pela carinhosa Evelina. Amaro. por mais algumas horas. Receio um choque anafilático de conseqüências fatais. Uma hora escoou. agora aterrado. Infelizmente é o fim. Minutos longos de espera foram vividos no quarto estreito. O pediatra trocou idéias com Silva.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . Examinando-lhe o pulso. consternado. e solicitou em voz menos dura: – Convém a presença imediata do nosso facultativo. vagarosa e terrível. em busca do pediatra. o médico auscultou a criança e. em tremenda expectativa. Em dado instante. Se o senhor tem fé religiosa. que se fizera muito pálido.pelo Espírito André Luiz 207 O enfermeiro fitava o pequeno.. permanecesse com o pequenino. baixou a cabeça e nada respondeu. convidou o pai desolado a entendimento mais íntimo. Agora. logo após. anunciando: – Surgiu o colapso irremediável. Um sedativo administrado em Zulmira compeliu-a ao repouso. Descontrolara-se-lhe o coração. aflito.

já havia amargado muito. O rosto. cabisbaixo e vencido. Amaro encaminhou-se para a janela próxima. concorrido para abreviar-lhe a morte? Experimentava o desejo de abeirar-se do pai desditoso. recusando-lhe o concurso. como quem procurava consolo. que o Evangelho estribava-se nas melhores razões.. Estava ali. devotado à retidão. mas não teria. acolheram-no. triste. que o remorso como lâmina acerada lhe retalhava o coração. entendendo. fraternalmente. .. noutro tempo.. e ele notava.. Porque lutara contra semelhante inimigo? – pensava. enfim. acaso. e começou a chorar em silêncio.pelo Espírito André Luiz 208 Enquanto isso.. mas sentia vergonha de si mesmo. ensimesmado. Decerto. Se o haviam ferido. falava da cruz de experiências difíceis que lhe pesava nos ombros. entretanto.. no seio agasalhante da noite. permitia ver o céu povoado de cintilantes constelações. Mário Silva. tentando confortá-lo.. ser ali tão cruel? Rememorou as passagens da hora de estudo e prece. Reparando que a mulher e a filha descansavam. Ao lado da criancinha agonizante.Entre a Terra e o Céu . Quantos problemas inquietantes teria defrontado no mundo aquele homem dobrado pelo rigor da sorte? Como pudera ele. a noite avançava. Mais valia conciliar-se depressa com o adversário que enterrar um espinho de remorso no próprio peito. A madrugada. poderiam ter manifestado desconfiança ao revê-lo. – Amaro assemelhava-se a uma estátua de martírio silencioso. reconhecendo-se tocado no imo d'alma. agora lavada pelo vento leve. não se achavam agora sob o guante de terrível flagelação? Rendia graças a Deus por não haver injetado substâncias tóxicas no doentinho agora moribundo.Francisco Cândido Xavier . no lar modesto em que era um homem de bem. que lhe detinham o pranto. o enfermeiro observava-lhe a atitude sofredora e humilde.. sulcado de rugas precoces. Amaro e a esposa. indiscutivelmente. de braços abertos.

pouco a pouco. Convulsivo choro ..pelo Espírito André Luiz 209 Durante quase duas horas permaneceram ali. Auxilia-nos a entender-te os propósitos e que a tua vontade se cumpra hoje e sempre!. compadece-te de nossas fraquezas !. demorou o olhar sobre a imagem do Cristo Crucificado e orou em alta voz: – Divino Jesus. adormeceu. Tocado nas fibras mais recônditas do ser e percebendo que a morte ali estendera as suas grandes asas. fé. Tenho meu espírito frágil para lidar com a morte! Dá-nos força e compreensão. sentou-se no leito e acomodou o menino ao colo com especial ternura. à maneira de um órfão que busca tépido ninho de carícias. Senhor. abrigando-se nos braços de Odila.. aproximando-se do filhinho quase morto. porém. quando a tua vontade no-los reclama de volta!....... demonstrando a sua imperiosa necessidade de oração.. a precisa coragem para suportar. O pranto embargava-lhe a voz. a nossa cruz de saudade e dor!. mas o pai sofredor. retirou da parede velho crucifixo de madeira e colocou-o à cabeceira do agonizante. A aurora começava a refletir-se no firmamento em largas riscas rubras. Em seguida. os dois.Entre a Terra e o Céu . Silva experimentou violenta comoção a constringir-lhe a alma. envolvendo a criança. quando o ferroviário abandonou a meditação. valorosamente. Nossos filhos te pertencem.Francisco Cândido Xavier . Amparado espiritualmente por Odila. mas como nos dói restituilos. que.. esperança!. Júlio afastou-se do corpo de carne. prosseguiu: – Se é de teu desígnio que o nosso filhinho parta. que o enlaçava. Num gesto comovente de fé. recebe-o em teus braços de amor e luz! Concede-nos. calados e impassíveis.. Jatos de safirina claridade escapavam-lhe do peito.. Dá-nos resignação.

Desorientado e inseguro.. . enquanto uma voz inarticulada. achando-se.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 210 agitou-lhe o peito. gritava-lhe na consciência: – Assassino! Assassino!. atormentado.. no seio da sombra fria.. que parecia nascer nos recessos dele mesmo. soluçando.. o moço correu para a via pública.Francisco Cândido Xavier .

com elevados objetivos de serviço. indaguei do orientador.. coadjuvados por alguns vizinhos. O renascimento malogrado não teve para ele tão somente a significação expiatória. acentuando: – Isso quer dizer que Júlio doravante poderá exteriorizar-se num corpo sadio. . Clarêncio informou. porém. Notei que Júlio. A permanência no campo físico funcionou como recurso de eliminação da ferida que trazia nos delicados tecidos da alma. Enquanto as nossas irmãs permutavam idéias. – Isso quer dizer. cortou-me a palavra. asilado nos braços de Odila. em muitos casos. mas também o efeito de um remédio curativo. quando rumamos de volta ao Lar da Bênção. regressando à Terra. liberando-o de certos males nela adquiridos. conquistando merecimento para obter uma reencarnação devidamente planejada.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 211 33 Aprendizado Amaro e a família. acerca da serenidade que felicitava agora o pequenino. como nunca o vira até então. desenvolvimento natural. é assim como um filtro que retém as impurezas do corpo perispiritual. necessária ao Espírito que deserta do aprendizado.Francisco Cândido Xavier . A carne. Terá. com respeito ao futuro.. se mostrava aliviado e tranqüilo. prestimoso: – Júlio reajustou-se para a continuação regular da luta evolutiva que lhe compete. amortalhavam a forma hirta do menino. por alguns meses conosco. em elogiáveis condições de harmonia consigo mesmo. O Ministro.

anunciando o Sol que parecia nascer num mar de luz e ouro. Em muitas fases de nossa evolução somos imantados às teias da carne. tangidas pelo vento. – Esperamos que assim seja. Contemplando a imensidão. o mongolismo. Ante nosso olhar deslumbrado.pelo Espírito André Luiz 212 – Mas voltará. nuvens leves caminhavam apressadas. desperta para as mais sublimes esperanças. Sorrindo. assim como a argila é conduzida ao calor da cerâmica ou como o metal impuro é arrojado ao cadinho fervente. – Sim – confirmou o orientador –. precisa conviver com Amaro. que as moléstias complicadas e longas guardam função específica.. perto de nós. em tão pouco tempo? – perguntei. Muito longe. segundo o amor puro que o Cristo nos ensinou..Francisco Cândido Xavier . acrescentou: – O tempo de inferno restaurador corresponde ao tempo de culpa deliberada. A depuração exige esforço. Deve atender ao crescimento de qualidades nobres para a vida eterna que somente o retorno à escola da carne poderá facilitar. Além disso. sacrifício. que mais extensa se faz para ela a viagem de volta à normalidade. Os aleijões de nascença. Clarêncio considerou: – Quando nosso espírito apreende alguma nesga da glória universal. admirado. tingira-se o horizonte de cores variegadas. de maneira a confraternizar-se realmente com eles. que sempre nos reflete a individualidade intrínseca.Entre a Terra e o Céu . por vezes é tão grande a incursão da alma nas regiões de desequilíbrio. Compreendemos. assim. Sonha com o . esmaeciam as estrelas e. Zulmira e Silva. a paralisia. paciência. – Essas anotações – ponderei – lançam nova claridade em nosso estudo da vida. assim.

– Ah! se os homens percebessem !. se converte em tronco vetusto. feliz..Francisco Cândido Xavier . com os milênios. e Zulmira. . em verdade.. duros trabalhos de reajuste. rico de beleza e utilidade. otimista –. O homem terrestre crescerá para o grande entendimento e louvará.Entre a Terra e o Céu . – obtemperei. Depois de um minuto de silenciosa adoração à Natureza. estão procurando a própria recuperação. não podemos olvidar que milhares de Inteligências... reconhecemos que a nossa dignificação espiritual é serviço intransferível. em confronto com a excelsitude dos séculos de felicidade em mundos de sabedoria e trabalho enaltecedor!. No passado. entre o berço e o túmulo. e o espírito. então. suspira pelo reencontro com amores santificados que o esperam em vanguardas distantes. o instrutor continuou: – Volvendo ao caso de Júlio... lembrando a rebelião que tantas vezes nos prejudica no mundo... a conjugação daqueles que entraram em guerra uns com os outros. À medida que se nos aclara a consciência e se nos engrandece a noção de responsabilidade. todos os seres progridem e avançam para Deus. no refazimento da paz. O embrião do jequitibá. o concurso da dor. – Entenderão algum dia – objetou Clarêncio. Que representam. pensativo – como a vida reclama. transforma-se em gênio soberano. – Importante observar – disse Hilário. aceitando. Devemos a nós mesmos quanto nos sucede em matéria de bem ou de mal. com os anos. coroado de amor e sabedoria. Júlio arrojou-se ao despenhadeiro do suicídio sob a influência de Amaro.pelo Espírito André Luiz 213 acesso às esferas divinas. após indispor-se com Silva. para nós. alguns decênios de renunciação na Terra.

porém. como é lógico. reabilita-se com o auxílio de Zulmira e Amaro. onde se lhe mantinha preso o pensamento.Francisco Cândido Xavier . satisfazendo a simples capricho pessoal. que nos compete esgotar em trabalho justo. Ensinava Jesus que o homem terá o seu tesouro onde guarde o coração e. sofreu por muitos anos as tristes conseqüências do ato deliberado. a sós? – Nem sempre – informou o instrutor –. Amaro e Silva. antes de tornar ao mundo. constrange o Espírito que a provoca a dilatada purgação na paisagem espiritual. todos nos imantamos. arcamos com tremendos desequilíbrios na organização que nos é própria. É natural seja assim. Não podemos trair o tempo e a existência planificada subordinase a determinada quota de tempo. agora – completou Clarêncio –. – Sofreria. quando traduz indisciplina diante das leis infinitamente compassivas que nos governam. acrescentou: – Os pensamentos dele se alimentavam na atmosfera psíquica de Zulmira.Entre a Terra e o Céu . de modo a rearmonizar-se com o enfermeiro. – Mas Júlio. aos quais se liguem os nossos sentimentos. – Mas Júlio estava em contacto com eles nas esferas espirituais ou nas experiências do mundo físico? . lugares e objetos. em espírito. que lhe serviam de pontos básicos ao ódio. amargando nos círculos vizinhos da Terra as torturas do envenenamento a se lhe repetirem no campo mental. onde estaria? – Depois de haver eliminado o próprio corpo. Quando esses recursos não são suficientemente aproveitados.pelo Espírito André Luiz 214 – E. às pessoas. efetivamente. A morte prematura. via-se. Ante a nossa curiosidade indagadora. através do nosso amigo ferroviário – indaguei –. quando não se achava em martirizada solidão.

em qualquer setor de luta.pelo Espírito André Luiz 215 – Partilhava-lhes a vida simplesmente. ouvindo-lhe as acusações e as queixas. como acontece à maioria dos moços de ambos os sexos. Entretanto. as vibrações de Júlio eram efetivamente tão incômodas que a primeira esposa do nosso amigo não conseguiu acolhê-lo. Em sonhos. na existência do Espaço. é invariável. em primeiro lugar. a Lei permitia-lhe a união com o amigo transformado em desafeto. encontrou Odila que o aguardava. pesava com mais intensidade sobre ele. e aduziu: – Entre o credor e o devedor há sempre o fio espiritual do compromisso. companheiro esse do qual reclamava a renovação da oportunidade perdida. Clarêncio fitou-nos. Em razão da leviandade de Amaro. – Este ponto de nossa conversação – lembrei. recebendo Evelina.. de modo especial. foi seguido de perto por Júlio. uma juventude algo conturbada – ponderei com objetivo de estudo. – Amaro teria tido. dele exigindo o necessário concurso à formação do novo corpo. de imediato. ansioso de reconciliação. no entanto. conheceu-lhe a perseguição acérrima. nas regiões purgatoriais e. fora do corpo denso. respeitoso – faz-me recordar os conflitos interiores de muitos rapazes e de . na luta vulgar. Muito jovem ainda. que lhe afligia a mente. encontrava-se com o adversário que lhe pedia o retorno ao mundo e. e a vida. Por isso mesmo.Francisco Cândido Xavier .. na atual condição.Entre a Terra e o Céu . ao se reencarnar. por detestar Amaro mais profundamente. quando na personalidade de Armando. desejoso de saldar a conta que reconhecia dever. na vida espiritual. consoante o acordo por ambos levado a efeito. dessa forma. muito cedo acordou para o ideal da paternidade. de vez que a ligação do casal com ela se baseia em doces afinidades. – Sim. Somente depois da primogênita é que se ambientou para a incorporação do suicida em sofrimento. pensava no casamento com extremado desassossego. O ferroviário. caminhara para o suicídio.

atirada às experiências da vida com tantos enigmas a solver. qual se estivessem impulsionadas por molas invisíveis. por trás do anseio de união conjugal.Entre a Terra e o Céu . Refletindo nas lutas da alma. e sentenciou: – Os Espíritos tutelares encontram-se em todas as esferas. A inquietação afetiva pode expressar escuros labirintos da retaguarda. Agora compreendo. depois. reverente: – Perdoe-me. Os anjos da sublime vigilância. com problemas de enorme gravidade.. para despertarem. acudiu-me à lembrança antiga questão que habitualmente me vinha à cabeça. Diante da surpresa que assomou ao semblante do nosso orientador.. sem qualquer consideração para com os impositivos da prudência. acentuei. através de requisições dos amigos ou inimigos desencarnados. quando não acordam sob a neblina de imensas desilusões. Como se fossem atacados por subitânea loucura. Às vezes se arrojam ao casamento com absoluta inaptidão para as grandes responsabilidades.Francisco Cândido Xavier . vibra o passado. que só a realidade consegue tratar com êxito. – E os anjos de guarda? – inquiri.. admirado. grande número de paixões afetivas no mundo correspondem a autênticas obsessões ou psicoses. desatendem a todos os conselhos do lar ou dos amigos. Na base dos sonhos juvenis. aos quais devemos colaboração efetiva para a reconquista do veículo carnal. quase sempre moram dívidas angustiosas a que não se pode fugir.. mas ainda sou estudante incipiente da vida espiritual.. analisados em sua excelsitude divina. Em muitas ocasiões.. seguem-nos a longa estrada evolutiva. Desvelam-se . Os anjos de guarda estão em nossa esfera? Clarêncio encarou-me.pelo Espírito André Luiz 216 muitas moças na Terra. contudo é indispensável tecer algumas considerações sobre o assunto. – Sim – confirmou o Ministro –.

bom-senso. E. ao preço de continuadas e difíceis experiências. das mais severas lições da vida? Porque haveria de obrigar-se um arcanjo a descer da Luz Eterna para seguir.Entre a Terra e o Céu . invariavelmente ao nosso lado.Francisco Cândido Xavier . aduziu: – O Sol está com o verme. quase sempre renitente cultor de complicados enigmas e necessitado. talvez por esse motivo. por isso mesmo. comentavam carinhosamente o porvir de Júlio. ao dispor de nossos caprichos ou ao sabor de nossas dívidas. não concorda com a justiça. sem que o verme esteja com o Sol. a milhões e milhões de quilômetros. O apontamento de nosso orientador impunha-nos graves reflexões e. amparando-o na furna. Que governo terrestre destacaria um de seus ministros mais sábios e especializados na garantia do bem de todos para colar-se. indefinidamente. ao destino de um só homem. lado a lado.pelo Espírito André Luiz 217 por nós. todavia não podemos esquecer que nos movimentamos todos em círculos multidimensionais. Ligeira pausa trouxe paternal sorriso aos lábios do instrutor. o silêncio tentou apossar-se do . A idéia de um ente divinizado e perfeito. psiquicamente distanciadas de nossa conversação. embevecidas na contemplação do céu. um homem deliberadamente egoísta ou preguiçoso? Tudo exige lógica. quer dizer que os anjos de guarda não vivem conosco? – Não digo isso – asseverou o benfeitor. A cadeia de ascensão do espírito vai da intimidade do abismo à suprema glória celeste. com graça. – Com semelhante apontamento. passo a passo. As irmãs que seguiam conosco. que prosseguiu: – Será justo lembrar que estamos plasmando nossa individualidade imperecível no espaço e no tempo. dentro das Leis que nos regem.

cujos elos podemos simbolizar nas almas que se querem ou que se afinam umas com as outras. para exemplificar. é mensageiro. Além das mães. capazes dos mais altos sacrifícios por nós. desde as concepções religiosas mais antigas. Isso podemos verificar nos círculos da matéria mais densa. porém. reconhecendo que o assunto demandava elucidação mais ampla. Ora. possuímos. alguém que nos ama a impelir-nos para a elevação. temos a corrente de amor. há mensageiros de todas as condições e de todas as procedências e. segundo a acepção justa do termo. Dos seres mais embrutecidos aos mais sublimados. ajudando-a e defendendo-a. convivem conosco os Espíritos familiares de nossa vida e de nossa luta. a devoção das mães. O espírito maternal é uma espécie de anjo ou mensageiro. é uma expressão que define o Espírito celeste que vigia a criatura em nome de Deus ou pessoa que se devota infinitamente a outra.pelo Espírito André Luiz 218 grupo. cujo amor padece muitas deficiências. que o admirável altruísmo de . continuou: – “Anjo. a antigüidade sempre admitiu a existência de anjos bons e anjos maus. embora muita vez circunscrito ao cárcere de férreo egoísmo. Em qualquer região. não longe de nós. Anjo de guarda. não obstante condicionados a objetivos por vezes egoísticos. por isso. mas Clarêncio. na custódia dos filhos. cujos membros estão na Terra e nos Céus. Não podemos olvidar. “A família espiritual é uma constelação de Inteligências. salientemos. Aquele que já pode ver mais um pouco auxilia a visão daquele que ainda se encontra em luta por desvencilhar-se da própria cegueira. quando confrontado com os princípios essenciais da fraternidade e da justiça. temos afetos e simpatias dos mais envolventes. Todos nós. por mais baixo nos revelemos na escala da evolução.Entre a Terra e o Céu . dentro da infinita gradação do progresso.Francisco Cândido Xavier . Temos constantemente corações que nos devotam estima e se consagram ao nosso bem. De todas as afeições terrestres.

Amigos ligam-se a amigos. ainda. nas diversas escolas religiosas. importa reconhecer. ainda sentem inclinações e paixões particulares. “Todas as criaturas.pelo Espírito André Luiz 219 amanhã começa na afetividade estreita de hoje. Isso ocorre em todos os planos da Natureza e. com muita propriedade. ainda se encontram em marcha ascendente para mais altos níveis da vida. que os gênios familiares de nossa intimidade ainda se encontram no campo de afinidades específicas e precisam. Companheiros auxiliam companheiros. ou. todas as almas recebem assistência onde quer que se encontrem. por vezes. Os romanos compreendiam essa verdade e cultuavam os numes domésticos.” . avançam em linhas enobrecidas. todavia. nos Espíritos familiares que nos protegem. mas é imperioso anotar que os laços afetivos. Os gregos sabiam disso e recorriam aos seus gênios invisíveis. como a árvore parte do embrião. na Terra. O gênio guardião será sempre um Espírito benfazejo para o protegido. Mestres inspiram discípulos. Em nome do Amor. “Com toda a veneração que lhes devemos. grandes e respeitáveis heróis do bem. em planos elevados.Francisco Cândido Xavier . no rumo da universalização de sentimentos. individualmente.Entre a Terra e o Céu . Pais socorrem os filhos. “façamos uma oração aos anjos de guarda”. Naturalmente. escutamos a intuição popular asseverando: – “nossos anjos de guarda não combinam entre si”. de apelos à natureza superior para atenderem a esse ou àquele gênero de serviço. Irmãos mais velhos ajudam os mais novos. Por esse motivo. em torno de nós. entre os que ainda vivem na carne e os que já atravessaram o escuro passadiço da morte. mas ainda singularmente distanciados da angelitude eterna. fatalmente. instintivamente. contam com louváveis devotamentos de entidades afins que se lhes afeiçoam. reconhecendo-se. A orfandade real não existe.

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Chegávamos ao Lar da Bênção e os esclarecimentos do instrutor represavam-se em nossa alma, por inesquecível preleção, compelindo-nos a grande silêncio. Blandina, porém, veio até nós e perguntou ao orientador, sensibilizada: – Generoso amigo, podemos estar realmente convictos de que Júlio devia desencarnar, agora? – Perfeitamente. A Lei funcionou, exata. Não há lugar para qualquer dúvida. – E aqueles jatos de pensamento escuro que partiram do enfermeiro, como que envenenando o nosso doentinho? – Se não estivéssemos junto dele – disse o Ministro –, teriam efetivamente abreviado a morte da criança e, ainda assim, a Lei ter-se-ia cumprido; entretanto, aqueles pensamentos escuros de Mário voltaram para ele mesmo. Emitiu-os, com o evidente propósito de matar e, em razão disso, experimenta o remorso de um autêntico assassino. A graciosa residência de Blandina, para onde nos encaminhávamos, estava agora à nossa vista. Clarêncio afagou-a, bondoso, e concluiu: – Permaneçamos convencidos, minha filha, de que, em qualquer lugar e em qualquer tempo, receberemos da vida, de acordo com as nossas próprias obras.

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34 Em tarefa de socorro
Na noite do dia seguinte, fomos inesperadamente visitados por Odila, que nos pedia socorro. A preocupada amiga, agora ciente do drama escuro que se desenrolara no passado próximo para melhor entender as inquietudes do presente, compreendia as necessidades de Amaro e Júlio, aos quais amava por esposo e filho do coração, e rogava assistência para Zulmira, novamente acamada. Atendendo a apelos de Evelina, tornara ao ambiente doméstico para soerguer o bom ânimo daquela que a sucedera na direção do lar e voltara, aflita. Arrojara-se Zulmira a profundo abatimento. Recusava remédio e alimentação. Enfraquecia assustadoramente. Sabia agora que a permanência dela no mundo e na carne se revestia de excepcional importância para o seu grupo familiar e, atenta a isso, continuava intercedendo. A rápida informação da mensageira impressionava e comovia pelo tom de amorosa aflição em que era vazada. Não nos delongamos na resposta. Era mais de meia-noite, na cidade, quando atravessamos a porta acolhedora da casa do ferroviário que, desde muito, constituía para nós valioso ponto de ação. A dona da casa, de pensamento fixo nas derradeiras cenas da morte do pequenino, jazia no leito em prostração deplorável. Emagrecera de modo alarmante.

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Fundas olheiras roxas contrastavam com a acentuada palidez do rosto desfigurado. Recaíra na introversão em que a conhecêramos. Rememorava o afogamento do pequeno enteado e, longe de saber que o retivera nos braços como filho abençoado de sua ternura, sentia-se na condição de ré infortunada no banco da justiça. Decerto – pensava, agoniada –, sofria a punição divina. Aquela morte do pequeno, quando tudo fazia crer que ele cresceria para a ventura do lar, correspondendo-lhe à expectativa, era dolorosa pena imposta ao seu maternal coração. Ah! devia ter sido pronunciada perante os juizes da Sabedoria Celeste. No mundo, ninguém lhe conhecia o remorso de guardiã invigilante e cruel, mas fora sem dúvida identificada pelos tribunais de mil olhos do Direito Incorruptível. Não amparara convenientemente o filhinho de Odila, relegando-o a intencional abandono... Agora, perdia inexplicavelmente o rebento que lhe definia a esperança no grande futuro. Valeria erguer-se e disputar aquilo que para ela representava a dor de viver? Reconhecia-se esmagada. O complexo de culpa retomara-lhe o cérebro e enfermara-lhe o coração. Reparamos que diversos medicamentos se alinhavam à cabeceira, mas nosso instrutor examinou-os, auscultou a doente e informou: – O remédio de Zulmira é daqueles que a farmácia não possui. Virá dela mesma. Precisamos refazer-lhe a esperança e o gosto de viver. Descontrolou-se-lhe, de novo, a mente. Desinteressou-se da luta e a abstenção de alimentos acarreta-lhe a inanição progressiva. – E o reencontro com o filhinho? – perguntou Hilário – não seria o melhor processo de restaurar-lhe o bom ânimo?

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– É o que esperamos – concordou o Ministro –; todavia, Júlio, na fase que atravessa, requisita, pelo menos, uma semana de absoluto repouso e, até lá, é indispensável entreter-lhe as energias. Em seguida, Clarêncio entrou em ação, aplicando-lhe recursos magnéticos, com o nosso humilde concurso. A tensão nervosa de Zulmira, porém, atingira o apogeu e apenas conseguimos sossegá-la, de alguma sorte, sem conduzi-la ao sono reparador que seria de desejar. Odila, fortalecida, tomava-a aos seus cuidados, quando fomos defrontados por imprevisto fenômeno. Mário Silva, desligado do corpo denso, com a rapidez de um relâmpago, penetrou o quarto, de olhos esgazeados, à maneira de louco, contemplou a doente por alguns instantes e afastou-se. Volvemos nossa indagadora atenção para o Ministro, que esclareceu, sem detença: – É sabido que o criminoso habitualmente volta ao local do crime. O remorso é uma força que nos algema à retaguarda. E porque nos inclinássemos à procura do visitante inesperado, o instrutor aquietou-nos, recomendando: – Aguardemos. Mário voltará. Com efeito, Silva, depois de alguns minutos, regressou ao aposento. Com a mesma expressão de dementado, fixou a pobre enferma e, dessa vez, rojou-se de joelhos, exclamando: – Perdão! perdão!... sou um assassino! um assassino!... Levantamo-nos, instintivamente, com o propósito de socorrêlo, mas tocado de longe pela nossa influência magnética, qual se fora alcançado por um raio, o enfermeiro projetou-se para fora. – Infortunado amigo! – falou o Ministro, contristado. – Sofre muito. Ajudemo-lo a soerguer-se.

Francisco Cândido Xavier - Entre a Terra e o Céu - pelo Espírito André Luiz

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Num átimo, ganhamos o domicílio de Mário. encontrando-o em pesadelo aflitivo, contido no leito à custa de poderosos anestésicos. Com surpresa para nós, uma freira desencarnada rezava, junto dele. Interrompeu as preces, a fim de saudar-nos, acolhendo-nos com simpatia. – Estava certa – disse delicada e confiante – de que Nosso Senhor nos enviaria o socorro justo. Desde algumas horas, ocupo aqui o serviço de vigilância. A posição do nosso amigo – e indicou Mário estendido na cama – é francamente anormal e temo a intromissão de Espíritos diabólicos. Clarêncio assumiu o aspecto de simples visitante, vulgarizando-se ao olhar da religiosa, que se sentia evidentemente encorajada com a nossa presença. – É enfermeira? – perguntou nosso instrutor, cortês. – Não sou propriamente do serviço de saúde replicou a interpelada –, mas colaboro no hospital onde Silva trabalha. Fitou o moço semi-adormecido e aduziu, piedosa: – É um cooperador devotado às crianças doentes e a cuja assiduidade e carinho muito passamos a dever. E, numa linguagem genuinamente católica romana, rematou: – Muitas almas benditas têm descido do Céu para testemunhar-lhe agradecimento. Isso tem acontecido tantas vezes que, com alguns médicos e assistentes, fez credor das melhores atenções de nossa Irmandade. Usando o tato que lhe era característico, nosso orientador indagou: – Como soube a irmã que o nosso amigo se achava assim tão conturbado?

pelo Espírito André Luiz 225 – Não recebemos qualquer notificação direta. até que possamos merecer novas bênçãos de Deus. talvez provocando alguma elucidação direta. que a curiosidade me espicaçou o íntimo. dando-nos a idéia de que só ele devia atrair-nos o interesse. ele não compareceu hoje às tarefas habituais e isso foi suficiente para indicar-nos que algo de grave estava acontecendo. de vez que não supunha a existência de tantos Espíritos das trevas na vizinhança.Francisco Cândido Xavier . contudo. depois de ausentar-se do corpo terrestre – falou o Ministro. que nos explica ser a enfermagem nas casas públicas de tratamento uma forma de purgatório benigno. Sou uma pobre religiosa. vê-se de pronto que o seu coração está comungando a paz do Senhor. capaz de satisfazernos. Ela baixou humildemente os olhos e ponderou: – Não penso assim. Mário gemia inquieto. sincera –. A tentação de pesquisar o fascinante problema daquele caridoso esforço assistencial me constrangia a interferir no assunto. bondoso. Desde então. – Sim. mas um olhar de Clarêncio bastou para que Hilário e eu nos mantivéssemos em respeitoso silêncio. – É comovente pensar na sublimidade de sua missão. irmã. trabalhamos sob a direção de Madre Paula – informou a interlocutora. estou presa. Nossa superiora designou-me para verificar o que havia. O Ministro pareceu despreocupar-se da palestra de ordem pessoal e passou a afagar a fronte do enfermo. No leito. – Mas. . em trabalho para resgatar os próprios pecados.Entre a Terra e o Céu . A palavra da freira saturava-se de tanta bondade espontânea e evidenciava uma fé pura tão encantadoramente ingênua.

Em nossa alma. as crenças possuem uma região clara e luminosa e uma outra ainda obscura. dedicados à caridade evangélica. enquanto que. calma: – Irmão. Clarêncio agradeceu o carinho que transparecia daquelas palavras e expôs que a nossa passagem por ali era rápida. quanto ao cooperador em agitada prostração. em cujos quadros de serviço inúmeras entidades se preparam gradualmente para o conhecimento superior.Francisco Cândido Xavier . atenciosamente: – Nossa irmã pertence à organização espiritual de servidores católicos. o bastante para ministrar o socorro preciso. – Sob a direção de autoridades ainda ligadas à Igreja Católica? – perguntou Hilário. o orientador. Madre Paula costuma dizer-nos que os ouvidos de Deus vivem no coração das grandes almas. Estou certa de que escutastes minhas rogativas. ausentou-se à pressa.Entre a Terra e o Céu . Temos diversas instituições dessa natureza. Tenho-vos por emissários da Corte Celeste. no mundo sombrio de nossas experiências inferiores. admirado. explicou. embora de atenção ligada ao enfermeiro. prometendo voltar em breves minutos. Como acontece à personalidade humana. desse modo. Acredito que. a zona lúcida vive alimentada pelos nossos melhores sentimentos. habitam as inclinações e os impulsos que ainda nos encadeiam à animalidade. conscientes de nossa suprema destinação para o . – Como não? Todas as escolas religiosas dispõem de grandes valores na vida espiritual. Nas religiões. A interlocutora encareceu a necessidade de comunicar-se com o hospital. e.pelo Espírito André Luiz 226 A freira acercou-se respeitosamente de nosso instrutor e disse. o campo da sublimação está povoado pelos espíritos generosos e liberais. me compete a obrigação de confiar-vos nosso doente. A sós conosco.

– Mas essa freira sabe que deixou o mundo. Silva. como se via antes? – Sim – confirmou o instrutor imperturbável. sabe que desencarnou e prossegue. – Cada Inteligência – respondeu o orientador. – E estará informada de que a vida se estende a outras esferas. intrigado.Entre a Terra e o Céu . assim mesmo. todavia o encanto espiritual da religiosa singularmente arraigada aos hábitos terrestres me excitava de tal maneira a curiosidade que não pude conter a indagação espontânea. nas linhas escuras da ignorância. – E ninguém a incomoda aqui por viver assim distante do conhecimento real do caminho? . dava inequívocos sinais de enorme angústia. depois da morte? – perguntei.Francisco Cândido Xavier . dando mostras de negativa e acrescentou: – Isso não. ainda enxameiam as almas pesadas de ódio e egoísmo. Não ignorava que o meu dever de assisti-lo era trabalho inadiável. ao passo que. – Ela. a outros domínios e a outros mundos? Perceberá que o céu ou o inferno começam de nós mesmos? O orientador meneou a cabeça. no leito. Mentalmente.pelo Espírito André Luiz 227 bem. E. revela-se adstrita às concepções que elegeu na Terra. sorrindo. como sendo as mais convenientes à própria felicidade. enigmático – só recebe da verdade a porção que pode reter. Ela não oferece a impressão de quem se libertou do círculo das próprias idéias para caminhar ao encontro das surpresas de que o Universo transborda. porém. o Ministro acentuou: – Achamo-nos em evolução e cada um de nós respira no degrau em que se colocou. terá penetrado a verdade com que fomos surpreendidos.

não é um homem devotado às lides religiosas. tornando-se credor do carinho alheio. deve nossa irmã merecer-nos a maior veneração pelo bem que pratica e. Dispunha-me a prosseguir no comentário. aguardará um melhor entendimento de nossa amiga. O ensinamento era efetivamente comovedor. tem sido prestimoso e humano.. no desempenho das próprias obrigações. Sentiu- .. Com isso. Cada Espírito tem uma senda diversa a percorrer. não obstante a ruinosa impulsividade em que se caracteriza. fixando-me com particular atenção. demorou-se longo tempo a auscultá-lo. sob extrema perturbação. Com a mesma tolerância. conservando aflitivo complexo de culpa.Francisco Cândido Xavier .. é correto cumpridor dos deveres que abraçou na vida e sabe ser paciente e caridoso. conforme previa. Clarêncio reergueu-se e falou: – Pobre amigo! permanece impressionado com a morte de Júlio..Entre a Terra e o Céu . assim como cada mundo tem a rota que lhe é peculiar. é a da sementeira que produz. inevitável. De ontem para hoje. Mário Silva. Tem o pensamento ligado ao pequenino morto. à maneira de imagem fixada na chapa fotográfica. André. na posição de enfermeiro. não podemos esquecer que Deus é Nosso Pai. Entretanto. E. inclinando-se para ele. Passou o dia acamado. Em seguida. granjeou a simpatia de muitos e encontramo-lo fraternalmente guardado por uma freira reconhecida. dentro da qual Ele tem esperado por nossa mais elevada compreensão. observou: – A maior lição aqui. É irritável e agressivo. quanto ao modo de interpretar a vida.pelo Espírito André Luiz 228 O orientador assumiu feição mais carinhosamente paternal para comigo e ajuntou: – Antes de tudo. contudo Silva começou a gemer e o Ministro. Segundo vemos. chega a sentir-se criminoso. Observo que não foi à casa de Antonina.

de modo mais positivo. então na experiência de Lola Ibarruri. Os que se associam na leviandade. E. Depois de pausa ligeira. Ninguém confunde os princípios que regem a existência. e a imposição de serviço nos condiciona ao minuto que passa.Entre a Terra e o Céu . André! Quando passamos a explanar sobre a Lei. parecendo-me ouvir. através de passes. estarão reunidos na recuperação justa. Decidia-me a desfechar novas interrogações. somente nossa irmã possui para ele o remédio indispensável. Antonina é a única pessoa capaz de reerguê-lo com mais segurança. aliou-se a Antonina. a fim de melhorar-se. mas não resolve o problema... anunciou: . Requisita idéias renovadoras e.Francisco Cândido Xavier .pelo Espírito André Luiz 229 se vencido. Noutra época... à frente da Lei. seguro de si: – O auxílio dessa natureza ampara-lhe as forças. para se afogarem no prazer pecaminoso. Assinalando-me o pensamento. com esquecimento das melhores obrigações da vida. pousando afetuosamente o indicador sobre os meus lábios. Atualmente. de novo. Silva deve ser atingido na mente. no momento. Entretanto. nossa conversação adquire o sabor de eternidade. mas Clarêncio. a narração do velho Leonardo Pires. recomendou: – Cessa a curiosidade. indicando o enfermeiro excitado. ao que Clarêncio respondeu. acabam esposando enormes compromissos para o reajustamento necessário. Recordei instintivamente o drama que se desenrolara ao tempo da Guerra do Paraguai. Silva. envergonhado. na personalidade de Esteves. indagamos se não nos seria possível socorrê-lo. o Ministro ponderou: – Tudo na vida tem a sua razão de ser.

Francisco Cândido Xavier . não podemos fazer mais. voltaremos para conduzi-lo à residência de nossa irmã. habilitar-se-á para o indispensável reerguimento. assistida por outra irmã. Depois de breve diálogo.pelo Espírito André Luiz 230 – Na tarde de amanhã. A congregação encarregar-se-ia de todos os trabalhos de vigilância e enfermagem espiritual. que nos cumprimentou com atenciosa reserva. Por agora. enquanto Silva assim permanecesse. saudamo-las com respeitosa cordialidade e nos retiramos. com a promessa de voltar no dia seguinte. Decorridos alguns instantes.Entre a Terra e o Céu . a freira regressou à nossa presença. . Ambas haviam sido designadas para a tarefa de auxílio ao cooperador doente. Por intermédio de Antonina.

Sem detença. procuramos o domicílio do enfermeiro. encontrando-o superexcitado quanto na véspera. na defesa contra a morte. a torturada mãezinha deixava-se morrer. tocando-lhe a fronte com a destra. mais abatida.pelo Espírito André Luiz 231 35 Reerguimento moral Consoante o programa traçado. na oração.Entre a Terra e o Céu . mas abnegadamente assistido pelas freiras que persistiam. estagiando primeiramente no lar de Zulmira. cuja posição orgânica era mais aflitiva. abeirou-se do enfermo e. preocupados. influenciará nossa amiga. o Ministro apenas afirmou: – Aguardemos. . comunicando que o doente prosseguia em desespero. dedicadas. A recuperação de Silva. Numa equipe. Amaro e Evelina desvelavam-se.Francisco Cândido Xavier . As religiosas desencarnadas acolheram-nos com carinho. O médico cercara-a de drogas valiosas. no dia imediato. após entreter-se. Em seguida. quase sempre a melhora de um companheiro pode auxiliar a melhora de outro. A pobre senhora mostrava-se mais pálida. Diante da nossa apreensão manifesta. Não se delongou por muito tempo na intervenção magnética. Clarêncio. contudo. orou sem alarde. todavia. entretanto. regressamos. ao que me parece. a infortunada criatura demorava-se em profunda exaustão. assegurou-lhes otimista que Mário passaria conosco e. voltaria melhor.

apesar de sentirse arrastado para ela. mas refeita e feliz. desceu para a rua. Em seguida. Aquele amplexo afetuoso e longo figurou-se-nos um apelo às energias recônditas do rapaz que. Buscaremos. . dependurou-se-lhe ao pescoço. Crê-se responsável pela morte da criança e teme o contacto com a nobreza espiritual de nossa irmã. apreensiva. Nosso orientador desenvolveu alguns passes de auxílio e notificou: – Silva experimenta enorme necessidade de ouvir a palavra de Antonina. Qual se convivesse com Mário. contudo. e tomou o carro que o transportaria até à residência da simpática família que o acolhera carinhosamente na antevéspera. auxiliar-lhes a reaproximação. levantouse e vestiu-se. alegremente. a dona da casa fitou-o. Antonina e os filhos abriram-lhe os braços. Revelou-se mais calmo. o instrutor abraçou-o. A pequena Lisbela.Entre a Terra e o Céu .Francisco Cândido Xavier . não obstante entristecido. Silva aquietou-se como por encanto. encantada. Afirma-se intimamente envergonhado. A expressão facial que lhe denunciava a sublevação interior transformou-se-lhe no semblante em dolorosa serenidade. envolvendo-o em amorosa solicitude. Ignorando como explicar a si mesmo a súbita resolução que o movia. está hesitante. seguido de perto por nosso cuidado. de longo tempo. depois de um beijo comovente.pelo Espírito André Luiz 232 Qual se recebesse preciosa transfusão de forças fluídicas. favorecendo-lhe o alívio e a recepção de elementos renovadores. de imediato. porém. Achava-se ainda acamada. Acariciou a fronte do moço atormentado e acentuou: – O desabafo descarregar-lhe-á a atmosfera mental.

Percebendo-lhe a angústia oculta. por fim. recebera ensinamentos da mais elevada significação para ele e. em silêncio. enquanto o hóspede parecia esmolar-lhe. O enfermeiro pediu-lhe desculpas por tratar de assunto pessoal e. descreveu-lhe o amor que nutrira pela moça que o abandonara em pleno sonho. de frase a frase entrou na faixa dolorosa do próprio coração. junto do pequenino agonizante. ajuda e compreensão. junto dela.. em singelo recanto da sala. Mário reportou-se à juventude. relacionou as provas que lhe haviam castigado o brio de rapaz.. a interlocutora escutou-lhe a narrativa até ao fim. começando por justificar a sua ausência na véspera. não vacilava em descerrar-lhe o espírito desolado. expondo-lhe a convicção de haver contribuído para à morte da criancinha que detestara. por esse motivo.. desabafando. salientou o esforço que despendera para recuperar-se e. . onde atendia com os filhinhos ao culto da oração. desde a infância. a jovem viúva induziu-o à conversação particular. Referiuse ao ódio inexplicável que sentira pelo anjinho moribundo. comentou os problemas psíquicos de que se via rodeado. explanou sobre o reencontro com a exnoiva e com o ex-rival. à primeira vista. Lembrou que ali. encareceu os benefícios do culto evangélico em sua alma incendiada de revolta e amargura.. Guardava a impressão de haver descido a tormentoso inferno moral. Tentando confortá-lo.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 233 Preocupada. implorando compaixão e socorro. Antonina sentiu por ele a piedade amorosa com que as mães se dispõem ao soerguimento espiritual dos filhos sofredores e rogou-lhe serenidade.Francisco Cândido Xavier . extremamente conturbado.. anotou-lhe o abatimento.

Meu marido. a nobre amiga deixou de sublinhar o tratamento com a palavra “senhor” e. com mais ternura na voz.. no entanto. – soluçou o rapaz. quando caímos é preciso que nos levantemos.Francisco Cândido Xavier . relegou-nos a dolorosa penúria.. assim. Enxugue as lágrimas para que possamos ver o caminho. – É indispensável recordemos que. Compreendo o seu drama de homem rudemente provado na forja da vida. Lutado e sofrido. entretanto. era um doente que reclamava mais ampla intervenção. Quando mais intensa era a nossa agonia doméstica. Atraída irresistivelmente para ele. prosseguiu.. Você está moço e as suas realizações no mundo podem ser as mais elevadas. em seu movimento incessante. as forças que nos dirigem a existência impelem-nos aos testemunhos afetivos desta hora. – Quem poderia confirmá-lo? – exclamou Antonina. vi um filhinho morrer ao toque das aflitivas provações que nos flagelavam a casa. em pranto convulsivo.. depois de leve pausa: – Também eu tenho lutado muito. fazendo-se mais íntima. desacoroçoado. Decerto..Entre a Terra e o Céu . se posso pedir-lhe alguma coisa.. atento à . – Mas estou certo de que sou um assassino!. rogar-lhe-ia bom ânimo. não nos esmague. sinto que profundos laços de fraternidade nos reúnem.pelo Espírito André Luiz 234 Silva. Não se deixe abater. contudo. obtemperou. antes de encontrar a morte.. O sofrimento é uma espécie de fogo invisível. carinhosa: – Mário. obedecendo a simples acaso.. Fixando-o com mais doçura no olhar. Conhecemo-nos há dois dias. a fim de que o carro da vida. reconheço que seríamos tão somente ignorância e miséria sem o auxílio da dor. Não acredito estejamos aqui juntos. todavia. Casei-me por amor e vi-me espoliada em minhas melhores esperanças. plasmando-nos o caráter. Graças a Deus.

quase alucinado – é impossível.. .Entre a Terra e o Céu . aflito. Naturalmente. continuou sem ouvir-lhe a resposta: – Todos somos viajores no grande caminho da eternidade. Tenho medo de mim mesmo. a revivescer dos séculos mortos. atendeu você a um menino completamente entregue ao domínio do crupe. já estaria ofegante. Resultam de nossas construções espirituais nos milênios. nossa associação neste assunto sem qualquer base prévia. com estranheza. não duvido de minha participação em algum lance da luta que motivou os acontecimentos da atualidade. você acredita na reencarnação da alma? E porque o interlocutor a contemplasse. em razão disso. ofereço-me para cooperar com o seu esforço de algum modo. sob as asas da morte. Amor e ódio não se improvisam.. O corpo de carne é uma oficina em que nossa alma trabalha.. Amaro. O menino está morto... E. Nossa confiança imediata.. Zulmira e Júlio estão recapitulando alguma tragédia que ficou distanciada no espaço e no tempo. essa simpatia fraternal com que você vem a mim e o interesse com que lhe ouço a exposição me autorizam a admitir que o presente está refletindo o passado... mas viva nos corações. à sua chegada. firme: – Mário. E. alguma responsabilidade me compete nos serviços em cuja execução você se comprometeu.. mediante o carinho de sua confissão espontânea. – Mas..pelo Espírito André Luiz 235 profissão. tecendo os fios do próprio destino. Estamos chegando de longe... A nobre senhora fitou o hóspede com a admirável segurança que lhe era peculiar e falou. Provavelmente. você. como as plantas a renascerem do solo profundo. e a impressão? e o remorso? Sinto-me derrotado. O pequenino Júlio. – Colaborar? – atalhou o moço.Francisco Cândido Xavier .

quando em nossa mágoa pensamos apenas em nós.. comparece também. Isso se verifica. Mário. Para isso. modificando a inflexão de voz.Entre a Terra e o Céu . qual se fosse um herói repentinamente arrojado do altar da admiração pública à poeira da desconsideração. o infeliz. perdemos a hora que seria justo utilizar em nossa própria melhoria.. acrescentou: – Você já meditou no padecimento dos pais feridos pela separação? já refletiu nos sonhos maternos. penso que a renovação do dia é um símbolo da graça do Senhor sempre repetida em nosso caminho. que se fez algo mais firme. Antonina alegou com sensatez: – E quem nos diz que Júlio não possa voltar à Terra? Quem nos pronunciará incapazes de algo fazer a beneficio da criancinha que partiu? – Como? como? – indagou. Muitas vezes. Você se declara delinqüente.. atônito. porém.pelo Espírito André Luiz 236 Envolta nas irradiações de Clarêncio. nesta hora em que naturalmente precisam de carinho e solidariedade? É possível que a Divina Bondade esteja reservando ali algum serviço para o seu propósito de elevação. Enquanto lastimamos a nossa imperfeição. Porque não visitar você o lar de nossos desventurados amigos. E. Quem sabe? A volta de Júlio pode efetuar-se. despedaçados? Porque não estender fraternos braços aos progenitores na sombra do infortúnio? Creio na imortalidade da alma e na redenção dos nossos erros. – Escute. .Francisco Cândido Xavier .. em nossas dores. asfixiante e terrível. O egoísmo não se revela feroz tão somente em nossas alegrias. amargurado. vencido. para que lhe aproveitemos o tesouro de bênçãos no crescimento ou no reajuste. será necessário reerguer o ânimo materno. Admito que concentrar demasiada atenção em culpas imaginárias é mera vaidade a encarcerar-nos na angústia vazia.

mas encontrei em seu coração e em sua casa algo novo para meu pobre espírito.pelo Espírito André Luiz 237 Passando da energia de conselheira à ternura de irmã. convidou-o a visitarem juntos o casal sofredor. Mário! Em ocasiões dessas. sentindo-se verdadeiramente irmã dele. pesaroso: – Antonina. tenho sido um homem sem fé. Dê-me um plano. igualmente em lágrimas de emotividade e reconhecimento. Apegando-se ao socorro moral que lhe era lançado. não é a coragem que nos falha e sim a humildade.. Não tenho autoridades ou amigos para quem apelar. de maneira a ser mais útil. para esse fim. Desejava auxiliá-lo. na justa recuperação e. carinhosa: – Deixaria você a outrem o privilégio de semelhante serviço? – Não tenho coragem! – lamentou o rapaz. A jovem viúva.. é por demais envolvente e excessivo. Perdoe-me a intimidade... Confiaria Henrique e Lisbela aos cuidados de uma parenta e seguiriam para a residência de Amaro. creio em sua amizade e na elevada compreensão que flui de suas palavras. em companhia de Haroldo. chorando. aduziu. em cuja providência você crê com tanta sinceridade!. o enfermeiro suplicou. Em suma. na noite seguinte.. O moço aceitou a gentileza.Francisco Cândido Xavier . Mário.. Não nos conhecemos senão há dias. Exponha você mesma o que devo fazer. aprisionamos o coração na escura fortaleza da vaidade e não sabemos ceder.. Nosso orgulho neste mundo..Entre a Terra e o Céu . Não sabemos liberar a personalidade segregada no visco de nosso exagerado amor próprio. estimaria acompanhá-lo. acariciou-lhe as mãos quais se fossem velhos conhecidos e agora.. .. – Não. a ele. Ajude-me! Não vim aqui senão rogar auxílio e discernimento. exultante. apesar de inconseqüente e vão. Suporte-me e ampare-me por amor de Deus.

Entre a Terra e o Céu . encontraria uma solução.Francisco Cândido Xavier . sob a eclosão de nova e abençoada esperança.pelo Espírito André Luiz 238 Estava convencido de que. . Um sorriso de reconforto assomou-lhe aos lábios e foi assim que deixamos o enfermeiro atormentado. ao lado de Antonina.

De novo. O esgotamento é quase completo. quando Mário. O próprio Clarêncio.pelo Espírito André Luiz 239 36 Corações renovados Três dias haviam corrido sobre a libertação de Júlio. Amaro. .Entre a Terra e o Céu . enquanto Antonina irradiava simpatia e bondade. de improviso. surgia constrangido e desajeitado.. era largo e espontâneo. embora triste. anotou. Mário. ao lado de Zulmira.Francisco Cândido Xavier . reparávamos-lhe a profunda exaustão. como reconhecia de seu dever. dava mostras de grande alívio.. Deixamos nosso instrutor com a doente e demandamos a peça em que se efetuaria o encontro familiar. demonstrando o contentamento interior de quem via terminar velha e desagradável desavença. O sorriso. porém. O enfraquecimento progressivo impusera-lhe perigosa situação orgânica. apreensivo: – Nossa irmã reclama socorro mais seguro. A enferma recebia-lhe a assistência magnética. Antonina e Haroldo deram entrada em sala próxima. O enfermeiro apresentou a jovem senhora e o filhinho por amigos particulares e depois. cativando. a amizade dos anfitriões. evidentemente instruído pela companheira. depois de auscultá-la. iniciou a palestra. O ferroviário e a filha faziam as honras da casa. acolhedor. comentando a penosa impressão que lhe causara o falecimento do pequenino e pedia escusas por não haver reaparecido. nas primeiras horas da noite.

aliada à humildade sincera que Silva deixava transparecer. Mário passou a sentir balsamizante desafogo. impressionado com o acontecimento que lhe não cabia esperar. Amaro tornou à palavra. Teria seguido com segurança a indicação do especialista? Enganar-se-ia. enquanto Evelina se afastava para atender à madrasta doente. tocava o coração de Amaro. reportou-se à tortura moral que o assaltara. na dosagem da medicação? Na ligeira pausa que surgiu. Caíra de cama.pelo Espírito André Luiz 240 A ocorrência desnorteara-o. compreendi que o nosso filhinho estava condenado. mas também pela afetividade pura do amigo que.Entre a Terra e o Céu . há tanto tempo. – Percebi – disse o dono da casa – a dor que o envolveu no momento justo em que nosso anjinho era arrebatado pela morte.Francisco Cândido Xavier . influenciava o enfermeiro de modo decisivo. Aquela emotividade manifesta. A generosidade do ex-rival. acentuou: . E. detendo-se na breve descrição do complexo de culpa que o acometera. As vibrações de afabilidade e carinho que se desprendiam do apontamento afetuoso modificavam-lhe o íntimo. porventura. não só pelo devotamento do profissional que nos assistia. natural. acrescentando. bondoso: – Não havia motivo para tamanha preocupação. E. com dolorida resignação. por sua vez. que se descerrou mais amplamente. lembrando os derradeiros minutos da criança. Falava realmente comovido. se distanciara de nossos olhos. O soro foi o último recurso. assim que viu Júlio inerte. Desde a primeira visita médica. Sua aflição me comoveu muito. represavam-se-lhe os olhos de lágrimas que não chegavam a cair. porque.

não entendo a religião por elemento separatista. entretanto. ao Catolicismo. – Que prazer ouvi-la! – disse o ferroviário. na posição de católico. e informou: – Não. delicada. porque a Sabedoria do Senhor não deve ser menosprezada. observo que abençoada renovação se fez em mim. no crime ou na viciação que não conseguem interromper? Também perdi um dos rebentos que Deus me confiou. sem apoio espiritual. na condição de espírita. estranhamente afogado numa de nossas raras excursões até à praia. a cada instante de nossa experiência humana. aduziu: – A senhora é também católica? Antonina sorriu. – Sem dúvida – interferiu Antonina. mas procurei acomodar-me à saudade sem revolta. aceito a interpretação evangélica do Espiritismo. com mais atenção.Francisco Cândido Xavier . Há tempos. A senhora. otimista –. em matéria de fé. possuímos . não avançaríamos um passo no terreno da verdadeira harmonia íntima. A morte do corpo nem sempre é o pior que nos possa acontecer. isso não impede que estejamos procurando o mesmo Mestre. e eu.pelo Espírito André Luiz 241 – Não é a primeira vez que atravesso uma provação dessa ordem. na leitura de Santo Agostinho. senhor Amaro. sofri a perda do caçula de meu primeiro matrimônio. Jesus é o nosso porto – acentuou o anfitrião. Não passamos de criaturas necessitadas de socorro divino. apeguei-me à religião para não soçobrar e hoje compreendo que somente nos compete acatar os desígnios de Deus. Quantas vezes os pais são constrangidos a acompanhar a morte moral dos filhos. liberal –. E fitando a interlocutora. Confesso que só me faltou enlouquecer. com discreta satisfação – Após afeiçoar-me.Entre a Terra e o Céu . – Ah! sim. com mais empenho. Entretanto.

como o Sol. entusiástica –.Francisco Cândido Xavier . – É muita alegria sentir-lhe a nobreza d'alma – comentou Antonina. relacionou os desajustes psíquicos da companheira. de vez que tencionava submeter a doente a meticuloso exame. desde a morte dele. de imediato. não mais se alimentara. Como se quisesse dar notícias de seu círculo particular ao atento enfermeiro. encarecendo a delicadeza da situação. o médico da família entrou para a inspeção. O chefe da família. pretendendo ouvi-la a sós. Enfraquecia. recomendou-lhe permanecesse na sala com as visitas. Creio que a Providência Divina. antes da vinda do filhinho que a morte lhes arrebatara ao convívio. que adoecera com a enfermidade do filhinho. demonstrava-se alheia. brilha para todos. vimo-lo carinhosamente recebido por Clarêncio e Odila. Um táxi parou à porta e. Zulmira. preocupado. desejamos ser cristãos sinceros e a sua generosidade me permite entrever a beleza do Cristo nas vidas nobres. passou ao quarto da enferma e. Amaro não conseguiu responder. acompanhando o facultativo com o nosso olhar. que se nos mostraram à porta.pelo Espírito André Luiz 242 uma só linguagem na fé que nos identifica. Evelina veio ter conosco e. . porque o dono da casa se propusesse segui-lo.Entre a Terra e o Céu . discorria sobre a esposa acamada. no mais amplo desinteresse pela vida. na essência. Depois das saudações usuais. Não obstante todos os conselhos médicos e todos os apelos afetivos. de modo alarmante. A conversação passou a desdobrar-se em torno de Zulmira.

de novo. com a maternidade triunfante. tanto quanto ele necessitado de paz e compreensão. fantasiara-o. A confissão de Amaro constituía um testemunho de humildade pura. de coração para coração: – Não hesite. qual se fora um poço de orgulho e arrogância e. Mário. Aproveite a oportunidade. Amaro empalideceu. como que se renovara. Agora. O abatimento é enorme. dirigiu-se ao ferroviário. a permutar significativos olhares com Antonina. a providência é quase impossível quando a previdência não funciona. surpreendera-se em acalorados solilóquios. Com a desencarnação da criança. Revelara-se mais alegre. entre as quatro paredes. quando o clínico tornou à sala. Creio indispensável uma transfusão de sangue ainda esta noite. ali. O soro aplicado desde ontem não trouxe o resultado preciso. A moléstia asilara-se. Readquirira a saúde plena. mais viva. de quando em quando se situava entre a perplexidade e o desencanto. notificando: – Amaro. por muitas vezes. . para que não sejamos amanhã surpreendidos por obstáculos insuperáveis.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 243 Zulmira. É a sua hora de ajudar.Francisco Cândido Xavier . nova crise de contratempos invadira-lhe a casa. De semblante torturado. rixando com ele em pensamento. Antonina voltou-se em silêncio para Silva. reparava que o antagonista era um homem comum. Em muitas ocasiões. na própria imaginação. como a dizer-lhe. O entendimento prosseguia mais afetuoso. A posição de Zulmira piorou muitíssimo nas últimas horas.

velozes. Assumindo a direção da enfermagem. Zulmira. Amparou a doente com carinho. O chefe da casa. somos todos. admirada. comovido.. De olhos angustiados. Antonina. em voz quase suplicante: – Amaro. levantou-se maquinalmente e. disse. apresentou-se ao médico. acanhado. Afinal de contas. a quem o senhor recorreu no caso de Júlio. sentirei prazer nisso. Transcorrida uma hora. colocando Haroldo junto a uma pilha de revistas velhas. colaborou . Um telefonema seu ao pediatra amigo. permita-me! quero auxiliar a doente de algum modo!. reconheceu Mário. em busca do material necessário.pelo Espírito André Luiz 244 Mário. Sou doador de sangue no hospital em que trabalho. agora. todavia era enorme a prostração para que pudesse demonstrar interesse ou desprazer. enquanto Mário e o médico partiam. Silva! Nada mais conseguiu dizer. abraçou-o reconhecidamente. – Obrigado. dirigiu-se para o aposento da mulher. bons irmãos. erguendo os olhos para o ex-rival. a câmara da enferma se iluminava mais intensamente para o serviço a fazer.Entre a Terra e o Céu . Apresentada a Antonina. envolvendo-a em manifestações de carinho. com um breve sorriso de reconhecimento. a jovem viúva parecia uma figura providencial.Francisco Cândido Xavier . auxiliou o clínico nas tarefas do momento e. E.. cativando a gratidão dos novos amigos. antes que Amaro fizesse qualquer referência ao assunto. explicando: – Doutor. pôs-se à disposição de Evelina para qualquer atividade caseira. pode confirmar as minhas palavras. limitou-se a endereçar-lhe alguns monossílabos. se a minha cooperação for aceita.

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com Evelina para que todas as medidas alusivas à higiene se efetuassem harmoniosas. Realizada a transfusão, a enferma entrou na reação característica, contudo Silva, fosse porque estivesse de si mesmo enfraquecido ou porque a quantidade de sangue tivesse sido demasiada, passou a acusar profundo abatimento. Em seus olhos, porém, brilhava uma luz diferente. Afigurava-se-lhe haver perdido as inquietações que o martirizavam. Adquirira a noção de que se reabilitara, perante a própria consciência. Trouxera aos ex-adversários o próprio coração em forma de visita fraterna. E as suas próprias forças insufladas no campo orgânico da mulher que lhe fora a bem-amada, como que lhe favoreciam a ausência dos velhos pensamentos de mágoa que, por tanto tempo, lhe haviam flagelado a vida íntima. Registrando-lhe a queda de energias, o médico ministrou-lhe, de imediato, os recursos aconselháveis, permanecendo Mário, desse modo, comodamente instalado em larga poltrona, junto dos amigos. Despediu-se o facultativo, mais animado. Antonina, sem afetação, ajudou no preparo do café, que foi saboreado por todos, enquanto a conversação era reatada com alegria. Foi então que a viúva se ofereceu para voltar. Era industriária e, na posição de mãe, responsabilizava-se por três crianças, entretanto, poderia dispor de dois dias. Amaro salientou a dificuldade para encontrar uma enfermeira ou governanta para horas difíceis e aceitou a gentileza. Antonina, contente, prometeu regressar, trazendo Lisbela, na manhã seguinte. Estava convencida de que a menina conseguiria

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entreter Zulmira, com as suas infantilidades, mitigando-lhe o coração saudoso de mãe. Evelina abraçou-a, encantada. Simpatizara-se com Antonina, como se fossem duas irmãs. Algo reanimado e positivamente feliz, Mário dispôs-se à retirada e um táxi foi trazido. Num ambiente de construtiva cordialidade, desenvolveu-se a reconfortante despedida. E Silva, fitando a companheira de excursão com reconhecimento e carinho, sentiu-se reconciliado consigo mesmo, irradiando a alegria silenciosa de quem retorna à felicidade.

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37 Reajuste
Quando os amigos se afastaram, Clarêncio cercou Zulmira de cuidados especiais, aplicando-lhe passes de reconforto. A injeção de sangue renovador lhe fizera grande bem. Pouco a pouco, acomodaram-se-lhe os centros de força. Desde a desencarnação do filhinho, a pobre criatura não desfrutava tão acentuado repouso, quanto naquela hora. Nosso instrutor recomendou a Odila preparasse o pequeno Júlio para o reencontro com a mãezinha. Zulmira vê-lo-ia, buscando energias novas. E enquanto nossa irmã se distanciava para o desempenho da missão que lhe fora cometida, o orientador falou, otimista: – Um sonho reconfortante é uma bênção de saúde e alegria para os nossos irmãos encarnados. Íamos responder, mas a doente, à semelhança das pessoas na hipnose profunda, levantou-se em Espírito, contemplando-nos, surpresa. O olhar dela, admiravelmente lúcido, falava-nos de sua ansiedade maternal. Clarêncio afagou-a, como se o fizesse a uma filha, rogandolhe calma e fé. Desdobrava-se-lhe a preleção carinhosa, quando partimos. Amparada em nossos braços, Zulmira volitou sem perceber. Observei que o espetáculo magnificente da Natureza não lhe feria a atenção. Introvertida, apenas a imagem da criancinha morta lhe ocupava a tela mental.

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O Lar da Bênção mostrava-se maravilhoso. Flores de rara beleza coloriam a estrada e embalsamavam-na de suave perfume. Aqui e ali, doces melodias vibravam no ar. A glória fulgurante do céu induzia-nos à oração de reverência e louvor ao Pai Celestial, mas a pobre mulher que seguia conosco parecia insensível à excelsitude do ambiente, à face da tortura interior de que se via possuída, obrigando-me a reconhecer, mais uma vez, que o paraíso da alma, em verdade, reside onde se lhe situa o amor. Reparei que para a devoção afetuosa de Zulmira não importava o rumo. Qualquer indagação, perante aquela ternura atormentada, resultaria inútil. Creio que, se, ao invés da refulgente luz do Lar da Bênção, apenas víssemos trevas, para aquele espírito agoniado de mãe o quadro seria de verdadeiro paraíso, desde que pudesse reter nos braços o filhinho inesquecível. Quem poderá definir com exatidão os indevassáveis segredos que Deus colocou nos corações que amam? Quando penetramos o berçário, onde o menino repousava, sob a abnegada vigilância de Odila e Blandina, a sofredora mãezinha tentou arrojar-se sobre a criança sonolenta, sendo delicadamente advertida por nosso orientador, que a sustentou, paternal, asseverando: – Zulmira, não perturbes o pequenino se o amas. – É meu filho! – bradou, semidesvairada. – Não ignoramos que Júlio se asilou na Terra em teu regaço e, por isso, fomos teus companheiros na presente viagem para que amenizes a tua dor. Entretanto, não admitas que o egoísmo te ensombre a alma!... Certamente, o carinho materno é um tesouro inapreciável, contudo não devemos olvidar que todos somos

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filhos de Deus, nosso Eterno Pai! Acalma-te! Pede ao Senhor os recursos necessários para que o teu devotamento seja um auxílio positivo ao pequenino necessitado! Tocada por essas palavras, Zulmira desfez-se em pranto. Enlaçada afetuosamente por Odila, que tentava soerguer-lhe o ânimo, reconheceu a primeira esposa de Amaro e recordou a luta que haviam atravessado, quando do afogamento do pequeno irmão de Evelina. O remorso voltou a refletir-se-lhe na mente e, atribulada, exclamou: – Odila! perdoa-me, perdoa-me!... Agora vejo o inferno que te impus, despreocupando-me de teu filhinho... Hoje, pago com lágrimas minha deplorável displicência! Ajuda-me, querida irmã!... Sê para o meu Júlio a guardiã que não fui para o teu! A interpelada acariciou-a, compadecidamente, e ajuntou: – Tem paciência! A aflição é um incêndio que nos consome... Paguemos à vida o tributo da conformação na dor, para que sejamos efetivamente dignas do socorro celestial... E, beijando-a nos olhos, aduziu: – Enxuga as lágrimas que te fustigam inutilmente. A serenidade é o nosso caminho de reestruturação espiritual. Não te reportes ao passado... Vivamos o presente, fazendo o melhor ao nosso alcance. – Agora, porém, que sofro as agruras de minha prova – acentuou Zulmira, em tom amargo –, penso em teu anjinho... Odila, conchegando-a de encontro ao peito, conduziu-a para mais perto do menino adormecido e, indicando-o, aclarou, satisfeita: – Ouve! Meu filhinho é também o teu. Júlio de hoje é o nosso Júlio de ontem. Pesados compromissos com o pretérito obriga-

. . ao passo que o olhar se lhe fazia mais brilhante.Francisco Cândido Xavier . Realmente. mas o cérebro doía-lhe. a fim de valorizar. estimaria algo perguntar. com segurança. surpreendida –. Sem resistência.. somos duas mães. Ante a companheira perplexa. Porquê? porquê? O pensamento dolorido intentava penetrar os segredos do tempo.. mas o choque da revelação como que lhe imobilizara a garganta. dilacerado. não lhe seria possível naquelas circunstâncias qualquer incursão no domínio das reminiscências.. Em nosso aprendizado de agora. para ajustar-se ao repouso preciso. mas percebia... Afigurava-se-nos uma estátua viva de intraduzível expectação. Agora sim – pensava. partilhando o mesmo amor.pelo Espírito André Luiz 250 ram-no a aceitar as dificuldades do momento. Secaram-se-lhe as lágrimas. No imo d'alma. começava a compreender. convincente: – O corpo de carne é uma veste que o nosso Júlio usou de dois modos diferentes. decerto algo lhe alterara o campo emotivo. Notávamos que Zulmira.. ao mundo tornara em nova tentativa que redundara em frustração. enfim. E sorrindo: – Como vemos. arrastando-a ao passado remoto. Júlio prematuramente expulso da experiência material pelo afogamento. a bênção da escola terrestre. teve a existência frustrada por duas vezes.Entre a Terra e o Céu . a Bondade Eterna que reúne as almas nos mesmos laços de trabalho e esperança do caminho redentor. acrescentou.. deixou-se conduzir pelos braços de Odila até um leito próximo. por nosso intermédio.. admirada..

e reconheceu que a Providência Divina.Entre a Terra e o Céu . despertou no corpo físico. o corpo denso seria mais amplamente beneficiado pelo sono reparador. afagando-lhe os cabelos. mas a benfeitora que. as melhoras gerais. Odila desembaraçou-se da companheira. via em Odila não mais a rival. De espírito assim transformado. e seguiu-nos.pelo Espírito André Luiz 251 Lembrou a animosidade fria que experimentara por Júlio. . quando a enferma. O relógio marcava nove da manhã.. diante das atenções que Amaro lhe dispensava.Francisco Cândido Xavier . deixando-a a sós no descanso justo.. Despedindo-nos. transcorrido o tempo que o nosso instrutor julgou indispensável. logo após seus esponsais. ligando-o ao seu coração de mãe. o instrutor aconselhou fosse Zulmira mantida no berçário mais algumas horas. para regressar em breve. lhe seguira de perto a transfiguração. Agora sentia por ele inexpressável carinho e iluminado amor. A primeira esposa de Amaro. sem dúvida. assim. e o imanifesto ciúme que nutria. amigo –. qualquer recordação agora lhe agravaria o conflito mental. de maneira a garantir-lhe. tanto quanto possível. Voltaríamos para reconduzi-la à residência terrestre. lhe sublimara os sentimentos. tornamos ao Lar da Bênção para restituir nossa amiga ao ninho distante. correspondia-lhe as manifestações afetivas. Desse modo. sob a nossa vigilância... Afastamo-nos. em pranto silencioso. imensamente comovida. – Convém-lhe o repouso – afirmou Clarêncio. Com efeito. Enlaçou-se a ela. qual se lhe fora filha a ocultar-se nos braços maternais.

quase feliz. a transfusão de sangue foi coroada de pleno êxito! – exclamou Evelina. Onde e como? não saberia dizer. Evelina. Aquela asserção confiante foi registrada pela enferma com sincera alegria.pelo Espírito André Luiz 252 Zulmira. sem qualquer cerimônia. não conseguiu articular a lembrança da excursão que se lhe afigurou. Mas o contentamento que a felicitava era bem o testemunho de que recolhera naquela noite benefícios reais. da noite anterior e agradeceu o cuidado de que se via objeto. readquirindo novo ânimo para a luta. atendendo-lhe o chamado. Guardava a impressão nítida de que revira o filhinho em alguma parte e semelhante certeza lhe restaurara a calma e a confiança. rendendo graças a Deus. confiou a Antonina as impressões renovadoras de que se via dominada. A jovem. A doente saudou-as. contente. delicioso sonho. de modo impreciso. então. – Felizmente. A viúva chegara cedo com a filhinha. .. Aceitou o café substancioso que lhe foi trazido e tão reanimada se sentia que. encantada. Sentia-se mais leve. estou certa de que dona Zulmira terá reencontrado o filhinho no plano espiritual.. Recordava-se. concordando –. com o melhor desejo de cooperar. retomando o equipamento cerebral mais denso. a providência terá sido das mais proveitosas. Permanecia convicta de que vira Júlio e abraçara-o. identificou-lhe as melhoras. – Sim – disse Antonina. trouxe Antonina e Lisbela ao quarto. satisfeita. no entanto.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu .

Tenho igualmente um filho na Vida Maior que vem sendo para mim precioso sustentáculo. reparamos que Zulmira. de alma restaurada. ao deixarmos o domicílio do ferroviário. A enferma demonstrou invulgar interesse na conversação. – Como não? – aduziu Antonina. confortada – A morte não existe como a entendemos. A colaboração de Antonina fora realmente providencial.pelo Espírito André Luiz 253 – A senhora julga então possível? – indagou a dona da casa. Evelina e Lisbela retiraram-se para o interior da casa. e as duas amigas passaram a mais íntimo entendimento. de olhos faiscantes. porque.Francisco Cândido Xavier . nossos amados que partiram estendem-nos os braços. ao toque de novas esperanças. atentas à limpeza doméstica. mostrava no rosto a tranqüilidade segura de abençoada convalescença. Há momentos na vida em que somos castigados pela fome de fé e Antonina era uma fonte irradiante de otimismo e firmeza moral. .Entre a Terra e o Céu . Do Além.

transformado pela orientação da jovem viúva. retirando- . A camaradagem social modificara-lhe a feição. Várias vezes Amaro e a esposa acompanharam com amoroso respeito o culto evangélico na residência de Antonina. no grupo de almas sob nossa observação. com intraduzível contentamento para Evelina. habituando-se-lhe ao convívio. parecia voltar à juventude nascente. que se convertera em pupila de Antonina.. Perdera a taciturnidade em que se mergulha a maioria dos solteirões..pelo Espírito André Luiz 254 38 Casamento feliz A tempestade de sentimentos. ali. Lisbela apegara-se a ele com extremado carinho e os irmãos Haroldo e Henrique dele fizeram o confidente de todas as realizações infantis. amainou. consolidando moradia nos corações. aguardava sem sofrimento a ocasião oportuna de regresso ao campo físico e Zulmira. tão grande a afinidade que lhes caracterizava as predileções e tendências. Sólida amizade fizera-se entre as personagens de nossa história. na vida espiritual. afeiçoara-se a ela profundamente. renovara-se para a alegria de viver.Francisco Cândido Xavier . pouco a pouco.Entre a Terra e o Céu . Mário Silva. sob a influência benéfica de Antonina. agora unido a todos. Semanalmente se visitavam. O templo doméstico de Amaro transfigurara-se. Passeios domingueiros começavam a surgir e Silva. Júlio. O otimismo infiltrara-se.

achávamo-nos de passagem no domicílio de Amaro. bem disposto. quando Silva veio ao encontro do amigo para aguardar a chegada de Antonina com as crianças. uma força que transforma o destino. Acariciará por filho do coração quem lhe foi outrora companheiro de aventuras. imperturbável –. foi a causa do envenenamento que lhe exterminou a paz íntima.Francisco Cândido Xavier . quando em nossas atividades de socorro ao irmão Leonardo Pires. associando o enfermeiro em todos os seus empreendimentos em semelhante direção.. manifestando um olhar de satisfação. viúva e digna. Todo o grupo familiar combinara um almoço. Na condição de Lola Ibarruri. comentou: – Graças a Jesus.. na atualidade.. espera ressarcir. vemos nosso enfermeiro efetivamente modificado. para que ele obtenha novo corpo na Terra. concordando. edificados e felizes. Mais alegre. ao ar livre. Certa manhã de claro domingo. – O amor é assim – acentuou nosso instrutor. O Ministro.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 255 se. Talvez porque Hilário ensaiasse malicioso sorriso. Hilário obtemperou: . ainda em serviço da saúde de Zulmira. falta essa que nossa irmã. Aquela moça. em parque próximo. dentro de suas limitadas possibilidades. cada vez crescia mais na admiração deles e. maternalmente. acessível. Admirado. O apontamento nos comovia. o ferroviário começou a fazer pela educação inicial dos meninos quanto lhe era possível. o orientador acrescentou: – Pude consultar o programa traçado para a reencarnação de Antonina. encaminhando-lhe a educação de ordem superior. – Dir-se-ia que uma revolução explodiu dentro dele – asseverei. e sei que ela se comprometeu a colaborar..

Além disso. Não te parece que Antonina seja a mulher digna do teu ideal de homem de bem? O interpelado corou. Moça ainda. algo refeito da estupefação que lhe assomara do íntimo. Para muitas colegas. como se te pertencessem. interrompeu-lhe a frase. pode fazer a felicidade de um lar que seria um santuário para as tuas experiências. Mário. cuja aproximação tem sido uma bênção em nossa casa. Não me assiste o direito de qualquer interferência em tua vida. Comove-me anotar-lhe os sacrifícios de mãe jovem. esperamos se reeduquem. replicou. Desde muito tempo. e porque nada respondesse. observo com respeito crescente a distinção dessa mulher. sentindo-te por meu irmão.Entre a Terra e o Céu . de leve. contudo. preservaria a própria saúde.pelo Espírito André Luiz 256 – Silva. É querida de todos.. desse modo. Induzidos agora às teias da consangüinidade. Da Lei ninguém foge. dizendo-lhe.. completando: – Silva e Leonardo enlaçaram-se em complicadas dívidas um para com o outro.. Seus chefes veneram-lhe a conduta irrepreensível. encabulando-se. tem sido a enfermeira e a irmã abnegada de sempre. Como se a mente do ferroviário nos sorvesse a conversação.. Já me inteirei da posição dela na fábrica em que trabalha. vimos Amaro bater. humilde: . com a tua aliança. reparo-lhe os filhinhos unidos ao teu coração. venho refletindo acerca do futuro. Isso é admirável numa viúva de apenas trinta e dois anos. nos ombros do companheiro. ligando-se a nós pelos fios invisíveis do pensamento. quando. cultivam o espinheiro da aversão recíproca.. Não te dói vê-la enfrentar sozinha a batalha em que se consome? O enfermeiro. entretanto.Francisco Cândido Xavier . conselheiral: – Escuta.. o amigo prosseguiu: – Desde o teu regresso à nossa amizade. Clarêncio. indiscutivelmente tão preciosa a tanta gente.

Sinto-me francamente incapaz de uma paixão... pensava. é responsável por todas as casas de boneca que oferecem por aí espetáculos dos mais tristes. deixando apenas cinza. – Por isso mesmo – revidou o amigo. considero que o coração no meu peito assemelha-se a um pássaro entorpecido. entre enlevado e surpreso.Francisco Cândido Xavier . a hora presente exige método. por vezes é simples fogo de palha.. Sem os alicerces da comunhão fraterna e do respeito mútuo.. proteção. acima de tudo. bem humorado – a felicidade é quase impraticável nas afeições impulsivas que estouram do sentimento à maneira de champanha ilusória. meu caro. – No entanto.. não sou mais uma criança. Devotara-se a ela e aos três pequeninos com imenso carinho e inexcedível confiança. é união de alma com alma.. reconforto. A amizade pura é a verdadeira garantia da ventura conjugal. o casamento cedo se transforma em pesada algema de forçados do cárcere social. desde que se aproximara de Antonina. capaz de entender-lhe o coração. Tenho examinado essa possibilidade. no entanto. nela sentira a mulher ideal. . Um pouso doméstico é investimento dos mais preciosos para o futuro.. reconheço que o matrimônio. encorajado –. À medida que se me alonga a experiência no tempo. Aquele lar generoso e singelo incorporara-se-lhe à existência.. Falo com o discernimento do homem que se consorciou por duas vezes. E. – Que tolice! – ajuntou o interlocutor. Mário ouvia as reflexões do companheiro. acentuou: – O amor dos namorados. pela primeira vez. A paixão. sorrindo. Sim.. com noventa graus à sombra.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 257 – Compreendo..

A viúva e os filhinhos chegaram.pelo Espírito André Luiz 258 Se fosse compelido à separação.. Silva ia memorando. A figura de Antonina penetrava-lhe agora os recessos do coração. encarou o amigo frente a frente e concordou: – Amaro. Muitas indagações assaltavam-nos o pensamento. Absorto. prosseguir. tens razão. parecia contemplar as roseiras lá fora. memorando. Enquanto Amaro se confiava às considerações do minuto rápido. Em seguida. felizes. contudo. por qualquer circunstância. Deixamos nossos amigos na doce algazarra da intimidade doméstica e voltamos ao nosso templo de serviço. de modo diferente. indubitavelmente se sentiria lesado em suas mais caras alegrias. assim.. apareciam. Longos momentos passou. em sua imaginação. o caráter cristalino de que dava provas em todos os lances da vida comum. Não puderam. O valor e a humildade com que a nobre criatura afrontava os mais difíceis problemas tocavam-lhe as fibras recônditas do ser. todavia. Não posso desobedecer ao comando da vida.Francisco Cândido Xavier .. revivendo e meditando o passado. alegremente. sobretudo. indiferente ao mundo exterior. realizado com sincera alegria.. como se despertasse de longa fuga mental. a solidariedade humana com que sabia pautar as relações com o próximo e.. provocando a presença de Zulmira e Evelina que vieram à recepção. naquele instante. o desprendimento natural das futilidades que costumam cegar o sentimento feminino.. Clarêncio limitou-se a dizer: . O sacrifício permanente pelos filhos.Entre a Terra e o Céu .

Da nossa sementeira havemos de colher. reuniram-se quase todos os convidados. contentes. diversas vezes.Francisco Cândido Xavier . A casa de Zulmira.pelo Espírito André Luiz 259 – O tempo é como a onda. regurgitava de gente amiga. À noite. Visitamos o futuro casal. agradecendo ao Senhor a ventura daquele dia inolvidável. Muitos companheiros de nosso plano acorreram à residência do ferroviário. na mais acentuada simplicidade. júbilo e paz. no dia marcado. . se realizou com o ato civil.Entre a Terra e o Céu . ofereceram o lar para a cerimônia que. um velho tio da noiva levantou-se e dispôs-se à oração. Quem pudesse ver o pequeno lar. inspirando entusiasmo e esperança. amigos espirituais de Antonina trouxeram-nos as boas novas do contrato promissor. novamente. na casinha singela de Antonina. afirmaria estar contemplando um risonho pombal de alegria e de luz. reconhecidos aos gestos de amizade e carinho que recebiam constantemente dos noivos. Transcorridos alguns dias. antes do enlace. enfeitada de rosas. Mário e a jovem viúva esperavam efetuar o matrimônio em breves dias. Na salinha estreita e lotada. em companhia dos laços afetivos. Os recém-casados queriam orar. O telheiro humilde jazia repleto de entidades afetuosas e iluminadas. que todos nós aguardávamos. Flui e reflui. A felicidade transparecia de todos os semblantes. inclusive as freiras desencarnadas que consagravam ao enfermeiro particular estima. Amaro e Zulmira. em toda a sua expressão de espiritualidade superior.

com o nosso próprio trabalho. aceitava a proteção carinhosa de um rapaz que a fitava. Retiramo-nos.Entre a Terra e o Céu . atualmente futuroso gráfico na capital paulista. e seus engelhados lábios. O Ministro sorriu e explicou-nos: – Este é Lucas. seguimos à frente. no abençoado calor da inspiração com que o nosso orientador lhe envolvia a alma. vestidos de branco. o instrutor acrescentou: – Tudo é amor no caminho da vida. satisfeitos. Emocionados. em breve. Terminada a prece. para a execução das tarefas que a esperam no mundo. vimos junto deles que Evelina. Lágrimas serenas velavam-nos o olhar.pelo Espírito André Luiz 260 Clarêncio abeirou-se dele e afagou-lhe a cabeça que os anos haviam encanecido. Haroldo. com a primogênita de Amaro. Cortando-nos a possibilidade de excessivas inquirições. e tudo será bênção. . tentando assimilar com o nosso abnegado orientador a preciosa conjugação do verbo servir. suplicando-lhe que os auxiliasse a todos na obediência aos seus divinos desígnios. acercamo-nos dos nubentes para as despedidas.Francisco Cândido Xavier . Abraçando-os. distribuíram licores e guloseimas. E porque o dever nos convocava à distância. cuja bela formação espiritual associar-se-á. pronunciaram comovente rogativa a Jesus. enamorado. Aprendamos a usá-lo na glorificação do bem. Henrique e Lisbela. no fulgor de sua primavera juvenil. irmão de Antonina.

pelo Espírito André Luiz 261 39 Ponderações Decorrido um mês sobre os esponsais de Silva.Entre a Terra e o Céu . maternalmente: – Filhas. tocadas de sublime esperança. que viera igualmente ter conosco. ao contacto daquele ambiente de genuína fraternidade. alegres. rendiam-se ao êxtase da paz e da alegria. As duas excursionistas. Dentre todas as afeições presentes. Ambas. no Lar da Bênção. Reduzida assembléia de amigos aguardava-nos no domicílio de Blandina. quando Antonina. mais lúcida que a companheira. e explicou. . em meio de cativantes manifestações de carinho e de apreço. de leve. No recinto amplo que Blandina adornara de flores. O reconhecimento transbordava-lhes do coração. certa noite. Clara afagou-a. permutavam-se frases amigas e consoladoras impressões. à maneira do perfume a evadir-se do frasco. Afigurava-se-lhes haver encontrado o paraíso. sobrelevava-se Irmã Clara. Multiplicadas notas de beleza enriqueciam a conversação. revelavam-se enlevadas fora do corpo denso.Francisco Cândido Xavier . Na missão da mulher. atravessamos épocas de sementeira e fases de colheita. indagou pela razão do favor de que se viam aquinhoadas. em nossa romagem na vida. tão pura se lhes desenhava no semblante a exaltação interior. Enlaçadas e felizes. por solicitação de Odila. até agora. contemplavam a Terra e o Céu. fomos em busca de Zulmira e Antonina para uma reunião íntima.

transformando-o em veneno destruidor. na fonte viva do amor. significando. agora. contudo. é imprescindível banhar o espírito. nossa amiga continuou: – “Agora. A palestra em torno cessara de repente.pelo Espírito André Luiz 262 vocês receberam do tempo os choques e os enigmas plantados a distância. do amor que recompensa a si mesmo com a alegria de dar! O Pai Celeste é onipresente. através do amor de que satura o Universo.Francisco Cândido Xavier . sejamos fiéis ao mandato recebido. Depois de ligeiro intervalo. venceram árduos conflitos que lhes fustigavam as melhores aspirações. poluímos o líquido sagrado. “Não olvidemos. quando nos prendemos à lama do egoísmo ou ao visco do ódio. O sentimento divino é a corrente invisível em que se equilibram os mundos e os seres. A vida reduz-se a triste montão de trevas. O campo da existência exige mais trabalho e o tempo de semear ressurge alvissareiro. A paciência a que se devotaram evitou a formação de nuvens da revolta e o céu se fez. Os circunstantes buscavam ouvir a benfeitora. com o bom ânimo e o valor moral. claro e alentador. A mulher é uma taça em que o Todo-Sábio deita a água milagrosa do amor com mais intensidade. resplendente de luz. para que a vida se engrandeça. cada dia. quando não se faz plena de trabalho. Do Trono Excelso nasce o eterno manancial que sustenta o anjo na altura e alimenta o verme no abismo. que nela se encarnava para nós a sabedoria. Com a humildade e a fé. porém. É como se o dia renascesse. onde a inércia vende os seus frutos amargosos! Para levantar. é preciso saber reconstruir o destino. . a escada de nossa ascensão. que a oportunidade favorece a renovação. Foram dias obscuros do pretérito refletidos no presente. com o silêncio. asserenou-se-lhes a estrada. de novo. Irmãs. Em muitas ocasiões. Fujamos à velha feira da lamentação.Entre a Terra e o Céu .

e repetiu: – Lembre-se! lembre-se!..Francisco Cândido Xavier . registrando o imperativo do descanso mental para a segunda esposa do ferroviário. E você? Com a irradiante bondade que habitualmente lhe marcava a expressão fisionômica... sem o concurso do fogo que acrisola os metais!.. em tempo breve. os quadros que se foram!. José Esteves. dentro de mim.. controlando a própria emoção: – Sim.Entre a Terra e o Céu . percebo o sentido de minhas segundas núpcias!. de leve..” Clara fitou Antonina. Sim. Bafejada pelo poder de Irmã Clara. acentuou: – Recorda-se das experiências antigas e permanece atenta às razões que lhe inspiraram o segundo matrimônio? Ante a surpresa que se estampou no semblante da interpelada.. nas operações magnéticas de Clarêncio.. acariciou-lhe a fronte.. Os conflitos no Paraguai!. nossa Zulmira compreende hoje. buscava poupar-lhe exercícios mnemônicos. Uma chácara em Luque!. a orientadora. que vinha de terminar longas refregas na preservação da própria saúde. Percebemos que a instrutora. o santo dever de asilar o pequeno Júlio no santuário materno.pelo Espírito André Luiz 263 “Guardemos cautela. Antonina fez pálida e exclamou... em determinados centros da memória. – Nossa amiga – prosseguiu. num gesto que nos era conhecido. indicando Zulmira com o olhar – está consciente de que a maternidade a espera de novo... e aduziu: – Filha.. .. sou eu a cantora! Revejo. sem necessidade de maior incursão no passado. Não há sublimação sem renúncia no castelo da alma. como não há purificação no cadinho. hoje Mário. O preço da verdadeira paz reside no sacrifício de nossas existências. a família ao abandono!.. de modo particular.....

aperfeiçoando-nos! “Identifiquemos no lar humano o caminho de nossa regeneração! A família consangüínea na Terra é o microcosmo de obrigações salvadoras em que nos habilitamos para o serviço à família maior que se constitui da Humanidade inteira. prosseguiu: – “Brevemente.. não nos achamos num gabinete de experimentos e sim numa reunião fraternal. acrescentou: – E Leonardo? onde está Leonardo. No santuário doméstico. a Providência Divina nos sela a memória.. bondosa –. repartindo a atenção entre as duas.pelo Espírito André Luiz 264 Denotando aflição no olhar. em maior aprimoramento de nós mesmas. Paguemos. simbolizam linhas de luta benéfica. “Filhas. seu avô e associado de destino. acima de tudo!. desse modo. Amemos.Francisco Cândido Xavier . Zulmira recolherá o nosso Júlio na concha do coração e você. Fitando-a significativamente. Na esfera carnal. no apostolado materno. o infeliz? – Não precisa dilatar reminiscências – disse Clara. as afeições transviadas se recompõem. vocês serão chamadas a novo esforço. Um pai incompreensivo. não nos esqueçamos de que pertencem a Deus e à vida.Entre a Terra e o Céu . restituirá a Leonardo Pires. ninguém avança sem saldar as próprias contas com o passado. O parente necessitado de tolerância e carinho representa o ponto difícil que nos cabe vencer. a doçura e o devotamento até ao sacrifício!. no tocante aos filhos. o tesouro do corpo terrestre. ao clarão da felicidade.. Especialmente. em que podemos exercitar a paciência. Antonina. aproveitando o tempo de detenção no resgate. Em seguida. valendo-nos dele para melhorar-nos em humildade e compreensão. a fim de que possamos demandar o futuro. os débitos que nos aprisionam aos círculos inferiores da vida. no . ajuntou: – Basta que você se recorde. um esposo áspero ou um filho de condução inquietante..

à luz da oração... Conservemos nosso espírito arejado pela justiça. Façamos da amizade o entendimento fraterno que tudo compreende e tolera.pelo Espírito André Luiz 265 favor do renascimento. Agora. não nos cabe olvidar que os filhos são sempre laços preciosos da existência. prepará-los. requisitandonos equilíbrio e discernimento em todas as decisões. Valorizemos a oportunidade de reaproximação. São vocês dois núcleos de força. muitas vezes um tipo de felicidade que não se harmoniza com o nosso modo de ser. como agir para solucionar os problemas com segurança? – Vocês superaram dias alarmantes de crise espiritual – informou a orientadora. suscetíveis de operar valiosas transformações nos grupos domésticos a que se ajustam. na escola do trabalho salutar!.. A vizinhança e a convivência. prefiramos para nós a renunciação constru- . Em todas as dúvidas. é imprescindível entender-lhes o psiquismo diferente do nosso. é tempo de semear.. assim.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . viveremos todos juntos. na extensão do Sumo Bem. Zulmira indagou com simplicidade: – Abnegada benfeitora. Porque Zulmira e Antonina ensaiassem perguntas novas. no fundo. para que a nossa afetividade seja uma bênção com a possibilidade de educar os que nos cercam. espontânea. são dons que o Senhor nos concede a benefício de nosso próprio reajuste. envolvendo-nos com o sopro renovador de abençoada esperança! Por isso mesmo. repitamos. movimenta e ajuda. Para desobrigar-nos da grande tarefa que a maternidade nos impõe. prestimosa – e conquistaram o ensejo de reestruturação do próprio destino. enredando-nos na sombra.” Na pausa que surgiu. sem egoísmo. para o destino que lhes compete! O carinho escravizante assemelha-se a um mel envenenado. Saibamos. a exigir. A prece é o fio invisível de nossa comunhão com o Plano Divino e. Clara acentuou: – Não temam.

escoltamos. Situar a responsabilidade de nosso lado é facilitar a solução dos problemas. Logo após. as duas mães. de novo.Entre a Terra e o Céu .pelo Espírito André Luiz 266 tiva. rematou: – Não nos esqueçamos do privilégio de servir. Depois de algumas horas consagradas ao reconforto. reconduzindo-as ao campo físico para o sublime labor no lar terrestre. Sorridente.Francisco Cândido Xavier . o pequeno Júlio foi trazido ao recinto por vasto cortejo de gárrulas crianças. . Risos e lágrimas se misturaram no louvor à Bondade Divina.

na função de sacerdotisa do lar. quase que ao mesmo tempo. cônscios das obrigações que haviam assumido. Os noivos fitavam-se venturosos e Odila. Lucas e Evelina celebravam os esponsais. Recém-chegados à Terra.Francisco Cândido Xavier . lido o contrato de matrimônio. . embevecidamente. em muda oração. entre encarnados e desencarnados. pondo e dispondo na direção do acontecimento. Amaro e Zulmira. na qual tantas vezes nos reuníramos entre a prece e a expectação.. Oscularam-se os nubentes com inexcedível afeto e vimos espantados que Odila. Desvelou os olhos que se nos afiguraram mais lúcidos e contemplou a filha. ia e vinha.pelo Espírito André Luiz 267 40 Em prece Um ano depois do casamento de Antonina. tudo era esperança e alegria. paz e amor.Entre a Terra e o Céu . se transfigurava. trazendo ao mundo elevados programas de serviço. entrelaçados na mesma compreensão fraternal. coroandose de luz.. Entardecia. sorriam ingenuamente para nós. Júlio e Leonardo haviam renascido em paz. Nos dois planos. conchegados ao colo materno. superlotado de amigos sorridentes. Silva e Antonina. quando o juiz. O singelo domicílio mostrava-se magnificamente florido. A vida marchara como sempre. pronunciou o clássico “declaro-vos casados em nome da Lei. dirigimo-nos todos juntos à residência do ferroviário. com a felicidade de todos. prosseguiam juntos.

entrou em meditação. por inteiro. Ali mesmo. Suavemente impulsionada pelo Ministro. Envolta na faixa de ternura em que se via mergulhada. Ajuda aos nossos companheiros que hoje se consorciam.Francisco Cândido Xavier . na mesma vibração de paz. a receber no lar a cartilha de luz que nos deste no mundo – generosa escola de nossos corações para a vida imortal. parecia procurar-nos em espírito. atraindo a onda sonora. dirigiu-se para Zulmira. a segunda esposa de Amaro começou a chorar. Havia naquele gesto tanto carinho natural e tanto reconhecimento espontâneo. Senhor. Clarêncio abeirou-se dela e. enlaçando-a em lágrimas. A esposa de Silva não vacilou. convertendo-lhes a esperança em doce realidade. Transfundiam-se ali dois corações maternos. nossa amiga orou com sentida inflexão de voz: “Amado Jesus. o dono da casa rogou a Antonina pronunciasse o agradecimento a Jesus. que intensa emotividade nos tomou de assalto. abençoa a nossa hora festiva que te oferecemos em sinal de carinho e gratidão. qual antena vibrátil.Entre a Terra e o Céu . como se inarticulada melodia do Céu lhe invadisse. porém. tocando-lhe a fronte com a destra. ao invés de caminhar na direção de Evelina. possuída de inexprimível contentamento. Ensina-nos. Cerrando as pálpebras.pelo Espírito André Luiz 268 Obedecendo. . a secreto impulso. homem tocado de fé viva. o coração. haurida na vitória interior pelo dever bem cumprido.

Assim seja. reunia Amaro e Zulmira nos braços. Tu que consagraste a ventura doméstica. enfim. sensibilizada. a rica sementeira de renovação e fraternidade em que a todos nos cabe aprender e servir. Reflete o teu amor na simplicidade de nossa existência.Entre a Terra e o Céu . Fitei a esposa de Silva. precisa- . de quem o Ministro se afastara. quando ignorávamos totalmente a importância de sua participação no drama que iríamos viver. ao tempo de nosso primeiro contacto. Odila. conhecia a posição de nossa amiga. como o Sol se retrata no fio d'água humilde. quais se lhe fossem filhos do coração. Nunca me esqueci da excursão em que fomos designados para acompanhá-la em visitação ao filhinho. transforma a água viva de nossos sentimentos em dons inefáveis de trabalho e alegria. no campo em que lutamos. – respondeu. sim. Dirigi-me ao instrutor e indaguei se ele. Que possamos. e que a tua bondade comande a nossa vida é o nosso voto ardente. Mestre. Doce exaltação emotiva pairava em todos os semblantes.Francisco Cândido Xavier . no cultivo da paz.. porque todos nós.pelo Espírito André Luiz 269 Faze-nos compreender..” Calara-se Antonina. ser mais irmãos uns dos outros. e lembrei a noite em que lhe visitei o domicílio pela primeira vez. para o teu coração que anelamos eterno e soberano sobre os nossos destinos. agora e para sempre. mas não lhes dei a conhecer antecipadamente a significação dela no romance vivo que estamos acompanhando. Guia-nos. gentil –. pelo esforço no bem. Clarêncio. nas bodas de Caná. meu amigo. – Sim.

É a luta aperfeiçoando a vida. mas não pude delongar a conversação. não podia ser mais bela. com os Desígnios do Senhor. perguntei. até que a nossa vida se harmonize. notamos que Odila chorava copiosamente. diante do firmamento que acendia flamejantes lumes. com um casamento risonho. A festa alcançara o fim. O que passou foi a crise que nos ofereceu motivo a tantas lições. O apontamento era dos mais expressivos. Chegados. Entretanto. A história não acabou. Nossa caravana.pelo Espírito André Luiz 270 mos reconhecer que o trabalho é a nossa lição. constituída por dezenas de companheiros. A viagem... André. reverente: – Nossa história terminará. conferindo o aproveitamento de cada um. à moda de um filme bem acabado? Clarêncio estampou o sorriso de sua velha sabedoria e falou: – Não. O Ministro não logrou prosseguir. voltarão por aqui a dor e a prova. dispõem agora de alguns anos de paz relativa. Ao lado de nosso orientador. Movamos a mente no serviço que nos compete e adquiriremos a chave de todos os enigmas. nos quais poderão replantar o campo do destino. ao Lar da Bênção. porém. Nossos amigos. sem luta. de vez que Irmã Clara. convidava-nos ao regresso. . assim. a enfermidade e a morte. Lucas e Evelina haviam tomado o auto que os conduziria a experiências novas na capital bandeirante. mais tarde. iniciara a volta.. agora abraçada a Odila.Francisco Cândido Xavier . pelo esforço admirável com que se dedicaram ao reajuste.Entre a Terra e o Céu . Entre adeuses cariciosos..

. desejo servir a ele. Amo meu esposo por inesquecível companheiro da vida eterna. Visivelmente comovido. respondeu com humildade: – Devotado benfeitor. tínhamos nossos olhos marejados de pranto. nossa heroína revelava-se em penosa consternação..pelo Espírito André Luiz 271 Aquela alma varonil de mulher vencera a batalha consigo mesma. Deus sabe que hoje amo sem o propósito de ser amada. Penetrando o santuário de Blandina.. contudo. Clara conseguira-lhe brilhante posição de trabalho nas esferas mais altas. abençoando a admirável mulher a quem ele agora pertence e que passei a querer por filha de minha ternura. no entanto. voltando-se para o nosso instrutor. – Sim – concordou a interlocutora. sei disso. o Ministro abraçou-a e recomendou. onde tantas vezes nos reuníramos para examinar os problemas que nos afligiam de perto. De nosso lado. paternal: – Odila..Francisco Cândido Xavier . depois.Entre a Terra e o Céu ... colocando-lhe uma flor de luz sobre o peito. a fim de aprender com Jesus a dar sem receber. respeitosa –. meu lar terrestre é o meu paraíso. num gesto mudo de reconhecimento e. dize que céu procuras! Ela caminhou para Irmã Clara e osculou-lhe a destra... enquanto celebramos tua vitória. – Mas não ignoras que o domicílio do mundo não te pertence mais. Amo meus filhos. Clarêncio levantou-lhe a fronte submissa. sem que ele seja meu. A emoção embargou-lhe a voz. que me proponho oferecer-me sem retribuição. não parecia satisfeita com o próprio triunfo. exclamou: .. entretanto. afagou-lhe os cabelos e. apesar de saber que não podem presentemente sentir o calor de meu coração..

ao toque inefável de sublime esperança. de passagem por mim. E. davam-me a impressão de acenos da luz eterna. sozinho. temendo perturbar a harmonia reinante. quando te ergueres do vale humano. Retorna. --. funda saudade assomou-me à alma opressa.. Mereces o paraíso que procuras. percebi que meu espírito pacificado sorria. Odila. fitei o firmamento. Lágrimas quentes derramavam-se de meu coração pela concha dos olhos e.. trazendo ao Cristo os corações que pastorearás no campo imenso da vida! Odila ajoelhou-se e beijou-lhe as mãos veneráveis.. teu coração será como faixa de sol. Volta e ama. o meu ninho.. pintalgado de estrelas. numa prece de agradecimento ao Pai Celestial. concitando-me sem palavras: – “Luta e aperfeiçoa-te! A plenitude do teu amor brilhará também um dia!.. vi-me atormentado pelo anseio de recuperar. O vento que soprava célere parecia dizer-me: – “Confia!. Ave distante da paisagem que a vira nascer. de imediato.Francisco Cândido Xavier .Entre a Terra e o Céu . de novo.. Experimentei a estranha sensação do pai que busca inutilmente os filhos arrebatados ao seu carinho.pelo Espírito André Luiz 272 – Onde permanece o nosso amor. aí fulgura o céu que sonhamos. demandei o jardim próximo e.. ao teu lar quando quiseres.” O perfume das flores.. pendendo da Altura. Sê para o teu esposo e para as almas que o seguem o astro de cada noite e a bênção de cada dia! O amor puro outorga-te esse direito..Fim --- . Nesse instante.” Então.. apelava em silêncio: – “Não te detenhas!” E as constelações faiscantes.

em busca constante da paz no Reino de Deus.) .pelo Espírito André Luiz 273 Amigo(a) Leitor(a). escolas para crianças e jovens carentes. O livro espírita. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. “Porque nós somos cooperadores de Deus. versículo 9. Irmão W.Francisco Cândido Xavier . etc.Entre a Terra e o Céu . Se você leu e gostou desta obra. colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. As obras espíritas nunca sustentam. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social.” Paulo. (1ª Epístola aos Coríntios. os seus escritores. 3. financeiramente. além de divulgar os ensinamentos filosóficos.