Os Senhores

Ivo Dias de Sousa

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Agradecimentos ............................................................................................................................................ 6 Prefácio......................................................................................................................................................... 7 O Senhor Mercado........................................................................................................................................ 8 Chocolate .................................................................................................................................................. 8 O Assalto .................................................................................................................................................. 9 O Senhor Mercado.................................................................................................................................. 10 Clube ...................................................................................................................................................... 10 Canais de Televisão ................................................................................................................................ 10 O Jogo e o Estacionamento .................................................................................................................... 11 O Tabuleiro ............................................................................................................................................. 12 A Mania das Economias ......................................................................................................................... 12 Aprender a Nadar ................................................................................................................................... 13 Aniversários de Anos e de Casamento.................................................................................................... 13 Boleia ..................................................................................................................................................... 13 As Palestras ............................................................................................................................................ 14 O Sermão ................................................................................................................................................ 15 O Discurso .............................................................................................................................................. 16 Em Baixo ................................................................................................................................................ 16 O Jogo .................................................................................................................................................... 17 Só a ti é que te acontece isso .................................................................................................................. 17 O Senhor Darwin ........................................................................................................................................ 19 Assalto .................................................................................................................................................... 19 Um Colega da Escola Primária ............................................................................................................... 19 O Mundo dos Sonhos do Senhor Darwin ............................................................................................... 20 Morte ...................................................................................................................................................... 20 A Palestra ................................................................................................................................................ 21 Atendimento no Hospital ........................................................................................................................ 21 O Suicida ................................................................................................................................................ 21 O Atropelamento .................................................................................................................................... 23 O Senhor Newton ....................................................................................................................................... 24 Um Passeio Interrompido ....................................................................................................................... 24 A Bolsa ................................................................................................................................................... 24 Nadar ...................................................................................................................................................... 25 Espontâneo ............................................................................................................................................. 25 Morte ...................................................................................................................................................... 26 Relojoeiro ............................................................................................................................................... 26 O Bolo .................................................................................................................................................... 27 Perna Partida........................................................................................................................................... 27 O Suicida no Arranha-Céus .................................................................................................................... 28 A Conversa ............................................................................................................................................. 29 O Encontro ............................................................................................................................................. 30 O Fim-de-Semana ................................................................................................................................... 31 O Jogo de Basquete 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O Senhor Said ............................................................................................................................................. 33 O Armário ............................................................................................................................................... 33 Os Sonhos ............................................................................................................................................... 33 Remix da Realidade ................................................................................................................................ 34 Fantasmas e Demónios ........................................................................................................................... 35 A Casa do Senhor Said ........................................................................................................................... 36 A Magia bem orientada começa em “casa” ............................................................................................ 37 Paranóia .................................................................................................................................................. 37 Um Feiticeiro Rancoroso ........................................................................................................................ 38 O Jogo .................................................................................................................................................... 39 O Mundo dos Sonhos do Senhor Said .................................................................................................... 40 O Sermão ................................................................................................................................................ 40 Privacidade em Público .......................................................................................................................... 40 O Suicida na Ponte ................................................................................................................................. 41 Acções com Significado ......................................................................................................................... 42 O Fantasma Chato .................................................................................................................................. 43

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Agradecimentos
Obrigado pela tradução para português… Mais a sério: obrigado pela revisão do texto realizada pelo Manuel Freire e Ana Saragoça. Agradeço as histórias de Carlos Lourenço e Clélia Andrade que, pouco ou muito modificadas, constam neste livro.

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Prefácio
Este livro é directamente inspirado numa excelente série de livros de Gonçalo M. Tavares que têm por base a vida e obra de escritores – é o caso do “Senhor Calvino”, com base na vida e obra do escritor italiano Ítalo Calvino. Porém, neste caso, as principais personagens dos contos deste livro são inspiradas livremente em ideias e teorias. Essas ideias e teorias estão na base da personalidade das personagens e sua actuação. O “Senhor Mercado” é inspirado na ideia do comportamento dos mercados bolsistas de acções, do professor universitário e investidor Benjamin Graham. Ele compara os mercados bolsistas a alguém muito instável, com grandes variações de humor, que podem acontecer muito rapidamente. Dito de outra forma, é alguém que pode passar rapidamente da euforia à depressão (e vice-versa). Mais, o seu comportamento pode não ser o mais racional. Já o “Senhor Newton” é, de certa forma, o contraponto do “Senhor Mercado” inspirado livremente na lei da gravidade descoberta por Sir Isaac Newton. A elaboração por Newton de diversas equações baseadas na lei da gravidade permitiu prever, com uma grande exactidão, mesmo à distância de anos a órbita dos planetas do nosso sistema solar. Assim, o “Senhor Newton” é alguém a quem a repetição não aborrece e que gosta de planear a um prazo alargado. Naturalmente, o “Senhor Darwin” é inspirado na teoria de selecção das espécies do cientista com o mesmo nome. Deste modo, o “Senhor Darwin” é um sujeito muito competitivo, que procurar tirar proveito das situações num curto espaço de tempo. Tende a ter comportamentos moralmente discutíveis. Por vezes, a “realidade” criada por mim é demasiado imprevista para os gostos do “Senhor Darwin”, mas é a vida.  O “Senhor Said” foge ao figurino das personagens anteriores. É baseado muito livremente (mas mesmo muito) nas modernas teorias da física e na figura de Aleister Crowley. É um mágico no sentido literal – é capaz de coisas “impossíveis”, nomeadamente, levitar e ler os pensamentos de outras pessoas. É um solitário que tem como uma das suas preocupações principais passar despercebido – acredita que existem inimigos à sua espreita . É triste , mas, por vezes, enfrenta situações que vão contra as suas preocupações muito. É com a melhor das intenções que coloco algumas dificuldades às personagens (mentira). Sem as enfrentar, teriam dificuldade em crescer como pessoas. E a sua vida poderia correr o risco de alguma monotonia. Caro leitor, poderá discordar de mim, mas acredite no que eu lhe digo. ;-)

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O Senhor Mercado

Chocolate
A relação do Senhor Mercado com os chocolates é cíclica e com altos e baixos. Quando está muito em cima, é sinal que vái descer por ai abaixo. Nesses momentos, o Senhor Mercado come chocolates como se não houvesse amanhã – o que se passou nas mesmas circunstâncias no passado são apenas memórias escondidas, algures, na sua mente. Ele adora chocolate (em particular, o branco) e apenas comendo muitos, uns atrás dos outros, consegue satisfazer momentaneamente o seu desejo. Quem vê de fora a “orgia” de chocolate, diria mesmo que o Senhor Mercado tem um problema com o chocolate, tal como os alcoólicos têm com a vodka e outras bebidas que tais – essas pessoas têm razão. O Senhor Mercado vai para a cama depois de se ter empanturrado com tabletes umas atrás das outras. Adormece rapidamente, mas acorda muito antes da hora prevista - uma dor de barriga enorme é impossível de ignorar. Não dá um grito, porque a sua esposa está a dormir ao seu lado. As suas memórias relacionadas com chocolates reaparecem facilmente. Elas não são agradáveis, tal como a sua actual dor de barriga. Para o Senhor Mercado, era preferível as suas memórias não existirem, o que tornaria tudo mais fácil. Ele sabia o que aconteceria a seguir; e as coisas iriam piorar antes de melhorar. A sua dor de barriga diminui-o, mas teve uma necessidade muito urgente de ir à casa de banho. Procurou satisfazer essa necessidade adequadamente mas não conseguiu. A sua mente “disparou” um conjunto de nomes feios, que não vale a pena repetir aqui. O Senhor Mercado foi depois dormir para a sala para não acordar a sua esposa. Porém, as suas constantes idas à casa de banho levaram a sua esposa a acordar. Como tinha assistido aos exageros em termos de chocolate do Senhor Mercado, do agora e alguns do passado já sabia o que se passava. A Senhora Mercado levantou-se e foi buscar um comprimido para a diarreia do Senhor Mercado. Mostrou um ar simpático e não fez comentários sobre a situação. Para quê? Ele já está a sofrer o suficiente, pensou ela. Naquela noite o Senhor Mercado pouco dormiu até à hora que supostamente acordava. Quando o despertador tocou, ele estava acordado. Lá se vestiu e foi para o trabalho. Apesar dos comprimidos que tinha tomado, a diarreia continuou. Felizmente (baseado na sua experiência passada), que se lembrou de levar dois pares de cuecas sobresselentes – uma óptima decisão. Claro que o dia foi para esquecer, parecendo um zombie.

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Mesmo quando voltou a casa, o Senhor Mercado sentia-se mal. A dor era tanto física como psicológica. Já sabia o resultado da sua “orgia” antes de começar e mesmo assim tinha repetido a “proeza”. Nos meses seguintes, mal podia ver chocolate. Porém, com o passar do tempo as más memórias desvaneceram-se. Começou a comer chocolate mas sem exagero. Com o passar de mais tempo, as doses aumentaram para além do bom senso, com o aparecimento de uma ou outra diarreiazita. Uma nova e grande diarreia aconteceria em tempos próximos.

O Assalto
O Senhor Mercado e a esposa estavam a ser assaltados por um homem com uma faca bem grande. Tinham as mãos ao alto e entregue ao assaltante o dinheiro e todos os outros bens facilmente transaccionáveis. O assaltante já tinha feito tudo o que um assaltante é suposto fazer, excepto ir-se embora e gozar o seu saque. Em vez disso, esbracejava com a faca numa das mãos e não parava de falar. Parecia gostar de ter uma audiência literalmente cativa. O Senhor Mercado não estava a gostar nada da história. Num assalto corre-se o risco de ser ferido ou, mesmo, morto. Agora, apanhar com um chato não está no programa. Já apanho com suficientes no emprego. Mal acabou o pensamento, avançou para o assaltante – este ficou de boca aberta. Quando recuperou da surpresa, já estava a receber umas estaladas do Senhor Mercado. Este tinha-lhe torcido o pulso e ficado com a faca. Depois recuperou o que tinha sido roubado e ainda mais qualquer coisa. A seguir, deu um pontapé no rabo da assaltante para o pôr a andar. A Senhora Mercado estava impávida e pouco serena com tudo aquilo. Aquilo era algo que o Senhor Mercado faria antes de casar com ela. Ela julgava que o tinha domado há muito, mas aquilo indicava que existia ainda muito trabalho pela frente. Começou a mostrar o seu desagrado ao Senhor Mercado: “Ele era um irresponsável. O que seria dela se ele morresse?” Etc. O Senhor Mercado ainda começou a explicar as suas acções, mas decidiu que era melhor não continuar. O que se passava na sua cabeça era privado, pelo menos, quando ele queria. Nos dias seguintes, a Senhora Mercado continuava a mostrar o seu desagrado para com ele, dando-lhe vários sermões. Apesar de tudo, o Senhor Mercado estava a gostar daqueles dias: a Senhora Mercado mostrava um empenhamento invulgar na cama, o que não acontecia há muito.

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O Senhor Mercado
O Senhor Mercado estava parado há vários minutos. Tinha de estar num sítio dentro de algum tempo. Não conseguia decidir se ia a pé ou de autocarro. Enquanto pensava já tinham passado vários autocarros para onde ele ia. Diga-se de passagem que o Senhor Mercado estava parado entre duas paragens de autocarro. Mais algum tempo a pensar e chegaria atrasado, quer fosse a pé ou de autocarro. Tirou uma moeda do bolso e atirou-a ao ar. Caras, vou a pé. Coroa, vou de autocarro.

Clube
Uma das poucas constantes da vida do Senhor Mercado é o seu clube. Ainda criança, apareceu em casa a dizer que era adepto de um determinado clube. Os pais não ligavam muito a esse tipo de assuntos e deixaram a coisa andar. O Senhor Mercado é daqueles que diz aos amigos que poderia mudar de emprego, de país ou de esposa (esta parte, não diz ao pé da Senhora Mercado), mas não de clube. Nem que ele desça para a terceira divisão. Ele adora falar do seu clube e dos jogos com os seus adversários ou, melhor dizendo, inimigos. Mal a televisão de qualquer restaurante esteja a passar um jogo do seu clube, começa a conversar com outros amantes do mesmo desporto. Se são exclusivamente adeptos do mesmo clube que ele, passam o tempo a dizer mal do treinador (as suas opções são de bradar aos céus), do presidente (não podia ter contratado um jogador para aquela posição enquanto era tempo) e dos jogadores (não correm nada e são todos uns mercenários). Claro que tudo muda de figura se existem adeptos da oposição. Então, o presidente, treinador e jogadores do seu clube passariam a ser os melhores do mundo. Se o clube não ganha é por causa da arbitragem (falta grave não assinalada, expulsão errada, entre muitas outras explicações). As afirmações dos adeptos do mesmo clube são apoiadas, por mais inacreditáveis que sejam. O Senhor Mercado é o que se pode chamar “fanático consciente” em termos clubísticos. É um dos poucos “fanáticos” que sabe, no próprio momento, as parvoíces que diz à volta do seu clube. Tudo pelo meu clube. 

Canais de Televisão
Quando o Senhor Mercado morava com os pais, só existiam problemas na escolha dos canais de televisão quando os pais estavam ausentes – os pais estavam no topo da cadeia alimentar quanto a isso. O problema era entre ele e o seu irmão mais antigo – a diferença de idades era pouca e o Senhor Mercado era alto para a idade. Já o irmão mais 10

novo era uma carta fora do baralho – era muito mais novo que os outros dois irmãos. Podia dizer as suas preferências, mas só isso – de nada adiantava, excepto quando os pais lá estavam. O Senhor Mercado e o irmão mais antigo chegavam, por vezes, a vias de facto, devido a diferenças de opinião quanto ao canal a ver. Como as vias de facto não eram muito esclarecedoras e eram dolorosas, chegaram a um acordo. Quando os pais estavam ausentes, mandava na televisão quem chegava primeiro. Naturalmente, perdiam o poder se saíssem da sala, por mais momentaneamente que fosse. Quando o Senhor Mercado saiu de casa e passou a morar sozinho, o problema não se colocava. Porém, quando se casou com a Senhora Mercado, a questão voltou a colocar-se. Ele não esperava por isso, nem a Senhora Mercado. Na realidade, era uma das principais causas de atritos entre os dois. Os gostos dos dois não podiam ser mais divergentes – telenovelas para ela e desporto para ele. De vez em quando (muito de vez em quando), lá havia um programa que agradava aos dois. O problema era de tal forma agudo que compraram uma segunda televisão. No entanto, chegaram à conclusão que não era uma boa solução cada um ficar a ver a sua televisão. Antes de se deitarem, viam muita televisão. Bem ou mal, era uma actividade que podiam fazer em conjunto. Era preferível discutirem (amigavelmente, de preferência) qual o canal que viam.

O Jogo e o Estacionamento
O Senhor Mercado tinha prometido à sua esposa não jogar mais. A razão era muito simples: ele tinha perdido dinheiro que punha em causa o estilo de vida de ambos. Naturalmente, a Senhora Mercado não tinha gostado muito disso. O Senhor Mercado também não – gostava dos seus luxos. Bem, o Senhor Mercado tinha cumprido a sua promessa de uma maneira criativa. Realmente, deixou de jogar a dinheiro, como era o caso da roleta. No entanto, necessitava de uma emoção na sua vida, sem faltar à promessa à Senhora Mercado – ele reconhecia que era de mau gosto colocar o estilo de vida de ambos em risco. Depois de pensar um pouco no assunto, conclui que era fácil arranjar formas de “jogar” no dia-a-dia e possivelmente lucrativas. Uma dessas formas era o estacionamento pago na cidade onde morava. Ele estudou a situação detalhadamente – ao fazer uma pesquisa na Internet descobriu mesmo os horários dos fiscais dos estacionamentos pagos. Chegou à conclusão que valia apena arriscar não pagar o estacionamento a determinadas horas e lugares. Era uma emoção chegar ao carro e verificar se tinha (ou não) uma multa à sua espera. Para não existirem dúvidas que o crime compensava, fazia a contabilidade da sua actividade fora-da-lei. Do lado positivo, estava o dinheiro que poupava ao não pagar o 11

estacionamento. Do lado negativo, as multas que apanhava de vez em quando – não se pode vencer sempre. A contabilidade era positiva – por pouco, mas era. Aquilo tinha muita piada – é muito melhor do que a roleta fugir à lei e sorriu para si próprio.

O Tabuleiro
O Senhor Mercado é um tanto ou quanto para o inconsciente. Uma vez, tinha ido a uma cantina universitária com uma mochila às costas e alguns livros nas mãos. Quando pagou a comida, reparou que levar o tabuleiro da comida e tudo o que tinha trazido seria difícil. O que faria uma pessoa normal? Pediria ajuda a alguém ou faria duas viagens até ao lugar onde se sentaria. Bem, o Senhor Mercado nunca foi a pessoa mais normal para quem o conhecesse – decidiu levar tudo de uma vez. Passados alguns metros, as coisas começaram a dar para o torto, como era de esperar – a tabuleiro começou a fugir das mãos para a frente. Para qualquer pessoa que estivesse a ver, era evidente que o tabuleiro ia estatelar-se no chão com um grande estrondo. Como o Senhor Mercado não sabia isso, procurava conseguir agarrar o tabuleiro, mas ele ia sempre ficando mais perto do chão. A cena prolongou-se o suficiente para alguns estudantes que estavam a ver avisarem pessoas ao seu lado. Realmente, o Senhor Mercado não conseguiu agarrar o tabuleiro, mas conseguiu a segunda melhor coisa: fazê-lo aterrar no chão com o seu conteúdo intacto. Perante isto, um “oooh” de desilusão preencheu a cantina.

A Mania das Economias
O Senhor Mercado não é uma pessoa muito económica. Se não fosse a rédea curta da Senhora Mercado, tenderia estar, quase sempre, com uma mão à frente e outra atrás. Porém, tinha a mania das economias quanto aos consertos lá em casa – para quê pagar a um profissional quando eu tenho dois braços, duas pernas e uma cabeça? A Senhora Mercado tinha receio dos ataques de economia do marido – muitas vezes, era necessário chamar à mesma um profissional para resolver a situação. Ela procurava conter os ataques, mas nem sempre era possível. Um dia, os ataques do Senhor Mercado pararam. Nesse dia, tiveram de chamar um canalizador, após uma intervenção do Senhor Mercado na canalização da casa a ter inundado. 12

Aprender a Nadar
O senhor Mercado tinha caído numa piscina sem saber nadar quando tinha cinco anos. Foi salvo, mas não gostou da experiência. De tal forma, que resistiu às tentativas dos pais para aprender natação com um instrutor e tudo. Alguns anos depois foi morar para uma cidade à beira-mar. Os seus novos amigos costumavam ir à praia e era uma chatice não ir para fora de pé com eles. Farto da situação, começou a nadar à cão para terra – era o único estilo que se sentia à vontade para imitar. Depois de conseguir nadar dezenas de metros de seguida à cão, sentiu-se preparado para experimentar outros estilos mais ortodoxos para humanos. A forma de nadar do Senhor Mercado nunca foi a mais perfeita, mas passou a ser adequada para seguir os seus amigos para fora de pé.

Aniversários de Anos e de Casamento
O Senhor Mercado tem fama de distraído. A esposa concorda, recordando os seus aniversário de casamento que tinha deixado passar. De vez enquanto, a esposa passava alguns dias a repetir esses dados continuamente, o que lhe punha os cabelos em pé. O Senhor Mercado gostava da esposa – suspeitava até que a amava. Porém, não queria ocupar a sua mente com informações sobre a data do seu casamento e outras do mesmo estilo. Um dia comentou a questão com o Senhor Darwin. Sem pensar muito, o Senhor Darwin sugeriu-lhe, simplesmente, que comprasse um telemóvel com agenda “inteligente” – “basta programares o telemóvel para te avisar no dia adequado das datas que quiseres”, disse o Senhor Darwin. A solução proposta pelo Senhor Darwin, de certeza, que não estava dentro do espírito do que a Senhora Mercado pretendia. Apesar disso, o Senhor Mercado comprou o telemóvel. Não preciso saber de tudo.

Boleia
O Senhor Mercado telefonou aos pais. A sua mãe insistiu para falar com ele longos minutos – nunca tinha estado tanto tempo sem falar com os seus pais.

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Um pouco antes tinha recuperado uma mochila com as suas roupas, a maioria do seu dinheiro e outras coisas que se levam em viagem. Ele tinha procurado recuperar a bagagem, mal tinha acabado a viagem de comboio de três horas – era o culminar da sua viagem de várias semanas pelo continente, durante as férias de verão da universidade. Felizmente para o Senhor Mercado, tinha conseguido antes uma boleia de um camião. Sem isso, não teria dinheiro para acabar a viagem. Nesse caso, teria de telefonar aos pais a pedir auxílio, o que dava mau aspecto. Ele tinha apanhado boleia do camião numa estação de serviço algures numa autoestrada. Por acaso, não tinha sido difícil arranjar boleia. Quem tem boca, vai dar a Roma. Antes de procurar boleia, tinha ficado algumas dezenas de segundos a olhar para um lugar vazio do parque de estacionamento da estação de serviço – era suposto lá estar um autocarro que o levaria até ao seu pais de origem. Tal como os outros passageiros do autocarro, tinha aproveitado a paragem para ir comer qualquer coisa ou fazer algo que só o próprio poderia fazer. Aparentemente, tinha demorado demais.

As Palestras
O Senhor Mercado não estava a apreciar muito a palestra que estava a assistir. Maldita a hora em que concordei em assistir às palestras. Nem é uma nem duas, mas cinco?!... Onde estava eu com a cabeça quando prometi assistir às palestras? O Senhor Mercado lembrou-se onde estava com a cabeça no momento em que tinha prometido ir às palestras. A Senhora Mercado escolhia momentos estratégicos para lhe pedir algo que ela sabia não serem muito do seu agrado. Algumas vezes, conseguia resistir (poucas vezes, na sua opinião) à Senhora Mercado naqueles momentos. A palestra continuou com o Senhor Mercado a não apreciá-la muito. Cinco vezes isto. Apetecia-lhe sair de fininho sem ninguém notar. Para isso acontecer tinha dois problemas sem resolução. Primeiro, estava sentado ao pé da Senhora Mercado – ela notaria a sua saída. Segundo, estavam sentados na primeira fila de cadeiras em frente do orador. A escolha era da Senhora Mercado, que queria mostrar o seu maridinho às amigas. Ou arranjo uma solução rapidamente que torne isto suportável ou vou-me embora. Lembrou-se da sua táctica no secundário para aulas chatas. Concentrou-se em encontrar frases com potencial do orador. Eles vêm aí, repetiu o Senhor Mercado na sua cabeça o que o orador tinha acabado de dizer. Esta frase tem potencial. O Senhor Mercado passou a conduzir um carro numa estrada um pouco fora da cidade onde morava. Ouvia rádio, quando a transmissão foi interrompida para uma notícia de última hora. O locutor informava com uma voz angustiada que a terra tinha sido invadida por extraterrestres algumas horas atrás. Os extraterrestres conduziam uma espécie de tanques com seis patas que disparavam raios mortais. Citava várias cidades 14

(uma delas era a sua) que estavam já sob o ataque directo dos alienígenas. “A sua intenção parece ser exterminar a vida humana no planeta”, disse a locutora com uma voz apavorada. Ouviu o som de explosões na transmissão e a emissão morreu. Olhou para os prédios da sua cidade que se viam ao longe e verificou que estavam a arder. Tentou telefonar para a Senhora Mercado e nada – o sinal estava interrompido. Fez a única coisa que lhe parecia racional. Afastou-se da cidade. Teve de sair da estrada. O pânico tinha levado a muitos acidentes, o que tornava a condução impossível na estrada. Conduziu e conduziu, mas os tanques extraterrestres aproximavam-se cada vez mais. Um deles disparou um raio que fez explodir o carro com o Senhor Mercado lá dentro. O Senhor Mercado voltou a ouvir o orador. Estas palestras são mais agradáveis do que pensava. Concentrou-se outra vez na procura de frases com potencial. Pode ser decisivo. Era o avançado da sua equipa preferida (o Benfica) numa final internacional importante. Tinha acabado de marcar um golo de cabeça que dava vantagem à sua equipa. Faltavam alguns minutos para o jogo acabar. Era necessário dar tudo por tudo naqueles minutos finais.

O Sermão
O director do departamento onde o Senhor Mercado trabalha estava a dar-lhe um grande sermão – durava e durava. Ainda por cima, era à volta daqueles erros que só quem não faz nada está isento de fazer. Está a pedir para eu cruzar os braços. Apetecia-lhe sair pela porta fora, mas não era boa política. Ele considerava o emprego mais ou menos bem pago para o que fazia. Sem os sermões até seria bom. A partir de determinada altura desligou. Imaginou-se com uma granada na mão direita. Depois, com a mão esquerda puxou as calças do director o suficiente para deixar cair lá dentro a granada com a direita. Afastou-se para fora do escritório enquanto o director procurava muito afincadamente tirar a granadas das calças. Depois da granada explodir, voltou a entrar no escritório. O corpo do director estava espalhado por todo o lado. Uma perna ali e um pedaço de braço acolá. O centro do corpo e as mãos não se avistavam em lado nenhum – tinham sido atingidas pelo grosso da explosão. Esboçou um sorriso. Procurou controlar o sorriso que lhe aparecia na cara. Supostamente, estava a levar um sermão.

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O Discurso
Era quase a sua vez de discursar. O suor escorria-lhe pela face apesar de ter preparado muito bem o improviso. Até tinha dormido mal, o que era muito ridículo do seu ponto de vista. Parece que a audiência é constituída por vampiros que me vão sugar o sangue à primeira argolada que meter. Começou a ver na sua cabeça a audiência. Eram todos muitos brancos – quase da cor do leite. A face de todos era de poucos amigos. Agora, o que apreciava menos era os dentes caninos da assistência. Mesmo quando tinham a boca fechada, notava-se que os dentes caninos eram demasiado grandes para seres humanos. Pensou logo numa grande boca a aproximar-se do seu pescoço para lhe sugar o sangue. Era a sua vez de discursar. Tiveram de repetir várias vezes que era a sua vez, visto que o Senhor Mercado estava nas nuvens. O Senhor Mercado olhou para a audiência. Felizmente, que os dentes não eram tão brancos como ele tinha imaginado. Quanto às faces, elas variavam, mas a maioria até nem tinha cara de poucos amigos. Todavia, o melhor mesmo era o facto dos dentes caninos serem da dimensão normal em seres humanos. O discurso correu bem.

Em Baixo
O Senhor Mercado estava em baixo, mas mesmo em baixo. Não lhe apetecia fazer nada. Ficava horas na cama a ver televisão. A vida não lhe corria muito bem ultimamente. Tudo o que fazia dava mau resultado. As “portas” não se abriam e pareciam fechar-se cada vez mais. Reparou que estar em baixo era incómodo. Ficar ali sem fazer nada a pensar, vezes sem conta, sobre acontecimentos que tinham sucedido e como, não lhe fazia nada bem. Repisou mais uma vez tudo o que tinha sucedido. Ok, podia ter feito as coisas de forma diferente. Lembrou-se de uma forma diversa de actuar. Provavelmente, não funcionará. Mas é interessante saber a reacção. Tentou a forma diferente. Realmente, não funcionou. Porém, a resposta foi diferente das anteriores e surpreendeu o Senhor Mercado – ele gosta de novidades e surpresas ao contrário do parvalhão do Senhor Newton. Continuou, não tanto a procurar resolver a situação, mas a encontrar formas diferentes de actuar. Respostas diferentes eram já uma espécie de recompensa. A resposta a mais uma parvoíce diferente não foi muito negativa, o que por si só era já uma novidade. Vale apena explorar mais esta via. As coisas acabaram por melhorar. Já não era sem tempo. 16

O Jogo
O Benfica venceu o jogo e sorriu para si próprio antes de ir jantar. Antes tinha fechado a televisão onde tinha visto o jogo. Somente próximo do final do jogo, o Benfica tinha resolvido a partida ao conseguir uma vantagem decisiva. Às ameaças da Senhora Mercado da cozinha tinha respondido, meio a brincar e meio a sério, que cortava relações com ela se concretizasse as suas ameaças (contar-lhe o resultado do jogo). Provavelmente, não sabe de nada, pensou o Senhor Mercado. Mas com uma rápida ida à Internet!... O Senhor Mercado tinha-se sentado na sala para ver o jogo mal tinham chegado a casa. A sua esposa queria que fossem logo jantar mas nada feito. Valores mais altos se levantam. Um homem tem de impor alguns limites. A Senhora Mercado não tinha insistido muito com o jantar. Era uma batalha que já sabia iria perder. O seu marido tinha mantido o rádio do carro bem fechado para não correr o risco de saber o resultado da partida. Quanto mais esperasse, maior era a probabilidade de saber o resultado sem o querer saber. Para o Senhor Mercado, ver o jogo em deferido não era tão bom como o ver em directo. Um verdadeiro adepto como o Senhor Mercado julga que influencia positivamente o resultado se o acompanhar em directo.

Só a ti é que te acontece isso
O despertador tocou às seis da manhã. Fez o tremendo esforço de se levantar para apanhar o comboio das sete. Já não ia visitar os seus pais há algum tempo e tinha prometido à sua mãe lá ir este fim-de-semana. A universidade ocupava-lhe muito tempo. Por exemplo, nessa mesma noite tinha ido dormir às quatro horas da manhã por causa da borga com diversos colegas da universidade. Sou uma vítima do sistema, pensou o Senhor Mercado. Quando chegou à estação, verificou que não tinha dinheiro suficiente para o bilhete de comboio. Não se preocupou, porque tinha um cartão de um banco no bolso. Como a empresa de caminho-de-ferro só aceitava dinheiro vivo, dirigiu-se à máquina de cartões do banco mais próximo para ter dinheiro suficiente para o bilhete. Infelizmente para ele, a máquina “comeu-lhe” o cartão sem mais explicações. Era sábado e só segunda é que poderia recuperar o cartão. Perdeu o comboio e não valia a pena apanhar o seguinte. Era daí a várias horas e ele tinha de voltar domingo, supostamente para não perder as aulas de segunda. 17

Mandou uma mensagem escrita à mãe a explicar a situação através do telemóvel – o seu saldo não dava para mais. Verificou que tinha muito pouco dinheiro para o fim-desemana e foi dormir. Vai ser um longo fim-de-semana. À tarde, apanhou um grande sermão da mãe através do telefone. Concordou que ia a casa sem falta no próximo fim-de-semana. A mão conclui o telefonema, dizendo: “Só a ti é que acontece isso”.

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O Senhor Darwin

Assalto
O Senhor Darwin estava a ser assaltado por três assaltantes. Dois deles tinham navalhas, o que levou o Senhor Darwin a tirar da sua cabeça qualquer ideias de resistir. É apenas dinheiro e amanhã é outro dia, pensou ele. Os ladrões afastaram-se com as posses do Senhor Darwin. Este estava um pouco desgostoso de se ter separado dos seus pertences – o que tinha sido roubado tinha-lhe custado a ganhar. Bem, isso não era exactamente verdade – tinha sido dinheiro fácil, mas isso não vinha ao caso. Era o princípio que estava em jogo. Pensou por momentos o que fazer e resolveu seguir os três assaltantes. Quando um se separou dos outros dois, segui-o. Entretanto, já sabia o que ia fazer. À “traição”, atacou o assaltante isolado – ele tinha-lhe dado autorização para o agredir ao assaltá-lo. Depois de retirar as posses do assaltante, foi-se embora e fez a contabilidade: não chega ao montante que me roubaram, mas diminui as minhas perdas.

Um Colega da Escola Primária
O Senhor Darwin estava farto do seu emprego. Já tinha aprendido o que podia nele e queria ganhar mais. Decidiu procurar um outro emprego. No processo de selecção de um emprego que realmente desejava, chegou à última fase (uma entrevista individual com quem ia decidir). Na entrevista encontrou um antigo colega da escola primária de que se lembrava vagamente. Conversaram sobre o que é normal falar numa entrevista para emprego e os tempos da escola primária. Do ponto de vista do Senhor Darwin, a entrevista correu às mil maravilhas. Foi uma sorte o entrevistador ser um antigo colega. Ao contrário do Senhor Darwin, o entrevistador lembrava-se perfeitamente dele. Do ponto de vista do entrevistador, o Senhor Darwin iria obter aquele emprego quando o inferno gelasse.

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O Mundo dos Sonhos do Senhor Darwin
O mundo criado pelos sonhos do Senhor Darwin é, sobretudo, um imenso mar de arranha-céus sem fim. A maioria deles faria inveja a cidades como Nova-Iorque e Tóquio. Alguns dos prédios são suficientemente altos para um qualquer suicida ter muito tempo para reflectir sobre a sua opção. De pouco serve chegar à conclusão que saltar foi uma má opção – só para piorar os breves metros até à morte. Um detalhe desagradável é o facto dos suicidas que saltam dos arranha-céus raramente morrerem sozinhos. Os passeios dos prédios estão, quase sempre, de dia e de noite cheios de gente apressada – é difícil não cair em cima de ninguém. Mesmo quando o céu está limpo, é necessário, em grande parte da cidade, acender as luzes da rua. As ruas são, na sua maioria, vales profundos rodeados por prédios que tocam nas nuvens quando elas lá estão. Os habitantes andam como se algo os perseguisse nas ruas. Visto de cima dos arranhacéus, parecem membros de um imenso formigueiro. Mesmo que não saibam para onde querem ir, continuam a andar como se estivessem muito atrasados. No mundo do Senhor Darwin, convém mesmo estar em movimento nas ruas. Por alguma razão, quem diminui o ritmo começa a vislumbrar atrás de si felinos com um tamanho que levaria leões a manterem as devidas distâncias. Para mais, a cabeça é anormalmente grande para o corpo – a boca é demasiado larga para a cabeça – os dentes demasiado salientes para a boca. Parar na rua é morrer literalmente no mundo do Senhor Darwin. Os felinos aparecem rapidamente do nada, Enquanto o ataque se desenrola, a multidão continua a circular, deixando um espaço vazio à volta da tragédia – os felinos não gostam de espectadores e tomam medidas para acabar com eles. No passado, existiam mesmo bairros com pequenos prédios onde as pessoas paravam à sua frente. Todos eles desapareceram com os arranha-céus que nasceram por baixo desse bairro. Mas se alguém procurar muito e bem, encontrará pequenos oásis na vasta metrópole. Existem pequenos jardins em alguns topos dos arranha-céus. No solo é possível encontrar um ou outro jardim onde o sol consegue tocar, atravessando o emaranhado de prédios.

Morte
O Senhor Darwin não gosta (e não quer) pensar na morte. Ele pensa que a morte é o FIM DE TUDO. Dito de outra forma (acho que a maioria dos leitores já entendeu, mas um outro talvez não), o Senhor Darwin pensa que a consciência termina com a morte.

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O Senhor Darwin não quer pensar na morte, mas a sua actuação na vida é muito influenciada por ela. Ele quer tudo e quer agora, antes … antes que ela venha. Consequentemente, é muito ávido a ir ao “pote” que, por vezes, parte. O Senhor Darwin procede, por vezes, de uma forma (digamos) moralmente questionável. Não é bem “os fins justificarem os meios”, mas é quase. Um dos cuidados que o Senhor Darwin tem é não realizar actos que o possam levar a ter “férias” prolongadas numa qualquer prisão.

A Palestra
O Senhor Darwin gostava de estar noutro local. A palestra que estava a assistir deixava muita a desejar para ele. Só lá estava por razões profissionais. Depois de pensar um pouco, olhou para a sala. Verificou que o canto esquerdo do fundo do anfiteatro onde decorria a palestra estava vazio. Começou a deslocar-se para aí como quem não quer a coisa. Quando lá chegou, tirou os discretos headphones sem fios do seu telemóvel. Colocou um no seu ouvido esquerdo – era o ouvido que estava virado para a parede. Ligou o rádio do telemóvel na sua estação preferida.

Atendimento no Hospital
O Senhor Darwin tem a tendência para se armar em “chico esperto”. Para ser atendido mais rapidamente num hospital, declarou dores que não tinha quando lá chegou. Ele queria era uma receita para a gripe que tinha apanhado – a receita permitia-lhe comprar os medicamentos mais baratos. A médica que o atendeu foi aos arames quando notou o esquema do Doutor Darwin. “É por pessoas como o senhor que isto está como está”, declarou a médica ao Senhor Darwin a dado ponto. Não só recusou passar-lhe a receita como o obrigou a pagar a consulta por inteiro. Caso recusasse, poderia levar com um processo do hospital por abuso de confiança O Senhor Darwin meteu o rabo entre as pernas e foi-se embora.

O Suicida
Era já muito de noite. O Senhor Darwin tinha pressa de chegar a casa para dormir. No dia seguinte ia ter uma reunião importante de negócios. Estacionou o seu carro a umas centenas de metros de casa e caminhou para lá. 21

Um pouco antes reparou num adolescente grande que estava de pé, em cima de um muro. Mais um adolescente inconsciente. É muito perigoso estar ali. Um descuido pode ser fatal. O Senhor Darwin tinha razão, visto que o muro era muito alto do lado oposto onde estava. Uma queda poderia ter consequências para a saúde de quem caísse. Na certa, deixaria de ter preocupações com a sua saúde. Sem pensar, o Senhor Darwin perguntou ao adolescente o que fazia ali. Ele respondeu que se ia matar e para que o Senhor Darwin se mantivesse à distância. Não ocorreria ao Senhor Darwin aproximar-se de um possível suicida. Se calhar, poderia querer companhia para ir desta para melhor. O Senhor Darwin gosta de estar vivo e não iria correr riscos por causa de um qualquer adolescente melodramático. O ideal para o Senhor Darwin era ter estado calado e ter seguido para sua casa. Ainda podia ir para casa e telefonar para o número de emergência. O problema é que tinha falado e sentia problemas de consciência se o deixasse sozinho. Talvez ele concretizasse o que ameaçava fazer. Sem saber muito bem o que fazer, sentou-se no muro com uma devida distância de segurança em relação ao possível suicida. Curiosamente, o adolescente melodramático imitou-o, sentando-se também. Por uns momentos, ninguém disse nada. O Senhor Darwin comentou que estava uma linda noite porque se sentiu na obrigação de dizer qualquer coisa. O adolescente respondeu que estava uma linda noite para morrer. O possível suicida monopolizou a conversa. Falava sobre a sua vida e os seus problemas. O Senhor Darwin só intervinha muito de vez em quando. para demonstrar que o ouvia com muito interesse. Não podia estar menos interessado em saber da vida e dos problemas do adolescente. Devia era ir-me embora e deixá-lo saltar se quisesse. A sua consciência ridícula é que o não o deixava fazer isso. Olhou para o relógio e não gostou do que viu. Já devia estar a dormir há várias horas. Vou chegar com sono à reunião. O adolescente não se cansava de falar sobre a sua vida. Ainda por cima, tinha uma queda para os detalhes que o Senhor Darwin escusava mesmo de ouvir. Enquanto procurava fazer um ar sério e interessado, um pensamento ocorria-lhe frequentemente: cala-te e atira-te de uma vez. O massacre do Senhor Darwin continuou pela noite toda. Quando o sol já começava a nascer e um ou outro transeunte passava pelos dois, o adolescente saiu do muro. Disselhe que ia voltar a casa e talvez os seus problemas não fossem tão graves como pensava. Sem mais (nem uma palavra de agradecimento), afastou-se. Já não há maneira de chegar a horas à reunião.

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O Atropelamento
O Senhor Darwin atropelou uma menina que passou a correr à frente do seu carro. Imediatamente, acelerou o carrou para fugir, mas parou o carro alguns metros à frente. O que estou a fazer? Fugir do acidente dava prisão. Se acontecesse algo de muito mau à menina, poderia ter de passar umas férias muito prolongadas com o céu aos quadradinhos. Primeiro o problema, depois a culpa. Até porque se o resolver ou minimizar, a culpa será menor. Recuou o carro. Viu como a menina estava (não parece muito grave) e telefonou para o número de emergência. Aconselharam-no a esperar pela ambulância e a não fazer mais nada. Várias pessoas apareceram para fazer companhia à criança. Agora podia tratar da segunda questão mais importante. Foi então beber água em quantidades industriais num café perto do acidente enquanto a polícia não vinha. De certeza que me vão fazer um teste ao meu nível de álcool no sangue. Ele tinha bebido uma ou outra cerveja antes de meter no carro. Talvez estivesse dentro do limite legal, mas por via das dúvidas.

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O Senhor Newton

Um Passeio Interrompido
O Senhor Newton costuma dar longos passeios a pé ao anoitecer. Um desses passeios foi interrompido por três assaltantes. Não resistiu, mas olhou fixamente para os três assaltantes. Um deles não gostou do olhar do Senhor Newton e deu-lhe dois sopapos para ele se meter no seu lugar. Depois do assalto, o Senhor Newton notou que tinha perdido dois botões da sua camisa devido aos dois sopapos. Foi a casa mudar de camisa. A seguir a verificar num espelho se o seu aspecto estava impecável, foi à polícia fazer queixa dos assaltantes. Não só fez queixa como deu uma descrição muito apurada dos assaltantes – o Senhor Newton tem muito orgulho da sua memória fotográfica. Com isso, foi fácil identificar e capturar os assaltantes. Finalmente, prestou declarações em tribunal. Os assaltantes tiveram de fazer uma pausa prolongada na sua actividade profissional.

A Bolsa
O Senhor Newton é um investidor em acções, para grande admiração dos seus conhecidos e amigos. À partida, para eles, uma pessoa tão certinha como o Senhor Newton não tinha nada a ver com uma coisa tão caótica como a bolsa. No entanto, o mais surpreendente não era isso – o Senhor Newton não só investia como tinha sucesso. Primeiro, pensaram que era sorte de principiante. Passado algum tempo, tiveram de mudar de opinião. A mudança de opinião foi de tal forma que passaram a seguir os conselhos do Senhor Newton apesar de serem muito esquisitos. O Senhor Newton tinha uma relação de quase indiferença com o mercado de acções. Definia à partida o preço que estava disposto a pagar e quais os critérios que a empresa tinha de satisfazer. Como o preço que definia era muito baixo, somente quando o mercado vinha por aí abaixo com o pânico generalizado dos investidores comprava. Na prática, o Senhor Newton quase só comprava acções quando ninguém as queria. Por vezes, as acções continuavam a descer, mas o Senhor Newton não perdia o sono por causa disso. Acreditava que as acções das empresas valiam claramente mais do que o preço pago. Cedo ou tarde (por vezes, muito tarde), as acções subiam e ele vendia quando todos queriam comprar.

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O Senhor Newton não compreendia porque as pessoas compram acções caras quando elas estão a subir – e não estava interessado em saber. Bastava que lhe comprassem as acções claramente mais caras do que ele as tinha comprado.

Nadar
O Senhor Newton notou aos vinte e tal anos que não sabia nadar. Nunca tinha sentido a necessidade nem os seus pais – sempre tinha morado longe do mar ou de um rio. Foi ler um livro sobre o assunto onde lhe diziam quais os movimentos necessários para nadar e outros detalhes. Por via das dúvidas, leu outro que também dizia a mesma coisa. Depois, foi a uma piscina onde tinha pé (numa hora de pouco movimento, por razões evidentes). Entrou na piscina e seguiu os conselhos dos livros. Quase imediatamente, começou a nadar – um pouco atabalhoadamente, mas a nadar. Alguns dias depois, foi nadar a uma piscina onde não tinha pé.

Espontâneo
Um dos desgostos do Senhora Newton é o seu marido ser previsível em termos românticos. Por outras palavras, o Senhor Newton não a surpreende, o que mata o romantismo. O Senhor Newton gosta de ser como é: pouco ou nada espontâneo – tudo a horas e essas coisas todas. Porém, compreendia a necessidade da Senhora Newton – a imprevisibilidade de algumas demonstrações de afecto da sua parte daria outro colorido à vida da senhora Newton. Pensou um pouco e começou a fazer uma lista de actividades românticas: 1. Ida ao cinema; 2. Bilhete com poema; 3. Presente; 4. Beijo num local pouco habitual; 5. Jantar num restaurante. Não se lembrava, de momento, de mais actividades românticas. No futuro iria expandir a lista. Para além de saber o que fazer, existia outra questão importante a resolver: quando? Depois de pesar vários factores, considerou que essas actividades românticas deveriam suceder mensalmente. O problema é que a Senhora Newton é inteligente. Deste modo, notaria que as actividades não eram espontâneas se fossem demasiado regulares. 25

Resolveu o problema, fazendo um pequeno programa em algumas dezenas de minutos – foi instalado no seu telemóvel. Assim, bastava activar o programa todos os dias – existia uma hipótese em trinta de o programa responder que era dia de uma actividade romântica espontânea.

Morte
A atitude do Senhor Newton em relação à morte é do tipo qui será, será. Ele pensa que a morte está fora do seu controlo e não dedica muita atenção a ela. Se está fora do meu controlo, porquê preocupar-me com ela?!... Claro que o Senhor Newton se preocupa sobre o que está na sua área de influência: tem cuidado com a alimentação, faz exercício e todas essas coisas. Ele gosta de viver. Se tem de ser, que seja mais tarde do que mais cedo.

Relojoeiro
O Senhor Newton estava farto do emprego que tinha. Não gostava do que fazia. E, ainda por cima, as chefias não eram de fiar: diziam uma coisa e faziam outra; a sua intenção principal parecia ser sempre espremer mais. Porque é que continuo neste emprego? A razão era muito simples: o Senhor Newton necessitava do ordenado ao final do mês, o que era inconveniente para não dizer mais. Imaginou-se a dormir na rua - não era um dos seus objectivos de vida. O Senhor Newton é um amante da previsibilidade, mas não a todo o custo. O seu emprego de então passava das marcas. O que fazer? Inicialmente, procurou um novo emprego. As poucas alternativas que encontrou eram do mesmo nível ou pior do que o seu emprego actual. O mercado de emprego estava pelas ruas da amargura com a crise de então. Podia continuar naquele ram ram até mais não, mas estava fora de questão. Sem ser mudar de emprego, a única alternativa que se lembrou era transformar o passatempo (conserto de relógios mecânicos) num negócio. Haverá mercado para o conserto de relógios mecânicos num mundo digital? Ele não sabia e detestava procurar clientes. Mas para grandes males, grandes remédios. A experiência deu resultados devagar, mas deu. Um dia, o Senhor Newton deu um grande salto: deixou o emprego, visto que o número de clientes não permitia conciliar tudo. Mas uma coisa era certa, do ponto de vista do Senhor Newton: mesmo que aquela experiência tivesse terminado mal, tarde ou cedo, ele arranjaria outra forma de zarpar. 26

O Bolo
O Senhor Newton olhou para o bolo que tinha acabado de comprar. Nesse momento, tornou-se claro que era “escravo” dos seus “eus” futuros. Grande parte do tempo que passava acordado, dedicava-o às necessidades dos Senhores Newton do futuro e não ao do presente. Era estudar para ter um bom emprego. Poupar para isto e para aquilo. Sempre um futuro, mais ou menos, distante. Olhou para o bolo que estava nas mãos. Tinha-o comprado há algumas dezenas de segundos para o Senhor Newton daquele momento. Abriu a boca e deu a primeira dentada … e gostou do bolo.

Perna Partida
O Senhor Newton estava estatelado no chão. A sua perna direita não lhe doía, mas tinham-lhe sido exigidas coisas pouco habituais na queda. Assim, começou a mexer na perna com as duas mãos, desde do pé até à anca. A dado passo, notou que o osso abaixo do joelho tinha um ligeiro alto que não lhe parecia habitual. Não tinha a certeza de existir algum problema, porque não tinha o hábito de mexer nas sua próprias pernas – preferia mexer nas da Senhora Newton. Por via das dúvidas, pegou no telemóvel e marcou o número de emergência médica. Com toda a calma, explicou a situação a quem lhe atendeu. Este julgou que era uma brincadeira do Senhor Newton, já que a sua voz não transmitia qualquer angústia – ele gosta de manter um aspecto calmo mesmo em situações difíceis. Após lhe terem dado um pequeno sermão à volta de “não brincar com recursos que podem salvar vidas”, desligaram-lhe o telefone na cara. A seguir, tentou levantar-se, mas uma dor como poucas vezes tinha sentido levou-o a desistir da ideia. Pegou outra vez no telemóvel e marcou outra vez o número de emergência médica. Desta vez, esforçou-se por colocar alguma angústia na sua voz. Disse que já tinha telefonado e não o tinham levado a sério. Salientou a dor que tinha quando se tentava levantar. Acreditaram nele. Disseram para não se mexer e aguardar pela ambulância. Para o Senhor Newton dava mau aspecto estar de fato e gravata no chão de uma rua movimentada. Alguns dos transeuntes concordavam com ele pela cara com lhe olhavam, pensou o Senhor Newton. No entanto, valores mais alto se tinham levantado. Era engraçado. Tanto os paramédicos da ambulância como o médico que o atendeu no hospital não acreditaram que ele tivesse alguma coisa à primeira vista. Parece que tenho de colocar sumo de tomate por cima da perna para me tomarem a sério. 27

Uma radiografia da perna tirou quaisquer dúvidas sobre a necessidade de intervenção médica.

O Suicida no Arranha-Céus
O Senhor Newton conversava com um suicida no topo de um arranha-céus. Pelo andar da carruagem, a conversa ia terminar com um mergulho até à calçada. O Senhor Newton reconhecia que o suicida tinha problemas sérios. No entanto, não seria o suficiente para o Senhor Newton considerar seriamente o suicídio – cada um é como cada qual. Ele era um eterno optimista, pensando sempre que a situação vai melhorar mesmo quando estava a pior. Dessa forma, continuava a lutar até os resultados aparecerem. Aquela até nem era uma fase brilhante da sua vida. Estava mal de finanças – nem tinha dinheiro para pagar a sua parte numa ida ao cinema com a futura Senhora Newton. O emprego de segurança naquele arranha-céus era o melhor que tinha encontrado nos últimos tempos – estava à espera do primeiro salário. Se comparasse com os seus anteriores empregos, até era bem pago. Isto se não contasse as situações esquisitas que encontrava enquanto segurança – a do suicida era só mais uma. O Senhor Newton não gosta de surpresas. Por ele, ficava a noite inteira a conversar com o suicida, na esperança que visse a vida sobre um prisma mais agradável. Nada do pouco que tinha dito parecia ter efeito – as coisas podem melhorar, blá, blá e assim por diante. O Senhor Newton sabia que o salto no vazio estava por momentos. Pensava em agarrar e dominar o suicida para o salvar – estava próximo dele, mas não o suficiente para garantir o sucesso. O suicida era pequeno e não corria grandes riscos de ser arrastado por ele. A grande questão era como conseguir agarrá-lo antes de ele saltar – o suicida estava decidido a conhecer o sabor da calçada à volta do arranha-céu de uma forma imprópria para os seus órgãos e ossos. É agora ou nunca. O suicida tinha fechado os olhos. Para o Senhor Newton, estava a concentrar-se para o seu último salto – tinha razão. Quando o apanhou, já estava todo no ar. Felizmente para o Senhor Newton, o suicida ficou surpreendido e sem reacção por alguns breves momentos. Quando reagiu, já o Senhor Newton o tinha arrastado para dentro do arranha-céu. O suicida continuava a resistir muito para além do que o Senhor Newton considerava razoável – já não tem hipóteses de saltar. Do ponto de vista do Senhor Newton, era uma grande falta de consideração do suicida utilizar os seus dentes para marcar a sua pele. Deu-lhe uma valente estalada para ele se acalmar. Colocou-o no chão numa posição assaz incómoda. Com a mão livre agarrou o rádio que trazia à cintura e chamou os restantes seguranças. 28

Not on my watch.

A Conversa
Ele não se cala. O Senhor Newton já não conseguia ouvir mais o Senhor Mercado. Isto passa das marcas, apesar de ser amigo do Senhor Mercado. Poucas coisas são uma constante na vida do Senhor Mercado. Uma delas é um clube de futebol chamado Benfica. Ele sabe mesmo tudo o que há a saber sobre essa equipa – até os mais pequenos detalhes sobre a carreira do pior jogador do clube. Tudo corre bem, quando o Senhor Mercado está a falar com um ou mais fanáticos do Benfica. É uma bela conversa interminável para todos Quando a pessoa do outro lado não se interessa pelo Benfica ou é um adepto normal, a conversa transformasse num intermiiiiinááááááveeeeeeeeeeel monólogo. Agradável para o Senhor Mercado e desagradável para a vítima de serviço. O Senhor Mercado não repara no sofrimento da outra parte devido ao seu entusiasmo sobre o assunto. O Senhor Newton era a vítima de serviço naquele momento. Não queria ser maleducado, interrompendo ou mudando a conversa de repente. Fazia os sinais possíveis e imaginários para o Senhor Mercado perceber por si próprio a situação. Por exemplo, olhava frequentemente para o seu relógio e o seu corpo apontava para a saída. Nada. Estava a momentos de o mandar à fava o Senhor Mercado, o menos violentamente possível. Lembrou-se de tentar mudar devagar o assunto da conversa. Para onde a conversa pode mudar? Uma das direcções possíveis era para baixo. Falar ainda sobre detalhes mais ínfimos do Benfica. Fora de questão incentivá-lo ainda mais. Outra hipótese era para o lado. Ou seja, mudar o assunto para outra equipa Também não gostou. A hipótese final era subir. Por outras palavras, fazer comentários que levassem a conversa para assuntos mais gerais. Havia potencialidades nessa via – o Senhor Newton sorriu para si próprio. Começou por fazer um comentário negativo sobre a direcção da liga onde o Benfica participava. O Senhor Mercado não podia concordar mais. “Pois, o dinheiro dos patrocínios da Liga é mal distribuído. O Benfica é claramente prejudicado.” O Senhor Newton depois salientou um aspecto interessante do principal patrocinador da Liga. A conversa fixou-se à volta do patrocinador, o que já era suportável para o Senhor Newton. Tenho de experimentar esta táctica com determinada conversa com a Senhora Newton.

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O Encontro
O Senhor Newton tinha sido arrastado para o encontro da sua esposa com algumas amigas. Ele tentara escapar, mas daquela vez não tinha sido possível. Por alguma razão que lhe escapava, a Senhora Newton adorava que fosse com ela a alguns desses encontros. Quase sempre era o único homem nos poucos encontros a que ia – deve-lhe dar estatuto conseguir que eu venha. Ele julgava que já tinha percebido a lógica daquelas reuniões. A sua esposa e as amigas reuniam-se para falar da sua vida e partilhar as suas emoções – que mal fiz eu a Deus para estar aqui? Era um ritual curioso. Cada uma falava da sua vida recente. As amigas escutavam e diziam que percebiam o que sentiam. Não pretendiam resolver nada. Aquilo é um fim em si mesmo?!!!... Claro que com o Senhor Newton presente não falavam dos assuntos mais quentes. Isso estava reservado para reuniões à porta fechada. E para ele era bom que fossem muito fechadas. Ninguém esperava que o Senhor Newton falasse muito – o que se espera de um homem? Ele procurava mostrar uma cara de interessado e compreensivo em relação aos problemas existenciais de que falavam. De vez em quando, lançava uma ou outra palavra de suposto encorajamento a mais conversa. A dado ponto, lá apareceu um assunto que lhe interessava. Uma das amigas era professora no secundário. Falava que um novo aluno era um grande problema para ela e os seus colegas. Já o tinham castigado de todas as formas e feitios legais, mas nada parecia fazer efeito. A escola ia criar uma equipa de futebol. Como o aluno gostava muito de jogar à bola (era também bom jogador), ela e os seus colegas (na sua maioria mulheres) estavam a pensar em proibi-lo de jogar na equipa. Só quando ele se portasse bem é que poderia jogar. Quase imediatamente, todas concordaram que o aluno era um diabo à solta e devia ser metido na ordem. O Senhor Newton limitou-se a fazer um olhar compreensivo. Sem saber, ele discordava em toda a linha de castigar mais o aluno. Mas aquela reunião feminina não era para discutir soluções. Mais tarde, iria procurar falar a sós com a professora amiga da Senhora Newton. Se ele gostava e era bom a jogar à bola, deviam condená-lo a jogar à bola. Enquanto joga e treina, não chateia ninguém. Aumenta-lhe a auto-estima e desvia-lhe a atenção do conflito com ela e os outros professores. Se se concentrarem no mau comportamento dele, é isso que vão encontrar mais.

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O Fim-de-Semana
O excelente fim-de-semana tinha acabado e deixou uma sensação de vazio para o Senhor Newton e a sua esposa.  Agora era voltar à realidade e deixar o ar puro, as magníficas paisagens, a piscina ao ar livre e todas as mordomias de um hotel de cinco estrelas. O Senhor Newton tinha ganho o fim-de-semana num sorteio. Não era seu hábito participar nessas coisas, mas o número para o sorteio acompanhava o jornal que normalmente comprava sem aumentar o preço. Assim, guardou o número. Nunca se sabe. O fim-de-semana podia ser gozado quando quisessem num período de vários meses. Apesar de preferirem o fim-de-semana com bom tempo, o Senhor Newton e a esposa preferiram adiá-lo ao máximo. Imaginar o bom fim-de-semana que iam ter, era já uma boa recompensa – pretendiam que a sensação durasse o máximo possível.

O Jogo de Basquete
O Senhor Newton tinha feito uma equipa para o campeonato interno de basquetebol da sua escola. A equipa tinha hipóteses de vencer o campeonato por ter vários bons jogadores, entre os quais a vedeta suprema da escola. O próximo jogo era decisivo. Era a última partida do seu grupo e iam jogar com a única equipa 100% vitoriosa a par deles – só uma passaria à fase seguinte. Estavam muito optimistas. De tal forma, que tinham convidado colegas, amigos e familiares para assistir ao jogo. O jogo começou e rapidamente passaram a perder. Não era suposto, visto que eram claramente melhores jogadores do que os adversários. O problema é que a bola não sabia isso e teimava em entrar em demasia no cesto errado – a diferença continuou a aumentar. O Senhor Newton era jogador e treinador ao mesmo tempo. Era treinador porque era o pior jogador – passava muito tempo no banco. Ninguém ligava muito ao que ele dizia, mas tinha de fazer qualquer coisa. Pediu um desconto de tempo – a mesa de jogo ligava ao que ele dizia, felizmente. A vedeta suprema da equipa estava completamente descontrolada. Era um dos que tinha trazido mais gente para assistir ao jogo. Supostamente ia ser um jogo fácil, mas para o lado contrário. A vedeta não se calava: era “Vocês não jogam nada” para cá e “Vou-me embora” para lá. Nesses momentos, apetecia ao Senhor Newton dar duas boas estaladas à vedeta, mas desistiu da ideia. No mínimo, a vedeta iria embora, o que cimentaria a derrota. No máximo, levaria uma grande carga de pancada – a vedeta claramente maior e mais forte do que ele. 31

À pressão, propôs uma alteração táctica, mais para desviar a atenção do que outra coisa – a vedeta não disse mais nada. O base da outra equipa estava a jogar e a marcar muito. Iam passar de zona para box-and-one. Ou seja, um deles ia passar a defender homem-ahomem o base da outra equipa. “Está onde ele está. Se ele for à casa-de-banho, vai atrás dele.”, disse o Senhor Newton ao jogador que o ficou a marcar. Até ao intervalo, a diferença estabilizou. Depois do intervalo, a diferença foi diminuindo devagar, mas na direcção certa. A vinte segundos do final empataram. Felizmente que a outra equipa não conseguiu marcar nos segundos finais. A partida seguiu para prolongamento. A outra equipa foi-se abaixo psicologicamente – nunca tinha estado a perder num tempo regulamentar da equipa. Ganharam um jogo. Secretamente, o mais contente foi o Senhor Newton: passaram-no a ver como uma mais valia no banco. Ou seja, era um verdadeiro treinador e não alguém que ocupava o lugar porque era o pior jogador. Os grandes homens erguem-se à altura das grandes situações, pensou o Senhor Newton com alguma falta de modéstia.

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O Senhor Said

O Armário
O Senhor Said gostava, enquanto criança, de ir para o armário do seu quarto. Para ele, o armário era como entrar noutro mundo onde podia, por exemplo, voar com a força do pensamento. Ele gostava de contar as suas aventuras que tinha tido no mundo do armário aos pais e aos seus irmãos. Tanto os pais como os irmãos ouviam as suas histórias, mas diziam sempre que o mundo do armário só existia na imaginação da sua cabeça. O Senhor Said acreditava que o mundo do armário era real. Era por isso que voltava a abrir o armário para regressar ao nosso mundo – a mãe não gostava que ele chegasse atrasado às refeições. Porém, deixou de acreditar que o mundo do armário era real depois de ouvir muitas vezes a opinião dos pais e dos irmãos. Apesar disso, ele continuava a gostar de ir para o mundo do armário. Um dia no mundo armário pensou o seguinte: se este mundo não é real, posso ficar nele sem regressar – quando for hora para almoçar, alguém virá buscar-me ao armário. Assim fez, e passou muito tempo no mundo do armário. Estranhando ninguém o vir buscar ao armário, voltou ao nosso mundo. Quando abriu o armário, verificou que o seu quarto estava ocupado para uma rapariga da idade dele que desconhecia. Mais tarde, soube que os seus pais e irmãos há muito que tinham mudado de casa.

Os Sonhos
Os sonhos estão para os feiticeiros assim como uma bola para um futebolista. É capaz de existir algum exagero mas não muito. Os feiticeiros como o Senhor Said sabem que os sonhos são reais como o livro que está a ler. Os nossos sonhos criam os nossos universos individuais tão reais como o que está ver e a tocar neste momento. Até um bebé sonha ainda na barriga da mãe. Cada vez que sonhamos, acordados ou a dormir, criamos e transformamos esse universo pessoal que continua a existir, mesmo no caso da nossa morte. Dito de outra forma, cada novo sonho acrescenta algo e modifica o que já existe. Nenhum desses mundos é exactamente igual e são tão característicos como as impressões digitais para cada um de nós.

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Um verdadeiro feiticeiro entra facilmente no seu mundo de sonho. Alguns feiticeiros gostam de ser mágicos de palco e fazer desaparecer os coelhos, os pombos e tudo o que quiserem. Depois, é só ir buscar o que se lá colocou com uma mão sobre um qualquer pano preto. É mais difícil, mas também é possível aceder a mundos de outras pessoas – normalmente, é necessário estar ao pé da pessoa em causa. Todavia, quanto maior for o número de vezes que entraram no mundo de outra pessoa, mais fácil é. A norma são os mundos dos sonhos de cada um estarem isolados, mas nem sempre é assim. Pessoas próximas podem ter contactos entre os seus mundos de sonho. Isto é, fazerem fronteira entre os seus mundos, de forma que é possível passar de um para o outro lá dentro. Em casos mais raros, os mundos fundem-se em parte. Uma das razões para isso são as pessoas partilharem um ideal com muita força. Outra hipótese é partilharem de experiências dolorosas durante algum tempo.

Remix da Realidade
O que faz um mago como o Senhor Said? Em poucas palavras, ele muda a realidade com os seus pensamentos, imaginação e vontade. A forma mais espectacular é, talvez, a transformação de algo noutra coisa qualquer – por exemplo, uma pedra numa flor. Pode ser algo mais fácil como deslocar uma coisa de um lado para o outro ou, mesmo, levantá-la no ar. Para fazer o que um feiticeiro faz é necessário ir para o outro lado da cortina. Por outras palavras, ver o que se passa por detrás do “palco” para depois alterá-lo. Quando mais poderoso é o mago, mais a sua visão da realidade se aproxima do que ela é. Muitas pessoas não são feiticeiros devido à forma como pensam a realidade. Julgam que a realidade é pouco ou nada maleável, o que os impede de serem feiticeiros. A realidade não é como a maioria de nós a vê. Tudo o que existe (o livro que está a ler, as pedras, as flores e o seu corpo), é informação, energia e espaço vazio. Alguns mais místicos dirão mesmo que tudo o que nos rodeia é já espírito que julgamos ser matéria. O Senhor Said quanto a esta última opinião é neutro. Se pegarem num livro actual de física irão verificar que os nossos corpos são constituídos por moléculas. O espaço que é ocupado pelas moléculas é, essencialmente, vazio com alguns átomos pelo meio. O mesmo acontece com essas partículas e assim por diante. O diamante mais duro do mundo é espaço vazio, apesar de sentirmos a dureza quando o tocamos. O mesmo se passa com os nossos corpos, sendo energia e informação que dá a forma. Julgamos que existe uma fronteira clara entre os nossos corpos e os objectos que tocamos. Isso não é verdade. Sempre que tocamos num objecto existe, em pequena 34

escala, uma troca. Queiramos ou não, qualquer um de nós é já um pequeno feiticeiro. O que o Senhor Said faz é aumentar o fenómeno de uma forma consciente.

Fantasmas e Demónios
O Senhor Said gosta de ser um feiticeiro. É uma actividade com muitos aspectos positivos. Infelizmente para ele, também tem alguns aspectos negativos ou, pelo menos, mistos. Um verdadeiro mágico começa a ver o universo de uma forma diferente do comum dos humanos. Por outras palavras, começa a ver coisas que as pessoas mais comuns não vêm. Duas delas são fantasmas e demónios. O mundo não está cheio de fantasmas e demónios, mas tem alguns. Os fantasmas dividem-se, fundamentalmente, em dois grupos. Um dos grupos são as pessoas que morreram violentamente e/ou tem algo importante ainda a fazer, normalmente, por remorsos. O outro grupo é constituído por pessoas que apreciam a “vida” nesse estado. A maioria dos fantasmas desaparece algumas horas depois da sua morte, partindo para um lugar desconhecido para Said e outros feiticeiros. O Senhor Said chama “demónios” aos demónios por falta de melhor palavra. Na realidade, não sabe se eles vêm do inferno, se é que tal sítio existe. Os demónios parecem ter como principal objectivo na “vida” possuir humanos, o que para ser particularmente desconfortável. Felizmente para o Senhor Said, não tem conhecimento em primeira mão desse fenómeno O pior que um feiticeiro pode fazer quando vê um fantasma ou um demónio é ficar embasbacado – é o que costumam fazer mágicos novatos. O Senhor Said, infelizmente, não foi excepção quando começou a ter capacidade para os ver. Alguns fantasmas, quando notam que um humano os vê, são uns chatos. Procuram de todas as forma e feitios que os humanos em causa lhes sirvam de mensageiros em relação aos vivos. Enquanto são um ou dois fantasmas, ainda é suportável. O problema é que a notícia tende a correr entre eles - e passam a ser muitos fantasmas a quererem que lhes sirva de correia de transmissão. O Senhor Said teve mesmo de migrar por alguns meses, para a situação acalmar. Os demónios dão mais problemas. Primeiro, não gostam que se saiba do seu controlo sobre uma dada pessoa. Segundo, gostam particularmente de possuir pessoas com poderes especiais como é o caso dos feiticeiros. O problema do Senhor Said com um demónio foi particularmente grave. Um demónio depois de notar que ele o via, passou a tentar, sem descanso, possuí-lo. De tal forma, que o Senhor Said teve de pedir ajuda a outro feiticeiro mais experiente (o Senhor Said não gosta de pedir ajuda a outros feiticeiros). Os dois conseguiram colocá-lo na ordem, ao aprisioná-lo numa garrafa enfeitiçado – o demónio não gostou da situação mesmo nada.

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O Senhor Said, com mais experiência, até acabou por fazer amizades com alguns fantasmas. De qualquer forma, aprendeu a olhar sem dar nas vistas aos fantasmas e demónios que via.

A Casa do Senhor Said
O Senhor Said é um feiticeiro que não gosta de dar nas vistas. Por um lado, algumas pessoas têm uma má imagem da magia, o que as pode levar a procurar prejudicar seriamente a integridade do feiticeiro em causa – é melhor ser um feiticeiro anónimo vivo do que um morto famoso. Por outro, existem sempre pessoas que o procuram levar a fazer actos, no mínimo, discutíveis. O Senhor Said não gosta de fazer coisas discutíveis. Mas mesmo que gostasse, os seus pais desaparecidos não gostariam, o que é motivo por si só para as não fazer. O Senhor Said gosta da casa que tem. É a casa de um verdadeiro feiticeiro, mas quem a vê de fora não faz a mínima ideia. Mesmo quem entre por uma das diversas portas de entrada da casa só nota algo estranho se atravessar diversas divisões. Após percorrer várias divisões, um qualquer visitante desprevenido da casa do Senhor Said acha a casa muito grande em relação ao que pensava antes de entrar. Outro facto perturbante para alguns visitantes é a casa ter escadas para um primeiro andar, que não vêem quando entram. Agora, o que coloca qualquer visitante fora de si é a vista de algumas janelas. Uns entram na casa através de uma porta na rua de uma grande cidade. Não esperam ver uma praia ou uma paisagem de montanha. O mesmo acontece a quem entra na casa por uma porta perto da praia ou numa montanha. A primeira reacção é, normalmente, pensar que tudo é uma ilusão criada pelo Senhor Said. Ele não costuma contrariar a primeira opinião dos seus visitantes. Porém, a alguns (muito poucos) permite sair por uma porta diferente da que entraram, para respirar o ar puro da montanha, caminhar pela praia ou ver a azáfama de uma cidade. O Senhor Said gosta da sua casa tal como ela é. Gosta de variar de vista, mas a principal razão não é essa. Ele gosta de poder viajar rapidamente para diferentes locais, o que a casa lhe permite. Outra coisa que o Senhor Said aprecia é não utilizarem a sua casa para o perseguirem. A sua discrição deve-se muito às tendências de fanáticos religiosos e governos, quando sabem da sua existência. Por exemplo, os governos acham sempre que os seus talentos devem ser colocados à sua disposição – a opinião do Senhor Said é claramente diferente. Assim, o Senhor Said tem sempre um feitiço à sua disposição para separar partes da sua moradia – as partes separadas não são mais do que casas banais que não levam a lado nenhum

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A Magia bem orientada começa em “casa”
Era uma vez um padre que dava um sermão. A dado ponto disse: “Levante a mão quem quer ir para o céu”. Toda a gente levantou a mão, com excepção de um senhor que estava sentado atrás de quase todos. O padre continuou o sermão. Passados alguns minutos, disse em voz grave: “Levante a mão quem quer ir para o inferno”. Ninguém levantou a mão. Quando acabou o sermão, o padre foi falar com o senhor que não tinha levantado a mão: “Então o senhor nem quer ir para o céu nem para o inferno”. Perante esta afirmação do padre, o senhor pensou um pouco e comentou: “Se o senhor não se importa, prefiro ficar por aqui mesmo”. Esta história não tem muita piada, mas mostra a posição do Senhor Said perante a morte. O Senhor Said sabe mais do que muitos sobre a morte. Ele sabe da existência de fantasmas e, portanto, que a existência continua após a morte. Mas prefere continuar por aqui vivo por umas quantas razões. Uma delas é, tanto quanto sabe, os fantasmas não conseguem, devido à sua falta de substância física, fazer diversas coisas que o Senhor Said aprecia particularmente. Uma ou outra dessas coisas envolve elementos do sexo oposto. Outra razão. é alguns fantasmas desaparecerem do mapa. O Senhor Said admite a possibilidade (e deseja) que tenham ido para melhor. No entanto, o facto é o Senhor Said não saber o que lhes acontece. Dessa forma, prefere continuar por aqui vivinho da silva. Assim, um dos principais alvos da sua magia é o seu próprio corpo, de forma a continuar jovem para sempre. A magia bem orientada começa em “casa”.

Paranóia
O Senhor Said é … digamos um tanto ou quanto paranóico. “Um tanto ou quanto” ´é capaz de ser um eufemismo. Ele é mesmo paranóico, embora de uma forma controlada. Não acredita que o universo está contra ele, mas tem uma lista negra de pessoas e outras entidades. Nessa lista estão as entidades que o Senhor Said pensa estarem contra ele ou que poderiam estar, se soubessem da sua existência. Uma coisa que considerou foi a adopção de uma doutrina de ataques preventivos da maior potência mundial. Depois de muito pensar, resolveu não a adoptar. Os ataques preventivos têm o defeito de os atrair para quem os faz - a lógica é, mais ou menos, a seguinte: se penso que vou ser atacado antes de fazer qualquer acto agressivo, ataco 37

primeiro. Pior a emenda que o soneto, pensou o Senhor Said quando chegou a essa conclusão. Para mais, algumas entidades na lista negra desconhecem que o Senhor Said existe, o que lhe agrada muito. Se os atacasse, seria natural que procurassem saber quem era o autor, o que aumentaria a probabilidade de saberem da sua existência. Uma perspectiva desagradável. Depois de abandonar a ideia dos ataques preventivos, o Senhor Said pensou mais um pouco. Uma ideia válida que lhe ocorreu foi espiar os membros da lista. Ele é um mágico, o que torna as coisas fáceis. O Senhor Said conseguiu ter objectos enfeitiçados nas casas e locais de trabalho da maioria dos membros da lista negra. Em grande parte dos casos, foram quadros ou molduras com fotografias. Isso permite ao Senhor Said ver e ouvir o que se passa nas divisões onde estão instaladas. Mas, para ele, o ideal é poder espiar os membros da lista negra onde quer que estejam. Um anel ou outro objecto pessoal qualquer servem esse propósito. Agora, o ideal dos ideais são uns óculos. O Senhor Said gosta de olhar para elementos bem proporcionados do belo sexo, mesmo que estejam vestidas. Acontece que gosta mais de olhar quando esses elementos estão com poucas ou nenhumas roupas. Ora sucede que a espionagem dos membros da lista negra lhe permitia ter muitas ocasiões para ver esses belos elementos do sexo oposto, tal como vieram ao mundo ou próximo. Algumas vezes, tem mesmo a oportunidade de ver essas senhoras a ter relações de carácter muito íntimo com outras pessoas. Uma das conclusões a que o Senhor Said chegou, ao ver esses elementos, é o ioga fazer muito bem às mulheres. Por ele, a prática de ioga deveria ser obrigatória e diária para elas. Ele reconhecia que tudo isso não invalidava que os propósitos iniciais da espionagem tivessem sido muito desvirtuados.

Um Feiticeiro Rancoroso
O Santo Graal do Senhor Said é descobrir um feitiço que lhe permita alterar o passado. Por enquanto, o Santo Graal é apenas uma miragem muito distante. Ele continha a persegui-la mas ela consegue manter as distâncias. Assim, o Senhor Said tem de enfrentar os erros do passado tal como nós. Ser um feiticeiro permite tomar melhor medidas para corrigir ou atenuar os erros do passado. O problema é que os erros de um mágico podem ter consequências muito desagradáveis para o próprio. O Senhor Said tornou-se num grande feiticeiro muito rapidamente. Junto a uma enorme confiança apareceu uma arrogância do mesmo tamanho. Julgava que podia fazer tudo o que lhe apetecia. Passou completamente das marcas (ele próprio reconhecia) com um mágico novato, que procurou ajustar as contas de uma forma definitiva para a saúde do Senhor Said. 38

Compreendia. E talvez procedesse da mesma forma, na sua posição. Mas não estava. O mágico novato não desistia, apesar de estar numa liga inferior à do Senhor Said. Voltava uma e outra vez com más intenções. O Senhor Said tentou falar com ele e chegou mesmo a propor-lhe uma indemnização. A resposta dele foi muito expressiva, apesar de não envolver palavras. O cântaro está a ir demasiadas vezes à fonte. Se o cântaro vai muitas vezes à fonte, acaba por se partir. De uma forma ou de outra, tinha de resolver o assunto. Uma opção era forçá-lo a despedir-se desta vida. Porém, tinha duas desvantagens desagradáveis. Uma delas era a possibilidade de não resolver o assunto – um fantasma pode ser perigoso como um ser vivo. A outra era aumentar ainda mais a sua dívida para com ele. Em alternativa à morte podia sempre provocar uma lesão permanente. Realmente, assim resolvia o problema. No entanto, contribuía para dever ainda mais – era mau para alguém já muito prejudicado. E consigo ser mais criativo do que isso. A solução era óbvia, depois de a descobrir: fazer um feitiço a simular a sua completa derrota no momento adequado. O novato poderia descobrir no futuro, mas seria num tempo distante e talvez lhe tivesse passado a sede de vingança.

O Jogo
O Senhor Said gosta de inventar jogos – é uma das suas actividades preferidas desde sempre. O tempo passa facilmente quando se está a procurar inventar novos jogos. Na escola primária inventou um, que os seus colegas de turma queriam jogar uma e outra vez. Nesse jogo, a turma era dividida em duas e dois infelizes ficavam para árbitros. As equipas ficavam frente a frente. Os jogadores não podiam fechar os olhos nem desviar o olhar da outra equipa. Quem fizesse isso, era expulso do jogo pelos árbitros. Qual era o objectivo do jogo? Fazer os jogadores da outra equipa rir com caretas e tudo o mais. Quem ria também era colocado fora do jogo. Ganhava a equipa que eliminasse todos os jogadores da outra equipa. Outra forma de ganhar era ter mais jogadores quando o intervalo das aulas acabava. Se tinham o mesmo número de jogadores, a partida continuava no próximo intervalo. Este era um jogo que o Senhor Said desejava não ter inventado. É um facto que gostava de jogar. Mas o problema é que se desmanchava facilmente a rir e assim ninguém o queria na sua equipa. Ou seja, o Senhor Said acabava por ser árbitro na maioria das vezes – ele não gostava de ser árbitro.

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O Mundo dos Sonhos do Senhor Said
O Senhor Said gosta de visitar o seu mundo dos Sonhos. E, no essencial, quer que esse mundo continue como é. Um lugar sossegado onde o Senhor Said pode estar sozinho com os seus pensamentos. É sempre de dia, mas a luz é suave. Apesar da inexistência de nuvens no céu, não se vê o sol em lado nenhum nem existem sombras. A luz surge do nada. O mundo de sonhos do Senhor Said é, no essencial, um mar de colinas sem fim. As colinas são cobertas por relva com poucas árvores à mistura. Não existem animais em lado nenhum. Muitos riachos sobem e descem pelas colinas do Senhor Said. Ele gosta de tomar banho nos riachos. A água está mesmo como o Senhor Said gosta: um pouco fria ao entrar, mas depois está óptima. Num dos muitos banhos do Senhor Said, ocorreu-lhe modificar a decoração do seu mundo de sonhos. Afinal, era o seu. Começou por colocar uma porção de água no ar. Agradava-lhe a possibilidade de mergulhar para dentro da água por baixo. Mas o que lhe agradava mais era elevar-se muito alto e mergulhar com toda a força, para depois sair por baixo. Outra alteração que fez foi colocar árvores com a respectiva terra à volta no ar. Algumas foram colocadas com a copa para baixo, só pelo gozo. Ficam bem no ar. Para além disso, ele podia sentar-se ao pé delas e ver o seu mundo de sonhos calmamente do alto.

O Sermão
O Senhor Said estava que nem podia. Já tinha dito à senhora que ela tinha razão e que o lugar era dela. Porém, ela não ocupava o lugar – preferia continuar a dar-lhe um sermão, como só os elementos do sexo feminino sabem dar. Estava pelos cabelos com tudo aquilo. A cena já demorava há algum tempo. Dois minutos? Três? O Senhor Said fez um feitiço para calar a senhora na sua presença. Era contra os seus princípios, mas ela falava e falava. Desgraçados dos outros que a aguentam. Talvez deva fazer um feitiço para a calar permanentemente? Não, é melhor não? Talvez seja uma chata só comigo? Duvido, mas não é da minha responsabilidade.

Privacidade em Público

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O Senhor Said gosta de não chamar as atenções. Por boas e más razões é um tanto ou quanto paranóico: acha que o mundo está contra se souber da sua existência. Ele procura que os seus actos de magia sejam muito discretos. De tal forma, que o mundo à sua volta nem sequer note os efeitos da sua magia. Quase sempre é assim. As poucas vezes em que não é assim, são um problema para o Senhor Said. Uma ou outra testemunha dos actos de magia do Senhor Said não são um grande problema por si próprios – quanto mais fantásticos são os seus relatos, menos credibilidade têm. O problema é que o mundo está, cada vez mais, cheio de telemóveis com máquina fotográfica e câmaras de vigilância por todo o lado. Ainda por cima, não só existem em maior número, como têm funcionalidades cada vez mais indiscretas. Por exemplo, infravermelhos que detectam mudanças de temperatura. O Senhor Said pode sempre lançar um feitiço para ocultar os resultados da sua magia. O problema é que isso tem de ser feito poucas vezes e com cuidado. Senão, a emenda arrisca-se a ser pior do que o soneto. Isto é, a chamar a mais atenção do que não tivesse feito nada. Por incrível que pareça para o Senhor Said, a melhor solução em algumas ocasiões é anunciar antecipadamente o suposto truque de ilusionismo. A partir daí, as pessoas não estranham muito e engolem facilmente quase tudo.

O Suicida na Ponte
Como é que me meti nisto? O Senhor Said estava no meio de uma ponte a procurar convencer um suicida a mudar de intenções. O trânsito estava quase parado, porque os condutores estavam curiosos quando ao desenrolar dos acontecimentos. Para mais, os condutores e os passageiros utilizavam os respectivos telemóveis para gravar tudo. Se isso fosse tudo, a situação seria muito desagradável para o Senhor Said. Os telemóveis gravam as suas feições e os efeitos visíveis de possíveis magias. A juntar a isso, as imagens podem ser transmitidas para outros telemóveis. Era o que alguns estavam a fazer em tempo real. A situação era mais do que muito desagradável. No ar estavam três helicópteros de diferentes estações de televisão, que transmitiam tudo em directo. Muitos milhões de pessoas estão a ver isto em directo?!!!  O melhor é acabar com isto o mais discretamente possível. O Senhor Said tinha alguns problemas em utilizar magia para forçar pessoas a procederem de uma determinada forma. Somente em casos de força maior – aquilo era um caso de força maior. Decidiu lançar um feitiço para forçar o suicida a mudar de intenções. Pode sempre suicidar-se mais tarde. Infelizmente para o Senhor Said, o suicida lançou-se no vazio antes que pudesse completar a magia. 41

A partir daí, apetece-lhe deixar de interferir nos acontecimentos. Se assim fosse, o suicida ganharia velocidade. De tal forma, que a água do rio pareceria cimento no momento do impacto. Seria o fim da história. Interferir ou não, eis a questão? Se tivesse mais algum tempo, era provável que não tivesse feito nada. O Senhor Said é um grande defensor de liberdade individual de cada um. O suicida parecia adulto. Se quer suicidar-se é lá com ele. Como não tinha tempo para pesar os prós e contras de interferir, concentrou-se no que fazer. Podia pará-lo no ar, mas estava fora de questão. Seria um “milagre” transmitido e revisto vezes sem conta por televisões em todo o mundo – os helicópteros garantiam isso. Decidiu rapidamente diminuir um pouco a velocidade do suicida. Não era o suficiente para o salvar, mas dava-lhe mais algum tempo de manobra sem dar nas vistas. Decidiu-se por uma magia incompleta de protecção. Não garantia que o suicida escapasse com vida da sua opção. Porém, o mais provável era partir uns quantos ossos na queda, mas nada que o impedisse de nadar até aparecer um barco de socorro. O Senhor Said confia em duas coisas. Primeiro, que o suicida sabia nadar. Segundo, que os seus instintos automáticos e inconvenientes de sobrevivência o forçassem a nadar, mesmo querendo morrer. Se uma das duas coisas não acontecesse, o suicida iria à vida. Eu já fiz mais do que normalmente faria nestas condições.

Acções com Significado
Na sua busca sem resultados dos pais e irmãos, o Senhor Said tinha encontrado algumas pessoas do seu passado. Uma dessas pessoas era a Senhora V. – a sua colega preferida na escola primária. Por algum tempo, considerou voltar a ter contacto com ela, mas optou por não Se contasse a verdade, passaria por doido ou mais uma pessoa saberia que era um mágico. Outra hipótese é passar por filho … neto de si próprio. Detestava qualquer das duas alternativas Mesmo assim, manteve-se informado sobre a vida da Senhora V. A dada altura reparou que ela estava muito deprimida. – era uma dona de casa com muito tempo nas mãos. Os filhos tinham crescido e ido à vida deles. O marido (que continuava a amar assolapadamente) era, crescentemente, frio e distante para com ela. Pior do que isso, ela passava o tempo a pensar na sua situação – o Senhor Said conseguia ouvir os seus pensamentos. O Senhor Said poderia lançar um feitiço para o marido da Senhora V a voltar a amar. Era fácil mas tinha dois problemazitos. Um deles era ser contra os princípios do Senhor Said interferir tanto na vida de outras pessoas – só em casos de força maior ou muito 42

suavemente. Um feitiço destes é radical. O outro, esse tipo de magia ser perigoso. Sabese como começa … e não se sabe como acaba. Por vezes, as consequências são muito desagradáveis. Mas tinha de fazer qualquer coisa. Já não aguentava ver o estado lastimoso da sua amiga. Fazer o quê? Do ponto de vista do Senhor Said, a situação dela até era boa – sem problemas de dinheiro e com muito tempo livre para fazer o que quisesse. As possibilidades são infinitas, mas ela só está concentrada na sua miséria: o marido não lhe liga e os filhos estão fora. O Senhor Said decidiu fazer um pequeno feitiço. Daqueles que não se notam, mas que podem resolver a questão sem grandes riscos. A magia compelia suavemente a Senhora V a fazer acções com significado para a própria. Ela pode estar imersa na sua situação. Mas agora, terá de sair da água. Passado alguns dias, a Senhora V inscreveu-se num curso de tecnologias de informação (a Internet e tudo isso). Os filhos ficaram admirados, mas os contactos com a mãe aumentaram. Um contacto virtual é melhor do que nenhum, pensou ela. Mesmo assim, tinha ainda muito tempo para matar. Inscreveu-se em cursos de línguas estrangeiras – não só tinha jeito como adorava estudá-las. A maioria dos estudantes eram muito mais novos do que ela. Para sua surpresa, interessavam-se pelo que dizia e convidavam-na para o café após as aulas. O marido reparou que ela andava diferente e bem disposta. Lentamente, o seu trato passou a ser mais próximo e quente. Agora o que ela passou a adorar foi as viagens ao estrangeiro com o marido. Ele era um ignorante quanto a línguas estrangeiras. Com o progressivo maior domínio das línguas, a Senhora V passou a tomar conta da situação nas viagens ao estrangeiro. O marido não gostava exactamente da situação no estrangeiro…mas o respeito e a relação melhoraram.

O Fantasma Chato
O Senhor Said já não sabia o que fazer para se livrar do fantasma. Ele tinha notado que o Senhor Said o via. Normalmente, após o primeiro erro, o Senhor Said resolvia o assunto com paciência, agindo como se não visse o fantasma. Por sistema, o fantasma chegava à conclusão errada que tinha sido coincidência ter julgado que o Senhor Said o via. No caso deste fantasma, não tinha tido calma para resolver a questão com paciência. Estava num mau dia e tinha procurado fugir dele. Má opção, visto que o fantasma se tinha colado a ele como uma lapa – os fantasmas não têm que dormir e passam por onde querem.

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A dado ponto, depois de fazer muitos erros sucessivos, o Senhor Said chegou à conclusão que ignorá-lo já não era uma opção viável. Começaram a falar os dois. Como sempre, o fantasma queria que o Senhor Said fizesse algo que não tinha feito em vida: revelar à sua esposa a existência de uma conta bancária na Suíça. Em troca, deixaria de o incomodar. O Senhor Said concordou, mas gostava das coisas bem feitas. Ou seja, fazer o trabalho de casa (por exemplo, saber o que a esposa fazia no presente) para saber se valia a pena revelar a conta. Vieram a saber que a antiga esposa do fantasma tinha casado outra vez, apenas alguns meses após a sua morte … e já estava grávida do seu novo marido. Está no seu direito, mas poderia ter esperado mais algum tempo. O fantasma abandonou a ideia de revelar a conta à sua antiga esposa. Quando a situação já estava mais calma, o Senhor Said apresentou-lhe uma sugestão. Podia não querer dar nada à sua antiga esposa, mas tinha dois filhos com ela. Porque não estabelecer um fundo para os filhos? O Senhor Said conhecia um advogado de confiança que poderia fazer isso com o dinheiro da conta suíça. O fantasma concordou. Depois de tudo estar feito, o fantasma comunicou que ia cumprir a sua palavra. Mas o Senhor Said pensou que o mal já estava feito: o fantasma saber da sua existência. Propôs ao fantasma que a relação continuasse enquanto os dois quisessem. Ele acompanharia, de vez em quando, os dois filhos do fantasma como só uma pessoa de carne e osso pode fazer. O fantasma poderia fazer alguns serviços para o Senhor Said indo a locais difíceis, mesmo para um feiticeiro como o Senhor Said. Foi o começo de uma bela amizade.

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