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A Paixão Segundo G.H.
adaptação do romance , r

de Clarice Lispector por Fauzi Arap

Cenários
um canto do palco, vemos a mesada cozinha, onde a personagem toma seu café, na primeira cena. Mas logo mesa e objetos deverão desaparecer, quando a ação se transfere para o quarto da empregada, onde acontece a maior parte da história. O quarto poderá dispor de paredes móveis, capazesde ilustrar a viagem alucinatória da personagem. E o armário do quarto, com sua barata invisível, também deverá ser mais que realista, permitindo assim algum truque ou revelação que acompanhe plasticamente o desenrolar dos fatos, ou da "ausência de fatos". Durante o processo vivido por G. H., a luz deverá pontuar toda a viagem. A certa altura, poderá revelar, ao longe, o deserto e os escombros que formam o horizonte da visão que a personagem tem da janela do quarto, e que emoldura parte de sua experiência.

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FALAR E DESISTE. POR ALGUNS MOMENTOS ELA ENCARA A PLATÉIA E FINALMENTE SE DECIDE.

G. H. ... estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender, tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi, eu não sei o que fazer do que vivi, eu tenho medo dessadesorganização profunda. Não quero me confirmar no que vivi, na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro. Eu não compreendo o que vi. E nem mesmo sei se vi, já que meus olhos acabaram não se diferenciando da coisa vista. Só por um átimo experimentei a morte, a fina morte que me fez manusear o proibido tecido da vida, e durante as horas de perdição eu tive a coragem de não compor nem organizar. E tive a coragem sobretudo, de não prever. Minhas previsões sempre tiveram o tamanho de meus cuidados, elas sempre me fechavam o mundo. Até que por

Cena 1 - A P cura ro
A LUZ REVELA UMA MULHER INQUIETA, CUJAS INICIAIS sAo G. H. ELA PARECE BUSCAR O QUE DIZER, PENSA EM

horas,eu desisti.E por Deus, tive o que eu não gostaria. Eu vi. Sei que vi porque não dei ao que vi o meu sentido. Sei que vi - porque não enten-

Fauzi Arap é ator e dramaturgo.

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A Paixão Segundo G H

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do. Seique vi - porque para nada serveo que vi e agoravou saberreconhecerna facecomum de algumaspessoas que elas esqueceram.E nem sabemmais que esqueceram que esqueceram o Como é que se explica que o meu maior medo sejaexatamenteo de ir vivendo o que for sendo?Como é que seexplica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se anteseu tivessesabido o queera? E porque é que ver é uma tal desorganização? E uma desilusão. Mas desilusão de quê?... Talvezdesilusãosejao medo de não pertencermais a um sistema. Até agoraviver erajá ter uma idéia de pessoae nessapessoaorganizada eu me encarnava...e nem ao menossentia o grandeesforçode construçãoque era viver. Ontem, no entanto,

que vi. O que vi arrebenta com a minha vida diária. E eu vou ter que ter a coragem de usar um coração desprotegido e ir falando assim... para o nadae para ninguém... como uma criança pensapara o nada. E correr o risco. Serápreciso coragempara dizer e me arriscar à enorme surpresaque vou sentir com a pobrezada coisa dita. E eu vou ter logo de acrescentar: Não! Não é isso, não é bem isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu que semprepreferi o menos ao mais também por medo do ridículo. Que eu tenha coragemde resistir à tentação de inventar uma forma, e a coragemde deixar que essa forma se forme sozinhacpmo uma crostaque por si mesmaseendurece,a nebulosa de fogo que se esfriaem terra. Vou criar o que me aconteceu.Só porque

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eu perdi, durante horas e horas essaminha
"montagemhumanà'...

vivernãoé relatável. Viver nãoévivível.Eu vou
ter que criar sobrea vida. E sem mentir. Criar,

O que eu era antes,não era bom. Mas
enquantoeu vivia presa,seráque eu estava contente?Ou havia, e havia sim, aquelacoisasonsae inquieta, aquela coisa latejando, a que eu estava habituada que eu pensava tão que latejar

sim,mentir não.Criar nãoé imaginação, coré
rer o granderisco de seter a realidade.Entender é uma criação,meu único modo. Eu vou precisar com esforçotraduzir sinaisde telégrafo,traduzir, e semsequerentender para que valem os

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eraseruma pessoa. não é ? É! É também,é E também...
Mas é que eu não sei que forma dar ao queme aconteceu.E sem dar uma forma, nada meexiste.E - sea realidadeé mesmo que nada existiu?! Quem sabe nada me aconteceu?Só

sinais.E falar nessa linguagem sonâmbula que seeu estivesse acordada serialinguagem. não
Os sinais de telégrafo. O mundo eriçado de antenas,e eu captando o sinal. Essacoisasobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticadopara torná-lo familiar.

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posso compreender queacontece sóacono mas
tece o que eu compreendo

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- queseido resto?

O restonão existiu. Quem sabenada existiu?! Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão e que, para eu ser verdadeira, tenho que continuar a não entendê-Ia. Todacompreensão súbita se parecemuito com umaagudaincompreensão. Não. Toda compreensão~úbita é fin~mente a revelaçãode uma :guda Incompreens~o. Tod? momento de achar e um perder-sea Si próprio. Talvez me tenha

Cena Dois - O Quarto da Empregada
Naquela manhã, antes de entrar no quarto da empregada,o que é que eu era?Era o que os outros sempreme haviam visto ser, e assimeu me conhecia.Poucoa pouco eu havia me transfo~madona pessoa tem o ~eu nome. E acaque bei send~o meu n.ome.~ s~~~ientever no couro das minhas valisesas iniCiaiSG. H., e pron-

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acontecido uma compreensão total quanto tão umaignorância, delaeuvenhaa sairintocada e e inocente comoantes.
Escuta,vou ter que falar porque não sei o que fazerde ter vivido. Pior ainda: não quero o

to! Também outroseu nãoexigiamaisque dos isso. Além do maisa psicologia nuncame interessou. feito escultura Ter duranteum tempo,
também me dava um passado um presente,o e que fazia com que os outros sesituassem.

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Da mesa onde me demorei porque tinha tempo. e de um cão. e desnudava mais em branco ainda asparedes caiadas.por negligênciaou desinteresse. preparame ra para ter que abrir a janela e limpar com ar frescoo escuro mofado. e atravessei cozinha que dá para a a áreade serviço. Na semanapassadaeu me diverti demais.me encosteià murada para acabarde fumar. Na paredecontígua à porta .eu já começaraa ter prazerno mero planejar.quaseem tamanho natural. o contorno a carvão de um homem nu. essa mulher. O traço era grosso.Eu estavaprocurando sorrir. como seestivesseno pico de uma montanha. tivessearrumado o quarto à suamaneira.. Que me servia para viver: no mundo eu podia ficar ali colando uma bolinha de miolo na outra. O que eu não contara é que ela. porque não?também ali poder-se-iapesquisarurânio e dali poderia jorrar petróleo.a nudez vinha apenas da ausência tudo o que cobre.. A lembrançada empregadaausenteme coagia. Levantei-meenfim da mesado café.Começariapelo fim do apartamento: o quarto da empregadadevia estarimundo. A miniatura da grandezade um panorama de gargantase canyons. O tempo todo. freqüentei demais.de tal modo ela acabara me de excluir de minha própria casa e olhando aquele desenho.eu não entrava ali. Jogueio cigarro aceso para baixo. e numa ousadiade proprietária o tivesseespoliado de sua função de depósito. ela me vinha como a se fosseminha visão que o deformasse. na área. foi numa deE Iasque vi o inesperadomural.e por issoeu ainda não tinha visto . E eu sorri. me odiara! De súbito. com o mesmo olhar inexpressivo minhas fotografias. constrangida.Eu de via o que aquilo dizia: aquilo não dizia nada.tudo o que quis. Olhei pra baixo: treze andarescaiam do edifício.Eu olhava a vista. O bojo do edifício era como uma usina. a empregada se despedira. Eu não sabiaque tudo aquilo já fazia parte do que ia acontecer. O prazerde arrumar a casame era tão grande. deixei vir a mim uma sensaçãoque durante aquelesseismeses. Durante seismeses sol permanentehavia empenado o o guardaroupa de pinho.e embora fosse essa ~uarealidadematerial. esperandoque nenhum vizinho me associasse ao gesto proibido pela portaria.esbarrei na visão de um quarto que era um quadrilátero de branca luz.Quis me lembrar de seu rosto e não consegui. e desejava agoraaqueledia exatamente como ontem ele seprometia: pesadoe bom e vazio. onde na sombra.malasvelhas.. (ELA FRANZE OS OLHOS. que era mais nu do que um cão. cheio de trapos. e há muito tempo meu apartamento não me pertencia tanto. Eram os conde tornos de uma nudez vazia.de repente me ocorria que ela me odiara. E TENTA PROTEG~-LOS COM UMA DAS MÃOS) Dois dos seus ângulos eram ligeiramente mais abertos.. feito de ponta quebradade carvão. Em vez da penumbra confusa.ia me dar o tipo de atividade que eu queria: o de arrumar. e assim com prazerir formando uma pirâmide. j j .Aquilo tudo era de uma riqueza inanimada que lembrava a da natureza:também ali. tive por demais de . com çuidado. Abri a porta. Eram quasedez horas da manhã. No dia anterior.jornais antigos e papeisde embrulho. Esperava encontrar escuridões. e recuei. Não ter empregada. O que me surpreendia é que era uma espécie ódio isento. avancei apenasa cabeçae olhei: não podia adivinhar sequeronde o cigarro caíra. não me deixarater: a do silenciosoódio eu daquela mulher. Depois me dirigi ao corredor escuroque finaliza o apartamento. duas portas se defrontam: a da saídade serviço e a do quarto de empregada.Ali. suponho que estaseja a minha única vocação. eu olhava em torno enquanto meus dedos arredondavamo miolo do pão.Nos corposnão estava desenhado o que a nudez revela. o pior ódio: o de I" . de uma mulher nua. Há cercade seismeses o tempo que ela ficara comigo . E eu recebiacom atençãoesse nada. Sempregosteide arrumar.sala preta r Foi ontem. Depois.que ainda sentada.eu crio e entendo ao mesmo tempo. O mundo era um lugar. sem me dizer nada.estavadesenhado. Ordenando ascoisas. o despenhadeiroo engolira em silêncio.

A simplicidade do aposentome desnorteava:na verdade eu não saberia sequerpor onde começar.. Mesmo dentro dele.E eu não sabiapor onde começara arrumar. Eu hesitava à porta.daqueleenorum me vazio. Mas ~ antes rasparia parede carvão. só sentir o cheiro quente e seco como o de uma galinha I r~ Hoje mesmo aquilo tudo teria que ser modificado.Empurreia cama maisprapertodajanela. Santo Deus? Não suportavacarregaro quê? Eu ainda não sabiaque já estava havendo os primeiros sinaisem mim do desabamento de cavernas subterrâneas. destruindo a cabeçapequenademaispara o corpo daquelamulherona nua..Eu olhava com repulsa e desalento.E depois. da o desincrustan.movera-se baratagrossa. nos espiandosem nos vermos. Dentro da brecha eu pus o quanto cabia do meu rosto. me perguntei também sena verEu dadenão fora eu.a rainha africana. como se ela representasse um paísestrangeiro. apagandoa palma exposta das mãos do homem. a estrangeira. que em suma. se não fora eu..um instante.É que apesar de já ter entrado no quarto. na maior repulsãode que eu já fora vítima: eu não cabia. limpo. meu coração embranqueceucomo cabelosembranquecem... eu continuava de algum modo do lado de fora. e procurei me apossar pouco mais daquele. Eu esquecio roteiro de arrumaçãoque eu traçara.e nem um ponto que pudesse consideradoo fim. O quarto me incomodava fisicamentecomo se no ar tivessepermanecido o som do riscar do carvão na cal seca. do primeirodesabamento abaixava cantos os de minha boca. depoiseu cobriria aquelecolchãode palha com um de meus próprios lençóis que tem minhas iniciais bordadas. era a primeira pessoa gar nos ombros . bem próximo de meusolhos.. na meia escuridão.ou mesmo se haviao que arrumar. Janair.o quê?. sópelosilênciocontrastanque te percebi que não havia gritado. O quarto não tinha um ponto que se pudesse chamar de começo. .viva. a Meu grito I penteaquele mundo inteiro queeu era.A Barata Abri um poucoa portado guarda-roupa o ese curo de dentro escapou-se como um bafo. O grito ficara me batendo dentro do peito. Era de um igual ser que o tornava"indelimitado.Eu queria matar alguma coisa ali.E que ali dentro de minha casasealojara.crispava-sede cansaço. A empregada. : ~' f Cena Três .. De encontro ao rosto que eu puseradentro da abertura.. E jogaria águae águaque escorreria rios em pelo raspadoda:parede. e como o escuro de dentro me espiasse. Como te explicar?Eis que de ree conseguiabrir a porta uns centímetrosa mais.Um chiado neutro de coisa era o que fazia a matéria do seu silêncio. a odiara daquelaforma. mas Havia anos que eu só era julgada pelos meusparese pelo meu próprio ambiente. que sem sequer a ter olhado. e me deixavade braçoscaídos. Carvão e unha sejuntando. eu não suportavamais carree foi tãoabafado.. carvão e unha. Eu não conseguiaver nada. mole.eram feitos de mim e para mim mesma. O que. antes de entender.O som inaudível do quarto era como o de uma agulha rodando no disco quando a faixa de música já acabou. indiferente. que ruíam sob o pesode camadas arqueológicas estratificadas. ficamos assim. Como seelenão tivesse bastanteprofundidade para me caber e deixasse pedaçosmeus no corredor. masa porta ficou presa pelo pé da cama onde esbarrava. (DE FORMA INCONCLUSA VAI INDICANDO AS Aç6ES QUE PRETENDE EXECUTAR) A primeira coisaque eu faria seriaarrastarpara o corredor aspoucascoisasde dentro. . um lençol lavado. do a facao cachorro. tranqüila e compactaraiva daqu~lamulher que era a representante de um silêncio. Então. E então jogaria no quarto vazio baldese baldesde água. . Não um ódio que me individualizasse apenasa falta de misericórdia. eu parecia ter entrado em nada.Tentei abrir um pouco mais.e o peso I realmenteexterior de cujo olhar eu tomava consciência.a inimiga indiferente.

dematar. em gratidão e timidez.há quinze séculoseu não morria . Aquelas figuras mãoespalmada vigiasà de eram entrada de um. - toda eu estiveracomo todo mundo em perigo masagora para poder sair. Faltavaainda. atentando à grandezade um instinto que era ruim.O medo me aprofundavatoda. sem nenhum pudor. Mas eu tinha que acreditar em mim . Como se pela primeira vez enfim eu estivesse ao nível da Natureza.eu já havia visto baratas que de súbito voam.o coraçãome batia quasecomo numa alegria. como um cegoauscultaa própria atenção. como se eu tivessecavadoe cavado com dedosduros e ávidos até encontrar em mim um fio bebível de vida que era o de uma ~ morte. Abri devagaros olhos.. atrás dos fios secos.os do sarcófago que me impediam de sair. Não. calculando. .uma e grandezamaior que eu. eu teria que fechar a porta! Minha mão rápida quis mover-separa fechá-Iae abrir caminho mas recuou de novo. seu (ELA PENSA EM SAIR) Ao tentar a saída. sim. a atençãoque nunca me abandonae que em última análisetalvez sejaa coisa mais colada à minha vida . Eu me embriagavapela primeira vez de um ódio límpido.sim! E me ocorreu que eram "eles".. e me embriagavacomo desejo.. Era parda. Mas viva! . E agoraeu entendia que a baratae Janair.o corpo \. comovida com minha entrega.sala preta Nada.há quinze séculoseu não lutava. Não fora eu quem repelira o quarto. em doçura agora. a fauna alada. Eu não esperava que numa casaminuciosamentedesinfetadacontra o meu nojo por baratas. Fiquei quieta. total e infinitamente doce . Eu tinha agorauma sensação irde remediável. era hesitantecomo se fosseenorme de peso.eram os verdadeiroshabitantes daquele lugar.. eu não arrumaria nada. a. num pudor de glória. atenta. eu estavatoda atenta.foi só aospoucos que percebi que eu não havia empurrado a porta com bastanteforça.sehavia baratas. a barata. como havia sentido à porta. Em mim um sentimento de grande esperahavia crescido. eu as reconhecia.a vida relutante foi aparecendo. Toda uma vida de atenção .Depois. e num só golpe fechei a porta sobreo corpo meio emergido da barata.e uma resignação: que nestaesÉ peraatentaeu reconheciatodasasminhas esperas anteriores. há quinze séculoseu não matava.masela continuavaviva.eles.eu estremecide extremo gozo. a verdade já me ultrapassara:levantei a mão como para um juramento. com suabaratasecreta. não foi nada! procurei me apaziguar. O quarto. que é me repelira. Ter matado abria a securadasareiasdo quarto até a umidade. comovida. É que lá dentro a barata se movera.não.quem sabe aquelaatençãonão era a minha própria vida? Foi então que a barata começou a emergir do fundo.. Hesitei em compreender. mesmoconscientede que era loucura acreditar num perigo inexistente. era da altura daquele quarto indelimitado.. a barata pudessedar um bote . chegarquasetoda Até à tona da abertura do armário.só que desconhecer-me não me impediria mais.Fiquei imóvel. eu tinha a responsabilidadealucinada de ter de saberdisso. Paraconseguir. em mim mesma. eu reconheciaa atençãode que também antesvivera. Sem nenhum pudor. enfim.aquele quarto tivesseescapado. Ter matado era tão maior que eu. sarcófago. Voltada para dentro de mim.toda uma vida de atençãoacuadareunia-seagoraem mim e batia como um sino mudo cujas vibrações eu não precisavaouvir. tentando esconderda barata a astúcia que me tomara . Antes o tremor anunciante das antenas. pela primeira vez eu estava sendo a desconhecidaque eu era . Abaixei os olhos. Eu recuara o dorso para trás como.Do sarcófago. grata.Estava agora quasetoda visível.tropecei entre o pé da cama e o guarda-roupa. Com os olhos fechadoseu tremia de júbilo. a empregada. E vi a metadedo corpo da baratapara fora da porta.como se enfim eu experimentasse. justificadoou não.Eu sabiaque tinha de admitir o perigo em que eu estava. se mesmo na sua extrema lentidão. A nova empregada que dedicasse primeiro dia de serviçoa. Havia prendido.e foi o que me revelou que eu estavacom medo.

e nem sequer lama já seca.. laboratório do inferno. para nos defendere para nos proteger. Ergui a mão bem alto como se meu corpo todo. Era isso? era isso. é preciso não esquecê-los. matéria prima e plasmaseco.Olhos de noiva.E eis que eu descobria que.Eu na verdade.mas lama ainda úmida e ainda viva. Os finos e longos bigodesmexiam-se lentos e secos. abriu-seem mim a larga vida do silêncio. G. um golpe final. a mesmaque estáno sol parado. nem mesmoem pensamento.eu rinhâ que ir. como preparado para a entrada de uma só pessoa.e o que eu via com um constrangimentotão penosoe tão espantado e tão inocente. Só tivera repugnânciapela sua antiga e sempre presente existência.e a fenda formava um amplo salãonatural. e no entanto sempreaparece mais uma casca. ela é formada decascas cascas e pardas. e mesmo intuindo que eu iria entrar no inferno da matériâViVâ. mais uma. barata inteira. mas eu não quero isso pra mim.O Quarto Desconhecido O quarto.. Duas baratasincrustadas barata. Era uma cara sem contorno.Abriuseem mim.. eu não quero ser uma pessoa viva! Tenho nojo e maravilhamento por mim. . . era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável asraízesde minha identi. E que seráa mesmaem mim! Se eu tiver coragemde abandonar. A boca marrom era bem delineada.era lama. dentro de uma lama .- A Paixão Segundo H. Olhei a boca: lá est. Eu sei. . Minha entradanele sefizera. aquelequarto que vibrava em silêncio. os regulamentose asleis. junto com o golpe do braço. o quarto desconhecido. Nu.Mas nunca a defrontara.E o outro olho igual.Ela era antiga como uma lenda. Era uma barata tão velha como salamandrase quimeras e grifos e leviatãs. A curiosidademe consumia.finas como asde uma cebola. Mas os olhos eram radiosose negros. masentão ela devia ser feita de camadas e camadas fInas de asas comprimidas até formar aquele corpo compacto. . Eu senti com susto e nojo que "eu ser" vem de uma fonte muito anterior à humana.com uma lentidão de portas de pedra.Mas é que eu já não podia mais me amarrar.Perdoaeu te contar tudo isso. Como empoeirado que me olhava.abandonarmeus sentimentos? eu tiver coragemde abandonar Se a esperança. As antenas saiamem bigodes dos lados da boca. eu chegara profunda incisãona pareà de que era aquele quarto .eu nunca tinha mesmo visto uma barata.A primeira ligação já se tinha partido. Era uma barata tão velhacomo um peixe fossilizado. Eu nuna catinha visto a boca de uma barata. O olho franjado.1va boca real.Cada olho em si mesmopareciauma barata.eu caindo séculose séculos.vivo e desempoeirado. o que eu via era a VIDA me olhando. Ali estava eu boquiaberta diante do ser Cena Quatro . A entradasó tinha uma passagem estreita: pela barata.E na minha grande dilatação.enquanto eu recuavapara dentro de mim em náuseaseca. então. eu estavano deserto.Seusolhos pretosfacetadosolhavam. apesarde compacta. Eu tinha que cair na danaçãode minha alma. Como chamar de oUtro modo aquilo horrível e cru. e eu me despregavada lei. as vibraçõesde seusguizosde cascavel deserto. foi então que vi a carada barata. também fosse cair em peso sobre a porta do guarda-roupa. Então abri de uma só vez os olhos! E vi em cheio a vastidão indelimitada do quarto.é precisonão esquecer defendê-losseme pre.então! É que na barata viva eu descobriraa identidade de minha vida mais profunda.como se cada uma pudesse levantaser dapelaunha. e cada olho reproduzia a na " dade.. precisonão esquecer sem é que regulamentose leis também não haverá a ordem.Atrano vésdela.que ali estava. e com horror.Mas foi então...Olhei-a com aquelasua bocae seusolhos: pareciauma mulata à morte. muito maior que a humana.A barata e que enchia de vibração enfim aberta. Talvez as cascas e fossem asasas. escuro.enfim.a mesmaque está na barata. lama grossalentamente brotando.

enfim o corpo.. meu amor. j j vivo. a matéria grossaesbranquiçada. Era um deserto que me chamavacomo um cântico monótono e remoto chama. Dentro de mim eu já recuaratanto que . Não ter forças para lutar era meu único perdão. na parede.. lenta. A vida. o primeiro grito ao nascerdesencadeia uma vida. ascriaturas:eu e a barataviva. Eu estava sendoseduzida.a forma da barataia semodificando à medida que ela engrossava para fora. pOIS arrastamos que saempara fora do mundo possível. tou indo paraum infernodevidacrua. Grite! repeti inutilmente. cresciapara fora como de uma bisnagade pasta de dentes.e ao úmido. não só eu não compreendia.meu último reduto. estava VENDO.toda uma civilizaçãoque tem como alicerceo salvar-se. Se eu gritassedesencadearia a existência. eu estava saindo do MEU mundo e entrando NO MUNDO. se apaziguava. Se eu gritasse ninguém poderia fazermais nadapor mim.o ser excepcionalé arrastado. E era como se a essasolidão chamassem de glória. Não se pareciacom a solidão de uma pessoa. eu no entanto lutava como podia contra asareiasmovediçasque me sorviam: mas cadamovimento que eu fazia para "não..Eu sinto quetudo issoé antigoe amplo. é uma grandesedução onde tudo o que existeseseduz.E ia para essa loucura promissora. Grite! Grite! me ordenei quieta. Eu chegara nada. Mas seeu gritasse uma só vez que fossetalvez nunca mais pudesseparar. Eu recuaraaté a medula de meus ossos. o ser gritante. Mas sesouberem. Eu não estava mais me vendo.eu queriafugir.eu estavatão nua que não faziasombra.asmedidas ainda eram as mesmas. eu sabiaque nunca passara daquelamulher na parede.eu era ela.. e também eu sabiaque era uma glória. numa experiênciaque não quero nunca mais. era Toda uma civilizaçãoque sehavia erguido. E nessedeserto de grandesseduções.Mas só enquanto eu não assustarninguém por ter saídodos regulamentos. Enquanto se eu nunca revelar a minha carêncianinguém seassustará comigo e me ajudarão sem saber.. Tudo se resume ferozmente em nunca dar um primeiro grito . Seduzida. dessacivilização só pode sair quem tem como função especial de sair: a um cientista é dadaa a licença.. ten- I . porque eu sabiaque estava entrando na bruta e crua glória da natureza. cadamovimento mais me empurravasemremédio.. E eu sinto que estou indo. embebido de silêncio. minhaalmaseencostara parede sempoder na me impedir. . Sevocê soubesse solidão desses da meus primeiros passos.Seeu der o grito dealarme e~tar de viva. não!". fascinad~ pela certeza do Ima que me atraIa. Mas não a uma mulher que nem sequertem asgarantias de um título. como seeu já tivessemorriEra do e desse sozinhaos primeiros passos outra em vida.a um padreé dadaa permissão. eu recueI dentro de mim até a paredeonde eu me descobri incrustada no desenhodaquelamulher.E asmedidas.sala preta ~' ! te explicar?Eu estavano deserto como nunca estive.Aquele quarto que estava deserto e por isso primariamente do comogarantia semistureimediatamenque te o que sevê com o que se sente.a existênciade quê?A existênciado mundo.i I moso grito em segredo inviolável. O que me aliviavacomo a uma sede.. seeu gritasseacordariamilhares de seres gritantes que iniciariam pelos telhados um coro de gritos e horror.numa experiênciapelaqual peço perdão a mim mesma. se~ q~erermais fu~ir. Diante de meus olhos enojados e seduzidos. matéria era o A seu de dentro. que guardanós E eu fugia.como profundamente não queria.e o nadaeravivo.seassustam.. Foi então .e o alívio vinha de eu caber no t I t ~ - . esÉ que eu. Onde.em mudeze dureza me arrastarão.foi então que lentamente como de uma bisnagafoi saindo lenta a matéria da barata que fora esmagada. Estou de novo indo para a mais primária vida divina... com mal estar eu fugia.. e tremia toda nessaglória divina primária que.um primeiro grito desencadeia todos os outros.eu senti que eram.sinto no hieróglifo da barata lenta a grafia do Extremo Oriente..

Eu já estava vendendoa minha alma humana. Ela pode solaparuma vida: se não lhe for dada a força dela mesma. Superficialmente como um quintal que é verde.A em passagem estreitafora pela barata difícil. por desembocaratravés dela para o meu passado era o que meu contínuo presentee o meu futuro contínuo . desenho mudo da caverna.A Paixão Segundo G. E eis que eu cabiadentro de mim.. um possuir o outro. sucumbi. é forte demaise tinha estado esperandopara me reivindicar. . . A barata com a matéria brancame olhava.Mas é que o inferno já me tomara. S6 que. Não sei seela me via. Eu corpo neutro de barata. eu vendia a minha salvação. Mas ela e eu nos olhávamos. pouco importa que não eu propriamente dita. Sempre estive em vida. SE AFASTA) SantaMaria. meu amor. E finalmente. e meusquinze milhões de filhas. a existênciadela me existia . e sou meus cabelos. eu sou minha perna.A menosque eu desviasse os olhos. A vida é tão contínua que n6s a dividimos em etapas. A parte coisa. Verde.Sou o silêncio gravado a parede. Hoje me exigehoje mesmo.De nasceraté morrer é o que de eu me chamo de humana. E eu compreendi que minha vida sempre fora tão continua quanto a morte. s6 nasminhas noites é que o mundo se revolvia lentamente. verde . - Nunca.e á uma delaschamamosmorte.é a danação! (ELA QUE TINHA SE ENCOSTADO NA FIGURA DA MULHER. o inferno da curiosidademalsã. e de manhã. meu amor. como a uma lagartixa. o mundo continuava sendouma superfície: a vida secretada noite em brevese reduzia na bocaao gostode um pesadelo some. E tornou-se um agora. toda imunda.e a borboletamais antiga esvoaça me defronta: a e mesma sempre.Eu nunca souberaantesque a hora de viver também não tem palavra. não sei o que uma baratavê. eu com uma vida que finalmentenão me escapa pois enfim a vejo fora de mim .. semmistura nenhuma: puramente neutra. aquilo que aconteciano escuroda noite. A barata não me via diretamente.sou cada pedaço infernal de mim . ela estavacomigo. e também não sei o que uma mulher vê. Inegável e paraservista. eu vendia o meu futuro.e que hoje e sempre está na parede.Era assim:o paísestava em onze horas da manhã.e o meu escuronão se diferenciava do escuro de fora. E terminara também eu. e a vingança consistia apenas voltar. não isso a que convencionei chamar de eu. E nesse mundo que eu estavaconhecendo. eu ofereçoa minha vida em troca de não serverdadeaquele momento de ontem. Mãe de Deus.e vem pura.então ela rebenta como um dique rebenta. até então a vida me havia acontecidode dia. ao abrir os olhos. nada mais. Era simplesmente agora. em Mas isso não é a eternidade.verde é um .Mas que agora a vida estavaacontecendode dia. porque ver já começaraa me consumir em prazer.da mais delicadasuperficialidade.e sou o trecho de luz mais brancano reboco da parede.a vida em mim é tão insistente que se me partirem. Eu nunca havia experimentadoesse choque com o momento chamado "já". há vários modos que significam ver: um olhar o outro sem vê-Io. Eu sempreestivera em vida. E eu ainda poderia desviaros olhos.A hora de viver que é um ininterrupto lento rangido de portas que se abrem continuamente de par em par e nunca param de seabrir. e nunca propriamente morrerei. A barata não me via com os olhos mas com o corpo. Tão dentro dele comonum desenhohá trezentosmil anosnuma caverna. Era finalmente agora.H. um comer o outro. os seres existemos outros como modo de severem. Mas seseusolhos não me viam.eu nos vendia. os pedaçoscontinuarão estremecendoe se mexendo. eis que eu estava mim mesmagravadana parede. A vida estava se vingando de mim. também me aconteciaao mesmo tempo nas minhas pr6prias entranhas.eu sou a barata.no mundo primário onde eu entrara. matéria do Deus. desdeentão até eu. um apenasestarnum canto e o outro estar ali também: tudo isso também significa ver. também lá estavam.

Agoraeu estavano deserto.que se atravessasse portões que os estãosempreabertos. pro teto. Não vou fazernada por ti porque não sei mais o sentido de amor como antes eu pensavaque sabia. TERMINANDO POR REVELAR O PÚBLICO DIANTE DELA. de Eu já não queria fazernada pela baratae fui me libertando de minha moralidade .) mudo oratórioo alargava vibrações a raem até chadura do teto. e medo. então senti uma espécie de abalada felicidadepor todo o corpo.. a partir dali. pois a atualidadenão tem esperança a atualidade não tem futuro: o e amém. e pleno. e curiosidadetambém. também disso estou me despedindo.. É agora. E estaé a maior brutalidade. A vibração do calor era como a de um oratório cantado. Trata-seexatamentede agora. Era um cântico de ação de graçaspelo assassinato um ser por outro de ser. ele searredondarae se transformara numa abóbada. E dei meus primeiros passos nada. o \ \ futuro seráexatamente novo uma atualidade de... no seio da natureza. Por um instante... um horrível mal estar feliz em que as pernasme pareciam sumir. E a vastidão dentro do pequeno quarto foi aumentando.só minha parte auricular sentia.entraria.. abandono nando minha vida e indo em direção à. morrer. Onzehorasestácheiodasonzehorasaté asbordasdo copo verde. barata.. Até que num hino nacional a badalada dasonze e meia corte asamarrasdo balão. Este é o núcleo do que eu quero e temo. já não me lembro! Não sei mais o sentido. Seela não estives- i . e descobri que com o jogo de feixesde luz.. A LUZ DA PLATÉIA SE ACENDE AOS POUCOS. Pela primeira vez na minha vida tratava-seplenamente de agora. (A LUZ CAI PARA QUE A NOVA CENA SE INICIE. apesarde matéria fofa e branca. já quase não sei mais o que é. São onze horas da manhã no Brasil. eu queria! E eu quero o tempo presente que não tem promessa. Olhei pra cima. não haveria mais diferença entre mim e a barata. A superficialidade madura. nha esperança amor. O ar fertilizado e arfante. Vida. Acordei de repente e não compreendi onde tinha ido parar o oásisverdeonde por um no entanto forçaderebentar a meurostodeprata e beleza.~ sala preta quintal.adeusbelezado mundo. como sempreem que eram tocadas asraízes minha identidade desconhecida. tão mais cruel a princípio..que é.No Seio da Natureza Mas eu queria aquilo. a água do ar. sombra a está toda inchada. mesmo sem compreender. Eu.. Eu sabiaque entrar não é pecado. Não quero fazer nada por você! Não vou fazer nada por ti. Vejo tudo atravésde um copo cheio.. Eu senti que meu passomal-assombrado era irremediávele que eu estavapouco a pouco abandonandoa minha salvaçãohumana. E não é só no ápice de um oásis que é agora: agora também é no deserto. e tão mais ele-mesmo. amém. também eu ando de rojo. Entre mim e o verde. que estásendo. Onze horasnão tem pro- de tudo o que deixara atrás dos portões.. If~~'*i 111 . tinha I I I r ! fundidade. I ! momentoeu me refugiara todaplena. E era com alegriainfernal que eu como que ia. Não posso fazer nada por você.mas é arriscado como morrer. de vez.. Sentia que o meu de dentro. Este é o núcleo que eu jamais quis.E de repentenós todos chegaremos meio dia. Cântico de boca fechada. eu sabia.amém. muito medo. som vibrando surdo como o que estápresoe contido. E eu sei. e fascínio. Aqueleoratórioquenãoeraprece.embora isso me desse medo.Ou talvez não ache. Nem aos meus próprios olhos nem aos olhos do que é Deus. Nada seouve.Eu senti que tinha que desistir de tudo. A verde águado ar. que chamava de amor a mi- í t Cena Cinco . Talvezeu acheum oude tro nome. (ENQUANTO DIZ ESTE ULTIMO TRECHO. O tempo freme como um balão parado. Era já. QUANDO ELA DIZ:) Era assim. Que ao seráverde como agora. No restoda casa.. Era já. E talvez eu já soubesse que.Agora é o tempo inchado até os limites. ele não pedia nada. Pois o que eu estava vendo era ainda anterior ao humano.

A Paixão Segundo G.como estava apenas viva aqueIa barata primariamente monstruosa. eu sempre lutei. De vez em quando. com coragem. o sal de lágrimas. --".nem que eu minta. As figuras na parede. não escuro. bendita soisentre asbaratas. E no fundo do fundo do sal.eu sei. eu só fiz querer matar.senti sal em minha boca. Eu não poderia mais me escusaralesee conhecerao mundo é a lei. com desespero. Com nojo. minha morte. H. Assim como o violento neutro de sua vida admitia que eu.Mas me lembrei.agorae na hora destatua. e ninguém pode escusar-se dizendo que não a conhece. Pior: a baratae eu não estávamos diante de uma lei a que devíamosobediência: nós duas. O quarto era em si precisar sempiedade e peloprecisar barata.8I_i. estareipecando originalmente contra a vida. como se fossea lembrança de um mundo extinto.mas organizadamente viva como uma pessoa. cedia. E não apenas viva . e também reconhecia vigília da barata. vida vivendo. De dentro do invólucro está saindo um coração grossoe branco e vivo como pus. Penseique seo telefone tocasse. Então percebique ele existiapor si mesmo.A vigília dela eravida vivendo. mãe. da A barata me tocava toda com seu olhar negro. devagarbeijara. qualquer um tem medo de ver o que é Deus. tua substânciainsossae inocente e infantil. (A LUZ REALÇA A FIGURA DO HOMEM NA PAREDE:) Há muito.Tive o desejode me refugiar no argumento de que meusombros eram de mulher.Eu não queria mais lutar.masjuro que eu vou te tirar ainda vivo daqui . quieta.Mas agoraeu não queria mais lutar. Ao meu beijo tua vida mais profundamente insípida me foi dada. a barata mexia as antenas.. nós éramosa própria lei ignorada a que obedecíamos. me lembrei que havia desligadoo telefone. O pecadorenovadamenteoriginal é este: tenho que cumprir a minha lei que ignoro. a minha própria vida vigilante se vivendo. Essaera a espéciede tranqüila ferocidadeneutra do desertoonde estávamos.Tinha que existir uma bondade tão outra quenão separeceriacom bondade. precieu sariaatender e estariasalva... e sabendoo que é precisar. esEu tavaali..E os seusolhos continuavam monotonamente a me olhar. e se eu não cumprir a minha ignorância. Ontem eu só rezavapara poder pelo menos escaparviva. E agoraeu começava a deixá-Iame tocar. Eu tinha medo da facede Deus. que mesmoinalcançável. muito tempo.e lutava porque não conseguia permitir a morte daquilo que eu chame mavade bondade. Na verdade. Então uma nuvem cobriu o sol e vi o mesmoquarto. Eu reconheci a familiaridade de tudo. por nãoestarpresae por ser maior que ela. contra o profundo desejode medeixarsertocada.eu asreconhecicom um novo modo de olhar. gandoque não conhecia lei . nem que eu minta o que meus olhos viram.. e quando chegarao momento de beijar teus olhos . Mas eu bem sabiaque não é só a mulher.Mãe. E me lembrei quando beijara teu rosto de homem. masolha só o que eu quebrei: quebrei um invólucro! Matar também é proibido porque se quebra o invólucro duro e fica-secom a vida pastosa.não pode ser infringida. os dois ovários neutros e férteis. 8.como matéria já vivida. com neutro praler ocupadoela me mataria. devagar.que ele não era o calor do sol. a estranheza do quarto se tornou reconhecível. fui desenhada contigo numa caverna. sepresae fossemaior que eu.111: .sonâmbula como o petróleo que enfim jorra.faz-meapenas companhia.um precisar novo e semnenhuma piedadepelo meu E atravésdessalembrança.facetadoe brilhante. (ELA SE DIRIGE AO PÚBLICO) Eu sei. . me fazendo brotar de uma parede.e agora eu eu queria. Ficara tarde demais.masapenas semluz.é ruim.e contigo nadei de suasprofundezasescuras hoje até . a vida toda.pois conhecera I i _. quando uma negraafricaname desenhouna minha casa. que eu a matasse. eu tinha medo de minha nudezfinal na parede. é ruim ficar semar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti . por um leve átimo.eu era o petróleo que só hoje jorrou._.. Não procura me entender.

Se a genteé o mundo.Me havia livrado. Meu único consolo era saberque mesmo que eu não pudesse mais sair. também o perdera. e perdera o embrião dentro de mim. a máscara humana. ro dois. entredoisfatos. procura me entender. a vibração intensado oratório parou! O meu medo era agora diferente: não o medo de quem ainda vai entrar.Não. ela sequeima como sevisseDeus. o mesmo em si próprio . não tem mais medo.o demoníacoé ANTES do humano. maisjunde por tos que estejamexiste um intervalo de espaço.nos interstícios da matéria primordial estáa linha de mistério e fogo que é a respiraçãodo mundo.decomovi a linha demistérioe fogo. nha buscacegae secreta. e eu me sentia incapaz de sertão real quanto a realidadeque estava me alcançando. E eleeraa altamonotoniadeumaeter- a respiração contínuado mundo é aquilo que ouvimos e chamamosde silêncio. : mesmoque existena barata. A nuvem passoue o sol no quarto ficou ainda mais branco e de súbito.existe um fato.Agora sei o que se faz no escurodas montanhas em noites de orgia..quem me garante que também não inventei toda minha vida anterior a ontem? misterioso fogo mansodaquiloque é um plasma .E issoamedronta.. Estou tentando te contar como entrei no inexpressivoque semprefoi mi- vida de um silêncio extremamenteocupado.O Neut ro Eu estou tentando te dizer como chegueiao neutro e ao inexpressivode mim. eu não receio que não compreendas. Não sei seestou entendendo o que falo. Medo da minha falta de medo Paraescapar vida.entredoisgrãos areia.e que é linha sub-reptícia..E perderatambém asflorestas e perdera o ar. E para entrar nessa coisamonstruosaque é essa neutralidadeviva. estou sentindo . E porquenaquele mundo onde eu estavanão existepiedade nem esperança. nada disso existiu!. assimcomo o protoplasma e a proteína são de um neutro vivo. pois sentir é apenasum dos estilos de ser. Mas se inventei o que ontem me aconteceu . eraum infernoaquele. O neutro. mesmo assimo plasma de Deus continuaria presentena minha vida. música existeuma nota.A vida pré-humana divina é de uma atualidade que queima. t f Ii . Não foi usando como instrumento nenhum de meusatributos que eu fui atingindo o nidade que respira.foi exatamentetirando de mim todos os atributos e indo apenascom minhas entranhas vivas.morrerei daquilo de q'. o . Eu sei!Eu sei com horror: gozam-se as f r . Entre duas notas de va a me tomar. eu me havia livrado do deserto. Quem é o mundo.Me dá a tua mão. entende?O neutro. Seeu não me compreender. Eu t f. Porqueeu estava sendolevadapelo demoníaco..e receio muito o sentir. eu tive que abandonar a minha organização humana. há muito que eu hada via abandonado o ser pela persona. E sea pessoa essa vê atualidade.o mesmonosastros. Pois o inexpressivoé diabólico. no O neutro é inexplicável e vivo. porque não sei mais do que estou falando. maso medo tão mais largo de quem já entrou.-saia preta mesmo. Acho que inventei tudo.. Estou falando do elementovital que liga ascoisas. Eu entrara na orgia do sabá.Se a pessoativer a coragem de largar os sentimentos. Sea pessoanão estivercomprometida com a esperança.mas que eu me compreendamal.1e entanto vivo.E a meperder. . sim. estava Eu experimentando naqueledesertoo fogo dascoisas.. descobre a ampla f CenaS ei5 .o mundo só não amedronta quando a gente passa ser o a mundo. existe um sentir que é entre o sentir . ela vive o demoníaco. como entrei naDe quilo que existeentre o número um e o núme- Vou te dizer:é que eu estava com medo de uma certaalegriacegae já feroz que começa- ~ ! I. Ao me ter humanizado. e estava vivendoda tessitura queascoisas de são feitas. acaba sendo movida por um delicado radar que guia. mas.

Há cinco milhões de anostalvezo no último troglodita tivesseolhado deste mesmo ponto. e nem um cantil de água e nenhuma vasilha de comida. desse quasenada. Era como se antes eu estivesse estado com o paladarviciado por sal e açúcar.Reis.esfinges.o país do medo.e nunca tivesse sentido o gosto primeiro. mas o nojo me é necessário assimcomo a poluição das águasé ne- . .que pelo menosnão tinha a durezade uma cor. primeiros meros cadores assírios.Eu estavatoda nova.Vi.o vento errante.. Procurei escancarar mais a janela já toda escancarada. este gosto. um vaivémde sombrase pessoas.. Mais além. e também de vagõespesados com eixosde açoe de uma forja.a mais velha cidade da terra. eu quero voltar! Ali eu não teria nenhum momento de escuridãoe lua. E vi. Frui-se a coisade que sãofeitas as coisas .eis a cie dade onde vivo. Outrora deve ter existido aqui uma montanha.de pregos.Dali. devia ser mais de meio dia. (TOTALMENTE DELIRANTE E QUASE INFANTIL) O Sol está tanto no deserto da Líbia quanto ele estáquente nele mesmo. E o ine ferno não é a tortura da dor! É a tortura de uma alegria. sim. o Nada! E pensei no Mar Negro.. só o braseiro. escavarmuito. Ah. E agoraeu sei que sentir este gosto. eu contemplavao império do presente. E o tesouro poderia estar numa das brechas do cascalho. baratase crocodilos.pás. Eu só tenho nojo do rastejarde crocodilos porque não sou um crocodilo. E agorasentiao gostodo nada... qual delas? Cena Sete. Além dasgargantasrochosas. além de amendoins e azeitonas. mas qual.mas também nisso encontrei apenasas infinitas sucessões séculosdo de mundo.a favelasobre o morro e uma cabra lentamente subindo. Eu via a vastidãodo desertoda Líbia. mais diverAs Para encontrá-lo eu teria que escavar. coisas. portátil. novo como o de leite materno que só tem gosto para boca de criança.tâmaras de dez milhões de palmeiras. um tesouro! (AINDA EM SEGREDO E UM POUCO LOUCA) O Rio...esta é a alegria crua da magia negra. E precisariade instrumentos picaretas. além de.. e o gosto era novo.A Paixão Segundo G. e tudo extinto. sas. como é que não vi antes que a terra é o sol? E no desertoda Líbia. Através dasoutrasjanelase nos terraçosde cimento. E a terra é o sol.O Império do Presente O sol estavaainda mais branco e mais fervidamenteparado.E para minha fome. cavocar.e também molinetes. e nos persasdescendo pelos desfiladeiros. eu procurava respirar.é a alegriasecreta deuses. Tenho horror do silêncio cheio de escamas.e com a alma viciada por alegriase dores .. eu contaria com tâmaras. como quem jamais precisará entender o que viu. e diante dela eu já era capazde ver ao longe Damasco.As vezesmeus olhos se cansavamdo lago azul que talvez não passasse um pedaço de de céu e iam repousarno desertonu e ardente. uma cidade de ouro e pedra. dos e é a mais primeira alegria. H. leões..eu pedi.as mais diversas. Eu ia avançando sentia a alegria do inferno.E o chão é hoje povoadopor todasestasraças. Olhei pela janela. com a falta de compromisso de quem não vai contar nem a si mesmo. Velozmenteeu me desviciava. que depois de erosada se tornou uma áreavazia onde depois de novo se tinham erguido outras cidades que por sua vez se tinhamerosado. Eu era talvez a primeira a pisar naquele castelo ar.. eu via na a perder-sede vista. a enorme extensãode telhados. Então me lembrei que os nômadeschamam o Saarade .. Daquele quarto escavado rocha de um edifício.cento e cinqüenta pás.um cálice de ouro? (QUASE EM SEGREDO. como uma recéminiciada. COMO SE FOSSE LOUCA) Pois era isso!Era isso!Eu estavaprocurando.ebarbantes. eu quero voltar pra casa. Sobrei. presa por uma daspedrasque desabaram. Mas quem sabeno fim de tudo eu não faria um achado? Quem sabe. mesmo que eu não soubesse propriamente o que era um. os planaltos da Ásia Menor. cujos habitantes ao sol eram seiscentos mil mendigos.

i 1--"-:. Ah. Através do nojo. eu estou entendendo.numa rocha nua e seca desertoda Líbia .se você puder. eu sei que tens medo. vejo uma noite na Galileia. perder os invólucros de lagostafaz frio. Ah. Quando a pessoachega a ser o próprio núcleo.e entãonão as suportei mais a tortura e confessei.logo secoaguIava ao meu olhar e se tornava meu . Os matadoresque se encontram: o mundo é extremamenterecíproco. era isso o que nós vivíamos e desprezávamos. (HESITA) Eu sou mansa mas minha função de viver é feroz..Só que para nós terá que ser de noite.vai acontecer amor do o de duas baratas.ele sedesmancharia novo em sande .Paranos amarmos.mas sua função era feroz. estoudelae tando.Foi preciso a barata me doer tanto como seme arrancasssem unhas.eu não sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamentequando não havia o que chamávamosde amor. Vejo o seusilêncio de coisaparda. E é um amor infernal.agora estou vendo outra barata avançando em direção à rocha.Eu me prometo para um dia estemesmo silêncio. porque faz frio. Mas como de era esse intervalo?Era a enorme flor seabrindo. que tive que ficar toda expostae perder todasas minhas malascom suasiniciais gravadas. o. E então vai acontecer.a barataé um crustáceo.. me adivinha. E agora . pois somos seresúmidos e salgados. E agora olhando a barata eu já sabia. O ritual não é mais exterior. Eu chamava"máscara"de mentira.É que. o amor pré-humano me invade.sem antes ter quebradosos seusinvólucros de medo que com o tempo vão secandoem invólucros de pedra .tínhamos de por as máscaras! escaravelhos nascemcom a Os já máscara com que secumprirão. Através da sua profunda ausênciade riso eu percebiaa suaferocidadede guerreiro. então ela é a solenidadede si própria e ela não tem mais medo de servir.o ritual é a marca de Deus.. Uma barata espera.0:'" .. e nós que chegamos hoje.. e não era! Era a essencialmáscarada solenidade.sala preta cessária para procriar-seo que estánaságuas. Pensávamos era uma solenidaque de de forma. aina da vibramos com ele.. o ritual é inerente.Eu estiverao tempo todo semquererpensarno que já realmente pensara: que a barata é comível como uma lagosta. daí a solenidade. Pelopecadooriginal.duasbaratassecas. Sobre a rocha. eu juro! Eu juro que é assim o amor. nós. Olhei: a barata era um escaravelho! Ela toda era apenasa sua própria máscara. cujo dilúvio há milênios já secou. O neutro do amor. Estou falando é de quando não acontecianada. Uma é o silêncio da outra. A forma de viver é um segredotão secretoque é.. e a esse nada nós chamávamos intervalo.. somosseres águado mar e de lágrimas. Me adivinha.. ela não tem mais divergências. O ritual acreditaem mim porque acho que estou sabendo .. Mas quando se foi torturada atésechegara serum núcleo. E sempredisfarçávamos que sao bíamos: que viver é sempre questão de vida e morte. Eu sei só porque estivesentadaali e estava sabendo.então aprende de mim. Nós dois sempretivemos medo da minha solenida- de e da tua. perdemosa nossa. Ela era mansa. do que nós dois já vivemos sem saber.Eu agorasei como é. rastejamentosilencioso de um segredo. Mesmo a barata tem o seu ritual na sua célula. O que eu olhava. eu nos prometo o que aprendi agora. Me esquentacom a sua adivinhação de mim.mas não um coágulo permanente:se eu o apertasse nasmãos. estou somente amando a barata. Eu estou entendendo. de Eu juro.. tudo inchado de si mesmo.. (DE NOVO.. me compreendeporque eu não estou me compreendendo. que sempretiveste medo do ritual. A vibração de um estrídulo inteiramente mudo na rocha. . minha visão toda grandee trêmula. A LUZ ILUMINA A FIGURA DO HOMEM) Eu sei. Sevocê puder saberatravésde mim. só agora viva.O único destino com que nascemosé o do ritual. sem antesprecisarsertorturado. seeu pudesse transmitir a lembrante ça. Assim como parase ter o incensoo único meio é queimar o incenso. semantesserbipartido pela porta de um guarda-roupa. E cadafilho já nascecom o seu..O nojo me guia e me fecunda. quando amávamos.

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Ah.Na minha boca e nassuas patasa marca do sangue.fora o inferno que vem do amor. muito maisquehumana. queriacomer Eu a mim mesma.Não era um soluço de dor.E no escrínio. opaco. o Deus veio a mim. Olha pelo que lutei. e agora estavacomo que diante Dele e não entendia. Eu ficara enganchada pelo prazerque me tornava apenasinfernal.Agora entendo o que é.O segredo mais remoto do mundo. que também sou matéria viva do sabá. E provar pode se tornar numa ci meu inferno a Deus.já estavanascendoem mim um soluço que mais pareciade alegria. mas me cegando com a irradiação de sua existênciasimpIes.Então eu havia chamado de alegriao meu mais profundo sofrimento!? O Inferno pelo qual eu passara como te dizer?. o segredoescondido.A tentação do prazer. eu vou te tirar do inferno a que desci. Como poderia eu ter adivinhado?Se não sabiaque no sofrimento se ria? É que não sabiaque sesofria assim.. Deus..como seeu não fosse mais uma pessoa? Esperapor mim. que o havia pedido e tido. para ter exatamenteo que eu já tinha antes. Deus. E no soluço.rastejeiaté asportas seabrirem para mim. Ouve. só a perdição me guiando.. (QUASE RI DE NOVO) e ao assassiná-Io roubei suamorte! E a alegriado assassinato conme someem prazer. Chorava enfim dentro de meu inferno. De madrugadaeu nos verei exaustosjunto ao regato. e exigido ver Deus.) Desde a pré-história eu havia começado a minha marchapelo deserto. massignifica que eu também estou provando.a faiscarde glória. E o que é que eu podia oferecerde mim? . E o castigoé não querer mais parar e comer a si próprio. as portas do tesouro que eu procurava:e olha o que era o tesouro! Um pedaçode metal. Olha só o que é tudo: é um pedaçode coisa.o inferno mesmo é o do amor. Mas eu não compreendia o que Ele queria de mim. e minha crueldade.O Segredodo Mundo Só a misericórdia do Deus poderia me livrar. de vidro.é a experiênciada lama e da degradação da alegria pior. eu. ouve: pois do regozijo sem remissão. Provação. Eu era agora pior do que eu mesma..--- sala preta uma vez o cavaloconduza o meu pensamento. ali. um pedaçode cal de parede. é um pedaçode ferro. Amor é a experiência de um perigo maior . Minha exaustãose prostrava aos pés do Cena Oito . Naquelasareiasdo deserto eu estavacomeçando a ser de uma delicadezade primeira tímida oferenda.até que. de saibro. t sede cada vezmaisinsaciável.) Ao roubar o cavalo tive que matar o Rei. quasemorta pelo êxtase cansaço. só o descaminhome guiando .Eu tivera que não dar valor humano à vida para poder entender a largueza.Me deram tudo. faiscandoem glória que me doía nos olhos.meu amor. minha crueldadeparou de súbito.um pedaçode matéria feita em barata.A tentação é comer direto na fonte. eu enfim encontrarao escrínio. é comer direto na lei. (ELA SE DESESPERA:) . eu comecei a entender com enorme surpresa que minha orgia infernal era o próprio martírio humano. Oh. Provação: significa que a vida está me provando.e semestreIa pra me guiar. e olha só o que é tudo! é uma barataque é viva e que estáa morte. o Deus me ocupavatoda agora. do iluminada de paixão.Eu ofere- I.Mas como é inocente e infantil esse pecado. Eu ofereciao soluço. (SE ACALMA EM PARTE.como a de uma flor. comer-sea si próprio que sou matéria igualmente comível. que estava sendo o deserto. as pessoas põem a idéia de pecado em sexo. SE CONTROLA.Eu tinha arde riscado minha alma. sem saber que crimes cometemos até chegara madrugada. Sexoé o susto e de uma criança. .eu. não compreendia!Ou seráque Ele queria que eu fosseseuigual?E que a Ele me igualasse por um amor de que eu não era capaz?Um amor tão grandeque seria. eu nunca o ouvira antes:era o de minha vida separtindo pra me procriar.E o que foi que imolamos? (RI UM POUCO LOUCA E SADICA.

a eu sei que estou indo para alguma coisaque dói porqueestouperdendo outras . Mas muito mais.Esperança para mim era adiamento. A identidade pode se tornar perigosa por causado intenso prazer que pode se tornar apenas prazer. Ah.masespera que euainda continue um pouco. Viver a vida em vez de viver a própria vida. O presenteé a facehoje do Deus. é proibido! Entrar na matéria divina.Uma resposta que continuava secreta. E se adio a face da realidade para depois de minha morte . Eu nunca havia deixado minha alma livre e me havia organizado depressa em pessoaporque é arriscadodemais perder-sea forma. Ouve. Mas descubroque não é sequernecessárioter esperança. esse pecadotem uma punição irremediável. Disso tudo. pois isto pode vir a se transformar. muito mais! Encontrara o próprio enigma. Não. as coisassão muito delicadas.Poiso estadode graçaexistepermanentemente: nós estamossempresalvos. oh.. E porque não ficar dentro. H: pedaçode coisa. assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo. só agüento a sua promessa!Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver. E para ti mesmo. eu não quero ficar dentro. Eu não havia encontrado uma respostahumana ao enigma. Eu arriscarao mundo em busca da pergunta que é posterior à resposta. E eu não quero o reino dos céus. já que sou fraca.. sei que estou de novo mexendo no perigosoe que deveriacalar-mepara mim mesma.e hoje. mas que talvez enraíze a verdade na minha formação humana. Mas vejo agorao que na verdadeacontecia:eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenaso futuro.é por astúcia.Todo mundo estáem estadode graça.conhecerisso em si.mesmo ao ser revelada a pergunta a que ela correspondia.. sem tentar atravessar? Ficar dentro da coisa é a loucura. Eu não quero esse mundo feito de coisa.O segredodos faraós. e poucos arriscam a . quem sabepoderá nascerum nome! Um nome sem palavra. Escuta.e tu poderiasnão entender que prescindir da esperança na verdade. . adorando infernalmente. porque prefiro estar morta na hora de vê-Io e assim penso que não O verei realmente. Eu sei que o que eu estou sentindo é grave e pode me destruir.e a jóia do mundo é um pedaço opacode coisa. que mesmoagoraeu continuava a não entender. vai passar não ter mais sentido! Esperapor mim. meu amor. O segredo força era a força. gente pisa nelascom uma pata humaA na demais.Poisserreal é assumir a própria promessae assumir a própria inocência. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. Não se deve dizer que a esperança não é necessária. O horror é que sabemosque é em vida mesmo que vemos Deus. É como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céusjá é. Mas não há o perigo de perdição. senãominha humanizaçãoanterior que foi tão gradual. como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.com sentimentosdemais. Mais. o segredodo amor da era o amor . eu odeio o que conseguiver. eu odeio.A tentaçãopode fazer com que não se passepara a outra margem.de novo eu daria a minha vida. eu acreditavatão pouco no que existeque adiava a atualidade para uma promessae para um futuro. juro que não é perigoso. Toda minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumira promessaque se cumpre: eu não queria a realidade.em arma destruidora. agoraeu sei: o estado de graçaé inerente. e não apenas a me prometer a vida. Ah. I .sentir que seestáem graçaé que é o dom. significa ação. por eu ter mergulhado no abismo é que estoucomeçandoa amar o abismo de que sou feita. Ah.eu não o quero.A f'aixão Segundo G.A pessoa é fulmisó nada pela doçura quando percebeque estáem graça. Eu estavahabituada somente a transcender. em arma utilitária de destruição.E por causa dessesegredoeu quase dera a minha vida..Mas agoraestou aceitandoamar a coisa!E não é perigoso. Eu poderia não entender.É muito mais grave. muito mais: para ter essesegredo. Só a deli- .

E lembro que te disse:. t t t ! Cena Nove . Nada. E me vou usar o vestido azul novo que me emagrece um pouco e me dá cores.e isto antesme chocaria.Deus é o que existe e todos os contraditórios são dentro do Deus.? meu Deus.. ela me distrairia daquele grande vácuo divino que eu tinha contigo. não amanhã. não me assusta mais e então é falsamenteminha . Eu não quero mais o movimento completado que na verdade nunca se completa e nós é que por desejo o completa- pouquinhode enjôod... E eu não suportava aquela transformaçãolenta de algo que lenta- Tob-Bambino. . . Tua energiafísica era a tua energiamais delicada. O Deus é maior que a bondade com a sua beleza. Ah.- - f sala preta cadezada inocência ou s6 a delicadezados iniciados é que sente o seu gosto quasenulo. contradiz em mim a minha matéria. Agüenta eu te dizer que Deus não é bonito. o mundo me escapariae eu me escaparia. a deusarepousando. queé que O nós vamos fazer. e sei porque vou comer. eu vou. e eu não sabia. comer e dançar no 1. i i mos:nãoq~erousufruir da facilidade gostar de de uma COisa porque estando ela aparentes6 mente completada. Eu. e tratando as coisascom delicadeza. asbandeirashasteadase a noite caindo.Eu estou tentando te poupar..e telefono pro Carlos.Tu erasa pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Ah. Para que eu me torne tao desesperadamente maior que eu fique vazia e necessitada assim e terei tocado na raiz do precisar. com cuidado. em mim toda está doendo largar o que me era o mundo. Largar é uma atitude tão áspera agressiva a pessoa abrisse boca e que que a para falar em largar deveriaser presae mantida incomunicável.A coisa é muito mais que isto. Eu não sabia que aprendi tanto contigo. devoradora que era das belezas.. que és o mais antigo na minha memória. é feriado. Mas o que hoje é feio serádaqui a séculos visto como belezaporque terá completado um de seusmovimentos. mas não posso. respondeste tão mais sábio que eu. Ou ambos me queriam. E isto porque Ele não é nem um resultado e nem uma conclusãoe tudo o que a gente acha bonito é asvezes apenasporque já estáconcluído. quero a identidade.. Ou o Antônio? Não me lembro bem em qual dos dois percebi que me queria. Eu te revejo consertandoa tomada. mas hoje mesmo. Disseo homem que era delicado com ascoisase com o tempo. Eu ainda não parara de olhar a massada barata.Tenhoquemeviolen~ar paraprecisar mais.E eu aprendi a te ver consertaruma cadeiraquebrada e a trançar os fios..Eu estou com um ma.estou precisando divertir. a da minha alegria comum.eu. De repente eu soube que chegarao momento de III~! 111 ! I . vou comer porque hoje vai ser a minha vida diária retomada. Pois ter nojo me contradiz.Ter nojo de beijar o leprososou eu errando a primeira vida em mim. eu. Era feriado nacional.. A belezaseriaum acréscimo..a noite? ...Não quero a beleza. no Olimpo. não contei tudo..e estômago.Esquecer? Esquecer. apenas acrescentado mais uma gota idêntica de temde po.Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. eu precisoesquecercomo todo mundo. Só que minha violência tem que ser comigo mes- mente se transforma no mesmo algo. a ter a coragem de achar que tudo isso é uma verdade.E aí lembrei-me de ti. e por isso não O contradizem.. unindo os fios elétricos. não pude mais me impedir e pensei o que na verdadejá tinha pensado.Nada. eu. Eu vou precisarda minha leve vulgaridade doce e bem humorada....Tenho que me violentar até não ter nada e precisarde tudo..eu mesmaprefiro me considerar temporariamentefora de mim.. Então. o resto dos meusdias.O mundo não tem intenção de beleza.e agora vou ter que dispensá-Ia. Mas é que.. como então eu queria a dor. Era feriado.E eu sabiaque enquanto eu tivesse nojo.Eu sabiaque o erro básicode viver é ter nojo. e comereicrevettes não imao porta o quê..tu. Eras a monotonia de meu amor eterno. Ah.De uma coisa eu sei: daqui a pouco..

e a redençãona própria coisa seria eu botar na boca a massa brancada barata.sem chegarjamais ao ponto de-sentir que enfim tivesse cuspido minha alma toda. avancei. dedosmeladosdos os pésescorregavam dentro do chinelo. viver é uma grande bondade para com os outros. e a raiz de meuscabelosamolecia àquela coisa que era o meusuor novo. realmente transcendermais. sem mais adiar.. Então avancei. um comando hipnótico. quem vive a própria larguezaestáfazendouma dádiva.Mas em vez de ir adiante. Eu não precisava tido a coragem ter de comer a massa barata. a fraseque devia se referir a outras coisasme veio. gosto de mim mesma. com minha falta de força de cumprir o gesto quepareciasero único capazde reunir meu corpo à minha alma. fora mais uma vertigem.eu cuspiaa mim mesma.as lágrimas me serviam de companheiras. de O acréscimoé mais fácil de amar. Viver é uma dádiva tão grande que milharesde pessoas beneficiamcom cadavida se vivida. no começo.A Paixão Segundo G.e medo de olhar a barata ..Entendi que eu não da estavame despojandocomo os santossedespojam. Minhas entranhas diziam não! Minha massarejeitava a da barata. Mas chegará o instante em que você também me dará a mão não mais por solidão. porque não és frio nem quente.e tanto apertei que mais um pouco e elesse quebrariam. pois eu continuava de pé.precisoda suapresença não para que eu não tenha medo. Só haveria um modo: se eu desse mim a mesmaum comando. sonambulicamente teria feito. crispei minhas unhas na paredeE então comeceia cuspir. Seique acreditarem tudo issoserá. e eu. I i I . e eu parei espantada. gosto de um nadaque no entanto me pareciaquaseadocicado como o de certaspétalas de flor. a sua grande solidão.. de qualquer modo.. (RI UM RISO NERvaso E DE CONSCIÊNCIA DO RIDfCULO. Nunca mais eu ia saber como tinha feito . O suor recomeçara.pois anteseu havia tirado de mim a participação. Bastaviver.. . Desiludida comigo mesma. I I . eu não podia.. Mas mesmo não escorrendo. Compreendi com surpresa que estava desfazendo tudo o que laboriosamentehavia feito. Até que meus olhos se encheram de lágrimas que só ardiam e não corriam. tinha medo de passara mão pelos lábios e percebervestígios. um suor que eu não conheciae que tinha um cheiro igual ao que sai da terra ressecada primeiras chuvas. porque ésmorno.Quem vive totalmente estávivendo para os outros. e entãoeu como que me adormeceria. H.que agoradevia ter menosmassa brancasobre o dorso opaco. mas como eu agora: por amor. Só à idéia fechei os olhos com a força de quemtrancaos dentes. Não.Avancei.. Não.... a cuspir furiosamenteaquelegosto de coisaalguma. eu havia vomitado a exaltação. masestava novo querendoo acréscimo. Então era assim? Alguma coisasempreteria que estar aparentementemorta para que o vivo seprocessasse? tinha que não saberque Eu estava. apoiando a mão no guarda-roupa.e quando abrisseos olhos já "teria feito". E minha alegriae minha vergonha foi ao acordar do desmaio." . não fora desmaio.) Vomitei o leite e o pão que havia comido no café da manhã. maspara que você não tenha medo.A frase do apocalipseme veio do fundo da memória. Entendi então que.eu não tinha querido saber.. e como quem volta de uma viagem voltei a me sentar quieta na cama. às Avancei um passo. e por si mesmo isto resu"lta na grandebondade. Eu não queria pensar mas sabia. eu te vomitarei de minha boca.que estou viva? O segredode jamais se escaparda vida maior era o de viver como um sonâmbulo? ". Tinha medo de sentir na boca aquilo que estavasentindo. agora eu ia ter de agir sem a ajuda da exaltaçãoanterior.Eu não podia.de repentevomitei. E agora. É que a redennão çãodevia ser na própria coisa. mesmoque sua vida se passe dentro da incomunicabilidade de uma c~la.

A realidadeantecedea voz que a procura. A gradual deseroização si mesmo é o de verdadeirotrabalho que selabora sob o aparente trabalho. a vida ana tecedeo amor. a maior exteriorizaçãoa que se chega. a linguagem é o modo como vou buscá-Iae como t Cena Dez . encontrar mim em a mulher de todasasmulheres. a morro sem saberde quê.e aceitá-Ia como a possível linguagem.e I r por nãoter nomesóa mudez pronuncia é disso que me aproximo atravésda grandelargueza de deixar de me ser. E eu também não tenho nome. Aquilo de que sevive . atravésde meu mais difícil espanto. ~ secreta a verdadeira quenema mim. Mas apenasem imanência. todo homem é o Ah.mepodeserconfiada senha. e a trajetória não é apenasum modo de ir. a matéria do corpo antecedeo corpo.A realidadeé a matéria prima.já que ela é o que existe.revelarema nossa. em nós.mas por fatalidadefui e sou impelida a precisarsabero que o pensamento pensa. que é vida morro dela. porque só algunsatingem o ponto de.A Paixão A despersonalização como a destituição do individual inútil. Mas agora. de minha linguagemexistecomo um pensamento que não se pensa. ~ assim querodemim mesma. Só então minha naturezaé aceita. aceita com o seu suplício espantado. Pouco a pouco tirar de si. A despersonalização como a grandeobjetivação de si mesmo. e então o sopro recrudesce como na chama de uma vela. E porque me despersonalizo ponto de não ter o meu a nome. a vida é uma missãosecreta.e esteé o esplendor de se ter uma linguagem. Não porque eu então encontre o nome e torne concreto o impalpável masporque designoo impalpável como impalpável.é que obtenho o que ela não conseguiu. Por destino tenho que ir buscare por destino volto com as mãos vazias.Em maté- f f 1m .--sala preta Antes eu não sabiaque o que eu chamava de "eu" era um acréscimode mim. pela simples presençada existência deles.E tão nãoacho. a trajetória somosnós mesmos. mas como o mundo antecedeo homem. E já que vivê-Ia é a nossa paixão. que grande esforço de voz. nome. sereconhecerem. Minha voz é o modo como vou buscara realidade:a realidade. Mas eu tenho muito mais a medida que não consigo designar. tirar de si como quem se livra da própria pele. e vou em direção a destruição do que construí.. .. E é aceita a nossa condição como a única possível. respondo cada vez que alguém disser: eu. e caminho enfim para uma espécie de. existea por Pois trajetória. Eu tenho a medida que designo. E é inútil procurar encurtar caminho e [ f t j.antes I' homemde todosos homens.Mas volto com o indizível. mas como a terra antecedeà árvore.A linguagem é o meu esforço humano. Assim como houve o momento em que vi que a barata é a barata de todas as baratas.estou enfim fazendoo caminho inverso.e cada um deles poderia seapresentar onde quer que sejulgue o homem. mas para se chegarà mudez.onde a dor não é algumacoisaque nos acontece. com um esforço tão atento que não se sente a dor. mas como o mar antecede visão do mar. E é exatamenteatravésdo malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas. e por sua vez a linguagem um dia terá antecedidoa possedo silêncio. ascaracterísticas. O indizível só me poderá ser dado atravésdo fracassode minha linguagemoSó quando falha a construção.mas o que somos.Masé do buscar nãoachar nase que ce o que eu não conhecia. e então.Quem se atinge pela despersonalização reconheceráo outro sob qualquer disfarce: o primeiro passoem relação ao outro é achar em si mesmo o homem de todos os homens. já que já começando serdespessoal. e que instantaneamente reconheço.Toda mulher é a mulher de todas as mulheres. A condição humana é a paixão de Cristo. despersonalização. Até que me sejaenfim revelado que a vida em mim não tem o meu querer começar sabendo a vozdiz pouco.e não outra.

nunca! Nunca mais compreen- derei o que eu disser. A via crucis não é um descaminho. A desistência é uma longe.I i . Revisões em julho de 96 e em setembro de 200.Pois como poderei dizer sem que a palavra minta por mim? Fim. não se chega senão através dela e com ela. . E na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. e não estou entendendo o que estou dizendo. G. O mundo independia de mim . 1 Eu estava agora tão maior que já não me via mais. a desistência é o prêmio. Primeira versão terminada revelação.esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim. prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. nunca se pode chegar antes. f ria de viver. é a passagem única. A insistência é o nosso esforço. Desistir é o verdadeiro instante humano. e apesar do gosto de poder.-- A Paixão SegundoH. Tão grande como uma paisagem ao em 10 de dezembrode 95. . E só esta é a glória própria de minha condição. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir. j I 1 .