Temporada 03 Capítulo 38

Sangue e Honra
By We Love True Blood

I am the blood! I am God's right hand!

Jessica sentou-se no sofá velho do apartamento de Alcide. Apoiou a cabeça nas mãos soltando um resmungo baixo, mas o suficiente para ser ouvido pelo seu futuro marido. Alcide tinha feito um corte na palma da mão e enchia um copo para Jessica beber. “Estou quase acabando.”, ele disse sentindo uma leve fraqueza pelo sangue que perdia. Ela não respondeu, continuou focando o chão. Fazia um mês que morava com Alcide desde que saiu da Autoridade. Ambos foram punidos severamente, Jessica perdeu as presas numa remoção dolorosa, enquanto Alcide passou uma semana trancafiado na Dama de Ferro, uma maquina antiga de tortura usada pelos vampiros. Desde então ela vivia como zumbi, não tinha vontade de se levantar da cama. Alcide a obrigava a se alimentar do sangue dele. Ela vomitava quando bebia TruBlood, seu corpo não aceitava o sangue sintético por muito tempo, necessitava de sangue humano. Ele a alimentava todos os dias assim que a acordava. Depois ficava terrivelmente fraco e demorava horas para se recuperar. Ela não se importava, ele fazia porque queria, não tinha sido obrigado. “Não irá se arrumar?”, ele perguntou ansioso. “Não preciso ficar limpar para encontrar um monte de cachorros fedidos.”, ela fez uma careta enojada. “Minha tribo não é dessa maneira.”, ele retrucou ofendido. “Não sabia que tinha uma tribo. Achei que era o lobo solitário...”, ela disse num tom zombeteiro. “Todo lobisomem tem que apresentar a futura esposa para a tribo. Fazendo parte ou não.”

Ele terminou de encher o copo e caminhou até ela. Não que precisasse andar muito, o apartamento era minúsculo. Ele deu a cama para ela e passou a dormir no sofá velho. Todos os dias acordava quebrado. Estendeu o copo para ela e sentou-se ao lado. “Eu preferia morrer.”, ela bebeu o sangue dele num gole só. “Meni...”, ele não terminou de chama-la como fazia antes, agora não era mais a filha do patrão. “Jessica, estou fazendo o que é certo. Seu pai concordou.”, ele disse com cuidado. “Meu pai me jogou para o primeiro que se ofereceu.”, ela disse segurando as lágrimas. “Não, não. Ele pergunta toda vez sobre você. Só não vem te ver porque o proibiu.” Ele tentou consolá-la, mas ela o afastou com um safanão. Alcide soltou um gemido de dor. “Vá se arrumar. Não posso te apresentar dessa maneira.”, ele disse se levantando. “Dessa maneira como?”, ela se levantou também e tocou no cabelo desgrenhado. “Não muito jeitosa.”, ele segurou o riso. “Está dizendo que cheiro mal?” “Um pouco.” “Por isso não tentou me comer?”, ela perguntou maldosamente. “Não tentei porque te respeito.”, Alcide respondeu estufando o peito. “Respeita porra nenhuma...”, ela fez um movimento brusco na direção dele e sentiu o cheiro ruim exalando do próprio corpo. Ele não estava tão errado assim. Ele agarrou o braço dela e saiu arrastando pela sala até o banheiro minúsculo ao lado do quarto. Alcide a empurrou para dentro, entrando logo depois. Rasgou a camiseta suja que ela usava, jogando no cesto de roupas ao lado da pia. Em seguida, usando as duas mãos partiu a calça jeans dela no meio. Jessica tentava se desvencilhar mordendo e arranhando os braços dele. “Agora vai me comer?”, ela disse tentando provocá-lo. Alcide ignorou a provocação, empurrou Jessica novamente na direção do chuveiro. Segurava a vampira com um braço e o outro abriu o chuveiro.

Obrigou Jessica a entrar embaixo da agua, ela esperneava jogando agua para todos os lados e o molhando totalmente. Alcide esbravejou e começou a esfregá-la ferozmente com a bucha. Filetes de sangue surgiram na pele sensível e pálida dela. “Está me machucando.”, ela gritou com o rosto banhado de lágrimas de sangue. Alcide demorou em perceber o que tinha feito, e a largou assustado. Havia ficado tão cego de ódio pela insolência dela. Jessica estava encostada num canto do box com o corpo cheio de marcas de sangue. E pela primeira vez o olhava assustada. “Iremos sair em 15 minutos.”, ele disse rapidamente e saiu batendo a porta. ----------------------------Ambos estavam em silêncio na caminhonete de Alcide. Jessica ficou pronta no tempo previsto por ele. Os cabelos ruivos estavam presos num rabo de cavalo e trajava um vestido preto na altura dos joelhos. Os braços estavam cruzados no peito e ela exibia uma cara emburrada. “Desculpe por antes. Eu... eu perdi o controle.”, Alcide disse olhando de lado para ela. “É a desculpa de todo abusador.”, ela disse um tempo depois com os olhos cravados na estrada à frente. “Eu não abusei de você, jamais faria isso.”, ele apertou o volante do carro até os dedos ficarem esbranquiçados. “Você deveria ter se casado com Sookita. Dois santinhos que nunca fazem nada de errado.” “Não coloque Dona Sookita nessa história. Ela é mulher de seu pai e meu patrão.” Alcide viu a placa indicando à saída para a cidade de sua tribo. Desde os 12 anos não foi mais lá, quando foi expulso junto de sua mãe. A cidade começou como uma antiga aldeia de índios lobisomens, com a chegada dos espanhóis em 1600 e pouco, a aldeia se tornou um vilarejo e depois uma cidade. Monte Juarez ficava uma hora e meia de Vale de Los Sanguijuelas. E não era coincidência uma ser controlada por lobisomens, a outra pelos vampiros e ficarem tão perto assim. Só que Monte Juarez era bem menor do que Vale, enquanto a outra tinha quase 200.000 habitantes. Juarez tinha em torno de 10.000 habitantes. E pelo menos metade somente de lobisomens puros. A outra metade de humanos que

eram casados ou nasceram de cruzamentos com lobisomens. A cidade tinha uma rua principal onde se via os principais estabelecimentos, os moradores moravam no entorno. Em volta da cidade a terra era árida, sem vida e infestada de cobras e outros animais perigosos, sem dizer os ataques de vampiros desgarrados. Alcide estacionou a caminhonete em frente uma casa de dois andares estilo colonial, com um pátio na frente e uma fonte sem verter aguar, que era um item precioso para os moradores da cidade. Jessica se interessou especialmente pela fonte, não esperava ver uma mulher esculpida seminua com asas de anjo segurando um vaso, provavelmente um dia havia saído agua dali. Pelo que conhecia de Alcide e imaginava como seria o resto de sua raça, acreditava que encontraria um homem musculoso e todo peludo segurando um vaso de onde sairia a agua. Jessica caminhava quieta ao lado de Alcide. Mesmo sentindo vontade de mandá-lo se danar, sabia que não poderia agir de maneira imprudente. Estava em território desconhecido e mesmo um lobo sendo facilmente derrotado por um vampiro, não daria conta de uma matilha. E ela sem as presas se sentia igual Sansão quando teve os cabelos cortados. Completamente impotente e sem forças para agir. O cheiro de homens reunidos incomodaram seu olfato. Jessica fez uma careta de nojo, parecia que entrava num canil cheio de cachorros. Uma mulher aparentando ter uns 60 anos abriu a porta e começou a chorar assim que viu Alcide. Correu para os braços do lobo e o abraçou com fervor. Jessica não compreendeu o que falavam, outra língua estranha para ela, assim como a que Bill usava na Autoridade. “É ela?”, a mulher perguntou para Alcide limpando as lágrimas dos olhos. “Sim.”, ele disse desviando o olhar. “Seja bem-vinda, Jessica.”, a mulher deu dois beijos no rosto da vampira. “Pode entrar em nossa casa.” Jessica deu de ombros, não devolveu o olhar atencioso da mulher. Alcide seguiu em frente pelo corredor, seguido da mulher e Jessica por último, que aproveitou para limpar o rosto dos beijos que recebeu. Chegaram em frente uma porta dupla no fim do corredor, Jessica notou as portas fechadas dos outros cômodos e uma escada perto da entrava levaria para o segundo andar. “Tudo dará certo. Fiz um ritual para a Lua em seu bem.”, a mulher apertou a mão de Alcide.

“Obrigada, vovó.”, ele disse com os olhos marejados. Jessica ficou chocada com a informação, não notou nenhuma semelhança de Alcide com a velha. A mulher passou por ela com um sorriso sincero nos lábios. Jessica xingou baixinho, não queria esse tipo de tratamento simpático vindo da raça de Alcide. Ele ajeitou o cinto da calça jeans, endireitou as costas tentando se recompor. Arrumou a gola da camisa xadrez, bateu a bota no chão de madeira e empurrou a pesada porta. O salão era espaçoso, com janelas grandes em toda a extensão. Não havia mesas e nem cadeiras. Havia três homens um ao lado do outro no meio do salão e uns 20 lobisomens formando um círculo em torno deles. Conforme se aproximavam, Jessica ouviu resmungos e uivos enraivecidos com a presença dela. O cheiro que eles exalavam fizeram os ossos dela tremer, algo que era impossível. Sentia que se desse um passo em falso seria trucidada. Não imaginava que uma matilha de lobisomens representasse tanto pavor num vampiro. E os joelhos dela começaram a falhar, ela parou de caminhar. Alcide percebeu o que estava acontecendo, voltou-se para ela e a amparou com os braços. E disse baixinho: “Só não faça nenhuma besteira.”, o medo na voz dele também era latente. Se ele sentia medo entre os seus, ela já havia perdido as esperanças de sair viva. Um arrependimento bateu ao lembrar-se de que estava brigada com Bill e nem se despediu dele. Os lobisomens abriram o círculo para eles passarem, alguns rosnaram ameaçadoramente para Jessica. Um deles quase os atacou, mas foi contido pelos outros. Jessica reparou também que a forma deles não era de um lobo tradicional, mas de lobos enormes, de olhos vermelhos, dentes afiadíssimos, as patas da frente pareciam mãos com garras compridas e as patas de trás faziam com que ficassem em pé sem dificuldades. O círculo voltou a se fechar em torno deles. Alcide parou em frente aos três homens, Jessica levantou a cabeça bem devagar. Ficou boquiaberta com a semelhança que tinham com Alcide. O homem a esquerda era muito parecido, os mesmos olhos do lobo, só que os cabelos levemente grisalhos. O do meio parecia ter quase uns 70 anos, os cabelos longos e brancos presos num rabo de cavalo e um olhar bem mais severo que de Alcide. E o terceiro que estava em frente à Jessica era bem mais jovem, deveria ter a idade dela, em torno de uns 19 anos. Era tão bonito e másculo quanto Alcide.

O velho apontou para que Alcide não se aproximasse. Os lobisomens em volta não paravam de rosnar. “Quietos.”, ele disse esbravejando. Imediatamente todos ficaram quietos, e incomodados com a reprimenda. Mas, não houve nenhuma reação contrária. “Essa é a vampira?”, ele perguntou friamente para Alcide. “Sim.”, ele apertou o abraço em volta de Jessica. “Convocamos essa Assembleia para definirmos se o aceitaremos novamente entre nós.”, o velho disse orgulhoso, estufando o peito como Alcide fazia. “Está ciente das consequências para você e a vampira?” “Ele é um impuro.”, um dos lobisomens disse voltando a forma de humano. “Não merece caminhar entre nós.”, outro disse também retornando a forma. Jessica olhou em volta assustada vendo os lobisomens voltarem à forma humana. Eram musculosos, não eram peludos para a surpresa dela e estavam nus. Não pode deixar de notar o quanto eram bem dotados, pelo menos ela pode sorrir no meio de tanto pavor. “Alcide sabe que falhou no rito de passagem quando criança. Mas, não podemos negar a volta dele e a chance de tentar novamente o rito de passagem. Mesmo sendo impuro.”, o velho disse severamente caminhando entre os homens. “Além de ser fodido, ainda quer se casar com uma vampira.”, o rapaz jovem parecido com Alcide disse arrancando risos generalizados. “Respeite seu meio-irmão.”, o outro homem disse. Jessica não tinha dúvidas de que aquele homem era o pai de Alcide, e talvez o velho fosse o avô. A família dele comandava a cidade. Olhou de canto de olho para ver a reação de Alcide, mas ele nada fez, continuava parado encarando os homens a sua frente. “Se Alcide provar que merece fazer parte de nossa matilha, será aceito igualmente por todos.”, o velho disse em tom de ameaça. “Sendo impuro ou não.” “Se ele não fugir de medo igual da outra vez.”, o outro rapaz no meio dos homens disse. “Eu não fugi de medo.”, Alcide disse amargurado.

“Só ficou no chão estrebuchando...”, o rapaz retrucou e todos caíram na gargalhada. Jessica sentiu o ódio por aqueles homens crescendo em seu corpo, só ela poderia humilhar Alcide. Só ela poderia chamá-lo de inútil e dizer que era um cachorro fedido. “A anomalia dele não está em questão.”, disse o pai de Alcide. “Como não? Ele pode colocar outros em risco no ritual, como da outra vez. Um dos nossos morreu.”, o meio-irmão de Alcide disse. “Você nem era nascido.”, Alcide disse com desdém para o meio-irmão. “Sei o suficiente. Todo anos contamos o seu fracasso para os novatos.”, ele disse. “Alcide não tem culpa em ter herdado essa anomalia. Outros morreram porque foram incompetentes em abandonar um lobisomem em forma humana machucado.”, o velho disse se colocando novamente entre o pai e irmão de Alcide. “Repetirei novamente a pergunta: Está ciente das consequências para você e a vampira?” “Estou.”, Alcide respondeu rapidamente. “Não podemos aceitar uma vampira entre nós. Ainda mais com nossos deveres de guardiões.”, o irmão de Alcide disse encarando Jessica. “Ela não tem as presas, foram arrancadas. Se for aceita ficará sem elas para sempre.”, o velho respondeu. Jessica o encarou assustada, não queria ser tolhida das presas, não poderia continuar sendo vampira sem elas. Seria tão inútil quanto Alcide. Que tipo de vida teria vivendo no meio daqueles lobisomens que a odiavam e menosprezam seu futuro marido? O pensamento fez com que se sentisse pior ainda, e por considerar Alcide como marido. “Comecem os preparativos para o Rito de Passagem.”, o velho disse solene. “A vampira vem comigo.”, ele passou entre ela e o lobo, e a saiu puxando pelo braço. Jessica não teve tempo de dizer nada, Alcide tentou ir até ela, mas não conseguiu. Os homens voltaram à forma de lobisomem e começaram a arrancar a roupa de Alcide com as bocas e as garras. Ele também ficou nu, mas eles não pararam. Em seguida começaram a mordê-lo no corpo todo, e Jessica viu a porta sendo fechada e os urros de dor de Alcide. O velho a levava para uma das portas que viu trancada quando passaram pelo corredor. Ele a empurrou para dentro da sala e Jessica notou que estavam

num escritório. Não era chique e ricamente decorado como de seu pai. Mas, era um escritório simples, com apenas uma mesa, cadeiras e muitos livros em estantes nas paredes. Jessica se surpreendeu com a quantidade, iam até o teto. Deveria ter milhares de livros naquela sala. Ele indicou para que se sentasse na cadeira e foi se sentar atrás da mesa. O homem apesar da idade ainda era imponente e tinha até certo charme, Jessica imaginou como sendo um Alcide velho com inteligência. “O que vão fazer com Alcide?”, ela perguntou, mas se arrependeu em seguida, não estava preocupada com o lobo e sim com ela. “Vão deixá-lo pior do que seu povo fez com ele.”, o velho respondeu acendendo um charuto. “Vocês sabem da Autoridade?”, ela disse sem esconder a surpresa. “O vampiro baixinho nos avisou que puniriam Alcide e o motivo para isso.”, ele a encarou expelindo uma enorme quantidade de fumaça. “Ele obrigou meu pai para nós casarmos.” “Não tenho nada com isso. Quando um lobisomem escolhe uma mulher, só não podendo ser outra lobisomem, está feito.”, ele disse soltando mais fumaça. “Por que não pode ser uma lobisomem?”, ela perguntou mexendo no nariz por conta da fumaça. “A nossa lei máxima é que não devemos procriar entre nós mesmos. Nosso sangue é muito poderoso e quando misturados os filhotes nascem com problemas... são considerados Impuros.”, ele disse com uma expressão de dor. “Igual Alcide...”, ela pensou em voz alta. “Alcide é meu neto, eu o expulsei de nossa tribo quando fez 12 anos. Como você acompanhou em nossa Assembleia, Alcide não passou no Rito de Passagem de filhote para adulto. Por ser impuro, ele não teria outra chance.”, o velho disse virando a cadeira na direção da janela. “E por que deram?” “Porque eu destruí a vida dele. Tirei tudo que ele tinha porque não poderia passar a mão na cabeça de um neto. Eu não seria mais respeitado entre meus semelhantes. A pobre mãe dele não durou muito depois da expulsão, morreu quando Alcide fez 14 anos. Desde então ele se virou sozinho.”, ele fungou o nariz. Jessica percebeu que o velho chorava, ela mesma ficou surpresa com o passado de Alcide. Não sabia que ele havia se criado sozinho desde jovem. As

histórias dos dois eram um pouco parecidas. E ambos foram salvos por Bill, ela enxugou uma lágrima de sangue. “A mãe dele era lobisomem e aquele rapaz é filho de outra?”, ela não escondia mais a curiosidade em desvendar o passado do lobo. “Meu filho, Tomas, o pai de Alcide. Foi muito impetuoso quando jovem, não respeitava nossas leis e se apaixonou por outra lobisomem, Clara, a mão de Alcide. Os dois cruzaram e o pior aconteceu, Alcide nasceu. Eu os obriguei a ficaram separados, tomei o menino para meus cuidados. Mas, não pude esconder que ele era um Impuro. Pois, depois que volta a forma humana, Alcide sofre convulsão fortíssima. E fica vulnerável a ataques de predadores.”, ele fez uma pausa como se as lembranças fossem mais vividas do que gostaria. “Foi o que aconteceu no Rito de Passagem. Durante o exercício de caçarem coiotes, Alcide levou a mordida de um coiote ao defender um amigo que também participava do rito naquele ano. Voltou à forma humana e sofreu uma convulsão, os outros fugiram sem ajudá-lo. O amigo dele ficou e foi morto pelos coiotes ao se por em frente ao corpo de Alcide. Meu filho se casou um tempo depois da partida de Clara e Alcide. Dessa vez com uma humana e tiveram Francisco, o rapaz que estava ao meu lado.” Um silêncio pesado caiu na sala. Jessica sentia a mente vibrando, processando todas as informações. Sentiu alguns segundos de arrependimento pelos maus tratos que fez com ele, mas em seguida deu de ombros, não era culpa dela se Alcide tinha um sangue ruim. “O que farão comigo?”, ela perguntou baixinho. “Você ficará essa semana ao meu lado. Eu explicarei as nossas leis, ensinamentos e o que guardamos.” “O que guardam?” “Desde muito tempo nós somos os Guardiões daqueles que portam a luz interior.”, ele se voltou para ela com os olhos brilhando. Jessica sentiu o corpo tremer, lembrou-se na mesma hora da conversa que teve com Eric meses atrás e ele mencionou sobre seres de luz perigosos para os vampiros. “E também precisará passar por um Rito de Passagem.”, o velho disse apagando o charuto. “Não posso fazer nada sem minhas presas.”, ela disse passando a mão nos dentes que estavam crescendo. “Toda esposa escolhida tem a primeira noite com o Líder da Matilha.”, ele disse suavemente.

“Primeira noite? Sexo?”, ela disse balançando a cabeça. “Eu não sou virgem e pura, essas baboseiras.” “A mulher só é aceita entre nós quando o líder ejacula dentro dela.” “Que besteira é essa. Não faz sentido.”, ela disse gargalhando. “É a nossa lei e será cumprida.” “E se eu não quiser?” “Não existe não querer.”, ele disse em tom de ameaça. Jessica engoliu em seco. Sua situação só piorava, assim como a de Alcide. Além de se casar com um lobo idiota, conhecer a família louca, ainda teria que foder com o avô dele. Ela xingou mentalmente Bill por tê-la jogado nessa enrascada. ------------------------Bastian fez uma careta de dor após abrir um corte profundo no pulso, em seguida ofereceu o braço para Maya se alimentar. A vampira novata começou a sugar o sangue de seu criador avidamente. Bastian soltou gemidos altos o suficiente para atrair a atenção de Mariano e Pam. Estavam há vários dias num hotel caindo aos pedaços para desespero de Pam, mas perto de onde Ágata morava. Mariano veio junto na empreitada para se aproximar de Ágata quando fosse o momento de atacarem. “Não sei por que trouxe essa pivete junto. Se ela morrer a culpa não será minha.” Pam disse sem olhar para Bastian, continuava sentada em frente uma mesinha e olhando intensamente para a tela do notebook. Mariano se moveu de maneira desconfortável sentado no sofá ao lado de Bastian e Maya. “Não tinha como...”, ele soltou mais um gemido quando ela mordeu mais forte. “Ela só se alimenta do meu sangue.” “Como sempre é um idiota, Bastian.”, Pam deu um tapa na mesa e voltou-se para ele. “Santiago não te ensinou nada?” “Santiago não está falando comigo diretamente desde o acontecido.”, ele engoliu em seco. “Fala pouco e só através de Delilah. Ele nem deve saber que estou aqui na capital.”

“E nem é pra saber. Estamos numa missão totalmente às escuras.”, ela disse severa. “Um dia ela vai querer sangue humano, você não poderá alimentá-la sempre.” “Eu posso tentar.”, ele disse tremendo ligeiramente por causa da perda grande de sangue. “Sabe que não. Está doando tanto sangue que logo irá sumir.” Bastian passou a mão na cabeça de Maya e a afastou do pulso. A menina protestou tentando pegar o braço dele novamente. Mas, foi novamente impedida por Bastian que a tirou com um safanão. Maya caiu no chão por causa da força que ele usou, esfregava os braços e lágrimas de sangue escorreram em sua face. “Não vai chorar de novo.”, Bastian disse disfarçando a excitação que sentiu da alimentação. Não sabia quanto tempo aguentaria fazer isso também pelo prazer sexual que só aumentava e Maya era a última pessoa que ele gostaria de ter algo, sentia-se enojado de imaginar. “Você me odeia.”, ela disse forçando para não chorar mais e se colocando de pé. “Não paguei para fazerem esse drama adolescente.”, Pam disse com escárnio. “Não está pagando nada que eu saiba. É tudo de Eric.”, Bastian disse olhando a ferida no pulso fechar sozinha. “Você acha que só Eric tem dinheiro? Aquele jatinho veio do meu bolso. Eu fiz investimentos de alto risco que deram certo.”, ela disse orgulhosa. “Santiago contou uma vez que você e Eric foram expulsos da Europa porque roubaram toda a realeza.”, Bastian disse sufocando o riso. “Não é culpa minha se todas as rainhas, princesas, duquesas e esses títulos irritantes abriram as pernas para Eric e os cofres também.” “Quem é Eric?”, Maya perguntou sentando-se na beirada da janela fechada. “Ninguém.”, Bastian, Pam e Mariano disseram ao mesmo tempo. “Como ninguém? Escuto o nome dele direto.”, ela perguntou encarando os três vampiros. “Não se preocupe. Não irá conhecê-lo.”, Pam disse nada amigável. “Por que não? Ele não é como vocês?”, Maya disse surpresa. “Nem todos os vampiros são tão patetas como seu criador.”, Pam apontou para Bastian sorrindo.

“Não vou mais te ajudar se continuar me queimando assim.”, Bastian disse emburrado. “Se continuar servindo de alimento pra essa coitada.”, ela deu de ombros. “Não sou coitada.”, Maya disse ofendida se aproximando de Pam. “Terá sorte se sair viva no fim dessa missão.”, Pam a encarou com um olhar desafiador. “Sou igual vocês.” “É uma neófita. Não poderá continuar se alimentando do sangue de Bastian.”, Pam disse caminhando até o telefone perto de uma das camas. “O que vai fazer?”, Bastian perguntou preocupado. “Ensinar essa coitada a se alimentar.”, Pam respondeu friamente. Maya fez uma careta e voltou a se sentar ao lado de seu criador. “Por que não posso me alimentar dele?”, Maya apontou para Mariano. Pam soltou uma sonora gargalhada enquanto esperava ser atendida do outro lado. “É coitada, mas não é cega.” “Peraí, ela não falou isso porque Mariano parece um modelo de revista.”, Bastian disse balançando a cabeça de um lado para o outro. “Não pareço modelo de revista.”, Mariano disse cruzando os braços. “Não posso?”, Maya disse confusa. Mariano se levantou e caminhou até o notebook, olhou para a tela tentando disfarçar o quanto estava embaraçado. “Não pode. Mariano é bem mais velho que Bastian. Não pegaria bem sentir tesão por uma pivete como você.”, Pam gargalhou novamente. “Não entendi...”, Maya disse passando a mão no jeans desgastado que usava, Bastian havia comprado umas roupas para ela num brechó antes de viajarem. “Ela não sabe os fatos da vida.”, Mariano disse com um meio sorriso. Pam foi atendida no telefone e disse para trazerem quesadillas. Ela voltou para perto da mesa onde estava, cutucou as costas de Mariano para que se afastasse. “Eu sei os fatos da vida.”, Maya disse olhando irritada para Mariano.

“Pam, por que pediu serviço de quarto? Sabe bem que ninguém come quesadillas aqui.”, Bastian perguntou desconfiado. “Eu pedi comida para Maya.” “Ela acabou de se alimentar.”, Bastian retrucou nervoso. “Não de um humano. Não vou tolerar você parecendo sem forças o resto da viagem.”, ela encarou Bastian que estava quase deitado no sofá. Um leve toque na porta atraiu a atenção de todos. Pam se levantou, arrumou o vestido preto curto que usava e caminhou graciosamente em direção à porta. Um rapaz parecendo ter uns 20 anos estava do outro lado com uma bandeja. Pam deu espaço para que ele passasse e indicou que colocasse a bandeja na mesa ao lado do notebook. O rapaz observou o grupo sentindo um certo receio, o olhavam de maneira estranha. Assim que colocou a bandeja na mesa, nem percebeu quando foi agarrado pelo pescoço e obrigado a se ajoelhar no chão. “Se der um pio eu quebro seu pescoço.”, Pam disse perto do ouvido dele. Ele concordou com a cabeça sentindo o corpo tremer de pavor. Não imaginava o azar que tinha dado em trazer comida justo para o grupo de vampiros hospedados no hotel, e ele era a comida. “Venha, Maya. Não tenha medo.”, Pam disse suavemente. Maya se aproximou lentamente, olhou algumas vezes para Bastian procurando ajuda. Ele fez um sinal para que continuasse. Mariano sentou-se em frente à mesa, observava a cena interessado. “Imagine que ele é igual àquela carne suculenta no seu prato.”, Pam passava a mão na cabeça do rapaz. “Sou vege... quer dizer... eu era vegetaria.”, ela disse baixinho. “Imagina que ele é um nabo.”, Pam revirou os olhos. Bastian e Mariano soltaram risinhos. Maya se voltou para Bastian ofendida. “Ouça o coração dele batendo, a pulsação no pescoço, o pavor de que irá morrer, o cheiro que ele emane. Sinta... sinta tudo isso.”, Pam disse enfincando as unhas no pescoço dele. Maya notou o movimento de Pam, o sangue escorrendo pelos dedos dela. O som do coração dele era o único som que importava para ela naquele momento. Não conseguia distinguir o cheiro que Pam disse, parecia igual a qualquer outro. Talvez com o tempo. Mas, o cheiro do sangue era a melhor

coisa do mundo, o de Bastian era péssimo em comparação. Ela não entendia porque ele a estava privando disso. “Venha... pode chegar perto.”, Pam tirou a mão do pescoço, os pequenos buracos feito pelas unhas apareceram e sangue não parava de escorrer. Maya expôs as presas, ela ainda não estava acostumada com o movimento da mandíbula. As presas saíam sem ela controlar. O pouco que ela sabia veio dos ensinamentos sem vontade de Bastian, ela não tinha dúvidas de quanto era odiada por seu criador e não sabia o motivo disso. Ela não se lembrava quase nada de seu passado, Bastian disse que era um reflexo de novos vampiros e que aos poucos se lembraria. Será que tinha família? Havia gostado de algum menino? Beijado alguém? Ela se ajoelhou em frente ao rapaz, o olhar apavorado dele quase fez com que ela desistisse, não queria que ele se machucasse, e muito menos sofresse. “Peça para ele ficar calmo, Maya. Diga olhando diretamente nos olhos dele.” Maya repetiu o que Pam disse. Olhou nos olhos cinzentos do rapaz e disse para ficar calmo, que não o machucaria. “Agora coloque as presas no pescoço dele.” Ela levantou os olhos assustadas, já tinha visto em filme de vampiros, mas não esperava fazer isso na vida real. Ela arrastou os joelhos no chão até encostar o corpo no do rapaz. O coração dele pulsando de encontro ao corpo dela era tão diferente de tudo que tinha sentido antes quando era viva. Os corpos dos dois pareciam um só, ainda mais quando ela desceu as presas na carne quente do pescoço e começou a sugar o sangue. Pam se afastou com um sorriso vendo Maya se alimentar. Caminhou no sofá até Bastian, sentou-se dando um tapinha na perna dele. “Ela aprendeu com a melhor.”, ele disse com um sorriso caloroso. “Depois você se alimentará um pouco dele pra se recuperar.”, ela respondeu dando um beijo no rosto de Bastian. “Ágata está se movimentando.”, Mariano disse atraindo a atenção dos dois. “Onde?”, Pam num segundo se colocou ao lado do vampiro. “Saindo do apartamento.” “Essa hora?”, Pam olhou para o relógio do computador que indicava três e trinta e oito da madrugada.

“Está funcionando direito o transmissor que colocou no celular, Bastian?”, ela perguntou para ele que se aproximou da mesa. “Claro. Desde ontem quando entramos no apartamento dela está funcionando.” “Temos que agir, não podemos ficar parados.”, Pam bateu as mãos animada. Os três vampiros estavam tão distraídos que demoraram em perceber que a porta do quarto estava escancarada. Não havia sinal de Maya e o rapaz estava caído sem vida. “Meu Deus.”, Bastian gemeu apavorado. “O que fizemos...” “Nos distraímos e ela bebeu todo o sangue.”, Mariano disse tão apavorado quanto Bastian. “Fale algo que não sabemos, Mariano.”, Pam deu um tapa na cabeça dele. “Ela está em frenesi.”, Bastian disse correndo para a porta. “Não se mova.”, Pam gritou para ele. “Você não dará conta se a encontrar. Neófitos em frenesi ficam extremamente fortes.” “O que faremos?”, ele perguntou. “Eu irei atrás dela. Vocês vão atrás de Ágata. Descubram o que ela foi fazer. Não façam nada além disso.”, ela disse severamente. “Como irá encontrar Maya? Eu posso chamá-la.”, Bastian disse preocupado. “Não adianta. Nesse estado ela não irá responder.”, Pam disse com a mão na cintura. “Vou encontrá-la seguindo o rastro de corpos.” Os dois vampiros se entreolharam enquanto Pam saía em disparada do quarto. Bastian tinha receio do que poderia acontecer, desejou tanto se livrar de Maya, mas não queria que fosse dessa maneira. ---------------------------------Sookita desceu correndo a escada principal da mansão. Estava indo ao encontro de Tara que a esperava na sala de televisão. Apareceu com o rosto vermelho e puxando o ar por causa do esforço que tinha feito. Ainda não estava totalmente recuperada do longo período que passou ausente. “Bill está aqui?”, Tara perguntou apreensiva. “Nem cumprimenta mais? Cadê sua educação?”, Sookita disse dando um tapinha no ombro de Tara.

“Estou com um pouco de pressa. Daqui a pouco começa meu turno... na boate.”, ela disse rapidamente. “Achei que veio pra ficar. Estou indo preparar meu jantar e Bill está se arrumando para uma reunião.”, Sookita disse sem esboçar reação às palavras de Tara. “Eu não sei por que farei isso. Sei que irei me arrepender.” “Do que?” “Sei que é injusto com você. Desde aquele dia lá em casa, você está tão melhor...”, Tara disse abaixando a cabeça. “Só vou entender se falar o que é.”, Sookita disse. “Bill não pode saber.” “Tara, por favor...” “Eric quer te ver... droga, droga, droga.”, Tara deu um tapa raivoso na cabeça. “Como sabe disso?”, Sookita perguntou friamente. “Ele quer a jaqueta de volta... falei que estava com você... ele disse pra você devolver. Eu sei que é desculpa pra te ver, é óbvio, ele nem consegue disfarçar.”, Tara disse de uma vez, parando para recuperar o fôlego. “Eu te dou a jaqueta e você devolve, fim do problema.”, Sookita se virou para sair da sala. “Não. Ele quer que você devolva.”, Tara disse com pesar. “Estou sendo uma péssima amiga, você sabe que não aprovo essa história toda, ainda mais que Bill não merece isso.” “Perdi a conta de quantas vezes ouvi isso, Tara.”, Sookita suspirou. “Eric não significa mais nada pra mim depois daquela conversa. Você levará a jaqueta, não quero mais vê-lo.” “Droga, Sookita. Eu sei disso, por isso estou me odiando.” “Por acaso ele te hipnotizou?”, Sookita a olhou desconfiada. “Não. Ele sabe que você descobriria fácil. Até gostaria de estar hipnotizada.”, ela desabou no sofá. “Eu vou lá buscar.” “Ele está um lixo, Sook.”, Tara disse o mais baixo que conseguiu.

Sookita estancou na porta, queria sair correndo e buscar a jaqueta, mas não conseguiu. “E isso te comoveu?”, ela perguntou incrédula, virando para encarar Tara. “A boate está uma zona. Pam viajando e Mariano foi com ela. Eric está mais em casa do que na boate. O pouco que aparece lá, não trabalha mais. O escritório dele está cheio de coisas quebradas. A chata da Carmelita está cuidando de tudo.”, Tara continuou falando baixo, não queria que Bill ouvisse. “E o que a jaqueta tem a ver com isso”, Sookita cruzou os braços. “Não é coincidência ele ficar nesse estado depois daquela noite.”, Tara a encarou. “Ontem a noite ele foi à boate, estava todo desgrenhado, não era sombra daquele vampiro assustador. Foi direto falar comigo, aos gritos... só para você ter noção do show.” “E só hoje veio me falar...”, Sookita disse se sentando ao lado dela. “Eu nem dormi direito pensando se deveria te contar, se seria o certo... depois de tudo que aconteceu.” “Não vou vê-lo, é a minha decisão final.”, Sookita levantou a cabeça de maneira altiva. “Ele disse que viria aqui te procurar.”, Tara deu de ombros. “Ele não ousaria.”, Sookita se colocou de pé e quase gritou. “Do jeito que eu vi ele doidão, não duvidaria.” “Isso não pode acontecer. Eles iriam brigar, ele mataria Bill num piscar de olhos.”, Sookita empalideceu. “Por isso eu disse que era injusto, ele não deu alternativas.”, Tara soltou um suspiro. “Ele é tão baixo e manipulador. Consegue tudo o que quer, basta ameaçar os mais fracos.” “Estava com saudades de ouvi-la dizer isso.”, Tara abriu um sorriso. “Onde ele quer receber a jaqueta de volta?”, Sookita ignorou o comentário de Tara. “Na casa dele.” “Não vou nem morta. Por que não pode ser na boate?”, ela perguntou irritada.

“Sei lá, eu não sei o que passa na cabeça daquele louco.”, Tara franziu o cenho. “Ele quer te encontrar de dia.” “O que?”, Sookita disse alto. “Exatamente minha reação no meio da boate lotada. Todo mundo olhando pra nossa cara.”, Tara sentiu vontade de rir ao lembrar-se da comoção na boate com aquele gigante loiro fora de si. “Ele disse que só assim para Bill não desconfiar... ou algo do gênero...” “Mesmo assim não irei a casa dele.” “Sook, pelo amor, não complique. Eu sou tão contra como você. Mas, o bicho está tão acabado, que nem gostoso está. Eu juro.”, ela colocou a mão no peito. “Em uma semana?” “Você verá que estou certa.”, Tara disse. “Acho que o melhor será quando Bill for dormir, você finge que irá também e eu venho te buscar.” “E os seguranças?”, Sookita perguntou preocupada. “Daremos um jeito.” Sookita subiu devagar a escada após Tara ir embora. O plano traçado estava em sua cabeça. Justo quando tudo começava a dar certo, ela tentando esquecer o que tinha acontecido, e o casamento com Bill não estava tão ruim assim. Apesar de que ainda não tinham feito sexo, ela não se sentia preparada e ele disse que esperaria pacientemente quando ela quisesse. Cada dia mais ela descobria o quanto tinha escolhido certo se casar com Bill, mesmo que não o amasse, um dia acabaria acontecendo. Os dois passavam horas conversando antes dele sair para trabalhar toda noite. Cada conversa eles descobriam algo em comum e coisas não tão em comum, mas nada que fosse atrapalhar a relação. Desde o acontecido com Eric no apartamento de Tara, e a decepção que teve. Sookita prometeu que não derramaria mais uma lágrima e que ele não merecia tudo que ela tinha dado. Um dia contaria para Bill tudo o que se passou em Rosamar, por mais dolorido que fosse. Mas, se esperasse ter um casamento real com ele, teria que contar a verdade e esquecer Eric de uma vez, enterrá-lo no passado, junto da morte de Jason. E ficar apenas com as lembranças de algo que poderia ter acabado diferente. Ela de despediu de Bill com um beijo suave nos lábios, ele saiu sorridente para a reunião na prefeitura. Dizendo que logo voltaria. Ela se sentou na cama não sentindo mais a excitação de antes em saber que veria Eric. Da última e única vez que esteve na casa dele, as coisas entre os dois não tinha acabado bem, inclusive ele bebeu o sangue dela a força. Foi o momento onde o encanto por

ele quebrou, depois a descoberta do amor que sentia por ele se tornou real, forte, sem encantamentos de romances de banca. Agora ela só sentia pesar pelo amor tão cruel, tão realista que teve, acabou sentindo falta dos romances açucarados. -------------------------------Quando Bill chegava tarde dormia no quarto de baixo, no caixão especialmente preparado. Sookita se levantou às cinco da manhã, o coração aos pulos pelo que faria. Não porque encontraria Eric, ela queria que ele queimasse no fogo do inferno, mas por driblar os seguranças humanos de Bill. Por sorte, os seguranças da noite que eram vampiros estavam obviamente impossibilitados de trabalharem de dia. Ela vestiu uma calça jeans surrada, uma camiseta branca básica e pegou a jaqueta dele que tinha deixado escondida bem no fundo de uma das gavetas de roupas e que provavelmente Bill não mexeria. O cheiro dele continuava forte na jaqueta, mesmo ficando uma semana guardada no meio de outras roupas. Colocou dentro de uma sacola e saiu pela porta. A mansão estava quieta, a troca de funcionários começaria dali meia-hora. Poderia se locomover sem ser vista. Foi até o quarto onde Bill estava dormindo. Abriu a porta devagar e viu o caixão lacrado. Não teve dúvidas de que ele estava ali. Ela fechou a porta aliviada, seria difícil explicar a sua situação se o encontrasse na casa naquele momento. Sookita foi até a cozinha, era o lugar mais vazio da casa, ainda mais com ela, a única humana que ali morava estando dormindo. Destravou o alarme da porta, ela sabia a combinação para o caso de alguma emergência, afinal, não era uma prisioneira. Saiu para o jardim, sairia pela cerca viva que separava a mansão de Bill do vizinho mais próximo, seria uns quinze minutos de caminhada pelo enorme jardim. O labirinto estava encoberto pela neblina, dava um visual fantasmagórico. Sookita sentiu um pouco de medo, tinha receio do que poderia encontrar. Começou a caminhar pelo lado esquerdo da propriedade, ficou feliz em ter colocado o velho tênis que usava quando trabalhou no bar de Sam. Precisava ir visitá-lo, não o havia visto depois de tudo o que aconteceu com Jason. O gramado estava escorregadio por causa da noite, ela quase escorreu algumas vezes. Estava suada e cansada quando chegou à cerca viva que separava as duas propriedades. Ela se surpreendeu por conseguir escalar o muro, por sorte não era alto. Parou para respirar quando pulou do outro lado. Pelo menos emagreceria um pouco com tanto exercício. Caminhou entre as duas propriedades, ainda havia mais

um muro que circundava a casa do vizinho de Bill, sorte que não precisava escalar esse muro, pois tinha cerca elétrica. Já Bill poderia se dar ao luxo em não ter uma mansão com cercas elétricas, os seguranças vampiros davam conta do recado a noite, nada entrava e saia da propriedade sem que percebessem. Tara a esperava em frente à casa do vizinho, usava o carro velho de Sookita. Tinha deixado para a amiga usar, pois não precisaria mais, teria vários carros à disposição na mansão. Apesar de que não tinha usado nenhum ainda, Bill havia deixado um motorista particular à disposição. “Não trouxe desodorante?”, Tara perguntou dando risada. “Não.”, ela respondeu emburrada. “É bom que irá deixar Eric bem longe.” As duas caíram na gargalhada. Sookita tentou arrumar o cabelo que estava todo bagunçado, tirou o elástico e arrumou novamente o rabo de cavalo. A camiseta branca estava um pouco suja, ela praguejou pela escolha, ainda mais que poderia se sujar. Entraram no carro e Tara saiu em alta velocidade. Quando Tara parou o carro em frente à casa de Eric, o coração de Sookita disparou, por mais que sentisse tanta raiva dele. “Você ficará esperando aqui?”, Sookita perguntou. “Claro que não, eu vou dormir. Você se vira pra ir embora.”, Tara deu de ombros. “Eu não vou demorar. Irei entrar e devolver a jaqueta.” “Sabemos que não será tão fácil.”, Tara apertou a mão de Sookita. “Qualquer coisa me ligue, trouxe seu celular, né?” Sookita confirmou com a cabeça. Em seguida abriu a porta do carro e lançou um último olhar para Tara. “Nossa, parece que está indo para a forca.”, ela disse com um sorriso de canto. “Ele disse que a porta estaria destrancada.” Sookita jogou um beijo para a amiga e se afastou em direção a casa. O pavor aumentou quando Tara foi embora. Agora não tinha como dar pra trás, teria que enfrentá-lo novamente. Mas, já tinha um plano em mente, só daria a jaqueta e iria embora rapidamente, não perderia tempo com papo nenhum. A casa estava com as persianas de proteção abaixadas, não tinha dúvidas de que ele estaria na casa. Ela suspirou forte várias vezes antes de abrir a porta, provavelmente ele estava ouvindo tudo. E ela estava suada, com a camiseta suja e toda vermelha do exercício todo que tinha feito. Mas, agora não importava mais, não aconteceria nada.

Ela empurrou a pesada porta para abrir, não estava trancada. Mas, a casa estava na penumbra, para a tristeza dela. Ela não viu movimento nenhum, fechou a porta com força para que ele aparecesse. Mas, nada aconteceu. “Eric?” O chamou esperando que respondesse, mas ele não fez nenhum movimento. Por alguns momentos ela pensou se não seria uma pegadinha de mau gosto dele. “Eric?” Ela falou o mais alto que conseguiu, caminhou para perto da cozinha, nada parecia ter sido mexido, a casa aparentava estar vazia. “Você veio.” Ela pulou quando ouviu a voz dele, viu o movimento dele no sofá, estava ali deitado o tempo todo. Não sabia se tinha realmente dormido ou ficou quieto esperando o momento de agir. “Eu vim... por obrigação.”, ela falou irritada. “Não tem problema. Mas, você veio.”, ele se sentou no sofá. Sookita estava incomodada com a falta de luz, não conseguia vê-lo direito. E isso tudo aumentava ainda mais a tensão do encontro. “Aqui está sua jaqueta.”, ela tirou a jaqueta da sacola e jogou na direção dele. “Obrigado.”, ele disse numa voz fraca. “Você já tem o que queria. Vou indo embora.”, ela disse se afastando em direção a porta. “Não vá. Por favor.” “Esse seu teatro não irá me comover como fez com Tara.” Ela abriu a porta, a luz do sol entrou na sala, não estava tão escuro como antes. Ela se virou para sair, quando o vislumbrou sentado no sofá. Tara não havia mentido. Sookita segurou a porta sentindo um leve tremor nas mãos, não conseguia parar de olhá-lo. Nunca imaginou que o veria daquela maneira. “Satisfeita?”, ele perguntou deitando novamente no sofá.