UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIA HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS–GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL

VALORES SOCIAIS E PRECONCEITO RACIAL: COMO PERCEBO A MIM E AO OUTRO

Dissertação de Mestrado

Samuel Lincoln Bezerra Lins

2 JOÃO PESSOA – PB Março de 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL

VALORES SOCIAIS E PRECONCEITO RACIAL: COMO PERCEBO A MIM E AO OUTRO

Dissertação apresentada por Samuel Lincoln Bezerra Lins ao Programa de Mestrado em Psicologia Social da Universidade Federal da Paraíba, para obtenção do título de Mestre em Psicologia Social.

João Pessoa – PB

3 Março de 2010

B574v Lins, Samuel Lincoln Bezerra.
Valores sociais e preconceito racial : como percebo a mim e ao outro / Samuel Lincoln Bezerra Lins. - - João Pessoa: [s.n.], 2010.

126f. Orientador: Leoncio Camino Rodriguez Larrain. Dissertação (Mestrado) – UFPB/CCHLA. 1.Psicologia social. 2.Racismo. 3.Valores Sociais . 4.Preconceito. 5. Primeiro mundo. 6. Terceiro mundo.

UFPB/BC

CDU: 316.6 (043)

Para o desenvolvimento desta pesquisa e das demais atividades do Curso. de Direitos em Humanos e Socialização Política. por meio de uma . o mestrando teve o apoio do Conselho Desenvolvimento Nacional Científico de e Tecnológico (CNPq). através do Grupo Pesquisa Comportamento Político – GPCP do Programa de Mestrado em Psicologia Social. da Universidade Federal da Paraíba.4 Trabalho inserido na linha de Pesquisa Valores.

Valdiney Veloso Gouveia (PPGPS/UFPB) . Dra. Maria Ligia de Aquino Gouveia (Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ) _______________________________________________ Prof. 31 de Março de 2010 Pelos membros da Banca Examinadora: _______________________________________________ Prof. Dr. LETRAS E ARTES PROGRAMA DE MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL A dissertação VALORES SOCIAIS E PRECONCEITO RACIAL: COMO PERCEBO A MIM E AO OUTRO.5 bolsa de estudo UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS. foi aprovada em: João Pessoa. Dr. Leoncio Camino Rodriguez Larrain (Orientador) (PPGPS/UFPB) _______________________________________________ Profa. elaborada por Samuel Lincoln Bezerra Lins.

‘Nós’ são as pessoas das quais devia haver mais” Zigmunt Bauman . nenhum. toda Glória e todo louvor sejam dados ao Rei Jesus” “Sempre já um número demasiado deles.6 “Toda Honra. ´Eles’ são os sujeitos dos quais devia haver menos – ou. E nunca há um número suficiente de nós. melhor ainda.

Valdiney Veloso Gouveia. A Matheus Laureano e a Ana Clotilde. Ao professor. Ao Grupo de Pesquisa em Comportamento Político. pelo amor. Ademar Candido e Zoraide Lins. pelo companheirismo. pelas orientações profissionais e pessoais. Aos colegas da turma do mestrado. Aos professores Dr. onde a amizade. por me fazer compreender a dimensão do que é trilhar uma carreira profissional de pesquisador. ansiedades e conquistas vivenciadas juntos. mestre e amigo Dr. Ao meu irmão amado Ademar Filho. A Kátia Cordeiro Antas. pela cumplicidade e estímulo para sermos sempre melhores.7 Agradecimentos A Jesus. pela paciência e amizade de me ensinar a dar os primeiros passos na pesquisa. pelo cuidado e carinho com minha vida. Aos amigos e pesquisadores Aline Vieira de Lima Nunes e João Fernando Wachelke. por me proporcionarem os primeiros prazeres de ser um pesquisador. pela compreensão e incentivo. pelas conversas edificantes. confiança e dedicação. A Eveline. Salvador e Amigo. Joseli Bastos da Costa e Dr. Aos melhores pais do mundo. Leoncio Camino. o apoio e o incentivo sempre se fizeram presentes. meu Senhor. . companheiros de jornada.

..2.............1 OBJETIVOS. c....................1........................ 14 CAPÍTULO 1: O PRECONCEITO.............. e..............3 Procedimentos............................................... 3................................. 41 54 55 55 56 56 56 57 57 58 58 CAPÍTULO 3: ESTUDO EMPIRICO I.......... d.....................................................................................4 COMO PERCEBO A MIM E AO OUTRO?.................. 1....... Escala de rejeição de políticas afirmativas................................................. a.. 3...4 Resultados...............2.......................................................................... 1....1 O PRECONCEITO RACIAL ..................................................1 Objetivo Geral....................................1 OS VALORES SOCIAIS E O RACISMO.................................2 Instrumento de coleta de dados. 3.................... 3................2 Objetivos Específicos...... 40 2...........................2...................................................2..... 3.............................................3 QUAL A ORIGEM DO PRECONCEITO?..............................................2.............4..2................ 24).........1 Participantes............1........................................................................2 O PRECONCEITO RACIAL NO BRASIL...... Questionário de valores psicossociais (QVPb............................................. CAPÍTULO 4: ESTUDO EMPIRICO II.. Escala de atitudes favoráveis ao 1º e 3º 59 59 59 60 60 69 76 Mundo.............................................. 3... 3....... 1...... 1.........................................2...........................................5 Discussão.4.....2 Resultados Pesquisa II.................................................... 19 20 23 30 32 CAPÍTULO 2: OS VALORES SOCIAIS E O RACISMO.................. Escala de rejeição da intimidade (preconceito flagrante)......................................... 3................................ 3.......... 3.1 Resultados Pesquisa I................................ 85 ............ Escala de distâncias percebidas.......... 3...........8 Sumário INTRODUÇÃO......................................................2 MÉTODO.....

.. APÊNDICES........................................... Perfil sócio demográfico dos participantes (Pesquisa I)........................................9 4..1 4...............................5 Discussão.................................. 4.... Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído . 4...... 4..................................................................... 86 86 86 87 87 88 89 CAPÍTULO 5: CONSIDERAÇÕES FINAIS.....2.................................................................................2.................................... Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos sistemas de valores a si mesmo e aos negros brasileiros (Pesquisa I)...........................3 Procedimentos................................ 95 116 Lista de Tabelas Tabela 1..........................63 Tabela 4.......61 Tabela 2....................................................................... 92 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...... 4.....................2............................................... Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância dos sistemas de valores atribuído a si mesmo e aos brancos brasileiros (Pesquisa I)....... MÉTODO...........2....2 OBJETIVO...............................................................1 Participantes..................................................62 Tabela 3.............2 Instrumentos...............................................2.......4 Resultados............... 4....

... Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos sistemas de valores pelos estudantes e aos negros brasileiros (Pesquisa II)................... Alpha de Cronbach dos fatores (Pesquisa II)................. Estrutura fatorial da escala de atitude favorável ao 1º e 3º mundo (Pesquisa II)................72 Tabela 16........71 Tabela 15............................... Perfil sócio demográfico dos participantes (Estudo Empírico 2)....................................................................75 Tabela 20.... Análise comparativa das comparações de médias das Pesquisas I e II..................................73 Tabela 18................................... Comparação dos pressupostos iniciais com os resultados obtidos......................................... Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com preconceito flagrante (Pesquisa II)..........89 Tabela 25.........................79 Tabela 23................... Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com preconceito simbólico (Pesquisa I)................................72 Tabela 17...............................64 Tabela 5.69 Tabela 12........ Alfa de Cronbach dos sistemas de valores (Pesquisa I)................... Estrutura fatorial da escala de preconceito flagrante (Pesquisa I)....65 Tabela 7............70 Tabela 13.........................................71 Tabela 14..........78 Tabela 22............ Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com preconceito simbólico (Pesquisa II).. Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com preconceito flagrante (Pesquisa I).........64 Tabela 6...................... Estrutura fatorial da escala de preconceito flagrante (Pesquisa II)..................................... Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos sistemas de valores pelos estudantes e aos brancos brasileiros (Pesquisa II)............................................................................................66 Tabela 9...... Estrutura fatorial da escala de preconceito simbólico (Pesquisa I)...... Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos negros aos brancos brasileiros (Pesquisa II)........76 Tabela 21........90 Lista de Figuras ......73 Tabela 19............................................................65 Tabela 8...................................... Comparação de médias das pontuações obtidas do grau de importância atribuído aos sistemas de valores pelos estudantes aos países de 1º e 3º mundo....... Perfil Sócio demográfico dos participantes (Pesquisa II)................................... Estrutura fatorial da escala de preconceito simbólico (Pesquisa II)........................68 Tabela 11...........10 aos negros aos brancos brasileiros (Pesquisa I). Comparação dos pressupostos iniciais com os resultados obtidos............................. Estrutura fatorial da escala de atitude favorável ao 1º e 3º mundo (Pesquisa I).67 Tabela 10..................................86 Tabela 24........................

.............45 Figura 2 – Estrutura e conteúdos dos sistemas de valores................................................50 Lista de Apêndices .......11 Figura 1 – Estrutura motivacional dos valores humanos.................................................

...........125 Resumo O preconceito racial é um tema bastante discutido e relevante no Brasil.............................................................................................................122 APÊNDICE G: Escala de atitude favorável ao 1º e 3º mundo...............120 APÊNDICE E: Escala de rejeição de políticas afirmativas (preconceito simbólico).123 APÊNDICE H: Questionário – Estudo Empírico 2........................................................124 APÊNDICE I: Termo de consentimento livre e esclarecido...............118 APÊNDICE C: Questões relativas à população de cor negra e branca.....................................................................................12 APÊNDICE A: Questionário sócio-demográfico....................................121 APÊNDICE F: Escala de rejeição da intimidade (preconceito flagrante)........ onde se tem ...119 APÊNDICE D: Escala de distância percebida.......................................117 APÊNDICE B: Questionário de valores psicossociais – QVP-24...................................................................................................

são preditores da expressão do preconceito. Os resultados indicam que os estudantes das duas universidades praticamente atribuem a si mesmos valores relacionados à Justiça Social e ao Desenvolvimento Pessoal.13 buscado identificar os fatores que influenciam o seu surgimento. min= 17 e máx= 34). Atitude Favorável ao 1º e ao 3º mundo. Proximidade ao Negro e ao Branco. de primeiro mundo. O estudo permite considerar que a adesão aos valores tem relação direta com a expressão do preconceito racial. Um fator importante são os valores sociais que. seriam atribuídos valores de terceiro mundo e. em ordem de importância. DP= 4. três valores dos 24 valores do QVP-24. porém os resultados apresentaram o inverso.3) da mesma cidade. DP= 6. Por fim. com idade média de 21 anos (DP= 3. e aos negros. Valores Psicossociais. assim como a adesão aos valores de Justiça Social e de Religiosidade e a proximidade com pessoas de cor negra apresentaram uma relação com a não expressão do preconceito. a importância de se investigar a relação entre valores e preconceito. Posteriormente. idade média de 24 anos. Primeiro e Terceiro Mundo. valores de Justiça Social (1º mundo). Por isso. o que contribuiu para a realização de outro estudo. foi realizada uma regressão linear múltipla (método stepwise). O pressuposto inicial do estudo afirmava que. Com objetivo de verificar se existem diferenças entre os valores atribuídos pelos estudantes a si mesmos e aos grupos sociais (negros e brancos) foram realizadas comparação de médias (test-t). foram relacionados valores vinculados ao Desenvolvimento Individual e ao Materialismo. Preconceito. Escala de rejeição da intimidade (preconceito flagrante) e Escala de atitudes favoráveis ao 1º e 3º mundo. Escala de distâncias percebidas. enquanto que aos brancos atribuem valores Materialistas e Hedonistas (3º mundo). e variáveis sócio-demográficas (Variáveis Independentes). Valores Sociais. Desenvolvimento Profissional. Palavras-chave: Racismo. que ele classifica como valores de Primeiro Mundo e de Terceiro Mundo.22). E a segunda com 200 estudantes de uma universidade pública (135 mulheres e 65 homens. Aos países de 1º mundo. com o objetivo de identificar se variáveis do estudo. Abstract Racial prejudice is a thoroughly discussed and relevant theme in Brazil. Os resultados do segundo estudo indicaram que os pressupostos iniciais do primeiro estudo estavam coerentes. assimilam estruturas amplamente difundidas entre os grupos sociais e abrangem aspectos individuais e sociais. Foi solicitado ao estudante que indicasse. O Estudo Empírico I teve o objetivo de analisar a relação existente entre os valores e diversas expressões do racismo. foi realizada uma análise dos componentes principais (rotação Varimax) para verificar a estrutura interna das escalas e para comprovar a consistência interna dos fatores. enquanto que aos países de 3º mundo foram atribuídos valores relacionados à Justiça Social. e que a cor de pele (negro e branco) influencia na atribuição dos valores. Pode-se verificar que a adesão a valores Hedonistas e Materialistas. Hedonismo. Esta dissertação é composta por dois estudos. ao branco. e à Religiosidade. O Estudo Empírico II objetivou verificar quais os valores sociais que os estudantes universitários atribuem às pessoas de 1º e 3º mundo. idade média de 22 anos. Este estudo foi realizado com duas amostras: a primeira com 220 estudantes de uma instituição de ensino superior particular de João Pessoa – PB (150 mulheres e 70 homens. ter proximidade com o branco. Participaram do estudo 220 estudantes de uma Universidade Pública da cidade de João Pessoa-PB (75 homens e 145 mulheres). por sua natureza. Os instrumentos utilizados foram: Questionário de valores psicossociais (QVP24). ao negro. where efforts . Escala de Rejeição de políticas afirmativas. como ter uma atitude favorável a países de primeiro mundo. As escalas utilizadas apresentaram índices de fidedignidade e validade aceitáveis em ambas as pesquisas. influenciam diretamente o Preconceito Flagrante e Simbólico (Variável Dependente).

mean age 22 years. and first world values to the white. Social values are important factors due to their assimilation of widely diffused structures among social groups. that having a favorable attitude toward first world countries and having a proximity with the white are predictors of prejudice expression. with mean age of 21 years (SD = 3. It could be verified that the adhesion to Hedonistic and Materialistic values. With the aim of verifying if there are differences between the values attributed by students to themselves and to social groups (black and white) comparisons of means were made (t-test). That is why it is important to investigate the relationship between values and prejudice. IV) influence Flagrant and Symbolic Prejudice directly (Dependent Variable.22). First and Third World. also encompassing individual and social aspects. Further. Professional Development. Intimacy rejection scale (flagrant prejudice) and Scale of Favorable Attitudes toward 1 and 3 world. Finally. a factor analysis (Varimax rotation) to verify the internal structure of the scales and to confirm the internal consistency of factors. and sociodemographic variables (Independent Variables. The initial assumption from the study stated that third world values would be attributed to the black. Affirmative policies rejection scale. . Social Values. This dissertation is composed by two studies. And the second one had 200 public university undergraduate students (135 women and 65 men. The results from the second study indicated that the initial assumptions of the first study were coherent. as well as the adhesion to Social Justice and Religiosity values and the proximity with black people presented a relationship with the non expression of prejudice. min = 17 and max = 34) took part of the study. a multiple linear regression (stepwise method) was carried out. The employed instruments were: Psychosocial values questionnaire (QVP-24). The study allows to consider the adhesion to values in direct relationship with the expression of racial prejudice. First world countries were associated with values related to Individual Development and Materialism. SD = 4.14 have been done to identify that influence its outbreak. which contributed to the conduction of another study. with the aim of verifying if study variables Psychosocial Values. and that skin color (black and white) influences in value attribution. st rd rd st st rd st rd rd Key words: Racism. Students were asked to indicate. in order of importance. Hedonism and Religiosity were attributed to 3 World countries. but results were inverted. Prejudice.3) from the same city. whereas Material and Hedonistic (3 world) values are attributed to the white and Social Justice (1 world) is attributed to the black. while values related to Social Justice. This study was conducted with two samples: the first one with 220 students from a private higher education institution from João Pessoa – PB (150 women and 70 men. three of the 24 values from the QVP-24 that he or she would classify as First and Third World values. SD = 6. The employed scales presented acceptable reliability and validity indexes in both studies. A total of 220 students from a public university of the city of João Pessoa (75 men and 145 women). Proximity to Black and White. Results indicate that the students of both universities practically attribute to themselves values related to Social Justice and Personal Development. Empirical Study II aimed at verifying what social values are attributed by undergraduate students to 1 and 3 world people. Empirical Study I aimed at analyzing the the relationship between values and the various expressions of racism. mean age 24 years. Favorable Attitude toward 1 and 3 world. Perceived distances scale. DV).

15 INTRODUÇÃO .

2004). 11). foi a partir da Segunda Guerra Mundial que se pôde observar um desenvolvimento progressivo de uma norma social contra comportamentos e crenças racistas tradicionais (Pettigrew & Meertens. principalmente. Especificamente. negam ter. (p. e divulgando o pensamento de que os mestiços elevariam o seu nível de civilização através da diluição do sangue negro. manteve-se uma consciência de diferenças hierárquicas entre as raças. “os brasileiros sabem haver. Oliveira & Barreto. mesmo após a emancipação da população negra. ou seja. Este modo de pensar contribuiu para que os brancos brasileiros se sentissem superior aos negros e agissem de maneira preconceituosa contra eles. 1932/1959). Esta contradição ainda é vivenciada intensamente no Brasil. 1995. defendendo a posição de que a realidade brasileira era carregada de desigualdade racial e discriminação. Gilberto Freyre (1933) defendeu a idéia de que a miscigenação resultaria em uma herança positiva para o Brasil. no Brasil.16 A Psicologia vem estudando diversos fenômenos que procuram relacionar as desigualdades e injustiças sociais ao preconceito. preconceito contra os negros”. Viana. 2003. 1999). colaborando para trazer uma harmonia nas relações sociais. pois o país parece celebrar o fato de ser considerada uma nação livre de preconceitos. em sua imensa maioria. mas demonstram. 1933/1945. . originada. Ianni. do processo histórico-cultural da escravidão. num esforço consciente de colaborar com o fim da discriminação social e a instauração de uma sociedade de direito. segundo Venturi e Paulino (1995). taxando os negros como uma raça biologicamente inferior (Rodrigues. Contudo. Florestan Fernandes (1972) se contrapôs a tais concepções. através do branqueamento (Guimarães. Afinal.

Wilson. 1986. Silva & Machado. Contudo. . & Akert. pela preocupação em revelar formas menos evidentes e mais difundidas de racismo. surgem os valores sociais que unem aspectos tanto do comportamento social. Gaertner & Dovidio. 2004a. França & Monteiro. 2004). enquanto ideologia e prática. Denomina-se este fenômeno de racismo moderno. como individual. as práticas discriminatórias estão adquirindo expressões mais sutis (Camino. formas essas que reproduzem atitudes discriminatórias sem desafiar a norma social de indesejabilidade do racismo. é formalmente proibido na maioria dos países ocidentais. e que se expressa em sentimentos e comportamentos depreciativos. busca-se encontrar a relação de construtos sociais que contribuam para uma melhor compreensão do preconceito racial. numa perspectiva psicossocial. Neste sentido. o outro lado da moeda mostra que as práticas sociais e culturais insistem em reproduzir hierarquias raciais (Rivera. nos últimos anos. onde o preconceito se manifesta de maneira indireta e sutil. as novas formas que o preconceito racial vem tomando. 2002). 2004. o racismo aberto e ativo tem sido substituído. considerando as situações contextuais e culturais para a sua manifestação.17 contudo. que existe naturalmente nos indivíduos ou grupos. O racismo. Assim. Todavia. para que não sejam reconhecidas como racistas (Aronson. 1995. 1968). Sears. Assim. Lima & Vala. 2009). As teorias psicológicas clássicas estudam o preconceito como atitude universal. e não como uma característica de personalidade e inerente ao indivíduo (Silva. gradualmente. pois as pessoas se comportam de forma que escondem o preconceito que têm. têm se estudado.

Contribuindo para uma compreensão mais aprofundada de como a adesão aos valores sociais pode influenciar a expressão do preconceito racial. buscando identificar como os estudantes percebem a dinâmica dos valores em si mesmo e nos outros (branco e negro). há uma apresentação do histórico sobre o estudo do preconceito racial e uma descrição de como as pesquisas sobre o racismo vêm se desenvolvendo no . vem sendo desenvolvida uma abordagem psicossociológica sobre os valores (Costa. Igualdade). as sociedades que possuem problemas sociais básicos (ex. enquanto sociedades que já superaram esses problemas valorizarão necessidades pósmaterialistas (Liberdade. 2000. Inglehart (1977) também defende uma relação entre necessidades e valores. No primeiro capítulo. 2005). No entanto. o autor propõe uma perspectiva sociológica dos valores. escassez econômica) darão prioridade a valores materialistas. Entretanto. no Brasil. Este trabalho está dividido em cinco capítulos. Ou seja. que foram interiorizadas pelo indivíduo através da socialização e que indicam o que é adequado ou não realizar em uma determinada situação.18 Rokeach (1973) define os valores como crenças hierárquicas prescritivas baseadas nas necessidades individuais. Justiça Social. Camino & Costa. Pereira. argumentando que as mudanças na ordem de importância dos valores das sociedades ocidentais pós-modernas são decorrentes das transformações econômicas. tal abordagem propõe articular a ênfase psicológica proposta por Schwartz (1992) com a ênfase sociológica priorizada por Inglehart (1991). Esta dissertação tem como objetivo verificar a relação existente entre os valores sociais e as diversas formas de expressão do preconceito em universitários paraibanos.

o tema dos valores sociais é exposto. os seus principais conceitos e teóricos. onde se pretende compreender como se pode relacionar a adesão aos valores à expressão do preconceito racial. Para esta dissertação. além de uma discussão sobre quais seriam as origens do preconceito e de como compreendê-lo através das relações intergrupais. Por fim.19 Brasil. foram realizados dois estudos empíricos. apresentando os principais resultados e discussões. e de identificar as variáveis que podem influenciar a expressão do preconceito. onde são desenvolvidas as considerações finais do trabalho. respectivamente. o quinto e último capítulo. O primeiro tem o objetivo de verificar como a cor de pele influencia na atribuição dos valores. como também sugestões de pesquisas futuras. O segundo estudo visa a demonstrar que a atribuição dos valores segundo a cor da pele também tem relação com a idéia do que são considerados valores de países de 1º e 3º mundo. No Capítulo 2. . Ambos os estudos serão apresentados nos capítulos 3 e 4.

20 CAPÍTULO 1 O PRECONCEITO .

será apresentado um breve histórico sobre o estudo do preconceito racial e como se caracteriza a formação do racismo no Brasil. pelo simples fato de ele pertencer a um grupo desvalorizado socialmente. Mowrer & Sears. isto é. 1993. Posteriormente. Como o próprio nome sugere. 1. 1960).1 O PRECONCEITO RACIAL Na Psicologia Social. Martinez. Podem-se citar como exemplo as teorias da personalidade autoritária (Adorno. e sua relação aos processos de acomodação (Kelman. Frenkel-Brunswik. do espírito fechado (Rokeach. 1973). 1939). pressupõe-se que os preconceitos expressem “pré-julgamentos” de cunho negativo sobre pessoas de uma raça.1961) ou de internalização (Moscovici. Levinson & Sanford. será realizada uma discussão sobre a origem do preconceito e. 1950). inicialmente. uma análise das relações intergrupais para a sua compreensão. e muitas dessas abordagens têm dado ênfase a causas psicológicas para suas explicações (Billing. Miller. 1996). formado pela generalização da categoria.21 Neste capítulo. . 1985). Tal atitude seria composta por dois elementos: o cognitivo. e um disposicional. o marco no estudo do preconceito se deu com o livro de Allport (1954) “A natureza do preconceito”. da frustração-agressão (Dollard. Depois da obra de Allport. diversas teorias foram elaboradas com objetivo de explicar o preconceito. o sentimento negativo e comportamentos de discriminação resultantes da hostilidade (Jones. O autor define o preconceito como uma atitude negativa direcionada a uma pessoa. por fim. Doob.

1995). apesar de suas diferenças. Durante a década de 1950.22 gênero. Estas teorias não defendem uma redução quantitativa (redução na intensidade do comportamento). o “preconceito é uma atitude negativa. estas . 1995). apesar da estreita relação entre ações e crenças. os estudiosos sobre as relações raciais não estavam apenas preocupados em como mensurar o preconceito. 1988). Entretanto. porém. 1981). As novas teorias sobre o preconceito a partir da década de 1970 começaram a relatar processos discriminatórios mais encobertos e menos flagrantes. religião. ou um grupo social qualquer (Jones. não significa dizer que estes “préjulgamentos” influenciem aspectos comportamentais. Desta maneira. há um aspecto comum entre essas novas teorias do racismo. 1973). do racismo ambivalente (Katz & Hass. os preconceitos estão diretamente ligados a práticas e comportamentos depreciativos. que discriminam membros de um grupo externo simplesmente pela razão de fazerem parte dele (Bronwn. no Pós 2ª Guerra Mundial. acrescentado aos sentimentos de antipatia. além de ser um conjunto de crenças desvirtuadas e negativas sobre determinados grupos sociais. 1986). como a teoria do racismo sutil (Pettigrew & Meertens. mas de encontrar estratégias para combatê-lo (Oliveira & Barreto. baseando-se num processo de comparação social em que o grupo do indivíduo é considerado como o ponto positivo de referência” (p. das expressões de preconceito. ou seja. com relação a um grupo ou pessoa.3). Segundo Jones (1973). e sim uma mudança qualitativa dessas expressões. do racismo simbólico (Kinder & Sears. 2003). do racismo moderno (McConahay. num momento de reflexão sobre as hostilidades ocorridas no holocausto e pelas tragédias que o ódio racial pode provocar numa sociedade.

23 abordagens sugerem que a diminuição das expressões de racismo é mais aparente do que real (Pires & Alonso. uma questão que surgiu recentemente nas pesquisas sobre o racismo é que existem novas formas para expressá-lo... procurando emitir respostas não preconceituosas. Camino et al. é evidenciada uma nova visão desta problemática social. Estas parecem estar sendo substituídas por ações menos manifestas. de forma mais indireta e sutil. . mas sem confrontar as normas sociais da indesejabilidade do racismo (Pires & Alonso.. Portanto. 2006). pois tal comportamento seria rotulado com uma conotação social negativa (Plant & Devine. Camino et al. prevalece a concepção de que os negros não são objeto de discriminação pela população brasileira. 1998). inclusive a rejeição ao contato social (Gouveia et al. que expressam atitudes preconceituosas. Desse modo. 2008). Estas contradições entre a renúncia paulatina de manifestações de discriminação e a manutenção de hábitos preconceituosos resultam no ‘paradoxo do preconceito’ (Devine. Por isso que se fala de novas formas de preconceito. verifica-se o oposto nas relações sociais. onde em muitos momentos os comportamentos preconceituosos são manifestos. 2001. 2008. Desta maneira. contudo. Assim sendo. 2007). 1995). onde as pessoas tendem a indicar que não têm preconceito. não é politicamente correto manifestar o preconceito abertamente. em contraste com os comportamentos flagrantes.

nas seis principais regiões metropolitanas do país. 2003). indicou que a média salarial dos negros e pardos (R$ 847. a primeira Lei que considerou contravenção quaisquer formas de preconceito de raça ou de cor foi a Lei Afonso Arinos (nº 1. os brancos tinham cerca de 9. organizações da sociedade civil que têm lutado e avançado pelas causas de grupos minoritários. Depois passou a ser crime de genocídio a destruição de . os debates sobre as quotas em universidades para negros.5% dos brancos cursam ou já cursaram ensino superior.390.2 O PRECONCEITO RACIAL NO BRASIL A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). No Brasil. observa-se mais uma diferença. realizada pelo IBGE em 2008.663. No que diz respeito à taxa de desemprego. 25. realizada pelo IBGE em março de 2009.24 1. povos indígenas e estudantes de escolas públicas (Pereira. pela primeira vez.8%. Na educação. entre os negros é de 11. Torres & Almeida. 2009). enquanto os negros e pardos apresentaram 7.7% entre os negros. será que realmente existem diferenças entre brancos e negros no Brasil? A Pesquisa Mensal de Emprego (PME). como exemplo. mais da metade dos brasileiros (50. este número diminui para 8. Ademais.88). teve como resultado que. 2009). tem se observado nos últimos anos. no que diz respeito a alterações na legislação que proíbam expressões e comportamentos preconceituosos.6%) se classificou como parda ou negra (IBGE.1 anos de estudos em média.6% entre os brancos. Podem-se citar. Diante disso.71) é cerca de 50% menor que o rendimento médio dos brancos (R$ 1. Mesmo com a grande parcela da população ter se classificado dessa maneira. (IBGE. de 3 de julho de 1951). este indicador cai para 8.6 anos.

. suas expressões se tornaram progressivamente mais sutis e disfarçadas. Pelo contrário. devido o preconceito ser condenado moralmente e o preconceito racial estar sujeito à punição judicial. a questão que interessa à psicologia social é compreender as reais mudanças sociais oriundas destas decisões jurídicas. encontra-se o movimento negro que. Contudo. Por fim. étnico. é possível que elas estejam coibindo praticas abertas de discriminação. de 14 de dezembro de 1983). com a promulgação da Constituição de 1988 (art. sexo. Neste sentido.3º.25 qualquer grupo nacional. 2002. 138). Torres & Almeida. foram constituídos crimes inafiançáveis e imprescritíveis. de fato. Entretanto. XLII). perpetuando práticas discriminatórias de forma mais encoberta (Pereira.170. 2003). vem desenvolvendo diversas estratégias de luta pela inclusão social e superação do racismo na sociedade brasileira (Domingues. paralelamente. racial ou religioso (Lei nº 2. posteriormente (nº 7. o apoio jurídico poderá estar disponível para quem o solicitar” (Bandeira & Batista. foi constituído crime contra a Segurança Nacional qualquer tipo de propaganda ou expressão de racismo. o que impossibilita unir as evidências que tenham validade jurídica (Bandeira & Batista. raça. qualquer tipo de forma de preconceito de origem. “vale lembrar que a punição ao ladrão não evita que os roubos aconteçam. 2002). Assim. p. 2006). cor e idade. Diante desta problemática. significando uma diminuição do preconceito social. tanto quanto a punição ao assassino não impede que se decrete morte aos outros. pois estas leis podem não estar. desde seus primórdios. de 1º de outubro de 1955). e. IV. proporcionando o desenvolvimento de novas estratégias ideológicas.889.

seria maléfica. 2007. enfrentando dificuldades imensas de ascensão social até os dias de hoje (Hasenbalg. Contudo. Andrews. 1991. Viana. e a abolição da escravatura em 1988. 1932/1959) se defendia a idéia de que os índices elevados de mestiçagem. pelo contrário. organizacional ou outra. Ademais. seja social e psicologicamente. seja ainda economicamente. Após a proclamação da Republica em 1989. 1998). mas tem suas origens na ideologia racial desenvolvida pela elite brasileira a partir do final do século XX (Munanga. a explicação para os obstáculos encontrados pelo movimento negro não se encontra na falta de capacidade discursiva. a população negra não obteve ganhos materiais nem simbólicos. ela foi submetida a um forte processo de segregação urbana (Rolnik. os negros foram marginalizados: seja politicamente em decorrência das limitações da República no que se refere ao sufrágio e as outras formas de participação política. explicitada pelo . a presença dos negros era um problema no desenvolvimento cultural do Brasil. Santos. ou seja. pelo fato de os negros pertencerem a uma raça biologicamente inferior. devido às preferências em termos de emprego em favor dos imigrantes europeus (Andrews. 32) Nos primeiros estudos realizados sobre o tema no Brasil (Rodrigues. Ramos (1937) afirmava que. 2005). em face das doutrinas do racismo científico e da “teoria do branqueamento”. 1933/1945.26 Entretanto. Freyre (1933) considerava que o processo histórico de mestiçagem no Brasil teria sido um legado benéfico. p. e que tem contribuído para harmonizar as relações sociais. 2008). a ideologia da “democracia racial”. originados através da influência direta dos negros entre a população brasileira. 2007. por razões culturais e não biológicas.

Fernandes (1972) complementou ao afirmar que os brasileiros não buscavam formas de evitar o preconceito racial. ou seja. visto que o aspecto racial seria encoberto pelo aspecto classe social. 1959). Ademais. não era demonstrado ou falado sobre algo que se admitia existir. Bastide e Fernandes (1959) destacaram que o ‘mito da democracia racial’ mediava a não ocorrência de expressões abertas de racismo. pondo em questão o mito da democracia racial como responsável pela negação do racismo. Vale ressaltar que os resultados dos estudos realizados com a população brasileira nas décadas de 1940 e 1950 demonstraram que os brasileiros não se sentiam constrangidos em expressar estereótipos negativos referentes aos negros (Oliveira & Barreto. as dificuldades encontradas pelos negros eram camufladas por uma série de comportamentos polidos e amáveis que proporcionava uma distância social cada vez maior. logo. tem sido criticada e chamada de “mito”. Maggie e Gonçalves (1995) reconhecem que o Brasil apresenta um sistema de relações raciais que contribuem para uma divisão e classificação de grupos de acordo com suas diferenças de cor. enquanto apenas se demonstrava uma amabilidade aparente em relação aos negros. O autor nomeou este fenômeno de “preconceito retroativo”.27 autor. Por outro lado. pois esta “harmonia” não pode ser verificada ao se observarem as desigualdades sociais e raciais da sociedade brasileira (Bastide & Fernandes. o argumento da democracia racial parece ser uma . Sendo assim. 2003). mas sentiam vergonha de tê-lo. as hierarquias permaneciam cristalizadas e firmadas. Consequentemente. considerando “feio” admiti-lo e não a ação de discriminar.

155). eram postos em situações de competição.165). a compreensão do racismo não pode ser desvinculada das relações de dominação presentes entre os grupos raciais na população brasileira. implicará em barreiras para a pesquisa científica (Ianni. p. no Brasil. mas facilitaria a ascensão social. 2004). cor. dependentes de situações cotidianas e de contextos específicos (Silva. mas havia uma maior rejeição. A relação complexa “entre raça. 1996. houve. pois questionários e entrevistas estruturadas dificultam a identificação dos processos de preterição a que os brasileiros negros estão sujeitos (Oliveira & Barreto. Portanto. mesmo com as limitações e dificuldades com que se defrontam. enquanto a cor negra não era segregada totalmente. Este raciocínio orientou diversos pesquisadores ao . Cabe aos pesquisadores do tema encontrar formas de identificar como o preconceito é manifesto. posição social e nível educacional no Brasil está baseada em relações hierarquizadas e posicionamentos sociais sempre ambivalentes. consequentemente. a cor branca não garantia. mas desprezá-los quando. se realmente existe no Brasil esse “racismo indizível”. “todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial. 2003). um tipo diferente de preconceito racial. p. 1975). o preconceito de marca não significa segregar incondicionalmente o grupo discriminado. Não é novidade que os brasileiros não admitam ser “racistas” (Oliveira & Barreto. cercado de racistas por todos os lados” (Schwarcz.28 maneira de racionalizar e formalizar as práticas de discriminação existentes (Azevedo. o “preconceito de marca”. Assim. em igualdade de condições. diferentemente do “preconceito de origem” dos Estados Unidos. 2006) afirma que. Mas. Segundo o autor. Nogueira (1942. 2003). 2007.

Alguns estudos (Camino. 2001). Observam-se contradições semelhantes em estudantes universitários paraibanos. onde. Porém. 1995). Já em estudos realizados na área de comunicação. cultural e penal fortíssima contra os negros. 87. e por outro lado. numa escala de 1 a 10 (os maiores escores significava maior atribuição de preconceito) os estudantes atribuíam a si. Machado & . Em uma pesquisa que abrangeu todo o território brasileiro.8 pontos aos brasileiros (Martinez & Camino. Em outra pesquisa.3 pontos enquanto que atribuíam 7. 2000). apenas 10% reconheciam ser pessoalmente preconceituoso (Venturi &Paulino.5% dos entrevistados consideraram não ter nenhum preconceito de cor. Silva. mesmo com a consciência da existência de um preconceito generalizado.29 longo das décadas de 1980 e 1990 que relataram a ocorrência de desigualdades raciais no Brasil (Silva 2000. com 1172 com residentes no Estado do Rio de Janeiro. 2000). e sim através dos produtos dos meios de comunicação. 3. pode se identificar. Que formas o racismo toma atualmente no Brasil? País que por um lado pratica uma discriminação econômica. a presença de estereótipos negativos relacionados aos negros (Araújo. enquanto 74% afirmaram que é muito o preconceito contra os negros (Oliveira & Barreto. cuja fonte de informação não é formada por depoimentos individuais. dada a forte miscigenação existente e ao fato de que várias tradições afro-brasileiras fazem parte hoje de nossos valores culturais. tem criado uma forte rejeição cultural e legal à expressão pública de qualquer forma de preconceito racial. 2003). constatou-se que 89% dos brasileiros admitiam a existência de racismo no país. facilmente. Henriques. em média.

deve-se considerá-lo como uma característica individual ou como resultado da dinâmica social onde os indivíduos estão inseridos? A seguir serão abordados estes aspectos. Então. para se compreender o preconceito. formas que substituem o conceito de raça pelo de modernismo. 2001. 2001. utilizavam adjetivos que geralmente classificam pessoas do terceiro mundo. novas formas de categorização têm sido desenvolvidas.30 Pereira. isto é. . porque é sutil. p. Também nestes estudos. foram observados que os sujeitos. Neste sentido. 2007) mostram que os entrevistados paraibanos parecem ter clara consciência da discriminação racial que se vive no Brasil. mas não aceitam a responsabilidade por esta situação. engenhoso.. A miscigenação racial intensa e o forte preconceito vivenciado pelas pessoas de cor negra resultam em processos de acomodação muito forte. para descreverem indivíduos de cor negra. 19). mascarado” (Silva. mas pensam que os brasileiros fariam exatamente o contrário. a discriminação racial De fato este “racismo à brasileira é zelosamente guardado. também foi constatado que as pessoas avaliam mais favoravelmente os indivíduos de cor negra que as pessoas brancas. 2004. a cor branca sendo relacionada aos valores do primeiro mundo e a cor negra aos valores do terceiro mundo (Camino et at. a bem dizer. utilizavam adjetivos do primeiro mundo. em nosso país. e que para descreverem pessoas de cor branca. Camino et al. Camino. Silva & Machado. 2007). Camino et al.. Estas novas formas de representar as diferenças de cor destinam-se a justificar práticas sociais que mantêm. 1995. Nesses estudos.

Camino & Ismael. tal concepção não é mais tão relevante.3 QUAL A ORIGEM DO PRECONCEITO? Até a década de 1920.52). mas acreditava que as diferenças entre os grupos sociais eram. que se desenvolve em situações históricas concretas. no interior dos grupos majoritários. de fato. 2000. comportamentos hostis e discriminatórios em relação aos membros de grupos minoritários por serem membros desses grupos” (Camino & Pereira. ou seja. 1995). buscavam-se bases factuais e verídicas sobre qual seria a origem do preconceito (Katz & Braly. de dominância. podendo ser definido como “forma de relação intergrupal onde. surgindo novas perspectivas interpretativas (Augoustinos & Walker.31 1. no quadro específico de relações assimétricas de poder. se desenvolvem no seio dos grupos dominantes. o racismo não é um fenômeno universal. 1985. 1958). principalmente. mas uma forma de consciência social. 2004) situam as noções psicológicas da discriminação nos conflitos de exclusão/inclusão social. Atualmente. o preconceito racial não é uma tendência psicológica universal. Teorias recentes (Billig. A idéia defendida nesta dissertação é de que explicar o preconceito por meio da dinâmica da personalidade do indivíduo seria negligenciar aspectos . Portanto. reais. pois não se estudava o tema partindo-se do princípio que seria um fenômeno irracional ou injustificado. Wetherell. Neste sentido. atitudes depreciativas e. mas uma forma de consciência social que se desenvolve em situações históricas concretas no interior das relações intergrupais. 1996. considera-se que o preconceito constitui-se na vertente subjetiva dos conflitos reais de poder entre grupos e evolui. p.

. 1995). Meertens & Pettigrew. MMcConahay. 1986. . 1986. militante e agressivo. 1996). que tem ocasionado grandes efeitos diferenciadores no interior das sociedades (Hall. Adorno et al. 1950. Dessa forma. para compreender o racismo atual. esse fenômeno. mas que não são expressos de forma aberta e nem violam as normas sociais anti-racistas da atualidade (Katz. Como exemplo dessas ambiguidades próprias da globalização. Wackenhut & Hass. 1996) e o aparecimento do fanatismo dos fundamentalistas religiosos (Brown. históricos e situacionais. que influenciam. os movimentos nacionalistas europeus (Giddens. têm sido substituídas progressivamente pela preocupação em demonstrar as formas menos abertas e mais disseminadas de racismo. 1995. em grande parte. devemos realizar uma análise do contexto contemporâneo onde se desenvolvem as novas formas dos processos de exclusão social. 1999. as explicações de cunho psicológico da existência de um racismo flagrante. Diversas abordagens têm ganhado espaço com a idéia de que os sentimentos e atitudes preconceituosas persistem. Vala. 1939.32 sócio-econômicos. principalmente no que diz respeito à globalização cultural. Hovland & Sears. 1999b). E este contexto específico é abrangido pela globalização. 1940). temos os fenômenos de fanatismo e de preconceito contra grupos minoritários e etnias (Wetherell. formas estas que refletem atitudes de discriminação sem transgredir a norma social de indesejabilidade do preconceito racial. gerando ambiguidades.. Contudo. típicas dos estudos realizados a partir dos anos 40 (Dollard et al. 1999a. 2000). onde as relações entre as diferentes culturas e etnias se intensificam. Pettigrew & Meertens.

aumenta o respeito à diversidade de valores culturais. 1995). Desse modo. 1983) tem sido menos considerado. 1. 1981) e dos processos políticos (Billing. surgem movimentos fortes com o objetivo de manter as identidades e valores culturais regionais. Vale ressaltar que o conjunto dessas mudanças econômicas e culturais influencia diretamente na maneira como as relações raciais são vivenciadas. A contextualização histórica do racismo permite compreender as expressões do preconceito e do racismo como reflexos do ambiente sóciohistórico onde as relações raciais estão inseridas. centrado no contexto das relações intergrupais (Brown. Silva. Desta maneira. através da . Camino. 1922). Machado & Pereira. as formas de manifestação do preconceito se encontrariam sob a influência direta das normas sociais que não podem ser separadas de um contexto histórico especifico (Duckitt. Frenkel-Brunswik. Tajfel. e insere nelas as contradições e ambiguidades típicas do pós-modernismo (Bowser. a compreensão do preconceito como resultado do meio social. 1995.4 COMO PERCEBO A MIM E AO OUTRO? O preconceito sempre está implicado em uma relação social e surge como uma forma de se relacionar com o outro diferente. Levinson & Sanford. 1985. E o seu entendimento atribuído a uma simples predisposição individual de personalidade (Adorno. 2001) tem se tornado cada vez mais evidenciada. 1950) ou ao estilo cognitivo (Gaertner & McLaughilin.33 Assim. por um lado. e por outro.

Desse modo. os móveis da casa. a identidade social consistia na diferença. do que tem valor e do que não o tem. Neste sentido. A perspectiva das relações intergrupais de Tajfel (1981) defende a idéia de que a simples divisão de pessoas em grupos diferentes leva os indivíduos a realizarem avaliações enviesadas relativas a esses grupos. p. do que é feio. para este autor. os hábitos alimentares. ter a consciência mínima de que outros grupos existem.34 subvalorização ou negação da identidade do outro e da valorização extrema ou afirmação da identidade do grupo de pertença (Todorov. além de outros aspectos. do que é belo. No processo de produção identitária criam-se sentimentos de pertença e de estranhamento com relação a certos coletivos. Isto nos leva à reflexão de que o racismo não é resultante apenas de atitudes e comportamentos individuais. as atividades de lazer. mesmo sabendo que historicamente os brasileiros têm evitado expressar abertamente o preconceito racial. que demandam para si a definição do que é bom e do que é ruim. mas também tem suas origens na dinâmica estrutural no qual as relações raciais estão inseridas. 2002. extrapolando a dimensão individual (Oliveira & Barreto. Acontece que essas inclusões e exclusões muitas vezes não indicam apenas diferenças ou singularidades. e esta diferença é evidenciada quando o que se tem de mais próximo é ameaçado. 1989). Bourdieu (1979) realizou uma análise das pequenas diferenças entre duas classes. os brancos permanecem com favoritismos no acesso às oportunidades sociais.131). mas relações hierárquicas e poderes de raiz histórica com atributos fundadores. como a linguagem. a vestimenta. o que gera uma dinâmica de inclusões e exclusões com base em semelhanças e diferenças. 2003). (Batista & Bandeira. Segundo Tajfel (1981). desencadeia .

mas os brancos são melhores” (Dovidio. Muitas vezes. as pessoas atribuem menos traços negativos e mais traços positivos ao seu grupo. os estereótipos organizados em ideologias raciais. “os negros não são piores. como a formação de estereótipos e o desenvolvimento do preconceito (Abrams & Hogg. relações de dominaçãosubordinação. 1989). operam como componentes ativos e recorrentes num sistema societário que. 1979).35 um processo de comparação intergrupal entre “nós” e “eles”. de conformidade com a estrutura de dominação vigente. a formação de estereótipos consistiria na atribuição de características às pessoas baseada no simples motivo delas serem parte de uma categoria social ou de um grupo (Oakes. 1994). Segundo Ianni (2004. as barreiras. as distinções entre grupos que se definem como racialmente diversos e desiguais exprimem. na Teoria da Identidade Social (TIS). Haslam & Turner. Logo. no que se refere à discriminação racial. deve ser preservado. o preconceito é visto como fruto da diferenciação do endogrupo versus exogrupo (Brewer. denominado de diferenciação intergrupal. seria um dos principais aspectos que resultaria no surgimento de fenômenos sociais. Portanto. Mann & Gaertner. 1990). p. as pessoas tenderiam a ser mais favoráveis ao seu grupo (endogrupo). Tajfel (1981) afirma que as pessoas são motivadas a sempre buscar e . ou seja. Pois. em geral de modo mistificado. e a rejeitar os integrantes dos outros grupos (exogrupo). Portanto.337): A discriminação. Tajfel (1981) ressalta o aspecto social dos estereótipos ao considerá-los como crenças ou conhecimentos difundidos amplamente por um grupo com relação à natureza do endogrupo e dos exogrupos. Esse processo psicológico.

e assim. em certas condições. ao defender uma explicação de viés intergrupal como resultado da necessidade da pessoa de adquirir e manter uma identidade social positiva. menor será a expressão de comportamentos preconceituosos (Sagiv & Schwartz. quanto maior fosse a identificação com um determinado grupo. conservar uma identidade social favorável. Essa perspectiva concebe que. onde o preconceito é explanado por meio de aspectos psicológicos que seriam responsáveis pelos . mas pela negação de atributos positivos a um grupo-alvo. Visto que.. hoje em dia. quanto maior for o contato social com o exogrupo. pela atribuição de traços negativos. A partir desses estudos se supõe que nos países ocidentais o preconceito não se expressa.36 conservar uma identidade social positiva que resultaria em um sentimento de auto-estima elevada. Isto implicaria em uma contradição: quanto mais se critica o preconceito. um fator decisivo do preconceito seria a inclusão da pessoa em uma categoria social e o seu grau de identificação com ela (Tajfel. a ênfase na norma anti-racista poderia levar. como da frustração e agressão (Dollard et al. mesmo sabendo que a formação do preconceito abrange processos cognitivos como a estereotipagem (Haslam & Turner. Outra abordagem utilizada para a explicação do preconceito é a perspectiva da cognição social (Fiske & Taylor.. para assim. Tajfel cairia novamente no reducionismo psicológico que criticara de outras teorias. mais os preconceitos do liberalismo são justificados. Contudo. de acordo com Torres (1996). à justificativa do próprio preconceito. maior seria a tendência da pessoa de se diferenciar entre o seu grupo e os demais. 1981). 1992). e consequentemente uma maior auto-estima resultante dessa identificação. 1995). 1939) e da personalidade autoritária (Adorno et al. 1950). 1991). Desse modo.

1997. Schaller. 1990. e não mais utilizando como explicação as motivações psicológicas. Pereira & Camino. Doise. 1977. Lacerda. a estereotipagem seria o cerne central no desenvolvimento do preconceito (Dorai & Deschamps. Em outra perspectiva. Lepore & Brown. 1982. 1997). Doise (1982) e Camino (1996) têm construído uma perspectiva societal para analisar as relações intergrupais que centra o viés endogrupal em um contexto específico dos conflitos ideológicos existentes dentro de uma sociedade. Visto que. 1991).37 erros ao se processarem informações. Van Dijk. 1990. e ao efetuar julgamentos sociais (Ross. Portanto. Hamilton. 1991. Nesta perspectiva. p. Rocher & Schadron. 1998). 1999b. “os melhores preditores de racismo flagrante sutil são aqueles que decorrem do nível de análise intergrupal” (Vala. gerando representações ideológicas que buscam justificar a manifestação de atitudes depreciativas e negativas. o preconceito pode ser definido como uma forma de relação intergrupal organizada em volta das relações de poder entre os grupos. como também a manifestação de comportamentos agressivos e depreciativos direcionados aos integrantes de grupos minoritários (Camino & Pereira. Yzerbyt. 1976). 1985. Hewstone. Haslam. Essa perspectiva se diferencia por fornecer uma explicação do favoritismo endogrupal através da dinâmica das relações de poder entre os grupos (Deschamps. ao se analisar como as . Nessa abordagem. 1979. que resultam em uma justificação para as diferenciações sociais presentes (Billig. 1997. os discursos ideológicos fariam emergir características psicossociais que possibilitariam uma organização dos processos cognitivos e afetivos. 2002). 1988) e oferecem suporte aos processos de exclusão social (Camino. Neste sentido.195). 2000.

que por um se . Este preconceito manifesto por meio das diferenças culturais é reflexo das ambiguidades típicas da globalização (Giddens. e a percepção de que o exogrupo não se conforma aos valores tradicionais da sociedade são dimensões que integram o preconceito. Muitas pesquisas (Dijker. Os resultados dos estudos apontaram para uma não configuração de emoções negativas direcionadas ao exogrupo. Outro estudo que investiga a manifestação do preconceito racial nas relações de trabalho observou que os norte-americanos avaliam mais positivamente os brancos do que os negros. 1987. Assim. prevalece a idéia de que os integrantes de outros grupos não aderem aos valores do grupo o qual o indivíduo faz parte.. Smith. mas à expressão mais intensa de emoções positivas em relação ao endogrupo. 1993) destacaram a importância da dimensão emocional na compreensão do preconceito. e pelo distanciamento da percepção das diferenças culturais. Mann & Gaertner. através da inferiorização do outro e da expressão da dominação social (Vala. 1994). Desse modo. Dovidio.38 representações ideológicas refletem nas teorias de senso comum sobre a natureza dos grupos sociais permite-se obter uma melhor compreensão das dinâmicas de como se dá a formação dos preconceitos sociais. Leyens et al. 1996). 1989. segundo Pettigrew e Meertens (1995). 1986). ou seja. Logo. a acentuação das diferenças culturais do endogrupo e do exogrupo. é no quadro das relações entre os grupos assimétricos que o racismo aparece. 2000. em relação à qualificação profissional dos negros no mercado de trabalho (McConahay. o preconceito é expresso pela negação de emoções positivas direcionadas ao grupo foco do preconceito.

1998) acentuando as diferenças entre pobres e ricos (Camino et al. 2001). A racionalização da sociedade contemporânea sempre busca a postulação de regras universais para se compreender fenômenos individuais (Bandeira & Batista. 1991).. 2004). a cor de pele ainda é utilizada como símbolo da discriminação existente (Guimarães. 2003). se pretende ressaltar a função política dessa disposição psicológica (Billig. o racimo. quando se faz uma análise do preconceito racial como uma ideologia própria de culturas colonialistas. a estrutura de desigualdade racial. 1996. introduzir um entendimento a nível societal das relações de poder existentes no interior da sociedade (Lorenzi-Cioldi & Doise. contudo. o anti-semitismo. não é suficiente para modificar. Daí surge a necessidade de elaboração de políticas públicas eficazes (Oliveira & Barreto. Embora o empenho do compromisso individual com a não expressão do preconceito seja importante.) estão inclusos em processos sociais mais abrangentes. pode se assegurar que os tipos de preconceito (a homofobia. Assim. . mesmo sem acreditar que. Beeman & Frank. e por outro o aumento mundial da pobreza (Bauman. 2002). que os preconceitos não possuam uma dinâmica psicológica própria. não se tem a pretensão de rejeitar seu caráter subjetivo. atualmente. p. Isto não significa. etc. 1998. o machismo. pois “as cores das pessoas no Brasil são referências fundamentais porque ao falar nas cores e na ausência de cor estamos conotando distinções no social” (Maggie. 1990). Pois. na sociedade brasileira. as hierarquias sociais sejam baseadas nas raças.233). mas para se compreender o preconceito se faz necessária uma análise profunda do funcionamento da sociedade. 1999. portanto. isto é. E.39 observa o intenso crescimento econômico e tecnológico.

40 Um fator em destaque. 2002). e que têm relação tanto com aspectos individuais. como sociais (Bandeira & Batista. 1998). assimilam estruturas largamente disseminadas entre os grupos sociais (Maio & Olson. . que contribui para essa compreensão. de personalidade. por sua natureza. são os valores psicossociais que.

41 CAPÍTULO 2 OS VALORES SOCIAIS E O RACISMO .

são apresentados diversos discursos que proclamam a defesa incondicional dos valores igualitários que. contrapõem-se às políticas sociais que estão de acordo com esses valores (Pereira. 1979b). Almeida. são considerados como tipos específicos de necessidades (Maslow. 1996. 1985). 1968). Os valores podem ser considerados tanto pessoais . embora dominante. e por outro. Rokeach. metas e preferências (Dose.1996).1 OS VALORES SOCIAIS E O RACISMO Novos valores têm sido estabelecidos como normas e novas estruturas jurídicas têm permitido punir o preconceito. possibilitando o surgimento de novos valores sociais (Bandeira & Batista. julgamentos. estão entre as crenças avaliativas mais importantes (Seligman & Katz. 2003). Feather. são vastamente compartilhados pelos grupos sociais. onde a sua legitimidade é raramente contestada (Maio & Olson. Ademais. existem racistas radicais e alguns setores sociais denunciam formas veladas de racismo e insistem em políticas afirmativas. tem-se observado o aumento de esforços para analisar o papel dos valores como antecedentes das normas sociais (Kristiansen & Hotte. decisões. não é totalmente hegemônico. e das necessidades. e fundamentam a base central da rede cognitiva das atitudes (Rokeach. deve-se estudar as relações entre os valores e o preconceito. Para entender melhor esta contradição. Torres. 1997). 2002). 1973). Os valores são utilizados como critérios ou modelos que guiam as ações. 1998) e fazem parte da construção social da realidade (Berger & Luckmann. 1979. concomitantemente. Por um lado.1954). atitudes e explicações sociais (Williams. Observa-se que o novo racismo no Brasil e no mundo.42 2. Nos últimos anos.

sabedoria. a solução de conflitos. levando em consideração a importância de cada um deles como ‘princípios guia em minha vida’. felicidade. etc. 1997. Sua escala foi amplamente difundida e utilizada nas pesquisas sobre valores. Milton Rokeach (1968. 1973) cuja tarefa dos participantes da pesquisa consistia em hierarquizar os valores. a cooperação. Kelly & Richards. indicados pelas formas de comportamento (ambicioso. sobretudo. 1996) como culturais (Towner. sendo reformulada pelo autor. prestativo. igualdade. relacionados aos estados finais de existência (segurança familiar. Rokeach (1968) propõe dois tipos de valores: os instrumentais. polido. as fontes dos valores estariam. O autor desenvolveu uma escala destinada ao estudo de valores (Rokeach. equilíbrio interior. 1973). que o indivíduo possui sobre as formas de comportamento ou sobre os estados finais de existência que são mais adequados em uma determinada situação.).43 (Schwartz. a orientação política. alegre. o uso de regras de justiça e o preconceito racial. Sendo assim. e os terminais. 1999) e parecem estar articulados de forma indireta e direta com diversos aspectos do comportamento humano: o contato intergrupal. nas necessidades individuais.). 1973) foi um dos primeiros estudiosos a pesquisar sobre o tema de valores. Vandello & Cohen. A teoria proposta por Rokeach (1968) é conhecida como o modelo de . honesto. Rokeach (1979a) conceitua os valores como crenças desejáveis socialmente. obediente. etc. sempre que necessário. em que os valores seriam representações cognitivas e transformações dessas necessidades (Rokeach.

e consequentemente. a função da percepção das diferenças de valores culturais na construção de atitudes racistas pode ser emoldurada no contexto mais geral da análise entre sistemas de valores e preconceitos. Nacoste & Insko. isto é. depois que Rokeach desenvolveu sua teoria fundamentada na congruência de crenças (Rokeach & Rothman. na legitimação da discriminação (Sherif. indicou que os indivíduos que admitem mais diferenças de crenças são os mais preconceituosos (Byrne & Wong. 1965). Essas diferenças percebidas numa perspectiva simbólica são investidas de valor. 1990). passou-se a considerar que as atitudes preconceituosas seriam mediadas pelo nível de semelhança percebida com as crenças estabelecidas pelo exogrupo Logo. o que orienta para uma valorização do endogrupo. 1981) Desse modo. Moe. 1966). durante as décadas de 70 e 80. visto que é possível caracterizar os grupos através das crenças e valores que seus membros compartilham (Bart-Tal. O autor defende que as percepções . poderia se esperar que houvesse diferenciação de valores por parte de quem age com preconceito e de quem sofre o preconceito. 1962. que a discriminação intergrupal seria tanto maior quanto maior fosse a percepção da diferença entre o endogrupo e o exogrupo.44 congruência de crenças. Rokeach (1960) se fundamentou em pesquisas empíricas para poder afirmar que as percepções individuais de antagonismos de valores serviriam como mediadores à desfavorabilidade das atitudes intergrupais. para uma desvalorização do exogrupo. e parte do princípio de que o preconceito é reflexo das diferenças das crenças (atitudes e valores) entre os grupos ou culturas. A maioria das investigações realizadas deste modelo. que será representado em muitas situações. Segundo Rokeach (1968).

2002. Platow. Struch & Bilsky. como com informações de origem emocional. os membros do grupo majoritário assumiriam que seus valores são naturais e aceitáveis. no caso dessa dissertação.45 individuais de diferenças de valores medeiam a desfavorabilidade das atitudes intergupais. 1989. A afirmação simples de diferenças existentes nos valores culturais pode formular já uma afirmativa racista. 2003). definindo o valor como . 1990. Outras pesquisas fundamentam esta lógica de raciocínio da diferenciação intergrupal através dos valores como preditor do preconceito racial. Propondo uma abordagem mais individualista. Rodríguez-Bailón & Moya. logo. pois estas atitudes são construídas tanto com informações cognitivas (os estereótipos e os valores). a acentuação de diferenças culturais subjaz uma atitude negativa frente aos negros. Schwartz. Vera & Martinez. logo quanto maior a percepção de diferença de valores. 1993. 1994. enquanto que os das outras culturas seriam diferentes e incorretos. Os membros do grupo majoritário usam os valores e padrões culturais que os caracterizam para julgar desfavoravelmente os grupos minoritários. Haddock. 1990. os negros. Gómez & Huici. McClintock & Lebrand. Lima. maior a atitude negativa em face de um exogrupo. 2006. Staub. Zanna e Esses (1994) também defendem a existência de que a percepção de diferenças de valores fazem parte da formação de atitudes frente a um exogrupo. ou seja. corroborando a idéia de que as orientações de valor estão intimamente ligadas à discriminação intergrupal (Chin & McClintock. Schwartz (1992. 1994) elaborou a teoria de valores dos tipos motivacionais.

criatividade. tradição (devoto. respeitoso. vida variada). leal). p. gozar a vida). estimulação (audacioso. 1987.46 “uma concepção individual de uma meta (terminal ou instrumental) transituacional que expressa interesses (individualistas. honesto. benevolência (prestativo. vida excitante. Esses tipos representam as três . autoridade. riqueza). universalismo (protetor do ambiente. coletivistas ou ambos) concernentes a um domínio motivacional e avaliado sobre uma classificação de importância como um princípio guia na vida das pessoas” (Schwartz & Bilsky. audacioso). justiça social). auto-direção (curioso. hedonismo (prazer. ordem social). polido) e segurança (limpo. segurança nacional.553). humilde. aberto. respeito pelas tradições). capaz. Figura 1 – Estrutura motivacional dos valores humanos Este autor apresentou dez tipos de valores que seriam universais nas relações sociais: poder (poder social. conformidade (obediente. liberdade). realização (bem sucedido.

mas estão correlacionados positivamente (Billing. as modificações culturais. Numa perspectiva sociológica. A idéia de que as relações entre os valores sejam necessariamente conflituosas não é aceita porque são verificadas compatibilidades entre os domínios (Gouveia et al. torna-se difícil afirmar que os valores. Inglehart (1977) afirma que as transformações ocorridas na economia das sociedades ocidentais pósmodernas se relacionavam às modificações ocorridas na hierarquia de valores dessas sociedades. 1994) .47 necessidades básicas e universais da natureza humana. necessidades biológicas. por serem compartilhados de forma ampla por um determinado grupo social. ou seja. de interação social estável e de sobrevivência dos grupos. pois os sistemas de valores não se opõem. e não oriundos de uma hierarquia de necessidades. Inglehart defende o aparecimento de dois blocos de valores como seus indicadores: valores materialistas (lutar contra a delinquência. através do surgimento de novos valores. manter a economia estável). Ou seja.. 1987). manter a ordem. 2001). seguiram as mudanças nas condições de produção dessas sociedades. partindo-se de uma concepção de valores definidos como construtos sociais. Portanto. Estes diversos domínios se organizam universalmente em função de relações de compatibilidade entre alguns valores. 1998). não se podem separar valores individuais. denominando esse processo de feedback econômico-cultural (Inglehart. possam ser opostos na sua estrutura. e valores pós-materialistas . e de conflitos entre outros. e são representados por uma figura geométrica bidimensional (ver Figura 1). 1980) e são vastamente compartilhados por estes (Maio & Olson. De fato. afinal todos os valores são sociais visto que são criados por meio das interações entre os homens (Beattie.

conjuntamente com a passagem da sociedade feudal para o capitalismo moderno. a emergência dos valores pós-materialistas ocorreria somente quando os problemas econômicos e de segurança básica de um grupo fossem superados. Desse modo. em uma dimensão cultural bipolar: do materialismo ao pósmaterialismo. aumentar a participação dos cidadãos nas decisões importantes). o desenvolvimento sóciocultural permitiria a emergência de novos tipos de valores. Sua teoria não tem o objetivo de realizar comparações entre . em vez dos valores religiosos e materialistas (características típicas da sociedade anterior e ultrapassada). priorizariam os valores materialistas. também se postula uma relação entre necessidades e valores. A teoria de Inglehart tem como ponto de partida a teoria das necessidades de Maslow (1954). Para Inglehart (1994). os três sistemas (Religioso. logo. as sociedades modernas estariam sob a influência dos valores pósmaterialistas. porém se restringiu a elaboração de um continuum. enquanto que as sociedades que solucionaram esses problemas valorizariam metas pós-materialistas. ocorreriam mudanças consecutivas nos valores que teriam influenciado a sociedade em suas épocas diversas. progredir em direção a uma sociedade menos impessoal e mais humana. espera-se que os grupos sociais que tenham um maior bem-estar atribuam mais importância aos valores pósmaterialistas. sociedades com problemas sociais básicos. típicos de uma sociedade primeiro-mundista. Materialista e Pós-Materialista) se apoiariam entre si na formulação da estrutura hierárquica dos valores.48 (proteger a liberdade de expressão. como a estabilidade econômica. Desta maneira. Assim. Nesta perspectiva. Sendo assim. De acordo com este autor.

tem sido desenvolvida uma abordagem psicossociológica sobre os valores (Pereira. Makkai & Pittelkow. Na abordagem utilizada. Muitas pesquisas transculturais (Flanagan. 1996) verificaram a presença de valores materialistas e pósmaterialistas distribuídos em uma única dimensão. Inglehart. que considera que a fonte dos valores encontra-se nas identidades ideológicas que orientam os grupos sociais (repertórios representacionais). 1987. 2004. como em duas dimensões que se correlacionavam positivamente (Pereira & Camino. 1994) e intraculturais (Bean & Papadakis. Braithwaite. No Brasil. costumes e atitudes de um grupo específico. os sistemas de valores são definidos como conhecimentos estruturados socialmente a partir dos diversos conteúdos ideológicos contidos na sociedade que o indivíduo está inserido. Embora a perspectiva de Inglehart tenha sido amplamente divulgada e aceita entre os pesquisadores. 1991. e sim estabelecer comparações entre culturas. portanto. será utilizada uma perspectiva psicossocial dos valores. 2005) que sugere uma articulação entre a ênfase psicológica destacada por Schwartz (1992) com a ênfase sociológica dada por Inglehart (1991).49 indivíduos ou prever comportamentos sociais. Acredita-se que os valores são produções sociais e. Nesta dissertação. precisam de um conjunto de condições sociais para sua emergência e permanência para se integrar aos hábitos. 1994. algumas críticas foram realizadas por suas pressuposições indicarem uma estrutura bipolar e universal dos valores (Brechin & Kempton. Camino & Costa. não em necessidades individuais. 1994). Vala. . 1999).

pressuposto defendido por Schwartz (1992).50 Logo. 1994). Essas condições constituem as lutas ideológicas travadas pelos grupos sociais em busca do poder (Pereira & Camino. mas uma construção social. reconhecendo que não são qualidades inseparáveis do objeto. A perspectiva psicossociológica não considera o preconceito como tendência psicológica universalista. por meio do consenso. da pluralidade de opiniões. Por isso. Um dos fatores que se destaca são os valores. a origem dos valores não se encontraria nas necessidades individuais. 1993). tanto nas formas de inserção das pessoas na sociedade. da comparação social e de crenças sobre a realidade social (Deschamps & Devos. Contudo. cabe questionar quais seriam os fatores psicossociais que explicariam a construção destas diferentes atitudes frente ao problema racial: racismo. nem nas necessidades sociais. visto que são consequências de experiências de diversos grupos sociais e são formados no interior desses. Sendo assim. Vala. 1993. racismo sutil e anti-racismo. como nas complexas formas de relações que os grupos estabelecem. na medida em que esta teoria coloca as causas das diversas formas de representações raciais que coexistem numa sociedade. Todos os valores são sociais. A perspectiva psicossociológica de Camino (1996) permite realizar uma compreensão mais ampla do preconceito. . o que engloba um fenômeno de característica social ligado a um fenômeno psicológico. pressuposto defendido por Inglehart (1991). é mais coerente estudar os valores como socialmente desejáveis e que são úteis para orientar os comportamentos individuais. cabe destacar que o surgimento dos valores depende de certas condições (Deschamps & Devos. 1999). mas nas construções sociais de significado.

1997.51 Com base nesses pressupostos. 2001a. o Questionário de Valores Psicossociais (QVP-24). Lima & Camino. Pereira. Após uma série de aplicações e refinações deste instrumento (Lima & Camino. desenvolvimento profissional. Figura 2 – Estrutura e conteúdos dos sistemas de valores Ademais. sistema hedonista. Pereira et al. 1995. foi elaborada uma versão final dessa medida de valores sociais resultando em 24 valores divididos em quatro sistemas: sistema religioso. 2001b). que possibilita realizar uma análise dos sistemas de valores de diversos grupos sociais. (2005) têm desenvolvido um instrumento de medida. em estudos anteriores também se verificou que a categorização racial no Brasil também está ligada com a categorização em . sistema materialista e o sistema pós-materialista. subdividido em três subsistemas. desenvolvimento pessoal e justiça social (ver Figura 2).

2004. onde a escravidão é formalmente proibida e a forte dominação econômica própria da lógica capitalista esteja presente. 1999b. Sendo assim. os sentimentos declaradamente depreciatórios direcionados aos negros. . A cor da pele formaria um divisor tanto entre países como no interior desses. do que com os valores que se atribuem ao Terceiro Mundo. surgidos principalmente no período da escravatura. 1986). no interior dos países do Terceiro Mundo estaria também se desenvolvendo esta divisão. econômico e cultural brasileiro é um grande desafio. . É possível que em um país pós-moderno. onde o terceiro mundo significa países subdesenvolvidos em oposição aos países desenvolvidos ou ditos do primeiro mundo. os cidadãos do Terceiro Mundo se identificariam mais com os valores culturais que se acredita ser típicos do Primeiro Mundo. demonstra-se que a forma como acontece a diferenciação racial no Brasil difere de como ocorreu na Europa (Vala. Perez. Assim. 2007). Consideram-se estes conceitos no seu sentido atual (ver Dicionário Aurélio). como acontecia antes. no quadro dos estudos de Tajfel (1981).. Esta divisão não implica conferir aos não brancos ser uma raça biologicamente inferior. 1996) e nos Estados Unidos (McConahay. porém de atribuir características de uma cultura com menor capacidade de adaptação ao desenvolvimento moderno. Camino et al. tenham se transformado em atitudes mais disfarçadas que contribuem para fortalecer a divisão entre países desenvolvidos e não desenvolvidos (Camino et al. De fato. Portanto. Machado & Silva.52 termos de países do Primeiro e do Terceiro Mundo (Camino. 2000). conseguir relacionar estas diferenças com as peculiaridades do contexto histórico.

que inicialmente se sustentava na lógica da escravidão como único instrumento possível de viabilizar economicamente a exploração dos novos territórios conquistados. observou-se que a adesão aos valores de ‘Justiça social’. (1996). ‘Apoio Social’ e ‘Convivência’ tenderia a reduzir a atitude negativa ao exogrupo. Outro estudo. os valores de humanitarismo e ética protestante predizem o preconceito de forma claramente significativa. enquanto que outras culturas não possuiriam estes valores. 2006). Para Biernat et al. enquanto a adesão aos valores de ‘Poder’. no novo projeto de globalização econômica. Enquanto para Sears (1998). vai se inserindo. A justificativa dos processos de desigualdade atual se estabelece a partir da crença de que certas culturas mostram possuir valores culturais mais adequados ao pósmodernismo. O que parece é que as culturas constroem os valores que querem para si mesmas e os valores que querem para os outros grupos. a cor da pele seria um indicador externo desta diferenciação. Em um estudo realizado com 209 espanhóis. Bleda & Gouveia. são os valores relacionados com o igualitarismo que demonstram um efeito mais importante sobre as atitudes raciais. Enquanto a . com 303 residentes da cidade de João Pessoa. no mundo pósmoderno. onde a adesão ao valor ‘Poder’ obteve correlação positiva com a expressão de atitudes preconceituosas. que buscava relacionar os valores humanos básicos com atitude preconceituosa e intenção de contato com o exogrupo. tendo menos relevância os valores que se encontram nas categorias do individualismo.53 O racismo contra os negros. ‘Religiosidade’. apresentou resultados semelhantes. Sendo assim. ‘Tradição’ e ‘Obediência’ apresentaram correlação positiva com a expressão de atitudes preconceituosas (Martinez.

Desta maneira.. Partindo destes pressupostos. .54 adesão aos valores de ‘Justiça Social’ e ‘Honestidade’ apresentou correlações negativas com a mesma variável. pretende-se mostrar que as pessoas de nossa sociedade atribuiriam valores de primeiro mundo (pós-materialistas) aos brancos. 2004). religiosos e hedonistas) aos negros. e valores de terceiro mundo (materialistas. o objetivo principal desta dissertação consiste em verificar as relações entre os sistemas dos valores psicossociais e as diversas formas de expressão do preconceito em estudantes de ensino superior da cidade de João Pessoa. justificando as diferenças sociais existentes. sugerindo que a adesão a certos valores representa bons indicadores da manifestação de atitudes preconceituosas. (Vasconcelos et al.

55 CAPÍTULO 3 ESTUDO EMPIRICO I .

1 OBJETIVOS Junto aos processos contraditórios que tentam conciliar o contraste entre os efeitos de uma longa socialização racista. Portanto.1. vêm se desenvolvendo novas formas de categorização social que substituem o conceito de raça. 3. Assim. seja aos valores tradicionais e menos avançados do terceiro mundo (caso da cor negra). como também a relação existente entre esses sistemas e diversas expressões do racismo. Embora a ideologia neoliberal negue as diferenças hierárquicas entre as raças.1 Objetivo Geral Analisar a estrutura e o conteúdo do sistema de valores de estudantes universitários. . as pessoas negras seriam caracterizadas como mais ligadas a valores terceiro-mundistas (materialismo. enquanto que as pessoas de cor branca seriam percebidas como possuindo valores do 1º mundo (pós-materialismo). hedonismo e religioso). a cor da pele estaria de alguma maneira associada. ela pressupõe a existência de diferenças em termos de progresso sócioeconômico.56 3. pelo de adaptação a valores modernos e progressistas. seja aos valores progressistas do primeiro mundo (caso da cor branca). com a vigência de normas sociais anti-racistas.

1.2 Objetivos Específicos 1) Verificar como o estudante se diferencia ao comparar os valores aderidos por eles próprios e os valores atribuídos aos negros e aos brancos. Espera-se que a proximidade com pessoas de cor negra e que atitude favorável a países de 1º mundo influenciem na expressão do preconceito. valores pós-materialistas. 2) Verificar se a cor da pele influencia na atribuição de valores.2 MÉTODO 3. e aos brancos. 3. A primeira com 220 estudantes de uma instituição de ensino superior particular de João Pessoa – . se aos negros seriam atribuídos mais valores materialistas.2. 4) Analisar o poder preditivo das variáveis psicossociais em relação com o Preconceito.1 Participantes Este estudo foi realizado com duas amostras. 3) Observar se a adesão aos valores materialistas estaria ligada a um maior nível de preconceito. e se a adesão aos valores pósmaterialistas teria relação com um menor nível de preconceito. isto é.57 3.

E a segunda com 200 estudantes de uma universidade pública (135 mulheres e 65 homens. (riqueza. Inicialmente.58 PB (150 mulheres e 70 homens.2. curso. uma vida excitante. O número de participantes permitiu satisfazer condições básicas das diversas análises estatísticas utilizadas. e solicitado aos respondentes que atribuíssem uma nota de 1 (um) a 5 (cinco).2 Instrumento de coleta de dados Inicialmente.22). e o tipo de população com que se identifica) (ver Apêndice A). Fraternidade. 3. DP= 4. idade média de 24 anos. salvação da alma e temor a Deus) e o Sistema Hedonista (prazer. sexo. sexualidade e sensualidade) (ver Figura 1).3) da mesma cidade. Questionário de valores psicossociais (QVP-24) Desenvolvido pelo GPCP (Grupo de Pesquisa em Comportamento Político). Igualdade. composto por três subsistemas. idade média de 22 anos. os estudantes responderam a questões sócio-demográficas (idade. dedicação ao trabalho. status e autoridade). religião. Justiça Social (Liberdade. Depois. foi apresentada a lista dos 24 valores da escala. a escala mede quatro sistemas de valores: o sistema Pósmaterialista. amor. se trabalha. responsabilidade e competência) e o Desenvolvimento Pessoal (alegria. lucro. Desenvolvimento Profissional (realização profissional. conforto e autorealização). Sistema Religioso (obediências às leis de Deus. . responderam os seguintes instrumentos: a. e Justiça Social). o Sistema Materialista. DP= 6. religiosidade.

quais eram os “três valores mais importantes para a sua vida”. os participantes foram solicitados a indicar. etc. c. Para outra metade. em metade dos questionários (n= 110 para a primeira e n= 100 para a segunda amostra). e tem o objetivo de mensurar o nível de expressão do preconceito no que diz respeito a não aceitação das políticas afirmativas. onde no círculo mais interno se encontra a palavra EU. (ver Apêndice B). negros. De forma a demonstrarem o quão próximos ou distantes sentem-se destes grupos (ver Apêndice D). Escala de distâncias percebidas A diferenciação de grupos de cor foi obtida através de uma escala de distâncias percebidas entre os diversos grupos de cor. a pergunta foi direcionada para os brancos brasileiros. Os estudantes também deveriam indicar. os três valores que “os negros brasileiros considerariam mais importantes para a vida deles”. em uma figura de 5 círculos circunscritos.59 considerando o grau de importância de cada um dos valores “para a construção de uma sociedade ideal para se viver”. Solicitou-se aos estudantes que situassem os grupos raciais branco. em ordem de importância. ‘Br’. através das siglas correspondentes. Escala de rejeição de políticas afirmativas (preconceito simbólico) Esta escala foi adaptada de Kinder e Sears (1981). como índios. em ordem de importância. ‘Ng’ e ‘Mo’ respectivamente. negro e moreno. (ver Apêndice C). Posteriormente. b. Os itens fazem referencia á forma como o sujeito percebe as políticas sociais relativa às minorias sociais. (ex: “devem superar o preconceito sem apoio como outros grupos o .

foi utilizada uma adaptação da Escala de Rejeição da Intimidade desenvolvida por Pettigrew e Mertens (1995) que avalia os aspectos mais flagrantes do preconceito (ex: “ver um negro namorando uma branca”. em ambiente de sala de aula. 2009) e. A escala é composta por 9 itens e as respostas foram dadas em uma escala tipo Likert que varia de 1= não incomoda a 5= incomoda muito (ver Apêndice F). Lima Nunes. 2010. d. Utilizou-se escala Likert que varia de 1= nada a 4= muito (ver Apêndice G). (Vieira et al. mas respondidos individualmente. tem o objetivo de medir o grau de identificação.3 Procedimentos Os questionários foram aplicados coletivamente. os aplicadores solicitavam autorização ao professor da disciplina.2. “ter uma pessoa competente de cor negra como seu chefe”. “exigem muitos direitos”. de admiração e de desejo de morar em cada um destes conjuntos de países. “participar de festas de pessoas de cor negra”). após a permissão . Escala de atitudes favoráveis ao 1º e 3º mundo A escala elaborada por Martinez e Camino (2000).60 fizeram”. Escala de rejeição da intimidade (preconceito flagrante) Para medir o preconceito flagrante. 2009. Primeiramente. “recebem demasiado respeito e consideração”) Os itens foram respondidos na escala Likert.. Rivera. que varia de 1= discordo totalmente e 5= concordo totalmente (ver Apêndice E). 3.

com idade média de 24 anos (DP= 6.4 Resultados Primeiramente serão apresentados os resultados da pesquisa realizada na instituição particular (Pesquisa I). e que não havia respostas certas ou erradas. e foram assegurados sobre a confidencialidade de suas respostas. e posteriormente os resultados da universidade pública (Pesquisa II).22). a administração dos questionários durou cerca de 30 minutos.4%) (Tabela 1). 3. A maioria dos alunos estava matriculada no curso de Psicologia (69.8%).61 concedida. os aplicadores se apresentavam e convidavam os alunos a responderem ao questionário de forma voluntária.1%). Os estudantes foram informados que a pesquisa abordava temas referentes a problemáticas sociais.1 Resultados Pesquisa I Dos 220 estudantes entrevistados.2%).0. eram 70 homens (31. não trabalhavam (76. Seguindo da permissão de uso dos dados da pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Ver Apêndice I).2. Os universitários que se identificaram com a população de cor de pele . Para tabulação e processamento dos dados foi utilizado o software “Statistical Package for the Social Science – SPSS” versão 16. eram católicos (60%) e se identificavam com a população de cor de pele morena (56.8%) e 150 mulheres (68. 3.2.4.

00 43. Para isso.2 69. o de Justiça . 1 ponto. 2 pontos.9 23.6 5. o objetivo da pesquisa é estudar o preconceito contra os negros. foram realizadas comparação de médias (test-t). Posteriormente se criaram novas variáveis onde a pontuação dos valores era agrupada de acordo com os sistemas que estes fazem parte.2 76.6 56. logo o sistema de valor Desenvolvimento Pessoal obteria 3 pontos. (2) a si mesmos e aos brancos.4 100 Com objetivo de verificar se existem diferenças entre (1) os valores atribuídos pelos estudantes a si mesmos e aos negros. (3) e entre brancos e negros.90 0. logo. o 2ª mais importante. se o estudante indicasse a seguinte ordem 1º= Amor. Tabela 1. 2º= Liberdade e 3º= Lucro. pois além do número de respondentes ser pequeno (n= 6). e o 3º mais importante.5 13. Perfil sócio demográfico dos participantes (Pesquisa I) Variáveis Gênero Masculino Feminino Curso Psicologia Educação Física Trabalha Sim Não Religião Católica Evangélica Não tenho Espírita Afro-Brasileira Com qual tipo de população você se identifica? População de cor de pele Branca População de cor de pele Morena Total Frequência 70 150 152 68 51 169 % 31. não é de interesse estudar o grupo que sofre o preconceito.0 20. o valor que foi indicado com 1º mais importante obteve 3 pontos.62 negra foram descartados. Por exemplo.8 132 45 30 13 96 124 220 60.1 30.8 68.

p= 0. Comparando as médias ponderadas das atribuições da adesão a valores atribuídos aos estudantes por eles mesmos.37 0.62 Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade t 4.87.001 3. observa-se que os estudantes atribuem a si mesmos mais adesão aos valores de justiça social [t(109)= 4.85 0.05 0. e aos valores de religiosidade [t(109)= 6.001] e do hedonismo [t(109)= 3.66 1. e atribuem a população negra maior adesão aos valores de justiça social [t(109)= 11. mais adesão aos valores de desenvolvimento profissional [t(109)= 1.77 3.001] e de desenvolvimento pessoal [t(109)= 3.57 0.001 .59 2.05.00 0. 1 ponto. Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância dos sistemas de valores atribuído a si mesmo e aos brancos brasileiros (Pesquisa I) Atribuição si mesmo 1. observa-se que os estudantes atribuem a si próprios. Outro exemplo. o sistema de valor Justiça Social e Religioso obteriam 5 e 1 ponto. consequentemente. p= 0.62 0.001 Quando comparados os valores atribuídos pelos estudantes a si mesmos e aos negros.36 gl 109 109 109 109 sig .36. p= 0.2. 2 pontos. p= 0. p= 0. e atribuem à população branca mais adesão aos valores do materialismo [t(109)= 9. e o Materialismo.001].73.831 .63 Social.87 109 109 .73 0. p= 0.001 .001].95. respectivamente.001]. 2º= Igualdade e 3º= Religiosidade. vamos supor que o universitário respondesse na seguinte ordem 1º= Fraternidade. Merece atenção o fato de os estudantes terem atribuído a si mesmos .22 2. p= 0. Tabela 2. e pessoal [t(109)= 6.001] (Tabela 2).77.56 Aos Brancos 0.001] e de religiosidade [t(109)= 4. p= 0.95 4.001]. p= 0.18. com os valores dados aos brancos brasileiros.21 9.16.03 1.001 .001].

60 0.18 3.23 1. p< 0. religião oficial do Brasil.41 0.028)] e de religiosidade [t(218)= 2.34 Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade t 11. Religiosidade e Salvação da Alma) que tem mais relação aos valores religioso do Cristianismo.001].14 0.21 0.13 Aos Negros 3. tendo em vista que as religiões afrobrasileiras sejam altamente difundidas no que diz respeito à caracterização da população negra no Brasil.50 0.25 0.41 1.71 1. p< 0.71. comumente relacionadas à comunidade negra (Tabela 3).007] do materialismo [t(218)= 8.9.82 6. Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos sistemas de valores a si mesmo e aos negros brasileiros (Pesquisa I) Atribuição si mesmo 1. do hedonismo [t(218)= 2. e a estes mais adesão ao valores de desenvolvimento pessoal [t(218)= 2.682 .16 gl 109 109 109 109 109 109 Sig .001]. do que características mais típicas das religiões africanas.24.001 . Tabela 3.412 .2 6. Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos negros aos brancos brasileiros (Pesquisa I) . Temor a Deus.56.14 0.001 Quando realizada uma comparação entre as médias ponderadas de valores atribuídos pelos estudantes aos negros e aos brancos.64 valores relacionados à religiosidade.011] (Tabela 4). Tabela 4.001 . É possível que este resultado seja devido aos valores que compõem o sistema Religioso do QVP-24 (Obediência às leis de Deus. p< 0.06 2. pode se verificar que os estudantes atribuem a população negra mais adesão aos valores de justiça social que aos brancos [t(218)= 14.001 .05 0.21. p< 0. p< 0.

62 Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade t 14.782 (p< 0.1 0.71 1.75 A Escala de Preconceito Flagrante também apresentou estrutura unifatorial (α= 0.267 .000).59 2.695 0.679 0.001 .000) e 52. Tabela 5.001 .05 0.85 0.1% da variância explicada (Tabela 5).99 37.14 0.30.50 0.86).623 0. com KMO= 0. mas de se organizarem melhor Devem superar o preconceito sem apoio. 1951) para comprovar a consistência interna dos fatores. e calculado os alfas de Cronbach (Cronbach.007 .21 2.11 8.773 (p< 0. apresentou KMO= 0.542 0. e as cargas fatoriais dos itens acima de 0. Para isso foi verificado o índice Kayser-Meyer-Olkin (KMO).71 1.011 Posteriormente.24 2.37 0.028 .597 0.56 gl 218 218 218 218 218 218 Sig . com 37.66 1. como outros grupos o fizeram Estão melhor agora do que nunca Não são discriminados no Brasil Eigenvalue % Variância Total Alfa de Cronbach Preconceito Simbólico 0.25 0.65 Atribuição Aos Negros 3.576 0.75). Estrutura fatorial da escala de preconceito simbólico (Pesquisa I) Item 3 2 1 4 7 8 6 5 Descrição do Conteúdo Exigem muitos direitos Recebem demasiado respeito e consideração Recebem mais do que merecem Possui demasiada influência política Não necessitam de ajuda oficial.21 0. foi realizada uma análise fatorial dos componentes principais (rotação Varimax) para verificar a estrutura interna das escalas. A escala de Preconceito Simbólico corroborou a estrutura unifatorial (α= 0.9 2.637 0.496 2.34 Aos Brancos 0. Foram considerados fatores válidos aqueles que obtiveram Eigenvalue>1.5% da variância .

705 0.724 0.000).698 0.580 0.764 0.4% da variância com um estrutura bifatorial: Fator Atitude Favorável a Países de 1º Mundo (α= 0.760 0.669 0. Tabela 6.739 1.832 0.729) e Atitude Favorável a Países de 3º Mundo (α= 0. sobre o qual se tem procedido a um conjunto de validações internas e externas que .741 0.602 4.801 0.7 0.68 h2 0.829 0. explicando um total de 63. Tabela 7.5 0.787 0.96 32.86 Quanto à escala de Atitude favorável a 1º e 3º Mundo.73 Fatores 1º mundo 3º mundo 0.678) (Tabela 7).804 0.84 30.794 0.557 Quanto ao Questionário de valores Psicossociais (QVP-24).658 0.7 0. o KMO encontrado foi de 0. Estrutura fatorial da escala de atitude favorável ao 1º e 3º mundo (Pesquisa I) Item 1 3 5 6 2 4 Descrição do conteúdo Grau de identificação com países de primeiro mundo Grau de admiração com países de primeiro mundo Grau de desejo de morar em países de primeiro mundo Grau de desejo de morar em países de terceiro mundo Grau de identificação com países de terceiro mundo Grau de admiração com países de terceiro mundo Eigenvalue % Variância Total Alfa de Cronbach 1.66 explicada (Tabela 6).695 0.670 (p< 0.692 0. Estrutura fatorial da escala de preconceito flagrante (Pesquisa I) Item 2 1 8 3 9 4 7 6 5 Descrição do Conteúdo Ter pessoas de cor negra como seus colegas de trabalho Ter uma pessoa competente de cor negra como seu chefe Ter um neto (a) mulato (a) Ter amigos (as) que sejam negros Ver um negro namorando uma branca Ver um branco namorando uma negra Participar de festas de pessoas de cor negra Ter parentes por aliança de cor negra Adotar uma criança negra Eigenvalue % Variância Total Alfa de Cronbach Preconceito Flagrante 0.622 0.73 52.

2001. 2004. Alfa de Cronbach dos sistemas de valores (Pesquisa I) Fator QVP-24 Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade alfa . as variáveis gênero e trabalho foram transformadas em dummy variable. onde Masculino e se o estudante trabalha . Camino & Costa. Tabela 8. com o objetivo de identificar se variáveis do estudo.77 . Valores Psicossociais.77 Por fim. 2006.71 .47 .. acima de 0. o que indica a necessidade de aperfeiçoar em pesquisas futuras esse fator para que o questionário possa conseguir índices de fidedignidade bons.67 demonstram que a escala revela padrões de fidedignidade e validade adequados para a realização da análise dos sistemas de valores de estudantes universitários.47).63 . (Tabela 9). foi realizada uma regressão linear múltipla (método stepwise). exceto o sistema de valor ‘Desenvolvimento Pessoal (α= 0. 2007). 2005. Ao calcular a regressão onde as variáveis independentes foram as variáveis sócio-demográficas. foram calculados apenas os alfas de Cronbach que apresentaram índices satisfatórios. Proximidade ao Negro e ao Branco. influenciam diretamente o Preconceito Flagrante (Variável Dependente – VD).60 (Nunnally. Lima & Camino. 2004. Pereira. e variáveis sócio-demográficas (Variáveis Independentes – VI). que podem ser adquiridos através do acréscimo de novos itens ou da reconfiguração dos itens já utilizados (Wachelke et al. Portanto. principalmente de universitários do estado da Paraíba (Pereira. 1978). Torres & Barros. Fernandes et al. 2004 ) (Tabela 8).75 . Pereira. Atitude Favorável ao 1º e ao 3º mundo.

190.06 0. e a proximidade com o branco [β= 0.84 .682. apenas um aparece com relação preditiva.204 -.19 0. Múltipla % Variabilidade Explicada Significância da amostra P.193)= 7.98 -1.193 = 7.015 .006 . t= -2.034 .3% F3. < -.223 .176.090 -1. Igualdade e Fraternidade) menor será a sua relação com a expressão do Preconceito Flagrante.104 . p< 0.327.190 .22 1. p< 0.682 .299 .187 R = .628 .78. p< 0.055 .145 .04 -1.006]. < -.48 2.115 -.58 .847 .011 -1. pessoas que têm um elevado grau de admiração. Outras duas variáveis que apresentaram poder preditivo foi a atitude favorável a países do 1º mundo [β= 0.003 .240. Tabela 9.176 -2. Liberdade. Portanto. pode-se observar que dos sistemas de valores mensurados.085 .000 Como resultado [R= 0. Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com preconceito flagrante (Pesquisa I) Variáveis Sistemas de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade Atitude Favorável a países do 1º mundo Atitude Favorável a países do 3º mundo Proximidade com o NEGRO Proximidade com o BRANCO Variáveis Sócio-Demográficas Idade Gênero Masculino Trabalha Coeficiente de Correlação.46 2. Quanto maior a adesão a estes conjuntos de valores (Justiça Social. t= 2. t= 2.58.70 1.98.000].096 .072 -. p< 0.291 .32 . F(3.003].399 Estatísticas Beta t p. identificação e desejo de morar em países de 1º .074 .68 seriam iguais a 1.487 . o sistema Justiça Social [β= -0.058 -.78 0.011].67 -0.327 R2 = 9. (Tabela 9).

852 0.003 .338 . e que se consideram mais próximas aos brancos. o Simbólico.58 1.147 -.207 . Status.117 . Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com preconceito simbólico (Pesquisa I) Variáveis Sistemas de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade Atitude Favorável a países do1º mundo Atitude Favorável a países do 3º mundo Proximidade com o NEGRO Proximidade com o BRANCO Variáveis Sócio-Demográficas Idade Gênero Masculino Trabalha Coeficiente de Correlação.462 R2 = 16.000].000 .003] tem relação preditiva com a não expressão do Preconceito.59 3.176 .201.103 . novamente. t= 3.616 . Múltipla % Variabilidade Explicada Significância da amostra P.02. p< 0.206 . Tabela 10.327.881 . < -.034 .243.02 0.20 . O oposto pode se constatar na adesão aos valores do sistema Materialista (Riqueza.032 -.96 -1.57 . neste caso.193)= 7.000] (Tabela 10).18 0.50 2.682.58.087 -.839 R = .27 -0.113 .19 .038 .070 -. F(3.010 -. p< 0.013 -3.011 Estatísticas Beta t p.014 0. pode se perceber que.000 Ao se realizar uma regressão linear múltilpa (stepwise) com as mesmas VI´s sendo a VD o Preconceito Simbólico [R= 0.38 -1.239 .183 = 10. Outro resultado encontrado é que. quanto mais a pessoa se considera . t= -3.15 -2. tendem a expressar mais facilmente o preconceito flagrante.243 .705 . p< 0. < . a adesão ao sistema de valor Justiça Social [β= -0.09 -0.123 .3% F4. Lucro e Autoridade) que tem um poder preditivo direto com a expressão do Preconceito Simbólico [β= 0.69 mundo.

038].70 próxima a pessoas de cor Negra. Perfil sócio demográfico dos participantes (Pesquisa II) Variáveis Gênero Masculino Feminino Curso Psicologia Pedagogia Economia Administração Ciências Contábeis Serviço Social Letras Trabalha Sim Não Religião Católica Evangélica Não tenho Frequência 65 135 83 33 28 21 19 17 16 35 165 109 30 54 % 32.5%). 3. p< 0.5%). Por fim. não trabalhava (82. p< 0. com idade me de 22 anos (DP= 4.011] para a manifestação deste tipo de preconceito.09. também apresentou poder preditivo [β= 0. era católica (54. sendo 65 homens e 135 mulheres.2.50 8.5 67.5 41.3).5 54.5 9.5 82. e se identificava com a população de cor de pele Branca (53%). t= 2.176.00 17.5%). Os universitários que se identificavam com a população de cor de pele Negra (n=11) foram descartados.0 10.2 Resultados Pesquisa II A segunda pesquisa foi realizada com uma amostra de uma universidade pública da cidade de João Pessoa. a presença do gênero Masculino.50 8.0 27.5 14.57. menor será a tendência de expressar o Preconceito Simbólico [β= -0. composta por 200 estudantes.0 . Tabela 11. t= -2.5 15.5 16. A maioria dos participantes estava cursando Psicologia (41. (Tabela 11).147.4.

9. p< 0.25 0. e atribuem à população negra maior adesão aos valores de justiça social [t(99)= 11.71 Espírita Afro-Brasileira Com qual tipo de população você se identifica? População de cor de pele Branca População de cor de pele Morena Total 7 106 94 200 3. e atribuem à população branca mais adesão aos valores do materialismo [t(99)= 11.0 100 Comparando as médias ponderadas das atribuições da adesão a valores atribuídos aos estudantes a eles mesmos.001 .001].67. p< 0.20.40 t 6.61 0.001 .42 1. mais adesão aos valores de desenvolvimento profissional [t(99)= 4. observa-se que os estudantes atribuem a si próprios.001] e do hedonismo [t(99)= 3.51 0.16 Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade Aos Brancos 0. aos valores hedônicos [t(99)= 2. p< 0.001].59 2.15.001 Quando comparados os valores atribuídos pelos estudantes a si mesmos e aos negros.001 . Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos sistemas de valores pelos estudantes e aos brancos brasileiros (Pesquisa II) Atribuição A si mesmo 1. p< 0.001] e pessoal [t(99)= 6.28.001].37 gl 99 99 99 99 99 99 sig . com os valores dados aos brancos brasileiros. p< 0. p< 0.98 11.5.5 3.75.001] (Tabela 13). observa-se que os estudantes atribuem a si mesmos mais adesão aos valores de justiça social [t(99)= 6. p< 0.90.49 0. p< 0.31 4.328 . Tabela 12.37.28 0.001] (Tabela 12).67 6.001].65 2.34 0. de desenvolvimento pessoal [t(99)= 6. p< 0.03 0.09 1.001 .5 53.0 47. p< 0.31.030] e de religiosidade [t(99)= 3. .001] e de religiosidade [t(99)= 4.

21 2.9 6. p< 0.15 3.018 O procedimento para se realizarem as Análises Fatoriais das escalas foi o mesmo adotado na primeira pesquisa (Tabela 12).38. Tabela 14.04 0.008 .79 2.90 gl 99 99 99 99 99 99 sig .61 0.97 4.9.38 gl 198 198 198 198 198 198 sig . Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos sistemas de valores pelos estudantes e aos negros brasileiros (Pesquisa II) Atribuição A si mesmo 1.27 1.10 0.42 1.21 0. e de religiosidade [t(198)= 2. p< 0.01 0.14 Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade Aos Brancos 0.75 4. p< 0.69. p< 0. Comparação de médias das pontuações obtidas com o grau de importância atribuído aos negros aos brancos brasileiros (Pesquisa II) Atribuição Aos Negros 4.001 .10 0.83 0.001 .75 0.03 0.14 Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade t 11.27 1. do materialismo [t(198)= 10.001].40.001]. Quanto à escala que avalia o preconceito simbólico manteve a estrutura .00 2.97.01 0.001 . pode se verificar que os estudantes atribuem à população negra mais adesão aos valores de justiça social que aos brancos [t(198)= 18.65 2.030 .001 .21 0.001 .228 .008].001].40 t 18. e a estes mais adesão aos valores de desenvolvimento profissional [t(198)= 2.21 0.27 0.49 0.145 .018] (Tabela 14).61 Aos Negros 4.40 2.9 1.001 .69 10.001 Quando realizada uma comparação entre as médias ponderadas de valores atribuídos pelos estudantes aos negros e aos brancos. do hedonismo [t(198)= 4. p< 0.72 Tabela 13.20 3.14 0.

878 0.80).883 0.000) e 53.593 0. Estrutura fatorial da escala de preconceito flagrante (Pesquisa II) Item 2 3 1 6 4 8 7 9 5 Descrição do Conteúdo Ter pessoas de cor negra como seus colegas de trabalho Ter amigos (as) que sejam negros Ter uma pessoa competente de cor negra como seu chefe Ter parentes por aliança de cor negra Ver um branco namorando uma negra Ter um neto (a) mulato (a) Participar de festas de pessoas de cor negra Ver um negro namorando uma branca Adotar uma criança negra Preconceito Flagrante 0.661 0.702 0. mas de se organizarem melhor Recebem mais do que merecem Recebem demasiado respeito e consideração Estão melhor agora do que nunca Possui demasiada influência política Devem superar o preconceito sem apoio. (Tabela 16).799 0.000) e obteve 43.658 0.821 0.73 unifatorial (α= 0. apresentou KMO= 0.581 0. com KMO= 0.4 0. Tabela 15. Tabela 16.850 (p< 0.2% da variância explicada.83).594 0.685 0.650 0. Estrutura fatorial da escala de preconceito simbólico (Pesquisa II) Preconceito Simbólico 0.548 3.4% da variância explicada (Tabela 15).847 (p< 0. como outros grupos o fizeram Não são discriminados no Brasil Eigenvalue % Variância Total Alfa de Cronbach O instrumento que mensura o Preconceito Flagrante também apresentou um único fator (α= 0.734 0.530 .80 Item 3 7 1 2 6 4 8 5 Exigem muitos direitos Descrição do Conteúdo Não necessitam de ajuda oficial.661 0.37 43.664 0.

Tabela 17.83 A escala de Atitudes Favoráveis a países de 1º e 3º mundo.780 0. Tabela 18.850 0.78 53.796 0. Estrutura fatorial da escala de atitude favorável ao 1º e 3º mundo (Pesquisa II) Item 5 1 3 6 2 4 Descrição do conteúdo Grau de desejo de morar em países de primeiro mundo Grau de identificação com países de primeiro mundo Grau de admiração com países de primeiro mundo Grau de desejo de morar em países de terceiro mundo Grau de identificação com países de terceiro mundo Grau de admiração com países de terceiro mundo Eigenvalue % Variância Total Alfa de Cronbach 2.67 3º mundo h2 0.63 . obteve o KMO= 0. Alpha de Cronbach dos fatores (Pesquisa II) Fator QVP-24 Justiça Social Desenvolvimento Pessoal alfa .816 0.74 Eigenvalue % Variância Total Alfa de Cronbach 4.06 33.3 0.77 30.671 (p< 0. (ver Tabela 18). permanecendo a estrutura bifatorial: Primeiro mundo (α= 0.749 1.631 0.000) com 64% da variância total explicada.634 0.7 0.60 .680 0. os índices de consistência interna (alfas de Cronbach) dos sistemas de valores que foram calculados e obtiveram resultados favoráveis.609 0.2 0.724 0.75) e Terceiro mundo (α= 0.75 Fatores 1º mundo 0. (Tabela 17).793 0.561 Ademais.67).

81 . por um lado. Neste sentido.75 Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade . Sexualidade.128.175.071]. F(3. por outro lado.75 . p< 0. p< 0.000].50. < -.90 Por fim. Outra variável que apresentou relação preditiva foi a ‘proximidade com pessoas de cor negra [β= -0.037] apresentam poder preditivo. t= -2.128 -1.148.867. Quanto ao Preconceito Flagrante [R= 0. t= -1. p< 0. observa-se que o sistema de valor Hedonista [β= 0. p< 0.01.215. quanto mais próximos os sujeitos se consideram do negro.09. quem valoriza o Hedonismo (Sensualidade. Uma Vida Excitante e Prazer) tende a expressar seu preconceito de forma mais flagrante.75 .071 .74 . Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com Preconceito flagrante (Pesquisa II) Variáveis Sistemas de Valores Justiça Social Estatísticas Beta t p.314. Tabela 19. Salvação da Alma e Temor a Deus) se afasta desse tipo de expressão. foram realizadas duas regressões lineares múltiplas a fim de verificar a relação preditiva das variáveis do estudo com a expressão do Preconceito Simbólico e Flagrante.81. Religiosidade. não tenderão a expressar o preconceito (Tabela 19). t= -2. Ou seja. p< 0.013] e Religioso [β= -0.002]. t= -3.188)= 6. a adesão a valores Religiosos (Obediência às leis de Deus. Pode-se observar também uma tendência do sistema de valores de Justiça social ser considerado como mais um preditor da não expressão do preconceito [β= -0. enquanto.

276 . Liberdade.002] e Materialista [β= 0.064 -3. buscaram-se identificar as variáveis com poder preditivo do Preconceito Simbólico [R= 0. Ademais. < -.217.157 .013 . Regressão linear múltipla (stepwise) das variáveis psicossociais com preconceito simbólico (Pesquisa II) Variáveis Sistemas de Valores Justiça Social Estatísticas Beta t p.42 0. Como resultado.072] (Tabela 20).04 .129.008 -1.037 .09 . p< 0.099 .114 R = .175 -. t= -2.042 0. a atitude favorável a países de 1º mundo também pode ser indicada como uma tendência para a expressão do preconceito simbólico [β= -0. Desse modo.094 -1.000 .4% F3.219.002 .148 .505 . a adesão os valores Materialistas tem relação direta com a expressão do Preconceito. F(2. t= -1. Tabela 20.81.69 . p< 0.032 .188 = 6.14.193. < -. t= -3.76 Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade Atitude Favorável a países do 1º mundo Atitude Favorável a países do 3º mundo Proximidade com o NEGRO Proximidade com o BRANCO Variáveis Sócio-Demográficas Idade Gênero Masculino Trabalha Coeficiente de Correlação.047 .314 R2 = 8.189 Por fim.867 . Fraternidade e a Justiça Social está inversamente relacionada à manifestação do Preconceito. temos que a adesão aos valores de Justiça Social [β= -0.949 .50 -2.834 .964 .003 .018 .76.004 -.909 -.087 . Por outro lado.09 1.01 0.002 . a adesão aos valores como a Igualdade.21 2.187)= 9.14 . Múltipla % Variabilidade Explicada Significância da amostra P.32 . p< 0.674 . p< 0.000].006] apresentam relação preditiva com a expressão do Preconceito Simbólico.215 .219 -3.300.

450 -.003 -.679 R = . 2000. 1982) como sendo um campo específico de estudo da Psicologia Social.806 . o simbólico e a proximidade ao negro). Assim.76 -0. nesta pesquisa.23 2. foi verificada a relação dos sistemas de valores com diversas formas de avaliar o preconceito (o preconceito flagrante.030 .963 . levou-se em consideração que tanto as necessidades individuais como as prioridades dos indivíduos também são construções sociais (Deschamps & Devos.5 Discussão Neste estudo.217 .029 -0. Pereira.81 -0.41 .43 0.757 .300 R2 = 8% F2.219 .31 0.25 1.102 -.34 .25 -1. < -.025 .446 . 1995. Torres. Pereira et al.024 -1.76 -0.213 . 1993).2.006 .733 -0. Cabe destacar que este trabalho utilizou a perspectiva teórico-metodológica sobre os valores (Lima & Camino.000 3.76 .019 .054 -.77 Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade Atitude Favorável a países do 1º mundo Atitude Favorável a países do 3º mundo Proximidade com o NEGRO Proximidade com o BRANCO Variáveis Sócio-Demográficas Idade Gênero Masculino Trabalha Coeficiente de Correlação. 1992) que tem como base de desenvolvimento a articulação psicossociológica proposta por Doise (1976. Múltipla % Variabilidade Explicada Significância da amostra P.. Este trabalho também pressupõe que a diferenciação dos valores do endogrupo em relação ao exogrupo é um fator que influencia no surgimento do .106 .187 = 9.129 -.054 -.072 .193 -. 2001.05 -0.668 .

78 preconceito (Rokeach, 1960). Neste sentido, a origem do preconceito estaria na percepção das diferenças de valores entre dois grupos ou culturas. Portanto, a premissa inicial deste estudo era que a cor de pele teria influência, de certo modo, na associação com os sistemas de valores. No caso da cor branca, estaria associada a valores progressistas de primeiro mundo (Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Justiça Social), e no caso da cor negra, estaria associada a valores tradicionais, típicos de terceiro mundo (Valores Materialistas, Hedônicos e Religiosos). Esta pressuposição originou-se do estudo de Camino e Cols (2001, 2004, 2007), em que estudantes universitários paraibanos atribuíam adjetivos de pessoas que moravam em países de Primeiro Mundo (ambicioso, independente, civilizado e rico) e Terceiro Mundo (pobre, solidário, trabalhador e sonhador) para pessoas de cor negra e cor branca, os resultados demonstraram que às pessoas de cor negra foram atribuídos os traços de países de 3º mundo e às pessoas de cor branca, características do 1º mundo. Assim, acreditou-se que resultados semelhantes seriam encontrados quando os estudantes fossem solicitados que indicassem quais os valores que negros e brancos brasileiros considerariam mais importantes para a vida deles. Porém se pode perceber que estes resultados não confirmam os pressupostos dessa pesquisa, quando se acreditava que as pessoas de cor negra seriam caracterizadas com valores do 3º Mundo (Materialismo e Hedonismo) e pessoas de cor branca estariam ligadas a valores de 1º Mundo (Justiça Social, Desenvolvimento Individual e Profissional) (Tabela 15).
Tabela 21. Comparação dos pressupostos iniciais com os resultados obtidos Pesquisas anteriores (Camino et al., 2001, 2004, 2007) Estudo Empírico I

79

1º MUNDO

BRANCO

BRANCO NEGRO

NEGRO

3º MUNDO

NEGRO

BRANCO

Analisando o conjunto de resultados se constatou que nosso pressuposto inicial não levou em conta dois fatores. Primeiramente, foi utilizado, como suporte teórico de nossa hipótese, a teoria de Inglehart, que se apóia na comparação direta de sociedades e grupos sociais com diversos níveis de desenvolvimento econômico, comparando os valores que cada grupo escolhe para si mesmo. Contudo, na presente pesquisa optou-se por uma estratégia diferente: comparar como são percebidas populações (branca e negra) que vivem em diferentes condições sócio-econômicas.

Fundamentalmente, a pesquisa trata da comparação de como são percebidos os valores de duas populações (o negro e o branco). Tinha-se pensado que por se tratar de valores culturais, não seriam observadas, na percepção dos alunos, as distorções próprias do preconceito sutil. Camino et al. (2004, 2007) tinham demonstrado que os estudantes paraibanos atribuem, sem nenhum problema, traços do 3º mundo à população negra. Mas os objetos usados nesses estudos (pobre, trabalhador, solidário e sonhador) não tinham o viés negativo que valores como materialismo e hedonismo parecem ter (Tabela 16). Os resultados (Tabela 22) indicam que os estudantes das duas universidades praticamente não atribuem a si valores dos sistemas materialistas e hedonistas, mesmo que alguns desses valores hedonistas (sensualidade, sexualidade, vida excitante e prazer) sejam típicos dos jovens

80 estudantes, e que valores materialistas (riqueza, lucro, autoridade, status) estejam na base de suas ambições universitárias.
Tabela 22. Análise comparativa das comparações de médias das Pesquisas I e II Pesquisa Comparação Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade 
EU I B EU II B EU I N EU II N N I B N II B

  n.s  

  n.s      n.s n.s 

   n.s  

  n.s   

 n.s    

Como os valores materialistas e hedonistas são indicadores que possuem algumas características negativas, não é de estranhar que os estudantes, como já constatado por Camino et al.(2004, 2007), tenham atribuído traços mais negativos à população de cor branca, e como se evitam utilizar esses traços para classificar a população de cor negra. Entretanto, alguns resultados parecem mostrar certas contradições na percepção que os estudantes têm da população negra. Primeiro, enquanto eles priorizam os valores de desenvolvimento individual, atribuem à população negra quase que exclusivamente valores de justiça social. Estes resultados podem ser interpretados sob a luz do contexto sócio-político atual. A valorização da justiça social estaria ligada tanto à consciência de forte discriminação social exercida no Brasil como das reivindicações cada vez maiores da população negra. Um aspecto que merece ser ressaltado é que, no questionário aplicado, não se fazia referência apenas a pessoas de cor negra e pessoas de cor

como é o caso do BRIC (Brasil. remete a uma reflexão sobre o que são países de primeiro e terceiro mundo e se os estudantes da pesquisa consideram que vivem em país de terceiro mundo. pois eram universitários e. antes categorizados como terceiro-mundistas. brasileiros terceiro-mundistas. Índia e China). segundo Vala (1994). Desenvolvimento Pessoal e Profissional. ao serem supridas as necessidades. o nível educacional é o melhor preditor da adesão aos valores pós-materialistas. Porém. a definição adotada nesse estudo sobre 1º e 3º mundo não se restringe a uma especificidade técnica mais ao conceito do senso comum das características que esses países possuem. passariam a valorizar o sistema de valores Pós-Materialistas. estes resultados podem ser justificados pelo nível de escolaridade dos participantes da pesquisa. ou seja. quando assegura que os países de terceiro mundo adeririam mais aos valores relacionados a necessidades ainda não supridas. atribuíram como valores mais importantes. pois. Outro dado que merece atenção diz respeito aos estudantes brasileiros . os estudantes universitários. e hoje nomeados como emergentes devido à posição econômica que estão ocupando. Contudo. Rússia. aqueles que fazem parte dos sistemas de valores ligados à Justiça Social. logo. e que. a valores Materialistas e Hedonistas. mas era explicitado que são negros e bancos brasileiros (ver Apêndice C). as novas mudanças econômico-culturais a nível global.81 branca de forma genérica. o que causou a diferenciação de valores foi a cor de pele. que mesmo sendo do mesmo país e compartilhando de uma mesma cultura. e a nova tonalidade que se tem dado a alguns países. Os resultados desse estudo contradizem o que afirma Inglehart (1991). Por outro lado.

valores pós-materialistas. 2005. como inquietações relativas à aplicação concreta da justiça no mundo. na sociedade atual. Neste sentido. Em outras palavras. estas contradições resultam em um paradoxo. como materialistas. como valores mais importantes para uma sociedade ideal de se viver. mais são justificados os preconceitos oriundos do liberalismo. tanto aspirações universalistas e globalizantes. como aspirações nacionalistas (setoriais) motivadas pela competitividade e meritocracia. políticos e econômicos básicos. Isto significa que os estudantes podem considerar importantes tanto valores pós-materialistas. Isto é. com isso. Este estudo também confirma resultados de pesquisas realizadas . quanto mais se critica o preconceito.23). e nem por isso teria se reduzido a importância dos valores materialistas (Pereira & Camino. porém não anula a possibilidade de adesão a valores pósmaterialistas. sem estarem entrando em contradição. e a própria defesa das normas anti-racistas poderia resultar na justificativa do próprio preconceito. típicas do capitalismo. Camino & Costa. os valores materialistas são vastamente compartilhados. é natural que se observe. fraternidade e igualdade. a realidade social pós-moderna ressalta “tanto a centralidade dos valores pós-materialista para o bom desenvolvimento da sociedade quanto. 1999). subordina-se às leis do mercado globalizado. o Brasil ainda é classificado como um país em via de desenvolvimento. Segundo Billig (1985). logo. cada vez mais. p.82 atribuírem. estão juntas na mesma sociedade tanto aspirações moralistas de liberdade. mesmo sabendo que o Brasil é um país onde não foram solucionados os problemas sociais. Para Billig (1991). visando lucro e acúmulo econômico característicos do materialismo” (Pereira.

Para este autor. que verificaram que o não apoio aos valores igualitários estaria associado ao preconceito racial. e cumprindo com o objetivo inicial do estudo. isto é. 1995.83 anteriormente (Lima. corroborando com Swim et al. as amizades interpessoais. possibilitariam uma conceituação mais positiva do exogrupo. 2006). (1995) e Goméz e Huici (2006). não bastava apenas ter o contato. Assim. os estudantes atribuíram a si mesmos uma maior adesão aos valores do sistema religioso quando comparados com as demais populações (negro e branco). Bastide & van den Berghe. Ademais. entre membros de diferentes grupos. 1957. Por fim. segundo Allport (1954). pois. como também o resultado que demonstra que a partilha dos valores igualitários (valores de justiça social) estaria associada a uma redução do preconceito. Lima & Camino. as relações entre os sistemas de valores e os preconceitos simbólicos e flagrantes corroboram outras pesquisas (Gaertner & Dovidio. 1997. 1995. Pereira. 1995). 1997) que demonstram a importância e influência do conteúdo do sistema religioso na vida dos estudantes. Goméz & Huici. e vale destacar a importância que adesão aos valores tem para influenciar a atitude da pessoa a manter contato com o exogrupo (Sagiv & Schwartz. ao observarmos a relação preditiva entre a proximidade com pessoas de cor negra com a não expressão do preconceito. mas também compartilhar objetivos em comum. as pessoas que são mais preconceituosas evidenciam uma maior rejeição ao considerar a possibilidade de proximidade social (Bastide. como também a proximidade com pessoas de cor branca como preditor direto do preconceito. 1988). o contato interpessoal seria favorável à redução do preconceito. Katz & Hass. 1956. . Sua teoria pode ser apoiada por este estudo. como foi visto. Sagiv & Schwartz. Lima & Camino. 1986.

a priori. Por fim. Então surge a questão: o que realmente pensa os estudantes universitários acerca de quais são os valores de 1º e 3º mundo? Pois o que parece. pode ser considerado pelos universitários como sendo de primeiro mundo. ou ela não pode ser apreendida no contexto brasileiro. o que foi considerado pela pesquisa. seria um resultado contraditório. como valor de terceiro mundo (Ex.84 de que a adesão a valores materialistas estaria ligada a um maior nível de preconceito. houve um resultado contrário ao esperado. Inicialmente. como já foi visto. 2008). é que. ou a “pirâmide” da teoria de Inglehart é invertida. O mesmo com o branco. e a adesão aos valores pós-materialistas. Os resultados encontrados estão coerentes com estudos anteriores e apóiam a importância de considerar os valores na compreensão da dinâmica do preconceito. pois os valores que foram atribuídos aos negros como sendo de primeiro mundo (Ex. no Brasil.: Riqueza – Sistema Materialista). Para responder este . Pode-se afirmar que. segundo a Teoria de Inglehart. e ao branco de primeiro mundo. onde os resultados apontaram que as mulheres demonstraram ser menos preconceituosas que os homens (Pires & Alonso. a presença do gênero masculino como preditor da expressão do racismo corrobora uma pesquisa realizada sobre a temática área onde afirmam a existência de diferenças significativas em função do gênero das pessoas. Ademais. a um menor nível de preconceito. pode ser que sejam compreendidos pelos estudantes como sendo um valor de terceiro mundo. se pressupôs que ao negro seriam atribuídos valores de terceiro mundo.: Justiça Social – Sistema de Justiça Social). porém os resultados apresentaram o inverso.

85 questionamento. foi realizado um segundo estudo. .

1 Participantes .86 CAPÍTULO 4 ESTUDO EMPIRICO II 4.2 MÉTODO 4.1 OBJETIVO Verificar quais os valores sociais que os estudantes universitários atribuem às pessoas de 1º e 3º mundo 4.2.

em metade dos questionários. foi solicitado ao estudante que indicasse três valores.5 100 4. em ordem de importância.5 21. min= 17 e máx= 34). 20% de Economia.0 74.8 0.0 54.2 Instrumentos O instrumento utilizado foi um questionário onde.87 Participaram do estudo 220 estudantes de uma Universidade Pública da cidade de João Pessoa-PB (75 homens e 145 mulheres). com idade média de 21 anos (DP= 3. e.5% são católicos.5 21. que ele considerasse como valores de Primeiro Mundo e de Terceiro Mundo. (Tabela 23). cerca de 29.7 8. Quanto ao curso.8 21.0 66.8 20. Perfil Sócio demográfico dos participantes (Estudo Empírico 2) Variáveis Gênero Masculino Feminino Curso Psicologia Ciências Contábeis Economia Administração Ciências Sociais Serviço Social Trabalha Sim Não Religião Católica Evangélica Não tenho Espírita Afro-Brasileira Total Frequência 75 145 65 48 44 26 19 18 57 163 120 48 47 4 1 220 % 34. 74% não trabalham e 54. . Ademais.2 26.0 29. inicialmente.2.0 11.8% de Ciências Contábeis.4 1.5% eram estudantes de Psicologia. foram apresentados os 24 valores do QVP-24. 21. Ciências Sociais e Serviços Social.8 8. Tabela 23. e os demais cursos foram Administração.

o valor considerado como 1º mais importante obtinha 3 pontos. e o 3º mais importante. 4. Os estudantes foram informados sobre o objetivo do estudo. a fim de conferir se existem diferenças entre os valores atribuídos a países de primeiro e terceiro mundo. foi utilizado o software “Statistical Package for the Social Science – SPSS” versão 16. e posteriormente.88 Para evitar vieses das respostas. os valores que eles consideravam ser de Terceiro Mundo. ou seja. e respondidos individualmente.2. foram criadas novas variáveis em que a pontuação dos valores foi . o 2º mais importante. Em seguida. foram solicitados que indicassem. de Primeiro Mundo. Para tabular e processar os dados.2.4 Resultados Foi realizada a comparação de médias (test-t). religião) (Apêndice H). havia um questionário com perguntas sócio-demográficas (idade. Sendo assim. 2 pontos. as questões foram balanceadas. curso. sexo. O tempo médio de resposta foi de 10 minutos. Ao término. na outra metade dos questionários. primeiramente. 1 ponto. 4. como também a respeito do sigilo das informações.3 Procedimentos Os questionários foram aplicados em sala de aula.0.

para indicar os países de 1º e 3º mundo. logo o sistema de valor Desenvolvimento Pessoal obteria 3 pontos.26. p< 0.91 7.91.47 2. p< 0. aos países de 1º mundo. p< 0. Pode-se observar que os estudantes atribuíram.001) e ao Materialismo (t(219)= 11. o índice dos valores Materialistas é considerado bastante importante para descrever o primeiro mundo.10 3º mundo 1.1.001).001 .73 t 9.19 1. o de Justiça Social.001 . E por fim.26 gl 219 219 219 219 219 219 sig . p< 0. valores relacionados ao Desenvolvimento Individual (t(219)= 4.26.005 . se o respondente sugerisse a seguinte ordem 1º= Amor.04 3.001 . De fato.001 . 1 ponto. e Profissional. quanto maior a pontuação.001). respectivamente. 2 pontos.001) (Tabela 24). p< 0.84 11. Exemplificando. o papel de menor importância dos valores hedônicos e religiosos atribuídos aos países de terceiro mundo.001). e o Materialismo.18 0. encontram-se os valores de Desenvolvimento Pessoal. Tabela 24.001 .1 3.05 0. assim como os valores de Justiça Social para caracterizar o terceiro mundo.47.66 0. Desenvolvimento Profissional (t(219)= 2. 2º= Liberdade e 3º= Lucro. Hedonismo (t(219)= 3. Comparação de médias das pontuações obtidas do grau de importância atribuído aos sistemas de valores pelos estudantes aos países de 1º e 3º mundo Sistema de Valores Justiça Social Desenvolvimento Pessoal Desenvolvimento Profissional Materialismo Hedonismo Religiosidade 1º mundo 0. Portanto.32 1. No segundo nível.46 1.59 0.84. p< 0. maior é a valorização atribuída ao sistema de valores por parte dos universitários.18 0. enquanto que aos países de 3º mundo foram atribuídos valores relacionados à Justiça Social (t(219)= 9.89 agrupada segundo os sistemas que eles estão inseridos.26 4.001) e Religiosidade (t(219)= 7.59 1.

valores que foram considerados materialistas. observa-se o sistema de valor de ‘Desenvolvimento Pessoal’ foi considerado como típicos de países de 1º mundo. corroborando a teoria de Inglehart. Inglehart (1991) afirma que os cidadãos do primeiro mundo adeririam com maior intensidade aos valores pós-materialistas enquanto que os cidadãos do terceiro mundo adeririam aos valores materialistas. Mas Inglehart não analisa como os cidadãos dos diferentes níveis de desenvolvimento são percebidos por eles mesmos ou pelos outros. os sistemas atribuídos aos negros foram valores considerados de primeiro mundo (Justiça Social) e aos brancos valores considerados de terceiro mundo (Materialistas). de países de 3º mundo. que foram considerados próprios de países de primeiro mundo. mas com a percepção de que se possui geralmente sobre os valores desses cidadãos. a hipótese do primeiro estudo tratava não como os valores realmente vividos. foram considerados pelos estudantes como valores próprios de países de 3º mundo. e os sistemas de valores religioso e hedônicos. classificados pela teoria de Inglehart como valores de países de 1º mundo. os valores de ‘Justiça Social’ e de ‘Desenvolvimento Profissional’. O mesmo movimento acontece com os valores materialistas. De fato. os resultados indicaram o contrário (Tabela 21). e que aos brancos seriam atribuídos valores pósmaterialistas.2. Contudo.este sentido. Contudo. O segundo estudo dirigia-se a analisar os valores desde a perspectiva da percepção ou representação destes.90 4.5 Discussão O primeiro estudo empírico partiu da pressuposição que aos negros seriam atribuídos valores relacionados ao terceiro mundo. indicados por Inglehart como valores terceiro .

mesmo havendo uma má interpretação da teoria de Inglehart. e ao terceiro mundo. valores de primeiro mundo. Neste sentido. com a crença na mobilidade social e mudança social. ao primeiro mundo estão relacionados valores ligados a aspirações de mobilidade social (materialismo e desenvolvimento pessoal). pode se verificar que a aplicação feita da Teoria Estudo Empírico I Cor de Pele Quais valores são atribuídos aos negros e brancos? Pressuposto Resultados inicial Materialismo 3º mundo PósMaterialismo 1º mundo PósMaterialismo 1º mundo Países Estudo Empírico II Quais valores são atribuídos aos países de 1º e 3º mundo Pressuposto Resultados inicial PósMaterialismo Materialismo NEGRO 1º MUNDO BRANCO Materialismo 3º mundo 3º MUNDO Materialismo PósMaterialismo de Inglehart para o primeiro estudo foi mal interpretada. e aos brancos. . da esfera política e social. e o segundo se refere à mudança da sociedade em termos mais macros e societais. como o materialismo e o individualismo. ao afirmar que seriam atribuídos aos negros valores de terceiro mundo. e postos pelos participantes como valores primeiro mundistas (Tabela 25). Comparação dos pressupostos iniciais com os resultados obtidos Em síntese. pois percebem a população negra como sedenta de justiça e ao mesmo tempo precisando se esforçar para subir na vida.91 mundistas. os resultados indicaram que o pressuposto inicial da pesquisa estava coerente. O primeiro diz respeito ao mérito e conquistas pessoais. de mudança social (justiça social e desenvolvimento profissional). Com estes resultados. Tabela 25.

92 .

a alegria. como o amor. contudo. a auto-realização e o conforto. 1990) devido à dificuldade inerente por ser um construto social. 2000. por exemplo. o que se consideram valores individualistas geralmente são ligados à meritocracia. . o estudo de valores permite deslizes. Além disso.93 CAPÍTULO 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Há muitos obstáculos que as pesquisas empíricas enfrentam ao tentar mensurar o preconceito (Elias. na teoria utilizada neste estudo não é assim. Goldberg. o desenvolvimento pessoal está ligado a outros aspectos individuais. Scotson.

Os índices encontrados nos cálculos das regressões são muito baixos. Ademais. pois se utilizou a . o oposto acontecia com a proximidade com pessoas de cor negra. e no caso dessa dissertação. Os resultados do segundo estudo indicaram que os pressupostos iniciais do primeiro estudo estavam corretos. Neste sentido. porém devido a uma interpretação errônea na teoria de Inglehart. E que os estudantes aderem mais aos valores religiosos e de desenvolvimento pessoal e profissional. enquanto atribui aos brancos valores materialistas. Com relação às variáveis que predizem o preconceito. não se pode descartar a afirmação de que a adesão a valores sociais tem relação com o comportamento discriminatório contra os negros. Assim.94 Os resultados do primeiro estudo permitem afirmar que realmente são atribuídos diferentes valores aos grupos. uma atitude favorável a países de primeiro mundo. e aos negros. de justiça social. pode-se observar a relação preditiva da adesão aos valores de Justiça Social e Religiosos com a não expressão do preconceito. mas mesmo assim. a proximidade com pessoas de cor branca. o que não é verdadeiro. por parte dos estudantes. aos negros e aos brancos. surgiu o interesse de realizar um segundo. cabe uma reflexão da aplicação da teoria de Inglehart neste estudo. buscou-se verificar a real compreensão. implicou numa relação direta com a expressão do preconceito. de quais seriam os valores considerados próprios de países de primeiro e de terceiro mundo. pareceu que os resultados do primeiro estudo fossem contraditórios. por sua vez. Visto que os resultados do primeiro estudo apresentaram um efeito inverso do esperado. e a adesão aos valores Hedônicos e Materialistas com a expressão do mesmo.

ou seja. De fato. . atribuir valores às pessoas é uma forma de categorizar. estudantes universitários paraibanos. por uma compreensão do pensamento do estudante paraibano. pois. primeiramente. como se pode observar. que utilizam repertórios representacionais (sistemas de valores) para justificar suas ações preconceituosas sem se dar conta disso.95 teoria sem passar. de agir de maneira preconceituosa. Por fim. de diferenciar. Esta dissertação contribui para que estudos futuros possam ser desenvolvidos na área de preconceitos racial e valores humanos. são duas áreas temáticas que estão diretamente relacionadas com as atitudes e comportamentos dos indivíduos. o que traz certa limitação referente à generalização dos resultados. estes estudos tiveram como amostra. logo.

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APÊNDICES

Leia atentamente e responda a todas as perguntas. Com este questionário gostaríamos de conhecer sua opinião sobre o tema.118 APÊNDICE A: Questionário sócio-demográfico As relações raciais no Brasil constituem hoje um problema bastante atual. Acreditamos que a Universidade constitui um espaço importante para debatê-lo. Obrigado! Idade: ______ Curso: _____________ Gênero: ( ) Feminino Trabalha: ( ) Não Religião: ( ) Católica ( ) Espírita Período: ______ ( ) Masculino ( ) Sim ( ) Evangélica ( ) Afro-Brasileira ( ) Nenhuma Com qual tipo de população você se identifica? ( ) População de cor de pele Branca ( ) População de cor de pele Morena ( ) População de cor de pele Negra .

.................................................... ] Competência . ________________________ . [ ] Temor a Deus .....................[ Liberdade .......... ________________________ 3°............... [ ] Responsabilidade ................................ VOCÊ encontrará uma lista contendo um conjunto de valores sociais aos quais VOCÊ deverá atribuir uma nota variando de 1 (um) a 5 (cinco)..[ ] Fraternidade .... [ Auto-realização ..... [ Status ......... [ ] Amor .......... [ Dos valores acima................................................... considerando o grau de importância de cada um dos valores para a construção de uma sociedade ideal para se viver........ [ ] Salvação da Alma ........................ menor será a importância do valor e......................................... [ ] Obediência às leis de Deus ........... quanto maior for a nota..................................... [ Riqueza ..................................... [ ] Realização Profissional ............................................................................................. [ Sensualidade ............................... [ Dedicação ......... maior será a importância do valor.... [ Igualdade ............ Quanto menor for a nota............ [ ] Lucro ...................... [ ] Conforto............. [ ] Autoridade...... Nota Nota ] [ ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] Alegria ............................................... [ ] Justiça Social ........................................... [ ] Sexualidade .............................. Na lista abaixo..................................[ Religiosidade ..........119 APÊNDICE B: Questionário de valores psicossociais – QVP-24 1............................. [ Prazer ............ ________________________ 2°...........................[ Uma Vida Excitante ........ quais os três valores mais importantes para a sua vida? 1°...............................

quais os três valores que os negros brasileiros consideram mais importantes para a vida deles? 1°. quais os três valores que os brancos brasileiros consideram mais importantes para a vida deles? 1°. ________________________ 3°. ________________________ Dos valores acima. ________________________ 3°. ________________________ .120 APÊNDICE C: Questões relativas a população de cor negra e branca Dos valores acima. ________________________ 2°. ________________________ 2°.

indicando quão próximos ou distantes. Escreva nos círculos abaixo as siglas de cada um dos grupos raciais: negro (Ng).121 APÊNDICE D: Escala de distância percebida 2. você os percebe de si mesmo (EU). . branco (Br) e moreno (Mo).

122 APÊNDICE E: Escala de Rejeição de políticas afirmativas (preconceito simbólico) totalmenteDiscordo Nem concordo nem discordo 3.): Concordo totalmente Concordo Discordo 01 – Recebem mais do que merecem 02 – Recebem demasiado respeito e consideração 03 – Exigem muitos direitos 04 – Possuem demasiada influência política 05 – Não são discriminadas no Brasil 06 – Estão melhor agora do que nunca 07 – Não necessitam de ajuda oficial. mas de se organizarem melhor 08 – Devem superar o preconceito sem apoio. Indique seu grau de concordância com as seguintes afirmações sobre minorias raciais (negros. como outros grupos o fizeram 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 2 2 3 3 3 3 3 3 3 3 4 4 4 4 4 4 4 4 5 5 5 5 5 5 5 5 . índios. etc.

Responda o quanto você se sente ou se sentiria constrangido nas seguintes situações: Incomoda Pouco Incomoda muito Incomoda Moderadamente 01 – Ter uma pessoa competente de cor negra como seu chefe 02 – Ter pessoas de cor negra como seus colegas de trabalho 03 – Ter amigos(as) que sejam negros 04 – Ver um branco namorando uma negra 05 – Adotar uma criança negra 06 – Ter parentes por aliança de cor negra 07 – Participar de festas de pessoas de cor negra 08 – Ter um neto(a) mulato(a) 09 – Ver um negro namorando uma branca 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 Não incomoda Incomoda 5 5 5 5 5 5 5 5 5 .123 APÊNDICE F: Escala de rejeição da intimidade (preconceito flagrante) 4.

Indique sua atitude frente aos países de primeiro e terceiro mundo: Pouco Nada Moderado 01 – Grau de identificação com países do primeiro mundo 02 – Grau de identificação com países do terceiro mundo 03 – Grau de admiração com países do primeiro mundo 04 – Grau de admiração com países do terceiro mundo 05 – Grau de desejo de morar em países do primeiro mundo 06 – Grau de desejo de morar em países do terceiro mundo 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 3 3 3 3 3 3 Muito 4 4 4 4 4 4 .124 APÊNDICE G: Escala de atitude favorável ao 1º e 3º mundo 5.

125 APÊNDICE H: Questionário – Estudo Empírico 2 Universidade Federal da Paraíba Programa de Pós Graduação em Psicologia Social Grupo de Pesquisa em Comportamento Político . Gostaríamos que você respondesse a seguinte questão: Em ordem de importância.GPCP Caro Estudante. qual dos valores abaixo VOCÊ considera que pessoas de 1º MUNDO e de 3º MUNDO valorizam? Alegria Auto-Realização Competência Dedicação Igualdade Liberdade Prazer Religiosidade Riqueza Sensualidade Status Uma Vida Excitante Amor Autoridade Conforto Fraternidade Justiça Social Lucro Realização Profissional Responsabilidade Salvação da Alma Sexualidade Temor a Deus Obediência às leis de Deus Pessoas de 1º MUNDO valorizam: 1º ________________________ 2º _______________________ 3º ________________________ Pessoas de 3º MUNDO valorizam: 1º ________________________ 2º ________________________ 3º ________________________ Idade: Curso: Gênero _________ _________________________ ( ) Feminino ) Não ) Católica ) Não tenho ( ( ( ) Masculino ) Sim ) Evangélica ( Período: _________ Trabalha: ( Religião: ( ( ) Espírita ( ) Afro-Brasileira Muito Obrigado por sua colaboração! .

Solicito sua autorização para apresentar os resultados deste estudo em eventos da área de Psicologia e publicar em revista científica. sob a orientação do Prof. Data: _________/__________/___________ ___________________________________ Assinatura do Participante da Pesquisa . o(a) senhor(a) não é obrigado(a) a fornecer as informações e/ou colaborar com as atividades solicitadas pelo Pesquisador. O objetivo geral do estudo é verificar a forma e a intensidade das relações sóciopolíticas no Brasil. seu nome será mantido em sigilo. Por ocasião da publicação dos resultados.João Pessoa .126 APÊNDICE I: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Esta pesquisa está sendo desenvolvida por Samuel Lincoln Bezerra Lins. Dr. declaro que fui devidamente esclarecido(a) e dou o meu consentimento para participar da pesquisa e para publicação dos resultados. Leoncio Camino R. ou resolver a qualquer momento desistir do mesmo.58051-900). A sua participação na pesquisa é voluntária e. Larrain. O(s) pesquisador(es) estará(ão) a sua disposição para qualquer esclarecimento que considere necessário em qualquer etapa da pesquisa.PB . nem haverá modificação na assistência que vem recebendo na Instituição (quando for o caso). tanto como suas influências e consequências. 3216. portanto.Brasil – Ambiente 46 – CEP .Cidade Universitária . não sofrerá nenhum dano. coordenador do Grupo de Pesquisa em Comportamento Político – GPCP (Fone. Diante do exposto. Caso decida não participar do estudo. Mestrando em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba.7674 .

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