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Ciência e Dialética em Aristóteles

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Oswaldo Porchat Pereira

Ciência e Dialética em Aristóteles

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Pereira, Oswaldo Porchat Ciência e dialética em Aristóteles / Oswaldo Porchat Pereira – São Paulo: Editora UNESP, 2001. (Coleção Biblioteca de Filosofia)

Bibliografia. ISBN 85-7139-340-0

Coleção Biblioteca de Filosofia Direção Marilena Chauí Organização Floriano Jonas César

1. Aristóteles 2. Ciência 3. Dialética I. Título

01-0853 Índice para catálogo sistemático: 1. Aristóteles: Obras filosóficas 185

CDD-185

Editora afiliada:

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Apresentação da Coleção Biblioteca de Filosofia

No correr dos últimos vinte anos, vimos crescer no Brasil a produção de trabalhos em filosofia, bem como o interesse – de natureza profissional ou não – despertado pela filosofia em um novo público leitor. Do lado universitário, esse crescimento decorreu, sem dúvida, da expansão dos cursos de pós-graduação em filosofia, provocando pesquisas originais e rigorosas nos mais diversos campos filosóficos. No entanto, em sua maior parte esses trabalhos permanecem ignorados ou são de difícil acesso, pois são teses acadêmicas cujos exemplares ficam à disposição apenas nas bibliotecas universitárias, mesmo porque a maioria de seus autores são jovens e não são procurados pelo mercado editorial. Disso resulta que bons trabalhos acabam sendo do conhecimento de poucos. Do lado dos leitores universitários, aumentou a procura desses trabalhos porque constituem um acervo bibliográfico nacional precioso para o prosseguimento das pesquisas acadêmicas. Do lado dos leitores não-especialistas, a demanda por textos de filosofia também cresceu, possivelmente ocasionada pelas dificuldades práticas e teóricas do tempo presente, que vive a crise dos projetos de emancipação, da racionalidade moderna e dos valo5

res éticos e políticos, fazendo surgir o interesse renovado pelos frutos da reflexão filosófica. Biblioteca de Filosofia pretende, na medida do possível, responder tanto à necessidade de dar a conhecer a produção universitária em filosofia como ao interesse dos leitores pelas questões filosóficas. Por isso, as publicações se destinam a divulgar os resultados de pesquisas de jovens estudiosos, mas também trabalhos que, entre os especialistas, são hoje clássicos da filosofia no Brasil e que, escritos como teses, jamais haviam sido editados. Esta coleção, publicando trabalhos dos mais jovens e dos mais velhos, busca dar visibilidade ao que Antonio Candido (referindo-se à literatura brasileira) chama de um “sistema de obras”, capaz de suscitar debate, constituir referência bibliográfica nacional para os pesquisadores e despertar novas questões com que vá alimentando uma tradição filosófica no Brasil, além de ampliar, com outros leitores, o interesse pela filosofia e suas enigmáticas questões. Que, afinal, são as de todos, pois, como escreveu Merleau-Ponty, o filósofo é simplesmente aquele que desperta e fala, e que, para isso, precisa ser um pouco mais e um pouco menos humano. ��������������

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Sumário

para Ieda, Patrícia, Ana e Julia

Apresentação 15 Prefácio 21 Introdução 25 I O saber científico 35
1 A noção de ciência 35 1.1 A ciência, a causa e o necessário 35 1.2 A ciência e a categoria da relação 44 1.3 A ciência e a alma 47 1.4 Os outros usos do termo “ciência” 52 2 A ciência que se tem 54 2.1 A noção de ciência, a opinião comum e a realidade científica 54 2.2 As coisas celestes e a ciência humana 57 2.3 O paradigma matemático 59 2.4 Aristóteles e a concepção platônica de ciência 64

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1 O ����������� 152 2.1 A noção de princípio 125 5.5 O freqüente e o devir cíclico 186 4.3 A ratio cognoscendi e a ratio essendi 97 3.1 O ser e o verdadeiro. outra forma de ciência 81 2 Ciência e verdade 83 2. o freqüente e a matéria 181 4.5 Objeções e respostas 161 2.7 O universal científico e a percepção sensível 169 3 A falsa “catolicidade” 172 3. 12 108 4.3 A verdade.2 O silogismo e as matemáticas 70 3.1 As múltiplas acepções de “por si” e de acidente 138 1.6 A anterioridade segundo a essência e a natureza 111 4.2 Maior cognoscibilidade das premissas 101 4.2 O “por si” e a essência.1 Anterioridade e conhecimento prévio 100 4.4 Verdadeira ciência e saber aparente 177 4 O freqüente 178 4.2 A inteligência e as coisas simples 87 2.6 Superioridade da demonstração universal 164 2.4 As ciências do “que” 98 4 Do que se conhece mais e antes 100 4. função da razão humana 88 2.4 Das condições de possibilidade da demonstração 76 5.7 O caminho humano do conhecimento: investigação e ciência 117 5 Os indemonstráveis 125 5.7 O que “no mais das vezes” ocorre e o que “muitas vezes” acontece 189 11 II O saber anterior 79 1 As premissas da demonstração 79 1.2 Silogismos do “que” e silogismos do porquê 93 3. o próprio 143 1.2 O acidente.2 O segundo erro 173 3.4 O necessário que a ciência não conhece 148 2 A “catolicidade” da ciência 152 2.1 A demonstração ou silogismo científico 67 3.4 Acepções diferentes de “universal” 156 2.3 Um falso dilema: regressão ao infinito ou demonstração hipotética 128 5.3 O “por si”.4 A noção de anterioridade 105 4.6 O freqüente.3 Universalidade e sujeito primeiro 154 2. objeto de ciência 187 4.2 A indemonstrabilidade dos princípios 126 10 .3 Ciência e silogismo demonstrativo 67 3.3 A aporia do conhecimento absoluto 104 4.4 A ciência.2 Justificação de suas notas características 81 1.5 Comparação entre Metafísica � e Categorias. como causas 91 3.3 O terceiro erro 175 3.3 O silogismo científico e o conhecimento do “que” 74 3.1 As premissas.3 Duas acepções de “possível” 182 4.1 Pode haver ciência do freqüente? 178 4.4 A necessidade hipotética 185 4.4 A teoria da demonstração circular 133 III Do demonstrado ao indemonstrável 137 1 O “por si” e o acidente 138 1.2 O universal e a ciência 153 2.3 O conhecimento dos princípios.1 Um primeiro erro contra a universalidade 172 3. o acidente e a ciência 146 1. no pensamento e nas coisas 83 2. sempre verdadeira 89 3 O “que” e o porquê 91 3.1 Natureza das premissas científicas 79 1.

a contingência e os limites da cientificidade 276 IV A multiplicação do saber 211 1 Os gêneros da demonstração 211 1. produção e contingência 272 5.3 Ser em sentido absoluto e ser algo 285 1. os “comuns” e a sofística 259 4.1 O terceiro elemento da demonstração 234 3. hipóteses e definições 225 2.3 As formas de conhecimento prévio 228 2. o que se define 300 2.4 A categoria da essência e as essências das categorias 288 1.3 Os axiomas e o silogismo demonstrativo 240 3.2 Prova-se a natureza necessária das premissas 193 5.6 Novos argumentos dialéticos: sobre o número de princípios 263 5 A divisão das ciências 269 5.3 Segunda prova “lógica” 203 6.2 “Comuns” e axiomas.4 Sobre a multiplicidade de causas 196 6 Da indemonstrabilidade dos princípios 198 6.1 Quatro perguntas que se fazem 281 1.5 Confirma-se e complementa-se a doutrina 329 3.1 Ainda o “por si” e o necessário 192 5.1 O que se demonstra.2 O silogismo da definição 305 2.3 Um paralelo com o platonismo 255 4.2 Teses.1 Considerações preliminares 313 3.1 Gêneros e princípios 223 2.2 As categorias do ser e os gêneros científicos 252 4. caminho para a definição 325 3.4 Os axiomas matemáticos.2 A “passagem” proibida 212 1.1 As ciências. dialética e ciência do ser 236 3.2 A ambigüidade das expressões aristotélicas 283 1. nas premissas da ciência 192 5.1 Argumentos “lógicos” e argumentos analíticos 250 12 V Definição e demonstração 279 1 Do que se pergunta e sabe 281 1.1 A noção de gênero científico 211 1.7 O sentido da discussão preambular 297 2 Aporias sobre a definição 300 2.4 A dialética.4 O homem.6 Aporias sobre o termo médio 294 1.4 A física matemática e a doutrina da “passagem” 219 2 Os princípios próprios 223 2.4 Solução de uma falsa aporia 230 3 Os axiomas ou princípios comuns 234 3. a matemática universal e a filosofia primeira 244 4 A unidade impossível do saber 250 4.6 As várias espécies de definição 331 13 .2 Ação.4 A demonstração. uma contradição aparente 216 1. as partes da alma e as coisas 269 5.3 Os elementos teóricos das ciências práticas e poiéticas 273 5.5 Perguntar pelo ser.3 A busca do “o que é” e o silogismo científico 320 3.1 Proposições primeiras e cadeias de atribuições 198 6.5 Da necessidade.3 A “passagem” permitida.6 Finidade da ciência e finidade do real 208 4.5 As “questões científicas” e o “a-científico” 260 4.3 Necessidade ontológica e necessidade do juízo 195 5.3 Definições nominais e conhecimento da qüididade 310 3 Demonstração e definições 313 3.2 O silogismo “lógico” do “o que é” 316 3.5 A existência dos princípios e a análise da demonstração 207 6.2 Do caráter finito das cadeias: primeira prova “lógica” 200 6.4 A prova analítica 205 6. perguntar sobre a causa 291 1.

dentre muitas. entretanto. porquanto estava apresentando um texto já pronto. Mas como não queria estar ausente da festa desta publicação.3 Indução e método dialético 384 3. “experiência” e apreensão dos universais 344 1.7 Ciência. 2) que ele mesmo indicasse as linhas que lhe aparecessem as mais interessantes e mais inovadoras.4 Indução dialética e “visão” dos princípios 387 Apresentação Conclusão 395 1.2 A doutrina da ciência e a problemática do critério 400 Referências bibliográficas 411 Depois de ter lido o prefácio que Oswaldo Porchat Pereira escreveu para a primeira edição desta sua obra.1 A “ciência lógica” e o sistema aristotélico 395 1. conhecimento de essências 334 3. vamos dizer assim.3 Sensação. para ajudar o leitor na dura tarefa de digerir este livro? Nem mesmo isso se justificaria.1 A dialética e as “ciências filosóficas” 355 2.2 A dialética e os Analíticos 378 3. ele mesmo desbastando o caminho do leitor. obviamente não tenho competência para examiná-lo no seu pormenor.4 A indução dos princípios 347 1. contando inclusive como nossa longa e profunda amizade se entrelaçou com a fabricação deste livro. não participo do grupo de helenistas capaz de ver novidades numa obra que tem sido lida e repensada por mais de dois mil anos.8 Termina a exposição sobre a doutrina da ciência 335 VI A apreensão dos princípios 337 1 O problema 337 1. imaginei que poderia escrever sobre o que este trabalho nos ensinou lá pelos anos 70. já estava ali desenvolvida. pois. Sou apenas consumidor de comentários especializados. terminada há mais de trinta anos mas somente agora publicada.5 Indução ou inteligência dos princípios? 351 2 Os Tópicos e a dialética 355 2. 15 14 . não via qualquer motivo para esta minha apresentação. A parte hagiográfica.3. Fiz-lhe então duas sugestões: 1) que trocasse o nome de prefácio por posfácio.4 Os Tópicos e a metodologia da definição 369 2.5 A dialética e a “visão” dos princípios 370 3 A solução 374 3.3 Estrutura e conteúdo dos Tópicos 361 2.1 Um método dialético nos tratados 374 3. Não estaria assim sugerindo uma pista. se o próprio Porchat incluísse em sua apresentação os tópicos vistos por ele como os mais relevantes de seu trabalho.1 Recapitulação 337 1.2 Um conhecimento anterior ao dos princípios? 339 1.2 Características gerais da arte dialética 359 2. embora leitor assíduo de Aristóteles. No que respeita a seu conteúdo.

mas às vezes desconfio que nela se escondam resquícios de seu dogmatismo. pois em política nem 16 tudo pode estar claro. característica de suas aulas e de seus escritos. não é porque ele deve ser o primeiro a indicar os pontos relevantes de uma obra que deixou rolar anos na gaveta? Mas nessa boa traição. que tomou como paradigma em sua análise da cientificidade. antes de tudo o que aparece é o próprio Porchat. saber demonstrativo. São as matemáticas que revelam a Aristóteles a natureza da epistéme. Fiquei encantado com a solução e de imediato imaginei a molecagem de introduzir em meu próprio texto o roteiro do autor. Mostrando como.Apresentação Ciência e Dialética em Aristóteles Porchat me olhou muito concentrado e me respondeu: “Vou considerar muito seriamente esta sua sugestão”. Lembra-me que Victor Goldschmidt lhe propusera picar o livro em vários artigos que facilmente poderiam então ser publicados em revistas francesas. • A noção de gênero científico e o problema da metábasis (passagem de um gênero a outro). Somente o fato de levá-la em conta já era auspicioso. mas precisamente a reconstrução da estrutura da teoria aristotélica da ciência e sua “lógica” 17 . sobrando contudo aos traidores a responsabilidade de ter ou não acertado quando se metem a pescar em águas turvas. mostrando-se como se inter-relacionam e mutuamente se explicam. naquele momento. A guerra dos judeus. O que há de original nesse estudo não são os tópicos abordados. de “freqüente”(hôs epì tò polý). porém. porém. acabou me confessando que não havia nada a mudar. A natureza dos silogismos da ciência. depois do susto. Eis o texto e seu autor. Dias depois ele me deu a resposta esperada: “Se os autores escrevem prefácios às edições subseqüentes de uma obra já publicada. acreditava ele. da maquinaria das legiões de Roma. pois só assim. Costumo brincar dizendo que Porchat. com a única diferença que escreve dogmaticamente para. A natureza das premissas científicas. que ele somente daria para uns poucos amigos. embora profundamente judeu. inclusive para dizer. Fez-me. seria possível conciliar os interesses de seu povo diante da invencibilidade. Não seria o caso de imitá-lo? Se inicialmente traio a confiança de Porchat. juntar às suas proposições o operador “Aparece que”. assume aparentemente uma posição pró-romana. de necessário”. • Todas essas questões são estudadas nos quatros primeiros capítulos. • Estudo aprofundado da noção aristotélica de epistéme. de todos nós. uma proposta inesperada: “Se você continua querendo lembrar os aspectos relevantes do livro para nossa discussão daqueles anos. em seguida. No extraordinário prefácio escrito para o livro de Flávio Josefo. por que não posso escrever um prefácio a um texto já escrito?”. depois de muitas gentilezas. continuo a pensar que um prefácio a uma segunda edição toma o livro sob novo aspecto. que. A questão da divisão das ciências. As noções de “por si” e de “universal”. ao contrário do que por muito tempo se disse. Obviamente isso nunca aconteceu. Pierre Vidal-Naquet mostra como esse historiador. do qual não poderia fazer melhor retrato se não me ocultasse atrás de um texto. pois de costume recusa-se a mudar uma vírgula do texto que lhe aparece acabado. De minha parte. É nesse sentido que falar numa tradição pode ter bom uso. Admiro essa capacidade de fechar. quando é o caso. Obviamente. A doutrina da metábasis e a natureza particular da física matemática. Posso resumir a discussão que tivemos outro dia”. é o mais dogmático. no que respeita ao conteúdo do texto. que nada foi mudado. fazendo-nos remontar a seus elementos e a suas condições de possibilidade. posso eu mesmo escrever-lhe um roteiro facilitando sua tarefa. Praticaria uma boa traição. Aristóteles valorizou de modo todo especial o saber matemático. Como compõem uma doutrina coerente da ciência e se concatenam entre si de modo rigoroso. Ciência e dialética em Aristóteles • Uma análise longa e exaustiva da estrutura e conteúdo dos Segundos Analíticos. entrou na brincadeira. • Ciência. A noção de princípio e a indemonstrabilidade dos princípios.

6. princípios pelos quais as ciências principiam. uma vez que os estudiosos da problemática da ciência aristotélica se tinham antes preocupado com realçar as inegáveis dificuldades do texto. tal como ela se desenvolve no livro I dos Segundos Analíticos. ao que em si mesmo é mais cognoscível. o que neles Aristóteles habitualmente nos expõe são “os meandros de sua investigação (dialética) em marcha. sem lograr refazer os passos “lógicos” de sua estruturação e sem apreender a unidade profunda dos Segundos Analíticos. A intuição deles é o “ponto de inflexão em que se consuma a inversão crucial do processo de conhecimento”. iluminado pela comparação com os Tópicos e outras passagens sobre a dialética. o lento tatear do trabalho preliminar de pesquisa”. pratica um método preliminar de argumentação contraditória e crítica. Mas. o processo de investigação dialética se faz imprescindível. então. Como a primeira se constitui como propedêutica à ciência. demonstrativa e dedutiva.19). prospectiva e heurística e pode. de natureza indutiva. Sobre o pano de fundo da teoria da ciência exposta nos Segundos Analíticos. • O cap. • A elucidação das relações entre teoria do conhecimento científico e a dialética permite que se lance uma luz diferente sobre os tratados vários que compõem o corpus aristotelicum. Estuda-se aqui a relação entre a teoria analítica da ciência e a dialética aristotélica. aporias e hesitações na doutrina aristotélica da ciência. Eles não se apresentam como cadeias silogísticas dedutivas. ter começo a etapa descendente. investigativa. do que é mais conhecido 18 para nós e está mais próximo à sensação e à observação ao que delas está mais distanciado. Mostra-se a complementaridade entre a Dialética e a Analítica. um segundo ponto original da tese. é objeto de uma nova interpretação.5 é uma análise do livro II dessa obra. se vêem 19 . ela a torna possível. as matemáticas dispensavam a argumentação dialética. Mostra-se então como um grande número de estudiosos e comentadores. tem por conteúdo a importante noção de definição e sua relação com o saber demonstrativo. na dialética. ele é chamado a desempenhar uma função tanto mais importante quanto mais complexo o objeto investigado. mais ou menos conclusivos. II. a que o filósofo consagra seus Tópicos. por certo. mas se move no terreno da opinião e laboriosamente prepara o terreno para a apreensão dos princípios das ciências.vencendo a “espontaneidade do estado de servidão do espírito humano”. e a Conclusão constituem a parte crucial da tese e contêm sua contribuição mais importante para a compreensão da filosofia aristotélica. • O esforço todo da dialética – ela cumpre também a função do que hoje chamamos de “pesquisa científica” – é precisamente o de permitir que a maior cognoscibilidade segundo a natureza e a essência se transforme numa cognoscibilidade também para nós. Trata-se. de que lançou mão para estabelecer seus princípios e premissas. quanto maior o risco de nos enredarmos nas artimanhas do lógos. Post. Contra os estudos que preferiram apontar pretensas ambigüidades. é um estudo aprofundado da temática da essência e da qüididade no quadro do conhecimento epistêmico. por vezes entre si contraditórios. que ele difícil e laboriosamente desenvolve nos seus dez primeiros capítulos. indo do particular ao universal. o seu último e tão discutido capítulo (Anal. como a teoria da definição. Aqui. os argumentos de vária natureza. que não se constrói sobre a verdade. porque não compreenderam a complementaridade entre dialética e ciência. Pela simplicidade de seus objetos. da etapa ascendente do processo de conhecimento. para que algo mais ou menos aproximado à cientificidade matemática se alcance nos outros domínios. A dialética não engendra a intuição dos princípios. • O cap. quando termina a etapa ascendente. em que a ciência exibe sua estrutura lógica que reproduz a estruturação causal pela qual o real mesmo se articula. quanto maior a distância entre nosso “conhecimento” comum das coisas e a realidade delas em si mesmas. por muito tempo a parte menos estudada do Órganon.Apresentação Ciência e Dialética em Aristóteles interna. que trata da apreensão dos princípios. Mostra-se como o livro II é complemento indispensável do primeiro.

tomei a decisão de manter quase intacta a redação primitiva. usa livremente de argumentos entre si contraditórios. permite-se toda sorte de expedientes. Felizmente para mim. Por várias razões não foi possível publicála naquela época. Entendi que tais modificações não trariam nenhum acréscimo substancial. Isso tornou finalmente possível a revisão. meu amigo e ex-aluno Ricardo Terra. nem mesmo procedi à atualização da bibliografia e à indicação de meus acordos ou desacordos com os trabalhos mais recentes. explora opiniões. ela é tudo menos uma seqüência dedutiva que pode ser “formalizada”. São Paulo. mesmo se ela também se serve aqui e ali de raciocínios dedutivos. As modificações que fiz se restringiram. publicado graças a uma boa traição. por falta de ânimo para tanto. Aqui também se torna óbvio quão impertinente e errôneo é querer traduzir em linguagem formal (moderna ou mesmo silogística) a seqüência dos argumentos aristotélicos nos diferentes tratados: a investigação dialética. Mas cabe aos eventuais leitores. o julgamento definitivo sobre a questão. Marilena Chaui propôs-me gentilmente que o livro aparecesse na excelente coleção Biblioteca de Filosofia. avança induções de variada natureza. Por isso mesmo. fui adiando a publicação. só cabe a palavra direta do próprio Porchat. então chefe do Departamento de Filosofia. a algumas pequenas passagens e a detalhes menores. que ela dirige. E. não a mim. no entanto. é demasiado complexa e rica. Porque me pareceu que não havia por que alterar os pontos fundamentais de minha análise e interpretação em face da bibliografia mais recente sobre a problemática da ciência e da dialética em Aristóteles. Posteriormente. tomou a iniciativa de fazer digitar o texto inteiro e presenteou-me com o disquete respectivo. janeiro de 2001 Prefácio José Arthur Giannotti Este livro foi minha tese de doutoramento no Departamento de Filosofia na USP em 1967. há alguns poucos anos. Depois desse roteiro.Apresentação obrigados a postular oposições desnecessárias entre a teoria da ciência e a prática da ciência em Aristóteles. por falta de tempo e de disposição para uma revisão completa do texto. quer parecer-me que se justifica a publicação do livro na sua versão original. Aceitei com pra21 20 .

Goldschmidt aceitou a sugestão. foi porque Aubreton para lá me enviou. É de toda justiça que eu o lembre aqui. Tenho. passei a admirar seu rigor e competência como historiador da filosofia moderna. por ocasião de outras viagens à França. foi uma façanha de Marisa Lopes. unicamente à filosofia. desde aquele mesmo momento. embora ele nunca me tenha perdoado por eu ter mais tarde abandonado a filosofia grega clássica. com quem estudei em Rennes e Paris durante quatro anos. razões de sobra para ser muito grato a Giannotti. cuja obra admirava e utilizava em seus cursos sobre Platão. convidou-me para ser seu assistente no Departamento de Filosofia da USP e encarregou-me dos cursos sobre o pensamento antigo. finalmente. freqüentei diariamente sua casa e pude ter acesso a fontes que não poderia consultar naquele tempo em outro lugar. incentivou-me muito ao estudo da língua e da literatura grega. Aceitou de boa vontade que eu mudasse de área e substituísse aos estudos de grego o da filosofia antiga. como já indiquei. de tomar-me sob sua orientação. E a insistência amiga para que eu o fizesse. Quero. E o mestre persuadiu-me a desistir da pós-graduação em língua e literatura grega e a dedicar-me por inteiro. lembrar a memória de meus saudosos mestres Livio Teixeira e Victor Goldschmidt. a fim de que eu pudesse estudar com Victor Goldschmidt. A Ricardo Terra. devo minha formação de historiador da filosofia. eu já tinha desistido de publicá-lo. sua influência foi decisiva para a definição de meu campo de trabalho. Tenho o privilégio de usufruir até hoje de sua amizade leal e carinhosa. Foi Livio Teixeira quem primeiro me incentivou a orientar-me para o estudo da filosofia grega. o texto ficaria inédito. Continuou sempre a encorajar-me. pois. quando eu completava meu bacharelado em Letras Clássicas. Guardo também dele uma grata recordação.Prefácio Ciência e Dialética em Aristóteles zer o seu convite e lhe sou muito agradecido. Desde essa ocasião. Quero também lembrar aqui o nome do Prof. Acompanhou sempre com interesse e carinho meus trabalhos. Mas admiráveis também eram sua honestidade intelectual e sua extraordinária modéstia. Trinta e três anos depois de ser escrita. Sem sua iniciativa e seu encorajamento. com centenas de palavras e citações em grego. Ensinou-me a laboriosa arte da historiografia. em verdade. Goldschmidt me proporcionou também o exemplo notável da dedicação de um mestre a seus estudantes. Suas pesquisas sobre o pensamento de Descartes e Espinosa se tornaram marcos importantes da bibliografia brasileira nessa área. que Giannotti na hora lhe fez. Nesse mesmo dia se decidiu meu destino intelectual. Foi ele que me levou à casa do grande historiador. Meu amigo José Arthur Giannotti desempenhou um papel muito importante em meus estudos. pois. na USP. Foi meu professor no curso de Letras Clássicas. Não sei como agradecer-lhe. Apoiou minha decisão de estudar filosofia na França e de trabalhar com Victor Goldschmidt. Ela a isso consagrou um ano inteiro. Durante quase um ano. A Victor Goldschmidt. Fui aluno de Livio Teixeira em 1956. A importância disso para minha pesquisa foi muito grande. Uma grande amizade uniu-nos até sua morte prematura. Foi ele que me convenceu a ir primeiro para Rennes e não para Paris. nesta ocasião. de quem se fizera amigo e a quem me recomendara. devo a possibilidade que tive de retomar minha tese para revisão e publicação. Embora tenha sido seu aluno somente naquele ano. por puro amor a Aristóteles. a metodologia rigorosa na leitura dos filósofos e de suas obras. dileto ex-aluno e 23 . Mais não é preciso dizer. Como também não sei como agradecer a Roberto Bolzani. Quando voltei mais tarde ao Brasil. Se pude fazer estudos 22 na França. publicada. Foi ele que me orientou explicitamente para o estudo da relação entre dialética e conhecimento em Aristóteles. tendo conseguido para mim uma bolsa do governo francês. O velho mestre Alexandre Correia deu-me livre acesso à sua excelente biblioteca de textos gregos e latinos. Tive a oportunidade de revê-lo posteriormente algumas vezes. minha tese é. A digitação do texto. George Henri Aubreton. Se eu tiver acaso conseguido algum resultado sério e mais significativo nesta minha pesquisa. na época em que eu preparava meu doutoramento. eu o devo ao método goldschmidteano.

estranhar que tenhamos a pretensão de trazer algo de novo sobre a questão e que nela insistamos tão demoradamente. que supervisionou toda a digitação das palavras gregas e se encarregou incansavelmente de adaptar à nova paginação do livro as dezenas de referências cruzadas contidas nas notas. amor e carinho eu devo tudo quanto possa ter feito de bom nestes últimos quarenta anos. revalorizando a dialética aristotélica e redescobrindo a significação 24 25 . Mostrara-nos o ilustre historiador como se fazia necessário um estudo aprofundado dos Tópicos. but not the least. compreender-se-á que julguemos justificada uma sucinta explanação sobre o empreendimento a que nos lançamos. levado a cabo com grande propriedade. Porque se poderia.Prefácio bom amigo. minha mulher. em todo o mundo. em Rennes. Nosso intuito inicial era o de redigir uma pesquisa sobre a dialética de Aristóteles. por isso mesmo. Porque revi todas essas referências uma a uma. conforme nos sugerira V. com profundidade. São Paulo. tem-nos brindado com obras de inegável valor. Goldschmidt. 8 de setembro de 2000 Introdução Oswaldo Porchat Pereira Tanto já se disse e escreveu sobre a ciência em Aristóteles que poderíamos recear ser acusados de temeridade por termos consagrado todo um longo trabalho a uma temática sobre a qual amplamente dissertam quantas obras se dedicam a uma exposição geral do pensamento aristotélico. dedicação. problemas direta ou indiretamente relacionados com a doutrina aristotélica da ciência. E ninguém desconhece que a intensa renovação dos estudos aristotélicos nas últimas décadas. nossa licença de filosofia. nas quais se abordam. quando terminamos. pude dar-me conta de quão extraordinário foi o seu trabalho. The last. A seu continuado apoio. quero agradecer a Ieda. que remetem a passagens anteriores do próprio texto.

mesmo. no cap. E. atenta e rigorosa. Tudo já indicava. 1962. que nos ocupamos. dedicado. nele procuramos examinar a concepção aristotélica da ciência. ao estudo dos Tópicos. Ao contrário de A. anos mais tarde. Planejáramos escrever um livro sobre a dialética de Aristóteles. tão mal compreendido. escrevendo um livro sobre a ciência. por sermos o primeiro a reconhecer nossas falhas e lacunas. 1951. adiante. mediante uma leitura repetida. por certo.IV. porque se nos afigurava útil e. um conceito ao qual. descobre-se.Seja-nos lícito dizer que a aceitaremos com humildade. do terceiro Symposium Aristotelicum. da intenção original. ocupar-se-ia longamente em comparar a dialética e a ontologia. estudando o problema aristotélico do ser. Les Topiques d’Aristote et la dialectique platonicienne. levaramnos. em verdade. neste trabalho. de resolver questões que se nos afiguraram obscuras. Não se creia. mais particularmente.V. E. se haviam formulado e que nos pareceram insatisfatórias ou francamente inaceitáveis. para elas. finalmente. adiante. Ao contrário. em expondo a doutrina do filósofo. como cremos tê-lo mostrado. até hoje. em que nos vimos. os resultados a que julgamos ter chegado. 26 27 . A. De Pater. muitas são as questões que deixamos propositalmente de lado ou que rapidamente tratamos. E. a noção de dialética. a querer consubstanciar. 7 Conforme. que tenha sido. Le problème de l’être chez Aristote. talvez. que não vem macular nenhuma contradição interna. com exatidão. Introduction à la physique aristotélicienne. Trata-se de um texto. com rara exceção. se se lhe busca desvendar a ordem interna que o estrutura. a atenção dos especialistas. § 5: “A divisão das ciências”. 6 Cf. um texto ordenado e coerente. o importante problema do sistema aristotélico das ciências.3 na qual. Logique et méthode chez Aristote. oferecendo-os agora à crítica construtiva dos especialistas. porém.12-3. 1946. conforme se evidenciaria com a realização. imprescindível determinar. o que explicará. precisamente. concentramos particularmente nossa atenção sobre os Segundos Analíticos. que não abordamos senão na exata medida em que isso pode contribuir para melhor esclarecer a noção de ciência. cujo último capítulo trata. assim como a de recusar soluções que. detalhadamente veremos. entretanto. por exemplo.6 por outro lado. que precipuamente nos importava. Aconteceu. de toda a doutrina aristotélica da ciência. tica. em 1963. que a dialética aristotélica viria a atrair. Aubenque. sem que pudéssemos descobrir. no que respeita a uma tal problemá1 2 3 4 Le Blond. cap. na doutrina da definição exposta no livro II.Introdução Ciência e Dialética em Aristóteles que o filósofo lhe conferira e que a tradição historiográfica. os dois livros que compõem o tratado pareceram-nos harmonizar-se plenamente. coubera a Le Blond. teríamos sempre de contrapor. da dialética. entretanto. empreendendo a redação de um primeiro capítulo para a obra que nos propuséramos escrever. como se tem pretendido. Mansion. 1965. aqui. mais do que um complemento do estudo da demonstração que o livro I desenvolve.7 No 5 Cf. cujo objeto se sabe ser a definição e a análise do conhecimento científico. cujo primeiro capítulo versaria sobre a ciência. de fato. a necessidade. cumprindo adequadamente o objetivo que o filósofo lhe traçou e oferecendo-nos uma doutrina unitária do saber científico. Com efeito. que a este não se contrapõe nem o corrige. sistematicamente desprezara. nele não encontramos os sinais de uma composição atormentada nem a manifestação de hesitações de doutrina. Weil insistira2 na urgência com que se impunha a revisão de uma concepção tradicionalmente errônea das relações entre a tópica e a analítica. porém.5 Por isso mesmo. Mansion. proximamente. 1939. que não entrega seus segredos a uma primeira leitura. p. como. no entanto. e com a recente publicação da obra de De Pater.. porém. E o surgimento de dificuldades de interpretação concernentes à própria noção de ciência que não tínhamos previsto. difícil. “La place de la logique dans la pensée aristotélicienne”. com sua bela obra sobre a lógica e o método científico de Aristóteles.4 O curso de nossas pesquisas desviou-nos. precipuamente. Weil. Aubenque não publicara ainda a sua obra. Acabamos. em 1939. que esse estudo preliminar adquiriu dimensões bem maiores que as que lhe tínhamos a priori fixado.1 despertar a atenção para a importância da dialética dentro da metodologia aristotélica.

13 12 Cf. Aubenque: “na ausência de critérios externos. Aubenque. “na falta da unidade lógica.Introdução Ciência e Dialética em Aristóteles artigo já referido. seguindo o exemplo de V. os elementos que pudessem vir a confirmar ou a contradizer a doutrina que. renunciamos. 1962. p.12 Tampouco julgamos válido abandonar o plano de análise “lógica” do sistema filosófico. representado o pensamento do autor em fases de elaboração também diversas.8 Weil julgava desejável. 34. a justo título.X. 19632. ver-se-á que. encontramos explicitada. num plano psicológico. o risco de preferir às razões de compreender os pretextos de não compreender”.. Mansion descobria. um tal voto. 183b16 seg. uma evolução qualquer da doutrina aristotélica. que nenhuma meditação filosófica poderia mais vivificar. sobre os insucessos da compreensão. corre. naquele tratado. quisemos esforçar-nos por reconstituir a ordem das razões e os mecanismos lógicos próprios à obra. a unidade viva desse sistema”. 184b1-3.XX.. part. p. com razão. e adaptados de maneira por vezes bastante insuficiente ao plano de conjunto no qual ele os fez entrar”. O que significa deixar manifesto que. Não quisemos acoimar.11 Mas não privilegiamos. A. quanto aos critérios de datação das obras do filósofo e de suas partes. não mais se conseguiu do que converter toda a obra num imenso mosaico de textos justapostos.12.. uma reinterpretação dos Analíticos: ficaremos satisfeitos se tivermos podido contribuir para que se cumpra. não tendo contribuído pouco para seu insucesso o desacordo generalizado. Introduction à la physique aristotélicienne. Não que buscássemos a coerência a qualquer preço ou que nos tenhamos aventurado.2. Le Blond. um método cronológico fundado sobre a incompatibilidade dos textos e cuja fecundidade se apóia. um expediente de simplificação e de facilidade. muito ao invés de a eles nos restringirmos. Como afirmou. de inconseqüente. no tempo da gênese. diante de contradições aparentes que não buscamos dissimular e de dificuldades de interpretação que não minimizamos. e da concepção aristotélica da ciência. 10 Cf. em particular. atribuindo-lhe momentos diferentes aos quais faríamos corresponder 8 Cf. com açodamento. com efeito. 28 29 . para uma compreensão correta das relações entre a dialética e a analítica. como propõe Le Blond. recusando-nos a dissolver.13 Antes de apontar as “incongruências” do aristotelismo. Le problème de l’être.. ao sabor dos caprichos da imaginação dos intérpretes. Les dialogues de Platon. assim como no que concerne aos pretensos resultados que o método genético deveria ter propiciado para a compreensão do pensamento de Aristóteles. Logique et méthode. como meio eficaz para saná-las.10 Não nos pareceu correto. a cada instante. em sua obra consagrada ao estudo da estrutura e método dialético nos diálogos de Platão. assim. a moda “jaegeriana” de interpretação vem sendo poucoa pouco abandonada. tãosomente. reco11 Cf. também.9 nós as ignoramos resolutamente. p. os textos que pareciam contradizer-se. ao que se nos afigurava. em geral.. 13 Cf. postular. se os Segundos Analíticos foram o objeto primeiro de nosso esforço de interpretação. “restos de redações de datas diversas. Assim. buscando reapreender seu movimento próprio e refazer os caminhos do pensamento que neles se exprimira. as dificuldades da doutrina. 1946. o pensador que. se orgulhava de ter sido o primeiro a estudar técnica e metodicamente a arte de raciocinar.. aquelas “contradições” nem nos apressamos a denunciar incoerências. nos Segundos Analíticos. p. Goldschmidt.. a intenção de deixar-nos guiar pelos próprios textos do filósofo. antes de falar em contradição e em ambigüidades e de para elas forjar explicações imaginosas. para ir buscar. no que respeita à questão controversa da unidade e coerência ou incoerência e contradição da doutrina aristotélica da ciência. A. antes. Ref. ao menos em parte. fomos buscar. não partimos de nenhum pressuposto nem formulamos hipóteses iniciais que devesse verificar nossa pesquisa. Recortados os textos de diferentes maneiras. 9 Goldschmidt.. n. 1939. entre seus seguidores. aliás. acima. Mas. No que se refere às questões de cronologia e datação das obras de Aristóteles. Felizmente. moveu-nos. na obra inteira do filósofo. sem mais. Sof. Mansion. desse modo.

na sua “ingenuidade”. induzir em erro quanto à concepção aristotélica da cientificidade. precisamente. no estudo dos tratados científicos. 1953. Mansion. Mas procuramos situar-nos. preconceitos. não nos apressamos a conciliar os textos e somente após insistir em percorrer as aporias é que empreendemos trabalhar de resolvê-las. porque o próprio filósofo consagrou todo um tratado. por certo. p. Mas julgamos justificada a nossa empresa por uma tripla razão: primeiramente. The Doctrine of Being in the Aristotelian “Metaphysics”. Owens. Cf. nossa convicção a de que tal estudo se impõe como condição absolutamente imprescindível para que se atinjauma compreensão plena e fecunda dos próprios textos doutrinários. porque não nos parece possível proceder a um estudo sobre a prática científica.16 tudo fizemos para não separar as teses propostas pelo filósofo do movimento de pensamento que a elas conduziu e do método que presidiu a esse movimento. 1946. perfeitamente coerente e provida de inegável unidade. tentando “uma conciliação do inconciliável”. desses dados. Introduction à la physique aristotélicienne. a doutrina aristotélica da ciência apareceunos. razoavelmente ordenado e acabado. v. nos seus tratados científicos. encontrando em sua mesma obra os elementos que nos permitissem lê-la com a sua leitura. tendo a humildade necessária para levar a sério o que ele levou a sério. a propósito do método apropriado para interpretar Aristóteles: “It requires taking seriously what Aristotle himself took seriously”. 16 Goldschmidt. Fiéis ao método que o filósofo preconiza. julgá-la a partir de seu mesmo ponto de vista crítico sobre ela.. A. e razões conhecidas do filósofo e alegadas por ele”. é. mas artificial. dizer o contrário do que se tem dito e aceito. Em segundo lugar. a uma síntese coerente. Uma objeção mais séria poderia ser-nos feita: a de termos limitado o nosso estudo aos textos aristotélicos sobre a doutrina da ciência. “Temps historique et temps logique dans l’interprétation des systèmes philosophiques”. sempre que nos pareceu a isso ser convidados pelos mesmos textos que líamos. assim fazendo. como a oposição que o filósofo decididamente estabelece entre a ciência e a investigação e pesquisa deverá obrigar-nos a um mínimo de cuidadosas precauções. 1951. num primeiro momento. dissipando-a. dessa “modernidade” que freqüentes vezes atribuem aos tempos de hoje os que ignoram a história dos tempos passados. cuja significação profunda. se o mesmo sentido mais imediato destes se nos oculta. senão razões. se busca reviver no emaranhado das controvérsias da interpretação historiográfica. por isso mesmo. aconteceu-nos ver as aporias pouco a pouco resolver-se e as aparências de contradição explicar-se. autorizando-nos ipso facto a considerá-la. porém. ao mesmo tempo próximas e adequadas. à definição e explicitação de sua concepção da ciência. Entendendo que “as asserções de um sistema não podem ter como causas. também. contra a opinião da imensa maioria dos autores acreditados.14 Um método que se pretenda rigoroso não se alimenta de preconceitos nem sabe o que vai encontrar: descobre. rica na sua complexidade e “moderna” na sua problemática e em muitas de suas soluções. teremos a oportunidade de mostrar. como objeto privilegiado de uma parte de sua obra.XII. em si mesma. sob a facilidade aparente das fórmulas dogmáticas banalizadas pela sua repetição. em relação ao texto. sem que tenhamos tentado estudar como o filósofo põe em prática essa doutrina. in Actes du XIème Congrès International de Philosophie. relacionando-a com os textos da teoria.11. p. p.15 sabedores de que se não mede a coerência de um sistema por uma teoria da contradição que se lhe imponha do exterior. para que uma interpretação incorreta do método de exposição não nos venha. descobrir que muitas dificuldades provinham mais da leitura e interpretação com que a tradição e os autores gravaram os textos que da própria natureza destes. como exigência de sua inteligibilidade. Ora. E não tememos. neste trabalho. Tendo preferido a atitude mais humilde do discípulo que se dispõe pacientemente a compreender antes de formular qualquer juízo crítico. De qualquer modo. 15 Como disse Owens. temos a pretensão de ter sido premiados por nossa obstinação em apegar-nos a um método sem 14 Como teme Mansion que aconteça com os que não colocam o problema da cronologia das obras de Aristóteles. finalmente.4-5. Cf. com efeito. do ponto de vista do seu próprio autor. Mas. Finalmente. V. Aconteceu-nos.8.Introdução Ciência e Dialética em Aristóteles lhendo elementos tirados de todos os tratados do filósofo. é evidente que nosso estudo não 31 30 .

No que respeita ao plano de nossa exposição.19 17 Aristotelis Opera ex recensione Immanuelis Bekkeri edidit Academia Regia Borussica. Da Alma. E não precisaríamos dizer quanto nos foi útil o excelente Index Aristotelicus. De qualquer modo. Procuramos dar às nossas traduções o máximo possível de literalidade. ao estudo e análise dos próprios textos do filósofo. sempre que os citávamos no corpo de nosso texto. MCMLX. ver-se-á que. isto é. adotamos a norma de traduzi-los. Index Aristotelicus. na medida em que se permitem a introdução de noções e significações totalmente estranhas ao universo espiritual da Grécia antiga e do aristotelismo. preferimos. sempre que nos foi preciso citar os textos. não nos inibiu o temor de inovar e decididamente inovamos. 18 Seja na coleção da Scriptorum Classicorum Bibliotheca Oxoniensis (Tópicos. que nem sempre teremos conseguido evitar. servimonos da recente reedição do Corpus empreendida por Gigon17 e. na medida em que pudemos informar-nos sobre o seu conteúdo. E somente nestas. Resta-nos ainda fazer algumas observações de caráter geral. aliás. seja nas excelentes edições acompanhadas de textos e comentários. 19552. 32 33 . assim. contendo desde as inevitáveis citações e referências. um papel fundamental na economia interna do sistema. no que concerne à bibliografia utilizada. pelo nosso esforço de explicitação da mesma doutrina do filósofo. se são numerosas as citações e referências aos autores e às obras mais importantes da historiografia aristotélica contemporânea. Por outro lado. salvaguardar melhor o sentido originário do texto grego. quando nos pareceu poder. dentre as mais reputadas. Para todas essas obras. Mas não cremos pudéssemos proceder de outra maneira e confessamos ter dado às nossas notas importância não menor que ao próprio texto. São elas de vária natureza. por conseguinte. Receamos que se nos censure o elevado número de notas. também.Introdução Ciência e Dialética em Aristóteles tem maior pretensão que a de contribuir para esclarecer um aspecto determinado do pensamento aristotélico. sobretudo de artigos publicados em revistas especializadas. das edições críticas de Ross18 e das que se fizeram na Collection des Universités de France. seus nomes compareceram. dada a inexistência de uma linguagem filosófica técnica em nossa língua. A simples leitura deixará manifesto como as questões se vão engendrando espontaneamente. ainda que não se lhe possa negar. poderia tornar enfadonha e pesada a sua leitura. Mas ativemo-nos sempre e preferencialmente. na ausência de boas traduções em português para a grande maioria das obras de Aristóteles. vício de que não nos parecem livrar – se muitas das traduções estrangeiras. O que exigiu de nós um não pequeno esforço. sobretudo. de Bonitz. Defeitos. Política e Retórica). e de manter a língua original. propor a nossa própria tradução. ao citá-los nas notas. foi-nos ele imposto pelo próprio desenvolvimento da pesquisa. a partir dos textos estudados. como se impunha. no corpo do texto. nossas referências remetem a essas edições. é nossa crença a de que sua leitura não viria afetar os resultados a que chegamos. de Gruyter et Socios. 19 Bonitz. por ter-nos sido impossível o acesso a tais escritos. Se consultamos as melhores traduções estrangeiras que estavam a nosso dispor – e com as quais nem sempre concordamos. Berolini apud W. temendo a infidelidade ao pensamento do filósofo. como se verá nas inúmeras notas em que as discutimos –. de maneira a progressivamente desenhar o esquema em que vêm inserir-se as respostas que exigem e mediante o qual se há de articular. muitos títulos deixaram de ser mencionados. questões filológicas e pequenas explicações complementares. freqüentes e extensas. também o mesmo discurso que as estuda. Para tanto. em que se expõe o detalhe das argumentações que justificam certas posições que assumimos e cuja presença. Nesse sentido. à noção de ciência. salvo indicações em contrário. no entanto. em particular. No que se refere às citações de autores estrangeiros. Física. editio altera quam curavit Olof Gigon. até longas explanações e discussões polêmicas. Parva Naturalia e Metafísica). igualmente da Clarendon Press de Oxford (Analíticos. sem que tenhamos recorrido a uma idéia preliminar.

57). acidental à maneira sofística.4 será apenas acidental. com maior ou menor sucesso. tão-somente.. quando julgamos conhecer a causa pela qual a coisa é. �� 36 . 1 do livro I do tratado Das partes dos animais.. por parte de conhecimento que não possua aquelas qualidades que a definem. em Aristóteles (cf. aliás. Met. I.). Porque. E. ao fazer da verdade a característica primeira e mais geral do saber científico. dizer-se que a totalidade do tratado se consagra. tentando. como veremos. e o necessário não pode ser de outra maneira”. 2. tal como os Segundos Analíticos a concebem. os dois traços fundamentais que caracterizam a ciência.2 e a cuja elucidação e explicitação pode. Noção que comentadores e autores incansavelmente citaram. se não se dá a presença conjunta de ambos. sobretudo. apenas um capítulo introdutório. sua necessidade. 1939. que é o que permite qualificar um conhecimento como científico.). 71b9-12. que. pela intenção (����������). Le Blond. isto é. repetiram e discutiram através dos séculos. por conseguinte. não que a ausência do conhecimento da causa ou o caráter não-necessário do objeto tornem sofístico o conhecimento que dele se proponha: o procedimento que se denuncia como sofístico seria. será necessário o que é conhecido segundo a ciência demonstrativa”.3 Causalidade e necessidade. diz-nos o nosso texto.. ocorre. Com efeito. que difere o sofista do filósofo (cf. então. Anal. trata da existência de conhecimentos prévios a todo e qualquer aprendizado ou ensinamento dianoético. não é senão um saber aparente (cf. do não-necessário nem freqüente (cf. 2. nos pró3 Seg. acrescentar que não se estudam nos Segundos Analíticos as noções de causa ou de necessidade. Met. 1004b22 seg. 27-33). 1. também. isto é. portanto.1 Tal é a noção famosa de conhecimento científico que os Segundos Analíticos formulam. cujos argumentos se constroem. ao mesmo tempo que apreendemos sua impossibilidade de ser de outra maneira. Le Blond. de modo absoluto e não.. 88b31-2: “. 1026b15 seg. pelo mesmo fato de partilhar da verdade com outras disposições cognitivas da alma humana. compreendê-la e explicá-la em todo seu al1 Seg. Ref. que. 2 Precede-a. 165a21). à maneira sofística.. entretanto. “uma vez que é impossível ser de outra maneira aquilo de que há ciência. mas apenas a aparência de conhecer. de certo modo. 6 Os dois textos fundamentais de Aristóteles sobre a causalidade são o livro II da Física e o livro A da Metafísica. que ela é a sua causa e que não pode essa coisa ser de outra maneira (��������������������������”. entretanto. em sentido absoluto. ibidem. como logo veremos. a pretensa ciência que se tiver proposto. p. �. 4. somente a Física e a Metafísica nos oferecerão uma doutrina da causalidade.6 vários textos. é preciso. I. Por ela entendemos. a causa e o necessário “Julgamos conhecer cientificamente (������������cada coisa.Oswaldo Porchat Pereira I O saber científico 1 A noção de ciência 1. Se a ciência aristotélica é. 33. com efeito. em torno do acidente (cf. sempre verdadeira. pelo não buscar o saber real. cance e significado. Cf. antes de tudo. eis aí. 4 Não tendo razão. 2. Logique et méthode. por acidente. a pretensão de ser ou de fazer-se passar por ciência. a que se acrescentarão as importantes indicações do cap. que.1 A ciência. quase em seu mesmo início. Sof. Anal. 5 A sofística.. desde já. a ciência é universal e procede por conexões necessárias.5 Entretanto. de fato. não pode definir-se nem caracterizar-se primordialmente por ela. No que concerne à primeira delas. É. 73a21-23. em sentido absoluto. só há conhecimento científico de uma coisa quando a conhecemos através do nexo que a une a sua causa.

O cientificamente conhecível. A Física repete explicitamente tal doutrina (cf. 94a24-5 e todo o capítulo. que há sempre uma causa. Fís. mas tão-somente da causalidade.13 Mas é certo que não abordam o fundo do problema e tal omissão se justifica. 11. 90a6-7. preferimos traduzir �������� por não-gerado.14 Donde a característica de eternidade. Porque a necessidade do objeto científico.7 A ausência de uma fundamentação física ou metafísica da noção de causa utilizada pelos Segundos Analíticos não nos estorvará. 89b23 seg. com. 93a4-6. Lembrar-se-nos-á. em todas as pesquisas ou indagações que fazemos. II. negativamente determinada como um ��������������������������é. Anal. 7. embora. entretanto. 4-6). um determinismo absoluto. 9 Cf.. l. em sentido absoluto. cap. II. todas.. então. como matéria. ora. como princípio do movimento e como fim. de modo suficientemente aprofundado e adequado ao reconhecimento de sua presença e função na constituição de um conhecimento que mereça o nome de científico.12 que “as causas se dizem em quatro sentidos”. que esta passagem põe em relevo. Os Segundos Analíticos ignorarão a pergunta até um de seus últimos (e mais difíceis) capítulos. muito se explicita. Met. 1. Fís. 1063b36-7. que nos ocorra perguntar a qual ou quais desses sentidos respeita a causalidade científica. A. 1. 7. II. entretanto. todos entendemos que o que conhecemos cientificamente não pode ser de outra maneira . sobre se a coisa é.9 a verdade é que. por outro lado. por exemplo. 94a20. 14 Ét. 11. de fato. as coisas eternas são não-geradas e imperecíveis”. com. Se não fazem esses textos menção expressa da necessidade. sem que. então. 11 Cf. Met. sobre o porquê. em Fís. E. 1025b6-7. em todas as pesquisas. nos Analíticos. Seg. porém. no aristotelismo. sobre aquela noção. sobre o que é ela). necessariamente é”. 11.. 9. a propósito do conhecimento físico. se há várias maneiras de nos interrogarmos sobre as coisas (sobre o fato de que é. 2-3. esclarece-se o problema da necessidade nos objetos físicos. qual é ele: “pois a causa é o termo médio e. Seg. e Fís. pela doutrina do livro II da Física. Assim. 1. 1. como veremos. independentemente da significação última que o filósofo lhe atribua. 194b23 seg. E. em que a universalidade da determinação causal. cap. na caracterização do conhecimento científico. Atente-se. VI. para finalmente responderem que é por todas aquelas espécies de causas que provamos nossas conclusões. K. 15 Ibidem. o que sempre buscamos é se há um termo médio (�����) ou causa. uma necessidade de ordem ontológica: nenhuma dúvida pode subsistir a esse respeito. Reconhecendo.. portanto. 2. Met.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira prios Analíticos ou em outras obras do filósofo.11 que a Metafísica relembra e retoma. de muito. que se não dissocia da necessidade ontológica: “É eterno. II. se reveste. em relação com os problemas próprios à causalidade física. 184a10 seg. 10 Seg. nem confere inteligibilidade plena a todo ser. II. o necessário. em face do importante texto epistemológico em que a Ética Nicomaquéia explicitamente retoma a noção que os Segundos Analíticos propõem de ciência e melhor a esclarece: “Com efeito. cf. como poderemos observar em acompanhando a marcha do tratado.). apenas será elucidada. 3. na mesma medida em que a complexa questão das significações múltiplas da causa ultrapassa. Anal. o aspecto insólito da expressão. à medida que o tratado progride e que a definição de ciência se aprofunda. não implica. em Aristóteles. Anal. E. o domínio da teoria estrita da ciência. A. Seg. Nic. I. se perscrutem todas as suas implicações e sem que se abordem sua significação última e sua problemática física e metafísica. é o que se investiga”. como qüididade. então. 8 Cf. aqui e ali. II. vêm sempre confirmarnos aquela identificação do verdadeiro conhecimento científico com a apreensão da determinação causal. II. portanto. Anal. conforme o impõem as circunstâncias e as necessidades do momento. por certo. 37 38 . I. também. a compreensão formal de como a ciência aristotélica se constitui em conhecimento da causalidade. que é idêntica à própria coisa que se investiga ou é distinta dela. e que é o mesmo conhecer o que é uma coisa e conhecer a causa de ela ser. 1139b19-23. Anal. 3.. 78a25-6. 198a22 seg. ao invés de servir-nos de uma perífrase. Também a necessidade de que o objeto científico. porque 13 Cf. como poderia parecer. 983a26 seg. inseparáveis. Nunca é demais salientar a extraordinária importância do livro VI da Ética para o conhecimento da epistemologia aristotélica.10 Sabemos. Seg. 13. 12 Cf. 3. 8. 23-4. II.15 Porque não pode ser de outra maneira.8 esclarecer-se-nos-á que. é natural. 94a21-3. Anal. Seg. isso graças à concepção aristotélica de acidente e do acaso (cf. 981a24 seg. a que se atém o tratado. eternas.. pois as coisas que são necessariamente. é sempre e. são. é que as duas problemáticas são. 7 Cf. II. ou.. II.

nem vem a ser nem parece. p. celui où ce mot désigne. o que sempre é. 1039b29-31. 1962. cf.. 337b35-338b2. 239a30 seg. 335a32-b5. I. 1. ser 16 Ger e Per. como uma necessidade ontológica. 18 Céu. mostrando o caráter eterno das conclusões que a ciência estabelece. le substrat du changement. como alguns dele dizem.Mas algumas são capazes de ser e de não ser. no capítulo seguinte. mas é um e eterno. mas a partir de sua universalidade. não para a geração e o perecimento. a eternidade do objeto científico. necessariamente são. sur le plan physique. le sujet de l’attribution et. 13 e consultem-se as preciosas referências de Bonitz (Index.. verdadeiras embora e reais (����). 1. 1017b23)” (Aubenque. II. 11.136. Donde. são contingentes.23 “porque têm matéria. “perecível” e “não-perecível”. p. Seg. são divinos e eternos. Seg. 283b26-9. ������������������������� E é evidente que não pode haver ciência a respeito dessas coisas. àquelas coisas todas que. cf. 25 Ger. sur le plan ‘linguistique’. é eterno e.2). isto é. mas contendo e compreendendo em si o tempo infinito”.24 Parece.17 para mostrar que “nem se gerou o Céu inteiro nem lhe é possível perecer. com efeito. ao mesmo tempo.. cuja natureza é tal que ela pode tanto ser como não ser. . consumar-se a ruptura entre duas diferentes esferas do real. igualmente. ora não é. 12. I. então.25 e. Sobre as várias acepções de ����������� em Aristóteles. 11. n. mas tão-somente para a translação de um lugar a outro.. ciência) das essências ou substâncias (������) sensíveis individuais. 731b24-5. que se exclui ipso facto da ciência. 9. Le problème de l’être. 281b 25-6.18 Não era preciso. é não-gerado”. 17 Céu. Anim. aquela necessidade própria ao objeto da ciência por que esta. o que não pode ser de outra maneira. todo o capítulo. pois não é possível que não seja o que tem necessariamente de ser.22 Torna-se-nos. v. 1044b7-8. Prim. em inalterável identidade consigo mesmo. como vimos. das coisas perecíveis. também não há definição.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira sempre é. Pois. Z.. explicitando a relação entre a matéria e a contingência: “Como matéria. a da contingência e a da eternidade necessária. assim determinando-o negativamente. o tratado do Céu empenha-se longamente em provar que “tudo que sempre é é absolutamente imperecível. sempre é. 88b33-5. Não é. . com. com efeito. podem. o tratado da Geração e do Perecimento que “o que necessariamente é. 19 Seg. em sentido absoluto. em vez de dizer simplesmente que é o eterno. de modo que. demonstração nem ciência. portanto. II. II. das coisas perecíveis”. 39 40 . os termos “gerado” e “não-gerado”. ou seja. é necessariamente”?16 Do mesmo modo. Após ter definido. 1. 24 Met. recorrer aos outros escritos de Aristóteles: são os mesmos Segundos Analíticos que assim interpretam. Anal. le latin substantia est la transcription du grec ��������� et n’a été utilisé que tardivement et incorrectement pour traduire ����� (Cicéron emploie encore en ce sens essentia). 20 Cf. l’idée que suggère l’étymologie de substance convient seulement à ce qu’Aristote déclare n’être qu’un des sens du mot �����. 4. 1042b5-6. 2) Philosophiquement. isto é. outras necessariamente não são. é causa para os seres que se geram o que é capaz de ser e de não ser. 26 Ger e Per.��. de outra maneira. portanto. Não nos diz. que adiante estudaremos. ibidem. 2. necessariamente. cuja oposição o filósofo freqüentemente nos relembra: “uns dentre os seres. também. Anal. haver gera26 ção e perecimento para o que pode ser e não ser”.19 E mostram. então. se movem. H. 23 Aceitamos integralmente as razões de Aubenque para preferir o termo essência a substância. utilizando aquelas definições. se é eterno.: substance] pour deux raisons: 1) Historiquement.. pois isso ora é. II. com efeito. umas coisas. como as eternas. E não é outra a constante doutrina das obras que o filósofo consagrou à ciência das coisas físicas. Met. outros podem tanto ser como não ser (���������� �����������������������”. em I. 8. 8. na tradução de ������: “Nous éviterons ce dernier vocable [subent. insistem os Analíticos: pois seria fazê-las incapazes de ser de outra maneira. dizer que o objeto da ciência é o ��������������.20 Aliás. quando elas podem ser de outra maneira. entretanto. 75b24-25. Mas recorde-se que Aristóteles concebe. precisamente. o que. pois. 30 seg.). mais non à celui où ����� désigne ‘la forme et la configuration de chaque être’ (�. é opô-lo a uma outra esfera do real. 1069b24-6. I. I. que. é o que se pode gerar e perecer. diretamente a partir da noção de necessidade que Aristóteles demonstra. ainda acrescentam: “Não há. 33. fácil compreender como pode a Metafísica declarar que não pode haver definição nem demonstração (não pode haver. 22 Cf. Anal. a eternidade do Céu. entretanto. o tratado do Céu demonstra. De modo semelhante. matéria. precisamente. para os seres eternos que . eis por que são perecíveis suas determinações individuais”. 21 Cf. 15. uma matéria tópica (������). se é necessariamente. 88b32-3. não tendo princípio e fim de sua duração toda.. l. neles se define. Anal. 33. I. aqui.

nesse capítulo. É a necessidade que a Física chama de hipotética (������������).40 mostra-nos que a necessidade ora diz respeito às condições sem as quais um bem não se realiza (necessidade. se também os Segundos Analíticos opõem à ciência a opinião. 1939. mas ter ciência. que se divide segundo o falso e o verdadeiro “parece dizer respeito a todas as coisas e não menos às eternas e às impossíveis que às que de nós dependem”. 33. a mesma coisa. l. também.28 Ora. Seg. julga então opinar. 23 seg. Le Blond. V. pode. ibidem. são necessários e se podem conhecer eles como verdadeiros. em si mesmos. estimando que a um objeto tal respeita a opinião. oculta-se-nos. mas. Cf. opinião. 89a5-6. em salientando o seu caráter infirme (��������). De fato. para os que dela teriam ciência. sem que como necessários se apreendam – e haverá deles. mas é absolutamente impossível que se dêem ambas simultaneamente num mesmo homem. já que este teria de apreender. 9 (todo o capítulo). sem a qual não se dá a forma. II. também. 1139b21-2. como incapaz e como capaz de ser de outra maneira. 1039b33-1040a1. quando. Met. precariedade esta que. o caráter da opinião (����). Cf. 642a1 seg. �. precisamente. Ibidem. então. Aceitamos totalmente a interpretação proposta por Ross. contradizer uma tal doutrina. à primeira vista.. a ciência”. 1072b11-3.. 1140b27 etc. VI. entretanto. cf. 4. ainda que possam dizer-se os mesmos num sentido semelhante ao em que assim se dizem os objetos da opinião falsa e da opinião verdadeira. Nic. a ciência ora ser ciência. opinião noutro. Z. impeça que. Met. ibidem. pelo contrário. ao distinguir.84 e n.. 3. as que podem ser de outra maneira. pois “ninguém julga opinar (��������). entretanto. em pôr-se que é possível opinar sobre tudo que se sabe. Logique et méthode. I. são retomados em �. Anim. Ét. de outro modo seja. não acompanha quantos juízos. aí indicados. Cf. não tendo razão Le Blond. pois. por certo. ciência num. ibidem. 89a6-10. quanto à sua qüididade.39 Não se esquecerá de que o não-contingente não é a única significação do necessário no vocabulário filosófico de Aristóteles. por exemplo. 15.34 É certo que a Ética Nicomaquéia pareceria. 1111b31-3. embora verdadeiro e real. sem que nada. Nic. III. Anal. haverá ciência – seja. não se confundem eles. por isso mesmo são eternamente verdadeiros ou falsos. quando julga impossível ser de outra maneira. o livro � da Metafísica. quando julga que a coisa é assim. Met. 1. 88b32 seg. Cf. 5.. seja apreendendo-os em sua mesma necessidade – deles. ora ignorância”. Nic. em seu comentário a �. 1040a2-4. 1015a20-6. “não pode . Cf. ao estudar o verbete “necessário”. tal é. cinco diferentes sentidos de “necessário” (cf. Fís. Seg.38 Poderá haver.29 Mas. entretanto. Cf. Part. Cf.31 E. ao dizer-nos que a opi27 28 29 30 31 32 33 34 Cf. então. 89a16 seg. 41 Cf. a mesma opinião e o mesmo raciocínio que lhe concernem.33 Distinção que o próprio sentir comum sem dificuldade confirma. tão-somente. porque concernem ao que não pode ser de outra maneira.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira Mas que razões impedem o não-necessário de ser cientificamente conhecido? É que as coisas contingentes. uma vez fora de nosso campo de percepção. nião. Ét.30 cuja mutabilidade acarreta que venham a ser ora verdadeiros. ao necessário. p. ibidem. 1051b13-7. em homens diferentes. à qual cabe conhecer o contingente. da respiração para a vida). necessidade representada pela causa material dos seres naturais.. l. l. 5.. responde-nos Aristóteles. Cf. 33. I. com. 38 seg.35 Mas os Segundos Analíticos esclarecem plenamente a aparente dificuldade: é que se podem apreender objetos que.. ser de outra maneira. �.36 Não há problema. 1039b32-3. Ibidem. Met.. 639b24-5. ao mesmo tempo. Cf.41 Ét. de uma mesma coisa.4). quando se subtraem à nossa percepção atual.37 se se tem bem presente ao pensamento que não podem ser totalmente idênticos os objetos da opinião e da ciência. 5. ora falsos. porque não mais se sabe se algo de real ainda corresponde aos discursos que na alma se preservam. também. Os três sentidos básicos do termo. I. ibidem. se ainda são ou não. dizendo respeito ambas a uma mesma coisa. Anal.27 Pois a permanente possibilidade de perecimento das coisas perecíveis faz que.. 12-3. se convertam. cf. Cf. �� 10. em objetos despidos de qualquer evidência. 35 36 37 38 39 40 41 42 . 7. 5. que o discurso exprime.32 também eles a fazem tal em conseqüência da natureza do objeto que.

enquanto outras há que.52 que “a ciência diz-se aquilo mesmo. o absolutamente necessário. 1015a35-b6. distinguem-se.. �. com efeito. e quando vida ou bem. 142a28-31. isto é.42 ora ao ��������������������������. derivam as duas primeiras:44 uma coisa faz ou sofre o necessário. 6b28 seg. ao cientificamente conhecível: nem foi outra coisa o que. Tóp. 11b28-9.53 E que o ser da ciência implica. Cf. precisamente.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira ora ao que é compulsório e à compulsão (por exemplo. em relação a outra coisa (�����������)”. ibidem. 6. Eis também. estas dir-se-ão necessárias e tal causa. l. não possuindo uma causa tal. não são possíveis sem certas condições (��������). com efeito. pois. o qual será. 6a36-7. que “a ciência diz-se ciência do cientificamente conhecível”.43 Mas esta é a noção de necessidade. quando não lhe é possível (�� ���������) agir segundo o impulso próprio. como o conhecimento de um objeto que ontologicamente se descreve como necessário: a ciência é do ser. Tóp. 4. também. 190b11. desde a definição inicial de ciência proposta nos Segundos Analíticos. Não nos estranhará. portanto. aplicada à ciência. 7.2 A ciência e a categoria da relação Vimos. eterno. Cat. também.46 E conclui que o necessário. com efeito. ibidem. a referência ao ���������. ao qual não é. de modo adequado a nosso estudo. o que põe obstáculo e estorva o impulso natural e a intenção deliberada). ao contrário. a análise do devir levada a cabo pelo livro I da Física ser evidente que “tudo que devém é sempre composto(��������)”?48 Eis. que Aristóteles coloque a ciência entre os relativos (�������). que esse texto da Metafísica explicitamente refere a necessidade da demonstração científica. ibidem. se há seres eternos e imóveis. dir-se-á o cientificamente conhecível cientificamente conhecível para a ciência (cf. aquilo. O capítulo 7 das Categorias é inteiramente dedicado. ibidem. ao que não pode ser de outra maneira. elas próprias. são. Met. 5. 53 Cat. é diretamente ao terceiro e principal sentido. o que não é contingente. Met. 1021b6 etc. como a doutrina aristotélica da ciência a define. Cf. 10. 52 Cat. em sua mesma positividade. 9-11. e do ser necessário. Um esclarecimento. se refere. VI. por isso mesmo. I. de algum modo. observa o filósofo. Cf. l. �. em virtude da atuação do agente que a compele. o dobro é dobro da metade e a metade. 42 43 44 45 46 47 48 Cf. 1015 26-33. em última análise. 15. como as Categorias expressamente o dizem. que a diga pertencente à categoria da relação. é o simples (���������). 124b19. Cf. da qual. Cf. a 1. 1015b6 seg. que são. contudo. precisamente. sofrer mutação alguma. 50 Cat. um elemento necessário na definição daquele. de algum modo. significa. Do mesmo modo. bem definido. quando não pode agir diferentemente do que age. nos Segundos Analíticos e na Ética Nicomaquéia sobretudo. dentre as propriedades que os caracterizam.51 Doutrina que.45 E mostra o filósofo como se dividem as coisas quanto à causa de sua necessidade: certas coisas. Ora. se dizem ser de outras coisas ou. 34-5). 4. IV. 33 seg. assim. isto é. esclarecida a natureza do objeto a que a ciência. 15. o ser do relativo se não dissocia de sua relação a algo de outro. agora. os relativos pela reciprocidade de sua relação aos seus correlativos (também estes dizem-se relativos àqueles: o dobro é relativo à metade e a metade. estivemos a mostrar. como elemento indispensável que integra sua mesma definição e essência. 43 44 . Fís. enquanto compulsório. a sua natureza. em seu sentido primeiro e fundamental (������). “aquelas coisas que. como se sabe. l. também. impõe-se: com efeito. 7. assim. que vimos comentando. Cf. do cientificamente conhecível”. 6b34. 51 Cf. 54 Cf. Met. então. 7. ao dobro. à categoria da relação. tal há de ser. VI. devem sua necessidade a uma causa outra que não elas próprias.49 Pois se dizem relativas. ao que não pode ser de outra maneira. com efeito. ibidem. 145a13-8. ibidem. 7.50 Assim.47 E não nos mostra. uma forma de necessidade. 1015b11-5. que é. metade do dobro)54 e pela 49 Cf. possível ser de muitas maneiras nem. a causa da necessidade de outras coisas. �.

que a definição de ciência teria necessariamente de incluir a relação ao ����������59 compreende-se. é-lhe acidental. que não é a menção abstrata de que há um cientificamente conhecível que nela deve figurar mas.52 e 53 deste capítulo. não daquilo de que é vista (ainda que seja. o ser do relativo consiste no “estar numa certa relação com alguma coisa”. 4. É-o da ciência: com efeito. à ciência. acima. se assim se fala. de um certo modo. dizendo-a relativa ao cientificamente conhecível. definir a ciência por sua relação a ele. e cientificamente conhecível e o pensável dizem-se relativos pelo fato de uma outra coisa dizer-se em relação a eles. ou melhor. quer o filósofo frisar que o mesmo não ocorre com as formas várias de conhecimento. pela reciprocidade e pela simultaneidade as relações entre a ciência e o cientificamente conhecível. ao cientificamente conhecível. cujo ser por ela própria se delimita e estabelece. assim exprimirse é indevidamente tomar como reciprocáveis e simultâneos. que o que nos traz diante dos olhos a linguagem difícil e insólita da categoria aristotélica da relação nada menos é que o problema magno do primado da coisa conhecida. isto é.. aqui. nos interessa). não se determinará a ciência. enquanto tal. Disséramos. isto é. ou entre o pensamento e o pensável. de modo semelhante. 142a29. �. ser conhecido pela ciência.. o objeto da ciência não se lhe dirá. 11b29-31). verdade dizer isto). não caracterizandose. VI. se ela é constitutiva da ciência. por que um realismo epistemológico.57 é certo que é plenamente essa a natureza da ciência.56 À primeira vista. agora. raciocina Aristóteles. o que não pode ser de outra maneira. em geral. a relação é unilateral. por isso mesmo. Met. não possui tais propriedades a ciência. precisamente. seria incorrer na tautologia de dizê-la relativa àquilo de que há ciência. Manifesta-se-nos. 7b15 seg. nenhuma inverdade se profere. confuso e. 59 Cf. Não se definindo por ela. Indica-nos ele. de um ser que lhe não é conferido por uma ciência eventual que lhe diga respeito. se define. mas é o caso particular da ciência que. Ora. conhecido se põe como independente da mesma relação de conhecimento. Aqui. enquanto. em primeiro lugar. não há metade e vice-versa55 ). acima. por certo. E. mesmo. também a vista é vista de algo. mas é relativa à cor ou a alguma outra coisa dessa natureza”. sobretudo. da percepção etc. de que é termo. interpretação. que a relação existente entre a ciência e seu objeto (o mesmo é válido dizer do pensamento.58 Mas. que daquela primeira propriedade decorre (porque há uma mútua correlação e o ser dos relativos não se dissocia da relação. relativamente ao oposto. de fato. então. o pensável significa que dele há pensamento. entre outras coisas. Se pudesse pairar dúvida sobre a correção da interpretação proposta para aquele texto da Metafísica dirimi-la-ia o compará-lo com a passagem bem mais 58 Quando o filósofo diz. não se definirá ela pela sua relação ao conhecível como tal. pois o cientificamente conhecível se diz cientificamente conhecível para algo. de fato. na medida em que o objeto 55 Cf. 15. Mas. para a ciência” (Cat. sem que com isso se exprima a sua natureza dele. não o é do cientificamente conhecido. 1021a29-b2. se. conquanto seja um relativo. portanto. que é e se define pelo objeto necessário que conhece. contraditório. é a mesma natureza da ciência que se obscurece. n. mas porque a natureza própria do objeto se escamoteia. que o próprio texto sugere. então. se o ��������� indica que dele há ciência. então. mas não é o pensamento relativo àquilo de que é pensamento (pois se teria dito duas vezes a mesma coisa). 45 46 . Por certo. se assim se diz. ocorre que a relação que os determina é simultaneamente constitutiva de ambos os seus termos. que é. sendo. de um modo geral. entre as quais a ciência. que “o cientificamente conhecível é aquilo mesmo. Cat. com efeito. sim. 57 Tóp. relativo. esse texto da Metafísica merece um exame mais atento. a ciência e seu objeto. 56 Cf.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira sua simultaneidade com seus correlativos. sua caracterização adequada. entre a medida e o mensurável: “o mensurável. 7. à semelhança dos relativos em geral. aliás. para os relativos. a inexistência ou supressão de um dos termos da relação implica a inexistência ou a supressão do outro: não havendo dobro. há que entenderse que se trata do conhecível unicamente enquanto lhe diz respeito a ciência. é apenas para significar-se que a ciência lhe é relativa. 10. a sua explicação como o ��������������.

respectivamente. VI. 6. 1139b31-2. 64 Cf. destruído o animal. aqui. 20. não apenas insistir no primado do conhecível mas. um estado ou “hábito”. obviamente. no mundo sublunar. que é de conveniência vivamente realçar. 8b29. ou em nenhum. Ora. “hábito” e não simples disposição (��������). não havendo ciência. a partir do momento em que se reconhece a absoluta anterioridade e primazia do objeto. com efeito. descrever literalmente a ciência como um atributo do ser animado: vive a ciência da vida do ser vivo e desaparece com ela.. �. o reino todo das coisas inanimadas. bem se compreende. isto é. 65 Cf. todos os seres celestes e. 61 Cf. 227b13-4. com efeito. Cat. 260b31 seg. pois. IV. que se não perde se grande mudança não ocorre. assim colocar o problema é. aos sentidos transitivo e intransitivo de �����. .4 (isto é: cap.66 e como uma concepção ou juízo (��������) que diz respeito aos universais e às coisas que são. 1. necessariamente.64 E. que não poderia ser de outra maneira. ibidem. entendendo por ���� uma disposição mais duradoura e estável.3 A ciência e a alma Uma outra lição. também. com efeito. com efeito. não há ciência. abrangendo o conhecimento do que devém e pode destruir-se. porém. parecer-nos-á. 63 Cf.65 É. de um uso extremamente lato da noção de ciência. ibidem. é em havendo previamente as coisas que adquirimos as ciências: de fato. adiante. Além disso. Index.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira explícita em que as Categorias também aludem ao caráter sui generis da relação entre ����������e ��������: “Não parece verdadeiro haver de todos os relativos uma simultaneidade de natureza. ainda segundo as Categorias. que o termo latino habitus traduz bem. IV. para além e antes de qualquer ciência que possa conhecê-lo. é a ���� uma espécie da qualidade (cf. sem que nada viesse afetar boa parte do conhecível. o texto em questão.60 Não se poderia dizer de modo mais manifesto que o conhecível é. 1b1-2. que a estudará o livro III do tratado Da Alma: o pensar (�����). em poucos casos. se exprime a absoluta e incondicional primazia do objeto científico sobre a ciência. Nic. e que não se diria excepcional na linguagem do filósofo.61 mas o que. 68 Cf. haja conhecível . 3. p. mas a ciência não suprime consigo o conhecível. a ���� diz-se segundo a categoria do “ter” (�����) (cf. cf.67 É de fato a ciência uma espécie de (��������)68 e é sob esse prisma de suas relações com as outras funções do pensamento.. 8. suprime consigo a ciência. Fís. 47 48 . 8. prendemse. também. Cat. nos importa é que. Trata-se. seria ciência – mas nada impede que. Com efeito. com toda a clareza desejável. não há ciência – de nada mais. Além disso. de um lado. V.). E o filósofo é extremamente claro a esse respeito: a ciência está na alma.. ainda mais. 8b26-7). por exemplo. não são as diferentes ciências particulares senão qualidades. pois. Cat. 1140b31-2. 1. o conhecível. Met. na maior parte das vezes. 1022b4-14 (o capítulo inteiro)). Os dois sentidos principais do termo ����. em não havendo conhecível. consiste. como um estado ou “hábito” capaz de demonstrar. em virtude de seu caráter duradouro e estável. Cat. 11a32 seg. na representação ou ima62 Cf. era necessário entender a ciência como um atributo do animal humano. 8b27-32. 8. como nota Bonitz (cf. 7b22-35. dá aqui uma maior precisão aos dois termos. no texto em questão. segundo a qual o que está “disposto” está bem ou mal “disposto”. supõe uma imaginária destruição do reino animal. uma qualidade da alma humana. 67 Cf. cuja posse nos faz tais ou quais. que acarretaria a supressão de toda ciência. Aristóteles que freqüentemente usa ���� e �������� como sinônimos. No primeiro sentido. uma vez destruído. como em seu sujeito.63 portanto. no segundo. 4. traz-nos. como uma �����que a Ética Nicomaquéia caracteriza a ciência. provocada por doença ou fato semelhante. Cat. 66 Cf. em geral. E parece-nos. 7. seção 4). mas é possível haver muitos dentre os conhecíveis”. como 60 Cat. § 1. como o faz Aristóteles. 2a23).62 a ciência é um estado ou “hábito” (����). transposta em termos de anterioridade temporal: preexiste à ciência o seu objeto. 4. pois. como um argumento a mais em favor da anterioridade do conhecido. em Aristóteles (um certo ato do que tem e do que é tido ou uma disposição (��������). 2. que o cientificamente conhecível é anterior à ciência. Ét. verse-á surgir uma ciência simultânea ao conhecível.

a qual constitui. também a Ética como a ciência. em todo o caso. VI.. Nic. 7. Fundadas razões teve Cassirer de excluir de seu estudo sobre o problema do conhecimento. 1. à reflexão do filósofo. não do cientificamente conhecível. é porque por elas contemplamos.73 como explica Aristóteles. 414a5-6. a divisão entre as partes da alma acompanha e univocamente corresponde às diferenças genéricas entre as coisas. de um lado. Ét. com efeito. Da Alma II. Por outro lado. Cat. ibidem. numa filosofia como a de Platão. 7. a interpretação realista parece irrecusável: o platonismo é um realismo das Formas ou essências. 1098a16-7)). 70 Cf. a própria noção de felicidade. da alma humana:76 qualidade da alma. VI. 1139a6 seg. 78 Com exceção. l. cf. a ciência é modo de ser do homem. 73 Cf. VI. Da Alma III. se as duas partes da alma racional. como todas as formas de conhecimento. se privilegia. a doutrina aristotélica da ciência. X. Ét. II. 1143b14-7. de outro. 11. dizendo respeito à função (�����) que lhe é própria. a doutrina aristotélica da ciência. 49 50 . 77 Cf. reconhecendo como anterior e indiferente a todo conhecimento eventual que dele se ocupa. 6b5. I. parece-nos indiscutível. seja a ciência. resumindo toda a discussão precedente. também. 2. Sobre a divisão da alma numa parte racional e numa parte irracional.77 Nem podia ser outra. mas. o conhecimento possível. vida de inteligência e de ciência. onde Aristóteles. VI. Mas. mostra-nos. Será. mas da alma”. sobre esse pano de fundo das coisas que se apreenderá e descreverá a mesma natureza do conhecimento.71 Ora. Nic. a consideração da vida contemplativa ou teórica (cf. os que não podem ser de outra maneira. 13. 7-9). 1139a5 seg. Nic. aqueles seres que são tais que não podem os seus princípios ser de outra maneira (�������������������������). por certo. 1. cuja unidade. Nic. a científica e a calculadora (�� ����������) assim se chamam. 5-6. finalmente.72 É verdade que a própria noção da parte científica da alma está calcada sobre a natureza do objeto de que ela se ocupa.70 que é a virtude (�����) da parte científica (����������������). por sua vez. 124b33-4: “a ciência diz-se do cientificamente conhecível. a partir do momento em que uma perspectiva decididamente realista instaurara o primado absoluto do objeto. tal como a Ética a define (ato da alma segundo a melhor e mais completa virtude (I. respectivamente. prudência e seus contrários. 427b24-6. 74 Cf. de fato.69 Descrevendo a ciência como um “hábito”. obviamente. dizer que a sabedoria (que inclui a ciência) é a virtude da parte científica da alma é significar que ela é o melhor estado ou “hábito” dessa parte da alma. juntamente com Aristóteles. Ét. Mero comportamento dos homens em face das coisas. cf. enquanto estado ou “hábito”.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira ginação (��������). implica. sobre as divisões da alma racional. opõe sabedoria e prudência como virtudes. Poderia estranhar-se que a Ética contivesse textos epistemológicos tão importantes sobre a noção de ciência e a de sabedoria teórica. Sobre a noção de virtude (�����). 4. 71 Cf. seja a própria alma. 7. todo o pensamento grego. assim. uma “coisa”. O estudo acurado dessas diferentes partes e de suas funções faz-se. opinião. um mundo-real-que-está-aí e de que os homens fazemos parte.74 69 Cf. Donde a ambigüidade de uma expressão como “aquilo por cujo intermédio conhecemos”. desse ponto de vista. uma subdivisão da parte racional da alma humana. supremo Bem do homem. no tratado Da Alma (livros II e III). juntamente com a inteligência (����). 1141a18-9. 1. pressupõe necessariamente as coisas e os homens. por cujo intermédio se relaciona este de um certo modo com seres de uma certa natureza. de outro. em que se poderia ser tentado a pressentir um precursor da modernidade. a ciência que Aristóteles conhece não é constitutiva da coisa conhecida.b2-3. igualmente. na concepção (��������) e esta diferencia-se em ciência. Ét. VI. Ser entre os seres do mundo. de cada uma das subdivisões da parte racional da alma humana. também ela. depois dos modernos estudos que se lhe têm consagrado. 1102a26 seg. Nic. por outro lado. as coisas contingentes (�������������). Tóp. Ét. tendo em vista precisar as relações entre o saber teórico (�����) e o saber prático ou prudência (��������) mas. mas o estado e a disposição.78 E é com toda 75 Cf. em que pesa à sua excelsa dignidade. já que se deve o conhecimento que possuem a “uma certa semelhança e parentesco” com aquilo que conhecem. Visão ingênua do mundo? É. 8-11. então. que pode significar. 76 Cf. IV. a ciência. 4. necessariamente secundária do ponto de vista ontológico que. cf. 1139a16-7. integra a sabedoria (�����). a ciência o é de alguma coisa. do movimento cético. precisamente. que se oferece. mas não se esqueça de que não somente o livro VI estuda tais noções. de início.75 isto é. por isso mesmo suscetíveis de ser objeto de deliberação ou cálculo. 72 Cf. graças a uma certa familiaridade que lhe é natural e que torna.

n. E. veremos que. concernentes ao ser do conhecível. ciência e percepção são. por que recusa Aristóteles chamar à ciência medida das coisas. 80 Cf. 12. a teoria do conhecimento não é mais que uma parte de sua psicologia”:79 ter-lhe-ia o filósofo dado integralmente razão. 84 Segundo a interpretação que temos por certa e apoiada nos textos aristotélicos. para significar que por elas conhecemos as coisas (assim como chamamos medida. 33. e Per II. etc. Ger.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira razão que observa que “em Aristóteles. por razões óbvias. em aplicando sobre nós a medida de um côvado: detendo sobre o conhecimento a primazia que sabemos. 1.. 81 Cf. 51 52 . antes. isto é. plenamente manifesto como. 1057a7-12. poderia parecer como uma outra noção de ciência: “e. à física aristotélica. p. à ciência e à percepção. então. entender-se-á pelo primeiro tão-somente o homem real. ao tratado da Alma) e à Ética. Cassirer. p.. ao homem como suporte do conhecimento e à ciência como um seu modo de ser. se a referência ao sujeito. Antes de passarmos a explorar. como em grande número de textos ocorre. falaremos oportunamente. I. 1. nos Segundos Analíticos. por certo. I. I. isto é. cf. essa essência ou substância privilegiada. com elas ocorre algo de semelhante ao que nos acontece quando vem alguém medir-nos. 1053a31 seg. em sua Introdução. 1065a4-6. Quanto ao que vimos ser o objeto da ciência. sem dúvida.. 2. diz-se a ciência do necessário e do freqüente (��������������). revelar-se-ão imprescindíveis e o filósofo terá freqüentemente de delas lançar mão para informar diferentes momentos de seu estudo sobre o saber científico. coisas medidas do que medidas das coisas. à Física (isto é. Sobre as razões pelas quais é ao físico que cabe o estudo da alma. de cuja alma a ciência é propriedade. a ciência. àquilo por cujo intermédio conhecemos a quantidade). mas o necessário ontológico e sua causalidade permanecerão sempre o ponto último de referência objetiva. por outro lado. Mas. Anal. o necessário e a causa.26 seg. são as coisas que medem e que delas conhecemos. Seg. conforme à exposição dos Segundos Analíticos. quanto às razões de ocupar-se a Ética da ciência. acima. propriamente. 96a8-19 etc. uma última dimensão – e é dela que se ocupam. com o filósofo.4 Os outros usos do termo “ciência” Entendemos. a de sua organização e estruturação internas como saber constituído. mesmo quando. Por outro lado.81 Nós assim chamamos. 402a4 seg.. Torna-se. 82 Cf. 1. 6. em função do qual a ciência se constitui e define. Met. os desenvolvimentos todos que tal noção implica. 1052b20. Met. 1. em sua obra. que com algum inegável anacronismo. cf. naquele tratado. denominamos sujeito e objeto. com freqüência – em escritos outros que não os Analíticos83 –. 79 Cf. I. compete seu estudo à psicologia. um estudo da filosofia antiga. El problema del conocimiento en la filosofía y en la ciencia modernas. v. 1027a20-1. cf. então.82 Na realidade. a intuição. Seg. os Segundos Analíticos –. Também será esse. agora mais do que nunca evidente. seu mesmo caráter físico e ontológico converte-os em tema da mesma ciência física e da ciência do ser.70 deste capítulo. 89b7-9. pois.80 Torna-se bem fácil compreender. 30. K. Sobre o problema de como conciliar com a noção de necessidade a de ��������������. I. Resta-lhe. 403a3-19. Da Alma. pois é ele mesmo quem nos remete. Matizá-la-á. II. . dos dois pólos a que vimos ter a ciência referência necessária. que ter ciência é conhecer como se determina causalmente o ser necessário. o objeto privilegiado de nossa reflexão. são os próprios seres a medida da ciência dos homens.. I. para o estudo das relações entre o pensamento. apressemo-nos em deixar assente que nenhum outro texto de Aristóteles repudia nem desmente essa conceituação do conhecimento científico e que nenhum indício possuímos de que o filósofo tenha abandonado tão rigorosa concepção do saber. em sentido estrito. acompanhando. à ciência. 8.84 É certo. v. os passos da doutrina. 333b4 seg. há ciência de cada coisa quando lhe conhecemos a 83 Senão de passagem e sem maior explicação ou discussão. está praticamente ausente.. à primeira vista.56. Met. que um texto bem conhecido do livro ��da Metafísica formulará o que. além dos textos citados na nota anterior. Sobre as razões pelas quais o autor não inclui. Anal. a sabedoria etc. com efeito. considerações de ordem metafísica.

reais ou aparentes. por isso mesmo tornar-se. sua doutrina do conhecimento científico – os Analíticos nolo mostrarão – constrói-se. a partir de outro prisma. sem dúvida. Aubenque. p. 87 Cf. não uma ciência possuída. ao proferir ����������? Descreve-se. contudo. I. em particular: assim como a sua Ética não nos prescreve ideais abstratos. que se trata de noção que coincide objetivamente com a que vimos comentando. estaremos simplesmente explicitando a significação que visamos. há que buscar-se a solução e a compreensão de cada situação e dificuldade dentro dos mesmos esquemas aristotélicos e segundo a sua concepção de ciência. entretanto. precisamente.1 A noção de ciência. 22. a opinião comum e a realidade científica Os Segundos Analíticos definiram o conhecimento científico. 6. 730b16.. que Aristóteles se serve. por exemplo. I. Finalmente. se tememos a infidelidade ao pensamento do filósofo e o anacronismo. 78b34-79a16 e a excelente nota de Ross. Met.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira qüididade (��������������)”. diante de nós. 2. aos olhos de Aristóteles. Ger. o termo �������� (ciência) num sentido extremamente lato. em nenhum desses casos subsiste uma qualquer ambigüidade quanto à significação visada nem possibilidade qualquer de atribuir-se ao autor uma referência ao saber científico stricto sensu. também. no interior da obra aristotélica. em Da Alma II. um modelo abstrato que se tentará imitar nas lides cotidianas dos homens de ciência. inalcançável. em seu mesmo ser. não se nos oponha. apenas. mas está. que surjam. por exemplo. para traduzir o ����������� de Aristóteles. é-nos possível. p. como objeção. acaso. 417b26-7. Cf. �. cf. igualmente. qualificar. já consagrado. uma ciência. como um realismo moral. além do mais.85 veremos. e à sua maneira própria de compreender a natureza do conhecimento qualquer. antes de tudo. Porque ela é uma realidade de nosso mundo humano e pode. 88 Cf. então. Outro problema.90 Ora. impregnada do que se poderia.86 ora falando da ciência que move as mãos do carpinteiro87 ou opondo a ciência do senhor à ciência do escravo. 5. que o filósofo teria mostrado inútil e. 53 54 . uma pela outra.322 e seg. 85 Met. 7. a expressão ���������������������� (ciências dos sensíveis). sobretudo. para Aristóteles. sejam quais forem as dificuldades de interpretação. Le problème de l’être. é preciso dizer que uma tal perspectiva é totalmente estranha ao aristotelismo. um objeto para nossa meditação. toda ela. como pretende Aubenque (cf.88 ora usando simplesmente. I. Pol. Z. Anim. 1031b6-7. seria o de mostrar como a sistematização do conhecimento leva Aristóteles à tentativa de penetrar as técnicas de cientificidade a que corresponde. De um modo geral. 2 A ciência que se tem 2. comprovar a correção da definição proposta pelo seu acordo com 90 É o que aconteceria se. Anal. oportunamente. ora chamando de ciência aos conhecimentos empíricos de astronomia náutica e opondo às ciências matemáticas as ciências “sensoriais”. em geral. Index. 13. por vezes.. 1962. um fato. somente a teologia fosse ciência. pelos aristotelistas. sobre uma ciência que já faz parte das realidades humanas. um conhecimento desejado e buscado. então. aliás. um conhecimento científico ideal independentemente de sua concretização atual entre os reais conhecimentos dos homens e da própria possibilidade de sua efetiva constituição? Teríamos. Em outras palavras. que se não “encarnam” ao nível do concreto humano. ao depararmos. 86 Cf. Cremos perfeitamente aceitável o emprego do vocábulo “qüididade”. após defini-la. considerada. mormente em face de toda a concepção moderna de ciência experimental e de investigação científica. ad locum.). com conceitos e problemas que correspondem a noções e atitudes que modernamente se dizem científicas. de modo indiscriminado. 1255b20 seg. 1046b3. a ciência é. a noção de ciência poiética. cf.. porque conquista que se alcançou e que muitos cultivam. nos Segundos Analíticos. 89 Ver os múltiplos exemplos coligidos por Bonitz. Seg. de uma terminologia menos precisa e que emprega.. Mas como certificar-nos da correção ou incorreção de tal definição? Quando dizemos que temos conhecimento científico de uma coisa ao conhecer o processo causal que a engendra e a sua impossibilidade de ser de outra maneira. 279b57 seg. as expressões ���������e ������(arte):89 com efeito. nem a imitação de modelos inatingíveis que a vida da polis não verifica.

para saber o que é a Ciência. todo o capítulo). É um certo ser do homem em nosso mundo. porém. não possuindo um real conhecimento científico. em assim proceder. por certo. não apenas os “cientistas”. no texto dos Analíticos. Aristote a procédé. também nesse “estado” se encontram (�����������). 95 Cf. Aristote en détermine les conditions absolues et les moyens propes à le réaliser universellement. mas. Lembre-se que é. um paralelo entre o procedimento aristotélico e o empreendimento kantiano. também. Anal. o conhecimento científico e. 7. têm. quantos. que o teórico da ciência pode obter porque tem a seu dispor conhecimentos científicos já constituídos. não somente os que. nos dois primeiros capítulos da Metafísica. não se contenta. em primeiro lugar. em analisando suas implicações e conseqüências. o acordo generalizado das opiniões servir-nos-á de argumento: apelamos para a Opinião. 2. “qual a natureza da ciência procurada” (Met. com segurança. Mas. assim. também. isto é. há ciência”.A. constructif chez le second. aqui. 94 Seg. entretanto. explicitamente. p. em seguida. a pretensão de possuí-lo e partilham da opinião correta sobre o que seja conhecer cientificamente. lembrar os partidários do “mecanicismo” na interpretação dos fenômenos naturais. 92b5-6. 19. semble-t-il. Não apenas crêem eles que tal coisa é a ciência. 55 56 . efetivamente. pode ele empenhar-se em descrever pormenorizadamente a natureza e as condições de possibilidade daquilo que é. de modo que é impossível ser de outra maneira aquilo de que. refutados na Física (cf. parece ter em vista. mas. que tal coisa é o conhecer cientificamente. 92 Como exemplo dos que. A doutrina aristotélica da ciência assume. II.60: “Au fond. quoique avec une intention différente: Kant se demandait en effet quelle est la portée et quelles sont les conditions du savoir. 1. 93 Caberia a um estudo sobre a dialética aristotélica pôr em relevo a exata função da Opinião e as razões profundas de sua eficácia no processo de aquisição da verdade. desse modo evidenciando a significação universalmente conferida a ����������. tal é.91 Confirma. de fato. critique chez le premier. confirmemos a indução que nos levou à definição formulada. Essa é uma das raras passagens em que os Segundos Analíticos se referem à ciência enquanto estado ou “hábito” da alma. “pois o que não é. sobre ela edificar nossa doutrina. a validade de definição proposta. se não dispensou o filósofo o recurso à opinião comum. têm a pretensão de possuí-lo. de la même manière que Kant. O texto acima transcrito é sobremaneira explícito: se podemos definir. I. 100b5 seg. graças ao levantamento e à análise das opiniões comuns que se chega a estabelecer. uma significação e um fato primeiros: a significação de ���������e o fato de que há ���������no mundo dos homens. então. nele também se encontram. a possuem. ninguém sabe o que é”. que a sabedoria é “ciência que diz respeito a certos princípios e causas” (ibidem. pois os que não conhecem cientificamente assim como os que conhecem cientificamente julgam. também. em a refazendo. para validar a definição de ciência que propôs. pelas suas determinações causais. 983a21) e a concluir. não parece que Robin se equivoque.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira a opinião geral e pela fidelidade com que descreva o estado dos que efetivamente possuem a ciência: “É evidente. ele pode saber o que ela é. 1944. um conhecimento cuja natureza é aquela mesma que descrevemos ao formular a definição que propusemos. que eles próprios se encontram nesse estado. que podemos tomar como objeto de nossa reflexão e cuja presença sempre permite que. a significação conferida à mesma expressão com que designam seu “estado” os que obtiveram conhecimentos de uma certa natureza se vê consagrada pelo uso comum e vulgar. 2. 982b9-10). antes de tudo. primeiro. ao sugerir. um conhecimento do necessário. Robin. poderíamos. pode dizer-se. mas quantos julgam conhecer um fato qualquer de modo científico por crer conhecê-lo como necessário e incapaz de ser de outra maneira. assim. uma realidade indiscutível.93 91 Seg. 982a2) e. em seu mesmo ponto de partida. os que conhecem cientificamente. 71b12-6. em II.95 Se era preciso que insistíssemos em todos esses pontos. provavelmente. partindo de uma tal noção de ciência. reconhecida na mesma coincidência de pontos de vista com que definem ciência. Anal. por certo. fazem-no. II. Porque a ciência é. devrait prendre pour base une science déjà constituée”. que ela é “ciência teórica dos primeiros princípios e causas” (ibidem. a opinião universal. tous les deux ont pensé cependant que ce travail. indiretamente. Mercê de tais conhecimentos prévios. Mas Aristóteles. 8. e não provém tal pretensão senão do fato de que julgam conformar-se àquela definição o “estado” de alma em que se encontram (������������������� �����). a sua ciência. os primeiros. Ciência é fato que está aí a nosso alcance. em sentido absoluto. Aristote.92 Porque. com aquelas mesmas características que discriminamos. ainda que não possuindo um real conhecimento científico. não é senão porque os que se reconhecem possuidores de ciência possuem.94 Nesse sentido. sob um certo prisma.

em certa medida.79.. consoante a tradição de uns a outros transmitida.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira é que os estudiosos do aristotelismo costumam dar ênfase unicamente às notas distintivas do conhecimento científico. p.. E uma bela passagem do Tratado das Partes dos Animais propõe-nos convincentes razões para que isso não ocorra:103 é que. a Metafísica. 298a24-27. delas partir para construir nossos juízos sobre a Verdade?98 Ao contrário. E. perseguir a verdade. com efeito. 5. por certo. o aristotelismo conhece uma como teologia astral. 1026a18.. a excelente nota de Le Blond. então. K. Anim. o testemunho concorde da percepção sensível. mais exata e mais extensa. 6. 1010a25-32. “é preciso. 97 Cf.. o tipo ideal da ciência”. como suficiente para convencer-nos. 5. devemos reconhecer que estão demasiado longe de nós e que nossa sede de saber encontra. no entanto. fornecendo. 1962. no Tratado do Céu. com caracteres diferentes. uma outra vez. 100 Cf. ad 644a25. Le problème de l’être. Céu III. cabe-nos perguntar onde encontrou o filósofo essa ciência constituída sobre a qual se exerceu sua reflexão nos Segundos Analíticos. contrabalança. ora com tais caracteres. na percepção sensível que delas temos. 98 Cf. o lugar das Idéias platônicas” e que se torna “o único fundamento possível de uma teologia científica”.337. com.. II.101 Como se mostrou recentemente. dança”. Tais são as coisas celestes: estas. também. 13-7. que é absurdo. Part. p. 4.2 As coisas celestes e a ciência humana Mas. Perspectiva própria de uma obra de biologia. negligenciando. p. com os astros que nele brilham. 103 Cf. 2. como se sabe. o que. a nosso ver. não invoca o filósofo. que o conhecimento do Céu não somente fundamentará a teologia aristotélica mas. onde encontrou ele seres necessários. em seu comentário ao livro I do Tratado das Partes dos Animais. sem geração nem perecimento.. maior afinidade com nossa natureza. partindo das coisas que estão sempre no mesmo estado e não efetuam nenhuma mudança..102 Mas parecerá. 1063a10-3.181-3). se assim é.217 seg. Logique et méthode. nota n. 1945. O livro K.96 E.99 Não-gerados e imperecíveis são.138 (Aristote philosophe de la vie. mas sempre idênticas e sem participar de nenhuma mu96 Le Blond. com efeito. ao Aristóteles dos ‘Analíticos’.. Leia-se. isto é. La révélation d’Hermès Trismégiste. visivelmente. em Aristóteles. de fato. resume partes de outros livros da Metafísica e da Física.. das coisas que. 1939. 102 Cf. assim. 1. já se deu como resposta que o conhecimento das revoluções dos astros e dos fenômenos celestes “oferece. Met. ainda que as coisas que nos cercam estejam em permanente mudança e em si mesmas nunca permaneçam. por excelsas e divinas que sejam as essências naturais que.. a bibliografia selecionada por esse autor. ao refutar a doutrina protagórica do homem-medida. não ter sofrido mudança alguma. o que ocorre. o primeiro Céu e suas partes. p. especialmente Festugière. Fís. Aubenque. 1.. que nos assegura... é tão importante quanto a noção mesma de ciência. não aparecem. à filosofia das coisas divinas aquela ciência. por isso mesmo. têm. nem o conjunto inteiro do céu exterior nem nenhuma de suas partes próprias?97 Não nos diz. os elementos de que estes se compõem e sua mesma natureza:100 eles nos oferecem o espetáculo visível do divino. também. conforme parecem indicar os textos que referimos. em que “os astros-deuses tomam . mais próximas de nós. I. a passagem em questão retoma a argumentação de Met. Não é. também. conhecidos em suas determinações causais e na sua mesma impossibilidade de ser de outra maneira? A essa pergunta. onde Aristóteles recapitula assuntos discutidos nos dois livros precedentes. 3. 101 Cf. com efeito. �. 1949. entretanto. 1. v. bem poucas evidências em que apoiar nosso conhecimento. 270b11-6. Met. a própria doutrina dos Analíticos. são por toda a eternidade. mas suficientemente esclarecedora para mostrar-nos que não pode 99 Ibidem. com. 196a33-4. 57 58 . Sobre o tema da teologia astral. modelo real que orientou seu estudo do “estado” científico. destarte. também. aquelas razões que o filósofo explicitamente invoca para validar a definição estabelecida. Céu I. 644b22 seg. Em outras palavras. por maior que seja o deleite que nos proporciona a contemplação e o estudo das coisas celestes. o protótipo da ciência sobre que se exercerá a reflexão analítica. em todo o tempo passado.

acima. Os exemplos geométricos utilizados por Aristóteles dever-se-iam aos Elementos de Theudios de Magnésia (cf. também. 107 Cf. 19565. 10. também...109 é ao procedimento habitual dos aritméticos e geômetras que o filósofo sempre se refere. nenhuma alusão especial se faz ao conhecimento das coisas celestes em todo o livro I daquele tratado. o livro I dos Segundos Analíticos alude à astronomia. 1948. Anal. 114 A esse respeito.. I. em refletindo sobre ela e contemplando-a. p. 105 Cf. Robin. 13). com. p. Rey.110 é ao vocabulário técnico das matemáticas existentes que a doutrina aristotélica da ciência toma os vocábulos que serão seus próprios termos técnicos. de alguns pequenos e felizes resultados. a referência à freqüência dos eclipses de lua (em I. 7. 13. por exemplo. corrigindo os magros resultados das pesquisas de seus antecessores. Introduction. a Ciência que o tratado descreve e caracteriza é um saber construído more geometrico com o rigor. Seg. II. pudemos obter a definição que procurávamos? Ora.. por isso. Brunschvicg. 78b34 seg. precisamente. 2. cap. 111 Tais como “hipótese”. anteriormente a Aristóteles. explicando-nos qual é a estrutura e a ordem das coisas do Universo e por que é este tal como é. 113 A tradição unânime atribui a Hipócrates de Chio a primeira redação de Elementos (cf. 9. II. mas. ad finem). Part.112 em suma.114 Assim. Anal. 1947.. ainda na segunda metade do século V. 644b26-7: ����������������������������. 1948. não será nessa difícil. Céu. Mas lembre-se que. a exatidão e a necessidade que o filósofo reconhece nas ciências matemáticas. tal qual a aritmética e a geometria. Mecânica etc. Les philosophes géomètres de la Grèce. 19342. porque. quando se é impelido pela sede da filosofia (����������������� �����). 7.104 De qualquer modo. v. 24b16 etc. Céu. p... 8. 92b15-6 etc. 13 etc. 1. 112 Por exemplo. 33. Não desistiu. os atomistas e Platão etc.106 que ele vai encontrar a realidade científica de que precisa. Rey. se é verdade não ter fornecido Aristóteles nenhuma contribuição direta aparente para o progresso do pensamento 109 Cf. na medida do que creu aos humanos possível.. 10. Ross. 76b4 seg. I. o tratado do Céu se constrói em refutando os pitagóricos e Anaximandro.111 são as matemáticas e as ciências afins que se tomam explicitamente como exemplos de ciências. 7. 56 seg. 10. sobretudo. Cf. IV. Sobre o estado dos estudos matemáticos.. em tal matéria. uma ciência constituída pelos homens.3 O paradigma matemático Onde encontrar. por exemplo. 292a15-7. 12. 10 etc. o contentar-se. p. Heath. por vezes.178. e a cuja existência vimos os Segundos Analíticos fazer referência. segundo os Analíticos.181-94: “Euclide. 1944. 1965. 110 Cf.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira o filósofo tomar nosso escasso conhecimento dos seres celestes como o paradigma constituído da ciência. 2.86). 5. e darão aos princípios da geometria um tratamento intimamente aparentado à teoria aristotélica dos princípios da ciência.. A History of Greek Mathematics. 4. I.). 5. I. demonstra a partir de axiomas comuns e de princípios próprios (cf. Aristote.1).. “axioma” etc. 1. Anal. id. Mas não o faz sem reconhecer as grandes aporias que o conhecimento de tais objetos freqüentemente envolve e limitar-seá. a tentar dizer o que aparece como verdadeiro (�� ����������) porque crê ser indício. L’apogée de la science technique grecque. cap. I. 106 E.. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics.). os Elementos de Euclides ter-se-ão inspirado da doutrina aristotélica da ciência. 1. como a uma dentre as várias ciências físico-matemáticas (Ótica. laboriosa e limitada ciência de seres tão distantes.105 que o filósofo procura construir e alcançar.84-98. I. L’apogée de la science technique grecque. com efeito.. 76b11)... Aristotle. que corresponda à definição que pro104 Cf. de fato.1. n.107 E. 291b24-8. a quase totalidade dos exemplos utilizados ao longo de todo o livro I dos Segundos Analíticos tomam-se das matemáticas e ciências afins. então.108 pusemos. II. p. o conhecimento científico do mundo supralunar e o Tratado do Céu constitui o fruto magnífico desse seu empreendimento. I. antes de pudor que de temeridade. Anim. 12. Seg. para formular sua doutrina da ciência. Aristote et Platon”. Anaxágoras e Empédocles. 75b7-8. Les étapes de la philosophie mathématique. o filósofo de obter. ou como a uma ciência que. em Seg. nas quais se distinguirá entre o conhecimento do “que” e o do porquê (cf. ibid. 52. p. necessariamente. cf. 108 Além de alguns poucos exemplos tirados da astronomia (os silogismos sobre a cintilação e a proximidade dos planetas e sobre a esfericidade e o aumento de luminosidade da lua (em I. p. nota ad Prim. Prior and Posterior Analytics. Anal.. Ross. os termos técnicos da silogística geral de Aristóteles têm uma provável origem matemática. Com efeito. 7. um exame sumário dos Segundos Analíticos permite-nos facilmente responder: nas matemáticas. tria se escreveram e conheceram anteriormente a Aristóteles113 ). 12.. de compilações anteriores (sabe-se que Elementos de Geome- 2.VI: “La géométrie euclidienne”. consulte-se Milhaud. 9. Escritos algumas décadas mais tarde mas como resultado. junto ao mundo que nos cerca.60 seg. I. enriquecendo. 59 60 .

também. K. sobre o exemplo das ciências matemáticas já constituídas na época do filósofo. �. 252a32-b5. Introduction.124 Preservase. 1.. Met.123 nem. em sentido absoluto (�����).. por isso. tanto quanto as coisas celestes. Met. Não nos diz a Ética que não se delibera sobre as coisas eternas. A matemática é ciência. pode dizer-se. sobre o universo e sobre a incomensurabilidade da diagonal e do lado” do quadrado?117 Do mesmo modo. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics.. 126 Cf. E. por outro. Z. 1077b31-4. �. Ger. como quisera Demócrito:120 coisas há. com efeito. Anim.125 o status ontológico dos objetos matemáticos.118 Também o fato de ter um triângulo seus ângulos iguais a dois retos apontar-se-á como um atributo eterno do 115 Ross. dizer que os “não-separáveis” – e. por um lado. 1958-1959. 1077b16-7. a um ser eterno. isto é. por recusar que possa haver seres matemáticos “separados”. que diz respeito a seres não separados (����������. 122 Cf. 2. aqui nos interessa – que a meditação aristotélica sobre a natureza do conhecimento científico se exerceu. Assim. de ser manifesto – e é o que. triângulo.122 A rejeição aristotélica. os seres eternos. cf. 1. I. 118 Cf. a afirmação de que “poucos pensadores contribuíram tanto como ele para a teoria filosófica da natureza da matemática”115 nem. Z.126 Ocupando-se. antes de tudo. tem uma causa e pode ser demonstrada. Met. 1025a32-3. Fís. 1. por certo. cf. 2 de M destinou-se precisamente a mostrar. isto é. “como. 2. nos termos em que o fazem os Analíticos. pois “são separáveis pelo pensamento” (cf. 5. os privou de ser: deles diremos que “são de alguma maneira” (�����������) e. 1. 26-29. dos que são por si mesmos e absolutamente. cf. Met. contra o platonismo matemático. 116 Segundo a interpretação de Goldschmidt (curso inédito sobre “Le système d’Aristote”. 1028a10 seg. particularmente l.116 Donde uma constatação que.16. portanto.. 1. entre eles. 1077b12-4 (o cap. ciência do ser enquanto ser. 9 (todo o capítulo) etc. com.119 de uma eternidade que. que pudemos definir a ��������. que elas os consideram “enquanto separados” (���������. são afecções e atributos daqueles e deles se dizem. então. portanto. M. 1059b13). 1078a21-3: o aritmético e o geômetra “separam” o que não está “separado”). não deixa de ser verdadeira. mas também dos que. 1026a14-5. 1017a22 seg. não o é nenhuma das outras categorias (cf. éporque as disciplinas matemáticas que se designam como ��������� constituem um tal conhecimento. por isso. impulsionou ou para as quais contribuiu decisivamente. à incomensurabilidade. 61 62 . com efeito. de uma determinada categoria de ser. isto 119 Cf. O que é preciso dizer é que o matemático “separa” (�������) seus objetos. às vezes áspera. 742b17 seg. 125 Sobre as categorias como diferentes significações do ser. Met. �. não são. no mesmo sentido. Será verdadeiro. 124 Met. 3. Z. IV. 121 Cf. de qualquer substancialidade ou essencialidade dos seres matemáticos. M. 3. acima. II. E. mas também para a sua metafísica.67-8).59. graças à doutrina da pluralidade das significações do ser. já que se não confunde ser eterno com ser princípio (����). fundamentalmente. ou seja. VIII. 1. M. 12. Met. põe sempre Aristóteles os objetos matemáticos entre os �����. se não são “separados” os seres de que se ocupam as matemáticas. que sempre não é. 221b23 seg. definitiva e integral. por opor-se a algo que sempre é. III. E. sobretudo. Pois não se dirá. 1. sobretudo. 7. p. 117 Cf. Ét. que se não podem considerar os objetos matemáticos como ������ independentes das essências ou substâncias sensíveis e separadas delas: só a ������é “separada” (�������). Lucien Stephan.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira matemático. 123 �����������. Fís. que eles são. cf. diferentemente do que ocorreu com tantas outras ciências que criou. os objetos matemáticos – são. Tóp. assim. p. contra os platônicos que ocupa dois livros inteiros da Metafísica (� e �). M. graças à doutrina das categorias. Met. Met.. Met. II. 30. 1015b9-10. cf. 1. 193b33-4.1 e n. levada a efeito na grande polêmica. apenas dos seres “separados”. Met. se nos impõe: é no estudo do pensamento matemático de seu tempo que Aristóteles crê. 3. como de um não-ser fora do tempo. falar-nos-á a Física da comensurabilidade da diagonal e do lado. as matemáticas não são paradigmas somente para a Analítica aristotélica. 2. particularmente 222a3-7. cf. 1028a334). 120 Cf. Não terminara com o platonismo o papel estimulante desempenhado pelo desenvolvimento dessas ciências sobre o pensamento filosófico grego: vemo-las atuantes no mesmo cerne da doutrina aristotélica. 6. 1026a9-10). devem-na a uma outra causa. que. que nos foi generosamente transmitido por M. implicam-se reciprocamente. a necessidade que têm. não sendo “separados”. ou melhor. dizemos “ser” (��������) em muitos sentidos. encontrar o conhecimento pela causa de seres necessários. no entanto. Fís.. I. Nic. como sabemos. 1028a18 seg. por exemplo.121 e o necessário e o eterno.. 1112a21-3. com efeito.

128 Não compreendemos. de modo que teria sido mais justo absolver nosso mundo sensível. mas a partir do momento em que os objetos matemáticos “são de alguma maneira”. é-nos possível definir e descrever a ciência.. em permanente mudança.. ciências. p. Mansion. 1078a8-9). além disso.. pois eles não vêem que “a região do sensível que nos cerca é a única que se perpetua no perecimento e na geração. De qualquer modo. p. 193b35) que qualquer falsidade resulte da “separação” a que procede o conhecimento matemático. igualmente. 1962.4 Aristóteles e a concepção platônica da ciência Esclarecida a noção de conhecimento científico e uma vez explicado como pudemos obtê-la. extremamente sério e complexo – seria o de mostrar como a necessidade ontológica dos objetos matemáticos se concilia com a sua condição de afecções quantitativas das essências físicas individuais. ibidem. permitamo-nos constatar a inversão total de perspectiva operada pela teoria aristotélica da ciência em relação à doutrina platônica. Met. perecíveis: caberia a um amplo estudo sobre o sistema aristotélico das ciências (e sobre as relações entre o necessário e o devir. não leva em conta a doutrina precisa dos seres matemáticos que Aristóteles formula no livro M da Metafísica nem analisa a significação última da doutrina dos Segundos Analíticos sobre a ciência e do uso paradigmático do saber matemático. 2. por seu lado. É verdade. como possa Aubenque (cf.) e. p. para Aristóteles.85). nos revelem a natureza da ciência e nos sejam caução de que a ciência é humanamente possível. 2. Met. da passagem do livro � que.322 seg. 4. não levou na devida consideração a doutrina dos Segundos Analíticos nem apoiou nela sua interpretação da doutrina aristotélica. p. desde o início (cf. da quantidade. �. e o mesmo texto. p. ser ciências. entretanto. citado acima.127 nela conhecendo seres necessários e eternos. 130 Cf.62-5). ibidem. 63 64 . de um ser necessário e eterno. A geometria. aquela outra apenas retoma. uma ciência impossível para o homem. todo o nosso comentário da noção de ciência proposta pelos Analíticos teve. Aubenque. Le problème de l’être. em conseqüência disso. A preocupação do filósofo. comme d’importance fort secondaire” nem a tomar tais passagens como “des réminiscences de l’enseignement reçu jadis à l’Académie dont il n’a pas su se défaire.. p. as conclusões matemáticas exprimem realmente “coisas necessárias e eternas”: tais são a doutrina aristotélica dos seres matemáticos e a doutrina mesma das categorias. por causa desta mínima parte do universo. E. as matemáticas são. 1061b19 seg. parece-nos. então. “paradoxalmente”.. como as celestes. 5. aliás.252). por causa do mundo celeste. em Aristóteles) colocar com precisão e resolver este problema. 6. S. Mansion. assim. n.130 o que aqui se pretende é apenas censurar quantos estendem a todo universo observações que fizeram sobre um pequeno número de coisas sensíveis. de uma ficção que lhes permitiria “imitar” o objeto da teologia e. Mansion. Mas em nada isto obsta a que as matemáticas. a “regarder les passages où il parle de l’éternité et de l’immobilité des choses même que le mathématicien étudie. segundo o qual deve partir-se na busca da verdade. mas ela nem mesmo é.99. não é a de fornecer um paradigma para a doutrina da ciência. ciência que os homens conseguiram. uma confusão do lógico e do real que é “sous-jacente à toute sa conception de la nécessité” (cf. entendera. de uma impossibilidade que é constatada e justificada de tal modo que “cette justification de l’impossibilité de la théologie devient paradoxalement le substitut de la théologie elle-même” (ibidem. acima. no plano de ligação entre conceitos e subordina a tal interpretação sua compreensão dos textos em que aparecem os exemplos matemáticos.239) falar do caráter “fictício” do objeto das matemáticas. critica Aristóteles por sua “confusion du plan de la pensée avec celui de la réalité”.487). porque dizemos “ser” em muitos sentidos. portanto. nos Analíticos. M. plenamente. Ora. cf. em última análise. que condenar o mundo celeste.86).. estudará os atributos que pertencem às coisas sensíveis “enquanto comprimentos e enquanto planos” (cf. que a necessidade característica da ciência se estabelece.129 para contestar toda interpretação que não veja na teologia astral o paradigma aristotélico da ciência. Met. K. A interpretação de Aubenque. como se depreende facilmente da leitura do contexto e. uma parte do Todo”. em que o autor pretende apoiar-se (Fís. 193b23-194a12) nega explicitamente (cf. como pretende a autora (cf. Met. Mas. mais qui ne sont pas liées aux principes qu’il professe”.99. então. Le jugement d’existence. a matemática é plenamente ��������. em mira dar ênfase ao caráter ontológico do necessário científico. 3. se Aubenque pode sustentar que. exemplificando com o fato de ter o filósofo dado “comme exemples de choses nécessaires et éternelles des conclusions de démonstrations mathématiques à côté de substances incorruptibles” (ibidem. submissas ao devir e.128 127 Cf. em meditando sobre ela. a doutrina aristotélica é bastante precisa para que não nos enganemos: os objetos matemáticos são. em verdade. porém – e este. portanto. foi porque. aliás. Restar-nos-ia responder a uma objeção que pretendesse apoiar-se no texto acima referido da Metafísica. das coisas em fluxo e mudança. por exemplo. II. E a leitura dos capítulos da Metafísica em que Aristóteles combate a concepção platônica dos seres matemáticos de modo nenhum nos leva. ibidem. Outro problema. K. n. S. cuja causalidade apreende. por assim dizer.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira é. nunca são de outra maneira e não. antes de descrevermos sob que forma tal conhecimento se nos apresenta. por certo. só a teologia é ciência (cf. mas a de recusar que se tome o mundo sublunar como paradigma do universo e indicar que é na necessidade deste último que se encontrará a verdade da contingência do primeiro e o fundamento do conhecimento de que ela é suscetível. precisamente. p. como já se sublinhou com in129 Cf. 1946.. entretanto. das coisas que. 1063a13-17. que. Ora. 1010a25-32.

2 e n. cuja função não é outra senão a de elevar a parte mais nobre da alma à contemplação do mais excelente de todos os seres. 522b-31c. para Platão. 532c. 438cd. ibidem. cada coisa. de coincidência entre o aristotelismo e o platonismo. 533d. precisamente. isto é. V. conhecem-no como em sonho. Rep. por isso mesmo. na ciência e na opinião.102. 2. Die Philosophie der Griechen.145 porque só ela tenta metodicamente apreender o que é. ibidem. Rep. 19637.. Teet. Sócrates examinará e refutará as hipóteses de Teeteto que definem a ciência como opinião verdadeira (cf. p. o universo físico e o Céu tendo ocupado o lugar deixado vago pelas Idéias em que não mais se acredita.147 Se lhes chamamos. até mesmo. para a qual qualquer outro caminho é impossível. por algo intermediário entre a ciência e a ignorância. Cf. qualquer que ele seja. no aristotelismo. VII. pela opinião (����). I.. porque só ela é 141 142 143 144 145 146 147 148 Cf. 478a. ibidem.. mais obscura que a de ciência:148 só a dialética realmente é ciência. de outra coisa. apesar 131 Cf. 312-3 etc. cf. se apreendem algo do ser. então. p. faculdades (��������) da alma e já distinguira as faculdades da alma segundo a natureza dos objetos de que se ocupam. isto é.135 E Platão distinguira entre o que absolutamente é (�����������) e é. Cf. 478a. ibidem. uma significação radicalmente diferente: é que o objeto do saber é.: a autora afirma mesmo que “Plus encore que Platon. portanto. não é menos verdade. 439e. os que concernem ao que é cópia daquele outro objeto serão apenas verossímeis. segundo Platão. V. sob seu impulso. também. Teet. 477ab. Tim.11 seg. 133 Cf. 139 Cf. d’éternité et d’immutabilité de la science” (ibidem. tais ciências não são senão o prelúdio de uma ária que só a dialética executa. que elas exprimem. Aristote insiste sur les caractères de nécessité. um dos resultados aparentemente mais paradoxais dessa transformação doutrinária é o novo estatuto das ciências matemáticas. totalmente outro. ibidem. guardou traços fundamentais da ciência. que a concepção de ciência. ibidem. Rep. que a algo são relativas:139 a Ciência em si é ciência do Objeto em si. assim como uma ciência particular e determinada o é de um objeto particular e determinado. Rep. 137 Cf. Cf..12). 29bc.137 Já recusara que pudesse a mesma coisa ser objeto de opinião e de ciência.141 Ora. por certo. 533b. V. p. respeito ao ser e não o conhece como é?132 Não concerne ela ao que é sempre a si mesmo idêntico?133 Pois como se atribuiria o ser ao que não está nunca no mesmo estado?134 Mas somente o que é é realmente cognoscível. 479e: ���������������������������. II. o interesse de Platão pelas matemáticas. Cf. não é senão em obediência ao uso comum. acima. Também. de fato. 134 Cf..143 E somente a homens nelas versados pode revelar-se a faculdade dialética. no aristotelismo.138 E classificara a ciência entre as coisas que são. em Aristóteles.. Rep. 135 Cf. mas outra devia. e que a presença do legado platônico é de uma irrecusável evidência. 477a. ser a sua denominação. uma mudança radical se consumara com a rejeição da doutrina das Formas. intermediário entre o que é e o que não é. Le jugement d’existence chez Aristote. cujo estudo tanto se desenvolveu. ibidem. Rep. E a República longamente se estende142 sobre essas ciências privilegiadas para a formação e educação dos guardiões do Estado. Cf.140 Entretanto. de todos esses pontos de aproximação ou. Zeller. Cf. IV. em Platão. se isso é verdade. 187b -201c )ou como opinião verdadeira acompanhada de razão (cf. V. não diz a ciência. 438b: �����’��������������������������� 140 Cf.131 Afinal. 531d-2b. incognoscível e o que pode ser e não ser.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira sistência. 65 66 . VI. absolutamente conhecível (�������� �������). proporcionalmente à verdade dos primeiros. Cf. Ninguém ignora. Rep. por natureza. 533a. 136 Cf. na Academia. ciências. Rep. que são as matemáticas. Crát. 1946. no Teeteto. o que não é e é. por isso. 477c-e. 201c-210b). V. 2. que.146 As matemáticas. 132 Cf. em si mesma.136 Já vira. que nos obriga a conferir a frases e expressões que permaneceram inalteradas e a doutrinas análogas.144 Mas. Mansion. também ele. incapazes de vê-lo à luz do dia. 138 Cf. E o Timeu falar-nos-á do parentesco existente entre os raciocínios e os objetos a que eles concernem: os que concernem ao permanente e ao que é firme são firmes e inabaláveis. 533bc.161 seg. conhecível.

que o conhecimento apodítico. também. uma forma de discurso em cuja mesma estruturação vamos encontrar transcritas as relações causais e necessárias que a ciência conhece. ríamos falar oportunamente. I. Logo veremos. cf. agora. tomando-as por paradigma. ou parece implicar? De início. o que se obtém mediante o silogismo científico. por que vimos definir-se a ciência: no silogismo. A mesma definição também nos Tópicos se encontra. no aristotelismo.151 Que nos revela esse texto e que conseqüências ele implica. 1140b33. por ora. não é apenas uma entre outras formas de ciência. 1. 150 Tudo isso supõe que o aristotelismo reconheça. ibidem. ibidem. E já no mesmo início dos Analíticos.152 E não somente é o discurso silogístico o seu instrumento mas constitui. ao contrário. 100b10. tal é. podemos. parece-nos dar a entender que se operará uma restrição provisória em nosso campo de estudo: limitar-nos-íamos. a doutrina aristotélica e o estudo desse tema ainda uma vez confirmará a interpretação que. Anal. Com efeito. é o discurso de que ela sempre se acompanha. do 152 Cf. 6. postas certas coisas. 67 68 . Anal. Anal. VI. então. Temos.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira capaz de ir ao princípio. aqui. que assistimos. Nic. interrogar-nos sobre o que é a ciência. I. di-lo-emos mais tarde. Os Primeiros Analíticos tinham-nos definido o silogismo: “Silogismo é discurso (�����) em que. Ét. chega-se a algo novo porque certas outras coisas foram postas e em resultado delas. II.149 Ora. 151 Seg. não são mais as matemáticas disciplinas que indevidamente usurpam o nome de ciência sem possuírem real cientificidade. I. em geral. 100a25-7. 2. 532ab. ao falar de demonstração ou silogismo científico. Donde podemos dizer. Não é a ciência o silogismo demonstrativo mas ele é o meio instrumental de sua efetivação. ressalvando embora a possibilidade de haver outra forma de conhecimento científico. vão os Segundos Analíticos explicar-nos. ��������� de pleno direito. propusemos. mas afirmamos conhecer. de científico aquele em virtude do qual. em verdade. o homem que busca pela dialética chegar à essência de cada coisa e não pára até que apreende. Assim. 533cd. Ocorre. cf. a plena autonomia das ciências matemáticas. atinge o próprio termo do inteligível. de fato. disperso agora o Ser segundo a tábua das Categorias. Chamo de demonstração o silogismo científico (��������������� chamo. precisamente. 19.1 A demonstração ou silogismo científico Exposta a noção de conhecimento científico e comprovada a sua correção e validade. distinguia-se o silogismo. Tóp. sob que forma tal conhecimento se nos apresenta: “Se também há. algo de diferente das coisas estabelecidas necessariamente resulta do fato de elas serem”. a uma revalorização radical do conhecimento matemático. em sentido próprio. o decurso do texto aristotélico mostrar-nos-á que a limitação de que partimos é apenas aparente e que. 1. 153 Prim. pela mesma inteligência. implicitamente já pressupomos que silogismos há que não demonstram e esta é. sem hesitação. que se não confundem esta causalidade e esta necessidade internas do silogismo qualquer com a causalidade e a necessidade científicas. a doutrina constante de Aristóteles nos Primeiros e nos Segundos Analíticos. o que o Bem é. uma outra maneira de conhecer cientificamente. conhecemos cientificamente”. então. apenas ao estudo da ciência demonstrativa. recusada pelo aristotelismo a doutrina do Bem e das Idéias “separadas”. 24b18-20. Seg. que o instrumento do conhecimento científico é uma espécie de silogismo que chamaremos demonstração. então. também. em si mesmo.150 3 Ciência e silogismo demonstrativo 3. como vimos. ocupando-se de uma esfera do real que plenamente apreendem e conhecem. esse discurso que caminha do que é previamente posto para algo de novo e diferente apresenta as duas características da causalidade e necessidade. de que deve149 Cf. 71b16-9. silogismo este cuja cientificidade se manifesta no mesmo fato de identificar-se sua posse (“por tê-lo”: ��������������) com o conhecimento científico. porém.153 Como tal definição de silogismo o mostra. por tê-lo. como necessária conseqüência. nenhuma outra forma há de ciência que não a demonstrativa. por outro lado. entretanto. Como adiante veremos. através da demonstração (��’����������).

Tal foi a posição de.. não insistir no caráter particular do silogismo demonstrativo.. Em importante artigo publicado em 1951. 24a22-b15. sem tentar atenuar a distinção que o filósofo claramente faz entre demonstração e silogismo.. 1. com efeito.. onde Aristóteles distingue as premissas do silogismo demonstrativo das do silogismo dialético. E. Reconhecêlo. que demonstração ou silogismo científico é aquele silogismo cuja causalidade e necessidade internas se ajustam à expressão da causalidade e necessidade que a ciência estuda. 24a10-1. quer se trate. p. É extremamente útil a comparação entre esse texto e o cap. em 72a9-11. a partir do fato de não aparecer o termo ����������� nos livros II a VII dos Tópicos. Com efeito. assim. como uma das razões para o desprezo histórico dos Tópicos de Aristóteles. como vimos. ibidem. porém.30). I. não julgamos. I. recusa-se. 1 do livro I dos Primeiros Analíticos: ambos. Prim. acima. 1965). os Primeiros Analíticos tendo em vista o silogismo em geral. retomou a posição de Maier e. pois. o emprego do silogismo pela dialética.283-315). reconhecendo-se toda uma esfera da silogística que não respeita à ciência. entretanto. Anal. porém. I. p. uma relação de necessidade entre premissas e conclusão (cf. e pelo desconhecimento do silogismo por parte da dialética aristotélica. conforme as mesmas palavras iniciadas dos Primeiros Analíticos indicam.. é levar a sério a contraposição que os Analíticos e os Tópicos. n. com Maier. p. Eapassagem dos Primeiros aos Segundos Analíticos é a passagem do estudo daquela silogística geral ao de uma silogística particular.159 154 Cf. mas nem todo silogismo é demonstração”. dever acompanhar o autor nas suas conclusões sobre o silogismo dialético. Anal. Tenhamos. Ou então. “La place de la logique dans la pensée aristotélicienne”.. Weil apontou. o silogismo erístico e o paralogismo em matéria científica. p.157 Temos. preferindo-se. 1962. Não cabe. Dentro da silogística geral. é apenas diferente o intuito com que o fazem. isto é. crê que a ordem do raciocínio dialético é oposta à ordem natural do silogismo. 1. uma investigação sobre o método dialético de Aristóteles e sobre sua utilização do raciocínio silogístico. Le problème de l’être. p. entretanto. perguntar onde encontra o filósofo fundamento para a afirmação de que é mediante a posse de uma certa forma do silogismo.156 E também os Segundos Analíticos confirmam-na explicitamente. o silogismo dialético. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics. part. então. naquele texto.6-23. só posteriormente formulando a teoria do silogismo científico. Nenhum argumento é invocado. Logique et méthode. diz respeito à ciência. 25b30-1. Introduction. estabelecem entre silogismo dialético e silogismo demonstrativo (cf. 1951. em que ele aparece. 69 70 . 71b23-5. 4. definem de modo idêntico o silogismo e ambos estabelecem uma distinção entre demonstração e silogismo dialético. Solmsen. I. Prim. pelo caráter tardio dos livros I e VIII. a unidade dos Analíticos e vêem-se. assim. que os Segundos Analíticos precediam os Primeiros no tempo e na doutrina e que o filósofo. De Pater. de fato. distinguir-se-á a premissa dialética da demonstrativa. E como vimos (cf. nega-se. Maier e F. mas entende também que a descoberta do silogismo demonstrativo não levou à substituição da dialética por uma nova técnica nem ao abandono do silogismo dialético. que não é senão um caso particular daquele: “Com efeito. de que vão minuciosamente ocupar-se. acrescentando que em nada importa tal diferença para a produção dos respectivos silogismos..154 Mais adiante. portanto. uma única região bem determinada. momentos diferentes do pensamento aristotélico. Weil.154-7) 3. a insistência dos estudiosos numa concepção errônea das relações entre a dialética e a analítica (cf. dita silogismo científico ou demonstração. para e. n. 100a21-4). o demonstrativo e o dialético. Algumas linhas mais adiante. N. 158 Cf. Mais recentemente. Posteriormente. que se obtém a ciência. em geral. 2. entre outros. ambas – e eis o que constituiria a essência do silogismo – apenas. I. Tóp. 1. Aubenque (cf. crê que “le syllogisme. Anal. De Pater dedicou toda uma obra à descrição e à análise dos Tópicos aristotélicos (cf.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira silogismo demonstrativo. entretanto. estudo sério e pioneiro nesse domínio.155 Em nada difere esta doutrina do que encontramos em outra parte do Órganon. contudo. em sentido inverso. insistindo-se na identidade da forma silogística. Solmsen. não somente o autor afirma a origem dialética do silogismo. para os quais o raciocínio dialético dos Tópicos representava uma primeira fase da lógica aristotélica. Le Blond. por aceita.70-2e. ou não. é que se minimizou freqüentemente a significação desse fato.2 O silogismo e as matemáticas Poderíamos. Les Topiques d’Aristote et la dialectique platonicienne.. concluindo. nos dois tratados que os compõem.256. ne constitue pas um procédé charactéristique de la méthode dialectique” (cf. Anal. que à ciência serve de instrumento (o que não impede que ambos os tratados reunidos constituam um todo cujo escopo geral. Seg. pretendia F.. 156 Em Tóp. 155 Prim. enquanto pretende que. aceitando embora a possibilidade de um silogismo não-demonstrativo. os Tópicos tendo em mira a determinação do silogismo dialético. n. somente mais tarde teria constituído uma teoria geral do silogismo. tendo a palavra “silogismo” muitos sentidos. às vezes. 159 Se nela insistimos. a nota anterior). I. 157 Cf. a cujo estudo o tratado se destina (cf. a especificidade da silogística demonstrativa. de demonstração. o silogismo tópico e o analítico representam duas espécies diferentes do silogismo que não possuem uma forma comum mas que apresentam. nos Tópicos. tendo primeiramente formulado uma doutrina da ciência.31). enquanto Maier cria ter Aristóteles daí evoluído para a descoberta do silogismo. nem sempre se reconheceu a significação do silogismo dialético. é o estudo da demonstração158 ). Leia-se a exposição sucinta e crítica dessas duas interpretações e uma discussão pormenorizada e pertinente das relações entre os Primeiros e os Segundos Analíticos em Ross. en tant que tel. os Primeiros Analíticos distinguem. reconhecendose embora a importância da dialética dentro da doutrina aristotélica. a demonstração é um determinado silogismo. Aristóteles distingue como espécies (�����������) do silogismo a demonstração.5). explicitase claramente a relação entre o silogismo e a demonstração. caminhar para a valorização do silogismo dialético. como duas diferentes espécies de silogismos. nos limites deste estudo. mas.

que mostramos ser importante. Mas Ross não leva em conta. a geometria e a ótica e. e para ele. particularmente. 11. a inferência silogística é imediatamente possível e a prova torna-se evidente. que a seguir propomos. Mas um tal estudo iria bem além do escopo deste livro. que o sistema silogístico dos três termos e das três proposições “constitue une sorte de vie organique. contêm exemplos sugestivos que nos ajudam a compreender como Aristóteles terá entendido a construção silogística do raciocínio matemático.79). 163 Cf. Met. efetuando a necessária “divisão” (���������) do espaço geométrico e das figuras. I. 1051a21 seg. agora. faz passar. temos que a soma dos ângulos do triângulo (CAB + ABC + BCA) é igual à soma dos ângulos em torno do ponto C (ACE + ECD + BCA. 94a28 seg. 162 Cf.161 E. por exemplo. quantas disciplinas empreendem a investigação do porquê”. 10. aos olhos de Aristóteles.. 1.. é também a biologia que serve de guia para alógica de Aristóteles: os exemplos matemáticos e o vocabulário de que o filósofo se serve nos Analíticos testemunhariam apenas de sua própria ilusão a esse respeito (Cf. nota ad locum). foi o comportamento efetivo das ciências existentes que permitiu. por exemplo. como.72 seg. o que era. Seg. assim como os ângulos ABC e ECD. Met. para o filósofo. do mesmo e do igual (cf. então sob um certo prisma a e b são uma só e a mesma quantidade. o princípio de que as somas de quantidades iguais são iguais. a quantidade a é a quantidade b. se a quantidade a é igual à quantidade b. algumas passagens. 161 Seg. donde parecer-nos lícito inferir que. �. �. em cujo comentário e interpretação do raciocínio aristotélico nos apoiamos.71-2). Vimos. uma vez efetuada a “divisão”. a garantia daquela afirmação? Não se trataria de uma interpretação passível de ser facilmente desmentida por quantos estudos têm procurado mostrar a origem biológica da lógica aristotélica?160 Eis. Le Blond. 2. Concluído mais este silogismo. ao argumentar sobre a maior cientificidade da primeira figura do silogismo: “De fato. devemos reconhecer que a efetiva validação de nossa reconstrução do silogismo aristotélico sobre a igualdade da soma dos ângulos do triângulo a dois retos. 1051a21 seg. p. a aritmética.. 79a18-21. entretanto. há pouco. enquanto o mesmo que ser. como se pode dizer que.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira corroborar ou provar aquela asserção. julga provável que Aristóteles tenha conhecido a proposição sobre a igualdade dos ângulos do triângulo a dois retos em sua forma euclidiana A construção geométrica. de proposições conhecidas. 1939. com efeito.. De fato. então. 2 e 3). terem sido as matemáticas o exemplo privilegiado de ciência já constituída sobre que se exerceu a reflexão aristotélica: estaremos. Mas. nos Analíticos e na Metafísica.. prolongando BC até D e traçando CE paralelamente a BA é obra do pensamento em ato do geômetra que. as ciências matemáticas por meio dela produzem suas demonstrações. Anal. também ao ato. 9. sobre os ângulos formados por secante a duas paralelas. p. 32 de Euclides). 160 Tal é. um desses exemplos. então.. 71a19 seg. O autor procura mostrar. por exemplo. em seu comentário. Aplicando. 9. também aqui. que o próprio filósofo vem textualmente declarar-nos. Logique et méthode. 14. enquanto somas de ângulos iguais. Ross (cf.. Le Blond partilha igualmente essa hipótese. então. uma vez tomado como objeto de reflexão e exame. tomadas como premissas maiores. I. 1086b34-6. até agora. se desvendasse seu modo próprio de operação. ângulo comum às duas somas). por outro lado. a posição de Brunschvicg (cf. 1947. Por outro lado. concluímos silogisticamente que são iguais os ângulos CAB e ACE. exigiria todo um desenvolvimento sobre a doutrina aristotélica do um.163 Seja o triângulo ABC. por assim dizer. podemos agora construir o silogismo (é a proposição I. II. Anal. Esclarecer-se-ia. �. qui est parallèle à l’existence des choses et qui donne le moyem d’en comprendre la genèse” (p. M. 71 72 . I.. por teorema anterior.162 Tomemos. Les étapes de la philosophie mathématique. o caráter silogístico da demonstração. Met. pretendendo que as matemáticas se nos revelam como uma forma de conhecimento que constrói silogisticamente suas inferências e que a análise da demonstração matemática é. o do teorema que prova serem iguais a dois retos os ângulos do triângulo.). simples potencialidade geométrica (�������).

Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira final da cadeia demonstrativa. precisamente. explicitamente. Maier. Por outro lado. Cf. quer das práticas e técnicas classificadoras da investigação biológica que a Academia já conhecia e que Aristóteles. que precede sua tradução do Político. pelas matemáticas.83 seg. no que concerne a uma provável influência das técnicas classificadoras ligadas ao emprego da divisão. a origem do silogismo aristotélico deve-se. 168 Já Hamelin criticava Aristóteles por não ter reconhecido. 1955. 1900. o da eventual correção ou incorreção da interpretação silogística do raciocínio matemático. 1051a24-5. Diès. p. p. assim. da divisão dicotômica166 ). quaisquer que tenham sido os caminhos que conduziram o filósofo ao silogismo – quer tenha ele nascido da reflexão aristotélica sobre as discussões dialéticas de que a Academia e o próprio Liceu foram o constante teatro ou de sua crítica aos processos lógicos da argumentação platônica (sobretudo.XXVI seg. �� 9. Ora. 73 74 . uma das melhores obras da historiografia aristotélica contemporânea..77). 1er. a forma da demonstração silogística. Les sciences naturelles”. que aí vê uma antecipação da doutrina kantiana da natureza sintética do procedimento matemático.165 É fundamental compreender este ponto para dissipar confusões que concernem à questão da relação entre o raciocínio matemático e a silogística. v. que. Segundo Maier.181).. 165 Met. Anal. Le Blond.. Toda soma dos ângulos de um triângulo é um ângulo de dois retos.168 outro problema – e este é o que aqui nos interessa – é o de saber como Aristóteles interpretou o raciocínio matemático. Manifesta-se. Hamelin. 1939. em introduzindo a sua causa próxima: “Por que são os ângulos do triângulo iguais a dois retos? Porque os ângulos em torno de um ponto são iguais a dois retos”. Com efeito. Tal é a interpretação aristotélica e tal é o prisma sob o qual. como menor. § 7: “Aristote et l’école péripatéticienne. que “les mathématiques échappent au syllogisme” (cf. p. isto é. 3.74-5. Le système d’Aristote. Ora. grandemente impulsionou. em Aristóteles. de Platão. à sua crítica do método platônico da divisão (cf. Reymond.) e que contém o texto e a tradução da famosa passagem do cômico Epícrates sobre a diligência classificadora dos jovens acadêmicos. 2. p. Histoire des sciences exactes et naturelles dans l’Antiquité gréco-romaine. aos olhos de Aristóteles. 19312 rev.164 o que é essencial na demonstração geométrica – o que é realmente demonstrativo – é a cadeia silogística que leva à conclusão final. o elemento doutrinal mais uma vez erigindose sobre a consideração do “fato” científico. por exemplo.3 O silogismo científico e o conhecimento do “que” Se o discurso científico assume. a crítica do método platônico da divisão.167 quer de qualquer outra origem – e seja qual for a aptidão ou inaptidão do silogismo para transcrever as inferências da geometria que Aristóteles conheceu. o exame dos processos de pensamento utilizados pelas ciências constituídas. se é importante “a significação da intuição da construção para a compreensão da prova”. como se sabe. por Aristóteles. a “Notice” de A. sobre a metodologia aristotélica.. por fim. ao método 164 Como se exprime Ross (cf.346-70. cf. 1ère Partie. vimos que os textos do filósofo são meridianamente claros: a seus olhos. Aristóteles elabora os Segundos Analíticos. em Prim. na Collection des Universités de France (“Les Belles Lettres”. também. p. revela-nos a natureza silogística do discurso científico. então. “puisque les essences mathématiques sont singulières”. a conclusão do silogismo que acabamos de demonstrar: Toda soma dos ângulos em torno de um ponto é um ângulo de dois retos. Chap. tomando como premissa maior uma proposição anteriormente conhecida (sobre a igualdade dos ângulos em torno de um ponto a dois retos) e. Logique et méthode. 167 Leiam-se as páginas que Bourgey consagra à “observação biológica” no seu excelente livro intitulado Observation et expérience chez Aristote. 1955. Sobre os “esquemas biológicos” utilizados por Aristóteles na constituição dos “quadros” de sua doutrina. a nosso ver. o da doutrina aristotélica sobre a demonstração matemática e. Die Syllogistik des Aristoteles. três problemas há que são totalmente distintos e se não devem misturar: o da gênese histórica do silogismo e de sua descoberta. onde Aristóteles o caracteriza como um “silogismo impotente” (46a32).. é natural que encontremos a terminologia silogística per166 Veja-se. 1051a32-3). nota ad �� 9. na Academia. Toda soma dos ângulos de um triângulo é uma soma dos ângulos em torno de um ponto.. I. p. II. 31.

por exemplo (de que se servem Bourgey (cf. S. essa distinção como uma distinção entre o “que” ou “se é”. Aristóteles. com as três figuras. lembrar-nosá o filósofo. sobre que condições se devem preencher para que um silogismo seja demonstrativo. no início do livro II dos Segundos Analíticos (cf.. em sentido absoluto.). a geometria. em toda a esfera dianoética. no entanto. p. 1955. 1139b26-7: “Todo ensinamento parte do que é previamente conhecido. que o resultado do conhecimento científico se nos dará. portanto. 3. II. 24a16 seg. cf. que variariam. Anal. simplesmente (cf.. II. 2. cap. 175 Cf. ou seja. diremos que toda demonstração exprime o conhecimento científico de um “que é” (���������). para que. entre o fato de algo ser algo (����������) e o fato de algo ser.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira manentemente presente na doutrina dos Analíticos sobre a ciência: teremos de haver-nos necessariamente com premissas e conclusões. 1. também. I. por conseguinte. Anal. V. 71a1-2 e todo o capítulo.175 é natural que o filósofo se interrogue. como. I. apesar de sua insólita aparência. interpreta. Além disso. cf. distingue entre a pergunta sobre o “que” (���) e a pergunta sobre se algo é (��������). “Sur la conception aristotélicienne de la causalité”. algo de algo (��������ou ���������). na tradução de cada passagem e que diriam muito mais (ou muito menos. Anal. Seg. Das condições de possibilidade da demonstração Se chegamos.172 Nesse sentido. A passagem inteira de 72a814 torna-se. I. 3. de nenhum outro. assim como. as condições de possibilidade da demonstração e.893-6). acima. 4.. Voltaremos longamente a esses textos no cap. Anal. em parte (����������) e o “que” ou “se é”. 176 Cf. em caso contrário: seja o de empregar perífrases. I. por exemplo). Mas não menos insólita era. desde o início. II.. Einaudi. 170 Cf. Robin (cf. perfeitamente concatenada e compreensível. VI. pela sensibilidade.. Organon. antes mesmo de abordar o estudo do conhecimento científico. 72a8-14. se o que se conhece cientificamente se exprime como conclusão desse silogismo e se esse silogismo não difere formalmente. contra Ross. I. necessariamente.173 O que facilmente se com169 Cf. lembremos. 174 Cf. 1946. 7. isto é. substantivada. no capítulo seguinte. 72a8-9 em ����������. 7. da ciência? Antes de acompanharmos o filósofo nesse novo passo.. 10. em sentido absoluto (�����). em a11. passagens há. por exemplo. 90b33-4. Anal. Seguimos Colli (Cf. 3.) do que disse o filósofo.. nos casos em questão. p. ao conhecimento científico através do silogismo demonstrativo. como termo técnico.1 e n. isto é. também. I. com as próprias palavras iniciais dos Segundos Analíticos.425) etc. então. ele se presta mal a traduzir a idéia aristotélica de que “algo é algo” ou de que “algo é.169 Compreendemos. com. Anal.176 Que assim se a utilizava. ao invés de ���������� dos outros códices. portanto.. V. Seg. Le jugement d’existence. isto é. e de Da Int. seja o efetivo instrumento do saber científico. Anal. onde quer que o conhecimento se exerça pelo pensamento e não. II. como dizemos. forjando seu vocabulário filosófico. em que a tradução “fato” seria absolutamente insustentável. ela é sempre do “que” (���). Em assim procedendo. 3. 172 Seg. Por isso mesmo. II.2. 1. simplesmente”. quando prefere.. provamos sempre algo de algo através do termo médio. acima. como vimos.. p. a questão preliminar que ele levantara. a33-6. 2. sob forma de uma atribuição: provamos cientificamente que tal predicado pertence (ou não) a tal sujeito.2. nos Analíticos”. Nic. também. cf. I. julgamos preferível a tradução literal (“que”). Seg.105). 2. Seg. 92b14-5. que proposição é uma ou outra das partes da contradição. em um dos quais teríamos forçosamente de cair.163. necessariamente. Torino. a maneira por que Aristóteles provará. também. 92b16. traduzione e note de G. afirmando ou negando um predicado de um sujeito. 75 76 . em nossas línguas modernas. agora. evitamos dois inconvenientes. 1942. Anal. p. com termos médios. seja o de utilizar um vocábulo como “fato”. por sua vez. ����������. de que algo é: “toda demonstração prova algo dealgo. exprimindo um conhecimento causal do necessário. 1. por vezes. Ét. 171 Cf.. n.103. ao falarmos da relação entre a demonstração e a definição. nos textos..4. não somente tal vocábulo tem. onde se retoma a doutrina de Prim. que é ou que não é” (����������� ���������). Mansion (cf. uma vez que é sempre a ciência relativa ao ser que ela conhece. b8-11 etc. também. in La pensée hellénique des origines àÉpicure. acima.. II. na língua grega..154. a lição do códice a. 89b36 seg. Colli. Seg. ao observar que. Introduzione. todo o capítulo). aprendizado ou transmissão de conhecimento sempre se efetuam a partir de um conhecimento prévio que já se possuía. Observation et expérience chez Aristote. ora. 5 e 6. Quanto à tradução de ���. 90b38-91a2.174 3.170 E. que. assim. o silogismo prova algo de algo através do termo médio”. 91a14-5: “com efeito. entretanto. Quais são. em que a partícula se emprega. acepções que em nada correspondem ao ��� aristotélico. observando-se como constrói suas demonstrações. 173 Cf. 1. Bourgey. na sua bem fundamentada correção do ���������� de Seg. sob a forma de conclusões dos silogismos ou de cadeias de silogismos (em que também servem como premissas de novos silogismos as conclusões de silogismos anteriores) e. p.171 a atribuição que a conclusão exprime não é senão a expressão.

II O saber anterior 1 As premissas da demonstração 1. enquanto os Segundos Analíticos não na apresentam como uma forma do raciocínio científico. assim. a pergunta que há pouco formulávamos sobre as condições de possibilidade da demonstração científica poderá. 12.1 Natureza das premissas científicas “Se conhecer cientificamente é. que o texto ao lado dos outros refere. 1. Com efeito. haverá silogismo mesmo sem essas condições. então. a partir daí. como veremos na ocasião devida. I. por outro lado. vê-se que os raciocínios todos. pois. 23. então. 68b13-4. Seg. quer dos exemplos ou entimemas retóricos. deixanos cientes de que também os conhecimentos que nos oferecem as ciências constituídas se desenvolvem numa progressão em que o pensamento discorre do que se conhece ao que se torna.177 partem sempre de algo que já se conhece:178 é de algo conhecido que para algo de novo caminha o conhecimento.Ciência e Dialética em Aristóteles passam as coisas. também os princípios (�����) serão apropriados à coisa demonstrada. mas não haverá demonstração. como mui corretamente se observou. imediatas. quer dos silogismos ou induções dialéticas. 178 Cf. 2. 71a2-11. praticamente. nesse seu passo. VI. é extremamente importante. o filósofo “consagra. II. 3. pois ele não produzirá ciência”. I. Tóp.1 Esse texto é fundamental para a teoria aristotélica da ciência e nenhum exagero há em dizer que todo o primeiro livro dos Segundos Analíticos se estrutura em comentando-o. 1139b26-8. Anal. 177 E toda convicção que em nós se produz provém sempre ou do silogismo ou da indução. Anal. Anal. I. Atente-se. Nic. Sob esse prisma. quer se trate das matemáticas ou de cada uma das outras ciências e artes. cf. anteriores e causas da conclusão. reformular-se: que conhecimento anterior é necessário para que se construa um silogismo científico? E. 179 Precisão esta que. também é necessário que a ciência demonstrativa parta de premissas verdadeiras. Ét. ao lado do silogismo (cf. sejam eles silogísticos ou indutivos. na esfera dianoética. 71b19-25. nos Tópicos. uma simples verificação indutiva poderá facilmente comprová-lo. o resto do tratado a justificar cada uma dessas notas propostas como as caracterís1 Seg. primeiras. uma das formas do raciocínio dialético. conhecido. visto que se constrói o silogismo sobre suas premissas: de que natureza são as proposições cujo prévio conhecimento nos torna possível erigir sobre elas a demonstração silogística? Propõe-se o filósofo a responder-nos. Prim.179 O exemplo mesmo das ciências matemáticas. acompanhemo-lo. pois. mais conhecidas. 77 79 . em que a indução se diz. pois. o capítulo todo). como estabelecemos.

imediata é aquela a que não há outra anterior.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ticas da verdadeira demonstração”. porque [subent. por exemplo. cf. de longamente comentá-lo. Organon). porque não é possível conhecer o não-ser. nós também. mas. A definição do termo pelo próprio Aristóteles (������ ��������������������������������������� ������������������������ �����������������������������������. pela compreensão.” 1. I. pois conhecer cientificamente. uma vez que são causas. Aubenque (Le problème de l’être. outra forma de ciência Antes de estudarmos em detalhe todas essas noções. 1. as mais próximas. 24a22-b3..4). pois. cap. Anal. também. em nosso entender. aliás. porém. I. I. às mais afastadas. Um princípio de demonstração é uma proposição imediata (�������. É preciso que sejam causas.. p. em não se tendo demonstração delas. 1. respectivamente.8 ‘Anteriores’ e ‘mais conhecidas’ dizem-se em dois sentidos: com efeito. I. assim. ���������. et elle doit se faire par la cause. de início. com efeito. não por acidente. A nosso ver.. nada justifica (cf. 140 etc. As mais universais são as mais afastadas. Anal. ad 100a30: “premisses probables”. as coisas de que há demonstração é ter a demonstração. 1.. I. 71a11-7: conhecimento da significação de um termo e conhecimento de que algo é (��������). cf. parece (= é o parecer de. por conhecer-se que a coisa é. 4 Cf. ou à maioria etc. Tóp.. do silogismo que parte de ������. ��’������”. 1.4.. Que se parta de premissas primeiras. n. que o traduz por “provável”. Das linhas acima transcritas uma coisa imediatamente resulta: é que o estudo das condições sine quibus non do conhecimento científico nos conduz diretamente ao exame da natureza particular das premissas do silogismo científico.. mais conhecidas e anteriores: causas. acima. a primeira. vol. não são idênticos o anterior por natureza (�����������������) e o anterior para nós (������������������) nem o mais conhecido (������������ [subent. 71b25 seg. Topica and De Sophisticis Elenchis. p. 1939. 1962. que sua significação primeira e fundamental diz respeito ao que é aceito (������������������).. I. Prim. indemonstráveis.258): “thèses probables”. cap. que também os Tópicos estabelecem. “verossímil” etc. mais il nous semble qu’on peut grouper tous ces caractères de la démonstration. autour de deux conditions essentielles: la démonstration doit partir de propositions vraies. L’opinion selon Aristote. I. I. e previamente conhecidas. a distinção entre a demonstração e o raciocínio dialético.. Régis. e não é de outro modo. adTóp. p. as individuais. Mais aceitáveis afiguram-se-nos as traduções de Pickard-Cambridge (The Works of Aristotle. Assim. também. sobre que se estruturam os silogismos correspondentes. o autor: “Nous ne le suivrons pas servilement. 100b21-3) mostra-nos. que elas sejam verdadeiras. o segundo.3 ser-nos-á preciso buscar na natureza especial das premissas científicas a razão da mesma especificidade do raciocínio demonstrativo.: de outro modo] não se conhecerá cientificamente. n. 1935. Chamo anteriores e mais conhecidas para nós às coisas mais próximas da sensação. Anal. 3. by W.4 caracterizando-os. 1. o temor de seguir “servilmente” Aristóteles e a recusa em acompanhar o progresso metódico do raciocínio do filósofo são. p. por repousar em premissas verdadeiras e primeiras (ou em premissas que se concluíram de premissas verdadeiras e primeiras). a opinião de) a todos. e opõemse umas às outras. I. 1939. 5 Julgamos preferível traduzir o termo ������� por proposição “aceita”. I... 100a27 seg. 2.5 Idêntico critério também preside à distinção inicial que os Primeiros Analíticos estabelecem. porque é quando conhecemos a causa que conhecemos cientificamente. 8 Aristóteles refere-se às duas formas de conhecimento prévio que distinguira em Seg. precisamente.. PickardCambridge) e de Colli (Aristotle.6 2 Le Blond.): “propositions probables”.83-6. se ocupa do silogismo dialético. Tricot. atentemos em que agora se patenteia para nós que o conhecimento prévio a todo 7 Cf. Como era de esperar. A. Press. 100a30: “opinions that are generally accepted” e “elementi fondati sull’opinione”. entre premissas demonstrativas e premissas dialéticas. premissa primeira e princípio (����). portanto. Partir de premissas primeiras (���������) é partir de princípios apropriados: identifico. Cremos não ser de pouca importância a tradução exata do termo para a correta interpretação da dialética aristotélica. Seg. não apenas da segunda maneira. que a diagonal é comensurável. 1.156. anteriores e mais conhecidas em absoluto (�����). entretanto.3 O conhecimento dos princípios.. a característica de “verdade”. Logique et méthode..: por natureza]) e o mais conhecido por nós (�����������������). Le Blond (Logique et méthode. isto é.): “probable”.74. os principais responsáveis por ter escapado a Le Blond a unidade coerente da doutrina aristotélica da ciência.2 Haveremos. 80 81 .2 Justificação de suas notas características A seqüência imediata do texto aristotélico7 é uma primeira justificação daquelas notas características e um primeiro esclarecimento sobre seu significado: “É preciso. acima. por fundar-se em premissas aceitas (������). 3 Cf. de fato. Acrescenta. que se privilegie.9 seg. rejeitando uma interpretação freqüente. Tóp. Oxford Univ. 6 Cf. dentro das premissas silogísticas. também anteriores. acima. a qual.

mas que a das premissas imediatas é indemonstrável”. que. 19. entre eles. VI. o caráter de um conhecimento anterior de proposições de determinada natureza.13 Nada mais acrescenta Aristóteles para justificar o fato de ter incluído a verdade como uma das notas características das premissas científicas nem. encontraremos. 100b5-17. a que faz corresponder o não-ser. Cf. prefere reservar tal apelação ao conhecimento demonstrativo. I. obtém conclusões exprimindo um necessário. que o nosso texto chama de princípios da demonstração e que diz indemonstráveis.. 19.12 Em sentido estrito.176 a 179. ao ensinar-nos a Metafísica que o ser (�����). exigido como sua condição sine qua non. das premissas primeiras. premissas primeiras dos silogismos demonstrativos. Convém. então. Nic. o último capítulo do tratado lembrar-nos-á. na esfera da ciência. 6. Quanto ao uso lato do termo “ciência”. tampouco. ao lado do ser por si (���’����) e do ser por acidente (���� ����������). assim. II. acima. I. diremos que toda ciência é demonstrativa e que o conhecimento científico é sempre um conhecimento discursivo. portanto. cf. 71b25-6. os quais. 82 83 . uma doutrina qualquer da verdade científica. inclui. a passagem final dos Analíticos.11 Temos.14 Ora. sas primeiras ou princípios previamente conhecidos pela inteligência. não pela ciência (��������).151. 13 Seg. porque não é possível conhecer o não-ser. II. I. Seg..1 e n. do ser em ato (��������) e em potência (�������). 2. por conseguinte. Julgamos preferível traduzir ���� por “inteligência” a traduzi-lo por “intelecto” ou “intuição”. também. um uso lato do termo ��������. opondo-a à demonstração. acima. mas pela inteligência (����): “haverá inteligência dos princípios”. claramente distinguindo entre o conhecimento causal do mediato e a apreensão do imediato. Anal.1 O ser e o verdadeiro. 100b7-8. tomado em absoluto (�����). no mais das vezes. por exemplo. um pouco depois: “Nós afirmamos que nem toda ciência é demonstrativa. que nele encontra o seu fundamento..Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles saber dianoético9 assume. como verdadeiro (���������). Seg. Anal. simplesmente. dentro da mesma esfera científica. i. dir-se-ão conhecidos. que o conhecimento desses indemonstráveis iniciais a partir dos quais o silogismo demonstrativo se constrói constitui aquela outra maneira de conhecer cientificamente (����������) a cuja eventual existência vimos o filósofo fazer alusão. 3. particularmente 1141a7-8: �����������������������������. que elas [subent. não nos será difícil descobrir por que isto ocorre e por que a doutrina analítica da ciência não aborda a problemática da verdade. 72b18-20. que não se demonstram. outros há que são sempre verdadeiros: “são sempre verdadeiras ciência e inteligência”. entretanto. que é o seu objeto. também o ser. por crermos mais fácil unificar sob aquele termo as diferentes significações que definem a expressão grega nos diversos textos em que o filósofo a emprega. então. dentre os estados ou “hábitos” que concernem ao pensamento e com que alcançamos a verdade. Compreenderemos. como dirá explicitamente. no pensamento e nas coisas “É preciso. Cf. é. que a diagonal é comensurável”. todo o capítulo. Ciência e verdade 2. se diz em muitos sentidos (��������). Anal.4 e n. Anal. que possa haver “ciência” das premissas primeiras ou princípios. por serem “mais conhecidos que as demonstrações” e porque “toda ciência se acompanha de discurso” (�������� �’����������������). enquanto uns também comportam a falsidade. 3. designando tanto o conhecimento que se obtém por demonstração como aquele outro.10 E. abrangendo também o conhecimento dos princípios. como a opinião e o cálculo. Ét. negando. como algo sobre que não pode pairar dúvida. 14 Seg. por este. I. esclarecer que esse uso mais amplo do termo não é o mais rigoroso e que Aristóteles. podemos dizer que ele lhe atribui a denominação de ciência eminentiæ causa: o conhecimento dos princípios será ciência porque anterior e superior ao conhecimento científico. 3.: as premissas] sejam verdadeiras. Com efeito. a partir de premis9 10 11 12 Cf. sob forma de silogismo ou cadeia de silogismos que. ao que vemos. no restante dos Segundos Analíticos.

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Ciência e Dialética em Aristóteles

como falsidade (���������).15 Assim, de modo semelhante nas afirmações e nas negações, ao afirmarmos que Sócrates é músico ou ao dizermos que é “não-músico”, estamos também dizendo que isso é verdade, do mesmo modo como, ao declararmos que não é a diagonal comensurável com o lado, estamos também dizendo que há falsidade em atribuir-lhe a comensurabilidade.16 E, como nos explicarão � 4 a � 10, o ser, como verdadeiro, e o não-ser, como falsidade, dependem de uma composição (��������) e de uma separação (���������) do lado das coisas (�����������������), ambos compartilhando dos membros de uma contradição:17 o verdadeiro afirma onde há composição, nega onde há separação, enquanto o falso concerne aos juízos respectivamente contraditórios. Assim, “está com a verdade o que julga que o separado está separado e que o composto está composto, incorreu em falsidade aquele cujo estado [subent.: do pensamento] é contrário ao das coisas”.18 A verdade e a falsidade não se encontram, então, nas coisas (�����������������) mas no pensamento (����������), o que nos permite dizer que o ser, como verdade, está numa combinação (��������) do pensamento e é, deste, uma afecção (�����),19 o juízo
15 Cf. Met. E, 2, com., 1026a33-5; 4, 1027b18-9; �, 7, 1017a31-2; K, 8, 1065a21. Como nota, com razão, Aubenque, �������������� designa, em E, 2, 1026a33, o “ser enquanto ser”, de que o capítulo precedente fizera o objeto da filosofia primeira (cf. Aubenque, Le problème de l’être..., 1962, p.164, n.2). 16 Cf. Met. �, 7, 1017a32-5. 17 Cf. Met. E, 4, 1027b18-23; �, 10, 1051b1 seg. Não cremos que Aubenque tenha razão (cf. Aubenque, Le problème de l’être..., 1962, p.165 seg.), quando interpreta, em 1051b2-3, ����� �’�������������������������������������������������, como se Aristóteles, aqui ao contrário de como procedeu em E, 4, falasse de uma verdade, ao nível das coisas. Ainda que o autor procure mostrar, no que tem razão, que nenhuma contradição real existe entre os dois textos, nem mesmo nos parece, entretanto, que haja contradição aparente: a seqüência do texto, em �, 10, e as expressões análogas às de 1051b2-3, em E, 4, 1027b21-2 (����������������� ��������������������), indicam claramente, a nosso ver, que não cogita Aristóteles de nenhuma “verdade ontológica” ou “pré-predicativa”, mas explica simplesmente que a verdade e a falsidade dizem respeito a juízos que retratam a composição e a divisão objetivas, ao nível das coisas. Cf., adiante, n.19 e 31. 18 Met. �, 10, 1051b3-5. 19 Cf. Met. E, 4, 1027b29-31; 34-1028a1; K, 8, 1065a21-3. Atente-se em que o texto de E, 4 não exclui, pelo fato de a isso não fazer alusão, que a essa combinação no pensamento corresponda uma composição nas coisas. Aliás, a seqüência do texto mostra-o, com clareza.

verdadeiro, imitando, pela sua mesma estruturação interna, a composição ou separação das próprias coisas. Mas, porque afecção do pensamento, “o ser, nesse sentido, é um ser outro que não as coisas que, em sentido próprio, são (��������������������)”,20 isto é, outro que não o ser das categorias.21 O ser, como verdadeiro, não é mais que um desdobramento, na alma do homem, do ser propriamente dito; se, sob esse prisma, diz respeito, em última análise, tanto como o ser por acidente, ao “restante gênero do ser”, ao ser por si das categorias, em si mesmo não constitui, porém, alguma natureza de ser “exterior”.22 “Verdadeiro é dizer ... que o ser é, que o não ser não é”.23 Por isso mesmo, porque, como nos diz � 10, “não é, com efeito, por julgarmos, com verdade, que és pálido, que tu és pálido mas, por seres pálido, estamos na verdade, ao dizê-lo”,24 quando Aristóteles, nesse mesmo capítulo ao introduzir o ser, como verdadeiro, apresenta-o como ������������, como “ser, no sentido dominante”,25 se não queremos tomar essas palavras como simples glosa ao texto a ser suprimida,26 deveremos interpretar esse “no sentido dominante” como “no sentido mais próprio”, “no sentido mais comum” em que se usa a expressão:
20 Met. �, 4, 1027b31. 21 Cf. Met. �, 7, 1017a22-4: “Dizem-se ser por si (���’����) quantas coisas se significam pelas figuras da atribuição (�������������������������); com efeito, quantas se dizem elas, tantas são as significações de ‘ser’ (�����)”. Para uma outra interpretação do último membro dessa frase, cf. Aubenque, Le problème de l’être..., 1962, p.170 e n.3. 22 Cf. Met. E, 4, 1027 b33-1028 a2. Por esse motivo, o ser, como verdadeiro (assim como, por razões outras, o ser por acidente) não será estudado pela ciência do ser enquanto ser, cf. ibidem, 1028a2-4; K, 8, 1065 a23-4. 23 Met. �, 7, 1011b26-7. 24 Met. �, 10, 1051b6-9. De modo que, como nos explicam as Categorias, (cf. Cat. 12, 14b1122), se é certo que uma relação de recíproca implicação se estabelece entre o real e o discurso verdadeiro que lhe concerne (por exemplo: se há um homem, é verdadeiro o discurso que diz haver um homem e, se tal discurso é verdadeiro, há um homem), é certo, também, que há uma anterioridade natural do ser sobre o discurso verdadeiro, a qual podemos, inclusive, descrever em termos de causalidade: “de algum modo, manifesta-se a coisa como causa de ser verdadeiro o discurso” (ibidem, l. 19-20), enquanto, de nenhum modo, é o discurso verdadeiro causa de a coisa ser. 25 Cf. Met. �, 10, 1051b1-2. 26 Como quer Ross, cf. nota ad locum.

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Aristóteles estaria, simplesmente, a dizer-nos que, dos múltiplos sentidos de “ser”, o que nos é mais imediato e comum e, sob esse ponto de vista, o mais próprio é aquele em que se toma uma frase como “Sócrates é músico” como expressão de que isso é verdade, anteriormente a qualquer especulação sobre a significação metafísica da proposição atributiva. Nenhuma contradição haveria, então, entre aquela afirmação e a de � 4, em que vimos o ser, como verdadeiro, dizer-se outro que não os seres ������, “em sentido próprio”, isto é, aqui: em sentido primeiro, fundamental do ponto de vista de uma filosofia do ser; trata-se, apenas, do uso, em sentido diferente, de um mesmo termo, que comporta, efetivamente, diferentes significações.27 Nem estaria Aristóteles a chamar ao ser, como verdadeiro, de “ser, por excelência” nem a cogitar de uma “verdade ontológica”, de um ser, como “abertura ao discurso humano que o desvela”.28

2.2 A inteligência e as coisas simples
Coisas há, entretanto, como as coisas simples (�������) e as qüididades, das quais, porque nelas não há composição (são �������� e, nelas, não consiste o ser num estar reunido, o não-ser, num estar separado29), nem mesmo se pode dizer que esteja na �������, isto é, no pensamento discursivo, a verdade que lhes concerne;30 não se dirá, portanto, que verdade e falsidade aí se encontram como no caso precedente:31 já que não é o mesmo o ser, também não será a mesma a verdade e o verdadeiro, aqui, será, tão-somente, um �����, uma apreensão pela inteligência, que é um entrar em contato (���������) com a coisa;32 não se formulará, a seu respeito, um juízo afirmativo (���������), mas dir-se-á a coisa numa simples enunciação (�����).33 Do mesmo modo, a falsidade será, para tais coisas, algo de diferente ou, melhor, não haverá propriamente falsidade nem possibilidade de estar-se enganado a respeito delas, mas, apenas, ignorância (������), um não entrar em contato com a coisa, um não apreendê-la pela inteligência (��������).34 De qualquer modo, também para as qüididades e para os simples, é ainda o ser propriamente dito que se repete na alma do homem. E sabemos que “assemelham-se os discursos verCf. Met. �, 10, 1051b17-21. Cf. Met. �, 4, 1027b27-8. Cf. Met. �, 10, 1051b21-2. Cf. ibidem, l. 22-24; 31-2; 1052a1. Ao contrário do que pretende Aubenque (cf. Le problème de l’être..., 1962, p.170), não corrige, aqui, Aristóteles “la théorie du livre � selon laquelle il n’y aurait vérité ou erreur que là où il n’y a composition et division”. Ocorre, simplesmente que o livro � não aborda o problema da verdade e falsidade nos simples e qüididades, limitando-se a dizer que, no que lhes respeita, nem mesmo na ��������se encontra a verdade (cf., acima, n.30), deixando ao livro � a explicação de que compete ao �����apreender tais coisas e ser, portanto, o lugar de sua verdade. Mas não viu a maioria dos autores que Aristóteles opõe à ��������o �����, de 1051a32, 1052a1. A comparação desses textos com Da Alma III, 6, é, a propósito deste ponto, extremamente elucidativa: “a intelecção (������) dos indivisíveis (���������) ocorre nas coisas a cujo respeito não há falsidade; naquelas em que há tanto falsidade como verdade, já há uma combinação de noemas como a formar uma unidade” (430a26-8). 33 Cf. Met. �, 10, 1051b24-5. 34 Cf. Met. �, 10, 1051b25-8; 1052a1-3. 29 30 31 32

27 Da mesma família lingüística que ������ (o que tem autoridade, senhor, mestre, soberano), o advérbio ������, na linguagem aristotélica, aplicado à significação de um termo, “ipsam propriam as primariam alicuius vocabuli notionem, proprium ac peculiare alicuius notionis nomen significat” (Bonitz, Index, p. 416a56 seg.). Assim, �������designa apenas o uso próprio da expressão em oposição a seu sentido metafórico, ao seu uso ���� ���������, isto é, não um sentido ontológica ou epistemologicamente primeiro mas, simplesmente, o sentido literal, cf. Tóp. IV, 2, 123a33-7 (o gênero atribui-se às espécies em sentido próprio e não, por metáfora); VI, 2, 139b2 seg. (os termos de uma definição correta, para serem claros, devem empregar-se em sentido próprio e não, em sentido metafórico); 140a7, 13, 16; VIII, 3, 158b11-2; Ref. Sof. 4, 166a16. Entretanto, ao falar das acepções �������de natureza (por exemplo, em Met. �, 4, 1015a14), de necessário (por exemplo, em Met. �, 5, 1015b12), ao dizer-nos que o ato é �����������anterior à potência (cf. Met. �, 8, 1050b6), Aristóteles refere-se ao sentido “dominante”, próprio, primeiro, fundamental desses vocábulos, enquanto significam o que é primeiro e fundamental no mesmo real, tal como o filósofo o concebe. Ora, quer parecer-nos que, quando Aristóteles fala, em Met. �, 10, 1051b1-2, do ser, como verdadeiro, como ������������, ele usa o termo numa acepção paralela àquela em que o emprega nos primeiros textos acima citados: não, propriamente, para designar o uso literal oposto a um uso metafórico do termo, mas, antes, o uso comum, em oposição a uma significação mais elaborada, um sentido mais literal e imediato em oposição, por exemplo, a uma significação filosófica. É, aliás, a interpretação que, também, parece sugerir Jaeger para a passagem, em questão, de Met. � e que Ross rejeita (cf. nota ad locum). Julgamos, com efeito, que uma tal leitura suprime toda a dificuldade do texto, sem corrigi-lo, mantendo ao mesmo tempo sua coerência interna e sua concordância com Met. �, 4. 28 Cf. Aubenque, Le problème de l’être..., 1962, p.168-9.

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dadeiros a como são as coisas”.35 Compreendemos, então, por que pode o filósofo usar da linguagem da verdade para falar das próprias coisas,36 dizendo, por exemplo, dos primeiros que se deram à filosofia, que eles buscavam “a verdade e a natureza dos seres”37 e aprovando que se chame à filosofia “ciência da verdade”:38 pois “como cada coisa é em relação ao ser, assim também é ela, em relação à verdade”.39

2.4 A ciência, sempre verdadeira
Sob esse prisma, é-nos lícito, pois, dizer que estudar o que são arte, ciência, prudência, sabedoria, inteligência, é estudar aquelas virtudes “por meio das quais a alma humana, afirmando ou negando, está naverdade”.45 Ciência é a disposição ou estado por que a alma humana possui a verdade, sob forma demonstrativa. Pois não é ela conhecimento efetivo, mediante a demonstração silogística, do ser necessário, a partir de sua determinação causal? Dos seres que comportam a composição e a divisão, diz-nos o livro ���� uns sempre estão compostos e a separação é, neles, impossível, outros estão sempre divididos e nunca poderão compor-se, outros, enfim, há que comportam ambos os contrários, a composição e a separação; ora, forçoso é, então, para os que assim podem ��������������) uma e outra coisa, que sejam ora verdadeiros, ora falsos, a mesma opinião e o mesmo discurso que lhes concernem;47 mas, para os seres em que essa contingência se não encontra, para os que não podem ser de outra maneira (���������������� �����), serão sempre verdadeiros ou sempre falsos os discursos que lhes respeitam. Apreensão real de uma composição ou divisão eternas, a ciência, tanto como a inteligência, é, então, sempre verdadeira.48 É a “separação” eterna entre a diagonal e a comensurabilidade com o lado do quadrado que ela apreende “porque não é possível conhecer o não-ser, por exemplo, que a diagonal é comensurável”.49 “Repetindo”, então, na alma, desde as suas premissas, o ser “exterior”, partirá necessariamente a ciência de premissas verdadeiras.50 Pelas razões que vimos e não por alguma necessidade interna da silogística, pois sabemos ser possível obter silogisticamente conclusões verdadeiras,
45 46 47 48 49 50 Ibidem, 3, 1139b15. Cf. Met. �, 10, 1051b9-17. Cf., acima, I, 1.1 e n.27 a 31. Cf. Seg. Anal. II, 19, 100b7-8. Seg. Anal. I, 2, 71b25-6; cf., acima, II, 2.1 e n.13. Veremos, entretanto, mais adiante, que a verdade dos primeiros princípios da ciência diz respeito, não à composição e à divisão, mas à outra forma de verdade, à apreensão de �������� (cf., acima, II, 2.2 e n.29 a 33).

2.3 A verdade, função da razão humana
Por outro lado, uma vez que chamamos de virtudes aqueles estados ou “hábitos” (�����)40 que permitem aos seres o perfeito cumprimento de sua tarefa ou função (�����) própria,41 havemos de chamar virtude, no homem, o estado ou “hábito” segundo o qual ele realiza aquele ato da alma conforme à razão, em que consiste a função que lhe é absolutamente própria.42 Mas, em que consiste essa tarefa própria da razão humana ou, para servir-nos da linguagem aristotélica, qual a tarefa da parte racional da alma do homem?43 Responde-nos o filósofo: “De ambas as partes noéticas a função é a verdade. Portanto, os ‘hábitos’ ou estados segundo os quais cada uma delas mais alcançar a verdade serão as virtudes de uma e outra”.44 Em outras palavras, o homem, enquanto razão, tem na verdade a sua função, na posse dela, a sua virtude.
35 Da Int. 9, 19a33. Em verdade, o texto diz respeito aos futuros contingentes: a indeterminação das proposições quanto à sua verdade ou falsidade reflete, apenas, uma indeterminação real das próprias coisas. 36 Cf. Bonitz, Index, p. 31a39 seg.: “Quoniam ��������in eo cernitur, ut cogitatio concinat cum natura rerum [...], nominis usus modo ad ������et�����������, modo ad cognitionem et scientiam vergit”. V. as numerosas referências coligidas por Bonitz. 37 Fís. I, 8, 191a24-5. 38 Cf. Met. �, 1, 993b19-20. 39 Ibidem, l. 30-31. No Teeteto, de Platão, também Sócrates leva o jovem Teeteto a admitir que, se não se atinge a essência (�����), também se não atinge a verdade e não se pode, portanto, ter ciência, cf. Teet., 186c. 40 Sobre a noção de �����, cf., acima, cap. I, n.63 e 64. 41 Cf. Ét. Nic. II, 5, com., 1106a14 seg. 42 Cf. Ét. Nic. I, 7, 1098a7 seg. 43 Cf. Ét. Nic. VI, 1, 1139a5 seg. Cf., também, acima, cap. I, n.71. 44 Ét. Nic. VI, 1, 1139b12-3.

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também, de premissas falsas.51 E é a presença necessária daquela verdade que o filósofo tem em mente, quando opõe as premissas do silogismo científico às do dialético:52 a premissa científica assume, de modo definido (���������), uma das partes da contradição; assume-a o que demonstra e não interroga o interlocutor, como o dialético, que, por isso mesmo, partirá de uma ou de outra de duas proposições contraditórias:53 é que a demonstração científica concerne sempre à verdade, não à opinião.54 E o filósofo poderá, mesmo, dizer que “como se dispõe a ciência, assim também o verdadeiro”.55 Desdobramento efetivo do real na alma segundo as suas mesmas articulações, a ciência se confunde, formalmente, com o seu mesmo objeto, ela é a sua presença no homem: como “a alma é, de um certo modo, todos os seres”,56 “a ciência em ato é idêntica à coisa”.57 Compreendemos, então, que não há como não convir em que é um “próprio” da ciência, enquanto tal, o não poder despersuadi-la o discurso.58 Trata-se, por certo, antes de tudo, do discurso interior, daquele que, segundo o Sócrates do Teeteto, “a própria alma consigo mesma discorre sobre as coisas que examina”,59 porque, como diz Aristóteles, “não é ao discurso exterior que concerne a demonstração, mas ao que está na alma, já que é assim, também, com o silogismo”.60 Os textos tornaram-nos, assim, evidente que a problemática da verdade concerne, no aristotelismo, em última análise, à ciência da alma. Pois, dentro de sua perspectiva realista, a verdade não é senão repetição “formal”, no homem, do ser “exterior”; inclinado natural51 52 53 54 55 56 57 Cf. Prim. Anal. II, cap. 2-4. Cf., acima, II, 1.1 e n.5 e 6. Cf. Seg. Anal. I, 2, 72a9-11; Prim. Anal. I, 1, 24a22-b3; Tóp. I, 1, 100a27 seg.; Ref.Sof. 11, 172a15 seg. Cf. Prim. Anal. II, 16, 65a35-7; Seg. Anal. I, 19, 81b18-23 etc. Ret. I, 7, 1364b9. Da Alma III, 8, 431b21. Ibidem, 7, com., 431a1-2; cf. 4, 430a2-9. Quanto à noção de “próprio” (�����), um dos quatro praedicabilia aristotélicos, cf. Tóp. I, 4, 102a18 seg. 58 Cf. Tóp. V, 4, 133b36-134a3; 2, 130b15-8; Seg. Anal. I, 2, 72b3-4: “se é preciso que o que conhece cientificamente, em sentido absoluto, não possa ser despersuadido” (������������������). 59 Teet., 189e. 60 Seg. Anal. I, 10, 76b24-5.

mente à verdade,61 o homem alcança-o, por exemplo, na ciência: caberá à análise da faculdade intelectiva do homem mostrar como isso se dá.62 Mas, à teoria analítica da ciência, que se ocupa da estrutura interna do discurso demonstrativo, bastará lembrar que o conhecimento científico é sempre necessariamente verdadeiro.

3 O “que” e o porquê
3.1 As premissas, como causas
Além de verdadeiras, são as premissas causas da conclusão do silogismo científico, o que é imediatamente manifesto pela própria noção de conhecimento científico, “porque é quando conhecemos a causa que conhecemos cientificamente”.63 É certo que, em qualquer silogismo corretamente construído, são as premissas causa material, isto é, a causa “a partir de que” (�����) da conclusão,64 e não o serão menos, portanto, no silogismo demonstrativo. E, em qualquer silogismo, também, uma vez que, “com efeito, o silogismo prova algo de algo através do termo médio”65 e que “de um modo geral, com efeito, dizemos que não haverá jamais silogismo algum, atribuindo uma coisa a outra, se não se toma algum termo médio que, de algum modo, se relacione com uma e outra pela atribuição”,66 é o termo médio, contido nas premissas, causa da conclusão. É sempre por ele que é necessário provar67 e, se algo se conclui que não tenha sido provado por termos médios, é sempre ainda possível perguntar o porquê (������) de tal conclusão.68 Provaremos assim, por exemplo, num silogismo afirmativo, que A
Cf. Ret. I, 1, 1355a15-6. Cf. Da Alma III, 4 seg. Seg. Anal. I, 2, 71b30-1. Cf. Met. �, 2, 1013b20-1; Fís. II, 3, 195a18-9. Seg. Anal. II, 4, 91a14-5. Prim. Anal. I, 23, 41a2-4. Cf. Seg. Anal. II, 6, 92a10. Cf. Seg. Anal. II, 5, 91b37-9.

61 62 63 64 65 66 67 68

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l.70 porque a ciência apreende. 1045a33-36). 3. como veremos. 78a22-b34 e 78b34-79a16. não aparece em todo o Organon). 19. Pars II.2 Silogismos do “que” e silogismos do porquê A nítida distinção entre aquelas duas causalidades. 6. Propõe. Ioannis Philoponi. com efeito.3 e n. da contingência. a metade de dois retos (cf. não usa Aristóteles o termo ��� para designar a causa material (o termo. como estranhamente se pretendeu. a causalidade “externa” das coisas. incluindo.74. entretanto. opõe as premissas matemáticas à causalidade material no devir físico.71 podendo este exprimir. exprimindose nas premissas do silogismo matemático. jamais se poderia utilizar. num sentido mais lato. através de outros termos médios. a causalidade material. como diz Filópono (cf. ao contrário da materialidade física. 73 Cf. 94a20-4. Anal. mais provável que Aristóteles esteja apenas oferecendo uma transposição. enquanto. 71b13-6 a possibilidade de raciocínios científicos falsos! Entendemos. Anal. exige-se.. 334. implicitamente.. Anal. pois “há diferença entre conhecer o ‘que’ e o porquê”. p. como. E. IX.. a Física (cf.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles pertence a C por pertencer a B e este. Adolphus Busse). uma referência à definição de silogismo dada em Anal. Met. a materialidade matemática. a causalidade real que a ciência conhece. a C. necessitar a conclusão. em seu lugar. 13. 9. entre os silogismos do “que” (���) e os do porquê (�����). acima. Proemium. vol. que “a causa é o termo médio”. 2. Em verdade. então. Thomæ Aquinatis inAristotelis libros Peri Hermeneias et Posteriorum Analyticorum Expositio. vendo naquela expressão.. I. p.). tomando. 1939. 21-2: “aquilo que.494). ainda que sem maiores precisões a seu respeito. pela determinação causal. XIII. mas é por este necessitada: em outras palavras. que se interprete o ����������������������������� de Seg. é aqui usado. I. para a cientificidade do silogismo. cf. 12. n.��. Marietti. se algumas coisas são. antes. reconhecido. Ora. com. 94a212. no devir físico. 9. comparando a necessidade no raciocínio matemático à necessidade que comporta o devir natural das coisas físicas. a primeira causa. Em sentido absoluto. o fato de que a demonstração se faz pela causa não independe do valor objetivo das premissas. assim. 4): ��������������������������������� ���������������������������������������������������� �������������������������������������������� ������������������������������������������� �������������. mas a ciência do porquê concerne à pri- �����) de que fala o filósofo em três passagens da Metafísica (cf. no entanto. 11.. respectivamente. Anal. 70 Cf. ela parece-nos bem menos satisfatória. Sobre a tradução de ��� por “que” (conhecer-se que algo é).92.. II. 13. sabemos já que nem todo silogismo é científico e que a demonstração é apenas uma espécie particular do silogismo. quando eles são considerados por diferentes ciências. num silogismo físico. Seg. ibidem. então. 283b4-5).. II. e Per. nas matemáticas. 1. I. Anal. o que não é de estranhar. Tem-se a primeira “se não procede o silogismo por premissas imediatas (��’������) (não se assume. aliás. portanto. mas falará. 69 Cf. então. 74 Seg. e poderemos. l. 2. que traduzimos simplesmente por “conhecer”. 78a22. o outro.75 No que concerne à esfera de uma única ciência. Anal. agora. porém. de serem as premissas. que “a matéria é causa do ser e não ser” (Céu. in Post. Quanto à interpretação de Ross. 1036a9-12..). da oposição matéria/forma. Para exemplos de silogismos concernentes a cada uma das causas. leia-se todo o capítulo. por isto. acima. Seg. 28 seg. em seu comentário a Seg.74 Aristóteles considera dois casos distintos: um primeiro. pode. são realçadas pela distinção que o filósofo introduz. I. I. que não é rigorosamente científico. eventualmente. também.73 3. igualmente provar que A pertence a B e B. na premissa. o ser necessário. 1. quando os conhecimentos do “que” e do porquê dizem respeito ao domínio de uma mesma ciência. Le Blond. S. Anal. e o exemplo dado é o de um silogismo matemático em que se prova que o ângulo inscrito num semicírculo (C) é um ângulo reto (A). 24b18-20. a causalidade hipotética da matéria não necessita o fim. mostrando. porque.1. no sentido daquela materialidade inteligível (��� na demonstração. um conhecimento como o do simples “que”.72 Porque a causalidade internadosilogismo transcreve. Seg. no interior do domínio científico. precisamente. 2. Prim. I. II. 3. I.1 e n. duas são as possibilidades aventadas de ocorrer apenas um silogismo de “que”. II. é necessário que seja”). Santo Tomás (cf. in Aristotelis Analytica Posteriora Commentaria (Commentaria in Aristotelem Græca edita consilio et auctoritate Academiæ Regiæ Borussicæ. com. Logique et méthode. a C. 81b10 seg. II. é causa para os seres que se geram o que é capaz de ser e de não ser” (Ger. acima. que sua interpretação daquela passagem é absolutamente inaceitável e que esta não pode ser compreendida senão como. à luz do exemplo matemático proposto. ed. por termo médio (B).. de ��������������������������’����� (l. I. 10. 92 93 .173. cf. 11. Pretende o autor que o próprio Aristóteles teria. 1037a4-5. ����������. que a causalidade que lhe é própria recubra e exprima. 200a15 seg. I. II. Cremos. se se recorda que “como matéria . 90a6-7.. acima. Fís. 11. 335a32-3). em Seg. Por outro lado. 75 Cf.69 destarte construindo uma cadeia silogística em que as premissas de um silogismo são conclusões de silogismos anteriores. a compreendemos. engendrase necessariamente a conclusão. com. isto é. Anal. os diversos prismas sob que se pode abordar a causalidade que engendra uma coisa: as causas todas de uma coisa poderão exprimir-se pelo termo médio.. diremos. II. 72 Cf. necessária e eterna. Anal. assim como sua coincidência no silogismo científico. 71 Seg. 11. para o domínio matemático. �.

cada um de seus elos. a série ascendente das causas constitutivas do processo que o engendra. a causa próxima: Aristóteles imagina um silogismo como o seguinte: “H pertence a E. 3. cada um dos silogismos que a compõem – e não apenas o silogismo inicial – contém uma premissa imediata. adiante. por exemplo: “H pertence a Z. Seg. se “E pertence a S” tiver sido provada por silogismo anterior. 3. por exemplo. A expressão �������������.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles meira causa (���������������������))”. 1. Seg. Mas. designa obviamente. 94 95 . que tal aconteça e que. em que se exprime a causalidade próxima da coisa a demonstrar. No texto que comentamos (Seg. I. . Met. designa. Como veremos. Isto significa que somente este outro silogismo: B pertence a A (o que está próximo não cintila) A pertence a C (os planetas estão próximos) B pertence a C (os planetas não cintilam) 79 Cf.78 76 Ibidem.76 O que significa. a não-cintilação) não é a causa da proximidade dos planetas mas. nesse sentido. ainda que partindo de premissas verdadeiras e exprimindo um processo causal verdadeiro. seria necessário que “H pertence a E” fosse uma premissa imediata para que se tratasse de um autêntico silogismo do porquê. Anal. por outro lado. que. mais facilmente. 4. 2. ainda que tal silogismo proceda a partir de premissas verdadeiras e que sua premissa maior. nos quais se exprimem as causalidades imediatas (cf. por exemplo. o seguinte silogismo: A pertence a B (o que não cintila está próximo) B pertence a C (os planetas não cintilam) A pertence a C (os planetas estão próximos) Ora. acima.. primeira de uma coisa (vejam-se exemplos em Fís.77 Donde podermos compreender estar o filósofo a implicitamente dizer-nos (ainda que. isto é. na linguagem aristotélica. o seguinte raciocínio: designemos “planetas” por C. I. o número de princípios da ciência não é muito inferior ao das conclusões que ela obtém e. aquele primeiro silogismo. 13. “não cintilar” por B e “estar próximo” por A e sejam A e B reciprocáveis.304 a 309 e 319). então. causa próxima de H. 1. ao contrário. II. esta última premissa também se demonstra mediante um outro termo médio (Z. IV (cf. não o explicita segundo as suas articulações imediatas e. atribuir A a B (o que não cintila está próximo) ou B a A (o que está próximo não cintila). a partir do efeito. se. obtida da percepção ou por indução. pode-se. 13. IV. seu termo médio (B. provando-se a causa pelo efeito. E pertence a S. constituído o edifício científico mediante uma cadeia silogística demonstrativa (na qual as conclusões dos silogismos que se vão obtendo passam a figurar como premissas para novos silogismos). de fato. não é expressão científica de um conhecimento do porquê. ao número de termos médios que uma cadeia silogística assume correspondem outros tantos princípios da demonstração. I. É perfeitamente possível que a nãocintilação dos planetas nos seja mais conhecida que sua proximidade – e é mesmo natural que isso ocorra – de modo que construiremos. IV. se é certo que o que Aristóteles chama de premissas imediatas são as premissas primeiras ou princípios. Anal. a sua causa primeira.). sendo mais conhecido o que não é causa. 78 Cf. ainda que seja verdadeira sua conclusão e que se tenha ela obtido no interior de um domínio científico determinado. no cap. isto é. Seja. Anal.2. por serem causa e efeito reciprocáveis e o efeito. indistintamente. ainda que uma de suas premissas seja imediata). não basta. 78a25-6). II. 983a25-26. omitida Z. para possuir-se um autêntico silogismo do porquê. isto é. seja uma premissa imediata. 1003a31) como a causa mais próxima. 2. 77 Se se considera.).6 e n. ainda que proceda o silogismo por premissas imediatas (ou melhor. por este se construa a demonstração. em outras palavras. que o raciocínio explicite um processo causal de que resulte o fato expresso na conclusão mas é. 78a26 seg. como é sabido. tanto a causa mais remota e. dizemos que há silogismo do “que”.79 quando. por enquanto. 72a5-7. 339a24. 184a13. Meteor I. ao contrário. porém. não se produz ele pela causa. �.287 seg. H pertence a E”). como todos reconhecem. a partir do efeito (como. 765b6 etc. em Fís. não reproduz sua causalidade interna a causalidade real das coisas. �. mas o efeito. Z pertence a E. 4. 1. 78a24-6: ���������’ ����������������������������������������������������������������� ���������������������������������������������). 194b20. H pertence a S. primeira em sentido inverso. . também. isto é. nesse sentido. não é a causa que lhe serve de termo médio. 1. num segundo sentido da expressão.6 e n. não no-lo explique suficientemente) que a expansão do conhecimento científico mediante a construção de novos silogismos implica a continuada introdução de novos princípios.” Ora. mais conhecido: nada impede. I. IV. Ger Anim. preciso que se exprima como termo médio a causa mais próxima ao efeito em questão. adiante. é o efeito dessa proximidade: é porque estão próximos que os planetas não cintilam..

. ibidem. l. vimos o filósofo dizer-nos. 96 97 . 83 Aristóteles assimila. a possibilidade de abordarem-se as questões pertinentes ao domínio científico por raciocínios que. E.76 a 78). Logique et méthode. por isso. a esfera do raciocínio estritamente científico mas. Seg. 81 Cf. isto é. que provasse.. Anal. I. também. com. mas pelo “que” (tendo como termo médio o menor cujo “que é” o verdadeiro silogismo da causa conclui). p. I. deveríamos. I. é preciso reconhecer que.. que também no primeiro sentido acima descrito (cf.199-200. quanto ao primeiro. verdadeira.53. em que se atribui um fato a uma “causa” distante e que não é. dada a reciprocabilidade entre causa e efeito.2 e n. em Seg. 78b28-31.3 A ratio cognoscendi e a ratio essendi A análise dos exemplos e explicações aristotélicas sobre a diferença entre os silogismos do porquê e do “que” deixa-nos..87 E isto. portanto. 78b11-3. nesse segundo sentido em que se tomam tais expressões.83 3. de muito. unicamente.. entretanto. se. II. p. II. “a razão lógica coincide com a causa real. necessárias. a esses raciocínios certas argumentações hiperbólicas. 1962. exprimindo por seu termo médio a causa real que engendra o “que” expresso em sua conclusão. de compreender certos processos de conhecimento nos quais se efetua uma abordagem pré-científica do objeto da ciência. II.81 só nos é possível um silogismo do “que”. inversamente. sobretudo.84 só o silogismo do porquê é realmente científico. dizendo-se. por eles. 13. Essai sur les éléments principaux de la représentation. “se não é possível [subent.80 Se pudemos exemplificar um caso em que. era-nos fácil construir o silogismo da causa. uma “demonstração” do “que” e não do porquê. a que não se faz pela causa. Isso ocorre. Seg. que nada mais faz do que imitar os silogismos da natureza”. mediante uma grande diversidade de casos e exemplos. manifesto que. o que é falso. não é ele senão um silogismo do “que”. realmente. 87 Hamelin. 1939. p. 13 seg.105. Aristote et son École. a demonstração pela causa é do porquê (������). quem se serve da última não conhece o porquê da coisa (cf. mesmo. se há animais que não respiram. Anal. quando aquilo que nos é mais conhecido não 84 Cf. ainda. Anal. procedente não pela causa. 86 Moreau..Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles é realmente um silogismo da causa ou do porquê (�����). acima.82 como num silogismo em Camestres.2 e n. 82 Cf. 80 A distinção aristotélica.88 Se a maioria dos autores relembra a distinção aristotélica entre aquelas duas espécies de silogismos. Com efeito. de mais um exemplo de como o uso do silogismo transcende. silogismo do porquê. 98b16-21). por exemplo. ibidem. a ratio cognoscendi coma ratio essendi”86 e. apenas. 3. A e B não são reciprocáveis e o silogismo não manifesta a causa real de sua conclusão.. 85 É óbvio. Para outros exemplos aristotélicos de silogismos do “que” opostos a silogismos do porquê. 13.172 e 173): o silogismo científico é o que prova um “que” mediante um “porquê”. quando tal reciprocabilidade não ocorre e é o que não é causa (�����������) o mais conhecido. embora corretos e construídos sobre premissas verdadeiras e. 98a35-b24. acima. o silogismo dito do “que” não se amolda propriamente à expressão de causalidade real por omitir a relação de causalidade próxima. 88 Le Blond. que paredes (C) não respiram (B) por não serem animais (A= termo médio). se a negação do médio (o fato de não serem animais as paredes) fosse a causa real de elas não respirarem.: às coisas em questão no exemplo dado] serem causas uma da outra [. porque é “um raciocínio objetivo. E temos.79. entretanto. com efeito. I.85 Nele. 13. quando o termo médio de que dispomos é exterior aos extremos. Anal. 1962. Seg. cf. 13. ocorre. então. cf.3 e n. que não acentuam algo que se nos afigura extremamente importante para a correta compreensão da teoria aristotélica da ciência: é a preocupação do filósofo em mostrar-nos. explicativa. somente a seu respeito.].. é possível dizer “que é a própria vida da relação causal que Aristóteles quis representar pelo silogismo”. se está conhecendo. como diz Aristóteles. cuja causalidade ignoramos. 3. ter na animalidade de algo a causa de sua respiração. porque somente ele está amoldado à representação da causalidade real das coisas. porque desprovidos de pulmões. do ‘que’”. entre silogismo do “que” e silogismo do porquê não colide com sua doutrina de que toda demonstração é sempre do “que” (cf. não nos proporcionam efetiva ciência daquilo que. não constituem raciocínios verdadeiramente científicos. Não se trata. 3.

Mas os silogismos do “que” não caracterizam.. Anal. de explicações concernentes a fatos empiricamente constatáveis. agora. separadamente dos corpos físicos. 91 Cf. recebendo das ciências matemáticas suas premissas fundamentais. finalmente. ao mesmo tempo. I. todos. indo buscar suas menores nas ciências da terceira espécie. à física matemática.4. ibidem. 10-3. porque não fornecem explicações causais. assim. isto é. o caso em que o “que” e o porquê são objetos de diferentes ciências.92 que está para cada ciência física matemática como esta para a ciência matemática correspondente e que não vai além do relacionamento empírico dos fatos que se descobriram.94 já que. das matemáticas. de qualquer modo. demonstrando o “que”. mas que têm seus fundamentos nas ciências matemáticas. o conhecimento empírico do arco-íris está para a ótica matemática como esta para a geometria. por certo. Mas também estas.4 As ciências do “que” Pode. E considera. 93a17-9. É o caso das questões de ótica em relação à geometria. haver ciências que não conheçam o porquê das coisas de que se ocupam? Aristóteles considera. constatando apenas que tal fato segue ou é atributo de tal outro.90 Ao encontrarmos. 2. 1. 98 99 . o qual. possível. das de astronomia em relação. II. acaso. suas premissas maiores. ainda que lhes falte cientificidade. à estereometria.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles é a causa do fato em estudo. onde propõe o autor uma solução satisfatória para as dificuldades dessa passagem. evidentes. instrumentos eventuais de um conhecimento que fazem progredir. os silogismos do “que” são momentos de uma pesquisa destinada a alcançar e possuir elementos que venham. mas de nenhum modo é possível conhecer o porquê anteriormente ao ‘que’”. dirse-ão meros conhecimentos do “que”. em seguida. possuímos. Anal. em relação a um porquê que as 92 Cf. pelo conhecimento do “que” para.91 Mas. das de mecânica em relação à estereometria. Trata-se de conhecimentos que se subordinam a conhecimentos de outra ordem e mais exatos. onde a causalidade interna do raciocínio espose. sobre o emprego lato do termo ��������. I. b b a da física. lidando exclusivamente com o “que”. que integralmente aceitamos. 1. assim. senão a etapa pré-científica do conhecimento. tendo o ‘que’. Anal. ainda que em processo de constituição. linhas. ou quase sempre. 8. enquanto a “terceira ciência” apenas coleciona e relaciona os fatos empíricos. 94 Cf. Seg. com efeito. tornam-se eles. seus processos e raciocínios nada têm de efetivamente científico: elas conhecem o “que” de que as ciências físicas matemáticas correspondentes dão o porquê. o porquê e a causa. excluído é que se possa ter um conhecimento do porquê anterior ao da coisa que por ele se conhece: “investigamos o porquê. 89 29-31. como admitir a possibilidade de que se limite uma ciência ao mero conhecimento do “que”? Consideremos os exemplos aduzidos pelo filósofo. 90 Seg. 89 39-90 1. a permitir a construção de um silogismo ou cadeia silogística. quando a ciência. é óbvio que estas últimas. então. o filósofo uma terceira espécie de ciência. o filósofo explica-nos que tal é o processo natural de ocorrerem as coisas. é-nos. nosso processo de investigação principiando sempre. Seg. a causalidade real. somente em sentido extremamente lato se dirão ciências.93 Enquanto a ciência matemática pura estuda as propriedades gerais do número. A validade de seu uso. 78b38-79a2. uma harmônica empírica relaciona-se com a harmônica matemática como esta com a aritmética etc. após tudo quanto pudemos compreender sobre o conhecimento da causa pela ciência. construir o silogismo do porquê. também. por vezes. exprime a ciência que. assim. ainda. das de harmônica em relação à aritmética. porém. 13. às partes matemáticas 89 Cf. sólidos. 3. recorrendo às razões que a primeira lhe fornece: seus raciocínios tomam. 78b34 seg. Ora. de fato. indagarmos de seu porquê. acima. também. não se discute. que concernem. II.89 o que está. a astronomia náutica se subordina à astronomia matemática como esta à geometria sólida. Ora. não se constituiu ainda. a ciência física matemática explica esses fatos. 93 Consulte-se a boa nota de Ross (ad 78b34-79a16).

como a aritmética. propõem G. 1. Press. Acompanhamos Zabarella e Ross.. relativamente às que dele se ocupam.”) e Aubenque (cf. mas. estranha-nos. nota ad locum. ad locum: “les causes plus universelles.62.. com. Le jugement d’existence. a saber: sua causalidade. tomando-a como uma interpolação. Analytica Posteriora. também. se o texto não nos explica no que consiste a anterioridade. The Works of Aristotle. n. 2. também anteriores. não se ocupam do substrato físico. que. que Aubenque traduza. p. mecânica etc. p. e previamente conhecidas. também. em sentido absolutamente rigoroso. no que concerne à interpretação das l. se lhe tenha. recentemente. p.... tradução que. não se trata de uma oposição entre causas universais e causas particulares mas.. ad locum: “the most universal causes are furthest from sense and particular causes are nearest to sense”). I. Mure (cf. n. Mansion (cf.55). De acordo com as interpretações de Ross. vol. 95 Como veremos no cap. como a harmônica.. de 72a4-5. uma vez que as proposições que tomam das matemáticas só nestas recebem sua fundamentação última.1)..1 Anterioridade e conhecimento prévio Uma íntima interdependência liga três das características que vimos qualificar as premissas da demonstração.3). Oxford Univ. recusado a autenticidade.95 Não se pode. 71b29-72a5. IV. estudemo-las agora do ponto de vista de sua anterioridade e de sua maior cognoscibilidade. mais conhecidas e anteriores: causas. �������������� por “antérieures aussi du point de vue de la connaissance” (cf. não são idênticos o anterior por natureza (�������� ��������) e o anterior para nós (������������������) nem o mais conhecido (������������ [subent.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles matemáticas estudam. ‘Anteriores’ (�������) e ‘mais conhecidas’ (�����������) dizem-se em dois sentidos: com efeito. entre coisas mais universais e coisas mais próximas dos sentidos. relativamente às que. não remontam à causalidade última dos fatos que suas conclusões exprimem. anteriores e mais conhecidas em absoluto (�����). 97 Seg. não se pode dizer dos silogismos daquelas ciências que possuam integralmente o porquê do que demonstram. de início.: por natureza]) e o mais conhecido para nós (�����������������). 98 É o que fez Aubenque (cf. não apenas da segunda maneira. pela compreensão. Discutiremos sua interpretação nas páginas que seguem. sua anterioridade e sua maior cognoscibilidade... Não é dos menores indícios de sua importância o fato de que.139). 100 101 .. As mais universais (�������) são as mais afastadas. Anal. 1939.98 4. não conhecem senão o “que”. by Mure.1). em 71b31-2. as individuais (���’ ������). a toda a sua última parte. ele a faz. de fato. 31-3. anteriores e mais exatas do que elas96 e. e opõem-se umas às outras”. porque não literal. 27...2 Maior cognoscibilidade das premissas Já estudamos quanto concerne à função causal das premissas. Por outro lado. 96 Cf. assim como também se dizem anteriores e mais exatas ciências que conhecem o “que” e o porquê. adiante. I. simplesmente. não há contradição entre a interpretação aristotélica das ciências físicas matemáticas e a sua doutrina dos “gêneros” científicos e da ��������� impossível de um a outro. assim. Colli (cf. às mais afastadas. como a harmônica matemática.97 Esta passagem é absolutamente fundamental para a compreensão do sentido profundo da ciência aristotélica e a inteligência correta de sua significação permitir-nosá dissipar bom número de mal-entendidos que se originaram de sua má interpretação. porque .. ad locum) e S. I. p. 4 Do que se conhece mais e antes 4. cf... Chamo anteriores e mais conhecidas para nós às coisas mais próximas da sensação. R. uma vez que são causas. 87a31-4: dizem-se mais exatas e superiores ciências que. Le problème de l’être. prejulga da interpretação a conferir-se ao texto. Le problème de l’être.. Seg. Anal. G. As ciências matemáticas são. Ross. por conhecer-se que a coisa é. ibidem. etc. Tricot (cf. delas dizer. IV (cf. só se dirá que estas últimas constituem conhecimentos científicos se associadas aos mesmos fundamentos matemáticos de que dependem..62. Tal é o caso de todas as demonstrações levadas a cabo por ciências como a ótica. 1939. mas porque se servem de premissas demonstráveis cujas demonstrações não contêm. no entanto. por certo. É o que o próprio filósofo claramente exprime: “É preciso que sejam causas. como das outras.. Constatemos. as mais próximas.. como a harmônica empírica. temos por menos aceitáveis as traduções que. que elas não determinam causalmente suas conclusões e que não procedem de maneira rigorosamente científica.

Anal. mas de todo conhecimento dianoético. cf.105 E por que razão deverão as premissas ser mais conhecidas. IV). Anal. o conhecimento do que por elas se conhece. também. o estudo dos axiomas ou princípios comuns. serem. Como observa. à primeira vista desconcertante. nota ad 72a28). n. ibidem. VI. que significa tal e tal coisa.99 Indica-nos. não somente conhecer previamente as premissas primeiras. ou seja. de que ele parte. I. do conhecimento de um “que é” (cf. 104 Seg. 1.. Mas não se refere nosso texto unicamente ao conhecimento prévio das premissas mas. se naquelas cremos por causa destas. 1. 71a13-4) será por nós discutido ao abordarmos.173. I. do conhecimento de “que a coisa é” (���������). 3. 1139b33-5. II.. ou é ambas as coisas: assumir-se-á. enquanto distinto de qualquer conhecimento da verdade e realidade da coisa definida.106 Por conseguinte. Ét. 100 Cf. no cap. do triângulo. Anal. 14.102 ou é mera compreensão de uma significação (“o que é a coisa enunciada?”). mais conhecidas: nem se concebe que se possa dizer conhecido pela causa um efeito que se conhece mais que a própria causa por cujo intermédio se conhece ele como efeito. teremos uma ciência meramente acidental. acima. parece óbvio. ao ��������� de uma coisa. também. conhecê-las mais”. Ora. confirma-nos a Ética Nicomaquéia. I. se se constrói o silogismo sobre suas premissas para engendrar a conclusão. deixando para o momento adequado (v. a um maior conhecimento delas: elas precisam ser mais conhecidas (�����������). ao fato de que ela é. Ross (cf. com efeito.4.101 que agora retoma. IV. pois. nem poderia. 3. como poderia ele constituir-se. 1. por serem causas serão.104 se não se conhecem elas mais do que a conclusão. no tempo. I. É óbvio que. é causa de que amemos uma coisa nos é mais caro”. I. se o conhecimento que temos das conclusões se deve ao que temos das premissas. Seg. 72a29-30. todas ou algumas. a qual envolve algumas dificuldades. constituindose a ������� numa progressão. essa dupla natureza: não se trata apenas da segunda modalidade de conhecimento apontada. o texto que as premissas são previamente conhecidas (��������������). pertence-lhe aquela mais: aquilo que. 16. 103 O exemplo. 98b17. nos textos em questão.103 assumir-se-á. 101 Cf. é anterior àquilo de que é causa”. mas. isto é. se não fossem aquelas previamente conhecidas? Dizer. Como dirá o filósofo um pouco mais adiante: “Uma vez que é preciso crer em e conhecer a coisa mediante o fato de ter-se esse silogismo que chamamos de demonstração e que há tal silogismo pelo fato de tais e tais coisas. 8 deste capítulo. 107 Cf. 71a11-7. 28. por exemplo. enquanto tais. refere-se à possibilidade.107 Por serem causas eram as premissas anteriores. também. então. é necessário. 102 Traduzimos literalmente ��������� em Seg. 16. 71a1721. acima. 71a12. que se trata de uma oposição entre o conhecimento do verdadeiro e real. �������������� (todas ou algumas). 72a25-9. havemos de conhecer e crer mais nestas. também. de que é real o que a premissa exprime. estudada por Aristóteles em I. e a simples compreensão do significado de certos termos. a l. precisamente.. o conheci99 Seg. de qualquer modo. Cf. de uma compreensão de significações mas. se não em razão de sua mesma função causal? “Sempre. como nos diz uma outra passagem dos Segundos Analíticos: “a causa. o que significa e que ela é (�����������������������������). com efeito. não somente da ciência. 106 Seg. assim como em 2. 105 Cf. que o silogismo científico parte de premissas previamente conhecidas é apenas lembrar o que já nos expusera o filósofo100 a respeito. Anal. não se poderia falar de anterioridade cronológica da premissa menor. também. I. a discussão da exata interpretação a conferir-se a essas passagens. ser de outra maneira. também. a propósito das premissas científicas: o conhecimento prévio necessário ou respeita ao “que”.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles decorrente da causalidade: é porque são causas que as premissas são anteriores e. com razão. Seg. “que de toda coisa ou a afirmação ou a negação é verdadeira”. 2. das conclusões. E distinguira o filósofo duas formas de conhecimento prévio. I. por exemplo. mostrando-nos que se caminha para algo de novo sempre a partir de algo que previamente se conhece. nesse caso. também. n. Fica óbvio. seu conhecimento precede. Nic. 2. à causa pela qual (��’�) pertence cada coisa a outra. 1. mento das premissas da demonstração tem. 30-2. cap. cap. acima. assumir-se-ão ambas as coisas da unidade. de inferir-se a conclusão científica no mesmo momento em que se descobre e formula a menor do silogismo. sobre a tradução de ��� por “que”. Anal. 102 103 . 71b33. Anal. l.

acima. 2.1. de modo mais completo. é sempre o “que” que 108 Cf.. Le problème de l’être..108 a distinção entre duas diferentes acepções de “anterior” e “mais conhecido” e não nos tivesse explicado que as coisas que.. em sentido absoluto. 109 Cf. nós o sabemos. assim como ��������. como pretender que temos ciência. Nem é por outra razão. p. é mais conhecido e anterior? Como conhecer mais. 3. 3. como vimos. sempre. 4. obviamente. então.65). pois. como.113 se. Parece-nos.. 118 Cf. II. conforme às exigências do conhecimento científico.. n. que é seu efeito. a propósito das premissas da ciência. opõem-se e são outras que não aquelas que são anteriores e mais conhecidas em sentido absoluto e por natureza.110 senão porque exprime a causalidade real das coisas.114 “posta a priori fora de toda referência ao conhecimento humano”?115 Mas isso seria reconhecer. Dictionnaire Grec-Français. são anteriores. 112 Cf. 3. 12. 104 105 . se não o são para nós? Tratar-se-ia. non seulement en soi mais pour nous. Não será científico. nessa idéia de um conhecimento em si. 72b31-2. II. on sait que l’une au moins des prémisses doit être plus universelle que la conclusion. Segundo o primeiro desses textos. como conhecer previamente. no entanto. nessa idéia de um cognoscívelque não é conhecido dos homens. as mais universais e afastadas da sensação. acaso. não ser uma anterioridade em sentido absoluto e por natureza. então. se de fato partimos do que... Anal.117 Mostramos.3. nos Segundos Analíticos.2. Car. Le problème de l’être.. provar-se. a saber: Met. os diferentes sentidos de anterior (��������). aliás. 1939. 19506. II. é anterior e mais conhecido? E.3 e n. ibidem. dizer que as premissas científicas são. acima. por outro lado. crê que a passagem de Seg. Ora. qui rompt d’ailleurs l’enchaînement des idées. por exemplo. para nós.109 Também há de ser. de fato. pelo eclipse. acima. verb. d’après la doctrine ci-dessus. I. quatro são as acepções 113 Cf. que la conclusion. distinguindo.62. ce qui.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles 4. A. independentemente da própria possibilidade humana de obtê-lo (cf. são anteriores e mais conhecidas. acima. ibidem. la rendrait moins connue pour nous que la conclusion. precisamente. previamente. as que estão mais próximas da sensação. II.118 cuidemos. tornar-se evidente que não é das coisas que nos são mais conhecidas e que. que essa não é a perspectiva aristotélica sobre a ciência. as premissas e a causa.54. o ����� (porquê) que o ��� (“que”). as duas acepções de “anterior” e “mais conhecido”. II. I. que chama Aristóteles ao silogismo científico “silogismo do porquê”. se conhecemos sempre o “que” antes do porquê. a própria noção de anterioridade. nous paraît être une interpolation. 110 Cf.67). se partimos sempre do “que” para investigar o porquê. Seg. uma demonstração. aliás. torna impossível o próprio raciocínio silogístico. mais conhecidas e anteriores. p. conhecemos. a anterioridade da causalidade real que as premissas da demonstração científica exprimem não pode.4 A noção de anterioridade Comecemos. para nós. loin d’éclairer la théorie du syllogisme. �. il en compromet singulièrement l’application: pour que le syllogisme soit humainement possible.. Seg. I. il faut que les prémisses soient plus connues.116 uma ciência que não é humanamente possível. para nós – é o próprio Aristóteles quem no-lo diz111 –.89 e 90. com efeito.. isto é. mais de perto. de uma “cognoscibilidade em si que não seria cognoscibilidade para ninguém”. 71b33-72a5. por “conhecível” ou “conhecido”.3 A aporia do conhecimento absoluto Parecer-nos-ia tudo razoavelmente claro se não tivesse introduzido o filósofo logo a seguir. em sentido absoluto e por natureza a maior cognoscibilidade que daquela causalidade vimos decorrer. acima. pela ciência. a interposição da terra. p. não poderia dizer-se. 11 e Cat. para nós. pois. 2. 115 Cf. On ne voit donc pas l’intérêt qu’aurait ici Aristote à insister sur une distinction qui réduit à l’impuissance les règles de la démonstration” (cf. Anal. p.112 se. Em dois textos aborda Aristóteles. de resolver nossa aporia. 1939. para quem a originalidade da teoria da ciência demonstrativa. traduzir-se tanto por “mais conhecível” como por “mais conhecido”. 4. a da interposição da terra. que parte a ciência: uma demonstração que partisse das coisas mais conhecidas e anteriores.. 4. 98b16 seg. por natureza e em absoluto. por outro lado. ��������. relativamente ao eclipse lunar. isto é. por examinar.1). em suma. 16. consistiria. 111 Cf. ainda mais. Bailly. razão pela qual a rejeita: “Ce passage. a conclusão e o causado? Mas o que significa. então. Mas.1. 116 E ������������ pode.. cf. 114 Como quer Aubenque (cf. Or. 117 E Aubenque. Anal.

30-7. como um todo. continua o filósofo. segundo a enteléquia. l.121 o que é anterior segundo o conhecimento (���������) considera-se. por exemplo. 29-35. 119 120 121 122 123 124 Consideremos. também. a justo título. ut ���������actionem. em relação às sílabas. 14a6. ou ao poder. por sua vez. Index. a lista das acepções de “anterior” que nos fornece o cap. l. então. no que respeita. se um homem é. aceita-se como naturalmente anterior o que é melhor e mais digno de honra. Mas um quinto outro sentido de “anterior”.120 ou ao movimento. Met. Cf.125 Cf. a anterioridade segundo a natureza e a essência (���������������������). ou à ordem. �.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles em que se toma o termo: num primeiro sentido. de nenhum modo é o discurso verdadeiro causa 126 127 128 129 130 Cf. devendo. nas ciências matemáticas.123 temos. segue-se (���������). não recobrem exatamente aqueles quatro que vimos distinguir o texto da Metafísica: em primeiro lugar127 e como sentido dominante (���������). num terceiro sentido. ���������� ipsam hanc perfectionem significet” (Bonitz. num segundo sentido. 26-9. que concerne àquelas coisas que podem ser sem outras. segundo o discurso. em quarto lugar. que dois sejam. como na relação entre o fato de um homem ser e o discurso verdadeiro que lhe corresponde: com efeito. de algum modo. mas também o acidente é anterior ao todo. l. na gramática. se um é. 11. Começam as Categorias por dizerem que “anterior” se toma em quatro sentidos. naturalmente anterior.128 diremos anterior o que se não reciproca segundo a seqüência do ser (�������������������������������������������������) e Aristóteles exemplifica com a anterioridade do um. há. 253b39-42. 131 Cf. que um é. em que “videtur Ar. 37-1019a1. ibidem. diz-se anterior119 o que está mais próximo de algum princípio ou começo. num segundo sentido. casos ocorrem. temos a anterioridade segundo o tempo. mas não estas sem aquelas. ibidem.122 dizem-se anteriores as afecções das coisas anteriores e. ou ao tempo. no entanto. todas as coisas que se dizem anteriores e posteriores assim se dizem segundo essa última acepção”. 106 107 . se um tal discurso é verdadeiro. músico e homem músico: de fato. 14b3-8. 12. dos elementos (��������). Cat. em terceiro lugar. Cf. isto é. p. ibidem. ainda que não possa haver músico sem alguém que o seja.129 temos o anterior segundo a ordem (����������): é o caso. 10 seg. um homem é: e. Met. por certo. 14a35-b3. como absolutamente anterior (��������������). finalmente. a matéria à essência. não pode este ser. sem as suas partes. ad locum. l. Cf. E conclui Aristóteles: “De um certo modo. dentre as coisas que se reciprocam segundo a seqüência do ser. é causa do ser de outra coisa dir-se-á. como veremos. ao lugar. 1018b9-30. casos em que assim se passam as coisas. entretanto. Cf. ibidem. por exemplo. vejam-se as passagens indicadas pelo autor). No mais das vezes. �. o que. ibidem. com. respeita essa anterioridade primeiramente ao substrato ou sujeito (�����������) – eis por que é anterior a essência (�����) –. determinado absoluta (�����) ou relativamente. Cf. 132 Cf.131 por fim. l. segundo a sensação. à potência e à enteléquia:124 segundo a potência serão anteriores a parte ao todo. qua quid ex possibilitate ad plenam et perfectam perducitur essentiam. em relação ao dois: se dois são. designando o ato.130 das letras. distinguir-se entre o anterior segundo o discurso (��������������) e o anterior segundo a sensação (�����������������): são anteriores segundo o discurso os universais e. Cf. com. em segundo lugar. �. imediatamente. ibidem. ser-lhes-ão posteriores. 12 das Categorias. Cat. �����������ab ���������distinguere. 3.. ibidem. mas não é necessário. é verdadeiro o discurso em que dizemos que um homem é e. ibidem.126 os quais. relativamente à exposição: num quarto sentido. a perfeição acabada de algo em oposição à mera potência (�������). Cf. 14-9. 998a25-7 e as notas de Ross. cf. 12. usa Aristóteles como sinônimos ���������e ����������. dos preâmbulos. 1019a11-2. evidentemente. 1019a2-14.132 parece dever acrescentar-se a esses quatro: com efeito. Sobre o uso matemático do termo ���������e o emprego de ����������� (literalmente: figuras geométricas) para designar as proposições geométricas. nos discursos. inversamente. 125 Met. e como se diz “ser” em muitos sentidos. em relação às proposições geométricas (�����������). 11. as coisas individuais..

de algum modo. por natureza. em relação ao conhecimento do todo (“homem músico”). embora isso muitas vezes tenha lugar. IV. de “músico”). por um lado. caracterizando a apreensão das premissas científicas.121. na gramática. àquele sentido último que a Metafísica privilegia como fundamental. 24 deste capítulo. das letras. ao anterior e mais conhecido para nós.1 e IV. de algum modo. privilegiada nas Categorias e apresentada como o sentido “dominante” de “anterior”. o que está mais próximo da sensação. 12.125. naquela primeira e lata acepção de “anterior” reconhecida pelo texto da Metafísica. 11 e a distinção que estabelece entre a anterioridade segundo o discurso e a anterioridade segundo a sensação: por esta conhecemos.4 e n. assim como as que imediatamente se lhe seguem. 9.. Crê Ross que a anterioridade segundo a ordem. não apenas aos universais concerne o conhecimento segundo o discurso e o mesmo exemplo. 4. com. 4. se manifesta como causa de ser verdadeiro o discurso. se reduzem. acima. 3. o imperecível. antes..140 também o livro � da Metafísica vem esclarecer-nos. e vimos. acima. �. 138 Cf. então. sensação são-nos. o terceiro e o quarto sentido que as Categorias distinguem. Fís. as coisas individuais.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles de uma coisa ser. II. 12 Se comparamos esses dois textos. n.5 Comparação entre Metafísica � e Categorias. 8. a anterioridade segundo a natureza e a essência. entre um conhecimento anterior segundo o discurso que coincidiria com a própria anterioridade natural e essencial. Cf. também. por aquele. VIII. Cat. Mas o próprio exemplo do preâmbulo no discurso parece mostrar que as Categorias têm em vista a ordenação interna e relativa das partes de um todo. as coisas individuais mais conhecidas.136 vimos como nela se demora o texto de �. dir-se-á uma coisa anterior a outra”. aquela mesma distinção de que nos falavam os Segundos Analíticos. acima. aqui. e dos preâmbulos. 1049b10-1. são anteriores segundo a essência quantas coisas. ao perecível.137 ao opor o anterior e mais conhecido por natureza e em sentido absoluto.3. Em primeiro lugar. IV. Quanto à anterioridade segundo o conhecimento. segundo o tempo. da anterioridade do conhecimento do acidente (por exemplo. e um conhecimento anterior segundo a sensação. o acabado é anterior ao inacabado.123. seria grande a tentação de ver. que os Analíticos nos mostraram ser o conhecimento “para nós” das coisas. sobrepassam-nas quanto ao 137 Cf.. Também se podem incluir. como um dos exemplos. que � nos propõe. relegada a um lugar secundário. ao que a Metafísica chama de “anterioridade segundo a natureza e a essência”. Entretanto.4 e n. 108 109 . e pela 133 134 135 136 Cf. 4. de uma certa maneira. imediatamente. o ato é anterior à potência segundo o discurso e segundo a essência.. algumas reflexões.. Com efeito.134 4. acima. segundo o discurso e quanto ao tempo (cf. apenas. e como a anterioridade em sentido absoluto e por natureza corresponde. a anterioridade segundo a ordem e a anterioridade do melhor e mais digno de honra. o filósofo dizer135 que tal acepção de anterioridade. enquanto. no texto da Metafísica. o das Categorias e o da Metafísica. 1. Ora. nas demonstrações. isto é. acima. exemplificando com a anterioridade das premissas científicas. nos discursos. já que não se poderia dissociar o maior conhecimento da anterioridade segundo o conhecimento. os universais. mas é a coisa que. 14b22-3.139 nos mostra não ser necessário que a anterioridade segundo o discurso corresponda à anterioridade absoluta segundo a natureza e a essência. IV. do ponto de vista do discurso. aparece. são os universais que se caracterizam pela sua maior cognoscibilidade. observamos que a anterioridade temporal.133 “Em cinco sentidos. das outras separadas (����������). sem qualquer referência direta à questão do conhecimento. em outro (cf. impõem-se-nos. 265a22-4) etc. 139 Cf. as coisas mais afastadas da sensação.138 distinguiríamos. é-o num sentido. 140 Assim. introdutório a Met. também. que não está propriamente presente na lista proposta pelas Categorias. os universais. �. em que algo se diz anterior. em Met. de que falam as Categorias. 11). �. portanto. “answers roughly” à anterioridade segundo o conhecimento. pela sua maior proximidade de algum princípio ou começo. 11 (cf. portanto. obviamente. Met.4 e n. as coisas individuais. não o é. ao dizer que “nem todas as coisas que são anteriores segundo o discurso são também anteriores segundo a essência.

p. p.. Met. ser em separado. 1939. 76b39 seg. tal anterioridade é sempre a do conhecimento. o anterior segundo o conhecimento[subent. Principia Aristóteles por dizer-nos que são anteriores a outras as coisas que podem ser sem estas últimas. n. em sentido absoluto. de um conhecimento que apreende a ordem por que o real causalmente se articula.. 2. I.141. se constitui uma anterioridade de conhecimento segundo o discurso – e é natural que assim seja. na mesma medida. anterior.: se diz] como anterior. em sentido absoluto” 110 111 . de fato. por certo. 1019a5-6. pretendendo que “c’est là le sens de l’expression lorsqu’elle est employée absolument”.”146 nem dizia outra coisa o texto de Met. evidente. 147 Cf. como o faz Aubenque (cf. ao expor uma outra acepção de “anterior”. quer diga respeito à sensação quer ao discurso. uma vez que se acompanha de discurso toda ciência142 e não se obtém ela pela sensação143 –. se oponha. 1019a3-4: ���������������������������������������������������������. donde ser manifesto que nem o que resulta da eliminação (����������������) é anterior nem o que resulta da adição (����������������) é posterior. da anterioridade da própria essência em relação às demais categorias. na mesma medida em que a anterioridade segundo o conhecimento. conjuntamente com o composto (chamo de composto (�������) o homem branco). que. Seg.6 A anterioridade segundo a essência e a natureza Consideremos. o livro � da Metafísica que todas as outras coisas se dizem seres (����). que a anterioridade do que está mais perto de algum princípio ou é natural e em sentido absoluto (quanto ao lugar. 1019a11-2) é bastante explícita e não deixa qualquer margem de dúvida quanto à correta interpretação a conferir-se ao texto.. Pois. diz.47). então. aquele em que tal anterioridade se ajusta à expressão do anterior segundo a essência e a natureza. de fato. a anterioridade que o texto da Metafísica claramente privilegia. �. ao movimento. a multiplicidade de sentidos de “ser”. o que está mais perto de nós. Anal. impõem-se considerações mais detalhadas: a anterioridade primeira e mais fundamental diz respeito ao sujeito ou substrato (�����������) –“eis por que a essência é anterior. a anterioridade segundo a essência e a natureza (���������������������). também. por outro lado. configura. II. nada impede. E. relativamente às essências. que também o anterior segundo o conhecimento se diz absolutamente anterior e não. porém. dizse ‘homem branco’ por adição a ‘branco’”. a anterioridade segundo a natureza e a essência diz-se. Mas isso equivale a dizer que o discurso dos homens não se adapta imediatamente à ordem das coisas e que a adequação de nossa linguagem ao real não é espontânea: o conhecimento do ser segundo suas articulações próprias deverá estabelecer-se. Met. um móvel ou um branco. 11. se diga absolutamente anterior. 1018b9 seg. pode entender-se. em que. que a anterioridade do conhecimento das premissas da ciência. de um modo ou de outro. Index. 1077b1-11. Seg. II. 11.. se subordina àquela outra. o conhecimento científico. ao tempo. do ponto de vista da ciência. 11. por outro lado. entretanto. as coisas são anteriores segundo o discurso àquelas cujas definições se compõem de suas definições. por exemplo.141 Fica.4 e n. Assim. por ex. Bonitz.145 Dada. �. segundo o discurso. como. não se pode interpretar o que diz o filósofo. mas nada impede.. acima. quando algo se diz. Por isso mesmo. mas não segundo a essência: não pode ele.147 ao mostrar como as coisas “separadas” sobrepassam quanto ao ser (�������������������) as suas afecções. que citamos. mediante uma inversão da mesma ordem espontânea com que a linguagem se articula. cf. 19. 141 142 143 144 Met. um caso particular da anterioridade segundo o discurso. no que concerne às várias significações de �����. pois. em seguida. por exemplo. �. 146 Met.144 4. Anal. Cf. 4. por serem atributos quantita(���������������������). no tempo.). tendo estabelecido. como uma anterioridade natural. freqüentemente. que “num outro sentido. Ora. 31 (todo o capítulo). 145 Cf. e não nos explica. nas linhas anteriores (cf. Cf. �. 100b10.123. em 1018b30-1. Le problème de l’être. A afirmação desta subordinação (cf. o filósofo. como um conhecimento anterior segundo a natureza e em sentido absoluto. conforme à perspectiva sob que se considere o conhecimento efetivo. num ou noutro sentido. �. que o que é anterior segundo o conhecimento. sempre. também. em primeiro lugar. que. ao afirmar a dependência de todas as acepções de anterioridade em relação à anterioridade segundo a essência. então. Cf. ao conhecimento que parte da percepção sensível. com efeito. se dirá anterior). como nos Segundos Analíticos.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ser. branco é anterior a homem branco. E o próprio filósofo nos deixou explícito. também. acima. se as afecções (����) não são à parte.: a anterioridade da guerra de Tróia em relação às guerras Médicas) ou é relativa a algo ou a alguém (nesse sentido. mas é. isto é. que também a anterioridade segundo o conhecimento não é a fundamental. mas não estas sem aquelas.

1026b1-2. Met. Fis. que a relação causal seja. 1017a35 seg. à anterioridade segundo a essência. l. Mas as Categorias tinham. 1077a26-7 etc.4 e n. Met. 4. enquanto o inverso não ocorre. a anterioridade segundo a essência e a natureza. a mesma qüididade (����� ��������). l. 4.152 Se tal é. em relação à matéria. 4. evidentemente. 278a24) e aplicaremos o vocabulário da essência às outras categorias. 261a14. num sentido segundo. Cf. II. finalmente.. nesse sentido. qualidades. se estes não fossem. Cf.2 e n.150 “o que. por exemplo. que a causa pela qual a matéria é alguma coisa definida é a forma e “isto é a essência” (Met. não apenas dos seres eternos e imperecíveis. �. �. 1028a18-20. na medida em que. que por ela se caracterizam155 (anterioridade esta que define os seres necessários como seres primeiros. causa de que seja verdadeiro o discurso. Ibidem. II. �. do que é por si (���������) segundo a essência (���’ ������). a anterioridade da causa em relação ao causado. as “essencializamos” em pensamento: falaremos. também. 1045b33 seg.158 já que “as coisas posteriores segundo o devir são anteriores segundo a forma e a essência” (���������������������). Met. ibidem. 17.157 isto é. II.. que se podem provar um pelo outro. distinguido uma quinta acepção. 8. 7. ibid. l. acima. Z. acima. que não comportam potência. parece-nos que a segunda acepção distinguida nas Categorias. O estudo dos silogismos do “que” e do porquê já nos familiarizou com o caso de efeito e causa reciprocáveis. 8. em relação aos perecíveis. da categoria da essência. 4. 156 Cf. afecções etc. 33-4. sempre segundo o sentido fundamental de “anterior”.. de algum modo. que uma das acepções do ser opõe ao ser em potência o ser em ato ou enteléquia:153 relembra-a nosso texto de Met. Cf. que é po148 149 150 151 152 153 154 155 Cf. Cf. a definição da essência que lhe serve de substrato. obviamente. como sua parte integrante. Ger. 1031a7-14. como a anterioridade do que pode ser sem outra coisa.. �. não nos esqueçamos. mas é em sentido absoluto (�����).163 ora.160 Encontra-se a anterioridade segundo a essência na lista das acepções de “anterior” que nos propõem as Categorias? Ora. 1030a29-32. Todo o capítulo concerne à anterioridade do ato em relação à potência. 6. 3. 1. 2. 5. mas das outras coisas.128.). �. sem maiores dificuldades. 1050b6 seg. nada seria”156 ). enquanto afecção ou disposição da essência. 158 159 160 161 162 163 112 113 . o estudo sobre a essência a que procede o livro ��da Metafísica conclui. que o filósofo freqüentemente relembrou e utilizou ao longo de sua obra. ibidem. Cf. por exemplo. 7. “pois. por outro lado. malgrado a reciprocação existente entre a coisa e o discurso verdadeiro sobre ela. 157 ������(essência) designando. 1020a17 seg. como o muito e o pouco. em virtude da essência.4 e n. �. aliás. Céu I. Cf. de um modo geral. que vimos entendida. assim. acima. 30-1. cf. (cf.78 e 79. em seu sentido mais fundamental. Met..159 doutrina.. Met. �. reciprocável: não podem ser causa que a qüididade se diz. também. porque cada uma dela é. l. o comprido e o curto etc. outras.161 pode assimilar-se. o fato de que um e outro possam tomar-se como termos médios de silogismos não significa. acima. falaremos. também. II. a definição de cada um dos atributos deverá conter. na mesma medida da anterioridade absoluta do ato em relação à potência. com efeito. II.124. 1041b8-9). Anim. �. Cf. num sentido primeiro e absoluto. a anterioridade segundo a natureza e a essência respeite à anterioridade segundo a enteléquia. não se pode não considerar a coisa como anterior. da essência (�����) de uma esfera ou círculo (cf. dentre as coisas que se reciprocam segundo a seqüência do ser:162 é que. VIII. 1051a4-5. Cf. e a forma não é senão a mesma qüididade: “chamo de forma à qüididade de cada coisa e à sua essência primeira” (Met. da forma e da essência. E não esqueçamos tência. 19. l. em sentido absoluto. �. Met. das essências?148 Que nenhuma delas é separada (��������). ibidem. não obsta a que. 2. 13. Cf. 8.4 e n. Met. mas anterioridade. Cf. a anterioridade do que se não reciproca com outra coisa segundo a seqüência do ser.154 o que. 7. 989a15-6. Cf. da causa final. 9. e do que o é.. 1051a4 seg. no que concerne à categoria da quantidade.132. “separando-as”. segundo a enteléquia. umas coisas dirse-ão primeiras segundo a potência. �. primariamente é e é. aqui. 1. 29-30. � para dizer-nos que.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles tivos. no mundo do devir. 35-6. não algo. mas só o é a essência149 e que. será a essência”?151 Por isso mesmo. enquanto tal. a forma (�����) de uma coisa. 1032b1-2). �. como a linha. também. 742a20-2. ibidem. na mesma medida em que é.

part. é “a enteléquia do que é em potência. 982b2-4: “os princípios e as causas são o que há de mais conhecível cientificamente (����������������) (com efeito. para nós. 11. enquanto causa.1. se recordarmos a doutrina aristotélica do movimento. Para um conhecimento absoluto. mais conhecível – e. mostrar-nos. isto é. ainda que as duas listas de acepções de “anterior” não se recubram exatamente. porque. não pode ser senão o que é.165 Mas. 16 (todo o capítulo). atributos. que julga redutível a anterioridade da causa. conhecido. Seg. que não é obliterada pela reciprocabilidade constatada: nesse sentido.. os efeitos. et passim. há uma não-reciprocabilidade fundamental: em seu mesmo ser. conhecíveis. antes. por eles e a partir deles as outras coisas se conhecem. se formularmos a definição da causa. 171 Cf.: a forma] é a essência de cada coisa (pois isto é a causa primeira de seu ser)”. também. Toda a dificuldade. com efeito. É curioso. uma inegável concordância de doutrina. Quanto ao anterior para nós.. como diz Fís. 12.168 Com efeito. 167 Sobre a causalidade da essência e da forma. �. 22-4.. sem aquela. 1. tão-somente. e à causalidade da forma. por isso mesmo. 8. em verdade. é anterior àquilo de que é causa”. Inversamente. como ������������. enquanto tal”170 ) ao ato. mostrando que é por ela que o efeito se conhece. determinações. a matéria. enquanto causa final da potencialidade da matéria.4 e n. podemos. que o tempo mede.166 ao mostrar-nos a reflexão sobre a relação causal que. se diz segundo o tempo. resulta. 166 É o que não vê Ross. �. também. não ocorrerá. então. por sua vez. o de Met. 12 parece. ou. pelo efeito. entretanto. se lembrarmos171 que ������������������������������não designam 168 Cf. Fís.127. 27-8: “isto [subent. 251b28: “o tempo é uma certa afecção do movimento” (�����������������). 11 e o de Cat. em sentido primeiro e absolutamente fundamental. 1. Anal. cf. ibidem. VIII. da anterioridade segundo a essência e a natureza. isto é. se isso significasse que “anterior”. �. 1051a4 seg. por exemplo. Uma única discrepância. 170 Fís. a anterioridade da causa é sempre. mas não eles pelas coisas que deles dependem)”. ao de anterioridade segundo a maior proximidade de um certo começo ou princípio (cf.. não sendo senão por aqueles. Mas isso equivale. por certo. portanto. Met. não vemos como isso se conciliaria com toda a doutrina aristotélica do ser e da essência.101). a causa é. 220a24-25. a causa. Logique et méthode. enquanto substrato das suas determinações.. o substrato. E. e menos 164 Cf. �. Cf. 219b1-2. 165 Cf. porque a definição do efeito mencionará a causa. a doutrina das Categorias sobre a anterioridade configura-se como uma forma menos elaborada da mesma doutrina que encontramos na Metafísica. Met. ainda não eliminamos: o fato de as Categorias dizerem a anterioridade temporal o sentido primeiro e “dominante” (���������) de “anterior”. sua nota introdutória a Met. b4-5 etc.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles um do outro e “a causa. que Le Blond não dê à noção de anterioridade a atenção que ela merece no estudo da teoria aristotélica da demonstração e só se interesse pela anterioridade temporal das causas não simultâneas com seus efeitos (cf. em última análise. IV. 11. a potência (o movimento. 114 115 . 169 Cf. II. ora. 1041b7 seg. 98b16 seg. que.. n. 2. 4. 11). também. por outro lado. em II. 2. a anterioridade da quinta acepção reduz-se à da segunda. III. enquanto o inverso. 220b9-10 etc.. desaparece. sem as outras se conhecem. a essência. tornar-se-á evidentemente essa anterioridade da causa. à forma e à essência. enfim. que apreende o ser segundo a sua própria ordenação e articulação. �. uma relação assimétrica entre causa e efeito.167 E não é difícil ver como a anterioridade absoluta da causa e da essência se acompanha de uma maior cognoscibilidade em sentido absoluto. A comparação entre os dois textos concernentes à noção de anterioridade. a dizer que o conhecimento absolutamente anterior não é senão o desdobramento. não este. há de ser mais conhecível o que pode ser sem outras coisas. no plano do conhecimento. mais aparente. dizer que a anterioridade segundo a essência é uma anterioridade causal: diz respeito à causalidade da essência. de ser e conhecer-se o efeito pela causa. não haveria como não constatar uma flagrante contradição na doutrina. Por outro lado..164 se definimos um e outro. l. assim. acima. em sentido absoluto. por isso mesmo. por eles. enquanto nem é nem se conhece a causa. facilmente verificaremos que conceder a primazia à anterioridade temporal equivale a antepor o movimento (de que o tempo é número169) ao ser. sem o efeito. acima. p. se hão de conhecer.27 deste capítulo e nossa discussão sobre o verdadeiro. II. porém. 17. 1939. �. uma anterioridade segundo a essência e a natureza. dificilmente redutível. do que real. ao sentido mais geral de “anterior” exposto em Met. 201a10-11. na verdade..

um de direito e outro de fato. nunca lograria o homem situar-se na perspectiva do que é anterior segundo a essência. sem que tenhamos de recorrer a soluções mais engenhosas. p. como resolveremos. “anterior” são expressões que designam. e o anterior e o mais conhecido para nós. 116 117 . 175 Cf. 219b2. a anterioridade dependendo sempre. também. por outro lado. “o anterior e o posterior no lugar são primeiros. E nada indica.172 que “antes”. é anterior a anterioridade temporal. também.. no tempo. au moins à titre de schème. “l’ordre de la connaissance. entende o autor que “le primat de l’essence lui-même n’est que le primat de la considération de l’essence”. acte humain qui se déroule dans le temps. essencialmente aporética. que o sentido “dominante” de anterior respeita ao tempo é apenas lembrar que o tempo é o “número do movimento segundo o anterior e o posterior”.174 172 Fís. tal inversão tem necessariamente de desenrolar-se “dans un temps qui n’est autre que celui des choses” (cf. por analogia com aqueles. da constituição das significações no tempo. então. interpretada. ��vem explicar-nos. em que algumas das coisas sensíveis se aborde o problema. um texto extremamente elucidativo de Met. do modo de consideração.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles necessariamente o que é absolutamente primeiro e fundamental mas. como. E o são. é. estaria opondo dois modos de conhecimento. p. uma anterioridade temporal. o anterior e o posterior. como a seguir veremos. 11. geralmente. com toda a clareza desejável. o pensamento do filósofo.. de qualquer maneira que 4. aliás. é necessário que. começar. também.67). salientada pelo filósofo ao falar da anterioridade e da maior cognoscibilidade das premissas científicas. haja o anterior e o posterior. est lui-même un ordre chronologique” (ibidem. de qualquer modo.3. na grandeza. 1939.49). possa Aubenque atribuir a Aristóteles uma filosofia profundamente pessimista quanto ao alcance do conhecimento humano: jungido sempre à perspectiva de seu conhecimento “de fato”. uma solução plenamente satisfatória e. a própria noção de “anterior” a si própria se aplica. Com efeito. entretanto. por outro lado. ibidem. Mas. 4. “otimista”: não esqueçamos. também. de um lado. 11. IV. Le problème de l’être. do ponto de vista da ciência física e do movimento: na medida em que a continuidade do tempo. “c’est à dire de connaissance”: tal prioridade exprimiria apenas a obrigação de o discurso humano começar pela essência “s’il veut savoir de quoi il parle”. com uma tal interpretação da anterioridade aristotélica. as indicações implícitas que nos forneceu a discussão sobre a noção de “anterior” e que poderiam oferecer-nos a doutrina dos silogismos do “que” e do porquê. em suma.. quanto à anterioridade segundo a natureza e a essência.7 O caminho humano do conhecimento: investigação e ciência Se tal é a conceituação aristotélica da anterioridade. parecia implicar?175 Se não nos fossem ainda suficientes. então. porém. por ser uma “metafísica do inacabamento” (cf. aí. que não é outra senão a ordem da causalidade. acima. toda nossa análise da noção aristotélica de anterioridade mostra ser insustentável a interpretação de Aubenque. devendo sempre partir das coisas que lhe são mais conhecidas. segundo as diferentes acepções que comporta: do ponto de vista da gênese do discurso humano. então. 219a14-9). e a própria metafísica aristotélica. as aporias que a oposição entre o anterior e o mais conhecido em sentido absoluto e por natureza.. ibidem. IV. segue a continuidade do movimento e esta. como faz. 174 Como nos parece ser a elegante solução que propõe Aubenque para o problema da anterioridade. que ele tenha jamais descrido da capacidade humana de elevar-se até a Ciência das coisas. a anterioridade lógica à temporal. estabelecendo que o estudo da essência (�����) deve começar pelo exame das essências sensíveis (já que se concorda. mas apenas que o tempo da definição lógica difere do tempo da gênese. para apontar o caminho da solução buscada. Assim interpretados os textos. nos textos aristotélicos. II.2. ainda que o discurso humano se esforce por inverter este último.. a nosso ver. a anterioridade cronológica. que pudemos mostrar ser a teoria aristotélica da ciência um estudo teórico de uma realidade de fato (cf.. para ter uma verdadeira ciência. se o livro � da Metafísica parece omitir a anterioridade cronológica. “qui suppose. la succession dans le temps” (ibidem).505). para o qual o ontologicamente primeiro coincidiria com o primeiramente conhecido (cf. p. para esse autor. no movimento.. seria uma “metafísica inacabada”. há o anterior e o posterior. sem que os textos do filósofo possam.173 Curiosamente. ao privilegiar... às vezes. na física aristotélica. fora de qualquer referência ao conhecimento humano (cf. agora. por onde deveria. essencial e absolutamente anterior a noção de anterioridade essencial e em sentido absoluto. o sentido mais literal e mais próprio: dizer. introduzindo a original concepção de um conhecimento em si. p. primitivamente.54). pela posição. de outro. acima. Ora. fundamentá-la. é porque tal sentido de “anterior” está implícito “dès qu’on parle d’avant et d’après” (cf.1). Não é de admirar que. I. se Aristóteles parece opor. Com efeito. p. à luz daquela mesma discussão. p. ibidem. a anterioridade segundo o conhecimento reduzir-seia forçosamente à temporal porque todo conhecimento se desenvolve no tempo e. à luz de outros do próprio filósofo. desaparecem a ambigüidade e a contradição aparente e readquire a doutrina uma satisfatória e coerente unidade. a da grandeza. nos textos do filósofo. Aristóteles. não significaria isto que a anterioridade lógica não é. ibidem. em Aristóteles.48).47). 173 Pois nem mesmo se pode dizer que a anterioridade segundo o tempo seja primeira. ao opor o mais conhecido em si e por natureza ao anterior e mais conhecido para nós. as aporias concernentes à oposição das duas ordens de conhecimento recebem. a primazia da anterioridade temporal é meramente lingüística. entretanto. mas uma vez que há. agora. uma relação temporal. por seguirem sempre um o outro” (Fís.

1129b4-6. I. se queremos conhecer verdadeiramente as coisas. o escopo final que nos propomos: tornar conhecido de nós o absolutamente conhecível. uma anterioridade para nós. ela é a de. sobre os bens que os homens pedem em suas orações: tão-somente os bens exteriores. ainda assim. tal caminho não é senão o mais natural e pressupõe o reconhecimento de que a cognoscibilidade de uma coisa. quando deveriam pedir que as coisas boas. para si”. que a anterioridade absoluta segundo a essência e a causa se tornou. 18. para nós. cf. é o mais conhecível em si e por natureza. cremos ser a melhor a tezas e é das coisas individuais. também. a partir do que é bom para cada um. também. Pois é assim que. Ét. freqüentes vezes. ainda que mal conheçamos. caminhar desde o que para nós é mais claro até o que é mais claro em virtude de sua mesma natureza: temos necessariamente de partir do que é mais conhecível segundo a sensação. com. populaire et péjoratif. 1143b4-5. Eis.. 8. 1. que tentaremos conhecer o absolutamente conhecível. 1029b8-12. 3. como característica das premissas científicas. para nós e as. VI.182 Mas. agora.177 O que é mais conhecido e primeiro para cada um. p. em sentido absoluto.. 8. não se reflete no conhecimento espontâneo por que ela nos é primeiramente acessível: porque as coisas mais conhecíveis. e através desses conhecimentos. tornar o que é conhecível. 432a7-8.. uma vez operada a “inversão” que torna a ciência possível. E podemos dizer. vantajoso avançar em direção do mais conhecível. indica-nos o caminho a percorrer quando se busca o conhecimento das coisas segundo a mesma cognoscibilidade fundada em sua essência e natureza. �. mesmo. Le problème de l’être. 1029b3-8. explicando a passagem por referência “à l’usage courant.209-10). syncrétique et qui n’est générale que parce qu’elle est indistincte”. 1939. aqui. se ordena. por isso podemos falar do “mais conhecido por natureza e em sentido absoluto”. Nic. ao afirmar (cf. extremamente claro. Ét. Fís. mais conhecíveis não são as mesmas. também. E a mesma construção do edifício científico depende tão estreitamente da sensação que os Analíticos dão como manifesto (�������) que a supressão de um dos sentidos implicaria o desaparecimento de uma ciência correspondente. por assim dizer. que provêm os universais. 177 Met. é que devemos.180 Podemos. transformar a sua maior cognoscibilidadesegundoanaturezaeaessêncianumamaiorcognoscibilidade para nós. Porque o mais conhecido. Anal I. �. então. 180 Cf. conhecido. é apenas medianamente conhecido e pouco ou nada tem a ver com o real. a barreira que espontaneamente se ergue entre o conhecimento humano e a ordem por que o real.. 179 Cf. superar. À progressão natural do saber e à orde Aubenque (cf. a mesma perspectiva das próprias coisas. n. por meio das coisas menos conhecíveis por natureza. para todos. 178 Cf. 1. dizer que “sem ter a sensação. igualmente. 81a38 seg. continua Aristóteles: “É. por certo. Nic. é sempre a partir do que conhecemos. 11. 3. do mesmo modo. portanto. 184a16 seg. 181 Da Alma III.179 Da sensação dependem nossas primeiras cer176 Cf. com bastante nitidez. destarte. partindo do que é. 432a4-5. em direção das mais conhecíveis.181 já que os inteligíveis se encontram nas formas sensíveis.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles são essências).. O texto apresenta. que por ela conhecemos. por natureza. absolutamente nada se poderia aprender nem compreender”. de fato. uma certa dificuldade para a interpretação. mostra-nos. de modo a permitir. fossem também boas para si.116 deste capítulo) pode traduzir-se tanto por “conhecível” como por “conhecido” e não vemos como possa tornar-se o texto inteligível sem lançar mão dessa possibilidade de dupla interpretação. l.178 O texto. Dentre as múltiplas interpretações que se têm proposto. V. 23-5) que o conhecimento que vai da sensação ao que é mais conhecível por natureza caminha das coisas universais (�������) para as particulares (���’ ������). 182 Cf. mais désigne une sorte de perception confuse.. agora. à perspectiva do conhecimento humano assumir. se produz o aprendizado.. mais conhecível. Da Alma III. e esta é a tarefa – assim como. Seg. du mot ���������qui n’a pas ici le sens de l’universel aristotélicien. nas ações. a ordem da investigação e da pesquisa à ordem do real e do verdadeiro saber. entretanto. Met. em si próprio. que a doutrina dos Analíticos plenamente se esclarece e se resolvem suas aparentes aporias à luz do ensinamento novo: há ciência quando o conhecimento humano supera a sua espontaneidade para situar-se na perspectiva nova de uma absoluta coincidência com a mesma ordem do ser. imediatamente. �������� (cf. acima. para si mesmo. por natureza. se o texto da Metafísica opõe. em sentido absoluto. tornar o que é totalmente bom bom para cada um176 –. 118 119 .

em direção dos universais e no sentido de um afastamento cada vez maior daquelas. sempre. Tóp. substitui-se. inversa daquela. II. 1949. 120 121 .Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles dem genética do conhecimento a partir das sensações. II. 187 Ao contrário do que pretende Aubenque (cf. define-se.114 seg. p. por exemplo. 15 seg. também. respectivamente. torna-se manifesta a incorreção da definição que não preencher tais requisitos. “como nas demonstrações”. a ordem de um saber descendente. isto é. p. aceitável. enquanto tal. o plano. como limites. nos Tópicos. Nem era outra. Por outro lado. nos Tópicos. da linha. o ponto. para quem.185 Do ponto de vista científico. VI.. o acesso à ordem da inteligibilidade em si é apenas uma penetração de espírito e de exercício. uma cognoscibilidade para ninguém. a maioria dos homens. 1939. Pois. � que acima examinamos. Não é. ao expor. 142a2-4. Tóp. Aubenque. e a letra o é mais que a sílaba.. parece fazer do discurso científico demonstrativo uma mera exposição didática do sistema de conhecimentos constituído.Brunschvicg (cf. do sólido. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics. Introduction. a que nem mesmo o filósofo pode escapar. apreendidos como tais. no princípio.174.183 E.. mas 185 Cf. entretanto. mais do que o ponto. em sentido absoluto. 4. um dos tópicos que ensejam a crítica de uma definição dada184 consiste em verificar se acaso não se formulou ela “por meio de termos anteriores e mais conhecidos”. il semble bien que la perspective de cette coincidence [subent. mos quaisquer... a cognoscibilidade em si tornandose. assim como a unidade é mais conhecida que o número. o livro ��da Metafísica faria. “à mesure que la pensée d’Aristote se développe.6 e n. que o porquê se conhece anteriormente ao “que”. enquanto a inversão dessa ordem espontânea do conhecer exige uma inteligência penetrante e excepcional. 141a26 seg. então..diante dos que são incapazes de conhecer dessa maneira.54). relativamente a um conhecimento humano eventual.54. como se procederá à busca dialética da definição: com efeito. o conhecimento científico. à ciência que os homens a seu respeito venham a constituir: a cognoscibilidade em si o é em referência a um saber absoluto que o homem atinge com a ciência. mais do que todos o sólido. ibid. aliás. p. ao pretender que se dirão as premissas do silogismo científico “mais conhecidas” unicamente no sentido de serem mais inteligíveis. dizendo haver. 141b13-4. a interpretação de Ross (cf.186 Mais uma vez. precisamente o contrário e são-nos. continua o texto. também. Ora. talvez. 65. “un renversement entre l’ordre e la connaissance et l’ordre de l’être”. E relembra o filósofo os dois sentidos em que se pode dizer algo anterior e mais conhecido (ou posterior e menos conhecido): em sentido absoluto (�����) e para nós (����). 4. formular a definição por meio dos termos que lhes são. o plano que o sólido. Le problème de l’être. são anteriores e mais conhecidos o ponto que a linha. enquanto. Le problème de l’être. contrariamente ao que se sustentou. ainda que nos sejam “less familiar”: se assim fosse. 4. tendo cumprido o programa que o texto de � nos indicava. p. em Aristóteles. do ponto de vista do saber científico uma vez constituído. com a ciência. portanto. passando do mais universal ao menos universal. por este texto. mais conhecidos. são mais conhecidas as coisas sensíveis. então.. seguindo as mesmas articulações do ser. 184 Cf. conhece previamente coisas dessa natureza.150-1). 1939.. É que. VI. acima. quando. em atenção a eles. a linha. impõe-se essa inversão. já que a definição se formula para fins de conhecimento e que. a doutrina aristotélica. o plano. ocorre. a linha. 4. de cujo sentido geral em nada difere aquele outro de Met. 186 Cf. sendo o princípio de todo número. a cognoscibilidade maior do anterior por natureza. do anterior ao posterior segundo a natureza. Algumas vezes. L’expérience humaine et la causalité physique.. cremos ter podido mostrar que. a partir de ter183 Cf. a adequação do nosso saber ao real. mais conhecidos.187 confirma-se a unidade da doutrina: não se nos dá. de início. que o conhecimento caminha da causa ao causado: é que não mais nos referimos à gênese espontânea e natural do conhecimento. do plano. que passa ao ato no conhecimento científico. a eles. definiremos. é válido dizer que as premissas são previamente conhecidas. como potencialidade. mais do que a linha.64-5). esposando a ordem das coisas. então. finalmente.: entre o que é mais conhecido para nós e o que é mais conhecido em sentido absoluto] soit de plus en plus différée”. não nos seria efetivamente dado.3 e n. ainda que reconheçamos ser preciso. definindo o anterior pelo posterior. 67. dessa não-coincidência uma “servidão permanente do conhecimento humano”. de fato. a linha que o plano. Nem nos é possível concordar com L. mas à ordenação interna do novo saber que edificamos. operando-se aquela inversão à medida que o pensamento se torna mais exato e rigoroso. é a partir do que é anterior e mais conhecido que se conhece e não. do ponto de vista da percepção sensível.

110-3) crê encontrar. antes. Le jugement d’existence. servindo-se heuristicamente de hipóteses de trabalho. como provável interpolação. mostra-nos como eles têm a pretensão de tê-las definitivamente vencido. então. entre o mais conhecido segundo o discurso e o mais conhecido segundo a natureza e a essência. n.190 Se compreendemos. porque se ajustou integralmente às articulações do real. então. uma imagem bastante diferente do saber humano. 190 Porque não compreendeu ter Aristóteles reconhecido a possibilidade real de transformarse o mais conhecível segundo a natureza e em sentido absoluto em mais conhecível. que partem dessa não-coincidência e dessa distância (cf. 71b33-72a5 (cf. privilegiando a observação e a experiência. nenhum texto aristotélico (e o de �. 122 123 . uma. o saber rigoroso constituído more geometrico permanecendo sempre. que não se confundem. 1095b1 seg. Ét.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ela é. das coisas conhecidas para as desconhecidas.. de suas premissas mais universal que a conclusão e. por conseguinte. em outras palavras. absolutamente. dado.188 fazse no sentido da manifestação da causa: deverá a definição procurada conter a causa e manifestá-la. infinitamente mais maleável que aquele que freqüentemente se imagina. neste texto. II. 68b35-7. reiteradas vezes. porque. percorremos. Não teremos dificuldade.117 deste capítulo). E esta passagem do mais obscuro.. 3. Se o ilustre autor tivesse razão. mas. Os trabalhos de biologia. Só é ciência o conhecimento que. menos conhecível quanto à sensação e. Observation et expérience chez Aristote. VIII.). 184a16 seg. enquanto investiga e pesquisa. nos tratados. na ciência. para Aristóteles. Aristóteles deveria condenar-nos. p.. segundo a teoria dominante nos Analíticos”. cf. 1955. que pretende descer da causa ao efeito e estabelecer-se no inteligível absoluto. acima. ainda. portanto. teria desenvolvido uma outra concepção sobre a natureza do saber. ao menos. I. em que a ratio essendi coincide com a ratio cognoscendi e em que. o fruto de um laborioso esforço que precede a constituição do conhecimento científico. sobretudo. Fís. tão-somente. enquanto essa coincidência absoluta se não tiver. o modelo definitivo do conhecimento científico. E a leitura de tratados como a Física e a Ética.2 e n. Da Alma II. 12.3.. fundar-se sobre as relações íntimas de causalidade”. no aristotelismo. Note-se a equivalência que Aristóteles estabelece.. ainda que mais manifesto. revelariam esta nova concepção do saber. menos do que qualquer outro) no-la descreve como uma “servidão permanente”. Anal.192 pois entendemos plenamente por que. com. forçosamente. Logique et méthode. 188 Cf. traduzir as relações profundas que unem ou explicam os seres. Muito menos. Anal. porque é o único a coincidir com a ordem das próprias coisas. 4. só a “prova” é ciência. 413a11 seg.168.. anterior e mais conhecido para nós. ainda. pura e simplesmente. Introduction. “um Aristóteles muito menos rigoroso. “para nós”.porém. em relação àquela que nos dão os Segundos Analíticos. agora. do que o silogismo. Não é lícito. 1955. em busca do conhecimento segundo a essência e a natureza. 156a4-7. tido tempo para explicitar sua nova perspectiva da ciência no plano teórico. Ora. não há ciência. um pensador que tateia e que pesquisa. 1. para nós. Aubenque rejeita. como diz Aristóteles a propósito da busca e estabelecimento de uma definição para a alma. também. portanto. em direção do que é claro e mais conhecido segundo o discurso (��������������). exatamente. porque todo silogismo terá.191 Mas. Prim. que se dá como perfeitamente universal e impessoal”. ao contrário. o que anteriormente dissemos sobre os silogismos do “que” e do porquê:189 operandose a inversão científica. é válido opor aos Analíticos e à sua “teoria da ciência rígida e altiva. todos os textos convergem para apontá-la como uma servidão apenas inicial que o homem efetivamente supera pela posse da ciência. este ponto. p. I.. Observation et expérience. 105a13-9. 2. 1939. apenas. 1. ciênse é evidente que a distância entre o que nos é imediata e espontaneamente conhecível e o que o é. cia e investigação ou pesquisa “científica”. um domínio pré-científico que fazemos propedêutico ao saber científico que buscamos. Nic. 2. Também Bourgey (cf..102-3. 193 Cf. I. acima.. nos grandes tratados científicos e nas obras filosóficas de Aristóteles. um outro Aristóteles que. 3. II. uma vez que. em integrar.. enquanto estiver o homem a caminhar desde o que lhe é imediatamente anterior e mais conhecido.78 seg. a ordem do raciocínio “deve exprimir a própria ordem da natureza. 23. por isso mesmo. Le Blond. pudemos mostrar como não se trata de uma nova perspectiva do saber humano nem de uma nova concepção da ciência. nestes novos resultados que alcançamos..XXII-XXIII. aos silogismos do “que” da fase anterior à ciência substituem-se os silogismos do porquê. é posse efetiva dele pela nossa alma. nascida das lides da própria pesquisa.. para nós. ao menos no que concerne a certos problemas fundamentais de seus domínios respectivos. à impossibilidade de conhecer silogisticamente. afirma que a indução (�������) é mais conhecível segundo a sensação e mais manifesta. aliás. o anterior e mais conhecível em sentido absoluto se tornou premissa silogística. em sentido absoluto. p. porque caminha porque caminha das coisas individuais para as universais. I. não tendo o filósofo. da pesquisa preliminar que possibilitará a “inversão” científica. do esforço humano que prepara a posse final da ciência. p. também.193 Não é por191 Bourgey.. dizer que “a ciência comporta dois momentos: a pesquisa e a prova”. a passagem de Seg. ainda. 189 Cf. é uma “servidão do espírito humano”. conseqüentemente. Tóp. II. 192 Mansion. 1946. torna-se evidente.. que exclui as conjecturas e não dá lugar senão à demonstração apodítica.

tomo III... porque [subent. Sabedores de que o conhecimento científico. então.. ao menos cognoscível. p. V. 1939. Pensadores Griegos. ibid. 186-7. que nos fixam os cânones do saber científico. pois conhecer cientificamente. mais uma vez. Les dialogues de Platon. Logique et méthode... não por acidente. como se se tratasse de uma outra orientação doutrinal e de uma dualidade de inspiração. enquanto pesquisa. entre o saber acabado. Le problème de l’être. premissa primeira e princípio (����). Explica-nos agora o filósofo que as premissas básicas do raciocínio científico deverão também – como condição para que realmente o sejam para um determinado ramo do saber.. sobre as tendências “divisionistas” de intérpretes eminentes. assim. Eis. du clair au confus. 124 125 . Guaranis. com razão. porque por elas principiam as demonstrações.9. com efeito. podemos assistir ao triunfo da unidade coerente do dogma. Como diz. então. como todo conhecimento na esfera dianoética. os textos em que nos expõe o filósofo o seu método de pesquisa pré-científica e os em que o pratica. da causa ao causado e. no que se refere ao silogismo demonstrativo. Aubenque (cf. indemonstráveis (������������). que. cap. p. Partir de premissas primeiras é partir de princípios apropriados (�������): identifico. do mais cognoscível.198 Com essas duas últimas notas que caracterizam as premissas da demonstração. o trabalho preliminar de investigação que segue o caminho exatamente inverso e cujo sucesso deverá permitir a constituição da ciência. não há como estranhar que coexistam com os textos dos Segundos Analíticos.194 uma ciência em que não há lugar para o método. dir-se-ão princípios. é a oposição que o filósofo conscientemente estabelece e proclama entre ciência e pesquisa. introduziu-se. a noção de princípio. de l’universal au particulier”. 19632.. 194 195 196 197 Le Blond. O que há. IV e VII. Conhecem-se.1 A noção de princípio “Que se parta de premissas primeiras (���������).1939. o saber científico. p. Por isso mesmo.. Goldschmidt. Th. qui va du simple au complexe. que desce das causas aos efeitos e coincide absolutamente com o dinamismo das coisas”. 105-6.. constitui-se. segundo a natureza e a essência. 435 etc. viemos paulatinamente estudando a natureza desses conhecimentos anteriores. por prescindirem de qualquer premissa anterior que as justifique ou fundamente. p. a ele apropriadas – distinguir-se por um caráter primeiro e imediato. 1952.. seu trabalho de investigação “científica”. as coisas de que há demonstração é ter a demonstração . os princípios antes e mais do que as outras premissas e conclusões.195 não há. imediata é aquela a que não há outra anterior”. o serem primeiras e imediatas.: de outro modo] não se conhecerá cientificamente. parte de algo que previamente se conhece.. permitindo-nos acompanhar sua investigação em marcha.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles que os Analíticos “descrevem a ciência acabada. corretamente interpretado. no movimento descendente posterior à visão da essência. em não se tendo demonstração delas. Gomperz. Não é difícil constatar quanto uma tal concepção do saber mantém e preserva da concepção platônica da ciência: para Platão. Cf. como se pretendeu. 71b26-72a8.196 dois personagens que se devem contrapor. por fim. constituído em movimento descendente do mais universal ao mais particular.. já que por eles essas todas se conhe198 Seg. apenas. de fato. que se lhe oporá. cf. que exprimem a causalidade real da conclusão obtida e que são anteriores e mais conhecidas em sentido absoluto. a prática aristotélica da ciência. Cf.. 2. se assim é.197 Mas. em sentido rigoroso. sua teoria do método de “invenção” da ciência. em Aristóteles. I. 5 Os indemonstráveis 5. por natureza e em absoluto. absolutamente fundamental para a teoria aristotélica da ciência.62): “Aristote conservera l’ideal platonicien d’un savoir descendant. de outro lado. isto é. o Platônico e o Asclepíada.105. compreendendo que o que cientificamente se conhece e demonstra conhece-se e demonstra-se a partir de premissas verdadeiras. Anal. objeto e resultado do movimento ascendente da investigação dialética. simplesmente. Um princípio de demonstração é uma proposição imediata (������).

cf. Anal. 1. I. ter-se-á uma ciência meramente acidental. I. 9-10.161 seg. no de causa últimaefundamental. por exemplo. Se todos os princípios. I. esta. indemonstráveis. Seg. Cf. os princípios são. �.201 Já que as causas se dizem em tantas acepções quantas as de “princípio”202 e visto que se manifestou a anterioridade segundo a essência das premissas científicas como uma anterioridade causal. por outro lado. II. sem maiores indicações. sem que fosse necessário efetuar a demonstração? – eis um problema a que só o livro II dos Segundos Analíticos trará resposta. II. 1. coerente com sua interpretação. pois ele não produzirá ciência”. pois. VI. a identificação de princípio e de proposição imediata. Observe-se que o filósofo assume. ibidem. alguns dentre eles – os primeiros princípios das ciências. aliás. nela vendo a intenção do filósofo de exprimir a “impotência do discurso humano”. Fosse um princípio demonstrável. acima. dos princípios da ciência. que lhes são posteriores. 209 Cf.. 71b23-5. Ét. o que é. 32-4. Mas não seria. ao estudar. Anal. Nic. I. 2. 1139b34-5. I. por isso mesmo. a que nenhuma outra é anterior. ao invés de considerar preliminarmente. absolutamente anterior. fez-nos 206 Não vemos. 1. Anal. 1013a16-19. porque primeiras. II. 203 Cf. no momento adequado. constitui aquela outra maneira de conhecer a que o filósofo fazia alusão. a caracterização negativa dos princípios pela sua indemonstrabilidade (cf. acima. 3. isto é.55. 4. Seg. 982a1-3. em relação a eles. Atentemos. a demonstrabilidade do objeto científico exigindo. então. Anal. I. a nosso ver inaceitável. 2.2 A indemonstrabilidade dos princípios Enquanto premissas primeiras e imediatas. relativamente às mesmas premissas a partir de que se demonstraria. como condição de sua possibilidade. 1962. que. como veremos.208 E dá-nos Aristóteles209 uma indicação preliminar de diferentes espécies de princípios. de nenhum modo. 199 200 201 202 anterior de ser conhecida por demonstração.204 5. dizendo-a. no sentido de causas próximas. já que o conhecimento do demonstrável é a demonstração. haverá silogismo mesmo sem essas condições. Aubenque.205 haveria a proposição que é primeira e absolutamente Cf. A eles voltaremos. 2. l. 126 127 . elas são indemonstráveis. Le problème de l’être. exprimem causas primeiras. nenhum paradoxo no texto aristotélico de Seg. que não há outro conhecimento possível do demonstrável senão a demonstração.6 e n. se não se conhecem os princípios e não se crêem eles mais que as conclusões. a indemonstrabilidade de premissas últimas. Seg. ibid.199 há de crer-se mais neles do que em tudo que deles depende. simplesmente. no cap. mas. 77 deste capítulo. Pois “todas as causas são princípios”. o que não seria possível se não os conhecêssemos ou não estivéssemos.5). 982a5. 72a30-2. certas proposições que são absolutamente primeiras e que denominou “princípios”. Met. Anal. 205 Cf. mas não haverá demonstração. 2..200 E compreende-se como possa a Ética Nicomaquéia afirmar que. Seg. sobre os quais se constroem seus silogismos iniciais – exprimirão causas primeiras. 2. 210 Cf. absolutamente positiva da noção de princípio. as relações entre definição e demonstração. p. cap. privilegia.. Anal. cf. científica. 2. então. de fato. caracterização. também. p. que define e elucida com exemplos.207 Já mostramos..54-5). 72a14-24.. V. a demonstração sobre os indemonstráveis e neles se funda. 90b9-10. como o conhecimento dos indemonstráveis. 184a10-6 etc. senão o caráter imediato da causalidade que engendra os efeitos que a ciência demonstra: os princípios concernem às causas primeiras do demonstrado. que “as premissas são primeiras. em que não nos provou ainda o filósofo a existência de princípios indemonstráveis para a ciência. b2-4.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles cem. �. de ser posterior e segunda.. numa disposição ainda melhor do que se os conhecêssemos. a definição.3.206 Repousa. I. entretanto. 208 Cf. deixando para capítulos posteriores seu estudo sistemático:210 distingue os axiomas e as teses e subdivide estas últimas em definições e hipóteses.. se bem que indemonstráveis” nem que “elas são também primeiras. 72a25-6. 3. Met. 71b26-9.. dentre as premissas científicas. 10 e 11. 204 Sobre a noção de causa primeira (�������������) cf. 207 Seg. n. Cf. também no outro sentido da expressão. possível uma outra forma de conhecimento do demonstrável. “Com efeito. como parece impor-se. num emprego mais lato do termo “ciência”. contrariamente a Aubenque (cf. sendo comum a todos os princípios o serem aquele primeiro ponto a partir de que algo é. manifestamente. 1. Fís. contraditório: porque primeiros e imediatos. de que a demonstração decorre. então. devém ou se conhece. 71b28-9.203 o caráter imediato dessas proposições absolutamente anteriores que são os princípios não exprime. afirmando haver. isto é. os princípios são indemonstráveis. também. n. acima. O filósofo não nos diz. porque indemonstráveis”.

Eis-nos. assumindo que não é possível conhecer cientificamente se não pela de211 212 213 214 215 Isto é. sobre um ponto particularmente importante. ibidem. a mesma impossibilidade de percorrer uma séria infinita – o que Aristóteles. a demonstração circular. sustentam. Cf. de acordo. 6-7. 128 129 . no entanto. Nossos filósofos e Aristóteles estão. 5. I. no óbice que representa uma indefinida e contínua regressão à busca de uma anterioridade inesgotável. ibidem. “uma disposição ainda melhor do que se conhecêssemos cientificamente” (cf.3 Um falso dilema: regressão ao infinito ou demonstração hipotética Duas diferentes manifestações dessa atitude em face da ciência são por ele consideradas: de um lado. 72b7 seg. Bekker e Ross: ����. se não há premissas primeiras. os que. acolhendo. lhes concede217 – torna impossível que se conheçam realmente as proposições posteriores pelas anteriores. se não é possível conhecer as proposições primeiras. 217 Cf. premissas primeiras ou princípios. portanto. E é.200). teses. se dirá. 15-6. 15: ������������. nosso propósito de fundar cientificamente o conhecimento esbarra. O conhecimento delas será.211 5. há os que recusam a possibilidade de qualquer ciência absoluta. por isso mesmo. em que podemos surpreender o uso de axiomas. 8. Exemplificou com o que ocorre nas ciências matemáticas. Seg. 15-8. l. l. diante da grave aporia do começo do conhecimento. aceitando-a embora. com mais forte razão. Lemos. 218 Cf.218 tendo.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ver. É o desconhecimento dessa “ciência” que Aristóteles condena nas críticas que estamos a considerar. deparando com a impossibilidade aparente de possuir um conhecimento que parece já ter sempre começado. contra. 10: ��������������. também. em sentido próprio ou absoluto. Introduzir-se-ão. então.. 72b5-15.. Anal. acima. anteriores e assim por diante. I. também.213 Ambas acepções têm em comum o reduzirem unicamente à demonstração o processo científico do conhecimento214 e. então. no sentido absoluto em que a definimos. ibidem. l. II. acima. l. Anal. a l. como único fundamento. destarte. que haja uma forma cientificamente válida de conhecer outra que não a demonstração e o filósofo consagra à crítica desse modo de conceber o conhecimento um capítulo inteiro dos Segundos Analíticos. serão uma e outra objeto da crítica aristotélica. que é a lição da maioria dos manuscritos. 3. meramente hipotético. absolutamente anteriores e imediatas. conhecimento este que. 1. que toda proposição é demonstrável. monstração. II. ibidem.212 de outro. é manifesto que. a partir dos quais se constrói o edifício científico. introduzir o não demonstrável é apelar ao incognoscível. Pois. princípios assumidos mas não comprovados. desse modo detendo-se a regressão estéril? Mas. que a noção de proposição primeira implica indemonstrabilidade. sobre o fato de que a ausência de premissas primeiras e indemonstráveis torna impossível a própria ciência demonstrativa. Cf.215 Os primeiros. acaso. num sentido mais lato do termo. Cf. I. se o conhecimento científico destas premissas exige que também elas se demonstrem a partir de outras que lhes serão. 25 seg. assim. o próprio Aristóteles quem faz questão de ressaltar o fato de não ser universalmente reconhecida a existência dos princípios indemonstráveis: nem todos pensam. nenhum conhecimento científico poderá haver daquelas proposições todas que por esses princípios se conhecerem e tiverem neles fundada a própria cognoscibilidade. do ponto de vista científico.1 e n.3). Seg. com Mure e Tricot. definições e hipóteses. de bom grado. �����. 3. Supondo todo co216 Cf.216 sustentam. apenas. porque alicerce indispensável do edifício científico. como possível e válida. isto é. forçosamente. ciência (cf. ora. ainda. que somos envolvidos numa regressão ao infinito (������������������������������): se o conhecimento científico de uma coisa se funda no conhecimento de premissas anteriores a partir das quais aquela se demonstra. 3. Na medida em que Aristóteles sustenta exigir a ciência demonstrativa um conhecimento preliminar. com efeito. se somente a demonstração é conhecimento científico. Mas não está ainda demonstrado que a ciência exija como condição de possibilidade tais proposições primeiras. por sua vez.

delas deduzindo as conseqüências que implicam: não saberia ir além a ciência dos homens e todo conhecimento não seria senão hipotético. acima. quando Aristóteles fala de ciência. Tal etapa. ao que se obtém por demonstração.. atentemos em que sua rejeição explícita de uma concepção do conhecimento científico que o considera meramente hipotético a nenhum momento significa a exclusão do uso de hipóteses nas pesquisas e investigações que constituem o que o filósofo considera.12: a ciência dos princípios é um princípio de ciência. porque. é manifesto. a impossibilidade lógica de um fundamento último para o conhecimento. também.214-9). cujo estudo mostraria a importância da função heurística e eminentemente dialética do silogismo hipotético. I. como sabemos.4)? Veremos. facilmente se remove. na esfera científica. I. acima. II. de fato mas.1. manifestada.7 e n. supõe conhecimentos anteriores (cf. argumentos decisivos contra a interpretação de Aubenque (cf. acima. 220 Seg. ������� [lit.. mais aparente que real. a l. É curioso que Aubenque não considere o importante texto de Seg.. na esfera dianoética. 1. em sentido absoluto e sem demonstração. de algum modo. I. enfaticamente. Aristóteles recusa liminarmente essa solução e. não apenas ciência. 225 Cf. III. aos pensadores que critica. 223 Cf. acima. “detêm-se”] por uma expressão como “surgem”. enfrentando decididamente a aporia. Anal. como vimos.: “erguem-se”.. que aqui comentamos. Diante de uma tal aporia. opõe. “levantamse”. esta afirmação com a doutrina de que todo conhecimento. 22.. se é necessário conhecer as premissas anteriores e de que parte a demonstração e se. 3. aceitando haver incompatibilidade entre a ciência absoluta e a redução de todo conhecimento. em abandonar a pretensão ao absoluto e em denunciar a precariedade do conhecimento científico. mas também um certo princípio de ciência (����� ���������). a nosso ver.225 uma etapa propedêutica à verdadeira ciência.191 seg. como a dificuldade. precisamente representada pelas premissas imediatas. “permanecem imóveis”.VI. no cap.223 afirmamos. se bem 219 Cf. que se impõe como termo necessário da regressão em busca da anterioridade). surgem as premissas imediatas..Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles nhecimento dianoético conhecimentos prévios – doutrina que vimos ser a do próprio Aristóteles219 –� pareceria a ciência permanecer irremediavelmente suspensa a origens inapreensíveis e o que se conhece e demonstra. de direito. em verdade. tradução que acompanha Tricot). 224 Como conciliar. por outro lado. por Aristóteles. para quem a ciência dos princípios seria tida. assim dizemos e afirmamos haver.222 sabedores de que há uma ciência. e nem sequer o mencione. 18-20). p. pertence à esfera de competência da dialética. a existência de um “princípio de ciência” que conhece. 130 131 . necessariamente. 3.220 Como se vê. sugere esse significado literal (indicando a existência de uma barreira. 72b18-25. e a firmeza da solução contrária que lhes opõe o filósofo constituem. as proposições primeiras com que necessariamente deparamos. I. Anal. eternamente afetado pela precariedade insuperável de um princípio indefinidamente recuado. porém. Mas. Observe-se. se Aristóteles parece aceitar a denominação de “ciência” para designar o conhecimento dos princípios (cf.3 e n. os tradutores (cf. acima. que ameaça definitivamente inquinar uma ciência que se pretenda absoluta. 1962. 2. l. Ora. Anal. aceitaremos como verdadeiras. logo substitui-lhe a expressão “princípio de ciência” (��������������). só nos resta partir de hipóteses que. ad locum: “and since the regress must end in immediate truths”. indemonstráveis) – tais coisas. pelo qual conhecemos as definições”. habitualmente.. a servir-nos das perífrases de que lançam mão. 4. 22. Mure. em sentido próprio e absoluto. que estudaremos no cap.. que. num certo momento.VI. I. que é falso dizer que o conhecimento científico sempre já começou: ele começa com proposições primeiras e imediatas. então. porém. isto é. se empreendemos a caminhada regressiva a partir do demonstrandum em direção do que lhe é anterior e causa. em outros textos denomina “inteligência” (����). afirmamos que nem toda ciência é demonstrativa. com efeito. Le problème de l’être. que. mas que a das premissas imediatas é indemonstrável (e que isto é necessário. só será proposta em Seg. cf. refere-se. sem demonstração. como veremos no cap. mantém os direitos da ciência absoluta: “Nós. Preferimos traduzir. à plenitude alcançada de um saber constituído e or221 Essa prova. que Aristóteles ainda não proponha uma prova da existência dos princípios indemonstráveis. por exemplo. II. pois. 3. estas são. em sentido absoluto. não se hesitou. com os ������224 Antes de acompanharmos o filósofo nas considerações que dedica à crítica dos que aceitam como científica a circularidade na demonstração.221 ei-lo que. como impossível. 3.. em condenando o conhecimento a uma busca indefinida de seus princípios. assim chamando o que. com efeito. agora.4. I. 222 A polêmica aristotélica contra os que negam a existência e a possibilidade de uma ciência absoluta. também.

se a possibilidade da demonstração circular significa a possibilidade de demonstrarem-se as proposições umas pelas outras. Não se confunda. acima. V. distinção a que nos habituou a utilização do método indutivo.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ganizado sob a forma de uma dedução que se amolda à ordem de articulação das próprias coisas. 25-32. Histoire de la philosophie.228 uma demonstração circular é incompatível com a anterioridade e maior cognoscibilidade das premissas em relação à conclusão. em absoluto. para raciocínios hipotéticos: com efeito. aquela concepção rigorosa de ciência elimina. afirmando que nada impede que se afirme a demonstrabilidade de todas as proposições? Por que não aceitar a possibilidade de se demonstrarem as proposições circularmente. 23. de antemão. 1. a segunda atitude em face da ciência demonstrativa que o filósofo estuda e critica. por exemplo. ibidem. encontra-se. a oposição meramente terminológica com a metafísica: não se opõem à essência do pensamento aristotélico sobre a ciência os que. acima. Salta.4 A teoria da demonstração circular Terão razão Aristóteles e os pensadores que. ao mundo das coisas: sua divergência com o filósofo. a possibilidade de vir a nela inserir-se um saber precário qualquer empenhado.1073) que. portanto. nos deparávamos. dans ses lignes générales. umas em relação às outras.226 5. 1955. é verdade. Anal. cf. 156a4-7. sob o ponto de vista em questão. numa tal ciência. I. ainda. ao mesmo tempo. VIII. e vice-versa. Cf. não pode haver lugar. com exatidão. ao pretenderem incompatíveis uma ciência absoluta e o fato de só a demonstração poder reivindicar cientificidade? Não se evitarão. não há verdadeira ciência e. se apenas fosse possível um saber fundado em hipóteses. facilmente. 29-30. t. associado a uma maior prudência na consideração dos resultados alcançados. a possibilidade – ou alimentam a esperança – de tornar-se. também ela caracterizada pelo desconhecimento da noção de princípios indemonstráveis. 3. que vem justificar a precariedade secularmente demonstrada das concepções científicas do passado. o caso da teoria da relatividade de Einstein. n. melhor. Mas a verdadeira oposição metafísica à concepção aristotélica da ciência parte. um dia.. de uma “coincidência” final entre o pensamento científico e as coisas. 27-8. Ibidem. ao contrário. outras somente para nós. assim. Cf. 226 Como parece ser. 68b35-7. isto é. Em primeiro lugar. E Bréhier já observava (cf. dos primeiros. E não poderia o filósofo ter sido mais explícito: se não temos senão hipóteses. I. ainda que chamando de científicos as hipóteses e os resultados de seus trabalhos de pesquisa tidos como provisórios. que certas coisas se digam. pode dizer-se que continuam a perseguir o ideal de uma ciência aristotélica.190 deste capítulo. 105a13-9. l. Seg. também. aos olhos a oposição fundamental entre o aristotelismo e as concepções dominantes na ciência moderna ou. anteriores e posteriores. umas em relação às outras”. buscando exprimir as leis físicas independentemente de todo ponto de vista particular de um observador qualquer. Tóp. 12. já que assim se dirão em diferentes sentidos: as coisas anteriores. Prim. todas as dificuldades com que. Três argumentos serão aduzidos contra ela. II. no entanto. 72b17-8. definitiva a ciência dos homens e de vir a adequar-se. sua equivalência funcional na demonstração.229 Há.. como conciliar isto com o fato de que a noção de anterioridade (assim como a de maior cognoscibilidade) exclui toda equivalência real? “Pois é impossível que as mesmas coisas sejam. Porque. obviamente. admitem. há pouco. em busca de sua comprovação. ibidem. anteriores e posteriores. ao mesmo tempo. umas pelas outras?227 A teoria da demonstração circular é assim. se considerarmos que umas coisas se dizem anteriores e mais conhecidas em sentido absoluto. então. vimos por ele criticados. 4. no uso mais lato do termo “ciência”. “il semble en effet que. Nesse preciso sen227 228 229 230 Cf. tão-somente. a ciência seria impossível. serão posteriores. 132 133 . II. De fato. la théorie de la relativité de Einstein aille dans le sens d’une épistémologie réaliste”. para nós. no entanto. p.230 Nada impedirá. na filosofia da ciência moderna. l. l. de quantos negam a possibilidade da constituição de uma ciência absoluta. um sentido em que se pode dizer que isso ocorre. Anal.

descendente. 237 Cf. Com efeito. isto é. 73a16-7. 3. Aristóteles do moderno positivismo científico. ela é válida e verdadeira: “assim. Como observa. constituem os “predicáveis” da lógica aristotélica. é fácil provar todas as coisas”.. caps. teremos “A implica B. e C. 239 Cf. de B (e nisso consiste o círculo a que aludimos). 238 Cf. p. Prim. 73a6-7. de B. Langage. como condição sine qua non de sua possibilidade. A pode substituir-se a C na seqüência de proposições que acima consideramos e. B implica A. C. II. se uma coisa é. também. Seg. as diversas modalidades de predicado que se podem atribuir a um sujeito. acima.238 mas. dizer é que a demonstração que parte do mais conhecido apenas para nós não é demonstração. nada nos impede falar em complementaridade e circularidade no processo “demonstrativo”: podemos efetuar nossa prova a partir das coisas que são anteriores e mais conhecidas para nós. 11-16. antes. na mesma ciência. Anal. consideradas do ponto de vista da reciprocabilidade funcional. Anal. assim. necessariamente. isto é. Anal. delas concluindo proposições que o são em sentido absoluto. pois chegaríamos ao mesmo resultado para um número maior de proposições consideradas.97 seg. consiste em mostrar que eles reduzem o raciocínio demonstrativo à afirmação de uma identidade. entre sujeito e predicado. I. o conhecimento necessário é tautológico e todo conhecimento “factual”. a Prim. em lugar de “A implica B. igualmente. que sustentam serem todas as proposições demonstráveis. I. em que se incluem todas as “verdades” da ciência. assim como poderemos efetuar silogismos em sentido inverso.231 Nem por isso. além de uma tal circularidade perfeita só encontrar-se na primeira figura silogística. em cada um dos casos. se A e B são tais que B se segue de A e A. necessariamente. ibid. Cf.. 73a6-20. Por outro lado. 3. é meramente hipotético (cf. Ibidem. 35. a outra premissa (por exemplo. onde Aristóteles nos remete à sua teoria do silogismo. 5. ainda que o processo total do conhecimento possa constituir-se de modo circular. provaremos que todo A é C – a partir de “todo B é C” e “todo A é B” – e. em desrespeito à nossa definição de ciência. por “termos”. O “próprio”. 4. concluindo o que era mais conhecido para nós: não era outra a distinção entre os silogismos do “que” e do porquê. uma demonstração. em sentido absoluto. Anal.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles tido. em sentido estrito).. pois. donde ficar-nos manifesto que o filósofo recusa toda concepção que não veja no silogismo demonstrativo um instrumento de progresso do conhecimento: é algo de novo e diferente que se conclui do fato de as premissas serem. B e C. II. convertendo o raciocínio científico numa mera tautologia. a total convertibilidade dos termos A. Seg. B implica C. E pouco importa que tenhamos considerado apenas três proposições.236 este de caráter mais técnico e fundado na teoria do silogismo. 231 232 233 234 Cf. A demonstração científica exclui absolutamente a circularidade no conhecimento. Assim. portanto A implica A”. na atribuição. 3. em sentido estrito. Ross (cf. 236 Cf. se possam demonstrar pelo raciocínio dedutivo.). se a proposição A é válida e verdadeira. ela é. 134 135 . B e C:234 se B se segue de A. mais precisamente.235 Um terceiro argumento é aduzido pelo filósofo. Anal. 3. consideremos as três proposições A. 57b32-58a15. Ora. I. tomando os silogismos do “que” por silogismos científicos. a l. com razão. na medida em que as coisas mais conhecidas para nós. concluir.189 e 190. Seg. então. portanto A implica C”. deve traduzir-se por “proposições” e não. 72b32-73a6.7 e n. a afirmar que. O que devemos. I. por exemplo. que se subdivide em “próprio” em sentido estrito e definição. II.232 a demonstração circular reduz-se a afirmar que. vamos conceder a nossos filósofos que todas as proposições são demonstráveis. Anal. Seg. para um autor como Ayer.233 Com efeito. dentre os objetos possíveis de demonstração. Ora. não.237 ela pressupõe. em sentido estrito. para que haja uma prova circular perfeita (uma prova e.apenasospróprios (����)239 gozam dessa total convertibilidade e eles 235 A mais radical das oposições separa. é preciso que se possa tomar a conclusão juntamente com as proposições conversas de cada uma das premissas para. l. 5-7. cf. vérité et logique. 73a6. Ayer. juntamente com o gênero e o acidente. Como vemos. ����. o segundo argumento de Aristóteles contra os partidários da demonstração circular. de A segue-se. de que partimos para empreender a etapa ascendente e propedêutica à ciência. que todo B é C (tomando como premissas “todo A é C” e “todo B é A”) e que todo A é B (tomando como premissas “todo C é B” e “todo A é C”). nota ad 72b32-73 a6). 1956. o “próprio” é o predicado que. embora não indicando a qüididade.

um silogismo que parte de premissas necessárias”. principia ele por explicar-nos certas noções básicas de sua teoria da ciência. portanto. a prova real dessa indemonstrabilidade. relativamente. Consideremos. buscando o porquê de seus indemonstráveis princípios. “Uma vez que é impossível ser de outra maneira aquilo de que há ciência.242 os argumentos invocados estão. aliás. em sentido absoluto.Oswaldo Porchat Pereira são.1 Antes. nota ad Seg. em razões puramente extrínsecas. Os argumentos de Maier. opinião mencionada e aceita por Ross. 102a18 seg.. I. porém. Aristóteles expôs-nos as linhas gerais de sua doutrina dos indemonstráveis. Falta-nos ainda. Anal. I. são resumidos por Ross em nota ad Met. aliás. a própria prova final da indemonstrabilidade das premissas primeiras. nessa mesma análise. 72b5-6). longe de ser decisivos. 1005b2-5. ibidem. III Dodemonstrado aoindemonstrável pertence unicamente ao sujeito. será necessário o que é conhecido segundo a ciência demonstrativa. 5. porém. 2 Cf. Tóp. 103b7-12. pelo recurso à demonstração circular. 73a21-4. 8. “por si” e “universalmente”. a necessidade das premissas a partir das quais ela se demonstra. I. Sugeriu-se que certos seguidores de Xenócrates terão proposto a tese da demonstração circular. Anal. 72b5-6. 241 É a opinião de Cherniss. Percorramos. a tentativa de reduzir a cientificidade à demonstrabilidade. a compreensão das razões profundas por que a ciência demonstrativa repousa necessariamente sobre proposições primeiras que se não podem demonstrar. 1944. 3. é demonstrativa aquela que temos por ter a demonstração. Seg. p. I. I. 240 Cf. 4. então.241 enquanto alguns julgam que a primeira crítica se dirige contra os Antistênicos. Anal. postulando a universal demonstrabilidade de toda proposição. 136 137 . l.68 (apud Ross. que se baseiam. A demonstração é. com o filósofo. 73a16-20. assim. “por si” (���’����) e universal (�������). 242 Como pensa Maier. analisando a natureza da coisa demonstrada e. então. o que se entende por atributos de uma totalidade (�����������).2 Descobriremos que as conclusões que a ciência demonstra se apresentam sob a forma de proposições que atribuem um predicado a “todo sujeito”. portanto. deixa o filósofo bem manifesta a grande importância que confere à sua refutação. pouco freqüentes nas demonstrações. ora. 24-7. Porque são essas as propriedades da coisa demonstrada e porque sob essa 1 Seg. Seja como for e quaisquer que tenham sido os pensadores que Aristóteles critica. Pois o que tinham posto em xeque era a própria possibilidade de um saber humano apossar-se da mesma ordem das coisas. 3.240 É-nos extremamente difícil reconhecer a identidade dos pensadores acima criticados. in Aristotle’s Criticism of Plato and the Academy. de o filósofo mostrar como a necessidade da coisa demonstrada pressupõe. sobre as quais repousará. Anal. com o qual pode reciprocar-se na atribuição. em sua mesma nota ad Seg. 3. 3. 4. É vã. �.. cf. entretanto. a longa caminhada que nessa direção empreende. 101b17 seg. I.

que reta é a linha tal e tal. a qual coincide com a dos Segundos Analíticos em suas linhas gerais. na sua definição.. ainda que menos completa e elaborada.. assim traduzindo.. a linha pertence ao triângulo. de fato. dizemos que também o número pertence ao par.. que é conhecimento de alguma essência (cf. isto é. também há que pertencer. por si. Seg. apesar de sua importância para a teoria aristotélica da demonstração científica. ����) o discurso do “o que é” (��������� ��������. por si. nos Tópicos: “Digamos atribuir-se no ‘o que é’ (����� ��������) todas aquelas coisas que é apropriado dar em resposta. cf. merecido a atenção de autores e comentadores. Anal. verdadeiro. 10. por si. �.4 diz-se “por si”. um animal (������ �����������’�����). aliás. poderemos. Met. 73a34-b24. se todo elemento da definição se diz pertencer à coisa definida. Ross. 93b29). melhor se evidencia o sentido primeiro da expressão. ainda que. isto é. Seg. quando se é interrogado sobre o que ele é. conforme à explicação do próprio Aristóteles. porque “número” pertence à definição de par. por fazerem parte. então. 6 E. �. freqüentes vezes. por isso mesmo. p. pois pertencendo à linha como atributos. 1022a24 seg. é apropriado dizer que é um animal” (Tóp. na medida em que ela “é” cada um dos elementos que compõem sua mesma definição.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles forma se configura a necessidade do cientificamente conhecido. Anal. 3. cf. descobrir que também não são outras as propriedades das premissas do conhecimento científico. e igualmente. II. nota ad Met. por si. que Cálias é. Tóp. 1 O “por si” e o acidente 1. 73a34-7. 3. por si (segunda acepção). que se diz pertencer a uma coisa. da qüididade (�����������������������. por si). o fato de uma coisa ser elemento da qüididade de outra não significa. evidente. 1031a12). II. I. 5. I. Index.7 Nesta primeira acepção. ibidem. pertencem ao número. por si. respectivamente. 90b16. que seja um sujeito de que a outra é atributo). se usem como sinônimos. que.3 Em primeiro lugar. por si. por si. no caso do homem. das definições do triângulo e da linha. no discurso que diz o que é a coisa. enfim. 4. 5 Seguindo o exemplo de Aubenque (cf. por si. Sobre a diferença entre ��������� e �����������. o ponto. pertencem a algo. 8 Cf. Num segundo sentido. esta última à primeira. 1030a29. à linha. 102a32-5). �. pertence esse sujeito. com efeito. como há pouco vimos. ocorre com esta segunda acepção de “por si”. Met. no segundo sentido. Le problème de l’être. que mostra o que é a coisa (�������������. cf. o primo e o composto etc. cf. VII. Z. Como se pode observar. quanto lhe pertence no “o que é” (��������������). Anal. p. Fica. assim como se dirá que par é o número com tais e tais propriedades. 91a1). portanto. ibidem. do mesmo modo. 18. Mas. por exemplo. 5. Um exemplo esclarecerá melhor a questão: par é um atributo de número. entende-se por definição (�������. por exemplo.8 dizem-se “por si” quantos atributos são tais que os mesmos sujeitos de que são atributos são elementos dos discursos que os definem. vê-se. que animal é um atributo de Cálias. 3 Cf. no segundo sentido desta expressão: é atributo de número e inclui “número” em sua definição. os elementos que integram sua qüididade e que se exprimem. 73a37-b3. cf. cf.. pertencer-lhe. que não tem. 7 Cf. Anal. Compare-se com este texto a lista dos diferentes sentidos de ���’���� que nos fornece Met. 153a15-6). 4 Cf. então. o discurso. por si (primeira acepção). com efeito. Tóp.6 Assim. 4. uma vez que “animal” pertence ao discurso que nos diz o que é Cálias. necessariamente. uma como inversão do primeiro significado da expressão. I. Seg. diz-se pertencer a uma coisa. 18. 30). 5. segundo o primeiro sentido que explicitamos. 101b38). então.. por si. 4.171). Bonitz. 1962. traduzimos literalmente a expressão ������������ Cremos. o atributo em cuja definição seu mesmo sujeito comparece – ao qual. I. por si (do mesmo modo como o par e o ímpar. por conseguinte. portanto. naquele primeiro sentido – dizse.1 As múltiplas acepções de “por si” e de acidente Quatro diferentes acepções do “por si” (���’����) distingue Aristóteles nos Segundos Analíticos. quando se é interrogado sobre o que é (��������) o sujeito em questão. por si. Diremos. o curvo e o reto são atributos da linha. como. 138 139 . no primeiro sentido (ainda que o inverso não seja. definem-se por discursos de que a mesma linha é elemento: dirse-á.5 em outras palavras. Seg. se pertence uma coisa a outra. que. obviamente. “discurso que significa a qüididade” (������� �����������������������. aquilo que a coisa é por si. por si. 763b47 seg. “discurso que mostra a qüididade da coisa” (������� ��������������������������������. também.. 1022a27-9.

22. Seg. do texto. 1962.. sem estar em sua essência como. Assim. Cf. Da Alma. ad locum). designa. acidente num outro sentido. �. Seg.). Seg. o ������� à própria forma. 73b8-10. seguindo. 4.5 deste capítulo) − designa. 1031a1-2.17 Por outro lado. E. �. 83b19-20. 9) por “attributs par soi”. cf. 1031a7-11. 1022a26-7. por exemplo. a oposição do “por si” ao acidental se reveste de uma significação totalmente outra: “Às coisas que se não dizem. acima. �. II. 1030a17 seg. ao simples acidente: “Diz-se. que pertence 17 Cf. infere-se.: por si]. aqui. 73b4-5.). concerne a primeira aos elementos da definição ou da qüididade. aos atributos que se não atribuem a uma coisa de nenhuma dessas duas maneiras. por vezes. neste sentido forte de “por si”. lamentavelmente. refere-se. para o triângulo. cf. Fís. na significação segunda e mais geral que reconhece a Metafísica poder conferir-se a tais termos. �. ou por acidente (���������������). 75b1. os “por si”. passa a recobrir. embora Aristóteles tenha acabado de explicar que se trata das essências individuais: é tanto maior o contra-senso na medida em que são inconcebíveis “les attributs qui ne sont pas affirmés d’un sujet” (cf.. as essências individuais (v. 4. 75a18-9. 20 Cf. “a essência (�����) e quanto significa um ‘isto’ (�������). 1025a30-2. I. traduz ���’���� (l. n. �. tão-somente. diz-se “por si”. chama Aristóteles de acidentes (�����������). O ������� ou “isto” − tal é a tradução literal de que preferimos servir-nos.. aliás. 30. 4. cf. Cf. conforme ao primeiro sentido da expressão. 1030a29-30. por exemplo. Seg. conforme mais adiante. 193b27-8 etc. Met.8 deste capítulo. são o que.. portanto.10 Considera. se falará em qüididade e definição. uma vez. acima. 6..16 Pelo mesmo 9 10 11 12 Cf. estarmos em presença de uma classificação exaustiva dos atributos. em definição.. Anal. também. são”. 1. 9. 1. 1042a28-9. também. 1029b13-4. Aristóteles dois outros casos em que algo é dito “por si”. I. todo atributo pertence ou desse modo [subent. I. na linguagem filosófica técnica de Aristóteles. I. 83a24-32. em qualquer categoria.. por si. Com efeito. num sentido segundo. Met. 73b7-8. 22 Cf. Index. a noção de “acidente por si” (���������� ���’����). Anal.. Seguimos a lição e a interpretação de Ross. 5 (todo o capítulo. 4. Met. �. então. o exemplo de Aubenque (cf. Met. também. acidentes (�����������)”. também. basta lembrar. 18 Seg.9 Músico ou branco. 21 Met. 1028a18-29. Seg.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Ao que não se diz “por si” em nenhum dos dois sentidos indicados. 1049a35. nota ad locum.22 E. p. 7.. 412a8-9. as essências individuais e suas qüididades: “por exemplo. �. E porque. Anal. e a qüididade de Cálias”. se dirá literalmente: “Com efeito. por exemplo. os mesmos atributos que. num terceiro sentido. 1007a31-3. também. 1017b25-6. 6. por sua vez. em sentido primeiro e absoluto. 13 14 15 16 140 141 .”.15 Porque todas as outras categorias que não a da essência dela são determinações e afecções e lhes é a essência o sujeito a que se atribuem e pertencem. Anal. Por outro lado. I. nas outras categorias (vejam-se exemplos em Céu I. 22. é evidente que.19 se diziam “por si”. Met. à categoria da essência. também. 74b11-2. enquanto a terceira acepção respeita. Anal. I. II. Met. Cf. integralmente.171 et passim.11 o que se não diz de algum outro sujeito. então. Met. Anal. �. 544b37 seg. motivo. com efeito.18 Como se pode imediatamente verificar. 17. habitualmente. 1. Le problème de l’être. 4. 4. freqüentes vezes utilizada por Aristóteles20 e explicitamente oposta. por exemplo. 1041b8-9). 8. Tricot. na Metafísica. compararmos a terceira e a primeira acepção de “por si”.14 E diremos “que é a qüididade de cada coisa aquilo que ela se diz por si”. se a linha. 18. 73b5-10. 4. 19 Cf. 4. no segundo sentido da expressão. então. há pouco.21 Se. Met. 7 seg. mais uma vez.. porém. um significado extremamente amplo: designando quanto pertence às outras categorias que não a da essência. �. �. Cálias. sendo uma outra coisa (������������) e dizendo-se de um outro sujeito (por exemplo: homem). somente a propósito das essências se falará em qüididade e. 3. branco. os textos referidos por Bonitz. 5. I. que é segundo a forma (�����) que se diz a matéria um “isto” (cf. Assim. precisamente. nesse sentido. nenhuma delas é. ter os ângulos iguais a dois retos”. por pertencerem a sujeitos que comparecem como membros dos discursos que os definem. são atributos acidentais do animal: não pertencem à definição de animal nem ocorre “animal” em suas definições.13 “Por si”. 186b18-20. particularmente. de um sujeito chamo ‘por si’ (���’����). ainda. às que se dizem de um sujeito. incapazes dedele separar-se. cf. enquanto o caminhante é caminhante e o branco..12 sem ser outra coisa. 7. naturalmente por si. �. a noção de acidente ganha. por si. Cálias é. torna-se patente que essa ampla noção de acidente acima introduzida não compreende. n. a saber: quanto pertence a cada coisa. 2.

. se morre o animal a que se corta a garganta. assim. Num quarto e último sentido. acima definido. Num ou noutro caso. 24 Com efeito. o que se diz “por si” ou pertence à qüididade e à definição do sujeito (primeira acepção) ou lhe pertence o sujeito à definição e à qüididade (segunda acepção). não pertencer à linha. 22. “enquanto ele próprio” (������): “‘Por si’ (���’����) e ‘enquanto tal’ (������) são a mesma coisa. também. por certo.. atributos ���’����. conforme ao terceiro..30 Mas. Le problème de l’être. por si. por ser Cálias uma essência e por participar “animal” de sua definição: o que equivale a dizer que os sentidos primeiro e terceiro de “por si”. I. por “acidente” quanto não lhe sobrevém dessa maneira. também.29 em virtude de sua mesma natureza. como pretende Mure (cf. também. Por outro lado. no domínio do cientificamente conhecível. em sentido absoluto. nota ad locum. também pelo corte da garganta (���������������). um pouco mais adiante. Cf.. seu erro torna-se patente. 28-32. E.1)). no primeiro sentido. Cf. Por outro lado. se possa dizer de quantas coisas lhes pertencem. Também não é certo. visto que morre do corte e em virtude dele. nesta sua outra acepção. que não se trata. II. mas. cumpre observar que o uso técnico da expressão ���’����. II. uma união tão íntima e essencial se não explica senão pelo fato de pertencer o atributo ao sujeito segundo a essência (���’������) ou qüididade deste. ora. se assim é. n. o que lhe pertence “enquanto tal”. pertencem dois retos (e o triângulo. I. pelo contrário. ao triângulo. também. p. se dirá.. pertence a um sujeito. em suas traduções respectivas desta passagem. se se considera o exemplo das linhas b14-6: porque ocorre a morte em virtude do corte da garganta. 73b16 seg. no primeiro sentido. sujeito (��’����). exemplifica também o filósofo esta mesma identidade entre o ���’���� e o ������. não pertencer ao sujeito quanto faz parte do discurso que diz o que ele é: não pode a linha não pertencer ao triângulo nem o ponto. nota ad locum). propriamente. não pode. por si: não foi por caminhar alguém que relampejou. não considera o filósofo. suas respectivas qüididades: “Dizem-se ser por si quantas coisas se significam pelas figuras da atribuição” (Met.23 dir-se-á “por si” aquilo que a algum evento sobrevém. Anal. não pertencer ao sujeito o atributo cuja definição o inclui. como viu Ross (cf. concerne à relação de causalidade que une dois eventos e um ao outro subordina. Com efeito. o próprio Tais são as diferentes acepções de ���’����. 84a11-7. 1962. Como se vê. curiosamente. Seg.. Cf. o filósofo. Interessam todas elas. à ciência? Em verdade. que esta noção de “por si” inclua a inerência das propriedades matemáticas a seu sujeito. mas da relação causal entre dois eventos. l. parcialmente se recobrem. nesta passagem. que “animal”. o “por si”. nota ad locum). 4.24 1. por exemplo. designando-se. de uma conexão entre sujeito e atributo. por outro lado. 4. não pode este. Anal. 7. Seg. em virtude do próprio evento (��’����). pertencendo a Cálias. igual a dois retos)”. é. 278a2-3 (qüididades da esfera e do círculo).462.. 74b7-10. o 25 26 27 28 29 30 Cf. com efeito. Como explicitará. 97a13. 73b10-6. por certo.. cf. tal como previamente se definira. reproduzida por Tricot). I. Ibidem.. Seg. também. que são. 142 143 . dir-se-á que sobreveio a morte ao corte. Mas não pode. por si. há se dizer-se um acidente de Cálias. ao pretender que a qüididade concerne unicamente à categoria da essência (cf. também. tanto quanto seu sujeito. ser sem aquele. como. II. Anal.27 “segundo a essência e segundo a forma” (���’������������������ �����). que sobreveio o relampejar ao caminhar. Assim. �. de nenhum modo. ocorre. Ét. por si. 1108a6-7 (qüididade da virtude) etc. que exprime a preposição ���. de algum modo. pertence o “por si” necessariamente ao sujeito: “não lhes é possível. igualmente. I. compreendemos que.2 O “por si” e a essência. por si. Nic.157. no que concerne à primeira acepção de “por si”. cap. 23 Cf. Anal. 4. (textos estes que Aubenque. tais propriedades constituem. 73b18. ignora. enquanto triângulo (����������). . Divergimos. 4. por certo. cf. 74b6-7. I. quando pretende que aquela identificação entre as duas expressões restringe o sentido de ���’����. por si. 73b18-9: ����������������������������. 33. no segundo sentido da expressão. com efeito. Anal.. 13. senão as duas primeiras:25 em ciência. 6. 6. se faz parte o sujeito da qüididade do atributo. 89a20. um acidente. não pertencer. Anal. Seg. da interpretação de Ross (cf. como erroneamente interpretam Colli e Tricot. Seg.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ao triângulo. 6. n. Cf. Seg. a reflexividade das expressões ��’���� e ���’���� respeita ao evento a que outro sobrevém como efeito e não.28 por ele próprio. então. por si. 1017a22-4). a este último. os exemplos de que Aristóteles se serve mostram claramente.”. dir-se-á que foi mero acidente ter relampejado quando alguém caminhava e não.26 Pois não pode.

Oswaldo Porchat Pereira

Ciência e Dialética em Aristóteles

na linguagem aristotélica, envolve um curioso problema de interpretação, não apenas doutrinário, mas também gramatical. Com efeito, dizer que A pertence a B ���’���� (por si) pareceria, à primeira vista, dever entender-se como afirmação de que A, em virtude de sua própria natureza, pertence a B, referindo-se, destarte, ao sujeito gramatical a reflexividade marcada pelo pronome. E não desmente, por certo, tal interpretação a doutrina, pois, conforme quanto se viu acima, é certo que é da natureza do que se diz “por si” pertencer a seu sujeito. Mas não esqueçamos que, do ponto de vista gramatical, essa interpretação não se impõe necessariamente. Com efeito, como explica J. Humbert (cf. Syntaxe grecque, 1954, § 94, p.62): “Le pronom réfléchi renvoie à la personne qui, aux yeux de celui qui parle, domine la phrase ou la proposition.Cette personne en est souvent le sujet grammatical; mais elle peut aussi y remplir les fonctions de complément, direct ou indirect”. Donde ser-nos lícito também interpretar uma frase como “A pertence a B ���’����”, referindo a B, isto é, ao complemento gramatical (e sujeito real do atributo A) a reflexividade pronominal. No mesmo sentido entenderíamos todas as passagens em que ocorrem construções semelhantes. Ora, se uma e outra interpretações são aceitáveis, do ponto de vista da sintaxe, não o são menos, em verdade, do ponto de vista da doutrina; de fato, quanto vimos do por si fez-nos compreender que, se A pertence a B ���’����, tanto se pode dizer que é da natureza de A pertencer a B como que é da natureza de B que A lhe pertença, já que A decorre necessariamente da qüididade de B: A pertence a B, por si próprio, A, e em virtude do próprio B, por “si” (ele) próprio, B. É como se a ambigüidade gramatical se amoldasse satisfatoriamente às exigências da doutrina, a qual nos propõe a concepção de uma união tão íntima entre atributo e sujeito que suas naturezas se exigem recíproca e essencialmente. Ocorre, entretanto, que numerosos textos do filósofo são de molde a dissipar qualquer dúvida sobre o sentido primeiro que confere à atribuição ���’���� de um predicado a um sujeito; com efeito, passagens como as de Prim. Anal. II, 20, 66b22-3 (���� ������� B ��� ��������’������������); Met. �, 1, com., 1003a21-2 (����������������������’����); 2, 1004b12-3 (�����������������’��������������������������������); �, 30, 1025a31 (����������� ����������’����) etc., indicam-nos, com precisão, que Aristóteles entende a reflexividade do pronome como voltada para o complemento gramatical, isto é, para o sujeito real do atributo. Aliás, ao identificar o ���’���� e o ������ (veja-se o texto referido no início desta nota), mostrando-nos que ter a soma dos ângulos igual a dois retos é atributo ���’���� do triângulo porque o triângulo, enquanto triângulo, tem tal atributo, deixa-nos manifesto que interpreta a reflexividade daquela expressão em referência primeira, sempre, ao sujeito real, coincida ele ou não com o sujeito gramatical. Vemos, então, como se hão de interpretar fórmulas substantivas tais como “os por si” (������’����), “os atributos por si” (�� ���’��������������), “os acidentes por si” (������’����������������) (cf. Seg. Anal. I, 4, 73b24-5; 6, 74b6-7; 75a18-9; 7, 75b1; cf., também, os textos acima referidos, n.20 deste capítulo), assim como construções como esta: “os universais pertencem por si, mas os acidentes, não por si” (������������������’��������������������������������������’����, cf. Met. �, 9, 1017b35-1018a1; cf., também, �, 5, 1031b22-3 etc.). Com efeito, a reflexividade marcada pelo pronome pareceria, à primeira vista, ter necessariamente de respeitar ao termo que imediatamente o antecede, em cada um desses exemplos, devido à mesma inexistência de outro termo explícito a que pudesse concernir. Nada impede, porém, que, conhecendo agora o sentido exato conferido pelo filósofo à expressão ���’���� e a natureza de seu emprego sintático, compreendamos constituírem as fórmulas e frases acima transcritas expressões de uma linguagem filosófica técnica que se não mais interpretarão de modo meramente gramatical. Assim, os “acidentes por si ‘ou’ atributos por si” são aqueles atributos ou acidentes que pertencem a seus sujeitos por “si” (eles) próprios,

sujeito dispensar seu atributo: não pode o triângulo não ser igual a dois retos, não podem não pertencer ao número os atributos opostos (�� �����������), tomados disjuntivamente, par ou ímpar, assim como não podem não pertencer à linha o reto ou o curvo.31 Decorrendo, então, da mesma qüididade de seu sujeito, ainda que dela não faça parte,32 tal atributo por si aparece-nos como uma propriedade necessária daquilo de que é atributo, tanto quanto é necessário o que se diz “por si”, por fazer parte da mesma qüididade. E, se recordamos que os Tópicos definiam o próprio (�����) como “aquilo que não indica a qüididade, mas pertence unicamente à coisa e com ela se reciproca na atribuição”33 − por exemplo, animado (�������) é próprio de animal34
isto é, em virtude da natureza dos mesmos sujeitos. Do mesmo modo, “os universais pertencem por si...”, isto é, pertencem a seus sujeitos por “si” (eles) próprios, em decorrência da natureza dos sujeitos. Esclarecidos esses pontos, conceder-nos-á que traduzamos sistematicamente ���’���� por por si, como expressão técnica da linguagem filosófica aristotélica, mesmo naquelas construções em que seu uso, em português, seria, de um ponto de vista estritamente gramatical, inaceitável. Com isso, evitamos o inconveniente, a nosso ver, mais grave, de obrigar-nos a propor diferentes traduções, conforme às variações do uso sintático da expressão na língua grega, mais tolerante que a nossa. Se preferimos, por outro lado, tal tradução literal de ���’���� a expressões como “atributo essencial” ou algo semelhante, é que relutamos em introduzir, na tradução, conteúdos semânticos não contidos na expressão original. E não nos esqueçamos, também, de que não era, finalmente, menos insólito dizer, em grego, ������’���� (por exemplo, em Seg. Anal. I, 4, 73b24-25) do que o é, em português, a expressão “os por si”. 31 Cf. Seg. Anal. I, 4, 73b18-24. Contra a eventual objeção de que o número, por exemplo, de que são atributos “por si” o par e o ímpar, podendo ser par e ímpar, não é necessariamente par nem necessariamente ímpar, explica Aristóteles que, de qualquer modo, é necessária a atribuição de um dos dois membros da disjunção; o mesmo se dirá para quantos pares ou grupos de atributos dividem exaustivamente − e esse é o caso dos por si que, aqui, se têm em vista − a extensão do sujeito considerado. 32 Cf., acima, III, 1.1 e n.21: não estar na essência (�����), dela não fazer parte, entende-se, aqui, obviamente, no sentido de não pertencer à qüididade, cf., acima, n.157 do cap.II. Esse texto de Met. �, 30 é, aliás, decisivo contra a interpretação da qüididade (�������� �����) proposta por Aubenque (cf. Aubenque, Le problème de l’être..., 1962, p.460-72), para quem o atributo por si pertence à qüididade e “le ����������� est donc bien ce que la chose était avant l’adjonction des attributs accidentels, mais aussi ce qu’elle est après l’avènement des attributs par soi, c’est à dire de ces attributs qui finissent par être reconnus comme appartenant à l’essence (par exemple, la sagesse de Socrate, la richesse de Crésus, ou la proprieté des angles d’un triangle d’être égaux à deux droits)” (ibidem, p.465-6). 33 Tóp. I, 5, 102a18-9. Cf., acima, n.239 do cap.II. 34 Cf. Tóp. V, 6, 136a12.

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e, portanto, não só pertence unicamente a animal mas, também, se algo é animal, é animado, tanto como, se é animado, é animal −, compreendemos que possa dizer-se um próprio o atributo por si, ainda que não se possa assim considerar, em sentido estrito, todo “acidente por si” tomado isoladamente (par, por exemplo, pertence a número, por si, mas nem todo número é par); ocorre, porém, que, considerados em conjunto, os por si (como par e ímpar) que, membros de uma mesma divisão genérica, dividem exaustivamente a extensão de um sujeito, poderão dizer-se pertencer ao sujeito como seus próprios, já que são com ele convertíveis.35 Poderemos dizer que par ou ímpar são próprios de número, do mesmo modo como acima dissemos que lhe pertencem necessariamente; e Aristóteles se referirá, em Met. �, à paridade e à imparidade, à comensurabilidade e à igualdade etc., como a afecções próprias (���������) do número, enquanto número.36

1.3 O “por si”, o acidente e a ciência
Mas, se exige a natureza do por si que ele pertença necessariamente a seu sujeito, não ocorre o mesmo, por certo, com o acidente. Com efeito, não pertencendo à qüididade de seu sujeito nem dela dependendo, não fazendo parte da definição do sujeito nem o tendo como elemento de sua própria definição, “o acidente pode não pertencer”37 ao sujeito: definir-se-á, mesmo, o acidente por esse fato de poder pertencer, ou não, ao sujeito.38 E, porque podem não pertencer, não são os
35 Cf. Seg. Anal. I, 22, 84a24: �������������. Não se veja contradição entre essa descrição dos ���’����, objetos da ciência demonstrativa, como próprios, e o argumento que, acima, vimos oposto aos partidários da demonstração circular (cf. II, 5.4 e n.237 a 240), baseado no fato de serem os próprios, relativamente, pouco freqüentes nas demonstrações: é que o filósofo, aí, se limitara a considerar cada predicado a ser demonstrado, isoladamente e por si mesmo, e não, como um dentre os membros de uma mesma divisão genérica, que, em conjunto, pertencem, necessariamente, ao sujeito, com que se reciprocam na atribuição. 36 Cf. Met. �, 2, 1004b10 seg.; cf., também, Part. Anim. I, 1, 639b5; Met. �, 3, 1078a7; Da Alma I, 1, 402a9 etc. 37 Seg. Anal. I, 6, 75a20-1. 38 Cf. Tóp. I, 5, 102b4 seg.; Fís. I, 3, 186b18-20; cf., também, Met. �, 10, 1059a2-3 etc. Veja-se a doutrina geral do acidente, em Met. �, 2-3; cf., também, �, 30.

acidentes necessários.39 Por outro lado, estamos, obviamente, em presença de uma classificação exaustiva, como já assinalamos:40 o que não é por si é acidente e vice-versa. Resulta, então, de tudo isso, claramente, que, “uma vez que pertence necessariamente, em cada gênero, quanto pertence por si e a cada sujeito enquanto tal, é manifesto que as demonstrações científicas concernem ao que pertence por si...”.41 E, pela mesma razão, de quanto não pertence por si não pode haver ciência demonstrativa:42 porque a ciência é do necessário,43 não há ciência do acidente − tal é a constante e conhecida doutrina aristotélica.44 Mas, ocupando-se do que se diz “por si”, conforme às duas primeiras acepções que encontramos para a expressão, diz respeito, então, a ciência a quanto pertence à definição e à qüididade dos sujeitos que estuda e a quanto pertence necessariamente a um sujeito e o tem como elemento de sua própria qüididade e definição. O necessário que a ciência conhece apresenta-se-nos, assim, como um por si, ao mesmo tempo que constatamos que o problema da definição não é alheio à problemática da coisa demonstrada.45 Quanto à terceira acepção de ���’����, conforme à qual se dizem “por si” as essências e suas qüididades,46 cabe à ciência do ser enquanto ser dela ocupar-se, se a questão do ser se reduz, em última análise, à problemática de essência.47

39 Cf. Seg. Anal. I, 6, 74b12; 75a31; Fís. VIII, 5, 256b9-10; Met. �, 8, 1065a24-5 etc. Mais exatamente, diremos que o acidente é o que nem é necessário nem freqüente, nem sempre nem “no mais das vezes”, cf. Met. �, 8, 1064b32-1065a3; �, 2, 1026b31-3. Sobre o sentido preciso desta caracterização do acidente, falaremos adiante, ao tratarmos do “freqüente” (��������� ����). 40 Cf., acima, III, 1.1 e n.10. 41 Seg. Anal. I, 6, 75a28-30. 42 Cf. ibidem, l. 18-20. 43 Pois vimos que é como conhecimento causal do necessário que ela se define, cf., acima, I, 1.1. 44 Cf., por exemplo, Met. �, 2, 1027a19-20; �, 8, 1064b17-8; 30-1, etc. 45 Caberá ao livro II dos Segundos Analíticos estudar a precisa relação entre a definição e a demonstração, cf., adiante, nosso cap.V. 46 Cf., acima, III, 1.1 e n.11 a 17. 47 Cf. Met. �, 1, 1028b2-7.

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1.4 O necessário que a ciência não conhece
Mas, que coisa diremos do quarto sentido que reconhecemos naquela expressão?48 Por que não pertenceria à ciência, em geral, ocupar-se do que se diz “por si”, porque evento que a outro se subordina por um liame causal e de tal modo, que, se tem lugar este outro, não pode aquele não segui-lo, já que lhe sobrevém a ele, por ele próprio? Não é, acaso, necessário, que morra o animal a que se corta a garganta e que, portanto, ao corte, por causa e em virtude do mesmo corte, a morte sobrevenha? Mas não se está, então, em presença de efeito necessário que, por sua causa, se conhece e se conhece, portanto, cientificamente? Ora, não reconhece o filósofo cientificidade, como vimos, senão ao que se diz “por si” na primeira e segunda das acepções que distinguimos. Não nos será difícil, entretanto, perceber por que ele assim procede e compreendê-lo nos será, sobretudo, da máxima importância. Porque teremos aclarado um ponto nevrálgico da teoria aristotélica da ciência, deixando manifesta sua irredutível oposição às concepções da ciência que prevaleceram no mundo moderno. Com efeito, o que significaria reconhecer a cientificidade do conhecimento do “por si” no quarto e último sentido enumerado? É fácil ver que isso equivaleria, simplesmente, a afirmar que, tomando-se dois eventos A e B, se é verdade que, dado A, segue-o necessariamente B, em virtude de e por causa de A, conhecer essa lei de produção do evento B será conhecê-lo cientificamente. Ora, fosse essa a concepção aristotélica do objeto científico e teríamos de confessar que, sob, ao menos, esse aspecto, ela se distanciaria, menos do que se tem pretendido, das teorias da ciência moderna. Não se ignora, por certo, a substituição progressiva, ocorrida em amplas esferas do pensamento científico contemporâneo, da noção de causa pela de um certo tipo de relacionamento entre dois eventos, nem a moderna introdução do cálculo das probabilidades em substituição à idéia de ligação neces48 Cf., acima, III, 1.1 e n.23 e 24.

sária. Cremos, entretanto, ser lícito pretender que haveria um ponto essencial de contato entre a concepção aristotélica e as modernas, se as mesmas relações entre fatos se considerassem, igualmente, por uma e outras, objetos de ciência e se as divergências respeitassem, antes, à interpretação conferida ao “determinismo” dos fatos. Ora, o que se pode facilmente mostrar é que a ciência aristotélica, tomada em sentido estrito, deve, coerentemente, excluir, de seu domínio, toda uma numerosa classe de relações causais e necessárias que a ciência moderna tomou por seu legítimo objeto e a que não recusou a dimensão da cientificidade. E, de fato, tudo se esclarece do ponto de vista aristotélico, se atentamos em sua exata doutrina da necessidade e da causalidade. Se há algo que Aristóteles deixa absolutamente claro em sua análise da noção de causa, é a universalidade das determinações causais: de tudo há uma causa e, sem causa, nada ocorre, podendo a causa identificarse, ou não, com a própria natureza da coisa.49 Não escapam, assim, à esfera da causalidade as mesmas determinações acidentais que advém a um sujeito, ainda que pudessem não sobrevir-lhe: por elas, em última análise, a matéria é responsável,50 “cuja natureza é tal que ela pode tanto ser como não ser”.51 O que acontece, entretanto, é que “das coisas que são ou devêm por acidente, também a causa é por acidente”.52 Ou, mesmo, mais precisamente, é acidente o que é produzido por uma causa também acidental. Pois, por que razão pode o acidente não pertencer a seu sujeito, isto é, de onde tira ele o seu caráter de não-necessidade senão do fato de que não decorre da natureza do sujeito a que sobrevém? Há, por certo, atributos que pertencem necessariamente a seus sujeitos unicamente em lugares e momentos determinados: são aqueles que exige a natureza do sujeito, em determinadas relações de lugar ou tempo, e que, por isso mesmo, também se dirão, em sen49 50 51 52 Cf. Seg. Anal. II, 8, 93a4-6; cf., acima, cap. I, n.8. Cf. Met. �, 2, 1027a13-5. Met. �, 15, 1039b29-30. Cf. Ger. e Per. II, 9, 335a32-b5. Met. �, 2, 1027a7-8.

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tido próprio, atributos “por si”.53 Mas, se a natureza do sujeito não exige, de nenhum modo e em nenhuma circunstância, suas determinações acidentais, por que lhe sobrevêm elas se não porque se produz, entre a causalidade própria ao sujeito e uma causalidade exterior, uma interferência que a ordem natural das coisas permitiu, mas não exigia, e que, de direito, era, por isso mesmo, imprevisível? A tempestade que arrasta para Égina uma embarcação e aí faz chegar o homem que para lá não se dirigia pode exemplificar-nos a produção causal − e necessária − de um acidente (ir a Égina é, para o homem em questão, um acidente), dada a recíproca interferência de duas causalidades (a da tempestade e a da intenção humana) que nada obrigava a compor-se.54 E não concebeu o filósofo um universo rigidamente determinado onde se produzissem por necessidade as mesmas interferências das diferentes séries causais que o percorrem; ao contrário, reivindica, ao menos para nosso mundo sublunar, inclusive a existência da sorte e do acaso, portanto, de causalidades meramente acidentais,55 reconhecendo “uma iniciativa na natureza inconsciente análoga à que ele concede ao homem”.56 Segundo essa perspectiva, nada impede, então, que um resultado acidental se deva a toda uma série de eventos necessariamente encadeados segundo relações causais que o engendram e um ao outro subordinam: o homem que saiu de casa e pereceu nas mãos dos inimigos que o espreitavam sofreu o que, dadas as circunstâncias, teria necessariamente de ocorrer-lhe, ao sair de casa; e terá saído como necessária conseqüência do fato de ter sede, por sua vez necessariamente causada por ter-se alimentado de comida condimentada. Se pudéssemos, indefinidamente, assim remontar de efeito a causa, tudo, por certo, seria necessário. Mas eis que nos sustenta o filósofo depen53 Cf. Met. �, 30, 1025a21 seg. e a excelente nota de Ross, ad locum. A ascensão e o pôr dos corpos celestes seriam exemplos desses atributos necessários que pertencem a seus sujeitos unicamente em determinados lugares ou momentos. 54 Cf. Met. �, 30, 1025a25-30. 55 Cf. Fís. II, 4-6, esp. 5, 196b24 seg. 56 Ross, Aristotle’s Metaphysics I, p. 363 (em nota ad Met. �, 2, 1027a29).

derem tais processos de um princípio, além do qual não é possível remontar: seja, no caso presente, a ingestão dos alimentos condimentados a que nada, podemos supor, obrigava, nas circunstâncias presentes, o sujeito que consideramos. Por acidente, portanto, inicia ele toda uma série causal que, instaurada inelutavelmente pelo evento que a principia, com ele compartilha, entretanto, sua mesma acidentalidade originária. Diremos, então, que é um acidente para tal homem o mesmo fato, por exemplo, de morrer nas mãos dos inimigos que o esperavam.57 Todos os efeitos produzidos pela ingestão de alimentos dir-seão, assim, segui-la, por si, no quarto sentido que acima distinguimos: não serão, menos, acidentes, em sentido absoluto, relativamente ao sujeito que, em má hora, decidiu alimentar-se. Também o exemplo da morte produzida pelo corte da garganta do animal58 assim há de interpretarse: o cortar-se-lhe a garganta é acidente que lhe sobrevém por interferência de causalidade que lhe é estranha: os efeitos que, por si, necessariamente o acompanham ser-lhe-ão, ao animal, por isso mesmo, em sentido absoluto, acidentais.59 Porque tais “por si”, assim, finalmente, se integram no domínio da acidentalidade, deles não se ocupará a ciência aristotélica. Ainda que possamos conhecer como se relacionam causal e necessariamente eventos de tal natureza, não “previa” sua produção a ordem de necessidade ontológica que a ciência se dá como objeto. Esta última percorre as séries causais que a natureza das coisas, por si, engendra e não, aquelas que a interferência fortuita de séries causais ocasionalmente pode engendrar. Ora, não nos é difícil verificar como foi, precisamente, contra essa restrição do âmbito da causalidade científica que se pronunciou a ciência moderna; em linguagem aristotélica, é-nos, mesmo, lícito pretender que a ciência moderna encontrou um dos fun57 Cf. Met. �, 3, 1027b1-6 (e todo o capítulo, consagrado ao estudo da causalidade acidental). 58 Cf., acima, III, 1.1 e n.23 e 24. 59 Isto é, no sentido de acidente que corresponde às acepções primeira e segunda de “por si”. E o tratado da Geração dos Animais falará, a propósito de eventos dessa natureza, em “necessário, por acidente” (�������������������������, cf. Ger. Anim. IV, 3, 767b14-5), sem que tenhamos, como vemos, por que estranhar uma tal expressão.

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por pertencer ao sujeito por si. o papel da “experiência” nas investigações que o filósofo empreendeu em matéria física e biológica. E. segundo a ordenação própria das coisas que o mundo oferece à nossa contemplação. é o universal. da essencialidade da relação entre o sujeito considerado e o que dele se 63 Cf. 1. arrancando as coisas à sua ordem natural.2 e n. �. Cf. Com efeito. não é senão pelo fato mesmo de que. 73a27 seg. a universalidade. a tal outra. em sua doutrina da ciência.2 O universal e a ciência 2 A “catolicidade” da ciência 2. III. Se. atributo “de todo sujeito” (�����������). 1964. um duplo sentido: um sentido quantitativo e um sentido modal (cf.. nem pertencer em tal momento. com efeito. 4. 68 Seg. 12. II.26. cf.2 e n. 70 Cf. 1.66 o “por si” e o “enquanto tal”. 1. que o “por si” pertence necessariamente ao sujeito. 1939. a melhor manifestar que atributos decorrem dos sujeitos. em Aristóteles. também. 4. Explica-nos Aristóteles que tal designação se aplica ao que “pertence a todo sujeito (�����������).30.1 O ����������� Antes. 96a15. I. o que entende o filósofo por �������. 32-4. III. diremos que um atributo pertence a uma totalidade. 67 Seg. explicara-nos Aristóteles o que se deve entender por atributo de uma totalidade. não basta. I. 24b28-30: “Dizemos atribuir-se uma coisa a todo sujeito (�����������). 152 153 . também.. verdadeiro dizer que é animal: ao que é atributo de uma totalidade.. mas não. 61 Não ignoramos. cf. por si (���’����) e enquanto tal (� ����)”. acima. os universais pertencem por si”. então. I. como se identificam. é. mas não. que quanto é universal pertence necessariamente às coisas”. por si. Vejamos. senão o por si considerado do ponto de vista da extensão.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles damentos de seu extraordinário progresso na extensão do “por si” científico ao quarto sentido aristotélico da expressão: se o necessário que a este concerne pode assimilar-se à necessidade do compulsório e da compulsão. Mas. Logique et méthode. pertence o universal a todo sujeito. cf.. como veremos. 66 Cf. 73b26-7.63 Em outras palavras.69 a eternidade não sendo. Hartmann. que é um homem.42. senão o corolário da necessidade. 1 e n. com efeito. Seg.61 tos em que ela é falsa.60 a introdução do moderno método experimental como fonte de conhecimentos científicos representa a instauração da “violência científica” que. Aristóteles y el problema del concepto. 62 Cf. 4. entretanto.70 Decorre. de determinado ser. 73b27-8. isto é. Anal.1 e n. acima. assim. Le Blond. a que consagrou Bourgey seu belo estudo (Observation et expérience chez Aristote. ������� se diz. em tal outro. encontramos indício suficiente de que é exatamente isso o que entendemos por atributo “de todo sujeito”. ou com os momen60 Necessidade que vimos ser concernente à atuação do que vem estorvar o impulso natural ou a intenção deliberada. em outros sentidos. quando nenhum caso se pode tomar do sujeito de que aquela não se diga”.. l. portanto. I. I. a uma totalidade genérica dada.15-6). por certo. não lhe é possível pertencer a tal instância individual do sujeito. de definir o “por si”. Met. vimos. 87b32-3. no “universal”. isto é. Anal. ainda. se e somente se ele pertence a qualquer membro da totalidade que se considere e em qualquer momento em que ele se considere. 1955). “dizemos ser universal o que é sempre (���) e em toda parte”:68 “isto. o que se aplica a todo sujeito e sempre”. impõe-lhes as condições que fazem interferir com sua causalidade própria a causalidade da práxis humana. que se diz de todo homem. com efeito.64 2. como sabemos. quando queremos impugnar uma atribuição a uma dada totalidade. I. como disse Hartmann. tal “experiência” nunca se destina senão a melhor pôr em relevo o comportamento “natural” e “habitual” dos objetos que se estudam. com os casos em que a atribuição não é válida. acima.222-51. Anal. vemos que o universal não é..67 Por isso mesmo. Anal.19 seg. p. significa isto que. distingue Aristóteles. Anal. 1. se é verdadeiro dizer.65 E. E. N. 65 Seg. p. I. Anal. argumentamos. para o filósofo..62 Tomemos o exemplo de “animal”. 69 Seg. ibidem. acima. também. 64 Já que. acima. necessariamente lhe pertence: “É manifesto. mais uma vez. também. 31. tal como a concebe o filósofo. cf. 1.. que se afirme o atributo de toda a extensão do sujeito para que se esteja em presença de um universal aristotélico. Nas mesmas objeções que levantamos. mesmo. 1017b35: “Com efeito. Prim. 9.

6. 73b32-33. porque sabemos “que as demonstrações científicas concernem ao que pertence por si”. Met.73 desvenda-se-nos. não se trata. em sentido estrito. entretanto. 154 155 .. Do Céu III. Cf. Nic. Cf.3 Universalidade e sujeito primeiro Atentemos. 74a12-3. 73b38-9. Anal. 74a2-3. em que.82 se se toma. 24. I. pode. em sentido estrito. Anal. O termo ���������. Cf. de que “a ciência é conhecer o universal”. �. Anal. ao triângulo que resta. 4. dizer-se.. para considerá-las. 1. 1003a14-5. unicamente. 403b14-5 etc. Consideremos. Seg. por esta afirmação? Tomemos o exemplo da soma de ângulos igual a dois retos. Seg. I. 74a31. por outro lado. 85b12-3.. para falar-se de universal. Pois. I. VI. por outro lado. com efeito. I. 87b38-9. 1. compreender que uma tal demonstração não constitui. que “enforma” sua mesma qüididade: o universal pertence ao sujeito “segundo a forma” (���’�����). nos textos tantas vezes repetidas e eternamente comentadas. 4. 77 Seg. progressivamente. e não. não pertence menos aquele atributo ao triângulo isóscele que remanesce. acima. eis a condição sem a qual não há �������71 ). mas não. pois. as determinações do objeto. 5.. como sujeito primeiro”. o que mostra que não é por ser isóscele que o triângulo isóscele tem seus ângulos iguais a dois retos: se quisermos exprimir-nos com rigor. Cf. “eliminação” antes que “abstração”. provar Cf. 6. 1086b5-6. porém.75 “a ciência de todas as coisas é universal”76 etc. 73b33 seg. quando ele se provar de um caso particular qualquer do sujeito e. I. para qualquer triângulo que se tome. num �������. Seg. uma vez “eliminado” o ser ele de bronze. A respeito da utilização de tal processo pelas matemáticas. a mesma prova pode efetuar-se. designa. enquanto triângulo. reconheceremos que. o exato sentido das declarações aristotélicas. Da Alma II. Seg. em relação à figura. Seg.41.81 E. 6. mas não é igual a dois retos a soma de seus ângulos. 74a37 seg. também. Seg. 1. seja ou não isóscele. I. de qualquer figura tomada ao acaso: o quadrado é uma figura. I. nem mesmo diremos que aquele atributo lhe pertence por si. às coisas. também.72 E. mas ele não pertence menos. �. o processo pelo qual “subtraímos”. Anal. porque não se trata. �. de um atributo �����������.78 É possível. o exemplo do triângulo isóscele: é certo que. 2. poderemos. 1. 5. a demonstração científica de uma atribuição por si e universal. provar que a soma de seus ângulos é igual a dois retos e teremos plenamente configurado um caso em que o atributo pertence a todo sujeito. por certo.77 Que entenderemos. exatamente. 5. de uma atribuição universal. 417b22-3. enquanto isóscele:80 é anterior o triângulo ao isóscele. 11. Met. se o ser isóscele se “elimina”. tais ou quais de seus atributos reais. 3. cf.3 e n. III. deste. é preciso que se esteja em presença de um sujeito primeiro: “o universal pertence ao sujeito. Anal. 4.79 Em verdade. 299a15-7. 77a6-7. Cf. 71 72 73 74 75 76 de uma figura que a soma de seus ângulos equivale a dois retos. Seg. ser a compreensão que fundamenta a extensão. precisamente. por exemplo. o atributo pertence ao isóscele. também. Cf. 1059b26. com. 33. agora. então. 1140b31 etc. Anal. 1061a28 seg. um triângulo isóscele de bronze cuja soma dos ângulos se mostra igual a dois retos. sob determinados aspectos. Da Alma I. Não 79 80 81 82 Cf. �. o universal não é senão o aspecto quantitativo de que o “por si” se reveste para um sujeito que se individua numa multiplicidade de manifestações numericamente distintas. Seg. integrando a qüididade (primeiro sentido de “por si”) ou dela decorrendo (segundo sentido de “por si”). Anal. Anal. desse modo. 75a29-30. ibidem. sempre. então. Anal. é o triângulo o sujeito primeiro da propriedade considerada. obviamente. qualquer que seja o triângulo isóscele particular que se considere. a universalidade em questão sendo de maior extensão (���������). de um ponto de vista lógico. 9. que se tomam como objeto de estudo. I. cf. Ét. um componente fundamental da noção de universalidade (que um mesmo predicado seja verdadeiro de muitas coisas. Anal. 31. I. 88b31. Se a atribuição à totalidade permanece. Não é difícil. De um ponto de vista ontológico. Met.74 “a ciência é universal e procede por conexões necessárias”. se se aplica o processo da ��������� e se “eliminam”.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles diz: o ���’���� fundamenta o ����������� e converte-se. Seg. 5. I.. 78 Cf.

construir suas demonstrações. 59b26 etc. diz-se pertencer-lhes (e a �). Seg. 4. Seg. E. sem universal. então. a equivalência da soma dos ângulos externos a quatro retos. a todas as espécies (assim. por si. nem mesmo pode haver silogismo. portanto. II. Em Seg. E tampouco o emprega o filósofo nessa acepção na maioria de seus escritos. pelo mesmo fato de exprimirem um conhecimento de atributo necessário. acima. Anal. é certo que se não tem mais aquele atributo. 30a6 etc. universalmente e por si. nos Primeiros Analíticos. remontar mais alto o processo de “eliminação”. poderemos mostrar que. por exemplo. 4. Tóp. sais: “a ciência é dos universais. acima. 26a18. tomando o exemplo de um atributo que pertence a um gênero. 87 Cf. que as vemos. 28a17. distingue entre a proposição universal (�������). 10. Aristóteles. I. tomadas uma a uma. Anal. 8. conforme.84 2. enquanto sujeito primeiro. 14. com efeito. 99a32 seg. 2. 29a23. então. 30. porém. acima. assim como se denominam universais os silogismos de conclusões universais. 23. b11 etc. 24. 69b2. pela lógica clássica e incorporado à sua terminologia habitual. verificar que as conclusões que a ciência demonstra hão de formular-se como proposições que atribuam um predicado a um sujeito.91 Mostra. É do triângulo. que pudemos definir porque o pudemos surpreender em sua mesma realidade e tomar como objeto de nosso estudo. que se fará a demonstração universal. I. então. cf. por exemplo. 16. Seg. que.. se tal uso de “universal”. tomadas em conjunto. 74b2-4. universalmente. também.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles pode. pois possui tal propriedade por ser figura retilínea: sobre esta far-se-á. 85b38-86a2.86 É pela primeira figura do silogismo.. podemos. 24b26-8. 5. 24. a cada uma das espécies de �. Anal. como nossa ciência constitui um fato de nosso mundo.83 Mas. também. enquanto. Anal. 29. 77a7-8. Considere-se. I. 28. 84 Cf. I. VIII. I. passim. 40b18. 17. 90 Cf. Seg. VIII.85 compreendemos também que a própria contemplação das ciências a nosso alcance já no-las revela como conhecimento de univer83 Cf. I. Prim. ���’���� e �������. 1. num caso como esse. II. a que contém um predicado �����������. I. 5. No mesmo sentido. pura e simplesmente. Prim. Anal. portanto. 23. que B pertence. herdado. universalmente. 26. 156a28. 30. 88 Cf. 31. mas tais não são as primeiras determinações com que isso ocorre: “eliminado” o triângulo. não é este. 6. por exemplo. 27a2. I. não haver demonstração. nos mesmos textos dos Segundos Analíticos. 156 157 . I. pertencendo-lhe. se não há universal. já não mais pertence a qualquer figura limitada a propriedade de ter a soma de seus ângulos igual a dois retos e torna-se evidente que se não deve senão à triangularidade a presença de tal atributo nas determinações inicialmente consideradas. também. Anal. part. aliás. também. 2. que Aristóteles emprega como equivalente a “atribuir-se uma coisa a toda (�����������) uma outra coisa”. 1. Tóp. 14. 91 Cf. o estudo geral do silogismo que. em outras palavras. portanto. se se “eliminam” figura ou limite. que concernem à doutrina da ciência. �.1. entretanto. o conhecido texto dos Segundos Analíticos que nos diz não haver termo médio. 41b22-6. Assim. na maior parte das vezes. Prim. se uma outra propriedade se considera. I.92 E a essa ampla acepção de ������� refere-se. 85 Cf. todo o capítulo. concerne. 73b39-74a2. dire86 Met. se o triângulo isóscele a possui porque triângulo.. reciprocando-se com as espécies de �. 93 Cf. Anal. 1086b33-4. precisará que admite o uso do termo “universal” para designar. Anal.89 E por termos (����) universais. definimos esta expressão. não se reciproca). cf. Anal. chamando.1. � a � e às espécies de �). 92 Cf. Anal. 7. então. a expressão ������������������������� (estar uma coisa em outra como num todo). o sentido técnico de ������� que vimos estudando − atributo necessário e por si. �����������. II. definindo como universal aquela em que se atribui o predicado a todo (ou a nenhum) sujeito88 ou. 89 Cf. nesse sentido da expressão. o predicado que se não reciproca com um sujeito (dizendo. 31. 1. Prim. entendem-se. a doutrina geral de silogística.87 Não esqueçamos. como se sabe. 24a16-7. com as quais. I. Prim. obviamente.90 quantos predicados se atribuem. b5. 164a9-11.93 Mas.. 8.. cf. 26. Seg. o sujeito primeiro. no entanto. 26b1. III.4 Acepções diferentes de “universal” Estudando as noções de �����������. 15. a particular e a indefinida. Anal. 11. isso é evidente a partir das demonstrações e das definições”.. portanto. a demonstração universal. ao longo desse tratado. que pertence a todo sujeito − não é o único que confere Aristóteles ao termo. de “universal primeiro” (��������������) ao mesmo predicado. como.

204 seg. por exemplo. Da Int. 18. 3. I. 99b34-100a5 (cf. 19. 1000a1. elemento comum que se diz de uma multiplicidade de ����. dos individuais”. assim. cf. também o texto. vamos encontrar. 1. I.. (cf. A mesma doutrina reaparece nos Segundos Analíticos. 143a17-9. III. mais propriamente. de se lhe atribuírem como aquilo que o indivíduo. 158 159 . à noção de conceito. 102 Cf. I. 105a13-14. Prantl. que a polêmica dirigida contra o platonismo o acusará. aplicado às “coisas”. que opõe às coisas universais as individuais. e o indivíduo é. com. na terminologia aristotélica. “homem não é branco”. àquilo de que é gênero) aproxima bastante esta acepção de “universal” daquela outra. acima citado (cf.1 e n.. 16a7-8) dos universais. Met. no mesmo texto.97 embora não devamos esquecer que. Met. Como se vê. 19. de ter convertido os universais em Formas ou Idéias separadas. correspondem os universais ao que o tratado das Categorias denominava essências segundas (���������������). dentre as coisas (�������������) são universais (�������). Veja-se a mesma definição de universal proposta em Met. à estrutura do juízo e ao que se convencionou chamar de sua quantidade.135. 97 Cf. �����.97). 4. nas proposições indefinidas “homem é branco”.13 seg. Seg. deus são. n. p. acontecerá que.).. por outro lado. é (o ����� é a qüididade. 7. são o que mais corresponde.23 seg. seres animados (���). 1. p.22. p. 139a28-31. Anal.1. mas é óbvio entender Aristóteles que a proposição em que o universal se diz dos individuais nada mais faz que exprimir a própria realidade universal constituinte das coisas individuais: o universal é “coisa”.. cf. �. acima. nela ‘aquietam-se’. 100a6-7. II. que pode aparecer numa proposição não universal − assim. ‘fixam-se’”. 13. todo o capítulo): se a essência é o “isto” e a forma. 17b1 seg. 1. 96 Cf. 5. Anim.157. cf.��. 16. �. isto é. Met. Seg. 3. também. também. II. cf. a totalidades naturais que configuram uma unidade genérica. cap.. Met. às próprias “coisas”.ibidem. ���������. pecado em que Sócrates não incidira:102 converteu-se o ������� e significa o “o que é”. Part. cf. individuais (���’������) − chamo de universal o que se atribui naturalmente a muitas coisas. 17a38-b1. Met. 81b6 seg. todos.II. 13.1 e n.. às formas ou espécies (����) e aos gêneros (����). 1024b4-5. III. 26. ou a da relação. introduzida pela lógica posterior. �. 71a6-9.7 e n. Met. Cf. 1964. Tóp. 2. por atribuirse naturalmente a cada um de seus membros e “por serem todos eles. I. uma única coisa”:96 homem. �. Por outro lado. ����.��������� etc.) e em não admitir que se traduzam por “conceito” termos como �����. Cálias. também. seja ela a da essência. onde se opõe ao ������� genérico o �����. tal universal respeitasse. �.99 Os mecanismos psicológicos que levam ao surgimento. 13. Tóp. 1. Erster Band. 28. acima. É o que não viu Hartmann.65. em recusar validade a quantas interpretações. Poderia parecer que. acima. b2. sobretudo. por si. esclarece-nos uma importante passagem do tratado da Interpretação que “umas. �������. Dizendo. �. 4. Anim. 210 seg. enquanto se dão na alma. 18. Anal.1 e n. em que o universal se diz. onde se mostra que espécie e gênero devem pertencer à mesma categoria. 98 Cf. as mais próximas da sensação e. ele próprio e sua qüididade. Met.. emprestam a Aristóteles. b13-5. entretanto. Cat. com efeito. �. 1033a4-5. o mesmo termo aplicado. o qual tem razão. 769b13 etc. entretanto.180 a 182 etc. 1963. 1038b11-2. na alma (cf. 5. outras. homem faz parte dos universais. 71b29-72a5.. cf. cada um de per si. �������. se o ser das coisas individuais lhes é conferido pela sua mesma qüididade e por seu �����. 100 Cf. 1. Anal. que os Segundos Analíticos nos propuseram. de individual o que se não atribui. mas.2 e n. ou da qualidade. 142b27-9. anacronicamente. 987b1-10. 4. antes. o emprego de ������� a que aqui nos referimos. Seg. II. 1022a26-7. Geschichte der Logik in Abendlande.) ou Zeller (Die Philosophie der Griechen. pertencendo. 108b101. portanto. 2. Da Int. definido como “o que se atribui naturalmente a muitas coisas”. que às próprias coisas. respeito. cavalo. 99 Cf. �. II.). 1955. III. 644a27-8. 18. Aristóteles y el Problema del Concepto.94 E. das afecções que correspondem a tais universais são descritos pelo filósofo no famoso último capítulo dos Segundos Analíticos. anteriores e mais conhecidas para nós. o gênero (�����). que a sensação apreende. 7. 12. por si. Assim. 2. por exemplo. 100b4-5.. de Seg. ibidem. 4. 1078b30-4.100 designando por indução (�������) esse processo de conhecimento que obtém os universais a partir dos individuais. uma doutrina do conceito (cf.. como ���’������� e ���������.14) ou como um elemento de sua qüididade (o ����� é o elemento primeiro da definição a definição e a qüididade. Anal. p. 1023b29-32.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles tamente. não mais diremos universal o �����. 6. na medida em que o filósofo passar da simples análise do discurso e do estudo introdutório das Categorias para a constituição de uma teoria do ser ou da essência. que compreende uma pluralidade. 101 Cf. Tais afecções são os “universais. 95 Cf. “universal”.101 Recordemos. 7. cf. II. à mesma estrutura da proposição atributiva. Atente-se em que o fato de poderem atribuir-se as essências segundas às essências primeiras e. II. IV. a essência. designa um certo todo (����). �. comum (������). acima. empenha-se o filósofo em distinguir claramente95 entre a atribuição universal − por exemplo. entretanto. Met. 7. Cf. 120b36. sofrerá uma restrição (cf. Hartmann. também. tão-somente. �. como as de Prantl (cf. �. por isso. I. 768a13. acima. tal como ocorre com 94 Da Int. 97b28-31. Esses ������������������ imagens (���������). 4. 980a27 seg.). Ger. “branco pertence a todo homem” (ou “todo homem é branco”) − e o universal homem. �����.98 também é possível estender as noções de gênero e espécie às outras categorias que não a de essência. por si. 1054a30-1 etc. VI. 1032b1-2. por exemplo. no aristotelismo. Tóp. 2a14 seg. IV. em nossa alma.

104 Cf. 24 (todo o capítulo). na mesma medida em que universalidade e causalidade. Le Blond (cf. designa como universais certos argumentos dialéticos de caráter geral que se podem produzir em apoio de determinada conclusão a ser provada. 2.3.. 85b25-6. 24. em que se atribui o predicado ao sujeito. que Hamelin (cf. 264a21. Seg. l.74 a 76. por que pertence o atributo ao sujeito universal senão por ser este aquilo. 22. os pontos de vista de extensão e da compreensão. nota ad locum) julga dever situá-lo no cap. I. no sentido técnico da expressão. onde Aristóteles repele a interpretação platônica dos universais. à luz destes novos textos. pretende-se113 que. Ger. diversos tratados que compõem o Órganon seja no mesmo interior da doutrina analítica da ciência. todas. 112 Cf. III. 113 Cf. que estudamos acima:105 predicados universais de sujeitos universais. em outras categorias que não a da essência. por isso mesmo. Somos. de opinião que seu lugar natural é no cap. I. p. dar um bom passo para o esclarecimento da questão do universal aristotélico. acima. da universalidade científica. p. por si e enquanto tal e que “aquilo a que algo pertence por si é. VIII.106). o atributo universal é verdadeiro de um sujeito primeiro.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ������ num ����������������. como ocorre com a universal: não conhecemos. que pode descobrir a investigação acurada.1 e n. a unidade que se diz de uma multiplicidade numa unidade que se fez subsistir “ao lado da” multiplicidade. “une dualité fondamentale dans la conception de la science. uma significação bem mais ampla. Anal. 5.. vizinhos. então.83) e.. uma certa obscuridade a respeito do papel do universal na ciência (cf. não terá dificuldade o filósofo em responder às objeções especiosas que tendem a valorizar a demonstração particular (����������)..75 seg. Anal. ibidem. que coube a Mansion (cf. a sua maior extensão.. assim.111 2. aqui. tão-somente. dir-se-á que “é causa.2 e n. e que. de algum modo. Lembremos.236).2 e n. acaso. acima. p. para significar. Le système d’Aristote. com efeito. acima. Do mesmo modo. ibidem.104 serão os sujeitos necessários das proposições científicas. Logique et méthode. 106 Cf.110 seja ao longo dos 103 Cf. Ao que tudo indica. que o filósofo propôs. 77a5-7. Reconheça-se. de nécessaire et de cause” (ibidem. p. freqüentemente. 11. 1939. uma luta entre duas tendências opostas. portanto.236-41) julga encontrar. 85a21-31. causa[subent. ou seja: sua mesma essência? Dizer que a ciência é do universal109 assume. Le jugement d’existence. e em que constitui o predicado um universal.112 Por um lado. n. cf. Anim..88 deste capítulo. o universal”:108 com efeito. 2. 111 É.155. II. sendo melhor aquela demonstração que faz conhecer mais e conhecendo-se mais uma coisa quando se conhece ela por si e não. que prova que o próprio sujeito tem tal atributo e não. que faz desaparecer as “contradições” de que tantos bons autores não souberam desenredar-se. malgrado a perspectiva “crítica” em que a autora se coloca. 204a34.) encontra. 2. Manifestada e explicada a pluralidade dos sentidos. para si próprio. aclara-se bastante a teoria. que o filósofo diz o silogismo mais universal que a demonstração... O texto das linhas 5-9 acha-se. assim. com.103 Ora.106 podem os Segundos Analíticos dizer-nos que “o universal é sujeito primeiro”. I. Seg. apenas.5 Objeções e respostas Exposta sua doutrina da universalidade científica. uma demonstração científica. como se fora melhor (�������) que a universal. tais universais − e quantos. por outro lado. Anal. p. 748a7-8 etc. 105 Cf. 110 Que não abordamos. qui trouve un écho dans les oscillations d’Aristote à propos des notions d’universel. duas perspectivas conflitantes sobre o universal. por isso mesmo. por outra.107 do mesmo modo. orientando-se pela indicações do próprio filósofo. aquela que prova que tal outra coisa o tem. será melhor a demonstração particular. 25b29-31. sob tal prisma. se lhes podem assemelhar −. entretanto. III. 8. 107 Cf. ibidem. Seg. Prim. acima. 109 Cf. especificamente. Anal. melhor o músico 3. Fís. I. exprimindo uma dualidade de inspiração “qui jette l’incertitude et l’obscurité sur sa conception de la science” (cf. ensejase a leitura rigorosa. III. respeito à matéria particular em questão e não constituírem. após 85b22. 160 161 . por si e universalmente. que é. se recobrem. já que o atributo universal pertence a seu sujeito. a demonstração sendo um caso particular do silogismo. após 82a32-5. I. Como. acima. ainda que se reconheça não dizerem. por outro lado. evidentemente fora de seu lugar e Ross (cf. mesmo. mesmo. ibidem. assim hão de formular-se as proposições da ciência. se se levam em conta as diferenças de significação que encerra o “universal” aristotélico.94107). 4. respectivamente. privilegiando. 24. no aristotelismo. no pensamento de Aristóteles. mas não coincidentes.65. 24-6. 108 Cf. 8.: dessa atribuição]”. 1931. ditas universais.. cf.. III. p. aparecendo como sujeitos quantificados universalmente nas proposições..

que a realidade do universal aristotélico decorre da mesma realidade do �����.97). as coisas imperecíveis (�������) se encontram nos universais. também. Met. apenas. 479a-80a. Cf. Seg. entre outros textos. 24. Desse modo. 7. Mas reconhecer a realidade do universal a nenhum momento implica − ������� ������. cf. Tais argumentos são. onde Aristóteles se refere aos argumentos tirados das ciências (���������������������������������). 525d). Cf. sobre as ciências adequadas à formação do filósofo. no mesmo sentido.118 segue a eternidade do �����. aquilo que “é sempre e em toda parte”. também.102 e 103. opõe-se a realidade menor das coisas particulares. VII.122 Se o platonismo julgou ver. acima. Met. quem conhece. Anal.. 1034a5-8. respondendo ao primeiro deles. pois. Anal. o sujeito. I. a demonstração que diz respeito ao que realmente é e que não nos engana. com razão. busca o filósofo em sua teoria da essência a solução correta do problema da universalidade científica. 521c seg. 17. porém. Seg. princípio formal e de unidade das coisas particulares. 85b15-22. em erro? Assim. vê-se. Met. a particular. 8. em verdade.123 a preocupação aristotélica é. �. Pois. Por outro lado.68. quando conhecemos que o indivíduo Corisco é músico. 9. antes. um argumento decisivo e uma confirmação importante da doutrina das Idéias. acima. a importante passagem de Rep. ignorando. V. invocar. obviamente. a de insistir em que não “platoniza”: entre um empirismo inconseqüente e a doutrina das Formas. 10.114 se é certo que não é o universal uma realidade separada das coisas individuais. ao mesmo tempo que esse mesmo estatuto lhes é por nós recusado. Anal. Podemos. sujeitas à geração e ao perecimento. mas porque triângulo. isto é.. Met. como bem vemos. claramente. Cf. reproduzida por Ross. porque se revelam manifestamente ������������������� (525b). 120 Cf. 1041b7-9. diz o filósofo120 − a solução platônica ou platonizante dos universais separados: “pois não é necessário haver Idéias ou uma Unidade separada da Multiplicidade. ter o isóscele tal propriedade. formal da multiplicidade de coisas particulares que a matéria individua. n. ibid. para o que respeita ao lugar exato desta passagem. 24. especiosos. Seg. 8. em nosso mundo sublunar. replica o filósofo116 que. com.2 e n. então. Z. a textos platônicos como o de Rep. E. 123 Cf. 31. quando sabemos que o homem (universal) é músico? A demonstração universal provaria sempre que a outra coisa que não ao próprio sujeito considerado pertence o atributo em questão: a soma dos ângulos igual a dois retos prova-se que pertence ao isóscele. III. enquanto tal. nas ciências. 87b32. da atribuição. Não é responsável a demons118 Cf. 2. sugeri-los. não é menos que certas coisas particulares − ao contrário. se se relembra que o ����� é a mesma qüididade e essência (cf. se um atributo como a igualdade dos ângulos a dois retos pertence ao triângulo isóscele. conforme à acepção em que o tomemos. que concernem às qüididades e às formas. n. por serem perecíveis (������). E. atribuir a igualdade a dois retos ao triângulo e não. I. integrando-a ou confundindo-se com ela. aqui. 1032b1-2. em favor da teoria das Idéias. III.103 deste capítulo. ao isóscele levará à suposição de que há um triângulo em si. 122 Sobre a individuação pela matéria. à imperecibilidade dos universais. II. 24. responde-lhe o filósofo117 que o universal. Seg. 162 163 . para haver demonstração”. 11. sua atribuição universal ao triângulo. 2. Ross remete-nos. Anal. mas porque é triângulo e como triângulo. não enquanto isóscele. 1033b5 seg.. 85b18-9. ao mesmo tempo. impelindo a alma para a região superior das coisas em si (cf.4 e n. 1035b301.. a31-b3. acima. cf. por outro lado. Z.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Corisco. segundo a qual não se poderia conciliar com a rejeição do essencialismo platônico dos “universais” separados uma doutrina da demonstração universal que parece postulá-los. III. em nota ad 990b11-5. não porque isóscele. nos Segundos Analíticos. Anal. ou ao menos. a exposição de três desses argumentos por Alexandre de Afrodísio. enquanto 114 115 116 117 Cf. 8. 77a5-6. as quais se caracterizam. I. conhece menos. 85b4-15. I. No que concerne. 1074a33-6 etc. Evidentemente melhor será. à segundo objeção. decorrendo da qüididade. �. separado e distinto dos triângulos particulares. para o qual não há devir:119 a ciência do universal é-o do ser imperecível. n. 119 Cf.121 se a unidade que a demonstração significa e que se diz de muitas coisas não é mais que a unidade real e. 121 Seg. tal como o concebe.. �. veja-se. do que. 990b11-3. é ainda mais do que elas −.157. I. acima. o universal. levando-nos a tratar os universais como realidades separadas..115 não se deve convir em que peca a demonstração universal por fazer nascer a opinião de que há tal universal separado e induzir-nos.

além da que é. “contradição” entre o “platonismo” da doutrina da ciência e a teoria da essência proposta pela Metafísica. 164 165 . sabedores de que o fez para pagar uma dívida e que. ainda em vida do filósofo. é superior a demonstração universal. assim. quando conhecermos que algo se atribui a um sujeito. ibidem.133 Donde serem as coisas universais mais demonstráveis e ser a demonstração universal mais demonstração.127 mostrando que. nisso evidenciando a sua superioridade. quando sabemos que “enquanto ilimitadas. e ela é o sujeito da conclusão que se demonstra). 24. 24.131 Porque o individual. Le problème de l’être. infinitas em sua ilimitada dispersão. 132 Ret. tal atributo (assim. 133 Como diz Aubenque (cf. então. são conhecíveis”. alors c’est l’universel qui possédera la vraie individualité”. 130 Cf. mas o inverso não 129 Cf. a acusação de “platonismo” contra a sua teoria da demonstração universal. para as coisas individuais. II. 24. I.125 2. ibidem. antes. ibidem. a demonstração universal é preferível. também. Um terceiro argumento130 tirar-se-á de tender a demonstração. se nenhuma outra causa mais há para que isso se faça. o isóscele tem seus ângulos externos iguais a quatro retos porque triângulo e tem-nos o triângulo porque figura retilínea. de fato. 85b21-2. de novo perguntaremos por que veio receber o dinheiro e. 125 Poderia conjecturar-se.209): “si l’on entend par individuel ce qui est parfaitement déterminé.. apesar do esforço que faz o filósofo − e os textos que comentamos trazem disso um bom testemunho − para esconjurar toda possibilidade de conferir-se uma tal interpretação à sua doutrina. 5-6. também.. assim. é preferível.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles tração científica pela defeituosa interpretação metafísica que se lhe dá: é-o o ouvinte. 131 Ibidem. como nos diz. portanto.124 o que a tem e sobre ela reflete. 127 Cf. conhecer outra coisa. analogamente. acima. causa. cf. por sua vez.97 deste capítulo. nos mostra que determinado sujeito tem. em conhecendo o fim (�����) por que veio o homem em questão. enquanto se limitam pelos universais que lhes conferem a verdadeira individualidade. “oposição” e. fornece-nos o conhecimento máximo sobre a presença de tal atributo num sujeito. em primeiro lugar. É o que permite dizer o ���������’�������. 85a20. mesmo. O mesmo ocorrendo com a investigação de todas as outras 124 ‘��������. na medida em que se torna mais e mais particular. I. I. o máximo de conhecimento sobre um fato investigado. p. que se insiste em “descobrir” no aristotelismo.6 Superioridade da demonstração universal Assim respondendo às objeções que se poderiam levantar contra o valor e sentido da demonstração universal. o máximo de conhecimento sobre o porquê de sua vinda. 24. 85 b29-30. são as coisas conhecíveis antes enquanto universais que enquanto particulares. 1356b32-3. visto que demonstração é o silogismo que mostra a causa e o porquê.129 Ora. E o que é. 97b28-31. 134 Cf. acima. Em quarto lugar. por isso mesmo. demonstrada. n. 86a3-10. por si mesmo. cf. porque. precisamente. 85b23-7. Anal. a partir de Seg. Anal. 2. se perguntamos por que alguém veio e ficamos sabendo que foi para receber um dinheiro. não por ser este outra coisa. Seg. demora-se. mas a figura os tem.107 a 109. sobremaneira. ainda.128 Com efeito. também.4 e n. superior. curioso é que. E é este último momento (����������) de nossa pesquisa que é o seu fim (�����) e limite (�����). Seg. Seg. Também a comparação com a causalidade final será instrutiva para compreender-se a superioridade da demonstração universal. pois quem conhece o universal conhece. I. teremos. a demonstração universal. mas tão-somente por ser ele próprio. modalidades de causa. mas não a compreende e se deixa seduzir pela sereia da Academia. 128 Cf. 85b23-86a30. se nos interrogamos sobre a causa final de um ato qualquer. não se livrou da má compreensão dos estudiosos: é com freqüência. l. propriamente. 126 Cf.126 Argumentará. Por isso mesmo. por si mesma. sendo o universal sujeito primeiro e. portanto. Anal. III.134 se a demonstração que nos faz. efetivamente. então. teremos. 85 b27-86a3. enquanto são limitadas. 2. Anal. 86a10-3. ibidem. I. I. ter-se formulado. a Retórica. o particular. 24. a paga para não ser injusto para com outrem. não são as coisas conhecíveis mas. 13.132 “é ilimitado e não é conhecível”.. o filósofo em toda uma série de argumentos em seu favor. prosseguimos nossa investigação até chegarmos a algo que não mais se faz em vista de e por causa de outra coisa. Anal. Seg.

por outro lado. 1087b21 etc. donde �������) que. efetivo. que nos trará o máximo de evidência da superioridade da demonstração universal. verbalmente.143 Pois a demonstração universal. uma proposição anterior à conclusão eventual de uma demonstração particular (que concluísse. empregar para preparar e tornar possível a aquisição de um saber real. cf. 204b4 seg. �. e Per. com demasiada freqüência. I. a permanência definitiva nessa esfera de abstração. 171b6 seg. como os vários exemplos em que aquela expressão aparece139 o mostram. Como observa. Met.. Ger. 86a22-9. I. l. que assim caracteriza a demonstração “lógica”: “Digo-a lógica (������) por isto que. não se lhe ajustou ainda. 1. apud Aubenque. a19-30. criticamente. 13-21.134 deste capítulo). Uma argumentação ���������������. embora visando determinado objeto. que não se pode chamar de científico. com razão. ou seja.. orientar-nos para a plena inteligência dele.4).135 a demonstração mais exata (e a única que é cientificamente válida) sendo a que parte de um princípio. Ocorre. se a argumentação “lógica”. 3. alcance e valor da dialética aristotélica. raciocinar ������� é raciocinar ����������������������������������� Cabe. bastar-nos-á retomar um dos argumentos não “lógicos”há pouco resumidos. adequadas. n. neste preciso sentido. 24. ibidem. com efeito. cf. cf. b2.140 Enquanto propedêutica a um conhecimento adequado e tomada como mera via de acesso ao saber 135 Cf. ipso facto. Em Ger. 1. 1. 8. por meio de argumentos que concernem às determinações comuns dos objetos. em seus silogismos. 24. 136 Cf.137 “a partir do que já foi estabelecido” (������ ��������)138 − entende Aristóteles. Eud..134 deste capítulo). Ref. Não o são o primeiro (85b23-7. raciocinar ������� é raciocinar dialeticamente. freqüentes vezes. Anim. quanto mais universal. Se assim é. Seg. por exemplo. por conseguinte. 316a11. 138 Cf. 11. Mas alguns desses argumentos − é o próprio filósofo quem no-lo 136 diz − são apenas “lógicos” (�������). 1217b21 (�����������������) etc.141 Ora. Compreende-se facilmente. condenável. quando não se cuida de apropriar o discurso à natureza específica de cada objeto que se estuda e se tem a pretensão de propor como saber efetivo o que não pudera ser mais que um instrumento de pesquisa. 747b27-8. permanecendo no âmbito de um discurso (�����. não se trata. cf.127 deste capítulo) e o quarto (86a10-3. de proposição já obtidas e estabelecidas pelo estudo em curso. acima. nota ad I. sofística que dialética (cf. cf. Ref..115.142 Com efeito. Anal. antes. �. designando. movendo-se na esfera vaga e abstrata do discurso sobre os “comuns” ou constituindo-se de modo puramente verbal. Ét. essa modalidade de argumentação é própria à dialética e. assim.. 166 167 . 23. reforçar nossa persuasão. n. por se não ter compreendido a distinção entre o uso dialético e o sofístico da argumentação ������. Passemos. 86a10-3 (cf. pertencer aquela propriedade ao triângulo 141 Como diz Simplício (in Phys. a uma prova mais precisa e exata.) e que aquela expressão se usará. freqüentemente será correto traduzir “�������” por “dialético”. será mais exata a que se serve. nem especificamente apropriadas à matéria em discussão nem particularmente concernentes ao gênero preciso de que nos ocupamos. 25-9. aos olhos de Aristóteles. 140 Cf. argumentar de modo meramente verbal ou mediante proposições de caráter geral. Sobre este uso de “universal”. como a própria expressão o indica. 1087b20. que todo triângulo tem seus ângulos iguais a dois retos) demonstra. pertinentemente. 5. constrói. que vêm preparar nossa aquiescência ao argumento mais exato e diretamente apropriado ao objeto em estudo. incorrido em graves contra-sensos a respeito da função. segundo esse outro prisma. I. Le problème de l’être. I. à dialética abordar tecnicamente as questões. 11. Por outro lado. Sof. 172a29-b1. 2. 86a22-9). 137 Cf. é importante constatar que a mesma teoria aristotélica da ciência não desdenhou do emprego desses raciocínios dialéticos. ibidem. isto é. 143 O de Seg. mas da retomada e explicitação do de 86a10-3. I. Pois tal modo de proceder. concluindo uma proposição universal (por exemplo. por razões óbvias. 476. 1080a10. 1005b21-2 (����������������������). 8. é. ibidem. com um sentido nitidamente pejorativo. 1069a27-8. nesta última passagem. acima. Fís.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ocorre.. ao objeto em estudo e diretamente a ele apropriadas. acima. p. Aristóteles opõe a demonstração ������ à que procede a partir dos princípios apropriados (��������������������). �. que uma tal maneira de proceder ������� se dirá. então. n. Ger. �. 747b28-30. Anim. de um novo argumento. porém. 8. tem-se. tão-somente. l. a que é mais universal (se se tem em conta que a maior proximidade do princípio corresponde à maior universalidade). 84a7-8. Não é sem importância salientar que.110 deste capítulo. n. n. mais afastada está dos princípios apropriados”. entretanto.. 139 Além dos textos citados nas notas anteriores. acima. Por argumentar “logicamente” (�������) − em oposição a uma argumentação que procede “analiticamente” (����������). do “abstrato”. I. seus argumentos. 1962.. Met. ibidem. de elementos comuns (�����) a vários objetos e. III. 142 Cf. Anal. 4. 22. se pode. os métodos e procedimentos dos platônicos. serve-se. de termos médios mais próximos do princípio. serve-se. que. Sof. 32. II. �. por vezes. Ross (cf. movendo-se na esfera vaga do geral e do comum. cf. 24. II.

148 Cf. 86a23-5. 1. em sentido absoluto. Anal.154 Eis por que haveria. o primeiro contendo potencialmente o segundo. I. no tempo. tampouco se progride. n. ainda. 150 Cf. nota ad 86a22-29). então. acima. 86a29-30. de algum modo (�����������) o conhecimento do particular que. designar o próprio ����� (cf. ibidem.. ������������ e ����������� não designam as premissas maior e menor de um silogismo. l. Anal. 23-4. 30-3. Fís. 2. nota ad 1087a13). 33-5. Seg. buscando mostrar a possibilidade de coincidir. pode dizer-se que. I. mas concernem. 71a17 seg. em tendo a proposição universal e anterior. Anal. E vê.148 Não que a ciência universal se deva dizer mera144 Cf. 35-7. 247b4-7. que provaria a demonstração particular:146 sabendo que pertence a todo triângulo uma soma de ângulos igual a dois retos. 152 Cf. l. Anal. que buscarumademonstração. necessariamente. Entendendo. ao triângulo isóscele. portanto. não vemos contradição entre essa passagem e a teoria dos Segundos Analíticos sobre a universalidade da ciência. não poderá haver conhecimento científico. 72a3-4 e. respectivamente. através de sensação. Anal. Aristóteles. no entanto. Seg.150 2. �. l. 2. do ponto de vista da anterioridade. 4. l. que nada impede se interprete. Essa anterioridade do universal144 ao particular. Anal. III. à demonstração universal e à particular. Anal. aqui e agora. mesmo se fora possível perceber pela sensação que o triângulo tem seus ângulos iguais a dois retos. não ocorre e o que possui a demonstração particular não tem conhecimento do universal. I. a solução da aporia famosa do Menão. distingue.153 Manifestamente. que tal propriedade pertence. compreendendo uma totalidade. ibidem. as conclusões de uma e outra demonstração e não. não se conhece ainda.145 revelando-nos a mesma causa por que se atribui por si o predicado a cada um dos sujeitos particulares que o universal compreende. ao mesmo tempo que se nos patenteia não ser a passagem do conhecimento universal ao particular mais do que a explicitação e a efetivação das potencialidades do primeiro. III. não sofre tais limitações. o que se não conhece porque. I. 168 169 . aí. as suas premissas. ainda que presenciássemos ignore o que se aprende. 154 Cf. em ato e em sentido absoluto. o segundo atualizando um conhecimento que. Ora. conhece o universal num particular que considera. Met. não pode ela atingir o universal que. em potência (�������) a proposição posterior. 1087a10 seg. por exemplo. também sabemos.1.155 E. Contrariamente a Ross (cf. um “isto” (�������). 153 Cf. ibidem. que. 1. cf. 149 Cf. I. também. claramente. Seg.. igualmente. acima. 86a28-9. agora. explica como o conhecimento do universal contém. nem em potência nem em ato (��������������������������). no conhecer. também Seg. 145 Cf. mas é sempre e em toda parte. 3.3. ao mesmo tempo.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles isóscele). enquanto. a l. Mas lembre-se que ������� pode. julgamos estar Aristóteles a comparar.151 Esta apreende sempre. 24. também. 31. 2.. II. 29-30.149 Ainda em favor da demonstração universal. Seg. explica que. portanto demonstrativo. ibidem. sobre a aparente impossibilidade de se adquirirem conhecimentos: não se pode buscar conhecer nem o que se conhece nem o que se não conhece. tenhamos. com a distinção entre o conhecimento universal e o conhecimento particular. de algum modo. 10.. a inferência da conclusão com a descoberta e formulação da premissa menor. por isso mesmo. enquanto ela se caracteriza pela sua inteligibilidade.2 e n. Seg.12 deste capítulo). 24. 155 Cf. O inverso. I. mas não se começa a conhecer e.72. mas também ela só conhece em ato. dá Aristóteles a aporia por resolvida: nenhum absurdo resulta de que. na distinção entre essas duas maneiras de conhecer. E o particular que se torna assim conhecido conhece-se. a demonstração particular tende para um conhecimento que. como Ross (cf. I. 146 Cf.. 24.147 A superioridade da demonstração universal torna-se-nos manifesta. acima. tanto relativa como absoluta. no sentido de um conhecimento em ato do universal no particular que a alma considera. como saber o que se deve buscar? Tem-se ou não se tem conhecimento. Seg. entretanto. se conheça e se mente potencial. não a contradiz tampouco o texto do Da Alma II. 87b28. 151 Cf. em si mesmo considerado. se conhece. 71b6-7. 5. anterioridade segundo a forma e a essência. Cf. se aproxima gradualmente de juízos fundados na mera percepção sensível. uma vez que não é sob o mesmo aspecto que se ignora e se conhece. em reconhecendo-se nele o universal que se possuía. porque são universais as demonstrações e se não percebem pela sensação os universais. precisamente. 417b22-3 sobre a ciência atual dos universais. imediatamente compreendemos que “não é possível conhecer cientificamente através da sensação”. potencialmente. 147 Cf. Cf.. sem conhecer-se. acima. VII. o que se conhece porque já se conhece. já se possuía a respeito do mesmo particular que. entre o conhecimento universal potencial e indeterminado e o conhecimento atual do universal num ������� definido que se considera.152 ou seja: uma coisa individual determinada quanto ao lugar e ao tempo. onde o filósofo.7 O universal científico e a percepção sensível Se tal é a natureza do universal científico. com.

que. Eis. 157 Cf. por vezes. assim. acima. quando confunde. embora não se dê necessariamente. segundo uma lei invariável de repetição. para que não se interprete. sem que fosse preciso investigar o fato e o porquê. ainda que sobre a lua estivéssemos e víssemos interpor-se a terra e privar-se a lua de sua luz. 1939. como à consideração dos simplesmente possíveis. pelo fato mesmo de sua repetição. apenas um caso singular. temos.163 Tínhamos. eternamente presente. Assim. Seg. I. produzir-se-ia o conhecimento do universal e da causa.80-2). Desse modo. uma tal ������������������ com o �������������� (freqüente. a partir da percepção atual do eclipse: a partir da percepção. há pouco. onde quer que se tenha algo que não coincide com sua causa e dela se distingue. tal confusão leva o autor a atribuir uma certa obscuridade ao pensamento aristotélico. idêntica à própria coisa ou distinta dela. III. Seg. um eclipse. tal como o eclipse da lua. ensejando-nos. sem contradição real com o que nos explicou. por exemplo.. nas primeiras páginas do livro II dos Segundos Analíticos. Anal. por certo. 90a24-30. ibidem. que nossa ciência demonstra. permitido pela repetição re- A problematização necessária de certos fenômenos e a longa investigação que precede a apreensão de suas causas e a possibilidade de sua demonstração decorrem. l.. nenhuma razão há.162 dispensando-se qualquer processo continuado de investigação para a apreensão das relações causais em jogo. 88a2-5. evidente o porquê de ele queimar pois. nas páginas que seguem. 13-4.. 1939. Incorre Le Blond. l. Uma simples variação imaginativa. necessidade de investigar. a causa real e. embora não pela percepção. 159 �����������������������������������������. 8. 31. é-nos inaceitável a interpretação que Le Blond propõe dessa passagem. Por outro lado. o geral. também compreenderíamos. imediatamente. uma percepção repetida da interposição da terra seguida de privação da luz lunar permitiriam que buscássemos o universal e se nos tornasse este evidente. cf. a noção de ��������������. Anal. por conseguinte. 161 Cf. graças à percepção renovada. 14-7. se converteria em uma via para a apreensão da necessidade (cf. 163 Cf. adiante. 88a11 seg. o fato se reproduz. em sentido rigoroso. Ora. a partir de uma única experiência perceptual. não nos sendo dada uma percepção sensível da relação universal entre a interposição da terra e a privação de luz da lua. p. entretanto. a partir de uma multiplicidade de casos particulares. cujo conhecimento. em muitos casos. imediatamente. que não havia percepção da relação universal e causal e supusemos. naquele momento. tudo nos seria. evidente. isto é. aqui. aqui. a partir do fato de ver. se víssemos os poros de um espelho ardente e a passagem da luz através deles: ser-nos-ia. em erro de interpretação. 156 Cf. ibidem. cf. como vimos.7. conhecer. segundo a qual ������� designaria. p. não teríamos. como condição do conhecimento universal. de ver. ibidem. ibidem. agora. revela-nos.. o universal. 4. porque pode Aristóteles. Logique et méthode. razão ao dizer. então. de uma falha na sensação. que um fenômeno idêntico se passa em todos os casos. 158 Sobre o fato de haver sempre uma causa.160 Fosse outra a nossa percepção do fenômeno. não perceberíamos que a privação de luz da lua “pertence” universalmente à interposição da terra. a nosso ver. uma relação causal e essencial constitutiva do próprio fato e. no que concerne ao papel do universal na ciência (cf. 31. para dar um exemplo. ao mesmo tempo.158 é a demonstração universal mais valiosa que a sensação ou que o mesmo conhecimento intelectivo: o universal é valioso porque indica a causa159 e torna a demonstração possível. quando. o caráter universal das relações que nela se particularizam. 162 Cf.81-3). o ������������������ (que ocorre muitas vezes). permite-nos apreendê-lo universalmente. embora percebendo. “no mais das vezes”). por outro lado. quase sempre e na maior parte das vezes ocorre. ao contrário. também. 88a5-6. 160 Cf. Anal. não que conhecêssemos pelo simples fato. a construção da demonstração do eclipse:157 conhecendo-se. portanto.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles a produção causal de um fato. II. estendendo-se tanto à reminiscência de eventuais casos semelhantes no passado. desconheceríamos o porquê e a causa. 93a5-6. separadamente. Seg. I. o termo médio do silogismo demonstrativo. por si.156 É certo.. Seg.. 87b39-88a2. já teríamos o universal.161 É o que aconteceria. aquilo que. não representaria a simples percepção desse fato bruto um conhecimento da relação causal: saberíamos haver. simplesmente. sustentar. que uma repetida ocorrência do mesmo fenômeno. em nosso texto. de imediato. Anal. que a privação de luz “pertence” à interposição da terra. mas.. nesta última. a repetição de idênticas percepnovada do fenômeno. 170 171 . 2. II. a propósito de um eclipse que se percebesse da própria lua. Logique et méthode. Abordaremos.

a propósito da percepção e conhecimento universal do eclipse por um observador situado na lua. por sua vez (cf. II. nota ad l. 88a11 seg. que ela pertence universalmente a uma determinada espécie: é como se todos os triângulos que pudéssemos conhecer fossem isósceles e. susceptibles l’une et l’autre de se rencontrer chez l’homme suivant les dispositions du moment” (ibidem. 172 173 . o filósofo sobre a ocorrência freqüente de tais erros. A limitação que nos seria imposta pela eventualidade de se não concretizar no real senão uma das espécies de um gênero. I. Seg. havendo embora um gênero superior.1 Um primeiro erro contra a universalidade Não se contenta Aristóteles de expor-nos sua teoria da “catolicidade” da ciência mas consagra. advir-nos-ia. Index. qu’Aristote n’a guère de souci d’accorder ses déclarations entre elles”. 8. Logique et méthode. Bonitz. realçar. em abordando um caso extremo. por motivos contingentes. tomar a soma dos ângulos igual a dois retos como um atributo universal do triângulo isóscele. e II. 100a16-b1). a expressão designa. 5. o conhecimento da universalidade genérica. ao tentar constituir-se como ciência. recorrendo à doutrina aristotélica da percepção. não dispuséssemos da noção de triângulo. como conhecimento efetivo do �������. p. suprimimos ���������������. a inautenticidade do conhecimento que os fatos mal interpretados podem. nesses casos privilegiados em que o termo médio é objeto concomitante da percepção sensível. o conhecimento que julgaríamos ter obtido seria tão falso como a falsa ciência matemática que resultaria de sermos levados. etc. sem que. a que ad finem. no entanto. p. isto é.107) e interpreta o segundo texto. Para um idêntico uso de ���’�������. cujas funções pode adequadamente suprir a mera variação imaginativa. que ensejem e favoreçam uma interpretação defeituosa do real. dos universais como homem. quando não dispomos de sujeito genericamente mais elevado a que atribuir determinada propriedade e cremos. provavelmente. ainda. assim não entende. então. 165 Seg. para quem a segunda passagem “paraît contredire ouvertement le précédent et cela montre. por Aristóteles. 225b61 seg. em verdade. não é absolutamente indispensável a repetição real. a coisa individual. A escolha do exemplo matemático quer. a admitir a igualdade a dois retos como um atributo universal do triângulo isóscele. 31. 6-8 e 16-7. 3. animal. da existência possível de condições objetivas. destarte.81. Le Blond (cf. é o reconhecimento. enquanto diferente e genericamente mais elevada que a de isóscele. 31 do livro I (cf. o que. l.. p. Adverte-nos. por desconhecermos outras espécies do triângulo.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ções do mesmo fato. Anal. Seg.97 deste capítulo.. todo um capítulo dos Analíticos165 ao estudo dos erros em que. 5. Com Ross (cf. 13.2 O segundo erro A segunda modalidade de erro tem lugar168 quando. em não dispondo de equiláteros e escalenos. Seg. 2. ibidem. une fois de plus. 74a8-9 e 17-32. reconhecendo embora não haver senão uma contradição meramente aparente. através da sensação. se acrescenta é que. que nos levam a tomar por científica uma demonstração. agora.). (cf. ocasionalmente.167 164 Se a interpretação que propusemos resolve a contradição aparente entre Seg. como uma análise mais aprofundada da questão abordada pelo primeiro. Anal. Bourgey. II. Ocorre a primeira delas. à luz do que explicara Aristóteles em outra passagem do mesmo cap. 107-8). p. Habitualmente.. como se sabe. se prove a conclusão universalmente e de um sujeito primeiro. Anal.166 Três são as modalidades de erro que se passam em revista. mas. Anal. ibidem. enganoso e deficiente. na medida em que se toma o segundo texto. 6-13). 74a4-6. Mas não cremos deva confundir-se a percepção da universalidade genérica com a descoberta de uma relação universal. 166 Cf. Qualquer que fosse o domínio em que tal eventualidade se produzisse. 1955. e entendemos ������’�������. a partir da percepção sensível do termo médio.. como objeto singular. Anal. mesmo.4). impingir-nos como ciência. concretizado em múltiplas espécies. cf. n. 97b28-31 e acima. n. 19.164 3 A falsa “catolicidade” 3. pode incidir o conhecimento humano. Não nos desconcerte o fato de o filósofo ter tirado seu exemplo de uma ciência matemática. na passagem que examinamos. a l. por isso. 90a24 seg. 167 Cf. I. I. 87b39 seg. seria responsável pelo surgimento de um conhecimento pretensamente científico. a l. no mundo exterior. como “espécie” e não. em que a hipótese considerada nos parece absurda: o que há de extremamente importante. 168 Cf. crê que se trata de uma descrição de “attitudes différentes. Observation et expérience chez Aristote. dificultando-nos. cf. 7-8. apenas. por exemplo. 1939.

74a27-30. que o triângulo tem seus ângulos iguais a dois retos. a deficiência da terminologia matemática. por exemplo. do mesmo modo. enquanto triângulo. I. como exemplo. segundo a essência..2.170 E é manifesta a razão pela qual não estaremos.171 Não poderia o filósofo ter sido mais enfático na condenação da pretensão indevida à cientificidade. É o que ocorrerá. 174 175 . 173 Cf. sólidos e tempos e se não tinha uma demonstração universal única. enfim. havendo. embora. não se entrega de uma só vez ao homem. como coroamento dos esforços que preparam sua efetiva aquisição científica. o que do todo é. por um só tipo de demonstração. considerada pelo filósofo:173 é quando se toma como todo. Seg. enquanto se demonstrava separadamente a alternância dos termos para li169 Cf. acima. mas separadamente. l. a análise da modalidade de erro que estamos considerando permite ao filósofo insistir. nem [subent. como qualquer outro. I. 171 Cf. 5. uma esclarecedora ilustração de como considera o filósofo o devir histórico do conhecimento científico: o real matemático. 172 Cf.3 O terceiro erro Uma terceira forma de erro é. 74a9-16. não se conhecendo que todo triângulo o tem segundo a forma (���’�����). Anal. Gerações ou séculos pode demandar a caminhada propedêutica à ciência. números. que não atinge a universalidade segundo a essência e a forma. em outras palavras. seja. nem mesmo que todo triângulo o tem “senão de um ponto de vista numérico (���’�������)”. tomando-se retas perpendiculares a uma terceira e provando-se que elas não se 170 Seg. Mas a recente constituição de uma tal teoria169 possibilitou a superação das antigas dificuldades e o advento de uma demonstração realmente universal. o conhecimento das propriedades universais do gênero. que os triângulos isóscele. diferentes espécies de um mesmo gênero que se poderiam reconhecer como tais. “não se conhece. sólidos e tempos. ���’�������������. então A:C = B:D) para as linhas. por parte de um conhecimento que se limita a conhecer uma universalidade meramente numérica: ainda que saibamos que pertence tal ou qual atributo a todo sujeito e ainda que possamos demonstrar essa propriedade de todas as espécies do sujeito em questão. tal como Aristóteles a concebe. apenas. substituindo à universalidade numérica a universalidade científica. Contra os arremedos sofísticos da verdadeira ciência. Anal. Lemos. em presença de uma demonstração científica: pois não se conhece que o triângulo tem tal atributo. III. se se prova. nhas. numa demonstração. 2. Dános Aristóteles. como bem se pode ver. com ênfase. o processo histórico da formação da teoria matemática das proporções: anteriormente provava-se a alternância dos termos (se A:B = C:D. 2.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles referir universalmente um atributo ou. ibidem. entretanto possível. escaleno e equilátero têm seus ângulos iguais a dois retos. inclusive. ibidem. nota ad l. senão à maneira sofística. ainda. não espelhava senão a mesma inexistência de uma teoria geral da proporção. ainda. de que é um requisito indispensável. 5.1 e III. seja por demonstrações diferentes. E a constituição de uma linguagem científica acompanha pari passu a própria constituição da ciência. no serem quantidades. a ausência de um termo comum que as designe dificulta e impede a apreensão de sua unidade genérica e. será um procedimento sofístico e inaceitável a tentativa de erigir em ciência um tal conhecimento. que não permitia se considerassem essas diferentes entidades matemáticas no que lhes é comum. Por outro lado. antes que se lhe obtenha o termo programado. ao invés da leitura comum dos códices ����������������. 29). na distinção entre uma universalidade meramente numérica e a universalidade realmente científica: assim como se não atingia o verdadeiro universal. ao longo do tempo histórico. Propõe-nos o texto. mas se lhe entrega. 30-2. se. com Ross (cf. Refere-se Aristóteles à teoria geral das proporções formulada por Eudoxo e exposta no livro V dos Elementos de Euclides. números. ainda mesmo que não haja nenhum outro triângulo além desses”. há que manterse firmemente a distinção entre o ����������� e o ��������172 3. isto é. 74a23: ������������������������.: se conhece] do triângulo. por conseguinte. uma parte. universalmente.

em espécie única. nesta terceira modalidade. se retira é a nítida distinção estabelecida entre a verdadeira Ciência e a aparência ilusória de conhecimento científico em que podem os homens inadvertidamente comprazer-se. presumir-se garantidos contra eventuais deformações imputáveis aos fatores de ordem contingente próprios às condições de sua elaboração. considerar-se a totalidade numérica efetiva do sujeito da propriedade em estudo. dispor de todas elas. secantes a uma terceira. quanto à universalidade. o primeiro ensinamento que de tal estudo. finalmente. Ora.174 porque não dispúnhamos. mas os próprios resultados que. Como se vê. mas pode. converte-a. sempre. Mas. paralelas. se entendesse que a propriedade de ter os ângulos iguais a dois retos decorresse do fato de ser ele isóscele e não. pode demonstrar-se que são paralelas todas as retas que. demonstra sobre a totalidade real do gênero. imediatamente. provém o erro. de modo a interdizer-nos a apreensão da universalidade.. 3. Uma real dificuldade em distinguir os atributos genéricos dos específicos surge da própria trama rica do real e da multiplicidade de suas manifestações que não vêm facilitar o trabalho de análise exigido para que se deslindem a verdadeira natureza dos fatos que se querem estudar e os efetivos relacionamentos que os subordinam a suas causas reais. num caso ou noutro.175 consiste. em nem mesmo considerar-se a totalidade a que o atributo realmente pertence. aqui. E o erro em questão difere daquela primeira modalidade que acima consideramos. senão de uma das espécies. Ora. e numa fase avançada de seu desenvolvimento. 174 Cf. mesmo segundo uma concepção correta da ciência. III. A reflexão aristotélica sobre as três modalidades de erro quanto à universalidade da demonstração deixa-nos patentes as vicissitudes por que pode passar. que isso ocorra. considerando-se apenas o triângulo isóscele. 3. Não se preocupou. 175 Com efeito. com as perpendiculares não é senão um exemplo desse fato geral. alcança e que se lhe afiguram como científicos. que toma a espécie como sujeito primeiro. acima. acima.1 e n. por assim dizer. A consideração preferencial e indevida de apenas uma das espécies de um gênero. o mesmo progresso na constituição do saber brindar-nos com enganosas evidências.. por conseguinte. então. entender-se que se trata de uma demonstração universal e que o paralelismo decorre de serem as retas perpendiculares. 3. não consideramos senão uma. nelas. podendo. como ocorre na primeira modalidade de erro estudada. então.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles encontram e são. de se considerarem indispensáveis à demonstração todas as determinações do sujeito considerado. sem mais. aqui.167. o processo de aquisição do conhecimento científico. da teoria do universal científico. contra a “catolicidade”. se. por sua vez. III. também. introduzindo uma “falsa causa” na demonstração. sobre ela determinam ângulos correspondentes iguais. nem por isso estamos protegidos e imunizados contra as seduções das falsas universalidades. a terceira modalidade de erro. o filósofo − nem era a ocasião para isso − com proceder a uma investigação detalhada sobre a natureza e o mecanismo real dos diversos óbices capazes de impedir a efetivação de um conhecimento 176 Cf. não podem. 176 177 . do fato de ser triângulo. não apenas não tem o homem uma intuição direta e espontânea da ordenação por que o real se estrutura. segundo a concepção do filósofo. É erro análogo ao que ocorreria. quando se lança à busca da universalidade científica.4 Verdadeira ciência e saber aparente Não será ocioso insistir na extrema importância dessas considerações que vimos expender o filósofo a propósito dos erros que espreitam o espírito humano.1 e n. mesmo se o gênero-sujeito tem apenas uma espécie. enquanto. Não somente não se desvenda o real senão aos poucos e graças a um movimento progressivo que se desenvolve no tempo histórico. E a mesma denúncia de sua freqüência176 faz-nos suspeitar de que não é irrelevante para a exata compreensão da doutrina aristotélica da ciência uma atenta reflexão sobre o capítulo que Aristóteles lhes consagra.166. Conhecedores. não é falso dizer-se que a demonstração falsamente universal. Enquanto as duas primeiras formas de erro tinham de comum o fato de. embora. peca-se.

pertencendo a um sujeito. 1026b31-3. em que o tempo quente e seco é freqüente. entretanto. também. indevidamente. por fim. de que teremos. uma vez superadas. reservar um lugar para o ��������� ����. por exemplo.. entretanto. Se com tanta insistência. 12. também. 182 Cf. Met. a que vamos ter de retornar forçosamente. também. interessou-lhe. umas e outra. 1357a27-30. pertencer um atributo à totalidade de um sujeito (�����������). 87b21-2. sem risco de erro.177 E os mesmos Segundos Analíticos. sem incorrer em contradição. 30. não sendo sempre nem necessariamente. senão argumentando com o fato de não ser necessário nem freqüente o que da sorte procede? E acrescentam: “Ora. que não é meramente subjetiva a nossa ciência e que. de fato. não apenas como um saber do necessário e universal.183 Natural é. igualmente. embora. a demonstração concerne a uma dessas duas coisas”. Seg. 2. uma aparência de ciência. 2. que encerram a rigorosa doutrina da ciência que vimos estudando. estamos de posse do real? Eis o problema fundamental do critério. que repete. 2. l. n. Ret. Cf. acima. ao freqüente: é aquilo que. porém. nem lhe pertence por necessidade. indicar. durante a canícula. 179 . a existência de certas condições objetivas ou subjetivas de natureza a favorecer a aceitação de uma falsa universalidade.181 Também o acidente será caracterizado pela Metafísica. no mesmo sentido. II. que condições teremos para decidir. literalmente.179 Premissas e conclusão do silogismo científico serão. 1065a1-3. não somente por oposição ao necessário. I.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles verdadeiramente científico e de contribuir para que um conhecimento falso ou imperfeito assuma. todo conhecimento que. com razão. repete o filósofo sua exigência de um saber científico rigoroso e recusa qualificar como científico quanto conhecimento não preencha todos aqueles requisitos com tanto empenho enumerados. com o mínimo de necessária precisão. �. 22-5. �. 1027a20-1. a mesma afirmação. obtido um real conhecimento do universal. do ponto de vista científico.1 Pode haver ciência do freqüente? Vimos Aristóteles condenar como insuficiente. isto é. 178 Cf. 30 (todo o capítulo). à primeira vista. com uma certa freqüência. 1065a4-5. como conhecimento do que não ocorre senão na maior parte das vezes (��������� ����). 2. 183 Cf. 1025a14-6. conhecendo. é como assegurarnos. se configura como uma estranha concessão ao mundo da contingência? Pois o que é “no mais das vezes”. ibidem. com efeito. torna-se-nos 178 imperioso perguntar como haverão de interpretar-se os diversos textos em que nos aparece a ciência. 181 Cf. Mas já podemos perceber que a denúncia dos erros e ilusões da falsa “ciência” é muito mais que a banal constatação de que a “ciência” dos homens se enganou e pode enganar-se. I. cf. 1026b33-5. 179 Ibidem.182 Será um acidente. que sua ciência é algo mais do que sua convicção de ter ciência. Met.180 E os princípios imediatos de uma demonstração do freqüente serão. �. nem na maior parte das vezes. mas. �. mas. tão-somente. de modo rigoroso e não mais sujeito à necessidade de reformulações oportunas. do freqüente? Diz-nos. O problema que se coloca é o de saber se dispõem os homens de elementos para sustentar que não poderá jamais o discurso despersuadir conhecimentos que formularem.39 deste capítulo. Se as vicissitudes da “ciência” humana nos advertem. 4 O freqüente 4. não no apreende segundo a essência e a forma. 96a8-19. não 177 Met. �. ao expor-nos que não pode haver ciência demonstrativa de quanto provém da sorte (���������). Anal. Anal. de fato. 8. o frio. 180 Cf. freqüentes.. que nos ocorra perguntar como pode a teoria aristotélica da ciência. também. Seg. sobre a possibilidade de um conhecimento apenas aparentemente científico. pois. Para crer.178 como procedem. 8. ou necessárias ou freqüentes. a conclusão acompanhando a natureza das premissas. a Metafísica que “toda ciência é ou do eterno (�������) ou do freqüente (������������������)”. �. O que Aristóteles ainda não nos diz. mediante o que.

no mundo que nos cer194 195 196 197 198 Cf.195 E fica-nos claro. como alguns seres são sempre e necessariamente e outros são. Prim. expõe-nos a Metafísica197 que. 30-1. Le jugement d’existence.1 e n. como objeto de ciência. de ciência. nisso. em Aristóteles. �. no entanto. 4. ao tratar da questão do ser. o devir para a ciência. evidenciando a profunda hesitação do filósofo sobre o papel da repetição.126. tornada famosa. ao que tudo indica.184 Compreenderemos. examinar mais de perto o �������������� aristotélico. l. em Fís. 4-6. 1931. mas de a maioria. Ret. p. por certo. 3. p. ibidem. 2. 1. então. 193 Cf. 34. também. então.193 “como uma das significações que. 192 Cf. 1. II.198 já que dizemos acidente o que não é sempre nem no mais das vezes. ibidem. Cf.80. o filósofo uma dificuldade qualquer de ordem doutrinária. juntamente com o problema da sorte (����). entre o sublunar e o supralunar. das coisas. 8-9.. 196b10-1. Que haja acidentes. ao lado do necessário. então. 2. mesmo. pode. l. ser de outra maneira? Mas sabemos que o ����������� ����������� é objeto de opinião e não. sem dificuldade. 8. acima.. p. também. com. 185 Para a distinção. 186 Cf. Met. pela instabilidade de seu objeto. com. precisamente. não necessariamente nem sempre.83. 1026b7 seg. II.2 O acidente. sugerir-nos que não viu. II. 189 Cf. 187 Que Aristóteles expõe. 4. cf. Logique et Méthode. 342a30. 188 Ger. encontrando-se. 333b4-6. I.196 Busquemos. também. Hamelin.79. como se pode dizer que as fronteiras entre a �������� e a ���� permanecem mal definidas. S. Le Blond. a causa de haver acidente”. p. em esclarecer qual a exata natureza das relações entre a necessidade. II.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles pode.188 E não nos adverte o tratado das Partes dos Animais sobre a impossibilidade de reduzir ao eterno a necessidade das demonstrações que concernem ao que se produz naturalmente?189 Se a noção de �������������� se destina. Part.190 o que é o “provável” (�����) da retórica senão o que se produz na maior parte das vezes?191 Compreendemos. a maioria dos quais concernem ao simples freqüente (��������� ����). no pensamento de Aristóteles. 639b30 seg. também. II. e Per. se é certo que a mesma menção. 198b34-6 etc. 70a2-6. como acidente. se recordamos a polêmica aristotélica contra os que postulam uma necessidade absoluta para os eventos naturais.123. 190 Cf. no fato de a distinção estabelecida pelo filósofo entre o necessário e o contingente dizer.. a contingência e a “freqüência”. Anim.. 1946. necessário confessar. o freqüente e a matéria Ora. 1357a30-2. em conhecimento falso e ignorância. da enumeração na constituição da ciência”. 6. I. 1939. capaz de ser e de não ser. nos Segundos Analíticos. a de algum modo salvar. “a fonte das obscuridades que sua doutrina encerra”. 340b6-7.. Cf. Le système d’Aristote. I. contra Platão. 180 181 . 184 Cf. no aristotelismo.186 sua teoria do acaso natural (������������). antes de postular o caráter insolúvel da aporia.192 que se tenha tomado a “curiosa noção de ��������� ����”. uma vez que se não concebe uma ciência que possa transformar-se. não nos será.. também. respeito ao objeto material. Porque nada nos garante que a aporia não seja mais aparente que real. de uma grande obscuridade? E os silogismos de uma tal ciência da natureza pareceriam assimilar-se aos entimemas retóricos. entretanto. ao menos. Todo problema consiste. o universal aristotélico assume. do freqüente. obscuramente. Anal. mas na maior parte das vezes (��������������). Cf.25 seg. Fís.. que o filósofo o consegue ao preço de uma contradição ou. não é mais do que uma conseqüência necessária de nem tudo ser ou devir de modo necessário e sempre. que se possa ter falado dessa “estranha noção de ��������� ����”.. Mansion. que a noção de �������������� vem permitir ao conhecimento físico de nosso mundo sublunar185 transformar-se em ciência. Meteor. Ibidem. cf. malgrado a rigorosa doutrina dos Analíticos. 27.187 sua constante doutrina de que “todas as coisas que se produzem naturalmente produzem-se ou sempre da mesma maneira ou na maior parte das vezes (��������������)”. também. “este é o princípio e esta. p. Fís. 191 Cf. a conceder que “a ciência não consiste somente em penetrar razões necessárias”.194 que o leva... ibidem. 5. I.

agora. 200 Cf. Anal. englobando os eventos naturais que se devem ao acaso. o uso de �����������. I. sobre que se produzem argumentos e pesquisas. que é a “freqüência”. Anal. l. o poder-ser-de-outra-maneira da matéria. ao 199 Cf.1 e n. como diz Met. Seg.202 Assim. 202 Met. Acidente − aqui identificado aos resultados indeterminados que provém do acaso208 − e freqüente explicam-se como duas significações distintas e inconfundíveis do possível (�����������)209 e torna-se-nos manifesto que. o que provém do acaso. Se “freqüente” e acidente ocupam complementarmente o lugar deixado vago pela ausência do necessário e do eterno. Quanto à diferença entre sorte (����) e acaso (���������). Anal. 6. por exemplo. E acrescenta o texto que não há ciência e silogismo demonstrativo dos possíveis indeterminados. como. Cf. I. 2. e Per. ao falhar o necessário (�����������������������). Cf.206 designando “o indeterminado (��������). o ����������� (literalmente. etc. dada a instabilidade do termo médio. I. o encanecer. uma mera ausência de necessidade. 3. 18 seg. �. por que a matéria é responsável. quando algo se dá teleologicamente.26. cf. Met. Por outro lado. atribuindo-se ao acaso tudo quanto não é necessário nem freqüente. I. 182 183 . Fís. confirmam-se os resultados de nossa análise. ibidem. imediatamente. explicar o acidente e não propriamente. 13.. de há pouco. 198a5-7). 1027a8-13. como explicação do acidente. em geral. mostrar-nos203 que se diz ���������� (ser possível) em duas acepções. 87b20-1. 209 Em Prim. Cf. É freqüente esta identificação. II. percebemos. o que é capaz de ser e de não ser 203 204 205 206 207 208 Cf. Mas. 201 Cf. 7. Distinção de sentidos que se impõe e que os Primeiros Analíticos nos propõem explicitamente. por conseguinte. o mesmo necessário (���������) pode legitimamente dizerse possível. II.). não se invoca. ibidem. também. no que diz respeito à maioria das coisas no mundo do devir. o que pertence naturalmente a uma coisa (�������������������). 1032a20-2: “Todas as coisas que se produzem ou pela natureza ou pela arte têm matéria. num segundo sentido. como “capaz de ser de outra maneira que não como é no mais das vezes”. cf. �����em sentido amplo. II. de fato. cada uma delas é capaz tanto de ser como de não ser e isto é a matéria em cada uma”. ainda mais amplamente. também 3. explica-nos a Física que só se falará em sorte e acaso. mesmo. 199b18 seg. isto é.201 mas nosso texto descreve-la-á. não por que ocorre o freqüente. 25b14-5. por acidente. pois. de não ser necessário. o possível) designando. 30. não se confunde o freqüente com o contingente. 7-8. �. Anal. o acidente. E. quando caminha. mas por que não é senão freqüente e não é sempre que ocorre. l. cf. E a seqüência do texto200 vai esclarecer-nos que a matéria é a causa de assim substituir-se a freqüência à necessidade e de surgir. 1027a14-5: ���������������������������������������. segundo a primeira delas. 5-10. Aristóteles estendera. 32b4 seg. enquanto os há dos possíveis naturais. que se associa o freqüente ao necessário. veja-se todo o capítulo 6 de Fís. acima. o freqüente: poder ser de outra maneira é poder ser diferente do freqüente. dar-se apenas ���������������199 Se atentamos bem no que nos diz o texto. o caminhar ou o haver um terremoto. isto é. 25a37 seg. Prim.205 e. num certo sentido. aos olhos de Aristóteles. em sentido rigoroso. com frequência. pelo fato. �. explicando. não sendo mais natural que tal fato ocorra e não. o crescer ou o deperecer e. lembrando embora que Aristóteles também usa. 1027a13-5. do texto da Metafísica. para o homem. é correto dizer que o “freqüente”. 196b21 seg. 2. 8.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ca. 1. 5. verificar. 32b10-3.207 Como podemos. Ger. não no diremos no mesmo sentido em que o dizemos dos eventos acidentais. como. para um animal. quando se considera a ocorrência de eventos fortuitos. quando a natureza − ou a inteligência − opera segundo uma causalidade acidental (cf. Prim. 333b6-7. por assim dizer. que “faz as vezes” de uma necessidade que não se verifica. e. é somente um possível. portanto. ibidem. o seu contrário. cf. 6. Cf.. que o acidente é oposto conjuntamente ao necessário e ao freqüente. também. II. por que se caracteriza a contingência. em geral. o que pode ser de outra maneira (�����������������������). mas uma substituição do freqüente ao necessário. na medida em que. vemos. 13.3 Duas acepções de “possível” Se.204 o que se dá na maior parte das vezes (��������� ����). Fís. ibidem. 4. Já conhecíamos a matéria como capaz de ser e de não ser. em nosso texto. l. vem. o que é capaz de ser tanto assim como não assim”. I.

ainda que não necessite ao fim a matéria. p. p. 199b15-8. a consecução invariável de um mesmo resultado.217 Mas.106). 4. Cf. p. também. qui ramène l’�������������� à l’��������� par une sorte d’abstraction” (ibidem..41. a não ser como matéria221 − assim. nem um resultado ocasional. necessariamente. II. Tricot etc. coisas se passam sempre da mesma maneira. o mundo físico sublunar exibe uma outra forma de necessidade. que engloba o freqüente e o fortuito e indeterminado.) traduzem. 13-22”. 641b23-5.220 necessidade da matéria ou causa material. enquanto freqüente. Anim. 211 Como nota Ross (cf. também.212 dentre as coisas que não são nem devêm por necessidade. assim. 32b4-22). os seres da natureza. É a demonstração. I. obstada pela interferência de causalidades acidentais e estranhas ao processo natural. Cf. nota ad Prim. 778a4-9. em si mesmos.4 A necessidade hipotética E de onde provém aquele impedimento. quando se produzem as coisas sempre ou no mais das vezes. 1. 6. também. 635b23 seg. I. a lógica da contingência. II. l. como uma recusa do determinismo da necessidade absoluta. mas um tender a um mesmo fim. ibidem. I. se produzem numa determinada direção.216 4. não se deve a regularidade com que atingem �������������� seu termo final os processos naturais senão à essência de cada coisa:218 “dos seres naturais é causa o ser de uma determinada maneira e esta é a natureza (�����) de cada coisa”. Ger. cf. por certo. preferencialmente e no mais das vezes (������ �������). 1935. de acordo com a maioria dos autores. se não sobrevém algum impedimento”. Part. 1 e n. 639b25-30. acima. também é. 5. as 210 Com efeito. 16-8. 333b7 seg. não ocupando-se dele a ciência senão na medida em que o sábio. os conduz a um fim (�����) determinado: a partir de um tal princípio. 10.93 seg. 1. por “possível” e não. por vezes. Cf. o considera sob um “aspect partiel.213 que. para que o fim tenha lugar e. se não sobrevém algum impedimento (�����������������). ao que cremos. por isso. se. O finalismo da física aristotélica configura-se. 199b25-6. Anal.. sem os quais não haverá casa.95) e é objeto próprio da opinião (cf. I. II. III. ibidem. ainda que lhes seja possível ocorrer em sentido contrário. com efeito. 24-5. têm um certo princípio o qual. 9. isto é: todo o estudo do silogismo problemático não concerne ao possível. 19a18-22. intencionalmente. que lhe diz respeito e não. nos seres e eventos físicos. com suas premissas e conclusões “problemáticas”. 1. bem sucedida “no mais das vezes”.214 E. p. e Per. Cf. 9. se não Fís. l. Anim. Fís. as que se produzem ocasionalmente (e sobre as quais não é mais verdadeira a afirmação antecipada que a negação) e aquelas que. 221 Cf.219 Em substituição à necessidade absoluta dos seres eternos. Anim. 213 Cf. por que não podemos aceitar a engenhosa interpretação de Régis (cf.: entre as duas acepções de �����������] plays no part in his general doctrine of the logic of contingency. por “contingente”. 1. por certo.105). por não ter devidamente apreendido a exata natureza do ��������� ���� aristotélico. não podemos dizer contingente o freqüente. enquanto condição sem cuja indispensável cooperação não chega a bom termo o devir natural nem se concretiza a presença atuante da forma. 13. 200a24 seg. “nos seres físicos. 214 Cf. 215 216 217 218 219 220 184 185 . Cf. I. Colli. necessitam-se telhas e tijolos. pelas razões que vimos. Tais são. para quem “l’�������������� est formellement le contingent pour Aristote” (ibidem. dar-se. um necessário falho. 8. IV. como quase todos (por exemplo: Ross. por exemplo.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles (������������������������������). 212 Cf. L’opinion selon Aristote. Da Int. Part. Fís. 200a14 (veja-se o capítulo todo). não. Anim. 1015a20-6. Part.). incomplet. 8. �. reconhecendo uma tendência ao fim que. ainda que não seja em virtude deles que tenha lugar o fim.. mas não menos que um necessário estorvado e impedido. ibidem. Assim como ocorre no domínio da técnica e da ������ humana − para que haja. Eis. Ger. como sabemos.1 e n. uma casa. II. levando as coisas a se comportarem de modo contrário à natureza (����������). 9. Eis porque traduzimos �����������. as it is developed in chs. acima. capaz de ser e de não ser? É que sua indeterminação (��������) permite que princípios e causas estranhas venham efetivamente estorvar o processo natural do devir e perecer. por outro lado..188. II. entendemos por contingente o que pode ser de outra maneira (�����������������������). senão da matéria. por um contínuo movimento.215 Nem se falará em acidente ou acaso.210 O freqüente é o que provém da �����. o fim necessita a matéria: tais e tais coisas hão de. a necessidade hipotética (������������). Fís. neles tem lugar.211 O tratado da Interpretação já distinguira. É a forma de necessidade a que aludia Aristóteles em Met. “it should be noted that the distinction [subent.

Ger. no mundo sublunar. como a do Timeu.. ibidem. visto sob tal prisma. 9. se ele é o substituto do necessário. 4. em germe. 3. a propósito da doutrina aristotélica do freqüente.5 O freqüente e o devir cíclico Mas. está assegurado o mundo da geração contra os desmandos da matéria: poderá esta. 223 Cf. sob a forma de uma cíclica e necessária repetição. da mesma maneira. permanece indissoluvelmente solidária. correspondendo a uma degradação objetiva da necessidade ontológica. mais ainda que no devir físico. Anim. engendrandose. senão sempre. persuadindoa a conduzir a maior parte das coisas no sentido do melhor (cf. sempre presente. está ausente a necessidade absoluta −. 317b33 seg. ibidem).. 12. continuamente. ��������� ����. Seg. l. interferir de modo a obstar os processos naturais. I. I. Matizou-a tão-somente. de uma degradação da necessidade científica.83 e 84. É impossível deixar de reconhecer que essa passagem contém. 28-30. Ét. 336b31 seg.. produzindo. ao propor essa outra noção. Trata-se. devemos contentar-nos. em cada gênero. exprimindo a manifestação da forma e da essência. não renunciou Aristóteles à sua concepção de ciência. no mundo físico. nós a temos manifesta. 200a30-b4. II. nem estranharemos a noção ou a acharemos particularmente curiosa. ocasionalmente. então. plenamente assimilável. 9 (todo o capítulo). é uma duração imortal e divina. 186 187 . Fís. por certo. tampouco sem elas. (o capítulo todo).. da mesma maneira? É que o Céu é um Todo único224 e que a completação do Céu todo. para o mundo sublunar. conclusões dessa mesma natureza. necessária e eterna do Céu. se a matéria aristotélica. em contradição. part. com ter. 23-5. Part. objeto de ciência Se tais são a natureza e o sentido do ��������� ���� aristotélico. 227 Cf. I.. II. também no Timeu. que com esta. compreendendo 229 Cf. entretanto. não é difícil reconhecer que. reciprocamente. I. 640a2-8. em que pese à má vontade daquela? Em outras palavras. na harmonia da unidade celeste. tanto quanto a natureza da coisa o admite”. de a necessidade material opor impedimento eficaz aos processos da natureza. Ger. 4. Nic. ibidem. que lhes falta. Anal. então. 1094b21-2. Céu II. 1. a Inteligência domina a Necessidade. dessa outra forma de necessidade. 225 Cf. 95b38 seg. seja na infinda repetição das coisas individuais. se falamos de coisas apenas freqüentes e partimos de premissas freqüentes. não é senão o testemunho da atuação.4 e n. 10 (o capítulo todo). 230 Cf. segundo uma forma de conhecimento que lhe é. como se dá que. ainda menos. cf. Céu I. 11 (o capítulo todo). 228 Cf. que devem ao fato de.226 Por isso mesmo. nem poderíamos conceber. que os Analíticos descrevem. também. que a matéria individua. 338b5 seg. 226 Cf. Mas. decorrerem da revolução eterna e circular do Céu. se suspendem o ser e a vida de todos os seres que se não situam além de seu movimento mais exterior. se comportem os seres naturais.228 Assim integrado 222 Cf.227 E essa geração circular. e Per. 231 Ibidem. Amolda-se o conhecimento à natureza do objeto. irão imitar.222 O ��������������. 279a25-8. 338a14 seg.223 não se deixa persuadir inteiramente. 3. 11. numa regularidade que procede da ordem imutável. a necessidade encadeia o devir e o movimento. segundo uma ordem constante. envolvendo o tempo inteiro e a infinidade. e Per. na identidade específica das manifestações distintas das mesmas formas. 48a. malgrado a eventualidade. que não leve a melhor e que a forma e o fim prevaleçam. em incorreção ou obscuridade e. l.230 “Pois é próprio do homem cultivado buscar a exatidão. II. como explicar.6 O freqüente.225 a que. 1. Como nos diz a Ética Nicomaquéia − e na ������ do homem. em última análise. mas não lhe é dado impedir que se passem as coisas. acima.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles advém ele por elas.229 ao precisar qual a natureza do conhecimento ajustado à expressão da causalidade operante numa natureza em devir. II. a doutrina aristotélica do ��������������.. a permanência do eterno. part. os quais. Tim. que as coisas pudessem passar-se de outra maneira. somente. seja nas transformações com que os elementos se vão uns aos outros. ao menos ��������������. 3. porém.231 Não falaremos. no aristotelismo. 224 Cf. também.

.240 são eternos. p. n. também. num caso. acima.. a expressão ������������������. eventualmente. num texto particularmente famoso dos Segundos Analíticos. precipitadamente. Logique et méthode. E. como se poderá dizer científica a apreensão do ��������� ����. Seg.239 Nele.: enquanto são demonstração e conhecimento] de um tal evento (������’�����). e a explicá-lo com alguma confusão (cf. julga igualmente tratar-se de um caso de ��������� ����. I. seu estudo na análise do conhecimento necessário: é que o �������������� guarda vínculos bem definidos com a esfera da necessidade. enquanto são tais (������’�����). Tricot e outros códices. E Le Blond. objeto de simples opinião e não. é evidente que. é evidente que. v.. Como o filósofo nos diz em Prim.35 a 39. por outro lado. I. 4. claramente. o que pertence segundo a forma e a natureza. 88a3: ������������������� 239 Assim é que Régis afirma (cf. 112b11-2. não se confundirá a freqüência. de Le Blond (cf. à primeira vista. 742b17-20. p.234 “aqueles que dizem que ‘as coisas se produzem sempre assim’ e estimam que esse é. como os do eclipse da lua. II. 70a3-4: “o provável (�����) é uma premissa aceita (�������)”. que. por exemplo. acima. mais uma vez. Le jugement d’existence. L’opinion selon Aristote. 104. construirá a retórica os seus entimemas236 e a dialética. confundir o �������������� com certos fatos que invariavelmente se repetem segundo uma lei rigorosa e eterna. Anal. Anim.91-2. em Seg. acima. 87b39 seg.3: “Le ��������est ici synonyme de ��������������. com a noção de “freqüente”. sobretudo. sobre um tal freqüente. Seg. a atribuição à totalidade não se explica nem causalmente se conhece.. citar-se. os seus silogismos. de ciência. 2. cap. segundo o número. 31. em momento algum. a sua necessidadeprópria. como uma das significações de ��������������.. 1931.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles as razões de haver uma ciência do freqüente e por que podem os Analíticos apenas mencioná-la. se não se apreende.157 deste capítulo). em que o exemplo do eclipse reaparece (cf. patenteia-se o primado da compreensão sobre a extensão. são eternos. IV. diz-nos Aristóteles.190 e 191. se não se conhece ele segundo a forma e a partir das reais determinações causais que o produzem. acima.81-2 e n. centrando. ao apreendê-las. I. exemplificada pelo eclipse.237 4. Waitz e alguns códices. mas. acima. particularmente. com a freqüência. enquanto o são [subent. 31. em sentido frouxo. de l’universalité au sens précis du mot. car de même que ce dernier indique l’existence d’une nature. permitamo-nos estabelecer que se não deve. Também S. no outro. entende a repetição constante de um evento.. III. n.82. por certo. II. II. 235 Cf. de même le ��������”. aqui. 1939. em se repetindo circunstâncias determinadas. II. causa de reais contra-sensos sobre a doutrina do freqüente. 4. p. em que o �� ����������� assim se emprega. a nosso ver. Ret. assim como mesmo as coisas necessárias e universais podem ser. I. embora critique a interpretação que Régis propõe do ��������� ���� aristotélico. E muitos textos de Aristóteles poderão. Cf. 1939. Anal... ainda que não sempre. analogamente. Aparece-nos.235 também o freqüente dir-se-á apreendido por mera opinião. de uma concepção “extensivista” da ciência.232 lá mesmo onde alguns pretenderam. nelas.. paradoxal. Anal. I.233 Mas “não se pronunciam corretamente. Pol. dans l’objet de la science”.. como se a simples descrição da ocorrência de sempre pudesse fazer as vezes de explicação científica..1 e n. como se haveria de interpretar a afirmação de que “Quanto às demonstrações e conhecimentos científicos dos fatos que se produzem muitas vezes. n..) e onde usa Aristóteles. II. embora. ao mesmo tempo que se recusa cientificidade ao conhecimento do mero �����������: é que se apreende. no pensamento aristotélico. de modo que poderia parecer. 8. �����������. contra Bekker. 120-3). 1946. são particulares”. Logique et méthode. 19. 5. como os do eclipse da lua.. mas enquanto não são 237 Como.. sem entendê-la 188 189 .5. III. Anal.2. E. 233 É o caso. 1291b9-10. por exemplo.: que se produzem muitas vezes). também. A sequência do texto mostra ser Demócrito quem Aristóteles. segundo a essência e a forma. em Aristóteles. ocorre no domínio da universalidade. 75b34: ������’����� e não ������’������ Com efeito. sobre a noção de �������. Mansion (cf. p. o que o leva a achar o texto embaraçante. 27. descobrir algo como um certo triunfo. p.. o princípio”. enquanto não são eternos.1 e n. os quais designa Aristóteles como ����������������� (lit. comentando um outro texto dos Segundos Analíticos. 234 Ger.238 cuja má interpretação tem sido. Como 232 Cf. em Tóp. 75b33-6. 6. 1392b22-33 etc.79). Mure. 1382b5-6. 236 Cf. 8. 238 Cf. 1. nem indicam a necessidade do porquê”. visa.126) e. Le système d’Aristote.1 a p. É óbvio. que vê manifestar-se na noção de ��������� ���� “l’importance de la répétition. 240 Lendo. diz-nos o filósofo: “Quanto às demonstrações e conhecimentos científicos dos fatos que se produzem muitas vezes. 6.7 O que “no mais das vezes” ocorre e o que “muitas vezes” acontece Por fim. enquanto. com Ross. de Hamelin (cf..

Basta. mas de eventos necessária ou freqüentemente produzidos.. O conhecimento causal de sua produção se dirá. sob esse prisma. entre os corpos celestes. �. podemos. nada. para que a leitura do texto se aclare. There are events which present themselves as accidents. trata-se do mero fruto de uma causalidade acidental e fortuita. necessariamente. III. III. consoante a ordem e o movimento circular do Céu. mas. 4. graças à deficiência do concurso da causalidade material. é. acima. as unintelligible exceptions. eventualmente.23.4 e n. aqueles que. cuja causalidade também é acidental (cf. produz-se muitas vezes (��������). segundo a qual se produziriam os acidentes que contrariam o freqüente: se acaso pudéssemos conhecer uma ordem ou lei conforme à qual eventos regulares e freqüentes deixam de verificar-se. recusando a noção de acidentalidade objetiva e reduzindo o chamado acidente a uma deficiência de nossos conhecimentos. cf. uma fase da lua). agora. então. 1. por isso mesmo. da percepção repetida. se estabelecem.. aliás. uma outra concepção de acidente que não a que sempre encontramos ao longo de sua obra. também. a prova de que não são outras as propriedades das premissas da demonstração. III. i. 32b10-3. 25). mas o acidente é o que constitui exceção a esses casos” (l. nos sugere que tenha Aristóteles proposto. ciência e ciência eterna e universal. acima. I. empreender..243 ainda que um tal conhecimento. é absolutamente manifesto que um tal �������� ��������� não pode dizer-se um ��������������: pois. como prometêramos. porém. Nele.245 Uma 244 O que a nenhum momento significa. obviamente. e. malgrado não serem eternos seus objetos! O que. Ora. em circunstâncias determinadas. tendo aprofundado o conhecimento da coisa demonstrada e de suas características. cf. podem. 2. é que.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles eternos. O acidente propriamente dito é um “possível” indeterminado (cf. são particulares. como pretende Ross. continua Aristóteles: “mas não poderá [subent. nota ad l. absurdo. na mesma medida em que a noção de “freqüente” designa. sim. se se compara com toda a duração do tempo em que tal evento não ocorre. que resultam das múltiplas interferências das órbitas celestes e das relações temporárias e localizadas que. cf. Tal como no caso do eclipse. 4. no mais das vezes. para essa passagem. Julgamos inaceitável a interpretação proposta por Ross (cf. III. 2. na maior parte das vezes. de Met. assimilar-se a essa espécie particular de “por si” de que nos ocupamos conexões entre fatos como aquelas a que se refere o filósofo no texto. a introdução ao cap. obviamente. na passagem em questão. quando não ocorre a coisa. não somente o eclipse como todos os eventos.206). o vimos distinguir (cf. segundo uma necessidade rigorosa. 1025a21 seg. 1. 30. realmente. do necessário e do freqüente e exemplificando este último com o fato de ser útil o hidromel. 243 Não esqueçamos. assim. na medida em que não concerne às como o reconhecimento de uma certa primazia do conhecimento sobre o objeto conhecido? Os conhecimentos científicos tirariam sua eternidade de sua mesma natureza de conhecimentos científicos. por sua vez. propriedades permanentes de um ser. III. que permite o surgimento do acidente. não se diga. passar ao universal. nesse caso. acima. III. 246). não estaríamos. Por outro lado. acima. here he admits that they are merely beyond our present knowledge”.7 e n. I.3. Ora. necessariamente pertencendo a seus sujeitos.241 uma necessidade falha e impedida. 241 Cf. 31. III. 87b39 seg. porque não há ciência do acidente. acima. somente.. a interposição da terra. a nosso ver. pertencem-lhes unicamente. em determinadas circunstâncias de lugar e tempo. 245 Cf. designando uma relação causal e circunstancialmente necessária que une dois eventos. Por outro lado. Anal. particular. portanto. em virtude da interferência regular de uma nova causalidade (no caso em questão.156 a 159.: a ciência] dizer o que constitui uma exceção a isso. subordinando um ao outro: é que.1 e n. a quem se encontra em estrado febril. por certo.. é impensável que o eclipse se não produza ou que se produza. Ora. depararmos com uma contradição ou inconsistência na doutrina aristotélica da ciência. bem pouco freqüente a interposição da terra que priva a luz da lua. mas a propriedades relativas e possuídas em circunstâncias particularmente determinadas. 2. que recordemos ter Aristóteles distinguido242 dentre os atributos “por si”. por exemplo: ‘na lua nova’. 242 Em Met. no aristotelismo. dada a interposição da terra.53. contingente. nos outros casos”. �.. em face de acidentes. em nosso texto. em geral. 1. Seg.3 e n. acima. Prim. que ele particularmente valoriza: “for it is perhaps the only place in which Aristotle implies the view that there is nothing which is objectively accidental.244 Assim dirimidas as dúvidas sobre a noção de “freqüente” e afastado o temor de. o que nos explica o filósofo. porém. é. à primeira vista razoavelmente difícil e que tem sido diversamente comentado. universal e eterno. não pode ela determinar e conhecer uma como “lei da acidentalidade”. but if we knew more about them we should know that they obey laws of their own. acima. 1027a20 seg. tão-somente. Elsewhere Aristotle speaks as if there were events which are sheer exceptions and below the level of knowledge. ‘na lua nova’ também é sempre ou na maior parte das vezes. como sabemos. �.4). Anal. com efeito.. constituem outros tantos exemplos desses “por si” que o movimento eterno do Céu faz ciclicamente repetir-se. 1027a7-8). tendo estabelecido que a ciência não se ocupa do acidente mas.. que o filósofo assimile o conhecimento de tais eventos ao quarto sentido de “por si” que. é patente que se não trata de um fato que ocorra “na maior parte das vezes”: se o eclipse da lua se repete de quando em vez. 190 191 . que Aristóteles se serviu do mesmo exemplo da repetição do eclipse para mostrar-nos como se poderia. Met. 13.

também não será necessário o termo médio. I. 75a4-11. acima. com efeito. 15.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles vez estabelecido esse ponto. Anal.2. I. ao mesmo tempo que se nos patenteou não ser outra a necessidade das conclusões científicas senão a necessidade daquela atribuição universal e por si. acima. de fato.. 6. na seqüência do texto. também. 5. como se explicitará maisadiante. É fácil ver que o argumento. que comece o filósofo por uma tal afirmação. naquela declaração inicial. a introdução ao cap. Seg. não há como negar às premissas aquela mesma característica de “por si” que sabemos possuir as conclusões: determinações correlatas. Ainda o “por si” e o necessário Descobrimos. de princípios necessários (o que cientificamente se conhece não pode. das premissas verdadeiras. cf. à primeira vista.2 Prova-se a natureza necessária das premissas Desdobra-se a prova em vários argumentos. 5. agora. com Ross. Cf.. os mesmos princípios imediatos da demonstração que temos. o necessário e o “por si” são. também será necessária a conclusão (A pertencerá. Anal. III. uma vez que. estabelecer que. em condições de provar a existência necessária de princípios indemonstráveis para a demonstração científica.. pressuposto. de que a necessi246 247 248 249 Cf. sobre tal fundamento. se o termo médio é necessário (se A pertence. III. Cf. Seg. percebe-se que.248 Principia.2. Anal. no entanto. necessárias e o faremos. de início. Seg. recordar que. o filósofo: “Se a ciência demonstrativa procede. l.252 consideremos que. nem por isso nos torna. necessariamente. acima.247 que dá. indissociáveis. já que a conclusão obtida compartilhará da necessidade das premissas em que assenta. 73a21-4. de provar que são as premissas. se se prova a necessidade das premissas do raciocínio científico − e ela se provará a partir da mesma impossibilidade de ser de outra maneira a coisa demonstrada e cientificamente conhecida −. como e por que o conhecimento da coisa demonstrada se exprime sob a forma de proposições em que o predicado se atribui ao sujeito. Cf.1. nas premissas da ciência 5. antecipando os resultados da demonstração que nos vai. a B e B. a C). por certo. a C). é manifesto que procederá de premissas de tal natureza o silogismo demonstrativo”. também aqui. mostrar que essa mesma necessidade do “por si” caracteriza. finalmente. Não se duvida.251 5. assim. não prova rigorosamente o ponto em questão: mostrando-nos que premissas necessárias levam a conclusões necessárias. simplesmente dialético. Anal. 1. como aceito para. 15-8. 6. a l. então. 192 193 . 74b13-15. por isso mesmo. Com efeito. também.246 Tal é o objeto de todo um capítulo dos Segundos Analíticos. por si e universalmente. evidente que o inverso também ocorre e que a necessidade 250 251 252 253 Cf. 5 Da necessidade.. e.249 Poderia estranhar-nos. ibidem. partindo da necessidade conhecida das conclusões científicas. a partir de premissas verdadeiras. necessariamente. Em primeiro lugar. assim. com o filósofo.. as mesmas premissas por que o objeto científico se demonstra e. nas páginas precedentes. I. primeiro. mostrar o caráter necessário das premissas. imediatamente. possível. ibidem. propor. I. desejando. portanto. cumprimento a um programa anteriormente enunciado. Desde Seg. ser de outra maneira). se não é necessária a conclusão. Cf. não é. porque necessárias. ���������. efetuar um silogismo que não demonstre. dade implique o “por si” e seja por ele implicada. 4.1 e II. Mas teremos. sem demonstração.. se partimos de premissas necessárias. se os atributos por si são necessários às coisas . pois. como desde há muito sabemos. não faz mais o filósofo que. também. se obtém sempre uma conclusão verdadeira. 6.250 Mas. Lemos. em seguida. estaremos.253 assim como. parece tomá-lo. se é real a possibilidade de construir silogismos. 74b5-11. precisamente. Cumpre-nos. II. hão elas de formularse como atribuições por si.

5. cap. a partir de premissas não necessárias. por definição. 262 Cf. I. ao argumento principal.6 e n. como vemos. não há como recusar que não tinha anteriormente conhecimento quem. 26-32. necessário é o termo médio do silogismo científico. por parte de todos. ao vermos engendrar-se conclusões necessárias como as que. 2. para pôr-nos diante de silogismos que reconhecemos como demonstrativos. a partir de premissas daquela mesma natureza. para que se formulem corretamente os princípios. anteriormente. 263 Cf. Pois.. Se o que as premissas dizem pode não ser. 1354a1). I. ibidem. 6. necessárias as premissas todas do conhecimento científico. I.262 se perecesse o termo médio e se preservassem tanto o objeto como quem pretensamente o conhecia e continua a possuir o mesmo argumento. II. Pois o raciocínio fundado em indício ou sinal (�������) é um entimema retórico (cf. como pretender que é necessário e que está cientificamente provado o que nelas se fundamenta? Nosso comum procedimento já patenteia a tolice dos que julgam bastar. sabemos resultar de toda demonstração. portanto. I. de um termo médio contingente. Cf. 6.. portanto. nem poderá a necessidade da conclusão explicar-se causalmente pela contingência do termo médio. tanto quanto o objeto de seu pretenso conhecimento. Anal. por certo não teria ele conhecimento: não o tinha. Ger. III. Anal. Se não se tem. Seg. não poderemos provar senão o fato de que A pertence a C. assim como pode uma conclusão verdadeira provar-se a partir de premissas que não o são. mas é o que forçosamente ocorreria. Anal. 258 Cf. vem corroborar o que acabamos de demonstrar. cf. 9. II.255 Um segundo argumento256 trar-nos-á. Anal. Ora. Anal. 74b32-9. isto é. dados três termos A. “mediar” entre o maior e o menor de uma conclusão científica.257 o argumento apela para a idéia aceita de demonstração e para a sua espontânea compreensão. possuindo embora o mesmo argumento que anteriormente possuía e tendo-se preservado no ser. B e C.3. se B não é necessário. Seg. Seg. nem se conhecerá por que a conclusão é necessária nem que ela o é. é a sua “contraparte” (cf. 75 1-4. I. portanto. 6. mesmo. um conhecimento fundado em premissas necessárias. 1356a25-6). Seg. 2-4. Somente um termo médio necessário pode. Se não perecesse o médio.1 a II. uma situação de não-conhecimento. Decisivo e concludente. I. dele não tem conhecimento agora. 1357a31-2: “dizem-se entimemas os raciocínios que procedem de ‘prováveis’ e de sinais”) e a retórica é uma como ramificação da dialética (cf.263 E 260 Cf. Com efeito. previamente. II. 75a12-4. implicando a contingência a possibilidade do perecimento. 1. se A pertence. que se utilizem premissas tão-somente verdadeiras e aceitas. ibidem. ao argumentar contra os que pretendem ter feito uma demonstração. 6. Oargumento serve. julgamos ser objeção suficiente contra sua pretensão o fato de podermos invocar o caráter não necessário das premissas sobre que constroem seus silogismos. ibidem.3 Necessidade ontológica e necessidade do juízo São.258 Vamos. o caráter eventualmente não necessário de B deixaria inexplicada a necessidade da conclusão.260 Um último argumento. 261 Cf. mas ou 194 195 . 74b18 seg. l.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles da conclusão implique a necessidade das premissas.138. 3-4. Seg. porque estejamos convencidos de sua falta de necessidade ou. 74b21-6. Anal. Com efeito. a C e B é o termo médio do silogismo que obtém tal concluCf. simplesmente. 3. ibidem. Também dialético. e Per. um indício ou sinal (�������) da necessidade obrigatória das premissas. Cf. a mesma situação poderia ocorrer. mas pudesse perecer.259 Quando uma demonstração é possível. 2. 6. 259 Cf. acima. De fato. se se pudesse provar uma conclusão científica. 254 255 256 257 a são. sabemos que não a tem quem não conhece o porquê da conclusão. já estabelecera: a função causal do termo médio e a noção de silogismo da causa real.261 também dialético. então. Ret. para argumentar. Ora. pois. este argumento serve-se. Prim. ao menos. porém. apenas. Trata-se. portanto necessária. 335b4-5: ������������������������������������������������������������������. de um argumento ���������������. necessariamente. com. l. de noções que a doutrina da ciência. 3. E nada parece impedir254 que se prove uma conclusão necessária por um termo médio não necessário.. acima.

para um mesmo efeito determinado.. particulièrement chez Platon.. l. ao médio”. prova proposições universais e por si e se se relaciona. por sinal ou por acidente. I.4 Sobre a multiplicidade de causas Conhecidas as características próprias das premissas científicas. realmente. sua introdução ao comentário do capítulo). em sentido estrito. então.63 seg. com ênfase. admitir uma pluralidade de causas. ou pela existência de relações analógicas entre as coisas. não haveria.265 Atentemos.. ibidem. Anal. Sobre as diversas acepções de “necessário”. é manifesto que as demonstrações científicas concernem ao que pertence por si e procedem de premissas de uma tal natureza”. e o primeiro termo. identicamente. temos. Seg.. ou pela especificação de um termo médio genérico. conhecendo-se.. que. não. 6. não haveriam de estar necessariamente presentes todas as suas causas. no que respeita à necessidade. 270 Cf.267 Decalcada sobre a necessidade ontológica. cf. Mansion. se a ciência. ela perderá suas folhas.. S. do perecimento possível de seu termo médio. porém. 1.270 Com efeito. Mansion. p.. Nesse caso. 17. por outro lado. 272 Pela mesma razão. 14-7 (em que acompanhamos a interpretação de Ross. portanto. Le jugement d’existence. o efeito.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles podemos. um mesmo termo médio poderá provar 269 Cf. retoma-se a questão de II. cf.. dada a causa (B ou C).13 seg. II. assim. uma impossibilidade. “uma vez que pertence necessariamente em cada gênero quanto pertence por si e a cada sujeito. causa de A pertencer a D. se há coagulação na árvore. 16. por último. 28-31. nota ad l. que A pertença. concluir. enquanto tal. Anal. que o efeito segue universalmente e com que se acha essencialmente ligado: se é causa de perderem as árvores suas folhas a coagulação de sua umidade. a interpretação de Ross. I. obviamente. aí. é a causa um todo (�������). cf. cf. Anal. 1915) não nos parece pertinente. lidade científica numa questão a que confere o filósofo relevo particular. segue-se o efeito (A). dado. 75a35-7. a D e E: B será. convertibilidade entre efeito e causa. é preciso que haja coagulação. 29. acompanhamos. simplesmente o que da conclusão (através de termos médios) ou o seu porquê (a partir de princípios imediatos). 264 Ibidem. não se trata de uma pluralidade de demonstrações científicas. por si e não. Le jugement d’existence. Seg.272 Os casos em que pareceria haver mais de uma causa para um mesmo efeito explicar-seão pela existência de homonímia. 17. utilizou. múltiplas causas para um mesmo efeito. 267 Como pretende S. Seg. que o termo médio pertença ao terceiro termo. por ele próprio (��’����). 99a6 seg. 271 Cf. com. ter um tal conhecimento (julgando-se necessárias premissas que não o são).68 seg. Anal. 12-7. a interpretação de Ross (cf. acima.269 Suponhamos.1 e n. Chevalier (in La notion du nécessaire chez Aristote et chez ses prédécesseurs. cf. também. pois. em sentido estrito. 98b25-8 e dá-se-lhe um tratamento mais completo. 268 Como crê. imediatamente. unicamente. indevidamente. Acompanhamos. nos Analíticos. todo o capítulo). torna-se-nos possível melhor precisar nossa compreensão da causase crerá. em suas linhas gerais. 273 Cf. cf. no plano das ligações entre conceitos. finalmente. sua maneira de criticar as teses de J.. 1946. para uma pretensa ciência cujas premissas não fossem necessárias. Também aqui. se é possível haver diferentes demonstrações de uma mesma proposição (cf. uma vez mais. tão-somente. Por isso mesmo. para essa passagem. em verdade. evidencia que não cogita o filósofo de uma mera necessidade do juízo científico e que a necessidade característica da ciência não é estabelecida. a necessidade das premissas e da conclusão do silogismo demonstrativo não é mais que um desdobrar-se da primeira na alma humana e não. acima. 265 Seg. respectivamente. 1. l. 99a1 seg. a B e a C e que pertençam estes. em Aristóteles. em sentido estrito. Ora. 16. l.1 e n. II. entretanto. 266 Cf. nota ad locum. se uma árvore perde suas folhas e. I.264 “É preciso. 1946. p. qual seja a que concerne à eventual possibilidade de haver. de novo. Se a demonstração se faz. sua introdução ao capítulo em questão). ou não. mas uma ou outra delas.268 5. em que se reafirma. 196 197 . se é certo que. o termo médio com os outros dois termos. 98b25 seg.13 seg. Como nota Ross (cf.. I. ibid. portanto.273 Do mesmo modo. considerando as absurdas conseqüências que resultariam. uma outra acepção do necessário aristotélico. assim como C será causa de A pertencer a E. 32-8. II. a constante doutrina do filósofo que define uma concepção ontológica da necessidade:266 o mesmo argumento que. ou nem mesmo se crerá que as premissas são necessárias. como sabemos. plenamente. Seg.271 não se pode. Anal.

impossível haver.277 um termo C. se é impossível percorrer uma série infinita e uma vez que pressupusemos poder atribuir-se A a F. uma série infinita de termos. em sentido estrito. ao contrário. então. tal que nada se lhe atribui.4). cientificamente.258. prova haver princípios e premissas primeiras do conhecimento científico.. necessariamente. se há proposições imediatas e primeiras.1 Proposições primeiras e cadeias de atribuições Conhecendo. Anal. 9-14. cf. I. G a B.280 por exemplo. a cadeia dos termos médios é. Se.279 E concernem. ainda. igualmente. 15-20. III. mas que. a passagem de Seg. mas a atribuição de B a A é acidental (���������������). percorrer. uma tal demonstração circular é impossível (cf. que não basta partir das premissas mais aceitas possíveis. se se atribui A a F. acima. 276 Cf. se não se quer raciocinar apenas dialeticamente (�����������). formular-se. são necessárias e contêm predicados que se dizem de seus sujeitos. 281 Cf. 19. antes de chegarmos a F. no sentido descendente ABF. ao infinito. 280 Cf. também. limitada. mas. a propósito de silogismos e premissas negativas.. um termo A. um deles dizendo-se do outro. por si. Ora. se limitam. se partimos de F. numa prova absolutamente circular. a B. 83a1 seg. um número infinito de termos médios. indemonstráveis.. I. É nos capítulos 19-22 do livro I dos Segundos Analíticos que Aristóteles. Seg. l. possível. no sentido ascendente FBA. a verdade. já que não há. Seg. se há demonstração para toda proposição ou se há.275 e sabedores de que todas as proposições constituídas pela ciência. 275 Cf. reciprocamente. 5. sem nenhum termo intermediário. precisamente. I. então. II. a questão da eventual extensão indefinida da demonstração não se coloca. estender-se. sem termo médio: em outras palavras. é fácil ver278 que formular uma tal questão equivale.. Ora. sucintamente). de proposições imediatas.. ibidem. Anal. será necessário. 278 Ibidem. antes de chegarmos a A. se A pertence a C e B é termo médio entre eles. 198 199 . uma tal série de predicados BFE . Principia Aristóteles por estabelecer281 que é. acaso. se tomamos.. l. Quanto às noções de atribuição acidental e atribuição em sentido próprio. É. a perguntar. isto é. ibidem. nessa direção ascendente (������ ���)? E.2. suponhamos haver outros termos médios entre A e B.. 5. que comentaremos adiante. 81b18-23.. evidentemente.276 Consideremos. mas genericamente idênticos. do mesmo modo. acima. e se pertence.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles diferentes conclusões. Anal.. não menos as premissas que as conclusões. Mas sabemos. haver uma série infinita desses termos médios? 274 Cf.1 e II. 82a6-8. também. 279 Cf. 5. acima. igualmente. cf. I. agora. ao contrário. ao infinito. aqui. Seg. sem que possa privilegiar-se um dos sentidos da atribuição sobre o outro. por si. que. a partir de um atributo dado A. Anal. II. se A se atribui a B. acaso. 19. pertence diretamente a H. 98a24-9. outros. acaso pode uma tal série de sujeitos HGB . ascendente e descendente. nessa direção descendente (�����������)? Finalmente. não somente se se podem estender indefinidamente as demonstrações (como nos dois primeiros casos). 277 Cf. Pode. Seg. 22. Anal. estamos. no sentido próprio de atribuição (������������). se se tratar de problemas especificamente distintos. Com efeito. estenderse. assim como deveremos. a não ser de modo meramente acidental. finalmente. II. termos que. portanto. que resumimos. 81b30 seg. obviamente. tal que não pertença a nenhum outro e que B lhe pertença diretamente. mas são infinitos em número os termos médios (que representaremos por B) através dos quais se prova essa atribuição. 15. uma série infinita de termos.. partindo-se de A. 5. se a cadeia de atribuições é limitada nos dois sentidos. a termos que se não reciprocam na atribuição. H a G. sujeito nem predicado primeiro nem último. absolutamente anteriores. sujeito e predicado são convertíveis e se reciprocam na atribuição. mas se visa. entre dois termos. do mesmo modo. tão-somente. 20 (todo o capítulo. a partir de um sujeito primeiro C. As mesmas questões também podem. em condições de provar a existência de proposições primeiras ou princípios. Que E pertença. sem intermediário.2 e n.274 6 Da indemonstrabilidade dos princípios 6. a F e F. entre aqueles. percorrer.

A primeira delas285 mostra.. 1.. o homem caminha. mas indicase ser madeira aquilo de que branco ou grande são acidentes. III. de um sujeito outro. l. distinguindo três tipos de asserção. dizendo “o músico é branco”. a atribuição em sentido próprio e não por acidente inclui tanto a atribuição substantiva como a atribuição adjetiva. é (��������������). I.. 290 Cf. significando o que é. serem em número limitado os predicados que se atribuem no “o que é”:286 eles o são. ibidem. I. obviamente. a madeira é realmente o sujeito que veio a ser branco. Sobre o sentido da expressão. nelas. diferem bastante esta última modalidade de asserção e as duas primeiras. de um único sujeito. III. 22. 200 201 . se é possível definir uma coisa e conhecer sua qüididade. porém. mas por acidente (���� ����������). Somente uma atribuição como esta se dirá atribuição.283 Começa por argumentar “logicamente”. igualmente. o sujeito (�����������) ou o que ele. 84b2. a cadeia de atribuições numa demonstração afirmativa. também o será o número das negativas. ibidem. III. 288 Cf. 21 (todo o capítulo). passa o filósofo à demonstração de que é finita. se é limitada. 284 �������. l. um predicado único dizendo-se. Dispensamo-nos de reproduzir o detalhe das provas concernentes aos silogismos negativos de cada uma das figuras. cf. isto é: os acidentes. precisamente.1 e n. respectivamente. sempre. precisamente.6 e n. então. também. Não se confundirá. 289 Cf. e os que não significam a essência. Sobre as relações entre “o que é” e a definição. com a atribuição acidental. 24-35. 2. uma cadeia de proposições afirmativas. precisamente. 6. Seg. 82b37-83b31. sempre. Ora. ao dizer “o branco é madeira” ou “aquilo grande é madeira”. é preciso.290 Distinguimos. ad finem. por pertencer-lhe no “o que é” ou por atribuir-se-lhe segundo algumas das outras categorias. aquilo grande é madeira. mostrar que. 83a1. 2. a introdução de uma proposição afirmativa: se o número de proposições afirmativas é limitado. enquanto as outras duas (atribuição do sujeito a seu acidente ou atribuição de um acidente a outro acidente) se dirão atribuições. Seg. de que músico é acidente. nos dois sentidos. ibidem.287 Uma primeira consideração preliminar288 examina a natureza da proposição atributiva. cf. parcialmente. Seg. l. cf. mas se dizem. tratar-se-á o assunto de modo mais geral.18 a 21. nha. as demonstrações científicas senão às atribuições em sentido próprio e absoluto. implicitamente considerado.292 Em outras palavras. 283 Cf. acima.1 e n. o branco é madeira. também. que não “é”. l. limitada a cadeia de atribuições numa demonstração negativa.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Mostra.4 a 6.. 286 Cf. será. Anal. 3. não sendo outra coisa senão. 82b35. Se dizemos. 18-23. I. 292 Cf. não se tomam branco ou grande como sujeitos reais de madeira. madeira ou uma espécie de madeira. não podem ser em número infinito os atributos que pertencem a uma coisa. com. isto é. 82b37-83a1. tomando-se silogismos de conclusões negativas nas três figuras do silogismo e mostrando-se que a introdução de um termo médio entre os termos de uma proposição negativa requer. porém. Seg. Anal.2 Do caráter finito das cadeias: primeira prova “lógica” Estabelecidos esses pontos. não em sentido absoluto. 1.284 com provas de natureza dialética. necessariamente.136 seg. a madeira é grande. indica-se que um e outro termo exprimem acidentes concomitantes de um substrato comum. em ambos os sentidos. proposições como: 1.291 entre os predicados que significam a essência. ibidem. Anal. que é atribuição em sentido próprio. 291 Cf. 287 Cf. no sentido amplo do termo. com efeito. Anal. o músico é branco. acima. ibidem. ibidem. acima. I. 21. Como. assim. já que uma série infinita de elementos não se poderia percorrer. em sentido absoluto (�����). o filósofo que. em seguida. 22. Do mesmo modo. 14-8. seu predicado. de início. o branco cami282 Cf. universalmente (�������).282 A prova faz-se. que é branco o homem. a que correspondem. 285 Cf. homem. ainda que não fazendo parte de sua qüididade. nem uma particularização deste último. “a madeira é branca”. 1-23. a atribuição de um acidente a um sujeito real. 22 (todo o capítulo). 84a7.289 Não concernem.

entretanto.). já que têm. Como se tem unanimemente reconhecido. ibidem. cf. para construir uma primeira prova dialética de que é finita a cadeia de atribuições. como todas essas determinações. 22.280 deste capítulo. Ora. remetendo-nos. já se mostrou297 que são limitados − e necessariamente.302 um número infinito de elementos). Mas... uma cadeia infinita de atribuições. a interpretação geral de Ross. enquanto tais. reciprocamente.305 também “lógica”. Anal. (a) uma alternativa seria296 que se atribuíssem as coisas. 83b9-10. Seg. 1020a13-8. com esse tema. 22. Anal. tudo quanto se atribui a uma coisa pertence a um dos gêneros categoriais e é. 294 Cf. 36-8). aquela outra atribuição seria meramente acidental. 83b15-6: ���������������������������������. obviamente. respectivamente. uma à outra.. seus sujeitos últimos. com razão.293 Mas mistura. impondo-se uma interpretação meramente conjectural.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Fixadas essas preliminares. Com efeito. como essência (��������). como primeiro sujeito. também. acima. p. 83b1-2) ao que dissera no início do capítulo. ibidem. acima. porque se se atribuem reciprocamente. serem limitadas. no sentido ascendente.1 e n. Anal.17. I. 297 Remete-nos Aristóteles (cf. na coisa individual e num gênero categorial. de algum modo. por exemplo. as coisas. 22. Seg. n. não somente por ensejar uma cadeia infinita de atribuições e. em sentido próprio. não podem ser ilimitadas as cadeias de atribuições. a prova da impossibilidade de qualquer atribuição recíproca: pudessem as coisas atribuir-se. dir-se-á. 83b12-7. Anal. assim. em que se não poderiam distinguir um ponto de partida e um ponto de chegada. Acompanhamos.303 6. retomando tema que já desenvolvera. resulta absurdamente que se converte uma coisa em especificação de si própria (���� 293 Cf. uma à outra. 22. Mas. Seg. 301 Cf. reciprocamente e teríamos algo como um círculo de atribuições. mas não se atribuirá verdadeiramente uma à outra. em sua introdução ao comentário do capítulo. assim. 83a36-9.298 Por outro lado. constituindo. a declaração explícita de que os gêneros categoriais são em número limitado é importante.301 Com efeito. à sua teoria geral da atribuição304 e à doutrina das categorias. se atribuem. a série AK (tanto como a série KA). descendente e ascendente. acima. 83a39-b10. Seg. são acidentes da essência a que. com pequena modificação. 83b32-84a6. são em número limitado os gêneros das categorias. acima.294 Ora. 36-7. porém. cf. pondose o sujeito como gênero ou diferença do próprio predicado. I. com verdade. “qualidade” nem pode haver “qualidade” de “qualidade”. I . ela o é. 299 Cf.3 Segunda prova “lógica” Tendo. a l. como gêneros. Bonitz. n.286 deste capítulo. por fim. 378a49 seg. não podem duas coisas ser. ao que diz Aristóteles sobre as diferentes acepções de �������. 82b3783.281. tendo seus limites. 305 Cf. Anal. ao mesmo tempo. ibidem. 300 Conforme expôs Aristóteles em sua consideração preliminar de 83a1 seg. 83b17-31. �. nota ad l. I. sempre. uma coisa de outra. 302 Cf. em Seg. 295 Cf. 22. 83 36. empreende o filósofo uma segunda prova. no sentido descendente. nas essências. dada a constante variação do número das categorias mencionadas nos diferentes textos que a elas se referem (v. 202 203 . limitada a série de predicados que se podem constituir em cada uma das categorias (se tomamos. em suas linhas gerais. 14. em qualquer categoria. 22. designa um atributo. n. A. não pode conter. I. ao 298 Cf. é impossível a atribuição recíproca no “o que é”. Por outro lado. constituída por quantos termos intermediários medeiam a atribuição de K a A. Anal. em ambos os sentidos − os elementos no “o que é”: é sempre possível definir as essências e o pensamento não pode percorrer uma série infinita.. por outro lado. ������� (“qüididade”). como qualidades ou segundo alguma outra das categorias adjetivas. III. umas às outras. também. donde a impossibilidade de uma cadeia infinita de atributos pertencentes a diferentes categorias. em Met. impedir a formulação de definições. a argumentação é extraordinariamente difícil e obscura. uma à outra. na categoria K e se podemos. 304 Que é resumida. dizer que K pertence a A. como observa Ross (cf. Index. I. recorrido. a b �������). vai Aristóteles mostrar. as cadeias de atribuições adjetivas. (b) uma segunda alternativa seria299 que se atribuíssem as coisas.295 donde a impossibilidade de uma atribuição recíproca. que uma cadeia de atribuições é limitada nos dois sentidos. como sabemos. 10-2.300 O que significa. 6. l. uma da outra. ibidem. limitada nos dois sentidos. 303 Cf. portanto. indistintamente. Seg.288 e 289 deste capítulo. 296 Cf.

Aristóteles não retoma. argumenta o filósofo. portanto. n. I. acima. par e ímpar. afirmativa ou negativa (cf. em relação às coisas demonstráveis. 11-4. 72b5-15. nos são conhecidas através de tais outras. 22.312 Com efeito. 84a12-7. por si”310 e que se dizem os atributos “por si” em dois sentidos311 : a) os que figuram no “o que é” das coisas e se exprimem. em sentido absoluto. 73a16 seg. rapidamente. 22. I. não poderemos conhecê-las cientificamente. por exemplo ímpar a número. se for ilimitada a cadeia e se não se detiver ela numa proposição primeira.. l. mas. III. possível. no segundo sentido: se se atribui. 309 Cf. por exemplo. 204 205 . I. Anal. exigirá. 4. Aristóteles procede por uma redução ao absurdo:308 uma vez que se aceita haver. não havendo conhecimento delas sem demonstração. 311 Cf. então. 1. forçosamente. em nossa passagem (84a12-7). assim. acima. 3. com predicados “por si”. como pode mostrar-se. por nós já estabelecidas. senão as duas que mostrara interessar à ciência. argumentando de modo geral. manifesta a impossibilidade de haver. Necessário é.II. nenhuma proposição poderia demonstrar-se. Prim. Anal. II. por hipótese. concerne ao método dialético (cf. acima.. no “o que é”. 6..3 e n. 4. uma cadeia infinita de predicados. não havendo melhor estado em relação a elas que o de conhecer. Convincente e bem estruturada. acima. ciência demonstrativa. isto significa que haverá um atributo de ímpar tal que ímpar inferior à demonstração. e. a possibilidade de conhecer alguma coisa. Sobre a estruturação silogística do “silogismo do impossível” nas diferentes figuras do silogismo. Anal. ser-nos-á. por exemplo. como todo silogismo hipotético.. raciocinando analiticamente (����������). 23. todo o capítulo). então. atributos de número. aqueles em cujas definições comparecem os mesmos sujeitos de que são atributos (como. dependendo de conhecimento de certas premissas. sob forma não demonstrativa. acei306 Cf.306 Se há demonstração daquelas atribuições.41 e 42. tornar. acima. 73a34 seg. 22. 1. portanto. 84a17 seg. Seg. cf. Tóp.3. quer no sentido ascendente. 26. em sentido absoluto. Seg. III. I. em relação a tais antecedentes. que se conhecerá. que figura como elemento de suas definições). não estamos. não se conhecerão por demonstração as coisas demonstráveis e. Prim. se. 129). isto é.. Anal. 310 Ibidem. I. que figuram na definição de número) e b) aqueles cujos mesmos sujeitos lhes pertencem. Seg. quer no sentido descendente. 18. tãosomente. 312 Cf. a que se podem formular atribuições anteriores e se não é possível estar. 307 Cf. entretanto. nada se conhecerá cientificamente por demonstração. em melhor estado do que o conhecimento. 4. cf. I. sem conhecermos essas outras que lhes são anteriores e a partir das quais elas se demonstram. pois. Anal. 84a7-11.205. por demonstração. cf. I. de modo absoluto − de possuir. como elementos de suas definições (a multiplicidade e o divisível. a prova nas propriedades da própria coisa científica. a limitação da cadeia das atribuições intermediárias que contém os termos médios através dos quais a conclusão final se demonstra. portanto. 11-2. por diante. mas. obviamente. porque é impossível percorrer uma série infinita. II. cf. 1. 108b7-8. 308 A redução ao absurdo ou “silogismo do impossível” (������������������������). bastanos recordar que “a demonstração concerne a quantos atributos pertencem às coisas. em caso contrário. Pois. I. será sempre possível tomar um termo médio mais elevado e todas as proposições da cadeia serão demonstráveis. nas ciências demonstrativas − objeto real de nosso estudo −. Anal. um outro predicado a ímpar e. Assim sendo.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles polemizar contra os que recusam a possibilidade de uma ciência absoluta. 40b25-6). Seg. agora. Ora. em nenhum desses sentidos poderá constituir-se uma cadeia infinita de atribuições “por si”.309 Para tanto. também. III. é uma forma de raciocínio tar-se-á existirem premissas primeiras para a demonstração. Anal. 5. uma tal cadeia é impossível. I. uma espécie do silogismo hipotético (cf. das quatro acepções de “por si” distinguidas em I.1. um conhecimento que não seja meramente hipotético −. que se limite a cadeia de atribuições por uma proposição primeira. em estado melhor do que o conhecer. Mas.4 A prova analítica Percorridas as provas “lógicas”.307 se tais coisas. não se fundamenta. Seg. também. cap.2. em sentido absoluto.

Cf. Anal. 84b37-85a1.5 A existência dos princípios e a análise da demonstração Eis. que consideremos a cadeia de atribuições. em sentido próprio. 324 Cf. Anal. então. 25-6. o princípio é algo simples (�������������). 3. cf. no sentido descendente. que um termo infinitamente distanciado do sujeito primeiro conterá. 84b14. causa de que lhe pertença o predicado. III. uma vez que “número” pertence à definição de ímpar. proposições que exprimem. comportarão.324 que tais premissas apreende. 322 Cf. “por si”. Seg. a cadeia de atribuições de que tomamos “número” por sujeito primeiro. é a imediata”. sempre. ibidem. devendo-se. a unidade no silogismo sendo a premissa imediata. I. I. que. Seg. 22. 19 seg. nota ad Prim. também. 84b21-2.320 Porque nenhum termo médio vem. l. imediatamente e por si mesmo.319 causalidades imediatas. a definição se tornaria impossível. II.1 e n. I. não pode a série ser infinita e haverá de limitar-se. pelas razões expostas. por conseguinte. III. Anal. de proposições primeiras e imediatas. num intervalo (��������) imediato e indivisível. 321 Cf. começando por um sujeito primeiro ou por um predicado último: ambas as séries são necessariamente.6 e n. l. Cf. 79a33-6. Mas. 15.3 e n.78. cada membro da série pertencerá à definição primeira. com efeito. limitando-se. e que se configuram como elementos (��������) da demonstração. Seg. em sentido absoluto.281.1 e n. acima. 23. acima. à impossibilidade de as qüididades conterem um número infinito de elementos. fato análogo repetindo-se com os termos subsequentes da série. pouco importa. acima. também aqui. limita-se a série de proposições demonstráveis no sentido ascendente. cf. Por outro lado. Anal. pertencendo à definição e qüididade de todos os membros da série. 4. as demonstrações. ibid.. 82a6-8. em verdade. a expressão �������� (distância. se a série é infinita. diremos que a atribuição (ou nãoatribuição) tem lugar “atomicamente” (������)322 e falaremos da indivisibilidade e da unidade de tais proposições: “premissa una. na ciência e na demonstração a inteligência (����). também. nelas. por fim. Seg. isto é.2 e n.323 E. 5. l. no “o que é”. 20.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles figurará em sua qüididade. os quais se dirão. se é assim.. então. então. 6. Ora. I. com uma representação diagramática do silogismo. sucessivamente.1. 22. Anal. ibidem. todos os infinitos termos que o antecedem.314 E. 84a35.1 e II. l. Ocorrerá. 19.2. em perfeita convertibilidade. também no sentido ascendente. a limitação da cadeia de atribuições “por si”. ibid. Seg. intervalo) relaciona-se. ser em número infinito. II. se não é possível que à qüididade de uma única coisa pertençam infinitas determinações. 23. Como observa Ross (cf. 5. tomados dois a dois. em sua qüididade. obtivemos a prova desde há muito buscada: são finitas as cadeias demonstrativas que levam às conclusões da ciência. que este pertence à definição de seu atributo “por si” imediato e assim. 315 316 317 318 319 206 207 .316 6. acima. 323 Cf. 325 Cf. o que eqüivale a provar317 a existência de princípios (�����) para as demonstrações. 26-8. 30 seg.. que consideremos uma série ascendente ou uma série descendente.315 um número infinito de termos médios entre dois de seus termos. pelos que pertencem ao “o que é” de seus sujeitos: também. provavelmente. absolutamente anteriores.318 de onde partem. I. aqui. as cadeias de atribuições tampouco 313 Cf. Anal. II.. 23. IV. limitadas − e por idêntica razão. também. 84b35-7. 314 Cf. os predicados de que a demonstração se ocupa e se não podem eles. interpor-se entre predicado e sujeito321 e o próprio sujeito é. 320 E o número de tais “elementos” corresponde ao número de termos médios de que se serve a cadeia de silogismos demonstrativos. cf. desde aquele.304 a 309. seus atributos: pertencemlhe todos como atributos e pertence-lhes ele a todos. Não é menos finita e limitada313 uma cadeia de atribuições constituída por predicados “por si” no primeiro sentido. como vimos. 15. 6. I. isto é. numa ou noutra das significações dessa expressão.. sempre. ibidem. adiante. I. Anal. Seg.. porque limitadas num e noutro extremo. Se são.325 Cf. Cf.278. I. por isso mesmo indemonstráveis. 84a29-30. 35a12).. acima.12. conforme já estabelecemos. como nas outras coisas. Cf.

as condições absolutamente indispensáveis e necessárias da possibilidade de um conhecimento demonstrativo. em física. a natureza da ciência. I. porém. 5. Anal. I. definitivamente. deste argumento. a explicitação de que a finidade da demonstração científica é reflexo especular da finidade do real que ela apreende e manifesta. nota adSeg. como fundamento precípuo de sua demonstração. Analogamente. como vimos. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics. em refletindo sobre o “comportamento” das ciências já constituídas. I. III. de encetarmos essa outra parte de nosso estudo. precisamente. se dizemos que uma tal prova procede analiticamente (����������). também. E. Anal. também. de considerarmos os corolários que se podem tirar de nossa prova “analítica”. 6. isto é. 1. Aristóteles propõe. ao invés. a partir de resultado já estabelecido326 por nosso estudo sobre a natureza da ciência. de início.. resta-nos. VIII. porém. é preciso dizer que. 327 Interpretação. cf. 331 Cf. Tóp. 84a18). é porque são sempre finitas as qüididades e não podem caber. não é senão pelo mesmo fato de que ela se estrutura de modo adequado à natureza do assunto estudado.331 6. ao menos parcialmente. a saber: que a ciência prova atribuições “por si”.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Se. que o nervo da argumentação resida na mera aceitação de que sempre é possível definir uma qüididade e de que um número infinito de elementos na qüididade tornaria a definição impossível (ainda que Aristóteles lance mão.. porque limite das mesmas coisas. 328 Cf.1. cf. por fim. pois. permitamo-nos uma última observação. Tendo. E. acima. uma argumentação apropriada ao objeto em estudo dir-se-á proceder. 2. conforma-se aos resultados da análise da demonstração científica. Seg. 2. Fís. “fisicamente” (�������. também e sobretudo. Met.6 e n.328 empreendemos longa caminhada regressiva. esta. isto não é somente a reafirmação de que se modela o discurso científico pelo cientificamente conhecível mas. o de essência e qüididade: limite de nosso conhecimento das coisas. isto é. a impossibilidade de conterem as qüididades um número infinito de elementos. em geometria “geometricamente” (�����������. Ao contrário. que lança mão o filósofo para concluir sua prova analítica da indemonstrabilidade das premissas da demonstração. de novo. perguntando-nos como se constrói. acima. permitindo-nos estabelecer. das propriedades da coisa conhecida pela ciência às características próprias do saber anterior que a demonstração científica requer.). essa análise chega a seu ponto culminante. sobre ela. numa qüididade única. é-o a qüididade. ibidem. nesta segunda parte dos escritos que designa como �������������327 Por outro lado.. que o filósofo empreende.137 e 138. infinitas determinações. Plenamente sabedores. �. a partir de premissas da mesma natureza. por redução ao absurdo. III. com a prova final da existência dos princípios indemonstráveis da ciência. 11. se é sempre possível definir as coisas. Relembrando. 24. 208 209 .329 Ora. 17. 329 Cf. cf. 1022a8-10. �. 10. 204b10. verificamos que ela procede ���������������. então. a limitação das determinações essenciais. apreendido. 330 Cf. que é a mesma garantia da possibilidade das definições.6 Finidade da ciência e finidade do real Antes. a relação entre as atribuições “por si” e as qüididades de predicados e sujeitos das proposições científicas. p. como Ross (veja-se seu comentário a Seg. 161a35) e assim por diante. de que há princípios. em 84a26). sobre o princípio último de 326 Cf. 1066b26 etc. 580). que é. por um momento. Céu III. a de Mure (cf.330 por meio do qual se unifica a infinita dispersão do particular. melhor precisar sua natureza e conhecer suas diferentes modalidades. Não entendemos. Met. 86a3-7. com efeito. 298b18. Anal. 22. I. nos debruçamos. que nos levou do demonstrado ao indemonstrável. III. acima. 84a21-2. um dos sentidos em que se diz limite (�����) é.4. 22.

. 5. uma das mais importantes noções de sua teoria da ciência.1 e n. 1. “uma vez que pertence necessariamente. p. Sobre a noção “de acidente por si”. também. a existência de uma tal limitação “regional”. E diremos. Anal. ainda que de passagem. circunscrever os sistemas de proposições científicas.3 e n.Oswaldo Porchat Pereira 1. se é verdade que. tematizam: a noção de gênero científico. ao médio”. III. 5 Cf. 7.7 reconhece Aristóteles a presença de três elementos em toda demonstração: “um é a coisa demonstrada. os axiomas (axiomas são as proposições a partir das quais (�����)8 2 Seg. 87b4. I. 3 Seg. Anal. que iremos descobrir intimamente relacionada com a doutrina dos princípios da demonstração. 5. acima. por meio da aritmética”.4. a proposição geométrica. cf. necessariamente. 75a38-9. em sua totalidade. por conseguinte. “é preciso . como veremos.6 Chamando. acima. também. explicitamente.. estudar. 38) ao que acaba de provar o capítulo anterior. relativamente à esfera de todo o real. que vem.. III. I. 75b10-1. cf. Anal. Anal. cf. cujas afecções (����) e acidentes por si a demonstração prova”. senão percorrer a série bem articulada e causalmente encadeada das propriedades que pertencem a um sujeito primeiro. 7. quanto pertence por si e a cada sujeito. que as proposições demonstradas e seus princípios são homogêneos (�������). em toda demonstração. Seg.. por si). poderemos dizer que “provêm. agora. 211 212 .264. com efeito. Pois. 6 Cf. acima. com. passando de um gênero a outro.. quanto ao uso de ���������’���� (ou �����. sobre a necessidade de exprimirem atribuições por si as premissas da demonstração. demonstrar. assim.6. nada mais fazemos. cuja natureza e modalidades nos propomos. 4 Cf. com efeito. que os capítulos seguintes. cf.2 é-nos lícito. um outro. 76a8-9. o sentido a conferir-se à expressão ����� (lit. I. III. diretamente resulta daquela mesma prova que o filósofo empreendeu.. 7.7 liga-se. oportunamente. I. ao longo de toda uma demonstração. diremos. Anal.1 A noção de gênero científico Ao provar que as demonstrações científicas concernem ao por si e partem de premissas dessa natureza. Seg. IV A multiplicação do saber 1 Os gêneros da demonstração 1.3 e n. I. E. por exemplo. do mesmo gênero os extremos e os termos médios”.: “a partir das quais”). o conteúdo desta proposição inicial do cap. por si. Bonitz. por meio dessa noção. 9. 28..2 A “passagem” proibida Ora. que “não é possível.20 e 21. simplesmente). por exemplo. 1 Seg. 6.4 Em referência a um tal sujeito genérico. assim. de gênero (�����) “o sujeito (�����������). I.557a8 seg. aplicada às proposições axiomáticas. dizer. a conclusão (isto é: o que pertence a algum gênero. por ele próprio. e o primeiro termo. 6.1 introduzira Aristóteles. Anal. I. 75a35-7. como sinônimo de ���������� ���’�����. como sabemos. E. Seg. com o qual. 75a28-9 (somos nós que grifamos). nada menos se exprime. 8 Discutiremos. Index. em cada gênero. que o termo médio pertença ao terceiro termo. acima. por um ��� (l. que a famosa concepção aristotélica do caráter “regional” das ciências particulares. III. Anal. 75a42-b2. então. plenamente se convertem. ser necessário que pertença o termo médio à mesma família genérica (���������) que os extremos. enquanto tal”.3 E.265.5 como também. 7 Seg. cf.

por exemplo. também. efeito. 4 (todo o capítulo). ao problema geométrico ou estereométrico da construção de um cubo de volume equivalente ao dobro do volume de um cubo dado. 9. 13 Cf. Anal. I. Ora. Seg. com. manifestamente. aquela que se ocupa dos gêneros de que eles constituem os pólos da diferença máxima. precisamente.. com. Seg.17 E. parece. 11 Seg. 7. cf. assim como se passa da superfície para o corpo e da linha para a superfície. 213 214 . �. em terceiro lugar. p. Por outro lado. 88b28-9. a não ser por acidente. “não é possível passar de um gênero para outro gênero. ora. 992a10-19 e a excelente nota de Ross. decorre que os contrários são objeto de uma só e mesma ciência. que a linha reta é a mais bela das linhas ou que é contrária ao círculo. assim. da cor para a figura”. a existência de uma quarta dimensão permitiria que se passasse do corpo para um outro gênero (i. dessa maneira. 78b37-8). 76b3-5.. “a demonstração aritmética possui. 18. I. 28. 4. o gênero”. isto entender-se-á de modo restrito. 7. pois. 7. Met. para Aristóteles. I. Anal. os corpos. como princípio do número. 75b11-2. como nos casos da linha e da superfície. ad locum. pois. 32. 1055a31-2: ����������������������� �� �����������.. Seg. compreendendo linhas. 108b26-7.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira [subent.449a28 seg. segundo o primeiro dentre eles. 4. Sobre a unidade. 16 Incumbindo tal tarefa à filosofia primeira. ora assim designando. imediatamente. é simplesmente contraditória. para Aristóteles –. 75b7-8. tem. 2. Seg.10 É assim que.18 Enfim. ad locum. 75b13). 7. I. de “todas aquelas coisas que se compõem dos elementos primeiros e que deles são partes ou afecções dessas partes. 10. se extremos e termos médios não se atribuem por si. o caso da aritmética e da geometria. O texto tem. então.). a excluir toda passagem da demonstração de um gênero a outro. 18 Cf. 10. relativamente às linhas. 997a19-21. também. “A menos que as grandezas sejam números” – o que. leia-se. ao processo “psicológico” de conhecimento das grandezas segundo a sua crescente complexidade tanto quanto à sua ordem progressiva de construção a partir das grandezas mais simples e não. Seg. quando diz que o texto se refere à proposição aritmética segundo a qual o produto de dois números cúbicos é um número cúbico e não. Quanto ao termo “grandeza” (�������). um sentido polêmico e visa a doutrina matemática da escola platônica que fazia derivar as grandezas ideais das Idéias-números. nada tem a ver com esta doutrina da incomunicabilidade dos gêneros. conceituar. 76b11-6. I. o texto de Céu. 17 Ross parece ter razão (cf. a geometria. 7. por gênero próprio. I.12 cada uma das ciências. que nos surge. I. Anal. é: a grandeza de quatro dimensões). Sob esse prisma. por exemplo. VI. cf.14 Pela mesma razão. não provará a geometria. I. isto é.20 Não se poderia ser mais claro quanto à particularização do saber científico.). A. aos processos demonstrativos. 141b5-9.19 um atributo geométrico não podendo atribuir-se à cor por si. 75b17-20. também. como princípio da linha. não é possível aplicar a demonstração aritmética aos atributos das grandezas geométricas. 7. 1057a26-8. enfim. ou não (como em Seg. Anal. como o sentido de comprimentos ou linhas (vejam-se referências em Bonitz. �. Anal. 268a30-b1: ���’ ���������������������������������������������������������. ao caráter de grandeza perfeita dos corpos e à impossibilidade de achar-se uma dimensão que lhes falte. 75b3-6. mas em virtude de algo que lhes é comum com outros gêneros. 15 Cf. 9. a qual se refere. como é. 75b12-4. Anal. como tal. Index. p. não ocorre. Anal. I. 7. 12 Cf. por si. 7. são acidentes. 87a38-9. superfícies e corpos (volume). como interpreta Tricot. Se a geometria. Tal ��������� diz respeito. nota ad Seg. I. Anal. os gêneros de duas ciências..: se demonstra]). Anal. Anal. I. por outro lado. com efeito. 10 Seg. Mas. comporta e conforme aos quais 14 Cf.. emprega-o a terminologia matemática de Aristóteles em vários sentidos. �. por si”. Cf. 75a40-2. como por exemplo. 75b3-6. Seg. na demonstração. pela unidade de seu gênerosujeito. da grandeza (e dos pontos e linhas). simplesmente. como toda probabilidade. 13. os gêneros geométrico e aritmético não se identificam. naturalmente “multiplicado” pelos diferentes gêneros que o ser. a grandeza.11 a aritmética ocupando-se do número (e da medida). 9. cf. ora de modo genérico. 7.9 definindo a unidade de uma ciência. Met. 20 Cf. de modo semelhante.. o gênero a que a demonstração concerne e. A nota de Tricot. �. toda �������������������������13 Se são diferentes. Index. 75b8-11. 75a38: ����������������������������������������������. 1. Que é uma só a ciência dos contrários é. 7.. Tóp. as outras ciências”. Met. de seu gênero próprio. Anal. I. obviamente. 19 Met.247a13 seg. com referência ao terceiro sentido mencionado. conforme se tomem geometria e estereometria (geometria sólida) por duas ciências distintas (como em Seg.. Anal. Donde. evidentemente. a menos que as grandezas sejam números. com 9 Seg. 76a23-4). tão-somente. 76a34-6. ad locum. sempre. Met. chamaremos de ciência o conhecimento demonstrativo das propriedades que tem. ou de modo amplo. não poderá a geometria15 provar que a ciência dos contrários é uma só16 nem que o produto de dois cubos é um cubo. 76a22-3: ���’ ���������������������������’ ����������. atributo qualquer que lhes não pertença enquanto linhas e não mostrará. I. mais raramente. os gêneros-sujeitos das ciências equivale. já que não pertencem tais atributos às linhas em virtude de seu gênero próprio (�����������). onde se mostra que a contrariedade é a diferença máxima no interior de um gênero. um gênero.I. doutrina constantemente reafirmada pelo filósofo (vejam-se os textos indicados por Bonitz. e o ponto.

destarte intimamente associando-se às ciências mais exatas em que assentam sua própria cientificidade. Met. 11. efetivamente.2 e n.3 A “passagem” permitida. �. Anal. I. sobre os espíritos. quando. por conseguinte. seu capítulo III (p. E é. 1028a3-4.. 1. de um certo modo. 1. 1. E a Metafísica. daí não resulta. ibidem. 1. 28 Cf. 22 Cf. n. necessário que o gênero seja idêntico. parece-nos absolutamente evidente que uma leitura mais atenta dos textos aristotélicos impõe a tais julgamentos um fla21 Cf. comumente. respectivamente. 1061b4-6. “proibiu” a ��������� na demonstração. intitulado Aristote ou la raison sans démesure.31 Assim. uma visão mais justa do problema em questão: ler-se-á.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira se estrutura e se nos manifesta. 1355b25-34. 3. 215 216 . uma contradição aparente E. I.27 Aprofundemos. IV. um pouco mais. 172a11 seg. 1. 1355b8-9. �. sobre a matematização moderna do conhecimento físico. os gêneros definidos próprios a cada saber particular. ao estudar os silogismos do “que” e do porquê. melhor. 23 Cf. Le problème de l’être. 1060b31-32. 24 Cf. nessa doutrina. concernem ao mesmo gênero. mais uma vez repetindo o lugar-comum da historiografia científica: “não é duvidoso que a influência persistente de Aristóteles retardará a aparição de uma física matemática. como é sabido. ou de modo absoluto (�����). Met. 1003a21-3. Esta é. a um tal saber universal.. na demonstração.22 como as ciências matemáticas. consideram-lhe as propriedades:23 todas elas.21 opõe. 1962.30 E já tivemos.28 continua: “É.. ao menos. a ocasião de referir-nos a essa questão. a doutrina da “passagem” (���������). recortando (������������) uma parte (��������) do ser. indica-nos o filósofo que tal fato ocorre com aquelas ciências cuja demonstração se estende aos objetos de outras. 1026a23-32. por longos séculos – tantos quantos foram aqueles em que o pensamento aristotélico ou. �. Ref.26 Será correta uma tal apreciação sobre o pensamento do filósofo? Ora. com efeito. 4. com. após ter afirmado que cada demonstração científica possui seu próprio gênero. um influxo preponderante –. no entanto. 7. Sof. com. se não de modo absoluto. o próprio tipo da ‘confusão dos gêneros’”. 1003a22. nas Refutações Sofísticas e na Retórica. consagrado às Matemáticas. Met. 30 Cf. 26 Aubenque. 29 Seg. entretanto. acima.1. mereceu Aristóteles. subent. 7. II. a condenação severa de quantos viram. exerceu.. �. com. o domínio universal da dialética e da retórica. com. num excelente opúsculo de divulgação geral. harmônica e aritmética etc.. aos “comuns” (�����) de que essas disciplinas se ocupam. grante desmentido. idênticos os gêneros-sujeitos de que se ocupam. se é certo que não podemos passar. opõe o filósofo. com efeito.11. circunscrevendo (��������������) um certo ser e um certo gênero. mesmo. 2. 1354a1-3. 1.. mostramos como as ciências matemáticas fornecem a fundamentação última e o porquê definitivos àquelas outras ciências que se lhes subordinam. com. E.: de uma ciência a outra)”. deles se ocupam.. de alguma maneira. 25 Cf. emperrado o desenvolvimento do pensamento científico e obstado ao surgimento de uma física matemática. apontando como tema da sabedoria o ser enquanto ser (����������). as ciências particulares (��������).. 1025b7-9. acima. um entrave fatal que teria. um dos mais reputados conhecedores contemporâneos do aristotelismo quem escreve. E o próprio filósofo. 75b8-9.. p. 3. o aristotelismo medieval. 1. 1.29 Para exemplificar ciências diferentes que. são. 31-2. I. Seg. ótica e geometria.. 75b14-7. ou de um certo modo (��).25 Porque.. uma das opiniões mais difundidas e um dos juízos mais comuns dentre o que se ouve e lê..40-73). se a demonstração deve passar (�����������. por lhes serem estas subordinadas em virtude da mesma subordinação de seus objetos aos objetos das primeiras: nesse sentido. que constitui a filosofia primeira. 1962. Anal.24 Do mesmo modo. por irem nelas buscar premissas para suas próprias demonstrações. por certo. Ret. então. 31 Cf. de um gênero para outro. 27 Encontramos. a que a demonstração concerne. da autoria de Paul Grenet. assim. 1025b3-4. com proveito. 23-6. que a passagem de uma ciência para outra seja absolutamente impossível. descrevendo.4. que.217.

ou distintos. é necessário que o médio pertença à mesma família genérica. até aqui.32 extremos e termos médios devendo provir do mesmo gênero. Cf. imediatamente.. simplesmente. opor essa doutrina às explicações que Aristóteles aduz. então. 7. ocorre uma diferença: é que uma ciência prova o “que”. no entanto.34 continua o filósofo: “Se isso não se dá. enquanto o porquê é provado pela ciência superior. fazendo abstração do sujeito que lhes dá existência” e fornecendo as demonstrações causais e essenciais. Le jugement d’existence. 1. Anal. por certo. a que concernem. às harmônicas”. os textos aristotélicos que. 10-3. em que.146.. as ciências que lhes são subordinadas estudam o sujeito. 75b17. ou não..145-6. se também o termo médio pertence a seu sujeito. como ciências que se confundem com as ciências matemáticas correspondentes. uma ���������. 76a4-9.. ótica. Ross. IV. admitindo que se opere. ainda que as proposições se provem de maneira semelhante às da aritmética.35 Neste caso. a própria possibilidade de uma tal “aplicação” das propriedades por si dos gêneros matemáticos a gêneros aparentemente distintos. às demonstrações matemáticas. num certo sentido. I.36 Poderá. o filósofo parece. por si. um pouco mais adiante. I. em propondo uma tal interpretação. Ibidem.40 De fato. ibidem. temos comentado. afirmar. como. a matéria à qual essas formas matemáticas são inerentes”. l. a ótica não é uma ciência distinta da geometria.. nessas modalidades de demonstrações matemáticas aplicadas aos eventos físicos. Aristotle. também. Cf. 1946. cujo porquê é conhecido pelas ciências superiores. Ibidem. IV. tão-somente. se estamos. efetivamente.. Mansion. surge-nos o problema de torná-la inteligível no interior do sistema doutrinário. p. propriedades que não lhes pertençam enquanto linhas.2 e n. destarte. uma vez que as propriedades demonstradas são de natureza matemática”. acima. sobre uma certa permanência do mesmo gênero. simplesmente. será como se demonstram as proposições de harmônica pela aritmética”.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira ao aplicar-se. contrariamente ao que. mostrando que um conhecimento científico determinado procede de princípios próprios e que.2. reconhecer. 9-10: �������������’ �����������������’������������ Cf.38 Não nos bastaria. Seg. 9. permanecemos no interior de um mesmo gênero – o gênero próprio da geometria –. Ibidem. também. ao menos aparente. que “isso pode fazer-se sem violar o princípio de homogeneidade. a demonstração geométrica às questões de ótica. parece. l. das linhas que considera. então. expusera. nem a harmônica. concluir que “a demonstração não se aplica a um outro gênero. Nem nos bastará. Tampouco será correto pretender que se trata. há pouco.6. ibidem. já que vimos decorrer sua impossibilidade teórica das mesmas características próprias da demonstração científica. 217 218 . Anal. respectivamente”. nesses mesmos casos. a não ser do modo como se disse aplicarem-se as demonstrações geométricas às mecânicas e óticas e as aritméticas.37 Mas como não convir. que. em nada nos conduzem a tomar mecânica. com efeito. o conhecimento do “que”. enquanto “as matemáticas puras estudam as formas. diremos que. afinal. acima. na medida em que não pode a demonstração geométrica aplicada à ótica provar. agora. manifesto. por exemplo. Seg. 10-1. fornecendo. Cf. observando os fenômenos de que essa matéria é substrato e recorrendo. 22-5. uma contradição. l. uma exceção à regra geral da impossibilidade de uma ��������� de um gênero a outro? Não somente não nos é. Com efeito. a ótica e a harmônica são. por outro lado. por si. “de fato. todo o problema consiste em justificar. se é lícito afirmar. aplicações da geometria e da aritmética. S. astronomia etc.33 Ora. de uma diferença de pontos de vista entre as ciências em questão e que. l. p. as afecções que se demonstram: “o gênero-sujeito é diferente”. p. em presença de gêneros idênticos 32 33 34 35 36 37 Cf.46. para explicá-los. “ao contrário. 1. da aritmética. limitar-nos à constatação de que o filósofo prevê uma “exceção” para sua doutrina.41 não é menos verdade que se 38 39 40 41 Cf.39 Com efeito. em face da doutrina da ���������.

os corpos naturais possuem planos e formas sólidas. da existência de ciências físicas mate42 Cf. a doutrina aristotélica do ����e do �����. pois. o problema em foco. a oposição fundamental não se estabelece. enquanto equipada com a razão geométrica. Se não bastara quanto já vimos e discutimos a esse propósito. com efeito. citada no fim da referida nota. Com efeito. Anal. respectivamente. que nos diz. isto é. pelo filósofo. o próprio filósofo. o porquê. de fato. Enquanto meramente “empírica”. a verdadeira ciência astronômica é ciência que. desconhecendo que o filósofo estabelece a hierarquia. assim. Anal.45 Em outras palavras. propriamente. ou ao que o é. mas que não o seja conhecer nenhum de seus acidentes por si. não entre dois. vimos42 que o mero colecionamento empírico dos fatos observados. a cujo respeito o matemático investiga). que ela própria. e entre outras razões. 1949. I. entre o empírico e o matemático.. a designação de ciência do “que” reservandose. sem que se possa. a ótica conhece. então. 30. 3. entre as partes matemáticas e aspartes físicas de certas ciências. como esta para a geometria. aclarar sua doutrina e compreender-lhe a intenção. enquanto ótica matemática. 79a11-3. Mas ouçamos. ótico. também. máticas. 219 220 . que. uma como justaposição ambígua de duas formas diferentes de conhecimentos “científicos”.. um “físico”. distribuídas. se a astronomia é diferente ou se é parte da física. a mera descrição. 13. os eventos naturais. comprimentos e pontos. a meio caminho entre a geometria (ou a estereometria) pura e a astronomia empírica dos navegantes. isto é. Digamos. conforme ao conhecimento matemático”. fundamentando suas premissas menores na observação. devidamente. pelo fato de que os que falam sobre a natureza 45 Seg. de ciências físicas de que a demonstração matemática faz parte integrante. dos fenômenos celestes que constitui a astronomia náutica. desse modo. assim.43 constrói suas demonstrações recorrendo às proposições que toma de empréstimo à geometria ou à estereometria e utiliza como seus próprios princípios. nota ad Seg. Seu comentário baseia-se na obra de Heath. o físico matemático e o matemático puro) – e é preciso dizer que quase ninguém assim compreendeu44 – é imputar. conhecerá o arco-íris como um mero fenômeno empiricamente constatável. onde Aristóteles distingue a experiência (��������) astronômica da ciência astronômica e afirma dependerem de uma apreensão suficiente dos fenômenos as demonstrações da astronomia. 1.. tais partes da física conhecem. matematicamente. é absurdo que seja da competência do físico conhecer o que é o sol ou a lua. por exemplo.4. I. um observador e conhecedor da �����. mas. o primeiro ponto a estabelecer e deixar isento de toda dúvida concerne ao pleno reconhecimento. 44 Ross (cf. de algum modo. Anal.. as propriedades matemáticas de seus objetos. 43 Cf. também. enquanto se diz. I. explica segundo as suas reais determinações causais. inatingíveis para a ciência matemática pura. simplesmente. fenômenos celestes. haveremos nós de aclará-la? Ora. acima. mas entre três diferentes conhecimentos (a saber: o físico empírico. intitulada Mathematics in Aristotle. então. a Aristóteles.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira interpreta mal. com efeito. Prim. acrescenta Aristóteles: “Pois cabe ao físico conhecer o ‘que’. em sentido rigorosamente científico. segundo o pensamento aristotélico. o ótico. Não compreender. conhece. 78b34-79a16). enquanto é. é preciso considerar em que difere o matemático do físico (pois. ao que o é.. Além disso. 13. 46a17 seg. mas entre o conhecimento matemático dos fatos físicos e o conhecimento matemático puro. uma vez mais. para a astronomia matemática que. viu corretamente a questão. ao ótico. II. ele constituirá a ciência matemática do arco-íris. sem temor de avançar temeridades. convencer-nos-ão os Segundos Analíticos. num texto importante de sua Física: “. possuidor de tais ou quais propriedades. de modo ainda mais explícito. simplesmente. mostrando que um conhecimento meramente empírico do arco-íris está para a ótica. somente se dirá ciência em sentido extremamente lato. Do mesmo modo.4 A física matemática e a doutrina da “passagem” Mas como.

a harmônica e a astronomia. no curso de seu processo demonstrativo. Neste sentido. como tais.48 permitindo. como falar de exceção para essa regra.. mas de. ou não. É que.71) que as ciências como a ótica. sim. são separáveis (�������) do movimento. nelas têm. 10. �. tão-somente. ser absurdo pretender-se que a Física não conheça as propriedades matemáticas dos corpos naturais. a terra e o cosmo. �. naturalmente. Eis por que os separa (�������). uma realidade meramente potencial. maior dificuldade em conciliar essa perspectiva com a doutrina da ���������. embora habitualmente computada como um ramo especialmente físico da matemática. por sua própria natureza. Aristote. é manifesto que nos é lícito falar de mudança de gênero: o raciocínio ótico passa das propriedades das grandezas lineares por si mesmas consideradas às propriedades da luz e dos raios luminosos que a vista percebe. ao mesmo tempo que reconhece. Mas erra o autor. o mesmo fato de não terem os seres matemáticos uma realidade “separada”. enquanto o são de tais seres. mas não. 194a7-12. as partes mais físicas das matemáticas. é que possa uma ciência particular. II. Uma tal apresentação da questão não pode. caracterizada e definida por tal ou qual gênero determinado. 1078a28-31) nas coisas sensíveis. isto é. obviamente. Com efeito. a ótica. também se apontam os fundamentos da matematização do mundo físico: é a própria natureza dos mesmos seres matemáticos – tal como o filósofo os concebe – que explica a possibilidade de um estudo matemático dos fenômenos físicos. conheceram. uma vez mais se delineia. sobre a figura da lua e do sol e. Ora. 2. por outro lado. também falam. mas não enquanto cada uma delas é limite de um corpo natural. as conhecem e utilizam em suas demonstrações. então. uma vez que. então. de um certo modo. deixar de a ele referir-se e passar para outro gênero. 47 Ross. desse modo. que as matemáticas puras. 46 Fís. Mas não haverá. 1962. também. nem entendemos que se possa argüir esse aspecto da doutrina de menos claro ou menos coerente. de algum modo. E. com efeito. com grande clareza. partes das matemáticas. constituírem propriedades das coisas físicas que a “separação” matemática faz passar ao ato. p.47 E se.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira (�����). como a ótica. com efeito. II. destarte. num outro sentido. ibidem. em sentido inverso. pelo pensamento. elas comportam-se. nota ad Fís. Met. também.70. Assim.49 As partes matemáticas da física permitem-nos. os considera. torna também possível “uma extensão da explicação matemática aos objetos físicos ou naturais. também. são consideradas. nenhuma falsidade resulta de sua separação . 48 Os seres matemáticos. por exemplo. com efeito. por Aristóteles. a ótica não deixa. não se lhes aplicam os raciocínios matemáticos senão na mesma medida em que são aqueles. querer significar senão que “a astronomia (como a ótica e a harmônica). por um só momento. é realmente um ramo da física”. 49 Grenet. enquanto matemática e. muito embora as considere como linhas geométricas “físicas”. mas não. O que a doutrina da ��������� exclui. e nenhum inconveniente há. mesmo quando utilizadas pelas ciências físicas. presentes “materialmente” (������. Pois a geometria investiga sobre a linha física. matematicamente determinados. por outro lado. cf. mecânica. . reintegrar no mundo físico sua “verdade” matemática. claramente. 193b23-194a12. a ���������. cf. Met. não as separam – como as matemáticas puras –. ainda que diretamente referidos aos objetos físicos. estabelece nosso texto que “as partes mais físicas das matemáticas” consideram as grandezas matemáticas “enquanto físicas”. 221 222 . porém. sobre se são esféricos. assim. a constituição de uma ciência que.. a nosso ver. p. não há. na medida em que a quantidade os afeta”. o estatuto das ciências físicas matemáticas dentro do sistema aristotélico das ciências. enquanto física”. 3. em si mesmos. também o matemático lida com essas coisas.46 Como se vê. investiga a linha matemática. ao pretender (cf. 1036a9-12. constituindo-lhes as determinações materiais inteligíveis. de considerar as linhas geométricas. sempre. isoladamente. enquanto física. manifestamente. ao da geometria. Mostram-no. harmônica etc. as demonstrações matemáticas permanecem. mas tomam-nas como determinações quantitativas dos seres naturais e. nem considera ele os acidentes. no interior de seus gêneros próprios.

elementos absolutamente primeiros dos gêneros a que concernem as demonstrações (cf. p. daquela questão. chamando de “princípios. sua própria concepção dos objetos matemáticos. 6.. E distinguir-se-ão.137). já estabelecemos. para o problema do conhecimento. o da adaptação permanente das matemáticas à experiência. 55 Seg. 1939.2. igualmente. 10. no interior de um gênero-sujeito e se tudo quanto se demonstra. 32 88b20-1). Anal. . tome I. 2 Os princípios próprios 2.1 Gêneros e princípios Vimos. Piaget. tem a ciência seus princípios nas primeiras premissas por onde a cadeia principia. a natureza dos gêneros-sujeitos. 58 Não se deve.. “l’impuissance du discours humain”. dos princípios reais de que derivam seu ser os atributos reais que a ciência. isto é. os princípios-proposições não são mais que a transcrição.58 Pois “é comum a todos os 53 Cf. onde se provou a existência de princípios indemonstráveis. I. de um Calipo. com. Não vemos por que dizer. a atividade científica de seus condiscípulos. Le problème de l’être. Seg. Com efeito..2). Le jugement d’existence. em cada gênero. a partir do momento em que se julgou não mais poder aceitar-se. Aubenque. por exemplo.. 72a7. Anal.53 cujanecessidade e “per-se-idade”. aquele que parece ser o problema central de toda epistemologia moderna. 1950. Seg. 6. por exemplo. uma só para cada gênero (cf. 8 (sobre os princípios dos movimentos eternos) e as elucidativas notas de Ross. p.55 possa o filósofo chamar os mesmos gêneros próprios de princípios próprios (�����������) das ciências. Ross. no discurso. tomando o número e grandeza. 5. lhes pertencem. por eles e a partir deles. que toda ciência possui um gênero próprio a que concerne todo o seu processo demonstrativo e cujas afecções (����) ou atributos por si ela prova. as mesmas definições dos gêneros-sujeitos (cf. Toda a agudeza moderna e. conhece. a doutrina aristotélica da “separação”. 54 Cf.] qu’Aristote applique plus proprement le terme de principes”. 32. mos principiar toda demonstração. acima.. nesse sentido. em seu tempo. Compreendemos.. p. enquanto se constitui mediante uma cadeia de silogismos demonstrativos. Anal. também. assim. I. I. 1. Nem vemos por que conceder a Mansion (cf. II. nas conclusões de seus silogismos. com Aubenque (cf.. Logique et méthode. dentre os princípios próprios. que. isto é. Seg. 5. uma fonte de aporias: resolvia-o. a ele se refere e lhe pertence por si. exprimindo. acima. 74b24-5). Introduction à l’Épistemologie Génétique. acima. é igualmente óbvio que também lhe são concernentes as mesmas proposições primeiras e indemonstráveis. não é menos evidente que.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira Se assim é. dizer.5). 56 Cf. 57 Cf. 2... nota ad Seg. nesse campo se fizeram: os trabalhos da Academia. somente a desatenção aos textos do filósofo explica que se lhe possa imputar qualquer responsabilidade pela longa hibernação da física matemática até a sua moderna “descoberta”. por si. n. I. 51 Cf. não nos escapará que. 1946. as investigações astronômicas de um Eudoxo. realmente. como princípios próprios. que “il semble que ce soit plutôt aux existants [. entre outras razões. 223 224 . 32. acima. respectivamente.. III. antes de tudo. I. Anal.55.54 Em outras palavras: aquelas proposições sobre o gênero que são primeiras e indemonstráveis constituem os princípios primeiros de uma ciência demonstrativa. em comentário a esse capítulo.. as primeiras premissas imediatas.51 não constituía. Seg. em última análise.. para a doutrina aristotélica. da aritmética e da geometria. aquelas coisas de que não é possível provar que são (��������)”. no discurso. sobretudo.112). se.. sem maiores dificuldades. os sujeitos reais de cujas naturezas vão as ciências inferir as propriedades que. �. enquanto tais silogismos reproduzem a própria ordenação real das coisas. que uma tal definição negativa do princípio exprime. 1962. Met. Nem pudera ele ter ignorado os estudos que. IV. ter-se-á manifestado. acima. 52 Cf.52 Se toda demonstração se exerce. assim. 88b9-9). por certo. como uma explicação válida da matematização do mundo físico. III. p. de um Aristóteles!50 Mas. A indemonstrabilidade dos princípios não é mais que a contraparte de sua natureza de proposições primeiras e imediatas (cf.. por onde sabe50 Cf. 76a31-2.. I. assim. Le Blond. Anal. entre chamar-se de princípios às premissas imediatas da demonstração57 e dizer princípios os próprios gêneros.53.. Anal.56 E nenhuma incompatibilidade há. não é válido dizer que a definição de princípios se constitui por via negativa.. como Le Blond (cf. pois. 88b27-9. contemporânea..

a essa significação geral de “hipótese” a noção de silogismo hipotético (����������� ������������). decorre que não se coloca. quibus positis aliquid demonstratur”.61 E é-nos. em Seg. o aritmético ‘põe’ (�������) que unidade é o indivisível segundo a quantidade. 17a2-3). I. distinguindo entre a hipótese (��������). quer seja afirmativo. Bonitz. acima. cf. �. tese que assume uma qualquer das partes de uma contradição. é uma tese (�����): “com efeito.1 e n.. 9. Lendo. 72b15 (v. Seg. Cf. a tese (�����). Anal. 1. 5. I. se pertence o demonstrado a seu sujeito. numa proposição. II. cf. 274a34.). Met. Seg. que se assumem para que algo se demonstre:68 é hipótese. para a definição tomada em si mesma. devém ou é conhecido”. que se encontram nas premissas e a partir das quais as conclusões se engendram. todo discurso enunciativo. ‘será’. 72a5-6.66 O que se exige. Em artigo intitulado “Noção de análise e de hipótese na filosofia de Aristóteles” (in Revista da Faculdade de Filosofia e Letras de S. tão-somente. I. Alexandre Correia distingue (cf. por princípios apropriados tanto os princípios próprios como os axiomas ou princípios comuns. 67 Cf.59 Patenteia-se-nos.65 e a definição (�������). 3. isto é..2 e n. I. no que concerne às definições. p. Seg.: “logice ��������� eæ sunt propositiones. como o axioma. portanto. 92b10-1: “o que é o homem e o homem ser são coisas diferentes”. 1. 5. Anal. acima.169. por que. é. 66 Seg. precisamente. que é o da generalidade dos textos aristotélicos. que se pode dizer. I. 71b22-3. portanto. explica-nos. de origem platônica e matemática. princípio (����) aquele primeiro elemento a partir de que uma coisa 59 60 61 62 63 64 225 226 . acima. como uma ou outra das partes de uma contradição. Anal. conforme ao qual �������� seria sinônimo de ����. 10. 9. II. Como textos exemplificativos desse uso amplo. 1013a17-9. Anal. cf. Eud. acima. também.796b59 seg. 2. ibidem. le principe est la proposition qui concerne le genre et non le genre lui-même”. 44 (todo o capítulo). Da Int. agora. �. Prende-se. como 65 A �������� (proposição) definira-se. p. nesta passagem. VII. assim. e um sentido geral.3 e n. I.2 Teses. 11-2). independentemente de serem ou não demonstradas. assim o que ����������. o sentido comum. também. que “assim. I. 72a14-24. II. l. �. permitido concluir que “é manifesto que se não pode demonstrar cada coisa senão a partir dos princípios de cada uma.7. após enumerar e justificar as notas características das premissas da demonstração. da parte de Aristóteles. que Aristóteles entenda. também. 1086a15-6. Anal. “o discurso que define o homem. 75b37-8. a nosso ver. Cf. formulando-se. a sua compreensão. Cf.28) três sentidos do termo “hipótese”. Aristóteles já nos dera. com Ross e Colli. 7. a qual. ‘foi’ ou algo semelhante. 2.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira princípios ser o elemento primeiro a partir de que algo é.64 “pondo” que algo é ou que não é. março. em Aristóteles: o sentido técnico de princípio de uma ciência particular. 1235b30. Não nos parece. II. enquanto princípio de conhecimento. que não coincide com a significação que eles habitualmente assumem na linguagem aristotélica comum. Anal. ainda que não se formulando assim. cf. 2. como a Ross (cf. II. o problema da verdade ou falsidade (cf. 3. os princípios serão apropriados à coisa demonstrada”. nota ad 72a5-7). princípio indemonstrável mas cujo conhecimento prévio não se impõe como condição necessária ao conhecimento de uma coisa qualquer.218).3 e n.. 17a8 seg. que se podem reconhecer em uso nas ciências matemáticas:63 opusera ao axioma (������). E como. Mas. II. 1. não é ainda um discurso enunciativo” (ibidem. com. Anal. Prim. quer negativo. Met. I. 72a8-9. então. 4. identificava Aristóteles premissas primeiras e princípios apropriados (�������������)60 e em que sentido afirmava. princípio que tem necessariamente de possuir quem quer que deva conhecer e aprender o que quer que seja. Seg.62 2. com que A. que uma tal significação nos permite falar de hipóteses falsas. com. o texto de Met.1. 68 Cf. ����������. por exemplo.209 e 210. I. Anal. 72a19. Index. 5. donde. caracterizando-se por sua especificidade e por ser pertinente a um gênero determinado. Seg. 287b5 etc. 1013a146. enquanto tal”. imediatamente.67 Em verdade.15-40). expressamente. 2. Seg. p. temos aí um uso técnico dos termos “tese” e “hipótese”. em lugar de ����������. I. apofântico. mas não é uma hipótese. “un certain abus de langage à déclarer que le genre est un principe” e que “À strictement parler. 2. Correa pretende documentar esse terceiro sentido. 76b35-9. acima. pois o que é a unidade e a unidade ser não são a mesma coisa”. princípio próprio e não comum. por outro lado. como o fazem as hipóteses. cf. sive demonstratae sive non demonstratæ. também. Céu I. Pois o filósofo costuma chamar de “hipóteses” todas aquelas proposições. Seg. não prescinde absolutamente do verbo e. 1. Ét. E subdividira as teses. 7. que haja. 72a21-4. após enumerar as notas características das premissas da demonstração. já que não assumem elas o ser ou o não ser de coisa alguma. o que se subpõe.2 e n. 2. apofanticamente. Bento. isto é. desde o princípio dos Segundos Analíticos. apenas. I. 1931. Anal. 2. é óbvio. Anal. hipóteses e definições Ora. 4. uma indicação preliminar sobre as modalidades de princípios. se não se lhe acrescente ‘é’. estabelece o tratado da Interpretação (cf.

significando quanto se “põe” (�������) como fundamento de argumentação. 15-6. imediatamente. o filósofo: “Assume-se. por exemplo. mas para a qual se postula o assentimento do discípulo.I. acima. 100a-b. Nem era muito dessemelhante o uso platônico habitual desse vocábulo69 que. a unidade. mas emprega-se. 510c etc.327b18 seg. ibidem.. os Segundos Analíticos insistirão na diferença entre as hipóteses �����.101 a 103. quem as sustente. Nos Tópicos. em sentido absoluto. 74 Em Seg.. princípios. ao retomar o exame das diversas modalidades de princípios. então. I. Mas. 11. 72 Cf.. Ora. aqui. Parm. num sentido bastante amplo. antes.. ou não. a uma argumentação. ibidem. suas hipóteses possuem características especiais que. designa habitualmente o fundamento indemonstrável da demonstração. estava o filósofo 2. 53d. Anal. 104b34-105a2. em outras palavras: no sentido comum do termo. nitidamente. 76b27-30. as hipóteses. Aristóteles chamava de teses as concepções paradoxais de filósofos reputados ou. de que parte a ciência. 128d. para a geometria –. 104b19 seg. 136a-c.VI. 361b. para as outras coisas. Tóp. as distinguem das hipóteses comuns. Anal. que. l. prová-lo. nos remetem à primitiva distinção que estabelecera entre as várias formas de conhecimento prévio a um saber dianoético. 10. Tim. ou de haver.76 assim como corresponde a hipótese a um conhecimento prévio do “que é”. uma nova significação para o vocábulo.78 dentre o que é próprio (�����) a cada ciência.77 Assim. uma vez que há problemas sobre os quais não se tem opinião definida). sobre a correspondência dos vários usos de ������com os de �������. 1. isto é. os juízos que se sustentam em desacordo com as opiniões comumente aceitas. porém. 86e seg. 10. embora demonstráveis. Fedro. 135e seg. Por outro lado. corresponde ao conhecimento prévio da significação.. por sua vez. 71a13. distingue Aristóteles. p. Bonitz. mas assumidas pelo mestre perante um discípulo que a elas assente.75 quando distinguira entre o conhecimento preliminar do “que” (por exemplo. dos quais se assumem “o ser e ser tal coisa” (�����������������������)79 e cujos atributos por si a ciência considera. ibidem. l. Parm. afastando-se da habitual.. pois.71 Consagrando. Prot. às opiniões aceitas. assim definindo tese. II. para proceder ao exame das conseqüências que dela resultam. acrescenta-nos. cf. agora. é necessário assumi-lo para os princípios. 4. por exemplo. para o qual apenas a compreensão se exige. 76a32-6. Index. 244c. entre princípios – como. a idêntico exame procedendo-se com sua contraditória: e outro não era. Fed. quantas proposições se tomam por objeto de uma interrogação contraditória. 79 Cf. o que significam os elementos primeiros e os que destes provêm. 77 Seg. mercê das exigências próprias da ciência. para fins de exame e discussão dialética. em si mesma considerada. Percebemos. aproximadamente idêntico ao sentido amplo de “hipótese”. aquelas proposições.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira fundamento. como se sabe. mas assumir que a unidade e a grandeza são. em sendo ponto de partida de um conhecimento (para nós ou em sentido absoluto). 69 Cf. imediatamente.74 Aristóteles o faz em termos que. provisoriamente. I. 10. não são demonstradas. ou não. 70 Cf. 80 Cf. em reconhecendo que. as hipóteses das demonstrações. l.. o filósofo chama de postulado (������) a proposição demonstrável que se não demonstra. Seg. 78 Cf. por exemplo. ibidem. 6-11.80 cuja significação é preconsciente de inovar a terminologia. o conhecimento de que a unidade é e da significação de “unidade”).73 se conhece. o método que a um Sócrates jovem propusera o velho Parmênides para a prática de exercícios dialéticos. 94a-b. 71 Cf. 6.72 Tampouco o vocábulo “tese”. I. 73 Cf. cf.. para a aritmética. Rep. para as outras coisas”. simplesmente. de outro lado. o conhecimento preliminar da significação (por exemplo: o que é triângulo) e o prévio conhecimento de ambas as coisas conjugado (por exemplo. donde constituírem todas as teses problemas dialéticos (ainda que nem todo problema constitua uma tese.. agora. ibidem. se admite. 236b. 227 228 . I.70 por ele designava a proposição que. tomando o termo ao vocabulário matemático. e as hipóteses ad hominem. 75 Cf. cf. quando este último não tem opinião sobre a matéria ou tem opinião contrária.3 As formas de conhecimento prévio Por outro lado. que a definição. 30-4. 101d. em que se diziam teses todos os problemas dialéticos. isto é. independentemente de se conformarem. por exemplo.2 e n. prová-lo. 76 Cf. b3 seg. Seg. estas mesmas afecções por si.. por ex. do princípio do terceiro excluído). dir-se-ão. como. enquanto tais. Anal. Anal. o ponto e a linha. Men. Sof.. quanto ao ‘que é’. e. assumir o que é unidade ou o que são o reto e o triângulo.

por coerência com sua posição. Anal. 1. Mansion (cf. Com efeito.. cf.. Anal. p. independentemente da categoria a que pertença e de sua situação de anterioridade ou posterioridade. quando a seqüência do mesmo texto vê. de modo extremamente artificial.1 e n. 82 Seg. here it seems to be instanced as a property. no texto de 4. II. nota ad 10..) referências mais precisas. Anal. como nota. sua interpretação é. Anal. 1. também. se ele é.4 Solução de uma falsa aporia Alguns textos aristotélicos poderiam. que o gênero é. as significações das afecções a serem demonstradas. 1. que segue a de Mure. como diz com acerto todos os semelhantes. Anal. loc. artística ou espontânea). II.165. que o filósofo. que possam as ciências omitir algumas dessas assunções iniciais. explicitamente. atualmente. Ora.. 85 Sobre a definição como discurso da qüididade. III. 1.82 Nada impede. do reto e do triângulo. um atributo. n. n. do quadrado e do cubo. que comenta. Mansion reclama (cf. também. e não assumindo. III. 3. Anal. não nos diz o filósofo. II. que configura uma certa propriedade das linhas geométricas (cf.. I. Seg. de fato. então. a interpretação de Ross obrigá-lo-ia. 76b16-20. Seg. Le jugement d’existence. à primeira vista. p.1). as ciências. o fato de aparecer o triângulo. com efeito. em seguida. quando. E Mure atribui.. uma vez que pertencem seus sujeitos a suas mesmas definições. 7. 92b15-6. como nos silogismos.. explicitar-se-ão. 10. também. logo em seguida. o que é. 71a14-5. Tem toda razão S. em sentido absoluto (��������������). uma indicação de que poderia o triângulo propor-se como um exemplo de �� �����. define (cf. das quais se mostrou anteriormente que não haverá demonstrações”. mas prova que o triângulo é. Mansion. a nenhum momento obriga que se considere ele como um princípio primeiro da ciência geométrica. aceita. não assumindo.84 sem nenhuma referência aparente às hipóteses? E. é certo. Le jugement d’existence. a contestação da interpretação de Mure. fazem. Anal. II. Logique et méthode.. quando isto é manifesto. II. para. 90b24. E podemos dizer que “haverá. 7. ao caráter preliminar do primeiro capítulo dos Segundos Analíticos. cap. Com efeito.14). como sobre a terra. no texto em questão. mostrar que lhes correspondem entes reais. previamente.164). de sujeitos primeiros assumidos pela geometria.165. em nota ad Seg. reconhecendo que Aristóteles afirma explicitamente que do triângulo só se assumirá previamente a definição. sem discussão. absurdo.4). nestas. parecer-nos. mas S. para a aritmética. considerando-o apenas como uma propriedade das linhas geométricas. que aquela pergunta sobre o “se é” se põe a respeito de uma coisa qualquer. demonstração do ‘que é’. principia o matemático por definir tais termos. o próprio exemplo da noite.116. 1. os mesmos sujeitos reais de que são atributos. 93b31-2). o geômetra assume o que significa o triângulo. na ciência correspondente. por exemplo. por Le Blond (cf. em face dessa subdivisão dos princípios próprios ou teses em hipóteses e definições. Ora. ainda. porém. como um sujeito (�����������) sobre o qual se pergunta.. é. demonstra. Tal interpretação levará Mure a entender um texto como o de Seg. 92b15-18. como no caso do frio e do quente. basta atentarmos para o segundo sentido de “por si”. 7. nota ad 1..1. S. no primeiro sentido.. n. como sujeitos a que se dirão pertencer por si. tal como fez com o triângulo. porém. o que. Anal. Mansion (cf. sujeito ou atributo. I. 76a35-6. É o caso. do irracional. a converter todos esses atributos “por si” (no segundo sentido) em sujeitos primeiros da ciência. em Ross (cf. o sol. evidentemente. é doutrina constante de Aristóteles que o geômetra assume. que o triângulo apareça. se elas são evidentes. 229 230 . nos mesmos Segundos Analíticos. nota ad Seg. suficientemente. I. acima. acima. Anal.31) em não concordar com Mure quando este.. no eclipse. 76b16 seg. nesse texto. como sujeito a que pertence a linha. para o “elsewhere” de Mure. of which only the meaning is assumed”. a essência (�����) S. no segundo sentido. por exemplo. 92b16). I. p. 76a34-5).6. aliás. I. embaraçantes. Le jugement d’existence. que não encontra.: o triângulo] �������� por “but that it is possessed of some attribute he proves”. é o mesmo discurso da qüididade85 que se toma como princípio do conhecimento: “Por conseguinte. 7.83 2. isto é. o que lhe parece ser. além do texto indicado. da deflexão ou da “declinação” ou. cf. traduzindo �����’ ���� [subent. A tradução de Tricot. n. afecções por si dos gêneros que estuda.31). 1939. se compara a gênese do silogismo com a geração em geral (natural.. 92b15-6. à distinção entre assunção tácita e assunção explícita de que o sujeito é. Com efeito. 84 Seg.1946. uma outra maneira de caracterizar o triângulo. portanto. o texto de Seg.81 para a geometria: nesses casos. 1946. na passagem em que o filósofo define o primeiro sentido de “por si” (���’����. Ross. assumido por hipótese. em Seg.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira viamente assumida nas definições que nos proporcionam a compreensão dos termos. consoante o texto de Seg. 71a14-5 (cf. com razão. então. apenas a significação de “triângulo”.. Aristóteles jamais poderia considerar uma essência. 83 Cf.8). que. a lua ou a noite.III. entretanto: “Elsewhere �������� as a rule appears as one of the subjects of which the geometer assumes the meaning and being and demonstrates properties. mas prova que ele é”. como em 81 Cf. para verificarmos que quantos atributos pertencem a uma coisa por si. isto é.. cit. Tampouco estranharemos. 73a34-7. do par e do ímpar. ibidem. 10. totalmente inaceitável (cf. precisamente. julga encontrar (cf. por ser um elemento de sua definição. 10. na Metafísica. em verdade.. mas cujo “que é” é demonstrado e não.1 e n. por si. 71a14. numa determinada esfera do real e. p. quase com palavras idênticas às de Mure. acima. 90a13 (texto que Ross poderia ter sido tentado a invocar em favor de sua interpretação). embora sem explicitação. 1946. II. que “os princípios das demonstrações são definições. 182 e n. Veja-se. julgando provável que Aristóteles esteja tão-somente recorrendo. 2. portanto. diz.

3. ter em vista premissas primeiras ou princípios que se formulam como proposições que conjugam o “o que é” e o “que é”. Cf. 71b31-3. por exemplo. assumindo. �. ipso facto. são as definições meros discursos significativos do “o que é”. quadrado e cubo etc. Le jugement d’existence. 15 (todo o capítulo). pareceria. sistematicamente. cujo “que é” não assume a ciência.94 Tais definições nominais utilizar-se-ão. Quanto àquelas outras. 231 232 .. n. a Sócrates: os argumentos indutivos e o método de definir universalmente. por certo conveniente e. Se. ambas estas coisas. IV. Anal I. são as coisas que se atribuiriam.. sem nenhuma referência explícita à presença das hipóteses. por exemplo. por razões de mera comodidade ou de exposição didática. cf. se lemos. com justiça. quando seu uso se fizer necessário.198.95 do mesmo modo. Seg. 2. o texto em que descreve o filósofo de que modo nos são previamente conhecidas (��������������) as premissas da demonstração científica.. conhecer previamente. com. Cf. Anal.1 e n. onde não se justapõem as hipóteses às definições. nada mais são que uma explicitação.92 às definições que as ciências utilizam como princípios vêmsempre associar-se as hipóteses que assumem o ser daquelas mesmas coisas cujo ser tal coisa as definições exprimem. cf. como era razoável. 23.. mas demonstra.. p. 19. que os gêneros-sujeitos são as suas respectivas 86 87 88 89 90 91 qüididades. atentamente. se sirvam as ciências de hipóteses que não correspondem diretamente a definições.. entendemos que se definam todos os princípios como proposições.89 com as quais não confunde as definições:90 sob esse prisma. Le problème de l’être. em si mesmas consideradas. sobre a existência de um elevado número de tais proposições. assumindo. desprovidos de valor apofântico. 84b28-31 etc. 72a7 seg. adiante.87 Se todos esses textos. IV. 95 Embora. por vezes. Duas. também. mesmo necessária. 2. acima. parece vir confirmar o mesmo privilégio da definição: “Aquele [subent. imprescindíveis ao progresso da demonstração. 4. as definições que têm seu caráter de princípio científico obscurecido. II. �. acima. não se constituindo princípios da demonstração. 92 Sobre a distinção que Aristóteles estabelece entre as funções significativa e apofântica ou judicativa da linguagem.304 a 309. nas matemáticas. do ‘o que é’ provêm os silogismos. no sentido forte do termo. 93 Cf. subsidiariamente.204. Met. que se possa dizer serem definições os princípios da ciência.) pareceria bastar para evidenciar a existência de hipóteses não conjugadas com definições. 94 Cf. também.6 e n. que são. ao lado dos princípios. Cf. Cf. Com efeito. acima. desta vez. sempre. de fato.158.. por isso mesmo. da mesma linguagem que a demonstração emprega: é útil. Cf.. sem que nos venha causar aporia a ausência de referência explícita às hipóteses: é que Aristóteles se refere aos primeiros princípios.. isto é. Anal. I. definições universais.2 e n. 2. aí têm início as gerações”.. IV. 2.106 seg..169. como as definições de triângulo. 81b10 seg.3. Seg. com exatidão. por ter sido o primeiro a procurar.2 e n.66 e 67. porém.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira é o princípio (����) de todas as coisas.. Compreende-se.93 convertem-se tais definições em teses. contrariamente ao que ocorre com as definições das afecções por si. S. a significação a conferir-se àqueles termos há pouco mencionados. 2.3 e n. porém. privilegiam a definição como princípio da ciência. com efeito. 9. concernem ao princípio da ciência”..: Sócrates].97. 1078b23-30.. como é o caso de todas as proposições imediatas outras que não os primeiros princípios.91 verificamos que. 1034a30-2. tendo definido o princípio como premissa imediata da demonstração e chamado de �������� cada uma das partes da contradição. I.. I. Met. acima. Aubenque. par e ímpar. dizendo serem as premissas anteriormente conhecidas tanto do ponto de vista da compreensão quanto do ponto de vista do “que é”. que se apresentam sob a forma de hipóteses e definições fusionadas. então. Seg. 1946. p. antes de empregá-los nos silogismos que vão provar e “construir” as realidades matemáticas que eles designam. pois..2 e n. mas com estas se fundem.86 Também o elogio de Sócrates. I. 4. 100 a 103. IV. que. então. portanto.. Seg. II. já o mesmo fato de haver princípios negativos (cf. indica-nos Aristóteles. Mas não é difícil ver que se trata de uma falsa aporia. buscava o ‘o que é’. com efeito. ocorre. Mansion. 4. acima. pois buscava construir silogismos e o ‘o que é’ é o princípio dos silogismos . Anal. 1962.64 e 65. 5. Aliás. por outro lado.88 Aristóteles mostrou-nos que entende como proposições que assumem uma das partes da contradição tão-somente as hipóteses. desempenham elas papel bem mais modesto.

totalmente. O que. 2. 72a20. não significa que não venha a ciência a utilizar também. Anal. 7. também. 9. Alexandre de Afrodísio (apud Ross. 105 O estudo preciso das relações entre a definição e a demonstração. como elementos da qüididade. Met. senão as definições-princípios. obviamente. princípio da ciência aritmética. a partir de princípios Cf.103 patenteia-se-nos. que se dirão “por si” os predicados das premissas primeiras. como premissas. finalmente. que Aristóteles empreende no Livro II dos Segundos Analíticos (cf. 101 102 103 104 233 234 . em Seg.. nota ad l. como hipótese.. que as definições iniciais explicitaram. proposições em que se dirão os predicados de seus sujeitos. 97 Cf. como elementos das qüididades dos sujeitos a que se atribuem. assim. l. aos sujeitos genéricos. pelo sentido forte de “pôr como hipótese”. em indicando-o à simples percepção. as matemáticas assumem. l. 1. K.5 e n. cap. no primeiro sentido. por outro lado. ibid. terminados. para um uso semelhante de �����������. que correspondem a gêneros distintos. como vimos.. então. acima. da qual decorrem. de respeitar as primeiras premissas imediatas das demonstrações. dele partindo. configuram os atributos por si no segundo sentido. conjugadas com as hipóteses correspondentes. que a unidade é e o que é a unidade: a tese inicial. ao mesmo tempo. conforme à definição técnica de hipótese. as demonstrações científicas percorrerão as séries limitadas de quantos atributos pertencem. 98 Cf. 11) aponta. num intervalo indivisível. II. Cf. as afecções por si dos gêneros que os silogismos da ciência demonstram. logo. Cf. 1025b17-8.. também. ibid. E porque se processam todas as demonstrações no âmbito interno de gêneros de96 Cf. cf.101 a estes hão.. suas mesmas qüididades. 93b23-5. acima. isto é. 100 Cf. o que é o gênero a que concernem e de cujas propriedades se ocupam. intencionalmente. 1. como exemplo de tais disciplinas. isto é. o “o que é” e “se é”. ao mesmo tempo. cf.. portanto. por si. simplesmente. 3. 10-4. definição e hipótese. Tomando. esclarecerá. na unidade de um só discurso. A demonstração científica. adiante. que atribuem aos gêneros-sujeitos. julgamos dever traduzir ������������. no primeiro sentido distinguido pelo filósofo. Dizendo. 6.96 E não nos estranhará. do sujeito. procedendo mais “frouxamente”. como hipótese. apresentou-se-nos como um encadeamento de proposições necessárias e por si a partir de proposições primeiras dessa mesma natureza. acima. por si. desse modo. 90b31-2: ����’ ������������������������������������������������������������� ������ Assim. que afirmam ser. com efeito. Em função da interpretação geral que cremos impor-se aos textos que vimos comentando. tendo seus mesmos sujeitos presentes em suas definições. recordamos as duas acepções de “por si” que concernem à ciência. a unidade do mesmo pensamento que faz. o ponto em questão.1. por exemplo. que “a unidade é o indivisível segundo a quantidade”.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira uma das partes da contradição: é que as mesmas definições se assumem como predicados de seus definienda. definições de afecções por si anteriormente demonstradas. 1064a4 seg. assim. então. “multiplicado” segundo diferentes ciências. demonstrar os atributos dos gêneros a que concernem. 32-3. �. assume-se. Exprime-se. IV. Se. por decorrerem de suas naturezas ou essências. seja.104 Por outro lado. mas põem. às disciplinas propriamente científicas e mais exatas. o “o que é” por princípio. Anal.1 O terceiro elemento da demonstração Se o saber científico se nos apresenta. O texto opõe. em que o predicado se diz. põem como hipóteses e assumem o ‘o que é’”. ibid. 2. l. o “o que é” da unidade. IV. intimamente ligadas à natureza de seus sujeitos.102 que outras não serão. a medicina. 1. 11-2: �����������������������������. acima.98 Os mesmos Segundos Analíticos poderão dizer-nos: “Todas as demonstrações. o “o que é” do ímpar. I. manifestamente.V). no texto acima. causa de que o predicado dele se diga. fazem evidente. cujas propriedades por si elas demonstram. III..100 sem que nenhum termo médio venha interpor-se entre o predicado e um sujeito que é. Cf.317 a 325.105 3 Os axiomas ou princípios comuns 3. que se refira a Metafísica às ciências que assumem.2.2. por si mesmo e imediatamente... III. outras que. senão muito natural que.99 E não parece. imediatamente. absolutamente anteriores e indemonstráveis. reúne em si mesma. II. evidentes. o “o que é”97 para. cf. 99 Seg.

ao lado do verbo ������. ������ passa a significar. I. I. �. ibidem. no sentido etimológico do termo. II. I. Anal.72 deste capítulo). a própria tese. porém.118 3. Somente em Euclides. como vimos. I. designando a petição de princípio ou de contrários. 159a7. �. ainda que não tenha opinião a respeito ou tenha. Seg. 13. Cf. 7. 1005b19-22. Anal. 10. Seguimos a maneira de traduzir de Colli (cf. 1005b7.VIII. para uma formulação mais completa do princípio. Axioma era. Introduction. “reclamar o assentimento” do interlocutor ao que se lhe propõe. identicamente. a nosso ver. os Tópicos atestam um uso dialético do vocábulo.). “todas as disciplinas servem-se. 25-7. 172a29-30.120 Numerosos são esses elementos que se dizem. no vocabulário dialético. Seg. Anal. 996b30-1. que crê. a nosso ver. portanto “exigir”. Anal. Sof. também. cf. dialética e ciência do ser Em verdade. 7. Quanto ao vocábulo ������ [lit. umas são próprias(����) a cada ciência. Cf. cf. 116 117 118 119 120 121 235 236 . também.114 Como exemplos de princípios comuns. Seg. outras são comuns (�����)”.2 “Comuns” e axiomas. à nossa ��������. então. 11. mesmo. Met. 996b26. �. IV. paralelamente à expressão ��������������. temos um claro indício de como as matemáticas constituíram o suporte da reflexão aristotélica sobre a ciência. 23. com razão. 76b30-34. 11.112 Porque comuns. 76a37-8. Cf. 1. 10. 62a12-17). ele guarda de algum modo o primitivo sentido dialético de “axioma”. Ross. K. o fato de os Primeiros Analíticos utilizarem em II. que “dentre as proposições que se utilizam nas ciências demonstrativas. aplicado antes à esfera do ensino que à da ciência propriamente dita. sinônimo de ������ (cf. de todas as coisas e. de certos elementos comuns”. 3. que essa significação de princípio comum às ciências.113 Ocorre. 1011b24. que os Tópicos ignoram e os Segundos Analíticos introduzem (cf. “opiniões comuns” (������������)�110 que a Metafísica também designa como “princípios demonstrativos” �������������������)111 ou “princípios silogísticos” (�������������������). cf. �. I.106 pelos “axiomas chamados de comuns” (��������������������������)107 ou. Seg. terá sido tomado à linguagem dialética. nota ad Prim. �. pelas matemáticas. ibidem. 7. 10. 163a14. Ref. que preferimos. Cf. 159a4. Cf. dever buscar-se no emprego dialético do termo “axioma” a origem última da significação técnica que lhe empresta a teoria aristotélica da ciência. 2. para designar exclusivamente os princípios comuns. 179b14. daí. 27. de nenhuma evolução interna da lógica aristotélica. n. I. Met. acima. a existência de outros princípios da mesma natureza. o uso técnico desse verbo. acima. quais as negações. ter-lhe-á também conferido. 1005a20.: postulado]. 13. Sof. ������ é. a fim de provar e concluir. Com efeito. 996b28. 76b14. Seg. 5. Colli (cf.117 Mas indica-nos. também. I. provavelmente originário. ������. Met. l. 11. quando significa “crer justo”. 24. a qual necessariamente se desconhece. Seg. não constituem uma natureza ou um gênero determinado. Seg. Cf. Prior and Posterior Analytics. �. 88b1. Cf. Observe-se. 30. não invalida nossa tese daquela mediação nem testemunha.. Anal. certo tipo de pressuposições básicas da ciência. Anal. 88a36.VIII. por que se torna possível 110 111 112 113 114 115 Cf. 62a11-17. então. 5. em desconhecendo-se tal ou qual arte. em Tóp. não é a única que possui o termo ������ no vocabulário da lógica aristotélica. Met. 996b29. 2. �. 76a41. ao lado do gênero e da coisa demonstrada. 162b31. 996b30 (“é impossível ser e não ser. 34. ao mesmo tempo”).VIII. Seg. 1061b19-20. constituído pelos axiomas (��������). Cf. 75a40-42. Tal uso dialético. já que designa a proposição para que se pede a aceitação do estudante. são iguais os restos”). não faz. 163a3 etc. como pretende Colli. nenhuma menção do emprego matemático do termo. Tóp. I. parece. 2. nas demonstrações.57. uma significação mais técnica e limitada nos Segundos Analíticos.9. “princípios comuns” (������������)108 . isto é. 997a21. cf. 11. p. da acepção dialética do vocábulo. seguindo o exemplo das matemáticas. Ref. 2. Anal. Sof. 3.. cf. também. 32. conexo com o do verbo ������. para designar seus princípios comuns. que conheceu e fez uso. 71a13-4. que nos parece ter mediado entre a primitiva significação dialética e a noção aristotélica de princípio comum universal.115 o do terceiro excluído (“de toda coisa a afirmação ouanegaçãoéverdadeira”)116 e o princípio “dos restos iguais” (“se se subtraem quantidades iguais de quantidades iguais. �. com efeito. Tóp. Por outro lado. l. 1. no entanto. Cf. I.b20-1. entretanto. Seg. Met. ainda que sem formulá-los. 3. 11. apontanos Aristóteles o de não-contradição (“não ser possível afirmar e negar ao mesmo tempo”).2 e n. 156a23-24: ������������������������������������������. por alusão. 11. 181a15 etc. 1. 10. se eles não se conhecem. um terceiro elemento aparece. na sua primeira acepção dialética. Anal. Anal. I. 77a10. ser idênticos nas diferentes demonstrações. 75b2-3. Met. �. Met. Nesse sentido. tais princípios podem.. Mais uma vez. a premissa do silogismo. opinião contrária. E Aristóteles. um postulado. Cf. Ref. ibidem. 36-8. 4. cuja aceitação inicial se postula.119 que “seguem” os ���� e são tais que nada impede se conheçam eles.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira próprios explicitados como definições e hipóteses. 77a31: �������������������. 32. tomado de empréstimo à linguagem matemática. nas matemáticas”. ad locum). 77a22. por aquelas proposições “chamadas de axiomas. Anal.121 Eis. entretanto. 77a30-1. 1061b341062a2. axioma era. Met. 3. 167a37.109 106 107 108 109 Cf. que delas confessadamente retira os mesmos termos técnicos com que designa os elementos da demonstração científica. mais simplesmente. praticamente. “conveniente”. Cf. enquanto se solicitava para ela o assentimento do interlocutor. pois. 11. 3.

l. como a respeito de qualquer outro atributo. I.] se é certo que toda ciência demonstrativa considera. aceitar.123 que é parte da dialética. 11. 127 Cf. 135 Cf.129 “todos deles se servem”. 1005a23-4. acima. 1. desse modo. que não podemos concordar com Hamelin. cf.I. de uma propriedade 122 Cf. na exata medida do que é útil (��������) e suficiente (������) para cada sujeito genérico.. Anal. cap. cap. de modo limitado e proporcional. a todos os seres e não. 34. p.. 136 Cf. que. 2. 14-5. 1. cf. 132 Met. l. assim. possa o filósofo falar de seu “que é”. ao processamento de toda demonstração. não podemos aceitar a afirmação de S. precisamente. 172a39-b1. às teses ou princípios próprios. conhecer. Met. com efeito. 10. cf.132 O que equivale a dizer que “pertencem a todas as coisas.126 proposições primeiras a partir das quais (�����) se demonstra. cf. 169b25.I. 71a14-5. ibidem. 76a38-9. pois. acima. 996b28-9. 1005a22-5. Assim. Mansion de que. 171b4-6. 77a27-8. 172a21 seg. Anal. cf. 997a3-5. Vê-se. a partir de premissas aceitas” (Tóp. 3. �. 3.134 E seu mesmo caráter comum e universal. IV. sem que precisemos estranhar suas expressões. organizando os seus tópicos (�����. 137 Cf.2 e n. acrescenta Aristóteles. Seg.131 Condições de toda e qualquer demonstração. 131 Met. 14-6. Seg. a respeito de um certo sujeito. também. n. Met. 108b33 etc. ibidem. 10. 76b20-1. dá-se o nome de “axiomas” àqueles que. �. revestindo o caráter de princípios silogísticos. referindo-se a uma propriedade do ser. �. Tóp. Seg. a doutrina do caráter “regional” das ciências. “quand Aristote parle de l’existence du principe du tiers exclu. I. 10-1. 10. portanto..124 Ora. a partir das opiniões comuns”. Met. Anal. necessariamente.2.. ibidem. E. l. então. de sa valeur” (Le jugement d’existence. ibidem. Anal.130 são eles as “opiniões comuns a partir das quais todos demonstram”. Anal. os textos indicados acima. 2.136 É óbvio. 140 Cf. I. acima. 27-8. não se estende a demonstração além do gênero a que respeita e não se transgride. n.21 deste capítulo. quando toma a expressão �������� como mero sinônimo de ��������. 183a39-b1. �. ibidem.. 1931. o princípio “dos restos iguais”. 77a23-5.247. Seg. 42. 130 Met. Met. 1946. ibidem. cf. enquanto elas são (pois isto é o que lhes é comum)”. l. do ser enquanto ser. Anal. não demonstrativa. particularmente. 1. �. explicitamente. conhecer uma propriedade do ser enquanto ser. para que se estude oquequerqueseja. Seg. 125 Cf. cf. sua aplicação a cada uma delas dá-se analogicamente (���’ ���������). Compreendemos.133 Conhecer um axioma é. separadamente dos outros. entretanto. p. foi porque imaginaram que sua ciência e investigação dizia respeito a toda a natureza e a todo o ser. IV.. de examinar sobre todas as coisas. explica que não precise a ciência assumir. 1. ibidem. Sobre a ciência do ser enquanto ser. acima. a um gênero determinado. 11. necessárias e que se devem. 3. �. 1. 2. n. por si mesmas. 2. 139 Cf. possuir-se. 8. 126 Cf. deverão. Se os físicos pretenderam deles ocupar-se. que os faz de todos conhecidos.140 isto é. 997a12-5. por outro lado. que considera os atributos por si e os mais firmes princípios dos seres enquanto seres. 237 238 . os atributos por si. cela ne peut guère s’entendre que de sa verité. 18. 138 Cf. a significação dos axiomas que utiliza e cujo “que é” assume:135 o que cada um deles significa nos é sempre claro e as diferentes disciplinas os utilizam como princípios familiares. cf. Anal. 21-2. nota ad Seg. que ela é (���������). I. Tampouco Ross (cf. E todos deles se servem porque pertencem ao ser enquanto ser e cada gênero é”. 9. 997a19-21: “[. portanto. que. pode a dialética “raciocinar silogisticamente sobre todo problema proposto.127 princípios imprescindíveis.125 proposições que são. I.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira o surgimento de uma técnica geral. 72a16-8. 2. Tal caráter universal falta. 129 Ibidem. 71a11-7) atenta em que o “que é” dos princípios comuns se diz em sentido próprio. 39-40. l. 133 Ibidem.63.173). poderá formular-se com diferente conteúdo ma134 Cf. 76b23-4. 1005a29 seg. 3.II. I. 100a19-20).103 (sobre a tradução de ��������� por “que é”. graças aos “comuns”. Le système d’Aristote. dentre tais �����. 128 Cf. �. 2. I.). 123 Cf. permanecendo formalmente idêntico. 124 Cf. independentemente de conhecimentos específicos. 1005a23-7. E. Seg. 1.. se os axiomas são comuns às diferentes ciências.I..122 a peirástica ou crítica. “pertencem. porque os axiomas exprimem propriedades que pertencem ao ser enquanto ser. 141 Cf..138 Se não coubera ao filósofo estudar os axiomas. �. que não serão os axiomas objeto de indagação de nenhuma ciência particular137 e que cabe seu estudo à ciência do filósofo.141 Assim.128 “Todas as ciências demonstrativas servem-se dos axiomas”. necessariamente. 995b8. a quem mais caberia. 1005b5 seg. se eles são o que há de mais universal e os princípios de todas as coisas?139 Advirta-se.137). Met. l. 170a38-9.

E não somente entre si se comunicam.. que as condenaria a um isolamento tão intransponível quanto. do mesmo modo. Seg. antes. nota ad Seg. 5. 1006a6-8. suas respectivas notas ad Seg.146.. às grandezas geométricas e aos números da aritmética... Anal. 11. de um axioma eminentemente matemático. sem que dele façam. Seg.. efetivamente parte. outros. I. Aubenque interpreta aquela passagem como se Aristóteles afirmasse que a dialética tenta demonstrar os princípios comuns a todas as ciências. l. que se acompanha da refutação de quantas doutrinas pretendem. cumpre. como pode a mesma ciência universal do ser. 152 Met. uns optando por uma resposta negativa a essa pergunta. 75a41-2. p. Tentaremos explicar. 33-4.145 cuja multiplicidade e diversidade genérica não as reduz. 1006a5 seg. 148 Cf. n. a demonstração pelo absurdo assumirá. nas páginas que seguem. Cf.149..150 princípio natural. Anal. 7. I.142 também. por exemplo. uma elucidação dos dois grandes axiomas da não-contradição e do terceiro excluído. 77a22-5. 77a26-7: ����������������������������������������������������������. então. Como diz Ross (cf. Estranhamente. for there can be no proof. a cujo propósito o engano é impossível. 1005. of the axioms. que a filosofia primeira seja capaz de efetivamente demonstrar. I. 6. �. 75a41-2). 1946. �.257. 4. 10. acima. Met. 76a41-b2.151 não o fizeram senão por falta de instrução (����������): “pois é falta de instrução desconhecer de que coisas se deve e de que coisas não se deve buscar demonstração”. 5. afirmando a possibilidade de as ciências utilizarem os axiomas como premissas..147 Imediatos e indemonstráveis. interrogarmo-nos sobre a exata função que tais “princípios demonstrativos” ou “princípios silogísticos”154 desempenham no processo demonstrativo: figuram eles. Anal. mas por meio deles comunicam-se “também com todas elas a dialética e alguma ciência universal que tentasse provar os ‘comuns’.. nos silogismos científicos.1. inutilmente. 156 Assim. 1962. princípio an-hipotético e o Cf. por exemplo.137 a 139 deste capítulo.3 Os axiomas e o silogismo demonstrativo Assim conhecida a natureza dos axiomas. 11. 4. também de todos os outros axiomas. 11. de maneira adequada ao gênero a que se estiver aplicando. cf. que considera o princípio do terceiro excluso. Idêntica posição 239 240 . 142 143 144 145 146 mais conhecido de todos. sem inquietar-se por saber se ele se aplica a outros domínios”. 151 Cf. se alguns reclamaram uma demonstração para o mesmo princípio de não-contradição. os grandes princípios universais da não-contradição e do terceiro excluído. A. como o “dos restos iguais”. incompreensível. naturalmente. agora. 19-31. conceived after the manner of Plato’s dialectic to deduce hypotheses from an unhypothetical first principle.2 e todo o parágrafo II. Ross e. Cf. ocupar-se. os axiomas o são. Anal.. Anal. tal como se dá com os princípios próprios? É questão que divide os especialistas. 154 Cf.152 O que nos propõe o livro da Metafísica é. II. 147 Vejam-se as referências indicadas acima. 149 Cf. a expressão que se adapta à matéria que ela estuda..1.156 150 Cf. ou outros da mesma natureza”. então. 77a29-31: “Such an attempt would be an metaphysical attempt. �. acaso. ou que são iguais os restos de quantidades iguais. acima. 3. princípios gerais que ordenam o raciocínio demonstrativo. vendo nos axiomas tão-somente “princípios em virtude dos quais a conclusão decorre das premissas”. constituem os ����� os liames por que se comunicam. Le jugement d’existence.148 e. cuja posse é necessária para a compreensão de não importa qual dentre os seres. nota ad Seg. todas as ciências. Mure (cf. I. 1946. 153 Donde a referência a uma ciência universal que tentasse provar. ibidem. 155 Tricot.. como todos os princípios. “cada ciência particular dá.. I. do princípio da contradição. II.155 isto é. ao contrário. S. Mansion (cf. acima. o princípio do terceiro excluso. cf. n. com alguma hesitação. Seg.153 3. que de toda coisa a afirmação ou a negação é verdadeira. IV. in the strict sense. Ibid. cujo estudo vimos ser de sua competência. S. Met. Mansion. por certo. p.. I.. também.149 o mais sólido (����������) de todos os princípios. p. recusar sua aceitação. 3. l. como premissas. Le problème de l’être.144 De qualquer modo. calls it an attempt. 7.b11-5. por exemplo.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira terial. ao aplicar-se. efetivamente. Le jugement d’existence. umas com as outras.147-9). o princípio do terceiro excluído143 e. por exemplo. since they are �����”. à condição de compartimentos absolutamente estanques de um saber irremediavelmente fragmentado.146 O que não significa. como. Anal.

porém. 7. a preposição �� para referir-se às proposições a partir das quais se constitui um silogismo.2 e n. ao menos. I. também. l.162 respectivamente. Com efeito. 10. Aristóteles descreve também os axiomas. l. em que se retoma a indicação dos elementos da demonstração.: a ciência] demonstra”..Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira Encontra-se a razão fundamental das dificuldades que ensejam essa divergência de interpretações em certas imprecisões da linguagem aristotélica e.. Anal. 11. das premissas constituídas pelas hipóteses e definições originais de cada demonstração (“é evidente que não é possível demonstrar cada coisa. 2. 77a27-8. 77a10-21. então. 76b14. Anal. 75a39-b2.167 Como se vê. 76b11-6. I.: dos quais.166 aplicando assim a preposição �� às premissas silogísticas não-axiomáticas de onde decorrem as conclusões. afecções demonstradas e axiomas.165 E. como ������ ����������������� �������� ����������163 E dirá. eventualmente se pretenda. 9.. a que respeita (������) a demonstração. 1962. Seg. explicitamente. sobre o uso dos dois grandes princípios de não-contradição e do terceiro excluído. �. Anal. que tal predicado se afirma de tal sujeito e dele não se pode negar. Explicanos. cf. ibidem. em alguns textos.. senão a partir dos princípios de cada uma (������ �������������)”159 ). no caso em questão.: se demonstra]”. 74b10. a partir dos quais). tais outras. 2. cf.. de 10. a proveniência da coisa demonstrada de seus princípios próprios. concernem. descrevendo os elementos da demonstração. 76b10-1. grandeza”. por exemplo. Anal. 72b14. se dizem os axiomas proposições primeiras a partir de que (�����) a ciência demonstra.. 160 Assim. IV. imediatamente. comuns. do qual (������). é fluido o estilo da linguagem aristotélica e. 11. I. isto é. n. p. a tal outro. 14-5. “com os quais (���’���) elas se provam mediante os princípios comuns (��������������). do primeiro. 76b22. gênero. 72b21-6. 75a30. também. particularmente. 88b27-9 (os grifos são nossos). I. caso excepcional. a conclusão. Ibidem. 22. 6. 75b37.. 159 Seg. quando se enumeram os três elementos de toda demonstração (cf. 996b28-9.. definem-se os axiomas como “as proposições a partir das quais [subent. os princípios a respeito dos quais são próprios como por exemplo número. 77a27-8. 163 Seg. isto é. acima. I.1. l.168 a menos que. em Seg. de axiomas próprios a cada ciência! 157 Cf. acima. como sabemos. que ele não é assumido por nenhuma demonstração. 14-5: ������������������������. os princípios a partir dos quais são. I. serve-se o filósofo de outras expressões que podem ajudar-nos a esclarecer as dificuldades que apontamos. em Seg. 1. o princípio de não-contradição.157 aplicada aos axiomas. referindo-se a certas propriedades matemáticas que se provam a partir de outras conclusões já alcançadas: “demonstram-se mediante os princípios comuns (��������������) e a partir das proposições demonstradas (������ ��������������)”.158 e indicando também desse modo. de modo geral. falando da existência de diferentes gêneros de seres. usando. opondo diretamente princípios próprios ecomuns: “Os princípios são de duas espécies: a partir dos quais (�����) e a respeito parece assumir Aubenque (cf.8 deste capítulo. não bastam considerações de ordem lingüística e a inspeção do uso das preposições para fazer luz sobre a função dos princípios comuns nos silogismos demonstrativos. na passagem.2 e n. dizem-se os axiomas “as proposições primeiras a partir das quais [subent.160 E o filósofo chega. também. 32. l. entretanto. cf. Seg. 7 etc. 161 Cf. Aristóteles exprime-se com clareza.132. portanto. Anal. n. 158 Como. Felizmente. 3 (os grifos são nossos). mesmo. às suas premissas. 3. 88a25. 3. enquanto.2) que. princípio de todos os 164 165 166 167 168 Seg. 76a14-5 (o grifo é nosso). 1. paralela a esta. Met. IV. acima. precisamente algumas linhas abaixo. 162 Cf. 26. cf. 4. 10.9). 9. a opor os axiomas ����� ao gênero próprio (ao qual. 76a5. como as proposições ������se processa a demonstração. acima. nos mesmos capítulos dos Segundos Analíticos em que assim se exprime. Cf. 6. IV. Ibidem. 2. interpreta de modo curioso os textos de 75a41-2 e 10. 71b20.161 os princípios próprios)..9. 997a20-1. 1. Cf. por certo. diz-nos que determinadas propriedades pertencem tão somente a tal gênero. e que se não encontrará nos procedimentos científicos. neles vendo afirmar-se a existência. em sentido absoluto. Assim. 73a24-5. que. 72a27. 241 242 . 75a42: ����������’�����������. no entanto. Le problème de l’être. por qualquer razão. os axiomas e o gênero.164 Ocorre. I. Anal. Anal. 995b8. Em outras palavras. 74b5.. ao lado dos axiomas comuns. 27 etc. 32. ter uma conclusão que estabeleça. no uso que faz o filósofo da expressão ����� (lit. 38. 11.

to describe them [subent. 176 Cf. o princípio do terceiro excluído não se utiliza como premissa.175 o que já nos permitiria inferir que é como premissas que Aristóteles os considera. que julga “rather misleading of A. precisamente. IV.174 No que respeita.. para isso. 72a17-8. “the proper function of the more general (non-quantitative) axioms .170 E a Metafísica. eram usados na geometria pré-euclidiana que Aristóteles conhe169 Cf. I.176 Por outro lado. no que concerne a outros axiomas gerais. como manifestamente verdadeira).179 3. comuns às ciências matemáticas. como. cf.172 desvenda-nos. da falsidade manifesta da conclusão do silogismo construído.177 nada nos impede de supor que venham a atuar como premissas dos silogismos científicos.. que se obtenha do interlocutor.308)..: os axiomas] as the �����”. precisamente. 174 Cf..153. acima. acima. Em verdade.. a verdade da contraditória de uma de suas premissas (a outra era reconhecida. assumindo o princípio do terceiro excluído (“de toda coisa a afirmação ou a negação é verdadeira”) como hipótese (não necessariamente explicitada. 41b13-22.157 seg. tantas vezes mencionado por Aristóteles. interpretar a expressão �����. Anal. sem a qual não há. but according to which. p. 7. nota ad Seg. 44. aplicada aos axiomas178 de modo vago e ambíguo. cf. ���������������������� (l. então. e de uma inferência ������������. acima. que não prejulga da interpretação a propor-se em cada caso específico. que traduz. que viemos 175 Ross.. no silogismo do absurdo ou “do impossível”.. 172 Cf. também. ao mesmo tempo. argument proceeds”. É que a descrição da significação e função geral dos axiomas. como o princípio de não-contradição “subtende” a significatividade do discurso humano. IV. ao lado dos princípios próprios. Com efeito. eventualmente. de “concepções comuns” (��������������). 173 Leia-se o brilhante comentário dessa passagem da Metafísica. como o princípio “dos restos iguais”. um texto.169 não atua como premissa. IV. acima. É o que não soube fazer. utilizar.. cap. premissa sobre a qual se constrói o silogismo. em sentido absoluto. por Aubenque. não-matemáticos. is to serve as that not from which. aos axiomas matemáticos.4 Os axiomas matemáticos. ao menos. 7. Anal. dos Primeiros Analíticos dá-nos exemplo de teorema cuja demonstração utiliza.são freqüentemente usados como premissas. 50a16-38. ibidem. que o nega. Anal. ainda. aplicado a ângulos. num sentido forçosamente bastante amplo: as proposições axiomáticas a partir das quais a demonstração se processa são aqueles princípios gerais a que se conforma o raciocínio demonstrativo (ou determinadas formas particulares de demonstração).151.. assim como aqueles princípios comuns às ciências. desde o início. também. constroem-se as demonstrações particulares de cada ciência.. 177 Cf. o princípio “dos restos iguais”. 3. que as ciências possam. 41a22 seg.. nota ad Seg. 3. após confessada hesitação (cf. Anal. 170 Como diz Ross (cf. 7. 42) por “axioms which are 243 244 . Anal.. �. l. Em face de tal doutrina. Sobre o mecanismo da redução ao absurdo. manifestamente.III.308. I. finalmente. 4.3 e n. ceu)”.2 e n. assume-o sempre a demonstração pelo absurdo. p. de início).. mostrando como pode “provar-se” tal princípio por via de refutação (����������). acima. Anal. mas não. 77a22-4. Prim.171 bastando. in Le problème de l’être. cf. por engendrar conclusão falsa. 75a41-2. 11. sem dúvida. Prior and Posterior Analytics. cap. nota ad Seg. que prova uma conclusão manifestamente falsa.173 Quanto ao princípio do terceiro excluído. Seg. a demonstração pelo absurdo não se dirá. I. apenas na exata medida do suficiente para o gênero em questão. que. conclui. 23. 75a41-2). que é uma espécie do silogismo hipotético. 171 Cf. que preside ao processamento de todos os silogismos. que signifique alguma coisa “para si mesmo e para outrem”. com o auxílio dos quais. 21. 1962. IV. 3. em Euclides(e.: cf. os quais de acordo com ele se estruturam: nesse sentido dir-se-á que é princípio de acordo com o qual se demonstra. 178 Cf.124 seg.. entre as quais se encontrará. n. nota ad 2. nossa atenção. mas constitui uma espécie de cânon regulador.56-57. por vezes.2 e n. 75a41-2). linguagem nem comunicação entre os homens. necessariamente falsa. formulados de modo adequado a cada gênero científico e utilizados como premissas. I. utilizando-o embora. não somente sabemos que “tais axiomas . nos silogismos da ciência. cumpre-nos. como uma de suas premissas. cf. n. por exemplo. 179 Donde ser preferível dar da expressão ����� uma tradução literal e igualmente vaga. 24. Por outro lado. Os Elementos de Euclides chamarão tais axiomas. 1006a11 seg. Met.1 e n. 3.. o axioma “dos restos iguais”. Prim. Introduction. pelas razões que. vimos (cf. acima. a demonstração pelo absurdo compõe-se de um silogismo. a matemática universal e a filosofia primeira Um último e importante pormenor exige.118.III. um raciocínio científico.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira outros axiomas. I. como “a partir dos quais”. Ross. I. Mure.

�. p. 189 Cf. n. ainda que a autora considere corretamente a função dos axiomas na demonstração aristotélica. do princípio de não-contradição. Anal. 187 Cf. seu estudo sobre a ciência186 e que tudo nos leva a crer que a mesma noção de axioma comum a todas as ciências se elaborou numa reflexão sobre os princípios comuns das matemáticas. por exemplo. Goldschmidt. curso inédito sobre “Le système d’Aristote”. 190 Cf. de que os outros dependem. IV.. precisamente. Met.2. modelo oferecido pelas matemáticas.. em Seg.. com.. legisla para o conjunto das ciências matemáticas. 183 Cf. 3. entre as diferentes ciências matemáticas. Nesse sentido. sem restrições.e. a proporção). n. �.. o princípio “dos restos iguais” é comum à aritmética. acima. �. to the subject-matter of arithmetic and geometry” (Aristotle’s Prior and Posterior Analytics. de um objeto determinado (por exemplo.: Aristóteles] should have recognized the distinction between the axioms that are applicable to all things that are. Introduction. IV. e à astronomia. como argumento em contrário. ocupando-se. 3. que adiante comentaremos. 186 Como estabelecemos acima. 23 seg.2 e n. preferencialmente. aliás. 188 Cf. como vimos. nos surge. quando. ao lado dos grandes princípios metafísicos. enquanto concerne ao que é. por exemplo.145. 3.. mas. 72a16-18.187 Uma dificuldade.. dos grandes princípios ontológicos e. obviamente. Anal.188 Mas poderia acaso caber também à filosofia o estudo de princípios que exprimem propriedades que não são comuns senão às quantidades?189 Assim como a aritmética estuda as propriedades do número enquanto número190 e a geometria.116.185 já que o tratado fundamenta. linhas.67. algumas proposições dessa natureza.117 deste capítulo. 4. opondo-a à geometria. ao chamar de axioma o princípio cuja posse é necessária ao aprendizado do que quer que seja. porém. de um gênero e natureza determinados. I. que freqüentemente não concerne sua descrição senão aos axiomas por excelência.. V.I.61. 4. a única dificuldade séria da doutrina aristotélica dos axiomas matemáticos ocorre em um texto do livro K da Metafísica. (cf. uma propriedade comum a todas as quantidades. que cabe à ciência do ser enquanto ser ocupar-se dos grandes axiomas metafísicos. tradução que repete na passagem paralela de 10.109 deste capítulo. por certo. 1004b10-3. que utiliza.2 e n. Met. interrogando-se sobre se a filosofia primeira é universal ou concerne a um certo gênero e natureza determinados.. 2. 1061b17 seg. 245 246 . 76a41-b2. 185 Como acontece com Ross.142. só é rigorosamente válida. acima.180 que são princípios de que todos ou todas as ciências demonstrativas se servem181 ou que são imprescindíveis ao processamento de toda e qualquer demonstração. 76b14. assim. acima.128. 4. 182 Cf. Pertencem estas linhas a um contexto (cf. apenas. ao tratarem dos princípios comuns. 1061b17 seg. Pois não se poderá. i. Vimos. acima. Le jugement d’existence. acima. tomando por paradigma. com efeito. já que exprimem propriedades que pertencem a todos os seres. Mansion. mostrando. Seg.2 e n. Met. acrescenta: “há. Em verdade.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira acompanhando.. porque se ocupam. l. I. n. não somente o filósofo os distingue. também. mas a matemática serve-se de tais princípios comuns de modo particular (�����). enquanto simplesmente são. 1946. como também a nenhum momento incorre na confusão de atribuir aos princípios comuns das matemáticas as características universais que reconhece nos grandes axiomas metafísicos. IV. com efeito.180 deste capítulo) e escreve: “he [subent. acima. 1. 180 Assim. a todas. I. IV. números ou outro gênero de quantidade.129 e 130. o fato de Aristóteles não crer necessário precisar. a interpretação gramatical que parece impor-se a S. Exprime. acima. também. ibid. 192 Cf. antes. cf. �. IV. cf. n. p. as propriedades das quantidades contínuas enquanto tais. 3. não os princípios comuns das matemáticas. considerando-os apenas em relação a uma parte de sua matéria própria que separadamente considera. a matemática universal. por intermédio deles. Mas não vemos. com efeito. que não se lembra de invocar o texto de Met. princípios comuns tão-somente às diferentes ciências matemáticas. Nem se poderá utilizar validamente. acima. Ora. por que estranhar que. 1061a28-b2. Aristóteles mostra como pode ela ser ambas as coisas. p. a proposições dessa natureza que costumamos dar esse nome”. 191 Cf. 184 Vejam-se os textos acima indicados. Met.147 e n. cf. cf. cada uma destas. Essa é. que se aplicam a todos os seres e se utilizam em todas as ciências.. demonstram os matemáticos sobretudo.183 já que servem de liame.3. 181 Cf. comum a matemática universal?192 E.) em que. à geometria etc. acima. �. 68. 10. pois é. ao tratar dos axiomas e dos “comuns”. 2.132 a 139.180 deste capítulo.191 não deveremos dizer que o estudo dos axiomas matemáticos compete àquela matemática universal (�������) de que faz menção a Metafísica. os Segundos Analíticosmencionem184 os axiomas matemáticos.58-9). no premisses of demonstration”. embora. nas páginas precedentes.2 e n. 1958-59. Nem diremos que. todas as ciências se comunicam. se nos interrogamos sobre a natureza da ciência a que compete o estudo dos princípios matemáticos comuns.2 e n. sobretudo. exprime-se o filósofo com clareza. a qual. n. os grandes princípios universais. and those thar are applicable only to quantities.182 mesmo não-matemática. 1026a26-7. cf. com efeito. o termo matemático “axioma” para designar... cap. a que o próprio termo ������ se tomou de empréstimo. 3. ângulos. dizer dos axiomas matemáticos.

. em igual número de sentidos. puisqu’il se restreint à la catégorie de la quantité. porque não se ocupa senão 193 194 195 196 197 198 199 200 201 Cf. não é menos verdade que axiomas como o “dos restos iguais”. 208 Ibidem. continua ele.203 Ora. être objet de la métaphysique. números. o Semelhante e o Igual. I. ibidem. 203 Cf. 2. �.2. era objeto de demonstrações particulares separadas e distintas para cada um desses gêneros daquantidade. acima. Met. Com efeito. como o igual (�������). dizem respeito a um próprio da quantidade?197 Se todas essas razões nos parecem bastante plausíveis.199 sempre aplica um princípio. solução bem diferente e. 1053b25. primitivamente. se é certo que a concepção de uma ciência matemática universal e “comum” prenuncia a constituição de uma teoria geral da quantidade e que podemos lamentar não nos tenha Aristóteles deixado indicações mais numerosas sobre a matemática universal nem nos tenha precisado como se situariam. IV. Mansion (cf. por certo.. do que pertence ao ser enquanto ser. à quantidade enquanto quantidade. 1003b33-4.2 e n. Met. em relação a uma tal ciência. �. mas não. Cf. proporcionalmente (���’ ���������) às diferentes ciências. caberá à filosofia primeira considerar também os seus princípios”. ibidem.202 No entanto. parecer-nos-á que. III.204 de modo que há tantas espécies de Um quantas são as do Ser205 e ambos se dizem em igual número de sentidos.. ainda que concernentes a um próprio da quantidade. �.201 Ora. Met. acima.196 ora.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira certasproposições universais. a teoria geral da proporção (�����������) de Eudoxo demonstra universalmente. a grandezas e números.. Met. não deverá a ciência do ser ocuparse do que pertence. 3. l. por exemplo. 25 seg. um próprio da quantidade. a mesma coisa é evidente. acaso. cremos ser útil aqui recorrer a certos textos da mesma Metafísica. Met. 4. 1003a21-2. ângulos. 2.21 deste capítulo. Cf. que estuda o Ser enquanto Ser e os seus atributos por si. 3. com. “mas considera o ser.209 conhecer o que são 202 É o que leva S. Le jugement d’existence. �. por implicarem um o outro”. 2. com. números ou outro gênero de quantidade. 247 248 . como o “dos restos iguais”. 1061a15-8. Cat. que separadamente considera.195 Os princípios comuns aplicam-se analogicamente. acima. desconcertante. 74a17 seg. isto é. princípios matemáticos que se aplicam proporcionalmente às diferentes ciências matemáticas não deveriam. 19 seg. sem escamotear a dificuldade do problema.198 Pois. l. 10. que não se têm invocado para o nosso problema. “o Ser (�����) e o Um (�����) são idênticos e são uma só natureza. “que o Ser e o Um significam. 1077a9-10. parce qu’il croit que c’est un principe analogique (cf. 5. por isso mesmo. tão-somente. I. enquanto têm grandeza ou são divisíveis. �. às categorias e de não residir em nenhuma”. ao menos.. 1. l. cf. 1077b17-20. n. já que a matemática. enquanto cada uma delas tem tal ou qual atributo. pelo fato de o Um corresponder. 1003b22-4. os axiomas que exprimem propriedades comuns às quantidades.149. Seg. um texto de Met. 3.68) a dizer: “la philosophie première ne doit s’occuper que du principe de contradiction et des principes équivalents. Com efeito. Met. para linhas. 1061b17-9. 6. que não investiga sobre as coisas particulares. 204 Met.206 o Um possuindo uma natureza definida e distinta em cada uma das categorias. Cf. Anal.207 Aliás. 4. com efeito. 205 Cf.193 que concernem. Cf. igualmente.140 seg. �.200 competirá o estudo de tais princípios à filosofia. cf. diz-nos o filósofo: “Uma vez que o matemático se serve dos princípios de modo particular (�����). sólidos e tempos. entretanto. também. Anal. 24: �������’����� Ibidem. ser estudados por uma ciência que contém uma teoria geral da proporção? Uma ciência matemática “comum” não deverá ocupar-se de princípios que. “mas não enquanto seres”. 2. 207 Cf. a alternância dos termos que. Ibidem. L’axiome: ��������������� ��� ne devrait pas. Seg. O igual (����) é. Aristote ne l’a pas vu. 1946. �. Met. n. 26-7. sous cette forme. já que a este pertencem e dele são afecções o Mesmo. como “dos restos iguais” tão-somente a uma parte de sua matéria própria. I. 1054a13-5. 6a26-7. �. 76a38-9. de algum modo. 4. 3. �. compete à mesma ciência do filósofo..208 Por isso mesmo. 206 Cf. 1061b20-7)”. não concernem menos a um atributo do Um. p. Met. l.194 assim. linhas. 1054a29-32. � propõe-nos. enquanto cada uma de tais coisas é”. 209 Cf.. aparentemente.

são idênticas (�����) as coisas cuja essência é uma. 214 Cf..211 se elas. IV. não serem os mesmos os princípios de todos os silogismos.215 É forçoso. cuja solução. é formulada de modo sucinto. 32. aquelas cuja quantidade é uma”. Sobre a oposição entre esses dois processos de argumentação. acima. o texto de �. 2. III. aos seres matemáticos. que. afecção por si do Um enquanto Um (e. respeitam às propriedades que pertencem ao Um.1 e n.210 E não haverá. acima. Cf. do Um enquanto princípio universal coextensivo ao Ser enquanto Ser214 ). a matemática universal e a aritmética. entre a ciência do filósofo. assim como a própria doutrina da aplicação analógica dos princípios comuns. do Um enquanto princípio da quantidade em geral e do Um enquanto princípio do número. 1004b5-8. é preciso também confessar que ainda permanece obscura a questão concernente às precisas relações entre as ciências que se ocupam respectivamente do Um enquanto Um (isto é. a afecções como o Mesmo e o Semelhante. correspondendo. iguais (���). acima. �.213 Não nos escape. 1053b20-1: “pois o Ser e o Um são os mais universais de todos os predicados”. em comum. como os axiomas da igualdade. de algum modo. da unidade eventual de todo o saber científico. como veremos. cf. recorrendo à doutrina aristotélica do Um. 210 211 212 213 4 A unidade impossível do saber 4. 3. Dois grupos de argumentos introduz o filósofo para justificar aquela sua conclusão. n. �. e se tais propriedades correspondem. mas com toda a clareza desejável. Met. 19-26. por que estranharmos que a filosofia primeira estude as proposições “chamadas de axiomas. os falsos. 1021a11-2: “com efeito. noutras palavras. o Igual. “logicamente” (�������) e a partir do que já foi estabelecido (������ ��������). que. reconhecer que os textos do filósofo deixam insatisfeita nossa curiosidade. semelhantes (�����). Não é objeção válida a de que também se podem obter conclusões verdadeiras a partir de 216 Cf. analogicamente. ciência do número. Sob esse prisma.198 a 202 deste capítulo. entretanto. 15.2 e n. portanto. acima.. 249 250 . 3. nas outras categorias. I.217 a cuja explicitação e fundamentação um capítulo inteiro se consagra. com. que diz procederem. nas categorias da essência e da qualidade. nos parece capaz de lançar alguma luz sobre uma tão difícil aporia. Anal. o estudo dos gêneros científicos e dos princípios próprios. 1003b34 seg.. na categoria da quantidade.2 e n. então.. para o estudo de uma das questões mais fundamentais que interessam à teoria aristotélica da ciência. enquanto têm. se a explicação que conjecturamos. do Ser enquanto Ser). às que pertencem ao Um. Met.220 opondo a existência reconhecida de silogismos falsos à dos verdadeiros. IV. na categoria da quantidade.219 O primeiro argumento “lógico”. aquelas cuja qualidade é uma. todas. Cf. portanto. ibid. 3. 1005a20. 88a19 e 31. 2. de premissas falsas.12. porém. naturalmente. mostra ser imediatamente evidente. nos embaraçava212 poderá tornar-se inteligível: a filosofia primeira ocupar-se-á do axioma “dos restos iguais” porque ele exprime quanto pertence.216 já nos deixavam. a impossibilidade de princípios idênticos não é mais do que a expressão da unidade impossível do saber científico. �. respectivamente.6 e n. 215 Cf. precisamente. respectivamente. porque provêm de premissas verdadeiras os silogismos verdadeiros e. 88a18-9. 218 Seg.140 seg. 219 Cf. Anal. 217 Seg. Seg. I.109. analogicamente. por atributo. l. na medida em que ele assume determinada natureza genérica. ou não. de uma Ciência suprema que conheça todas as coisas e. acima.. part.. Met. Nesse sentido. 220 Cf. antever a conclusão aristotélica de que “é impossível que tenham os mesmos princípios todos os silogismos”. IV. Cf.218 E. 32.1 Argumentos “lógicos” e argumentos analíticos O estudo da noção de princípio e a consideração da natureza dos diferentes princípios encaminham-nos. Met. acima. Anal. 32. 1.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira as afecções (����) por si do Um enquanto Um (porque idênticas às do Ser enquanto Ser) e seus acidentes. 2.. nas matemáticas”. aliás. nos Segundos Analíticos: referimonos ao problema da possibilidade. I.136 seg. �.

32. l. I. 6. nessas linhas. fundamentam-se em razões gerais aplicáveis a toda silogística e não somente não concernem especificamente à esfera científica. respectivamente. . se não ajustam uns aos outros. são os dois argumentos construídos ��������������� que. 402a23-4. como diferentes significações do ser. Anal. eis o que nos diz o segundo argumento.230 4.. acima. 32.228 É que. 230 Seg. 88b1-3. Lembra-nos o primeiro deles225 que os princípios de muitos de nossos conhecimentos científicos. como diz Ross (cf.232 228 Cf. 2. 226 Cf. so that there may be a considerable admixture of true propositions with false in a chain of reasoning”. Seg. que pontos e unidades. 189b23-4. 222 Trata-se de um argumento fraco.226 Qualquer tentativa de aplicação dos princípios de um gênero a outro levar-nos-ia. Três outros argumentos dialéticos são introduzidos posteriormente. se toda demonstração se serve dos princípios comuns229 a todas as ciências. os gêneros dos seres são diferentes e tais atributos pertencem às quantidades. na dispersão insuperável do ser em múltiplos gêneros supremos – as categorias são os Gêneros do Ser231 –. 1. 28. ibidem. E. I.222 O segundo argumento “lógico”223 lembra apenas que nem mesmo as premissas dos silogismos falsos podem ser universalmente idênticas. já que há falsidades contraditórias e incompatíveis entre si. também.129 a 131. 2. com efeito. outros. ou melhor. por sua vez.227 Se são genericamente diferentes os princípios próprios das diferentes ciências e não se provam 221 Cf.221 pois isso só pode ocorrer uma vez numa cadeia silogística. a Metafísica: “dizem-se diferentes quanto ao gênero (�������� �����) as coisas cujo sujeito primeiro é diferente e que se não resolvem uma na outra. com as quais se provam mediante os princípios comuns”. falsos os termos médios que se assumirem para provar. ibidem. as categorias da qualidade e da quantidade. também. cf. II. também. ad locum).. 32. por exemplo. 1089b28. cf. cap. destarte mostrando que sua doutrina dos gêneros da demonstração encontra seu fundamento último na plurivalência semântica do ser... por definição. o falso. acima. 229 Cf. em 88b2-8. II. como os princípios próprios de gêneros que se subordinam a uma ou outra das categorias. Seg. Anal. 88a30-6.2 e n. Fís. uma falsidade não podendo concluir-se senão a partir de premissas igualmente falsas. ou que o igual é maior e é menor etc. 225 Cf. necessariamente. a inseri-los. nem ambas numa mesma coisa. Seg. 6. mas são-lhe também estranhos. possuindo-a aqueles.2 e n. I. cf. Da Alma I. 32. 227 Cf. 6. como os atributos dos diferentes gêneros categoriais e não. nas três figuras. 8. 1. I. como termos médios ou maiores ou menores. Sobre as diferentes ocorrências. nem se resolvem elas umas nas outras nem em alguma coisa única”.125. isto é. Nossa tradução concorda com as de Mure e Tricot (cf. cf. Seg. Anal. os princípios de muitos dos silogismos ou cadeias de silogismos verdadeiros que possuímos. 87a36. IV. I. já que serão. �.I. Pois. I.13 seg. também não serão os princípios comuns que constituirão premissas a partir das quais se possa tudo demonstrar. 5. necessariamente. a diferença irredutível entre os gêneros: “com efeito. l. que se exprime nas suas significações múltiplas...224 Em verdade. 251 252 . 27. estas últimas não possuindo posição. IV. the only �����that are not ����”. acima. nos interessam. I. 88a19-26). a unidade e o ponto. 88a27-30. as falsas premissas. cf. 411a13-20. cap. a que nos referiremos mais adiante. 33-4. 231 Cf. como. pois “not both the premisses of a false conclusion need to be false. por exemplo. Anal. merece-nos uma especial atenção. como vemos. Anal. tais outros às qualidades unicamente. n. como se vê. uma qualidade . 1065b15. II. 223 Cf. de silogismos que provam conclusões verdadeiras a partir de premissas falsas. como �������������e �����������. 20. como nota Ross (cf. sua nota ad Met. e quantas coisas se dizem segundo uma diferente figura de categoria do ser (pois uns dentre os seres significam ‘o que é’. para exemplificar a diversidade dos gêneros e sua irredutibilidade. 2. �.. 13. menos.. conforme à interpretação de Ross e Colli (cf. Já nos dizia. 32. 224 Cf. 232 Met. 1. Anal. Um e outro argumento.. acima. operando uma ��������� que sabemos excluída da demonstração científica. 1024b9-16. nota ad Fís. �. 1016b33. particularmente. nem por isso subsiste. 412a6. ad locum): compreendemos �������������������� a l.2-4. introduz o filósofo. 3. 88a36-b3. que justiça é injustiça e que é covardia. nota ad Seg. Anal.1. aliás. já que a ciência exclui. Prim. Met. 96b19.2 As categorias do ser e os gêneros científicos A argumentação aristotélica.. Da Alma II. são genericamente diferentes. 189a14): “The categories are the only ���� proper.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira premissas falsas... nos silogismos do outro gênero. as conclusões de uma pelos princípios de outra. onde se caracterizam.. �. Sobre as categorias.

contra os que afirmam haver uma ciência demonstrativa dos princípios próprios das ciências particulares: “Mais l’intention du Stagirite est précisément de montrer qu’une telle science n’existe pas. ex quibus probantur principia immediata aliarum scientiarum. seu metaphysica. 234 Cf. a dispersão do ser nas categorias torna impraticável e carente de cientificidade qualquer tentativa nesse sentido. os princípios de uma ciência superior e anterior. assim. então. IV. a impossibilidade de uma ciência demonstrativa dos princípios comuns:238 uma tal demonstração suporia um gênero-sujeito comum para todas as coisas. mostrando-nos que “ser não é a essência de coisa alguma. bom número de intérpretes. Sof. destarte. 1. portanto. Contra uma tal violentação do texto. uns aos outros. Resolverá o filósofo a aporia. Ora. então. acima. como sabemos. 1. Met. Anal. Seg. acima. ser um gênero único dos seres”. 3. I. em verdade. Anal.. a unidade de uma ciência se define. ciência por excelência e dominante (�����). já que se servem todas as demonstrações dos axiomas. que se restrinja o número de ciências ao de categorias. Anal.9 e 10. Ergo philosophia prima. 6. o mesmo que postular um gênero único de todos os seres (toda ciência demonstra as afecções de um gênero-sujeito e toda demonstração desenvolve-se no interior de um mesmo gênero234 ). I. 11. em cada demonstração. Anal. necessariamente. Mas constituir.”233 Porque se conhece haver princípios comuns a todos os seres. Seg. n.56 deste capítulo.1 e n. interrogando-se sobre a possibilidade de haver uma ciência dos axiomas.236 enfim. também. fariam parte integrante. Ross (cf. mostrando-nos como cabe à ciência do ser elucidá-los. O que não significa. 18.). com toda razão. acima. se pode. E já Santo Tomás resumia o texto de Seg. a interpretação de Filópono (cf. que acompanharam Zabarella e Trendelenburg (cf. do gênero supremo de todas as coisas? Mas tal é. his omnibus scientiis præeminet” (In Post.. Mansion. ao dizer. Tal era.2 e n. compreende-se. loc. os gêneros diversos que se constituem no interior de cada gênero categorial. tomar o Ser como gênero supremo de tudo que é. como sabemos. com. e S. l. Assim não entende. por sua vez (cf. 2. acima. Le jugement d’existence. �. precisamente. I. cf. cit. ciência. Em verdade.235 que “não é possível. forçosamente. o saber único e universal que sabemos inexistente e com o qual. I. isto é. confundir a ciência aristotélica do ser enquanto ser. obviamente. n. 1...147 seg. compreendendo corretamente que “Aristotle must surely mean that there is no 253 254 . I. proposições comuns a todas as disciplinas científicas. 92b13-4. quae considerat principia communia. 76a16-22 com as seguintes palavras: “Non est uniuscuiusque scientiæ demonstrare principia sua propria: haec enim possunt probari per communium omnia principia.2 e n. ibidem.241 Porque princípios em seus gêneros respectivos. p. E. acima.). pela metafísica.239 o mesmo fato de ser princípio primeiro. tomados como premissas primeiras. precisamente. na Metafísica. acima.42). II. mais universais e anteriores. quae ut sibi propria considerat philosophia prima. Se assim é. 236 Met. todas as proposições que cada uma das ciências demonstra. de nenhum modo. com efeito. inferindo progressivamente a partir daqueles princípios (ou de alguns dentre eles).2. 237 Seg. Seg. 7. IV. puisque les principes propres ne sont pas susceptibles de démonstration. 7 a16 seg. mostrando ser irreconciliável a interpretação de Zabarella com o que Aristóteles diz. nota ad 76a16-18). todas as coisas num único gênero. 238 Cf. nem ao um nem ao ser. 3. �. I. Anal.. o texto coloca tal questão como uma aporia. 28. interpretado como se apenas significasse que não podem os princípios próprios ser demonstrados pela mesma ciência de que são princípios. isto é. sendo-o. no entanto.1 e n. 87a38. 74b24-5. Cf. como se poderiam demonstrar senão a partir de princípios mais elevados.230. também. também. 13-5.. 9. pela unidade de seu gênero-sujeito. 75b37-8. 9. 998b22. Tricot. 235 Seg. uma vez que não são menos irredutíveis. IV. poderia surgir a tentação de construir-se um saber supremo e universal que englobasse todas as ciências. S. levantam-se. cit. 88b1-2. 4. em prova derradeira de que “não estão. Syn.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira A doutrina das categorias constitui-se. entretanto. Mure. ed. 997a2-11. XVII. Seg. ainda que lhe não seja possível demonstrá-los.62.143-144. IV. Cf. nota ad 76a18).243 239 240 241 242 243 Cf.242 a que todas as outras se subordinariam e de que.. 9.237 Com semelhante argumentação mostrara o filósofo. 172a13-4. cf. Aristote ne croit pas que la metáphysique doive s’immiscer dans le domaine de chaque science”. 2. I. uma ciência única seria. a filosofia primeira. nota ad 76a18).. que “os gêneros dos seres são diferentes”. 32. L’interprétation de Saint Thomas est donc à rejeter: la philosophie première ne fournit pas la preuve de ces principes et leur caractère indémontrable n’est pas seulement relatif à la science dans laquelle ils sont principes. Anal. Mansion (cf. Anal. que o mesmo fato de haver princípios próprios e de não poderem demonstrar-se as coisas senão a partir dos princípios de cada uma. os quais. se a constituição de uma demonstração implicaria a postulação de um gênero comum para todas as coisas. o que é primeiro no gênero a que a demonstração concerne240 mostram a impossibilidade da demonstração dos princípios próprios. haveriam de ser. pois não é um gênero o ser”. IV. Cf. com. Anal. 233 Ref.

se tomam como princípio o que não conhecem e tecem de desconhecido suas conclusões e suas proposições intermédias.118 e n. o ser que lhes não é possível ver à luz do dia. 248 Cf. senão uma denominação mais obscura. Com efeito.253 ela é o coroamento de todas as disciplinas. IV. acima. entendendo corretamente ter Aristóteles excluído. opondo-as. realmente. de elevar-se acima das hipóteses e de remontar ao princípio.VI.252 Por isso mesmo.244 Porque incapazes de explicar-se sobre elas. de direito. somente como em sonho. I.VI.VII. que há. 258 Cf. que o filósofo platônico utiliza. a razão da essência de cada coisa. Rep. a impossibilidade de um saber uno que os compreenda e a seus princípios. delas partindo. 533c. crê. 510cd. Rep.219). entretanto.4 e n.254 Ora. la plus indispensable des sciences” (ibidem. em Aristóteles. 245 Cf. precisamente. Toda a argumentação aristotélica insiste. 534e. Aubenque (cf. como vimos. uma tal autonomia como uma debilidade qualquer de ordem epistemológica. todas essas disciplinas servem-se das hipóteses sem tocá-las245 e. acrescenta Le Blond (cf. não princípios. a possibilidade de uma ciência universal que conhecesse e demonstrasse os princípios das ciências particulares.248 não poderão considerar-se. Rep. a crítica platônica dirigida contra as ciências particulares. só a dialética é verdadeiramente ciência. de aritmética e de disciplinas dessa natureza assumem o par e o ímpar. Rep. 244 Rep.3 Um paralelo com o platonismo O paralelo com o platonismo impõe-se.2 e n.150. de direito. as três espécies de ângulos e coisas análogas.VII. estimam. 246 Cf. 533d. 257 Cf. Rep.2): “Nous nous retrouvons ici en présence de l’embarras d’Aristote sur la nature de la métaphysique et de sa relation aux sciences”. ibidem. nem a si mesmos nem aos outros. as figuras. quoique elle soit la plus haute. 256 Como interpreta. uma fundamentação externa que se sabe. por certo.21 a 24. onde aludíamos à revalorização das ciências matemáticas que opera a concepção aristotélica da ciência. 510c. no texto. por conseguinte. como coisas a todo homem manifestas”. ao descrever o recorte do ser operado pelas ciências particulares. 1962.. E não se concebe. p. 510cd.VI. acima.249 Por outro lado.256 é que a inexistência de uma tal fundamentação não nas inquina de precariedade nem desqualifica. utiliza-as como degraus e pontos de apoio para elevar-se até o an-hipotético e ir ao such dominant science”. 76a16 seg.. ibidem. Le problème de l’être. entretanto. o método dialético.. princípio de tudo. de uma tal ciência: “elle est impossible.. acima. “delas fazendo hipóteses (���������)..257 parece retomar. 2. rejeitando sucessivamente as hipóteses.244 deste capítulo. ciências. diz. 250 Cf. impossível. em tendo-o atingido. ainda. às outras disciplinas não cabendo. se a dialética platônica assim empreende a fundamentação das ciências particulares e a legitimação de seus princípios. Cf. para somente então. assim. Anal. aproximadamente. aqui. conhecem. sobre elas. passando de Idéia em Idéia251 e apreendendo. 533c.250 “fazendo das hipóteses. ibidem. Cf. É verdade que a Metafísica. 9. no aristotelismo. descer de conseqüência em conseqüência. a relação entre a metafísica e a ciência é deixada na obscuridade.. em contraposição a elas. 249 Cf. 533bc. nenhuma ciência suprema recebe tais funções em herança. 511a. as mesmas palavras com que o livro VI da República expunha258 Cf. ainda que atinjam algo do ser. tanto quanto a afirmação da superioridade do método dialético. 533cd.. Donde a autonomia de que gozam as ciências particulares. em Seg. Cf. mas realmente hipóteses”. no entanto. ibidem. no fato de que os que se ocupam de geometria. 511bc. à ciência que considera o ser enquanto ser e suas propriedades.216-9).246 incapazes. uma clara referência à metafísica e que. assim. como se as ciências particulares exigissem. e é sumamente instrutivo. que nenhuma razão têm a dar (������������������������������������). indevidamente. I. que. p. la plus utile. como se as conhecessem e. em mostrar a irredutibilidade dos gêneros próprios e. porque.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira 4.VII..247 Por isso mesmo. percorremlhes as conseqüências. 247 Cf. 1. fundamenta-se.. p. n. Citando-o. Logique et méthode. ao contrário. Rep. 534b. porém. por isso mesmo. ibidem. 251 252 253 254 255 255 256 .255 em oposição à dependência que guardam suas congêneres platônicas em relação à dialética que as justifica. 1939.VI. Cf.

4 e n. 7. nem enquanto ser. I. ao desvendar a natureza da essência e das outras categorias a que se subordinam os gêneros científicos particulares e ao estudar e precisar (em Met. ao mesmo tempo. cada ciência particular dá. De modo semelhante. �. exprimindo o conhecimento absolutamente necessário de princípios indemonstráveis. cap. II. investigar o porquê. 1. acima. no platonismo. 2. paralela a esta. passagem que precede imediatamente a que acima traduzimos. IV. mas ela é.5.VI (cf. mas é preciso que cada um dos princípios seja. l.267 Converteu-se. �. nosso cap. A aproximação entre esse texto e o de Rep. ora. comentando. 260 Cf. “circunscrevendo um certo ser e um certo gênero. no entanto (cf.. �. para ver-se como procedem em relação ao “o que é”. naquela passagem da República. 5. nota anterior) foi efetuada pela primeira vez. por outro lado. as suas definições iniciais: elas têm em comum com as ciências stricto sensu o partirem de um “o que é” que não demonstram.264 pois. ou o emprego de construções semelhantes encobrem. tentar mostrar é como a ciência do ser enquanto ser justifica o saber científico em geral e enquanto tal. 6.. Ross (cf. ainda que elas digam respeito a causas e princípios. com. demonstram assim.265 por si só fazem fé. n. não difere.. com razão. tãosomente. o terem-se passado em revista diferentes espécies de ciências particulares. 265 Como. por si mesmo. assumidos concomitantemente. II. também.. de modo mais necessário ou mais frouxo.91 seg. Atente-se. com efeito. os pontos de partida de que procedem. 1. digno de fé (�����))”. cf. uma mudança radical de perspectiva. de uma indução (�������) que leva à apreensão do “o que é” e permite um outro modo de mostrá-lo (�������������������� ��������). em �. bem ao contrário de suas homônimas platônicas.3 e n. 1025b17-8. tão-somente. de Met. entretanto. o ‘o que é’.268 consagrar-se-á ao estudo do ser enquanto ser e dos 262 Cf. com. 263 E o texto fala. em sentido absoluto. 9.2. à qual se refere a nota anterior. até agora. é preciso dizer que a retomada das expressões de que Platão se serve. temos insistentemente mostrado. em expressão de independência e autodeterminação. para elas. 1025b7-18. 264 Cf. empiricamente. �. nem produzem nenhuma razão do ‘o que é’ (�����������������������������������) mas. mas por si mesmas fazem fé (��’�����������������������) (não se deve. Anal..1.3 e n. simplesmente. Tal ������� única.263 É que as hipóteses da ciência aristotélica. Met. destarte. �. outras assumindo. mas algum outro modo de mostrar. acima. em verdade. Eis porque é manifesto que não há demonstração da essência nem do ‘o que é’. de que estimam não ter de dar razão (�������������): “Mas todas essas” – escreve Aristóteles –. acima. a partir de uma tal indução (�������).5 e n. da inteligência (����). Sobre o significado e alcance desse processo epagógico. fusionadas.I. 1. a que sabemos competir a apreensão dos princípios.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira a insuficiência das ciências que assentam suas demonstrações em meras hipóteses. ao longo de nosso presente estudo.53 seg. em que a passagem. 257 258 . II. que mostram. se se interpreta o texto à luz de quantos outros viemos.. 1. a30-b21: “São verdadeiras e primeiras as premissas que.. por caber ao mesmo pensamento (�������) tornar evidente o ‘o que é’ e se é”. nos princípios científicos.219 e 220. do ser. 7. que se não imiscui no domínio das outras ciências nem tenta sequer provar os seus princípios próprios (delas). conforme ao sentido comum do termo. em que hipótese e definição se conjugam. à nossa percepção os gêneros de que se ocupam e constróem.VI. p. os atributos por si do gênero a que concernem.260 O fato de circunscreverem parte do ser e de ocuparem-se de determinados gêneros não as conduz a ocupar-se do ser enquanto ser. impossível. no que não soubemos acompanhá-lo. o que constituía o motivo de uma crítica severa.. também. acima. ele próprio.I. Mas o eminente historiador atribui à passagem aristotélica em questão a mesma perspectiva crítica do texto da República. mas não.. também. como hipótese.324 e 325.116). Quer mostrar o filósofo que não consideram as ciências particulares as causas e os princípios gerais dos seres enquanto seres. 261 Cf. não somente uma tal interpretação é extremamente insatisfatória. primeiros. também. nada têm a ver com um conhecimento meramente hipotético. integralmente. que apreende. 2. dele se ocupam. Cf. 15-6).262 sem que nenhum discurso anterior tenha vindo “produzir razão” do “o que é” ou dizer algo sobre o “se é” dos gêneros. a nosso conhecimento. 100. Met. 1063b36 seg. sobre se o gênero de que se ocupam é ou não é (���������� �������). a “ciências” mais “frouxas”. veja-se adiante. IV. Met.266 sem que nenhuma outra proposição lhes seja anterior. acima. obviamente. umas tornando-o evidente à percepção sensível. por obra de um mesmo pensamento.259 Ora. a qüididade e o ser.12.. Goldschmidt (cf. por exemplo) a significação ontológica da definição. III. 1. não por meio de outras. 1025b3-7. 268 Como diz. 76a16-8): “in the Methaphysics no attempt is made to prove the ����� of the sciences”. nota ad Seg. 1064a711 está construída de modo a parecer significar que a indução em questão é. dele procedendo. 1. uma vez que os mesmos “o que é” e ser de seus próprios gêneros são. 266 Cf. 267 Cf. O que se poderia. “Le système d’Aristote” 1958-59. nada dizem. Indissociavelmente associada à inteligência que apreende seus princípios. por V. conta de seu objeto. �. Tóp.261 como princípios 259 Met. curso inédito. O texto refere-se. E a ciência do ser. ibidem. assim.

. a partir dos seus princípios próprios. Cf. o confinamento necessário das ciências particulares a suas esferas próprias. à aceitação do interlocutor. Sof. 259 260 . é sofístico o argumento dialético que se quiser fazer passar por científico: não se substitui a dialética à ciência. Anal. 164b4. tendo. Tóp. indemonstráveis e imediatas. que constitui. 11. Cf. a extensão e a natureza das questões e problemas que se poderão considerar pertinentes à ciência.4 A dialética. especificamente. Por outro lado.5 As “questões científicas” e o “a-científico” Por outro lado. 278 Explica-se. 2.277 Com efeito. 104a5. portanto. Seg. a cada ciência.1. Por isso mesmo. ibidem. 75b37-40. B?). I. Anal.I. 11. nas suas particularidades. 40 seg. 176b6. Prim. os “comuns” e a sofística Se assim se passam as coisas. ainda que uma prova se apóie em premissas verdadeiras. aparenta. obviamente.169. 9. 10. sem converter-se em sofística e mera aparência de sabedoria. sem dificuldade. na discussão. 4. precisamente. 32. lhe pertencem. 185 14-7. ibidem. com exatidão. mas sua utilização indevida. Anal. se a demonstração se faz do que pertence ao sujeito. aquelas premissas de que partem os silogismos que a ela respeitam. Ref. em outras palavras. 12. com.I. então. acima. 172a2-7. 47a15 etc. Aristóteles distingue. 171b16-8. propriamente. “o modo pelo qual Brisão efetuava a quadratura. Ref. I. se não conforma ao objeto (������ ��������������). ele é enganador e injusto. cf. 76a3). p. mas por acidente. a interrogação contraditória (A é.. I. 3..223-5.2. sem que sua real universalidade se deva ou possa entender como a de um saber uno das particularidades de todas e de cada uma das regiões ontológicas. Observe-se o uso dialético de ���������� em Tóp. por si. VIII. se é possível identificar “questão silogística” (���������������������) e “proposição de contradição” (�������������������). respectivamente. ibidem. 101b28 seg. sem que isso realmente ocorra. como veremos no cap. 3. vol. 4. poder-se-á falar. Sof. 19-20.VI. no entanto. cf. l.278 e. entretanto. para uma progressiva aproximação do objeto e prepare. Fís. se dirão científicos.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira atributos que.. o conhecimento científico. I. a mesma construção da expressão e sua identificação a “questão silogística” dizem. 14. mesmo se a quadratura do círculo se efetua. com efeito. maiores e menores que as mesmas coisas são iguais umas às outras”. respeito ao sentido dialético originário de ��������. objeto (������). Seg.3 e n. evidentemente. Anal. ou não.270 Ocorrem. enquanto tal. fácil nos é. Sof.269 Pois. 277 Cf. permite ao filósofo precisar. 161a29. Segundo Heath (Greek Mathematics. a Cf. o de um silogismo que. também. I.. 11-2. o que. 4. 10 e 11. instrumentalmente. 11. de um princípio geral tal como: “Coisas que são. l. e que. cf. nota ad Seg. veio apenas confirmar. em cada ciência. 20-2. conformar-se-lhe:274 parecendo conformar-se ao 269 270 271 272 Cf. 9. ibidem.271 como a da quadratura do círculo. a um objeto particular determinado. Brisão terse-ia servido. demonstrações dessa natureza. 276 O que não impede que o uso adequado dos ����� pela dialética possa contribuir. na esfera de cada ciência. Mas é uma distinção que o filósofo nem sempre mantém. com. embora se não conforme ao método de cada disciplina.. apud Mure. I. visto que são proposições.273 Pois um dos sentidos em que se diz sofístico um raciocínio é. também. a expressão pela definição habitual de �������� como uma das partes da contradição. este. erístico. conflita com a norma da unidade genérica de cada demonstração: não se prova o demonstrado enquanto pertence ao seu gênero. compreender por que deve Aristóteles desqualificar todas as tentativas de construir um conhecimento pretensamente científico a partir de proposições de caráter geral ou dos “comuns” (�����) de que se serve a dialética. entre a proposição e o problema dialético. designando o que alguém propõe (���������). não é isso bastante para que tenhamos um conhecimento científico. não é o recurso dialético aos elementos comuns que configura o raciocínio sofístico. acima. reconhecido que se pode transformar toda proposição em problema.272 nas quais os argumentos se constroem sobre elementos comuns. 77a36 seg. aliás.. nesse sentido. por si. cf. como se se ajustassem. nos Tópicos. destarte. 17. 101b35-6. 274 Cf. por Brisão.276 4. de “questão científica” 275 Cf. que a discussão sobre a impossibilidade de um saber uno de todas as coisas. isto é. que não apenas pertencem ao sujeito em questão mas também a outros. 273 Ref. por esse motivo é sofístico”. porque.275 Como se percebe. l. para a quadratura do círculo. 171b16-8. IV.

se mede e se define. “dar razão” dos princípios. 77b12-4. 3. tampouco. por vezes. na passagem em questão. discordamos. a partir dos princípios de suas respectivas ciências. na opinião do autor.I. enquanto geômetra. acima mencionado. escapa. discutir. se a dialética prepara a inteligência dos princípios próprios. Nem toda questão interessará. tudo quanto é má geometria (e que. 2. Ref. a argumentação desenvolvida pelo competente e pelo sábio. 281 Cf. Anal. Le problème de l’être. mas um paralogismo. a eventual cientificidade de uma questão (“A é B?” ou “A não é B?”) repousa na possibilidade de um dos dois membros da contradição (“A é B” ou “A não é B”) servir de premissa para silogismo de uma ciência determinada e por essa possibilidade. 77b16 seg. conhecendo a verdade. instaura-se no saber que delas decorre. “geométrico”. 11. acima. 1. o “a-científico” (o “a-geométrico”.4. E assim como não cumpre ao geômetra a discussão contra os que negam ou põem em dúvida os princípios de sua ciência nem resolve a geometria tal espécie de objeções. I. a partir dos princípios e conclusões geométricas. responder. se constrói. I. dans l’incapacité où elle est de démontrer sans cercle vicieux ses propres principes. também os ignorantes têm-na sempre. uma ignorância (������) específica em cada domínio (a ignorância. também. 16 e 17) ao estudo dessa espécie de ������. 12.282 nem se discute geometria entre os não-geômetras: o mau argumento ser-lhes-ia. Sobre a distinção a fazer-se entre a refutação própria à ciência e a refutação dialética. uma referência provável à filosofia do ser.4 e n. I. Fís.. enquanto geômetra. ainda que a partir de premissas geométricas. 184b25 seg. 9 (todo o capítulo). em cada ciência. com qualquer discussão ou argumento con- do. acima. cf.. 77b6-9. destarte. do termo �������� em sentido extremamente lato. mas categórica. totalmente. poderá dizer-se. 283 Cf. 185a2-3. “a outra ciência comum a todas” (ibidem. 280 Cf. Seg. A “questão científica” não é senão a pergunta que enseja a “resposta científica”. algumas linhas antes (cf. não faz parte. então. de Fís. Anal. 77b11-2. do ponto de vista dos �����. cf. nem nos parece importante seu argumento de que a dialética aristotélica não é uma ciência. isto é. 1962. indiscernível. 172a23 seg. nessas palavras. mas a de preparar a sua aquisição. embora lhe não caiba. cf. I. Anal. não. 11. 286 Recorde-se. por não ser estranho ao domínio da geometria). dir-se-á “a-geométrica” tanto a proposição ou silogismo estranho à ciência geométrica (por exemplo: uma proposição ou silogismo aritmético) como. Seg. num certo sentido. Anal. Fís.2 e n. o filósofo também designara como paralogismo (������������) na esfera científica o silogismo correto construído sobre pre- 261 262 . 2. a ciência propriamente dita deles principia e o sábio. 77b5-6. p. IV. sem ter por que ocuparse. tão-somente. cuja incompetência para o estudo dos princípios próprios procuramos estabelecer nas páginas precedentes. Em outras palavras. I. porém. acima. físico ou astrônomo. a tarefa de demonstrar os princípios das ciências – sabemo-los indemonstráveis –. concernem.. de modo semelhante. pretendendo que Aristóteles aí reafirma aquilo que. necessariamente. 282 Cf. Nem lhes caberá. Seg. 11. outra coisa seria desconhecer sua capacidade dialética de criticar. 2. como veremos no cap. em geometria) e. por exemplo. no domínio geométrico).281 Evidentemente. 101a5-17. I. Seg. enquanto tal. resolver quantas falsidades se lhes apresentam.280 Nem é toda pergunta que se faz a cada sábio nem a todas deverá cada um deles. constitui o princípio geral de sua doutrina sobre os princípios da ciência. 12. Os comentadores gregos (cf. Ross. tão-somente. 3. cf. médicas ou geométricas. entretanto. por exemplo. les tient d’une science antérieure” (ibidem.. Sof. Por outro lado. ao geômetra enquanto geômetra. já que vimos o filósofo servir-se. ao contrário do dialético. 77a33-4). também não se refuta o geômetra ou outro sábio qualquer. a propósito das premissas sobre que se constrói o silogismo apropriado (�������). quando julga haver. 253a32-b6. por que o seja materialmente – se se utilizam proposições que contradizem as verdades geométricas285 – ou formalmente – se. senão por acidente. portanto. respectivamente. Tal capacidade.422-3) do texto. questões que se dirão. 185a14-5. VIII. imediata e indemonstrável. porque nos parece inaceitável a interpretação que dá Aubenque (cf. à competência do físico. Sof. Mas uma coisa é afirmar a incapacidade. a proposição demonstrativa. relativamente a cada ciência particular. de Ross. correlativamente. atendo-se aos limites estritos definidos pela natureza do gênero de que se ocupa.422). com razão. que.VI.284 Mas noções como a de “a-geométrico” (e a da ������ correspondente) são forçosamente ambíguas: com efeito.286 cernente aos mesmos princípios de que parte: uma tal discussão. tal como a caracteriza a passagem de Seg. II. não um silogismo. Seg.52 e 53). I. Ref. que seria a ontologia. de que não interroga o que demonstra. Anal. de suas hipóteses e definições iniciais. segundo o qual “toute science. I. uma alusão à dialética. com argumentos estranhos à sua ciência particular. em Tóp.279 Há. I. então.283 Donde a possibilidade de definir. o qual. cf. 12. pois. a tese de que tudo está em repouso. por inúmeros outros textos confirmada (cf. também. quantas provierem de uma demonstração incorreta. anterior à ciência. I. 284 Cf. deverá “dar razão” (��������������) das que entendem com a sua ciência. I. a formulação categórica das premissas demonstrativas.. por isso mesmo. dela.146) e à qual compete. se a partir delas se podem provar conclusões a que medicina e geometria. por exemplo. 12 que comentamos e a afirmação feita pelo filósofo. 2. no ignorante em geometria. p. Seg. Eis. 1. A discussão sobre os princípios concerne. nota ad locum) viram.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira (���������������������). de discutir questões geométricas. por ela contradizer a hipótese fundamental da física que diz ser a natureza princípio de movimento. nem é interrogativa. 185a2-3). 77a29. obviamente. 12. com que todas as ciências se comunicam (cf. interroga279 Nenhuma contradição opõe a noção de “questão científica”. mas. por exemplo. Anal. 285 Aristóteles consagra dois capítulos inteiros dos Segundos Analíticos (I. 12. no domínio de sua especialidade. Anal. também.

Seg.3. 25. 295 Ibidem. também. de natureza dialética. l. acima. continuava Aristóteles. os Primeiros Analíticos tinham mostrado298 como a adjunção de um novo termo numa cadeia silogística implica o surgimento de novas conclusões em número inferior de uma unidade ao número de termos anterior.292 Consideremos.. de fato. e assim por diante. com a adjunção de novas proposições “D pertence a E” etc. os termos (����) são limitados. Diz-nos ele. quando as conclusões são em número infinito”. uns são por necessidade. é possível obter duas novas conclusões e somente duas: “A pertence a D” e “B pertence a D”.. em geometria. duas premissas e três termos). respectivamente. 298 Cf. 7-8. B pertence a C. que C e E pertencem ao sujeito A pelos termos médios B e D. outro texto dos Segundos Analíticos diz-nos.. que a ciência teria omitido. 88b3-8. a partir de um sujeito primeiro S. que constitui. acima. 12. das articulações causais do próprio real. II. daí resultando duas novas proposições “B pertence a D” e “D pertence a C”. cf. para exemplificar a progressão científica por adjunção de novos termos. 88b3-6. de um traçado geométrico incorreto. 288 Cf. 16: ���������������Prova-se. 263 264 . referindo-se. 14-5: ����������������� Isto é. uma vez que são proposições e as proposições se constituem por adjunção ou interpolação de termo (������� ��������������������������������). se constitui uma série ascendente de atributos P. fazendo-se por adjunção ou interpolação de novos termos. cujo número. o inverso de uma cadeia silogística científica propriamente dita. Por outro lado. especificamente. não é muito menor que o das conclusões que. absurdo.299 O mesmo sucede.290 c) dos princípios. em geral.287 porque são eles suficientemente demonstrativos. 42b23-5. mas por adjunção295 .. 9-10. A pertence a C”. a partir do que já fora previamente estabelecido (���������������).293 com efeito. explicitamente:294 “Expande-se. é impossível que os princípios sejam os mesmos. 32. se os silogismos científicos do porquê não são mais que o desdobramento. por definição. dado o silogismo “A pertence a B. as 293 Assim.291 “Examinando-se. pode a demonstração silogística progredir linearmente. no intervalo BC. Anal. 6-7. a partir de um atributo dado A. por exemplo. outros são “possíveis” (�����������). 297 Cf. 3. desse modo. a questão.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira 4. não por termos intermediários..300 E concluíra o filósofo: “Por conseguinte. obviamente.. ensejando novas conclusões (“B pertence a D”. de modo sucinto. Anal. que era premissa do primeiro silogismo. n. dado o silogismo “A pertence a B. à ciência demonstrativa. e lateralmente. “A pertence a D”. I.. em verdade. A pertence a C”. EDCBA.. como exemplo.288 se neles não se levantassem problemas cuja solução interessa a uma boa compreensão da teoria aristotélica da ciência e se não tivessem sido objeto de interpretações extremamente discutíveis. então. se vão obtendo. Anal. 42b16-23.6 Novos argumentos dialéticos: sobre o número de princípios Tendo analisado os argumentos com que mostra Aristóteles. ibidem. estudando as relações entre os números de termos. um quarto termo D. Prim. em que. Anal. 290 Cf.297 uma interpolação de termos significaria a introdução de novas causas das conclusões obtidas. por exemplo.1 e n. então.. Prim. Seg.289 b) as conclusões são infinitas em número. mas à silogística. destarte. 25. uma série descendente de sujeitos BCDE. não especificamente à demonstração. l. nos silogismos e cadeias silogísticas. 292 Ibidem. a nova premissa “C pertence a D”.223 deste capítulo. o que é. as que poderiam resultar.. de termos. 4. 287 Cf. 32. interpõe-se. O acréscimo de um quinto termo E implicará três novas conclusões (o número de termos anterior tendo aumentado para quatro) etc. que a progressão de uma cadeia silogística. se o novo termo se introduz por interpolação. 291 Cf. dando. l. premissas e conclusões. I. mostra-o a mesma referência à constituição de novas premissas por interposição missas falsas.”.225 seg. I. o primeiro desses argumentos. acima. 78a14-6. pela adjunção de uma nova proposição “C pertence a D”. por eles. 296 Ibidem. 299 Assim. ser impossível que todos os silogismos tenham os mesmos princípios. ibidem. l. 294 Seg. introduz continuamente novos princípios. A pertence a C” (em que há.296 E. se acrescentamos um novo termo D e formulamos. seria dispensável deter-nos nos três argumentos que se seguem. I. l. dado o silogismo “A pertence a B.. isto é. donde a conclusão “B pertence a C”. B pertence a C. em número limitado.. formulado ������� e dizendo respeito. Anal. B pertence a C. no pensamento e no discurso.. 300 Cf. É a seguinte a argumentação aristotélica: a) os princípios não são muito menos numerosos que as conclusões. Que o argumento seja dialético. IV. então. por exemplo. I.. É curioso que considere Aristóteles. 289 Cf. constituindo-se silogismos “colaterais”.

fala Ross (cf. de outro. e. indemonstráveis. acima.301 À primeira vista.4 e n. III. 25 must be later than the present chapter”. 42b16-26: “one is tempted to say that if A. no entanto. a mesma natureza da demonstração silogística exige que novas proposições imediatas e primeiras se formulem a cada passo. Anal. 25. donde a sua ênfase no número. 265 266 . constitui.. como sabemos.306 Pois afirmar o caráter finito do número de termos médios numa cadeia de atribuições. à medida que a cadeia se expande. a impossibilidade de um número infinito de termos médios. 6.304 uma vez que o número de conclusões que se podem obter de um número dado de princípios é necessariamente limitado. nem por isso se torna possível a inferência continuada e ininterrupta de quantos atributos pertencem ao sujeito genérico.307 afirmar. se se demonstra P de S. and that An. de princípios necessários para a expansão da cadeia silogística: ao contrário do que se poderia pretender. Pr. progressivamente crescente. na passagem dos Segundos Analíticos que estamos comentando. formulados os princípios primeiros da ciência. portanto. acima. 88b3-7) de uma “careless remark”.1. Reconheçamos. precisamente. nesse sentido. nas quais termo médio algum pode vir mediar entre predicado e sujeito.281. sua preocupação maior. compreende-se que 301 Ibidem. no texto dos Segundos Analíticos. A limitação da cadeia de atribuições nos dois sentidos. nos Primeiros Analíticos.. é limitado o número de conclusões possíveis a partir de um número determinado de premissas dadas. 3. proposições absolutamente imediatas e anteriores. por isso mesmo. um corolário imediato daquela mesma prova da existência de princípios indemonstráveis para a demonstração. 6.321. em cada um dos dois contextos: com efeito. e conclusões. então. acima. a que opõe. há um número finito n de termos . 303 E. n. 304 305 306 307 Cf.315 e 316. Se.77 e 78. ao contrário. Ao contrário. é a de mostrar as relações numéricas entre premissas e termos. ascendente e descendente. numa cadeia silogística. 32. para uma cadeia relativamente pequena. I.289 deste capítulo. ao invés de considerarmos o caráter geral do argumento. muito menos numerosos que as conclusões. aplicável à silogística geral. DEFGH . had already known the rule which he states in the Prior Analytics he would hardly have written as he does here. quando se demorou mais particularmente sobre as questões concernentes aos princípios primeiros de cada gênero. se se considera que o número de conclusões guarda uma relação numérica constante com o número de premissas e que a diferença entre os números respectivos de premissas e conclusões.5 e n. que tal doutrina.. nota ad Seg.. de um lado. porém. acima. Aristóteles se tenha permitido afirmar que “os princípios não são muito menos numerosos que as conclusões”. tem. 6.302 desmentindo literalmente os resultados a que conduzira a análise da estrutura da cadeia silogística empreendida pelos Primeiros Analíticos. em geral.. l. aliás. ao indagarmos dos intentos específicos que o filósofo persegue. III.. que. I. formuladas graças à adjunção ou à interpolação de novos termos. 25-6. Cf. acima. detemo-nos. que acima comentamos.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira conclusões serão muito mais numerosas que os termos e que as premissas”.305 proposições que exprimem as relações entre as afecções e atributos a demonstrar e os já demonstrados. Anal. é. de que a ciência se ocupa. a de provar a impossibilidade de todos os silogismos construírem-se sobre os mesmos princípios. desconcertante que tenha Aristóteles afirmado. I. cf. Novos princípios têm de continuamente introduzir-se. II. o texto de Prim. III. Cf. novas conclusões somente obtendo-se se novas premissas são acrescentadas. poderá parecer-nos. compreendemos que. que a contradição aparentemente insuperável se atenua. também é.1 e n. 6. Com efeito. enquanto sua intenção. é-nos dado reconhecer que ele retoma e explicita um ponto importante para a compreensão de como se constrói a inferência silogística demonstrativa. na sua aplicação possível à demonstração científica.. definições e hipóteses iniciais da demonstração.2 e n. no entanto. ainda que não tenha sido explicitamente desenvolvida e estudada pelo filósofo na sua explanação sobre os princípios. não serem os princípios dos silogismos. pouco elevada.. III. como conseqüência necessária.303 Parece-nos. forçosamente. evidenciando o aumento progressivo da diferença entre os respectivos números.. por adjunção ou interpolação de termos. por serem proposições. isto é. por si. 302 Cf.

nota ad Seg. Seg.. por exemplo. F. 32. assim. no texto de I. acima.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira intermediários entre S e P.4..313 Identifica-se. Seg. todos os textos que Le Blond cita. ao propósito de Aristóteles. GH .. os n+1 intervalos .. 86a34-37. de termos312 − de que dispomos e graças aos quais obtivemos as conclusões já demonstradas deveria servir.315 seu caráter amplo e geral transcende.. não na doutrina da ciência. duas diferentes posições quanto ao número de princípios da ciência. já que estaríamos reconhecendo. I. FG. De qualquer modo. 87a31 etc. Em verdade. 6. o que pode ser de outra maneira. 27. a cada um dos termos médios que se utilizam (como F. DE. em que não tem lugar a contingência. n. concebendo a ciência. Expresso de modo extremamente sucinto.115-20). portanto. Anal. ridículo (�������) dizer que os princípios são os mesmos no sentido de que são os mesmos os princípios de cada uma das ciências particulares. a interpretação de Ross (cf. pelas suas causas imediatas .. n. por oposição ao necessário. 4. por certo... afirmando-o ora elevado. que os diferentes princípios das ciências são a si mesmos idênticos. segundo a mesma ordem com que o real causalmente se articula). que atribui G à sua causa próxima) e F pertence a S (conclusão de silogismo anterior da cadeia).290 deste capítulo. .316 Haveria outras maneiras de entender-se a afirmação de que são os mesmos os princípios de todos os silogismos que não essa que acima consideramos e que se nos revelou inaceitável? Seria. mas Aristóteles parece significar311 que. como mostraram os Primeiros Analíticos.. ������������designa sempre o contingente. 88b7-8. 25. a esfera da ciência. Cf. sendo indivisíveis (já que consideramos a totalidade dos n termos médios que medeiam entre S e P. lhe pertencem. H. P.. como em muitas outras questões. conforme ao segundo sentido do termo.. 32. p. ela deve.b5. continuamente “recomeçar”. 25.). Anal. nada dizem nem sequer sugerem a esse respeito! 310 Cf. acima. equivale a deixar imediatamente implícito que. I. ora como uma investigação experimental permanente. 88b6-7. em que pese a Le Blond (cf. III. simplesmente. a que nada temos a opor.309 O segundo dentre os três novos argumentos “lógicos” por último introduzidos310 opunha o número infinito das conclusões ao número limitado de termos. Cf. que afirmariam serem em pequeno número os princípios das ciências (por exemplo: Seg. possíveis (�����������). se fossem idênticos os princípios de todos os silogismos. 32. no sentido de que a demonstração de uma conclusão qual312 313 314 315 316 Superior de uma unidade ao número de premissas. “G pertence a F”). I.317 E também seria demasiado ingênuo (�����������) pretender que os princípios são os mesmos. 88b3-7). E.3. hão necessariamente de corresponder a outros tantos princípios da demonstração em questão: conhecemos as atribuições respectivas de . acima. cf. por exemplo). 267 268 . D. EF.298 a 300 deste capítulo.291 deste capítulo. seja pela própria afirmação do número infinito de conclusões.. Anal. 100b2. no pensamento do filósofo. do conhecimento assumido de seu gênero. Cf. a S. II.308 Nesse sentido. cf. acima. G . n. o caráter dialético do argumento.. distinguido pelo filósofo. o ilustre autor está sempre disposto a interpretar qualquer dificuldade que se lhe anteponha. 32. 308 Assim. nesta. ora pequeno. seja porque ele se fundamenta. respectivamente. 309 E nenhum texto aristotélico encontrar-se-á que contradiga tal doutrina sobre o número de princípios. nos Segundos Analíticos.314 Quanto ao argumento segundo o qual não podem ser os mesmos os princípios de todos os silogismos por serem necessários uns princípios e outros. na obra de Aristóteles. ora como uma longa cadeia de deduções silogísticas. mas na teoria geral da silogística. provaremos que G pertence a S porque G pertence a F (proposição imediata. facilmente. que julga encontrar. por si. dada a série cientificamente ordenada S . é-nos lícito dizer que. Mas é absurdo pretender que um número limitado de termos possam combinar-se de modo a formar infinitos novos silogismos. evidentemente.. conforme ao progresso da pesquisa experimental. E. as propriedades que.. entre diferentes inspirações e tendências que Aristóteles não terá sabido conciliar. Prim.. se a ciência tem um princípio absolutamente primeiro e absoluto.. E. ora teria crido haver precisão de princípios em grande número. acima. como indício dum eterno conflito. a mesma oposição entre o necessário e o freqüente (primeiro sentido de �����������) serviria igualmente.. na interpretação dos textos aristotélicos. Logique et méthode. Anal.. F. 311 Seguimos. 32.. I. III... I.. 1939. para poder continuar a inferir. G. também. Empregado em sentido simples. para demonstrar todas as futuras conclusões que viéssemos a estabelecer. o argumento não é de inteligência imediata. corresponde um novo princípio da cadeia demonstrativa (como. 19. por exemplo.. literalmente. Anal. Assim. Seg. Anal. também. o número limitado de princípios − e. uma vez que reconhecemos a impossibilidade do prosseguimento indefinido da cadeia demonstrativa. 42b6-7. I. Aristóteles ora teria julgado necessários poucos princípios. 88b10-5. DEFGH . 317 Cf. em número ilimitado.

1064a10 seg. 1025b18 seg. com efeito. de que nos falam vários textos de Aristóteles. 32.320 pois não há mais que um único princípio primeiro para cada gênero.. Se assim é.. se se tentasse. 1. mostrou-nos a impossibilidade de uma ciência única de todas as coisas. argumentando para mostrar que a física é uma ciência teórica. a física será uma ciên323 324 325 326 Cf. as partes da alma e as coisas A doutrina aristotélica dos gêneros e dos princípios. H. que se multiplica segundo as “regiões” e os gêneros em que o mesmo ser se divide. sob esse prisma. Espeusipo. Da Alma I. por conseguinte.323 o estudo dos gêneros da demonstração veio retratar-nos. desvendando-nos 318 319 320 321 322 Cf. essa relatividade e necessária dependência.. Sobre a possibilidade de Aristóteles visar aqui. acrescentando: “por conseguinte. n.. Cf. obviamente. IV. ao mostrar-nos a unidade de cada ciência determinada pela unidade de seu gênero-sujeito. com mais precisão. Todos esses novos argumentos alinhados pelo filósofo revelam-nos amplamente sua insistência em premunir-se contra toda e qualquer tentativa de atenuar a doutrina da insuperável dispersão do saber científico em múltiplas ciências que nenhum saber uno poderá englobar: recusando. no aristotelismo não pode. acima..56 deste capítulo. l. I. 88b21 seg.9 e 10. É nesse sentido. IV. 1.2 e n. Cf. Se nossas primeiras considerações sobre a noção de ciência já nos tinham revelado. pretendendo-se que os princípios são genericamente os mesmos (���������). 1944. 993b20-1. uma divisão e sistematização das ciências. entretanto. Cherniss. 15-20.326 É verdade que uma passagem de Met. na demonstração. VI. 5 A divisão das ciências 5. Cf.VI. cf.2. VIII. ainda. por não poder dissociar-se da ciência a referência a seu mesmo objeto. p. que opõem. �. Met. 157a10-1.73. como a “projeção” dessa irredutibilidade ontológica fundamental sobre o discurso da ciência. vários textos há. �. cf. como vimos no último argumento.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira quer exigiria o concurso de todos os princípios:318 manifestamente. 269 270 . ibidem. 1. 19-20: �����������������������������������������������������������. acima. acima. l. �. uma qualquer ��������� entre todas as coisas. �. que longamente estudamos nas páginas precedentes. Cf. Seg. 6. Ét. então. de um gênero a outro surge. 20-1. prova o texto que ela não é prática nem poiética. Nic.2. o quadro de um saber necessariamente diversificado. que há de interpretar-se a famosa tripartição das ciências em teóricas (����������). Cf. 1139a27-8 etc. Aristóteles leva ao extremo limite sua oposição à unidade do ser e. do saber que no-lo decifra. contornar a dificuldade. Aristotle’s Criticism of Plato and the Academy. Cf. acima.322 mais uma vez lembraríamos a diferença genérica entre os princípios das demonstrações concernentes a gêneros diferentes. ad 88b9-29.324 ao mesmo tempo que se nos manifestava não ser a diversidade das ciências mais que o reflexo especular das diferenças genéricas inscritas na natureza das próprias coisas:325 a própria impossibilidade da ���������. tão-somente a inteligência e a ciência prática. as primeiras proposições imediatas. se todo pensamento (�������) é prático ou poiético ou teórico. que são os mesmos para todas as demonstrações. práticas (���������) e produtivas ou poiéticas (���������). um caráter eminentemente relativo. I. diretamente. 3. nesse “estado” privilegiado da alma. 1. New York. ainda que diferentes para cada ciência. ibidem. 407a23-5 etc. 145a15-6. l. 1 − um dos textos mais importantes para o estudo do sistema das ciências − parece explicar aquela tripla divisão por uma divisão correspondente das faculdades intelectivas. Met. apud Ross. ibidem.321 E. I. Tóp.. 2. à ciência e à inteligência teórica. 1. por que ela se define. Cf. 7.1 As ciências. onde o surgimento de uma nova conclusão exige a introdução de nova proposição imediata. não é o que ocorre nas matemáticas nem pode isso verificar-se na análise dos silogismos demonstrativos. Russell. Anal. Se essa divisão tripartite ocorre nas passagens dogmáticas em que trata o filósofo do sistema das ciências. 4.319 Também não se poderá pretender que são os princípios primeiros. fundar-se senão na própria natureza do objeto.

manifestamente. I. 1139a27-8. Cf. 8. �. se há uma essência imóvel. l. aquela que se subdivide em política. Aceitamos. a lição unânime dos códigos. particularmente. n. neste parágrafo. a ciência que dela se ocupa é a filosofia primeira “e universal porque primeira” (ibidem. um texto da Ética a Eudemo (cf.328 E já os Tópicos exemplificavam a regra geral segundo a qual as “diferenças” (��������) que especificam as coisas relativas são também relativas. 14) e. estratégia. se consideramos as subdivisões do grupo das ciências teóricas − o único dos três grupos de ciências que o filósofo examina com precisão330 −. à primeira vista uma ciência particular. prática ou poiética de alguma coisa (�����).3. 1. a matemática ocupa-se de seres imóveis. 1026b29-32). Quanto ao fato de apenas referir-se Aristóteles a algumas partes da matemática (��������������������. p. Met. 1.I). a l.I. 145a13-8. produção e contingência Se. Com efeito. 1026a13-6. parece não oferecer-nos maior dificuldade a compreensão do critério que preside às divisões e subdivisões do sistema aristotélico do saber333 e se. Die Philosophie der Griechen II.327 Não se esqueça. mas não imóveis (��������������������’�����������). 1. porém. como observa Goldschmidt (cf.2 Ação. pormenorizadamente. 333 Não abordamos.334 concernem ao domínio da contingência: “Ao que pode ser de outra maneira (�����������������������) pertence. em curso proferido em 19581959. contra. VI. praticamente. prática e poiética e. l. com a quase totalidade dos comentadores e autores modernos.VI. mas não separados (���� �������������������������) e a filosofia primeira ou teologia diz respeito aos seres.. Zeller. acima. 9). também. �. Met.331 Tínhamos. p. que física. Ét. a Ética Nicomaquéia é bastante explícita ao mostrar que o pensamento prático e o poiético. Sobre a “separação” matemática. à família e ao indivíduo.. precisamente. 271 272 . acima. Aristotle. 1139a6 seg. Por outro lado. como o problema do ser se converte. visto. 1. I.116). nota ad l. do mesmo modo. p. VI. Hamelin. a ciência sendo teórica.. matemática e teologia se distinguem. cabendo-lhe o estudo do ser enquanto ser. esse texto se inspira. com Ross (cf. Lembremos. por �������. 8.14. na Universidade de Rennes (cf. apenas. acima.137. 301). aliás. se ocupam. 14. v. �. também o estado ou disposição (����) prática acompanhada de razão é diferente gindo. a que se poderia talvez acrescentar a retórica. 330 Vejam-se os textos acima citados.116 do cap. 2 (veja-se todo o capítulo). do conjunto das técnicas poiéticas.332 5. com que têm “semelhança e parentesco”. enquanto ela não se considera na sua subordinação à política. não tratou Aristóteles. Cf. 331 Cf. Nic. n. forçoso é que nos interroguemos sobre como justificar a cientificidade conferida às disciplinas práticas e poiéticas. agregam-se-lhes. Nic. Por outro lado. o problema do sistema aristotélico do conhecimento e a questão correlata da divisão das ciências senão na exata medida do suficiente para mostrar. econômica e prudência. separados e imóveis (�������������������� �������). cap. como se relacionam − e como se conciliam − com a doutrina aristotélica da ciência. sucintamente. mas em si mesma. cujo objeto é o fim supremo para o homem. Le système d’Aristote. o que é produzido (�������) e o que é feito (�������).3 n.. corri- do ser enquanto ser às ciências particulares. VI. cf. como a física e a matemática. como disciplinas subordinadas. n. Décarie. por confundir-se com a teologia. ciência do bem supremo. parece-nos razoável a explicação de Ross (cf. Nic. significa-se uma relação. de que as divisões da alma intelectiva se fundamentam na própria natureza dos objetos que conhecem.123 do cap. aqui. em cada um desses casos. com clareza ainda maior. que recortam partes do ser e delas. 1028b2-7).. Mure. de Ét. 2. no problema da essência (cf. também. em Met. Em Ét. com as “diferenças” da ciência: esta diz-se teórica. 332 Não nos cabe discutir.326 deste capítulo. respectivamente concernentes à cidade. Tóp. acima. ibidem. �. a emenda de Schwleger. sobre as “partes físicas da matemática”. que também ela opõe ao pensamento teórico.176 seg. L’objet de la métaphysique selon Aristote. 328 Ét.129 seg. 1025b25-6. mas são coisas diferentes a produção (�������) e a ação (������) . “Le système d’Aristote”. 1931. como ótica. p... como ciência dominante. ��������. Quanto às ciências práticas. 334 Cf. aí. Como diz Aristóteles (cf. vendo. �. como se opunha a ciência 327 Met. 1.I. astronomia etc.329 Como se vê. 329 Cf. ao mesmo tempo. 6. ao mesmo tempo que se afirma o caráter arquitetônico e dominante da política.72 a 74.. cf.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira cia teórica”. patenteia-se-nos. o desenvolvimento por Goldschmidt.81 seg. econômica e retórica. finalmente. Met. também. 1. cf. 1218b14-5) aponta. 1963.3. senão da poética. nos é imediata a inteligência das diferenças entre as três ciências teóricas que o filósofo reconhece. pela natureza distinta de seus objetos: enquanto a física concerne aos seres separados. 2. 1964. Por conseguinte. IV. n. a nosso conhecimento. n. p. nota ad l.. à primeira vista. nos Segundos Analíticos. 1094b3. I. 14). 1. uma alusão à distinção entre a matemática pura e as “partes físicas da matemática”. cf. O melhor estudo a respeito daquelas questões é. 1958-59. Nic. a mesma tripartição se determina pela relação aos objetos respectivos de cada uma das três partes. acima. 1961. como a ciência do ser enquanto ser acaba.

1140a1-5. 1140b6-7. em que sentido pode o filósofo falar-nos de ciências práticas e de ciências poiéticas? Parece-nos que o caminho para a 335 Ét.. 273 274 . 1139a6 seg. 2. ibidem.. 4. cf. 1. mesmo se eles examinam como se comportam as coisas. 1139a36 seg. solução da aporia deve principiar pela consideração dos textos em que opõe o filósofo os fins que elas perseguem àquele que visa o saber teórico: “com efeito. VI. 4..342 E. 1142a23-5. concernente às coisas boas e más para o homem”..340 por outro lado. III. mas para que nos tornemos bons. ibidem. 11. enquanto ao conhecimento das coisas contingentes corresponde a parte calculadora (�������������) ou opinativa (����������). que tem na sabedoria (�����) sua virtude. é idêntica a arte ou técnica a um estado ou disposição produtiva acompanhada de razão verdadeira. Nic. 1. os homens práticos não consideram o eterno. VI. e. ou toda a reflexão sobre a natureza do Estado e sobre as constituições políticas. pois. para as artes. enquanto a ação boa (��������) é. 1. de outro modo. cap. a Ética testemunhará de si própria nestes termos: “Uma vez. ela própria. Cf. 1141a16-20. 336 Cf. consideramos. o fim da ciência teórica é a verdade. 342 343 344 345 346 347 Met. II.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira do estado ou disposição produtiva acompanhada de razão”. também não pode ele ser um bom ouvinte de lições de Política. uma vez que. a ação (�����). 1094a18 seg. da cientificidade do saber prático e poiético.. 341 Ét. 7. com. como fim (�����) da ciência política. 1110b6-7. pois são diferentes os gêneros da ação e da produção (cf. se se lêem esses textos com atenção. também. ibidem. cujos argumentos têm seu ponto de partida naquelas ações e a elas concernem. mas o que é relativo e momentâneo”. no livro I da Ética. 4 seg. “mas ninguém delibera sobre as coisas que não podem ser de outra maneira”. na qualidade de “estado ou disposição prática verdadeira acompanhada de razão. 338 Ibidem. Nic. ibidem. em verdade. ibidem. como nenhuma arte ou técnica (�����) há que não seja uma �����produtiva acompanhada da razão. Ét. 5. 1143b14-7 (e acima.344 Nem é por outra razão que o estudo de uma tal ciência nada encerra de útil ou proveitoso para o homem jovem. De qualquer modo. Pois não se trata. comanda ao intelecto poiético o intelecto que é “em vista de algo” (���������) e prático. cf. por sua vez. Nic. de recusar a presença de elementos teóricos nas ciências da prática e da produção: a especulação sobre o Bem Supremo. Ét. Ét. ibidem. Cf. 993b20-3. por exemplo. que nos preocupa. cuja virtude é a sabedoria prática ou prudência (��������).345 inexperiente nas ações da vida. 1139a12-4. também.. lemos. l. Nic. �.71). Nic. VI. uma vez que. 2. a luz que projetam sobre o conjunto dos escritos éticos e políticos de Aristóteles permite-nos ilações que poderão ajudar-nos a compreender a questão. no livro II. se assim é.343 a Ética Nicomaquéia aponta-nos. também se persegue um fim (ainda que não seja imanente à atividade produtiva).347 Ora. 7. uma vez que o objeto da ação é contingente339 e que a ação concerne sempre às coisas singulares. 22: ���’���������. 1140b24 seg. em si mesmas moralmente indiferentes.335 Por outro lado. 22-4. a l. ou a que concerne à natureza da virtude. 5. cf. 2-4. portanto. Ibidem.336 Se.I. ibidem.. nenhuma utilidade haveria nele).346 Alguns capítulos adiante.3 Os elementos teóricos das ciências práticas e poiéticas Mas. I. l. 1103b26-30. a tarefa principal do homem prudente (��������) é a boa deliberação. 3-4) e o problema moral não se coloca. l. 5. “não o conhecimento. cf. também. de fato. com Ross. 339 Cf. as partes da alma racional. cf. naturalmente inclinado a seguir suas paixões. 2-3. na medida em que o fim (�����) da produção é diferente dela própria e se encontra na coisa produzida.338 a �������� não é ciência. porém. a prudência também não é arte. 337 Cf. l. A produção distingue-se da ação. 7. 8. seu próprio fim. n. que o presente tratado não tem em vista a contemplação (������). mas a ação”. 1141b16. como os outros (não é. na produção. é necessário examinar o que concerne às ações e como devemos praticá-las”. 1140b4-6. Cf. imediatamente. mostrando que a Política. vemos que ao conhecimento das coisas necessárias corresponde a parte científica (����������������). l. assim como não há ���� alguma dessa natureza que não seja uma �����. 1141b10-1. Por certo. o fim da ciência prática. de ciência “poiética” eqüivale a fazer a cientificidade penetrar no domínio da própria �����. ibidem.341 5. E falar. 1095a5-6. é a ciência do Bem Supremo para o homem. para saber o que é a virtude que indagamos.337 E. com efeito. VI. 1140a6 seg. 1. com. ibidem. suprema e arquitetônica. 3.. 340 Cf.

4. sob a interferência continuada de causalidades acidentais. l. malgrado seus inegáveis elementos teóricos. possa a contingência tornar-se objeto de ciência – uma tal eventualidade exclui-se por definição –. cf. às condições de vida. isto é. que exprimem os pontos de aplicação daqueles princípios. no que concerne aos objetos de que a Política se ocupa. porém − já o sabemos353 −.6 e n. 1094b11 seg. de algum modo. l. III. em cada gênero. nesse domínio da contingência em que empreendemos ações singulares e produzimos coisas singulares. em que a freqüência e a constância com dificuldade se divisam. a mesma definição do Bem Supremo (cf.352 o freqüente. p.. em ter conclusões que compartilham essa mesma natureza. a analogia entre o “silogismo da ação” e o “silogismo da produção”. Ét. p. prevenido de que se não pode buscar a mesma exatidão em todos os discursos348 e de que. de qualquer modo. Ét. ibidem. não obstam a que. freqüente (��������������) e é preciso que nos contentemos. 12. como premissa maior. nos resultados de uma deliberação opinativa que julga e discerne as coisas particulares. desse modo. mas é. I. cf. é subordinado o �� ������������ao �����������. Resta. Ét. tanto quanto a natureza da coisa o admite”. diversidade e divergências estas de tal monta que fazem tais coisas “parecer ser apenas por convenção. algo que é. digamos que a complexidade do universo das ações humanas e a intervenção constante e poderosa da contingência.2. l. porque “é próprio do homem cultivado buscar a exatidão. na esfera da contingência. Não surpreenderá. 434a16 seg. contentar-se em mostrar a verdade “de maneira grosseira e esquemática (����������������)”. em virtude de sua “teoricidade”. VII. se subordinam. com razão. as ciências práticas e poiéticas se adquirem para a produção e para a ação a que. cit. acima. 1094b23-5.354 Se o saber científico prático e poiético respeita à contingência. mais do que no mundo físico. mas ao contrário... acima.6. em que apenas não sucumbe a necessidade ante a contingência. Cf. então. não nos interessam tais ciências pela sua própria cientificidade. ibidem.. Cf. entretanto. n. 1146b35 seg. mas não por natureza”. não é. III. por natureza. 348 349 350 351 352 353 Cf. para tomar alguns poucos exemplos. tão-somente. constituem suficiente evidência do caráter também teórico de tais ciências. Nic. com posse do objeto que se nos dá à alma e se contempla. se falamos de coisas apenas freqüentes e partimos de premissas freqüentes. instrumentalmente. um comportamento necessário de seu objeto. E. isto é. que. Da Alma III.230. a ciência à ação e à produção. ibidem. Nic. É. os silogismos que concernem às ações a praticar (silogismos práticos) utilizam. III. também. implicitamente já reconhece – e o restante do tratado o confirmará amplamente − que se propõe a Política estudar.4 O homem. o universal ao particular. mas. Cf. 3. 275 276 . ciências práticas e poiéticas não se dirão teóricas. contrariamente ao saber em que se não visa se não o mesmo saber. a contingência e os limites da cientificidade E. com a exatidão que a matéria comporta. não se alinha ao lado da contingência. I. enquanto requisitos indispensáveis à nossa inserção feliz no mundo da ação e da produção efetivas.350 Pois a mesma passagem. 3. Ét. Cf. 3. mas porque o freqüente que tal saber conhece se não busca conhecer se não para melhor enfrentar a contingência que a mesma freqüência implica355 e para homem inserir-se melhor nela. 5. 19-21. 1144a313) ou um princípio geral a ela subordinado. mas vão buscar suas premissas menores. 355 Cf.349 é preciso.3) estabelece. Nic. Aubenque (cf. 4. 21-2. com. que 354 E. 4. acima. Aubenque. que. Em outras palavras. por isso mesmo.. Nic.Ciência e Dialética em Aristóteles Oswaldo Porchat Pereira na Política.139. portanto. 1963. loc. E algo de análogo deveria poder dizer-se a propósito do saber que concerne à produção e à técnica. uma necessidade estorvada e impedida. sobre que a Política indaga”. 14 seg. 2. antes. nele se dá continuamente. desde o início da Ética. venha dele ocupar-se uma ciência que o estudará “teoricamente”. que se pode reconstituir a partir de alguns textos aristotélicos da Metafísica e do tratado Das Partes dos Animais... VI. destarte. dada a relativa precariedade de seus objetos. porque. La prudence chez Aristote. uma proposição estudada e conhecida pela Ciência da ação humana. sob qualquer prisma que seja. Nem constitui objeção contra o que avançamos o fato de o próprio filósofo ter-nos. ao lembrar351 a grande diversidade de opiniões e as divergências a respeito das “coisas belas e justas.139-43. por certo. em condições e circunstâncias particulares e determinadas.

357 V Definição e demonstração 356 Mas também não acompanharemos Zeller. também. no platonismo. 1958-59. de algum modo. 1ère partie. o ser e a qüididade de gêneros-sujeitos cujas afecções “por si” se vão demonstrar. 1964. desde o momento em que. acima. em que definições e hipóteses conjugadas e fusionadas assumem. p. “Le système d’Aristote”. por conseguinte. o filósofo. in Lexique de la langue philosophique et religieuse de Platon. destarte. práticas e poiéticas concerne. agindo e produzindo. em seguida estabelecer. Collection des Universités de France. trabalhar de pautar sua vida pelo conhecimento do que sempre ou no mais das vezes é. curso inédito. verificando como as duas acepções de “por si” que interessam à ciência dizem respeito a definições e qüididades. enquanto a oposição entre ciências teóricas e práticas. quase sempre.17). des Places. remonta a Platão. uma constante “condenação” das técnicas. para a ciência demonstrativa aristotélica.177-8. pode o homem aristotélico.VII. Rep. pudemos. e �������� tem. cf. falar de filosofias práticas e de filosofias poiéticas. os exemplos coligidos por E. p. à filosofia e que se pode. 521c2b. v. cf. abordamos a noção de “por si”. quando pretende que a tripartição das ciências em teóricas. pode dizer-se que. “Les Belles Lettres”. ao mesmo tempo. há.1 E a prova analítica decisiva da existência de princípios indemonstráveis para a demonstração valeu-se.. a compreensão do processo demonstrativo operado pela ciência a partir de primeiros princípios indemonstráveis.3 e n. ��������. III. II. um sentido nitidamente pejorativo. Por outro lado. dessas acepções de “por si” para. 2. do número dos estudos capazes de atrair a alma do devir para o ser. argumentando com a finidade das 1 Cf. 1. t. compreender em que sentido as definições são princípios. pela primeira vez. juntamente com a ginástica e a música. n. pudemos constatar os estreitos vínculos entre as problemáticas respectivas da definição e da demonstração.356 mas possuindo-as. a noção de ciência. O livro VII da República exclui. como se sabe. recuperando para a cientificidade aqueles mesmos domínios da técnica e da arte que o platonismo tão severamente desqualificara. Com as noções de ciência prática e de ciência poiética. XIV das Œuvres Complètes de Platon. 1963. p. nos capítulos precedentes. Paris. as técnicas artesanais (���������������). 357 Como nota Goldschmidt (cf. em Platão. sempre contrapostas à filosofia e à moral. precisamente.45.97. cf. até o extremo limite em que ainda não triunfa o que sempre pode ser de outra maneira. Die Philosophie der Griechen.5. 277 279 . até o extremo limite do que lhe permita a coerência sistemática da doutrina. O exame dos principais temas estudados pelo livro I dos Segundos Analíticos possibilitou-nos.Ciência e Dialética em Aristóteles ciências da ação e da produção com ação e produção se não confundem. obviamente. estendeu assim.

II.75.6 Se se adverte. cf. em quantos sentidos se diz ‘definição’ e como ela mostra o ‘o que é’ e como não mostra e de que coisas há e de que coisas.2 Ao mesmo tempo. complemento indispensável do primeiro. o objeto de Seg. descoberto o ���: pois. toda a sua primeira parte estruturando-se como um tratado das relações entre a definição e o silogismo demonstrativo. Anal. o porquê (�����). 90a38-b3. 89b23-5. uma obra separada. Ross e Colli (cf. o caráter necessariamente finito das cadeias silogísticas demonstrativas. ad locum). não mais indagamos. 13 Cf. se desde o início soubéssemos que (���) se eclipsa..3 e n. não resta dúvida de que crê seu intento devidamente alcançado: “É. com Tricot.3 e n. Ross vê. 96a20-2. 22. como há demonstração do ‘o que é’ e como não há e de que coisas há e de que coisas não há. por que se eclipsa (��������������).14 E. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics. ainda. a interpretação tradicional de Santo Tomás. às que conhecemos”. Seg. Anal.13 se tal coisa é isto ou aquilo (�������������������). que assim se referia à definibilidade da coisa demonstrada. considerar como um apêndice a essa discussão7 e que todo o resto do tratado8 se consagra. 6. as coisas de que há demonstração é ter a demonstração”. Introduction. II. Pacius e Zabarella. II. 94a14-9. justificamos nossa tradução de ��� por “que”. cf.307. Ora. l. II. com efeito. Seg. acima. Anal. I. cf. para culminar.4 Compreendemos. Seg. cap.. 1. em boa parte. ao que vem antes. Anal. II. � que se encontrará um estudo mais aprofundado sobre a natureza da definição propriamente dita.. Anal. nestas linhas iniciais do livro II. nesta última nota. Seg. 6. nas famosas considerações sobre a aquisição dos princípios das ciências. III. originariamente. como a um estudo das relações entre a definição e a demonstração. Nem por isso está finda a investigação. então. se a coisa é (��������). cf. Acontece. Seg. 3. III. então. à medida que se desenvolve a argumentação preliminar. Prior and Posterior Analytics. que a relação entre o conteúdo dos dois livros aparecerá rapidamente.205. recusava-nos o filósofo que se pudesse ela conhecer sem demonstração: 3 “pois conhecer cientificamente. Anal. finalmente. Um indício externo de sua ligação à discussão precedente ver-se-á no fato de que Aristóteles principia o cap. de algum modo. Anal. Seguimos. 11 Como pretende Ross. introduzindo uma pluralidade de termos. descobrindo que (���) se eclipsa.13 seg. cf. em número. um começo abrupto (cf. Sobre o conhecimento do “que” pela demonstração. 5.172 e 173. que boa parte do livro II dos Segundos Analíticos tenha por escopo esclarecer de vez a questão das relações entre definição e demonstração.12 Investigar o “que” é indagar. cap. p. Mure. acima. Anal. além disso. p. porém. nós investigamos quatro coisas: o “que (���). ibidem.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles qüididades. a partir do que ficou dito.2 e n. 25 seg. 10. acima.. conhecendo que o sol se eclipsa. investigado se se eclipsa (�������). que o estilo de sua composição ou a natureza dos exemplos – de natureza antes física ou biológica que matemática – com que ilustra os problemas que aborda possam fazer-nos supor que tenha sido. tal ou qual atributo. em verdade. obviamente.9 tornase-nos manifesto que o segundo livro dos Segundos Analíticos é 2 3 4 5 6 7 Cf.75). a indicações de diversa natureza a respeito da organização e “tratamento” prévios das “questões científicas” que precedem a dedução demonstrativa. em referindo-se.11 e 12. se tem. como ela se relaciona com a demonstração e de que modo é possível e de que modo não é possível havê-las [subent. Anal. I. cap.1-10. agora. não. acima. com. 71b28-9. II. assim como.11 1 Do que se pergunta e sabe 1. 8 9 280 281 . embora não se formule claramente a questão senão nas primeiras linhas do cap.. Introduction. ou não. com que o tratado se termina. II. Seg. o que é (��������)”. então. II. com. não teríamos. sobretudo. em que os dois capítulos seguintes se podem. respectivamente. mostrando a inegável complementaridade das duas partes dos Segundos Analíticos. não por acidente.1 Quatro perguntas que se fazem Principia o livro segundo dos Segundos Analíticos por dizer-nos que “As coisas que investigamos são iguais. 89b25-6: ������������������. manifesto. Seg. isto é.5 e a julgar pelas palavras com que o filósofo porá termo à discussão. porém. I. 19. nos Tópicos (livro VI) e em Met. 14 Cf. 83b34-5. Cf. 12 Seg. 2.4. globalmente.13. Cf.: definição e demonstração] de uma mesma coisa”. investigamos. como por exemplo se o sol se eclipsa ou não (������������������ ������� ��). sem que note tentativa alguma de relacioná-lo com o livro precedente. Tal é.10 Pouco importa. 13..3. 1. assim 10 Mas é.

perguntamos. E. do mesmo modo como se segue. como se vê.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles como. explicando-nos que é. aqui. como na questão sobre o “que”. entretanto. Por outro lado. então. em sentido absoluto (�����) e não. Mansion dedica ao juízo de existência. em geral. habitualmente.169 seg. uma resposta afirmativa e “conhecendo que a coisa é (��������). 31-3. ou não. é se a coisa é. e nesse número as coisas que investigamos e que. encontradas. para tal questão. cap. transferir-se para a filosofia grega. sobre como interpretá-los. como de outras passagens da obra aristotélica. Os exemplos de segundo grupo (deus. então. 1946. em geral. 89b36-7. se um centauro ou um deus é. respeita. 282 283 . por sua vez. homem). como. explica-nos o filósofo. para as quais procuramos as respostas que. em suprimindo parcialmente o suporte “lingüístico” das questões que o filósofo aborda. 1. Em verdade. E grupa os quatro tipos de perguntas em dois pares. sabemos”. na tradução e comentário desta. sem evidente anacronismo. porém. que a terra treme) e que a pergunta sobre o porquê indaga por que pertence tal atributo a tal sujeito (por que se eclipsa o sol. cuidadosamente. II. como pressuposto básico e não discutido. sempre. com isso significar – como é o caso da autora – uma distinção qualquer entre essência e existência. centauro. é Gilson quem vê corretamente o problema. se uma coisa é. em última análise. Mas não se investigam todas as coisas dessa maneira: com efeito. qual a razão da atribuição previamente estabelecida. e não. cap. em seguida. perguntar sobre a possibilidade de atribuir-se ao sujeito tal ou qual predicado. 1948. 16 Seg. simplesmente. mostranos que sucede. justifica-se plenamente nossa precaução. servir-nos do verbo “existir” e do vocabulário da existência. 17 Seg. com razão.16 “Essas são. acima. 1. a investigação do “o que é”.18 E indagar sobre a realidade de tais coisas.15 Encontrando. as questões que. branca. então. cujos respectivos membros relaciona. 15 Cf. que a maioria dos tradutores e autores parece não crer necessária. sempre. ao mostrá-lo completamente estranho à filosofia aristotélica (cf. o que é deus ou o que é homem”. os exemplos de cada uma dessas questões que o texto nos fornece e as indicações bastante sumárias que mais insinua que explicita. por exemplo.. é indagar sobre seu ser. como. l. fazendo suceder à descoberta do “que” (���) a investigação de porquê (�����). cf. não é difícil verificar como a difícil problemática que o filósofo está em vias de formular. p.6. ou não (�������������). Gilson. 10. parecem indicar-nos que as questões que nele se grupam concernem a essências (reais ou fictícias) sobre cuja realidade ou irrealidade nos interrogamos para. que os exemplos da questão sobre o “que” respeitam à atribuição de um predicado a um sujeito (investigamos e descobrimos que o sol se eclipsa. Anal. no princípio do livro II dos Segundos Analíticos. segundo um esquema de correspondência e sucessão que se poderia assim representar: 1º grupo – ��� “que” 2º grupo – �������� “se é” → → ����� �������� porquê oqueé Observemos.III. às vezes. à multiplicidade de significações de �����. ou não. donde a inconveniência da introdução de um vocabulário não-aristotélico que dificultaria.46-77). por exemplo. em Aristóteles (cf. em que se pretender. em descobrindo. 2. ou se não é. interpretamos. em sentido absoluto (�������� ����������). se se reconhece que “existência” se pode tomar em diferentes sentidos e que os problemas filosóficos que estes implicam freqüentemente não poderiam. percebemos uma certa flutuação no uso das partículas com 18 Uma vez que a definição é o discurso do “o que é”. uma vez conhecida sua eventual realidade. ibidem.2 A ambigüidade das expressões aristotélicas Se melhor atentamos.) tem. e o que perguntamos. investigamos o que ela é (�������). na medida. de maneira análoga: assim é que opõe ao grupo das questões sobre o “que” e o porquê o par constituído pelas perguntas sobre se é a coisa e o que é ela. se formulam a respeito das coisas. 93b29. II. à descoberta de uma resposta afirmativa para a primeira questão de cada grupo a investigação sobre a questão restante. à descoberta do “se é”. no sentido de um ou outro desses dois grupos de questões que se orienta toda a investigação. Vemos. com. como um nosso saber sobre aquelas. por que treme a terra). a própria compreensão do que se discute e analisa. nas expressões de que se serve o filósofo. o de que se interpretarão passagens como a 89b31-3 pelo vocabulário da existência. se é. p.89b34-5.17 Assim enumera o filósofo. por exemplo. sabendo que a terra treme. O interessante estudo que S. Anal. L’être et l’essence. mais de perto. à descoberta do “que” segue-se a investigação do porquê. II. Anal. Seg. investigamos por que treme. n. part. indagarmos de sua definição.II. Evitamos. Le jugement d’existence chez Aristote. portanto.

qual é o médio (����� �����). E estima o autor que “Naturally enough. ibidem. II. Anal. sobre a distinção entre os silogismos do “que” e do porquê.27 26 Seg.3 Ser em sentido absoluto e ser algo Aristóteles consagra. o conhecimento da resposta afirmativa à pergunta sobre o “se é” (se um centauro ou um deus é ) exprime-se. mas assumir que a unidade e a grandeza são. Ora. p. com efeito. Certos detalhes importantes da tradução serão por nós discutidos. em sentido absoluto.1 e n. ou a noite.21 como um conhecer “que é” (��� ����). não em sentido absoluto. investigamos. logo em seguida. 1). ou não. Em sentido absoluto: se a lua. digo algo (��) o eclipse. à primeira vista.. portanto. então. Le Blond. 1. investigamos ou se há um termo médio ou qual é o termo médio. por outro lado. IV. a essência (����������������������� �����������’����������������) ou de ser. portanto. também.. 24 Seg. Anal. Anal. é ou não (�������������). conhecendo que há uma. V. Ocorre. quando. então. para designar o conteúdo do conhecimento assumido pelas hipóteses iniciais da ciência. 34. a causa de uma coisa ser. acima. quando investigamos o “que” ou o “se é”.. ibidem. pela seqüência do texto aristotélico. II. se uma coisa é algo ou se não é algo (���������������� ����������). não sugerem a distinção entre a posse de um atributo por um sujeito e a existência de um sujeito”?22 Não esqueçamos. também. acima. em todas as investigações. l. é o termo médio. Com efeito. sabemos.1. para as outras coisas”.15.. em todos esses casos. quanto ao “que é”. n. 25 seg. 2. dentre os atributos por si ou por acidente.77. não isto ou aquilo mas. investigamos.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles que designa as diferentes espécies de questões. 89b33.3 e n. que não vê a dificuldade.610 (com. devido à terra interposta”. Este encerra.19 destarte utilizando a partícula �� (se) para introduzir uma questão concernente à eventual atribuição de um predicado (branco) a um sujeito. é necessário assumilo para os princípios. Digo o “que é” em parte e em sentido absoluto. a igualdade e a desigualdade. sol ou triângulo. por sua vez. 76b5-6. 2. 2. 3. simplesmente. pois. Anal. é manifesto que são idênticos o “o que é” (�����������) e por que é (������������). then. “Por que o eclipse é?” ou “por que se eclipsa a lua?” “Por faltar-lhe a luz. acima. branca (����������� ��). 76a32-6. the distinctions become blurred in the next chapter” (ibidem). 1. no entanto. para as outras coisas. ainda. entretanto. a II. em descobrindo. Em parte: “eclipsa-se a lua?” ou “cresce?”. a primeira parte do texto. “O que é eclipse?” “Uma privação da luz da lua pela terra interposta”. se há ou se não há. fala-nos das “fermes définitions du chapitre Ier”. I. 72a18-20 etc. terra. que nem se trata de um descuido na expressão nem de pormenores sem maior significação. Reproduzamos. em si mesmas. Logique et méthode. l. o que há pouco caracterizara como uma indagação sobre o (���) (“que”). se nos afigura de inteligência dificultosa: Essas são. por exemplo. como a lua. então. à medida que comentarmos e aprofundarmos o estudo do texto. um termo médio (�����). investigamos. acima. 2. o porquê ou o “o que é” (����������). mas algo (��). tanto mais significativa quanto é certo que “as frases ��� ���� e �������. 10. Cf. assumir o que é a unidade ou o que são o reto e o triângulo. que o livro I dos Segundos Analíticos se servia da expressão ��� ����. eis o que em tais perguntas investigamos. o que significam os elementos primeiros e os que destes provém. 25 Cf. sem referência ao problema da atribuição. Pois a causa é o termo médio (������ �������������������) e. Digo em sentido absoluto o sujeito (�����������).20 E. em sentido absoluto (�������� �����������������). para isso. 2. De fato. é o que se investiga: “Eclipsa-se?”“Há uma causa ou não?” Em seguida..24 E não se distinguia entre assumir o “que é” e assumir o ser (��������). 89b36-90a18. Seg. 19 20 21 22 o livro II designar como resposta à pergunta sobre o �������. que. Tratar-se-ia. cf. destarte identificando-se o ��� ���� ao que vimos Cf. 27 Seg. 23 Cf. acaso. II. prová-lo. prová-lo.2.25 de alguma coisa. IV. p. se está no meio ou não.2 e IV. ao expor que a pergunta sobre o “se é” (��������) se deve entender no sentido absoluto de������� opõe-na a uma pergunta sobre se a coisa é.181. não somente a propósito da atribuição de um predicado a um sujeito nas conclusões silogísticas23 mas. em parte (����������) ou em sentido absoluto (�����). de uma imprecisão da linguagem aristotélica. investigamos. com efeito. porém. Cf. 2. Anal. I. Veremos. e nesse número as coisas que investigamos e que. 2. qual é ela. 1939. em oposição à mera compreensão da significação dos termos: “assume-se. objeto de interpretações controvertidas e que. então. 1.. por outro lado. 10. Ross. em todas as pesquisas. 284 285 .3. II. 2.71b31-3 etc. com. ad finem. 71a11-7. todo o capítulo seguinte26 à análise das diferentes espécies de questões a cuja descrição sumária acaba de proceder. tendo conhecido o “que” ou “se é”. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics. Seg. cf. Com efeito.

1. toma-se um ����������� e pergunta-se sobre se ele é ou não. uma e outra. portanto. n. ao grupar. é ser a essência ou ser algo. as quatro perguntas que reconhece ser possível formular sobre as coisas. nota ad 89b39) tenta manter. 31 Cf. V. entendendo. constatamos que elas são reinterpretadas e reagrupadas sob novos critérios. apenas antecipava o que agora se explicita. ou se o triângulo “é”. no meio). por sua vez (cf. julga toda a passagem “obscurely worked” e Ross. qui est celle de l’essence: être. indistintamente. vê-se que não há por que estranhar que diferentes textos do livro II dos Segundos Analíticos (cf. is making his vocabulary as he goes. Aubenque (cf. nota ad 89b37).”. quanto às considerações em torno do ����� chama-as o ilustre comentador de “perplexing statement”. Por isso mesmo. Ross (cf.. para uma coisa.”. um constituído pelas indagações sobre o “que” (���) e o porquê (�����). cioè una sostanza. 1962. n. isto é. cf. como predicativo de ����� (l. empregadas.157.168-84) de um capítulo cujo título não é menos sugestivo (“Les Apories fondamentales”). não mais se contrapõem. em sentido absoluto. no primeiro caso. Cf. 29 Cf. mas a distinção opera-se entre o ��� ou �������� em sentido absoluto (correspondendo ao primitivo ��������) e o ��� ou ���������em parte (correspondendo ao primitivo ���).. II. a II. ao ser. em perfeita sinonímia. ma assolutamente. ou não. que parece julgar tratar-se de uma expressão adverbial.. cap. p. contrariamente. Prior and Posterior Analytics. ao menos. Por isso mesmo.19 a 22. provando um predicado de um sujeito. quer se pergunte sobre se determinada coisa (a lua. Assim Le Blond. Anal. n. 9) e não como sujeito desse verbo. Seg. manifestamente. de novo.. 10. se ela “é” tal ou qual atributo por si ou por acidente (por exemplo. expusera-nos o filósofo28 como toda pesquisa segue sempre uma ou outra dessas duas linhas de investigação. cf. que têm desconcertado alguns bons intérpretes.30 No primeiro caso. 28 Cf. Logique et méthode. resposta afirmativa). 89b37-90a5. c’est être une essence”. falar-se-á do “que” ou do “se é”. acima. em seguida. por outro lado. com grande penetração. com. outro constituído pelas questões sobre o “se é” (��������) e o “o que é” (��������). Tampouco nos parece aceitável a interpretação de Tricot (cf. 90a3-5. residindo a diferença em que. meramente esquemática. ou a noite) é ou não. como no segundo. cf...23 a 25) se tenham servido da expressão ��������. 93a19-20. se a lua “é” o eclipse.611 (no resumo que precede o comentário ao capítulo). uma à outra.II. ao ser absoluto da coisa. as expressões ��� e ��������. oppure. 1. porém. alguns capítulos mais adiante. il comporte une attribution implicite. ad locum). Anal. Quanto ao uso de ����� como sinônimo de qüididade.29 Em outras palavras. não algo (��). Mure. em verdade.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Se comparamos essa passagem com o que nos diz o capítulo precedente. Le problème de l’être. com. 8. II. e corrigindo-se uma aparente imprecisão que. em face das explicações e exemplos de Aristóteles. E. em parte. dos exemplos que as ilustram. nota ad locum). non già un qualcosa o un qualcos’altro.170. p. ou o triângulo. ao que parece ser a interpretação de Ross. uma soma de ângulos igual a dois retos).2): “Lorsque l’être se dit absolument . aquelas expressões reaparecem.32 isto é. sempre. que as primeiras tenham recebido. 2. Seg.2 e n. então.15 deste capítulo.. negligenciando-se a distinção inicial entre as duas expressões. um de seus diferentes atributos. ou se a terra está.. a distinção inicial entre as duas expressões: “������������� further characterizes ������ . ibidem e n. no segundo. sustentar-se.31 A indagação concerne sempre ao ser e ser. V.. o que é ela (as segundas perguntas de ambos os grupos implicando. cf. num e noutro caso. 1.. Entendemos ����������� a l. por exemplo. nada justifica que se interprete a problemática aristotélica do ser pelo vocabulário da existência: ao anacronismo manifesto vem somar-se um risco grave de completo falseamento da doutrina. a Seg. Anal. quer se pergunte sobre se pertence um atributo a um sujeito (se “pertence”. algumas dificuldades de interpretação. de que modo interpreta Aristóteles o sentido “existencial” do ser. a marca de uma hesitação do filósofo quanto às funções do verbo ser e uma ambigüidade de posições da qual decorreriam contradições ou.. 9-14. pergunta-se sobre se a coisa é isto ou aquilo (���� ������). de determinada coisa para indagar. distinguindo dois grupos de questões. pelo porquê dessa atribuição. ou referindo-se à assunção de um princípio científico. 2. crendo que as distinções que o capítulo primeiro estabelecera se embaralham no segundo. acima. ora perguntando sobre o pertencer ou não tal atributo a tal sujeito para indagar. a propósito de uma conclusão silogística. oscilações na teoria aristotélica da ciência. Com efeito. ao invés de a pergunta concernir. adverte o leitor de que não se esqueça “that A. p. antes de tudo. 1. mas a sua mesma essência (�����). é tão-somente sobre “parte” do ser de uma coisa que se pergunta.. duas a duas. crê nele encontrar. em verdade. Aristóteles plenamente as soluciona. a nosso ver. a indagação concerne. mas não vemos como tal ponto de vista possa se a lua se eclipsa.. que lhe consagra todo um parágrafo (“Ambiguités sur le sens de l’être”. paralelamente a um entrelaçamento pouco claro das fórmulas empregadas e a uma escolha. em seguida. A tradução de Colli (cf. 32 E eis. cf. de algum modo.. acima. and has not succeeded in making it as clear-cut as might be wished”. �� ������further characterizes ������������. 1939. Como disse. como nós. la causa del fato che un oggeto sia.. se ela é algo (��). indistintamente. 2. acima.. talvez desatenta.. Buscaremos delimitar as dificuldades do texto e mostrar como.. o eclipse à lua. II. Agora. 30 Cf. propõe uma interpretação que se aproxima sensivelmente da nossa: “In realtà. parcialmente. a sintaxe do texto. 286 287 . ora perguntando sobre o ser. cf. ser em sentido absoluto ou “ser”. c’est-à-dire sans prédicat. em parte. acima.

l. 51 Cf. 90a5).35 um acidente: “Com efeito. como acidente (�������������������������)’”. 1. manifestamente. também.42 dir-se-ão “por si” as essências individuais e suas qüididades. Também em 8. cap. cap. 1028a22-3.50 não somente formula o filósofo. acima. d’autant plus qu’il range l’éclipse parmi les attributs. do sujeito. �.51 mas considera.1 e n. 2. 36 Met. 7.18. 93a21 seg. com efeito. explicação das mais satisfatórias dizer (cf. which in ch. 2. �. um atributo matemático. será a essência”. explicitamente.49 Além disso. �. acima. 1946. no sentido amplo do termo. assim. julga surpreendente a menção da noite. Met. no sentido em que se designa por acidente também o atributo “por si” . 50 Cf. Met. que se não pode. é objeto de nossa indagação e conhecimento. 11-3. portanto. ibidem. Cf. ‘isto ser aquilo’ significa ‘sobrevir aquilo a isto’.6. as coisas a cujo respeito se formulam as perguntas sobre o “se é. 38 Met. algumas linhas abaixo. o ‘o que é’ e ‘isto’ (�������). 1017a12-3... por certo. em sentido absoluto..164: “il paraît tout à fait invraisemblable qu’il [subent. 42 Cf. não ser”. 1. uma pergunta em que se toma o eclipse como sujeito e outra.40 A essência é substrato ou sujeito (�����������) para as outras categorias. 90a5. em que ele se propõe como “algo” de outro sujeito. cf. Seg. Anal..46 Ocorre. Mansion. não algo (��). 11.’s mind.33 assim como. 1030a29-30. acima. II.52 isto é.48 e algo.: Aristóteles] ait jamais considéré la nuit comme une substance. 1028a30-1.17. mas é em sentido absoluto (�����). em sentido absoluto”.. 2 come to refer so much more to attributes and events that the former reference has almost receded from A. 52 Cf.44 E. tão-somente. como a lua.1 e n. em sentido absoluto” e sobre o “o que é” já pareciam indicar que tais questões respeitam apenas a essências. Met. a mesma coisa não ser algo e. acima.. Anal. l. donde a sua anterioridade absoluta em relação a elas. porém. 39 Ibidem. II. 1. 1028a32 seg. Mansion. desde o princípio do livro II dos Segundos 33 Ref. Le jugement d’existence. 44 45 46 47 48 49 288 289 . “é”.43 Lembremos. though traces of it still remain”.145 seg.15. Cf. o sol e a terra mas. Analíticos.III.. naturalmente. l. �. ibidem. tendo proposto o eclipse. 4.IV. acima. b4-6. have in ch. 4.. 30. Sobre o triângulo.39 E sabemos que quanto pertence a essas outras categorias não se diz ser senão porque é ou qualidade ou quantidade ou alguma outra afecção da essência. por outro lado. 2) que “the questions ������� and �������. 41 Cf. que os mesmos exemplos (deus. perguntar pelo “o que é” é perguntar pela definição45 e. Cf. p. 1025a30-2. 90a13. 1. 43 Cf. em sentido primeiro e absoluto. n. V. �. 1 referred to substances. como afecção “por si” da linha. acima. �. 167a2. ibidem. S. 5 (todo o capítulo). o eclipse aparecerá como exemplo de ser cujos “se é” e “o que é” são objeto de nossa investigação.4 A categoria da essência e as essências das categorias Parecer-nos-á. a questão sobre o “o que é”. não apenas essências individuais. 40 Cf. de um lado. propõe-nos Aristóteles como exemplos de sujeitos cujo ser. Met. em sentido absoluto. II. que. também. à côté de l’égalité et de l’inégalité”. III. cf.34 E dizer que uma coisa é algo é atribuir-lhe. ainda a respeito do eclipse. ao distinguir posteriormente. em sentido absoluto. cf. com.“não é. Le jugement d’existence. 35 Isto é. p. por si. II. como vimos. na medida em que “o que primariamente é e é. também. Cf. portanto. da oposição entre perguntas que concernem à essência ou substância e perguntas que concernem a atributos das essências. 34 Ibidem. somente se falará em definições e qüididades a propósito das essências.’s mind”. em parte. III. E não é. 4.. nota ad Seg. ela própria e sua qüididade.37 que se trata. uma essência individual dizendo-se. tomar como uma essência. se atribuem (�����������������������)”. como exemplo de “algo” que pertence à lua e que esta. 2.. “por que é o eclipse?” e “por que se eclipsa a lua?”. 5. por sua vez (cf. à primeira vista.1 e n. também. “where we should expect only substances to be in A. Sof.81. 1. Anal. 2. introdutório a II. �. com efeito.1 e n. acima. a qualidade ou quantidade ou cada uma das outras coisas que.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles “Pois não é a mesma coisa ser algo e ser.11 seg.6 e n. de outro. Ross. III. 90a16-7. S.18 a 21.36 1. como a noite.41 enquanto nenhuma das outras categorias é. como se observou. 18-20. 12-3. Cf. 1946. às outras categorias.163. 37 Cf. por si.38 Pois não ignoramos que “ser” “significa.. 1. 1019a5-6. n. ibidem. 1. como o triângulo. Seg.47 o ser algo e o ser. l.. homem) com que o filósofo ilustrava. como perguntas equivalentes.

num segundo sentido.58 E. por vezes. portanto. 53 54 55 56 57 então.. um de cujos sentidos é o ser ���’���� das diferentes categorias. não hesitaremos em falar. por exemplo. é que. sob esse prisma. 2. V. vimos60 que o filósofo.22. no âmbito interno de cada uma destas últimas. aquelas que respeitam ao porquê e ao “o que é”. 89b37-8. E não se esqueça que “ser.2 e n. que o que nos explica. seja para o fato de a coisa. Tóp.. Cf. em sentido absoluto. então. Met. ora a qualidade. 1029b13-4. IV. em todas as investigações. acima. ao mesmo tempo que.21. acima. embora constituindo afecções da essência. ser. é sempre possível em si mesmos considerá-las. Pois a causa é o termo médio e. 89b38-90al.3 e n. no sentido primeiro da expressão. portanto.. é 60 Cf.22. utilizando o mesmo vocabulário da essência. que estranhar tais exemplos.27. para a atribuição de um predicado a um sujeito. e.232. 4. E a possibilidade de assim proceder. numa qualquer das categorias do ser – ou então. ibidem. em sentido absoluto”. 1. em sentido absoluto. V. �. em Aristóteles. é preciso reconhecê-lo. no início do livro II dos Segundos Analíticos. cf. se não nos recordássemos de que a mesma teoria aristotélica da essência nos ensina que. 2. 58 Cf. 290 291 . portanto. da essência de uma esfera ou de um círculo. 4. menos que a essência. gêneros supremos do ser55 e o mesmo fato de serem inexoravelmente irredutíveis. III. Seg. duas linhas de investigação se nos apresentam: indagar do seu ser. respectivamente. finalmente. 8. Cf.II. acima. 1. significa. ser uma essência ou uma qualidade ou uma quantidade. 1064b15 seg. ou não. neste caso. ao “que” e ao “se é.1. a tal outro sujeito: a indagação respeita. ser a sua qüididade ou essência. essências a atributos ou afecções das essências. 1026a33 seg.57 Porque são as diferentes significações do ser.1 e n. onde Aristóteles mostra. uma e outra. em sentido absoluto. 103b27 seg.231. seja. E. com exemplos. vimo-lo dizer-nos61 que tais perguntas não mais fazem que indagar qual o termo médio implicado pelas respostas afirmativas às duas questões primeiras. identificando essência e qüididade. ora uma qualquer das outras categorias. Aristóteles. é possível falar de qüididades e de definições.59 Se tal doutrina recordamos. acima. retomando o mesmo esquema que opõe a categoria substantiva às adjetivas. Met. por certo. Se a uma ou outra dessas perguntas se dá resposta afirmativa. 4. como uma indagação sobre se há. IV. perguntando se ela é e tomando-a. umas às outras e. respectivamente.2 e n. investigamos ou se há um termo médio ou qual é o termo médio.53 ora. de modo semelhante. II. mais precisamente. 9. está imediatamente inscrita na mesma formulação geral da doutrina das categorias: com efeito. o ser enquanto ser. �. tal como uma essência. reunindo as questões que previamente distinguira como concernentes. 61 Cf. também. ou não. indagar se pertence a coisa.. não importa em que categoria.3 e n. indagaremos. não é qüididade de uma coisa senão aquilo que ela. Céu I. 9. por si própria. se não se trata de essências.27. em todas as pesquisas. Cf. 278a2-3. em sentido absoluto. 7. Anal. à essência.. ora a quantidade. é. como significar o “o que é” é significar ora a essência. nelas discriminando sujeitos a cujo respeito formularemos questões e respostas sobre o “se é” e sobre o “o que é”. em última análise. interpretando em termos de causalidade as duas restantes questões. com. compreendemos. com que ilustra Aristóteles a problemática que desenvolve. Cf. um termo médio (�����) para a coisa. com. ao interrogarmo-nos sobre uma coisa qualquer. n.5 Perguntar pelo ser perguntar sobre a causa .I. não são as categorias adjetivas.54 donde ser manifesto que colocar a respeito de um ser qualquer. como um sujeito – e ser. por sua vez. cf. 59 Cf. 1017a22-4.. Com efeito. em sentido absoluto” (��������������) designa. cap. da qüididade do sujeito ou do porquê da atribuição. acima. também a propósito de outras categorias que não a da essência.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Haveria. 1. interpreta-as.. �. acima. �. respectivamente. também... Met. III. sobre a causa. oporemos. n. “Ocorre. mas pergunta-se sempre.. o problema da qüididade eqüivale a considerá-lo por si.56 explica que possa o filósofo ter-nos dito que “se dizem ser por si quantas coisas se significam pelas figuras da atribuição”. Pergunta-se sempre sobre o ser. que. a uma “parte” do ser deste último.

É ainda com o eclipse – e com o exemplo análogo da harmonia – que o filósofo exemplifica a identidade entre as questões concernentes ao porquê e à definição: “De fato. em todos esses casos. uma e outra. l. 2. então. simplesmente. O que significa.. II. de mostrar que as perguntas sobre o porquê de uma atribuição ou sobre o “o que é” de uma coisa são. Em outras palavras. em sentido absoluto. se estivéssemos na lua e tivéssemos a percepção da interposição da terra e. III. em sentido absoluto. Le jugement d’existence.65 62 Ibidem. então.7 e n. quando se sabe que há tais causas e se conhece. tanto no que concerne às coisas tomadas em sentido absoluto quanto no que respeita às coisas que se consideram enquanto possuem tal ou qual determinação.66 Pois. 65 Cf. acima. como explicitará mais adiante. em nada difere esta resposta.. entre si. Mansion. ibidem.66) a tradução de Robin: “le moyen terme est cause” (l. é manifesto que são idênticos o ‘o que é’ e por que é”. algo. Concordamos plenamente com S. não mais se trata. da definição que propomos do eclipse. assim como perguntar. pois. eis a lição que o filósofo nos ministra. 24-30. de uma coisa. em verdade. uma investigação sobre o “se é” ou sobre o porquê. conseguintemente. as perguntas pelo porquê da atribuição e pelo “o que é” da coisa vêm. em parte. àquela 66 67 68 69 Seg. dizemos que harmonia é “uma razão numérica entre o agudo e o grave” e respondemos. “car le but d’Aristote dans ce chapitre est de montrer que la recherche scientifique est une recherche du moyen terme. p. que. 90a7 seg. se aquela percepção nos falta. Cf. Seg.69 conhecer o “o que é” e conhecer o porquê são a mesma coisa. cf. tomado em sentido absoluto. embora não por ela. V. é idêntica a resposta que se dáà pergunta sobre a causa de tal ou qual atributo ser. II. implicitamente. nem precisava Aristóteles advertir-nos..62 Era-nos óbvio. argumenta Aristóteles64 com o exemplo dos casos em que o “termo médio” pode ser objeto da percepção sensível: somente ocorre. Anal. que eles se harmonizam por terem.3 e n. ibidem. 90a14-5. mas toda indagação sobre um ser implica uma indagação sobre a causa. porém.27. por certo. se a lua é. 2. acima. o conhecimento do universal e da causa. indagávamos sobre a causa. Assim. tal coisa determinada é. isto é. Anal. quanto ao seu conteúdo. a perguntar por sua definição. ao passar da mera constatação da presença de um atributo num sujeito (���) a uma pesquisa sobre o porquê dessa atribuição (�����). por certo. 1946. do eclipse. 90a5-7. 31-4. Para mostrar que as diferentes perguntas significam. em sentido absoluto. E. isto é. 6-7). Em verdade. confere o filósofo à sua interpretação causal da pesquisa qualquer uma dimensão muito mais ampla: não apenas a busca expressa do porquê. 2.67 De modo semelhante. em sentido absoluto. tão-somente. em sentido absoluto.31.. uma razão numérica. se se produz o eclipse ou por que ele se produz. simplesmente. l. Seg.63 E. V. 64 Cf. 1. Cf. a partir da mesma percepção.163 e 164. et non pas l’inverse”. o ser algo ou o ser. acima. mas teríamos imediatamente. já se perguntara: indaga-se qual aquela causa por que se eclipsa a lua ou qual a causa por que a lua. quando rejeita (cf. demandar que se identifiquem as causas cuja presença se reconheceu e pelas quais. que. 1. tão-somente. enquanto são. equivalentes a uma indagação sobre a natureza de uma causa cuja presença já se reconhecera ao atribuir tal predicado a tal sujeito ou ao afirmar. 90a15-8. se nos perguntam por que se harmonizam o agudo e o grave. ibidem. a lua seja. é. 292 293 . que perguntar pelo porquê de pertencer tal atributo a tal sujeito equivale a indagar da qüididade do atributo. Cf.68 Como vemos. por faltar luz à lua.. uma pesquisa da causa ou “médio”. 63 Cf. 2. parce qu’elle est une poursuite de la cause. II. Anal. todas.3 e n. se respondemos à pergunta sobre o porquê do eclipse (“por que é o eclipse?” ou “por que se eclipsa a lua?”). l.27. mas o que também nos mostram os exemplos e o que nos diz o filósofo é que há total identidade entre perguntar pela causa e pedir a definição. n. equivale a indagar se háuma causa para que. 18 seg. nesses casos. Perguntar se a lua se eclipsa equivale. a perguntar se há uma causa para que se eclipsa. em razão da interposição da terra.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles o que se investiga”. dizendo que ele ocorre. não indagaríamos. quando se nos pergunta o que é ele e o dizemos “uma privação da luz da lua pela terra interposta”.

não isto ou aquilo.73 Teria mostrado o filósofo. em seguida. 2. o ser “algo” do sujeito. a essência . acima. 1946. então. “termo médio”) e podemos constatar que. uma vez descoberto.. segundo a qual o termo médio representa a causa real no silogismo científico. concebendo toda pesquisa como uma indagação sobre a causa. uma vez conhecendo-se que ela se eclipsa.149. 2. pedir que se manifeste qual aquele termo médio pressuposto cujo conhecimento permitirá a construção do silogismo demonstrativo do eclipse da lua – e tal termo médio é. parecem aqueles termos usar-se.. também. onde o termo médio exprime a causa real do ��� que se prova e na conclusão se exprime. isto é... ao texto que comentamos70 e consideremos novamente as palavras com que nos expõe o filósofo como e por que interpretar causalmente toda indagação sobre as coisas.75 a formulação do silogismo científico do ����� ou do porquê. por outro lado. 1939. É que se não contenta o filósofo em fornecer uma interpretação causal dessa linha de pesquisa. Mansion. cf. em sentido absoluto. também. mediante 75 Cf. o discurso da qüididade”. p. isto é. 1. Sob esse prisma. Le Blond.71 tratar-se-ia de uma repetição da doutrina do livro I. como desde há muito sabemos. mas.. poderse-ia dizer que “O médio-causa fornece a resposta a todos os problemas e permite que se construa a demonstração”. destarte. 74 Ibidem. in La pensée helénique. 90a9-11. aliás. tomando. tal causalidade como a de um termo médio (�����): “com efeito.. a interposição da terra. como vimos. Exprimir-se-ia. 72 Cf. L. 71 Cf. quando Aristóteles interpreta. mas voltemos. que não fala Aristóteles somente de “causa” (������) mas. estabelecendo previamente pertencer tal atributo a tal sujeito. Anal. 3. acima. Tal porquê ou causa. “Por que há eclipse?”.. em absoluto” para.27. pois. a seu sujeito. em sentido absoluto.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles que se formula quando nos perguntam por que pertence ele. 194b26-7. Robin. não pode aceitar-se sem maiores precisões. porém. em perfeita correspondência. II. é o termo médio”. 89b36-90a18. indaga sobre o porquê dessa atribuição..31. Não há.168. que perguntar se a lua se eclipsa é indagar se há uma causa ou termo médio para a demonstração de que ela se eclipsa e que. se é certo que a definição e a qüididade exprimem uma das significações da causalidade. 294 295 . como atributo. cf. compreende-se. acima. V. isto é. Met. “por que eclipse ‘pertence’ à lua?”. Nenhuma dúvida alimenta a quase unanimidade dos autores e comentadores: trata-se do termo médio do silogismo demonstrativo. 77 Seg. 76 Um dos quatro sentidos em que se diz “causa” sendo “a forma e o paradigma. ao longo de todo o texto. diante de uma resposta afirmativa. cuja aceitação. a outra linha de pesquisa que distinguira. Anal. aqui. II.. a causa de uma coisa ser. 1942. 73 S. 1. II. aquela que procede de uma interrogação sobre o “se é. que o filósofo possa dizernos. Le jugement d’existence. com toda a clareza possível. por certo.. que. 94a21 etc. p.6 Aporias sobre o termo médio Aonde quer conduzir-nos toda essa análise aristotélica? Não nos apressemos em dizê-lo. concebe-a ipso facto como busca de um termo médio para a constituição de um silogismo demonstrativo. referir-se a uma eventual demonstração de que um sujeito (lua. II. pelo “o que é” da coisa. um pelo outro. ainda que pareça imporse à primeira vista.76 Mas descreve. com efeito.. As dificuldades surgem. imediatamente. 2. não vemos por que seria dificultosa..425. Seg. permite. estabelecendo o “que”. 1013a26-7. Fís. cf. II. �. cf. perguntar por que isso ocorre é indagar da natureza da causa. o caso do eclipse. centauro.. p.27. por exemplo... claramente. triângulo ou eclipse) é.3 e n. perguntar.74 Mas é fácil ver que uma tal interpretação.. então.. 11. sombra alguma de dúvida quanto ao fato de concernir diretamente à preparação dos silogismos demonstrativos da ciência a pesquisa que. 70 Isto é: Seg. V. uma vez ainda. 3. a analogia aristotélica entre o silogismo e a operação causal. “Sur la conception aristotélicienne de la causalité”. Anal. p. Vemos.3.72 da “coincidência no silogismo do ����� entre a causa e o termo médio”. “o que é eclipse?” são três perguntas para uma só resposta. de ����� (“médio”.77 parecendo.3 e n. Logique et méthode. 1. também. com. de modo análogo.

cf. Cf. essências. também. nos seguintes termos: “Que. V. O que não viu a autora. inerentes a outra coisa. as essências] en construisant sa théorie”. isto é. acima.27. haver. em que o termo médio seria sua mesma qüididade. se não atentamos nos indícios que o próprio filósofo nos oferece da unidade de seu texto e se.. 1946. a que indaga da qüididade de uma essência) como uma busca do ������ 83 Cf. assim. p. entretanto. o primeiro tipo de demonstração não se aplicaria a algo como o eclipse porque. todas as coisas investigadas são investigação do termo médio. 31-5. com efeito. 1. é a mesma estrutura de todo o livro II do tratado que se sacrifica. deduzir-se de sua essência.53. precisamente. que. entretanto. em geral.. nos esquecemos de que costuma construir progressivamente os problemas e aprofundar-lhes as dificuldades.79 Natural é.611-2.. 1. embora este seja uma determinação de um astro. E tal é a única solução que encontra o autor. ao invés de tomarse a análise a que eles procedem das questões propostas pelas pesquisas. como um mero sinônimo de ������ (causa). quer parecer-nos que toda a controvérsia instaurada em torno dos dois capítulos iniciais do livro II dos Segundos Analíticos repousa sobre um vício de método fundamental: com efeito. n. ainda assim..1. Mansion. 1. percorrendo primeiro as aporias que respeitam a essas questões. nestes casos. antes de brindar-nos com as suas soluções definitivas. 2.66 a 69. Ross. acima.7. 90a15-23. a Seg. uma vez que somente considera. explicitamente proposta. desde o início do terceiro capítulo. com. Seja princípio das coisas que vão ser ditas aquele que.5 e n. coroado por conclusões dogmáticas e definitivas. é evidente. em absoluto. por sua qüididade. portanto. ibidem. Ora. para explicar a descrição aristotélica da pesquisa qualquer (incluindo.83 os Cf. qualquer referência a um raciocínio silogístico. agora. acima. III. também. ao mesmo tempo. que confessa sua perplexidade. pelo menos dois tipos de demonstração.172. Mansion. que os segue.27. o eclipse constituindo. Le jugement d’existence. p. acima.3 e n. experimentaremos. 2.3 e n. das relações entre a definição e a demonstração. em verdade. por exemplo. uma dualidade de termos entre os quais possa interpor-se um termo médio. então. não podendo. no texto em questão. unicamente em circunstâncias determinadas de tempo e lugar. Para a autora em questão. V. por si. mas determinações de essências.7 O sentido da discussão preambular Ora. ibidem. ibidem. por certo.61. na ciência aristotélica.: os que não são 78 79 80 81 quais.. que se tenha falado de silogismos que provam a “existência” pela essência. de fato. 90a14 seg. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics. explicitamente.81 Mas não estranharemos. esta aporia: é. Como solucionar. Anal. suscetíveis embora de serem considerados como sujeitos absolutos. um exemplo típico desses ����������������� que a ciência conhece. Colocar-se-á. 1.80 e que se tenha afirmado.. como se mostra o ‘o que é’. S. II. Porque assim se faz. uma concernente às propriedades ���’���� do sujeito. Le jugement d’existence. não constitui uma propriedade de seu sujeito.171.. é que Aristóteles estende a noção de “por si” a atributos que pertencem necessariamente a seus sujeitos. Seg. que “il est sûr qu’Aristote a en vue de tels objets [subent. V.171). por não ver-se como poderia esta última forma de demonstração aplicar-se a uma essência. já que não há. preparando uma discussão posterior. 82 Cf. a aporia? 1. Cf. não são. grande dificuldade para a compreensão de como se opera a passagem dos dois primeiros e difíceis capítulos à discussão. na medida em que se não está preocupado com apreender as linhas de força segundo as quais toda sua argumentação se articula. é o mais apropriado às discussões que seguem. cf. digamos. qual o modo de sua redução (�������) e o que é e de que coisas há definição. donde a necessidade de recorrer a um tipo diferente de demonstração e a um outro termo médio que não a qüididade de seu sujeito: a própria qüididade do eclipse (cf. os exemplos do eclipse e da harmonia. V. é inegável que não nos dá Aristóteles exemplo algum que nos venha ajudar a compreender como se poderia demonstrar o ser de um sujeito.82 E. 1946. omitindo-se. já que perguntar pelo “o que é” é. como a lua.4 e n.5 e n. Anal. tratando-se de uma essência. p. como a lua ou o homem. se tenha tomado �����. II. por conseguinte. de uma prova de “existência” do eclipse. 296 297 . S.67 e 68. julga. p. portanto. V. III..5 e n. então. Cf. também. perguntar pelo termo médio78 e que não diferem o “o que é” de uma coisa e o porquê de ela ser. ibidem.60. então. p. 89a38-90al. precisamente. 1.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles um silogismo cujo termo médio não seria outro que não o “o que é” do próprio sujeito. interpreta-se ela como um todo acabado e perfeito. 4. outra respeitando ao próprio ser do sujeito. como uma primeira aproximação e abordagem do assunto.172.

o processo lógico de remontar a um princípio explicativo anterior. cujo estudo ocupará todos os capítulos e cuja solução se não propõe dogmaticamente. mediante um exame analítico daquilo que se pretende explicar. nota ad 3. II. posteriormente. de toda “mostração” do “o que é” a uma manifestação de termo médio? “Que 84 Seg.. Le jugement d’existence. cf.. em sinonímia com �������� (e ��������). Mansion (cf. sem mais.). descobrir. do sujeito. cf. E anuncia-se.. que as linhas acima citadas constituem. em Aristóteles. Se tais exemplos fossem suscetíveis de generalização e se se pudesse.85 Ora. porque o fizemos. por “discussões que seguem”. conforme ao uso habitual de expressões como essa pelo filósofo. p. p. Em desacordo com Tricot (cf. possível conhecer a mesma coisa. o problema com que deparamos é agora. que se revelaria. declarando que. também no que concerne à busca da qüididade. ad locum) e S. são acaso processos análogos ou idênticos de conhecimento? E.84 Tratar-se-ia. Le jugement d’existence.. isto é. preconceituosa em relação ao resto da obra e contraditória em face das conclusões que se irão. Le jugement d’existence. que não percebe o caráter meramente propedêutico dos capítulos 1 e 2 do livro II dos Segundos Analíticos e procura deles extrair toda uma teoria das relações entre o conhecimento causal em geral (incluindo o conhecimento da qüididade. com Ross (cf. as conclusões alcançadas manifesta-se no próprio caráter aporético da discussão que se vai iniciar sobre as relações entre definição e demonstração.. aliás. de toda definição a uma demonstração. Bonitz. de início. Que se não trata de uma “evidência” definitiva e que se não podem universalizar. ele é. analisando os exemplos de atributos como o eclipse ou a harmonia. praticamente. por definição e por demonstração. de “um novo problema que se tem em vista. então. empregando-se. então.. de uma passagem abrupta de um assunto a outro. sim.86 aceita como um dado evidente. assim.. p.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles acaso. p. Index. cf. conhecer o “o que é” e conhecer a coisa pela sua causa num silogismo demonstrativo. são-o sempre ou qual a extensão e o alcance de sua identificação possível? Vemos.176). mostrara que a pesquisa de suas qüididades é equivalente à busca dos termos médios para suas respectivas demonstrações. já nas primeiras páginas: não são os dois primeiros capítulos senão um levantamento preliminar e propedêutico das questões que se vão discutir. E compreendemos. em sentido absoluto.. Anal. 1946. como uma análise superficial poderia pretender. com.176. em absoluto. 85 Como crê S. no caso do eclipse e da harmonia. em consultando-se os exemplos que se privilegiaram. Mansion. diz-nos o filósofo. 90a35-b3.42a4 seg. pelo menos.. todas as coisas investigadas são investigação do termo médio” tornarase evidente. assim.5 e 6.162 seg. afirmar que todo e qualquer processo de investigação de qüididade é redutível a uma pesquisa de termo médio. escapamos ao risco de enveredar por soluções de facilidade ou de interpretar todo o início do tratado como a definição de uma doutrina acabada. então. das premissas de uma demonstração cuja conclusão não exprimiria outra coisa senão o ser. 3. 94a14-9. dizer o mesmo de todo e qualquer sujeito definível – também das essências. p. uma problematização deste tema. Definir e demonstrar. donde a possibilidade reconhecida de conhecer objetos de tal natureza tanto por demonstração como por definição. em verdade. 1946.. que a inteligência de seu mesmo conteúdo só se obtém. freqüentemente. o conhecimento pela definição) 298 299 . Aristóteles acabara de afirmar a identidade entre o “o que é” e o porquê de uma coisa qualquer e. o de precisar melhor a natureza e o sentido dessa primeira “evidência”. 86 ������� (assim como �������) designa. Mansion (cf. 1946. Mas como não ver. se o são.87 87 Como ocorre com S. realmente. isto é. portanto – poderíamos. se considerará solucionada. cremos. acima.. em 10. e sob o mesmo aspecto. cf. a problemática que. 90b1). isto é.V e n. Index. Bonitz. a introdução ao cap. que não mais concerne à busca do termo médio?”. o de confirmar ou não. ou. quando buscamos apreender a unidade do movimento de pensamento que se articula ao longo dos diferentes capítulos.306a 48 seg.67. na medida em que indagam da validade daquela generalização e perguntam pela liceidade da redução (�������). por certo. e 44a20-25. que se não deve traduzir ������������������ (90b1) por “discussões precedentes” mas. sobre a natureza dos vínculos que ligam as duas linhas de pesquisa que se distinguiram e os seus respectivos resultados. n. que uma só e mesma problemática se delineia desde os capítulos iniciais do livro II dos Segundos Analíticos. ou é impossível?”.

nenhum dos da terceira é univere o silogismo demonstrativo.80 e 81). Ocorre. Seg. Anal. 90b7-13.174). em primeiro lugar. provando-se a “existência” de uma coisa (do eclipse. 96 Cf. também.1 O que se demonstra. interpretando como um “silogismo da essência” (isto é: como uma demonstração que conclui. toda definição é conhecimento de alguma essência (�����) e não são. num terceiro momento. II. entretanto. finalmente. explicitamente as formule. II. em função das teses dogmáticas que. ao mesmo tempo. 88 Seg. 94 Cf. 8. ibidem. é suficiente para persuadir-nos recordar que nunca conhecemos atributos “por si” ou acidentes através de definições. o que se define Comecemos. 15-6. já que nada impede que definição e demonstração não sejam simultâneas. tal com fez. entretanto. por exemplo). 90b3-19. não como “acidentes”. Anal. 95 Cf. como o eclipse. Ora. acima. l.88 para vir a examinar mais tarde. bien qu’Aristote ne dise mot de ce passage ou. antes de ter a demonstração. como solucionadas. de ter o triângulo a soma de seus ângulos igual a dois retos? E é fácil dar a razão (�����) por que isto ocorre..93 Se consideramos. que. 13-16. 3. 90b3-7.. acaso. ibidem. ibidem.93 deste capítulo). 16-7. II. tomada como termo médio. não se considerará como realmente pertinente a uma discussão sobre as relações entre a demonstração cien93 Cf. 300 301 . Mansion (cf. Anal. naqueles silogismos se conclui. que nada impede se tenha Aristóteles estendido. se definição houvesse. condena-se a prejulgar todos os resultados posteriores da análise aristotélica da problemática em questão. deve compreender-se. neles. se é possível definir as coisas de que há demonstração. o que uma coisa é e sua natureza) o mesmo “silogismo da existência” a que julga fazer alusão o filósofo no cap. propondo uma interpretação doutrinária do que não é senão um debate preliminar. se demonstram pela primeira figura. em seguida.. acusando os comentadores antigos de não ter compreendido a articulação das partes do tratado. também. mas da “existência de um ser como natureza”.96 “Que não há. l. 93al-2. 3.95 Finalmente. para ver que há coisas que se provam mas não podem definir-se: com efeito.. definição de tudo de que também há demonstração é evidente”. é aceito que a definição respeita ao “o que é” e todo “o que é” é universal e afirmativo. Anal. pois não se trataria da prova de uma existência concreta. por si. não somente a autora toma. que vão ser estudadas nos capítulos seguintes. E. un faisceau d’indices trouvés dans les textes des Analytiques Seconds en donnent une claire confirmation” (ibidem. sobre a possibilidade de demonstrar as coisas que se definem91 para indagar. sal). ser objeto de definição e de demonstração. com efeito.173-6) poder mostrar o encadeamento das idéias entre os dois primeiros capítulos e os oito seguintes. 90 Cf. Um terceiro argumento. evidentemente. assim. sem que este.92 Comporta. também.97 Não há dúvida de que todos esses argumentos são de natureza dialética e de que não mais fazem que aguçar as aporias para que se buscam as soluções. não haverá definição daquelas coisas que. II..Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles 2 Aporias sobre a definição 2. donde a impossibilidade de definir-se o que. cf. essências as coisas que se demonstram. a l. aliás. 90a37-8: �������������������������������� 89 Seg.2 (cf. 3.. “follow upon interaction between the subject and something else”. 79a26-9. entretanto. num argumento simplesmente dialético. como também. p. de algum modo. de fato. definição tudo que se demonstra? Ora. apenas os silogismos afirmativos da primeira figura. estarse-ia provando. precisamente. 18-9. acima. 19-27. mediante a sua qüididade. uma vez que. se conhecer cientificamente o demonstrável é ter a demonstração. 97 Ibidem. no mesmo sentido. percorrendo primeiro as aporias que respeitam a essas questões. crê S. se há algumas coisas. delas teríamos conhecimento pela definição. 3. com. em seu primeiro argumento (cf.94 constatamos. por exemplo. então. 90b27-91a6. com o filósofo.6 e n. mas como uma designação daquelas propriedades. se prova: como haveria definição. incorretamente”. Anal. paradoxalmente. I. si l’on veut. 92 Cf. que não pode haver definição de tudo que. esses “indícios” que Mansion descobre são bem pouco convincentes. Em verdade. atribui ao filósofo. portanto. que podem. 7-17) que �����������. aquelas questões.. ibidem. 91 Cf.90 Perguntar-nos-emos. l. ainda que não pertencentes a seus sujeitos. 1. l. uma como definição da coisa. V. 14. nota ad l. construiremos por simples indução. desde o início. p. basta considerar a existência de silogismos negativos ou particulares (todos os da segunda figura são negativos. Assim é que. além dos limites da demonstração estrita. ibidem. a própria autora é. aliás. Seg. n. Assim. Seg. II. de algum modo. em nenhum momento.89 Consideremos. “quais dessas coisas se dizem corretamente e quais. ao menos. Entende Ross (cf. obrigada a confessar o caráter temerário de sua interpretação: “or. como no exemplo acima. de cette identification du syllogisme de l’existence par l’essence au syllogisme de l’essence.

IV. Um segundo argumento105 lembrarnos-á que. um raciocínio eminentemente dialético. já que. portanto. julgou encontrar. assim. 2. É que o eminente aristotelista.. uma tematização da impossibilidade de uma ciência humana. 108 Cf. sendo. Como se vê. que haja demonstração. que um demonstrável só se conhece cientificamente em demonstrando-o e converte-se. ao invés de examinar-se a possibilidade de uma outra forma de conhecimento da coisa demonstrável.107 Manifesta-se-nos. Anal. ao menos. agora. 3. a retomada da argumentação não testemunha senão de seu caráter geral a que. cap. acima. II. 90b19 seg. como sabemos.114. que o domínio do demonstrável não se estende aos princípios da demonstração. destarte.II. portanto. em verdade. como elemento de referência. nos servimos:103 se conhe98 Cf. há pouco. peremptoriamente.II. 174. 99 Cf. é certo. retém-se explicitamente a doutrina do livro I sobre a indemonstrabilidade das definições-princípios e utiliza-se ela como argumento para mostrar que. numa regressão infinita.I.. Cf. doutrina assente. o que é absurdo. para quem “l’insistance d’Aristote à poser ce problème montre qu’il ne se satisfaisait pas aisément de cette obscurité inévitable des principes et que son idéal restait celui d’une intelligibilité absolue”. cer o demonstrável é ter a demonstração. que são definições os princípios das demonstrações. em argumento uma mera afirmação dogmática. mesmo naqueles casos em que a interrogação dizia respeito à busca da definição e da qüididade. ele toma num sentido vago e impreciso a noção de ����� que introduz. 19-24.. sabemos. I. de uma coisa una. Quanto à afirmação de que se não pode conhecer por definição a coisa demonstrável. 3. visto que é com os silogismos da primeira figura que as ciências constroem suas demonstrações. 24-7. 117. 1. há definições que são indemonstráveis. O livro II dos Segundos Analíticos não reabre. ao menos para certas coisas.157. 100 Por ser a indução. mas teria bem maior alcance. n. acaso. com efeito.482). p. “com efeito.161.100 Quanto ao último argumento.104 se houvesse demonstração do que se conhece por definição. não apenas provaria “que não há definição de tudo de que também há demonstração”. na categoria da essência ou nas mesmas categorias adjetivas. pelas duas formas de conhecimento de que nos ocupamos. enquanto una. teríamos conhecido. declara-se. n. II. 187 e 206).101 Tomemos. ou como sinônimo de qüididade. as coisas que se definem. cf. que se não podem inteiramente recobrir. acima. ibidem. se definitivamente concludente.2 e n. acima..177.6. 104 105 106 107 302 303 . ibidem. V.. sobre a qual não mais se volta no estudo das relações entre a definição e a demonstração. o argumento de que. 5. 101 Uma vez que nem mesmo fica claro se se toma ����� em referência à categoria substantiva. assim como na doutrina da indemonstrabilidade. os campos respectivos da definição e da demonstração. 144. Seg. acima. por que isso implicaria a possibilidade de conhecê-la sem demonstração. que se terá de conciliar tal doutrina já afirmada com a análise da causalidade pressuposta por toda indagação. como sabemos (cf. obrigando-nos desde já a aceitar a total impossibilidade de um mesmo objeto ser conhecido. acima.. sem demonstração e pela definição. por isso mesmo. 103 Cf. um ao outro. por sua mesma natureza. como se provou anteriormente:106 fossem os princípios demonstráveis e teríamos princípios de princípios.108 Seg. invocando o caráter negativo ou particular de suas conclusões: com efeito.99 Também é manifestamente dialético. n. mas não. 102 Cf. aludíamos. 1939.. Le problème de l’être. quando o conhecimento científico do demonstrável é a demonstração. se não são acaso absolutamente estranhos. acima. demonstrar-se?102 Consideremos. 90b20-1.98 o argumento prova apenas que pode haver silogismo sem que a definição seja possível. podem elas. 3. o demonstrável. tratase de um argumento que. a discussão sobre o caráter demonstrável ou indemonstrável dos princípios. II. cap. onde pareceu descobrir-se a presença de um ������silogístico.. Anal. como estranhamente pretende Aubenque (cf. acima.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles tífica e a definição o argumento que se fundamenta nos silogismos da segunda e terceira figuras. l.. Cf..4. cap. ainda uma vez. ao mesmo tempo. l.205.2 e n. cf. acima. na oposição aristotélica entre o “mais conhecido em absoluto” e o “mais conhecido para nós”. o argumento indutivo que recorda os processos mediante os quais costumamos conhecer os atributos “por si” e acidentais. há uma ciência una”.

cf. silogística. cap. 120 O próprio subdivide-se em próprio em sentido estrito e definição. nenhum dos quais é parte (�����) do outro. que consistiu. 115 Cf.3 e n. nesse sentido. nem definição de tudo de que há demonstração.. Seg. com o qual se reciproca na atribuição. animal a bípede nem bípede a animal. o fato de os matemáticos assumirem previamente suas definições. na doutrina da ciência desenvolvida no livro I do tratado.119 mas o “o que é” é um próprio120 e se atribui 114 Cf. ou seja. perceberemos.99. Sobre o raciocínio “diaporemático”. 2. na definição. 101a34-6). constrói.80 e 81). Como se pode observar. que é ou que não é”. tendo sempre a mesma extensão que seu sujeito. ou a subordinação do particular ao universal. Anal.3 e n. Anal. 91a12: �������������������������������������. 119 Ibidem. na demonstração. Anal. isto é. 3. 110 Cf. o verdadeiro e o falso” (Tóp. Em verdade. acima. por exemplo. como um aporema (�������). 91a7-11. enquanto a demonstração mostra que algo é de algo. parecem tornar manifesta a recíproca exterioridade dos domínios respectivos de uma e outra forma de conhecimento?115 2. acima. IV. 102a18 seg. l. Anal. já que todos os argumentos que alinhamos.2 O silogismo da definição Após um tal tratamento diaporemático116 da questão das relações entre definição e demonstração. porque a definição é do “o que é” e da essência (�����) e “todas as demonstrações. com razão. cap. nem possibilidade alguma de definir e demonstrar a mesma coisa.112 toda demonstração prova um “que”. 304 305 .. 90b38-91a6. que assumem. Ross (cf.110 Em segundo lugar. por exemplo. Tóp. 3. Seg. 4. quando se crera poder estabelecer a redução da investiga109 Cf. n.I. “o silogismo prova algo de algo através do termo médio”. um silogismo dialético de contradição (cf. Não significam essas palavras. por exemplo. 90b30-3. 162a17-8). acima. então. a prova da igualdade dos ângulos do isóscele a dois retos. em geral. em cada caso. 112 Ibidem. II. numa exaustiva comparação entre as naturezas respectivas da definição e da conclusão científica ou. 33-4. ção sobre a qüididade e a definição à busca de um termo médio para a demonstração. se se fez a prova para o triângulo. enquanto. 117 Cf. não obsta a que se demonstrem o par e o ímpar. Finalmente. a dialética é útil “para as ciências filosóficas. ao menos.VIII. 3. II. 11. cada raciocínio dialético apresenta-se. ora. a análise da indagação sobre o eclipse. tendo mostrado que não há demonstração de tudo de que há definição. p.6. por exemplo. como. a eventual possibilidade de construir-se um silogismo demonstrativo da definição. sendo capazes de percorrer as aporias (����������) em ambos os sentidos. Mas tal não é a relação entre o “o que é” e o “que é”. Em primeiro lugar.171 seg. o procedimento das outras ciências. o quadrado e o cubo etc. 2. 91a12-4. Tóp. que não distingue entre o tratamento científico dos princípios e o das afecções “por si” dos gêneros da demonstração. mais facilmente. parecem. simplesmente. a menos que ambas as demonstrações se relacionem como parte e todo. I. 14-5. 3. IV. o filósofo busca elementos para sua argumentação dialética. não se atribui um de seus elementos ao outro.II.I. Seg. o que é a unidade e o que é ímpar. E a demonstração de algo diferente é uma demonstração diferente.111 “toda demonstração prova algo de algo.. isto é. da qüididade ou essência. uma vez mais. 101b19-23. donde ser manifesto o caráter meramente dialético do argumento..Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Haverá algumas coisas. desmentir os resultados a que chegara. não sendo diferente. todos eles. acima. Seg. leia-se a comunicação apresentada por Aubenque ao “Symposium Aristotelicum de Louvain” (1960). Aristóteles pretendendo dizer “so much for these doubts”. E os argumentos que. Anal. não pode haver demonstração do que é objeto de definição. como sabemos (cf..114 Como resolver a aporia. II. 116 Cf. II. desse modo. 4. II. ibidem. in Aristote et les problèmes de méthode.4 e n.4-7. nota ad locum). 3. não se atribui.3-19. V. cf. Anal. 90b33-8.239. 4. que possam ser tanto definidas como demonstradas?109 Em verdade. invocando o procedimento da ciência demonstrativa ao assumir seus princípios. Anal. manifestamente. ou o caráter de suas conclusões. acima.118 Ora. Seg. 2. Como dizem os Tópicos. 5.113 é coisa diferente mostrar o “o que é” e mostrar o “que é”. como as matemáticas. l. Seg. como observa. 1961. porque. 1. que a parte aporemática da discussão esteja terminada. consideremos agora. com. na definição do homem. põem como hipótese e assumem o ‘o que é’”.117 malgrado os resultados da etapa precedente de nossa argumentação. 90b28 seg. aliás. 111 Cf. sobretudo. 118 Cf. dialeticamente ainda. 113 Cf. subordinada ao título “Sur la notion aristotélicienne d’aporie”. a definição mostra o que é uma coisa. II. II. ou que não é. Seg.

91b34-5. Ross e Tricot (cf. Seg. o “o que é” e a qüididade do que se quer definir (C) mediante o termo médio (B pertence a C. 7. II. mas não se terá escapado à petição de princípio (���������� ���������). a definição de C). cf. mas não se provaria que é próprio de C. Cf. o seu caráter falacioso e sofístico. Anal. 127 Sobre a falácia da petição de princípio. os “o que é” de seus sujeitos. que se acrescente. A análise do pretenso silogismo da definição mostra-nos. também. provada pelo silogismo “A pertence a B. evidentemente. no processo de divisão. Se A e B não fossem próprios de B e C. na atribuição.. 5. 102a32-5: “Digamos atribuir-se no ‘o que é’ todas aquelas coisas que é apropriado dar em resposta. sendo um próprio. 91a15-6) parecem-nos bastante insatisfatórias.I. se se conclui a definição. num silogismo (seja A a definição de C.123 e.127 Caberia. por via demonstrativa. I. A definição da alma como número que a si próprio se move. II. obter. se se pretende considerar tal silogismo como uma demonstração da definição da alma: assume-se. 5. desse modo. Anal. I. l. 133 Cf. 16: �������’�������������������� 123 Cf. 4. 122 Cf.130 Por outro lado. no “o que é”). donde poder concluir-se que A é próprio de C). ibidem. 168b22-6. 4. 5. segundo a ordem adequada.126 porque a alma é a causa de sua própria vida e a causa de sua própria vida é um número que se move a si próprio: será verdadeira a 121 Cf. ibidem. l. o silogismo que conclui ser a alma um número que a si próprio se move. 408b32 seg. A pertence a C”) serão próprios. ibidem. na premissa. 130 Cf. 4.134 não se trata. 167a36-9. cf.124 somente se efetuará a prova de que se atribui o predicado no “o que é” do sujeito (de que A se atribui no “o que é” de C e de que. 18 seg. ibidem. l. respectivamente. l. então. por excelência – o que se responde quando se é interrogado sobre o que é a coisa. demonstre. 125 Cf. sem omitir nenhum. 169b12-7. 15. que o “o que é” se atribui no “o que é”. 91b28 seg. em seguida.125 já se exprimem. 5. não se mostra que o todo formado por esses termos exprime o “o que é” ou a qüididade. onde a considera a mais irracional (����������) de quantas definições da alma se propuseram. l. Tóp. Anal. ibidem. Seg. l. de C. se A pertencer a todo B. 128 Cf. Anal. 20-6. Mure. 13. ao conhecimento da definição. para um silogismo que pretendesse provar uma definição do homem (cf.Seja. como é o próprio da conclusão silogística. II. e se se disser B. 306 307 .121 donde a necessária reciprocabilidade. O mesmo se diria. assim. As interpretações de Colli. num tal processo. ad locum) da passagem em questão (Seg.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles no “o que é”. quer Aristóteles significar que a qüididade de uma coisa é – e ela o é. 4. II. 27 (todo o capítulo) etc. II.porexemplo. Mas. obviar. ibidem. 131 Cf. no entanto. Anal. com. 35 seg. Anal. 126 Cf. de todos esses termos:122 com efeito. Sof. tão-somente os elementos da essência.133 mas. 132 Cf. 46a33 e todo o capítulo. poderia concluir-se que A pertence a C. que o homem. Seg. um método demonstrativo.131 E o que impede. l. quando se é interrogado sobre o que ele é. 16-8. se a mesma relação existir entre os termos das premissas (isto é. é apropriado dizer que é um animal”. 101b19-23. isto é. ibidem. 14 tratará do uso da divisão para a correta preparação preliminar do “material” da demonstração científica. ainda que sob expressão diferente.I. manifestamente. proposta por Xenócrates. portanto. ainda que se chegue a um resultado verdadeiro. como o “o que é” e qüididade). 91a24-6. então. 6.. Seg. por certo. no caso do homem. é. os termos do silogismo (A será próprio de B e B. 129 Cf. mas também isto se assume. na premissa. E é precisamente o atribuir-se no “o que é” que distingue a definição dos próprios em sentido estrito. 26-32) etc. também. subtraia ou omita um elemento da essência?132 Defeito que se poderia. Também II. 31. quando se é interrogado sobre o que é o sujeito em questão. que é um próprio. concluir silogisticamente a definição. por certo. 4. em tomando consecutivamente. 91b14-20. 124 Cf. Anal. 91b12-3 e todo o capítulo.). é formulada aqui a mero título de exemplo e Aristóteles a refuta no tratado Da Alma (cf. Prim. é animal caminhante. uns dos outros. a definiçãodomenor quesepretendiademonstrarcomoconclusão. II.135 O método da divisão não é. a mesma qüididade que se pretende. 91a15-6. então. de uma demonstração silogística: também o que induz (��������) mostra algo. II. conclusão. de C. Tóp. Ref. Aristóteles se estenderá longamente sobre o uso dialético do método da divisão na “caça” à definição. 26-7. 135 Cf. no método platônico. 96b25 seg. .. por outro lado. pelo método que procede por divisões (�������������������� ����)?128 Mas a análise das figuras do silogismo a que se procedeu nos Primeiros Analíticos já mostrara que a “divisão” platônica é um “silogismo impotente”. 5. universalmente. Anal. Seg. na conclusão. além disso. por exemplo. no “o que é”. Seg. II. em suma. à maneira platônica. já se assume. se as premissas assim exprimem. Anal. Dizendo. sem que.129 uma vez que nenhuma necessidade caracteriza o resultado que se obtém a partir do que se assume. 5. 134 Em Seg. como. se é possível chegar. B pertence a C. pois nada justificaria que se afirmasse a reciprocabilidade entre os dois termos.

também aqui. tendo-se antes convencionado. 41a37-41. a inferência da conclusão final a que se chega. pretende A. 92a9-10. 3.68) – que. Anal. a propósito de Tóp. nesse terreno. Recordemos que o silogismo ������������ (cf. No texto de Seg. Anal.80). II. no silogismo �� ���������. por provado que não há uma ciência única. por que chama Aristóteles de ������������ um tal silogismo da definição. Anal. “L’origine du syllogisme et la théorie de la science chez Aristote”.137 deste capítulo) representa uma fase do pensamento aristotélico em que o filósofo. 142 Cf. assumindo que a qüididade de um contrário é o contrário da qüididade de seu contrário. que esse todo é a qüididade da coisa em questão? Os Tópicos tinham mostrado.34. tirada do tópico do contrário. em virtude da hipótese assumida. Seg. n. como a definição e corresponde à definição de definição. p. por provado. a definição do mal. os contrários de mal e divisível. inclusive no próprio domínio científico (cf. 1961. aliás. II. 6.VII. a definição de definição. Cherniss. que esse todo é a definição. entretanto. n. Além disso. concluir.136 assumindo. 153a26 seg.141 um processo dialético para fazerse aceitar. cf. Criticism of Plato and the Academy. estamos. Os Segundos Analíticos representariam.28. como diz Bonitz (cf. Prim. isto é. não é senão porque já aceitáramos que ele se estrutura 136 Cf. por isso mesmo. 1944. constituindo seu todo um próprio. p. então. uma definição previamente construída. ao dizer que o todo composto de tais e tais termos é próprio à coisa e se constitui de todos os elementos do seu “o que é”. alia quaedam praeter ipsas propositiones [petit]. silogisticamente que não há uma faculdade única e tem-se. num silogismo que pretende provar a definição. Os Tópicos não nos haviam proposto140 uma demonstração da definição mas. in Aristote et les problèmes de méthode. a definição de silogismo. na conclusão. que. cf. apud Ross.137 deste capítulo. Restaria perguntar. 3. e. na qual “la critique des conditions d’une démonstration syllogistique de la définition montre que celle-ci est impossible en principe” (ibidem. já estamos. então. mas uma outra que se lhe substitui. Anal. Ocorre. Assim. ao formular tal premissa menor. 153a6-26. que tais e tais termos são os únicos a figurar no “o que é”. como premissa menor.. assumindo a mesma definição e qüididade do bem. 308 309 . Cremos que se deva explicar o fato de o filósofo chamar de ������������ uma tal prova. 44. 92a20 seg. contrário do bem. 6. respectivamente. nada têm de convincente. isto é. Tóp. como hipótese. se podemos provar. uma vez que bem e indivisível são. como se constituía.) é mais que um simples silogismo. n. p. 3.VII. 92a6-10. tais e tais termos constituem um próprio e a totalidade do que se diz no “o que é”. que os argumentos que A. 3. 6.138 uma vez que.. prova-se. assume-se previamente – e eis a hipótese que dá o nome ao silogismo (cf. em seguida.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Seria acaso possível. p.. a nosso ver. para uma determinada coisa. então. tão-somente.VII. 138 Cf. 23. 92a6-9. acima citado (cf. 6. dá-se. de modo análogo ao de que acima nos servimos (cf. I.797a18-21): “hypothetica dicitur demonstratio quæ non recta pergit a propositionibus ad id quod colligi debet. Seg.137 Mas não é difícil ver que.. entretanto. I. que o indivisível é a qüididade do bem.139 assim como não se introduz. teríamos. n. Tóp. 141 Cf. então. o tópico do contrário:142 com efeito. se a qüididade do mal é o divisível. Anal. por certo. então. a terceira e última fase (a primeira corresponderia à aceitação do método da divisão. 6.64-70). isto é. entretanto. confrontando a conclusão que se prova silogisticamente com a hipótese inicial. não se conclui silogisticamente a proposição que se tem em vista provar. que pretendemos demonstrar. poderemos. cf. sed quae. se não há uma faculdade única para todos os contrários. E ainda há petição de princípio. então. II. n. 92a11-9. entretanto. a definição de definição. O que a prova da definição descrita nesse último texto (assim como no de Tóp. algo como o que segue: assume-se.IV. se se quer provar que não há uma ciência única de todos os contrários. se incorre em petição de princípio. não mais aceitando o método platônico da divisão como suficiente.VII. p. ao formular a premissa menor.138 deste capítulo). II. 3. precisamente. Index.VII. 137 Cf. não se deverá introduzir. desse modo. um silogismo da definição. que tal é a definição da coisa. Anal. procurando mostrar que esse texto não tem somente em vista os raciocínios dialéticos. proceder por hipótese (������������). Seg. acima. para daí concluir. que temos a definição da coisa. ut efficiat quod vult. II. também. com. 139 Cf. cap. 3. como corretamente se observou. 140 Em VII.. Mansion alinha contra Cherniss. a segunda. que a qüididade é o próprio constituído dos elementos no “o que é” e. II. Mansion (cf. desta vez. de algum modo. se se constrói uma outra espécie de prova ������������. acima.57-81) que o texto de Tóp. então. afirmando. ut sibi concedantur”. ipso facto. em virtude da hipótese assumida. 92a6 seg. que os Tópicos conteriam) da evolução da doutrina do filósofo. que o próprio constituído dos elementos que figuram no “o que é” é a definição. prova-se. também não há uma ciência única. 50a16-28 etc. crê encontrar no silogismo um instrumento eficaz para obter – e demonstrar – definições. ibidem. nota ad Seg. como premissa maior. Seg. Anal. com. à doutrina da demonstração silogística das definições. a propósito do silogismo da definição que utiliza a definição de definição como premissa. mas não é menos óbvio que. 6. a nota anterior) acrescenta. ao silogismo hipotético descrito nos Primeiros Analíticos é a construção silogística com que se tenta estruturar aquela parte do raciocínio hipotético.. como premissa de um silogismo. que os Primeiros Analíticos consideram não-silogística. que a verdade desta última implica a verdade da primeira. Com efeito. pelo interlocutor. Erroneamente. utilizando.

Oswaldo Porchat Pereira

Ciência e Dialética em Aristóteles

2.3 Definições nominais e conhecimento da qüididade
Uma longa série de argumentos parece, assim, mostrar-nos a impossibilidade de demonstrar uma definição. Por isso mesmo, cabe perguntar: “De que modo, então, o que define mostrará a essência ou ‘o que é’?”.143 Mas, se a definição não se obtém por demonstração, isto é, como conclusão necessária engendrada a partir de premissas previamente aceitas,144 tampouco poderá obter-se ela por uma indução, através da evidência dos casos particulares, uma vez que a indução não prova o “o que é”, mas “que é ou que não é”, que tudo é assim por nada ser de outra maneira.145 Ora, “persuadimo-nos de todas as coisas ou através de silogismos ou a partir de uma indução”.146 Que outro recurso restará, então, ao que define? Não será pela percepção, por certo, nem apontando com o dedo que se mostrará o “o que é”.147 E, levando suas aporias até as últimas conseqüências, Aristóteles vai pôr em dúvida a mesma possibilidade de conhecer-se realmente algo por definição, isto é, de conhecer-se, em sentido estrito, a qüididade de alguma coisa. Com efeito, como há de mostrar-se o “o que é”,148 se é necessário ao que conhece o que é o homem, ou qualquer outra coisa, conhecer, também, que ele é (���������)? “Pois o que não é, ninguém sabe o que é”:149 se proferimos expressão que designa um ser fictício, como “bode-cervo” (����������), conhecemos, por certo, a significação do discurso ou do nome, “mas é impossível conhecer o que é o bode-cervo (����’ ��������������������������������)”,150 pela simples razão de que ele não é. A mera significatividade do discurso nada indica, pois, sobre o ser do que se significa e, portanto, a possibilidade de definições que são puramente nominais não garante
143 144 145 146 147 148 149 150

o conhecimento do “o que é” das coisas definidas; não se conhecerão qüididades, não se falará em qüididades, sem que se conheça que as coisas que se definem são: o “o que é” é o que algo é. Enquanto mero discurso significativo, não tem a definição valor apofântico, nada dizendo sobre se a coisa definida é ou não é.151 Mas justamente porque pretende a definição ser algo mais do que uma simples definição nominal é que se coloca o problema de saber como se acrescentará à pura explicitação de uma significação um conhecimento de qüididade, que, conforme vemos, parece dever acompanhar-se de um conhecimento de outra natureza, de um conhecimento do “que é” (���������). Se se deve, porém, mostrar o que é a coisa e que ela é, como se haverá isso de fazer por um mesmo discurso?152 Definição e demonstração mostram, cada uma, uma só coisa, mas o “o que é” e o “que é” são coisas diferentes: “o que é o homem e o homem ser são coisas diferentes”.153 Em segundo lugar, recordemos, também, que “dizemos ser necessário provar-se através de demonstração tudo que algo é, se não se tratar da essência. Ora, ser não é a essência de coisa alguma, pois não é um gênero o ser. Haverá, portanto, demonstração do ‘que é’, o que, precisamente, fazem, também, as ciências, atualmente. Com efeito, o geômetra assume o que significa o triângulo, mas prova que ele é. Que coisa mostrará, pois, o que define, se não o que é o triângulo? Alguém, portanto, conhecendo, por uma definição, o que é, não conhecerá que é. Mas isto é impossível”.154 Porque o ser das coisas se nos manifesta, assim, como objeto de demonstração, conforme nos revela o mesmo
151 Cf., acima, cap.IV, n.66; IV, 2.4 e n.92. 152 Cf. Seg. Anal. II, 7, 92b8-11. 153 Ibidem, l. 10-1. Note-se que, se Aristóteles ilustra, aqui, a distinção entre o “o que é” e o “que é”, com o exemplo do homem, nada nos autoriza a interpretar tal exemplo como uma indicação implícita de que o “que é” do homem possa ser provado por uma demonstração, paralelamente ao conhecimento de seu “o que é”, mediante uma definição. Contra, cf. S. Mansion, Le jugement d’existence..., 1946, p.179. 154 Seg. Anal. II, 7, 92b12-8. Entendemos, com Ross (cf. nota ad l. 12-5), que o sentido de toda a passagem exige que se leia, a l. 13: ��������� �����, em lugar da lição �������������� dos manuscritos, aceita pela maioria dos tradutores e autores. Por outro lado, a tradução que Tricot propõe de ���������������, a l. 13: “à l’exception de la seule substance”, é absoluta-

Seg. Anal. II, 7, com., 92a34-5. Cf. ibidem, l. 35-7. Cf. ibidem, l. 37-92b1. Prim. Anal. II, 23, 68b13-4; cf. também Ét. Nic. VI, 3, 1139b26-8. Cf. Seg. Anal. II, 7, 92b1-3. Cf. Seg. Anal. II, 7, 92b4 seg. Ibidem, l. 5-6. Ibidem, l. 7-8.

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Oswaldo Porchat Pereira

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procedimento das ciências, onde definição e demonstração parecem, destarte, plenamente distinguir-se e dissociar-se,155 compreendemos que não cabe à definição, mas tão-somente à demonstração, mostrar que uma coisa é: a definição mediante a qual conhecemos o que é o triângulo não nos faz conhecer que ele é! Eis-nos, então, mergulhados, parece, em grave aporia. Não nos persuadem, com efeito, todos esses argumentos de que os que definem não provam nem mostram o “que é” das mesmas coisas que definem?156 Definir-se-à a circunferência como uma linha eqüidistante do centro; mas, ainda que haja algo eqüidistante do centro, por que a coisa assim definida é? E por que tal coisa é a circunferência? Poder-se-ia, também, dizer que é o oricalco, se não nos informam as definições se é possível (�������) o definido nem se é aquilo de que pretendem ser definições, donde o podermos, sempre, perguntar ainda pelo porquê. Tudo parece condenar, assim, a pretensão de conhecerem-se, mediante definições, as qüididades das coisas. E porque a única alternativa que se coloca é a de ou mostrarem as definições o “o que é” ou serem meras explicitações dos significados dos nomes,157 se não concernem ao “o que é”, serão meramente nominais. Deveremos concluir, então, que a definição é “discurso que significa a mesma coisa que um nome”,158 o que nos levará, no entanto, a conseqüências absurdas: pois, em primeiro lugar, haverá definições tanto das coisas que não são essências, como das que simplesmente não são, já que é possível significar também os não-seres;159 em segundo lugar,160 a redumente inaceitável, como mostra S. Mansion, cf. Le jugement d’existence..., 1946, p.179-80, n.88. Quanto ao caráter não genérico do ser, cf., acima, IV, 4.2. 155 Mas note-se que Aristóteles ilustra o “que é”, objeto de demonstração, com o exemplo do triângulo, isto é, de uma afecção por si do gênero geométrico, cf., acima, IV, 2.3 e n.81 e 82. O caráter dialético do argumento é, assim, ressaltado pelo fato de não fazer menção o filósofo das definições-princípios, onde se assume conjuntamente o “que é” e o “o que é”, cf., acima, IV, 2.4. 156 Cf. Seg. Anal. II, 7, 92b19 seg. 157 Cf. ibidem, l. 26-7. 158 Seg. Anal. II, 7, 92b27-8. 159 Cf. ibidem, l. 28-30. 160 Cf. ibidem, l. 30-2.

ção da definição à simples explicitação de uma significação nominal converterá todos os discursos em definições, uma vez que será sempre possível dar nome a qualquer discurso: todos conversaremos definições, a Ilíada será uma definição! Finalmente, nenhuma demonstração demonstrará que tal nome tem tal significado: também as definições serão, pois, incapazes, de mostrá-lo.161 Percorrendo as aporias que se nos deparam, ao tentarmos precisar as relações entre a definição e a demonstração, não somente se nos manifestou que definição e silogismo não são a mesma coisa, como, também, que não há definição e silogismo de uma mesma coisa.162 Mas o aprofundar as dificuldades levou-nos, ainda, a bem mais estranho resultado, pois nos parece, agora, que a definição nada demonstra nem mostra e que o conhecimento do “o que é” se não obtém nem por definição nem por demonstração.163 O domínio da definição pareceu-nos restringir-se, com efeito, ao da linguagem e do discurso em que se não atinge o que as coisas, por si próprias, são: todas as definições são nominais. Mas, por isso mesmo, transforma-se a definição num instrumento ineficaz e, portanto, absurdo de conhecimento: dissociada do ser, ela não mais é senão o fruto de uma decisão arbitrária que faz artificialmente corresponder-se um nome e um discurso, nada impedindo que se faça ela confundir com um discurso qualquer.

3 Demonstração e definições
3.1 Considerações preliminares
É chegado, então, o momento de recomeçar e de, em retomando nossas análises, examinar “quais dessas coisas se dizem corretamen161 Cf. ibidem, l. 32-4. A significação dos nomes, como a dos discursos em geral, é meramente convencional (�������������), cf. Da Int. 2, com., 16a19; 4 (todo o capítulo), donde não ser uma definição meramente nominal mais do que a explicitação de uma significação convencionalmente atribuída a um nome. 162 Cf. Seg. Anal. II, 7, 92b35-6. 163 Cf. ibidem, l. 37-8.

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te e quais, incorretamente”,164 para saber de que modo há demonstração e definição do “o que é”, se é que há. Tal exame exigirá de nós uma reflexão atenta e uma cuidadosa atenção ao detalhe do texto aristotélico, objeto de inumeráveis e controvertidas interpretações, no mais das vezes francamente errôneas, como procuraremos mostrar.
Uma vez que, como dissemos, é idêntico conhecer o que é e conhecer a causa de ‘se é’ (a razão disso é que há alguma causa e esta é idêntica à coisa ou distinta e, se for distinta, a coisa será ou demonstrável ou indemonstrável (���������������������������)) – se é, então, distinta e é possível fazer a demonstração, é necessário que ela seja o termo médio e que se faça a prova na primeira figura: com efeito, o que se prova é universal e afirmativo. Uma modalidade será, então, a que há pouco se examinou (�����������������), provar-se mediante algum outro “o que é”. De fato, é necessário que o termo médio dos ‘o que é’ seja um “o que é” e o dos próprios, um próprio. Por conseguinte, provar-se-á uma, não se provará a outra das qüididades da mesma coisa. Que esta modalidade, pois, não será demonstração já se disse, anteriormente; mas é um silogismo “lógico” do “o que é” (��������������������������������). Digamos, porém, de que maneira é possível [subent.: uma demonstração], retomando a questão desde o princípio.165

o filósofo não coloca o problema da demonstração senão para o segundo membro, isto é, para os casos em que algo se distingue da causa por que é: deixa, pois, de lado, toda e qualquer referência a um conhecimento demonstrativo, no que respeita às essências ou substâncias e a quanto se lhes pode assimilar (e não se estende tampouco em mostrar por que se identificam aqui “o que é” e causa, já que é imediatamente evidente que, coincidindo a coisa e a causa, necessariamente coincidirão o “o que é” e a causa de a coisa ser, o “o que é” não sendo senão o que a coisa é). Por outro lado, quando a coisa e sua causa não coincidem, distingue o filósofo os casos que comportam e os que não comportam demonstração;169 se a demonstração é possível, prova-se a coisa pela sua
169 Cf. ibidem, l. 6: �������������� �������������O que o texto aristotélico nos diz, com extrema concisão, é que, conforme o caso, pode ou não um atributo ser demonstrado: ele não o pode, se é acidental e contingente, ele o pode, se constitui uma propriedade de seu sujeito por si (cf., acima, III,1.3); e o fato de os acidentes serem causalmente determinados não implica sua demonstrabilidade, uma vez que sua causalidade também é acidental (cf., acima, III,1.4 e n.52). Ross (cf. seu com. intr. ao cap.II, 8) vê corretamente esse momento do texto, mas não entende como nós a sintaxe das l. 5-6: “the reason is that there is a cause, either identical with the thing or different from it, and if different, either demonstrable or indemonstrable” (cf. seu resumo do texto de II, 8, ad locum), obrigandose, então (cf. nota ad 93a6), a atribuir a Aristóteles um estilo frouxo, uma vez que, obviamente, não se refere o filósofo à demonstrabilidade ou indemonstrabilidade da causa, mas à sua utilização ou não como termo médio de demonstração que conclui aquilo de que é causa. Por outro lado, não é possível admitir, com Mure (cf. ad locum) e S. Mansion (cf. Le jugement d’existence..., 1946, p.183), que Aristóteles esteja a dizer demonstrável ou indemonstrável a essência, quando não se confunde a coisa com sua causa (aliás, para esta última autora, tal expressão aristotélica significaria, apenas, que se coloca naqueles casos o problema da demonstrabilidade da essência, uma vez que teria o filósofo afirmado, pouco depois (em II, 9, 93b26-27), que “il y a toujours démonstration de l’essence quand la cause est distincte de l’objet”, cf. Le jugement d’existence..., 1946, p.186 e n.114). Em verdade, não somente o texto de 93b26-27 não tem, como veremos, essa significação, mas também o capítulo 8 é insofismavelmente claro, ao negar definitivamente a possibilidade de qualquer demonstração do “o que é”, cf. 93b16-17, 19. É curioso notar que parece remontar a Filópono a origem daquela interpretação errônea de II, 8, 93a5-6: com efeito, entendera o grande comentador grego estar Aristóteles a dizer que é possível uma demonstração da definição, se “o que é” é causa, e que a razão e causa de haver uma tal demonstração é haver uma certa definição, a definição formal (���������������) das coisas, suscetível de ser tomada como termo médio de um silogismo demonstrativo que concluiria a definição material (��������������) das mesmas; a definição propriamente dita seria a que reúne uma e outra (a definição formal e a material) e assim, não coincidindo a causa (definição formal) com a definição real e completa, haveria uma definição demonstrável (a material) e uma indemonstrável (a formal), utilizada como termo médio (cf. Philoponi

Como se vê, Aristóteles principia por relembrar166 que identificou, no começo do livro II,167 o conhecimento do “o que é” ao conhecimento da causa por que alguma coisa é, dispondo-se agora a explicar a razão e o alcance de assim proceder. Encontra essa razão no fato de sempre haver uma causa para uma coisa dada, que se identifica ou não à própria coisa.168 Deixando de lado o primeiro membro desta alternativa,
164 Seg. Anal. II, 8, com., 93a1-2; acima, V,2.1 e n.89. S. Mansion considera “bastante obscuro” (cf. Le jugement d’existence..., 1946, p.183) o texto do capítulo 8; cremos, no entanto, que as obscuridades que nele encontra se devem antes à linha errônea de interpretação que adota, como procuraremos mostrar. 165 Seg. Anal. II, 8, 93a3-16. 166 Cf. ibidem, l. 3: ���������� 167 Cf. Seg Anal. II, 2, 90a14-5; 31-4; acima, V, 1.5. 168 Cf. Seg. Anal. II, 8, 93a5-6: ��������������������������������������������. Cf. também, acima, III,1.4 e n.49.

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causa expressa pelo termo médio de um silogismo da primeira figura, uma vez que o que se prova é algo universal e afirmativo.170 Se isto ocorre, perguntar o que é a coisa demonstrada, perguntar por sua definição, equivalerá, então, a perguntar pelo termo médio do silogismo que a demonstra, isto é, pela sua causa. E que a busca da definição coincide com a busca do termo médio do silogismo demonstrativo é o que se assume, aqui, para mostrá-lo, um pouco adiante: “Digamos, porém, de que maneira é possível [subent.: conhecer a essência por demonstração], retomando a questão desde o princípio”.171 Pois toda a questão consiste em mostrar de que modo se pode, malgrado as dificuldades reconhecidas, obter a definição através do silogismo que demonstra que a coisa é.

3.2 O silogismo “lógico” do “o que é”
E, com efeito, há uma maneira de obter a definição por silogismo que há pouco (���)172 se abandonou por inaceitável, quando se provou irrefutavelmente, em capítulo anterior, que a pretensa demonstração do “o que é” não é mais do que uma petição de princípio, assumindo-se como termo médio, nas premissas, a mesma qüididade que se quer demonstrar na conclusão:173 desdobra-se, indevidamente, a
in Aristotelis Analytica Commentaria, p.364-5). Ora, uma leitura atenta do cap.8 é suficiente para mostrar-nos que nada justifica uma tal interpretação, a qual torna contraditória e ininteligível, aliás, toda a seqüência do texto. 170 Cf. Seg. Anal. II, 8, 93a6-9. Sobre a cientificidade da primeira figura, cf., acima, I, 3.2 e n.161; sobre a universalidade do objeto científico, cf. III, 2.2, part. n.74 a 76. Quanto à afirmação de que o demonstrado é afirmativo, ela parece ter em vista tão-somente o problema da definição, cujas relações com a demonstração Aristóteles se empenha, no momento, em precisar, uma vez que a ciência aristotélica não parece excluir os silogismos negativos, cf., acima, cap.IV, n.95; mas todo “o que é”, com efeito, é universal e afirmativo, cf. Seg. Anal. II, 3, 90b4; acima, V, 2.1 e n.93. 171 Seg. Anal. II, 8, 93a15-6. 172 Cf. Seg. Anal. II, 8, 93a9-10: �������������������������� ���������������... 173 Cf. Seg. Anal. II, 4, todo o capítulo; acima, V, 2.2 e n.116 a 127. Como observa Ross (cf. nota ad Seg. Anal. II, 8, 93a9-16), ���, a l. 10, não se refere ao que imediatamente o precede, mas ao que dizia “há pouco” o cap.4; e, de fato, nas linhas 6-9, não se referia Aristóteles a uma demonstração do “o que é”, mas à demonstração científica, pela causa expressa no

termo médio, de uma propriedade “por si” distinta de sua causa. Como uma tal demonstração enseja a apreensão da qüididade da coisa demonstrada é o que Aristóteles se propõe mostrar, mais adiante, a partir de 93a16: entretanto, se a demonstração pode, assim, propiciar uma definição, diz-nos o filósofo, nada tem isso a ver com aquela falsa demonstração estudada no cap.4, a qual, porque petição de princípio, encerrava uma insuperável falácia, não sendo senão uma demonstração “lógica”. Não entende, assim, entretanto, Filópono (cf. Philoponi in Aristotelis Analytica Commentaria, p.365), que, já tendo interpretado a passagem precedente (Seg. Anal. II, 8, 93a3-9) como uma indicação da possibilidade de demonstrar-se a definição material pela formal (cf., acima, n.169 deste capítulo), julga que a modalidade de demonstração “lógica” do “o que é” a que o filósofo se refere, a partir de l. 9, respeita às linhas imediatamente anteriores e que o ��� de l. 10 a elas, pois, remete o leitor. Tal interpretação leva, naturalmente, então, a tomar toda a passagem de 93a16 seg. (na qual, pondo termo a todas as aporias levantadas, procura o filósofo mostrar como, apesar de não haver demonstração da essência, serve a demonstração científica, no entanto, à constituição de uma definição correta) como uma explicação sobre como se constrói a demonstração da essência! Com isso, compromete-se, definitiva e irremediavelmente, toda e qualquer possibilidade de interpretação correta e coerente do capítulo, ao mesmo tempo que se sacrificam a compreensão e a inteligência dos resultados finais da profunda e laboriosa análise, empreendida por Aristóteles, das relações entre a definição e a ciência demonstrativa. Infelizmente, um número razoável de bons autores seguiu, com maior ou menor fidelidade, a interpretação de Filópono. Assim é que Robin (cf. “Sur la conception aristotélicienne de la causalité”, in La pensée hellénique, 1942, p.456 seg.), distinguindo entre uma essência formal e uma essência material, respectivamente termo médio e conclusão do silogismo “lógico” da essência, entende que, em II, 8, “Aristote explique qu’il y a une façon de démontrer l’essence sans cercle vicieux, en la démontrant au moyen d’une autre chose, qui est encore une essence” (ibidem, p.456 – os grifos são nossos). Le Blond, por sua vez, apóia-se explicitamente em Filópono para explicar o silogismo do “o que é”, nele também distinguindo entre a definição material que se exprime na conclusão e a definição formal que se formula como termo médio, cf. Logique et méthode..., 1939, p.150, n.2 e 4; interpreta 93a14-15, como se estivesse Aristóteles a dizer que, embora não possa ser demonstrada, “cependant l’essence est connue grâce à un syllogisme logique” (ibidem, p.156); explica os silogismos “lógicos” do eclipse e do trovão, segundo aquela distinção entre as definições material e formal (cf. ibidem, p.157-8); e, finalmente, porque, como Filópono, interpreta todo o capítulo 8 como uma discussão sobre o silogismo do “o que é”, identifica o silogismo da essência e o científico! Com efeito, diz-nos o ilustre autor: “Il semble donc que ce syllogisme dit logique et présenté comme artificiel répond en réalité à la description du syllogisme strictement scientifique” (ibidem, p.163). E, se a doutrina toda se complica e embaralha, resta a Le Blond, como recurso derradeiro, imputar toda a culpa a Aristóteles: embaraçou-se o filósofo com a doutrina da definição, cuja constituição não conseguiu, finalmente, explicar (cf. ibidem, p.156); não conseguiu tampouco esclarecer as relações entre a definição e a demonstração, senão em aparência e ao preço de um equívoco, demonstrando sua hesitação e as graves confusões em que incorreu (cf. ibidem, p.166-7); inspirado por doutrinas contrárias e inconciliáveis, não soube Aristóteles escapar à ambigüidade de seus conceitos nem poupar “à tous ces chapitres leur caractère singulièrement embarrassé” (cf. ibidem, p.167-8)! Também S. Mansion se orienta fundamentalmente segundo a mesma linha de interpretação e considera toda a passagem de 93 a 16 seg. como uma descrição da construção do silogismo da essência (cf. Le jugement d’existence..., 1946, p.186 seg.); reconhecendo que Aristóteles não formula, nessa parte do

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. pelo contrário.. dialético ou sofístico. graças à distinção entre as duas definições. como os outros. II. quando pretende que o silogismo “lógico” é assim chamado porque indica a essência ou qüididade de um fato e porque “l’essence ou la quiddité. demonstração verdadeira mas. que a correta interpretação desta última passagem é bem outra. 199201). acima. o resumo. de modo definitivo. Mais recentemente.III. desdobrando-a graças a uma intervenção da dialética que “épouse le redoublement indéfini par lequel la quiddité s’efforce de se précéder elle-même pour se fonder. traduzindo.6 e n. cap. numa repetição infinita da questão. demonstrar-se.176 isto é. Or. nele vê tão-somente uma teoria da demonstração da essência. toujours antérieure à elle-même. in La pensée hellénique. cf. 93a15. 1962. n. formal e material. décomposée artificiellement. p. separa-se a forma ou qüididade e toma-se ela como termo médio (cf. “dans certains cas favorables et bien déterminés. pour notre usage. uma reabertura do debate sobre a demonstrabilidade ou indemonstrabilidade dos princípios (cf. mas como silogismos científicos do porquê (cf.174 uma definição e um “o que é” por outra definição e outro “o que é”. 1944. mais.80 e 81) e que “est au fond analogue à une démonstration de propriété essentielle” (cf.175 se é a definição o discurso da qüididade. c’est-à-dire dont la causalité réside en ce qu’elle est le ����� ou la notion de la chose”. publicado posteriormente. uma petição de princípio. le terme dont il s’agit désigne une certaine façon.73-7).180 É como se. d’autre part.465. cap. que não é demonstrativo.. não somente a questão da indemonstrabilidade não é.. também comporta. porém. ibidem.VI. “para cada um dos seres. quando não sofístico. nous l’avons. o autor formula uma explicação diferente da razão pela qual Aristóteles fala em silogismo “lógico”: “C’est que. então. compreende corretamente que Aristóteles afasta.178 Uma texto. ao que logo veremos. 5. 8.107 deste capítulo). o segundo.141. então. o primeiro correspondendo a um silogismo da essência. p. não é à dialética.6 e n. II. analisando e explicando Seg. V. II.. 176 Cf. entende o silogismo “lógico” como uma intervenção residual da dialética. ibidem. une nature simple. de se ressaisir dans son impossible unité” (Le problème de l’être. Aubenque. 179 Cf. pois. o perigo de tornar-se uma petição de princípio (cf. cause et principe d’elle-même. e o filósofo ter-lhes-ia acrescentado. porque definitivamente estabelecida no livro I (cf.76-7). p. com que estamos de completo acordo. “Sur la conception aristotélicienne de la causalité”. p. cf.Tout le chapitre est consacréà expliquer comment on peut bâtir un syllogisme de l’essence.191).15. III. tratar-se de um estudo sobre a possibilidade de reservar-se. Ora. n.483. c’est en effet pour Aristote une cause logique.. Anal. III. Mansion..136 seg. acima. por outro lado. 2. fazer as vezes da demonstração científica. conforme represente um mero momento de uma pesquisa propedêutica à ciência ou pretenda. ibidem. provando-se. neste último caso. servir à compléter et à eclaircir la définition d’une essence déjà connue par ailleurs” (ibidem.1 e n. que comete o filósofo a tarefa do conhecimento das essências dos atributos. d’une façon toute abstraite et contrairement à la vérité de sa nature” (Robin.179 isto é. uma qüididade pela outra. 8. interpretação e comentário de Ross. A demonstração “lógica” do “o que é”. com Robin. 178 Tóp.189-90). através da demonstração. 2. descrevendo-a como um duplo silogismo. p. au lieu de la traiter comme telle. c’est à dire individuellle. Seg. mas à própria ciência. a um silogismo simples do porquê. um certo lugar ainda que limitado para o silogismo da essência: tais silogismos poderiam. 175 Tóp. p.. parce qu’elle est toujours autre qu’elle-même. um silogismo meramente “verbal”. o silogismo e a demonstração como meios de estabelecer uma definição. o silogismo “lógico” da essência escaparia. “L’origine du syllogisme et la théorie de la science chez Aristote”. 17. p. une réalité indivisible. em verdade.VI. acima. tão-somente.193). cf. um e outro uso. também. 318 319 . por si. 174 Cf. a definição do trovão. a impotência do discurso humano. 14.483). um só é o ser aquilo que precisamente é”. mas dialético.. tratar-se-ia. p. acrescenta entretanto: “Cela ne doit cependant pas faire illusion. Anal. na ciência. ibidem. 141a35. Seg. ������� assumindo.1 e n.. la chose qui est ici en question est sans doute une essence. de uma demonstração que não difere senão pela forma da demonstração científica da “existência” pela essência a que teria o filósofo aludido no princípio do livro II (cf.33-4. tal demonstração da essência não é. Anal. 151a32-4. Le problème de l’être. (cf.177 e se. 1942.190). que também não apreende o fim visado pelo filósofo em II. Anal. ad locum.. de novo. et pourtant incapable. II. um silogismo “lógico” do “o que é”..34-5. 8 (cf. querendo construir silogisticamente. o silogismo da essência constituiria uma segunda forma de demonstração reconhecida pelo filósofo nos Segundos Analíticos. p. 1961. acima. também este autor não alcança o sentido profundo do capítulo e julga.6. sem petição de princípio. que combina as duas precedentes e que ele teria exposto em Seg. acima. também. A. que vê na longa e trabalhosa discussão sobre a possibilidade da demonstração da definição. pois. como vimos. 177 Cf.. O trovão é ruído nas nuvens.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles qüididade da coisa. V. por exemplo. “à toutes les objections accumulées contre la démonstrabilité de l’essence” (cf. como. acima. que demonstra a essência. nesse capítulo.105 a 107). 8. 151b16-7. uma terceira forma.191-2). acima. então. C’est donc que les syllogismes esquissés par Aristote sont équivalents à des syllogismes de l’essence” (ibidem. p. isto é. ibidem. cf. p. cf. No seu Aristote. isto é. se construísse o seguinte silogismo: A extinção do fogo nas nuvens é ruído nas nuvens. 1. O trovão é extinção do fogo nas nuvens. ibidem. que encerra. daquilo que uma coisa se diz. à demonstração científica das propriedades “por si” de um sujeito! Evitando. entretanto. 4.47). aliás. retomada. um sentido francamente pejorativo. os silogismos do trovão e do eclipse como silogismos da essência. no livro II dos Segundos Analíticos. cf. por outro lado. porque uma demonstração da “substância” é impossível. Não concordamos. 142b35. A argumentação “lógica” será dialética ou sofística.III. ainda que as essências não possam. 180 Sobre o sentido aristotélico de �������. p. 1. 1962. ao lado do silogismo científico comum do “porquê” (cf.. p. dans le vocabulaire d’Aristote. 93a12-2. d’envisager les choses. n. Aristote. 199). 99a23 seg. Aubenque. conforme à intenção que preside a seu uso. propriamente. ibidem). abstraite et générale. acontece. in Aristote et les problèmes de méthode. embora a doutrina do filósofo nos ensine que “não é possível haver muitas definições da mesma coisa”.

e basta atentar na verdadeira definição do trovão (“ruído do fogo que se extingue nas nuvens”182) para melhor compreendermos toda a impropriedade do “silogismo lógico”. ad locum). 8. Cf. 8. sua tradução. 189 Cf.3. 8. acima.181 mas já sabemos o que pensar de tais “demonstrações”. contraditório.185 não pode o conhecimento do porquê ser anterior ao do “que”. 90a16. 93a16 seg. a percepção de um animal em movimento cuja velocidade nos faz supor que se trate de uma lebre. II. tais exemplos (trovão e eclipse) e vejamos de que modo nos será possível. O eclipse é privação da luz da lua. VII. cf. Por outro lado. ignorando se é”. como pretendem Tricot (cf. em face de tudo quanto vimos. acima.475) dá. quando se opera.186 já que isso equi181 182 183 184 185 Cf. Mansion (cf. por uma observação preliminar:184 sabemos. n. reconhecendo que Aristóteles 3. 186 Cf. cf. 8. como exemplo de conhecimento acidental do “que”. acima.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Obtemos. III. cf. que é possuindo o “que” que indagamos do porquê e embora o “que” e o porquê se nos tornem. se temos que o trovão é um certo ruído nas nuvens. II. II. 93a19-20. a “inversão científica”. sem incidir no vício de raciocínio que denunciamos. em II.184. II.183 valeria a conhecer-se a produção de um fato por sua causa. l. Seg. l. acima.88 e 89. a crítica que lhes faz S. Seg. 187 Cf. Seg. p. totalmente pertinente. 191 Tais exemplos (cf. cap. seja em tendo algo da própria coisa (���������������� �������������). 8. convertendo-a em verdadeiro estudo sobre a definição. da qüididade. de modo semelhante. pois. que artificialmente decompõe a qüididade para parcialmente demonstrá-la.190 assim. em que o processo de estabelecimento da definição igualmente parte de um certo conhecimento.3 e n. “pois é impossível conhecer o que é.3 A busca do “o que é” e o silogismo científico Retomemos.189 e 190. a solução final para o problema das relações entre a definição e a demonstração reconhece a validade definitiva de parte da argumentação dialética que a precede. porém. em desconhecendo-se a mesma realidade do fato. os exemplos da alma e do homem. 1946... que se associa ao mesmo conhecimento do “que é”.. II. V. além dos concernentes a atributos “por si” cientificamente demonstráveis. ora. já temos algo da própria coisa por cuja qüididade perguntamos191 e tal indagao “que” do qual se partira na investigação preliminar à aquisição do conhecimento científico. ainda que imperfeito.7 e n. 93a22-4). portanto. n. obter suas definições corretas. mas nada se apreende do “o que é” e nem mesmo se pode dizer que se apreende realmente o seu “que é”. Anal. Le jugement d’existence.187 não se compreende que possa haver conhecimento de qüididade sem conhecer-se que a coisa é. 94a7-9. 93a21 seg. servem apenas para ilustrar outros casos.. ao lado dos exemplos do trovão e do eclipse. 3. Com efeito. e nenhuma razão há..104. para justificar sua interpretação. Anal. como o seguinte. l. Como se vê. Seg. 20. Anal.. uma definição (“O trovão é ruído nas nuvens”) que é conclusão de uma demonstração do “o que é”.189 Mas há duas maneiras de conhecer se uma coisa é: seja por acidente. ad locum) e Mure (cf.: entre o Sol e a lua] é privação da luz da lua. 2.. 8. que se vêem obrigados. Santo Tomás (cf. II.105) é. 4. simultaneamente evidentes. que Aristóteles formula na passagem que explicamos. Seg. Cf. sua tradução e nota. 190 Cf. 93a21-2. ou que o eclipse é uma certa privação de luz. Seg. 5. tentasse demonstrar o “o que é” do eclipse: A interposição da terra [subent. pode construir-se. porém. como diz Aristóteles.188 E não há como não reconhecer a validade e o caráter correto da argumentação com que há pouco recusávamos a uma definição meramente nominal a possibilidade de erigir-se em conhecimento da qüididade. parecer-nos empreendimento temerário ou. concluindo cientificamente 320 321 . II. Comecemos. com efeito. o exemplo parece-nos bastante adequado ao texto aristotélico: conhece-se um acidente da coisa.II. o silogismo do porquê. mesmo. agora. assim. Anal. então. 2. Anal. Anal. a conhecimentos meramente acidentais. II. Sobre a possibilidade de conhecerem-se premissa e termo médio ao mesmo tempo que se infere a conclusão. O eclipse é interposição da terra. referem-se obviamente a casos em que se conhece e “possui” algo da própria coisa cuja qüididade se busca e não. então. Seg. por vezes. Anal. O mesmo diríamos para um silogismo que. a definição correta do eclipse é “privação da luz da lua pela terra interposta”. ainda que isso possa. ou que o homem é um certo animal ou que a própria alma a si própria se move. para interpretá-los como indicações da possibilidade de conheceremse as definições do homem ou da alma graças a um processo demonstrativo. cremos inaceitável a interpretação de Le Blond quando. n. graças a uma demonstração. Por isso mesmo. 93a16-9. a inverter a ordem dos membros da frase original. Ibidem. 188 Ibidem. II. Anal. In Post. 10.

a privação da luz da lua. incompreensível. S. coment. por exemplo. um caso no qual conhecemos que uma coisa é. se o “que” se nos tornou assim manifesto conhecemos agora que há eclipse.. pretende que.. Anal. II. expressa em premissas imediatas. 8. ibidem. 195 Aristóteles raciocina como se o próprio conhecimento de que há eclipse. nuvens. p. 199 Aristóteles imagina a interposição de um corpo entre a lua e a terra (como. p.194 chamando o eclipse de A. de caráter necessariamente “lógico”. já que. o “que” e o porquê.. necessariamente ocorre que nenhuma relação tem com o “o que é” nosso conhecimento acidental de que certas coisas são.. entretanto.197). haver um eclipse.193 Consideremos. II. A o eclipse e B a incapacidade de a lua projetar uma sombra. desconhecendo ainda o porquê. introdutório a Seg. de tal modo que a habitual produção da sombra dos objetos por efeito da luz lunar não mais ocorresse. acima. n. 194 Cf. um termo médio que o demonstre. Prior and Posterior Analytics. 1939. nota ad locum. também. sabendo que o eclipse é.201 sabemos que é uma privação de luz e conhecemos. II. 93b32-5.185 (e n. podemos concluir silogisticamente que A pertence a C. com a maioria dos autores. exemple de l’essence de l’homme et de l’essence de l’âme” (ibidem. 198 Cf. isto é. mos também que a lua se eclipsa. l.. se tal interposição não se dá e. em verdade. cf. 1946. é investigar se há ou não uma causa real para esse fato. sobretudo. apesar disso. cf. ainda que nenhum objeto visível se interponha entre ela e nós) e que A pertence a B (isto é: que tal incapacidade “é” o eclipse.195 deste capítulo). Nesse caso..192 deste capítulo. pois... 24-7. 8. que o eclipse é. Mas. Mansion. isto é. cf. 322 323 . 93a29 seg.109). esses exemplos. Seg.. proporcionariam. Anal. 17. 8.197 Tomemos o seguinte exemplo:198 seja C a lua.166). direnão desenvolve os silogismos do homem e da alma (os quais... p. com o “o que é” do eclipse200 –. de que artificialmente dissociaram a forma e a matéria. já que nem mesmo sabemos propriamente que elas são. 1041b2 seg.). a autora procura mostrar. et l’embarras d’Aristote se révèle manifestement dans le fait qu’il n’essaie pas de formuler le syllogisme de l’essence à propos des derniers exemples annoncés au chapitre 8.196 sabemos. Anal. projeta nesta última sua sombra. é o “que” tãosomente que conhecemos. Mansion.. 37 seg. perguntar se A pertence ou não a C.. não mais ocorre a habitual produção daquelas sombras. em alguma medida. Tal procedimento tem. se não são imediatas. 93a35-7. sugere Ross. ora. cf. Le jugement d’existence. Anal. o filósofo esboça um silogismo da essência do homem e crê que a leitura desse capítulo bastaria para evidenciar como se poderia mostrar silogisticamente o �������� de uma essência ou substância (cf. Tricot. traduz diferentemente a passagem em questão e a torna. se a lua se eclipsa ou não. por sua vez. porque concernentes a essências ou substâncias. às preocupações de Seg. poderíamos inferir (sempre supondo a inexistência de observação direta. é perguntar se B é ou não (ainda que desconheçamos ser a interposição da terra a causa do eclipse). 8. II. nem é certo que o texto de Met. Anal. 93b2-3. intenção exemplicativa. Aristóteles crê possível a construção de silogismos do “o que é” a propósito de substâncias. onde o filósofo procura. Seg. II. S. II. se descobrimos que B pertence a C (isto é: que a lua se encontra incapaz de projetar uma sombra. 197 Cf. obviamente. ao propor. em verdade. como. 8. 8. p. p. ignoramos ainda o que ele é.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles ção se torna mais fácil. 93a27-9. 8. ibidem. se devesse obter.. 201 Cf. que a lua se eclipsa.. ��17 sobre a causalidade da forma tenha em vista qualquer formulação silogística nem corresponderia um tal silogismo do “o que é”. não conhecemos ainda. Le jugement d’existence. em 93a23-24. 93a36.. Logique et méthode. que há portanto uma privação de luz da lua e nosso saber relaciona-se destarte. e investigar o que é uma coisa que se não sabe ser é nada investigar. então. segundo o autor. 10. imaginando que o filósofo se refere a corpo de menor dimensão que. 193 Cf. o porquê real (interposição da terra): nosso silogismo foi um mero silogismo do “que” e. 200 Cf.8 do livro II dos Segundos Analíticos. a lua de C. julga encontrar aí a manifestação da imperfeição da doutrina: “Les rapports entre la définition et la démonstration ne sont donc tirés au clair qu’en apparence .195 E se descobrimos uma tal razão. mas por via silogística. l. Ora. 192 Cf. precisar as relações entre a definição e o silogismo científico. Anal.. não por observação direta. a interposição da terra de B. comparando esse texto com o cap. p. “on s’aperçoit . quando interposto entre a lua e a terra.192 Por isso mesmo.199 Ora.631). em já possuindo algo de seu “o que é” e tomemos por exemplo o conhecimento do eclipse. cf.194 seg. Seg. relaciona-se nosso conhecimento com seu “o que é”. cf. O que queremos mostrar é que assim indagar equivale a indagar se há uma “razão” (�����) do eclipse: se há. Seg. que le texte de la Métaphysique tempère certaines affirmations trop peu nuancées des Analytiques” (ibidem. os únicos exemplos adequados de silogismos “lógicos”. na mesma medida em que sabemos que a coisa é. 187. do seu “que é”. então. acima. que ela equivale a uma perda de luz da lua). como estamos mostrando. em Met. ao mesmo tempo. �. Anal. II. em Seg. a correção proposta por Waitz: ��’ ������.165). n. ignorando embora sua causa real. ainda que nenhum objeto visível se interponha entre ela e nós. em lugar de ���������. 196 Aceitando.

O eclipse é interposição da terra.4 A demonstração. diz o filósofo. o eclipse é uma interposição da terra”. l. l.2 e n.1 e n. nele mostra o filósofo que. 2. cf. entretanto. 4. não conhecemos ainda sua mesma qüididade. caminho para a definição Vemos. “assume-se e torna-se conhecido o ‘o que é’. o que é B: a interposição da terra. cf.173. Seg.: chamemos a água de C. também. II. n. como já dissemos em nossos diaporemas”.. isto é. 3. 13). nota ad II. II. o próximo passo de nossa investigação é pesquisar por que pertence A a C.208 Assim. ainda. e tornou-se-nos possível tal definição por termos descoberto a causa real do eclipse e termos podido. pode entretanto. 2. II. A (eclipse = privação de luz) pertence a C (lua). Como vemos. Da Alma..1 e n. 8.202 Apropriando-nos desse modo. E conhecendo-se.2 e 3. cf. uma privação da luz da lua pela terra interposta. Cf. de modo que nem é possível conhecer sem demonstração o ‘o que é’ da coisa de que há um causa distinta. acrescenta o filósofo. V. 205 Cf. Tal definição. 4. 7. de tal modo que não se produz silogismo nem demonstração do ‘o que é’. II. temos uma razão ou definição do termo maior A: “com efeito. para uma leitura menos rigorosa. isto é. na mesma medida em que ignoramos por que razão ele se produz e qual a sua causa imediata.3. O eclipse é privação da luz da lua”. torna-se-nos imediatamente possível definir o gelo como “água solidificada pela falta total de calor”. cf.116 a 127).2. pode vislumbrar-se uma das prováveis causas dos contra-sensos tradicionalmente cometidos sobre a significação do cap. um atributo D define-se: um A que pertence a um C devido a uma causa B.109 seg. definir o trovão: “ruído do fogo que se extingue nas nuvens”. falta total de calor. senão de modo incompleto e obscuro. 209 Cf. IV. é obscura (������. A frase cujo sentido é claro se a inserimos convenientemente em seu contexto. porém. A (trovão = ruído) pertence a B (extinção do fogo). 10.. também. Do mesmo modo. sobre a impossibilidade de um silogismo da definição. Para um outro exemplo de definição estabelecida graças ao silogismo demonstrativo. II. ibidem. portanto. que pertencem a seus sujeitos por si. 93b7 seg. entretanto. a extinção de sua luz?203 Descobrindo-o. no caso de eclipse: privação de luz. Anal. a produção do trovão por sua causa expressa pelo termo médio do silogismo demonstrativo. como. 8. torna-se-nos possível. A (trovão = ruído) pertence a C (nuvens). cf.206 3.. causas. parcialmente a sua qüididade. se não se lhe acrescenta a causa eficiente da privação de luz. portanto. 324 325 . 12.204 isto é. constituirão elas outras tantas “razões” definidoras de A. 1044b8-15. para todas essas coisas que têm uma causa que com elas não coincide e são demonstráveis. veja-se o exemplo da definição do gelo que Aristóteles nos propõe em Seg. 413a13-20. 93b12. 207 Cf.209 constitui-se também a demonstração 206 Seg. Anal.207 para todos os atributos. nem há demonstração dela. Seg. 93b3-6. como fizemos. 203 Cf.167 a 169. I. Seg. mas ele se torna evidente. Remete-nos Aristóteles ao que estabelecera em II. se construímos o silogismo que nos prova pertencer A a C pelo termo médio B. 208 Seg. V. do “que”. Anal. de B. 204 Ibidem.3 e n. assim. não imediatas de A. Sobre a noção de “diaporema” ou raciocínio diaporemático. 8. acima. B (extinção do fogo) pertence a C (nuvens). solidificada de A e a causa. II. destarte. a interposição da terra. 93b20. II.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles portanto. V. Em passagens como estas. 94a5. E o termo médio B é. 93b16-20. assim. descobrindo-se a “razão” do trovão (extinção do fogo nas nuvens). então. II.8 do livro II dos Segundos Analíticos. que não são essências ou substâncias. 95a16 seg. 2. qual a causa real dessa atribuição ou. Anal. e não aos cap. acima. sem petição de princípio (cf. em eventos naturais como o eclipse. o de �.205 formularemos da seguinte maneira o silogismo científico do trovão: 202 Um texto da Metafísica. é particularmente útil para a compreensão da análise aristotélica da demonstração científica do eclipse. 2. de que constituiria uma das premissas: “A interposição da terra é privação da luz da lua. com efeito. se outras causas mediadoras houver de B. acima. 3. 12-4. provando o “que é” das propriedades por si dos gêneros de que se ocupa. formular o silogismo científico de seu porquê: A (eclipse = privação de luz) pertence a B (interposição da terra). acima. como pretende Ross. parecer referir-se a um silogismo “lógico” do “o que é”.. Anal. através de silogismo e através de demonstração. 8. a rotação da lua. l. uma “razão” (�����) definidora do termo maior A. porém. 3. Anal. não há causa material e a causa formal é representada pela “razão” que se exprime na fórmula definidora. B (interposição da terra) pertence a C (lua). ibidem. 8.116 deste capítulo.

. “Sur la conception aristotélicienne de la causalité”. que lhes confere uma diferente disposição (�����)210 e os retoma numa diferente forma gramatical (������). conhecer a mesma coisa por definição e por demonstração. As árvores de folhas largas têm folhas caducas. uma vez mais. 12-3. em II. 1. de modo a consigo incorporar o elemento causal. uma definição do demonstrável. l. De nenhum modo se configura.) manifesta-se. Como vimos acima (cf. e. ad locum. II. 218 Da Alma II. cf.245 deste capítulo. como “razão” definidora do atributo demonstrado. mas que também a causa neles se contenha e manifeste”. cf. cf. 94b8 seg. que Ross (cf. p. Cf.639). l. utilizando-se o sujeito genérico como termo médio e as espécies como termo menor. Cf. n. Vê-se que é toda uma doutrina da definição que se elabora sobre a crítica das definições correntes.216 Cf. part. cap. basta formular os silogismos científicos que provam pertencer tais atributos a seus sujeitos através de suas causas reais que os termos médios exprimem. Se a significação geral do capítulo é facilmente compreensível e seu encadeamento com o que o precede (estudo das relações entre a definição e a demonstração). um segundo silogismo que prova a caducidade das folhas da vinha e da figueira por serem elas árvores de folhas largas. adiante. Entendemos. cf. As árvores de folhas largas têm sua seiva coagulada na junção entre as folhas e os ramos. em que a causa deverá necessariamente comparecer: a interposição da terra figurará na definição do eclipse. Ross. 94a28-36.246 deste capítulo. H. n.213 em nada isso obsta a que se construa. 94a24-36). 13)..”. 2. II. for it betrays considerable confusion” Aristotle. a anterioridade da causa sobre o efeito exprimir-se-á na definição do efeito. 2. Met. Anal. segundo essa doutrina. diferente de construção ordinária de um silogismo científico do porquê. cap. 16. introdução ao cap. Seg. Com efeito. ibidem.. III. 17. acima. casos em que se constitui o silogismo demonstrativo mediante um termo médio que exprime uma causa eficiente. 98a35 seg. 1942. como pretende S.II. cf. ibidem.. seu comentário introdutório a II.III. Quanto à identidade entre forma e qüididade.72. 98b21-4.. n. 214 Cf. E as indicações de Aristóteles (cf. então. 17. no que concerne à utilização da causa material como termo médio (cf. 4.l. cf. a inteligência de seus vários momentos oferece algumas sérias dificuldades. ibidem. trata-se da aplicação do conhecimento científico obtido pelo primeiro silogismo às espécies do sujeito cujo atributo se demonstrou. b32-8. 1956. acima.218 É possível. 11.4) permitem reconstruir um outro silogismo exemplificativo do estabelecimento de uma definição através do processo demonstrativo: “As árvores em que a seiva se coagula na junção entre as folhas e os ramos têm folhas caducas.33-4 e 199. n. in La pensée hellénique. 99a21-2: ���������� ����������������������������. parece tratar-se de uma transposição da oposição matéria-forma para o domínio matemático. 216 Cf.. II. não é fácil reconstituir a exata doutrina que o filósofo expõe. não o seguiremos.V e n. por conseguinte.). Aristóteles considera. 3. Cf. ao aborse vê facilmente. sem a qual o discurso permanece incompleto e obscuro. Assim.453). como vimos acima nos exemplos do eclipse e do trovão. 215 Cf.215 por isso mesmo. revela ipso facto um elemento – a causa – que se associa ao ser do atributo e dele não se pode dissociar: a definição completa do atributo e a sua qüididade ou forma estendem-se. acima.1. n. constituent la notion totale du fait ou de la chose” (Robin. 1946. �. quando afirma que “The chapter looks like an early product of Aristotle’s thought. assim. 93b6-7. E o termo médio (coagular-se a seiva na junção etc. Seg.217 que o termo médio exprime. n. particularmente seu comentário introdutório a II.4. cf. desvendando o processo causal que o faz ser.2 e n. Seg. 72a25-6. como faz a maioria das definições. 4. graças precisamente à demonstração. 10. 3. Por isso. por exemplo. Seg... V. apesar de quanto se nos opunha em contrário. Aristóteles consagra. II. acima. I. com. “il faut . também. E. 2. portanto. 4. 11 dos Segundos Analíticos a mostrar e exemplificar como qualquer das modalidades de causa pode figurar como termo médio no silogismo e. 12.6 e n..6. Le jugement d’existence. mediante uma simples rearticulação dos termos do silogismo. O que é. no processo científico.214 inclui também a causa que o termo médio exprime. 326 327 . 11) exagera as dificuldades e não vemos por que conjecturar que Aristóteles talvez tenha escrito o capítulo antes de formular sua doutrina das quatro causas (cf. 16. l. ter folhas caducas (�����������)? É o perderem as árvores de folhas largas suas folhas pela coagulação da seiva na junção entre as folhas e os ramos. porém. 17. �. uma outra forma especial de demonstração. 23 seg. com a busca do termo médio212 e compreendemos. 17. cap. pois. para que. p. V.. enquanto elemento que integra sua qüididade. embora permaneça sempre válido sustentar que “conhecer cientificamente o demonstrável é ter a demonstração”. obviamente. et l’effet de cette cause dans un sujet donné. mais que evidente. de que maneira é lícito pretender que a busca da definição se identifica.. 71b28-9. Cremos.173 deste capítulo. adiante. como 210 211 212 213 O silogismo demonstrativo.162 a 165). p. Para um estudo mais detalhado. também.b19-20. 21-2. então.1. 94al-2. 90b9-10. todo o cap. p. 217 Os exemplos do trovão e do eclipse configuram.157. acima... II. Anal. 1004b8-15 (esp. Met. Anal. destarte. 1044b9-15.205. eficiente ou final. cf. dirá o filósofo que “não somente é preciso que o discurso que define mostre o ‘que’. ou até mesmo material. 5. 5. 8. mostrando como se engendra o atributo. que. 413a13-6. pode o termo médio dizer-se um ����� do termo maior.5 e V.211 se obtenham as fórmulas que corretamente definem os atributos demonstrados. porque integra também a qüididade.II. acima.202 deste capítulo. quanto ao emprego da causa final como termo médio (cf. que o discurso da definição necessariamente deve exprimir. Anal. porém. n. III.II. na fórmula definidora do atributo demonstrado. Mansion.52...Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles em caminho único para o conhecimento das qüididades desses mesmos atributos que demonstra. dire . que la cause. 34-35. 1041a23-32. nas passagens em questão. É que a qüididade ou forma do atributo.

pudera parecer-nos. acima. Para a tradução de ����������(l. Por conseguinte. I. Seg. isto é. 17. V. por conseguinte. cf.94. Anal. uma vez demonstrado tal ou qual atributo por si.227 Não serão somente as premissas primeiras. formule-se sua definição real para usá-la como premissa de novos silogismos demonstrativos. tendo em vista a função definitiva do termo médio. 90b33-8. mas de um processo de definição ensejado e preparado pelo mesmo raciocínio demonstrativo. também. Anal.. Seg. uma causa que delas é distinta.1 e n. 90b38-91a6. 99a22-3. 73a34-7. dos que têm um ‘médio’ e dos quais há alguma causa da essência (����������) que é distinta. 328 329 . na medida em que possam integrar-se no discurso científico. pois..228 3.1. 219 220 221 222 223 numa proposição em que os elementos que constituem o predicado e. 9.113. acima. 2. E. apreendendo concomitantemente 227 Cf. por certo. ���������� (l. IV.95. dos quais é preciso pôr como hipótese (���������) tanto que eles são como o que são. 3. 2. Anal. mostrá-la através da demonstração. cf. 225 Cf. agora. Anal. Anal. 93a5-6. tendo provado que o triângulo é.148 seg.226 pode o matemático conhecer. 7. é evidente que. estabeleça apenas que tal atributo pertence a tal sujeito222 e que seja válido distinguir entre o “que é” e o “o que é”. acima. não a há de outras.103 a 105.81 e 82. Seg. que a demonstração é o caminho necessário e suficiente para a constituição do discurso que define. ainda que não demonstrando o ‘o que é’”. Seg.. se assumiam antes de efetuada a demonstração.220 Conhecendo que nosso conhecimento primeiro dos atributos por si é por via demonstrativa.3 e n. IV. precisamente. 224 Cf.1. ou torná-los manifestos de outra maneira (o que. na primeira acepção que distinguira o filósofo para essa expressão. acima. Retomando a distinção de há pouco230 entre as coisas que coincidem imediatamente com as suas causas e as que não o fazem.4 e n.221 reconhecemos. 230 De Seg.99. 226 Cf. II. 7. 2.1 e n. 92b8-18. também dentre os ‘o que é’. Anal. 23). à primeira vista. cf.223 Porque se associam.4 a 7.. dir-se-ão pertencer-lhe por si. Aristóteles distingue do mesmo modo as correspondentes qüididades. os princípios primeiros das ciências. 8. acima. que conterão predicados por si nesse sentido. ainda que. 2. a sua qüididade. V.1 e n. assumindo-se ela Em Seg. em que hipóteses e definições fusionadas se conjugam por obra de um mesmo e único pensamento que conhece o que uma coisa é. é possível. por isso mesmo. a qüididade do novo sujeito. IV. V. Cf. cf. que. Anal. concernentes porventura aos mesmos atributos. 2..4 e n.219 desde que não se trate de duas formas concorrentes de conhecimento. 93b21-8 (todo o capítulo). III..1. as qüididades das primeiras exprimem-se em proposições imediatas que constituem. de fato. acima. tais definições o são em sentido pleno e não têm um caráter meramente nominal.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles darmos esse problema pela vez primeira. como dissemos. 90b13-6. a definição nominal do triângulo que “orienta” o matemático na sua demonstração e a definição real do triângulo. como sabemos. II. acima. com as definições auxiliares que. 2. acima.3. mas permitem que se conjugue com a explicitação das significações o conhecimento real das qüididades. portanto. Seg.5 Confirma-se e complementa-se a doutrina Se assim é. diretamente.111 e 112. II. 4. II. uma vez provado que ele é. Anal. com efeito. 25). de algumas coisas. função meramente subsidiária: não confundiremos..3 e n. Seg. pode o filósofo agora concluir: “Há.. definições nominais que tão-somente serviam para clarificar a linguagem da ciência225 e que desempenhavam. tornada possível quando. ele põe como hipótese (���������) tanto o que é a unidade como que ela é). acima. II. 228 Cf. IV. V. acima.152 a 155. 3. 2. acima. 3. 92b4 seg. V. faz o aritmético. 90b1 seg.229 Após a longa discussão e explicação precedente da doutrina do filósofo. poderá o filósofo até mesmo dizer que “todas as ciências produzem-se por meio de definição”. II. E. ao contrário do que.4 e n. a compreensão do texto acima nos será bastante fácil.. V. Anal. também. V. 3. da maneira que estamos descrevendo. por exemplo. 229 Seg.3 e n. IV. 2. ao conhecimento do “que é”.1 e n. E nada impede. por outro lado. acima. 3. 2. II.224 Não se confundem. 2. Cf. 2. II. alguns são imediatos e princípios.

231 232 233 234 Mostrou-nos como todo o conhecimento científico.236 Sob esse prisma.243 236 É precisamente o que o filósofo relembra em Seg. Como pretende S.4 e n.231 também sua indemonstrabilidade é doutrina firmada sobre o qual o filósofo a nenhum momento voltara mas que ao contrário. ao longo do livro II. 2. Anal.234 Ao contrário.3. de caráter convencional. 240 Como interpreta Ross (cf. p. como se o livro II dos Segundos Analíticos procedesse a uma revisão das posições que o livro I assumira. o livro II vem complementar a doutrina da demonstração.209). cf. o erudito comentador inglês na supressão do ������� da lição da vulgata a l. Mansion (cf.. cf. desvela. 330 331 . a busca da qüididade com a de qualquer termo médio silogístico. seu comentário introdutório a Seg. o objeto de Seg.V. V. 93b29-37. n. Anal. contra os comentadores gregos. 10. a própria Ilíada poderia dizer-se uma definição de seu título. 2. Anal.237 3. 243 Cf. dos atributos por si. “le caractère illusoire de la définition sans implication d’existence” e teria.. nossa tradução dessa passagem. V. realmente. Mansion (cf. Seguimos. 90a35-6. sem demonstrar. acima. 31. no afã de compreender-se como conciliar um conhecimento. precisamente. ao elucidar de vez a questão da definibilidade do cientificamente conhecível. no livro I. no que lhes concerne. Anal. Anal.3 e n. acima. IV. 93b35-7. 1946. a introdução ao cap.... acima. Uma primeira definição. não vê como possa entender-se diferentemente o ������������ ���������� de 93b30-1. Cf. 238 O que é. IV. particularmente ao longo do cap. Seg. anteriormente à demonstração do seu “que é”.233 Nenhuma razão há. nota ad locum. V. II. acima. Le jugement d’existence. da possibilidade de obterem-se tais definições imediatas. não se falará em ����� para aquelas proposições nem se poderá identificar. Seg. então. Tampouco se terá duvidado. 2. então. 90b24-7. Mas. pôs-se dialeticamente em dúvida a mesma possibilidade de um conhecimento qualquer por definição e introduziu-se a problemática das definições nominais.241 Uma tal definição. no entanto. II. 92b30-2. explicitamente relembrara e mantivera. IV.. E sob esse prisma. acima. tomado consciência de que “la connaissance qui est à la base de toute science est une prise de contact avec la réalité existante” (ibidem. 3. p.6 As várias espécies de definição Concluída uma tal elucidação.114) que Aristóteles aí afirma “qu’il y a toujours démonstration de l’essence quand la cause est distincte de l’object”. para quem Aristóteles. 237 Cf. p.211). 242 Cf. n.1 e n. n. 3. a que faz conhecer a “existência” (hipóteses) e a que faz conhecer a essência (definições) dos objetos primeiros (cf. para pressupor uma evolução qualquer na doutrina aristotélica da definição.206-11). acima. 2. tendo estabelecido. 7.242 não apreendendo o “o que é”. senão em aparência. é possível agora a Aristóteles propornos uma classificação geral das definições. ao desenvolver sua longa argumentação dialética sobre as relações entre definição e demonstração:232 porque indemonstráveis em sentido absoluto. II..94.. 93b25-28 (cf. tem uma unidade meramente artificial e extrínseca. 10. com o seu conhecimento habitual por via demonstrativa. II. Seg. das afecções por si dos sujeitos que a ciência estuda.4.186.239 é a nominal.161 deste capítulo.160... 10). II. mostrounos o filósofo como se pode efetuar licitamente a redução (�������)235 da definição à demonstração. acima. Cf. p. a qüididade. V.7. 1. também. no que diz respeito às qüididades dos atributos demonstráveis. enquanto a qüididade do triângulo ainda não lhe é cientificamente possível. diz-nos o filósofo. 2. no que respeita à natureza das definições-princípios da ciência. ao mesmo tempo que demonstra pela causa.7. distinção entre duas séries de princípios. acima. o discurso (�����) que nos explica a significação de um nome ou de uma expressão da natureza nominal:240 é o caso.. Anal. 10. Le jugement d’existence. aquelas posições permaneceram intocadas e nem mesmo foram objeto de nova discussão. isto é. por definição. ibidem.. por exemplo. 239 Cf. 2. acima. donde não podermos compreender por que pretende S. II. II. a qüididade de demonstrado. teria descoberto. 9.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles que ela é.229 deste capítulo).3. esclarecendo-nos de modo definitivo sobre os vínculos entre as esferas da definição e da demonstração. particularmente a doutrina do “por si” científico. definição meramente auxiliar de que se serve o geômetra. Seg. o qual. Cf. 241 Cf. Anal.238 cuja perfeita inteligência exige que se tenham corretamente apreendido o sentido e o alcance dos capítulos precedentes. quando.105 a 108. 235 Cf. 1946. da definição do triângulo. nesse mesmo processo.

isto é. sem impropriedade. p. Anal. 10. 463): no silogismo lógico. l. igualmente. Anal. 72 a14-6. 245 Ibidem. então. particularmente de Seg. de outro lado. 255 Cf. 250 Como se exprime Aristóteles (cf. like a line. 12-13: �������������������������������������������������������. sem nada mostrar. V. nota ad Seg. retomando as várias definições que acaba de distinguir.. daquela definição que se pode denominar definição-silogismo. 191 deste capítulo) levou certo número de autores.205) vê. 3. Anal. Logique et méthode. 8.205. p. a partir do que ficou dito.179 a 182.. Uma tal definição. Para a explicitação do silogismo científico do trovão. Seg. Seg..161. Concordamos plenamente com Rodier (cf. 247 Cf.247 isto é..462 e n. V. l. definição dos “imediatos”. Anal. l. p. Robin (cf. 1939. seu comentário introdutório a Seg. Em verdade.. tal definição difere. V. 11 seg. 246 Cf. 193.184. esta segunda será manifestamente “como uma demonstração do ‘o que é’.2 e n. 1946. 9). no sentido de “disposição ou posição dos termos”. porque condensa verdadeiramente o silogismo demonstrativo que a tornou cientificamente possível.. a essência do atributo demonstrado. entre outros. l. II.255 pode o filósofo concluir: “É. de um mero exemplo de definição nominal. Como explica Aubenque. 93b38 seg. II.2 e n. a definição do trovão como “ruído nas nuvens”. do primeiro tipo de definição distinguido pelo filósofo em 93b30-7.253 Finalmente.251 deste capítulo. is continuous because its premisses are parts which are conterminous (as linked by middle terms). onde designa. a concordar com Robin na interpretação do ����� de 94a2.463). como há demonstração do ‘o que é’ e como não há. p. 10. por não terem Em terceiro lugar. Le jugement d’existence. então. n. para quem a definição que mostra por que a coisa é e é “como uma demonstração do ‘o que é’“ (cf. aciam. p. p. em 94a2. 10). 253 Cf. 94a1-2: ������������������������������������������������������������.. deixando de lado a definição nominal. in La pensée hellénique. um “silogismo do ‘o que é’”250: ela é uma verdadeira definição-silogismo.... como pretende Ross (cf. II. 11-14). enquanto. IV. acima. 94a6: ����������������������������������. julgaram alguns haver naquela expressão uma referência ao ������������������������������� de Seg.. a tese.169. Anal. por tal razão. aquilo que é posto. 251 A interpretação incorreta dos capítulos precedentes. 1942. Contra. 10. Também S.461-2). em Seg. põe-se a “essência formal” do definido para daí deduzir-se sua “essência material”. 2. ao resumir seu quadro das diferentes espécies de definições (cf. 94a9-10: ������������������������������������������������������������. na definição causal. também. uma vez que nada impede que o silogismo “lógico” do “o que é” se acompanhe da assunção do “que é” da coisa definida. Seg. II. 10.159-61) interpreta como Robin o ����������������������� de 94a12 e vê. Seg. entre explicitar o processo causal do trovão mediante uma demonstração silogística contínua (�������)248 que nos permite afirmar que troveja “porque o fogo se extingue nas nuvens” e. já que “elle prend pour donnée l’effet produit et le rattache à sa cause” (ibidem. 10.3: “������ désigne toute modification de l’expression verbale portant non sur le sens. 93a15. por exemplo. 94a7-9. ibidem. 249 Cf. p. n.251 244 Cf. como. 254 Cf. II.244 Enquanto a primeira definição que consideramos. explica. n. Le problème de l’être. do eclipse (“privação da luz da lua pela terra interposta”). nota anterior). 3. “le syllogisme de l’essence présenté sous forme de définition”. apreendendo. Não se trata. II. Logique et méthode. 3. Seg. a definição nominal. Seg. como em I. por exemplo. de um silogismo “lógico” da essência. ibidem. Definition resembles rather the indivisible simplicity of a point”. 94a12: “arrangement of the terms”. mais sur la façon de signifier”.. 252 Cf. 8 (cf. Tal é a posição de. ibidem. 180. nota ad ibidem. recebe essa mesma denominação.252 temos a conclusão de uma demonstração da essência. p. 7): “Demonstration. graças ao processo demonstrativo que ela condensa. do silogismo “lógico” “par la donnée (�����) ou par le mode (������)” (ibidem. 2. acima.. Anal. 10. é “como uma demonstração do ‘o que é’“ e. isto é.254 E. apud Le Blond. isto é. p. tal é. ibidem. de caráter meramente con- 332 333 .. exprimir.179 seg. 1962. adiante. II. sob forma de definição. outra é a �����.245 retomados sob diferente forma gramatical (������). propondo-se sob outra forma o mesmo discurso249 rearticulado. 10.2). o silogismo “lógico” do eclipse desarticulado e apresentado num único plano. a qüididade inteira do fenômeno: “ruído do fogo que se extingue nas nuvens”. por não no terem visto. E Robin entende �����. e de que coisas há percebido a solução aristotélica das aporias referentes às relações entre a demonstração e a definição. manifesto. II. entre dizer por que troveja e o que é o trovão.1) quando entende �����. 173. Le Blond (cf. em sentido semelhante ao que tem o vocábulo algumas linhas abaixo (cf.461). sob tal prisma. diferindo da demonstração pela disposição (�����) dos termos”. e inclina-se. l. 246 É a diferença que há. Anal.3 e n.244 e 245 deste capítulo) é o equivalente do silogismo “lógico” e. que sabemos não ter valor demonstrativo e envolver uma petição de princípio (cf. que é tese indemonstrável do “o que é”. por exemplo. acima. Anal. 94a12: �����������������������).. veja-se acima. temos a definição-princípio da ciência. que se assume como dado (cf.461-4). Anal. Traité de l’âme II. na definição completa e correta. II. n.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Uma outra definição de definição será “discurso que mostra por que algo é”. 1939.). 10. a um completo equívoco na compreensão do ����������������������� de 94a12 (cf. Anal. 94a12 (cf.. princípio indemonstrável de uma ciência (cf. and there is a movement from premisses to conclusion. Mansion (cf..2. II. tinha um caráter meramente significativo. “Sur la conception aristotélicienne de la causalité”. cf. nesta passagem. Anal. Aristóteles retoma apenas as três últimas espécies de definição consideradas.. 248 Como diz Mure (cf. na expressão de 94a12. n. acima. cf. a interpretação de Ross. ibidem. cf. até mesmo poderia dizer-se. 94a3-7.

acima. a ciência é sempre conhecimento de essências. eis a lição última do filósofo. II. 11).. 10.258 não nos diz. a introdução ao cap. p. com o que poderia parecer uma outra noção de ciência. como um processo indireto – mas nem por isso menos necessário – da manifestação de suas qüididades ou essências.Oswaldo Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles e de que coisas não há. Quanto ao cap. para mostrar que.8.161 deste capítulo. 19. Mansion. car elle suppose connue la théorie du syllogisme de l’essence exposée en II. considerados de um ponto de vista temporal.79). Anal. deparamos. parcialmente infrutuosos.II. 256 Seg. “seu objeto principal não é mais a definição ou a essência mas. a demonstração ou silogismo poderia ainda ter um lugar na constituição de definições de qüididades. em quantos sentidos se diz ‘definição’ e como ela mostra o ‘o que é’ e como não mostra. 96a22-3. sente-se obrigada a considerar como uma adição tardia. lit..1. n. 259 Met. as propriedades deduzidas necessariamente da essência”. 11 e 12. acima. Os dois capítulos seguintes apenas complementarão os resultados alcançados. “L’origine du syllogisme et la théorie de la science chez Aristote” in Aristote et les problèmes de méthode. todo o discurso demonstrativo há que entender-se. com isso. podemos dar por exposta a doutrina aristotélica da ciência.263 E boa parte da seqüência do texto vem trazer indicações a respeito da organização do “material” científico. acima. ainda que complemente a doutrina anteriormente exposta sob um prisma não desprovido de interesse. l. 1031b6-7. 20-1 e todo o capítulo. 13. além disso. numa passagem que S. contrariamente ao que se pretendeu. logo de início. extrínseca. 334 335 . n. o momento de relembrarmos que. em certos casos especiais.. acima. como um desvelamento da mesma natureza dos atributos demonstrados pela explicitação das relações causais que os engendram e. 1946.. 262 Cf. Para o autor. se a ciência parte do conhecimento da qüididade dos sujeitos genéricos cujas propriedades deduz. como acima dissemos. antes. 996b14 seg. II.: definição e demonstração] de uma mesma coisa”. toda a doutrina aristotélica dos dez primeiros capítulos do livro II dos Segundos Analíticos. também n. I. Anal.. como vimos ao longo de todo este capítulo. Finalmente. II.261 Muito pelo contrário. ele respeita às inferências causais de eventos não necessários. tendo postulado uma evolução da doutrina aristotélica da definição. e de que modo é possível e de que modo não é possível havêlas [subent. B. Anal. 12. conforme à doutrina do conhecimento vencional.177).V e n. 260 Cf. que acabamos de analisar e comentar. deixou-nos bastante claro que. o livro II dos Segundos Analíticos teria apenas procedido a esforços. ainda.. �. 8” (cf. a introdução ao cap.4. por conseguinte. não. 94a14-9. Anal. 6.264 põe fim ao tratado. 257 Isto é: Seg. a uma fase preliminar à demonstração científica.. Robin.260 não são estranhas as essências à ciência aristotélica.V e n.257 3.210. Sob esse prisma. portanto. do livro I para o livro II dos Segundos Analíticos (cf. 264 Seg.262 a questões que concernem.256 Eis. conhecimento de essências É chegado. após relembrar que chegou ao fim o estudo das relações entre definição e a demonstração: “digamos. também. que trata expressamente da aquisição dos princípios da ciência. p. o livro � da Metafísica que “há ciência de cada coisa quando lhe conhecemos a qüididade (����������������������������������������������� ������������)”?259 Ora. e de que coisas há e de que coisas.234 deste capítulo).: caçar) os elementos que se atribuem no ‘o que é’”. um último capítulo. 3. também. estudando a concepção aristotélica de ciência como conhecimento causal do que não pode ser de outra maneira. 2. 261 A. mas apenas “freqüentes”. Os capítulos seguintes do livro II dos Segundos Analíticos consagram-se. como ela se relaciona com a demonstração. II. cf.7 Ciência. Não é correto. pois. científico desenvolvida naquele tratado. embora se saiba “que ces efforts n’ont pas abouti et en sont restés à des indications utiles mais incomplètes et insuffisantes au regard du bout poursuivi” (ibidem. Mansion. plenamente equacionado o problema das relações entre a demonstração e a definição.. agora..78. que utilizarão as demonstrações. São as mesmas três espécies a que fizera alusão o filósofo em I. cf. p. como testemunham as mesmas palavras com que o filósofo abre essa discussão.. 258 Cf.47. uma vez que “elle est inintelligible dans son contexte. então. 1946. dizer que. antes. 263 Seg. Aristote. antes.7. como se devem buscar (��������. cf. sua ligação com o que precede é. Le jugement d’existence. 1944. acima. com efeito.217 deste capítulo (no que concerne a II. n. p. 8. 75b31-2.8 Termina a exposição sobre a doutrina da ciência E. Se não cremos necessário empreender.

IV. 5. 6 (sobre a indemonstrabilidade dos princípios). à jurisdição científica. necessárias e por si. anteriores e mais conhecidas. acima. 1 Cf. de proposições imediatas e primeiras.. um estudo pormenorizado desta segunda parte do livro II. IV. não somente as proposições iniciais das cadeias silogísticas demonstrativas. 5 (sobre a necessidade das premissas científicas) e III..1 e II.1 Recapitulação Mostrou-nos a doutrina aristotélica da ciência a existência de princípios (�����). como sabemos. um dos mais discutidos e controvertidos dentro da obra aristotélica.95 a 98.Oswaldo Porchat Pereira neste nosso trabalho. 2. III. 5. O parágrafo IV. delas partindo para demonstrar e concluir as propriedades também necessárias e por si dos gêneros particulares de que se ocupam. no entanto. 336 337 .1 seg.4 e n.2 mas. A ciência instaura-se. todas aquelas proposições. com a apreensão de seus princípios e os caminhos que preparam esse conhecimento anterior em que a demonstração se apóia não pertencem. acima. cf. entretanto. isto é.. Sobre a noção de gênero científico. porque quis o filósofo acrescentar à sua doutrina da ciência essas reflexões finais sobre o processo que nos leva a aceder à posse científica do real. II. VI A apreensão dos princípios 1 O problema 1. acompanhá-lo no itinerário que seguiu em seu tratado. reconhecida a importância do assunto. teses que conjugam e fundem definições e hipóteses.2. numa tentativa de analisar e compreender o seu capítulo final. 1. seja-nos permitido também.1 E vimos que são princípios. 2 é inteiramente consagrado aos princípios próprios. demorar-nos-emos. acima. obviamente. 2 Cf. proposições absolutamente indemonstráveis por que as ciências principiam e sobre as quais constroem seus silogismos. também. assumindo concomitantemente o “que é” e o “o que é”.

acima. acima.5 sabemos que. Cf.9 com ela integra a Sabedoria. 3. E as mesmas palavras iniciais do capítulo dão testemunho. acima. diremos que os princípios científicos “por si mesmos fazem fé”. Cf. II. cf.. as mesmas palavras iniciais dos Primeiros Analíticos mostram que o filósofo concebe ambos os tratados como dois momentos de uma só obra. 1.3 e n. em vista de sua absoluta anterioridade. objetos. 319. acima. Anal. quanto à noção de ���� (cf. Com efeito. 4. acima. Anal. II.12.. V. pois é a mesma coisa. Sobre os axiomas ou princípios comuns. 3. IV.198. 4. também. 6. 72a7-8. 100b1-2. exprimindo causalidades imediatas numa atribuição “atômica”. tal como a ciência. 16. Anal. Cf. porque premissas imediatas. seu comentário ao capítulo. 19.3 e n. acima. Prim.. Cf.14.16 aliás.3 e n. a progressão do conhecimento demonstrativo. Que Aristóteles entende o seu capítulo final como coroamento da toda a Analítica fica manifesto pela sua dupla referência ao silogismo e à demonstração (cf. Cf. cf. com.. 19). 1. I. Cf. “princípio de ciência” (��������������)..1. ibidem.266. no que respeita à ciência demonstrativa.I.2. em Seg. Cf. ��’�����������������������. No que concerne à identificação entre ciência demonstrativa e demonstração (cf. Cf. ao mesmo tempo. acima. com..324. n.. Anal. II. IV. 1. Cf. os princípios por que a ciência se instaura. Cf. cf. I. como vimos. à coisa demonstrada. 5. também. tanto quanto as propriedades expressas nas conclusões. cujo escopo final é o estudo da demonstração e da ciência demonstrativa..2 Um conhecimento anterior ao dos princípios? Que caiba efetivamente ao ���� ou inteligência a apreensão dos princípios da ciência é estabelecido pelo filósofo no último capítulo dos Segundos Analíticos.6 e n.18 14 15 16 17 Cf. respectivamente.158.. 6.5 e n. Cf.13 já que. as quais. Ross. também. por isso mesmo. uma vez propostas preliminarmente as aporias”.11 configurando-se como a unidade da ciência e da demonstração. são todos aqueles princípios particularmente concernentes aos gêneros das ciências que os assumem e apropriados. 19. ensejam a formulação de novos silogismos e. acima. 64b34-6. fica manifesto o que é cada um deles e como tem lugar. 1. pois. acima. o caráter geral do estudo. 1. I. não pode haver deles ciência. não somente de que ele é o coroamento de toda a Analítica mas. No que respeita. 2. 1. 1. acima. 5.10. assumidas sucessivamente pela ciência. Finalmente. cap.12 E. acima. III. aos princípios(�����). sempre verdadeira. também – é o que particularmente aqui nos interessa – de que Aristóteles o considera suficientemente elucidativo da questão que agora se aborda: “No que respeita.8 a qual.. II. l. 1. 19. ao silogismo e à demonstração. acima.15 E também vimos. acima. dos Primeiros e dos Segundos Analíticos. acima. Isto é. entender-se-á ela no sentido de que a demonstração ou silogismo científico é o discurso de que a ciência sempre se acompanha e o instrumento necessário de que ela se não pode dissociar.2 e n. sujeito:14 nenhuma outra proposição lhes é anterior. então.. l..152 seg.. a que Aristóteles aqui procede. IV. ao contrário do que ocorria na filosofia de Platão. cf.4 as razões (�����) definidoras dos mesmos atributos que por elas se demonstram. 2. I. cujo estudo vimos competir à ciência do ser. Tóp..1 e n..10 conhecendo.220.1 e n. acima.216. I. 24a10-1.IV.304 a 309.6 Sendo indemonstráveis os princípios. 99b17). 99b15-9.3 elas encerram. a inteligência dir-se-á. não se concebe investigação de seus porquês. do processo de aquisição dos princípios inclui tanto os princípios próprios como os axiomas. cf. Seg. em sentido estrito.3. 3. porém.3.. as proposições-princípios são indivisíveis e unas. 3. 15). II. Seg.1 e n. III.4 e n.. IV.. 18 Seg. cf. como observa.63.2 e IV.70. com razão.3 e n. ibidem. II. Anal.5.17 uma vez terminada a exposição da doutrina da ciência. por conseguinte. acima. destarte. Anal. Em verdade.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles onde se exprimem as causalidades imediatas dos atributos a demonstrar. porque a unidade de cada ciência particular se define pela unicidade de seu sujeito genérico. acima. acima. cf.. II.7 cabendo seu conhecimento à inteligência (����). sem que nenhum termo médio venha interpor-se entre predicado e 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Cf. IV. II. que nenhuma ciência suprema e anterior vem legitimar ou fundamentar os princípios das diferentes ciências particulares.1 e n. I. aliás. por isso mesmo. De outro lado. Prim. 2. 3. em “intervalos” indivisíveis e imediatos. II. 338 339 . como se tornam eles conhecidos e qual é a disposição ou ‘hábito’ (����) que os conhece é o que a partir daqui ficará evidente.

como dissemos também a propósito da demonstração”.. Seg. então. 24 Cf. no decurso de sua vida. acima. II. Seg. diz-nos agora Aristóteles. Vejase. 29 Cf. cap. caberá precisar se as disposições ou “hábitos” que conhecem os princípios são ou não inatos. a teoria platônica da reminiscência. Muito provavelmente.29 antes mesmo de abordar o estudo do conhecimento científico e de suas condições de possibilidade. Seg. de repor em dúvida o caráter não-científico.20 em determinar se o conhecimento dos imediatos é. seja para melhor iluminar o caminho que nos conduzirá a incorporar novas regiões de seres aos domínios de nosso saber. sem que anteriormente os possuíssemos. pela sensibilidade. Ora.3 e n. 28 Cf. a descrição crítica da descoberta progressiva. n. 2. Anal. de seus princípios primeiros e absolutamente anteriores. acima. 72a25 seg. quando se configurará como Inteligência o “princípio de ciência” a que o filósofo já se referira. com efeito. 982b2. Seg. caminhando do conhecido para algo novo que se vem a conhecer:30 os mesmos princípios introduziram-se. As ciências que os homens possuem – e a posse de certas ciências pelos homens é uma realidade indiscutível27 –.21 Por outro lado. parte-se sempre deumconhecimento anterior. acima. do conhecimento dos princípios. Anal. acima. 2. como entenderam ou entendem tantos intérpretes zelosos. Anal. Principia Aristóteles por relembrar a impossibilidade do conhecimento demonstrativo sem o conhecimento dos primeiros princípios imediatos. Anal. “Mas se nós os adquirimos.3-10). I.. I. I. Anal.4. 2.22 Esta última conjectura. pelos filósofos. o mesmo conhecimento demonstrativo. então. em descrever o processo através do qual pode instaurar-se a ciência humana. 22 Cf.. conhecimentos mais acurados e exatos que a demonstração. l. nada vem sugerir que o problema da apreensão dos princípios se afigure ao filósofo momentoso e difícil ou que as aporias que se dispõe a formular lhe pareçam de solução duvidosa ou por demais complexa.19 A primeira dificuldade consistirá.3. não os possuindo anteriormente. como os conheceríamos eaprenderíamos se não a partir de um conhecimento prévio? Seria impossível.26 Todo o problema para o filósofo.. precisamente. 19. continua. Mas. 26-7.25 Os princípios não nos são inatos. sem o sabermos. 4. o conhecer a coisa demonstrada e o nela crer:24 princípios e causas são ���������������� . também. 99b25-6. cumpre explicar o surgimento de todos esses indemonstráveis na alma humana. cf. em Seg. acima.. há que imediatamente rejeitá-la por absurda: aceitar o ineísmo equivaleria a reconhecer a possibilidade de possuirmos. como vemos. 99b20-2. I. 5. em verdade. conhecendo-se as premissas em que ela assenta. 30 Cf. se vêm a produzir-se em nós. 4.. como aquelas premissas previamente conhecidas. III.II. aqui. individualmente. 340 341 .1. 19 Cf. confuso ou apenas latente. cf. �. 99b28-30. aqueles �������������� que a demonstração exige. aquelas premissas a cujo conhecimento devemos. II. por exemplo.. I. 21 Não se trata. conhecer menos. II. no livro � da Metafísica (cap.. no início de seu tratado.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Como se vê. ou se é conhecimento de outro gênero que não a ciência. II.23 Nem concebe o filósofo que se possam conhecer de modo obscuro. definitivamente estabelecido no decurso do tratado. 25 Cf. 71b31-2. 5. expusera-nos como.1 e n. tão-somente de preparar dialeticamente a solução final de 100b5 seg. 3. precisamente.2.104 a 106. há que convir também. acima. porque só há ciência quando se pode. 72b24. com. as considerações do próprio Aristóteles sobre o processo histórico de constituição da teoria matemática das proporções. porque a mesma progressão do conhecimento científico exige sempre a introdução de novos indemonstráveis dos quais decorrerão as novas conclusões. 22-5. Anal. Met. Anal. isto é. portanto. 71a1 seg.220. 20 Cf. eles as conquistaram progressivamente no tempo histórico28 e cada homem que se lhes dedica vem a adquiri-las. em toda a esfera dianoética.165. 3.2 e n.2 e n. no sentido estrito da expressão. II. ibidem. 31 Cf.. uma vez recusado o ineísmo. 27 Cf. 23 Cf. recorda-nos o filósofo que.. onde quer que se exerça o conhecimento pelo pensamento e não. 19. Seg. que o próprio conhe26 Seg. ocorre. começar a deduzir as conseqüências que comportam. 1. II.99 a 103.31 Se isso. Aristóteles visa indiretamente. como é óbvio. da doutrina da causalidade. ibidem. consiste. ou se os possuíamos latentes e de nós mesmos desconhecidos. ou não. 3. seja para compreender a gênese da realidade científica que temos diante de nós. também III. 19. I. que a coisa demonstrada. l.4.199 a 201. acima. 2. mas. II.

Logique et méthode. com efeito. em si mesmo. II.. então.. o que.3 e n. fonte de aporias é a vinculação que se tem de pressupor entre o conhecimento dos princípios científicos e o saber nãocientífico que o precede e de que emerge o primeiro. tal como a partir deles se engendram os silogismos demonstrativos: estaríamos constituindo princípios para os próprios princípios. por definição. porém. estaríamos privando.39 atribuindo. in � 10. E é-nos.36 Poderíamos.122 e n. não possuísse nenhuma disposição ou “hábito” cognoscitivo.37 segundo a qual o saber anterior ao conhecimento dos princípios de cada ciência seria “uma especulação mais alta” que as ciências particulares. nota 1. por absurdo.410. A resposta aristotélica às questões ensejadas por tais aporias parece não ter satisfeito a bom número de seus intérpretes. quem considerasse o conhecimento dos princípios como o “ponto fraco” do aristotelismo. de princípios do conhecimento qualquer..33 O que parece constituir. configura um empreendimento contraditório. A ciência começa pelos princípios e. 37 De Aubenque. o último capítulo dos Analíticos não proporia senão uma “explicação residual”. Anal. relembrar. os desenvolvimentos de Aristóteles são bastante curtos: suas indicações mais explícitas são constituídas pelo capítulo 19 do livro II dos Segundos Analíticos: ele oferece uma síntese duma inegável beleza. sobre um ponto dessa importância. vinculação cuja irrecusabilidade o filósofo constatou em toda a esfera do pensamento. apud Le Blond. Aristotelis Metaphysica. II. totalmente ignorante.. não há ciência – estes dois pontos foram clara e suficientemente estabelecidos para que não tenhamos de pô-los novamente em discussão. ao ���� a apreensão dos princípios. 40 Cf.. ela é obscura quando se trata dos princípios das coisas e dos limites do conhecimento”?34 Houve.256. por que dar margem a aporias. 1939. onde nenhuma irrupção mágica vem brindar-nos com conhecimentos novos. p.. 32 Cf. 39 Ibidem. a quem tanto se deve na retomada dos estudos sobre o filósofo a que nossos dias assistem. a mais útil. isto é. os fizéssemos imediata e diretamente decorrentes de qualquer outro conhecimento. de sua anterioridade e de seu caráter de premissas primeiras. obviamente.33.422. p. Aubenque. p. nos garanta que os princípios sejam conhecíveis.. de fato.3 e n. 33 Cf. quando se trata de conhecer e de explicar os objetos intermediários.35 E um dos mais eminentes estudiosos do aristotelismo. a mais indispensável das ciências”.1.121. II. mas sua interpretação fiel e clara permanece singularmente incômoda”. também. Le problème de l’être. de algum modo. cf. aliás. se os quiséssemos engendrar a partir de algo anteriormente conhecido. 4. a interpretação que acima recusamos. os princípios de sua mesma condição de princípios. ibidem. 35 Cf.. de fato. independentemente de conhecimentos anteriores que lhes sirvam. apud Le Blond. ele não poderia ter lugar em quem. fácil compreender como uma tal concepção do saber anterior ao dos princípios inquinaria a mesma ciência de.. se. “é impossível.38 uma ciência universal que.56 e n. 38 Cf.2. entre o conhecimento dos princípios e o conhecimento anterior a que ele sucede. acima. anteriormente à aquisição dos princípios. a-cientificidade. Mas é certo que se não podem conceber.219. 5 . IV. Eucken.40 34 Bonitz. escreveu sobre o capítulo que nos ocupa: “é notável que. p. 19.. laços idênticos aos que a teoria da ciência nos revelou vincular a coisa demonstrada aos mesmos indemonstráveis princípios a partir dos quais ela se demonstra. entretanto. Esse simples fato de que outros conhecimentos precedem o conhecimento dos princípios não teria.. 99b31-2. 342 343 . de ponto de partida e de apoio. uma vez que se trata dos princípios da ciência e não. Logique et méthode. 1872.224.. ibidem. p. de fato. que “tanto quanto a filosofia de Aristóteles é clara. também. Seg. 1051b. Não se disse. 36 Le Blond. p. acima. 1939. se bem que seja a mais alta.. 1962. Die Methode der aristotelischen Forschung. p.32 O conhecimento dos princípios não é o princípio de nossos conhecimentos.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles cimento dos princípios se não efetua sem um outro conhecimento anterior que o torne possível. sem que nada.

detendo-se um homem. tendo proposto essa comparação. procurando mostrar-nos como advém à alma o conhecimento dos princípios científicos. porém. a arte no âmbito do devir. 7.3 Sensação. outro deteve-se e outro. com este. 43 Cf. produz-se uma razão ou concepção (�����). percebe-se sensorialmente o particular. 1. quando. dá-se a permanência da impressão sensorial (���� ��������������). de um universal “separado”. nota ad locum. porém. não há. Tais “hábitos” ou disposições. 42 Aceitamos. acima. 19. 14-5. detendo-se uma das coisas indiferenciadas (������������������). l. 6-7. Met. absolutamente nada se poderia apreender nem compreender”. pois. uma diferenciação vem a surgir. precisamente. ser doutrina aristotélica que “sem ter a sensação. Colli. mas não para outros. relaciona-o o filósofo com a sensação. l. de homem. 2.4 e n. a sensação dá origem à memória (�����) e a repetição da memória.. talvez. nossa interpretação (“até restabelecer-se a formação original”) acompanha. Seg. a ciência no âmbito do ser. mas não do homem Cálias). 344 345 . aquele conhecimento emerge. 432a7-8. à “experiência” (��������) um número grande de memórias constituindo uma só “experiência”. 100a3 seg.. Se se exige. uma vez que provêm da percepção sensível. nem são inatos. 7-8). como. tentamos dar à nossa tradução o máximo de literalidade possível. ad locum): “until the original formation has been restored”. 13. diz-nos o filósofo. Anal. retoma Aristóteles. 48 Cf. de modo idêntico”. por razões óbvias. em lugar da lição da quase totalidade dos códices: �������������. reter ainda algo em sua alma. 19. no que respeita às suas determinações próprias. o filósofo. até restabelecer-se a formação original. 99b32 seg. da qual. a que chamamos “sensação”. então. 19. não se trata obviamente. Ross. II. O texto é extremamente conciso mas. 12-3. cf.45 têm princípio a arte e a ciência. conhecimento outro que não a sensação atual. de perto. de modo semelhante ao que emprega no mesmo início de sua Metafísica.49 a explicação de há pouco: “Assim. dá-se uma nova parada. para aqueles animais em que tal permanência não se dá.43 A partir da “experiência”. Anal. ibidem. por exemplo.42 Quando ocorrem muitas impressões persistentes dessa natureza. Seg.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles 1. nem procedem de outras ����� mais cognitivas. após uma batalha. 2.46 Tudo se passa. 99b39. 980a27 seg. malgrado a expressão ���������������������� (a l. com Ross.48 E. Em nem todos os animais. a conjectura de Ueberweg: �����������. 44 Ibidem. é preciso. Muito se discutiu sobre a significação. verificamos que. cf. Anal. a qual. “experiência” e apreensão dos universais Voltemos.44 essa unidade de múltiplas coisas que nelas reside identicamente.100. a l.50 O texto é. cf.7 e n. II. nota ad locum. com efeito. um pouco menos claro do que pretende o filósofo e exige alguma explicação. na medida em que. correspondentemente. II. um saber anterior.47 A natureza da alma é de molde a comportar um processo semelhante. acima. em Seg. então. aliás. 4. 49 Cf.. Assim.52 os mecanismos psicológicos mediante os quais surgem em nossa alma 46 Cf. nestes. em geral ou no que concerne a determinados objetos. faculdade por certo inferior e menos exata. aquela. 100a15-b3. uma faculdade congênita de discernimento. para alguns animais. 19. 47 Cf. Seg. Em verdade. a tradução de Mure (cf. III. em seguida. em descrever-nos. 52 Cf.181. 10-1. �. “tendo-se aquietado na alma o universal (��������������� ������������������)”. para a apreensão dos princípios. para maior clareza.51 Demora-se. II. 100a13-4. cf. mas tãosomente em alguns. Já víramos. II. mas a sensação é do universal. não deverá ser superior em exatidão (���’���������) ao conhecimento dos princípios e à ciência demonstrativa. l. 41 Cf. por exemplo. com efeito. ibidem. 19. III. l. cf.103). após a sensação.41 que se possua alguma faculdade (�������) com que ele se relacione. ainda assim. então. II. 8. como. produz-se pela primeira vez na alma um universal (e. ao texto de Aristóteles e acompanhemos as indicações que nos proporciona sobre o problema em debate. até que se detenham os indivisíveis (�����) e os universais. 50 Seg. entretanto. mas outros há para os quais é possível. Anal. diz o filósofo. de �������������������. acima. Anal. uma tal faculdade pertence manifestamente a todos os animais. de que todos os animais compartilham. de tal animal até animal e. l. já que possuem. 51 Da Alma III. ibidem.4 e n. Ora. como com um exército em fuga. ibidem. 45 Como o contexto imediato claramente o indica (cf.

980b26).. Met. Seg. percebendo o homem Cálias. assim como a Sócrates e a muitos outros. 7. Anim. é manifesto que. gêneros e gêneros de gêneros –. o sentido geral de nosso texto não se altera. 4. em última análise. 87b30-1. que “a sensação é do universal”. II. a sua “experiência”.179.152 a 154. quer se traduza de uma quer de outra maneira. acima. 19. acima. os gêneros de máxima universalidade. mostrando que o conhecimento das proposições assumidas pela ciência como seus princípios é obtido. III. Rodier. Anal. 748a1 etc. considerados individualmente. Seg.. a sensação produz dessa maneira o universal (��������� ��������������������������������)”. II. dado todo o contexto e a proximidade da passagem de I. 7-12. �. �. l. eu tenho sensação de “ho53 Cf. I. 64 Cf. de fato. 980b29-981a1: “as múltiplas ‘memórias’ da mesma coisa produzem finalmente a capacidade para uma ‘experiência’ singular”. apud Le Blond. da universalidade retida pela alma desde o processo de “fixação” da experiência sensível. G. Embora estejamos com Ross. encarando sob esse prisma o funcionamento da percepção sensível.4 e n. Anal.100. então. Anal.. numa apercepção unitária. II. Com efeito.117 e n. assim. 2. que assim vêm nela “deter-se” e “aquietar-se”. ibidem. Anal. p. fixa.I.56 a qual apreende tão-somente um “isto”. 63 Cf. Seg. 11. b2-5. 19. �. 12. the most universal universals”. 13.. 103a10-3. I.4 e n.7 e n.180. 4..62 Ora. acima. 8. acima. II. II. 65 Ibidem. 1038a16 etc.4 A indução dos princípios A exata interpretação desta última passagem requer um certo cuidado. em verdade. cf. 60 Enquanto Ross interpreta os �������� a que se refere o filósofo em Seg.53 Tais universais em nós provêm. o termo em questão é empregado por Aristóteles tanto para designar as coisas particulares que não diferem quanto à forma ou espécie (��������������������). aqui e agora. que. 58 Cf. 4. 4. II. vai culminar nos gêneros supremos e indivisíveis. as categorias. 97a28-31. n. além de Seg. um processo de universalização.7 e n. algo especificamente indiferenciado e retém o elemento formal idêntico em todos os particulares que não diferem entre si especificamente. Seg.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles as afecções que correspondem aos universais objetivos. quando as múltiplas noções da �������� cedem lugar à unidade de uma só concepção (��������) universal e se dá. Anal.474. nota ad locum) como as infimae species. III. o homem ou animal que possui apenas “experiência” age inconscientemente afetado pelo elemento idêntico nos diferentes objetos a que correspondem as várias memórias que constituem.5. II.65 1. “the universals par excellence. cf. Colli (cf. Ora. IV. Anal. 57 Cf. isto é. nota ad ibidem. 100a16-b1.43 deste capítulo). da nossa apreensão das coisas individuais pela sensação. cf. 29-30. Anal. 1. p. 346 347 . Seg. I. 100b2) designando. Tóp. por fim. como por exemplo. 97a2831. �. II. II. II. Como nota Ross (cf.2.. como mostra Ross (cf. 62 ����������������������� (cf. 19.57 Mas o aparecimento da memória faz “deter-se” na alma – e a cristalização do processo de repetição da memória numa �������� (“experiência”)58 faz nela “aquietar-se” – o universal inteligível que se encontra nas formas sensíveis:59 a permanência da impressão sensorial. nas categorias. que nos é necessário conhecer os elementos primeiros por meio da indução (�������). acima. então. nota ad locum). para nós. 4. 121b15-23.60 já tem início. II. Anal. também. aos fleumáticos ou aos biliosos.7 e n. mem”. quando afetados de tal doença. 54 Cf.121. Ger. Met. 2. 7. fixando em nós um particular. nota ad 100a15-b3. 1. Logique et méthode. onde o autor aceita a interpretação de Zabarella). 100a15 (cf. a progressão do processo que. 100a6-9. portanto. isto é. 100a5-6 (v. 746a31. o que nos permite dizer. anteriores e mais conhecidas. ardendo em febre. Da Alma III. 72a1-3. cf. Met. 1.2. substitui-se à “experiência” a ������63 principiam arte e ciência. Mure (cf..64 E Aristóteles conclui: “É evidente. 19. 13. ibidem. 981a5 seg. ad locum) e Tricot (cf.54 daquelas coisas que são. uma vez que o que pretende o filósofo mostrar é que a fixação de um desses “indiferenciados” na alma é a fixação do elemento formal comum a todos os sensíveis particulares através dos quais um mesmo ����� se individua.55 É certo que não se apreende o universal pela sensação. o texto de Met. e. a partir de um conhecimento 61 Cf. 55 Cf. 432 a4-5. a ����� enseja a concepção de que o remédio fez bem a todos que tinham tal constituição (delimitados segundo um �����). 19. II. l.182. Seg. não se trata de identificar o processo de aquisição dos elementos primeiros ou princípios com o processo de formação das noções universais a partir da sensação mas tão-somente de comparálos. 1018b33-4. enquanto a ���������produz a concepção de que tal remédio fez bem a Cálias atingido por tal doença. “produzindo” na alma universais de universalidade cada vez mais extensa – formas ou espécies. a apreensão “consciente”. sua tradução.7 e n. sua tradução e nota ad locum) entendem-nos como os particulares sensíveis. II. 1939. 59 Cf. 8.61 Mecanismos semelhantes possibilitam. 31. Traité de l’Âme. 56 Cf. acima.. 1. como para designar as mesmas formas ou espécies últimas que não mais comportam nenhuma diferença (�������). 2. precisamente.

que estamos a comentar. p. �.135). 19). 1078b23-30. 1939. Logique et méthode. 3. compreendemos também que a regressão necessária a um conhecimento anterior para explicar que algo de novo se conheça é uma exigência. no momento. suficiente para explicar todo conhecimento dos princípios”:67 uma tal suposição aberraria manifestamente de toda a doutrina aristotélica dos Segundos Analíticos e de outras obras. 105a13-4: ������������������������’����������������������������. da esfera dianoética:74 o conhecimento da coisa demonstrada exige um conhecimento anterior. 1139b29-31: “Há princípios. 12. Anal. trata-se de um processo indutivo... II.73 Sabedores de que o conhecimento anterior sobre o qual se constitui o dos princípios é um conhecimento de tipo “empírico” fundamentado na percepção sensível. VI. 72 Cf. qual um aluvião (sic!.. des simples –. o dos princípios. 2. I. que repousa.36.. ������������ ����������������������������. Seg. 68 Tóp... por exemplo. 1025b15-6.116. e Aristóteles. sobre a apreensão dos 69 Cf. “déclare que ce procès aboutit à la formation.4. seu comentário introdutório a Seg. cap. com. des indivisibles – ��������� –. acima. de algum modo. Mansion.69 Eis por que se pode dizer que cabe à �������� fornecer os princípios de cada gênero de coisas. 1946. portanto. de “uma passagem dos particulares ao universal”. à “experiência” astronômica fornecer. Le jugement d’existence. por elas assumidos em suas definições-princípios. guiado. 1946. 1. Nic.. 142 (e n.68 lembrando-nos a impossibilidade de obterem-se os universais sem 66 Le Blond. Mansion critica com razão essa interpretação. acima. que a descrição. p. and alike only in being inductive”. partindo diretamente da sensação.101. 1139b28-9.263. até agora. continua o autor. É evidente. 74 Cf. em última análise. ambos.. Le jugement d’existence. I. como diz Ross (cf. Met. então. na sensação. indução e a impossibilidade de uma indução que não repouse.. e este último.. cf. 2. 81a38-9. a que procede o último capítulo dos Segundos Analíticos..I. cf. cf.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles anterior fundamentado.. cf. “ao princípio da ciência”. pertencente também àquela esfera. em última análise. S. por uma inspiração “sensualista”.. Seg. n. 67 Le Blond. Anal. dos quais não há silogismo: há portanto.. Nic. 81b2-6: �������������������������������������’�������� . também. E.19 do livro II dos Seg.70 diremos. os princípios da ciência astronômica. Met. S. III.142 e n. a supor “que a sensação é.. ibidem.. VI. dos mecanismos psicológicos que levam a uma tal “fixação” não deverá entender-se como uma descrição de um “processo de generalização que nos confere a posse dos princípios”66 nem fazer-nos crer estar Aristóteles. após lembrar que os princípios são proposições: “It would not be difficult to argue that the formation of general concepts and the grasping of universal propositions are inseparably interwoven. leva os universais contidos nas formas sensíveis a fixar-se na alma.102 (e n. por si mesma. Anal. dos quais parte o silogismo.But A. dans l’âme. Anal. que se manifestaria na apresentação.. na percepção sensível. por sua vez. também. em última análise. num e noutro daqueles casos. da sensação como a faculdade dos princípios: estes seriam conhecidos por uma indução que não seria mais do que o resultado do depósito progressivo das próprias sensações. cuja acumulação e condensação produziria em nós o �������. através de um raciocínio epagógico ou indutivo que se pode assemelhar a – e que.. aliás. 70 Cf. 18. sobre essas questões expusemos.72 No que respeita. Prim. segundo o autor (cf. pressupõe. possui um caráter “sensualista” dominante. I. p. Anal. O que o filósofo quer deixar-nos claro é que. cf.132-6). vimos também a Metafísica falar-nos de uma indução que leva à apreensão do “o que é” e nos permite um outro modo de mostrá-lo (���������������� ������������). indução”. 1939.132. procedimentos que concernem. 71 Cf. 18. IV.45). acima. mesmo. aos “o que é” dos gêneros das ciências particulares. está em continuidade com – um processo indutivo mais simples que.4 e n. Ét. Logique et méthode. o mesmo podendo dizer-se para qualquer outra arte ou ciência. makes no attempt to show that the two processes are so interwoven.87. Ét. 3.. �. princípio universal específico. 30. acima. um outro conhecimento anterior de onde possa emergir por via indutiva – tal é o conhecimento de tipo “empírico”. onde se elogia Sócrates por ter utilizado os argumentos indutivos e o método de definir universalmente. isto é. ������– qui constituent les universels au sens plein”. que a falta de uma determinada sensação terá como necessária conseqüência a supressão de um determinado saber científico. toda essa primeira parte do cap. cf. no que concerne tanto ao conhecimento sensível quanto ao conhecimento dos princípios. 46a17 seg. 4. desde o início. 3. cf. 73 Cf. p.IV. também. conforme quanto. exclusivamente. p.4 e n. Rather he seems to describe the two processes as distinct. 348 349 . and he could hardly have dispensed with some argument to this effect if he had meant to say that they are so interwoven...34). p.71 E também a Ética Nicomaquéia ensina-nos haver indução dos princípios universais de que partem os silogismos da ciência.. ibidem. I.

1039b32-3. pondo termo aos Analíticos: “Uma vez que. cf. 2. Esta configura-se. 29 seg. por último. como sabemos. II. 2. acima. 432a6-7.. II. conclui o filósofo. a ciência ora ser ciência.1. onde nos referimos ao caráter não-científico da indução. com efeito. 16. p. 1. Anal. desde o início. na sua obra Observation et expérience chez Aristote. 83 Cf.I.83 em sentido absoluto –. imperturbável.I. acima. II. não possuímos nenhum outro gênero verdadeiro. Seg. 19. como sabemos.3 e n. 81 Seg. outros comportam a falsidade. n.. por essa razão. Cf.13 deste capítulo. acima. Anal. n. citamos.. além da ciência. 92a38-b1. na qual. Seg. “por si mesmas fazem fé”76 e “por si mesmas naturalmente se conhecem”.46. 1.80 75 Cf.. também. 7. 1. Leia-se o bom estudo que Louis Bourgey consagra à importância do conhecimento sensível em Aristóteles.7 e n. Anal.1 e n. se consideramos a seqüência do texto.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles sensíveis particulares pela sensação. é ciência princípio de ciência. 64b34-5: ��’������������������������.51. 100b18-9.145. mesmo. para sustentar a possibilidade de relevar-se. que não se nos explicou ainda como pode o raciocínio indutivo produzir o conhecimento dos princípios. 15. VI. a inteligência será princípio da ciência. 8. de outro lado. ora ignorância”. como. se é certo que se pode dizer.. Logique et méthode. �. não haverá ciência dos princípios e. também II. 84 Met.3 e n. a respeito do mesmo conhecimento cuja instauração a apreensão dos princípios condiciona: “não pode . 100b5-17.1 e n. enquanto a ciência inteira guarda uma relação semelhante com a totalidade do objeto”. como o fundamento primeiro de todo saber humano. Da Alma III. VI. Anal. 350 351 . acima. V. sem que nenhuma regressão a um saber anterior se faça necessária ou.. possa conceber-se: sem a sensação nada poder-se-ia aprender nem compreender. 4: “Do que se conhece mais e antes”. I. prioridade e autonomia. acima. II.5 Indução ou inteligência dos princípios? E nossa aporia poderia parecer agravar-se. mas são sempre verdadeiras ciência e inteligência (����) e nenhum outro gênero é mais exato (������������) que a ciência senão a inteligência. 4. 1939. imediatamente após ter apontado o papel da indução na apreensão dos princípios.82 estabelecera: porque mais conhecidos – e mais conhecidos. I.4.. 1955. haverá inteligência dos princípios – eis o que resulta destas considerações e. 71b20-2. 5. 77 Prim. Se. e que. mas ou que é ou que não é”?79 Dificuldades como essas explicam que intérpretes menos preocupados com a descoberta da unidade profunda da doutrina do que interessados no inventário das dificuldades que ela comporta tenham julgado disparatada a fórmula aristotélica que atribui à indução um papel fundamental na aquisição dos princípios da ciência e tenham invocado passagens como a que. não mostra o que é a coisa. fundamenta-se a argumentação no reconhecimento da maior cognoscibilidade dos princípios. Anal. por conseguinte. II. uma vez que nada pode haver mais verdadeiro que a ciência senão a inteligência. os princípios das demonstrações são mais conhecidos e toda ciência se acompanha de discurso (����������’���������������������).3 e n. 19. a propósito de um conhecimento que pressupõe um conhecimento anterior e que dele depende? Por outro lado. uns são sempre verdadeiros. que a doutrina da demonstração. 100a10-1. dos estados ou ‘hábitos’ concernentes ao pensamento com os quais apreendemos a verdade. como pretender que as definições-princípios possam obter-se por indução.122.84 Excluídos.199.27 a 34.. 82 Cf. 78 Cf. acima. a opinião e o cálculo. cap. assim. acima. acima.177. 1. 79 Seg. cf. cf. por outro lado. rigoroso.. nos Analíticos.. p. E ela será princípio do princípio. impossível é que se efetue sua apreensão por meio de uma ���� que comporte tanto a verdade como a falsidade.77 Como entender uma gênese a partir do inferior e menos exato e cognoscitivo78 que não inquine dessa mesma inferioridade o que dela resulta? Como falar de anterioridade. 76 Tóp. também. por exemplo. sem obstar ao caráter imediato e primeiro dessas proposições que. Cf.75 Mas também é óbvio. 2.175 a 189.81 Como se pode ver.37-55. se o que induz mostra apenas “que tudo é assim por nada ser de outra maneira. II. II. 80 Le Blond. do fato de que princípio de demonstração não é demonstração nem. “toda uma série de textos que tendam a fazer concluir ser a indução incapaz de conferir a posse desse conhecimento das essências.. em que deve consistir a apreensão de um princípio”.

87 também ao distinguir ciência e opinião (����)88 e mostrar que não cabe à ciência o conhecimento do contingente. de certas coisas. pelo qual conhecemos as definições”. VI. as definições-princípios?97 Verificamos. não há sabedoria dos princípios. Resta-nos.95 Como harmonizar a infalibilidade da inteligência que só apreende o verdadeiro (e apreende-o de modo não-discursivo) e o discurso indutivo.81 deste capítulo. capítulo especialmente consagrado ao estudo dessa distinção. no último capítulo dos Segundos Analíticos. Anal. Essa competência da inteligência ou ���� para a apreensão dos princípios já nos fora indicada por outros textos dos Segundos Analíticos. por assim dizer.89 explicando: “com efeito. ao sábio ter. então. por exemplo. 84b37-85a1. Cf. I. l. 100b4.4 e n.27 seg. 6.4 e n. 3. acima.324. cf. VI. 3 (o capítulo inteiro).1 e n.69.4. 5. seus mesmos princípios. mais verdadeira que a ciência. não apenas ciência.3 e n. I. 7. I. VI. isto é. acima.85 não poderia conhecer. b2-3. Anal. porque somente ciência e inteligência são sempre verdadeiros. mas também um certo princípio de ciência (���������������). acima.. nem pode a ciência ser o princípio de si mesma nem fundar-se a demonstração num processo demonstrativo. cf. Ibidem.. de modo não discursivo. ibidem. 5. há pouco. vem a conhecer). poderá. princípio da ciência. Que não seja da competência da ����� a apreensão dos princípios deve entender-se no sentido de que tal apreensão cabe apenas a uma de suas partes. Cf. precisamente ao ���� que. a ciência inteira comportar-se em relação à totalidade de seu objeto com características de verdade. 19. n. II. chamo de inteligência o princípio da ciência”. VI. tanto mais que esta. 1. infalível por intrínseca necessidade. então. um conhecimento demonstrativo.90 E. acima.92 Ora. ibidem. cf. 6.86 já afirmava o filósofo “haver. nas mesmas linhas que seguem seu pronunciamento sobre o valor heurístico da indução. 100b5-17 e.. em virtude de seu caráter discursivo (ela caminha de algo já conhecido para algo que. vimo-lo caracterizar a premissa imediata como a unidade no silogismo. que repousa. Seg. I. Nic.65. ibidem.1. 6. 36: �����������������������������. 1143a35-b11.4. em decorrência desse conhecimento anterior. Cf. 1. 1141a18-9. uma vez que lhe compete 85 86 87 88 Cf. 72b23-5. o ���� como a unidade na ciência e na demonstração. também. ora. VI. que toda a aporia precedente sobre a dificuldade em atribuir à indução o conhecimento das proposições que “por si mesmas 89 90 91 92 Cf. Nic. acrescentava Aristóteles que também não concerne à inteligência ou “ciência não-demonstrativa” um tal conhecimento. 11. 1. acima. em última análise. na medida em que compete também. a apreensão das premissas imediatas. II.3 e II. Em Seg. na percepção sensível96 e que nos pareceu impotente para atingir. o mesmo caráter da maior cognoscibilidade destes exige que sejam apreendidos por uma ���� mais exata e.3. cf. I. constitui a �����. Di-la-emos. ibidem. Seg. cuja competência exclusiva ele reconheceu. III. 1140b33. há que buscar-se entre estas a faculdade que conhece os princípios. II. Anal. se conhecem e a ciência se instaura. II. acima..70. Seg. 1141a7-8. afirmando a simplicidade dos princípios.. certeza e exatidão semelhantes às que qualificam a apreensão dos princípios.79. Cf. 88b33-7. acima. de modo imediato. um mínimo de reflexão é suficiente para compreender que toda a dificuldade do problema do conhecimento dos princípios reside na relação a estabelecer entre o método indutivo cuja importância vimos.3 e n. Cf. 1141a1-3). 1. Ibidem. reconhecer a inteligência como a faculdade superior em exatidão e verdade. 1. VI.3 e n.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles a opinião e o cálculo. graças à qual os princípios.5 e n. também. 33. 93 94 95 96 97 352 353 . ao criticar as concepções errôneas da ciência que só reconheciam na demonstração um processo de conhecimento rigoroso. Como explica Aristóteles (cf. assim. cf.. acima.93 o filósofo realçar (“é necessário conhecer os elementos primeiros por meio de indução”94 ) e a função cognitiva da inteligência.220. com a ciência. Cf. Ét.4. 1. acima. por isso mesmo. 5. ao concluir. 6. I. a prudência (��������) ou a sabedoria (�����): “resta que a inteligência se ocupe dos princípios (�����������������������������)”. um princípio dos princípios da ciência e. também Ét.91 E a Ética Nicomaquéia confirma a doutrina. 23. Anal. acima.. após ter mostrado que não apreendem os princípios a ciência. porque dela decorre. corretamente. acima. Com efeito.

um “mal-estar” do filósofo diante do problema e uma oposição entre a orientação sistemática. que Aristóteles passa de um ponto de vista a outro”. O autor entende que o verbo �������� introduz esse gênero de explicações que consiste em imputar a algo (à inteligência ou a Deus.102 �����������������������������103 é mais que uma explicação meramente residual. sobre a função do método indutivo na apreensão dos princípios científicos obedeceriam a uma inspiração “sensualista”. VI. em Seg. por exemplo) determinada competência ou atributo. acima. Em apoio à sua interpretação. sem que se trate. et la méthode réelle” (ibidem. por exemplo. Le système d’Aristote.. VI. E não tem cabimento. Como acima vimos (cf. era natural que não se satisfizesse Hamelin com ele: “Cette solution des problèmes de l’induction et de l’origine des principes par une intuition de l’intellecte dans la sensation est assurément trop facile” (Le système d’Aristote. e o autor conjectura que se tenha imposto ao filósofo uma tal solução “par l’état rudimentaire des méthodes d’observation et d’expérience à son époque” (ibidem). 103 Cf. 100 Como julga Le Blond. Mas. então. concluímos que a inteligência é a faculdade que lhes corresponde. cf.258-9. cf.66 e 67).136. por um momento. Aristóteles teria abordado o problema de um ponto de vista radicalmente oposto e incompatível com o primeiro. verifica-se. n. porque a ela também se refere. I. de Aristóteles e as suas tendências positivas de observador e aceitar que a introdução do ���� configure uma mera solução de direito. tal como ela se coloca no último capítulo dos Analíticos e consideremos.4 e n. obviamente. Logique et méthode. sem que tenhamos por que duvidar da possibilidade de uma compreensão adequada e completa da solução “residual”. 33. la théorie abstraite de la science.2. p. por conseguinte. Porque. introduzindo. em que o filósofo. a problemática da aquisição dos princípios. 104 Aubenque.250).. em Seg.104 Mas não mais duvidamos de que os princípios sejam conhecíveis. ao papel da inteligência ou ���� na moral). falando da percepção dos particulares a partir dos quais os universais se apreendem.2 e n. n. 11. ibid. por exemplo. se refere consistisse em usar a sensação como uma intuição racional. “aquilo sem o que o princípio não pode ser conhecido. p. mas pode também ser de outra maneira” (ibidem. também. propriamente. Aristóteles mostra-nos que cabe à opinião (����) o conhecimento das verdades e realidades contingentes por não poderem ocupar-se delas nem a ciência nem a inteligência: “resta (��������).. tão somente. 1931. fundamentalmente. falta-nos. 99 Tal era.. 1. 1962. também.146. que permanece injustificado. VI. as indicações de Aristóteles. Ocorre. dela diz. então. se nenhuma outra faculdade pode ocupar-se dos princípios. 4. ibidem.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles naturalmente se conhecem”98 dizia. 88b32 seg.99 Tentemos. quando. encontrar em outros textos do filósofo subsídios para uma leitura correta desse último capítulo dos Analíticos.1 A dialética e as “ciências filosóficas” Deixemos. por certo. p. por via de exclusão e como solução residual. assim. ainda mais radical. Le Blond. se se lê atentamente todo o contexto (isto é: todo o capítulo 11 do livro VI da Ética.192 seg.1. invocava o autor o texto de Ét. 102 Cf. p. Ét. que Aristóteles nele atribui à inteligência a função de apreender tanto os princípios primeiros e universais do processo demonstrativo quanto. Logique et méthode.. Essa dualidade de perspectivas manifestaria. 354 355 . com efeito. VI. que a opinião se ocupe do que é verdadeiro ou falso. 89a2-3). acima. 1. excluindo-se �����e���������. uma passagem psicólogo (cf. cf. então. 1939. entre la logique. 101 Cf. o ����. se é que pode haver um conhecimento humano deles).. traduzindo um perene conflito. 19. “entre le théoricien et la practicien. 1939.7 e n. 1141a7-8. não temos “a impressão de passar bruscamente a um plano de pensamento totalmente outro”. “esta é inteligência” (������’���������). querer identificá-las. Anal. Anal. cf. em verdade. Le problème de l’être. em tal contexto. entretanto. como se o ���� não mais fosse que o correlato cognitivo do princípio. p. 1931.). o qual concerne.101 Tampouco podemos 98 Cf. através da percepção sensível. Aristóteles explica a função do ����. respeito às relações entre inteligência e indução. acima.. em virtude da ausência de uma experiência clara da intuição dos princípios... ou de supor tal elucidação possível (assim. com efeito.137.56. 6. dogmática. como se o filósofo estivesse a dizer-nos que a indução a que ele. após ter exposto o papel da indução. cujas competências se introduzem como conhecidas. entretanto.. p.. II. acima. reconhecendo a universalidade inscrita na particularidade: nem se trata.137).77. ibidem. Nic.40. 1143b5. Nic.100 nem cremos correto pretender que “é por um verdadeiro salto.92 deste capítulo. no fim do capítulo. de fornecer uma elucidação explícita e positiva. II. de lado. o fato particular e contingente que se exprimirá na menor de um silogismo da ação. necessária para salvar o sistema aristotélico da ciência.4 e n. É-nos o exemplo tanto mais interessante porque é a competência da opinião que se descobre por via da exclusão. para esse autor. VI. cuja doutrina sobre o conhecimento dos princípios sua mesma concisão nos tornou tão problemática.138.. p. em seguida. explicitar o modo de sua apreensão. a solução de Hamelin. de uma confusão entre a inteligência e a sensação nem da redução da inteligência dos princípios a um uso intuitivo da percepção sensível. p. se ao menos ele é conhecível”.. 2 Os Tópicos e a dialética 2. que a obra aristotélica contém exemplos do uso daquele verbo em raciocínios estruturalmente análogos. tendo assim interpretado o pensamento aristotélico. Ora.

. acima. Sof. conforme nos mostrara também a sólida doutrina dos Analíticos109 – para argumentar em favor da necessidade de discorrer sobre eles a partir de ������. Para as ciências filosóficas. cap. havemos de particularmente relevá-la.107 105 Cf. de proposições aceitas pela opinião.111 não vê Aristóteles contradição alguma entre esse caráter absolutamente primeiro dos princípios e o fato de apreenderem-se eles graças a uma investigação dialética que descreve como metodologicamente capaz de até eles levar-nos. 46a9-10 etc. Tóp. nem 108 Por oposição a um sentido lato e menos rigoroso em que Aristóteles também. 100a22-101a24. II.I. 107 Tóp. 1. também. I. 6. que a dialética converte em premissas de seus raciocínios.110 Ora. para as ciências filosóficas. cap. cf. que “são verdadeiras e primeiras as premissas que. acima. Para os encontros casuais. cap. 356 357 . 1. mas também um instrumento eficaz para discutir com – e triunfar de – os eventuais interlocutores com que deparamos nos encontros cotidianos. 110 Cf..13. de natureza perquiridora. Sobre a distinção entre o silogismo dialético e o silogismo científico. Ele o é para três coisas: para exercício. mas é por meio das proposições aceitas a respeito de cada ponto que é necessário discorrer sobre eles.. cf.. perceberemos mais facilmente. a propósito das premissas da demonstração. tendo o capítulo anterior dos mesmos Tópicos explicado. com efeito. não por meio de outras.1 e n. possuindo um método. 1. 30.159. 165b3-4. à apreensão dos princípios científicos. 1. por si mesmo. n.154 a 157. mediante um raciocínio diaporemático. digno de fé)”. tendo distinguido as várias espécies de silogismo e definido o silogismo dialético. acima.I. As duas primeiras utilidades da dialética apontadas pelo filósofo não nos interessam aqui especialmente. 10.I. 1.. I. tanto menos por ser óbvio que o estudo de uma técnica geral de argumentação constitui. 101a25-b4 (o capítulo inteiro). com efeito. ibidem. 1. Aristóteles descreve-nos a dialética como uma propedêutica às ciências “filosóficas” em geral. o verdadeiro e o falso. 24b1-3. ele próprio. após definir como seu propósito a descoberta de um método que nos permita raciocinar sobre todo o problema proposto a partir de premissas aceitas (����������). é impossível. cf. isto é. objeto principal de sua investigação. II. 104a8 seg.. acima. ela possui o caminho que leva aos princípios de todas as doutrinas científicas”. não somente uma excelente ginástica mental. Tóp.108 como um método que conduz. 4.1 e n.5. 100a30-b21. por vezes.. tendo inventariado as opiniões da maioria dos homens. Sobre a tradução de ��������por proposição aceita.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles dos Tópicos de Aristóteles. assim como defender nossas opiniões sem incidir em contradição.266. No início daquele tratado. mas nos seus próprios. cf.. Cf.4 e n. apoiados.4. porque.I.I. expondo-a. cuja contribuição para a solução das dificuldades com que nos defrontamos haverá de revelar-se decisiva. 2. para os encontros casuais.124. 100a29-30: ������������������������������������������������������. Que é útil para exercício é manifesto a partir do que já foi dito.1 e n.1 e n.. porque. 3. Anal.1 e II. com.106 continua: “Em seguida ao que foi dito. às que o são no sentido rigoroso da definição proposta nos Analíticos. 111 Tóp. III. Prim. poderemos mais facilmente argumentar sobre o problema proposto. usa a palavra ���������cf. Mas a terceira.4 a 6. fazendo mudar o que não nos pareçam dizer corretamente. 109 Cf. 5.4 a 6. nos princípios científicos.2. II. também no que concerne às primeiras dentre as proposições que respeitam a cada ciência. n. sendo capazes de percorrer as aporias em ambos os sentidos (������������������������).76. dizer algo sobre eles mesmos. 100a18-21. 1. acima. isto é. à dialética. 5. deve dizer-se para quantas e quais coisas é útil este tratado. acima. pois. VI. por-nos-emos em relação com eles. 1. uma vez que os princípios são primeiros dentre todas as proposições. Pois. com efeito.II. n. a partir dos princípios apropriados à ciência em questão. E o filósofo invoca explicitamente a anterioridade absoluta dos princípios – eles não podem provar-se uns pelos outros. sobre o sentido e a importância dessa distinção. Ref. 106 Cf. I.IV. 1. mas por si mesmas fazem fé (não se deve. não em pontos de vista que lhes são estranhos. em cada caso. VI. investigar o porquê.105 o filósofo. Ora. ou mais apropriada. 2. mas é preciso que cada um dos princípios seja. acima. De fato.5. esta é a tarefa própria.2 e n. IV. eles “são primeiros dentre todas as proposições”.

Ret. Anal.. ad finem). 100b7. uns o fazem ao acaso.120 Porque todas as disciplinas e ciências utilizam elementos “comuns” (�����).81 seg. mesmo na falta de conhecimentos precisos e específicos. 4. Prim. ainda que não o seja. Anal. Cf. 116 Cf.2 e n.II. 81b18-23. que as considera sob o prisma da causalidade:127 “de fato. Anal.4 e n. também Seg. Ref. a premissa dialética é pergunta que formula uma alternativa contraditória. 72a10-1. 100b5 seg. Ref. Anal.: todos] participam. tão-somente. 172a17-8. Ret. a definição de ��������em Tóp. IV.5 e n.. de todos ou apenas de alguns. com. acima. o raciocínio ���’���������dos silogismos científicos à argumentação ���������� dos silogismos dialéticos. as opiniões. I. 11. II. a dialética é interrogativa (���������). l. acima. Prim. l. acima. também. que assumem de modo definido (���������) uma das partes da contradição e que não se formulam pois interrogativamente. ibidem. Ref. 428a19. 1. 77a33-4. dessa prática de que a dialética se ocupa tecnicamente (��������) e aquele que critica por meio da técnica 120 Cf. 30. mostra-nos suficientemente que concebe a crítica como a função fundamental daquela arte. a opinião da maioria ou.. os outros graças a um costume que provém de uma disposição ou ‘hábito’”.113 embora não se confundam opinião e verdade114 (já que a opinião comporta a falsidade e concerne igualmente ao verdadeiro e ao falso115 ). I. Anal. 1139b17-8 etc. a crítica “ne fonde pas une branche à part de la dialectique: elle s’identifie avec la dialectique au sens spécifique” (Les Topiques d’Aristote et la dialectique platonicienne. que lhe é semelhante (cf. Anal. 124 Cf. 104a8-9.123 todos podem deles servir-se para examinar.4.145. que a dialética exclusivamente com a retórica comparte. I. Embora Aristóteles diga a “peirástica” uma parte da dialética. para a eficácia propedêutica da argumentação dialética no estabelecimento das premissas categóricas da demonstração. 19. 1. 1. 1355a29 seg. ao lado das proposições que lhes são próprias. 3.121 através dos quais todas as ciências umas com as outras se comunicam. 1965.I.2 e n.117 nem o fato de ela ser essencialmente interrogativa e poder assumir indiferentemente como premissa. Anal. 2. n. 100b21-3. 123 Cf. 165b3-4. I. 114 E Aristóteles opõe sempre. 8. 14. Cf. VI. 358 359 . com. 119 Cf. III.. 8-11. 2. 172a29-30. Nic. qual seja a de conduzir-nos à apreensão das verdades primeiras das ciências. ibidem. 19.. l. 1. com. 172a21 seg. 112 Cf. à qual compete tão elevada missão. a definição dos raciocínios dialéticos como argumentos “silogísticos de contradição. II.I. até certo ponto. cf. é a contraparte da dialética (cf. Sof. 65a35-7. de provar proposições contraditórias. acima. 30-4. 1039b31 seg. I. com efeito. “faculdade de considerar o que pode em cada caso ser persuasivo” (ibidem. a partir de premissas aceitas”. 126 Ibidem. [subent. 11. 113 Veja-se. Seg.114. Seg. IV. II. isto é. cap. nenhum conhecimento particular seja possível). VI. Da Alma III. I. I. 10. 125 Cf. Cf. 117 Cf. IV. acima. 183a39-b1. 24a23-4. IV. uma parte da dialética. I. 89a2 seg. Anal. 3. Prim. 2.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles vê qualquer dificuldade em fazer emergir o conhecimento dessas proposições absoluta e infalivelmente verdadeiras112 a partir do uso de um método cujo ponto de partida são. II. é uma ramificação da dialética (cf.280 a 283. embora baste ao raciocínio dialético que algo pareça verdadeiro. acima. ibidem l. Seg.53. cf.2 e n. n.122 a 124. 72a9-10. Anal. 81b20-2. é evidente que se podem fazer essas mesmas coisas metodicamente por meio de uma técnica.119 2. cf. Sof.30 seg. 1355b25-6).126 ora. 30-1). 2. 2..53. II. Sof.4 e n. 1354a4-6. acima.87-88. Anal.I. a proposição dialética é uma pergunta �������. Met. I. portanto. com efeito. também 10. por outro lado..125 Ocorre apenas que. acima. 46a8-10.122 porque é da natureza desses “comuns” serem tais que nada impede acompanhar-se o seu conhecimento da ausência de conhecimentos particulares e específicos (ainda que. 104a8 seg.. Sof. Ét. criticar e refutar. de um modo não técnico (�������).116 Não lhe parecem tampouco óbices. Seg. quantos exibem a pretensão de possuir saber em tal ou qual domínio particular. I.2 Características gerais da arte dialética Essa arte dialética. Ref. acima. ibidem.119. 127 Cf. cf. Como diz De Pater. “da maior parte. 11. 115 Cf. defendem e acusam. I. como uma peirástica (����������). 2. acima. todos os homens examinam e sustentam teses. cf. em Ref. II.124 em verdade. 1354al)..120. 15. a argumentação dialética assume indiferentemente qualquer das partes da contradição. 11. 19. concebe-a o filósofo fundamentalmente como uma arte de argumentar criticamente. ibidem.. 3. cf. 1. 3. Sof. Tóp. de examinar. 121 Cf. 105b30-1. 1356a25-6). pôr à prova. 171b4-6.5 e n. 3. l.5. 1. 1.2 e n.1 e n. 24a24-5. 16. no entanto. 2. 6-7. 11. 2. p. I.172a23-7. 3.. Tóp. Z. a opinião dos sábios. Seg. 34. desconhecidos os “comuns”. 169b25. 19. qualquer dos membros da contradição118 nem mesmo aquela capacidade. Seg. ainda. 77a26-7. 122 Cf. A retórica. 33. 118 Com efeito. 11.

assim. Cf. 1. 165a21. abertura à totalidade”.140 ao descrever-nos as duas atitudes que se encontram em face de toda especulação e pesquisa. dialéticos ou críticos. Sof. 1962.146. ibidem.3 Estrutura e conteúdo dos Tópicos Quais sejam os recursos e meios da arte dialética e qual o modo por que ela efetivamente os utiliza para alcançar os objetivos que colima.128. �. com efeito. E. 172a34-6.128 aquele que formula proposições e objeções. constituindo precisamente os objetos apropriados (������) à filosofia.. é também pela intenção que anima sua vida que o filósofo se distingue do sofisma.285. o resultado da educação e formação cultural. cf.139 A dialética integra. como diz justamente o autor: “On voit assez en quel sens cette conception de la culture constitue une réhabilitation de la sophistique et de la rhétorique contre les attaques platoniciennes.138 tão-somente aparenta conhecer. Aubenque. pela natureza da faculdade envolvida (���������������������). O tratado possui uma estrutura bem definida nas suas linhas gerais e seu livro I serve-lhe de introdução. acima. dele diferindo pela intenção (����������) que anima sua argumentação. 24. dont Aristote a démontré. Met. 2.... acima. l. de nenhum gênero delimitado. Met. 1004b25-6: ����������������������������������������� ����������������������� ���������������������������������. Anal. precisamente. par ailleurs. la science suprême des Platoniciens. se voit ici détrônée au profit d’une universalité seulement formelle.. Le livre premier du Traité sur les Parties des Animaux. função crítica. Part. Sof. Ref. 133 Cf. Cf. VI.. o de permitir que um único homem se torne capaz de julgar (��������) de todas as coisas. 134 Cf. 1. cf. 11.. uma é a ciência do objeto.286). �. 1004b24-5. 172b7-8. acima. IV. 144 Já Le Blond (cf. destarte. p. p.. enquanto as Refutações Sofísticas constituem. Ret. a que se refere esse tratado. 138 Cf.129 Comunicando-se.1 e n. Ret. sobre a maneira correta ou incorreta por que se exprime aquele que fala”.144 2. sofísticos.130 precisamente porque não se ocupa. 170b8-11. Met. l. 639a1-12. nota ad 639a4) julgara natural aproximar a �������. a outra. uma certa �������: “Compete. 2. ibidem. 1962. 2. E a filosofia distingue-se da dialética.132 constituindo uma verdadeira indagação metódica sobre as proposições em geral133 e sendo. em oposição à competência especializada do homem de ciência.VIII. Principiando por definir o escopo do tratado e distinguir o silogismo dialético.. Cf. Ret. 11. portanto. 9.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles silogística é dialético”. 14. todos esses caracteres. Tóp. Sof. 3. 137 Cf. Tóp. nessa medida. “universalidade. Sof.143 vimo-los igualmente pertencentes à dialética aristotélica. que concerne tão-somente a um determinado domínio. Anim.131 exercendo sua competência sobre todo silogismo. caráter formal. I. ibidem. 100a18-20. 1. 172a11 seg. Cf. ocupando o mesmo domínio universal e comum que é o da filosofia primeira. 11. 1. Ibidem. essencialmente.134 tem a dialética (como indubitavelmente a tem também a mesma sofística) a mesma universalidade que a filosofia ou ciência do ser: se podem os dialéticos discutir sobre todas as coisas. no que Aubenque o seguiu (cf. 1355b16-21. 172b5-8.137 Diremos. cujo estudo compete ao filósofo. ibidem. como esses dois últimos textos implicam. então. l’impossibilité. I. E. com.25. mas de fato desconhece. com. I. por assim dizer. Le problème de l’être. IV.. eis o que constitui o conteúdo precípuo dos Tópicos de Aristóteles. ao homem cultivado (�������������). de modo pertinente. 1004b20: ���������������������������. com todos os ramos do saber. Seg. seu livro nono e último e algo como um apêndice. também. 2. 1.I. cf. La fonction critique est radicalement distinguée par Aristote de la compétence. é prova e exame no que respeita àquelas mesmas coisas que a filosofia conhece e que a sofística. com efeito. Ref. Ref.. 1. ser capaz de julgar. 2.2 e n. da dialética. 139 Cf. 6-10. com. Ret. que a dialética. 128 129 130 131 princípio do Tratado das Partes dos Animais. l. 164b2-4: ������������������������������������������������� Cf.141 Tal é. Sof.2 e n. 11. 1355b25 seg. 136 Cf. Le problème de l’être. sabedoria meramente aparente. aquela cultura geral de que nos fala o Ref.105. 172a39-b1. Aristote philosophe de la vie. 140 141 142 143 Cf. enfim le privilège synoptique est rétiré au savant pour être restitué à l’homme qu’aucun savoir n’enferme dans un rapport particulier à l’être” (ibidem). �. 360 361 . I. 77a29. l. 4-6. 11. 135 Cf.135 não é se não porque “é comum a todas as coisas o ser”136 e porque os “comuns” de que o dialético se serve são propriedades do ser enquanto ser.. 31-2. 15-22. capaz de compreender as artimanhas das refutações sofísticas e o modo de produção dos raciocínios reais ou aparentes. 1355a8-9. 1. do qual vai fundamentalmente ocupar-se. tal como a retórica. l.142 Ora. 132 Cf. 1355b8-9. o dialético tem a mesma ������� que o argumentador sofístico. p. I.

3 (o capítulo inteiro). 1 e 2. Bonitz. o filósofo. em seguida. ibidem. proposição dialética156 e problema dialético. 160 Sobre os diferentes usos aristotélicos do termo �������.162 154 Cf. n. cf.I.I. 4. 2. 362 363 .151). ���������� �����������).I. seguirem-se linhas distintas de pesquisa para os diferentes “predicáveis”. exame do semelhante). se propostas na forma negativa. No restante do capítulo (102b35-103a5). 12. cf.I. capacidade de distinguir as múltiplas significações de cada termo. mostrando-se como é Cf. 22-5. tomaria para designar o conjunto da obra “lógica” de Aristóteles. como uma questão de ordem prática ou teórica. Les Topiques d’Aristote et la Dialectique Platonicienne. definindo-se e exemplificando-se a primeira. 5. nessa obra. Tóp. cap. Tóp. podendo significar qualquer uma delas. Aristóteles explica as razões para.153 Justifica-se a classificação das proposições e problemas segundo os quatro “predicáveis”. proposições a serem provadas. Tóp.154 Relembra-se a doutrina das categorias. (a) Distinguem-se.I. Tóp.159). 104b1-2). isto é. as proposições (���������. definição e classificação das proposições e problemas dialéticos147 para. explicando-se que toda proposição e todo problema – e toda proposição pode “problematizar-se” – concernem a uma definição (����) ou a um próprio (�����) ou a um gênero (�����) ou a um acidente (����������) e que toda argumentação dialética diz portanto respeito à atribuição de um desses “predicáveis” a um sujeito. 151-62). também. Tóp. em resumo. 161 Tóp. 1. 162 Cf. Tóp. após enumerar e explicar as utilidades da dialética145 e afirmar o desejo de proceder de modo metódico. 13. 12-5. descoberta das diferenças.I. cf. p. 6. 10. Tóp.160 “por meio dos quais disporemos dos silogismos em abundância”. 7. de que ainda não se falara. para indicar que as quatro formas de atribuição apontadas se distribuem segundo as dez categorias. 8.. mostrando-se como os diferentes “predicáveis” configuram outras tantas significações da identidade. n.127-39. as que lhes são contrárias. n. as considerações de De Pater (cf. ��������������. 11. Cf.I. reconhecem-se duas formas de raciocínio dialético: a indução (�������) e o silogismo.I.IV. Cf. p. Tóp.521a50 seg. ética ou “física”.1 e n. seguindo os comentadores gregos. VI. Cf. Cf. não constituir-se um método único de investigação mas. Index. 4-11. ibidem. tendo distinguido (b) as formas de raciocínio dialético. Cf. 105a21-2: ��’������������������������������. acima. 159 Cf.155 Definem-se. E não somente as proposições interrogativas aceitas (�������) são entendidas como proposições dialéticas (cf. para os quais se postula o assentimento do interlocutor) e os problemas (����������. Tóp. quantas opiniões se conformam às técnicas e disciplinas constituídas..157 Por outro lado (b). cf. segundo o exemplo de outras artes já constituídas. cada um deles151 e evidencia-se como as indagações sobre os três últimos “predicáveis” podem vir a integrar funcionalmente a indagação sobre a definição à qual se amoldam. Tóp. Cf.146 passa (a) ao estudo. Leiam-se. em seguida. apesar dessa redução possível de toda indagação à problemática da definição. definira-se o silogismo já no primeiro capítulo do tratado.I. 13-8. o conteúdo e as divisões do livro I dos Tópicos. e. acima. 12.129) sobre o uso platônico do termo. 153 Cf. ao contrário. O resto do capítulo consagra-se a exemplificar e justificar essa extensão da noção de proposição dialética.278 do cap. que constitui um grande passo para o estudo da estrutura e significação dos Tópicos (cf. 104a8-11. ibidem. Tóp.152 Estudam-se os vários sentidos do “mesmo” (������).I. consagra devidamente o autor grande importância ao estudo dos “instrumentos” dialéticos (cf. ibid.I. para atingir o fim proposto. com.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles das outras formas de silogismo. Cf.148 empreender (c) o estudo dos “instrumentos” (������) da argumentação dialética149 – tais são.158 Os seis últimos capítulos do livro I159 são consagrados (c) a uma explanação geral sobre os “instrumentos” (������) dialéticos..I. finalmente. Sobre o sentido dialético originário do próprio termo ��������. p.I.161 Dizendo-nos que os “instrumentos” são em número de quatro (aquisição de proposições.I. l. p. l. objetos da indagação dialética. que a tradição. 13-8. 100a25 seg. Com efeito.106. 155 Cf. Tóp. 158 Cf. O problema é definido como “um objeto de pesquisa que contribui seja para escolher e evitar seja para a verdade e o conhecimento” (ibidem. 157 Cf. assim. 102b27-35. Tóp. Tóp. part.I. 1965.I.150 Define-se. 145 146 147 148 149 150 151 152 exaustiva. Tóp. Tóp.I. finalmente. pontos de partida da argumentação.118 deste capítulo). 156 Cf. 9. chamando a atenção para o pouco interesse que sempre despertou nos estudiosos e para a verdadeira causa desse fato: “La raison historique de l’oubli des instruments semble être en effet que leur sens méthodologique a échappé aux commentateurs des Topiques” (ibidem. nele.I. acima. como também as que são semelhantes às aceitas.

cf.I.167 O último capítulo diz respeito. élaborée à titre d’exemple” (Les Topiques d’Aristote. Met.I. Aristóteles tem a retórica por uma ramificação da dialética.164 mostra-nos que linhas de argumentação utilizar para detectar a homonímia.. 3.I. 103 15-6. VII. 987b32) contou 337: 103 para o acidente. 169 Tóp. 8. ibidem. pela sua intenção (cf. a definição. encontramos uma como definição. anunciam-nos as últimas linhas do capítulo: “Os instrumentos. Cf.129-39). VI. 33-5).230). 18..I. p. por meio dos quais se produzem os silogismos são esses. acima.. de fato. investigar diferenças e semelhanças entre as coisas: a busca das diferenças éútil. então. 25 seg. 108a21: ���’�����������������������������������.168 Assim. de que se acabou de falar. indicando-se o gênero e as diferenças.. em seguida. acima.170-228) um bom estudo sistemático e geral dos “lugares” da dialética aristotélica. 173 Cf. que se recorra a coleções de proposições registradas por escrito. 18. p.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles mostra-nos o filósofo como todos eles – e não apenas o primeiro – conduzem. também para cometer paralogismos. Tóp. 167 Cf. de modo semelhante. p. a l. Tóp. 4. o procedimento a seguir com cada um deles.I. 1037b29-30 etc. Não nos explicam os Tópicos o que se deve entender por “lugar”. 108b7 seg. o que o faz em aparência é sofístico”. ibidem. cf. finalmente. ibidem.173 sobretudo. à utilidade e função de cada um dos “instrumentos” na pesquisa dialética. Ref.. tendo em vista os fins propostos: expõe-nos como encontrar e classificar. 15. estudando como se efetua a pesquisa pelos “lugares” e pelos “instrumentos” (cf. Tóp. 1. Tóp. 16. 170 Sobre as razões dessa equivocidade inata da linguagem. Tóp. os lugares (�����) para os quais são úteis as coisas mencionadas são os que seguem”. 165a16. Ref. assim como. ibidem.176 Terminada a exposição dos “instrumentos”. 166 Cf. 1403a16). cf. 141b25-7. 32-3. mediante o discernimento das diferenças apropriadas. 175 Cf. portanto. ainda que não exaustivo. 178 Como diz De Pater: “Les Topiques ne présentent pas un amas de lieux. 171 Cf. 105b12-3. entretanto. 168 Cf. 19 seg. Sof. 18. prática de que se guardará.134 deste capítulo). corrigindo-lhe a ambigüidade natural. estes últimos “sont des facultés ou des actions de recherche pour trouver ou pour multiplier les données” (ibidem. Tóp..I. de modo semelhante à formulação de proposições. para a denúncia das falsas identidades) e para o conhecimento do que é cada coisa. os livros seguintes dos Tópicos constituem um inventário extenso. n. também. 17. 26. mediante uma busca metódica e ordenada. gênero (livro IV). Tóp. 14. l.. que não diferem a dialética e a sofística pela sua �������. 12. 18. Ref. 176 Cf. ele visa clarificar a linguagem e convertêla em instrumento adequado da pesquisa. 1965. 180 Tricot (cf. designa evidentemente os instrumentos. Constrói-se. 165 Cf.165 explica-nos onde e como proceder à busca das diferenças166 e das semelhanças. diz o filósofo. ����������� (“as coisas mencionadas”. ibidem. o exame das múltiplas significações dos termos introduz clareza na investigação e a garantia de que o raciocínio se construirá “conforme ao próprio objeto e não segundo o nome”. A. 172 Cf. Sof. p. 364 365 . E sabemos. 11. Poderia o tópico empregar-se.. por não ser apropriada à sua arte (cf. graças à descoberta do elemento genérico comum que integra o discurso do “o que é”. próprio (livro V). Z. e razoavelmente ordenado178 dos tópicos ou “lugares” apropriados a uma investigação crítica sobre a atribuição dos diferentes “predicáveis”: acidente (livros II e III). 164 Cf. bem insatisfatória aliás. cf. 108a38 seg. Tóp. o dialético. Como sabemos. ou seja: para a construção da definição ou discurso da essência de cada coisa.148). com efeito. 1. 165a6-13. Nessa obra encontramos (cf. as proposições que se utilizarão na argumentação. 179 Somente na Retórica (cf. II.171 Assegurado nosso domínio sobre a ������� dos nomes. para a construção de silogismos sobre “o mesmo 163 Cf.I.I. 153b15-8. com efeito. 177 Ibidem.169 isto é. tiradas da opinião comum ou das obras filosóficas. l. 108a26 seg.I. 18. 81 para o gênero. do “lugar” ou tópico retórico: “aquilo sobre que incidem muitos entimemes”. 171b67: “Pois o que considera os ‘comuns’ segundo o objeto (��������������) é dialético.174 por sua vez. inclusive.119 deste capítulo. mais une méthode dynamique. também.179 mas a consideração atenta dos exemplos inumeráveis180 que o tratado fornece permite-nos compreen174 Cf. definição (livros VI e VII). nota ad Met. l. a construção de definições. a busca das semelhanças175 permitir-nos-á a formulação de raciocínios indutivos e de silogismos hipotéticos. n.170 mas será também um antídoto contra os paralogismos que a posição adversária eventualmente nos oponha. Sof. O filósofo recomenda.163 Estuda. mas pela ����������. 69 para o próprio e 84 para as definições. 1965. b4-6. 6.172 cumpre.177 E. Como mostrou De Pater. Les Topiques d’Aristote. e o outro” (capacita-nos. 33).

por certo. simplificando-se.. como os diferentes tópicos encontram sua fundamentação última – de que se prescinde. 11.. por ela orientados. também. 34. por assim dizer. p. como responder e como criticar uma argumentação oposta.186 isto é. que o pro186 Sobre o sentido geral desses termos (que o filósofo repete com grande freqüência ao longo de todo o tratado. “argumentar”. em oposição ao caráter “ontoformal” dos tópicos “comuns”: tais são os tópicos do preferível em Tóp. com efeito. Ref. dir-se-ão também “lugares” as mesmas “leis” ou fórmulas. Em Tóp. É o próprio Aristóteles. 11. Formulados os tópicos. A título de esclarecimento. 183 Cf.159 do capítulo I. com efeito. assim como os verbos correspondentes ������������ (e ��������) e �������������.120. acima.2 e n. 127b5-7) um exemplo simples de “lu. verificar como se pode construir o silogismo dialético segundo os esquemas descritos nos Primeiros Analíticos. 29-30. a tese em exame. 104a8 seg. procedendo à recapitulação de todo o itinerário seguido – trata-se. para mostrar. E é esse mesmo caráter de arte de exame e prova. dotadas de conteúdo preciso. acima.49. graças aos quais poderemos facilmente argumentar (����������) sobre cada um dos problemas. Ref. ibidem. 34. como se vê. 4 seg. Dispondo dessa “lei”.II. 136a6.. a partir das proposições mais aceitas possíveis pela opinião). vejam-se exemplos em Tóp. graças àquelas regras que a assunção das maiores autoriza). suficientemente enumerados”. quando nos cabe a função de interrogado. foram. o último capítulo das Refutações. se não é sinônimo o gênero da espécie.VIII. também. Faz-nos. formularemos esse resultado como a premissa menor de um silogismo dialético cuja maior será aquela mesma “lei”: “Todo gênero atribuise à sua espécie em sinonímia. 111b12. por outro lado. contrariamente ao que pretende De Pater (cf. Les Topiques d’Aristote. pelo qual a dialética se distingue.I. que nos diz serem os gêneros sinônimos de todas as suas espécies. 100a20. Ref.. 188 Cf.2 e n. 172a29 seg.III. VI.184 mas como peirástica. vai descobri-las. 184 Cf..”). desse modo.. com efeito. 162a16. Sof. 10. considerar-se como o livro nono e último dos Tópicos. a “lógica da filosofia”.189 As Refutações Sofísticas podem. se.345). por seu lado. também.2.110. 182 Como sabemos ser o caráter de todas as proposições dialéticas. G não é gênero de sua (pretensa) espécie (E)”. já que seu conhecimento sabemos concernir àquele domínio universal sobre que se exerce também a dialética. onde Aristóteles nos explica. que a dialética utilizará como premissas maiores de seus silogismos (as menores. com efeito. VI.121. Weidmann. ibidem. assim. ainda que não sejam poucos os que servem. aos quais se acrescenta a indicação do estudo dos paralogismos (efetuado pelas Refutações)192 –. ou não..II. ainda.VIII. simplesmente. 2. etc. VI. em seguida. Sof. para estabelecê-las. 115a26. 151b3 etc. 189 Cf. 185 Cf. VI. também. 1.”) autorizada por uma proposição aceita de caráter geral e “legal” (“o gênero atribui-se. mas fiel. 2.. com.144 e n. “construtivos” (���������������). VI. de um tópico para o exame e eventual refutação da atribuição. a razão da predominância dos argumentos “destrutivos”. 1-4. 1965. acima. por exemplo.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles der que se trata de regras para a pesquisa dos “predicáveis” extraídas da aceitação de certas “leis” ou fórmulas de caráter geral. Met. que se nos apresenta como uma regra (“examinar. precisamente. O verbo ���������� (literalmente: “pôr a mão em”) tem o significado dialético de “argumentar contra uma tese”. 2. então. G não se atribui à sua (pretensa) espécie (E) em sinonímia. 14. as premissas menores que se tiverem encontrado – parecem concretizar aqueles ������ou “comuns” de que nos falam as Refutações Sofísticas183 e cujo estudo científico compete à filosofia primeira. o gênero atribui-se a todas as espécies em sinonímia”. de um predicado dado G a uma espécie dada E. quem nos autoriza a assim incorporá-las ao seu tratado sobre os “lugares” da argumentação. cit. também. de um resumo sucinto.187 o livro VIII do tratado mostra-nos como ordenar a argumentação e efetuar a interrogação dialética. Tóp.. se descobrirmos.IV. apud De Pater. 187 Leiam-se as linhas finais de Tóp. 191 Cf.. segundo a qual “Von bestimmten Gesetzen des Schlusses weiss ueberhaupt die Topik nichts” (Die Entwicklung der aristotelischen Logik und Rhetorik.188 indicanos. no detalhe. II. cf. 183a34 seg. p.. Trata-se. Os Tópicos encerram. loc.. Tóp. 1929.. por outro lado. b8-15. A análise do exemplo dado permite-nos. n. V. como gênero. estudando como se produzem e como se podem resolver as refutações e demais argumentos falaciosos que empregam sofistas e quantos de algum modo se lhes podem assemelhar. �. Tóp. Advirta-se. ria dos tópicos expostos no tratado a que dão nome são “destrutivos” (��������������) e não. 155a37-8): “Os tópicos. Sof. 192 Cf. regras e fórmulas probatórias de caráter mais especializado. 2.). E refutamos. expresso nas primeiras linhas dos Tópicos191 (o de encontrar uma faculdade de raciocinar sobre todo problema proposto. após resumir o seu conteúdo. tomemos aos Tópicos (cf. acima.190 referese ao propósito inicial.. cf.181 Tais fórmulas gerais. 183a27-34.. 5. donde. cf. dos diversos temas abordados nos Tópicos. o silogismo dialético é dito um epiqueirema (����������). também.128 seg. com. 1. cf.. 14. 190 Cf. isto é. na prática da argumentação – na ciência do ser enquanto ser. 11. que não há uma tal sinonímia.. então. quando dá razão à interpretação de Solmsen.185 que nos explica por que a maio181 E. gar”: “Examinar também. VI. que os Tópicos também contêm um certo número de tópicos “próprios”.2 e n.VII (5. 151b23 etc. 4. servem para refutar as atribuições incorretas dos “predicáveis”. 366 367 . Tóp. assumidas como ������182 – como o serão. 1-3. falta um estudo que mostre. 1004b17-26. Berlin. de uma sinonímia entre G e E. 108b34 seg. pesquisaremos no sentido de estabelecer a existência.2 e n. 6. acima.

22.201 concerne fundamentalmente à pesquisa dos princípios científicos. VIII e Refutações). p. de modo a poder-se dizer que é “o fim principal da dialética . uma introdução (o livro I). 16 seg.197 2. 196 Como pretenderam Maier. 202 De Pater. que. em cujo final.159 do capítulo I). cap. 1939.. tudo faz-nos crer que Aristóteles leva a sério a doutrina da dialética que neles explicita e que a concebe como instrumento metodológico necessário e suficiente para levar a cabo a missão precípua que. p. que o silogismo não constitui um procedimento característico do método dialético. exprimem próprios ou definições. 201 Cf. não pode valer. Observation et expérience chez Aristote.V.4 Os Tópicos e a metodologia da definição Ora.3. acima. sobretudo nos livros centrais do tratado que expõem os diferentes tópicos numa infindável enumeração. recapitulando o conjunto da obra. n.. n. Aristóteles.151 seg. se relembramos que são princípios das ciências tanto as definições que se assumem. qual seja a de conduzir-nos ao conhecimento dos princípios das ciências. por vezes fastidiosa. é aceito terem sido redigidos os Tópicos anteriormente à maioria das obras do Corpus.. então.239. Cf. já nisso se teria ponderável argumento a confirmar a importância doutrinária desse tratado no conjunto da obra aristotélica e no plano geral de seu sistema. porque premissas necessárias que exprimem atributos por si. 2. de um modo geral.194 É legítimo lamentar que Aristóteles não tenha levado essa sistematização ainda mais longe. acima. VI. que estas últimas proposições. De qualquer modo. por certo.3 e n. após mostrar que toda argumentação dialética concerne a um dos quatro “predicáveis”. 195 Cf. Por isso mesmo. se permanecemos 193 Cf. por exemplo (cf.. cf. 2.. Le Blond. e cap. 5. precisamente..90. Le Blond e Aubenque.. part. cf.. p.. acima..1. n. talvez real. Se se pudesse comprovar efetivamente o caráter tardio da composição de certas partes dos Tópicos. diz Le Blond (cf. a partir do fato de não encontrar-se o termo ����������� nos livros II-VII dos Tópicos (onde se expõem e desenvolvem. E todo o tratado organiza-se em função de uma pesquisa da definição. VI. ibidem.193 E o filósofo manifesta a sua consciência de ter inovado. que os próprios se subdividem em próprios em sentido estrito e definições. acima.120.1 e n. III. estuda e sistematiza o autor os “lugares”. já inspirado por novas concepções. Bourgey.196 Com efeito. 5. 1. cf. o conhecimento da essência e de sua fórmula.202 Vimos. 15-16: �������������������������������������������. aliás. a definição”. toda ela voltada para a problemática da atribuição dos “predicáveis”. cf. 194 Cf. 1965. também. Logique et méthode. Lembre-se.. se congratulasse de ter cumprido um programa e criado uma nova disciplina. para um trabalho antigo e portanto superado. 184b1-3. desde o início do tratado. aliás.2. nas teses iniciais por que as cadeias demonstrativas principiam quanto todas aquelas proposições imediatas cuja contínua introdução é exigida para o desenvolvimento da demonstração. p. no plano da análise interna dos Tópicos.199 por isso mesmo atribuem próprios a seus respectivos sujeitos200 e que todos os princípios. explicava-nos como tanto a pesquisa do acidente como a do gênero e a do próprio Como acima vimos. demonstrar. também.. Isso parece. por outro lado. conjugadas com hipóteses.. ibidem. devendo-se seu aparecimento nos livros mencionados à sua redação tardia. os “lugares”). dando início a uma sistematização da arte de raciocinar que ninguém antes dele empreendera..195 E seria errôneo.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles grama proposto foi suficientemente cumprido. Por isso mesmo. Cf.3. VI. como argumento contra a unidade da obra a possibilidade. n. ibidem. Mas quanto expusemos da ordem interna dos Tópicos é suficiente para mostrar como eles constituem uma obra organicamente articulada e possuidora de uma estrutura razoavelmente construída e perfeitamente definível. uma complementação (o livro VIII) e um apêndice (as Refutações). �������. torna-se-nos manifesto que a argumentação dialética codificada nos Tópicos. desde o começo.30).II. E sabemos. portanto.. l..1 a III.2. l. 1939...107 a 108. de terem sido escritos posteriormente àqueles onde se enumeram os tópicos os livros I e VIII e as Refutações Sofísticas. Les Topiques d’Aristote. Cf. III. num capítulo a que dá o título de: “Les procédés définitionnels”. 197 198 199 200 368 369 . p. acima.28. Logique et méthode. 1. ibidem.2. seria muito estranho que se dispusesse Aristóteles a redigir tardiamente. L.150.. querer daí inferir uma qualquer ambigüidade doutrinária. que.198 se recordamos. definindo e exemplificando cada um deles. n. expostos nos Tópicos. lhe confere. p. acima. enquanto aparece nos outros (I.

Cf. a quarta.1 e n. que proporcionam. 101a35-6. 2. Aristóteles estabelece uma distinção entre o epiqueirema. opondo tese a tese. as três primeiras partes aí enunciadas dizem respeito.215 Os raciocínios dialéticos podem definir-se como argumentos “silogísticos de contradição.208 Vimos como o filósofo atribui à dialética. no que respeita aos princípios. Tóp.3 e n.76) como a doutrina da definição exposta no livro Z da Metafísica não difere da que encontramos nos Tópicos. aos Segundos Analíticos. ao caráter próprio do predicado.173 a 176. escolher corretamente uma delas”. E o mesmo autor mostra (cf. Cf. a terceira. aos tópicos do acidente. VI. 1965. relativamente ao sujeito. Tóp. ibidem. principiando sua exposição dos tópicos do gênero. VI.I. silogismo dialético. com.108 seg. 139a24 seg.VIII.. 10. portanto.1 e n.118 e 119.VIII.. de modo eminente. 165b3-4.I.1 e n. o verdadeiro e o falso”. p. 163a36-7. iniciando seu estudo sobre os tópicos da definição. Cf. 218 Ibidem. Tóp. p. Ref. 1. b7-9.218 209 210 211 212 213 214 215 216 Cf.2. 14. à inclusão do sujeito em seu gênero apropriado. 6.I. 14. 163b9-12. Cf. também as mesmas opiniões professadas pelos sábios e filósofos214 e aquelas que se conformam aos resultados das disciplinas e artes descobertas. Embora.233. 104a14-5. cf. então.107. 11.209 Diz-nos que a dialética é útil para as ciências “filosóficas” porque. ou que refuta uma tese oposta (sobre a etimologia de ����������. n. à primeira vista e a propósito de alguns pontos particulares. anterioridade absoluta por que se caracterizam as proposições primeiras e imediatas a cuja apreensão deve conduzir-nos. 2. aos livros Z e H da Metafísica. ao Da Alma e ao livro I das Partes dos Animais.205 Finalmente. 120b12-3.206 diz-nos que tem cinco partes o tratado sobre as definições. perceberemos mais facilmente.150.3 e n. provando o “sim” e o “não”. à definição propriamente dita. Sof... acima.152.107. somente “resta. 217 Cf. acrescenta o filósofo. Ora. 162a16-8. 105b12 seg. também. o terceiro e o quarto “instrumentos” revelaram-se-nos. 1. acima. acima. de modo explícito.I. VI.204 E. em cada caso. que nos indica ter concebido sua obra sobre a argumentação dialética como um tratado sobre a metodologia da definição..217 após um tal exame.211 buscando “demonstrar”. os Tópicos não formulem toda a metodologia da definição e se deva.212 transformando em problemas proposições aceitas em que se apóia. a quinta.207 2. 2. à formulação correta da definição. e o aporema. Les Topiques d’Aristote. É o próprio autor dos Tópicos. com.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles podiam considerar-se como momentos da pesquisa sobre a definição. l. a afirmar que o surgimento da verdade. Tóp..VI. 33-7. o aporema é o raciocínio dialético contraditório. com efeito. Tóp.216 cuja eficácia instrumental para o conhecimento e para a filosofia não se dissocia daquela capacidade. levando a uma aporia. Tóp. apresenta-os o filósofo. de uma visão sinóptica das conseqüências que resultam de hipóteses contraditórias. deve surgir da prática de um método diaporemático..I. como diretamente úteis para a construção do discurso da essência de cada coisa. silogismo de contradição. Cf. servindo-se de seus “instrumentos” e “lugares”.79-80. acima. VI. juntamente com os do próprio. 11-2. na medida em que prova uma conclusão que contradiz quer uma premissa aceita quer uma proposição que resulta de um outro argumento dialético. pareceria constituir uma divergência relevante. 370 371 . “no que concerne a toda tese..IV. o momento de voltarmos ao texto dos Tópicos que nos fala das diferentes utilidades do método dialético. VI. a primeira respeitando à validade da atribuição de um predicado a um sujeito nomeado. Cf.187 deste capítulo).5 A dialética e a “visão” dos princípios É chegado. por certo. 2. restando-lhe apenas tratar das duas restantes. através do qual. Tóp.1 e n. 4. Tóp. n. VI. acima. que prova e examina. O epiqueirema é o raciocínio dialético que prova simplesmente uma tese. “sendo capazes de percorrer as aporias (����������) em ambos os sentidos. Tóp. 208 Cf. 2. 2. 2. para reconstruí-la.203 por outro lado. v. malgrado a precariedade reconhecida de seu ponto de partida – a simples ���� – e apesar da 203 204 205 206 207 Cf. acima.. recorrer. cf. ibidem. 14.. a partir de premissas aceitas”. 2. a competência para a aquisição dos princípios das ciências. tanto que as coisas são assim como que não são assim”. a dialética raciocina contraditoriamente.I..3 e n. respectivamente. acima. Em Tóp. Tóp. como diz com razão De Pater. 101b35-6. a segunda. assim. Cf.210 O que equivale. apesar do que. como “elementos dos que concernem à definição”. VI. acima. do gênero e do próprio. argumento a argumento.213 utilizando na sua argumentação crítica. também. cf. 2.VIII.

Perfeita e acabada em si mesma.4. ou não. acima. O conhecimento dos princípios emerge da argumentação dialética sem ser engendrado por ela. l. 372 373 . acima. contraditório e crítico. ibidem. propõe-se como instrumento de saber efetivo e científico. IV. em lugar da tradução mais freqüente “espécie”. não de verdades indubitáveis. O termo “idéias” (����). acima. tal procedimento. cap.. as características que os Analíticos atribuem à natureza dos princípios científicos.221 não nos fica menos evidente. a unidade coerente de uma só doutrina em que a 223 É como interpretamos a importante passagem de Ret. com efeito. os princípios conhecem-se graças a ela.. Ref. se demonstrasse. então. que tomamos (cf. é introduzido algumas linhas adiante. vai o dialético. nesse sentido.III. mas de premissas aceitas pela opinião dos homens. na passagem há pouco citada. VI. um método preliminar de argumentação. apropriando cada vez mais sua argumentação à natureza. acima. do princípio buscado. por parte de uma argumentação dialética. inteligência dos princípios. p. 172a12-3: o dialético não é �����������������.222 “cercando-o” aos poucos. ela respeita.. 11. as funções da dialética platônica. 1965. finalmente. fundamentar os princípios de que parte o conhecimento científico e. produzindo uma ciência outra que não a dialética: uma vez encontrados os princípios.5. plenamente compatível com a utilização de um método que os busca – ou busca estabelecer as condições para que se dê a sua apreensão –. em cada caso. 4. e sua mesma indemonstrabilidade é. as outras obras do filósofo. que laboriosamente “prepara o terreno” para uma visão posterior cujo advento ele terá tornado possível. destarte. de modo semelhante para o dialético e para o retórico. promete-nos o filósofo. legitimá-lo. indução e dialética? Deveremos apontar para uma multiplicidade de soluções divergentes e conflitantes. Se a dialética. 30-1. n. ao invés de tomar-se como momento da pesquisa.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles Como resultado de um tal procedimento. 17-20: a dialética é interrogativa mas. não mais se move na dialética. diz-se com razão.. Sobre a distinção entre tópico “comum” e tópico “próprio”. n. 11.. se é próprio à dialética raciocinar �������. Sof. no aristotelismo. 224 Cf. 219 Cf. naquele tratado explicitada. 4. porém.219 se não é possível ao conhecimento científico construir-se sobre os “comuns” que a dialética utiliza e se é certo que se tornaria sofística qualquer pretensão à cientificidade. onde Aristóteles expõe como.220 se não lhe cabe.169 deste capítulo. agora. leia-se obom estudo de De Pater em Les Topiques d’Aristote. alguma luz sobre o difícil e célebre último capítulo dos Analíticos cujo exame nos brindou com tantas aporias:224 como conciliar. é a esse autor.. superando-a e evoluindo para uma diferente concepção filosófica. sob cuja inspiração teria reelaborado toda a sua doutrina do processo de aquisição dos princípios científicos? Em verdade. uma visão mais fácil da verdade que buscamos: “perceberemos (����������) mais facilmente. assim. p. E tratar-se-á sobretudo. o verdadeiro e o falso”. que. então. IV.124) a tradução de �����. escolhendo cada vez melhor suas premissas e substituindo progressivamente tópicos “próprios” ou “idéias” (����) aos tópicos “comuns”. sob diferentes prismas.117-27. não demonstra coisa alguma.3. Lembremos. sobre a mesma questão. ainda que não por ela. com quantas informações nos prestam. pois. porque nenhuma ciência ou disciplina recebeu em herança. sofístico. lógica e coerente.141. I. partindo. insensivelmente. como poderia interrogar? 220 Cf. teremos.4 e VI. Todo nosso problema reside. da aquisição dos princípios da ciência. 1. de descobrir. para designar os tópicos “próprios”. o uso dos tópicos “próprios” leva finalmente a argumentação a adentrar-se no domínio de uma ciência particular e a “encontrar” seus princípios. nos Tópicos e na Retórica. como pode contribuir a dialética para a aquisição dos princípios da ciência: é que ela é uma propedêutica à ciência. que nos preocupa. a Retórica – fornecem ao problema. 1358a17-26. acima. Considerando os “comuns” segundo o objeto da pesquisa. que se vai descobrindo. como vimos. aliás. 221 Cf. 171b6-7. se a leitura dos Tópicos lança. por “idéia”. cf. Ref. encontraremos que os diferentes textos exprimem. 222 Cf. quando. ibidem. mas tem instaurada a ciência cujos princípios agora possui. em decidir da compatibilidade ou eventual incompatibilidade dessa doutrina dialética do conhecimento dos princípios. 1. 2. Sof. cf. a testemunhar da indecisão do filósofo e da magnitude do problema? Ou terá o filósofo abandonado uma primeira fase de seu pensamento – todos ou quase todos acordam em considerar os Tópicos uma obra da primeira fase –.223 Tal é a solução que os Tópicos – e conjuntamente com eles.. se nos é lícito desde já antecipar nossos resultados.

põe em prática na exposição e resolução dos problemas específicos que aborda nas suas obras científicas. Da Geração e Perecimento e Da Alma. com. in Aristote et les problèmes de méthode. 1965. p. sição de cada uma daquelas premissas e que. que se apresentam ao leitor as mais importantes obras em que o filósofo desenvolve sua doutrina: a Física. entre ciência e pesquisa. 1076a39-b1. a um levantamento geral das aporias e problemas a que a investigação sobre o ser deverá trazer resposta. Em verdade.. “Sur la notion aristotélicienne d’aporie”. E de tal modo se confirma a doutrina dos Tópicos nos tratados aristotélicos que se pode dizer. por excelência.. por parte de quem conhece a doutrina aristotélica da ciência. o desenvolvimento da argumentação tópica. 2. não apenas facilmente se identificam. 1. com efeito. falta ainda um estudo da metodologia aristotélica da pesquisa que mostre. Met. Mostrar como isso se dá. Met. neste momento. 229 Cf. Ora. acima.. 228 Cf. entre o saber alcançado e definitivamente estabelecido e o saber em constituição.3-19. prepara a emergência das condições de possibilidade do silogismo demonstrativo. VI. apud Le Blond. em todos aqueles tratados. anteriores e mais conhecidas que garantem sua mesma cientificidade e sua adequação à ordem externa por que as coisas se articulam. expondo-nos os argumentos que militam a favor de e contra as soluções opostas e conflitantes.45): “A peu près partout les principes sont établis dialectiquement”. p. acima. I.190 seg. Mas já sabemos que tal fato em nada representa uma contradição ou ambigüidade qualquer da doutrina. com C. não se contenta o filósofo com expor os resultados obtidos pelo conhecimento científico. 1961. nos diferentes tratados. consulte-se. nos propomos. pode constantemente surpreender-se a utilização do raciocínio diaporemático que vimos constituir. Durand. M. simplesmente.5 e n. os diferentes “lugares” ou tópicos226 mas.. em seus vários capítulos.1 O método dialético nos tratados Uma das constatações mais imediatas. Sobre a significação e o emprego do método “diaporemático” em Aristóteles. como desde há muito vimos. em face da investigação que se empreende. nos diferentes ramos do saber. 10. os grandes tratados de Aristóteles...227 Todo um livro. 2. tal como a expõem os Segundos Analíticos. entre a teoria ideal da ciência e sua prática efetiva: trata-se. 227 Cf. 995a24-b4.79-80): “Ceux qui considèrent les Topiques comme une étape juvénile d’Aristote. 2. p. ne mentionnent pas les nombreuses applications de ce livre dans la Métaphysique.. ao contrário do que poderíamos esperar. 1939. E o conhecimento dos Tópicos e da concepção aristotélica da dialética permitem-nos compreender que são os procedimentos dialéticos de pesquisa que Aristóteles.229 Começam por falar-nos da necessidade de discorrer primeiramente. 374 375 .7 e n. como se processa efetivamente. é a de que não se constroem. por isso mesmo. onde a argumentação se desenvolve conforme a quanto se expõe naquele tratado e onde. a ele refere-se o filósofo com a expressão ������������������� (“nos diaporemas”). aparentemente ao menos. Ao contrário. aliás. 4. os Tratados Do Céu. Logique et méthode. II.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles tópica e a analítica vêm encontrar seus devidos lugares. eis a tarefa final que. praticamente aplicados às questões em exame. Les Topiques d’Aristote. o livro �. em conformidade com ela. de Aubenque. B. também.225 da distinção. deduzindo rigorosamente suas conclusões a partir de princípios assumidos no ponto de partida como verdades indubitáveis e por si mesmas conhecíveis. 1086b15-6. o lento tatear do trabalho preliminar de pesquisa que antecede à aqui225 Cf. o método de que se serve a dialética como propedêutica ao conhecimento e aquisição dos princípios científicos. mostrando como decorrem silogisticamente das premissas indemonstráveis. Études sur Aristote. 3 A solução 3. nem uma oposição. Paris. Thurot (cf. Solmsen a signalé l’emploi des méthodes topiques dans la Physique et dans l’Éthique.228 As primeiras linhas desse livro são dedicadas a considerações gerais sobre a utilidade do método diaporemático.133. sobre as dificuldades que se devem em primeiro lugar 226 Como diz De Pater (cf. a Ética Nicomaquéia etc. que se poderia pretender natural. assim.. procedendo. a Metafísica. em detalhe.210 seg. da Metafísica. o que Aristóteles sempre − ou quase sempre − nos expõe são os meandros de sua investigação em marcha. estabelecida e proclamada pelo filósofo. não é sob a forma de rígidas cadeias de silogismos demonstrativos. é exclusivamente diaporemático. On peut étendre cela à pesque tous les autres écrits”. 1053b10. p..

no livro II 230 231 232 233 dos Segundos Analíticos. 1. “com efeito. cf. 1. os capítulos 3-7 do livro II dos Segundos Analíticos constituem um aprofundamento “diaporemático” do problema das relações entre a definição e a demonstração. terminada a exposição e estudo das aporias. a elaboração das questões que tenham sido por acaso omitidas. com. por exemplo. como se fossem partes em juízo.164). por outro lado.237 Assim. 3. Como então mostramos. acima. como nos diz a Ética Nicomaquéia. II. examinando-se “quais dessas coisas se dizem corretamente e quais. a natureza da alma. para dar apenas alguns exemplos. VII.5 e n. M. 2. argumentation et histoire de la philosophie chez Aristote”. o que se procurava. 995a28-9. fala-nos o filósofo da necessidade de retomar os resultados da análise feita. “com efeito. daqueles pontos em que porventura estejamos de acordo com eles. livremente caminhar (���������). 90a37-8: �������������������������������. 3. antes de nós. Ét. Recordemos. 93a1-2. em melhor situação para julgar quem ouviu todos os argumentos em conflito. o vácuo (cap. preparando laboriosamente a solução final.. 1076a12-5.8 virá trazer a solução definitiva. “historiando” o surgimento da noção de causa para 234 Cf. segundo aquele mesmo método.. por sua vez.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles discutir (���������������������������).234 E é. corretamente percorrer as aporias (����������) se queremos. III. nem mesmo se saberá se se encontrou. por outro lado. Met. V. demolir e abandonar.235 parte dessas opiniões conflitantes dever-se-á. 238 Cf. 376 377 . todo o livro I do tratado Da Alma é. assim. E está.116). cf.10-14) constroem as soluções de seus problemas (definições do lugar e do tempo. prova da inexistência do vácuo) mediante uma longa argumentação “diaporemática”. na grande maioria de suas obras. 2.232 e 233. com. cf. o caminho necessário que leva da aporia à euporiaporque. 3. incorretamente” (Seg. também V. a solução da aporia é descoberta”. Ét. Anal. 236 Cf. ibidem. sobre ele se debruçaram. assemelha-se aos que estão atados porque. utilizadas como momentos de uma argumentação contraditória. a ‘euporia’ subseqüente é solução das aporias que se levantaram preliminarmente”230 e é certo. Cf. V. também como procedimento exigido por esse método e nele inserto que recorre sempre o filósofo à “história” do pensamento filosófico. além de garantir-nos contra um tratamento inferior. p. V. Seg.231 A diaporia é. o livro I da Metafísica confirma a doutrina da causalidade exposta na Física. sobre o lugar (cap. Anal.232 Não é por outra razão que o exame dos grandes temas que abordam os tratados aristotélicos e a definição de seus objetos fundamentais são sempre precedidos pelo emprego do método dialético dos diaporemas. II. 237 Cf. de caráter dialético.. os estudos. também. Assim. VII. uma extensa discussão crítica. evitaremos.. que também não desdenha a teoria da ciência o emprego de argumentos meramente “lógicos”. Nic. o estudo das relações entre a demonstração e a definição. Da Alma. desenvolve-se diaporematicamente e. enquanto aquele permanece na aporia.238 Do mesmo modo. 412b5-6. que não se desatam ataduras que se desconhecem e que uma aporia no pensamento indica algo dessa mesma natureza do lado do objeto. 2. b2-4. 4. aliás. Met. in La Théorie de l’Argumentation. Nic.136 seg. em ambos os casos. assim. 1. com. “percorrendo primeiro as aporias que respeitam a essas questões” (Seg. tanto mais porque investigar sem percorrer as aporias (�������������������) é como não saber para onde se deve caminhar. 1146b6-7. ao qual o cap. E é o próprio Aristóteles quem explicitamente se serve da linguagem dialética. leia-se o excelente artigo de Guéroult.84.6-9) e o tempo (cap. no livro III da Física. V. não apenas o inventário das opiniões que outros professaram sobre essas questões mas. 2: “Aporias sobre a definição”. sobre o infinito (cap.236 Considerando quanto se disse sobre cada objeto que investigamos pelos que. acima. superando-as. 1146b7-8: �������������������������������������. a fim de poder assumir quanto de correto disseram e guardar-nos de incidir nos erros que cometeram. Anal. cf. acima. também.. o que implica. 3. propõe que se estude a possibilidade da redução da definição à demonstração. após discussão e exame. no livro IV. antes de determinar. preparando a definição aristotélica da mesma.4-7).1-5).431-49. subordinado ao título “Logique. 235 Sobre o significado dialético da “história” da filosofia em Aristóteles. fazendo comparecer ao debate dialético as opiniões dos predecessores.6 e n. de nossa parte. como uma simples leitura imediatamente o mostra. acima. II. obviamente. então.. que se propõe no início do livro II.2 e n. II. 1. é necessário percorrer e tomar conosco as opiniões de quantos sobre ela se pronunciaram. portanto. acima. cf.233 Tivemos. 91a12 e.1 e n. expor-nos às incorreções que cometeram. dialeticamente.. ao lado dos argumentos analíticos. a ocasião de ver que nem mesmo a doutrina aristotélica da ciência dispensa o uso de tal método: com efeito. Do mesmo modo procede o filósofo. B.7 e n. 3. é impossível progredir − eis por que se exige o exame prévio de todas as dificuldades. Impõe-se. Da Alma I. parte deverá ser conservada. também. ou não. 403b20-4. das opiniões dos predecessores sobre a alma. 8.

402b16-22. Seg. se formos capazes de explicar a totalidade.. o ponto de inflexão em que se consuma a inversão do processo de conhecimento. como arte da investigação e da pesquisa. 988a23.. conforme ao que se nos manifesta.. dialéticos afiguramse-nos necessariamente. era referir-se. à argumentação dialética mostrar como o conhecimento do “que” precede o do porquê. Com efeito. E dizer. por nós estudado nos capítulos anteriores. agora.3 e n.. 4. 10.. ao expor-nos que “parece não apenas ser útil conhecer o ‘o que é’ para o estudo das causas dos acidentes das essências..187.246 já que. acrescentando que definições de que não decorre o conheci- 378 379 . por natureza. II. que atua como propedêutica ao saber científico. em que a sua etapa ascendente. 3. 1. também esclarecia de algum modo.247 Não é senão muito natural. Cf. humano243 e a distância originária que separa a alma dos homens da posse “formal” das articulações por que o ser se ordena. 1095a30-b1.7. precisamente.3 e n.185 e 186.240 por isso mesmo. 240 Cf.244 E é a essa mesma complementaridade entre os processos dialético e demonstrativo que se refere a Ética Nicomaquéia.190 seg. então. acima. II. 4.239 3. cf. também. cf. acima. todo o capítulo 7 do mesmo livro. ibidem. 22-5. da ciência. no que concerne à problemática da causa (expostas nos cap. acima. consagra-os à discussão crítica das aporias que aquelas posições encerram. distingue entre os discursos que provêm dos princípios (����������������������) e os que remontam aos princípios (����������������). estaremos em condições de tratar.2 A dialética e os Analíticos Por outro lado. Met. da melhor maneira possível. 2. 10. II. assim como se pode correr. relembra o filósofo (cf. que os Analíticos retomem. como nas matemáticas . podemos. mostrando como somente distinguiram as quatro acepções de “causa” expostas na Física e como o fizeram. toda a doutrina do silogismo demonstrativo. Nic. caracterizam a etapa pré-científica do conhecimento. cf. a fim de transformar a sua maior cognoscibilidade segundo a natureza e a essência numa maior cognoscibilidade também para nós. também. Pois. 89b29-31.242 também significava.. a mesma natureza do processo dialético. os silogismos do “que”. cap.. da própria essência. em verdade. os capítulos 8 e 9. dos atributos. que caminhamos das coisas mais conhecidas para nós em direção das que são mais conhecíveis por natureza. uma vez conhecido o caráter dialético da pesquisa que prepara o advento do saber científico. n.. também. os acidentes contribuem em grande parte para que se conheça o ‘o que é’”. Em seguida. plenamente compreender. se lhe cabe. do mais cognoscível em sentido absoluto ao que o é menos. acima. desde os seus inícios.) que o “que é” é o princípio de toda demonstração. 3. a atribuição implícita à dialética da tarefa ingente de libertarnos daquela servidão e de preencher aquela distância. acima. l. como. 4. 93a17-9.3 e n. por sua vez. a pesquisa dialética das definições e princípios à ciência demonstrativa.241 surgindo a ciência da causa posteriormente a uma investigação que parte de seus efeitos conhecidos. para estudá-las do ponto de vista da análise do silogismo. I. Cf.245 Também o tratado Da Alma opõe implicitamente. operando a inversão de perspectiva que torna a ciência possível. 993a11 seg. ao mesmo tempo que nos descrevia e analisava o seu objeto próprio. 89b39-a1.112. inversamente. na medida em que. Da Alma I. l. ou a maioria. no qual Aristóteles resume as posições dos filósofos anteriores. questões próprias 243 244 245 246 247 Cf.3-6). Cf.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles mostrar como as aporias em que se debateu. tais princípios representam.7 e n. levar à aquisição dos princípios de que ele decorre. com. portanto. da causa ao causado. cf. mas. II.89 e 90.3. 25 seg. 1. também. 3. quando. obscuramente (�������. V. ao mesmo tempoque se reconhecia a espontaneidade do estado de “servidão” do espírito 239 Cf. Ét. II. II.. 8. 4. dos “atlotetas” ao marco ou no sentido inverso. a jovem filosofia grega encontram uma feliz solução na doutrina aristotélica dos quatro sentidos da causalidade.II. também. agora. lembrando que já se interrogara Platão sobre tal problemática. A. prospectiva e heurística cede lugar a um movimento descendente que procede do mais universal ao mais particular. momentos de uma pesquisa que prepara a demonstração e a construção dos silogismos do porquê. então. 241 Cf. então. 993a13). 242 Cf. Anal.. por certo indireto e complementar. nos estádios.

1. l. introduzindo a Idéia do Bem e todas as outras. definições que não possuem tal característica serão abstratas e meramente verbais. é certo que aquelas primeiras. pretende o filósofo. Eud. a doutrina tópica dos “predicámento dos atributos. Também em Prim. II. Ét.. Cf. o caso de quantos argumentos. não procedendo dos princípios apropriados. 2. 43a16-27.256 concernem.20 e 21) que decorrem das qüididades de seus sujeitos. 249 Que constitui. 403a2: ������������������������������ �����������������. Um estudo comparativo entre os Primeiros Analíticos e os Tópicos haveria. aqui.150.. continua o filósofo: “Digamos agora. em que o discurso não se apropria à natureza da coisa definida (cf. Anim. se o difícil último capítulo do tratado onde inteligência e indução pareceriam digladiar-se sobre as respectivas competências. em boa parte.. nem mesmo uma conjectura fácil a seu respeito. Anal.257 Assim é que. acima. 2. 13. em geral. 27.3 e n. III.253 isto é. como se devem buscar (��������. distinguindo entre os atributos que se dizem no “o que é” e os que são próprios ou acidentes.. cf. do mesmo modo. na constituição dos princípios252 e remeter-nos-á expressamente. por certo. Ét. um dos “instrumentos” da pesquisa dialética.6 e n. não é menos verdade que não se tem devidamente reconhecido que os capítulos que imediatamente precedem aquela passagem final. 251 252 253 254 255 256 257 380 381 . lição de alguns manuscritos. e.255 constituindo um estudo sobre a etapa pré-científica do conhecimento e dizendo respeito à “organização” do material científico que utilizarão as demonstrações. Ger. da argumentação “lógica” – como momentos de uma pesquisa que tende ao estabelecimento das verdadeiras definições do “o que é”. sob o prisma das estruturas silogísticas. os universais são mais vazios (���������. a partir de uma percepção repetida que vai. Le Blond. no que respeita aos Segundos Analíticos e ao problema da aquisição dos princípios da ciência que neles se aborda. também VI. acima. não basta falar de modo universal (�������) mas é. recordar que as definições-princípios da ciência. também. após considerar a gênese do silogismo e a solução dos problemas em cada uma de suas figuras. estudada nos doze primeiros capítulos do livro II.5 e n. 2. Anal. Cf..159 a 164). propõe-se o filósofo explicar como dispor sempre de silogismos em abundância em relação aos problemas propostos e por que caminho assumir os princípios que concernem a cada tema.70. 250 Cf. tão-somente. acima. uma vez que também se impõe adquirir a ��������de produzir silogismos e não apenas o estudo teórico de sua formação. 1. hipostasiando desse modo os universais a que conferem uma realidade separada.. a propósito de Seg.136 seg. refere-se Aristóteles a uma “caça” aos princípios dos silogismos. Anal. Anal. de mostrar como a doutrina analítica do silogismo resulta. nas ciências da ������.: caçar) os elementos que se atribuem no ‘o que é’”. I. por razão de sua mesma universalidade abstrata. ibidem.157. ao processo dialético de pesquisa. da aquisição das proposições249 e da classificação das atribuições. Anal.220). de um reexame da argumentação dialética. 13-8. cf.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles à dialética. uma vez que as ações humanas concernem a fatos particulares. Cf.7 e n. de novo. apropriados à natureza dos objetos. 1217b19-21. cf. VI. III.. acima.258 E estende-se sobre Cf.4 e n. ensejar a demonstração. 13. “universais” e “vazios” (�����). É assim. II. 31. como vimos (cf.93 seg.250 retomando. Prim. 26. dos argumentos que concernem às ações.3 e n. 28-30. ibidem. diremos que os platônicos. devem necessariamente tornar possível o conhecimento dos “acidentes por si” (cf. Por outro lado. cap.1 e n. p. 748a7-11. par son allure générale et par les procédés qu’il préconise.5 e n. acima.. “lógicas”. 8. I. portanto. de uma desqualificação qualquer da dialética. Cf. 7. n.III. sem que se converta em sofístico o proceder ��������(cf. que os Segundos Analíticos se aproximam aí da doutrina dos Tópicos e que aquele capítulo “est très proche. 2. Anal.8. procedem em verdade �����������������. acima. III.. parecem. em boa parte. 30.. preciso adaptar nosso discurso a particularidades desses fatos: “com efeito. no entanto... ao que expôs “no tratado sobre a dialética (����������������������������������������)”. 43a24. acima. para um estudo mais exato dessa problemática. acima. l. 3. II.).254 sempre mereceu um cuidado atento de parte dos autores. Isto é: Seg. como poderia parecer a uma interpretação precipitada. cf. Prim. ainda que de fato não o sejam. VI. Prim. portanto. por exemplo. não podem substituir-se às definiçõesprincípios e fazer as vezes dos princípios das demonstrações.251 mostrar-nos-á a função da “experiência” (por exemplo: da “experiência astronômica”) na formulação das proposições e. 46a10-3. 258 Seg. aos Tópicos. Tal é. 46a17 seg. por isso mesmo. VI. que preferimos a ����������). veis”. 8. II. Anal. os particulares mais verdadeiros” (ibidem. I. des passages des Topiques consacrés à l’étude de la définition” (Logique et méthode. acima. todas.141. cf. VI. então. dando por resolvida a questão das relações entre definição e demonstração. I. I. 1107a28-32.. poderão dizer-se “vazias” (cf.145). V. 1.248 Falar-nos-á. com. 29-30)). em Seg. se a dialética pode servir-se de tais definições “vazias” – assim como se serve. 1939. onde Aristóteles nos adverte de que. 88a3-4. 248 Cf. 43b1 seg. I. lit. Nic. fala-nos da possibilidade de “caçar” (��������) o universal. reconheceu. Anal. que. isto é. de modo dialético e vazio”. entretanto. se apreendem realmente o “o que é”. e. 2. 30. 96a22-3. também. II. “é evidente que se disseram. Não se trata.

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como proceder para chegar à ������de uma coisa a partir dos atributos que, embora de maior extensão que o ����� considerado, não são exteriores ao seu gênero;259 mostra-nos como se pode chegar ao conhecimento das propriedades das espécies mais complexas de um gênero, a partir das definições de suas espécies mais simples;260 também longamente considera como pode aplicar-se o método das divisões (����������), cuja incapacidade para concluir a definição não há muito denunciara,261 na mesma “caça” aos elementos do “o que é”;262 e descreve-nos como se pode chegar à definição através de um processo indutivo, que considerando as semelhanças – e não esqueçamos que o exame das semelhanças constitui um “instrumento” da dialética,263 cuja utilidade para a formulação de raciocínios indutivos os Tópicos nos indicavam264 – e o que há de idêntico e comum entre as coisas, pouco a pouco constrói o discurso uno que é definição,265 passando sempre dos particulares aos universais, porque é mais fácil definir os particulares, onde as homonímias passam menos despercebidas,266 e evitando nas definições uma linguagem metafórica, já que não se deve discutir (�����������) com metáforas.267 Também nos mostra o filósofo como utilizar o método das divisões para a própria formulação dos proble259 260 261 262 263 264 265 266 Cf. Seg. Anal. II, 13, 96a20-b14. Cf. ibidem, l. 15-25. Seguimos a interpretação de Ross, cf. nota ad locum. Em Seg. Anal. II, 5, cf., acima, V, 2.2 e n.128 seg. Cf. Seg. Anal. II, 13, 96b25 seg.; cf., acima, cap.V, n.134. Cf., acima, VI, 2.3 e n.160 a 167. Cf. Tóp.I, 18, 108b7 seg.; acima, VI, 2.3 e n.175. Cf. Seg. Anal. II, 13, 97b7 seg. Cf. ibidem, l. 28 seg. E, conforme explica o filósofo, assim como não prescindem as demonstrações de silogismos conclusivos, assim também impõe-se a clareza (��������) nas definições, cf. ibidem, l. 31-2. Recordemos que um dos “instrumentos” dialéticos era a capacidade de denunciar as homonímias, mediante a distinção das múltiplas significações dos termos, cf., acima, VI, 2.3 e n.159 seg.; e, falando da utilidade de um tal “instrumento”, diziam-nos os Tópicos que ele era útil para a clareza (�����... ��������) e para que se construa o raciocínio segundo o objeto e não, segundo o nome, cf. Tóp.I, 18, com., 108a18-22; acima, VI, 2.3 e n.169. Por outro lado, ao expor os tópicos da definição, a pesquisa da eventual homonímia dos termos surge como um dos tópicos destinados a prevenir a obscuridade da definição, cf. Tóp.VI, 2, com., 139b19 seg.: ����������������������������, �����������������... 267 Cf. Seg. Anal. II, 13, 97b37-9. E também o exame de eventuais metáforas no discurso da definição constitui, em Tóp.VI, um dos tópicos contra a obscuridade, cf. ibidem, 2, 139b32 seg.

mas a serem resolvidos,268 ao mesmo tempo que expõe como pode a linguagem seja auxiliar-nos seja estorvar-nos no processo da pesquisa.269 E discute-se da possibilidade de serem idênticos certos problemas, por terem um mesmo termo médio,270 e da eventual subordinação de um problema a outro, devido a uma correspondente relação de subordinação entre seus respectivos termos médios.271 Finalmente, aborda Aristóteles a questão da pluralidade das causas272 e, ao mesmo tempo que propõe uma solução que concilia com a doutrina da ciência a pluralidade aparente das causas imediatas de um só e mesmo efeito,273 mostra-nos como se organizará a pesquisa das causas e como se ordenarão elas para a posterior demonstração. Um pouco antes, portanto, de propor a inteligência ou ���� como o estado ou “hábito” ao qual compete a apreensão dos princípios, demora-se o filósofo, como vemos, numa longa explanação, que também aborda a etapa preparatória à constituição da ciência e onde o leitor dos Tópicos não terá dificuldade em reconhecer a presença da doutrina do método dialético como propedêutica ao conhecimento dos princípios. O que nos adverte de que não é lícito reduzir ao último capítulo dos Segundos Analíticos274 o testemunho desse tratado sobre a problemática do conhecimento dos �����, como muito costumeiramente se fez. E impõe-nos, também, que o leiamos – ou melhor: que o releiamos – à luz desse acordo que descobrimos entre a Tópica e a Analítica, à luz, portanto, dos ensinamentos da doutrina aristotélica da dialética.275
268 Cf. Seg. Anal. II, 14, com., 98a1-2: ����������������������������������������������������������� ������������������. No fim desse mesmo capítulo, refere-se Aristóteles à utilidade, para as mesmas finalidades, do método analógico, cf. l. 20-4. 269 Veja-se o comentário introdutório de Ross a Seg. Anal. II, 14, cf. Aristotle’s Prior and Posterior Analytics, p.662-3; também, ibidem, p.82. 270 Cf. Seg. Anal. II, 15, com., 98a24-9. 271 Cf. ibidem, l. 29-34. 272 Cf. Seg. Anal. II, 16-8. 273 Cf., acima, III, 5.4. 274 Pois sua leitura já nos foi aporia, cf., acima, todo o § 1 deste capítulo. 275 É o que não conseguiu Le Blond, o qual, reconhecendo embora o caráter dialético de Seg. Anal. II, 13 (cf. Logique et méthode..., 1939, p.145; acima, n.257 deste capítulo) e estar implícita, no capítulo, a doutrina tópica sobre a função da dialética no conhecimento dos

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3.3 Indução e método dialético
Nosso problema consistirá, então, como acima dissemos,276 em conciliar dialética, indução e inteligência dos princípios. Comecemos por interrogar-nos sobre as relações entre o método dialético e a indução, cuja participação no conhecimento dos princípios é afirmada tanto pelos Segundos Analíticos,277 como por outros textos do filósofo.278 Ora, enquanto os Tópicos nos apresentam, explicitamente, a indução (�������) como uma das formas do raciocínio dialético, ao lado do silogismo,279 nenhum texto de Aristóteles confere cientificidade ao raciocínio indutivo.280 E como se poderia falar em indução científica, se a indução parte das coisas que são mais conhecidas para nós,281 se caminha para as coisas desconhecidas a partir das que são conhecidas da maioria dos homens, portanto, das que se conhecem pela sensação?282 Porque “passagem dos particulares ao universal”, como a definem os Tópicos,283 por isso mesmo “é a indução mais persuasiva, mais clara, mais conhecida segundo a sensação e comum à maioria dos homens”.284 Aliás, se a reduzíssemos a uma formulação silogística, teríamos um silogismo que provaria pertencer o termo maior ao médio, através do menor,285 invertendo destarte as relações
princípios, julga, no entanto, que “cela correspond mal aux exigences d’Aristote au sujet de la necessité des principes, ... cela ne s’accorde pas davantage avec l’affirmation que ces principes sont atteints par le ����: comment de pareilles méthodes, tâtonnantes, provisoires, pourraient-elles conduire à une intuition infaillible, supérieure à la science et source de la nécessité de celle-ci?” (ibidem). 276 Cf., acima, VI, 2.5 e n.224. 277 Cf. Seg. Anal. II, 19, 100b3-5; acima, VI, 1.3 e n.65. 278 Cf. Ét. Nic. VI, 3, 1139b29-31; Met. E, 1, 1025b15-16 etc.; acima, VI, 1.4 e n.72 e 73. 279 Cf. Tóp.I, 12 (todo o capítulo); acima, cap.I, n.177; VI, 2.3 e n.158. 280 Cf., acima, cap.I, n.177. 281 Cf. Seg. Anal. I, 3, 72b27-30; acima, II, 5.4 e n.230; também cap.II, n.190. 282 Cf. Tóp.VIII, 1, 156a4-7. Recorde-se que, em Seg. Anal. I, 2, 72a1-5, dizia o filósofo: “Chamo anteriores e mais conhecidas para nós às coisas mais próximas da sensação, anteriores e mais conhecidas em absoluto às mais afastadas. As mais universais são as mais afastadas, as individuais, as mais próximas”. 283 Tóp.I, 12, 105a13-4; cf., acima, VI, 1.4 e n.68. 284 Ibidem, l. 16-8. 285 Cf. Prim. Anal. II, 23, 68b15 seg. Como diz Ross, cf. seu comentário introdutório ao capítulo, “the statement is paradoxical; it is tobe explained by noticing that the terms are named with

que se explicitam num silogismo do porquê. Dizendo respeito, portanto, ao momento heurístico e ascendente do conhecimento, a indução é de natureza dialética286 e não, científica.287 É verdade que são pouco numerosos, nos Tópicos, os “lugares” propriamente indutivos e que algumas poucas passagens, somente, tratam, explicitamente, da indução.288 Por outro lado, Aristóteles, que nos diz provirem todas as nossas convicções ou da indução ou do silogismo,289 parece sempre opor, uma à outra, essas duas formas de raciocínio. Ocorre, porém, que, num texto importante dos Segundos Analíticos, não mais opõe o filósofo a indução ao silogismo, mas à demonstração; “aprenderemos ou por indução ou por demonstração, mas procede a demonstração dos universais, a indução, dos particulares”.290 Também a Ética Nicomaquéia, lembrando procederem ou por indução ou por silogismo todos os ensinamentos e dizendo ser a indução princípio também do universal, enquanto o silogismo procede dos universais,291 parece, em verdade, não estar opondo a indução ao silogismo qualquer, mas ao demonstrativo, que deduz dos princípios universais as propriedades por si dos gêneros científicos. Ora, se atentamos em que “passagem dos particulares ao universal” é expressão de sentido bem amplo e no fato de que Aristóteles chama de indução
reference to the position they would occupy in a demonstrative syllogism (which is the ideal type of syllogism)”. De fato, o que mostra o filósofo é que somente a indução completa poderia adequadamente formular-se sob forma silogística, cf. ibidem, l. 28-30; a preocupação de Aristóteles, neste capítulo, é menos a de estudar a real natureza da indução que a de mostrar como se poderia abordar a indução, de um ponto de vista silogístico. E observe-se que o “silogismo da indução” corresponde a um silogismo do “que”. 286 Alexandre de Afrodísio tinha, pois, razão ao dizer ����������������������� (cf. In Top., Wallies, 37-7 apud Le Blond, Logique et méthode..., 1939, p.20, n.3). 287 Como pretendem, por exemplo, Zeller (cf. Die Philosophie der Griechen II, 2, p.203: “Der Beweis und die Induktion sind ... die zwei Bestandtheile des wissenschaftlichen Verfahrens und die wesentlichen Gegenstände der Methodologie”; do mesmo modo, o grande historiador via no processo de conhecimento que remonta aos princípios, tanto como no que dele descende, uma das direções do pensamento científico, cf. ibidem, p.240-1) e De Pater, para quem a indução pode tanto ser científica como dialética, cf. Les Topiques d’Aristote..., 1965, p.85. 288 Como observa De Pater, cf. Les Topiques d’Aristote..., 1965, p.149. 289 Cf. Prim. Anal. II, 23, 68b13-4; acima, cap.I, n.177; V, 2.3 e n.146. 290 Seg. Anal. I, 18, 81a40-b1. 291 Cf. Ét. Nic. VI, 3, 1139b26-9.

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tanto a passagem de uma multiplicidade de sensações a uma noção universal como a passagem de juízos particulares a um juízo geral,292 compreenderemos que possa o filósofo designar por ������� também o conjunto dos processos dialéticos (incluindo silogismos e induções, stricto sensu) que conduzem o pensamento em direção do conhecimento dos princípios, caminhando do mais particular para o mais universal – e a maior proximidade do princípio corresponde sempre a uma maior universalidade293 –, do mais conhecido para nós ao mais conhecível por natureza, do mais próximo da sensação ao que está mais afastado dela. Nesse sentido, diremos, então, que a etapa ascendente e dialética do conhecimento que prepara a posse dos princípios é de natureza indutiva. Sob esse prisma particular, não contradizem, pois, os Analíticos aos Tópicos e não nos parece lícito, então, afirmar que Aristóteles busca, no método dialético, apenas um meio de preencher as lacunas da indução.294 Por outro lado, compreendemos também que, se a “experiência” (��������), que se constitui por via indutiva a partir da percepção sensível, pode fornecer às ciências seus princípios,295 é porque se exprime ela sob a forma de opiniões (�����) que, formuladas como proposições aceitas (�������) onde se traduz o resultado das observações que se fizeram,296 são objeto de um tratamento dialético que as toma como ponto de partida para pô-las à prova e utilizá-las criticamente. Observação e
292 Cf. S. Mansion, Le jugement d’existence..., 1946, p.141-2 e 102. Sobre a provável origem da significação de ������� e os diversos usos aristotélicos do termo (assim como do verbo de mesmo radical �������), cf. Ross, coment. introd. a Prim. Anal. II, 23. 293 Cf., acima, III, 2.3 e n.135. 294 Como quer Zeller, cf. Die Philosophie der Griechen, 1963, II, 2, p.245. De qualquer modo, cabe-lhe plena razão, quando afirma: “Die Eigenthumlichkeit und die Richtung des aristotelischen Systems ist durch die Verschmelzung der zwei Elemente bedingt ... des dialektisch-spekulativen und des empirisch-realistischen” (ibidem, p.797). 295 Cf., acima, VI, 1.4 e n.70. E não esqueçamos que cabe à opinião (����) o conhecimento do contingente (cf., acima, I, 1.1 e n.30), assim como também diremos conhecidos apenas por opinião as mesmas coisas necessárias, quando não se apreende sua necessidade (cf., acima, I, 1.1 e n.35 e 36). 296 Lembremos que Aristóteles estende a noção de proposição dialética às proposições que exprimem as opiniões que se conformam às artes e disciplinas constituídas, isto é, as opiniões dos que fizeram estudos em tais domínios, cf. Tóp., I, 10, 104a14-5; 33-7; acima, n.156 deste capítulo.

argumentação destarte se conjugam para que o conhecimento dos princípios das ciências – e, também, portanto, as próprias ciências – possam constituir-se.

3.4 Indução dialética e “visão” dos princípios
Resta-nos agora, tão-somente, compreender como se relaciona o método indutivo – isto é: o método dialético de natureza indutiva – com a inteligência ou ����, a que vimos Aristóteles atribuir o conhecimento dos princípios. Ora, a aporia que tão grave nos parecia297 verse-á facilmente resolvida se estabelecermos um paralelo entre o último capítulo dos Analíticos e a passagem dos Tópicos que nos mostrou a utilidade da dialética como propedêutica ao conhecimento científico.298 Com efeito, Aristóteles passa, nos Segundos Analíticos, da indução à inteligência do mesmo modo como, nos Tópicos, faz surgir a visão da verdade a partir da prática da argumentação contraditória e crítica que caracteriza o método diaporemático, faz emergir da prática dialética o conhecimento dos princípios.299 Em outras palavras: não pretende o filósofo que o método dialético-indutivo, que nos leva aos princípios, nos confira também diretamente a sua posse.300 E é certo que se não pode falar em gênese da inteligência dos princípios a partir do processo de conhecimento menos exato e cognoscitivo301 que o filósofo designou como �������. Nem se pretenderá, por certo, que possa uma indução construir diretamente uma definição-princípio, mostrando o que é a coisa, se um raciocínio indutivo simples não vai além do “que é”.302
297 298 299 300 Cf., acima, VI, 1.5. Isto é: Tóp.I, 2, 101a34 seg.; cf., acima, VI, 2.1. Cf., acima, VI, 2.5. Le Blond lia, então, corretamente, os textos aristotélicos que deixam manifesto não poder o método indutivo diretamente engendrar o conhecimento dos princípios (cf. Logique et méthode..., 1939, p.122 seg.; acima, VI, 1.4 e n.80); sua falha, porém, consistiu, como estamos a ver, em não saber conciliá-los com aqueles outros que, sem desmentir a doutrina dos primeiros, apontam no entanto o papel relevante que a indução desempenha no processo de aquisição dos princípios da ciência. 301 Cf., acima, VI, 1.4 e n.78. 302 Cf., acima, VI, 1.4 e n.79.

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Oswald Porchat Pereira

Ciência e Dialética em Aristóteles

Ocorre, porém, que “como são os olhos dos morcegos em relação à luz do dia, assim é também a inteligência (����) de nossa alma em relação às coisas que são, por natureza, as mais manifestas de todas”.303 O que significa, portanto, que não está nas coisas, mas em nós próprios, a causa das dificuldades com que deparamos em nosso anseio de conhecer:304 habitando os domínios da verdade, possuímo-la como um todo cujas partes não somos capazes de corretamente apreender.305 Mas, se efetuamos a ascensão dialética e nos deixamos libertar dos entraves que nos impõe o termos na percepção sensível nosso ponto necessário de partida,306 se a prática correta de um método indutivo adequado nos conduz progressivamente em direção do que é mais universal e, em sentido absoluto, mais conhecível, eis que pouco a pouco se constituem as condições necessárias e suficientes para que a luz da verdade possa brilhar e para que a parte noética de nossa alma, inteligência separada, impassível e sem mistura,307 em si mesma acolha o próprio ser dos objetos investigados, com os quais, em ato, então se identifica.308 A ninguém escapará a ressonância platônica de uma tal doutrina, que revive, em nós, a lembrança da escalada libertadora empreendida pelos prisioneiros da caverna em direção da luz do dia, cujo esplendor não podem suportar quando, por vez priMet. �, 1, 993b9-11. Leia-se, também, a passagem imediatamente anterior. Cf. ibidem, l. 7-9. Cf. ibidem, l. 6-7. Cf., acima, IV, 1.3; cf. também II, 4.7 e n.175 a 181. ������������������������������, cf. Da Alma III, 5, 430a17-8. Não abordaremos aqui, por não respeitar diretamente ao problema que nos interessa, a difícil e famosa questão das inteligências agente e paciente, de que se ocupa o filósofo nos cap.4 e 5 do livro III do tratado Da Alma e que foi objeto de tantas polêmicas entre as escolas aristotélicas. Ler-seá, ainda com proveito, o trabalho de Hamelin, publicado por E. Barbotin, sob o título: La théorie de l’intellecte d’après Aristote et ses commentateurs, 1953. 308 A alma é idêntica, de um certo modo, a todos os seres (cf. Da Alma III, 8, 431b21) e suas partes sensitiva e “científica” (����������������) são seus mesmos objetos (o sensível e o cientificamente conhecível, respectivamente), em potência, cf. ibidem, 431b26-8. A ciência, então, identifica-se em ato com seu objeto, cf. Da Alma III, 4, 430a3-5; 5, 430a19-20; 7, com., 431a1-2; cf., também, Met. �, 7, 1072b21; 9, 1075a3-5; e a alma tem, na inteligência, uma como “forma das formas” (�����������), do mesmo modo como, na sensibilidade, uma forma dos sensíveis” (��������������), cf. Da Alma III, 8, 432a2-3.
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meira, adeparam e por ela se ofuscam;309 à claridade, porém, habituados, terminarão por olhar e contemplar o próprio sol, tal como é.310 E, servindo-nos ainda da terminologia platônica, diremos que o exercício do método dialético-indutivo é um despegar-se do mundo das imagens e um caminhar para a visão final das Formas, a que se deixavam conduzir os interlocutores de boa índole pela maiêutica libertadora do Sócrates platônico. Terminada a ascensão, podem agora os princípios por si sós fazer fé e por si sós naturalmente conhecer-se311 e, porque por eles todas as coisas se conhecem, que lhes são posteriores, pode a alma, por fim, propiciar-se um saber que discurso algum virá despersuadir.312 Nesse sentido preciso, que agora explicitamos, e sem contradizer, portanto, nenhum dos textos acima citados, dizia o filósofo “que nos é necessário conhecer os elementos primeiros por meio da indução”,313 que “há princípios ... dos quais parte o silogismo, dos quais não há silogismo: há, portanto, indução”.314 E compreendemos todo o processo que o filósofo tinha em mente, ao dizer-nos na Metafísica, referindo-se ao conhecimento do “o que é” de que as ciências partem, assumindo-o por hipótese: “é manifesto que não há demonstração da essência nem do ‘o que é’, a partir de uma tal indução, mas algum outro modo de mostrar”.315 Porque vimos como, a partir do método dialético-indutivo e graças a ele, pode operar-se um salto em que outro modo surge – isto é: a inteligência – de mostrar-se a verdade dos princípios; um salto, porém, que não permanece injustificado316 e que, no que concerne parti309 Cf. Rep.VII, 515c-516a. A aproximação entre os dois textos, o de Met. � e o da República, é feita, entre outros, também por De Pater, cf. Les Topiques d’Aristote..., 1965, p.84. 310 Cf. Rep.VII, 516b. 311 Cf., acima, VI, 1.4 e n.76 e 77. 312 Cf. Seg. Anal. I, 2, 72b3-4: “se é preciso que o que conhece cientificamente, em sentido absoluto, não possa ser despersuadido”; acima, II, 2.4 e n.58. 313 Seg. Anal. II, 19, 100b3-4; acima, VI, 1.3 e n.65. 314 Ét. Nic. VI, 3, 1139b29-31; acima, VI, 1.4 e n.72. 315 Met. E, 1, 1025b14-6; acima, VI, 1.4 e n.73. 316 Como quer Le Blond, cf. Logique et méthode..., 1939, p.122; acima, VI, 1.5 e n.101. Precisamente por não compreender o sentido e a natureza desse “salto”, condenou-se o eminente autor a não compreender, também, a unidade profunda da doutrina aristotélica da

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270-91. da ������� que. absoluta e infalível que não se acompanha de discurso. ibidem.. n. II. ibidem. 1939. n. 319 Cf. Ét. 6.76. 1965. 10. 330 Cf. conclui Le Blond que elas não podem ser obtidas por intuição.50.324 o “simples” (���������).. 390 391 .. está o filósofo a opor o pensamento discursivo ao noético e indutivo (cf. 13. para essas coisas simples (�������) e nãocompostas (��������) que são o “o que é” e a qüididade.47. se “toda ciência se acompanha de discurso”(����������’����� ���������������). uma tal verdade. cf. 1939. �.259. cf. p. cf.. 328 Cf.. Anal. quando.30). II. correlata à do definiendum. se o desenvolvimento da demonstração exige. como também o faz em Da Alma que se opera.. não está na �������.278. Nic.321 Por isso mesmo..217-20. 1034b20: “Todo discurso tem partes”. não vemos por que falar no que concerne a esse uso de tais termos. VI. cf. 318 Não tendo razão. Z.. em geral. �. ao mesmo tempo. 4. 3. como sugere Bourgey (cf. p. traduction. texte. a si próprio se pensa e se torna. com Ross. mas na inteligência. acima. 6.. Paris. que não se encontra nem mesmo na ��������a verdade que respeita aos simples e às qüididades (cf. �. De Pater.3 e n. III. 320 Cf.. Seg.32. Logique et méthode. 2. ibidem. 10.. 1027b27-8. II. ���������) com o objeto. sobretudo. em Met.. Assim. 96b22-3: “. uma vez cumprida a tarefa preliminar que lhe competia. que ela se manifeste e formule nas definições-princípios que. acima. também Seg.4. II. pois. com. 2. inteligível. acima.. 326 Cf. também. 1027b27-8. Logique et méthode. Le Blond. 1016a34-5. 6. 4.318 E tem-se. p. Deuxième partie. 1. que le discours ne pourrait atteindre sans se nier lui-même” (Logique et méthode. para corretamente deduzir o que dela decorre. acima... acima. uma intelecção de indivisíveis aquisição dos princípios das ciências. 2.. concomitantemente. 100b10. além da nota n.322 É.2 e n.. I. ao comentar diferentes textos em que Aristóteles expõe a metodologia da definição. 7. nos silogismos da demonstração. 1939.327 Necessário é. acima. 4. 1025b17-8.281). 1956. n. Anal. 1140b33. 321 Cf. Les Topiques d’Aristote.1 e n.79. Observation et expérience. Z.. 84b37-85a1. a causalidade das propriedades por si de seus sujeitos genéricos. 1052a29 seg.4 e n. então. �. com. Por outro lado. b14-5. 1016b1-2. Leroux. 1.152... 322 Cf. ������������������������.. então. apoiando-se nos trabalhos de Nuyens. porque alguns textos do filósofo insistem no caráter difícil e laborioso da pesquisa que leva ao estabelecimento das definições. apud Le Blond. 19. entrando em contato com o inteligível (���������) e pensando-o. cf.62. p. Met. Met..328 E. acima. Met. no ���� que.32).32. 10-2.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles cularmente às definições-princípios. 325 Cf. cf.II.326 a inteligência indivisível e una que pensa a qüididade pensa o que é causa da unidade formal das coisas que são indivisíveis do ponto de vista da inteligibilidade e do conhecimento.2. Traité de l’âme. 6. também. Sobre a indivisibilidade da forma. 4. cf. Met. acima..II. uma verdade que não mais consiste numa combinação do pensamento dianoético a imitar a composição ou a separação das coisas319 mas que.329 nem por isso se pretenderá que a definição trai a unidade da essência.5 e n. também. torna evidentes o “o que é” e o “se é”..1. Anal. II. acima. mostrando como a pesquisa da definição é marcha em direção de um ideal representado por uma intuição verdadeiramente intelectual. se “por si mesmo. freqüentemente use ������� e ���� em sinonímia e fale. 408b24 seg. commentaire. 323 Cf. aos primeiros princípios das ciências.323 por um elemento indivisível da alma e num tempo indivisível pensando-se o que é indivisível segundo a forma (���������� ��������). 1900. assim como a gravemente equivocar-se a respeito da natureza das definições-princípios e da definição. Met. por serem o princípio de todas as coisas a definição e o simples”.474-5. 1051b22 seg. acima. 1051b17-21. por exemplo. Da Alma III. isto é. que a visão intuitiva dos princípios se traduza no discurso. IV.317 porque visão que coincide com o objeto que vê: não se transmuda o discurso em inteligência mas suprime-se ante ela. porém. que se “divida” o discurso da qüididade. proposições em que os mesmos discursos das qüididades se fazem predicados dos termos definidos. III. Met. que é a significação primeira e fundamental da necessidade. no pensamento discursivo.. todo o discurso é divisível”. fusionadas com as hipóteses correspondentes. permite ao discurso da argumentação e da indução ceder o lugar a uma intuição plena. não há porque imputar a esse I. 23. I. em dele participando.1).330 E. cf. em evolução da doutrina. um entrar em contato (������. para que as ciências possam constituir-se e explicitar. se se entende que a faz una o ser expressão de uma intelecção indivisível. cf. Cf. VI. I. 6. acima. Ao dizer. n. 2.. a de assim preparar a sua mesma negação. lemos. 430a26 seg. �.320 é tão-somente um ������ um apreender pela inteligência. § 1: “La Méthode comme recherche”. 430a2 seg.2 e n. E.4. Seg. 4. l.. cf.. identificado com ele. 329 Met. 1.. cap. Sobre a importante questão da unidade da definição. 1015b11-2.324.. p. 327 Cf. cap. Chap.. também. 324 Cf. por certo.. o “o que é” e o “que é”. exprimem. então. E. E. 5. por exemplo. 2. a p. 10. I. 2. II.1 e n. Met. Rodier. assim. 35-b1. Da Alma III. �. p.IIIe. acrescenta: “Idéal irréalisable d’ailleurs. IV. p.325 Unidade da ciência e da demonstração. 317 Ao contrário da ciência. ainda que. isto é. 1072b18-21.272.

2 e n. precariamente partira para aquela investigação preliminar. 23.229 e 230. Cf.Oswald Porchat Pereira Ciência e Dialética em Aristóteles método abstrativo de que a demonstração tem de servir-se. em obscuramente conhecendo-o.335 quem as lesse só encontraria. já que “premissa una. cf. que este se integre nas suas naturezas (��� ��