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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO FACULDADE DE DIREITO

Piterson Balmat Gonçalves

JURISDIÇÃO CONTENCIOSA COMO UM PROBLEMA ECONÔMICO Processo e Justiça

SÃO PAULO

Piterson Balmat Gonçalves

JURISDIÇÃO CONTENCIOSA COMO UM PROBLEMA ECONÔMICO Processo e Justiça

Trabalho de Monografia Jurídica apresentado ao Curso de Graduação, como parte dos requisitos para obtenção do título de bacharel em Direito, na área de Processo Civil – Direito Econômico sob orientação do (a) Professor(a)-Orientador(a) Márcia Conceição Dinamarco São Paulo - SP Julho / 2011

DEDICATÓRIA

Ao Meu Senhor Eterno Que me Amou Primeiro Para onde eu devo ir Se só Tu tens as Palavras De vida eterna?

EPÍGRAFE

Todos aspiram à lei - diz o homem. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar? O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra: -Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a. Franz Kafka, conto “Diante da Lei”

. com a mudança do conceito de Estado. de onde se obtém sua a real problemática quando compreendida no plano econômico em que se coloca.).RESUMO O trabalho visa demonstrar a jurisdição contenciosa civil. bem como a tentativa de solucionar ou. novas concepções políticas etc. Apenas na concepção das estruturas e plataformas político-econômicas que se inserem as relações do capital no mundo hodierno (e. o apontamento de saídas efetivas às questões que cotidianamente se lhe apresentam.) é-se capaz de conceber a sistemática jurisdição civil pátria. por muitas vezes pensada (erroneamente) pela tecnologia processual. sabidamente.g. . a própria figura da tutela jurisdicional (entendida como a última instância da solução de créditos e demais conflitos patrimoniais etc. enquanto tutela do interesse jurisdicional. em verdade. ao menos. Pensar a jurisdição contenciosa. e elaborar críticas efetivas às soluções que geralmente se dão aos dilemas técnicos habituais. que é. mitigar os atuais problemas que a cercam é uma tarefa que. não tem. como um problema eminentemente assecuratório do patrimônio.

...... .........I.................IV.... II...... pg.............................. I ......................... ............................................................... 32 VI.............................. Jurisdição civil como instrumento específico de dominação.................................I II...... Redescoberta da tópica (Viehweg) e nova retórica de Chaïm Perelman ...................SUMÁRIO DEDICATÓRIA ...........3.............. Aristóteles – busca pela Justiça ...... IV.............II... II........... Superabundância de normas .... vi......iii.... Jurisdição contenciosa.................... EPÍGRAFE ........ Os princípios processuais do CPC/73 ...... iii iv v 7 8 8 11 15 15 20 20 23 26 26 27 28 29 30 32 III – A TÉCNICA....II...... V – FILOSOFIA: DISCURSO....................................II........... 36 39 33 34 34 35 ..................... Justiça e Brasil .........................INTRODUÇÃO ................................... Falta de técnica para gestão ...................................................I......III............... .......................................................................................... Elaboração Liberal e Capitalista ..... A ideia de Civilidade.2....... IV – A ECONOMIA E A POLÍTICA NO ESTADO BRASILEIRO ........... vi.........II.. RESUMO .............I.......III.........1...... Sócrates e Platão – Maniqueísmo ético .... ................. BIBLIOGRAFIA ........... III......... A história do Brasil ......................................A CIÊNCIA...............................................iii..... Aumento da demanda .. V............................. ....... Criticismo kantiano e positivismo de Kelsen ................ IV......I.................................. .......................................iii. vi.................. Desenvolvimento. V................... V....... V........................ A IDEOLOGIA ............II..... Complexo normativo .. DIREITO E JUSTIÇA ................. Conceito ...... Esboço Histórico............................................................................. Desperdício de recursos humanos... O CONCEITO ......... VI – A ESTRUTURA ADMINISTRATIVA DO APARATO JURISDICIONAL BRASILEIRO .................. VI. 35 VII – CONCLUSÃO ... V........................ Ideologia positivista ........................... Subsistência de comarcas de diminuto movimento.. Acesso à tutela jurisdicional................ .. VI....................... Sofística – retórica jurídica . O problema do pressuposto .......

deixando na trilha o rastro metodológico de quem pensa essas coisas. A ideia inicial deste trabalho nasce em confronto a essa relação: teoria e prática. mas que. em algum momento. mesmo assim. Os termos. que permanecem incólumes na base etiológica do Direito. é por esse caminho que têm passado algumas gerações de estudiosos do Direito e do Estado.7 I – INTRODUÇÃO Quais os limites da compreensão da palavra Justiça? Dada a semelhante raiz semântica. que se observa a insatisfação com o todo formado. que os mais diversos problemas na prática judicante surgem. ou ainda. O problema se agrava tanto quanto se busca relacionar as teorias processualistas com a realidade sócio-econômico. E é desde as mais evidentes marcas história que tal formação deixa. a primeira vista. é simples. qual a relação que se deve fazer com conceitos que. das mais despóticas às mais liberais. vernáculos e até mesmo as mais ínfimas apreensões ligam-se com certa naturalidade à concepção moderna de Direito que se foi criando e modificando. São defeitos. Deles o Direito processual Civil aparece. lhe tomam o sentido. diante as mais variadas expressões políticas. É pelo próprio cotidiano. . Mas é se misturando e conformando ideais a estruturas que o caminho vai deixando seus traços. Passando por ideais modernos de Estado. diante a distensão entre a realidade e a teoria. não apenas prática. até as menos evidentes. se não universalmente. de alguma forma. acabam por falhar. ao não se desligar dos ideais mais primitivos da modernidade sobre o Estado e a Jurisdição. que se tem de adaptar à complexidade produtiva pós-moderna as mais arcaicas afirmações de Direito e Estado. inegavelmente. ao menos ao aspecto fenomenológico precípuo. na concepção mais nítida dos conceitos que cercam a democracia burguesa do século XVIII. mas não exclusivo da cultuada e misteriosa ciência do Direito. na proposta de modificação do conceito de Jurisdição. que cria essa indisposição geral. com os problemas acionados na base produtiva. Nasce da grande dificuldade. Direito e sociedade. incorreções e a ausência de uma leitura completa e adequada que pudesse ser considerada válida. até por estudiosos realmente interessados na modificação do aparato técnico existente. como se diz Jurisdição? A relação que se faz. Grande esforço teórico tem sido despendido. mas teórica. desenha-se um caminho epistemológico próprio.

Estado e Jurisdição. II. por 1 2 Nesse mesmo sentido: Morin. 2ª ed. que a vontade que impulsiona o investigador jamais será a de meramente estruturar a realidade na leitura de uma série de fenômenos. trata-se da consequências daí advenientes.. 1. 1997. na prática. quer fazer Justiça. 3ª ed. Por fim. Tércio Sampaio. o trabalho se particulariza no ambiente político e econômico do Brasil. para a tentativa de concluir quais as viabilidades realmente existentes para o Estado brasileiro e para aquele que. por outro lado. quase que capitanias sucessórias. de fato. Ferraz Jr. A Ciência do Direito. Atlas. Edgar. Não se pode perder de vista. Um biólogo. dos problemas existentes nos pressupostos conceituais de Direito. Forma-se Jurisdição a partir de uma concepção histórica particular. fazendo relação com os fatores teóricos e impossibilidades político-econômicas. Numa outra parte. a transformação pela qual a ideia de pressuposto passa através da história e o quanto se liga aos valores humanos que são dados às suas construções. portanto. revela. cuja influência de um Estado atuante gera caracteres ideológicos bem definidos. quase que inalterado. trabalha-se um pouco sobre os diversos problemas enfrentados. O CONCEITO.8 Trata-se neste trabalho. p. 10. com um extenso inchamento do Estado e com o arranjo e manutenção do poder ligado à mesma aristocracia dominante. que comandam o país e. Europa-America pt. que dá à estrutura administrativa nacional uma formação sui generis. diante sua formação histórica tão particular. no aparato administrativo da atividade jurisdicional. são uma das principais fontes do conservadorismo na forma de administração do Estado e à violenta falta de (disposição à) distribuição de renda. v. . óbvio. que para Aristóteles tinha um sentido bastante diverso do significado de hoje. anteriormente relatadas. entretanto. 10. II – A CIÊNCIA. O método. Fato é que toda análise é uma reconstrução da realidade para explicá-la2.I O PROBLEMA DO PRESSUPOSTO Nenhuma representação da realidade poderá ser feita isenta de valores e. Ed. que ainda se tem. assim. que dão o sentido. jamais será imparcial1. Decorre-se um pouco sobre os aspectos filosóficos que persistem na modernidade e como diversos conceitos têm se mantido no arcabouço do dever científico sem muita modificação. Ed. Além disso. A própria ideia do termo AXIOMA. p.

9 exemplo. A perquirição por aquilo que se pode chamar pressuposto é que incita o homem às elevações do âmbito argumentativo. que motiva o cientista. e que o querido pressuposto científico. estarão valorados em seu conteúdo. uma construção da linguagem. A influência do meio sobre quem investiga. percebe-se que sempre haverá parcialidade interpretativa do problema posto. onde as determinações psicológicas. É assim com o matemático. Em outras palavras. que nada mais são que PRESSUPOSTOS. que com sua explicação simbólica dos fenômenos. carreados de incerteza. um juízo de valor. meio único capaz de tornar comunicáveis os conceitos que. é uma escolha e. são a prova irrefutável de que os postulados (pressupostos) e as consequências. No fundo. em detrimento de uma falsa. abstrai conceitos e estruturas típicas com as quais pretende que sirvam de explicação para outras realidades longes do campo da série de fenômenos. E mais: é a busca por uma resposta verdadeira. portanto. inicia-se um problema. fundada pela busca socrática. se se verificar. segundo. são cruciais para a realização de escolhas e efetivação de juízos e cuja discussão é tão abrangente que discuti-las implicaria o prejuízo do desenvolvimento dos demais assuntos objetos de estudo. políticas etc. além da imersão à profundidade das coisas. por isso mesmo. não o faz com o fim único de compor um gênero. que são aceitos previamente sem discussão. dos quais inevitavelmente se parte para representação da realidade3. pretensa fonte de verdade. essa é a tradição filosófica antiga. os chamados uma estrutura pré-concebida e aceita como VERDADE PRESSUPOSTOS. Disso decorre que o homem jamais conseguirá explicar os pressupostos sem outros pressupostos. 3 . a existência de POSTULADOS. Mas quando se vê que toda representação da realidade é uma construção. se possa encontrar a resposta adequada a determinado pressuposto. primeiro: que toda representação da realidade é. diante da verificação da realidade. axiomas. Contudo. que é também o problema do presente trabalho. A busca pelas respostas anteriores. sociais. jamais se poderá fazê-lo sem se partir de postulados. quando taxonomiza espécies. bem como as questões existenciais e as inconscientes que impelem o homem. Isso sem levar em conta o fato de que qualquer escolha jamais será livre. em todos os âmbitos. estará buscando com isso os pressupostos da realidade. são objeto de convenções não-universais. e. para que. Isso pode parecer banal quando se aceita determinadas explicações como critério e fonte de verdade. quando se problematiza determinado objeto de análise. na verdade. sempre partirá de com certo grau de certeza.

Equidade. problemas relacionados ao exercício e acesso à De modo semelhante se expressa Roberto Lyra Filho ao declarar: “ninguém raciocina com absoluta perfeição e há sempre uma boa margem de deformações. Conferir O que é Direito. principalmente nos últimos séculos. Vale adiantar. o estudo da Jurisdição é integrante dos estudos de processo civil. Mesmo que se tente nomeadamente expurgar da elaboração científica do Direito a análise desses postulados. que não é se não juízo de valor? Mas não é só. em suas acuradas observações. a compreensão da realidade será sempre parcial. afetando as premissas (princípios que servem de base a um raciocínio) e as conclusões a que chegam os cientistas”. por sua vez. Vale ressaltar que a negativa de Kant em assumir limitações na lógica do estagirita. sendo hoje todos. que está preenchido com a ideia de Retidão. O presente trabalho explica os problemas da jurisdição (contenciosa) civil no Brasil. não se poderá fazê-lo com sucesso4. Veja-se o conceito de Justiça. Ora. em cadeia. Os próprios conceitos de Justiça.. que montam linguisticamente o arcabouço da ideia de Direito. Dentro do campo do Direito. Portanto está ligado ao problema que é o exemplo desta seção. 17ª ed. assim. por exemplo. pois que faz Kelsen. É por isso também que ideais como o de sincero de conceituação. igualmente parciais. Ed. que. que adota como sagrada. Destarte. têm sido vistos com uma parcialidade tal a ponto de se perder de vista um objeto . Equidade e Prudência sofrem influência histórica de seu significado. quando aceita determinados pressupostos lógico-formais5. é uma parcela do resultado conceitual de Direito. Queremos dizer que também nestas se intromete certo grau de ideologia. p. Justiça. 44 LIBERDADE. a busca pelo sentido de DIREITO passará.10 Desta forma. que aqui serve apenas como via didática de explicação de um problema se que enfrentarão longo deste estudo.. Ordem etc. a estes pressupostos. repita-se. Paz etc. 5 Refere-se principalmente ao pensamento apriorístico que absorve Kelsen de Kant e de que cuja inspiração é inegavelmente aristotélica. Não se tem a pretensão de romper com a ideia de pressuposto. porém. que por causa de uma ideia extremamente unilateral de Direito. a que não escapam as próprias ciências. 14. necessariamente. como os próprios conceitos (pressupostos) serão preenchidos por outros pressupostos. por conceitos como o de Justiça. é que se tem. se não adotar a fronesis (prudência) aristotélica. sendo tanto o conceito de Direito inevitavelmente valorizado pelo conteúdo de conceitos intrinsecamente a ele ligados. Prudência etc. adaptados à necessidade da sociedade na alta modernidade burguesa consumerista. Liberdade. Brasiliense. em boa medida. A ciência do Direito estará inevitavelmente ligada.

com o mínimo de precisão. cabe delimitar o sentido dos conceitos apresentados. Manual de Direito Processual Civil. trazer a interpretação básica que se dá a ele para que se saiba. que parece. nas palavras do ilustre doutrinador: “há um ramo do direito destinado precisamente à tarefa de garantir a eficácia prática e efetiva do ordenamento jurídico. No curso da História. Jurisdição. que completa o conceito. erigidas por Kant em elementos fundamentais do Estado. desde os tempos imemoriais.II. Forense. posteriormente. Nasce dentro dos estudos de Montesquieu6 sobre a tripartição de poderes e que tem um conteúdo específico. por ora. RDP (Revista de Direito Público) – 13. a fim de que. se compreenda os assentos que serão feitos. o Poder Judiciário. 1984. qual o objeto de estudo. se faz necessário ao menos romper metodologicamente com a construção jurídica dominante. Mas essa tarefa não é simples. Em primeiro lugar. 70 e ss. Assim. Contudo. especializou-se. primeiramente falar-se-á da ideia de Jurisdição contenciosa e. do sentido de civilidade. II. p. trata-se Jurisdição de conceito elementar do arcabouço dos processualistas e sob o qual existe amplo consenso de definição. p. 6 . 1. jurisdição (iurisdictio)”7 Em um estudo interessante. pois. encontra uma definição concorde entre os estudiosos e interpretes no âmbito nacional. Nesse sentido. Enrico Tulio. Da Jurisdição. 7 Liebman. que irá abordar a problemática advinda da práxis judiciária em relação ao tema abordado. Arruda Alvim Neto vê o momento em que se deu adoção da teoria da tripartição dos poderes na modernidade. Importa. Esses são os órgãos judiciários e sua atividade chama-se. 3. onde é no “quadro das funções estatais vislumbramos uma tripartição de poderes. José M. no organismo estatal [desta forma]. José Manoel. conforme apontado. tão cheia de discursos demagógicos e dogmas com fundamentos que acabam por atender a interesses mínimos da sociedade que ensejam a sua modificação. ao menos agora. posteriormente. v. Ed. Portanto.11 tutela jurisdicional. 1969. nomeadamente depois da Revolução Francesa. JURISDIÇÃO CONTENCIOSA. instituindo órgãos públicos com a incumbência de atuar essa garantia e disciplinando as modalidades e formas da sua atividade. principalmente na próxima parte do trabalho. é em boa parte dos estudos de LIEBMAN que se extrai a interpretação fundamental do conceito. como órgão independente”. Assim. Arruda Alvim. conforme logo mais se verá. CONCEITO.

Ada P. p. Assim: “o Estado. Dinamarco. Cândido R. vê a Jurisdição. 258. já suficientemente fortalecido. A instrumentalidade… ibidem. Os estudos de DINAMARCO expandem. Malheiros. p. tanto como o direito substancial” 9. Cândido R. sendo esta uma forma de imposição do Estado. Isso não significa reconhecer ou pressupor a natureza exclusivamente técnica do processo. Mas não é só. 10 Dinamarco. DINAMARCO. 98. inspirados por Liebman. em a instrumentalidade do processo. declara: “dos escopos do processo. inspirado pelo culturalismo de REALE. impõe-se sobre os particulares e. A Instrumentalidade do processo. e Cintra. p. p. 9 Dinamarco. Ed. 2008. 8 . Ele é instrumento e é técnico. Antônio Carlos A. Malheiros. 179. 2005. mas pelo canal da sua instrumentalidade jurídica social e política recebe os influxos do clima cultural que o envolve. justamente por ser prima facie técnico. o jurídico é que. prescindindo da voluntária submissão destes. 11 Dinamarco. Em âmbito nacional. mais se presta a considerações de ordem técnica e mais influências projeta sobre a técnica processual.12 A construção interpretativa de LIEBMAN abriu caminhos à alteração das definições presentes até então. Ou seja. enuncia DINAMARCO limites entre a técnica e as influências externas. Grinover. Ed. “entendida esta como o processo de escolhas axiológicas e fixação dos destinos do Estado”11.. como instrumento sem conotações éticas ou deontológicas e desligado da escala axiológica da nação e do Estado. substituindo a visão predominantemente privatista do processo. impõe-lhes autoritativamente a sua solução para os conflitos de interesses. À atividade mediante a qual os juízes estatais examinam as pretensões e resolvem os conflitos dá-se o nome de jurisdição” (grifo nosso) 8. Teoria Geral do Processo. “que é antes de tudo é política”10. esculpindo uma ideia inovadora sobre em relação ao arcabouço presente até então. Cândido R. A Instrumentalidade… idem. os limites do conceito. 25. e dos que enxergavam a jurisdição como simples ‘meio para de exercícios dos direitos’. Após a alteração do caráter privatista do processo por uma definição mais ampla que LIEBMAN realizou. CINTRA e GRINOVER elaboram um estudo que dá à ideia de Jurisdição um sentido semelhante.

que o justificaria. que seria seu escopo magno. Ato contínuo deixa evidente a sua ideia de que se o objetivo da Jurisdição é a imposição (enquanto instrumento para fixação dos destinos do Estado. Contudo. com a união desses conceitos. Grinover e Cintra. fazendo as vezes dos particulares. Operando-se isso em outras palavras. 26. pela imposição do monopólio da função). o que se faz é assumir que o processo de atuação jurisdicional não estará isento da manifestação de poder. alcançando as políticas e axiológicas do poder do Estado. Grinover e Cintra. por outro lado. Esse fenômeno que daria o que ele chama de INSTRUMENTALIDADE do processo. É um escopo social. 26 Dinamarco. um fim em si mesmo. fruto da moderna elaboração teórica dos processualistas brasileiros. Ob. o objetivo da força seria formar um instrumento de coerção chamado de Jurisdição. hoje presentes no ideal de Jurisdição. políticos e jurídicos. Para ele. No referido trabalho de Dinamarco que leva o título. “A pacificação é escopo magno da jurisdição e. . de todo o sistema processual (uma vez que todo ele pode ser definido como a disciplina jurídica da jurisdição e seu exercício). por consequência. b) a preservação do valor liberdade. p. ibidem. Cit. poder-se-ia chegar à função pacificadora da Jurisdição. c) a atuação da vontade 12 concreta do direito (escopo jurídico)” . A Teoria… idem p. a oferta de meios de participação nos destinos da nação e do Estado e a preservação do ordenamento jurídico e da própria autoridade deste (escopo político). esses desígnios consistiriam em: “a) educação para o exercício dos próprios direitos e respeito aos direitos alheios (escopo social). capaz de garantir a 12 13 Dinamarco. uma vez que se relaciona com o resultado do exercício da jurisdição perante a sociedade e sobre a vida gregária dos seus membros e felicidade pessoal de cada um” 13. Em síntese.13 Essa perspectiva é um avanço. Isso ocorreria porque o Estado. teria um objetivo precípuo. esta não é. declara quais seriam os objetivos pretendidos pelo Estado através do instrumento que ele forma com o processo: os escopos sociais.

Ob. p. 71. mas a representação. irracional e. contudo. É a partir dessa forma de representação punitiva. vale ressaltar que a presente ideia de Jurisdição contenciosa não é harmônica entre os processualistas. no ideário de interrupção de conflitos. Trata-se. 2006. que deixa escapar alguns dos sentidos de poder estatal que se incute no tema. por fim. que a dogmática da decisão constrói um sistema conceitual que capta a decisão como um exercício controlado do poder. Forense. Técnica. apesar de ter sido violado” . Tal conceito advém do pensamento de jurisdição enquanto decisão de conflitos sociais. tendem a ser domesticados quando extrapolam os limites seguramente almejados15. mas no sentido simbólico de ameaça. Não se fala da violência como instrumento do direito. a violência como manifestação do direito. por exemplo). que. nas teorizações sobre o poder a doutrina falará preferivelmente em poder-jurídico como uma espécie de arbítrio castrado e esvaziado da brutalidade da força. Por outro lado. pode-se dizer. Teoria Geral do Processo. mediação e jurisdição voluntária. diminui-se a carga emocional da presença da violência do direito. em relação à doutrina em geral. Sublima-se a força e. . também p. pois. como tal. Para Tércio Sampaio Ferraz Jr. na sua gênese.. “na base da jurisdição está sempre a lide”.. Ed. 15 De certa forma no mesmo sentido. como se as relações sociais de poder estivessem domesticadas. Decisão. G. explica o elemento contencioso do conceito. a contrapor-se ao direito em termos da dicotomia poder-força versus poder-jurídico. concreta e atual. Essa forma de violência controlada que o Estado exerce. 313. elabora uma crítica pertinente ao aspecto interno do termo. Atlas. mas nela esgotada sua função. extra-jurídico. gera litígios jurídicos especificamente construídos que terão assim a sua aplicação social. Introdução ao Estudo do Direito. permanentemente. de certa forma. Por isso. nos processo de formação do direito. Cit. para Jellinek. socialmente 14 esperada.14 pacificação social. em risco o próprio direito. p. como para 14 Ferraz Jr. Galena Lacerda afirma que. com isso. apesar de crítico dessa ideia de poder: “por todas essas razões. Serve.. Dominação. contencioso. Ed. Tornase possível falar da violência não como vis física. Lacerda. que se parte para entender jurisdição. essa aplicação acaba por tornar ao poder estatal na forma de composição litigiosa pelo aparato jurisdicional. substitutiva de conflitos privados e que. um exercício de controle que deve se confundir com a obediência e conformidade às leis”. Por outro lado. como falado por FERRAZ JR. na mesma passagem FERRAZ JR. como é o caso da violência da vingança em sociedade primitivas. de que o direito continua valendo. que aparece. chegando-se à paz social pela instrumentalidade que se forma. Diz assim: “pode-se dizer que a doutrina refere-se ao problema do controle no sentido de poder-dominação. Todo o ideário formado tem razão de ser. Tércio Sampaio. 313. Mas o poder é aí primordialmente encarado como um fenômeno bruto. porém. tanto para distinguir outras formas de soluções de conflitos (arbitragem. passando. dentro do sistema político-econômico criado. Como poder-força ele aparece assim como algo que pode por. que é um fato e não pode ser negado. daí por diante. nas quais ela não significa a punição concreta do culpado.

logo a seguir). sendo o patrimônio alicerce de toda uma estrutura . ELABORAÇÃO LIBERAL E CAPITALISTA.15 esclarecer o caráter de interrupção. o que se encontra extremamente desacertada com os ideais dos referidos processualistas? A explicação é porque quando se elabora uma teoria da jurisdição. em larga medida. A IDEOLOGIA. não parece acertada com a prática social vivida. por exemplo. III – A TÉCNICA. na prática. ESBOÇO HISTÓRICO. entretanto. pois embora correta a elaboração teórica dos referidos autores. através do monopólio decisório e a interrupção de conflitos pelo Estado. de composição de litígios. Vale salientar que. Muito embora se veja a doutrina declarando o objetivo da jurisdição como promotora da paz social. As especificações do apontado conceito são várias. contudo. essencial à existência da própria Jurisdição e sobre a qual se continuará a tecer considerações (principalmente quando somada ao ideal de civilidade. Não haveria razão. se essa é a real finalidade da jurisdição. Sim. por uma questão didática não se poderá trabalhá-las. é questionável. se na sociedade contemporânea a questão não fosse além.I. III. dela como poder. por que se vê. função e atividade. dentro de uma sistemática própria na qual se insere. todavia. tanto a ideia de conflito social quanto a de pacificação deixam de conter o fator patrimonialista que lhe é intrínseco. bem como das características e princípios. A IDEIA DE CIVILIDADE. tão pouco pacífica e visivelmente tão injusta. uma ação de despejo (bem como toda a sistemática jurídica de amparo à propriedade e ao crédito). sem prejuízo das demais definições de jurisdição que estão relacionadas. contudo. Em síntese. de se reclamar do fator pecuniário. Se uma vez que a consecução do provimento jurisdicional é tipicamente democrática. a falta de acesso à justiça? Por que é. Apresentada a definição de jurisdição. é essa a ideia acabada dos processualistas e sobre a qual se deve tecer determinadas considerações. que o conceito não se esgota aí. inserida em um contexto próprio tem-se.

por exemplo. restando. falar-se em jurisdição (leia-se Estado) já trás consigo um conteúdo de civilidade própria. Neves. se pode chegar a atribuir o desinteresse marginalizado das massas. Se. gerado pelo excludente tecnicismo jurídico. Martins Fontes. 2006. somado à ideologia política italiana de meados do século passado. como função básica da estrutura capitalista. ao lucro ou à propriedade. uma relação difícil. não irá se compreender que toda a sistemática estatal. também há de passar pela moral. que se pode verdadeiramente se esclarecer qual é a real instrumentalidade da Jurisdição. portanto. Entre Têmis e Leviatã. uma trabalhista etc. 98. típica da sociedade capitalista. por exemplo. Mas acontece que se se deixa de considerar a economia na sociedade contemporânea como um fenômeno de controle. em larga medida. se passa pela economia. uma jurisdição penal. está permeada dos ideais modernos de Estado e que. 16 . Aí entra a relação intrínseca de jurisdição com civilidade. por isso.). em certa igualdade entre os componentes. por outro é necessário evidenciar que um assento que não se baseie no fato de que civilidade é civilidade burguesa e. produto de uma cultura e que. se usa comumente jurisdição civil para se distinguir de outras formas de jurisdição (face. é um termo com significado muito mais amplo do que se ordinariamente se dá. portanto. dificilmente a visão política de alguém será abrangente para compreendê-la e certamente será equivocada. Para uma impressão inicial da crítica. dado por uma concepção histórica específica. nos conceitos ordinários da técnica processual não se trata de problemas relacionados. política e juridicamente complexa. que se pode fazer a partir de uma simples leitura da História recente. Será tão só através de um conteúdo. a não ser que tangencialmente. onde se explica política como algo pronto. Evidente que. por exemplo. incluindo as diversas manifestações de jurisdição. envolvendo os fatores de produção e consumo. ao mesmo fator que determina o consumo em massa e os ideais de felicidade nele (consumo) presentes. por exemplo. o culturalismo presente na teoria de Miguel Reale. p. No Brasil isso se dá porque se usa. criada pela sociedade capitalista e que. Marcelo. Cf. Ed. Esse fenômeno é tão complexo e suas consequências realmente abrangentes que. por um lado. deve-se deixar claro que a ideia de Estado moderno jamais esteve dissociada do ideal de civilidade burguesa e. realizada por meio das revoluções burguesas do século XVIII. faz com que a hipertrofia da complexidade econômica governe os demais fatores sociais16.16 econômica.

é a descoberta da filosofia aristotélica no final do medievo pelo Ocidente. competindo ao poder político zelar convenientemente por elas”18 (grifos nossos). Com isso. como se as ideias de Aristóteles viessem completar os conceitos trazidos até então. por exemplo. Elementos de teoria geral do processo. Forense. Este novo tipo de poder. 31. Outra conclusão que se pode extrair é que. A Política. p. permanente e exige um sistema de delegações. exposta e desenvolvida na clássica obra O Espírito das Leis (…) embora teorizada por Locke. Sobre esse mesmo assunto. Aristóteles. numa palavra. p. que Foucault (1982:188) chama de poder disciplinar. foi devido a Montesquieu que a doutrina ganhou enorme repercussão. . Cf. somado à modificação da filosofia conhecida. mas é contínuo. Essa impressão de construção de conceitos no conjunto iluminista pode ser lida nas palavras de José Eduardo Carreira Alvim: “A análise das funções do Estado moderno está estreitamente vinculada à célebre doutrina de Montesquieu. Reale. que causou uma transformação na leitura de Platão e outros clássicos. Assim. Técnica. Ed. como havia na Idade Média (suserano/súdito). 18 Ferraz Jr. Ed. da qual a burguesia se apossará rapidamente. 19 Como se pode concluir. Dominação. o crescimento da atividade mercantil modificam as relações concretas de poder. uma ideia central (…) adquire uma certa flexibilidade abstrata que esconde as relações de propriedade como poder e cria a impressão de que tudo tem uma base naturalmente econômica. puderam ser desenvolvidas duas superideologias. forma-se um aparelho de proteção ao patrimônio muito peculiar. 47. Atlas.17 principalmente no que se refere ao Direito Civil continental (e derivados). 2001. Ed. a complexidade populacional. sobre a separação dos poderes. Loyola. 225. bem como na estrutura do pensamento posterior. encontrando antecedente na não menos notável obra de Aristóteles. Rio de Janeiro. 2ª ed. que são substituídas por uma outra. Tércio Sampaio. José Eduardo. pois não é descontínuo nem ocorre apenas quando necessário nem tem instrumentos ocasionais como imposições assistemáticas de impostos. Decisão. no seu Tratado do Governo Civil. mas sobre o corpo e seus atos. supedâneos dos ideais mercantilistas: a política liberal e o sistema capitalista de produção.: “Desde o Renascimento. Introdução ao Estudo do Direito. não é mais apenas poder sobre o território. também fala Tércio Sampaio Ferraz Jr. Giovanni. p. Este poder é mais racionalizável. poder sobre o trabalho. com um tanto de profundidade interpretativa. em que pese as diversas conclusões que se podem extrair do referido momento histórico19. transformando-se numa das mais célebres doutrinas políticas de todos os tempos”17. fato é que o conceito de jurisdição civil nasce aí: no contexto iluminista. as alterações sociais. 17 Carreira. juntamente com os ideais de liberdade e propriedade.

18 da ascensão de uma burguesia reinante. é traduzida pela sociedade de consumo de massa. que são objetos de vívida discussão e diversas alterações legais. Muitos outros poderiam ser citados nessas linhas. cujas ideias refletem o mesmo estado de coisas. tem sua principal fonte nos referidos ideais de liberdade e propriedade. propriedade e o sistema econômico capitalista irão se unir em uma estrutura típica de produção (baseada no lucro e. têm seu conteúdo preenchimento pela ideologia capitalista que. Com o advento da revolução burguesa na França. historicamente o capitalismo nunca associou-se de forma exclusiva a nenhuma ideologia. Nov/1994.277 e 11. e da revolução industrial na Inglaterra do mesmo século. Ricardo (em “O Tratado do Governo Civil”). Referido estado de coisas advém de uma síntese histórica própria. que é prejudicial até mesmo à própria formação econômica e manutenção da estrutura criada21. A consequência direta se pode extrair da sociedade baseada na propriedade privada e a proteção ao lucro. igualmente. é a atual sociedade em colapso acumulativo. Revista Novos Estudos do IPEA. monopólio do Estado. que trata de fatores políticos. 125. o protecionismo e o livrecambismo se sucederam e alternaram como linguagem dominante das burguesias industriais. p. na extremidade da capacidade de produção. no campo do debate político ou das ideias econômicas. José Fiori diz: “afinal.276/2006). Kant (“Da metafísica dos costumes”). como Siyès (“O que é o Terceiro Estado?”). por isso. que pode ser lida no referido tratado de Locke sobre o Governo Civil (leia-se: Estado Civil). que sistematicamente dirigem a estrutura dominante do poder construída e que. Smith (com a “mão invisível”). como o acúmulo de demandas e a ineficiência na execução patrimonial. na pós-modernidade. toda a ideia de poder. 20 . a exemplo das realizadas no tocante à fase executória do processo civil (11. Em outras palavras.232/2005. tripartição de poderes etc. detentora do poder basilar da sociedade e que irá permanecer impávida às diversas mutações políticas que os países que a adotaram sofrerão20. quando se associa civilidade com propriedade. jurídicos e sociais à sua maneira. em uma sociedade extremamente burocratizada. Rosseau (“Do Contrato Social”). nº 40. numa recorrência que lembra a ideia grega da circularidade imóvel” in o nó cego do desenvolvimentismo brasileiro. onde o poder de adquirir é a representação de status. 21 Exemplo disso são as grandes dificuldades enfrentadas na prática cotidiana dos tribunais. civilidade. de 1789. e por isso. unidos à extrema complexidade dos fatores produtivos que se é capaz de formar na sociedade capitalista. fato que irá culminar na chamada sociedade de produção em massa). 11.

determinando-as. de um coronelismo hereditário. o problema interpretativo do arcabouço processualista está no fato de que existe uma evidente pretensão de universalidade22. pela formação do estado brasileiro. interpretação equivocada e distante da intenção da violência e dominação da práxis cotidiana. Conforme afirmado acima. No Brasil. V. não se fala que. por outro lado. o arcabouço processualista deixa de considerar as determinações que as plataformas econômicas fazem sobre a política e a sociedade. na verdade exerce violência (controlada ou não. de fato. no interior do poder jurisdicional. G. na segurança jurídica (legal) do estado de coisas vigente. Mas. tomando-se aqui feições. principalmente. afeta ao conceito apresentado. através da história. 7ª Ed. RT. as teorias de que a jurisdição tem a função de atuar a vontade concreta da lei – atribuída a Chiovenda – e de que o juiz cria a norma individual para o caso concreto. ainda presente na ordem estatal brasileira. Portanto. depois de aproximadamente cem anos. considerando-se a técnica jurídica incompleta para dar um sentido realista de Jurisdição. bem como errada sobre a real pretensão da sistemática estatal. como externos. o que se quer dizer é que. Em outras palavras. tanto no poder executivo. Ed. como no legislativo e. relacionada com a tese da ‘justa composição da lide’ – formulada por Carnelutti”. dentro dos estudos de processo civil. amoldandoas. Curso de Direito Processual Civil. essencialmente. primeiro: quem exerce força-poder. no capitalismo. deixa de considerar uma série de fatores necessários: a) econômicos e b) históricos (tanto em âmbito interno. “ainda são sustentadas. anteriores à política podem e. 22 Melhor entendimento se encontra nas palavras de Luiz Guilherme Marinoni. 1. gerando um sistema que se baseia. interrompida ou domesticada). a manutenção do patrimônio é paradoxalmente realizado por quem detém o próprio patrimônio. segundo: dentro da estrutura social. Não se quer. mas valendo-se também dos sentidos social e político. quem detém o patrimônio detém ainda o poder militar e o poder decisório do Estado. Marinoni. não basta para elucidar o problema econômico que lhe está intrinsecamente afeto e é essencial para explicar o conteúdo axiológico do termo. Luiz. .19 Desta forma. pela própria constituição histórica da modernidade) que. 33. alteram o sentido ‘instrumental’ da jurisdição civil no Brasil. que se entenda que todas as questões mal resolvidas do conceito sejam decorrentes dos problemas econômicos que estão ligados à Jurisdição. em que se busca acreditar na perseguição ao ideal de justiça pelo aparato jurisdicional. 2008. p. Por isso.

No Brasil. eminentemente. Há uma parcela do povo que dirige a estrutura do poder. base da sociedade do século XV e estrutura arcaica de uma ideologia comercial crescente desde o século XII. inclusive as decisões do Estado. E vale desconstruir o ideal de que é o Estado quem o faz. Todos os objetos de tutela legal civil são objetos intrinsecamente ligados à economia. a função do processo em resguardar o estado de coisas é sumário. Raymundo. é necessário se ver as diversas questões ligadas intrinsecamente ao Brasil em relação à constituição de sua própria história. 2001. conforme se verá. deixa de se ver a sociedade do consumo. p. bem como os problemas que relaciona ao patrimônio. realidade tão presente na chamada pós-modernidade e também base dos maiores problemas relacionados à sociedade e a existência dos dias de hoje.20 procurando distância de certo determinismo. O fato mais importante é que. A sistemática mercantilista. . Globo.I. carregada de feições patrimonialistas23. da qual pouco se fala. que traspassados pela forma primitiva do feudalismo o superaram em 23 Faoro. IV – A ECONOMIA E A POLÍTICA NO ESTADO BRASILEIRO IV. haja a manutenção de todo um sistema vigente. Ed. 17 e ss. Os donos do poder – formação do patronato político brasileiro. a fim de que da segurança que forma. Assim. os aspectos patrimonialistas da Jurisdição civil. formação política e social. no reinado de Portugal adquiriu características distintas de outros núcleos de poder. caso não se observe o sentido econômico que a norma processual carrega. mas de onde se extrai problemas muito mais complexos e que modificam a realidade da investigação. mesmo assim são inegáveis. o problema assume através de sua história feições peculiares na estrutura do Estado que a explicação sem o envolvimento dialético de boa parte das questões materialmente envolvidas ensejará a dissipação dos argumentos. vale salientar. que ver a Jurisdição sob o enfoque apontado é essencial para uma compreensão dos fenômenos atrelados à Jurisdição civil brasileira. que é. Portanto. Desta forma. a história do Estado nacional começa com as formas de administração portuguesa. por todo que se viu. A HISTÓRIA DO BRASIL Paralelamente à discussão sobre o sistema econômico vigente e as problemáticas relacionadas à justiça/capital.

O capitalismo politicamente orientado – o capitalismo político. a manutenção de uma sociedade extremamente aristocrática em regime sucessório. Raymundo. no curso dos anos sem conta. da conquista e da colonização moldou a realidade estatal. para satisfazer imperativos ditados pelo quadro administrativo. (…) Sempre. se compreendem no âmbito de um aparelhamento a explorar. a manipular. cuja legitimidade assenta no tradicionalismo – assim é porque sempre foi. A comunidade política conduz. comanda. 25 Faoro. Era o rei o proprietário de terras que exercia o controle privativo sobre as propriedades. legislativo e jurisdicional. em gritante desigualdade social e de distribuição de renda. aos desafios mais profundos. p. ou na outra face. Os donos do poder… idem. sobrevivendo. numa viagem de seis séculos. bem como o controle militar. de índole industrial. supervisiona os negócios. são também exemplos históricos de uma confusão entre público e privado que dura até hoje. de contratar. onde o proprietário de terras era também o dono da força bélica. posteriormente. As capitanias hereditárias são a herança direta do domínio do estado português sobre a propriedade privada. constituída. em florescimento natural. 24 . em linhas que se demarcam gradualmente. como negócios públicos depois. é a criação de um sistema imperial cuja administração jamais pode deixar de confundir exercício político do exercício econômico24.21 revoluções burguesas que consistiam na direção do poder político e econômico. de uma oligarquia agrária que detinha o poder político e. exercício que era feito diretamente pelo setor público de Portugal (apesar da ajuda do flandres holandeses). como negócios privados seus. à travessia do oceano largo. e incorporando na sobrevivência o capitalismo moderno. centro da aventura. A consequência disso. a forma de poder. O súdito. Dessa realidade se projeto. aponta o referido autor. que dirigem o poder político. a sociedade. Na lusitana forma de gestão administrativa. inicialmente. de gerir a propriedade sob a garantia das instituições. através do controle dos fatores de produção). interessado no desenvolvimento econômico sob o comando político. 819 e ss. Reflexos históricos de tal postura podem ser encontrados durante o decorrer das diversas fases vividas pelo Brasil sob o domínio de Portugal. institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo. ou o pré-capitalismo –. a relação do rei com o controle da propriedade (e. com seu componente civil e militar” (grifos nossos)25. O poder moderador etc. Em suas próprias palavras: “De Dom João a Getúlio Vargas. posteriormente. a tosquiar nos casos extremos. o patrimonialismo estatal. incentivando o setor especulativo da economia e predominantemente voltado ao lucro como jogo e aventura. uma estrutura político-social resistiu a todas as transformações fundamentais. gera uma posição crítica em relação ao desenvolvimento capitalista desse país. quando o exercício delegado aos capitães de determinadas porções de terra era feito exclusivamente com o objetivo de produção de bens à metrópole. na origem. racional na técnica e fundado na liberdade do indivíduo – liberdade de negociar.

concebida por Savigny e lida por Irering. Teve o papel relevante na negociação dos níveis de participação e formas de integração entre os capitais nacionais e internacionais. dessa forma. aqui foi sempre subordinada aos interesses de fora.22 A formação política do Brasil. donde surgiu a nata que operou oligarquias sucessórias. que não poderiam experimentar senão uma monarquia como a de Dom Pedro I. que é feita a lei e a quem cujo interesse tutela. Mas nem a extensão destas funções econômicas nem a simples e genérica referência ao seu autoritarismo-burocrático conseguem dar conta da especificidade do Estado brasileiro (…) sobretudo quando se analisa a compara a questão crucial das formas de relacionamento e coordenação entre as burocracias públicas e os interesses privados na condução de suas estratégias de desenvolvimento nacional”26. O nó cego… p. nobreza pela burguesia. direta e indiretamente em sua formação. A lei civil não busca. afirma Fiori: “Há consenso com relação à vocação autoritária e à importância do papel do Estado como organizador do processo de acumulação industrial no Brasil. . mas que subsiste. Porque aqui não se seguiu o ordinário sentido das alterações de poder como na Europa burguesa. que gera a dependência até hoje vivida do incentivo do capital externo para movimentação da própria economia que. torna-se dogma da doutrina assecuratória do capital constituído por essa elite. merece especial atenção. soma-se ainda o famigerado Estado de Direito. o esquema histórico vivido. conservando-se as feições de tal pensamento desde a legislação do 26 Fiori. Nesse sistema. que se altera com o tempo. que substitui clero por nobreza. A teoria da posse. favorecer senão o senhor de nomes e títulos. o dono de terras. um aparato de proteção à propriedade aparece de forma sumária na legislação processual brasileira. assim. desde uma brusca ruptura na conversão republicana ao patrocínio estrangeiro da economia nacional. nesse passo. 126. José Luis. A constituição normativa e a direção estatal através de leis acompanha. É para ele. e foi o grande responsável pela abertura das sucessivas “fronteiras” ultrapassadas pelo processo de acumulação. que alterou profundamente a ideia de representatividade do Estado e confundindo-se ele como certa revolução travestida de filho do rei português. Manteve-se na estrutura social luso-brasileira uma aristocracia reinante. tanto o coronel do agreste como o filho do legado comercial nas metrópoles brasileiras. No aparato político-econômico as implicações que isso trás são as mais diversas. Com isso. Da mesma forma.

JUSTIÇA E BRASIL.II. a organização judiciária e a racionalidade ou irracionalidade dos critérios de distribuição territorial dos magistrados. Mas. Para o referido autor: “reformas do processo. e este constitui talvez um dos campos de estudo mais inovadores. tem-se um aparato jurisdicional que. 1977:87). não são de modo nenhum uma panaceia. embora importantes para fazer baixar os custos económicos decorrentes da lentidão da justiça. justiça. apesar da relação semântica. No Brasil. ainda que uns e outros . Neste domínio. Por outro. como comecei por referir. trabalhista. por exemplo. é importante investigar em que medida largos estratos da advocacia organizam e rentabilizam a sua actividade com base na (e não apesar da) demora dos processos (Ferrari. Como menciona Boaventura de Souza Santos. Resta. Não se pode conceber uma Jurisdição que não seja afetada pelos diversas questões que saltam no cotidiano e refletem tanto a miséria do sistema político-econômico como as mais complexas comoções sociais. e a título de exemplo. Cumpre frisar apenas que tal direção se dá por toda a leitura e constituição do Estado brasileiro. constitucional etc. a sociologia da administração da justiça tem-se ocupado também dos obstáculos sociais e culturais ao efectivo acesso à justiça por parte das classes populares. É o tipo de direção política que nutre a interpretação e dirige a ideologia do que é.23 império pedrino e que subiste (e resiste) às mais diversas alterações no campo de outros direitos. portanto. a distribuição dos custos mas também dos benefícios decorrentes da lentidão da justiça. DESENVOLVIMENTO. Assim se compõe a oligarquia legal do Brasil. Por um lado. como a chamada “dignidade” da pessoa humana. inclusive dando-lhe conteúdo interpretativo próprio. 1983: 339. É preciso tomar em conta e submeter a análise sistemática outros factores quiçá mais importantes. quando se fala de processo hoje. que encontra na lei processual civil e nas direções básicas do Estado a sua capacidade de subsistência e eficiência. Estudos revelam que a distância dos cidadãos em relação à administração da justiça é tanto maior quanto mais baixo é o estrato social a que pertencem e que essa distância tem como causas próximas não apenas factores económicos. e enraíza-se na normatividade dos mais diversos campos: tributário. IV. não tem qualquer compromisso com a persecução da Justiça (a não ser a que ela mesma pressupõe: aquele que o rico detentor de riquezas inventou). mas também factores sociais e culturais. não se distancia da problemática instaurada pela sociologia.

E. Porto: Afrontamento. uma situação geral de dependência e de insegurança que produz o temor represálias se se recorrer aos tribunais. Introdução… idem. verifica-se que o reconhecimento do problema como problema jurídico e o desejo de recorrer aos tribunais para o resolver não são suficiente para que a iniciativa seja de facto tomada. Quanto mais baixo é o estrato sócio-econômico do cidadão menos provável é que conheça advogado ou que tenha amidos que conheçam advogados. 21. experiências anteriores com a justiça de que resultou uma alienação em relação ao mundo jurídico (uma grande reacção compreensível à luz dos estudos que revelam ser grande a diferença de qualidade entre os serviços advocatícios prestados às classes de maiores recursos e os prestados à classes de menores recursos). é necessário que a pessoa se disponha a interpor a acção. Boaventura de Souza Santos & Trindade. portanto. mesmo quando reconhecem estar perante um problema legal (…) dois fatores parecem explicar esta desconfiança ou esta resignação: por um lado. Caplowitz (1963). novembro 1986.) 1993. Podem ignorar os direitos em jogo ou ignorar as possibilidades de reparação jurídica. A questão é aprofundada e particularizada por Guaracy Rebelo. João Carlos (orgs. Os dados mostram que os indivíduos das classes baixas hesitam muito mais que os outros em recorrer aos tribuinais. nº 21. 20 e ss. p. Em terceiro e último lugar. já que para além das condicionantes económicas. Em outro texto. onde se relaciona jurisdição e justiça em âmbito nacional: “a problemática do direito à jurisdição não pode ser estudada nos acanhados limites do acesso aos órgãos judiciais já existentes. envolve condicionantes sociais e culturais resultantes de processo de socialização e interiorização de valores dominantes muito difíceis de transformar”. Não se trata apenas de possibilitar o Boaventura de Souza Santos. em continuação. 28 Boaventura. sempre mais óbvias. concluiu que quanto mais baixo é o estrato social do consumidor maior é a probabilidade que desconheça os seus direitos no caso de compra de um produto defeituoso. in Revista Crítica de Ciências Sociais. p. a ter mais dificuldades em reconhecer um problema que os afecta como sendo problema jurídico. como violação de um direito. por exemplo. menos provável é que saiba onde e como e quando pode contactar o advogado e maior é a distância geográfica entre o lugar onde vive ou trabalha e a zona da cidade onde se encontram os escritórios de advocacia e os tribunais”28. mesmo reconhecendo o problema como jurídico. por outro lado. 27 . explora os problemas que são gerados na práxis: “os cidadãos de menores recursos tendem a conhecer piro os seus direitos e. Conflito e Transformação social: uma paisagem das justiças de Moçambique (2 volumes). que trata justamente de processo civil e acesso à justiça. o mesmo autor ressalta: “o acesso à justiça é um fenómeno muito mais complexo do que à primeira vista pode parecer. Em segundo lugar. Introdução à sociologia da administração da justiça.24 possam estar mais ou menos remotamente relacionados com as desigualdades económicas”27.

a preocupação com a efetividade do processo. 9. Guaracy Rebelo. o sistema judicial se consolida justamente em seu fechamento democrático. Mas não é só. portanto. Ostestou os mesmos princípios. o sinônimo de elitismo: quando deveria ser o contrário. nº22. se reafirma no sistema judicial. A questão da justiça não se resume ao acesso representativo à jurisdição para solução do litígio. não se tem mostrado adequado aos fins a que se destina. o Código Buzaid não se viu temperado por novas premissas metodológicas como a visão crítica do sistema processual pelo ângulo externo. Nem mesmo foi satisfatória a reforma operada em 1973 com a edição do vigente Código de Processo Civil. E continua: “noutro passo. Isso faz com que a jurisdição se torne. modelo. Brasília. 9. Nisso reside verdadeiramente a sua natureza instrumental (…) todavia. 31 Souza Júnior. esgota a porosidade entre ordenamentos jurídicos hegemônicos e contra-hegemônicos constituídos e instituídos pela prática dos movimentos sociais. por mera causalidade. ambos os níveis se referem a uma mesma sociedade. Obra do seu tempo. José Henrique. jul/set 2003. José Geraldo de. p. burocrática. 29 . Para o referido autor. 30 José Henrique Guaracy… O processo… idem. e sim de viabilizar o acesso à ordem jurídica justa”29. aberto a todos.25 acesso à Justiça como instituição estatal. In R. O nível mais amplo do mesmo conceito se fortalece em espaços de sociabilidade que se localizam fora ou na fronteira do sistema de justiça. e animado pela doutrina de então. p. na qual se pretende o exercício constante da democracia”31. Direito como liberdade: o direito achado na rua. a universalização da tutela jurisdicional. o processo é o método obrigatório previsto na Constituição para a proteção e a realização do direito violado ou ameaçado de violação. ideologia e estrutura da lei que o precedeu. O nível restrito do acesso à justiça. O processo civil e o acesso à justiça. Contudo. metodologia. a preponderância dos interesses do consumidor dos serviços judiciários. 2008. o resultado dos processos cotidianos do processo não poderia ser outro senão fonte de elevada injustiça social. a preservação da tutela coletiva. na medida em que o seu conceito de acesso mina possibilidades de participação popular na interpretação de direitos. já que o esquema burocrático tende a fazer sobreviver em um litígio aquele que precisa da solução da questão para sua própria subsistente. Para José Geraldo de Souza Júnior: “considerando o nível mais restrito. Brasília. Tese de Doutorado. Experiências populares emancipatórias de criação do Direito. hermética e individualista”30. CEJ.

V. Todavia. principalmente gregas. que acaba relacionando boa parte dos elementos econômicos a uma estrutura conservadora. ou civilização de mesma procedência. de mesma tradição patriarcal. que tanto caracterizou a Grécia em seus tempos áureos. logo referido no início do trabalho. faz-se necessário compreender o panorama filosófico que dá a compreensão aos conceitos parciais de Justiça e processo. já que todas fundadas no culto aos mortos. agigantou-se.26 Em síntese. já referidos. ao invés de assegurar a igualdade entre as leituras interpretativas básicas da legislação. típico dessa época. a fim de que não fique sem uma resposta ou explicação mínima. . esse poder familiar de estrutura patriarcal. até que. V – FILOSOFIA: DISCURSO. trata-se da burocratização do sistema político. diante às revoluções nas cidades. Assim. e se saber o que era Roma ou Grécia. DIREITO E JUSTIÇA Das questões estabelecidas até agora. O reflexo de tal panorama da integração do poder na tutela estatal da jurisdição civil se dá na medida em que. como da sociedade e faz agir o poder político-econômico nas lacunas da lei. tanto dos membros entes da federação. advindo da legalidade jurídica brasileira. dá o engessamento da participação pluralista. voltada principalmente ao exercício político em praça pública. democrático (demos) e direto. foi perdendo espaço ao exercício político (polis).I. dessa tradição surge a primeira necessidade de racionalização dos elementos que cercam o homem. ao decorrer dos tempos. retomando-se o problema do pressuposto. SOFÍSTICA – RETÓRICA JURÍDICA Dos tempos arcaicos da história Ocidental é um tanto complicado extrair-se qual a origem dos costumes de cada povo. acentua a desigualdade entre o conservadorismo oligárquico e as demais ideologias jurídicas.

típica da necessidade renascentista de argumentação racional. desenvolta nos moldes atenienses.II.27 Para tanto. Daí se concluir que as palavras se tornaram o elemento primeiro para definição do justo e injusto. . a Grécia teve de aguardar um momento político. A maiêutica (forma argumentativa onde se procura provas os argumentos por um jogo de perguntas e respostas) socrática é coberta desse viés axiomático. quanto maior a relatividade dada às discussões. filosófica e ideológica. foi que possibilitou o incremento da retórica à destreza das funções públicas. que é capaz de fazer o homem radicar-se em meio aos homens. Pautada em princípios básicos da lógica. Contudo. Com efeito. A democracia grega. que se deu pelo estudo da Retórica. estão pejorativamente incluídos (por Sócrates e Platão) uma larga gama de pensadores e técnicos da palavra. donde se concluir que a herança da oralidade jurídica. por mais difícil que seja sua causa jurídica. uma escola realmente sofistica. social e cultural específico em que tais caracteres pudessem ser formados. suplantar as barreiras dos preconceitos sobre o justo e o injusto e demonstrar aquilo que aos olhos vulgares não é imediatamente visível. Estudiosos da estrutura basilar do discurso que dele se apropriavam para realizar a leitura da nascente formação política da época. menor a ética aplicável. uma vez que a técnica argumentativa faculta ao orador. qualquer proposição poderia ser legítima. aí encontra sua motriz essencial. V. preciso era o desenvolvimento do processo argumentativo. em meio à cidade. Cabe esclarecer que não havia uma pureza política-jurídica à época. e mais para atender interesses (pecuniariamente) se volta o direito. SÓCRATES E PLATÃO – MANIQUEÍSMO ÉTICO O pensamento socrático é profundamente ético. aos quais até hoje qualquer “acadêmico” necessariamente faz uso para configurar seu conhecimento. Jamais existiu. elaborados por Parmênides – que se traduzem pela aparência. opinião e retórica que se pode dar às coisas – acreditavam que a realização das coisas se dava na lógica construção do quanto era proposto. Sob a denominação comum de Sofista. econômico. contudo. Respeitados os princípios da lógica.

cabe à ética dizê-lo. por mais das vezes. observando-se. pela imprecisão que sempre se dá em pôr umas e outras coisas em categorias duais é o que dá graves conseqüências às atividades políticas.28 Além disso.III. A influência de Sócrates. que entende ser a ética. Para que a Justiça possa tomar forma específica. contudo. com as bases de seu mestre Platão. que quer dizer ao corpo cívico. o maior perigo. donde se equilibra situações abrangente a . A separação entre o bem e o mal. adquirido pelo hábito. Assim. através da mesótes. na pretensão ética-socrática que se encontra no liames do conceito de Direito é que se encontra. e a necessidade de categorização de elementos a um e a outro é típica de suas explanações. inclusive. ou seja. pelas palavras platônicas – negava a forma de exercício político de até então. e não por menos está repleto de alternativas à democracia. no campo ético. e é dessa necessidade que se pode extrair os caracteres da lei e da atividade jurídica. pode-se investigar e definir o justo e injusto. a primeira consiste na aplicação da justiça à cidade. Assim. não devendo nenhum invadir o campo do outro. Distingue ainda a Justiça política da doméstica. até os dias atuais. pelo prejuízo que dava às formas de argumentação sofistica. o pensamento de Sócrates – concretizado. uma regra social plenamente vinculada. certo e errado. ARISTÓTELES – BUSCA PELA JUSTIÇA Aristóteles buscou estabelecer o tema da justiça. a se ver. à ciência prática. definindo-a como virtude (como a temperança) e que seria um ramo do conhecimento voltado ao estudo do comportamento humano. bem em verdade. ou seja. verdade e mentira etc. Ele se lança na análise da Justiça em sua Ética à Nicômaco. e que de imensurável maneira influência a ética de todos os tempos. V. Contudo. quando se busca medir igualmente situação classificadas adversas (daí a balança da justiça). e um caractere demagógico e ideológico de manipulação de interesses. ser justo é praticar reiteradamente atos voluntários de justiça. a incluir a jurídica. está no maniqueísmo do qual se carrega o seu pensamento. desta forma. justo meio das coisas.

a discussão começa. Da capacidade do homem de ordenar. CRITICISMO KANTIANO E POSITIVISMO DE KELSEN Da Crítica da Razão Pura.IV. de Immanuel Kant. encantado. ao o juízo a posteriori. o homem e a sociedade. aqueles que apriorísticamente podem ser percebidos. há a divisão entre juízos diversos do homem. . à época.29 todo o corpo. variáveis pelo tempo e espaço. tentou exprimir em uma necessidade lógica (não apenas em um simples fato aleatório) um mandamento. Esse é o campo de conhecimento do homem. fosse por todos assim compreendida. a doméstica é aquela específica da família. V. através do intelecto. conclui. com as últimas formulações de Rousseau sobre o Estado. que este se torna contingente. herança do pensamento de Hume. julgar). por outro lado. os juízos são dialeticamente comunicáveis. a partir dele. Isso é o que chamou de imperativo categórico e. a qual Aristóteles jamais negou ser a constituição basilar da sociedade grega. de fazer uma lei que. sendo sobre todos. modificável e por isso indeterminável – é o conhecimento universal e necessário. diversas representações sob uma representação comum (isto é. ou seja. ou seja. há uma limitação de objetos a serem conhecidos racionalmente pelo homem. seria capaz o homem. A própria imagem da deusa Diké é contribuição de suas conclusões alinhadas. Além disso. Todavia. um apreciador das categorias e lógica aristotélicas. este homem de Königsberg. não precisam da experiência para ser compreendidos. para Kant. esse que detém as situações após a atenção ao empiricamente realizado. se pode sintetizar em boa parte a contribuição anteriormente dada. Com efeito. com a capacidade de análise que lhe foi típica e donde se pode extrair conclusões tão fantásticas. sendo impossível determinar quanto um realiza o outro na compreensão das coisas. que são os mesmos que podem ser conhecidos pela experiência. No século XVIII. Desta forma. uma norma moral que pudesse justificar toda a estrutura mandamental subsequente. tudo aquilo que pode ser percebido sem a participação da experiência – já que a experiência soma uma quantidade de fatores tantos. dentre as quais. é com Aristóteles que se dá o sentido sumário de justiça à política e o primeiro passo a disciplina jurídica.

que se empregam a favor ou contra o que é conforme a opinião aceita e que podem conduzir à verdade. O risco de sua teoria. Portanto. V. é muito complicado. é a extrema relativização dos valores. donde se instaura um diálogo. por Viehweg. que atualmente se compõe boa parte da prática jurídica hodierna. apesar da dialética gerada entre a priori e a posteriori. Através desta ressurreta está a antiga dialética grega (não confundir com a kantiana). tem-se a jurisdição civil como um de seus principais consequentes lógico. . Com efeito. que foi denominada positivismo. Por isso da tópica. e jamais como meios a outras coisas. há de se separar teoricamente aquilo que é conhecimento a priori.30 Destarte. Dentre os seus diversos componentes.V. que se possa querer que seja lei universal. onde. expresso pela máxima do IMPERATIVO CATEGÓRICO. Mas é na querência de análise do conhecimento apriorístico que surge uma escola purista. onde fosse possível a sua sistematização e a criação de um método para sua aplicação. conceituada como o método dos pontos de vista utilizáveis e aceitáveis em toda a parte. contudo. traduzido precisamente como tratar tudo como um fim em si mesmo. que separou o Direito da Justiça e procurou analisá-lo sob um prisma quase matemático. se a análise está na base da ciência – conforme o pensamento kantiano – a dialética está na base da prudência. passível a tanto. no sentido de um procedimento crítico. quando fala que a ética é um conhecimento a priori. duma sociedade maniqueísta pela ética socrática. não-modificável. que é a arte de trabalhar com opiniões opostas. a fim torná-lo sciencia. E o seu maior expoente nas academias jurídicas foi Kelsen. por ser o único universal e necessário. cujo mandamento é: agir com uma lei só. REDESCOBERTA DA TÓPICA (VIEHWEG) E NOVA RETÓRICA DE CHAÏM PERELMAN É do resgate do pensamento aristotélico. que é uma lei universal e necessária. confrontandoas. procura fundamentar a prática moral em uma lei que garanta absoluta igualdade aos seres racionais.

Assim. 1ª Ed. mas o sujeito pensante. pensar a estrutura kantiana fora do contexto em que se insere (iluminismo burguês) leva ao erro que se foi levado (e se insiste em cometer). legaliza-se nos devidos termos das prescrições estabelecidas para a ritualização dos atos de vontade das partes litigantes. não. àquela praticada na democracia grega. é evidente que são as pretensões científicas sempre contingentes. E agregado à ética socrática. e que encontra no aparato jurisdicional brasileiro. é que a exigência de neutralidade. evidente no purismo kantiano e pensadores a ele ligados.31 Chaïm Perelman. conforme entendida conceitualmente. . jurista belga. bem na verdade. não existe. 32 Dagnino. tão prejudicial à ciência nos dias atuais. de onde temos quase todos os fundamentos jurídicos contemporâneos. mas se constrói por uma escolha que advém da apreciação de fatos expostos e retoricamente sustentados juridicamente dentro da sistemática normativa da comunidade jurídica. p. Diante todo esse plano. nessa mesma linha. restringe o padrão investigativo. o veículo técnico da argumentação jurídica. de não reconhecer caracteres tão egoístas. lança questões fundamentais sobre o raciocínio jurídico. o pensamento de Perelman é a síntese e retorno à retórica. de onde tanto se fugiu e a qual se retornou. de onde elabora as seguintes questões: como se raciocina juridicamente? Qual a peculiaridade do raciocínio jurídico? Quais as características desse raciocínio? De onde extrai o juiz subsídios para a construção de uma decisão justa? Até onde leva argumentação das partes em um processo? Qual a influência que a argumentação e a persuasão possuem para definir as estruturas jurídicas? Desta forma. Renato. Desta forma. contudo. Neutralidade da ciência e determinismo tecnológico. Ele impede que a pretensão e necessidade de solução científica do investigador (que é muito mais essencial quando se trata de ciência política) sejam completas. como aponta Renato Dagnino32. o problema. tipicamente encontrados no sistema capitalista ou em qualquer outro sistema científico onde o determinismo governa. alterando em tempo e espaço. amplas. A estrutura das faculdades mentais permanecem as mesmas. ao alinhar-se em formas de um procedimento institucionalizado. Editora Campinas. do panorama histórico-filosófico da questão do Direito deve-se concluir que a verdade. à noção de justiça aristotélica e ao criticismo purista de Kant. 24 e ss. sempre trás o determinismo tecnológico. O dissenso.

quando se pode referir ao preparo orgânico das funções que eles exercem. cabe salientar que nos mais das vezes os repetidos problemas. O acesso à justiça em países ibero-americanos. em muitos casos. em uma ideia quase que fixa de se manter o Estado como fosse 33 Justiça: Promessa e Realidade. 1996. no artigo redigido por José Carlos Barbosa Moreira33. Editora Nova Fronteira. desde os problemas ideológicos. DESPERDÍCIO DE RECURSOS HUMANOS. . que nas mazelas da difícil administração do Estado brasileiro pouco têm a modificar. ainda.I. VI.32 VI – A ESTRUTURA ADMINISTRATIVA DO APARATO JURISDICIONAL BRASILEIRO Não obstante este trabalho versar sobre diversas manifestações e muitas outras acepções que podem ser dadas e distanciadas entre os conceitos de justiça e jurisdição. 35 e ss. 1ª Ed. ensejando a injustificável subsistência de comarcas de diminuto movimento. As dificuldades. enquanto esquema administrativo. Não é difícil compreender quão desfavoravelmente se refletem essas e outras mazelas no rendimento da máquina e na qualidade do produto”34. e com base numa publicação organizada pela Associação dos Magistrados Brasileiros. a falta de preparo técnico e dos próprios agentes do poder judiciário. por exemplo. como se patenteia. Portanto. de morosidade e falta de eficiência têm a sua razão estrutural. que presidem a divisão das circunscrições territoriais. e mais: os despreparos gerenciais. Associação dos Magistrados Brasileiros. com o óbvio desperdício de recursos humanos e materiais que noutras fazem falta. p. p. Org. de asseguridade do próprio luxo administrativo. 1996. Merece acento. a má gestão dos meios disponíveis. os magistrados. 34 Justiça: Promessa e Realidade… 1ª Ed. apesar disso. por exemplo. ou francamente irracionais. SUBSISTÊNCIA DE COMARCAS DE DIMINUTO MOVIMENTO. reclamados pelos próprios usuários do sistema judicial estatal e pelo senso comum. semelhantemente defasado. FALTA DE TÉCNICA PARA GESTÃO Segundo o mesmo texto. 42. há outros problemas a serem citados: “[há] critérios poucos racionais. pode-se elencar os seguintes elementos principais da má-equalização do sistema jurisidicional. das desfiguradas relações (e desiguais) entre eles e. no escasso interesse pelo emprego mais intenso dos modernos métodos e instrumentos tecnológicos.

não deixará de contunuar a verificar-se – contribui de maneira sensível. deveras. o que de nenhum modo nos autoriza a minimizar-lhe a gravidade. menos angustioso entre nós do que alhures. que a grande quantidade de demandas é exclusividade do brasileiro. 41. Basta recorrer a via processual (ou menos que isso) para percebê-lo.II. o que se busca quanto à efetividade da tutela jurisdicional é justamente que se tenha uma demanda crescente de processos com real capacidade de ser atendida. encara-se com grande otimismo a utilização crescente dos chamados meios alternativos de solução de litígios – por exemplo. e a indesejada e referida ineficiência no poder judiciário. AUMENTO DA DEMANDA É um tanto fatalista a visão geral que se tem sobre o aumento da demanda de processo. par ao entupimento dos canas judiciais e. Essa é. de fenômeno por assim dizer universal. muitas vezes (conforme já foi apontado). Em alguns países. Mas. Acha-se. O problema é evidente. ousaríamos ajuntar. com toda a probabilidade. De fato. registrando a aparência obsoleta das cortes do Brasil. amplamente. em consequência. como capazes de desviar para fora do aparelho da Justiça estatal parte não desprezível do volume de trabalho que onera e emperra. 1996. 35 Justiça: Promessa e Realidade… 1ª Ed. Cuida-se aliás. associado à cultura do litígio. A verdade. conforme aponta Barbosa Moreira: “o aumento da demanda – que. . VI. repita-se) e é o principal condão da ingerência atribuída ao poder público para solução de cada vez mais ações. contudo. Isso. faz com que haja pelo menos duas coisas: o prolongamento de demandas através dos mais diversos caminhos interpretativos de recursos.33 impávido às alterações tecnológicas. a conciliação extrajudicial e a arbitragem – vistos. põe em sério risco a manutenção das formas de Jurisdição. e sob certos aspectos. a consequência real da incessante complexização dos fatores produtivos.”35. afeta a diversos fatores da economia (o que não é exclusividade brasileira. gera uma estrutura administrativa inapta a resolver tais questões e acompanhar essas modificações. para a demora exagerada dos processos. não há dúvida. p. é uma só: o aparato jurisdicional não está preparado ao efeito crescente do aumento de demandas.

nos dias de hoje. Superabundância de normas O complexo normativo. 42. pp. p.1. por meio de uma série de projetos setoriais”36 E continua: “Não nos devemos embalar. Tal perspectiva tem a gravidade acentuada conforme se observa as feições ideológicas que coordenam a gestão legislativa em âmbito interno. COMPLEXO NORMATIVO vi. devido ao extremo conservadorismo da oligarquia brasileira e o método hermenêutico amplamente utilizado pelos atores do Poder Judiciário. 1996. O panorama é tal que repele escusas hipócritas e ilusões românticas. contraditórias – fios de um novelo diante do qual se arrisca a incorrer em pura e simples derrisão quem quer que se refira à clássica presunção de conhecimento da lei. e nem sempre será capaz de superá-las”37. coma falsa esperança de que meras alterações legislativas possam mostrar-se suficientes para curar todos os males. .34 VI. o nosso ordenamento jurídico sofre de incrível superabundância de normas. 36 37 Justiça: Promessa e Realidade… 1ª Ed. 1996. 42 e 43. Justiça: Promessa e Realidade… 1ª Ed. também tem sua parcela de culpa: “no plano substancial.III. As dificuldade existentes são enormes. mas vinte anos de aplicação revelaram também nele não poucos defeitos. frequentemente obscuras. Dos nossos códigos processuais.iii. equívocas. um – o de processo penal – é flagrantemente obsoleto (…) o Código de Processo Civil é obra louvável do ponto de vista científico. que se está tentando remediar em parte. porém.

Veja-se que não há a preocupação do legislador com a efetividade do processo. em propor uma visão mais ampla à efetividade da tutela jurisdicional. pela solução dos litígios. jamais se poderá almejar uma solução que acarrete. quem se responsabiliza. como fim último.2. 2º). da inércia jurisdicional (art. O uso exacerbado de veículos ideológicos.iii. dentro da própria sistemática capitalista. com as diversas alterações econômicas e políticas. para a manutenção da ordem. 131). sendo a maior parte dos princípios. em último grau. além de adaptações metodológicas. vi. que numa ordem progressista de governo é uma função premente para o desenvolvimento econômico e social do país. é a necessidade de redução da taxa de juros. portanto.35 vi. exceto em casos como o do juiz natural (art. o desenvolvimento nacional. decorrentes da interpretação doutrinária. Daí. quando se analisa a fonte de tal problemática. apuração e satisfação das obrigações é o judiciário. ou mesmo da égide constitucional de 1988. em uma visão eclética e não mais normativisma. não há uma preocupação e delinear os princípios que o regem. se tenha em vista a jurisdição como instrumento específico de dominação.iii. e as feições externas e internas que tais mudanças propiciaram. livre convencimento motivado (art. em última instância. pela compreensão da dialética que compõe a estrutura estatal. Os princípios processuais do CPC/73. ao decorrer da História. Ideologia positivista O acesso à tutela jurisdicional. Com uma sistemática que não possibilite a efetividade das questões creditórias. extremamente . Jurisdição civil como instrumento específico de dominação. 1º). A relação que se tem com o processo se procede pelo fato de que. deve-se fazer uma relação direta com o direito processual civil e economia. No Código de Processo Civil vigente.3. Um dos vários exemplos. Acesso à tutela jurisdicional. ao exemplo do ideal evolucionista do positivo (e que não se pode negar. Contudo. se verifica que o grande grau de inadimplentes no país está relacionado intrinsecamente à própria estrutura sócio-econômica do Brasil. não se esquiva da compreensão natural que.

o estado-jurisdição servindo. de justiça aplicada. ensejando o problema na implementação das hipóteses jurídicas na práxis. Mas jamais se deve desistir da tentativa de ampliação do que está apreendido. considerando o processo como um bem forçado sinônimo do que é justo? Como se pode ver. e a realidade. a pergunta permanece: por que se manter a mesma visão sobre Justiça. mesmo no “pacato” Brasil as coisas não ficaram em silêncio. da qual se distancia. resultado de uma visão aristocrática do que é Direito. o problema é mais complicado do que aparenta ser. o panorama econômico e histórico em que se insere o homem de hoje. São consequências sociais. De fato. não se deve deixar de fazer menção aos problemas anteriores à instituição da jurisdição: pressupostos ideológicos. como caractere moral. De todo o exposto. de história e estrutura produtiva (sem prejuízo de diversos outros fatores) que contabilizam em desfavor de uma compreensão de mais ampla do conceito e. Tal ideal não é de modo nenhum impossível. VII – CONCLUSÃO Diante todo esse quadro.36 romântica). afinal. Ninguém imagina. como um todo. Mas é a cabo de um discurso parcial. a técnica jurídica nacional. formas progressistas de compreensão da realidade política que cerca o país e. não a solução razoável da lei. na mediação de litígios. que tendem a limitar e fracionar o conhecimento. do coronelismo. todavia. que se pode apontar como fator principal para não persecução dos mais plurais e participativos ideais de Justiça. É antes de tudo defendido neste trabalho a ampliação do conceito de justiça para além do aparato estatal instituído. acabaram por propiciar um abismo entre as instituições normativas. O conhecimento será sempre parcial. a prática cotidiana. Durante a manutenção do estado de coisas. até mesmo. funcionais e econômicos. Há os que foram à . por exemplo. este conceito amplamente (e não restritivamente) compreendido. responsável pela inadequada concepção puramente tecnológica do direito. peca pelo motivo apontado: deu à ciência jurídica um determinismo. do grande industrial. bem como de seus veículos interpretativos. filosófico e social. Nem sempre e nem todos os oprimidos apanharam calados. mas a lei servindo como meio razoável à transformação social.

Mesmo nesse âmbito. E. eram praticamente insolucionáveis. a mudança do país. que mesmo dentro da ideia de republica platônica. muito que se aprender. No fundo. não se quer a destruição de toda a sistemática legal. que está na mão e na cabeça de muita gente que dirige o país. o menor.37 luta. que se deve mencionar. que conserva tudo aquilo que tem de mais podre. que se diz detentor da justiça. revolução armada ou xenofobia às oligarquias multinacionais. e que estão ali para ajudar a . caso fosse incentivada pelo poder público. pequeno. que são ministros (no seu sentido original: de ‘mini’. por exemplo. quis um país mais justo: ou pelo menos falou que queria…). São diversos os seguimentos que encontram proteção da lei civil para manter os mais diversos abusos e. falta é coragem. ao menos uma ordem progressista. contudo. que vise dar esperanças a um futuro mais igual. aquele que serve) e não maestros. os juízes. Falta o senso mínimo. a desta vigente Constituição. Coragem do poder público (e não qualquer poder público. que dirigem o país. antes de 1990. E não se faz menção. há muito que se fazer. no ramo das seguradoras). que abriu caminho e vem ajudando a educar cidadãos diante do gigantesco poder oligárquico industrial neste país. conforme o nicho de mercado em que se insere (por exemplo. Falta respeito à própria ideia de democracia que se defende. uma ideia que tem dado certo na prática e que. E não se deve ser ridículo de pensar que isso se faz sem o uso da força. mas a real adequação ao que persegue a Constituição Federal de 1988. dos mais altos ideais socialistas. há anos. Outra lei importante. de ver que não são os reis do mundo e saber. seria uma porta muito mais próxima à real pacificação social. Ideais confrontantes aos da aristocracia brasileira borbulham e fermentam. ao mesmo razoáveis e adequados. mas o poder público que lutou. por parte daqueles que deveriam ser guias de cegos. frente a abusos e violações que. conceitos jurídicos senão perfeitos. é o famigerado Código de Defesa do Consumidor. Basta ver. opera-se a injustiça nas nebulosidades de lei como força de máfia. a criação dos Juizados Especiais (nos moldes de hoje) em 1995. falta ao poder judiciário deixar de ser a casa dos mortos. aqui. Esses problemas (e até mesmo essa discussão) não existiriam caso a sistemática civil do país passasse por uma intensa reforma. Tão só se quer invocar a força política que já se conquistou. de fazer com tudo que tem algo mais igual. Mas cabe dizer: de uma força legítima. por outro lado. Coragem de lutar pelo que se acredita.

mas talvez essa seja uma das sínteses que não calam na História do Brasil. fazer o bem.38 realizar o mais belo padrão ético que aprendeu com o cristianismo. por qualquer segundo. que tem tudo para ser um país mais igual. Talvez tudo que se diga não alarme. solidário e isso tudo. justamente: justo. . a vontade de quem tem que fazer vontade de todos. sofrer o dano. única boa herança que resta ao ocidente: amar ao próximo.

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