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CENTRO UNIVERSITÁRIO AUGUSTO MOTTA — UNISUAM CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E APLICADAS CURSO DE DIREITO

DIREITO PENAL-UMA BREVE ANÁLISE DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE SEU CONCEITO HISTÓRICO

Por

Afonso Henrique de Miranda

Rio de Janeiro 2008

CENTRO UNIVERSITÁRIO AUGUSTO MOTTA — UNISUAM CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E APLICADAS CURSO DE DIREITO
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

DIREITO PENAL – UMA BREVE ANÁLISE DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE SEU CONCEITO HISTÓRICO

Trabalho acadêmico apresentado ao Curso de Direito da UNISUAM, como parte dos requisitos para obtenção do Título de Bacharel em Direito.

Por: Afonso Henrique de Miranda

Professor-Orientador: Marcelo Pires Branco da Costa Professor convidado: Professor convidado:

Rio de Janeiro 2008

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APROVADA em: ______ de ___________ de _______ Professor-Orientador: Professor Convidado: Professor Convidado: Rio de Janeiro 2008 3 .AFONSO HENRIQUE DE MIRANDA DIREIRO PENAL – UMA BREVE ANÁLISE DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE SEU CONCEITO HISTÓRICO Banca Examinadora composta para a defesa de Monografia para obtenção do grau de Bacharel em Direito.

Heloísa Helena. 4 . pelos sinceros estímulos que me deu e pela confiança depositada em minha pessoa. também.A Deus. Aos meus pais. À minha doce amada. inspirador-mor deste trabalho e Juiz perfeito. onipotente. pelos sentimentos de respeito e apreço por todo ser humano. filhos de Deus. onipresente e onisciente.

5 . (Graduação em Direito). Seu Conceito Histórico.1789.Uma breve Análise do Princípio da Legalidade. Afonso Henrique de. 2008.“A lei apenas deve estabelecer penas restritas e evidentemente necessárias. Rio de Janeiro. Centro Universitário Augusto Motta. e ninguém pode ser punido senão em virtude de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.artigo 8º MIRANDA.” Declaração Universal dos Direito do Homem e do Cidadão. Direito Penal .

nem pena sem prévia cominação legal”. arbítrio 6 . então.RESUMO O Princípio da Legalidade. resumir: o princípio da legalidade. com o intuito de transformar o Direito Penal. que é a de ter uma proteção contra qualquer forma de tirania e arbítrio dos detentores do poder. contido na norma “Não há crime sem lei anterior que o defina. Por séculos. proteção. no campo penal. e o Princípio da Legalidade surge para proteger o ser humano. o Direito Penal foi utilizado de maneira agressiva na conduta humana. 1º do Código Penal. representa uma mudança significativa no Direito Penal. num instrumento de terror. Podemos. exceto nas hipóteses previamente estabelecidas em regras gerais. não se unindo aquela realidade do passado. encontrada no art. sem o risco de ter a sua liberdade cerceada pelo Estado. Palavras-Chave: Legalidade. através da imposição de uma pena agressiva que não esteja de acordo com os artigos acima citados. da CRFB/88 e no art. 5º. porque tenta de todas as formas evitar o arbítrio e os desmandos do Estado. inciso XXXIX. abstratas e impessoais. corresponde a uma aspiração inicial e fundamental do ser humano.

..................................................................1 CARTA MAGNA 1..........................01 1 CONCEITO HISTÓRICO 1......................................31 REFERÊNCIAS......................................................................2 HABEAS CORPUS 2 EVOLUÇÃO DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE ATÉ O SÉCULO XX 3 CONSEQUÊNCIAS FUTURAS CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................SUMÁRIO INTRODUÇÃO......................................................34 7 ......................................................

através da obra do Marquês de Beccaria . que previa que nenhum homem livre poderia ser submetido à pena não prevista em lei local. Cesare Bonesana. no século XIII. quer dizer. Entretanto . Rousseau. senão em virtude de um processo legal efetuado pelos seus pares. podemos observar que . no final do século XVIII. seu conteúdo do poder estatal é o mesmo do Princípio da Legalidade. é na idade moderna que temos o nascimento propriamente dito do Princípio da Legalidade. intitulada: Dos Delitos e das Penas . o século das “luzes” e com a influência do Iluminismo. dá um impulso fantástico ao princípio. documento de natureza libertária imposto pelos barões ingleses ao rei João Sem Terra. 8 . de acordo com a doutrina. nulla poena sine praevia lege por Paul Anselm von Feuerbach. que viveu entre os séculos XVIII e XIX . que o princípio ganhou força e eficácia. e tal origem do princípio deve-se ao artigo 39 do referido documento. passando a ser aplicado com o objetivo de garantir segurança jurídica e conter o arbítrio. sendo considerado o pai do direito penal moderno. em 1764. com a Teoria do Contrato Social. diz-se também que tal princípio foi traduzido na conhecida fórmula em latim nullum crimen. em 1762. No entanto. surgiu pela primeira vez na chamada Magna Charta Libertarum. mais precisamente no ano de 1215. Mas.INTRODUÇÃO Pode-se afirmar que o princípio da legalidade é inerente à idéia de Estado Democrático de Direito e. que dizia que o cidadão só sairia de seu estado natural e celebrar um pacto para viver em sociedade. sendo então um instrumento limitador do poder penal do rei. Mesmo sendo a magna carta voltada para o sistema inglês chamado de commom law. que é incompatível com o da maioria dos países.

assim. Tal afirmação é a inequívoca influência de Rousseau em todos os espíritos pensadores da época. Voltando ao marques de Beccaria. portanto. salvo nas hipóteses previamente definidas em leis gerais. tais como o Bill of Rights.fez com que o Princípio da Legalidade fosse consagrado nos mais importantes documentos consagradores da igualdade entre os homens. em seu art. podemos afirmar que sua fórmula jurídica se molda com a observação que toda pena dentro do estado é a conseqüência de uma lesão jurídica. vindo também a constar da Constituição daquele país. O ideal de proclamação das denominadas liberdades públicas . será vinculado à existência de uma lesão jurídica determinada (nullum crimen sine poena legali). documento tal que surgiu com a eclosão da Revolução Francesa. como conseqüência necessária . ambas de 1776. e de uma lei que comine um mal sensível. dando ao agente prévio e integral conhecimento das conseqüências penais da prática delituosa e evitando. O Princípio da legalidade acabou consagrado na Declaração de direitos do Homem. cabendo a lei a tarefa de definir e não proibir o crime. fundamentada na preservação do Direito. o mesmo em sua obra descreve que as leis podem decretar as penas dos delitos e que a lei tem que determinar ao legislador esta autoridade. Então. em 1774. sendo então. através da obra de Feuerbach.8º. princípios inerentes ao princípio da legalidade: princípio da reserva legal e o da anterioridade da lei penal.segundo – a imposição de uma pena é condicionada à existência de uma ação incriminadora (nulla poena sine crimen).terceiro – o mal da pena .para representar toda a sociedade unida pelo contrato social. Daí decorrem os seguintes princípios: primeiro – toda imposição de pena pressupõe uma lei penal (nulla poena sine lege). 9 . objetivas e abstratas.se tivesse garantias mínimas contra o arbítrio. como também na Declaração de Direitos da Virgínia e a Constituição dos Estados Unidos da América. firmado na Filadélfia . Podemos definir seu conteúdo jurídico como a afirmação de que somente haverá crime quando existir perfeita interação entre a conduta praticada e a previsão legal. qualquer invasão arbitrária em seu direito de liberdade. de 26 de Agosto de 1789.

deu-se na Inglaterra medieval. seja homem ou mulher. espiritual e politicamente. Historicamente. 1. os seus direitos mais fundamentais e sagrados – os seus direitos pétreos.decorrendo então a fórmula final do princípio da legalidade que foi condensada na expressão nullum crimen nulla poena sine lege. pois. fraternidade e liberdade que a humanidade aspira. dessa maneira. milênios foram necessários para que a humanidade. de ser dono do seu próprio destino. é documento contraditório. Obviamente. de ter direito de ir e vir. 10 . sem medo de errar. organizasse moral. No entanto. Naquele preciso momento obteve-se a primeira medida. ser estudado. de ver respeitada a sua condição de homem livre e digno. formal e material.1 MAGNA CARTA O sentimento de liberdade. tudo isso nasce junto com o ser humano. mais precisamente no ano de 1215. contra os desmandos do poder absoluto. barões ingleses. podemos situar que o primeiro momento de afirmação jurídica do princípio da legalidade. nomeadamente no direito penal. a partir de então. sob certo aspecto. é princípio consagrador desse justo desejo de igualdade. à liberdade. passo a passo. há tempos e remotas eras. a pretensão maior de ver respeitados. fruto da audácia resoluta dos famosos. Podemos dizer. reafirma a substância do feudalismo. analisado e compreendido. trata-se de um documento medieval e deve. Conceito histórico 1. que o Princípio da Legalidade. de maneira definitiva. de que não houvesse injustiças praticadas contra o seu direito natural à vida. como dito. como também. a famosa “Carta Magna”. de dispor de si mesmo pela melhor maneira que lhe conviesse.

Criou impostos. igualmente. que só se divulgou em inglês no século XVI. porque o rei – devido a sua imprevidência política . Tudo o que deu origem ao dia 15 de junho de 1215 foi a incomensurável ganância do rei. absolutamente nada desprezível. O nome do rei era João sem Terra.uma fortuna imensa. pois achava que era necessário fortalecer o tesouro central para empreender novas guerras. Se o infeliz. A Carta Magna foi obtida. tinha conseguido perder dois terços de seus domínios na França. e os súditos adquirem o direito de insurgir-se. obviamente. aos barões ingleses. O rei deve respeitá-los. para completar. as lutas e guerras acabaram colocando o quinto filho no centro do poder. não estivesse em condições de pagar. e. Toda esta incompetência deu. Se ele os viola. Foi quanto ao mais. pelos barões ingleses. mas conseguiu. era atirado à prisão. no curso de 03 anos. mercadores e burgueses de grande parte dos bens e haveres dos mesmos. E. só lhe restava a província francesa da Aquitãnia (que herdara da mãe). o Papa Inocêncio III.acabara encontrando-se em situação de extrema fraqueza. Ao cabo de cinco anos. onde permanecia enquanto isso fosse do 11 . a certeza do momento certo para agir. os barões ingleses. este rei. travou contenda com um dos homens mais poderosos da época. que já não esperava mais ter outros filhos. pois antes do seu nascimento. direitos da comunidade. um documento tão pouco popular. Em pouco tempo. no entanto. dona de grandes possessões continentais européias.Existem leis do Estado. multas e confiscos. a fidelidade ao soberano deixa de ser um dever. Entendam-se como súditos. as contingências da vida medieval. entre os outros quatro filhos masculinos. negar justiça a todos. considerado um dos maiores estadistas que já sentaram no trono de São Pedro. o pai. João conseguiu acumular – esvaziando os cofres dos nobres e dos mercadores . ou uma multa. dividira seu império. que despojou barões. até então. maiores. a quem se impunha uma taxa. ao quinto e último filho não restara coisa alguma. tornando rei de uma Inglaterra. ao cabo de outros 03 anos.

alguns princípios fundamentais de justiça. eram plenamente razoáveis e equânimes. sem o consenso geral.agrado de sua majestade. alguns direitos dos feudatários sobre seus vassalos. a Carta Magna projetou seus efeitos muito além disso. por meio das armas. Posto isto bem claro. a toda tentativa de os pisotear e modificar. era encarcerado sem processo. a ninguém. nem vendida. Na Carta Magna ficou declarado: 12 . e reivindicava a ilegalidade de qualquer solicitação que lesasse tais direitos e que não houvesse recebido a sanção do chamado Grande Conselho do Reino.afinal chegamos ao dia 15 de Junho de 1215. Considerada a situação. no reino saxão. O documento afirmava. a justiça não podia ser negada. de maneira solene. ninguém poderia ser condenado sem o devido processo regular. foram restauradas as liberdades. ou da de um dos seus delegados. O documento afirmava. as solicitações expressas naquele documento não eram excessivas. que nem a coroa.e tomando-se conhecimento daquilo que os barões haviam sofrido durante tantos anos. nem outros institutos tinham o poder de pisotear leis e costumes. mas fixavam princípios para a governança do reino. mas aqueles que prepararam esse documento fizeram o possível para que. e estabelecia o direito de resistir. Por certo. também. ainda no caso em que o autor de tal tentativa fosse o próprio rei. e menos ainda de modificá-los. e o infeliz atingido pela ira do rei. e permanecia detido sem a menor possibilidade de defesa. Davam certeza ao rei que não havia espaço para transformações revolucionárias. constituíam princípios fundamentais e de acordo com as leis e os costumes de antiga data. nem transferida. Destinada a restituir as antigas liberdades a um povo que tinha sofrido por causas do desatino de um rei tirano ainda no trono. o documento fixava. tais liberdades não pudessem mais ser postas em perigo. esta deveria ser outorgada a todo e qualquer súdito do reino. devidamente reunido de acordo com as formalidades estabelecidas. ademais. enquanto sobrevivesse a nação.

e o mesmo não poderia cobrar taxas extraordinárias. Também obrigava a restituição de dinheiro e de bens ilegalmente auferidos. Mais tarde. que passam a serem senhores feudais amparados pela própria Carta Magna. a todas as pessoas livres do nosso Reino. 13 . e a Câmara dos Comuns ficou composta por eleição entre os pequenos nobres dos campos e burgueses ricos. responderia com seus bens pessoais pela desobediência. para si e para seus herdeiros.por nós e pelos nossos herdeiros. também. assim consentisse. Citemos o jurista Cláudio Brandão que assim resumiu a Carta Magna1: 1 Claudio Brandão. os direitos e privilégios fixados na Carta Magna continuam sendo defendidos firmemente pelo povo inglês.“Nós concedemos. a Câmara dos Lordes ficou formada pelos nobres e eram nomeados pelo rei com direito a hereditariedade. e tem sido reconhecidos pelo mundo inteiro como base das liberdades democráticas. para que eles as tenham e as conservem. Se o rei não cumprisse as determinações do magno documento que tinha força de lei. pág 26. todas as liberdades abaixo indicadas. 1ªed. que os camponeses ficaram beneficiados pela cláusula da Carta Magna que nenhum homem livre poderia ser preso sem julgamento e de acordo com a lei. Podemos dizer. Introdução ao Direito Penal. 2002. Quanto aos barões. Rio de janeiro: Forense. os seus direitos sobre os feudos seriam taxados “moderadamente” pelo rei. como recebidas de nós e de nossos herdeiros” Desde aquela época. a não ser se o Grande Conselho. o Grande Conselho foi transformado em Parlamento e dividido em dois. depois de convocado e ouvido pelo rei. e para sempre.

em que podemos afirmar como o início da preocupação humana em relação aos direitos individuais e da dignidade humana. Se não se pode afirmar que a Magna Charta exigia Uma lei anterior capitulando uma conduta como cri Me e imputando a ela uma pena (porque o direito Inglês é baseado no costume e no precedente judi cial). vem a noção e os fundamentos do que hoje chamamos de Habeas Corpus. e nós não procederemos nem mandaremos proceder contra ele senão mediante um julgamento regular de seus pares ou de harmonia com alei da terra” 14 .“É durante a época da baixa idade média que se promulga a Magna Charta. segundo a lei da terra. se A magna carta foi voltada foi voltada para o sistema Chamado commom Law.39 “ Nenhum homem livre será detido ou sujeito a prisão ou privado de seus bens. pode-se afirmar que a Magna Carta é um ins trumento limitador do poder penal do rei.sendo. no ano de 1215. Eis ai o gérmem do Principio da legalidade. o outro momento é o surgimento do Hábeas Corpus. A magna carta estabe lecia em seu art. ou exilado. Assim. portanto. era preciso que 2 Art.seu conteúdo limi tatitvo do poder estatal é o mesmo do Princípio da Legalidade” Eis ai um dos dois únicos momentos da história da humanidade até então. ou colocado fora da lei. 1.assinada pelo rei João sem Terra. ou de qualquer modo molestado. incompati vel com o da maioria dos países. também.2 HABEAS CORPUS É da Inglaterra que. Os antigos administradores saxões davam-se plenamente conta de que. para se obterem os melhores resultados na vida comunitária. 392 que nenhum homem livre poderia ser condenado senão em virtude de um pro cesso legal efetuado pelos seus pares.

Dizem os ingleses. ou quando era suspeito de havê-las violado. sua liberdade individual. Mesmo quando infringia as leis. e que lhe fosse concedido o benefício de um processo rápido. Quando este direito foi negado é que surgiram. o súdito podia pedir justiça ao rei. que é errado entender que a Carta Magna tenha dado origem ao procedimento conhecido sob a denominação de “mandado de habeas corpus”. O artigo 36 da Carta Magna trata especificamente deste ponto. assim. Uma das maiores queixas contra ele foi a de haver negado justiça a muitos de seus opositores recusando-lhes o direito de processo regular. estando a confiança fundada na proteção proporcionada ao indivíduo na comunidade. Isto se tornava particularmente necessário quando um indivíduo era preso por suspeita de crime. Com o desenvolvimento da Inglaterra e o surgimento da realeza surgiram as chamadas relações especiais do monarca com seus súditos. como o assassínio e o furto. os conflitos entre os reis e os súditos. era preciso.se resolvessem os conflitos com inteira satisfação de quem estivesse do lado da razão. Precisamente devido ao fato de o súdito ter o direito de recorrer ao rei para obter justiça. conservando-os encerrados na prisão. e violando. o súdito podia procurar a proteção do monarca. sob acusações arbitrárias e depois os mantiveram em condições de inofensivos. O primeiro exemplo importante desta espécie de tentativa de destruição à força dos opositores do trono ocorreu durante o reinado do Rei João. só assim se conseguiria permitir que a vida da comunidade se desenvolvesse em atmosfera de confiança. reduzir ao mínimo a desordem ocasionada pelos crimes. igualmente. para se livrarem de opositores ordenaram a prisão deles. por isto. uma vez que podia tratar-se de um inocente. rapidamente. negando-lhes a realização de processo. desde que não se colocasse à margem da lei. na 15 . era preciso que seus sofrimentos fossem reduzidos ao mínimo. a todo instante. automaticamente o rei era obrigado a não cometer injustiça para com o súdito. Esta última situação se verificou na história inglesa quando reis pouco escrupulosos.

Estes decretos não eram conhecidos pelo nome de habeas corpus. o indivíduo passou a possuir uma garantia bem definida de liberdade pessoal . o impetrante tinha de ser levado à presença do magistrado. em meados do século XVIII. o objeto do Habeas Corpus Act. ainda na chamada Idade Moderna. uma Petição de Direitos (Petition of Right ) que. o artigo 29 da Carta Magna. relativas a esta questão. pedia a cessação das prisões e das detenções ilegais. depois. como efetivamente surgido o Princípio da Legalidade. EVOLUÇÃO DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE ATÉ O SEC XX 2. quem se considerasse preso injustamente podia obter do lorde-chanceler. com o passar dos tempos. é o fato de que o mandado de habeas corpus devia ser emitido gratuitamente . embora na realidade produzissem os mesmo efeitos.1 IDADE MODERNA O jurista Cláudio Brandão define. no dia 26 de Junho de 1628. também. para que este julgasse sobre a legalidade ou ilegalidade da prisão. um decreto. políticas e econômicas 16 . o parlamento inglês apresentou ao rei Carlos I. ou de algum dos juízes do então tribunal inglês denominado King’s Bench.salvo em tempo de perigo nacional. e esta garantia foi adquirida.com provável exatidão. depois de muitas hesitações. As garantias de liberdade individual formaram. Afirma-se que. Em virtude desse decreto. já no reinado de Carlos II e podemos dizer que. prela primeira vez. a Petition of Rights e o habeas Corpus Act constituem três etapas formadoras do Princípio da Legalidade. nas clausulas da Carta Magna. 2. uma linha do tempo criada por historiadores. entre outras coisas. pelos países continentais europeus. e sim como mandados de ódio et atia. Em 1628.realidade. desde o século doze já vinham sendo emitidos decretos para impedir encarceramentos sem processo. O que os ingleses julgam importante.e não podia ser recusado. Com o Habeas Corpus Act. O rei acedeu ao pedido. votado pelo parlamento em 1679. para a partir de certos fatos históricos definir . as transformações sociais.

há a preocupação de sistematizar os princípios de um Direito Penal que respeite a dignidade da pessoa humana. a civilização ocidental. que representa toda a sociedade. a Europa. Introdução ao Direito Penal. Itália. tudo isto partindo de um pressuposto: o Princípio da Legalidade. “só as leis podem fixar as penas de cada delito e que o direito de fazer leis penais não pode residir senão no legislador. por tradição. Nascido em Milão. é de extrema importância. era uma família que comungava os interesses do papado. que sempre procuravam se acercar das ultimas novidades do saber filosófico. filho de família ligada a nobreza da cidade. e que. Beccaria. 1193. Beccaria transforma sua obra em um sistema que se baseia em três princípios considerados basilares: a legalidade dos crimes e das penas. Cesare estudou em colégio de jesuítas e ingressou na Universidade de Pavia. considera-se a sua obra como uma vertente da concepção iluminista francesa ao Direito Penal. não nega a forte influência que recebeu da filosofia francesa. o Marquês de Beccaria. por ele mesmo. autor de “Espírito das Leis”. unida por um contrato social”4 3 Claudio Brandão. a separação de poderes e utilidade do castigo. observar as características do autor e do ambiente onde ele viveu e trabalhou. pág 29. São Paulo. pela obra de Cesare Bonesana.por que passa a sociedade humana. intitulada “Dos Delitos e das Penas”. O autor foi influenciado pelos ventos liberais dos jovens intelectuais de Milão. mais precisamente em 1764. vindas do exterior. e por isso. especificamente de Montesquieu. 1ªed. Diz Beccaria que. Cesare Beccaria. Edipro. que tem por conseqüência ser o princípio que sustenta os demais. ou seja. Rio de janeiro: Forense. na qual estudou Direito. que para a boa compreensão da obra que inaugura o princípio da Legalidade. Apesar de ser considerada incipiente. fazendo com que o indivíduo se livre do uso arbitrário do jus puniendi por parte do poder estatal. 2002. berço de tal centro civilizado. mas. Surge o princípio3·. Diz o jurista. p.18 4 17 . Dos Delitos e das Penas. nomeadamente .

2. e por isso. As leis penais não devem ser cruéis porque essa crueldade é inútil. rei da Prússia. e ninguém pode ser punido senão em virtude de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada” A fórmula jurídica do Princípio da Legalidade se faz através de uma obra do jurista alemão Anselm Von feuerbach. nullum crimen sine poena legali. historicamente. o que foi seguido pelas ordenações de Frederico II.José II. Portanto. 18 . nulla poena sine crimine. revoltante. afinal. e . em prol da geral. que os homens sacrificaram uma parte da sua liberdade individual. datado de 1787. muito vêem uma influencia Rouseauniana. publicada em 1810. o Princípio da Legalidade foi incluído pela declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Diz o seu artigo oitavo: “A lei apenas deve estabelecer pena estrita e evidentemente necessárias. chamadas de Parte Geral do Direito da Terra e pelo Código Penal francês de 1810. que o código penal de D. rei da Áustria. O Princípio da legalidade é o meio eficaz para possibilitar que as pessoas da mais alta posição sejam punidas da mesma maneira que as pessoas da mais baixa classe. Também. é necessário. para que houvesse a irretroatividade da norma penal e a proibição de analogia.2. IDADE CONTEMPORÂNEA Em 1789. que as leis sejam equânimes e que devem dirigir todo o bem estar possível para a maioria. contrária a justiça.Beccaria sustenta. para que houvesse a proporcionalidade entre o crime e a pena. Afirma-se. mediante três fórmulas latinas: nulla poena sine lege. que se materializa na soberania da nação. denominada Lehrbuch dês gemeinem in Deutschland gultigen peinlinchen Rechts. odiosa. foi o primeiro a consagrar o Principio da Legalidade.

formulada por Feuerbach. assim. No entanto. fundamentada na preservação do Direito. o mal da pena . Portanto. Tem o Estado a finalidade de não permitir lesões jurídicas. devese recorrera lei penal. Baseado nisto ocorrem princípios que determinam: toda imposição de pena pressupõe uma lei penal (nulla poena sine lege).Isto significa que: toda pena dentro do estado é conseqüência de uma lesão jurídica. Toda lesão jurídica fere o objetivo do Estado e para evitar que isso aconteça. como conseqüência necessária. a imposição de uma pena é condicionada à existência de uma ação incriminada ( nulla poena sine crimen ). para tornar exeqüível e eficaz a união social. para Feuerbach. verifica a estreita relação que tem a finalidade da pena com a finalidade do próprio Direito Penal. O Estado é organizado. que cumprirá um papel de exercer uma coação de índole psicológica. Cláudio Brandão. e de uma lei que comine um mal sensível. pela adaptação desse elo a uma vontade comum. Advém dai a formulação científica do Princípio da Legalidade. diz mais: se o indivíduo conhece a lei e o mal que ela comina à lesão tenderá a refrear seus impulsos que o leva ao cometimento da ação lesiva. O autor. o elo de força e energia armazenados na mente dos indivíduos embasam os alicerces da sociedade civil. a lei exerce o papel central do Direito Penal. Feuerbach. de maneira condensada . em sua Teoria da Coação Psicológica. será vinculado à existência de uma lesão jurídica determinada (nullum crimen sine poena legali ). Em sua obra. e por conseguinte as três fórmulas foram reunidas. pois possibilita a concreção dos seus fins. de maneira constitucional. Feuerbach sustenta que. a lei penal produz uma coação psicológica que traz como conseqüência a intimidação dos sujeitos. diz que: 19 . na expressão: nullum crimen nulla poena sine lege. em conjunto com as leis do Direito.

coloca o ser humano não como um meio. 49. independente ou não de ser cidadão. ao delimitar o âmbito de atuação do estado na inflição da pena. porque garante que a potestade punitiva não seja usada de maneira arbitrária. o que significa o atingimento de direitos individuais da mais alta significação para o ser humano. RT. de ter ou não direitos políticos e. Rio de janeiro: Forense. desprezando o terror penal. valorizandoo em sua dignidade. a vida. pág. Quando o Direito reafirma esses direitos naturais. 2000. o patrimônio e. 2002. pois ele deve ser respeitado como pessoa.183 6 20 . independente de sua condição social ou pessoal. Ao fazer isto. Este é o papel da legalidade. é o Princípio da Legalidade que traça o limite divisor entre os dois direitos em jogo: os direitos pessoais de um lado e o direito de punir do estado de outro. o Estado quando aplica a pena. 1ªed. A essência do Princípio da Legalidade deve ser buscada na própria idéia atual do Direito Penal”5. que também pode ser chamado de Príncipe dos princípios. Os limites dogmáticos da Cooperação Internacional. retira do indivíduo direitos. São Paulo. Então. não permitindo o chamado “terror penal”. 5 Claudio Brandão. tornando o homem a figura central de todo o ordenamento Penal. Introdução ao Direito Penal. como diz Juarez Tavares ao afirmar que a dignidade da pessoa humana. Juarez Tavares. proteger os direitos pessoais ante ao jus puniendi do Estado. mas como o fim da própria ordem jurídica6 Podemos afirmar que a idéia de direitos inatos do homem é bastante antiga e decorre da sua própria natureza. p. não se pode estear a Legalidade na teoria da coação psicológica. introduz no Direito Penal a idéia maior de que este Direito penal se volte para o homem.“Hodienarmente. O Princípio da legalidade. o que significa que o Direito Penal é o instrumento que o Estado se utiliza para exercer seu jus puniendi. como a liberdade. Ele tem a função de garantir o indivíduo do próprio Direito Penal. Sem dignidade o homem tende a não sobreviver. de acordo com o país.

O exemplo disso está na chamada secção da Declaração de Direitos da Virgínia. rompendo com o terror. fazendo prevalecer a chamada dignidade humana. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS 21 . pela lei se protege o homem do próprio Direito Penal. por nenhuma forma. quando entram no estado de sociedade não podem. pois não pode. diz-se que em verdade ele passou a respeitar a dignidade da pessoa humana. de maneira alguma. que tem que se curvar a limitações da mais alta ordem.só faz dignificar ainda mais o homem. Quando se diz que o Direito Penal acolheu o Princípio da legalidade. O Princípio da Legalidade veio afirmar definitivamente que o jus puniendi do estado não é um poder absoluto. de 1776: “Todos os homens são por natureza igualmente livres e têm certos direitos inatos de que. nomeadamente o gozo da vida e da liberdade. privar ou despojar a sua posteridade. com os meios de adquirir ou possuir a propriedade e procurar obter a felicidade e a segurança”. ser utilizado de modo arbitrário ou cruel pelos detentores do chamado poder político. O Princípio estabelece que pela lei não somente se protege o homem das ações lesivas aos bens jurídicos.

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