You are on page 1of 4

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ – UFPI CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS – CCHL CURSO: DIREITO DIURNO DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA – DEFI

DISCIPLINA: INTRODUÇÃO À METODOLOGIA CIENTÍFICA PROFESSORA: MÁRCIA DAMASCENO

Resenha Crítica: Ciência: Conjecturas e Refutações
Eduardo de Sousa Bílio

Teresina, 2012

POPPER, Karl R. Ciência: conjecturas e refutações. IN: Conjecturas e Refutações. Brasília: Editora da UnB, 1980.

O texto trata-se de uma palestra proferida em uma Conferencia feita em Peterhouse em 1953, nela o autor escolhe a temática que está familiarizado de quando e como uma teoria se classifica como cientifica. Buscando uma distinção satisfatória entre a ciência e a pseudociência o autor é influenciado pela teoria da relatividade de Einstein que considera tenha contribuído muito para seu desenvolvimento intelectual, já as teorias da história de Marx, a psicanálise de Freud e a psicologia individual de Alfred Adler sente-se insatisfeito com o status cientifico de tais teorias, mesmo com a aparente capacidade de explicação de tudo em seus respectivos campos. Fazendo comparações entre as teorias de Freud e Adler, aponta que tais pensamentos possuem uma capacidade de confirmação na qual entende que todos os comportamentos humanos podem ser explicados, e percebe que essa força embora pareça algo positivo trata-se de mera aparência e consequentemente representa uma fraqueza para o desenvolvimento cientifico, pois a teoria que não pode ser refutada não é cientifica. Dessa forma toda teoria boa é uma proibição, quanto mais uma teoria proíbe melhor ela é. Popper encontra então a resposta, o critério que define o status científico de uma teoria é a sua capacidade de ser refutada ou testada. Como exemplos têm a teoria de Einstein que satisfaz nitidamente o critério da refutabilidade, mesmo sem instrumentos suficientes que permitiam ter uma certeza. A Astrologia não passou no teste, pois os astrólogos consideravam-se capazes de explicar qualquer coisa através de profecias. Segundo essa perspectiva o autor faz uma crítica aos seguidores de teorias, que em vez de aceitar as refutações, reinterpretam para fazêlas concordar entre si. Quase todas as teorias científicas se originam em mitos, um mito pode conter importantes antecipações de teorias científicas. O mito de Parmênides sobre o universo imutável é semelhante ao universo de Einstein que tudo está determinado e estabelecido desde o início. O critério da refutabilidade é a solução para o problema da demarcação, pois afirma que, para serem classificadas como científicas, as assertivas ou sistemas de assertivas devem ser capazes de entrar em conflito com observações possíveis ou concebíveis. O critério da demarcação é raramente compreendido, o autor publicou suas ideias treze anos depois, sob a forma de crítica ao critério de significação de Wittgenstein. A ideia foi utilizada por Wittgenstein para uma caracterização da ciência

em oposição à filosofia. Embora segundo essa visão haja uma coincidência de verificabilidade, do significado e do caráter científico, o autor nunca se interessou pelo problema da significação. A indução é um dos problemas fundamentais da filosofia da ciência que está intimamente ligado ao problema da demarcação. Através de Hume o autor avalia essa relação, pois a tentativa de justificar a prática da indução apelando para a experiência deve levar a um regresso infinito. Apesar de ser uma refutação da inferência indutiva clara e conclusiva tal explicação deixa o autor totalmente insatisfeito. Popper faz uma crítica da psicologia de Hume sobre três erros: o resultado típico da repetição; a gênese dos hábitos; e especialmente o caráter daquelas experiências e tipos de comportamento que podem ser descritos como acreditar numa lei, ou esperar uma sucessão ordenada de eventos. São tantos fatos empíricos como de natureza lógica que negam o apoio às ideias de Hume, pois o tipo de repetição imaginado por Hume jamais pode ser perfeito, os casos que ele expõe não são casos de similaridade perfeita, são apenas casos de semelhança. Como tentativa de substituir a teoria psicológica da indução pelo um ponto de vista de uma teoria baseada em processo de tentativas de Conjecturas e Refutações. A crença de que a ciência avança da observação para a teoria e de que o homem se dedicou durante toda a vida a ciência natural através de observações é ainda aceita tão firme no campo científico, mas rejeitada pelo autor. Para ele observação é sempre seletiva, exige um objeto, uma tarefa definida, um ponto de vista, um interesse especial, um problema. Se recuarmos a teorias e mitos cada vez mais primitivos, chegaremos finalmente a expectativas inconscientes e inatas. É claro que a teoria das ideias inatas é absurda; mas todos os organismos têm reações ou respostas inatas - entre elas, respostas adaptadas a acontecimentos iminentes. Podemos descrever essas respostas como expectativas. Nascemos, portanto, com expectativas, com um “conhecimento” que, embora não seja válido a priori, é psicológica ou geneticamente apriorístico – isto é, anterior a toda a experiência derivada da observação. Temos uma inclinação para procurar regularidades e para impor leis à natureza que nos leva ao fenômeno psicológico do pensamento dogmático ou, de modo geral, do comportamento dogmático. Esse dogmatismo é, em certa medida, necessário: corresponde a uma exigência de situação que só pode ser tratada pela aplicação das nossas conjecturas ao universo. Está claro que essa atitude dogmática que nos leva a guardar fidelidade às primeiras impressões indica uma crença vigorosa; por outro lado,

uma atitude crítica, com a disponibilidade para alterar padrões, admitindo dúvidas e exigindo testes, o que indica uma crença mais fraca. A atitude dogmática está claramente relacionada com a tendência para verificar nossas leis e esquemas, buscando aplicá-los e confirmá-los sempre, a ponto de afastar as refutações, enquanto a atitude crítica é feita de disposição para modificá-los, a inclinação no sentido de testá-los, refutando-os se isso for possível. Segundo o autor a atitude pseudocientífica é mais primitiva do que a científica, e anterior a ela: é uma atitude pré-científica. Esse caráter primitivo e essa precedência têm também seu aspecto lógico. Todas as leis e teorias são essencialmente tentativas, conjecturais, hipotéticas, mesmo quando não é mais possível duvidar delas. Antes de refutar uma teoria não temos condição de saber em que sentido ela precisa ser modificada. Sobre o problema lógico da indução, Popper afirma que a indução (inferência baseada em grandes números de observações) é um mito, não é um fato psicológico, um fato da vida corrente ou um procedimento científico. O método real da ciência emprega conjecturas e salta para conclusões genéricas, às vezes depois de uma única observação (conforme o demonstram Hume e Born). A observação e a experimentação repetidas funcionam na ciência como testes de nossas conjecturas ou hipóteses - isto é, como tentativas de refutação. As argumentações neste capítulo elevam o mérito de Popper e deixa contribuições importantíssimas para o campo científico. Diferentemente de outros autores, no qual aborda a mesma temática, Popper sobrepõe-se ao fato de tecer uma crítica tanto na corrente em que o mesmo se faz parte integrante quanto na corrente em que faz oposição. A Ciência não é capaz de dar uma explicação definitiva sobre algo, existem muitas coisas a descobrir, renovar e refutar. Entretanto embora a ciência não seja capaz de acertar nos resultados, ela é capaz de derrubar teorias que atrapalham o desenvolvimento científico. E esse deve ser o papel dos científicos refutar uma conjectura, assim como Popper que deixa evidente ser um ganho que a teoria aqui defendida por ele seja refutada, pois só assim está colaborando para o desenvolvimento da ciência e para a credibilidade dos teóricos no campo científico.