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EIXO DE FORMAÇÃO EM FUNDAMENTOS DO DIREITO

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revolução no processo de ensino e aprendizagem do Direito Dr. João Virgílio Tagliavini1

1ª Cena:
Coordenador de curso de direito: Senhores estudantes. O curso de direito está sofrendo uma reformulação. Será dada uma atenção especial ao eixo de formação em fundamentos do direito, com estudos nas áreas de filosofia e sociologia geral e do direito, ética geral e jurídica, economia, história do direito, psicologia judiciária, ciência política, direitos humanos... Estudante 1: Mas, isso vai cair no Exame da OAB e nos concursos públicos? Coordenador: Sim! O Provimento 136/2009 do Conselho Federal da OAB e a Resolução 75/2009 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinam que esses conhecimentos sejam exigidos nos seus exames. Estudante 2: Mas, eu vim aqui para estudar direito. Se quisesse aprender filosofia, sociologia, etc., eu teria ingressado em outro curso! Coordenador: O direito não se reduz aos códigos, leis, artigos, incisos, alíneas ou aos procedimentos forenses. O positivismo jurídico, que ficou consagrado como tradição no ensino do direito, sofreu influência decisiva do Código de Napoleão (1804) e da Escola da Exegese. Estudante 3: Mas, não é importante estudar o direito positivo? Coordenador: Sim, é imprescindível aprender o direito positivo, nas suas diversas manifestações. Mas, o positivismo jurídico é uma filosofia que coloca todo enfoque no direito positivado, menosprezando as demais dimensões da ciência jurídica. As Diretrizes Curriculares do Ensino do Direito e as novas exigências da OAB e do CNJ se propõem a corrigir essa limitação. É preciso, pois, superar uma tradição do direito que se ensina errado, no dizer de Roberto Lyra Filho, que assim esclarece:
O direito que se ensina errado que pode entender-se, é claro, em, pelo menos, dois sentidos: como o ensino do Direito em forma errada e como errada concepção do Direito que se ensina. O primeiro se refere a um vício de metodologia, o segundo, a uma visão dos conteúdos que se pretende ministrar2.
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João Virgílio Tagliavini é filósofo e sociólogo, doutor em educação, docente do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos, graduação e pós-graduação; foi coordenador pedagógico de curso de direito, professor de filosofia e sociologia geral e do direito e de metodologia científica; é líder do grupo de pesquisa da UFSCar, Educação e Direito na Sociedade Brasileira Contemporânea e um dos autores e coordenador da obra A superação do positivismo jurídico no ensino do direito, editado pela Junqueira&Marin Ed. 2 Roberto Lyra Filho, O direito que se ensina errado, Brasília, 1980. De Roberto Lyra Filho pode-se ler, também, com muito proveito, o pequeno livro, da coleção primeiros passos da Brasiliense, O que é Direito, onde há um forte questionamento dos paradigmas do Direito.

2 2ª Cena:
Professor 1: Na última reunião fomos informados que os Exames e Concursos Públicos exigirão conhecimentos nas áreas de fundamentos do direito. Poderia explicar melhor para nós? Coordenador: O artigo 6º do 136/2009 da OAB diz:
O Exame de Ordem abrange 02 (duas) provas, compreendendo os conteúdos previstos nos Eixos de Formação Fundamental e de Formação Profissional do curso de graduação em Direito, conforme as diretrizes curriculares instituídas pelo Conselho Nacional de Educação, bem assim Direitos Humanos, Estatuto da Advocacia e da OAB, Regulamento Geral e Código de Ética e Disciplina, além de outras matérias jurídicas, desde que previstas no edital, a saber: [...] § 1º A prova objetiva conterá 100 (cem) questões de múltipla escolha, com 04 (quatro) opções cada, devendo conter, no mínimo, 15% (quinze por cento) de questões sobre Direitos Humanos, Estatuto da Advocacia e da OAB, Regulamento Geral e Código de Ética e Disciplina, exigido o mínimo de 50% (cinquenta por cento) de acertos para habilitação à prova prático-profissional.

Professor 2: Qual o conteúdo exigido no Eixo de Formação Fundamental, nas Diretrizes Curriculares? Coordenador: O inciso I do Artigo 5º da Resolução 09/2004 do CNE determina que o:
Eixo de Formação Fundamental tem por objetivo integrar o estudante no campo, estabelecendo as relações do Direito com outras áreas do saber, abrangendo dentre outros, estudos que envolvam conteúdos essenciais sobre Antropologia, Ciência Política, Economia, Ética, Filosofia, História, Psicologia e Sociologia.

Professor 3: E o que diz em detalhes o CNJ sobre os conteúdos dos concursos públicos? Coordenador: O Anexo VI da Resolução 75/2009 explicita os conteúdos a serem exigidos como Noções gerais de direito e formação humanística:
A) SOCIOLOGIA DO DIREITO 1. Introdução à sociologia da administração judiciária. Aspectos gerenciais da atividade judiciária (administração e economia). Gestão. Gestão de pessoas. 2. Relações sociais e relações jurídicas. Controle social e o Direito. Transformações sociais e Direito. 3. Direito, Comunicação Social e opinião pública. 4. Conflitos sociais e mecanismos de resolução. Sistemas não-judiciais de composição de litígios.

Eixo de formação em fundamentos do direito – João Virgílio Tagliavini São Carlos 2010

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B) PSICOLOGIA JUDICIÁRIA 1. Psicologia e Comunicação: relacionamento interpessoal, relacionamento do magistrado com a sociedade e a mídia. 2. Problemas atuais da psicologia com reflexos no direito: assédio moral e assédio sexual. 3. Teoria do conflito e os mecanismos autocompositivos. Técnicas de negociação e mediação. Procedimentos, posturas, condutas e mecanismos aptos a obter a solução conciliada dos conflitos. 4. O processo psicológico e a obtenção da verdade judicial. O comportamento de partes e testemunhas.

C) ÉTICA E ESTATUTO JURÍDICO DA MAGISTRATURA NACIONAL 1. Regime jurídico da magistratura nacional: carreiras, ingresso, promoções, remoções. 2. Direitos e deveres funcionais da magistratura. 3. Código de Ética da Magistratura Nacional. 4. Sistemas de controle interno do Poder Judiciário: Corregedorias, Ouvidorias, Conselhos Superiores e Conselho Nacional de Justiça. 5. Responsabilidade administrativa, civil e criminal dos magistrados. 6. Administração judicial. Planejamento estratégico. Modernização da gestão. D) FILOSOFIA DO DIREITO 1. O conceito de Justiça. Sentido lato de Justiça, como valor universal. Sentido estrito de Justiça, como valor jurídico-político. Divergências sobre o conteúdo do conceito. 2. O conceito de Direito. Equidade. Direito e Moral. 3. A interpretação do Direito. A superação dos métodos de interpretação mediante puro raciocínio lógico-dedutivo. O método de interpretação pela lógica do razoável.

E) TEORIA GERAL DO DIREITO E DA POLÍTICA 1. Direito objetivo e direito subjetivo. 2. Fontes do Direito objetivo. Princípios gerais de Direito. Jurisprudência. Súmula vinculante. 3. Eficácia da lei no tempo. Conflito de normas jurídicas no tempo e o Direito brasileiro: Direito Penal, Direito Civil, Direito Constitucional e Direito do Trabalho. 4. O conceito de Política. Política e Direito. 5. Ideologias. 6. A Declaração Universal dos Direitos do Homem (ONU).

Professor 1: Mas isso significa uma reestruturação completa do curso de direito! Coordenador: E isso vai demandar um processo de formação continuada do corpo docente e discente e a criação de novo paradigma de ensinar e aprender direito.

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3ª Cena:

Coordenador de empresa encarregada de elaborar prova de concurso: Solicito que os senhores apresentem as questões para a área de conhecimento correspondente ao Eixo de Formação Fundamental. 1ª Proposta de teste: Naturalidade de Hans Kelsen: a) Austro-húngaro b) Alemão c) Americano d) Austríaco 2ª Proposta: Morava numa barrica ao lado do seu cão, o filósofo grego: a) Hermógenes b) Protógenes c) Diógenes d) Pantógenes Observador externo: Este é um absurdo a que se pode chegar na elaboração de testes em atendimento às novas exigências da OAB e dos Concursos para a Magistratura. Talvez fosse mais interessante trabalhar com a metodologia adota para o ENADE, que exige mais raciocínio, capacidade de leitura e interpretação, espírito crítico e criativo, enfim, os objetivos traçados para a educação pela LDB. Vejam um exemplo da prova de Direito:
QUESTÃO 12: A História registra imagens da vivência de índios e negros no Brasil e de suas relações com o conquistador europeu. A esse propósito, assinale a alternativa que confirme a assertiva de que a história não deve ser vista “...só como ciência do passado (...), mas como ciência do presente, na medida em que, em ligação com as ciências humanas, investiga as leis de organização e transformação das sociedades humanas” HESPANHA, Antonio M. História das Instituições. Coimbra: Almedina, 1952. A) A questão dos índios e negros é superada na História do Brasil, pela Proclamação da República. B) A ordem jurídica liberal democrática permitiu ascensão dos negros e dos índios na sociedade brasileira, como demonstram as ciências humanas. C) A demarcação de reservas indígenas é acontecimento recente, que não deve ser associado a elementos históricos. D) O reconhecimento da titularidade das terras aos remanescentes de quilombos inscreve-se no processo histórico das transformações das sociedades humanas. E) A ordem jurídica é fenômeno autônomo que não se contamina com a dinâmica social e histórica.3

Participante: Mas o ENADE teve diversas questões anuladas...

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Ver o gabarito e todas as questões em: http://public.inep.gov.br/enade2009/DIREITO.pdf
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Observador: Também entendo que seja necessário ter mais cuidado na formulação de provas que envolvem tantos estudantes. Porém, é importante observar que é mais fácil fazer testes objetivos com respostas inequívocas, como nas duas propostas acima. Não haverá recursos, mas também não servirão para medir nada. Poderíamos retomar e atualizar a Taxonomia de Bloom4 no domínio cognitivo para tomarmos decisões em relação à avaliação. Do primeiro ao último degrau, aumenta-se o grau de complexidade do que se espera de um processo avaliativo:
1. 2. Reprodução: Verifica a capacidade de recuperar os dados gravados na memória ativa da maneira como foram apreendidos. Compreensão: Exige interpretação do material fornecido pelo examinador, demonstrando ter entendido os conceitos e suas relações com o TODO. Deste nível para cima já se exige a memória permanente. Análise: Verifica a capacidade de decompor a totalidade e reorganizá-la de forma criativa. Síntese: Verifica a capacidade de dizer com as próprias palavras o que foi aprendido, de maneira resumida, sem perder o essencial nem distorcer seu conteúdo. Aplicação: Verifica a capacidade de relacionar os conceitos com a realidade concreta. Avaliação: Verifica a capacidade de julgar ou emitir juízos de valor diante de situações expostas. Criação: Verifica a capacidade de questionar e ir além, propondo um novo modo de compreender e de fazer as coisas.

3. 4.

5. 6. 7.

As avaliações, em geral, ficam no primeiro degrau da escada do processo de avaliação. Estamos ainda longe de uma compreensão desse processo. É preciso saber como se aprende para saber como se ensina. Isso leva à questão dos objetivos para se saber como se avalia. Há todo um compromisso político a ser assumido e uma capacidade técnica a ser aprendida. Num belo texto autobiográfico, Gramsci faz a crítica de certo tipo de avaliação:
Lembro de um pobre menino que não pudera frequentar os doutos bancos da escola de sua região por ser de saúde franzina e que, mesmo assim tinha se preparado sozinho para o exame tão modesto de admissão. Mas, quando amendrontado se apresentou ao mestre, ao representante da ciência oficial, para entregar o requerimento, escrito com a mais bela caligrafia para bem impressionar, este, olhando através de seus óculos científicos, perguntou carrancudo: Sim, está bem, mas você acredita que o exame é assim tão fácil? Conhece, por exemplo, os oitenta e quatro artigos do Regimento? [... Fazendo uma homenagem à Luz que se apagou, o professor Renato Serra que acabara de falecer, e a Francesco De Sanctis, depois de compará-los a Francisco de Assis em oposição ao teologismo doutrinário da escolástica, Gramsci continua dizendo:] De Sanctis não é desses: não pergunta a alguém de boa-vontade se conhece os 84 artigos do Regimento; ao contrário, quando vê um rosto amedrontado, quando vê alguém muito humilde retrair-se quase assustado por muito ter ousado, dele se aproxima, quase diria que o toma pelo braço com expansividade toda napolitana, o guia e lhe diz: “Veja: o que achava difícil não é, e vale a pena ser lido. Pula de uma vez essa cerca. Deixa que outros maxilares sangrem suas gengivas roendo aqueles espinhos de cerca [...] [E conclui o artigo de forma belíssima]
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Na década de 1950, sob a liderança de Benjamin Bloom, especialistas de várias universidades dos EUA que estudaram as possibilidades de aprendizagem, dividindo-as em três domínios: cognitivo, afetivo e psicomotor. No domínio cognitivo, que nos interessa no momento, foram consideradas habilidades de conhecimento, compreensão e do pensar sobre um problema ou fato.
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Cessa nossa adoração pelas obras complicadas, arquitetonicamente complexas e prestamos mais atenção às ligações de sons que há entre palavra e palavra, período e período. A exclamação de um carroceiro apresenta, muitas vezes, para nós tanta poesia quanto um verso de Dante. Não caiamos no ridículo exagero de afirmar que este carroceiro é tão poeta quanto Dante, mas alegremo-nos em sentir em nós a possibilidade de sentir a beleza onde quer que esteja, em sentirmo-nos libertos dos proibitivos preconceitos escolásticos que nos faziam medir a poesia em metros cúbicos e em quilogramas de material impressso [...]5

Epílogo?
Dos fragmentos à totalidade, no poder das imagens.

Gabinete antropomórfico de Salvador Dali

É um projeto pedagógico de curso de direito fragmentado aquele que:
1. 2. 3. 4. Um projeto pedagógico com grade curricular que divide as matérias em Direito Civil, Penal I, II, III, etc., seguindo os índices dos códigos; Um curso em que não há diálogo interdisciplinar entre os docentes e discentes; Um curso cujo processo de avaliação não ultrapassa o primeiro degrau da taxonomia de Bloom, exigindo apenas a reprodução do que foi ensinado por um professor que sabe a um aluno que não sabe; Os conteúdos essenciais do eixo de fundamentos transformam-se em disciplinas isoladas, ensinadas no início do curso, com finalidade propedêutica e como mero instrumento para a suposta aprendizagem dos conhecimentos profissionalizantes e práticos.

Esta lista, que pode ser bastante ampliada, é expressão do gabinete antropomórfico de Dali: os pontos de cada aula são colocados em gavetinhas estanques, sem conexão e, portanto, sem permitir o mergulho no mundo do conhecimento.

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Assinado: Alfa Gamma, Il Grido del Popolo, nº 591, de 20 de novembro de 1915, com o título de A luz que se apagou, extraído de Cronache Torinesi, G. Einaudi Editore, 1980; 23-26, Tradução de Newton Ramos de Oliveira e revisão de Paolo Nosella.
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Galateia de Salvador Dali6

O que fazer para substituir o gabinete antropomórfico pela Galateia? Só um longo e permanente processo de formação docente e discente, fundamentado na abertura para o diálogo e para a aprendizagem, permitirá avanços e ousadias nos cursos de direito.

Contatos com o autor: joaofederal@gmail.com

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As possibilidades de leitura dessa obra ficam em aberto para que o leitor dê continuidade a este texto.
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