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Nesse sentido. No cenário acadêmico encontram-se estabelecidas. com reconhecida historicidade e representatividade.ISSN da publicação: ISSN 2175-6880 (Online) Anais do Evento 2010 Volume 15 Trabalhos apresentados no Grupo de Trabalho 15 – Estudos Socioculturais do esporte Coordenadores: Prof.ufpr. várias Associações que agregam seus pesquisadores e divulgam sua produção. econômicas. Asociación Latinoamericana de Estudios Socioculturales del Deporte (ALESDE). Dr. pretende-se aglutinar um número significativo de trabalhos consistentes nessas áreas e consolidar os estudos socioculturais do esporte. passível de análises em abordagens históricas.seminariosociologiapolitica. políticas. sociológicas. etnográficas entre outras. (UFPR) Gilmar Francisco Afonso Juliana Vlastuin Ricardo João Sonoda Nunes Ementa: Este grupo de trabalho atua com o entendimento do esporte como um fenômeno sócio-cultural contemporâneo e polissêmico. antropológicas. ampliado em suas perspectivas e possibilidades.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . entre outras. filosóficas. a European Association of Sport Sociology (EASS). Wanderley Marchi Jr. 1 Anais do Evento www. tal qual a International Sport Sociology Association (ISSA).

técnica. quanto à racionalidade que preside ao seu emprego em termos de funcionalidade e eficiência (GALIMBERTI. CORPO. masculino X feminino. Para ampliar os limites humanos. que no seu conjunto compõem o aparato técnico. 2005. Num segundo momento. o universo biotecnológico assumirá as intervenções para potencialização dos corpos e diminuição de suas imperfeições. natureza X humanidade). Utilizamos o campo esportivo para mostrar a possibilidade de rupturas na condição atual do corpo. esporte. apontamos o esporte como um campo possível de visibilidade dos investimentos técnicos na produção de corpos que beiram o pós-humanismo em função de investimentos das novas tecnologias. Dessa forma. pós-humano 2 Anais do Evento www. Concluímos o artigo.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . 2000. 2004). num primeiro momento. ocasionando. diluem as fronteiras entre o humano e o técnico. Para cumprir tal tarefa. refletimos sobre a penetração de inovações tecnológicas no campo do esporte. refletindo sobre como esse elemento pós-humano pode desumanizar a humanidade. discutimos teoricamente a técnica entendendo-a tanto como universo dos meios (as tecnologias). HARAWAY.TÉCNICA. reconstituir e até melhorar as condições ‘originais’ do corpo humano. afetando a condição humana e colocando-a em segundo plano. terreno fértil de investimentos técnicos. e que. Ou seja. Entendendo o esporte como um espaço destinado à materialização no corpo de técnicas que vislumbram a produção de práticas adulteradas de desempenho. LIMA. Partindo de análises em revistas de divulgação científica.ufpr. como o “indivíduo tecnologizado” (ADORNO. revolucionando nosso entendimento de corpo e de ser humano. sobre as intervenções tecnológicas aplicadas aos corpos para o melhoramento de suas performances no campo esportivo. Palavras Chave: corpo. possivelmente. o desaparecimento de tradicionais oposições binárias (humano X técnico.seminariosociologiapolitica. 1999). apontando para o que alguns autores vêm chamando de pós-humano (SANTOS. ESPORTE: O pós-humano como horizonte possível Viviane Teixeira Silveira e Carmen Silvia Rial RESUMO Propomos debater neste artigo. trazemos exemplos de como o avanço da tecnologia vem criando condições de reconfigurar. 1995) cujos modos de agir estão em sintonia com o poder tecnológico gerado pela ciência pode tornar-se objeto e instrumento para os fins das tecno-ciências.

CORPO. pelos movimentos de liberação sexual. vividich@gmail. as quais consideramos de suma importância para pensarmos uma concepção de corpo não essencialista. atuando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas. da historiadora Denise Sant'Anna. a seguir pela proliferação das colônias de lazer. mestre em Educação/UFPR. as diferentes tendências da moda. do escotismo e da emergência das férias pagas. ESPORTE: O pós-humano como horizonte possível Viviane Teixeira Silveira1 e Carmen Silvia Rial2 INTRODUZINDO O DEBATE: SERÁ O CORPO OBSOLETO? As intervenções realizadas sobre o corpo estão intimamente relacionadas às suas sucessivas redescobertas: estamos constantemente redescobrindo o corpo. a massificação da pornografia e. pela expansão do cinema.TÉCNICA.seminariosociologiapolitica. a autora ressalta as diferentes configurações históricas que o corpo moderno/pós-moderno vem assumindo nas últimas décadas e observa que. Ao longo do século XX. o corpo foi redescoberto pelo higienismo redentor e pelos combates contra a suposta degenerescência das raças. por exemplo. porque ela deixa claro certas questões referentes ao corpo moderno. o advento da biotecnologia (SANT'ANNA. Optamos por iniciar a escrita deste artigo com a passagem do texto "Descobrir o corpo: uma história sem fim". enfim. e uma subjetividade para além dos discursos duais que separam corpo/mente.com 2 Professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina. pelos novos ritmos musicais.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . Seguindo a perspectiva foucaultiana. 2000. diferente Licenciada em Educação Física/UFPel. 50).ufpr. corpo/alma. Doutoranda no Programa de PósGraduação Interdisciplinar em Ciências Humanas – Área de concentração Estudos de Gênero/Bolsista CAPES. p. mais recentemente. depois pelas seduções da publicidade e da televisão e. 1 3 Anais do Evento www.

2003). são meras máquinas. robóticas e 3 Segundo RUEDA (2003). o organismo determinava o essencial da vida do homem. Para mais. o imprimem regras. que não são somente lingüísticas. Para Foucault.seminariosociologiapolitica. Portanto. conjuntos de engrenagens. entre outras. de 1748. ressignificado. atualizado pelos descobrimentos das novas tecnologias. bem como os animais. está localizada nos laboratórios tecnológicos e. entretanto. de discursos políticos. os discursos são práticas sociais. un discurso es algo más que el habla. biotecnologias. 4 Anais do Evento www.daquilo que pressupõem certos discursos mais ingênuos. tais como: medicina. y como para otra práctica social cualquiera. o corpo acaba sendo resultado de diversas intervenções e discursos3 que. por um ideal de corpo. os homens. algo más que un conjunto de enunciados. explorado) em diferentes áreas do saber. 2004). ver: Rueda (2003). Essa mudança de paradigma tem ocupado o centro do debate contemporâneo relativo ao corpo. 4 A expressão “homem-máquina” é título de uma obra do médico Julien Offray de La Mettrie. tem propiciado cenários inusitados no que concerne às possibilidades de transformações tecnológicas do corpo (LIMA. o corpo moderno nunca foi esquecido e. livres de qualquer substância espiritual.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . rupturas. Mais do que estudado. são constitutivas de um dado contexto histórico constituindo os objetos de que falam. são destituídos de alma. Para La Mettrie. afirmando que os homens eram muito parecidos com os animais. a procura pelo “homem novo”. não mais. nas relações sociais (ROUANET. o autor radicaliza as posições de Descartes quanto ao corpo humano. psiquiatria.ufpr. cada vez mais. possibilidades. vislumbraremos que os corpos são passíveis de modificações genéticas. Em o “homemmáquina”4. engenharia genética. permanece incessante. Se formos buscar na história as concepções de corpo elaboradas pela ciência tradicional veremos que alguns pressupostos ainda permanecem desde o século XVIII. Atualmente. vem sendo alvo de interesses acadêmicos e científicos. El discurso es una práctica. tendo a busca pela felicidade lugar no bom funcionamento do corpo. por muitas vezes. pedagógicos e de políticas de governabilidades. sendo meras máquinas sem nenhuma substância espiritual. pedagogias. Neste livro. impulsionada por desenvolvimentos científicostecnológicos mais recentes em campos diversos. A atual aceleração tecnológica. se pueden definir sus condiciones de producción”. “Para Foucault. As teorias contemporâneas assinalam que o corpo tornou-se objeto de estudo (invadido. mas sim. Se analisarmos como as novas tecnologias têm conseguido modificar o corpo humano sob muitos aspectos. desprovidos de alma.

onde estariam mesclados natureza e técnica. entre o masculino e o feminino. Uma pesquisa feita por GOELLNER e SILVA (2007)7. pâncreas portátil. No artigo mencionado. educadores e filósofos anunciam tão veementemente a morte do corpo humano. como na contemporaneidade. 7 No Brasil. biologia celular. seu autor tem como objetivo identificar enunciados que sugiram rupturas na condição atual do corpo ou que acenam para uma nova formação discursiva no campo acadêmico ou na mídia (lugares de produção e proliferação desses discursos). Para mais. uma reportagem denominada “Na oficina” cita alguns exemplos de novas tecnologias que permitem “restaurar – ou mudar – nosso corpo” (p. carne e artefato? Para aprofundar este debate consultar o artigo: GOELLNER. braço elétrico. cientistas. no qual um ser 5 Na tese intitulada “Do corpo-máquina ao corpo-informação: o pós-humano como horizonte biotecnológico”. de modificações genéticas ainda na fase de gestação e processos de clonagem. no campo esportivo. entre outras6. robótica. entre outras. Será o pós-humanismo? Anunciando uma necessária substituição do corpo por técnicas mais “inteligentes”. corpo e máquina. o corpo humano já foi relegado a um segundo plano nas filosofias dualistas e mecanicistas. O corpo passa a ser banalizado podendo ser consumido por meio de compras de órgãos. Existe hoje. 6 Na Revista Época de fevereiro de 2010. 5 Anais do Evento www. em nenhuma época. o corpo é a prisão da alma. ver: Lima (2004). aponta inclusive para o surgimento de um novo eugenismo. biomedicina. As produções discursivas analisadas indicam a formação de uma nova configuração discursiva nomeada de pós-humana. Ao longo da história. abiocor (coração totalmente artificial). ou sua obsolência. É nesse solo que vemos proliferar a informação com suas novas biotecnologias. chips anti-Parkinson. em Lock foi considerado uma tabula rasa. As novas tecnologias utilizadas no esporte de alto rendimento materializadas nos corpos têm diluído as fronteiras entre o humano e o técnico. do novo eugenismo? Revestida de novos discursos a melhoria da espécie humana não poderia ser vista como a melhoria da potência humana. Mas. cibernética. SILVA (2007). Em Platão. Será o corpo humano obsoleto? No campo esportivo atualmente tem havido um investimento técnico em grande escala que vem proporcionando um aumento de performance dos/das atletas.78). artistas. a ciência eugênica ganhou força no início do século XX e esteve muito vinculada aos discursos nacionalistas que pregavam o refinamento da raça e o fortalecimento do povo brasileiro. os autores se perguntam: Não será o atleta a materialização.seminariosociologiapolitica. provavelmente. marcada pela passagem do corpo-máquina ao corpo pós-informação. e em Descartes um relógio.cirúrgicas5.ufpr. toda uma maquinaria tecnológica que nos causa vertigens ao pensarmos na obsolência de nossos corpos. sociólogos.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . tais são elas: ouvido biônico.

o desaparecimento de tradicionais oposições binárias. Concluímos o artigo. 74). 1995) cujos modos de agir estão em sintonia com o poder tecnológico gerado pela ciência pode tornar-se objeto e instrumento para os fins das tecno-ciências.seminariosociologiapolitica. 1999). Para cumprir tal tarefa. sobre as intervenções tecnológicas aplicadas aos corpos para o melhoramento de suas performances no campo esportivo. ocasionando. refletindo sobre como esse elemento pós-humano pode desumanizar a humanidade. p.. 6 Anais do Evento www. vontades e liberdades para além das características identificadas como masculinas e femininas.] entre o ser humano e o animal (pela criação de seres transgênicos). 2001. logo após. A partir do exposto acima. quanto à racionalidade que preside ao seu emprego em termos de funcionalidade e eficiência (GALIMBERTI.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . Entendendo o esporte como um espaço destinado à materialização no corpo de técnicas que vislumbram a produção de práticas adulteradas de desempenho.eugênico não é mais aquele que nasce com os melhores genes. discutimos brevemente a técnica entendendo-a tanto como universo dos meios (as tecnologias). a possibilidade de rupturas na condição atual do corpo. propomos refletir neste artigo. por exemplo. como por exemplo: [.. como o “indivíduo tecnologizado” (ADORNO. E que vem apontando rupturas constantes no corpo. uma fusão entre o “natural” e o “artificial”. computadores com fios de DNA e a criação dos cyborgs). entre o homem e a mulher (pela criação de seres hermafroditas. Num segundo momento. orgânicos e cibernéticos). refletimos sobre a penetração de inovações tecnológicas no campo do esporte. possivelmente. afetando a condição humana e colocando-a em segundo plano. e que. mas sim aquele que aceita intervenções da técnica para buscar sua perfeição. Estes corpos poderão buscar seus desejos.ufpr. terreno fértil de investimentos técnicos. Ou seja. num primeiro momento. que no seu conjunto compõem o aparato técnico. diluem as fronteiras entre o humano e o técnico. Utilizamos o campo esportivo para mostrar. entre o ser humano e a máquina (pelo implante de órgãos artificiais. entre a natureza e a técnica (pela criação da Biosfera II e de tecnosferas parciais) (SILVA. apontando para o que alguns autores vêm chamando de pós-humano.

A técnica não é neutra. 1999. não desvela verdade: a técnica funciona [.seminariosociologiapolitica.. na história. nos levam a assumir certos hábitos que nos transformam inelutavelmente. mas é o nosso ambiente. a técnica pode significar o ponto absolutamente novo.] De fato. fomentado pela velocidade com que as novas tecnologias (como exemplo as de comunicação e de informação) tornaram possível conectar e colocar virtualmente próximas. no qual fins e meios. pode nos levar a entrar e tomar parte da técnica sem nos questionarmos sobre ela – a “idade da técnica” suprimiu a perspectiva humanista. Pelo fato de habitarmos um mundo tecnicamente organizado em todas as suas partes. não redime. ações e paixões. na qual a pergunta não é mais “o que podemos fazer com a técnica”. porque cria um mundo com determinadas características que não podemos evitar de habitar e que. condutas. (GALIMBERTI. abrangendo várias questões que contribuem para o esquecimento do ser humano como natureza 7 Anais do Evento www. em que vivemos em um estado de intensa ebulição cultural.2-3). e sim. até mesmo sonhos e desejos são tecnicamente articulados e precisam da técnica para se expressarem. objetivos e ideações. cabe perguntarmo-nos se é possível a contemplação do ser humano perante esse modernidade técnica em que vivemos. e talvez irreversível. o fato de nos sentirmos habituados a utilizar instrumentos e serviços que diminuem o espaço e velocizam o tempo. não inaugura cenários de salvação. Dessa forma.A MODERNIDADE DA TÉCNICA E/OU A TÉCNICA NA MODERNIDADE Mas a técnica não tende a um fim. o desenvolvimento acelerado de tecnologias rompe com o consenso do que é ser humano. 1999). a técnica não é mais objeto de nossa escolha. habitando. pessoas que às vezes se servem da técnica e outras vezes prescindem dela. tornando-se esta uma das preocupações centrais do filósofo. No momento atual.1. p. Heidegger foi o grande crítico da técnica moderna. com sua discussão indo além dos debates sobre novas tecnologias. mas sim “o que a técnica pode fazer conosco” (GALIMBERTI.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . Não somos de modo algum seres imaculados e estranhos. Segundo GALIMBERTI (1999).ufpr.. p. experiências e mundos culturais bastante distintos que até bem pouco tempo pareciam estar muito distantes. não promove um sentido.

8 Anais do Evento www. acontece ferozmente nesse século XXI. 2007).58). Admiramos até a audácia da pesquisa científica e pensamos sem reserva. na modernidade o poder se tornou o elemento constitutivo de todas as relações entre a natureza e o homem e entre os próprios homens sob o impulso da vontade de poder que o alimenta (HEIDEGGER. conhecida como Dolly. significa pouco. Heidegger descobre todas as características da técnica moderna. 2001. com os meios da técnica. p. assim. isto é. e todo investimento no Projeto Genoma Humano.ufpr. p. 2001. no entanto. possui temporalidade e. Vimos recentemente a clonagem de uma ovelha na Escócia. está-se preparando um ataque à vida e à essência do homem que. mas a maneira como o homem apropria-se e aproximase da natureza.objetiva e reificada. (HEIDEGGER apud BRÜSEKE. Esta maneira não é algo fixo. por exemplo. história” (BRÜSEKE.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . Na ciência moderna. Para este autor. Este autor identificou a técnica “tanto como consequência do pensamento metafísico quanto como a expressão mais radical da modernidade” (BRÜSEKE. Pois exatamente quando as bombas de hidrogênio não explodem e a vida na Terra fica conservada. Para HEIDEGGER (2007) a técnica moderna transforma o homem em sujeito e objeto da maquinação tecnológica. Nós não refletimos que. operacionalizada pela multiplicação das tecnologias de assujeitamento do homem e da natureza. 2001. ela faz parte e influencia a relação que o homem tem com o mundo em que vive. Ou seja. modificação decisiva da modernidade. O referido autor analisa a constituição da modernidade como época determinada pelo humanismo metafísico que faz do homem sujeito e objeto do conhecimento científico.62). Heidegger distancia-se da idéia de que a técnica é um meio para certos fins e que é um fazer do homem. e assim. Essa mudança estranha citada por Heidegger em 1959 (primeira edição do livro Gelassenheit).seminariosociologiapolitica. pois para ele essas duas definições bastante comuns sobre a técnica estão interligadas. comparando com a explosão da bomba de hidrogênio. a técnica não é passiva. principia com a era do átomo uma mudança estranha no mundo. participa desta forma de relação do homem com o mundo: “a técnica não é mais algo exterior e exclusivamente instrumental. p.65-66). em “fundo de reserva” – constitui a instância ontológica que possibilita que a vida humana seja simultaneamente produzida e aniquilada por meios técnicocientíficos.

2. 2004). Heidegger questionará profundamente a idéia confortável de técnica como objeto ou instrumento à mão dos seres humanos. Para mais. será possível detectar as pessoas com máxima aptidão para cada esporte por meio do estudo de seus genes. híbridos. performáticos. ver: DOMINGUES (2004). Com o intuito de mostrar a ação constituidora da técnica e sua capacidade de produzir variadas coisas o raciocínio de Heidegger. prevendo que o vínculo entre a sociedade moderna e o desenvolvimento da técnica avançaria com o passar do tempo. entre atletas. 1999). fármacos. em vez de instrumento e objeto a disposição dos homens. Mais tarde.porque a ciência é funcionalizada e funcionaliza todas as coisas (HEIDEGGER. fosse sujeito e sujeitasse os indivíduos humanos aos seus desígnios. Não há nem ao menos o consenso de que eles serão humanos [. 2007). o envelhecimento. Descartes e Bacon formularam as bases do que foi o lema da técnica: Descartes dizia que pela ciência e pela técnica o homem se converterá em senhor e possuidor da natureza.ufpr. é condição a priori do nosso cotidiano.. células artificiais e aptidões préestabelecidas [. Contemporaneamente um enunciado como o acima citado não causa espanto. O segundo passo será a “construção” de um atleta. Nos séculos XVI e XVII. estimulantes.. próteses artificiais. As inovações tecnológicas apontam um momento de investimento na vida na tentativa de postergar a morte. o sedentarismo. p. é o seguinte: e se a técnica. 9 8 9 Anais do Evento www. porque mostra o quanto a busca por uma performance está presente. produzindo um mundo e fabricando o próprio homem? (DOMINGUES. 2000. uma visão bastante otimista.. Os Folha de São Paulo.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . neste caso.. Estamos cientes de que vivemos a “idade da técnica9” (GALIMBERTI. alterando seus genes de modo a colocar todas as variedades ótimas numa só pessoa8. o que dava a ciência e a técnica uma idéia de instrumento ou meio de poder. E sobre o corpo recaem essas infinitas intervenções: corpos espetacularizados. também humano. biônicos e ciborguizados pela técnica. Corpos que ao acoplarem sobre si chips.seminariosociologiapolitica. aparatos e estratégias genéticas objetivam um investimento sobre a vida. afinal a busca pelo aperfeiçoamento esportivo e.] A ciência poderá mudar tanto os atletas até a metade do próximo século que é arriscado demais dizer como eles se tornarão. nanotecnologia e genética serão capazes de construir super-homens com genes modificados.] Em poucos anos. eficientes. segundo Domingues. ESPORTE COMO TERRITÓRIO FÉRTIL PARA PENSAR AS NOVAS TECNOLOGIAS Como será o atleta? Robótica.

sem condenar ou defender as tecnologias de modificação genética.org/index.corpos podem (e devem!) estar sempre em aprimoramento. pesquisas atuais10 apontam para uma época próxima onde à criação de atletas geneticamente modificados será possível.ufpr. 10 Anais do Evento www. As teorias sobre treinamento esportivo já cedem espaço às intervenções modernas da ciência e de campos outrora desconhecidos. tais como as Olimpíadas. em suma. Nesse sentido. possibilitando uma fusão entre o natural e o artificial. 10 Para aprofundar o debate acerca dos investimentos de pesquisas genéticas e atletas consultar os sites www.41).php. O autor discute sobre as possibilidades de performances esportivas no esporte de alto rendimento. O livro “Atletas geneticamente modificados” do filósofo Andy Miah (2008). Segundo Haraway “somos todos quimeras. ocasionando uma fabricação de corpos na qual o resultado dos processos será sempre mais detalhado e sofisticado. “inteligentes” e aerodinâmicas. propondo-nos várias alternativas de pensamento sobre os dilemas e desafios que surgirão em função desse novo campo associado aos esportes e suas relações com o corpo e o humano. refere-se também a frequência em academias de ginástica.seminariosociologiapolitica. Nesse sentido. ciborgues” (2000. o saber científico vem anunciando inovações tecnológicas para turbinar a “máquina” humana. incluindo o DNA – código genético). híbridos – teóricos e fabricados – de máquina e organismo. a nanotecnologia (fabricação de dispositivos moleculares) e a biotecnologia (manipulação dos elementos dos seres vivos. e quaisquer outros aparatos que visem uma melhoria ou alteração na máquina humana. a utilização de suplementos alimentares. tais como: o doping genético. por exemplo. para melhorar e ampliar suas funções e produtividade.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . p. somos.gov e www.genomenewsnetwork. traz uma interessante proposta de reflexão teórica sobre a questão da ética no esporte de alto rendimento diante dessas recentes descobertas (ainda pouco debatidas no campo da Educação Física e Esportes) sobre o funcionamento e a potencialidade do genoma humano. E ser ciborgue.genome. No campo esportivo esses investimentos podem ser percebidos em grandes eventos de competição. roupas específicas.

. Para o biofísico americano Hugh Herr..] O segundo impacto [. o avanço dos equipamentos biônicos13 aponta dois caminhos possíveis para a saúde da população. “nas próximas décadas. um braço e um olho biônico. Em função disso. e sendo vitoriosos. Desta forma. com poderes biônicos. o investimento em novas tecnologias para o esporte vai ao encontro mesmo da expansão dos limites humanos. inclusive. Temos a tecnologia. 13 Biônico é entendido como máquinas que se misturam ao nosso organismo. reconstituir e até melhorar as condições ‘originais’ do corpo humano. Com esse slogan a reportagem abre o debate sobre como muitas peças biônicas que “imitam” partes do corpo humano estão revolucionando nosso entendimento de corpo e de ser humano. eles permitem imaginar um futuro em que poderemos tratar nosso corpo de modo mais parecido com o jeito como tratamos nossos carros. Com o intuito de corrigir um corpo deficiente ou potencializar um corpo são. A matéria relembra uma das frases antológicas dos episódios de uma série de televisão da década de 197012 que prenuncia esse avanço: “Podemos reconstruí-lo. p.] envolve nosso próprio conceito sobre o que é humano [..seminariosociologiapolitica. edição 612. produzida por Harve Bennett. criador da primeira prótese inteligente de pé e tornozelo.ufpr.. Se uma peça fica desgastada.76)...76). atualmente.“O corpo biônico” é a manchete de capa da Revista Época11 que traz vários exemplos de como o avanço da tecnologia vem criando condições de reconfigurar. Nela um astronauta acidentado recebe duas pernas. Trata-se da série televisiva “Ciborgue – O Homem de 6 milhões de dólares” exibida na década de 1970.74-82. Lá estarão os corredores mais rápidos. Nas palavras do autor. conseguem praticar as mesmas atividades físicas com a mesma intensidade e freqüência.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . A reportagem traz vários exemplos de atletas que perderam partes do corpo em acidentes e que. com impactos determinantes: “Primeiro. os atletas mais fortes e os melhores saltadores” (p. Temos a capacidade de fazer o primeiro homem biônico”. troca-se [.]” (p. Revista Época. participando em competições mundiais. veremos a atenção dos fãs do esporte se voltar dos Jogos Olímpicos aos Paraolímpicos. 12 11 11 Anais do Evento www. 8 de fevereiro de 2010. ele vira um “superhomem”. sendo reconstruído em uma cirurgia experimental que custou seis milhões de dólares.

12 Anais do Evento www. mas uma outra natureza e realidade corporal (COUTO..seminariosociologiapolitica.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . esses maiôs são aparatos tecnológicos que potencializam a performance do atleta contribuindo para a derrubada de marcas e recordes. o foco da reportagem aponta para a questão da evolução dos maiôs que os atletas da natação vêm utilizando. material que ajuda na flutuação. São compostos por poliuretano. o aditamento tecnológico sobre o corpo atleta. Segundo a reportagem. E agora tá doendo muito. podemos pensar o esporte como um campo possível de visibilidade dos investimentos técnicos na produção de corpos que beiram o pós-humanismo em função de investimentos das novas tecnologias. ajudando a aumentar os recordes. Existem várias perspectivas para ler o que está acontecendo [. OU HUMANIZAÇÃO DA TÉCNICA? Eu acredito que há uma crise com relação às categorias do humanismo.] Uma via é a via da singularidade.Como exemplo dessa potencialização de um corpo atleta na Revista Época14 encontramos uma reportagem referente ao recente campeão mundial dos 100 metros nado livre César Cielo: “Nosso herói das águas – e a ajudinha do maiô” .ufpr.. O nadador comenta o trabalho que teve para se tornar um dos melhores nadadores de todos os tempos: “botei na minha cabeça que nunca ia doer tanto. e a questão do pós-humano está ligada a isso. Sendo assim. p. acabam transformando-se em parte do seu próprio corpo. 2000). Entretanto. 15-16. Essa fala mostra o esforço necessário para tornar-se um atleta de alto nível – o treinamento e a técnica evoluíram muito. 03/08/2009. PÓS-HUMANISMO. Não são mais objetos estranhos. pode produzir uma nova concepção de corpo na qual os aparatos tecnológicos que adentram suas peles (ou cobrem suas superfícies). ainda não é possível comprovar a sua influência nas competições.. artificiais. o universo biotecnológico assumirá as intervenções para potencialização dos corpos e diminuição de suas imperfeições. Para ampliar os limites humanos.. Mesmo com toda a propaganda sobre a utilização desse aparato.15). Nessa perspectiva. Mas valeu a pena” (p. Pertence a essa via a aposta que é feita na inteligência artificial e no 14 Revista Época. que é a mais radical porque entende o pós-humano como uma superação do humano que literalmente o deixa para trás. mas a reportagem afirma haver uma fila de espera para a compra desses maiôs.

uma metanarrativa sobre a obsolência do humano e do futuro do pós-humano.164). Laymert Garcia dos Santos. Portanto devem também ser vistas como instrumentos para a imposição de significados. 2005. médicos. e não sua superação. reconhecido como sociólogo da técnica. Além do trecho acima extraído. uma de suas questões centrais de pesquisa. de instrumentos nas mãos do homem para dominar a natureza. substituído por uma máquina. Se.seminariosociologiapolitica. imaginado por cientistas. subordina os homens às exigências do próprio 13 Anais do Evento www.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . Assim. na perspectiva da inteligência artificial. Laymert segue apontando que existe um segundo grupo que entende que há uma transformação do humano.desenvolvimento daquilo que seria a abertura de um outro tipo de evolução. Assim. filósofos e sociólogos. p. a idéia é transportar nosso corpo para uma máquina. da nanotecnologia. o dualismo de Platão nos leva a desprezar o corpo em busca de um mundo imaterial e perfeito – que é o mundo das idéias – por outro lado. que viria com os robôs [. Dessa forma. Essas ferramentas corporificam e impõe novas relações sociais.. ao lado da aceleração científica e econômica. Este autor considera que essas duas linhas de pensamento constroem. Foi necessário criar tecnologia para fazer aquilo que o corpo não mais consegue realizar. as tecnologias de comunicação e as biotecnologias modernas são ferramentas cruciais no processo de remodelação de nossos corpos. acaba se transformando o próprio ambiente do homem. numa entrevista concedida em 2005. Numa visão póshumanista. Para Haraway (2000). Esse impulso para acumular de forma contínua mais e mais informação criou uma situação na qual a capacidade humana simplesmente não consegue absorver e processar toda essa informação. discorre sobre a questão do “futuro do humano”. ou seja.] (SANTOS. Simplesmente o corpo criou um ambiente de informação e tecnologia com o qual não mais consegue lidar. do ciberespaço. de acordo com os critérios de funcionalidade e eficiência. aquilo que o constitui.ufpr. a técnica. o corpo deve ser. o póshumano seria a possibilidade de modificar o humano a partir de sua transformação genética (inaugurando o que alguns vêm chamando de nova eugenia). progressivamente.. por um lado.

Assim.). Talvez a doença básica de nosso tempo seja uma crise dos desejos e por isso toda a fabulosa potencialidade de nossa técnica parece como se não nos servisse de nada. aos resultados. Martins (1997). o conjunto de recursos com que hoje conta o homem para viver. dois servidores para cada civilizado atualizando. sem que saiba. que permitiu as possibilidades biotecnológicas de transformação dos seres humanos. E assim. Isso talvez impedirá ao homem que a técnica aconteça sem que ele perceba. sugere que com os rápidos avanços da tecno-ciência biológica.seminariosociologiapolitica. a técnica coloca o homem num mundo que se apresenta como “ilimitada manipulabilidade” (GALIMBERTI. Para ORTEGA Y GASSET. a política e a tecnologia terá como caminho a percorrer e como preocupação fundamental a humanização da técnica.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . 1999). a questão chave que coloca-se é se a solução para a tecnociência é a criação de uma nova humanidade na qual todos seremos seres cyborgs (cybernetic organism) ou então se há necessidade de um enfrentamento ético que tenha como parâmetro o benefício da humanidade? É possível a contemplação do ser humano perante essa modernidade técnica em que vivemos? 14 Anais do Evento www. Essa futura e necessária relação entre a ética. sob pena de levar ao totalitarismo) e políticas fundamentais. a que servir. Hoje a coisa começa a se agravar: “A Europa padece de uma extenuação em sua faculdade de desejar” (Espanha invertebrada). isto é. será necessário levantarmos questões éticas (tal ética deverá estar ancorada no indivíduo. a partir do surgimento da genética molecular dos anos 50. Nesse sentido.aparato técnico.. reduzindo a capacidade humana de percepção com relação aos processos. não conseguimos perceber e nem imaginar uma reação.ufpr. isto é. Porque esta é a incrível situação a que chegamos e que confirma a interpretação aqui sustentada: a tecnologia. aos objetivos.. não somente é incomparavelmente superior ao que jamais gozou (as forças criadas pela tecnologia equivalem a 12 bilhões de escravos. E essa obnubilação do programa vital trará consigo uma detenção ou retrocesso da técnica que não saberá bem a quem. (ORTEGA Y GASSET). como temos a clara consciência de que são superabundantes.

72. Antropologia do cyborg: as vertigens do póshumano. Anais do III Seminário Corpo. 1999. Kriterion. In: GALIMBERTI. 1995. Florianópolis: EDUFSC. Educação e emancipação. A técnica e os riscos da modernidade. O homem-satélite: estética e mutações do corpo na sociedade tecnológica. Donna. Franz. BRÜSEKE. ciência e tecnologia. pp. 2001. n. Gênero e Sexualidade. Ciber-corpo. GALIMBERTI.ufpr. 15 Anais do Evento www. Ivan. Umberto. Belo Horizonte: Autêntica. Theodor. Demasiadamente pós-humano: entrevista com Laymert Garcia dos Santos.seminariosociologiapolitica. 161-175.). Novos estudos CEBRAP [online]. L’uomo nell’età della técnica. tecnologia e feminismo socialista no final do século XX. Silvana & SILVA.159-174.REFERÊNCIAS ADORNO. Umberto. 2000.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . 2000. In: SILVA. COUTO. Roma: Feltrinelli. DOMINGUES. A emergência tecnológica e a passagem da cosmo-polis para a tecnopolis. gênero e novo eugenismo. São Paulo: Paz e Terra. GOELLNER. Tomaz Tadeu (Org. 2007. nº109. André Luiz. Psiche e techne. Tradução portuguesa de Selvino Assmann. Edvaldo. 2005. p. ciber-atleta: esporte. Belo Horizonte. UFRGS/Porto Alegre. Manifesto ciborgue: ciência. Ética. 2004. Ijuí: Unijuí. HARAWAY.

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