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LUTO E DOENÇA MENTAL

Elina Hideko Arakaki*

RESUMO
Tendo em vista as dimensões que envolvem todo o processo da doença mental na família, o presente artigo tem como objetivo identificar as reações do paciente e da família ao receber o diagnóstico de doença mental. Avaliar a magnitude e as repercussões que a doença traz à vida do doente e dos familiares seja na instância psíquica ou física. Trata-se de um estudo bibliográfico de publicações em periódicos nacionais, dissertações e teses, no período de 2000 a 2011. A identificação das fontes foram realizadas por meio dos periódicos científicos indexados no Scientific Eletronic Library Online (Scielo), disponíveis no site <www.scielo.org>.O levantamento bibliográfico foi realizado no período de dezembro de 2011 à janeiro de 2012. Através das informações coletadas nas publicações analisadas, observouse que ao receber o diagnóstico de doença mental, a família e o doente enfrentam uma série de sentimentos que vão desde o luto até a aceitação da doença.

1. INTRODUÇÃO
Segundo Losacco (2005, p. 64): “Entendemos por família a célula do organismo social que fundamenta uma sociedade”. A família atualmente tem sido interpretada pela relação dos vínculos afetivos, seja este formado pelo casamento, por relações monoparentais, ou ainda por relações homossexuais. Enfrentando crises e problemas próprios de família, esta se revela com um lugar de pertencimento, onde se forma os valores, a identidade e onde ocorre a socialização do indivíduo. Descobrir-se com uma doença não é uma situação fácil, muito menos quando se trata de uma doença mental cujo tratamento demanda tempo. O impacto do diagnóstico traz não só ao indivíduo como também a toda família sentimentos de difícil elaboração, que variam de acordo com os recursos psíquicos de cada um, do momento de vida e das experiências prévias que tiveram (NAVES; AQUINO, 2008). De acordo com Romano (1999, p. 71), as mudanças determinadas pelo surgimento da doença, incidem diretamente no status que da família, uma vez que seu equilíbrio é “interrompido pelas necessidades internas e pelas solicitações

METODOLOGIA Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica que objetivou.scielo. OBJETIVOS 2. arranjos domésticos. 77). 2.org> e Google Academic.1. sim por todos que fazem parte da estrutura familiar. aspectos do âmbito da rotina familiar como. foram utilizados artigos publicados em periódicos científicos nacionais. Nesse sentido. profissionais. Objetivo Geral Identificar as reações da família do paciente ao receber o diagnóstico de doença mental. disponíveis no site<www. . 2. 1999.2. de maneira específica. É fato que a doença não é vivenciada de forma exclusiva pelo indivíduo doente e. Para tanto. financeiros e conjugais são reorganizados diante da nova realidade. dissertações e teses indexados no Scientific Eletronic Library Online (Scielo). conceituar e correlacionar luto e doença mental.externas”. Partindo dessas considerações. exigido frente às constantes solicitações que a doença impõe e que são percebidas como ameaçadoras da estabilidade do grupo familiar. p. O “paciente incapacitado mesmo que temporariamente é igual à família incapacitada. 3. o presente estudo tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre o processo de perdas e luto no doente mental e nos seus familiares pacientes.  Conceituar doença mental.  Correlacionar luto e doença mental. Objetivos Específicos  Conceituar luto. ainda que disponha de potencial interno para reorganizar-se rapidamente” (ROMANO.

Conceito de doença mental Segundo a Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID 10 (1993. aflição (HOUAISS. com o objetivo de compreender as diferentes opiniões de autores e encontrar denominadores comuns no que se refere ao tema. Foram selecionados artigos nacionais publicados a partir de 2000 que apresentavam relação com a temática abordada. 2000). No uso cotidiano. fazendo a ligação entre o conteúdo publicado e o tema abordado. uma alteração importante das condições de vida. Após a coleta dos dados foi realizada leitura e interpretação dos mesmos.O levantamento bibliográfico foi realizado no período de dezembro de 2011 à janeiro de 2012.1. Na clássica obra Luto e Melancolia. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 4. p.. para identificar. sua concepção de luto elucida bem o processo psíquico ante uma perda. Desvio ou conflito social sozinho. A análise se deu a partir de leitura exploratória e interpretativa.. a sofrimento e interferência com funções pessoais. FRACO. 4.. como por exemplo. 4. uma modificação corporal. na maioria dos casos. sem disfunção pessoal [. a expressão luto representa o estar pesaroso por alguma perda ou tristeza profunda causada por uma grande calamidade. escrita em 1917.05) o transtorno mental é: [. perda de um ente próximo. dor. às reações da família do paciente frente à descoberta da doença mental. escolhendo as informações de interesse. etc (PARKES.] . Conceito de luto O Luto é um processo natural que ocorre sempre que há uma perda significativa na vida de uma pessoa. Freud concebe a definição de perda como de uma pessoa real ou a morte.VILLAR.] um conjunto de sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecível associado. mágoa. os pontos considerados importantes foram descritos.. 2001). 1998). abandono de uma pessoa querida ou a alusão de algo que se remeta a essa pessoa (BROMBERG. um emprego. Essa perda pode ser de natureza diversa. Através das informações coletadas nas publicações analisados.1. de Sigmund Freud.

psíquica e cultural) e é identificado sobre tudo pelos seus sintomas. com freqüência o comportamento desviante. transgressor. 272) no tocante ao conceito da doença mental: Diferentemente das doenças de base anatomofisiológicas. consciente ou inconscientemente. são difíceis de elaborar e entender (PEREIRA. p. muitas das vezes. identificáveis clinica e laboratorialmente. Seus efeitos são diretamente sociais. a família enfrenta uma série de sentimentos e. que dependerá de como cada família reage à situação e de como ela se organiza para construir este novo equilíbrio. DISCUSSÃO Segundo Pereira e Bellizzoti (2004). a constatação de uma deficiência permanente ou uma doença crônica na família é percebida como um momento de crise e luto. em alguns casos. Ao receber o diagnóstico de doença mental. pois interferem no comportamento e nas reações que a sociedade e a ordem moral repudiam e principalmente nos relacionamentos com familiares e amigos ou mesmo no rompimento destes. 2003). O adoecimento mental tem várias causas e determinações psicológicas. O convívio com o portador de transtorno mental impõe aos seus familiares a vivência de sentimentos e emoções que. no qual ocorre um desequilíbrio entre a demanda de ajustamento e os recursos disponíveis para lidar com a questão. A partir da convivência com a pessoa com transtorno mental a rotina dos membros da família é alterada. também tem sua extensão na família (PEREIRA. como se não houvesse caminhos além do ser doente mental (PEREIRA. de quem vive e sente a doença mental. passa a não acreditar num futuro próspero paro o portador de doença mental (OLIVEIRA. Isso denota que o peso do sofrer psíquico. social. . 2001). é necessária a superação do momento crítico. que viola as normas socialmente aceitas. em especial no que tange ao cuidador mais próximo. biológicas e sociais incluindo. podendo trazer desesperança quanto à perspectiva de vida. MUNARI. PEREIRA JUNIOR. PEREIRA JUNIOR.Segundo Vasconcelos (2000. o transtorno mental tem origem multifatorial (biológica. 2007). 2003). Para restabelecer o equilíbrio. 2003). 5. desencadeando uma série de fatores que estigmatizam e geram rupturas afetivas (BORGES. a necessidade de cuidados para o resto da vida.

1994). culpa e medo. Com a doença mental em um dos membros do lar. 169): A maioria da população sente os reflexos da exclusão social. É como se o ente querido estivesse sido substituído por outro. promovendo constante inquérito/ conflito interno na tentativa de entendimento do problema. contribuindo para o sentimento de impotência frente a realidade inesperada (SPANIOL. 2006). trazendo inúmeras interrogações acerca de erros cometidos na criação do/a filho/a. como alucinações. enfraquecendo o convívio. devido muitas vezes. dependências de substâncias psicoativas e até mesmo atos de violência. 1994). por exemplo. às atitudes agressivas. desorganizam o cotidiano sendo fonte de muita preocupação do familiar. raiva. juntamente com comportamentos estranhos. ocorre na cultura a vergonha. 2003). Outras fontes de preocupação apresentadas pelas famílias são os comportamentos de isolamento. Pois a família enfrenta o rompimento e a desordem em sua estrutura. 2000). na busca de possíveis causas para o desencadear da doença (PEREIRA.Os sintomas do transtorno mental. ZIPPLE. Sendo assim. . ZIPPLE. a destituição do direito de ter direito e sentindo-se excluído poderão apresentar problemas psíquicos. O mais difícil para as famílias diante do acometimento de um membro da família por transtorno mental é a transformação da pessoa que eles antes conheciam. ausência de afeto. a omissão e do isolamento em não querer lidar com o problema. p. agressividade. que podem gera os familiares ansiedade. o que prejudica as relações. rompimento de vínculos. esses membros enfrentam algumas perdas relativas aos vínculos das figuras parentais e de seu amor. delírios. SOUZA. O sentimento de culpa em relação ao surgimento da doença é um fator que está presente na vida do familiar do doente mental. PEREIRA JUIOR. que provoca sentimentos de inutilidade. falta de cooperação e maus hábitos de higiene. da relação familiar e do seu lugar ocupado no núcleo dessa família (BROMBERG. Muitas vezes um jogo de culpas vai se delineando. desafiliação. autodestruição. colocando por terra seus objetivos na vida (SPANIOL. Segundo Carrapato e Chaves (2006. Há grande dificuldade em se conviver com um portador de doença mental. traz dificuldades de aprendizagem e de trabalho. desconectado dele mesmo. a imprevisibilidade e mesmo ao isolamento social (SPADINI.

o motivo de muita vergonha para os familiares (MELMAN. A sociedade com seu processo de exclusão intensificam o surgimento das doenças mentais e consequentemente há necessidade da presença da família durante todo processo de tratamento. a ferida narcísica dos pais fica exposta. p. O evento representa de certa forma. sabemos que a evolução do tratamento depende muito da aceitação e apoio da família e da inclusão social do mesmo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar das mudanças que estão ocorrendo na sociedade e no ser humano. estimulando indagações sobre a responsabilidade pela origem e surgimento do quadro psicótico (MELMAN. Para estes sujeitos a experiência de doença trouxe o abatimento e o abalo moral do orgulho. o desperdício de muitos anos de investimento e dedicação. A doença mental continua sendo com freqüência. sabemos que todas as pessoas estão sujeitas em qualquer fase da vida a desenvolver uma doença mental. Tendo em vista a gravidade e as repercussões que a doença mental traz. 2001). o colapso dos esforços. é o mais importante . este. pois somente com o sentimento de pertencimento e autonomia e que o ser humano poderá resgatar sua auto-estima. o atestado da incapacidade de cuidar adequadamente do outro. Assim. reforçando a resistência de levar o doente a um tratamento adequado. o fracasso de um projeto de vida. 23). Dessa forma a família acaba se excluindo e aumentando sua impotência em relação ao problema. Quando um ser humano é diagnosticado com transtorno mental. 5. retarda o tratamento.O sentimento de culpa que permeia a família. os comentários culpabilizantes a responsabilizam ainda mais. 2001. auto-imagem e estabelecer-se enquanto sujeito de sua própria história. como se a pessoa doente fosse o representante das falências do sistema familiar. uma nova ordem é imposta à família no momento em que o diagnóstico de um membro é comunicado. uma vez que seu equilíbrio é interrompido pelas mudanças inerentes ao processo de tratamento e de seus desdobramentos. da auto-estima da família. O paciente com doença mental necessita da presença da família no tratamento para conseguir êxito e qualidade de vida.

2001. p.O. Arkrópolis. F. 17.71-82.357362. S..6. LOSACCO.p. M. p. CiencCuidSaude: Goiânia. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. .. E. A. Campinas: Livro Pleno. n.F. Saúde. FRACO. 2001. B. D. Os sentimentos da família frente afactidade da doença mental.B. B. Enf: Porto Alegre. mesmo que em parte. A.L. R.M..Comunic. Bauru: Edite nº. jul.v. p.. A.167-180.p. p. N.12. REFERÊNCIAS BORGES.3. M.. p. Ao receber o diagnóstico de doença mental. v.F.S.M. 2000. Tradução por Maria Helena Pereira Franco. AQUINO. A. A. Gaúc. 2003.São Paulo: Escrituras.S. M.O. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Fam..2007. Rev. CHAVES. VITALE. laços e políticas públicas. Interface . J. BROMBERG. Porto Alegre: Artes Médicas.16. 2001. Considerações acerca da sobrecarga em familiares de pessoas com transtornos mentais. n.H.G. n. PEREIRA. Classificação de transtornos mentais e de Comportamento da CID-10. PEREIRA. 25(3). A consideração dos encargos familiares na busca da reabilitaçäo psicossocial. OLIVEIRA. segurança e amor que pode transformar processos lentos de tratamento em uma nova alternativa do modo de se viver.2004 dez. v. 2006. C.2. O jovem e o contexto familiar. R. A psicoterapia em situações de perdas e luto.3./dez. Saúde Desenv: Curitiba. M. 1993. 63-75. CARRAPATO.3-10. MELMAN. PARKES. 2005. Família e Doença Mental: repensando a relação entre profissionais de saúde mental e familiares. Educ. . Família: redes.146-153.. J.1. São Paulo: Cortez. São Paulo: Summus. Reflexões sobre alguns aspectos envolvidos no diagnóstico de câncer oncológico.M. n. Representaçãoda doença mentalpela família dopaciente. In: ACOSTA. M.7. NAVES. HOUAISS. 2008. a família enfrenta uma série de sentimentos e passa por um período de luto. VILLAR. BELLIZZOTI. Emergência Psiquiátrica: uma necessidade social? Construindo o Serviço Social. MUNARI.J. 306-313.A. Rio de Janeiro: Objetiva. pois acredita ter perdido. v. M.vínculo de carinho.M. seu ente querido. C. 1998.

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