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ABORDAGEM DO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO COMO PROCESSO HISTÓRICO EM LURIA APPROACHING THE COGNITIVE DEVELOPMENT AS NA HISTORIC PROCESS IN LURIA

Algacir José Rigon1 RESUMO
O texto fundamenta a tese de que as funções superiores da mente são derivadas dos processos sociais e não estão dadas a priori. Esta fundamentação explora, como um de seus argumentos, a pesquisa realizada por Luria em algumas regiões da União Soviética num período em que se introduzia o socialismo. Assim afirma-se que a consciência e os processos mentais são estruturados de acordo com as formas ativas de vida, ou seja, a estrutura da atividade cognitiva muda ao longo do desenvolvimento sócio-histórico. Palavras-chave: processos mentais; processos sociais; desenvolvimento cognitivo; sócio-histórico; consciência.

ABSTRACT
This text justifies the thesis that establishes how mental superior functions are derivates prom souse process and how they are not determinates a priori. This justification applies, as one of its arguments, the Luria’s work in some Sovietic Union regions at the time that the socialism was beret introduces. In this way, they affirm that the conscience and the mental process are structured according to active life forms, this means that cognitive activity structure changes during social and historical development. Key words: mental process; social process; development; social-historical; conscience. cognitive

1 - PROBLEMÁTICA As ciências que tratam das funções superiores da mente têm, geralmente,
1 Doutor em Educação pela USP – ajrigon@gmail.com

p. nos fins da década de 1920 e começo da década de 1930. analfabetos e baseados numa economia individualista. Esses ativistas haviam freqüentado cursos rápidos (semi-analfabetos) e eram administradores. . 1990. com a implantação do socialismo na União Soviética essas regiões passaram por mudanças rápidas nas estruturas sociais que incluem a emancipação das mulheres. Zaphorozhéts. ou seja.23) é a mais adequada para dar conta do estudo da consciência e da origem social da mente. 1990. O behaviorismo se recusa a estudar os processos subjetivos tentando transpor leis e princípios da ciência natural para o campo dos processos culturais e sóciohistóricos.desconsiderado que a consciência é derivada de processos sociais e. Zinchenko. Essa tese que é originalmente de Vigotski – posteriormente compartilhada pela Escola de Vigotski da qual fazem parte seus colegas Luria. começo da coletivização e alfabetização. Quinto: mulheres estudantes de uma escola de professores (2 ou 3 anos de estudo). são a condição de possibilidade do conhecimento. também. cursos de curta duração (semi-analfabetas). por esse mesmo fator. Este pesquisador seleciona. nesta localidade. Quarto: ativistas de fazendas coletivas (kolkhoz). esse povo passou por uma verdadeira revolução na estrutura sócio-política. pertencentes à sensibilidade. As categorias possibilitam unificar as percepções (formar juízos) e por isso são. para processos mentais elementares e funções superiores. o estudo da consciência. bem como. LURIA. Galperin e outros – é assumida por Luria que busca comprová-la por meio de uma pesquisa realizada nos “vilarejos remotos do Uzbequistão” e nas “regiões montanhosas de Kirghijia”. Nesse período. Davidov. e os conceitos puros (as categorias). etc. p. os atos de vontade em geral e as formas complexas da atividade mental resistiram a todas essas tentativas de interpretação causal (cf. condições de possibilidade da experiência e produtos irredutíveis da consciência. se mostraram inadequadas para tratar dos processos da vida mental ativa. Primeiro: mulheres “ichkari” analfabetas e sem envolvimento social. A noção de que a mente possui propriedades e leis intrínsecas a priori redunda em padrões estabelecidos igualmente para povos de diferentes culturas e épocas históricas. cinco grupos com graus de escolaridade diversificados e atividades diversificadas. A tese de que as funções superiores da mente são produtos da história social e de que “os processos mentais dependem das formas ativas de vida num ambiente apropriado” (LURIA. líderes. pertencentes ao entendimento. No entanto. as formas de expressão do pensamento. Segundo: homens camponeses. Leontiev. funcionários. a percepção. Em Kant os conceitos de espaço e tempo. Para a Gestalt as “leis da percepção” seriam iguais para todos os povos. Terceiro: mulheres estudantes em cursos pré-escolares. 19).

brincadeiras ou testes de interesse do grupo. progressivamente.217). cognitivos. Neste caso. de fato. 1990. Os pesquisadores se reuniam com os pesquisados ao redor de fogueiras à noite. e autoconsciência devem modificar-se no decorrer do desenvolvimento sóciohistórico. leis do pensamento (generalização. dedução. que anotavam. ou dos processos mentais superiores. solução de problemas e imaginação). introduziam as questões preparadas como se fossem “adivinhações”. Luria quer investigar se “as mudanças sócio-históricas não se limitam a introduzir novo conteúdo no mundo mental dos seres humanos.3 Os testes para as observações foram introduzidos após um longo período de contatos preliminares. Nesse ambiente. Para as anotações Luria contava com um grupo de mais nove pessoas. O estudo desses elementos nos leva. abstração. Quer dizer. a serem exploradas pela pesquisa: percepção. o pesquisador busca averiguar se as funções mentais superiores se desenvolvem e se estruturam baseadas no ambiente social. as partes imbricadas na estruturação dos processos mentais. que é o mais propício para o teor da hipótese. concomitantemente às sessões e. por consciência? . categoriais (qualidade. nos quais as relações tornaram-se amistosas e passaram a fluir naturalmente. também. Mas o que se entende. em conversas normais e espontâneas e. Os testes eram organizados de tal forma que permitiam respostas abstratas (seleção de atributos e subordinação de objetos a uma categoria geral). se elas também criam novas formas de atividade e novas estruturas de funcionamento cognitivo” (LURIA. inferência. caráter de um objeto que implica pensamento verbal e lógico complexo para explorar a capacidade abstrativa da linguagem) ou mesmo gráfico-funcionais (quando se refere às características físicas dos objetos e o indivíduo as utiliza no cotidiano. em situações práticas). nas mudanças culturais e nas mudanças históricas que ocorrem no ambiente em que o indivíduo está inserido. a uma compreensão da estruturação da consciência. raciocínio. inclusive mulheres. ou então. apresentarem leis diferentes conforme o grupo estudado. ao final das mesmas. algumas vezes. outras vezes. p.

não é um reflexo direto das estruturas sociais. 1997. Em consonância com esta afirmação de Vigotski. que seriam os excitantes. “a sensação das sensações” (VIGOTSKI. A consciência deve “ser interpretada como um sistema de mecanismos transmissores de uns reflexos a outros que funcionam corretamente em cada momento consciente” (Vigotski. Em outras palavras. 33). assim. 1997. p. 1990. 1997. p. ou daquilo que ocorre no meio. p. 1997. tampouco é ela que produz o meio. como tampouco pode ser um estímulo (excitante)” (Vigotski.2 – CONSCIÊNCIA Consciência é. 23). nem é imutável e passiva. não apenas adaptando-se a certas condições. a consciência é esse lócus a partir do qual são refletidos reflexos em outros sistemas. essas mesmas sensações.11). mas também reestruturando-se (LURIA. de forma que. Essa perspectiva já estava presente no texto de Vigotski apresentado no II Congresso Nacional de Psiconeurologia em Leningrado. Luria dá sua definição mostrando que a consciência é o reflexo da realidade. p. sem dúvida. e nem a propulsora de algum reflexo. no ano de 1924. um meio através do qual as sensações da realidade. são transmitidas a outros sistemas de reflexos (processos mentais). p. 10). p. Nesse texto Vigotski caracteriza a consciência como “um mecanismo de transmissão entre sistemas de reflexos” (Vigotski. abre um campo de discussões sobre a importância do estudo dos reflexos. 10/11). a consciência. ou seja. A consciência é a afecção da sensação da realidade assim como uma sensação simples não é o objeto em si. ao comentar sobre aspectos da reflexologia. mas sim formada pela atividade e usada pelos homens para orientá-los no ambiente. eis a função de estar consciente. A compreensão dessa natureza da consciência que se entrepõe à realidade e aos processos mentais nos conduz a um outro questionamento que diz respeito à consciência social: como explicar a consciência social e sua origem? Pois bem. “o ato da consciência não é um reflexo. uma forma particular de atividade mental deve corresponder a um nível particular de reflexão” (LURIA. Ou seja. aos demais processos mentais ou a indivíduos em forma de . quando. 10). É o que diz Luria como premissa inicial na sua pesquisa: a consciência é a forma mais elevada de reflexo da realidade: ela não é dada a priori. Compreende-se que os processos mentais “dependem do modo pelo qual eles refletem a realidade. poder dar-se conta das sensações e transmitir. 1990. Desenvolvese uma espécie de cadeia de reflexos na qual a consciência desempenha o papel de conduzilos. Isso desencadeia outros reflexos que vão tomando cada vez maior complexidade.

parar na memória com a recordação do tipo de pássaro que emite aquele som. a origem social da consciência (Vigotski. A palavra ouvida é um estímulo. Exemplificando: ouve-se o cantar de um pássaro. por ex. deixa uma outra questão a descoberto: os sujeitos que apresentam um modo de pensar gráfico-funcional (baseado na experiência prática) e os sujeitos que apresentam um modo de pensar abstrato. . E. ou seja. como o primeiro passo de pesquisa. Isso. 1990. a palavra pronunciada é um reflexo que cria esse mesmo estímulo. se dá o segundo passo. Estes reflexos reversíveis. como última etapa. numa perspectiva simbólica. Baseando-se nesses aspectos. O cantar é um excitante. um estudo que trata das questões do pensamento. É nesse contexto que se compreende que “a consciência é a sensação das sensações” (Vigotski.. por sua vez. que originam uma base para a consciência (entrelaçamento de reflexos). p.5 excitante. se forem submetidos a uma instrução formal ou meio coletivo que estimula o desenvolvimento de pensamento abstrato. mas somente se tivéssemos essa capacidade perceptiva. mudando os excitantes teríamos outros reflexos. Os indivíduos desenvolvem os processos mentais conforme o meio de excitantes em que estão inseridos. que percebem a realidade numa perspectiva mais concreta. p. que. está a análise da auto-avaliação (auto-análise) e da autoconsciência. A identificação e o estudo do processo de percepção se fixa. produz outros excitantes que já são também reflexos. são criados pelo homem. instrumental.34). 10). podendo chegar a serem externalizados pela palavra pronunciada. pois se trata de reflexos que reagem a estímulos que. ou simplesmente. são guiados pelas mesmas leis de pensamento? Em resposta a isso. p. servem de fundamento para a comunicação social e para a organização coletiva do comportamento. 12). cujas premissas pertenciam ou não ao sistema de experiência gráfico-funcional” (LURIA. entre outras coisas. transmitido a alguns campos mentais (pela consciência como reflexo). no entanto. ou seja. Esta tem mais uma prova dada pelo estudo da imaginação. a partir de generalizações. terão os seus processos mentais distintos daqueles que percebem a realidade em aspectos predominantemente mais abstratos e lógicos. esses indivíduos desenvolverão processos mentais que possibilitam esse tipo de apuração abstrata da percepção do real. Luria pensa a sua pesquisa propondo que os indivíduos. suas leis. organização abstrata da realidade. o que indica. então. A partir disso pode-se entender a origem social da consciência. 1997. 1997. o que ele caracteriza como gráfico-funcional. em Vigotski. “uma análise psicológica do uso de silogismos. puramente lógica. Isso significa dizer que.

tendemos a classificar essas variantes como verde. em outro momento. ignorando outras possíveis. Já “em algumas culturas primitivas. no entanto. foram oferecidos para os diferentes grupos novelos de lã de diversas cores a fim de que eles designassem e classificassem as cores. nomes categoriais de cores não são predominantes. Sendo assim. a categorização é feita a partir de categorias previamente estabelecidas. Também revela o aspecto histórico da linguagem pois. mas para os sujeitos que possuem um desenvolvimento cultural relativamente alto. Também foram oferecidas figuras geométricas (completas e incompletas. na natureza. mais de duzentas variantes. conforme a cultura. p. ou seja. Isso revela um dos aspectos da categorização. uma análise e síntese dos aspectos percebidos e um processo de tomada de decisão. com diferentes contornos. ou melhor. há apenas alguns nomes mais genéricos delimitados. . num sistema de conceitos diferenciados. para que as classificassem. 37). etc. a partir da decisão em situar aquilo que é percebido conforme a experiência prática do indivíduo ou conforme o “treino teórico”. Em resumo. Os processos de percepção pesquisados. em vez disso. A pesquisa de Luria confirma esse conceito na medida em que revela o caráter histórico da percepção. e não como verde musgo. que envolvem a nomeação e classificação das cores. e também de figuras geométricas evidenciam que a percepção é orientada conforme as categorias que foram estabelecidas historicamente. quando percebemos algumas variantes da cor verde. O seu plano neste caso era a codificação lingüística sensorial do material. escuras e coloridas) para que os indivíduos as nomeassem e. p. percepção é um processo complexo estruturalmente similar aos processos subjacentes às atividades cognitivas mais complexas (LINDSAY e NORMAN apud LURIA. Consideremos a seguinte afirmação: “o olho humano pode distinguir até dois ou três milhões de matizes diferentes” (LURIA.3 – PERCEPÇÃO A definição de percepção pode ser dada da seguinte maneira: é um processo complexo envolvendo complexas atividades de orientação. Só da cor verde encontramos. 1990. 1990. uma vez que a classificação e nomeação são codificadas. pelos indivíduos. uma estrutura probabilística. as pessoas se utilizam de nomes figurativos associando cores a situações concretas que possuem significância prática para elas” (RIVERS apud LURIA. 38).

tumar. pois julgam serem diferentes e não possuírem nada em comum. Esse resultado Luria obteu. constituídos a partir das relações que o indivíduo estabelece com o meio (outros indivíduos. revelou-se. Julgavam um círculo ou um triângulo incompleto como um bracelete. Segundo a pesquisa. mais uma vez. conforme revela a pesquisa. A hipótese é que toda percepção visual possui uma estrutura semântica complexa e está baseada em um sistema que muda com o desenvolvimento histórico. Ela incorpora diferentes tipos de processamento de informação visual. 1990. ou um dispositivo para medir querosene. Esse modo de interpretar dos sujeitos dificultava. caso contrário. Assim. instrumentos. outras. pois. ou seja. relógios ou colares. 19901. 59). duas variantes de amarelo não podem ser agrupadas porque são associadas a objetos diferentes conforme a expressão “isto parece excremento de vitelo. e em tamanhos diferenciados. Por exemplo. as cores são associadas a objetos da experiência prática que não podem ser integrados.7 1990. com distâncias “preenchidas” ou não – de forma que são influenciadas muito mais pelo desenvolvimento histórico do que pelas leis fisiológicas. . 40). o agrupamento. embora fosse feito de pontos ou de cruzes. a priori. A percepção como dependente dos processos culturais e socio-históricos pode ser confirmada também nos experimentos com ilusões visuais – para esta observação os pesquisadores apresentaram figuras de vários tipos de ilusão. p. como não percebiam as figuras geométricas como figuras incompletas ficava difícil agrupar um triângulo de cruzes com um de pontos ou de estrelas. O agrupamento somente poderia ser dado se os objetos. ou seja. p. também. 45). etc. 51/2). para essas pessoas. p. nem sempre os sujeitos percebem as figuras geométricas como formas. Os processos perceptivos não são. o quadrado como quadrado. que os processos perceptivos são históricos. não seria possível. também. como queriam alguns. 1990. atividades práticas.). no estudo das figuras geométricas. umas com relações diferentes de figura e fundo e. p. por sua vez. Essa hipótese implica uma outra: na transição para condições históricas mais complexas de formação dos processos cognitivos. não é possível agrupar cores variantes de verde no grupo verde. Nesse caso os sujeitos interpretaram triângulos e quadrados feitos de pontos ou cruzes como estrelas. e não como representações interrompidas de triângulos e quadrados. tivessem uma situação "concreta" comum. e isto é como o pêssego” (LURIA. a percepção visual também se modifica (LURIA. mas não como uma figura geométrica incompleta (LURIA.

o objeto central. A classificação categorial implica pensamento verbal e lógico complexo que explora o potencial da linguagem de formular abstrações e generalizações para selecionar atributos e subordinar objetos a uma categoria geral. 1990. A explicação parece estar no fato de que a educação. aumenta conforme o nível educacional. tem outras proporções e não pode mais ser generalizado ou igualado ao seu par. O fator decisivo. é o próprio uso da linguagem que permite passar de um pensamento sensorial (concreto) para um pensamento racional. Nessa instância oferecia-se aos sujeitos desenhos de . Deve-se notar que o pensamento "categorial" é geralmente bastante flexível (LURIA. têm-se duas situações: a primeira que provoca relações entre os objetos idênticos (perspectiva). A mudança do tipo de pensamento também afeta o significado das palavras. nessa etapa. afeta a percepção fazendo com que os sujeitos percebam algumas relações entre os objetos de acordo com algumas categorias que antes não ocorriam. Em síntese. Se um mesmo objeto é relacionado com objetos em proporções diferentes. conforme as influências culturais e acadêmicas. p. e a segunda que distrai a percepção (a partir da relação com objetos em situações diferentes). tendo menos importância. instrução formal. ou mesmo outros objetos. dependem da capacidade de generalização e abstração. nem recorrer a experiência prática de um indivíduo. provoca-se a ilusão de que aquilo que é percebido. As ilusões aumentam proporcionalmente ao aumento do nível de educação. 4 – EXPRESSÃO DO PENSAMENTO A capacidade de abstração de um indivíduo é dada a partir da possibilidade que ele tem de agrupar alguns objetos de acordo com algumas propriedades. a concretude. por sua vez. categorias. ou então. O pensamento racional (abstrato) possibilita pensar os objetos sem precisar recorrer a uma situação gráfica-funcional. 65). principalmente a de perspectiva e a de percepção de relações entre figuras geométricas. A instrução faz com que o sujeito abstraia e generalize.A conclusão obtida é de que as ilusões visuais. ou então.

1990. o tamanho. por exemplo: árvore. rosa. Nesse terceiro estágio o indivíduo não generaliza já com base em suas impressões imediatas. foi provocado de dois modos nos indivíduos com os quais se fez o experimento. e noutro. p. faz inferências sobre os fenômenos. do funcional ao categorial. Isso não ocorria entre os que tinham alguma instrução formal. destinando cada objeto a uma categoria específica (relacionando-o a um conceito abstrato). 71/72). os indivíduos tendem a detectar uma característica. p. que alguém tinha ensinado os que estavam propondo de modo errado. ou trabalho coletivo.que requer contato organizado com pessoas. 69).foi o suficiente para provocar mudanças fundamentais em seus hábitos de pensamento (LURIA. 1990. a essa altura. No entanto. escolar. Já atingiu um estágio que alguns investigadores preferem chamar de período de "análise através da síntese" (LURIA. ou então. a cor. 106). Esse quadro se agrava quando as semelhanças não podem ser percebidas de modo imediato. os organizaram de acordo com a utilidade prática. discussões em grupo sobre problemas econômicos e participação na vida comunitária . mas isola certos atributos distintos dos objetos como base de categorização. espiga e pássaro (LURIA. é preciso avançar para um estágio seguinte: o da comparação. de maior importância para a pesquisa. Para tal. Nesse estágio ainda é possível fazer referência a questões práticas ou físicas. cavalo e homem como animais. os que não tiveram contato com alguma instrução. Para estes era fácil agrupar. numa primeira fase. ou estavam realizando trabalhos coletivos. quando se agrupam objetos de acordo com a forma. ou então. diziam que eram "coisas tão diferentes". p. por ex. nessa etapa. . os indivíduos menos escolarizados (analfabetos) se limitavam a descreverem as diferenças. percebe-se os objetos de modo isolado. embora o grupo de analfabetos não tenha apresentado essa mudança.. sendo que um não pertencia à mesma categoria. ou partiram de uma situação em que os objetos poderiam funcionar juntos. um apresentou através da instrução formal. Quando era pedido aos sujeitos que agrupassem objetos de acordo com as "semelhanças".9 quatro objetos. A transição desse modo de pensar. Conforme aumentam as dificuldades de comparação. uma categoria. eram "burros". uma semelhança oculta nos objetos. percebe-se de modo imediato apenas as diferenças entre os objetos e não as semelhanças. 1990. uma quantidade mínima de instrução e de trabalho em fazenda coletiva . Isso ocorre porque. etc.

não constituía um caminho pelo qual o pensamento pudesse fluir dentro desse sistema (LURIA. 145). pode-se detectar que ocorre uma mudança evidente dos processos psicológicos que orientam as reações do indivíduo. 1990. isoladas. Os indivíduos de experiências práticas (apenas) têm outra dificuldade que é relativa a imaginação. raciocínio e solução de problemas estão na mesma ordem de dificuldades. seus reflexos ou respostas. mas as novas experiências e as novas idéias. ou então. mudam também. 145). sem nenhuma lógica unitária e. ou somente pode falar "alguém que tivesse uma grande experiência e tivesse estado em todo lugar" (LURIA. b) refere-se a uma não aceitação da universalidade das premissas. 185). particulares. no entanto.Embora a classificação de objetos e a definição de conceitos sejam ainda "operações elementares do pensamento abstrato" aparecem já na primeira etapa de uma reestruturação do meio em que o indivíduo está inserido. Estes conseguem. é de fácil aceitação para indivíduos com alguma instrução sistemática. 1990. Nesse caso quando se apresentam aos indivíduos dois silogismos dos quais se extraia um terceiro. p. todos os ursos são brancos. p. p. por sua vez. e c) uma conseqüência do segundo. p. envolve a desintegração do silogismo em três proposições independentes. Eles têm "uma acentuada dificuldade em se libertar da experiência imediata e formular questões que possam ir além dela" (LURIA. são negados ou não resolvidos pelos indivíduos com experiências (apenas) práticas. 1990. p. inferência. onde há neve. Nesse sentido qualquer . Isso. 153/54). Os camponeses analfabetos se recusam a responder na maioria das vezes alegando que "uma pessoa só podia falar sobre aquilo que tivesse visto" (LURIA. 1990. Por ex. também. superar facilmente problemas que exigem procedimentos além do concreto que. já os que tiverem modo de pensar funcional os perceberão como isolados. 1990. ou seja. Nesse sentido podemos apontar três limitações do pensamento concreto em relação ao teórico: a) consiste na falta de confiança na premissa inicial que não reproduz a experiência pessoal. dependem da capacidade de o indivíduo trabalhar com questões abstratas ou apenas concretas. há uma mudança conceitual. ou inserido em formas complexas de comunicação. sendo impossível tirar conclusões de duas premissas hipotéticas. 147). meio escolar ou meio coletivo. o significado das palavras no uso da linguagem. portanto. do gráfico ao abstrato. Novaya Zemlya fica no norte e lá sempre neva. os que possuem capacidade abstrativa terão facilidade de compreenderem e trabalharem com eles. como partes isoladas e sem ligação. Os processos de dedução. quando é apresentado o seguinte silogismo: "No norte. Isso tudo não gera apenas uma mudança na forma de pensamento. De que cores são os ursos lá?" (LURIA. se reorganizarmos o ambiente do indivíduo..

de forma mais explícita. o mundo interior da própria pessoa enquanto moldado em relação a outras pessoas.11 solicitação de pergunta que eles poderiam fazer ao interrogador era recusada porque julgavam que para isso era necessário um amplo conhecimento. Os indivíduos do grupo de camponeses analfabetos como de praxe. pontos positivos e pontos negativos. onde trabalhava. mas de qualquer forma. conforme eles próprios mencionavam. 194). 1990.AUTO-ANÁLISE E AUTOCONSCIÊNCIA Ainda que de modo preliminar. saber o que o interrogador fazia. é que Peter pôde começar a relacionar-se consigo mesmo como uma pessoa" (LURIA. A formação de um novo mundo interior pode ser considerada uma das . Luria. mas também o mundo das relações sociais e. Nesse sentido nós estamos lidando com mudanças muito mais fundamentais . pôde-se perceber a escolha de algumas qualidades. pois as auto-avaliações estão baseadas no aspecto comparativo e num "eu ideal". Nos outros grupos as primeiras avaliações. muito importante para o desenvolvimento da consciência. capazes de refletir não apenas a realidade externa. onde vivia com a família. em estágio mais avançado.a formação de novos sistemas psicológicos. Nesses. ou então. p. etc. basicamente. estavam baseadas no que os outros diziam. relacionadas à vida social ou a um "eu ideal". se recusavam a dar respostas. "apenas descreviam aspectos concretos e materiais" (LURIA. em que diferia dos outros. ou então. etc. só que olhando uma outra pessoa. confundiam questões teóricas com práticas. Apenas ao relacionar-se com Paul como uma pessoa semelhante a ele próprio. 5 . Em conversas gerais eram incluídas perguntas de forma que o indivíduo pudesse se auto-avaliar. o "papel modelador" do envolvimento social. p. 1990. 196). Aqui começa a aparecer. propõe que deveríamos abordar a autoconsciência como um produto da consciência do mundo externo e de outras pessoas e deveríamos procurar suas raízes sociais e suas características nos estágios em que ela é moldada na sociedade conforme a concepção de Marx: "Primeiro o homem olhou a si próprio como se fosse num espelho.

variam quando as condições da vida social mudam e quando rudimentos de conhecimento são adquiridos (LURIA. 215). p. 1990. assim como a consciência. 213). Com essa tese rejeita-se a hipótese de que é a autoconsciência. 1997. raciocínio. p. 1990. que determina o meio. Nos reconhecemos a nós mesmos somente na medida em que somos outros para nós mesmos.percepção. dedução. p. ou dá ao mundo exterior. generalização. pode-se inferir que os processos mentais. porque nós somos com respeito a nós o mesmo que os demais a respeito de nós. pois o mecanismo da consciência de si mesmo (autoconhecimento) e do reconhecimento dos demais é idêntico: temos consciência de nós mesmos porque temos dos demais e pelo mesmo mecanismo. um papel secundário. pelo quanto somos capazes de perceber de novo os reflexos próprios como estímulos (Vigotski. Depois de dado momento. sociais. isto é. imaginação e auto-análise da vida interior . 12). 6 – CONCLUSÃO Uma vez que se encontram nos indivíduos processos psicológicos e mentais de acordo com o modo de organização e estruturação social em que estão inseridos. Este último aspecto corrobora a proposição de que o desenvolvimento cognitivo é social. refletem a realidade e a mudança da vida mental que ocorre a partir de trabalho social coletivo ou a partir de alguma instrução sistemática. da própria pessoa. isso deve ser conjugado com as formas do comportamento.conquistas fundamentais do período tratado (LURIA. As investigações apontam justamente que a auto-avaliação implica as avaliações externas. para usar a expressão de Luria. enquanto análise das propriedades internas. o “eu”. De qualquer forma os fatos demonstram de maneira convincente que a estrutura da atividade cognitiva não permanece estática ao longo das diversas etapas do desenvolvimento histórico e as formas mais importantes de processos cognitivos . .

Aléxis. Campinas/SP. 2001. I. VIGOTSKI. Obras Escogidas Vol. São Paulo: Martins Fontes. então: 1) é ridículo procurar centros especiais para as funções psicológicas superiores ou funções supremas no córtex (partes frontais . 1997.13 Ou conforme a conclusão que Vigotski apontou no Manuscrito de 1929 em que atrás das funções psicológicas estão geneticamente as relações das pessoas. p. A. Referências LEONTIEV. 2144. é revelado o caráter social e histórico do desenvolvimento cognitivo e também dos processos mentais. S. 1999. 1978. Vygotsky: uma síntese. dominação) das funções. VIGOTSKI. Educação & Sociedade. 1996. que tomou o lugar da interação das pessoas (VIGOTSKI. 4) o princípio básico do trabalho das funções psíquicas superiores (da personalidade) é social do tipo interação (auto-estimulação. 71. 2001. _____. 2) deve explicá-las não com ligações internas orgânicas (regulação). 2000. através de estímulos. v. 1999. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Martins Fontes. 3) elas não são estruturas naturais. 1990. Manuscrito de 1929. _____. 2000. R. A mente e a memória: um pequeno livro sobre uma vasta memória. Psicologia Pedagógica. S. _____. Psicologia da Arte. mas de fora daquilo a que a pessoa dirige a atividade do cérebro de fora. & LURIA. Madrid: Centro de Publicaciones del MEC y Vysor Distribuiciones. n. J. Lisboa: Horizonte. p. especial. R. R. O desenvolvimento do psiquismo. A Tragédia de Hamlet. 27). A. Príncipe da Dinamarca. o primitivo e a criança. L. _____. "entrar na posse do seu corpo". Assim. mas construções. VALSINER. 2001. Porto Alegre: Artes Médicas. . São Paulo: Martins Fontes. _____. Desenvolvimento Cognitivo. L. LURIA. Estudos sobre a História do Comportamento: o macaco. São Paulo: Ìcone. São Paulo: Loyola.Pavlov). & VAN DER VEER.