Conhecendo a Organização

Cíntia passeava pela calçada, observando o comércio local de Florianópolis. Com apenas vinte anos, a garota chamava atenção por onde passava, com seus cabelos ruivos encaracolados e compridos, olhos amendoados, estatura mediana, um corpo bem definido e bronzeado, realçado por um vestido estampado justo. Naquele dia acordou bem cedo e foi para a academia, onde fez sua aula de luta corporal. Esse tipo de atividade a deixava disposta e ajudava a manter sua boa forma física. Andava despreocupada e feliz, pois já havia cumprido a sua obrigação mensal, que era depositar dinheiro na conta de uma pessoa que cuidava de sua irmã menor, Jéssica, de apenas catorze anos. Ela não morava em Florianópolis e a última vez que a vira, tinha nove anos. Depois de fazer algumas compras com o cartão de crédito que seu “namorado” lhe dera, resolveu voltar para o apartamento. Desde que conheceu Walter sua vida mudou radicalmente. Sabia que ele era casado e que seus negócios eram ilegais, mas ele lhe deu um bom apartamento para morar e joias. Graças a ele, não precisava mais trabalhar, nem se preocupar com dinheiro. Foi muito fácil se acostumar com essa vida confortável. Chegou ao prédio e ao descer do elevador, ouviu uma discussão. Ao andar no corredor, viu que dois homens falavam alto, pareciam discutir. Chegando mais perto, reconheceu a voz de seu namorado Walter e de seu melhor amigo, Carlos. Pegou as chaves e ia abrir a porta para tentar acalmá-los, quando ouviu um grito de dor. Entrou no apartamento, assustada demais com a terrível cena que era testemunha. Deixou todos os pacotes caírem no chão, levando as mãos à boca para tentar abafar um grito. Num canto da sala, Carlos cambaleava, indo ao chão todo ensanguentado com um tiro no peito. Walter segurava uma pistola com silenciador. Não parecia muito abalado. Apenas olhou para Cíntia e falou friamente: Bom dia, amor. Feche a porta e venha me ajudar! Cíntia permanecia petrificada, enquanto via Walter enrolar seu melhor amigo morto no tapete da sala. Impaciente, ele foi até ela e chutou os pacotes para dentro do apartamento. Segurando-a pelo braço, falou em tom áspero: Vai me ajudar a carregar ou vai ficar aí parada o resto do dia?

Cíntia, sem alternativa ou reação, passou a fazer tudo que Walter pedia. Ajudou-o a levar o corpo até o elevador de serviço sem pensar em nada. Estava agindo maquinalmente. Levaram o tapete até a garagem. Então, Walter lhe jogou as chaves do carro e disse: Primeiro veja se não tem ninguém. Depois, abra a traseira da caminhonete e volte para me ajudar. Ela olhou ao redor, correu até o carro e abriu a tampa traseira. Em seguida, voltou para ajudar Walter. Devido ao peso, os dois caminharam lentamente em direção ao carro. No caminho, repentinamente, apareceu um rapaz que disse: Ei amigo, quer ajuda? Cíntia sentia que iria desmaiar. Seu rosto estava muito pálido e quando largou o tapete, percebeu que suas mãos estavam trêmulas. Haviam sido descobertos! Olhou para o amante e percebeu que ele levava a mão na cintura para sacar sua pistola, caso precisasse. O rapaz continuou falando: Sou morador do prédio, deixe me ajudá-los! Isso não é serviço para uma mulher. Walter mudou de ideia e até gostou da ajuda. Quando eles colocaram o tapete no carro, o vizinho comentou: Que tapete pesado! Obrigado pela ajuda - disse Walter, estendendo a mão ao rapaz em agradecimento. Quando retirou a mão, percebeu que havia deixado sangue na mão do vizinho. Cíntia também reparou na enorme mancha de sangue que saía do tapete e fechou a tampa traseira da caminhonete rapidamente. O vizinho olhou para sua mão e Walter lhe estendeu um lenço, dizendo: Desculpe, acho que acabei me cortando! Não foi nada – respondeu o rapaz com uma expressão de desagrado. – Tome mais cuidado da próxima vez. Disse tchau para Cíntia, que lhe exibiu um sorriso forçado, pois de tão tensa não conseguia articular uma palavra. Assim que se viu a sós com Walter, ela disse: Vou voltar para o apartamento. Nada disso! – Disse ele, agarrando seu braço fortemente. – Você vem comigo, temos muito que conversar!

Entraram no carro.

Walter usou seu celular e ligou para Aguinaldo, um de seus

comparsas, marcando um local para desovarem o corpo. Depois disso, eles permaneceram calados durante o restante do trajeto. Ela começou a recordar que estava com Walter há quase um ano. Sabia que ele não prestava. Walter era traficante de drogas e mantinha um relacionamento estreito com o crime organizado. Ela sempre relevou tudo isso, mas presenciar a frieza que ele cometeu aquele assassinato deixou-a abalada. Então finalmente disse: Ainda não acredito que fez isso. Ainda mais com o Carlos! Foi preciso, minha querida. Ele estava me passando para trás. Descobri que ele vendia muito mais do que me pagava! Mas precisava matar ele? Ninguém que me engana pode se dar bem! Está me entendendo? Ela começou a chorar, sem conseguir conter-se. Em tom ameaçador, ele gritou com ela: Pare com isso! Escute bem querida, se não parar com essa cena ou se contar para alguém o que você viu, vai acabar em um tapete também. Surpresa, ela olhou-o e parou de chorar. Havia se iludido, achando que Walter gostasse dela, mas pelo jeito ele não gostava de ninguém. Agora via o quanto tinha se enganado. Arrependia-se de ter se envolvido com ele. Como pudera ser tão inconsequente? Quando chegaram à beira de uma lagoa afastada da ilha, dois capangas esperavam por eles. Após algumas instruções sobre o que fazer com o corpo, deixaram o carro e entraram em outro carro, cinza escuro, deixado pelos capangas. Walter ligou o som e agindo naturalmente, como se nada tivesse acontecido, disse em tom conciliador: Desculpe pelo jeito que falei contigo. Eu fiquei nervoso porque não gosto de fazer essa parte do serviço, mas foi necessário. Ela permanecia muda, perplexa. Ele parecia estar se desculpando por causa de uma briga banal, quando na verdade acabara de matar uma pessoa e ameaçá-la de morte, com a voz mais calma do mundo. Tu não vai contar para ninguém, vai? Eu tenho alternativa? – perguntou séria Acho que não! – Ele respondeu tranquilo, mas firme. Claro que não vou contar nada – ela respondeu temerosa.

Essa é a minha guria – disse cinicamente. – O melhor para ti é esquecer tudo isso.

Alguns dias se passaram após o assassinato e o casal não tocou mais no assunto. Algo havia mudado entre eles. Walter percebeu que ela estava fria e evitava o contato dele, enquanto ela notou que ele começou a aparecer todos os dias no apartamento. Tinha certeza que ele estava a vigiando de perto, com receio de que tomasse alguma atitude. Após muito pensar, Cíntia viu que sua única saída era fugir. Tinha algum dinheiro escondido. Por isso, decidiu fugir sem malas por que temia ser descoberta. Esperou que Walter saísse do apartamento e aproveitou a chance. Pegou sua bolsa com o dinheiro e as joias e saiu correndo dali. Na porta do prédio, fez sinal para um táxi, entrou no veículo e pediu ao motorista que a levasse à rodoviária. No caminho, decidiu comprar uma passagem para o lugar mais longe e seguro possível. O que ela não imaginava é que estava sendo seguida. Ficou em dúvida entre viajar para a Argentina ou para o Paraguai. Optou ir de ônibus para o Paraguai, já que ele que sairia em breve dali. Comprou a passagem e sentou em uma das cadeiras de espera. Era só apresentar um documento de identidade e em breve estaria fora do país, sem levantar suspeitas, podendo se passar facilmente por uma sacoleira em busca de oportunidades de compra no país vizinho. Próximo ao horário de embarque, ela se dirigiu à plataforma indicada no cartão. Estancou o passo quando sentiu que uma mão segurava firmemente seu braço. Tentou olhar para trás, mas ele colocou uma arma na cintura dela e disse perto do seu ouvido: Continue andando. Se gritar eu atiro! Em pensamento, ela torcia para que fosse um simples assalto. Atravessaram toda a rodoviária e saíram em uma avenida movimentada. Para sua surpresa e desespero reconheceu aquele homem: era Aguinaldo, que naquele dia ficou encarregado de desaparecer com o corpo de Carlos. Sentiu que estava perdida. Era morte na certa. Sentia seu coração disparar e suas pernas tremiam. Precisava de um milagre.

Assim que o capanga de Walter avistou uma viela, entrou nela e empurrou Cíntia contra a parede, dizendo: Um desperdício matar uma guria tão bonitinha, mas são ordens do chefe! Cíntia fechou os olhos. Achou que nada mais a ajudaria, mas de repente um gato soltou um miado, assustado, derrubando uma lata de lixo, fazendo muito barulho. Aguinaldo desviou sua atenção por um instante, mas foi o bastante para Cíntia chutar a arma dele, que foi parar bem longe. Sem dar tempo de ele respirar, chutou a barriga dele, fazendo-o cair no chão. Começou a procurar a arma, mas quando a pegou Aguinaldo partiu para cima dela. Durante a luta, a arma que estava engatilhada acabou disparando e o capanga de quase dois metros de altura olhou para a mancha de sangue que molhava sua camisa, sem entender direito o que havia acontecido. Acabou caindo no chão, desmaiado. Cíntia, desesperada, verificou que ele estava vivo. Depois, pegou o celular dentro da bolsa e ligou para o resgate. Afinal de contas, não poderia conviver com a culpa de ter cometido um assassinato. Com medo de que os curiosos começassem a se juntar ao redor deles, rapidamente juntou tudo que havia caído da sua bolsa e passou no meio do aglomerado de pessoas. Todos olhavam para ela, pois estava com o rosto e a blusa respingados de sangue. Já era tarde demais. Um carro da polícia com a sirene ligada parou, atravessado no meio da avenida. Automaticamente, um vendedor ambulante apontou para ela e os policiais com a arma em punho a abordaram, dizendo: Parada, não se mexa! Não tenho nada com isso. Apenas verifiquei se o rapaz estava bem e liguei para a emergência! Isso tu poderás esclarecer na delegacia – disse o policial, levando-a pelo braço e fazendo com que entrasse na viatura. O outro policial abria espaço para a ambulância prestar o atendimento necessário e depois foi procurar por testemunhas. Ela levou as mãos ao rosto, em um gesto de desespero. Tudo tinha dado errado!

Cíntia agora estava sentada em uma sala da delegacia esperando para ser interrogada, com uma câmera apontada em sua direção. No caminho, pensou em uma versão que pudesse ser convincente: contaria que estava esperando um ônibus na rodoviária e foi vítima de um sequestro relâmpago. Depois diria que entrou em conflito com o assaltante e por fim, alegaria legítima defesa. O investigador responsável entrou na sala e pediu para que ela contasse tudo que aconteceu. Enquanto isso, o delegado e outro investigador assistiam o interrogatório pelo monitor. Foi o investigador quem disse: Ela não me é estranha, vou verificar um arquivo. Em breve voltou com uma pasta e mostrou a foto que comprovava suas suspeitas ao delegado, dizendo: Eu sabia que a conhecia de algum lugar. Ela é a amante do traficante Walter da Costa! Aquele que estamos investigando há meses. Não pode ser – retrucou o delegado, incrédulo. – Tu tens certeza? Absoluta! Tiramos a sorte grande, então. Verifique a identidade da vítima, provavelmente ele tem alguma relação com o tráfico, eu vou conversar com ela pessoalmente. Entrou na sala do interrogatório e começou a questionar Cíntia sobre Walter e seus negócios. Ela, muito nervosa, negou tudo e continuava mantendo a sua versão. Estava apavorada, pois sabia que se contasse a verdade, Walter daria um jeito de matá-la. Ele mais uma vez pressionou-a, dizendo: Tem certeza que não quer contar a verdade? Liguei para o hospital e o homem que tu atiraste provavelmente não vai sobreviver – mentiu e reparou na expressão de desespero dela. – Tu foste presa em flagrante. Na sua bolsa havia muitas joias e uma passagem para o Paraguai! É melhor contar porque estava fugindo do país. Não tenho mais nada para dizer – respondeu, sem conter as grossas lágrimas que desciam pelo seu rosto. Leve a guria para a cela – ordenou o delegado para o investigador. – Tenho certeza que mudará de ideia! Quando entrou na cela, não pode deixar de notar o aspecto sujo daquele cubículo onde outras seis mulheres estavam presas. Algumas pareciam prostitutas e faziam gracejos sobre as

roupas e aparência dela. O deboche só cessou quando todas repararam que ela tinha a blusa manchada de sangue. Simplesmente se deixou cair em um canto da cela e escondeu o rosto nas mãos, em sinal de arrependimento. Na sala do delegado, o investigador ansioso perguntou: Então vamos deixá-la na cela e depois interrogá-la novamente até que amoleça? Ela está apavorada, – respondeu o delegado – mas eu sei de alguém que vai convencêla a contar tudo.

Cíntia não havia conseguido pregar os olhos a noite inteira. Por mais que pensasse, não conseguia encontrar uma solução para sair dali. Sua vida estava acabada. Ficou mergulhada nesses pensamentos quando uma policial abriu os cadeados da porta e a chamou: Cíntia Antunes. Ela demorou alguns segundos para se levantar. Seu corpo todo doía, pois havia ficado sentada na mesma posição a noite inteira. Foi algemada e levada para a sala de interrogatório. Ao invés do delegado, entrou na sala um homem muito bem vestido com terno e sobretudo preto. Aparentava ter em média quarenta anos, devido aos cabelos pretos levemente grisalhos. Trazia um sorriso sedutor no rosto e com uma voz suave e charmosa a cumprimentou: Bom dia Cíntia, meu nome é Henrique! A julgar pela sua aparência, vejo que não estão a tratando muito bem. Cíntia não respondeu, apenas meneou a cabeça, desapontada. Era só o que lhe faltava: um piadista. Ele percebeu a contrariedade dela. Tentando ganhar sua confiança, colocou a sacola de uma loja de departamentos em cima da mesa e foi até a câmera de vigilância, onde apertou um botão, desligando-a. Ela ficou observando-o, tentando perceber se aquilo era algum truque. Ainda sorrindo, ele disse: Precisamos conversar. Em sigilo, é claro. Tudo o que eu tinha para dizer, eu já disse – respondeu seca. Ele não se abalou com a resposta, apenas comunicou:

Entendo sua má vontade, antes de conversarmos você vai tomar um banho. Trouxe roupas novas, – disse apontando a sacola – tenho certeza que vai se sentir mais à vontade. Então faremos um lanche e conversaremos sobre o seu destino. Desconfiada, ela não falou nada. Achou que o jeito dele de falar era diferente dos outros policiais. Tentava manter um clima amistoso e percebeu logo que ele era muito convincente e que tentaria manipulá-la. Ele se levantou e chamou a policial: Pode levar a senhorita Cíntia e tire esses braceletes dela, definitivamente eles não lhe caem bem. Cíntia não estava achando a menor graça, mas teve que admitir que o banho quente lhe fez muito bem, vestiu as roupas novas e limpas, foi levada novamente a sala, assim que entrou sentiu o cheiro delicioso de hambúrguer e algo que deveria ser bacon, não havia sentido fome até aquele momento, mas estava sem comer a pelo menos vinte horas e o cheiro era realmente delicioso. Sentou-se na frente de Henrique que comentou: Agora está bem melhor – apontou para o sanduíche na frente dela e disse – por favor, não faça cerimônia, deve estar com fome. Receosa com tantas gentilezas pegou o lanche em silêncio e deu uma mordida, estava realmente muito bom. Henrique continuava a observando quieto com um aparente sorriso de satisfação, quando ela estava na metade do sanduíche ele se inclinou sobre a mesa e disse: Já sabemos tudo que aconteceu, só nos resta saber se você vai colaborar ou não? Ela terminou de mastigar e engoliu com dificuldade, largou o lanche no prato e disse irredutível: Já contei tudo para o delegado – arriscou uma pergunta – A qual polícia tu pertences? Não sou policial, sou um negociador, quero fazer um acordo com você. Talvez um advogado ou promotor pensou, balançou a cabeça negativamente e disse: Não sei do que está falando! Henrique fixou os olhos nela e parecia querer ler seus pensamentos com seu olhar escuro e penetrante, pensou um pouco e falou: Vamos fazer assim, você disse que já contou tudo, agora eu falo e você escuta, se eu esquecer alguma coisa você completa, ok? Como Cíntia não respondeu nada ele prosseguiu:

Sei que você é Cíntia Antunes, namorada do traficante Walter da Costa. Só você sabe todas as falcatruas dele e talvez até saiba para onde fugiu o braço direito dele, chamado de Carlos Pereira – ao ouvir esse nome Cíntia estremeceu. – Por algum motivo, você juntou um pouco de dinheiro, joias e resolveu fugir para o Paraguai, mas havia alguém lhe seguindo: Aguinaldo, o empregado de Walter. O que mais me impressiona nessa história é que você reagiu contra um homem enorme e gordo, sendo que ele foi baleado, levando a pior. Agora ele está internado em um hospital. Por acaso esqueci algo? Ela permaneceu quieta, mas ele havia percebido pela reação dela que as suas suposições até ali estavam corretas. Continuou sua linha de raciocínio, agora em tom paternal: Cíntia, eu acredito que foi legítima defesa, mas você tem que colaborar. Não há nada que possa me dizer? Não – respondeu, simplesmente baixando os olhos. Sei também que tem uma irmã! – Disse, enfático. Cíntia se sobressaltou e observou que aquele desconhecido sabia tudo sobre ela. Seus olhos agora estavam úmidos e pareciam suplicar que não envolvesse sua irmã em tudo aquilo. Ela não tinha que pagar pelos seus erros, era apenas uma criança. Ele segurou sua mão e em tom cordial, propôs: Tenho uma proposta! Façamos assim: você conta tudo que sabe sobre o Walter e sai dessa inteira. Ele será preso e levado à julgamento e você não cumprirá pena nenhuma. Enquanto isso, terá direito a uma prisão especial com toda a proteção que merece. Será tudo por minha conta e durante o tempo que durar o julgamento, eu continuarei depositando o dinheiro para sua irmã. Tudo isso assim, de graça? – Perguntou, ressabiada. Não, – respondeu, exibindo seu sorriso. – Apenas pelo simples prazer de ver Walter mofando na cadeia. Depois, você vai me fazer um favorzinho... Que tipo de favor? Não posso lhe dizer agora. Terá que confiar em mim. Ela abriu um sorriso nervoso e ironicamente perguntou: Como posso ter certeza de que tu irás cumprir tudo que prometeu? Ele não disse nada para Cíntia. Apenas se levantou e chamou a policial. Recomendou que a levasse para a cela especial e foi embora sem lhe endereçar nenhum olhar. A cela especial tinha

uma cama com lençóis limpos e um banheiro privativo. Era pequena, mas individual, o que fazia toda a diferença. Depois de algum tempo, ele voltou e entrou na cela, dizendo: Aqui está a sua prova – estendeu-lhe um recibo do banco. Ele havia depositado uma boa quantia no nome de Olívia, que era madrinha de sua irmã Jéssica. Como sabe o número da conta? Sei disso e muito mais. Então vai confiar em mim? Acho que vou me arrepender, mas eu confio em ti e concordo com o que quiser!

Assim que fez o acordo com Henrique, ela prestou um novo depoimento à polícia, contando sobre seu relacionamento com Walter e seus negócios escusos. Ficou com receio quando o delegado perguntou sobre Carlos: Conhece Carlos Pereira? Sim – respondeu, indecisa – ele trabalha com o Walter. Tu sabes me dizer onde ele está? Cíntia lançou um olhar preocupado para Henrique que acompanhava o depoimento. Percebendo que ela titubeava para responder a pergunta, tentou incentivá-la: Não tenha receio, conte tudo! Terá toda proteção. Ela estava criando coragem quando o delegado revelou: Cíntia, precisamos muito saber sobre o Carlos. Ele estava sendo investigado e um policial disfarçado havia fechado uma compra de entorpecentes no sábado, mas ele não apareceu para entregar o bagulho. Achamos que vazaram informações e ele fugiu do flagrante. É muito importante sabermos o que aconteceu, se existe um delator entre nós! Cíntia pensou na ironia da situação. Se Walter não o tivesse matado na sexta-feira, ele teria sido preso em flagrante no sábado. Quem sabe sua vida não teria tomado aquele rumo para que grandes decisões fossem tomadas. Decidida, finalmente contou: Walter matou o Carlos na sexta-feira passada! Todos ficaram surpresos e se entreolharam diante da revelação. Foi o investigador mais jovem que perguntou: Tens como provar isso, que ele apagou o sócio?

Aconteceu no meu apartamento. Eu mesma tive que lavar o piso da sala para tirar a mancha de sangue. Pode ser que tenha algum vestígio ainda por lá. Vou mandar um perito – exclamou o delegado. – Mais alguma coisa? Ele enrolou o corpo no tapete e levou até uma lagoa que fica fora da ilha. Ele te disse qual lagoa? – Perguntou Henrique, interessado. Eu fui obrigada a ir junto com ele – disse, enxugando uma lágrima. – Não sei o nome do lugar, mas posso indicar a rodovia que pegamos e se eu for até lá vou saber dizer com certeza se estão certos. O delegado e investigadores exultaram com a notícia. Imediatamente, abriram um mapa do estado de Santa Catarina. Cíntia identificou a estrada e apontou a provável lagoa onde o corpo de Carlos estaria afundado, com a ajuda de duas pedras que foram amarradas nele, conforme as instruções de Walter. Precisamos resgatar o corpo e acusar Walter imediatamente - determinou o delegado. Isso pode demorar – ponderou Henrique. – Eu tenho uma ideia, mas preciso de duas coisas: o celular do Aguinaldo e a divulgação de uma informação falsa na imprensa. O celular está comigo – alegou o delegado, com um sorriso de satisfação. – E vai ser um prazer enganar esses abutres que desde cedo fazem plantão na porta da minha delegacia. Depois que o delegado deu uma entrevista coletiva para a imprensa, Henrique de posse do celular do capanga que continuava internado, escreveu uma mensagem de texto: “Serviço feito! Vou sumir por uns tempos. Estão atrás de mim.” Walter recebeu o recado e ligou a TV procurando um telejornal. Aumentou o som enquanto o repórter dizia: Próximo a Rodoviária de Florianópolis, no Terminal Rita Maria, uma mulher não identificada foi assaltada e após levar um tiro permanece em estado grave no Hospital. O assaltante continua sendo procurado pela polícia... O celular emitiu um som e vibrou no bolso de Henrique. No visor, a mensagem não deixava dúvida: “Não completou o serviço, vá até o hospital e termine.” Henrique com um sorriso, respondeu simplesmente: “OK”

Walter nem suspeitava que Cíntia já tivesse passado as informações para a polícia. Momentos depois, uma equipe de mergulhadores já estava na lagoa, à procura do corpo. Os dois aguardavam ansiosos o desenrolar dos fatos. Temos que achar o corpo, Cíntia. Sem ele, não teremos uma prova real para condenálo! Henrique, agora lembrei que existe outra testemunha! O meu vizinho, não sei o nome dele, sem saber ajudou a carregar o tapete até o carro e ainda por cima levou o lenço de Walter, que estava sujo com o sangue de Carlos. Muito bem! – Disse sorrindo. – Essa informação é muito preciosa. – Ligou imediatamente para o investigador que acompanhava a perícia no apartamento dela e lhe passou as informações. As buscas continuavam. Henrique esperou que o delegado estivesse sozinho e lhe comunicou: Estou indo embora e vou levar a Cíntia comigo, conforme nosso acordo. Mas a guria deve saber muita coisa ainda – protestou o delegado, contrariado. – Isso sem contar que ela é uma testemunha chave! Ela estará em um local seguro e sempre que quiserem interrogá-la estará à disposição. Você sabia que isso fazia parte do acordo e nunca lhe dei motivo para desconfiar de mim. Está bem! Henrique e Cíntia saíram, diante dos olhares perplexos da equipe policial. O delegado abriu os braços num sinal de impotência e justificou: Serviço de proteção à testemunha – satisfeitos com a resposta, todos voltaram as suas tarefas.

Cíntia não se arrependeu de ter confiado em Henrique. Estava em um tipo de prisão especial com uma cama confortável e televisão, além do banheiro privativo. Uma semana havia se passado e finalmente os jornais traziam todas as informações sobre o caso. A polícia encontrou três corpos na lagoa, entre eles o de Carlos. Walter foi preso e como não era réu primário permaneceria na prisão até o dia do julgamento. No fim da reportagem, o advogado

relatava que havia entrado com um pedido de relaxamento da prisão. Ela sentiu um arrepio ao saber daquilo, mas ficou mais tranquila quando leu que a identidade da testemunha estava sendo mantida em sigilo. A investigação continuou durante meses e ela sempre colaborava com a polícia dando todas as informações que sabia, conforme a polícia avançava na investigação. Praticamente toda a quadrilha havia sido descoberta. Alguns foram presos e outros fugiram, mas os resultados eram excelentes. No primeiro mês ela recebia frequentemente a visita de Henrique, que lhe fazia muitas perguntas, mas também lhe trazia alguns agrados como pizza, bombons e uma carta de sua irmã. Na carta, ela dizia que queria ir visitá-la, mas Cíntia enviou uma resposta através de Henrique dizendo que não era o momento ainda e que assim que terminasse o julgamento iria ao seu encontro. Nos meses seguintes, as visitas de Henrique se tornaram cada vez mais raras. Em compensação, era muito bem tratada por todos os funcionários e tinha direito a fazer atividades físicas e aulas de defesa corporal. O lugar que estava ás vezes lhe parecia surreal.

Demorou um ano e quinze dias após a prisão de Cíntia para que o julgamento começasse. Cíntia estava pensativa e nervosa. Henrique lhe disse que haviam apressado a data e realmente para a morosa justiça brasileira aquilo era um feito. Olhou mais uma vez para a única foto que tinha de Jéssica, da época em que a mãe delas havia morrido. Elas não eram muito parecidas, fora os cabelos ruivos, pois tinham pais diferentes. Não tinham convivido muito: Cíntia havia sido criada pelo pai em Florianópolis, longe delas. Tentava não admitir, mas tinha um pouco de mágoa da mãe que a visitou poucas vezes. Em compensação, gostava muito de Jéssica. Tentou imaginar como ela estaria atualmente, já que estava por volta dos quinze anos. Alguém bateu na porta, estava na hora de ir ao tribunal. Enquanto esperava na antessala, ficou se perguntando se Henrique estaria presente. Ele lhe garantiu que não perderia o julgamento por nada. Além de confiar nele, poderia dizer que o respeitava e chegava a admirá-lo. Na última vez em que o viu, ele se despediu com uma frase no mínimo intrigante. Lembrava-se com todas as letras do que ele havia falado: Embora não pareça, tudo vai dar certo!

Quando o promotor chamou a testemunha de acusação, Cíntia foi levada para dentro do tribunal. Indicaram-lhe uma cadeira. Na hora de fazer o juramento, levantou-se e pode visualizar Henrique sentado em um dos poucos lugares reservados à imprensa. Ele lhe endereçou um sorriso discreto. Depois do juramento ela sentou-se e olhou para Walter. Só percebeu ódio nos olhos dele. O promotor deu início as perguntas, que ela respondeu com segurança, sem omitir detalhes. O advogado de defesa foi mais difícil de enfrentar. Sempre repetia perguntas, tentando fazê-la cair em contradição e muitas vezes insinuava que ela queria se vingar de Walter por ele ter terminado o caso com ela. Cíntia tentava se controlar ao máximo para não demonstrar irritação e respirando fundo conseguia manter a calma. O promotor protestou várias vezes e o juiz parecia inclinado à repreender a atitude antiética do advogado de Walter. Depois de horas sendo bombardeada, ela finalmente foi dispensada, mas tinha que ficar a disposição do juiz até o final do julgamento. Durante três dias ficou isolada, esperando que tudo aquilo acabasse. Na hora do veredicto foi levada novamente ao tribunal. Olhou rapidamente para as cadeiras e identificou Henrique, que parecia querer lhe transmitir confiança. O juiz recebeu o papel dos jurados e começou a ler o resultado vindo do júri, informando que Aguinaldo Silva tinha sido condenado a catorze anos de prisão por associação ao crime, tráfico de drogas e dois homicídios. Depois passou para o outro acusado, dizendo: O réu Walter da Costa foi condenado à vinte anos de prisão por formação de quadrilha, tráfico de drogas, três homicídios e ocultação de cadáver. Cíntia deu um sorriso, sentindo-se finalmente livre. Tinha vontade de chorar. Olhou para Henrique, mas ele não estava mais lá. Seu sorriso desapareceu quando ouviu o juiz proferir seu nome, dizendo: Cíntia Antunes foi considerada inocente da acusação de tentativa de homicídio contra Aguinaldo Silva, pois agiu em legítima defesa, mas foi condenada à quatro anos de prisão pela cumplicidade no assassinato de Carlos Pereira, ocultação de cadáver e tentativa de fuga. Enquanto os policiais avançavam em sua direção, ela se voltou para o juiz e gritou: Não, houve um engano, eu sou a testemunha! – Enquanto suas mãos estavam sendo algemadas, falava: Eu fiz um acordo, não posso ir para a cadeia!

O juiz voltou-se para o promotor e perguntou:

Por acaso se utilizaram do benefício da delação premiada e não passaram essa informação durante o julgamento? Não, Meritíssimo! – Apressou-se o promotor, dizendo: Cíntia Antunes foi presa com

uma passagem para o Paraguai como foi dito, em uma clara intenção de fuga. Como ela continuava gritando que tinha um acordo, o juiz deu algumas marteladas enérgicas na mesa, pedindo silêncio. Logo depois, olhou diretamente em seus olhos e sentenciou: Neste tribunal não existem acordos. Cada um deve pagar por aquilo que lhe cabe perante a sociedade. Podem levá-los! Cíntia não podia acreditar no que estava acontecendo. Foi levada algemada, junto com Aguinaldo e Walter, que apresentava um sorriso irônico no rosto. Seu único consolo é que seria levada para um presídio feminino bem longe de Walter. No trajeto pensava que havia sido usada aquele tempo todo e mesmo tendo feito tudo que eles lhe pediram, estava sendo descartada. Como pude ser tão idiota! Iria passar quatro anos em um presídio e sua irmã não receberia mais o seu dinheiro. Lembrou-se do sorriso sedutor de Henrique e sentiu raiva dele. Seu pensamento novamente se desviou para a irmã. Havia contado por meio de carta que era inocente e que assim que acabasse o julgamento iria visitá-la. Chorou copiosamente, sentindo um misto de raiva e tristeza. Entrou no presídio e foi levada até a cela por uma policial, que a empurrou e depois trancou novamente as grades. Duas mulheres gordas a encararam. Com medo, ela sentou-se em um canto, abraçou seus joelhos e permaneceu com a cabeça abaixada. No dia seguinte, a carcereira trouxe a comida e entregou a marmita nas mãos de cada detenta. Cíntia ficou apenas olhando. Não tinha fome. Uma das mulheres perguntou se ela não iria comer e sem falar nada ela lhe entregou sua comida, ficando apenas com o copo de suco que tinha um gosto estranho que ela não conseguiu identificar o que era. Depois de aproximadamente vinte minutos, começou a se sentir mal. Tinha tonturas e sua visão começou a ficar desfocada. Apoiou-se nas barras e sem força para se segurar caiu no chão. Uma mulher veio lhe perguntar o que havia acontecido: Não sei. Estou fraca e tudo está turvo! – Olhou para o chão e viu o copo. Era óbvio, havia sido envenenada!

Suas companheiras de cela começaram a gritar chamando a carcereira. A funcionária desconfiada perguntou: Consumiu algum tipo de droga, hein bandida? Não! – Respondeu com a voz baixa e percebeu que até sua língua parecia não responder a sua vontade. – É meu fim! – ela pensou, A carcereira voltou com um homem vestido de paramédico, que examinou as pupilas dela e determinou: Tenho que removê-la daqui imediatamente! Ela, assustada, reconheceu a voz. Procurou observar seu rosto enquanto ele a carregava no colo. Apesar de sua visão embaçada reconheceu o sorriso de Henrique. Esforçou-se para falar. Queria gritar, mas não conseguia. Mentalmente repetia: “Seu traidor, veio me matar.” Repetiu isso até cair em uma completa escuridão.

Quando acordou, abriu os olhos assustada. Estava em um quarto muito parecido com aquele que passou o último ano. Uma moça loira e bonita, aparentando por volta de trinta anos, olhou para ela e esboçou um sorriso. Tentou se sentar, mas sentiu um pouco de tontura e voltou a deitar, quando ouviu a recomendação: Fique deitada, o efeito demora um pouco para passar. Cíntia percebeu que a moça tinha um sotaque diferente. Perguntou: O que aconteceu? Onde estou? Descanse um pouco, eu volto já! Depois de algum tempo, para sua surpresa, a loira voltou na companhia de Henrique. Bem humorado, ele disse: Surpresa, minha querida! Pensou que eu fosse te enganar? Eu confiei em ti e acabei sendo condenada! Mas eu prometi à você que te daria proteção – respondeu sério. – E que você não iria cumprir pena. Nunca menti para você! O que aconteceu? – ela perguntou, confusa, enquanto a loira os deixava a sós. Calma, você acabou de acordar. – Estendeu para ela um jornal que trazia embaixo do braço. – Pensei que gostaria de ler algumas notícias antes.

O principal jornal da cidade trazia a manchete: “Morta na Cadeia Cúmplice de Assassinato”. A reportagem abaixo trazia uma foto dela, tirada dias antes da sua prisão, em uma festa a fantasia. Estava vestida de espanhola. Cíntia lia boquiaberta a reportagem, Henrique a interrompeu, perguntando: Gostou da foto que escolhi? Ela virou o jornal para ele e respondeu: Estou parecendo a legítima amante de traficante. Ele soltou uma gargalhada e justificou sua escolha: Divulguei esta foto em que você está bem diferente do usual. Porque, afinal de contas, agora você está morta. Não é conveniente ser reconhecida. Como conseguiu isso? E agora, como vai ser? Realmente você deve ter muitas perguntas para fazer, mas antes quero que reconheça que cumpri minha parte no acordo. Dei-lhe proteção e te tirei da cadeia. Eu reconheço – ela respondeu, sem entusiasmo. – Obrigada. Agora está na hora de você me pagar este favorzinho! – Disse, com seu sorriso habitual. Tudo bem. Eu prometi e não vou voltar atrás! Preste bastante atenção! – Henrique assumiu um tom mais sério e lhe estendeu uma pasta. – Daqui por diante você não é mais Cíntia Antunes. Ela morreu! Você receberá outro nome, outro endereço, outro trabalho... Mudará seus cabelos e se preciso for até a cor dos seus olhos! Não poderá se comunicar com qualquer pessoa que você conhecia antes e viverá onde a organização para a qual você irá trabalhar lhe indicar! Mas para que tudo isso? Somos uma organização secreta que tem como principal objetivo resolver os casos que a polícia comum não consegue. Por isso a falsa identidade e os disfarces! Que loucura! – Cíntia exclamou, enquanto abria a pasta que lhe foi entregue. Deparouse com vários documentos que tinham um mesmo nome. Muito bem vinda a ADQS, Thaís Torres!