DOSSIÊ DA ARTICULAÇÃO NACIONAL DOS COMITÊS POPULARES DA COPA SUMÁRIO EXECUTIVO

Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil
Moradia – Trabalho – Informação, Participação e Representação Popular – Meio Ambiente – Acesso a Serviços e Bens Públicos — Mobilidade – Segurança Pública

Junho de 2012

1 INTRODUÇÃO
“Me sinto um otário, porque quando o Brasil ganhou esta porcaria de Olimpíada eu estava na Linha Amarela com meu carro, fiquei buzinando igual um bobão. Agora estou pagando por isso. Isso que é Copa do Mundo? Isso que é espírito olímpico?” Michel, removido do bairro da Restinga, Rio de Janeiro

O povo brasileiro, como todos os povos do mundo, pratica e ama os esportes. Talvez mais que outros povos do mundo, os brasileiros têm grande paixão pelo futebol. Como também amam suas cidades e recebem com grande hospitalidade e alegria aqueles que, de todas as partes do mundo, vêm nos visitar e conhecer nossa riqueza cultural, nossa música, nosso patrimônio histórico, nossa extraordinária diversidade ambiental, nossas alegrias e também nossas mazelas – a maior das quais é a dramática injustiça social e ambiental que constitui lamentável marca da história e da realidade atual deste imenso país. Apresentamos aqui o Sumário do Dossiê sobre a Copa do Mundo 2014, que será sediada por 12 cidades brasileiras1, e sobre as Olimpíadas 2016, que se realizarão na cidade do Rio de Janeiro. Um dossiê sobre eventos esportivos deveria ter como tema central a prática do esporte, das relações pacíficas, culturais e esportivas entre todos os povos do planeta Terra. Deveria falar da alegria de termos sido escolhidos para sediar estes dois grandes eventos. Mas não é disto que tratam o Dossiê e este Sumário. Preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, eles falam do lado obscuro destes megaeventos. Eles falam das 170 mil pessoas, segundo estimativas conservadoras, cujo direito à moradia está sendo
Manaus, Cuiabá, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre.
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violado ou ameaçado. Eles falam de milhões de cidadãos a quem o direito à informação e à participação nos processos decisórios tem sido atropelado pelas autoridades constituídas, assim como por entidades privadas (Comitê Olímpico Internacional, Comitê Olímpico Brasileiro, comitês organizadores locais dos eventos) e grandes corporações, a quem os governos vêm delegando responsabilidades públicas. Eles falam de desrespeito sistemático à legislação e aos direitos ambientais, aos direitos trabalhistas e ao direito ao trabalho, aos direitos do consumidor. Eles falam do desperdício dos recursos públicos, que deveriam estar sendo destinados a atender às necessidades da nossa população: déficit habitacional de 5.500.000 moradias e 15.000.000 de domicílios urbanos destituídos das condições mínimas de habitabilidade. Para não falar da precariedade de nossos sistema de saúde e educação pública. Tão ou mais grave que a verdadeira farra privada com recursos públicos é a instauração progressiva do que vem sendo qualificado como cidade de exceção. Decretos, medidas provísórias, peças de legislação votadas ao arrepio das leis vigentes e longe do olhar dos cidadãos, assim como um emaranhado de sub-legislação composto de infinitas portarias e resoluções, constroem uma institucionalidade de exceção. Nesta imposição da norma ad hoc, viola-se abertamente o princípio da impessoalidade, universalidade e publicidade da lei e dos atos da

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Manifestação Comitê Popular da Copa de Curitiba

administração pública. Interesses privados são favorecidos por isenções e favores, feitos em detrimento do interesse público. Empresas privadas nacionais e internacionais submetem a nação e as cidades a seus caprichos – melhor dizer, interesses. Nestas operações, que a linguagem oficial chama de parcerias público-privadas, o público, como é sabido, fica com os custos e o privado com os benefícios. Afinal de contas, os promotores dos megaeventos falam de esporte mas tratam de negócios. O Dossiê e este Sumário pretendem chamar a atenção das autoridades governamentais, da sociedade civil brasileira e das organizações de defesa dos direitos humanos, no Brasil e no exterior, para o verdadeiro legado que estes eventos nos deixarão: destruição de comunidades e bairros populares, aprofundamento das desigualdades urbanas, degradação ambiental, mi-

séria para muitos e benefícios para poucos. Eles pretendem, sobretudo, convocar os movimentos populares, sindicatos, organizações da sociedade civil, defensores dos direitos humanos, homens e mulheres que amam e buscam a justiça social e ambiental, a se somarem aos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas. Que estes comitês se multipliquem, nas cidades que sediarão os jogos, mas também em outras cidades. Em cada bairro, em cada escola, nas universidades e nos locais de trabalho, nos sindicatos e nos movimentos sociais, nos grupos e associações culturais, os cidadãos estão convidados a discutir como devem ser a Copa e as Olimpíadas que desejamos. Não temos a pretensão de impedir que as competições ocorram. Mas queremos que a bola somente comece a rolar nos gramados após a reparação de todos os direitos já violados. Que o apito inaugural não soe enquanto

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pretendem impor ao povo brasileiro. quando os lado a pretexto dos interesses e emergências que promotores da Copa e das Olimpíadas assu.os projetos associados à Copa e às Olimpíadas nalizados. Que nenhuma respeito à cidadania e tos humanos. Nenhum direito pode ser viotados. no 17 o Grito dos Excluídos. culo somente se inicie quando os torcedores Copa e Olimpíadas não justificam a violação de e consumidores tenham seus direitos respei. à resistência. uma conclamação à luta. Do direito de responsabilizar as autonão tiverem sido objeto de debate público e ridades que abusarem de seu poder e de substinão estiver garantida a permanência e a segu. Que ninguém seja perseguido por trabalhar no espaço público. inscritos em medalha seja entregue aos direitos humanos! nossa Constituição e nos enquanto a legislação tratados internacionais astrabalhista não estiver sinados pelo Brasil.convite. E. dos serão pagos pelos capitalistas privados. em partimirem o compromisso de que os custos priva. o Dossiê e isenções sejam suspensos e que se garanta a este Sumário não são uma lamentação mas um preservação do meio ambiente. Que favores e vem e das violências que denunciam.tuir o arbítrio e a violência pelos princípios da democracia participativada rança a todas as comuresponsabilização dos sernidades e bairros poCopa e olimpíadas com vidores públicos e dos direipulares.participarem da luta para que tenhamos COPA tos. e A Articulação Nacional dos Comitês da Copa e das Olimpíadas convida todos os cidadãos a não com recursos públicos. Que o espetá.cular nas cidades que sediarão os megaeventos.direitos humanos.NIA E AOS DIREITOS HUMANOS! Comitê Popular da Copa de São Paulo. sendo integralmente Apesar das dramáticas realidades que descrerespeitada. É disso também que falam estes documen. 4 . Da legitimidade incontestável dos cidadãos E OLIMPÍADAS COM RESPEITO À CIDADAde lutarem por seus direitos sem serem crimi. não menos importante.

por exemplo. cessão de patrimônio público imobiliário. 11. a lei autoriza genericamente “destinação de recursos para cobrir eventuais déficit operacionais do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016”. o Decreto Municipal n. 13 Conhecida como “Ato Olímpico”. por qualquer razão. p. são asseguradas condições excepcionais e privilégios para a obtenção de vistos. quase de mão-beijada. 2004. Nesta lei. Ademais. portarias e atos administrativos de vários tipos que instauram o que vem sendo chamado de “cidade de exceção”. exercício profissional de pessoal credenciado pelo COI e empresas que o patrocinam. quando a Lei Federal n. mas também a uma infinidade de “cidadãos mais iguais” que não precisam pagar impostos. a Lei n. evidentemente. Giorgio. Ao mesmo tempo.035/20091 é a primeira de uma longa lista de medidas legais e normativas que instauram as bases de uma institucionalidade que não pode ser compreendida senão como uma infração ao estado de direito vigente. que instituiu a Autoridade Pública Olímpica.396/2011. decretos. medidas provisórias. por meio do estado de exceção. mas também de categorias inteiras de cidadãos que.124/2005. determina claramente a “utilização prioritária de terrenos de propriedade do Poder Público para a implantação de projetos habitacionais de interesse social”. capitais do setor hoteleiro e turístico e. patrocinadores dos megaeventos. concessões e operações urbanas que nada têm a ver com o interesse público ou com prioridades sociais. nos níveis federal. responsável por coordenar e planejar todas as intervenções governamentais para a realização dos jogos na cidade do Rio de Janeiro. caducam em ritmo vertiginoso diante do apetite de empreiteiras. pareçam não integráveis ao sistema político” AGAMBEM. resoluções. entre outras coisas. são aprovadas doações. Todas as isenções fiscais e tributárias são 1 oferecidas às entidades organizadoras. estabelece que o Poder Executivo “envidará todos os esforços necessários no sentido de possibilitar a utilização de bens pertencentes à administração pública municipal.Cidade de Exceção “O totalitarismo moderno pode ser definido. num capitalismo do qual o risco teria sido totalmente banido. como a instauração. a partir daí. 30. O Ato Olímpico é seguido pela Lei n. enormes extensões de bem localizadas terras públicas são entregues a grandes empresas. Assim. proteção de marcas e símbolos relacionados aos jogos.379/2009. 12. tributos territoriais e taxas alfandegárias. concessão de exclusividade para o uso (e venda) de espaços publicitários e prestação de serviços vários sem qualquer custo para o Comitê Organizador. Segue-se. Estado de exceção. especuladores imobiliários. de uma guerra civil legal que permite a eliminação física não dos adversários políticos. nesse sentido. concessões e operações urbanas que nada têm a ver com o interesse público ou com prioridades sociais. ainda que ocupados por terceiros. 5 . No Rio de Janeiro. muitos resultantes de longos e ricos debates na sociedade. indispensáveis à realização dos Jogos Rio 2016”. 12. estadual e municipal. são aprovadas doações. vê-se o poder publico mobilizado para “limpar” terras públicas de habitação popular Em aberta violação à legislação. Planos diretores e outros diplomas. São Paulo: Boitempo. uma interminável lista de leis. Em aberta violação à legislação.

49. o clamor de empresas. foi a aprovação. Além de liberar a utilização de “trabalho voluntário” pela FIFA nos jogos. assina o Documento de Garantias Governamentais . Houve veto presidencial a apenas quatro itens. suspensão e desconstituição de direitos sociais e fundamentais que significam um considerável retrocesso político. A Lei Geral da Copa. contudo. as quais podem ser sintetizadas em sete eixos de destaque. Durante os nove meses de tramitação do Projeto no Congresso Nacional. que instituiu o Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC). têm sido disciplinadas em diplomas como o Decreto n. 7. interesses privados muito específicos. porque. Para completar o cenário de exceção. um verdadeiro atalho à Lei de Licitações pelo qual vultosas somas de recursos públicos podem ser particular de adesão estabelecido com a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA). esses compromissos podem ser considerados inválidos.462/2011.578/2011.348/2010). Tais “garantias” concretizam. a violação sistemática de nossa legalidade e a implantação da cidade de exceção constituem legados inaceitáveis. longe de proteger o interesse público. 12. numa relação de grave subserviência política. por exemplo.e entregar estas áreas à especulação imobiliária. em maio de 2012. E ademais. 6 . em nome da viabilização dos eventos. Em triste evocação do que foram os tempos cinzentos da ditadura militar. 7. ao lado de alterações nos limites de endividamento dos municípios para ações relacionadas à Copa do Mundo e Olimpíadas (Lei n. quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Numa análise técnica. Em primeiro lugar. em grande medida fruto da mobilização e incidência política da sociedade civil em repúdio à flexibilização. Garantias Governamentais para uma Copa Privada O ano de 2007 é um importante marco nesse processo. a presidente Dilma também rechaçou as suspensões de normas locais de benefícios ao consumir. da Constituição Federal3. consórcios e instituições financeiras envolvidas por maior segurança jurídica em suas transações e investimentos. uma vez que jamais foram oficialmente publicizados e que desconsideram o procedimento regulamentado pelo art. Inúmeras formas de isenção fiscal. Decreto n. O principal desdobramento disto. da Lei Geral da Copa. através do qual o Brasil se comprometeria a atender incondicionalmente a todas as exigências da entidade. acompanhado de onze ministros e do Advogado-Geral da União. na prática. não é tão “geral” assim. inciso I. Entre eles a questão dos “ingressos populares” e o procedimento especial de visto para estrangeiros. ou seja. resultando num diploma eivado de contradições e inconstitucionalidades.536/2011). uma nova tipificação penal e juizados especiais são previstos na Lei Geral da Copa. 12. Igualmente central na engenharia jurídica dos megaeventos é a Lei n. ela tem por base compromissos comerciais. Apesar disso. não é a primeira e pode não ser a última das leis editadas sobre o assunto. nem todos positivos. (ver imagem). na esfera federal. contrato 2 não houve oportunidade de discussão ampliada sobre os aspectos críticos da Lei ou participação formal dos principais grupos afetados pelas novas regras. É importante lembrar também que todas as cidades-sede assumiram obrigações similares por meio dos chamados Host City Agreements. sua redação original sofreu diversas alterações. Para um país que há menos de 30 anos estava submetido à ditadura. o poder público cria um aparato de segurança especial (Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos.

No horizonte futuro. esses instrumentos não deixam de apresentar o risco de serem incorporados definitivamente no ordenamento brasileiro. é possível divisar ao menos outros dois Projetos de Lei de iniciativa do Senado Federal portadores de ameaças da mesma natureza. efetivou-se através de Medida Provisória. abre a possibilidade de proibição administrativa de ingresso de torcedores em estádios por até 120 dias. Alardeados como transitórios. o tipo penal de “terrorismo”. 728/2011 restringe o direito à greve a partir de três meses antes do início da Copa do Mundo. nas palavras do filósofo Giorgio Agambem. hoje inexistente no Brasil. 7 . Enquanto o PLS n. depois de experimentados no laboratório jurídico dos megaeventos. expressões e apelidos como “Seleção Brasileira de Futebol” e “Seleção Canarinha” sejam utilizadas somente pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). não por acaso. “a forma legal daquilo que não pode ter forma legal”. A amplitude.transferidos à iniciativa privada e que. instaura uma série de novos crimes – entre eles. 394/2009 propõe que símbolos. gravidade e celeridade dessas transformações é o que permite configurá-las como um quadro de exceção. o PLS n. com pena de até 30 anos de reclusão – e prevê tanto justiças especiais quanto procedimentos de urgência para julgá-los.

a ampliação do Aeroporto e de reforma do Estádio Joaquim Américo Guimarães (Arena da Baixada) ameaçam entre 2. Desinformação e Ameaças São recorrentes os casos em que as informações de que terão suas casas demolidas che- gam para as famílias através de notícias na mídia. que receberam em 2010 uma notificação exigindo que se retirassem do local em 15 dias. e os órgãos responsáveis afirmam que os orçamentos dos projetos não preveem recursos para a reparação das perdas impostas aos moradores das comunidades de Jardim Suissa. revelam variadas combinações de violações aos direitos humanos. ferindo diretamente o direito à moradia. Os projetos não são apresentados a público. à participação e à moradia.000 pessoas que ocupam desde 2009 um 8 . São cerca de 4.257/2001) e mesmo por diversas leis estaduais e municipais. A remoção não reconhece o direito de posse. A comunidade-ocupação Dandara. foi mencionada a construção de um centro de treinamento de futebol e um hotel. A incerteza permanece. foi oferecida às famílias a inclusão no programa Minha Casa. Minha Vida. propagandas enganosas. em sua maioria de baixa renda. boatos. A pressão política e psicológica. a suspensão de serviços públicos e os constrangimentos extralegais e físicos conformam um quotidiano de permanente violência. Vila Quissana. A insegurança e temor são o lote comum das populações ameaçadas. Em Curitiba as grandes obras de mobilidade em oito municípios da Região Metropolitana.000 e 2. do direito à informação. assegurado por pactos internacionais subscritos pelo Brasil. ameaças.000 pessoas para a realização de grandes projetos urbanos para os jogos. que ao longo do tempo tiveram enormes valorizações. após resistências. em virtude da falta de informação. Em 2011. em nome dos megaeventos. órgãos governamentais esquivam-se ou respondem com informações dúbias e truncadas. Estima-se a remoção em massa de cerca de 170. Comunidades localizadas em regiões antes relegadas pelo mercado. se veem ameaçadas pela remoção. sem nenhum esclarecimento ou informação oficial. As obras viárias em Belo Horizonte implicarão na remoção de 2. difusão de informações falsas e contraditórias. sofre ameaças de remoção sem que estejam explicitados os motivos. e aqui sintetizados. Quando interpelados. vindos do próprio governo e da mídia. de Belo Horizonte. Nova Costeira. Agora. Os casos apresentados no dossiê.500 famílias. pela Constituição Federal de 1988.2 Moradia O Direito à Moradia vem sendo sistematicamente violado nas doze cidades-sede da Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016. e a falta de informação e notificação prévias geram medo e instabilidade com relação ao futuro. pelo Estatuto da Cidade (lei federal 10. Rio Pequeno e Bairro Jurema. Em audiência pública sobre os impactos sociais da Copa 2014. Costeira. passaram a ser objeto da cobiça de agentes imobiliários. e não do Poder Público.600 famílias para a ampliação do Anel Viário.

As famílias organizadas resistem à sucessivas tentativas de remoção. sob a alegação de que o bairro receberá melhorias para a Copa.000 m2 na periferia da cidade. Os 300 moradores da ocupação Torres Gêmeas. abordagens truculen- Em Belo Horizonte. nem mesmo para retirar bens pessoais. jornalistas e turistas. cujo destino foi ignorado no processo de licenciamento ambiental..500 casas.. Em Fortaleza as obras da Via Expressa atingirão 3. quando foram lançadas bombas de gás-pimenta e destruídos barracos com voos rasantes de helicóptero. O empreendimento imobiliário na Granja Werneck (ou Mata do Isidoro) prevê a construção de 75 mil apartamentos em 10 milhões de m2 que serviriam como alojamento de delegações. As famílias não tiveram acesso ao projeto nem foram consultadas. com uma dívida tributária na casa dos R$ 18 milhões. Contra as ações de reintegração de posse e despejo. Foto: Leandro Uchoa 9 . Ex-moradora das Torres Gêmeas. cobiçado pela especulação imobiliária. incluindo uma invasão policial sem ordem de judicial. uma das Torres Gêmeas será Uma das Torres Gêmeas será derrubada para dar lugar a hotel derrubada para dar lugar a hotel.terreno abandonado de 400. que atenda ao direito à moradia. Esse é um dos motivos [por] que eles querem expulsar os pobres para a periferia”. desde 1995 no bairro Santa Tereza foram impedidos de retornar às suas casas em 2010.87m2. tem um shopping. No bairro Lagoinha. “Se por causa da Copa do Mundo de 2014 [vão] fazer aqui em Santa Tereza um centro poliesportivo. e ameaça a comunidade quilombola Mangueiras. comunidades com mais de 70 anos de história têm recebido ameaças e intimidações. Através da mobilização conseguiram a suspensão dos cadastramentos e embargo das abras até a apresentação de projeto alternativo. No bairro Mucuripe. os moradores pedem a desapropriação do terreno para fins de moradia. moradores da comunidade Campo do Pitangui que lutam pela regularização há 50 anos estão ameaçados por empreendimento para a Copa do Mundo. a Vila da Copa. depois de um incêndio em um dos apartamentos. e as obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) () afetarão uma área de 381.592.

Em 2009 foi criada a Operação Urbana Consorciada da Região do Porto. Quando da escolha do Rio de Janeiro para abrigar as Olimpíadas. Outro argumento muito utilizado para ameaçar os moradores é o do risco geotécnico ou estrutural.10. Parque Olivândia I e II. que atinge 515 famílias. Fortaleza. 04. Dr. Ao procurar a Defensoria Pública. vem resistindo através da organização popular (ver Box). Pirambu. foram aconselhados a não protestar.redecontraviolencia. Seixas. sem a garantia de conseguir outra moradia. e começaram a ter suas casas demarcadas. Menino Deus. a gente não sabe de nada oficialmente. <http:// www. chegando a R$30 mil para os que possuem documento de propriedade. A obra viária para o BRT Transcarioca ameaça os moradores da Rua Domingos Lopes.2011 3 Vide Moradores do Pavão-Pavãozinho/Cantagalo relatam inúmeros casos de truculência por parte de policiais da UPP instalada nas comunidades. (fazem parte do Morro da Providencia. A ameaça de remoção chegou para uma comunidade através de reportagem de capa do jornal O Globo do dia 4 de outubro de 2011. Lumes. Parte será reassentada em conjuntos distantes na Região Metropolitana e parte receberá indenização. mas desde julho de 2011 os moradores aguardam que a prefeitura comprove o risco.tas e casas estão sendo marcadas. A comunidade foi divida para a aplicação de várias estratégias de pressão. outros. estão ameaçadas. anunciando a realização de uma parceria público-privada que previa a remoção para dar lugar às obras do Parque Olímpico2. no contexto da Copa 2014. Do Cal. Parte. e do Rio Maranguapinho – Bairro Bom Sucesso. o Porto Maravilha foi integrado ao projeto Cidade Olímpica visando acelerar as obras.org/Noticias/817. que vêm sendo ameaçadas desde a realização dos Jogos Panamericanos. São atingidas famílias das comunidades do Rio Cocó – Boa Vista. Gavião. No trajeto do Bus Rapid Transit (BRT) () 1. O valor das indenizações varia de R$ 4 mil a R$ 10 mil. TBA. Belém. Uma moradora recebeu comunicado de que teria que sair sem nenhuma indenização por não ter a escritura do imóvel. Chuí. que vai demorar ainda. No Rio de Janeiro grande parte das remoções está relacionada às obras viárias. Pedreiras. Bairro Granja Portugal. “Até agora.html> 2 10 . Na comunidade Pavão-Pavãozinho. Morador do Bairro Mucuripe. Uns dizem que nós vamos sair daqui no próximo ano. foi demarcada como “risco A Bola da Vez: Vila Autódromo.3 Na região Portuária do Rio de Janeiro. os megaprojetos associados Porto Maravilha e Morar Carioca Morro da Providência ameaçam famílias de remoção. com o sugestivo e perverso título de “A Bola da Vez: Vila Autódromo”. Ninguém do governo veio me explicar nada”. A população moradora das favelas e ocupações do entorno não tiveram acesso à informações do projeto. mais de 300 casas já foram marcadas para demolição por este motivo. Cristo Redentor e Barra do Ceará. Situada em área de expansão do mercado imobiliário do Rio de Janeiro.500 famílias da comunidade do Lagamar. Santa Edwiges. estão incluídas nas 832)No Morro da Providência são 832 casas demarcadas para remoção. O Globo. das quais muitas possuem Concessão de Direito Real de Uso de seu imóvel.000 famílias de Fortaleza. promoção de regularização fundiária e melhoria habitacional. com objetivo de “revitalizar” a região. enquanto a prefeitura continuava com a remoção da comunidade. em Madureira. de origem na década de 1970. São 500 famílias. sem informação. Outras 15. São Sebastião. estão ameaçadas a pretexto de urbanização.

Porto Alegre. ao lado do Estádio Beira Rio.geotécnico. já solicitaram informações aos órgãos públicos. 200 casas foram demarcadas e as famílias cadastradas. Rio de Janeiro e São Paulo. sem esclarecimento do motivo. O detalhamento do projeto está em fase final de conclusão. na ampliação do Terminal Rodoviário de Cosme e Damião. Recife. As famílias são deslocadas para áreas periféricas. a Prefeitura Municipal. longe de suas redes de inserção econômica.000 famílias que residem há mais de 50 anos no Morro Santa Tereza. Em 2011 o Governo do Estado emitiu decreto garantindo o direito à moradia das famílias. de estratégias de guerra e perseguição. Remoções realizadas ou em andamento “Assegurar que a reestruturação urbana que antecede a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 sejam apropriadamente reguladas para evitar remoções e despejos forçados e fazer todo esforço para assegurar que os eventos futuros tragam benefícios duradouros para os moradores urbanos mais pobres e marginalizados” Recomendação do Conselho de Direitos Humanos da ONU ao Brasil no âmbito da Revisão Periódica Universal – maio 2012 Nos 21 casos registrados. Fortaleza. violência verbal. que pressionam para a realização do cadastro para a remoção. não tem disponibilizado informações. são forçados a deixar suas casas. invasão de domicílios sem mandados judiciais. As famílias foram reassentadas no local em 2007 depois de despejadas da Ocupação 20 de Novembro (iniciada em 2006 reivindicando o direito à moradia em área central). apropriação indevida e destruição de bens móveis. O Comitê Popular da Copa e o Ministério Público Federal no Ama- zonas (MPF/AM). Tancredo Neves e Mutirão. social e cultural. a obra viária para o BRT deverá atingir 900 famílias compreendendo três bairros da zona leste da cidade: São José. via de regra em locais carentes de servi- 11 . Em Porto Alegre. expulsos por novas frentes imobiliárias. e deverão entrar com ação contra o início das obras caso o destino das famílias permaneça incerto. São casas demarcadas por pichação para demolição sem esclarecimentos. contudo não há nenhum dado oficial disponível. Outra obra viária projeta para cidade é o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) que implicará remoções. Os moradores são abordados por técnicos sem identificação. a remoção é realizada pelo poder público. estrutural e insalubridade”. utilizando-se da força. Moradores de vilas e favelas nas cidades de Belo Horizonte. estavam em negociação com o governo para a regularização da comunidade. Outras 36 famílias sofrem diariamente riscos de acidentes e alagamentos gerados pelas obras de reforma do estádio. Outras 317 foram demarcadas como área de “desadensamento”. abertas pelo Estado para atender a interesses privados. corte dos serviços públicos e demolição e abandono dos escombros em áreas ainda habitadas. as 4. sem a existência de laudo oficial. ameaças à integridade física e aos direitos fundamentais das famílias. A única alternativa apresenta é o aluguel social. pois recebeu contestações do Tribunal de Contas da União. responsável pela obra. gerando um clima de incerteza entre moradores das comunidades. Em Recife. Em Manaus. Duas construtoras já demonstraram interesse na privatização da área para a construção de condomínios de luxo. Curitiba. mas não sua permanência no local.

Foto: Orlando Santos Junior. Nesse projeto. termo que utiliza quando se refere à remoção de moradores das comunidades pobres nas periferias de São Paulo. Francisco Evandro Ferreira Figueiredo é funcionário da BST Transportadora contratado pela Prefeitura de São Paulo para “fazer a faxina”. 2. funcionários do poder público municipal derrubaram 17 casas na comunidade. e com dificuldades para acesso a postos de saúde e escolas. na Zona Leste de São Paulo está incluída entre as melhorias urbanas para a Copa do Mundo 2014.000 estão ameaçadas. do Movimento Terra Livre. seguranças terceirizados. zona oeste da capital. A Operação Urbana Rio Verde-Jacu. seis famílias foram removidas sem aviso prévio. Evandro – como é mais conhecido – já foi visto em pelo menos dois despejos truculentos. Ainda. em outros casos.Casa marcada pela Secretaria Municipal de Habitação para ser removida no Rio de Janeiro. sem apresentar mandado judicial de reintegração de posse ou qualquer documento que legitimasse a ação. Em São Paulo. que sediará a abertura dos jogos da Copa. articula as guardas ambiental e civil metropolitana. Na Favela do Sapo. sem mandado judicial. 12 . descreve Maria Zélia Andrade. 4. Dentre as ações previstas está um Complexo Viário que corta uma das maiores favelas da cidade – Jardim São Francisco. sem mandado judicial. ços públicos. Em fevereiro deste ano. na Chácara Três Meninas.000 moradores estão sendo removidos sem nenhum atendimento habitacional.000 famílias já foram removidas para a construção da avenida Parque Linear Várzeas do Tietê. os moradores denunciaram que Evandro se apresentava armado. dizia ser funcionário da Prefeitura e intimava-os a deixarem suas casas. incluindo o já conhecido agente Evandro. Outras 6. sob seu comando. A operação da Prefeitura. com o acompanhamento da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal. recebem indenizações irrisórias ou aluguel social por um curto período de tempo. de forma truculenta por policiais militares: “As pessoas estavam dormindo quando foram surpreendidas pela polícia”. Em área contígua. no trajeto entre o futuro estádio do Corinthians. e o Aeroporto Internacional de Guarulhos.

na direção da Barra da Tijuca. Os que resistiram ficaram sujeitos a doenças e agressões verbais. agora acelerada em nome dos megaeventos esportivos. Em 2009 foram apresentados laudos contraditórios e moradores foram pressionados a sair. foram ameaçados sob alegação de risco geotécnico. Ali já foram removidas as comunidades de Restinga. Os moradores que permanecem são ameaçados pela situação de risco sanitário. 65 famílias que habitavam área desde 1990 foram removidas recebendo apenas o valor das construções. e sofrem com falta de serviços de saúde e educação no novo local. A Prefeitura. no bairro de Botafogo. para a obra do BRT. a comunidade começou a ser removida para o início das obras. tiveram como única opção mudar-se para áreas periféricas. Algumas famílias foram transferidas para casas de passagem em local distante. e as que permaneceram sofrem com irregularidades e perda nos serviços públicos básicos. não são debatidos publicamente e as remoções são apresentadas como dado. Trata-se de verdadeira “faxina” em terras nobres para o mercado imobiliário. estão sendo removidos para a periferia. e acesso à água. A área começou a ser ocupada na década de 1950. No Rio de Janeiro. apesar de declarada Zona de Especial Interesse Social no Plano Diretor. Em Fortaleza. Os moradores foram cadastrados para empreendimento habitacional do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC). foram alvo de graves violações. uma área com ocupação histórica de mais de 100 anos está sendo removida da Praia de Iracema. e consolidou-se inclusive com intervenções da Prefeitura de contenção de encostas e início de urbanização. Na região do Poço da Draga. A região do Recreio dos Bandeirantes é atualmente a mais dinâmica frente de expansão imobiliária no Rio de Janeiro. a novas frentes abertas pelas obras apresentadas em caráter de urgência e passando por cima de inúmeros direitos. em nome de corredor de transporte para o BRT Transoeste. nos dois casos com baixíssimas indenizações. as 700 famílias da Comunidade Metrô Mangueira. Os projetos são realizados sem considerar outras alternativas de traçado. na Vila Recando UFMG.470 famílias da Vila Dique. As casas desocupadas foram demolidas. a mais de 30 km de seu local original. somando-se situações onde já havia pressões anteriores para a “limpeza social”. com mais de 40 anos no local. como coleta de lixo. totalizando cerca de 500 famílias. 22 famílias estão sendo removidas da Avenida Dedé Brasil.Em Belo Horizonte. mesmo condenada por ordem judicial. Os moradores foram divididos para negociações caso-a-caso: parte dos moradores recebeu notificação oficial com “prazo máximo de 0 dia(s)” para desocupação do imóvel. Para al- guns foi oferecida moradia nas proximidades. Estão ainda previstos um conjunto de remoções para os BRTs Transcarioca e Transolímpica. Vila Harmonia e Vila Recreio II. As famílias tiveram que adquirir financiamento para a nova moradia. Rio de Janeiro. com altos investimentos públicos em infraestrutura. energia elétrica. Moradores da orla do Guaíba. próximos ao estádio Beira-Rio em Porto Alegre. 13 . Os poucos que saíram tiveram as casas demolidas. permanecendo escombros. e 200 famílias da comunidade Barroso. se recusa a retirar os entulhos. Com menos da metade das novas unidades habitacionais concluídas e parte da área de reassentamento comprometida com risco geotécnico. Os moradores da Estradinha. sujeira e infiltrações. A ampliação do Aeroporto de Porto Alegre atinge 1. para outros a 50 km do local. Com o baixo valor. restando situação semelhante à área de Metrô Mangueira. São muitos os casos.

Durante décadas. Avós. 14 . Arquibancada. deixando mais pessoas do lado de fora da festa. hoje. esta última reservada para autoridades e personalidades. federações. O processo de elitização. em geral relegamos a um segundo plano os efeitos que atingem a atividade que serve de pretexto para isso tudo: o próprio futebol. A partir da década de 1990. garantia a participação de todos na plateia do mesmo espetáculo. Mais que isso. na época. musical e catártica de estar em um estádio. ‘conforto’ e ‘consumo’. o preço dos ingressos das partidas aumenta em níveis superiores à inflação. Se. ser reduzido a um negócio rentável para seus “donos” e um serviço prestado a seus “consumidores”. que a divisão garantia a maior parte do estádio a torcedores das classes baixa e média: enquanto 93 mil e 500 lugares estavam reservados para arquibaldos. este desenho era uma representação da segregação econômica. Em 1950. CBF e FIFA. privatização e ‘europeização’ do futebol. pais. e sob o argumento da adequação dos estádios brasileiros a padrões europeus de ‘segurança’. estádios como o Maracanã e tantos outros pelo Brasil se transformaram em espaços míticos que reuniram brasileiros de todas as classes sociais. É assim também que a capacidade dos estádios vai sendo diminuída a partir de reformas milionárias nos maiores estádios do país. sob o discurso da ‘ordem’ e do ‘desenvolvimento’. corporações de mídia e com o apoio de governos. em parceria com empresas patrocinadoras do esporte. A cultura. netos e bisnetos comungaram da paixão pelo futebol e da experiência festiva. É importante que se registre. o estádio do Maracanã foi uma das principais obras já feitas no país. representava 8. social e política do país. com capacidade oficial de 155 mil pessoas. agora a capacidade de público cai praticamente pela metade. Se antes mais de 100 mil pessoas assistiam com segurança aos jogos em estádios como Maracanã e Mineirão. e 30 mil para geraldinos. Quando avaliamos as consequências negativas das transformações levadas a cabo para viabilizar o evento. uma vez que têm consequências inestimáveis. os setores populares vão sendo sumariamente extintos. e alcança. O “Maior do Mundo” consagrou uma divisão setorial que já era encontrada nos principais estádios: Geral. Na partida final da Copa de 1950. As imposições culturais que acompanham as reformas dos estádios não podem ser menosprezadas.corre o risco de.5 mil ingressos eram colocados à venda para aqueles que quisessem se dar ao luxo de ir de camarote. arquibancada e geral acomodavam 80% do público.5% da população da cidade do Rio de Janeiro. a criatividade e a forma de se organizar e se manifestar do torcedor de futebol brasileiro estão sendo violentamente impactados e transformados. identidades culturais que nos marcam como brasileiros e como sujeitos de nossos costumes e manifestações locais. Camarotes e Tribuna de Honra. O esporte – que por aqui virou paixão nacional e um símbolo de participação popular . por um lado. Construído para este torneio. ano de realização da primeira Copa do Mundo no Brasil. por outro. moldaram e desenvolveram formas de torcer próprias de cada região e cada cidade. os costumes. número que. também. registros dão conta de que cerca de 203 mil brasileiros assistiram in loco o Brasil ser derrotado pelos uruguaios. no caminho para 2014. o futebol já era uma verdadeira febre entre os brasileiros. Cadeiras Numeradas. Neste caminho. filhos. Somadas. uma campanha pela elitização e pela privatização do futebol é levada a cabo por clubes.FUTEBOL: DE PAIXÃO POPULAR A NEGÓCIO Os debates sobre os impactos da Copa do Mundo costumam acontecer longe das quatro linhas. imensuráveis e de difícil reparação. No fim daquela década. somente 1. valores inviáveis para famílias de trabalhadores de classes baixa e média-baixa.

possibilitaram uma reconfiguração completa dos maiores estádios das capitais que receberão os jogos. A abordagem mercadológica transforma os antigos “templos” do futebol em “arenas multiuso”. observado de forma similar em todos os estádios da Copa. 15 . A reconstrução sairá a um custo total estimado em R$ 1 bilhão. A razão é óbvia: estes empreendimentos geram enormes lucros tanto para empreiteiras responsáveis pela construção quanto para corporações que futuramente assumirão a exploração dos estádios. sem pudor. vão sendo inviabilizados elementos e brincadeiras que só eram possíveis com a mobilidade dentro dos estádios. acabará embolsando os lucros e poderá explorar as receitas da forma que bem entender. os “bandeirões” e as bandas musicais e baterias percussivas. E como se não bastasse. transformados em setores de cadeiras numeradas com lugares marcados – inclusive com a proibição de assistir o jogo em pé –. pelo futuro concessionário. não é mesmo? Novamente. o baile de bandeiras nos bambus. mas também a violenta asfixia de uma das mais ricas e autênticas manifestações da cultura popular brasileira. Foto: Genilson Araújo. Em meados de 2010. o Maracanã foi novamente fechado para “reformas”. Não satisfeito em demolir o velho Maraca – onde tantos riram e choraram juntos – e de jogar no lixo o dinheiro público investido nas últimas reformas. mas que será provavelmente superado. Sem as arquibancadas. Na realidade. que o “Novo Maracanã” será concedido à iniciativa privada. Foto: Fernanda Rabelo Maracanã já descaracterizado com as obras da reforma. com “currais” Vips. poltronas acolchoadas e patrocínios de grandes marcas e grandes corporações. da pista de atletismo Célio de Barros para dar lugar a um estacionamento. no entanto. o estádio foi praticamente implodido. Manifestação do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas Rio de Janeiro: "O Maraca é Nosso". Bela maneira de incentivar o esporte olímpico. sem investir um único centavo. somadas à ganância e à influência política e econômica de grandes empresas. não é apenas o afastamento das classes populares dos locais das partidas. tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os “palcos” dos jogos estão todos sendo desenhados dentro de uma perspectiva europeia de assistência às partidas e de comportamento dos torcedores. per- manecendo apenas sua estrutura. espaços de criação coletiva das torcidas. “assassinadas” arbitrariamente. As exigências da FIFA. cerca de R$ 400 milhões foram gastos pelo governo do Rio de Janeiro em reformas que prometiam deixar o estádio pronto para o chamado “padrão FIFA” e para a Copa de 2014. o processo de privatização prevê a demolição. o governo já anunciou. morrem também as manifestações populares bem-humoradas que se consagraram ali. O resultado de todo este processo. De 1999 a 2006. como as coreografias.A Copa do Mundo de 2014 vem sendo tomada por seus promotores como a oportunidade para o agravamento e a aceleração do processo de elitização. que. Sem a geral dos estádios. o caso do Maracanã é emblemático.

sejam trabalhadores informais reprimidos no exercício de sua atividade econômica. Até abril de 2012. foram registradas cerca de 18 paralisações em oito dos 12 estádios que serão usados para a Copa – Belo Horizonte. algumas das arenas foram concluídas quatro meses antes do previsto. em atropelos legais. Direito do Trabalho: Condições de trabalho nas obras da Copa Todas as cidades escolhidas como sede para os jogos da Copa 2014 possuíam estádios com capacidade de público maior que 35 mil pessoas. No Brasil. Cuiabá. salubridade e alimentação). Na África do Sul. A enorme demanda de obras criada atende a cronogramas determinados pela FIFA e a intensa pressão para sua aceleração – in- cluindo ameaças na mídia de fracasso e transferência da Copa para outro país. São grandes obras financiadas com recursos públicos (no mínimo 50% dos valores). aumento do pagamento para horas extras. melhoria nas condições de trabalho (em especial nas condições de segurança. Em todos os movimentos a pauta de reivindicações incluía pelo menos alguns dos seguintes aspectos: aumento salarial. auxílio alimentação. Recife e Rio de Janeiro – e uma ameaça de greve em Salvador. greve e manifestação. 16 . essa pressão tem favorecido as grandes empreiteiras contratadas. observa-se um padrão de crescente precarização. Sejam operários empregados e subempregados nas grandes obras. Dessa maneira. Praticamente todos os estádios para os jogos. garantia de transporte. “É um absurdo dizer que os estádios não poderão ser concluídos a tempo. A FIFA consegue garantir as mudanças que eles querem e quando querem”. como estádios e rodovias. Brasília. e violações dos direitos dos trabalhadores. A despeito das convenções da Organização Internacional do Trabalho. não tem sido essa a realidade brasileira. aportes adicionais de recursos públicos. no entanto. Eddie Cottle. Fortaleza. Todo o escarcéu da FIFA sobre a conclusão da infraestrutura na verdade é uma forma de pressionar os empreiteiros. entre outros. em entrevista ao jornal Le Monde Diplomatique Brasil. onde se verifica más condições de trabalho e superexploração dos operários. assim como concessão de benefícios – plano de saúde. as graves violações de direitos em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas se acumulam e avançam para a perseguição a líderes sindicais e desrespeito às liberdades de organização. saem de projetos completamente novos. conduzido por empresas e consórcios contratantes – sob a omissão dos órgãos fiscalizadores – e pelo próprio Estado. fim do acúmulo de tarefas e de jornadas de trabalho desumanamente prolongadas.3 Trabalho Se é verdade que os megaeventos poderiam oferecer uma oportunidade para inclusão social dos trabalhadores. das garantias de direito “ao” trabalho e “do” trabalho no ordenamento jurídico nacional – Constituição Federal de 1988 e Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). para a geração de empregos e a ampliação de direitos.

CGBT. o então Ministro dos Esportes. Serveng e BWA Andrade Gutierrez e Via Engenharia Odebrecht. no Rio de Janeiro e no Distrito Federal. 17 . Em Pernambuco. empresas recorreram à justiça em tentativas de criminalizar a atuação dos Trata-se de verdadeira “faxina” em terras nobres para o mercado imobiliário. Confederação Nacional da Indústria (CNI) e sindicatos patronais. Ministério do Trabalho e Emprego. declarou que as greves não atrasariam as obras e que contava com o “patriotismo dos operários”. Com a conivência e a participação de governos. A pauta foi protocolada junto à Presidência da República. Nesse contexto. A visibilidade e a circulação de capital proporcionadas pelo evento garantem que grandes empresas e corporações alcancem enormes dividendos com a realização dos jogos. Andrade Gutierrez e Delta Construcap. pouco controlados. na maioria das vezes. sindicatos. UGT e Nova Central). Em Brasília e Pernambuco foram registradas demissões arbitrárias e ilegais ligadas aos sindicatos grevistas. Egesa e Hap   São recorrentes as manifestações de indignação com o pagamento de salários abaixo da média em obras que envolvem orçamentos fartos e. Força Sindical.TABELA – AS GREVES NOS ESTÁDIOS DA COPA Estádio Arena Amazonas/AM Arena das Dunas/RN Arena Fonte Nova/BA Arena Pernambuco/PE Castelão/CE Estádio Nacional/DF Maracanã/RJ Mineirão/MG Total Dias parados 1 13 (em greve no dia 13/4/12) 4 (em greve no dia 13/4/12)) 17 13 (em greve no dia 13/4/12)) 10 24 10 92 Construtoras responsáveis Andrade Gutierrez OAS Odebrecht e OAS Odebrecht Consórcio Galvão. E em Pernambuco trabalhadores denunciaram a ação truculenta da polícia na tentativa de inviabilizar mobilizações sindicais. a FIFA e as grandes marcas por trás dela não pretendem permitir nem ao menos que pequenos comerciantes e empresas familiares tirem proveito das oportunidades que aparecerão. Orlando Silva. Em novembro de 2011 a Federação Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira (ICM) e representantes das cinco maiores centrais sindicais do país (CUT. Nas obras da Arena de Manaus também o Ministério Público do Trabalho investiga neste momento denúncias de mais de 500 trabalhadores sobre assédio moral. consolidaram uma pauta nacional unificada para a construção de um Acordo Nacional Articulado para as obras da Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Direito ao Trabalho Está claro que a Copa do Mundo é encarada por alguns grupos como uma possibilidade de negócios lucrativos.

no entanto. Camargo Correia. professores das universidades de Boston e da Califórnia. Andrade Gutierrez. as empreiteiras receberam 8. Juntas. Jamais se poderá saber. nem se sua atuação como ministro será influenciada por este fato. que controla o Grupo Pão de Açúcar6. sensível em decisões estratégicas para o país. O poder político-econômico das empreiteiras é. em obras financiadas por dinheiro público. que a doação para campanhas políticas era um bom negócio: para cada real doado a políticos do partido do Governo (PT) em 2006. As grandes empresas de construção são provavelmente as maiores financiadoras de campanhas eleitorais milionárias no Brasil. se e em que medida as doações feitas pelas empreiteiras Odebrecht e Mendes Júnior para as campanhas a deputado federal de Aldo Rebelo influenciaram em sua indicação ao Ministério dos Esportes. e as duas participam de obras de estádios da Copa que têm orçamento total de R$ 3. Foto: Gazeta do Povo. nos EUA. OAS. As duas empresas doaram oficialmente um total de R$ 140 mil a suas campanhas de 2006 e 2010. publicaram o estudo “O espólio da vitória: doações de campanha e contratos públicos no Brasil” . As sete maiores estão atuantes na construção de estádios para a Copa de 2014. Em março de 2011.As empreiteiras e os financiamentos de campanhas eleitorais Odebrecht. as sete maiores empreiteiras do Brasil somaram em 2010 uma receita bruta de R$ 28. O Ministro Aldo Rebelo declarou ainda ter recebido R$ 155 mil de três empresas patrocinadoras da Confederação Brasileira de Futebol (CBF): o banco Itaú Unibanco.5 bilhões.5 vezes o valor na forma de contratos de obras escolhidas por políticos do mesmo partido e incluídas nos orçamentos federal e Ato do Comitê Popular da Copa de Curitiba. revelando 4 estadual. 12/2011. ao longo dos 33 meses que se seguiram às eleições5. Delta e Galvão Engenharia. de fato. a Fratelli Vita Bebidas e a Companhia Brasileira de Distribuição. 18 . sendo R$ 1.27 bilhões.92 bilhão provenientes do BNDES. Queiroz Galvão.

Estabelecimentos existentes e o comércio informal estarão impedidos de atuar livremente exibindo suas publicidades e de venderem produtos de marcas concorrentes às patrocinadoras da Copa. uma das principais estratégias de sobrevivência para a população de baixa renda. O que está se propondo é uma desapropriação temporária”. representados pela Associação dos Barraqueiros do Entorno do Mineirão. E não só nas vias de acesso e entorno dos estádios. O comércio dentro dos estádios da Copa será definido e organizado pela FIFA. Roque Pellizzaro Junior. no entanto. e o direito ao trabalho no local. controlada pela FIFA. 19 . Considerando a legislação em tramitação no governo federal (Lei Geral da Copa) e experiências anteriores.obras paradas no Mineirão em Belo Horizonte. agressão. Em Belo Horizonte. em especial durante a Copa do Mundo. presidente da CNDL. Entidades como a Confederação Nacional dos Diretores Lojistas (CNDL) e a Confederacção Nacional do Comércio criticaram a proposta de lei. estima-se uma zona de exclusão instituída em um perímetro de até dois quilômetros em volta dos estádios. O comércio informal. encontra-se ainda mais ameaçado. “Não se pode tirar o ganha-pão de uma família assim. muitas prefeituras estão implementando medidas de repressão ao trabalho informal desde já. no lugar de serem reconhecidos e valorizados para a realização dos megaeventos. 150 famílias que passam por dificuldades denunciaram sua situação em audiência pública promovida pelo Ministério Público Federal. manifestação tradicional de cultura e vivacidade urbana. Com uma perspectiva criminalizadora da pobreza e sob um discurso de “incentivo ao turismo” e de “ordenação” e “limpeza” de áreas valorizadas das cidades. Reivindicam uma bolsa-auxílio durante as obras. estão sujeitos à intensificação de práticas de perseguição. criminalização e impedimento ao trabalho por autoridades públicas. Fora dos estádios – entorno e principais vias de acesso – a entidade exige dos governos controle de espaços públicos e privados para garantia de seus lucros. garantindo o monopólio às empresas associadas e patrocinadoras. com o fechamento do estádio do Mineirão para obras. Foto: leandro uchoa.Esses trabalhadores.

E a reforma do aeroporto internacional JK prevê a remoção da central dos taxistas. justamente no início da época de maiores vendas na região. Em São Paulo. a grande feira de comércio popular (Feirinha da Madrugada) que reúne centenas de comerciantes e vendedores ambulantes foi vítima de repressão intensificada em outubro de 2011. prazo estipulado em lei municipal para recurso administrativo contra a cassação. mostrando desconhecimento quanto às restrições exigidas pela FIFA. representante da Associacção das Prostitutas de Minas Gerais (Aspromig) relata a insegurança enfrentada pelas trabalhadoras. os vendedores ambulantes serão deslocados para novos espaços que serão indicados pela Prefeitura. através de regulamentações excessivas e exigências descabidas ou abusivas. materiais. profissionais do sexo e outros trabalhadores estão tendo suas atividades prejudicadas ou mesmo inviabilizadas. inviabilizando a tradicional “xepa” (comercialização das “sobras” das feiras a preços mais baratos) das feiras históricas da cidade. Também em Belo Horizonte. em claro desrespeito do direito ao trabalho. Aos ambulantes está sendo negado o “Direito de Defesa”. Com isso. 20 .Artesãos.6 milhões de reais). há denúncias de 370 casos de adulteração de documentos de permissionários para justificar a perda de licenças. a prefeitura. Em algumas regiões da cidade com tradição no comércio popular de rua. A Aspromig expressou ainda preocupação com a possível intensificação de tráfico sexual de mulheres durante os jogos. Seu nível de organização ainda é baixo e a maioria tem expectativas com relação ao grande movimento previsto para a Copa. existente desde 1969 e imediações do Mercado Central). os ambulantes foram obrigados a ficar a uma distância de mais de 300 metros da entrada da área dos shows. vendedores ambulantes. No Rio de Janeiro. com menor movimento e menor visibilidade. no Centro de BH). com apreensão de obras. No bairro do Brás. feirantes e vendedores ambulantes de feiras e espaços tradicionais de Belo Horizonte estão sendo ameaçados por iniciativas da prefeitura que visam “reordenar” a atividade na cidade (na Feira Hippie. ferramentas de trabalho e pertences pessoais dos trabalhadores (caso da Praça Sete. resultando em confronto entre policiais e camelôs em novembro do mesmo ano. No Distrito Federal. Na cidade de Salvador. feirantes. durante festa de comemoração da contagem dos 1000 dias para a Copa do Mundo (que custou 1. como é o caso de Itaquera. que teria relação. obrigou o fechamento das feiras às 13h. segundo rumores. Em Curitiba os cerca de 41 ambulantes que atuam nas proximidades da Arena da Baixada vendendo principalmente alimentos e bebidas serão atingidos. artesãos. provocando protestos de feirantes e um ato do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas. em setembro de 2011. artistas de rua. com projetos de revitalização. Nas cidades-sede constata-se o aumento das restrições ao comércio informal. as licenças para o exercício da atividade ambulante vêm sendo caçadas. onde está sendo construído o estádio para a Copa. extinguiram todas as licenças. por meio do programa “Choque de Ordem”. e as subprefeituras não estão aceitando canais de negociação coletiva. durante a Copa do Mundo de 2014. incluindo ações truculentas.

que privariam os vendedores informais locais de se beneficiarem economicamente desta oportunidade. feiras. centros comerciais populares. pela transparência e controle social.org.Declaração do Fórum de Planejamento da Campanha Cidades pra Todos (as) Em outubro de 2011.br/2011/10/brasil-outra-copa-do-mundo-e-possivel. para assumir o compromisso de trabalhar em prol das populações mais pobres.html 21 . respeitando as características locais. (2) Trabalhar de forma colaborativa para apoiar as campanhas de trabalho decente.blogspot. (4) garantir planos de remanejamento de locais de vendas que sejam elaborados em consulta com as organizações de vendedores informais que tiveram seus locais de venda afetados por projetos relacionados à Copa. (2) alocar recursos públicos para a criação de espaços para comércio informal.com.portalpopulardacopa. fair play. (3) convocar reuniões com as organizações representativas de vendedores informais para discutir sobre os impactos das obras de infraestrutura propostas e programas de revitalização urbana previstos para a Copa do Mundo. concordou em convocar as cidades-sede e o Governo Federal. Outra Copa do Mundo é Possível! Nada para nós sem nós!” Carta completa disponível em: http://www.br (tema: Trabalho e Precarização) e http://streetnet-campaigns. o Fórum de Planejamento da Campanha Cidades para Todos(as) reuniu em São Paulo várias organizações de vendedores informais de diversas cidades-sede da Copa. direito a moradia e outras iniciativas destinadas a garantir que a Copa de 2014 tenha um legado social que beneficie todos os brasileiros e brasileiras. como por exemplo camelódromos. além de sindicatos e movimentos sociais. mercados e outros espaços para o comércio informal. e apresenta às cidades-sede e ao Governo Federal reivindicações para a garantia do trabalho decente: “O Fórum. portanto. (6) Resistir aos planos de criação de zonas de exclusão em torno dos parques de torcedores durante a Copa do Mundo. (5) desenvolver projetos de economia solidária e cooperativismo junto aos vendedores informais que se interessarem por esta alternativa de trabalho. O Fórum também acordou em: (1) Trabalhar em colaboração com as organizações dos vendedores informais “para apoiar suas reivindicações e se juntar a eles para denunciar atos de abuso de poder e violência por parte das autoridades municipais. favorecendo as multinacionais patrocinadoras oficiais da Copa do Mundo. oferecer trabalho decente a todos e: (1) Interromper as políticas desprezíveis de privar os vendedores informais de licenças e de proibir o comércio informal no centro das cidades e incluir os trabalhadores que já foram removidos e perderam seus espaços nas regiões centrais das cidades. O documento resultado do encontro expressa as preocupações dos trabalhadores informais com as políticas implementadas em função da Copa do Mundo.

pessoa com deficiência) garantindo-se a mediação antes dos ajuizamentos das ações judiciais ou mesmo quando já ajuizadas ações. idoso. cujas decisões estão isentas de qualquer controle social. utilizada como justificativa para o atropelo de processos de participação e controle social. motivadas por interesses privados. Os Estados-parte da ONU devem “(. baseada na ingerência constante do mercado.. São registrados ao longo do Dossiê casos que revelam: . no contexto da realização dos megaeventos esportivos. com ausência de qualquer forma de participação social.” Não são poucos os afetados pelas ações em curso e previstas para os megaeventos no Brasil. Negociações e diálogos realizados com empresas privadas e representantes de interesses 22 . A participação do cidadão no monitoramento. Adota-se o modelo de empresariamento urbano. Esse cenário se torna mais grave quando reveladas as diversas situações de violação de direitos. estão fora das instâncias decisórias. em função de compromissos firmados com entidades privadas (como a COI e FIFA). como o Ministério Público. 07/2011 da procuradoria federal dos direitos do cidadão também indica que: “IV – seja contemplada a participação popular em todas as fases dos procedimentos de remoções e deslocamentos e reassentamentos de população (criança. A recomendação n. informada e vigilante. e não estão tendo acesso a informações básicas para a defesa de seus direitos – a despeito de inúmeras cobranças e manifestações públicas. no entanto.. Enquanto isso. As populações atingidas.4 Acesso à Informação. Participação e Representação Populares A literatura e a experiência jurídica nacional e internacional indicam de maneira inequívoca que a principal garantia do pleno exercício dos direitos humanos está na presença de uma sólida organização da sociedade civil. 13/2010 do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidades.) garantir total transparência nos processos de planejamento e implementação e a efetiva participação das comunidades locais afetadas em tais processos”. uma espécie de “democracia direta do capital”. principalmente quando consideramos os efeitos perversos sobre as cidades. Urgência para a realização das obras. Resolução n. uma diversidade de organismos foi e está sendo instituída em todos os níveis de governo. . conformando um governo excepcional. Informações sobre os processos de preparação para a Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016 são mantidas secretas até mesmo para os órgãos de controle do próprio Estado. evitandose a utilização da força policial e quando esta se fizer necessária. paralelo. Os parcos dados contemplados na Matriz de Responsabilidades do governo federal encontram-se gravemente desatualizados. avaliação e controle do governo são formas de promoção da justiça e equidade na sociedade. que seja por pelotão capacitado a lidar com esse público.

. Comitê de Responsabilidade das cidades-sede: realiza o monitoramento das obras previstas. Três novos órgãos governamentais foram criados como centros nevrálgicos das principais deliberações estatais. Os raros espaços criados para a participação se deram em condições privilegiadas para o setor corporativo. da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Estrutura de Governança Federal Extraordinária para a Copa do Mundo A preparação dos megaeventos esportivos no Brasil está sendo realizada através de um conjunto de agências. destituídos de qualquer papel na estrutura criada para dar conta dos projetos urbanos. monitoramento e execução da política orçamentária. exigiu a criação de um Grupo de Trabalho específico sobre a Copa do Mundo. órgãos e estruturas paralelas e de exceção. O Conselho Nacional das Cidades. sendo o espaço de interlocução entre Governo Federal e Cidades-sede. . criado pelo Conselho de De- fesa dos Direitos da Pessoa Humana. manteve-se praticamente inoperante. Apoiado numa noção pervertida de “interesse público”. e Conselho Deliberativo formado por representantes da FIFA e do COL. enquanto é negado o direito à informação e participação à população. como nos casos do Instituto Ethos e do Consórcio “Brasil 2014”. e com interlocução direta com o Governo Federal: COL – Comitê Organizador Local. As entidades não governamentais criadas para deliberar sobre os preparativos da Copa. (em outubro de 2011). o Estado brasileiro tem sistematicamente se recusado a estabelecer processos de diálogo horizontal com os grupos sociais e comunidades ameaçados. com ampla participação de organizações da sociedade ligadas ao Direito à Moradia. e aos impactos de grandes obras sobre processos sociais complexos. que depois de criado. 23 . E. continuava sem se reunir até a publicação deste Sumário (maio de 2012). Os conselhos e instâncias participativas anteriormente existentes foram simplesmente desprezados. Restrição do acesso ao apoio jurídico para populações atingidas. Criados por decretos ou contratos. E quando ONGs são chamadas a participar. Trata-se de esfera meramente consultiva e sem relação direta com quaisquer dos órgãos deliberativos e executivos. Não há qualquer previsão de participação da sociedade civil nas novas estruturas criadas. Desconhecimento e omissão quanto às particularidades socioeconômicas e culturais dos grupos atingidos. sempre em detrimento do campo popular.restritos. após pressão e denúncias dos movimentos. Somente foi aberta a participação de movimentos sociais no Grupo de Trabalho sobre a Copa do Mundo. como da construção civil e do mercado imobiliário. trata-se quase sempre de organizações financiadas ou integradas por empresas privadas com interesses diretos nos megaeventos. são ligadas diretamente à instituição promotora FIFA. e mesmo fornecimento de informações contraditórias ou falsas quanto às formas de ter direitos assegurados. por exemplo. . APO – Autoridade Pública Olímpica: consórcio público responsável pela coordenação das ações para os Jogos Olímpicos. projetos e obras. passados seis meses de sua criação. não acolhem qualquer presença da sociedade civil: CGCOPA – Comitê Gestor da Copa 2014 e GECOPA – Grupo Executivo da Copa 2014: responsáveis pelo planejamento.

15 bilhões).br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/ Apoio_Financeiro/Programas_e_Fundos/procopaarenas.br/noticias/6266/MIRANDO+A+COPA+2 1 É preciso destacar também que o banco vem desrespeitando uma série de princípios. diferentemente da participação inicialmente noticiada.O BNDES e a Copa 2014 A previsão é de que a Copa 2014 seja custeada em mais de 90% com recursos públicos.65 bi) e Infraero (com R$ 5.br/noticia/2011-10-13/divulgados-lances-minimos-para-privatizacao-dos-aeroportos-deguarulhos-viracopos-e-brasilia e http://www. ultrapassando largamente os que seriam principais investidores. e nos aportes a sociedades empresariais ligadas à hotelaria nas cidades-sede4.gov. que poderão atingir R$ 2 bilhões5.8% do total). bem menor. da responsabilidade solidária com os riscos associados à atividade econômica por ele financiada6. no apoio ao setor privado (R$ 336 milhões).27 bilhões e R$ 4. aos preparativos dos governos estaduais (R$ 4 bilhões) e municipais (R$ 1. e a denúncia de várias irregularidades no Mané Garrincha (DF) pelo TCDF demonstram o pouco cuidado com a coisa pública apesar do espantoso volume de recursos a ser investido. Caixa Econômica Federal (com R$ 6.com. br/pt-br/noticia/bndes-vai-financiar-ate-80-do-investimentototal-realizado-em-aeroportos 4 http://www.uol.71 bilhões respectivamente3.883 bilhão. as informações fornecidas através dos portais de transparência do governo.ebc. Investimentos do BNDES para a Copa 2014 – totais previstos em milhões de reais Investimentos Estádios nas cidades-sede Transcarioca aeroportos portos governos municipais e estaduais setor privado (inclusive hotelaria) TOTAL R$ 4800 1179 10552 741 5550 2336 26926 (20.bndes. Além disso. Em janeiro de 2012 as condições básicas para o apoio financeiro (limitado a 80% do investimento total) foram aprovadas para os aeroportos internacionais de Brasília. 2 http://www. Casos como a determinação do TCU de suspensão do financiamento da Arena de Manaus e do Maracanã por superfaturamento e a suspensão da liberação de recursos para a Transcarioca por ausência de Estudo de Impacto Ambiental-Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente (EIA-RIMA).179 bilhão de um custo total de R$ 1. com investimentos mínimos previstos em R$ 2. R$ 6. As obras dos estádios contam com financiamento de até R$ 400 milhões cada2 e a via de Bus Rapid Transit (BRT) Transcarioca receberia R$ 1. Campinas e Guarulhos.portal2014. como o da publicidade de suas contas.copa2014. A atuação direta do BNDES estaria a princípio restrita a aproximadamente R$ 5 bilhões 1 a um possível investimento total da ordem de R$27 bilhões.org.gov.html.html 6 www.55 bilhões). Mas os financiamentos concedidos pelo banco a terceiros apontam para uma atuação bem mais ampla.br 24 . 3 http://agenciabrasil. não dão conta da provável participação do Banco no financiamento à expansão dos portos (R$ 741 milhões). e da defesa e preservação do meio ambiente. chegamos Ver mais detalhes em: Relatório “O TCU e a Copa do Mundo de 2014”.org.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/ Apoio_Financeiro/Programas_e_Fundos/ProCopaTurismo/ 5 http://grupoviagem.bndes.gov.21 bilhões. 014+INVESTIMENTO+EM+HOTEIS+CHEGA+A+R+24+BILHO ES.com.plataformabndes.br/2011/06/bndes-vai-dobrarcredito-para-investimentos-de-hoteis-para-a-copa-2014 e http:// www. da economicidade e probidade no uso do recurso público. de agosto e setembro de 2011. Em exercício aritmético breve.

A Câmara Municipal da cidade aprovou a privatização de parte de via pública (Rua Musas) para a construção de complexo hoteleiro. foram seguidas as solicitações de apresentação e discussão dos projetos com a população. juntamente com o Instituto de Arquitetos do Brasil. sem sucesso. Galo Publicidade. comissões criadas para subsidiar decisões relativas aos megaeventos na Câmara dos Deputados e Senado contam com grande participação de parlamentares que receberam contribuições financeiras da CBF e representantes de clubes de futebol. As instâncias consultivas são compostas por câmaras temáticas no CGCOPA.. hotéis e estacionamentos. o projeto de transformação do Mercado Distrital do Cruzeiro em um complexo de shopping center. e Grupos de Trabalho nos Ministérios e Secretarias que o compõem. o consórcio formado pelas empresas: Empresa Brasileira de Engenharia de Infraestrutura Ltda. A prefeitura se recusou a participar da apresentação do projeto.. Foto: Daniel Hammes. Em Belo Horizonte. conferindo grande peso à representação dos interesses dos “negócios” do futebol. Value Partners Brasil Ltda. A Câmara Municipal de Curitiba concedeu R$ 90 milhões em “potencial construtivo especial” para a obra particular do Estádio João Américo Guimarães. com forte resistência dos moradores da região.. através de contrato por 2 anos. ValuePartners Management Consulting Ltda. Produção e Marketing Ltda. que. Autoritarismo. propuseram a revitalização do mercado através de concurso público. (EBEI). Como única entidade da sociedade chamada a auxiliar o poder público federal a tomar decisões. Sonegação de Informações e Vedação à Participação Popular Em Recife. a despeito de posição con- 25 . No legislativo.A. formado por empresas privadas. e Enerconsult S. Protesto em audiência pública em Porto Alegre. consta o Consórcio Copa 2014. Foi também chamado a “prestar serviços de apoio ao gerenciamento para a organização e realização da Copa”.Comitês Populares da Copa protestam na Bienal do Livro em Brasília. foi rejeitado pelos moradores e comerciantes do entorno.

moradores estão Esta situação se contrasta com as situações sendo coagidos a aceitar acordo que ferem seus de desapropriação de imóveis de classe média. e muitas incertezas. os moradores de Vila removidas as famílias. mas a proposta não foi em condições semelhantes. alternativas de traçado e mitigações. Defendemos a veram acesso ao projeto. como o Concidade e os Conselhos de Ha. Diante da ameaça de expul. Queremos ter o direito Harmonia e Metrô Mangueira não só não tide discutir o nosso futuro. O bairro foram apresentadas alsofre atualmente grande ternativas possíveis para minimizar impactos sociais e ambientais. como receberam norealização da Copa. contado com assessoria jurídica do Escritório “Não sabemos quando começam as obras. direitos. para onde serão No Rio de Janeiro. Porto Alegre Em São Paulo.tunidade de questionamento quanto a reassenbitação e Transporte e Trânsito Urbano sequer tamento. 429 imóveis estão Cristal tiveram conhepropriados. mentos sociais presentes em duas audiências Adriano Evangelista. dias” para a desocupação de casas e estabeleciJosé Renato Maia. os Em Natal. São Paulo informação e participação nesse processo foram atendidas. Popular da UFRN. diante de total falta de informação.se vamos ter direito a alguma coisa nem se trária unânime de cidadãos. e não houve nenhuma oporídos.800 famílias. pela Avenida Tronco. morador de públicas realizadas. foram consultados. os moradores estão considerada. e corrida imobiliária em função de sua localizaórgãos de controle social legalmente constitu. para obras 269 residenciais. Não disseram e formalização de acordos. que não permitem adquirir outro imóvel tamento das famílias. 429 imómoradores do Bairro veis estão sendo desaEm Natal.ção privilegiada. Em Porto Alegre. quem será mesmo atingido. Morador atingido mentos comerciais.indicaram 13 áreas próximas para o reassenções. de remoção de cerca de com a sociedade. e com previsão debate público prévio prévio com a sociedade. Sequer as reivindicações de Itaquera. entidades e movivão nos levar para algum outro lugar”. Não 1. mas com respeito aos tificação judicial com o prazo absurdo de “zero direitos da população”. sendo cimento do projeto de residenciais. para obras de duplicação da Avenida de mobilidade urbana do mobilidade urbana do município Tronco já inteiramente município sem qualquer sem qualquer debate público definido. negociação de valores dizendo a casa será interditada. 26 . sendo 269 sendo desapropriados.Os moradores atingidos de Divisa e Cristal são da cidade pelo baixo valor das desapropria. onde são seguidos todos os trâmites legais: no“Eles vieram aqui e me entregaram um papel tificação dos indivíduos.

Agora. Uma extensa área pública que abriga o Jockey Club passa por processo de privatização em regime de concessão para a construção de torres residenciais e comerciais. Trata-se de evidente burla à legislação ambiental. os procedimentos necessários às avaliações de relevância social e impactos são atropelados. sem consulta prévia aos órgãos técnicos da prefeitura. de grande porte e grandes impactos. e sem quaisquer estudos de impactos. envolvendo volumosos recursos e interesses de grandes empreiteiros e grupos privados. Outro mecanismo de exceção constantemente acionado é a substituição dos EIA-RIMAs por Relatórios Ambientais Simplificados (RAS). a despeito de manifestações públicas em contrário. criando exceções para o licenciamento de projetos que têm a ver com os megaeventos. considerados de “grande interesse público”. Além das pressões políticas a que estão submetidos.). na verdade. Em várias cidades as câmaras municipais estão promovendo a alteração de índices urbanísticos e redefinindo limites de Áreas de Preservação Permanente (APPs). relatora da ONU para o direito à moradia adequada. Visando facilitar o licenciamento ambiental de obras para os megaeventos esportivos. esportivos e turísticos associados à Copa 2014. como na obra do BRT Transcarioca no Rio de Janeiro. sem que tenham sido apresentados estudos ambientais e urbanísticos.5 Meio Ambiente Os jogos da Copa 2014 e as Olimpíadas 2016 estão sendo usados como justificativa para passar por cima de procedimentos legais necessários não só à preservação ambiental e à garantia dos direitos ambientais das populações atingidas. resultado de intenso processo participativo. o RAS foi criado para simplificar estudos e diagnósticos e reduzir o tempo de tramitação do licenciamento de obras de pequeno porte e impactos reduzidos. Em nome da urgência tudo se justifica. Enquanto o EIA-RIMA exige análises das alternativas e exame detalhado dos impactos físicos. culturais etc. o governo federal criou o Grupo de Trabalho Meio Ambiente.” (Raquel Rolnik em entrevista a Carta Capital) No Rio de Janeiro e em Salvador. bióticos e sociais (urbanos. Manifestações contrárias da sociedade são sim- 27 . de maneira indevida. Na prática. foram elevados os índices de construção para hotéis. “o que acontece em Porto Alegre mostra. foi alterado permitindo a elevação de índices construtivos para empreendimentos hoteleiros. teoricamente com a função de propor e articular ações de “sustentabilidade ambiental”. o Plano Diretor. Quando se trata de grandes obras públicas. Segundo Raquel Rolnik. que a Copa de 2014 está sendo usada como motivo para que se altere o regime urbanístico das cidades brasileiras sem critérios. o grupo busca simplificar e acelerar procedimentos legais. Em Porto Alegre. sem estudos e sem os processos de discussão públicos e participativos necessários. socioeconômicos. os órgão ambientais alegam ainda a carência de pessoal técnico qualificado e infraestrutura adequada. vem sendo acionado para licenciar obras complexas.

pagos pela Prefeitura à empresa contratada como adiantamento sem direito à devolução. a comunidade segue sem equipamentos sociais e os jovens têm que estudar em escolas distantes. apesar de tudo. o Comitê Popular da Copa em Pernambuco apurou que o assentamento rural Chico Mendes. antes de passar por audiências públicas e sem que a licença houvesse sido concedida. Simplificação de procedimentos de licenciamento ambiental para projetos de “interesse público” Em Natal. A licença ambiental. Em Salvador. Por esta razão. O Ministério Público ajuizou ação para suspender a licitação. o que tornaria a medida inócua. realizadas através de RAS. estudo do próprio setor hoteleiro mostra que há uma capacidade ociosa de 33%. fora contratada como “compra de equipamento”. O estádio existente foi demolido sem que houvesse sido sequer solicitado o alvará – cujo trâmite normal requer normalmente prazo de um ano. sem realização do EIA-RIMA. sem previsão de prazo. Economia Verde x Expansão Urbana Os grandes investimentos em estádios e obras viárias vêm acompanhados de um discurso de sustentabilidade ambiental e economia verde. orçada em R$ 6 milhões. o reaproveitamento de resíduos e a redução de desperdícios. as obras do Estádio Arena das Dunas foram iniciadas poucos dias depois de dada a entrada no EIA-RIMA para análise do órgão competente. Esta obra. citada acima). de iniciativa do Município de Natal e Governo do Estado. localizado a 5 km da área que receberá a Cidade da Copa em Pernambuco.000 pessoas. para burlar a lei de licitações públicas e acelerar seu início. o Ministério Público instaurou inquérito para verificar irregularidades de licença ambiental para as obras de drenagem. As obras não respondem aos graves problemas de mobilidade urbana do município e até o momento não tiveram seus impactos discutidos publicamente. como no caso da Arena das Dunas Em Cuiabá. O discurso “verde” mascara a desconsideração dos impactos causados pelas obras. a polêmica obra de construção de Teleférico na Chapada dos Guimarães prevê a supressão de vegetação e intervenções em APP. com base em um simplório RAS. Em face de tais omissões.plesmente desconsideradas. atingem Área de Preservação Permanente e Zona de Proteção Ambiental no Estuário de Potengi e no Parque das Dunas. num total de 10 km2 e que poderá abrigar 300. Em Belo Horizonte tramita na Câmara Municipal projeto de mudança dos parâmetros urbanísticos para utilização da última área verde do município (Mata do Isidoro. que insiste em propagandear o melhor aproveitamento dos recursos naturais nas edificações. o que gerou prejuízo de R$ 580 mil. aguarda. Os impactos dos projetos de mobilidade urbana para a Copa 2014. Em contraposição a essa agilidade na emissão de licenças para as obras. o Comitê Popular da Copa 2014 de Natal interpôs representação ao Ministério Público Estadual no sentido de correção de tal irregularidade. Carta de Anuência do Município de Paudalho para pedido de licenciamento ambiental e consequente instalação de energia elétrica. Nessa mesma intervenção. ou seja. foi concedida. 28 .

a região passou por intensas mudanças: aterros e grandes condomínios fechados reconfiguraram a morfologia e ocupação da região. operar e manter o Parque Olímpico” prevê a instalação de equipamentos esportivos em 25% da área do terreno de 1. Nos anos seguintes. argumenta que haverá ali uma alça ligando a Transolímpica à Transcarioca – muito embora os projetos de ambas as vias não mencionem a referida alça. segundo o Núcleo de Terras da Defensoria Pública do Estado. com a necessidade de assegurar segurança para a Vila Olímpica do Pan. A prefeitura segue com as tentativas de remoção da Vila Autódromo. cuja maioria dos lotes é regular e tem título de Concessão de Direito Real de Uso (considerado instrumento de regularização fundiária pelo Estatuto da Cidade).º 369/2006. a vila chegou a receber moradores da Comunidade Cardoso Fontes. que tem como origem a ocupação da beira da Lagoa de Jacarepaguá por pescadores.br 29 . o que inclui a construção de hotéis e prédios comerciais e residenciais” (O Globo.4 bilhão à empresa privada para “implantar. junto ao Ministério Público. Já tentou justificar com argumentos ambientais. O edital de licitação de concessão estimada em R$1. Como se tudo isso não bastasse. autorizados a se instalar ali pela prefeitura. Demarcada em parte como Área de Especial Interesse Social pela Câmara Municipal em 2005. Tal justificativa não se sustenta. uma vez que há condições de permanência dos moradores com qualidade ambiental através de urbanização. quando a região era ainda desprovida de infraestrutura urbana. e inclui diversas intervenções na faixa de APP (possivelmente justificadas pelo “interesse público”). a comunidade. o terreno para o qual se pretende remover os moradores é. Como contrapartida a concessionária “terá o direito de explorar comercialmente as áreas remanescentes [75%]. mais recentemente. 01/12/2011). Como resposta. acionando argumentos de preservação ambiental.org. área de alto risco no mapa elaborado pela própria prefeitura. com a instalação do Parque Olímpico e. porém. a prefeitura vem empreendendo sucessivas tentativas de remoção da Vila Autódromo como parte de projeto de valorização imobiliária da Barra da Tijuca. elaborou uma Notificação ao COI com extensa argumentação pela permanência da vila. houve ampliação do número de lotes e moradores. inclusive com impermeabilização do solo. A Vila Autódromo quer viver. O relator do Código Florestal na Comissão de Constituição e Justiça do Senado faz menção à Vila Olímpica como caso de “exceção para obras consideradas de interesse público”. vencedor de concurso internacional promovido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil – IAB. que comprova a possibilidade de permanência e melhoria das condições de moradia e saneamento com desenvolvimento socioeconômico.Rio de Janeiro. é apresentada como necessária para a construção do Parque Olímpico. A Associação de Moradores elaborou recentemente o Plano Popular da Vila Autódromo.2 milhão de metros quadrados. Já teve início proposta para a realização de Termo de Ajustamento de Conduta. estabelecendo condições para a redução da faixa de APP para 15m por interesse social. A remoção da Vila Autódromo. A prefeitura chegou a justificar a remoção como exigência do Comitê Olímpico Internacional – COI. Campanha Viva a Vila Autódromo: http://www. A mais recente intervenção foi o aterro de uma área extensa avançando sobre o leito da Lagoa. conforme prevê a Resolução Conama n. mantém a Vila Autódromo. após remoção de seu local de origem.portalpopulardacopa. O próprio projeto para o Parque Olímpico. para a instalação da Cidade do Rock e realização do megaevento Rock in Rio. Vila Autódromo: Um Bairro Marcado para Viver A Vila Autódromo é uma comunidade de mais de 20 anos. Ao longo dos anos. Em anos recentes. A comunidade tem resistido através da mobilização social. apoiada pela Defensoria Pública.

estando situada em área tombada. e por não consultar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). e está com impactos ainda em estudo. O Estádio Nacional de Brasília. O licenciamento ambiental ainda está em tramitação na Agência Estadual de Recursos Hídricos – CPRH. em geral atraem para seu entorno verdadeiras “cidades de exclusão” ocupadas em grande parte pelos próprios trabalhadores que mantêm a “cidade planejada”. juiz do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios concedeu liminar para continuidade das obras. segundo a experiência nacional. substituto para o estádio Mané Garrincha. a Cidade da Copa. “cidades planejadas” (como Brasília. como no caso da Arena das Dunas (retratado acima). não teve adequado planejamento prévio. para evitar desperdício de recursos públicos e “previsíveis prejuízos à nação brasileira em face de sua imagem perante a comunidade internacional ante o fiasco contra o qual é desejável prevenir”. prevista para ocupar extensa área vazia. jornal local alerta para os riscos: afirma que. 30 . como é o caso da Cidade da Copa de Pernambuco. já abre precedente. pela ausência de Estudo de Impacto de Vizinhança e de Tráfego. mas a obra não teve licenciamento ambiental e está sendo questionada pelo Ministério Público por contrariar lei federal na mudança de normas de uso e ocupação do solo. abrindo uma nova frente de expansão imobiliária. O início das obras do estádio. Moradores da vila autódromo elaboram Plano Popular para mostrar que urbanização é possível e viável tecnicamente. Em Recife.O discurso“verde”mascara a desconsideração dos impactos causados pelas obras. Sobre esse caso. Goiânia. e torna praticamente irreversível a aprovação da Cidade da Copa. Palmas) sem propostas para a habitação social . recebeu o selo de Estádio Verde da megaempresa estadunidense Leed Platinum (da US Green Building Council). porém. independente dos impactos identificados no licenciamento ou de qualquer questionamento quanto ao interesse público no investimento milionário. A despeito das burlas à legislação.

creches e outras facilidades sociais. o Núcleo de Terras e Habitação (NUTH) da Defensoria Pública do Estado foi seriamente atacado. risco de doenças e desabamentos. Ambos foram punidos por sua atuação no apoio jurídico a moradores ameaçados e atingidos pelas obras da Copa e Olimpíadas. levada a cabo em nome da “ordem pública”. alvos da mesma coalizão de interesses e forças que se abatem sobre aqueles que atendem. os defensores das vítimas se transformam. saneamento básico. à liberdade de ir e vir e à locomoção pela cidade vem associada a ações que não podem ser qualificadas senão como “limpeza social e étnica”. como meio de ameaçar as famílias que resistem. Está também diretamente relacionado ao direito à moradia adequada. Restinga e Metrô Mangueira – e Porto Alegre. foi prática sistemática no Rio de Janeiro – comunidades Estradinha. a comunidade Dandara denunciou em audiência pública (setembro de 2010) a ausência de serviços públicos – energia elétrica. na Vila Dique e no Bairro Cristal. como a coleta de lixo. 31 . causando terror. eles também. A remoção realizada em partes. fornecimento de energia elétrica. eles também. escola. correios. O Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar. é que órgãos públicos destinados à defesa das populações mais pobres e dos direitos humanos passam a ser. através da demolição de casas e mantendo os moradores que resistem em meio a escombros.6 Acesso a Serviços e Bens Públicos e Mobilidade O acesso aos serviços e bens públicos e à mobilidade urbana estão ligados aos direitos fundamentais de liberdade de locomoção e ao direito aos serviços sociais indispensáveis à reprodução da vida. no caso particular. necessariamente provida da infraestrutura e serviços públicos de saneamento ambiental e com acesso a opções de trabalho. saúde. esgotamento e comunicações. esfaceladas. No Rio de Janeiro. O direito a contar com o apoio jurídico foi retirado das populações ameaçadas em pelo menos duas cidades. Acesso a bens públicos A restrição do acesso a espaços públicos. A suspensão dos serviços como forma de pressão para a remoção ocorreu também nas Vilas Dique e Arroio Cavalhada em Porto Alegre. institucional. O grave. entre outros. que funcionava na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Em Belo Horizonte. foi fechado. Em outras palavras. Acesso a serviços públicos Entre as várias estratégias utilizadas pelo Poder Público para pressionar comunidades inteiras ou ainda pior. em vítimas da violência física ou. nestes casos. está o corte ou a interposição de dificuldades de acesso aos serviços essenciais à moradia adequada. água tratada. atendimento pelo Corpo de Bombeiros. postos de saúde. divididas.

) não deve servir como justificativa para a implantação de atalhos que venham a prejudicar o plano metroviário previsto para a cidade e a perfeita integração da Linha 4 original com a Linhas 1 e 2. sem condições de mobilidade adequada e sem infraestrutura. emitiu nota técnica de repúdio às medidas. Sabe-se que tanto mais demo- crática será a cidade quanto mais democrático for o acesso à mobilidade. o ECA e a Lei 10. com privação de liberdade. na fronteira da expansão da cidade. vem realizando o acolhimento institucional compulsório de crianças e adolescentes em situação de rua. Grande Niterói – os investimentos privilegiam áreas pouco densas. Zonas Norte e Suburbana. No Rio de Janeiro. como é o caso de Fortaleza. Parte significativa dos recursos para a Copa e Olimpíadas estão destinados a obras de mobilidade urbana. o Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua e dos Catadores de Materiais Recicláveis denunciou que os moradores de rua têm sofrido de maneira intensificada truculentas ações em que são abordados durante a madrugada por fiscais da Prefeitura. (. de outro lado. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. moradores de rua. tem por objetivo declarado. Evidencia-se assim o desprezo pelos problemas sociais. Rio de Janeiro e São Paulo. Em Belo Horizonte. 32 . de maior riqueza. Ainda mais grave. sinônimo de acesso aos diferentes segmentos do espaço urbano. desde 2009. mas estes expulsam cerca de 5. a política municipal “Choque de Ordem”. os investimentos estão privilegiando corredores voltados a determinadas parcelas já favorecidas da população. flanelinhas. construções irregulares e publicidade não autorizada. promovendo a valorização imobiliária e a expansão irracional da malha urbana. porém sem favorecer as áreas de maior demanda. Em Fortaleza.. os pretendidos corredores de transporte abrem novas frentes imobiliárias. Os mais pobres somente são lembrados quando se trata da ação policial e da política repressiva que criminaliza e penaliza ainda mais a pobreza. No Rio de Janeiro. escolhidas por esta razão para palco privilegiado dos eventos e do turismo ligados aos megaeventos esportivos. Recife-São Lourenço da Mata (Cidade da Copa). Em geral. invocando a Convenção Internacional Sobre os Direitos da Criança.. Mobilidade A mobilidade urbana é condição mesma da vida na cidade.000 famílias para áreas longínquas. são grandes os investimentos em corredores de transporte coletivo..216 (sobre o regime de internação de dependentes químicos). e não apenas para 20 dias de jogos olímpicos. A cidade do Rio de Janeiro quer um Metrô para os próximos 20 anos. especialistas apontam que. Violam-se os direitos ao trabalho e à livre circulação. ao invés de atender as áreas em que se concentra a demanda de transporte público – Baixada Fluminense. De um lado. órgão deliberativo do sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente no Brasil.As ações concentram-se em territórios nobres..) A premência de tempo para executar a ligação Zona Sul-Barra (. a Constituição Federal de 1988. populações estão sendo expulsas de áreas urbanizadas para regiões precárias e periféricas. Movimento “O Metrô que o Rio Precisa”. realizar operações de repressão a vendedores ambulantes. a Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro.

fora de controle público. dois membros do Comitê Popular da Copa foram detidos por realizar manifestação pacífica (expor uma faixa questionando os legados dos jogos) em audiência pública realizada no Senado Federal. Na Comemoração da “Contagem dos Mil Dias para a Copa do Mundo”. à margem dos órgãos de segurança dos estados. O monitoramento destes espaços será intensificado e está previsto policiamento preventivo e ações repressivas. Teme-se que os megaeventos sejam o pretexto para a construção de um verdadeiro estado paralelo. e a Comissão Especial de Segurança Pública. Aos defensores dos direitos humanos preocupa a constituição de forças especiais e estruturas de exceção. no Ministério da Justiça. As campanhas de mídia promovem o clima de insegurança e apelam à repressão policial violenta. encarregada de coordenar as ações de segurança nos eventos. em que políticas e agências especiais. com objetivo de assegurar as garantias apresentadas pelo Governo Federal à FIFA. Nesse contexto. O modelo de segurança pública que vem sendo implementado consiste na integração de todos os níveis de segurança pública do país. se imponham de maneira absoluta e incontestável sobre o espaço urbano. Assiste-se a uma progressiva militarização das relações Estado-sociedade. Também estão sendo criadas novas estruturas para a repressão: Câmara Temática no Comitê Gestor da Copa 2014. a população de cidade-satélite de baixa renda foi duramente reprimida por força policial contando com trinta viaturas 33 . o que já deu origem a legislação específica. o Secretário José Ricardo Botelho de Queiroz afirmou que o Exército estará de prontidão para intervir quando as forças policiais não conseguirem conter as situações de conflito. e garantias dadas pelo Governo Federal à FIFA. As ações são justificadas com o pretexto de aperfeiçoar o controle de distúrbios civis e de fortalecer o policiamento ostensivo no entorno dos equipamentos esportivos. denunciada por diversos setores da sociedade. Repressão e Criminalização da Sociedade Civil No Distrito Federal. será implantado o emprego de forças privadas dentro dos estádios. Seguindo regra imposta pela FIFA. Em 2011 foi criada a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos. instalações para os jogos e áreas turísticas e “áreas críticas à segurança pública”.7 Segurança Pública O Brasil vive um momento de recrudescimento das políticas repressivas de segurança pública. Grupo de Trabalho Copa 2014 na Secretaria Nacional de Segurança Pública. para assegurar as finalidades especificas dos megaeventos. através de Centros Integrados de Comando e Controle. Por que razão a segurança pública em equipamentos e espaços públicos estaria sendo entregue a empresas privadas? Teme-se que este modelo venha a perdurar após os megaeventos. com orçamento próprio. no Ministério da Justiça.

localidade “pacificada” pela instalação de uma UPP. os megaeventos são acionados como parte da justificativa e fundamento de seu plano de ação. a relação é sentida pelos próprios moradores. no Rio de Janeiro. Salvador já ganhou uma UPP. através de ocupação de caráter militar sobre áreas de pobreza. são as práticas como invasão de residências para buscas sem mandado judicial. garantindo regiões estratégicas para fluxos financeiros. mas na implantação de um cordão sanitário protetor de estádios e áreas de expansão/ renovação imobiliária e na criação e difusão de uma nova imagem sobre o pretendido controle da violência criminal. a primeira justamente no caminho do aeroporto ao centro. entre outros. e Curitiba instalou até o momento duas Unidades Paraná Seguro (UPS) em regiões consideradas “perigosas” da cidade. de reunião. em maio de 2012. toque de recolher e regras especiais arbitrárias violando direitos dos moradores de ir e vir. da Zona Sul carioca e nos corredores de acesso aos aeroportos. 34 .policiais. A segurança pública é acionada de forma seletiva. revistas vexatórias. tornando a metodologia de “internação compulsória” um padrão nacional. sabemos que a UPP está ligada a uma satisfação pública para o Rio de Janeiro e o Brasil de que o Estado tem o controle das comunidades. as já famosas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) estão sendo implantadas com prioridade nas comunidades localizadas nas áreas turísticas: no entorno do Maracanã. de manifestação pública. Apesar de não estarem explicitamente vinculadas à Copa e às Olimpíadas. na operação mais de três mil pessoas foram abordadas pela polícia. nos mesmos moldes. Querem dizer que haverá segurança porque nós. O investimento principal não é na segurança da população. já foram anunciadas ocupações semelhantes em outros municípios. pobres. que têm impresso nas cidades-sede formas altamente repressivas de abordagem da população em situação de rua e de usuários. Foto: Renato Cosentino. Depois do Rio de Janeiro. está ainda sendo exportado para outros estados brasileiros que receberão os megaeventos esportivos. No Rio de Janeiro. por vezes fazendo uso da própria Força Nacional. As relações entre Copa e UPP na manifestação do Ocupa Rio. Mais do que uma estratégia discursiva. Cleonice Dias. na Cinelândia. não por acaso.” Esse modelo elitista e repressivo de segurança pública que vem sendo implementado no Rio de Janeiro. reclama: “Nós que somos da comunidade. Objeto de denúncias dos moradores das comunidades afetadas. como foi o caso da comunidade de Santo Amaro (Rio de Janeiro). líder comunitária da Cidade de Deus. A todo esse programa vinculam-se igualmente discursos de suposto combate às drogas. estaremos controlados e que podem vir todos os investimentos para os megaeventos.

então não haverá dúvidas em se avaliar positivamente as medidas tomadas. com o consequente massacre no Complexo do Alemão.MEGAEVENTOS E SEGURANÇA PÚBLICA: O QUE HÁ DE NOVO? O Rio de Janeiro não é tão virgem em megaeventos como muitas vezes se quer fazer crer. O futuro dirá se o benefício não será exclusivo da indústria da segurança. É também conhecido o quanto mobilizações de milhões de pessoas na cidade não só não constituem qualquer novidade como também tem sido. no período. A mercadoria “Rio” é antiga e pelo menos o carnaval e o réveillon em Copacabana deveriam servir de referência quando se discute segurança pública em grandes eventos. mesmo que anacronicamente. nem preparo para isso obteve. por que tanta preocupação com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016? Haveria nesses megaeventos mais gente circulando na cidade do que no carnaval? Haveria maiores reuniões de gente num só lugar que o réveillon de Copa ou. quando não há nenhum megaevento. medidas de segurança são geralmente tomadas e não variam muito em relação àquelas que cercam a presença de chefes de estado estrangeiros em uma cúpula na cidade. As estatísticas de crimes na cidade. ao longo de décadas. demonstração de baixíssimos índices de violência. 35 . para o qual. o Rock in Rio? Em que sentido a atual construção do “cinturão de segurança” das UPPs tem qualquer coisa a ver com os eventos programados na cidade para os próximos anos? Estão construindo também uma “central de videovigilância e segurança” que pretende vigiar e inspecionar. praças e estádios da cidade. aliás mesmo mais baixos que em dias prosaicos no cotidiano da cidade. Quando astros – do showbiz ou dos esportes – movimentam-se juntos em um grande evento. as ruas. mesmo. Quem ganha com a indústria do controle que está sendo montada na cidade com vistas a garantir a segurança dos megaeventos? Se a população da cidade for beneficiada com uma queda das taxas de crimes violentos que persista depois dos megaeventos. nem aumentaram nem diminuíram substancialmente. como nunca antes. Evidentemente são necessários preparativos específicos sempre que muita gente se reúne. inclusive. No entanto. todos devem lembrar-se do exagero que foi a ocupação da cidade pelo exército (uma força que nada tem a ver. com o controle de populações e segurança pública) durante a Rio-92. O cerco policial e militar. que se alimenta da sensação de insegurança e do pânico com o terrorismo – essa criatura que se define exatamente por enganar os melhores serviços de segurança do mundo. continuaram apresentando-se normalmente altas. em junho de 2007. a cúpula do meio-ambiente. planeja-se treinamento especial das polícias: o terrorismo internacional! A lembrança das olimpíadas de Munique recobre. Então. Qual a justificativa? Parece que há um argumento fantasmático. estiveram fortemente motivados pela “segurança” dos Jogos Pan-Americanos. o espectro de medo e pânico moral que justificariam todas essas medidas.

Comitê Popular da Copa (Porto Alegre) Daniela Motisuke – ETTERN/IPPUR/Universidade Federal do Rio de Janeiro Eduardo Baker – Justiça Global Ercília Maia – Movimento dos Conselhos Populares e Comitê Popular da Copa (Fortaleza) Erick Omena – Pesquisador do Observatório das Metrópoles – IPPUR – UFRJ e Comitê Popular da Copa e Olimpíadas (Rio de Janeiro) Flávio Antônio Miranda de Souza – Universidade Federal de Pernambuco Francisca Silvania de Souza Monte – Universidade Federal do Ceará Giselle Tanaka – ETTERN/IPPUR/Universidade Federal do Rio de Janeiro e Comitê Popular da Copa e Olimpíadas (Rio de Janeiro) Gustavo Mehl – Justiça Global e Comitê Popular da Copa e Olimpíadas (Rio de Janeiro) José Antonio Moroni – INESC – Instituto de estudos socioeconomicos José Arlindo Moura Júnior – Escritório de Direitos Humanos Frei Tito e Comitê Popular da Copa (Fortaleza) Julia Moretti – Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns. P. Rita de Cássia Laurindo Sales – Universidade Federal do Ceará Rosa Maria Pinheiro – Comitê Comitê Popular COPA 2014 – Natal/RN Rosângela Mendes de Freitas – Universidade Federal do Ceará Sérgio Baierle – ONG Cidade (Porto Alegre) Thiago A. junho de 2012 Colaboradores: André Lima Sousa – Professor universitário e Comitê Popular da Copa (Fortaleza) Andressa Caldas – Justiça Global e Comitê Popular da Copa e Olimpíadas (Rio de Janeiro) Argemiro Ferreira de Almeida – Rede Rua (Parceiro e Colaborador importante na cidade de São Paulo) Carlos Vainer – ETTERN/IPPUR/Universidade Federal do Rio de Janeiro e Comitê Popular da Copa e Olimpíadas (Rio de Janeiro) Cláudia Fávaro – Arquiteta e Urbanista.DOSSIÊ DA ARTICULAÇÃO NACIONAL DOS COMITÊS POPULARES DA COPA Rio de Janeiro. Universidade Federal da Bahia Marcos Dionísio Medeiros Caldas – Comitê Popular COPA 2014 – Natal/RN Maria Dulce Picanço Bentes Sobrinha – Comitê Popular COPA 2014 – Natal/RN Maria das Neves Valentim – Comitê Popular COA 2014 – Natal/RN Mariana Medeiros – Coletivo de Apoio Sócio-Jurídico ao Conselho Popular Matheus da Silva Pires – Comitê Popular da Copa (Fortaleza) Michel Misse – NECVU/IFCS/Universidade Federal do Rio de Janeiro Natália Damazio – Coletivo de Apoio Sócio-Jurídico ao Conselho Popular Patrícia Oliveira – Advogada e Comitê Popular da Copa (Fortaleza) Patrícia Rodrigues – Marcha Mundial de Mulheres Rachel de Miranda Taveira – Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns – PUC/SP Renata Sereno – Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns – PUC/SP Renato Cosentino – Justiça Global e Comitê Popular da Copa e Olimpíadas (Rio de Janeiro). Hoshino – mestrando do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFPR e assessor jurídico da Terra de Direitos Thiago Pinto Barbosa – Comitê dos Atingidos pela Copa de Belo Horizonte Apoio Financeiro: FUNDAÇÃO HEINRICH BÖLL 36 .PUC/SP Lucia Capanema Alvares – UFF e ETTERN/IPPUR/ Universidade Federal do Rio de Janeiro Lucimar Fatima Siqueira – ONG Cidade (Porto Alegre) Ludmila Paiva – Coletivo de Apoio Sócio-Jurídico ao Conselho Popular e Fórum Comunitário do Porto Magnólia Said – Esplar e Comitê Popular da Copa (Fortaleza) Maira Vannuchi – StreetNet Brasil Marco Aurélio Filgueiras Gomes – Observatório da Copa Salvador 2014.

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