La Première Séance, filme de Gérard Miller (Comentários na abertura do ano na EBP-SP, em 6/3/2013.

)

Romildo do Rêgo Barros O documentário dirigido por Gérard Miller mantém do começo ao fim uma referência ao teatro, lugar onde se representa, onde há uma realidade superposta, que não reproduz exatamente a realidade que por hipótese estaria por debaixo. A ação teatral confronta necessariamente as duas realidades: a ficção teatral e a vida dos espectadores, e sem dúvida também a dos atores, diretores, músicos, etc. Como diz o autor logo no início do filme: “nossa vida é um teatro, e o que se dá a ver e a ouvir não é a verdade”. Mais adiante ele usa a expressão “o avesso do seu próprio décor”, que supostamente é o que se busca ver em uma análise. Praticamente todos os testemunhos do filme falam da entrada em análise como um franqueamento, uma ultrapassagem, que pode ser eventualmente ameaçadora: dar um passo à frente, passar para o outro lado do espelho, oferecer-se para ser escaneado, arriscar-se a ficar dependente, etc. O medo ou a tensão de que falam alguns dos entrevistados é um afeto de certa forma prévio ao trabalho analítico. É algo como a “espera ansiosa” de que falava Freud. A realidade teatral informa também alguma coisa sobre essa outra realidade – a realidade da vida, digamos para simplificar -, ou mesmo influi sobre ela, como escreveu Aristóteles na sua Poética sobre as finalidades da tragédia: provocar certos afetos no espectador, o medo e a piedade, que estão associados à catarse. Aristóteles explica a tragédia a partir dos seus efeitos. Não no pensamento ou em um aumento de saber (sobre o outro lado das coisas, por exemplo), mas através de uma transformação nos afetos. Isso tem a ver com uma palavra que é usada por algumas pessoas no documentário: libération: libertação, seja de uma inibição, seja da angústia, ou mesmo libertação do eu, de si próprio. O efeito na vida é que a partir desse ato o sujeito, que de resto continua a ser o mesmo de antes, como observa um dos entrevistados, passa a ousar um pouco mais. Ele passa a pôr em ato o que antes era apenas uma vontade ou uma fantasia. É um esquema não muito diferente da tragédia para Aristóteles: • algo vem de fora, do Outro (a ação e a narrativa teatral, ou uma interpretação psicanalítica que localiza o desejo do sujeito); • a partir disso, um novo sentimento se apodera do sujeito (medo e piedade em Aristóteles, sentimento de angústia ou delibertação nos nossos personagens); • finalmente, o sujeito tem acesso a um novo ato: catarse em Aristóteles, e, no nosso caso, algo que poderíamos chamar de não ceder no seu desejo. O que leva alguém a procurar um analista

Parece que três coisas levaram as pessoas do filme à análise: • um sofrimento traumático, como a mulher que é informada que seu marido terá apenas mais um ano de vida; • um mal estar mais geral, referente à maneira de encarar a vida ou a sensação de ter chegado a um limite: chegou um momento em que eu me perguntei o que eu iria fazer da minha vida; • ou então um sintoma preciso, estruturado, como uma fobia, uma compulsão ou um ataque de pânico.Il faut que quelque chose cloche, como diz Gérard Miller. GM: há o décor, e há o psicanalista. O psicanalista, na primeira sessão, ainda não está pronto. Podemos dizer que as primeiras entrevistas servem antes de tudo para produzir um analista, que é tão singular quanto o sujeito. Pode-se dizer, me parece, que o psicanalista (não simplesmente a figura do analista, que é em um certo sentido uma emanação do décor, mas o analista resultante do ato analítico ou da interpretação) surge em ruptura com o décor. Isto equivale a dizer que a “presença do analista” – expressão que Lacan usou algumas vezes em diferentes contextos – ocorre como “análise”, ou seja, como disjunção, como separação de elementos. Um dos entrevistados chama esse momento, no qual um analista é representado por um desejo, chamado por Lacan de desejo do analista, de “exame de passagem”, o que não é inteiramente longe da ideia de um passe. O analista surge, digamos, como uma figura (que faz, portanto, parte do décor) necessária à manifestação de um desejo bem peculiar, que é discrepante do décor. O analista perfeitamente adequado ao décor seria aquele para o qual a análise é coextensiva ao setting. Como resume ironicamente um dos entrevistados referindose ao que imagina ser a técnica em psicanálise, “o açougueiro tem sua faca, o psicanalista tem seu divã”. Com o ensino de Lacan, nós passamos a saber melhor que entre a figura do analista e esse desejo peculiar há um diferencial permanente, o que vai se manifestar nas vicissitudes da transferência. Tomando emprestada a expressão de Gérard Miller, o analista não é simplesmente aquele que conduz o sujeito na direção dos bastidores do teatro, fora da cena, mas é igualmente os próprios bastidores, ele representa para o sujeito aquilo que o espera do outro lado: para nomear um dos planos onde se manifesta esse diferencial (o plano do saber), Lacan criou a expressão “suposição de saber”, que é uma espécie de antecipação temporal: o analista, - ou o seu saber – é suposto estar onde o sujeito é convidado a chegar em um futuro mais ou menos longínquo. A posição deitada, que entra em discussão no filme, e que foi inventada por causa de idiossincrasias pessoais de Freud, representa uma ocasião de falar ao Outro, até certo ponto separado do décor.

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