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Universidade Federal do Rio de Janeiro Relações Internacionais

Política mundial de drogas ilícitas: a criminalização do usuário

Métodos de Pesquisa Profª Patricia Rivero
NEPP-DH/RI/CFCH/UFRJ

Jéssica Cerqueira – DRE:111243191 Rebecca Ferraz – DRE: 109080901

In order to address this issue.Yuri Simão – DRE: 111478754 ABSTRACT Drug abuse constitutes one of the most important social problems in the modern society. políticos e econômicos. alongside with other nations. PALAVRAS-CHAVE Drogas. in the course of the twentieth century. political and economic scopes. Para enfrentar esta questão. O trabalho em questão busca efetuar uma análise de uma das consequências da guerra às drogas: a criminalização do usuário e seu significado em termos sociais. no decorrer do século XX. ao lado de grande número de nações. RESUMO O abuso de drogas se constitui um dos problemas sociais mais relevantes da sociedade moderna. empreenderam internacionalmente uma política juridicamente garantida de guerra às drogas. have internationally undertaken a policy of drug war legally guaranteed. . This work seeks to make an analysis of one of the consequences of the drug war: the criminalization of users and its significance in the social. os Estados Unidos da América. Direitos humanos. Criminalização. the United States of America. Individualidade. Ilícitas.

leis e intituições) e. na medida em que empreende uma analise histórica do proibicionismo e seu significado no tocante aos direitos e liberdades individuais do cidadão. É um estudo de natureza exploratória. que se configuram mais como uma política de segurança pública do que de saúde. A pesquisa se concentra na análise do contexto latino-americano. a partir da técnica quantitativa de análise de dados e qualitativa de análise de conteúdo. Em suma. através do método de pesquisa literária. O objetivo do presente trabalho é expor as conseqüências da criminalização do usuário como um dos mecanismos do combate ao problema das drogas. O tema das drogas com foco na repressão ao usuário é importante para as Relações Internacionais na medida em que instiga questionamentos quanto ao caráter das políticas de drogas. criminalização. A aceitação e adoção internacional da proibição e repressão como estratégias de Estado adicionaram duas novas variáveis à questão das drogas: o comércio ilegal e o problema social das sanções penais ao consumidor. correlaciona-se diretamente proibição e criminalização do usuário. e quantitativo. explorar o a validade do teor das políticas de repressão no contexto das propostas de um estado democrático. na medida em que relaciona os atuais gastos governamentais e sanções penais amplamente utilizados no combate ao consumo de drogas ao aumento da população carcerária. afetando as garantias individuais historicamente conquistadas. . sendo a variável independente a proibição (indicada através de gastos públicos. Trata-se de um estudo qualitativo. suas conclusões podem ser transferidas a nível mundial. a dependente. as linhas gerais. entretanto. e aumento dos índices de violência.INTRODUÇÃO As políticas voltadas para o consumo de drogas são de nível mundial. com intervenções cada vez mais profundas do Estado sobre os direitos civis.

O controle de tal entorpecente e a comercialização acabou por gerar dependência de grande parte da população e altos índices de lucratividade para os detentores do entorpecente.2. cerne de religiões e prática sem fins lucrativos e muitas vezes sacramentada. World Drug Report 2012. Objetiva. A utilização de cogumelos. Henry. UNODC. Quando o método ortodoxo não teve resultado. 1 Ainda que a proibição total da droga na corte chinesa tivesse sido decretada. o ópio era utilizado para fins medicinais bem como para marcar rituais na África. 1.1. Pequim despacha um oficial para destruição total dos meios de comércio do ópio. que estivessem envolvidos de forma direta ou indireta e até mesmo aqueles que não tinham relação alguma com o comércio ilegal da droga. usando os métodos confucionistas de repressão e destruição completa de todo estoque do entorpecente. Um breve histórico da proibição das drogas O uso de entorpecentes é prática marcada na história de diversas civilizações. Foi durante as Grandes Navegações que o ocidente tomou conhecimento do ópio e suas propriedades o que causou grande interesse pelos comerciantes da grã Bretanha. não teria resultado eficiente no que tange ao desmantelamento e erradicação do sistema da comercialização e consumo do ópio. Américas e Oceania. Rio de Janeiro. Sobre a China. O ópio era produzido na índia britânica e redistribuído para a China por comerciantes britânicos e americanos muito embora tal comércio fosse proibido na China. plantas maceradas. O objetivo é alcançar de forma ampla e genérica os acontecimentos históricos dos últimos séculos que influenciaram o desenvolvimento das atuais concepções sociais sobre determinado grupo de drogas controladas – especialmente a 1 2 Kissinger.Proibicionismo como estratégia de saúde pública e seu impacto social Não é objetivo desta seção do trabalho continuar a traçar uma extensa cronologia da relação entre sociedade e o tema das drogas. resolveu prender todos os estrangeiros. Para tentar resolver essa situação. chás e ervas compunham processos de alucinação e contato com deuses presentes em diversas sociedades. 2011. . a lucratividade gerava relutância na corte Qing para a erradicação completa da droga. Há mais de cinco mil anos. Ásia.

após a Primeira Guerra Mundial.cannabis. uma conjunção de diversos fatores.2 A partir da expansão européia. com ênfase ao aspecto moral. O marco deste processo foram as mencionadas Guerras do Ópio (1839 – 1841). as nações industrializadas começam a criar uma consciência cada vez maior da importância do saneamento. consolidaram o domínio britânico no Oriente e implementaram a prática comercial de drogas em larga escala. ao longo do século XIX. ganha corpo e respaldo a discussão acerca da proibição internacional das drogas. com a criação da Liga das Nações. Sob os auspícios da ONU e da hegemonia norte-americana. a substância ilícita mais utilizada no mundo: existem entre 119 milhões e 224 milhões de usuários de cannabis no mundo. diversas convenções internacionais ratificam a repressão ao comércio de ópio e cocaína. com uma revolução industrial em curso. na transição para o século XX. da vacinação e da universalização do atendimento médico como formas eficazes de prevenção de doenças e melhoria das condições de saúde da população. Agora. Uma vez tratadas como mercadorias. . o consumo de drogas começa a se desvincular de contextos específicos. 1997) Ao mesmo tempo. e a produção e consumo crescem. para se alinhar à lógica mercantil: agora é tratada como um produto comercial qualquer. Neste contexto. o consumo começa a acarretar diversos impactos sociais tais como relatos de overdose e complicações crônicas à saúde. contribuiu para a criação de um movimento que entendia a proibição do consumo de drogas como a melhor política para frear os prejuízos por ele causados. ficando o seu uso restrito à esfera médica e científica. saúde pública e desenvolvimento andam atrelados. os ingleses garantiram o monopólio internacional. (ESCOHOTADO. A partir da metade do século XX mecanismos de repressão ao comércio e ao consumo de drogas começaram a se estruturar e a amplitude de substâncias lançadas à esfera ilícita aumenta. a popularização do consumo de drogas cresce e. como rituais religiosos. os transtornos sociais causados pelo consumo de drogas passam a ser um problema de saúde pública e. Entretanto. A partir de então. É facilmente constatável que a proibição do consumo de drogas como estratégia de saúde pública estava presente de alguma forma em diversas nações em meados do século XIX.

Internacionalização da Guerra às Drogas e o contexto latino-americano A partir de 1914 tem-se o primeiro ato contra o uso de drogas nos Estados Unidos. teve se um pacto global contra as drogas da ONU. A partir desse momento. Tal ato se deu num contexto de alto consumo e que. Vejamos alguns casos. Em alguns países sul – americanos. tratamento a dependentes. reprimiu a população usuária e traficante cada vez mais. de ópio e a cocaína. Nesse custo. Mas só em 1961. a ONU estabeleceu seu apoio em alguns países através de um trabalho normativo. desse modo. dentre outros. principalmente. o modelo americano de erradicação de drogas se espalhou pelo mundo à medida que sua hegemonia política e econômica crescia. tráfico valorizado e alto consumo.2. do custo socioeconômico do consumo dessas drogas. gerando. por exemplo. Recentemente. as perdas de produtividade e o controle (recurso empregado na perseguição de crimes e infrações à lei de drogas e aqueles tendo como causa a . que ficou conhecida como Ato dos narcóticos. consequentemente. gerou problemas de dependência. Chile Os custos socioeconômicos Uma pesquisa recente da CEPAL no Chile aponta que há uma perda altíssima por parte do Estado de recursos monetários devido ao trafico e consumo de drogas ilícitas. Entretanto. Após a medida. assim. está incluída a prevenção. após perceber relativo fracasso. os tratamentos de saúde. um ciclo vicioso de preço alto. os Estados Unidos. vários países adotaram medidas proibicionistas em relação ao uso das drogas ilícitas sem estarem bem infraestruturados internamente à adoção de providencias como prisões. após a percepção da gravidade dos problemas gerados em países menos desenvolvidos e alguns desenvolvidos. Tratase. como os próprios EUA. controle do trafico. Desde então. os dados da participação das drogas ilegais impactando na economia e no cenário social é sugestivo. pesquisa e análise e assistência técnica. concentrado em seu escritório sobre drogas e crime (UNODC). a ajuda não é suficiente se o governo responsável não manifesta decisões efetivas no âmbito social e político interno.

A metodologia utilizada na pesquisa foi o COI (sigla em inglês para “custo de enfermidade”) que nesse caso representa o consumo e o trafico de drogas e suas consequências na realidade. como se vê na tabela abaixo: . pode-se inferir que o consumo em si não diminuiu no período. Desse modo. percebe-se um aumento da participação das perdas de produtividade e também um aumento no controle do ano de 2003 a 2006. percebe-se uma relação entre tipo de droga consumida e o nível de violência. comparando com um cenário contrafactual onde tal enfermidade não existiria. Assim. o que reflete o fato de cada vez mais o estado precisar desembolsar verbas para o controle dos delitos dos usuários e para as perdas de produtividade. Analisando a tabela abaixo.droga). Incidência de delitos sobre influência de drogas Uma pesquisa realizada pelo observatório argentino mostra que os infratores de crimes mais pesados no Chile são os consumidores de drogas mais pesadas dentro da esfera da população privada de liberdade. A perspectiva desse indicador é importante tanto para a tomada de decisões quanto para a análise da efetividade dos programas e políticas públicas voltadas à redução do tráfico e consumo de drogas.

mostrou que houve um aumento no uso de drogas lícitas e ilícitas (SPA. observemos os gráficos entre os anos e o de classificação de custos em 2008. Vale lembrar que danos à propriedade estão relacionados com o consumo das drogas que geraram mortes no trânsito.Argentina Da mesma maneira como observado no Chile. . Assim.abuso de drogas psicoativas) entre os anos de 2004. 2006 e 2008 através da constatação de que os custos socioeconômicos direcionados as essas drogas aumentaram. o observatório argentino de drogas. em uma pesquisa. e as consequências laborais são as perdas de produtividade relacionadas ao uso das mesmas. ainda se pode considerar os efeitos das ilícitas como parte dos números em 2008. Apesar da pesquisa argentina se tratar de todas as SPA. por exemplo.

a Lei criminal contra as drogas manifesta-se desfavorável ao acesso à saúde e a participação e organização dos usuários de drogas. respectivamente.Brasil No Brasil e assim como em outros países. pode fazer aumentar o uso das não proibidas. ao crucificar as ilícitas. além disso. ao estabelecer o uso como “proibido”. sugerindo a ocultação. O mais interessante. de saúde e tratamento de pessoas que usam. o perfil do crime cometido fica mais sério. Consequências do proibicionismo A aceitação e adoção internacional da proibição e repressão como estratégias de Estado adicionaram duas novas variáveis à questão das drogas: o comércio ilegal e o problema social das sanções penais ao consumidor. Entrementes. O trabalho não se aprofundará na questão . 3. foi constatado por relatório do CNJ (conselho nacional de justiça) que 75% dos adolescentes internados em cumprimento de medidas socioeducativas são usuários de entorpecentes. O que nos permite afirmar que a parcela dos jovens ligados às drogas é imensa no Brasil assim como em vários outros países latino americanos. Em 2012. abusam ou são dependentes de drogas são determinantes para o aumento das vulnerabilidades. por exemplo. E mais. ao passo que 24% por tráfico de drogas. e na mesma lógica funciona o roubo seguido de morte de 0% para 2%. a divisão de drogas entre lícitas e ilícitas. cerca de 36% dos jovens afirmaram estar internados por roubo. Além disso. já se sabe que a insuficiência histórica de políticas que promovam a promoção e proteção social. é que entre a primeira e a segunda internação. o roubo e o furto caem de 20% para 6% e 40% para 28%. mesmo essas tendo consequências graves à saúde. Ainda de acordo com o levantamento. o índice de homicídio sobe de 3% nas primeiras internações para 10% na segunda.

matura-se e consolida-se no escopo de concepções da sociedade a seguinte lógica: as drogas. Assim sendo. a melhor saída. paradoxalmente. afetando as garantias individuais historicamente conquistadas. é importante sublinhar o fato de que o comércio de drogas agora se encontra sob controle de complexos cartéis que operam em geral com extrema violência. 1997). a tendência é de não mais submeter o usuário à prisão. tem aumentado a instabilidade internacional. ainda se pode somar o fomento da indústria de armas.do tráfico internacional de drogas. pois não é seu objetivo. expondo direta ou indiretamente civis. As sanções impostas ao usuário estão. e aumento da população carcerária decorrente do envolvimento de civis no narcotráfico. Entretanto. os usuários são seus maiores patrocinadores e a repressão penal. A este painel extremamente violento e inseguro. são as responsáveis pelo surgimento do crime e seus cartéis. Ainda assim. A repressão penal ao usuário sucinta. ainda. A criminalização do usuário é problemática na medida em que pode vir a submeter o mesmo a exageros das leis penais e à marginalização social. o usuário continua exposto à vigilância não somente do Estado como também da sociedade. em tese. seguindo uma tendência de flexibilização e atualização. A guerra às drogas. questionamentos quanto ao caráter das políticas de drogas. que se configuram mais uma política de segurança pública do que de saúde. na América Latina inclusive. e sim a prestação de serviços à comunidade e comparecimento a programas educativos. sem que se pergunte se o fomento dessa nova criminalidade nasceu por conta do histórico comércio de drogas ou em função da clandestinidade que foi imposta pelo proibicionismo (ESCOHOTADO. já que a flexibilização das leis de drogas não retiraram do usuário o estigma de infrator penal. por si só. especialmente em zonas periféricas. com intervenções cada vez mais profundas do Estado sobre os direitos civis. O usuário é socialmente marginalizado na medida em que é responsabilizado pelo apoio e fortalecimento do tráfico ilegal de drogas. . entre outros desdobramentos.

o que acontece e foi acordado internacionalmente é uma política de guerra às drogas.que acabam por ser desdobrar em marginalizações de diversos níveis. antissociais. lascivos. Porém. com conseqüências devastadoras para indivíduos e sociedades ao redor do mundo. têm gerado estigmatizações que correlacionam o uso de drogas ilícitas a comportamentos violentos. já que reconhecem que a atual política de drogas é ineficaz desde que não diminuiu o consumo de drogas e irresponsável desde que termina por gerar novos problemas sociais. documentários. Farmacologicamente. ideológicos. identitários. recreativos. E mais realista. e da necessidade de uma abordagem que trate a questão como um tema de saúde pública. Essa percepção aumenta conforme se proliferam estudos. dentre as interpretações científicas e culturais em relação ao tema das drogas. Assim sendo. em vez de uma questão de segurança.. . e há milhares de anos fazem parte da medicina e de diversos tipos de interações humanas com múltiplos símbolos – religiosos. É inegável que o debate tem avançado internacionalmente. álcool. Entretanto. etc. Cafeína. cannabis. o tema das drogas não deve ser encarado como um problema genérico que exige duras soluções e intervenções. ensaios. com uma posição mais progressista sobre o tema. com naturezas distintas.Conclusão As drogas estão inseridas no desenvolvimento da história do homem há milhares de anos. A lista é vasta. o termo droga faz menção a qualquer substância que altere o funcionamento normal do metabolismo humano. e que muda progressivamente a opinião pública internacional. inclusive com o desejo emanado pela sociedade em geral de punição do usuário. aquelas culturais têm se sobreposto às científicas. cada vez mais consciente do fracasso da política de repressão à produção e ao tráfico. tabaco. deve ser encarado como um fenômeno plural e complexo. debates parlamentares. enquanto o uso daquelas lícitas está socialmente assimilado .

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