DESENVOLVIMENTO DE SALTO PLATAFORMA DE CALÇADO FEMININO EM BAMBU LAMINADO

FLÁVIO CARDOSO VENTURA - flavio_ventura@ig.com.br UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - UNESP - BAURU-FAAC BRUNO PERAZZELLI - bperazzelli@hotmail.com UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - UNESP - BAURU EDISON URIEL RODRIGUEZ - carranguero@gmail.com UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - UNESP - BAURU LUIS CARLOS PASCHOARELLI - paschoarelli@faac.unesp.br UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - UNESP - BAURU-FAAC MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES - zilmenezes@uol.com.br UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - UNESP - BAURU Resumo: O DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS SUSTENTÁVEIS NECESSITA DA PESQUISA E APLICAÇÃO DE NOVOS MATERIAIS E PROCESSOS. O CICLO DE VIDA DE UM PRODUTO ABRANGE DESDE A EXTRAÇÃO DE SUA MATÉRIA PRIMA ATÉ O DESCARTE APÓS A UTILIZAÇÃO, PORÉM, NA PRÁTICA ISSSO COMUMENTE NÃO OCORRE. ALGUNS COMPONENTES UTILIZADOS NA FABRICAÇÃO DE CALÇADOS PODEM CAUSAR CONTAMINAÇÃO E DESEQUILÍBRIO AO AMBIENTE, QUANDO DESCARTADOS EM LIXO DOMÉSTICO, ASSIM, A SUBSTITUIÇÃO DE MATERIAIS E PROCESSOS ATUALMENTE EMPREGADOS, POR OUTROS CONSIDERADOS ECOLOGICAMENTE CORRETOS APRESENTA SÉRIAS VANTAGENS COMPETITIVAS E AMBIENTAIS, DEVENDO SER INCENTIVADA PELOS VÁRIOS SEGMENTOS QUE COMPÕE A INDÚSTRIA CALÇADISTA. ESTES TIPOS DE MATERIAIS OFERECEM À INDÚSTRIA DE CALÇADOS NOVAS FONTES DE MATÉRIAS PRIMAS, INSEREM NOVOS SETORES NA CADEIA DE SUPRIMENTOS, MELHORAM A QUALIDADE DO AMBIENTE E CONTRIBUEM À GESTÃO NA LOGÍSTICA REVERSA, AGREGANDO VALOR DE DIVERSAS NATUREZAS: ECONÔMICO, ECOLÓGICO, LEGAL, LOGÍSTICO, DE IMAGEM CORPORATIVA, ENTRE OUTROS. COM BASE NOS FATORES CITADOS, E NA VERSATILIDADE DO BAMBU LAMINADO E DA RESINA EM ÓLEO DE MAMONA, ESTE ESTUDO VISA REDUZIR O IMPACTO AMBIENTAL GERADO POR DETERMINADOS COMPONENTES E PROCESSOS DA INDÚSTRIA CALÇADISTA, ATRAVÉS DA PROPOSTA DO SALTO PLATAFORMA DE UM CALÇADO FEMININO DESENVOLVIDO SOB A ÓTICA DO ECODESIGN E UTILIZANDO O BAMBU LAMINADO COLADO (BLAC) COMO MATÉRIA-PRIMA.

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

Palavras-chaves: DESIGN, SAPATOS, COLADO DE BAMBU LAMINADO, PROJETO DO CICLO DE VIDA. Área: 5 - GESTÃO DO PRODUTO Sub-Área: 5.3 - METODOLOGIA DE PROJETO DO PRODUTO

DEVELOPMENT OF BAMBOO LAMINATE PLATFORM HEELS FOR WOMEN SHOES
Abstract: THE DEVELOPMENT OF SUSTAINABLE PRODUCTS REQUIRES THE RESEARCH AND APPLICATION OF NEW MATERIALS AND PROCESSES. THE LIFE CYCLE OF A PRODUCT RANGE FROM THE EXTRACTION OF ITS RAW MATERIALS TO DISPOSAL AFTER USE, BUT IN PRACTICE IT USUALLY DOES NOT OCCUR. SOME COMPONENTS USED IN THE MANUFACTURE OF SHOES AND IMBALANCE CAN CAUSE CONTAMINATION TO THE ENVIRONMENT WHEN DISPOSED OF IN HOUSEHOLD WASTE, SO THE SUBSTITUTION OF MATERIALS AND PROCESSES CURRENTLY USED BY OTHERS CONSIDERED ENVIRONMENTALLY FRIENDLY PRESENTS SERIOUS ENVIRONMENTAL AND COMPETITIVE ADVANTAGES, AND SHOULD BE ENCOURAGED BY THE VARIOUS SEGMENTS MAKING UP THE FOOTWEAR INDUSTRY. THESE TYPES OF MATERIALS TO THE FOOTWEAR INDUSTRY PROVIDE NEW SOURCES OF RAW MATERIALS, ENTER NEW SECTORS IN THE SUPPLY CHAIN, IMPROVE THE QUALITY OF THE ENVIRONMENT AND CONTRIBUTE TO THE MANAGEMENT IN REVERSE LOGISTICS, ADDING VALUE OF VARIOUS KINDS: ECONOMIC, ECOLOGICAL, LEGAL, LOGISTICAL, THE BRANDING, AMONG OTHERS. BASED ON THE AFOREMENTIONED FACTORS, AND VERSATILITY OF BAMBOO LAMINATE AND RESIN IN CASTOR OIL, THIS STUDY AIMS TO REDUCE THE ENVIRONMENTAL IMPACT GENERATED BY CERTAIN COMPONENTS AND PROCESSES OF THE FOOTWEAR INDUSTRY BY PROPOSING A PLATFORM HEEL WOMEN SHOES DEVELOPED UNDER THE OPTICS AND THE ECODESIGN USING GLUED LAMINATED BAMBOO (BLAC) AS RAW MATERIAL. Keyword: DESIGN, SHOES, GLUED LAMINATED BAMBOO, LIFE CYCLE DESIGN.

2

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

1 Introdução Entende-se como Ciclo de Vida de um produto, os processos abrangendo desde a extração da matéria-prima que o originou até seu descarte após a utilização. E um dos elementos determinantes na escolha de certos processos de fabricação, diz respeito à matéria prima utilizada para a confecção do produto, e é também essa matéria-prima que definirá o destino do objeto descartado. Lovo e Rosa (2007) chamam a atenção para o fato de usualmente pensar-se somente nas fases de fabricação e utilização dos produtos, nos estudos de seus potenciais impactos ambientais. Porém, os riscos não se dão somente nestas fases, por isso, a análise do Ciclo de Vida do produto deve abranger desde a extração da matéria prima até seu descarte e administração de resíduos, ou seja, envolve as fases de projeto, fabricação, transporte, instalação, utilização e gestão de resíduos. Uma das maiores preocupações do mundo contemporâneo é com os poluentes lançados na atmosfera e na superfície terrestre, sendo que os polímeros sintéticos, apesar de responsáveis por muitos avanços tecnológicos como a obtenção de materiais plásticos, fazem parte destes poluentes, pois não são recicláveis e os sintéticos derivados de petróleo não sofrem biodegradação. Os derivados de petróleo têm inúmeras utilizações, e uma delas é na fabricação de saltos para calçados femininos. Os Polímeros biodegradáveis, como o óleo de mamona, consistem numa opção para a redução do impacto ambiental (MARQUES et al, 2009). O óleo de mamona é um óleo vegetal que vem sendo bastante estudado devido a sua ampla aplicação no mercado medicinal, farmacêutico, cosmético, aeronáutico e biodiesel. Considerado o Petróleo Verde, o óleo de mamona, ou óleo de rícino, é derivado do ácido ricinoléico obtido da mamona (Ricinuscommunis) (ALMEIDA, et al. 2004 ). Pela parceria entre a Faculdade de Tecnologia - FATEC JAHU e a Indústria Química JR Pengo, ambas localizadas na cidade de Jaú, foram desenvolvidos no ano de 2011, componentes (saltos) para calçados femininos em óleo de mamona. Estas peças tiveram suas características testadas, segundo normas regulamentadoras brasileiras, verificando-se sua aplicabilidade segura para a construção destes componentes, embora, vale ressaltar que para melhorar à resistência a abrasão novos estudos deverão ser realizados (VENTURA, ALENCAR & NASCIMENTO, 2011). Outro material alternativo ao uso dos derivados de petróleo na indústria calçadista pode ser o Bambu Laminado Colado (BLaC). Resultado do processamento de colmos de bambu, o BLaC apresenta ótimas capacidades físico mecânicas e beleza diferenciada, enquanto o bambu é considerado um grande aliado da sustentabilidade, apresentando uma infinidade de utilizações, além de ser um ótimo regenerador ambiental, sequestrador de carbono e por ser uma cultura perene de produção anual. Atualmente está crescendo uma consciência ambiental nos consumidores configurando um mercado cada vez mais exigente em termos de produtos sustentáveis. O bambu e os polímeros biodegradáveis oferecem uma boa possibilidade de satisfazer estas necessidades e se integrar com outros setores produtivos como a silvicultura, contribuindo com alternativas e soluções aos desafios na cadeia de suprimentos, sobretudo em matéria de logística reversa, criação de novos materiais, novas formas de produção e distribuição. Com base na versatilidade do bambu laminado e do óleo de mamona, e fundamentado no fator da sustentabilidade, este estudo visa contribuir para a redução do impacto ambiental gerado por determinados componentes e processos da indústria calçadista, mediante proposta do salto plataforma (parte inferior) de um calçado feminino desenvolvido sob a ótica do ecodesign, utilizando o bambu como matéria-prima.
3

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

2 Objetivos O presente estudo tem como objetivo verificar a aplicabilidade do Bambu Laminado Colado (BlaC) na fabricação de um protótipo de salto plataforma para calçados femininos. 3 Metodologia Inicialmente foi realizada uma revisão bibliográfica, possibilitando resgatar os aspectos em torno do tema BLaC, assim como foram verificados métodos de confecção de saltos plataformas para calçados femininos. Com base nos princípios teóricos, foi confeccionado um protótipo de salto em BLaC, conforme as seguintes etapas:  Seleção do bambu por critério de idade;  Tratamento do material colhido para evitar ação de fungos e parasitas;  Dimensionamento das peças envolvidas no processo;  Processamento do material em oficina de madeira;  Análise da curvatura da fôrma de calçado feminino;  Confecção do molde para conformação da palmilha;  União das lâminas de bambu; e;  Corte e acabamento do protótipo. 4 Design e Ecodesign Design industrial é definido por Löbach (2001) como:
O termo design industrial é toda atividade que tende a transformar em produto industrial passível de fabricação, as idéias para a satisfação de determinadas necessidades de um indivíduo ou grupo, ou seja, é [...] um processo de adaptação dos produtos de uso, fabricados industrialmente, às necessidades físicas e psíquicas dos usuários ou grupo de usuários (LOBACH, 2001 - p. 21).

Além da atenção constante dos designers para a relação dos usuários com os produtos, atualmente, existe um grande esforço para que toda produção material humana privilegie materiais e métodos que levem em conta a sustentabilidade ambiental. Assim, assiste-se a uma produção arquitetônica, agrícola e industrial, em que o sucesso do empreendimento tem como condição essencial a proteção do ambiente natural em que ocorre. No que diz respeito ao campo do design, o conceito de Ecodesign tem como objetivo o desenvolvimento ambientalmente consciente, ou seja, o que cause o menor impacto ambiental negativo possível. Segundo Ferrão (2005), em alguns casos é mesmo possível imaginar produtos concebidos de forma a causarem um impacto positivo sobre seu meio. Para desenvolver projetos que contemplem este caminho da sustentabilidade, deve-se considerar o ciclo de vida dos produtos, ou o design para o ciclo de vida (Lyfe Cycle Design). Esta consideração precisa ser levada em conta desde o início do projeto, para que já se desenvolva planos que se adaptem às premissas do caminho da sustentabilidade. Durante a pré-produção são produzidas as matérias-primas semi-elaboradas. Nesta etapa ocorre a aquisição de recursos, que podem ser virgens, secundários ou reciclados. Os recursos virgens, por sua vez, podem ser de fontes renováveis ou não-renováveis. Nesta fase

4

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

também há o transporte e a transformação dos recursos em materiais e energia. E os principais fatores a serem considerados em um projeto que vise à confecção de produtos ecologicamente corretos, dizem respeito a sua forma de montagem, a matéria prima empregada para isso e a desmontagem. Fundamentado no fator sustentabilidade, o bambu pode ser uma opção para o desenvolvimento de produtos que causem um menor impacto ambiental. 4.1 Bambu na cadeia de suprimentos no Brasil O bambu é uma gramínea que se distribui naturalmente desde regiões tropicais até as temperadas, ocorrendo principalmente em áreas quentes e chuvosas, sendo considerado um recurso sustentável e renovável, graças à alta capacidade de geração anual de novos brotos, promoção de ciclagem de nutriente e rápido crescimento dos colmos (GRECO, 2011). O bambu apresenta aplicações diversas como negócio e pode constituir uma cadeia produtiva única, trazendo consigo possibilidades excepcionais de desenvolvimento, pois o “Brasil é o país com maior diversidade de espécies de bambu no Novo Mundo” (JUDZIEWICZ et al. Apud OSTAPIV & DOMINGOS, 2007, p. 6). Porém, até o momento, a cadeia produtiva do bambu no Brasil encontra-se ainda dispersa, restringindo-se a alguns projetos individuais e isolados, porém em processo de desenvolvimento. A seguir, alguns elos da cadeia de suprimento do bambu: Segundo Pellegrini (2008, p. 24) os produtores de bambu ainda são de pequeno porte, com pouca ou nenhuma técnica adequada de manejo dos bambuzais. A venda de varas de bambu pode ser de origem de plantios ou também pela presença de touceiras na própria propriedade, o próprio produtor também é intermediário de matéria-prima, fazendo seu tratamento e distribuindo para transformadores com os mais variados usos ou participa de todo o processo até o produto final, vendendo-o para o consumidor. Trabalhando com a produção industrial só há uma empresa americana, a Bamboo Strand Products, que está para investir em plantio no Brasil para produção de vigas laminadas coladas de bambu, e pretende ser em escala comercial, em torno de 2000 ha. (Ibidem, p. 11). Em relação a varas para comercialização, não existe padrão definido quanto à forma, pois o produto varia amplamente em diâmetro, comprimento e tratamento, assim como quanto a preços. A comercialização no Brasil em relação ao bambu ainda é dispersa e informal, mas podem-se perceber regiões com potencial de desenvolvimento em determinado setor. A região Norte possui as maiores reservas de bambu nativo do mundo (Ibidem, p. 14). A utilização e transformação de bambu têm muitos âmbitos tais como: construção civil, artesanato, mobiliário, energia, papel e celulose entre outros. 4.2 Logística reversa A crise ambiental, a escassez e devastação dos recursos naturais, a redução do ciclo de vida dos produtos e o avanço da tecnologia que acelera a obsolescência dos produtos, leva a uma consciência social e a uma preocupação pelo desenvolvimento sustentável que definem novos desafios na cadeia de suprimentos, sobretudo em matéria de logística reversa, criação de novos materiais, novas formas de produção, distribuição e serviços.
A logística reversa é a área da logística empresarial que planeja, opera e controla o fluxo e as informações logísticas correspondentes, do retorno dos bens de pós-venda e de pós-consumo ao ciclo dos negócios ou ao ciclo produtivo, por meio dos canais de distribuição reversos, agregando-lhes valor de diversas naturezas: econômico, ecológico, legal, logístico, de imagem corporativa, entre outros. (LEITE, 2003, apud GUARNIERI et al, 2006, p. 129).

5

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

Os saltos e os produtos derivados do óleo da mamona, por sua biodegradabilidade, seu método sustentável de extração da matéria prima, fazem possível para a indústria calçadista a redução no processo da cadeia inversa de suprimentos porque torna mais fácil o gerenciamento dos resíduos sólidos e fechar a cadeia do ciclo de vida do produto. Felizardo afirma que:
É possível através das soluções que a logística reversa oferece no gerenciamento dos resíduos sólidos, fechar o ciclo da cadeia de suprimentos, desta forma gerando lucratividade, através da redução de custos e consolidação de uma imagem institucional positiva e ambientalmente responsável perante o mercado consumidor, além da oportunidade de novos nichos de negócios que geram novos empregos e renda (IBIDEM, p. 130).

Além das diversas vantagens que o bambu apresenta enquanto no seu ambiente natural, este também possui uma grande gama de utilidades, sendo conhecido no oriente como a planta de mil usos. Uma de suas utilizações é na forma processada, gerando o BLaC, que graças as suas características superficiais e estruturais, mostra-se como material versátil e resistente (NOGUEIRA, 2008). Feito a partir de laminas processadas de bambu, o BLaC pode ser usado na fabricação de pisos, chapas, painéis, cabos para ferramentas manuais ou agrícolas, compensados, móveis, componentes da construção civil, entre outros (PEREIRA & BERALDO, 2008). 4.3 Calçados femininos Os calçados femininos são atualmente disponibilizados numa grande diversidade de formas e modelos, como, por exemplo, scarpins, botinas, sandálias e chinelos, produzidos numa grande variedade de materiais, técnicas de confecção, acabamentos, cores, entre outros. Para melhor entendimento sobre os assuntos tratados neste projeto, a Figura 2, a seguir, apresenta os nomes técnicos das partes que compõem calçados femininos.

Figura 2: Calçado Feminino Detalhado. Fonte: www.salto15.com.br

O conjunto de componentes que compõem a parte inferior do calçado, sendo estes: sola, vira, palmilha, salto, capa, entre outros, determina a construção do calçado, ou seja, o tipo do calçado. O salto plataforma é a junção do salto com a palmilha formando um monobloco. A parte superior composta por rosto (ou gáspea), biqueira, talão, contraforte, etc... recebe o nome de cabedal, este determina o modelo do calçado. Numa mesma construção podem-se ter vários modelos de calçados diferentes, ou seja, com o mesmo salto e formato de palmilha, fabricam-se diversos modelos diferentes, o conjunto de modelos numa mesma construção recebe o nome de “Linha de Modelos”.

6

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

5 Confecção do Protótipo Para os propósitos desta pesquisa, interessa, sobretudo como tem se dado a aplicação de materiais na produção calçadista. Vale ressaltar que embora fundamental, a moda não foi o foco deste projeto. Dentre os vários tipos de calçados femininos, foi definido como modelo específico de estudo, o salto plataforma. A escolha dessa construção (parte inferior do calçado) foi determinada principalmente por ser um tipo de produto comumente fabricado no Arranjo Produtivo Local - APL Jaú, o que facilitará os eventuais trabalhos de campo a serem realizados para determinação de dados primários. Os principais materiais utilizados na confecção de saltos plataformas são derivados de petróleo, mas é válido ressaltar que a madeira também é utilizada na confecção dos mesmos elementos. O processo utilizado na fabricação do salto de BLaC é semelhante ao empregado no processamento da madeira, no qual é utilizado maquinário de marcenaria tradicional. Para este estudo foram seguidas etapas necessárias para obtenção das laminas de bambu, descritas em Pereira & Beraldo (2008). A espécie selecionada para o estudo foi a Dendrocalamus giganteus, proveniente da coleção pertencente ao Plantio Experimental do Campus da Unesp de Bauru (Figura 3).

Figura 3: Moita de Dendrocalamus giganteus (Bambu Gigante). Fonte: Autor

Após a colheita, os colmos foram cortados em peças de 900 mm (Figura 4) e mergulhados em solução de produto octaborato para imunização contra fungos e insetos.

Figura 4: Colmos destopados. Fonte: Autor

Com as seções de colmo imunizadas, estas passaram pelo processo de secagem ao ar em temperatura ambiente, e posteriormente processadas e transformadas em laminas (Figura 5).
7

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

Figura 5: Laminas processadas. Fonte: Autor

Tendo as laminas de bambu já finalizadas, foi realizado um estudo sobre o desenho do calçado feminino a ser desenvolvido e quais opções melhor aproveitariam o material BLaC, porém, para este projeto foi confeccionado somente o salto plataforma do desenho final escolhido, apresentado na Figura 6.

Figura 6: Esboço do calçado e sua respectiva construção. Fonte: Autor

Descritivo do calçado completo representado na Figura 6:   Palmilha em BLaC em formato bico folha; Salto em aproveitamento do resíduo da palmilha BLaC, unindo-se por meio de parafusos formando um monobloco com a palmilha, resultando em um salto plataforma confeccionado em BLaC; Enfeite em BLaC; Cabedal em Lona de Caminhão (Reuso) Sobrepalmilha em óleo de mamona; Capa e sola em óleo de mamona.

   

8

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

Para a prototipagem do salto em BLaC, foi necessário o desenvolvimento de um molde (Figura 7) seguindo a curvatura do pé, este molde foi desenvolvido por meio de uma fôrma no 35 utilizada na linha de produção da Daleph Calçados, indústria pertencente ao APL de Jaú, estado de SP. A fôrma determina o formato, auxilia na confecção das peças e na montagem final do calçado.

Figura 7: Desenvolvimento do molde seguindo a fôrma de calçados femininos. Fonte: Autor

Para a curvatura do bambu laminado, foi necessário o desenvolvimento de um molde macho-fêmea aquecido, como visto na Figura 8, onde foi realizado a prensagem das peças que formariam a palmilha.

Figura 8: Molde para prensagem a quente das laminas de bambu. Fonte: Autor

Após as prensagens, as peças foram unidas com auxílio de cavilhas, coladas e prensadas com grampos manuais (Figura 9).

9

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

Figura 9 : Colagem para formar a palmilha. Fonte: Autor

Na peça resultante da prensagem foi feito o desenho da pamilha e sucedeu-se o processo de marcenaria, envolvendo corte e lixamento (Figuras 10 a 12).

Figura 10: Colagem da palmilha pronta. Fonte: Autor

Figura 11: Recorte da peça de BLaC no formato da palmilha. Fonte: Autor

10

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

Figura 12: Lixamento da palmilha já recortada.

Fonte: Autor

Para confecção da parte inferior do salto plataforma foi realizado um trabalho de marchetaria com pequenas peças de BLaC (Figura 13), refugo das colagens das peças da palmilha, para formar uma superfície com as diversas texturas do material.

Figura 13: Peça em marchetaria após colagem.

6 Resultados e Discussão A parte da palmilha foi fixada ao salto e o protótipo recebeu acabamento com verniz a base de óleo de mamona para proteção e aumento da durabilidade. Na Figura 14, o protótipo finalizado.

11

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

Figura 14: Protótipo finalizado. Fonte: Autor

A fim de aumentar o atrito e a resistência à abrasão do BlaC em relação ao solo, evitando assim o escorregamento e desgaste do solado, deverá ser aplicado ainda um acabamento na parte inferior formado por uma sola na palmilha e capa no salto, ambos componentes confeccionados em óleo de mamona. Já na superfície superior, denominada sobrepalmilha, deverá ser aplicado um sistema de amortecimento também em óleo de mamona, porém com densidade diferente ao aplicado à sola, esta última deverá ser rígida e a sobrepalmilha deverá ser macia. 7 Considerações Finais O desenvolvimento deste protótipo foi a primeira etapa de uma série de estudos buscando verificar a possibilidade de confecção de calçados femininos com o material BLaC. O sistema de união entre a palmilha e o salto foi feito por meio de parafusos, permitindo a desmontagem em caso de manutenção e após o uso, inclusive permite um futuro estudo para troca de saltos pela usuária, ou seja, o mesmo calçado com vários tipos de saltos. O material BLaC apresentou características estéticas satisfatórias, diferenciando-se dos produtos atualmente encontrados no mercado. Será necessário ainda o desenvolvimento de capa, sola e sobrepalmilha em óleo de mamona. O cabedal deverá ser confeccionado em matérias ambientalmente sustentáveis como fibras naturais ou biodegradáveis, materiais reutilizáveis, couros ecológicos, o enfeite do cabedal deverá ser confeccionado em BLaC, devido a pequena dimensão provavelmente será aproveitado do resíduo do processo da própria palmilha, com o objetivo de conservar uma coerência global entre o salto e a logística reversa, fazendo mais fácil o gerenciamento dos resíduos, fechando assim a cadeia do ciclo de vida do calçado feminino. O bambu como material alternativo para componentes de calçados femininos tem um alto potencial devido ao seu rápido crescimento, facilidade de cultivo, sustentabilidade e captação de CO2. Podendo ser uma opção para a redução do impacto ambiental causado pelos
12

XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012

Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos

atuais processos usualmente utilizados pela indústria calçadista, muitas vezes contaminante e com materiais provenientes de fontes não renováveis. É valido ressaltar que será necessária a realização de outros testes, como físicos e mecânicos, com o propósito de averiguar a viabilidade comercial e de produção do mesmo. Bibliografia
ALMEIDA, C. M. et al. A produção de mamona no Brasil e o probiedisel. I Congresso Brasileiro de Mamona. Campina Grande – PB, 2004. Disponível em: http://www.biodieselbr.com/pdf/mamona/128.pdf Acesso em: 09/11/2010 FERRÃO, P. Introdução às estratégias de http://www.ecodesignarc.info/servlet/is/522. Acesso em: 15/03/2010. ecodesign. Disponível em:

GRECO, T. M.; CROMBERG, M. Bambu: cultivo e manejo. Florianópolis: Editora Insular. 2011. GUARNIERI. P; et al. Warehouse Management System: adaptação proposta para o gerenciamento da logística reversa. Produção, v. 16, n. 1, p. 126-139, Jan./Abr. 2006, Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/prod/v16n1/a11v16n1.pdf. Acesso em: 13/07/2012. LOBÄCH, B. Design industrial – Bases para a configuração dos produtos industriais. São Paulo: Ed. Edgard Blücher, 2001. LOVO, E.; ROSA, T. M. Feira SENAI Paulista de Inovação Tecnológica - Inova SENAI. Escola SENAI “Márcio Bagueira Leal”. Franca, 2007 MARQUES et al. Poliuretano Derivado do Óleo de Mamona . II Encontro Científico e II Simpósio de Educação Unisalesiano. Lins, 2009. Disponível em: http://www.unisalesiano.edu.br/encontro2009/trabalho/aceitos/CC36939464859.pdf. Acesso em: 01/04/2011. NOGUEIRA, C. de L. Painel de bambu laminado colado estrutural. Tese de Mestrado, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Quirós” – Universidade de São Paulo. Piracicaba, 2008 OSTAPIV, F.; DOMINGOS, E. Perspectivas para o desenvolvimento da cultura e da cadeia produtiva do bambu no Paraná, tendo como referência a inovação, a educação tecnológica e o modelo produtivo chinês. Athena Revista científica de educação, v. 9, n. 9, jul./dez. Curitiba, 2007. Disponível em: http://www.faculdadeexpoente.edu.br/upload/noticiasarquivos/1236200982.PDF. Acesso em: 13/07/2012. PELLEGRINI, A. Caracterização da cadeia produtiva do bambu no Brasil: abordagem preliminar. Monografia apresentada ao Curso de Engenharia Florestal, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto de Florestas, Departamento de Silvicultura, Seropédica: Fevereiro de 2008. Disponível em: http://www.bambusc.org.br/wpcontent/uploads/2009/05/caracterizacao_cadeira_produtiva_adriana_pellegrini_manhaes.pdf. Acesso em: 13/07/2012 PEREIRA, M. A. R.; BERALDO, A. L. Bambu de corpo e alma. Bauru: Canal 6, 2008. VENTURA, F. ALENCAR, F. NASCIMENTO, R. Óleo de Mamona – Uma alternativa sustentável par acomponentes de calçados femininos. Ciped - VI Congresso Internacional de Pesquisa em Design. Lisboa, 2011.

Agradecimentos Agradecemos a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de mestrado; e a Daleph Calçados LTDA e a Indústria Química JR Pengo pelo apoio e material cedido para o desenvolvimento do projeto.

13

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful