GERALDO MESQUITA JÚNIOR
SENADOR

SENADO FEDERAL
BRASÍLIA 2003

324. 24 p.Reprodução livre desde que citada a fonte. história. CDDir. 2003. O voto no Brasil / Geraldo Mesquita Júnior. Título. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Mesquita Júnior.6 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ . 2. Reforma política. Voto. I. Geraldo. – Brasília : Senado Federal. Brasil. 1.

....................................... 17 Antes e depois dos militares ....................... como e para que reformar? ...................... 11 Com a República velha... 10 Voto secreto............................................................................... 20 ....................................... 13 Crise............................... 9 Trocando seis por meia dúzia ............ 7 Círculo de ferro impede as mudanças ...... 8 Diretas: avanço do retrocesso ......................................... 15 A República de 1946: liberal por fora................................. autoritária por dentro .......................................... velhas idéias ............. morre mais que um sistema .SUMÁRIO Pág.... o caminho do golpe .............. mas nem tanto ............................ 18 O que..... Apresentação – O voto no Brasil .............................................................................. 5 Reforma política: nova embalagem....

4 .

Começamos a votar. apesar de continuarmos votando. prefeitos das capitais. entre 1966 e 1982. com a República. entre 1937 e 1945.O VOTO NO BRASIL voto é uma tradição no Brasil. O direito de elegermos o Presidente. Entre outras coisas. fase do Estado Novo. sem eleições. Isto significa dizer que tivemos eleições. quando o Congresso foi fechado. mas não democracia. A partir da Revolução de 1930. só reconquistamos em 1989. Mais tarde. Primeiro. antes mesmo da Independência. Em seguida. em outubro de 1960. entre 1930 e 1934. é preciso lembrar que a democracia não existe sem eleições. mes5 O . deixamos de votar para a escolha de governadores. Primeiro. para eleger deputados e senadores. dos municípios declarados de interesse da segurança nacional e daqueles situados na faixa de fronteira. passamos por uma série de sucessivos períodos discricionários. quase três décadas depois da escolha de Jânio Quadros. os partidos dissolvidos e suspensas as eleições. Durante mais de um século. durante o governo provisório de Getúlio Vargas. Mas também não podemos esquecer que eleições podem existir. para escolher também presidentes e governadores. entre 1821 e 1930. realizamos dezenas de pleitos. Mais tarde.

se sustentavam. que continua pendente de resposta. continuaram impedidos de votar. dezenas de reformas foram feitas no País. e voto já tinha sido estendido às mulheres. A República que tantos avanços proporcionou ao País. mas sim para deixar no espírito dos que a ouviram e dos que venham tomar conhecimento de tudo quanto aqui escrevi. lamentavelmente. Temos uma das maiores tradições de vida parlamentar e nosso sistema eleitoral já passou por quase todas as mudanças possíveis. Durante todo o Império. não só aos políticos e partidos. Os analfabetos que trabalhavam.5% da população. E continuamos em busca de reformas políticas que. eleitor e se interessa pelos destinos da democracia. Em toda essa longa trajetória. desde 1932.mo sem democracia. desde que soubesse ler e escrever. já não é mais a ampliação do direito de voto. Mas não foi escrito com esse fim. atrás em nosso hemisfério apenas dos Estados Unidos. para saber qual a reforma que interessa. Tanto que em 1930. Somos o segundo eleitorado do mundo ocidental. poderia ajudar a responder a essa inquietante questão? 6 . a pergunta que formulei. Você que é brasileiro. quando a Emenda Constitucional no 25 desse ano. constituíam família e pagavam impostos. portanto. Quando o País se redemocratizou em 1945. Mesmo considerando que os analfabetos podiam votar. cidadão. Resgatamos o direito de escolhermos nossos governantes e nossos representantes. o número de eleitores não chegava a 2. proibiu o voto dos analfabetos que eram a maioria da população. até 1985. ainda se circunscrevem à discussões sobre o sistema eleitoral e partidário. Votar. O texto desta conferência conta um pouco de toda essa história do voto em nosso País. a maioria dos brasileiros continuou privada do direito de sufrágio que a Constituição assegurava a todo cidadão. era um privilégio de poucos. a começar pelos alimentos. O desafio político do Brasil de hoje. O que uns e outros precisam saber é qual a reforma que interessa ao povo brasileiro. porém. especialmente em relação ao voto. lhes devolveu o direito que tiveram durante os 65 anos que durou o Império. os eleitores não chegavam a 2% da população. com os bens que consumiam.

de 1821 a 1881. por sua vez. reunidos na capital da província. A discussão já dura mais de um século e meio. Nos primeiros 112 anos. tornou-se um dos temas recorrentes da agenda de nossa vida pública. experimentamos as duas únicas modalidades conhecidas de sistemas eleitorais. até hoje utilizado com pequenas e poucas alterações. Trata-se de assunto que remonta ao Império e agora. pela primeira vez escolhemos os constituintes com o sistema proporcional. Em 1933. Uma síntese das principais mudanças na legislação eleitoral do País mostra que. as eleições para o parlamento do Império se realizavam de forma indireta. quando fosse o caso. volta ao debate. elegiam os deputados provinciais. os nacionais e. VELHAS IDÉIAS Reforma Política. se considerarmos que. Os cidadãos qualificados escolhiam em cada paróquia os respectivos eleitores e estes. mais uma vez. em dois graus. em suas diversas modalidades.REFORMA POLÍTICA: NOVA EMBALAGEM. até hoje. entre 1821. quando elegemos a primeira representação nacional às Cortes de Lisboa. tão insistentemente reclamada e tão reiteradamente adiada. adotamos o sistema majoritário. isto é. tão intensamente debatida. os que deveriam substituir os senadores fale7 A .

prevaleceu a chamada “lei dos círculos”. Todo o processo. como se pratica até hoje na Inglaterra e em quase todos os países de origem saxônica. em cada distrito. concorrendo os quatro mais votados. seu autor. competindo somente os dois mais votados. elegendo-se o candidato mais votado. é o sistema distrital que ainda hoje vigora na França. Tratava-se. A dificuldade é que o número de deputados não era. José Antônio Saraiva. velhas idéias. de 26 de outubro de 1875. Num artigo publicado no Jornal do Commercio vinte anos depois. em última análise. o chamado “círculo de três”. José de Alencar chegou a sugeri-lo. CÍRCULO DE FERRO IMPEDE AS MUDANÇAS urante a maior parte desse período. tornou as eleições diretas e materializou a primeira mudança significativa. em 8 D . como se verá em seguida. consistia em vestir. Era um sistema cogitado na Inglaterra desde 1836 e utilizado na Pennsilvânia uma vez. que tomou esse nome do presidente do Conselho. Se ainda uma vez ninguém atingisse esse umbral. o candidato deveria obter a maioria absoluta dos votos. O País era dividido em tantos distritos quantos o número de deputados que no Império variaram de 100 a 125. com a instituição do título de eleitor. ele se manifestou a favor da eleição direta. impondo uma limitação ao voto do eleitor. como tentativa de se assegurar à oposição. A mudança seguinte consistiu na adoção da chamada “lei do terço”. para ser eleito. A diferença do sistema anterior é que. uma representação mínima. pois na origem são usados apenas dois escrutínios. se fazia um terceiro escrutínio. Com pequena alteração. adotou-se em 1855. se procedia a um segundo escrutínio. Se ninguém a conseguisse. do chamado “voto distrital”. de maioria simples. Em 1881. uma vez que seus mandatos eram vitalícios. em 1839. pelo menos um terço da representação. Para se evitar as chamadas “câmaras unânimes”. que a lei dos círculos não conseguiu evitar. a Lei Saraiva.675. em 1874. a que há pouco aludi. mandada aplicar pelo Decreto n° 2. mas quando da discussão para introduzi-lo no Brasil. A intenção era garantir à oposição.cidos. com nova embalagem.

Para ele. Pedro II. Mas não deixava de ressalvar: “Em todo o caso. podia-se esperar que a minoria liberal elegesse 40 representantes. referindo-se à eleição direta. se conformava: “Como os dois partidos a julgam necessária. descrito pelo filho em Um Estadista do Império: “O Poder Moderador pode chamar a quem quiser para organizar ministérios. nosso sistema eleitoral sofreu os percalços das distorções brasileiras. esta pessoa faz a eleição.todas as províncias. aí está o sistema representativo em nosso País”. Em carta ao Conde de Gobineau. chefiado pelo Marquês de Sinimbu. D. José Bonifácio. esta eleição faz a maioria. porque há de fazê-la. Na primeira eleição que se seguiu. Se9 D . só duas tinham três representantes. maculado pela escravidão. Como na época eram 122 os deputados. isto é. que quase todos esperassem milagres da eleição direta. de três ou múltiplo de três. Dissolvida esta. de 10 de janeiro de 1878. Mas como o eleitor tinha um voto cumulativo. eu não tenho confiança senão na educação do povo”. Eis. mostrando a inutilidade da reforma. dizia que o fim principal do novo sistema proposto era “restabelecer o equilíbrio dos poderes políticos”. as eleições de 1878 produziram mais uma câmara unânime. portanto. Das 20 então existentes. a pior delas assinalada pelo francês Ferdinand Denis. Justificava-se. a pedido do gabinete liberal. O processo de escolha da Câmara já tinha merecido de Nabuco de Araújo o famoso “sorites”. os liberais não conseguiram mais que 18 representantes na Câmara. cabendo portanto à minoria pelo menos 30. éramos “um País sem povo”. votava em mais de um candidato. duas contavam com seis e uma com doze. é preciso que ela se faça”. em 1877. em seu Resumo da história literária do Brasil e Portugal. o moço. os dois terços representavam 90 deputados. DIRETAS: AVANÇO DO RETROCESSO urante os 67 anos do Império.

2 milhões de habitantes. para ser eleitor e 400 mil réis. A República operara milagre idêntico ao do velho Império. em votante e dele se passou a exigir a renda mínima que a Constituição impunha apenas do eleitor de província.1 milhões de adultos eram alfabetizados. em 1985. ao adotar a eleição direta. mais uma vez. continuava sem povo. TROCANDO SEIS POR MEIA DÚZIA om a proclamação da República. de 19 de setembro de 1889. (4) a dependência do eleitor. Repetiu-se. Perdendo seus direitos cívicos. as eleições tornaram-se mais sujeitas às manipulações do que já constatara Nabuco. o resultado não esperado quando da adoção da eleição direta. tornou-se mais elitista do que já era num país que. os analfabetos transformaram-se numa multidão de excluídos políticos. assentada sobre o vértice e não sobre a base. Em outras palavras. uma democracia feita apenas para a minoria. em 1881. com a Emenda Constitucional n° 25. Em discurso durante a discussão do projeto Saraiva que pôs fim à eleição em dois turnos. O resultado é que o corpo eleitoral se reduziu drasticamente. no gozo dos seus direitos civis e políticos”. acabando com o censo eco10 C . a pirâmide do poder no Brasil estava invertida. reparação que só lhes foi reconhecida. A razão é que o Decreto n° 6. o que parecia impossível. transformou o eleitor de paróquia. sob a aparência de estarmos avançando. (3) a fraqueza dos votantes. fraudes e abusos” decorrentes da eleição indireta: (1) a infidelidade das qualificações. indústria. continuávamos sendo. por bens de raiz. retroceder.gundo afirmou. Num país com 12. para ocupar uma das vagas de senador. para ser deputado e 800 mil réis. teve fim o censo eco nômico que a Constituição de 1824 estabelecera: 200 mil réis de renda líquida anual. acrescentou a restrição “que souberem ler e escrever”. que era a base do sistema anterior. Com esse estreitamento do eleitorado. e (5) a intervenção do Governo. dos quais apenas 2. O problema é que a Lei Saraiva. (2) a soberania das mesas eleitorais. ao estipular serem eleitores “todos os cidadãos brasileiros. ele relacionou “as cinco abudantíssimas fontes de vícios. Conseguimos. como no Império. segundo Ferdinand Denis. comércio ou emprego.

que disciplinou as eleições para a Constituinte de 1890. o eleitor não poderia votar em dois terços do total. os eleitores votariam em dois terços dos deputados de cada distrito.. mas se permitia ao 11 . Nas eleições de 1892 e nas seguintes. no seu famoso romance O Gatopardo quando se torna necessário mudar. tão-somente que seria “garantida a representação da minoria”. MAS NEM TANTO A legislação foi mais uma vez modificada em 1904. distrital. tinham o direito de enviar à Câmara. Das 21 unidade federativas. Mais uma vez se apelou ao passado. na modalidade de maioria relativa. como nos países anglo-saxônicos até hoje. já então transformadas em estados. o censo cultural.. em relação às eleições. vigente no Império até 1846. como os chamou Raimundo Faoro. escolhiam apenas três nomes. na modalidade de maioria simples. tinham o número de deputados divisível por três: Alagoas com seis e Goiás com três. Eram considerados eleitos os que recebessem o maior número de votos.nômico e instituindo outro similar. testada no Império. com a lei Rosa e Silva. realizou a mágica do conselho de Tomaso di Lampedusa. O sistema continuava. voltando-se à “lei do terço” que. como mandava a lei. Nos distritos de quatro e cinco deputados. Em todos os demais. apenas duas. Sob essa variante. VOTO SECRETO. as cédulas deveriam conter tantos nomes quantos fosse o número daqueles que as antigas Províncias. Goiás e Alagoas. Por ela. para que tudo fique como está: trocou seis por meia dúzia. o sistema político. O regulamento Aristides Lobo. jamais produziu os resultados desejados. supôs o novo regime que o distrito de três deputados seria suficiente para o cumprimento desse dispositivo. Em outras palavras. deu mais um passo para trás: manteve o sistema majoritário. Como a nova Constituição promulgada em 1891 dispunha. para satisfação dos “donos do poder”. com a alternativa do voto plurinominal. o voto era secreto.

(2) plena liberdade nas urnas. fazer com que “a apuração e o reconhecimento sejam a expressão da verdade 12 . já que. O distrito passou a ser de cinco. para as eleições federais (art. cada um deles elegendo. quando de um deputado. por fim. o que. segundo a Constituição. positiva garantia para a efetiva representação das minorias”. dispensou mudanças na legislação eleitoral e se cingiu a aprimorar o processo de alistamento e escolha dos candidatos. respectivamente com dez. seis deputados. Ela se deve a um presidente pouco conhecido e pouquíssimo celebrado. em vez de três deputados. depois de datada e assinada pelos mesários. Cada eleitor votava em três candidatos. Os estados com sete ou menos representantes constituíam um só distrito eleitoral. a União só podia legislar em matéria eleitoral. na Paraíba e no Distrito Federal. ao inaugurar a sessão legislativa. o eleitor apresentava as cédulas que assinaria perante a mesa eleitoral. Não sendo o número de representantes divisível por cinco. renovou seu compromisso reformista afirmando ser preciso “garantir o alistamento e a eleição contra o assalto dos defraudadores. Falando como candidato. leal. Mas prometeu lutar em favor de pelo menos quatro mudanças: (1) seriedade no alistamento. no Rio Grande do Sul foi tornado obrigatório pela legislação estadual. referiu-se às eleições para lembrar o que os políticos sempre se recusaram a entender: que a lei não tinha “o poder mágico de transformar a sociedade”. quando sua representação fosse de apenas quatro deputados.eleitor votar a descoberto. se juntaria a fração. impedir as duplicatas e triplicatas de atas e juntas apuradoras” e. e quando de dois. (3) reconhecimento dos poderes dos legitimamente eleitos. ao distrito da capital. o mineiro Wenceslau Braz. em quatro nomes. e em seis nos distritos de sete deputados. ao primeiro e segundo distritos em tamanho. inciso 22). Mesmo timidamente. na primeira mensagem como presidente. em cinco no de seis. Em 1915. o que somente ocorria no Ceará. O primeiro e único passo para a melhoria do sistema eleitoral da República só viria a ser dado em 1916. Neste caso. e (4) sincera. Uma delas seria depositada na urna e a outra ficaria em seu poder. 34. cinco e dez deputados. nos distritos de cinco representantes. portanto.

Para conciliar o imperativo democrático da diversidade. entre outras medidas. finalmente. pôs a pá de cal no sistema majoritário. No primeiro.208 que. levantou a bandeira.eleitoral”. arrancou do Congresso a Lei n° 3. em 1930. O primeiro código eleitoral pós-revolucionário. COM A REPÚBLICA VELHA. sancionou a Lei n° 3. o de 1932. elegiam-se 13 A .139 que. adotou a eleição em dois turnos. Em 2 de agosto do ano seguinte. só viria quinze anos depois. Quatro meses depois. circunscrevendo-a à hipótese de não se reunir a mesa eleitoral de qualquer seção situada fora da sede do município. no entanto. longamente reclamada. Sob esse lema. abrigou-se a revolução. reduziu a possibilidade do voto a descoberto. Até 1930. com a preservação imprescindível da governabilidade. da verdade das urnas. Quase todos concordam que essas mudanças constituíram o primeiro passo para a instituição da Justiça Eleitoral que. entregou ao Judiciário o alistamento eleitoral. MORRE MAIS QUE UM SISTEMA pregação da Aliança Liberal. nada mais mudou no sistema eleitoral da república velha.

felizmente. entre as modalidades então conhecidas. uma das opções para a distribuição das chamadas “sobras”. prevalecia a ordem decrescente da votação. concluiu: “Quem estuda a nossa história política sabe bem que temos experimentado tudo. Como o novo texto constitucionalizou o sistema eleitoral. completava as cadeiras não preenchidas. 23. A solução foi a mais simples. Ao se comemorar o centenário das eleições realizadas em 1821. porém não a mais justa: atribuir as cadeiras restantes. quantos indicasse o quociente partidário. tanto na Constituinte. em 1935 foram as primeiras a realizar-se sob a responsabilidade da Justiça Eleitoral. para a eleição dos deputados às Cortes de Lisboa. até serem preenchidos os lugares que não tivessem sido ocupados no primeiro turno. promulgou a efêmera Constituição votada no longo mandarinato de Getúlio. quanto na Legislatura ordinária de 1935.todos os candidatos que tivessem atingido o quociente eleitoral obtido. depois de analisar a evolução do sistema eleitoral. para a escolha da Constituinte. O partido com o maior resto. e a seguinte. A adoção do sistema proporcional puro pôs fim à eleição em dois turnos. absolutamente tudo que se encontra na legislação dos povos cultos para chegar à solução do 14 . uma experiência que. determinando. As eleições de 1933. como ainda hoje. isto é. Em seguida. elegendo-se tantos candidatos registrados pela mesma legenda. Tavares de Lira. entre novembro de 1933 e julho do ano seguinte. serem os deputados eleitos “mediante voto proporcional” foi necessário alterar o Código Eleitoral de 1932 que estabelecera um sistema misto – proporcional no primeiro turno e majoritário no segundo. os votos a serem convertidos nas cadeiras não preenchidas pelo quociente eleitoral. dividindo-se o número de votos válidos pela quantidade de cadeiras a preencher. consideravam-se eleitos os outros candidatos mais votados. No segundo turno. tirando-o da esfera da lei ordinária. mas teve que escolher. não vingou. Essa modalidade aplicou-se apenas à eleição para a Constituinte que. para a escolha da legislatura ordinária. em seu art. Outra novidade foi a criação da representação classista. então instituída. como resultado da promessa da verdade das urnas. ao partido que obtivesse a maior média.

problema eleitoral. não podem esquecer que.. para 15 de dezembro. temos ensaiado todos os sistemas conhecidos. sobre o voto. e sua instalação.” CRISE. Andem ligeiro. O CAMINHO DO GOLPE República encerrou 65 anos de regime constitucional no Brasil. um país não pode viver sem Constituição”. (. trinta e seis dias depois da proclamação do novo regime. Ajudou essa crença a famosa afirmação da carta de Aristides Lobo. ministro do novo regime.. Ao receber a visita de Magalhães Castro.) e que. no primeiro surto de descolonização do século XIX. Mesmo os que pensam dessa maneira. ficou conhecida a exortação que lhe fez Deodoro: – “Só tenho um pedido a lhes fazer. já se convocava a eleição da Constituinte para o dia 15 de setembro do ano seguinte. com exceção apenas. membro da “Comissão de Petrópolis”. encarregada de elaborar o projeto para a primeira Constituição Republicana do Brasil. 15 A . Não são poucos os que têm a tentação de identificála como mais um “pronunciamento”. Assim se prometeu e assim se cumpriu. de que “o povo assistiu àquilo bestializado”. dos muitos que conturbaram a américa espanhola. do voto proporcional e do voto das mulheres.

38. mandando observar como Constituição provisória o projeto da Comissão. Em 24 de fevereiro de 1891. Ante essa evidência. de forma clara. Getúlio só governou em regime de liberdade durante 17 dos 168 meses em que esteve no poder. as discrepâncias entre o primeiro século e a segunda fase a partir de 1930. O Quadro I. cumprindo a promessa de respeitar “a verdade das urnas”.Em solenidade no dia 22 de junho de 1890. o último presidente da República escolhido em eleições diretas. até a posse de Lula. como ele mesmo o chamou. As crises que o País viveu depois de 1930. cotejando os dois períodos considerados mostra. Deodoro assinou o Decreto n° 510. os períodos de excepcionalidade não chegam a 1. restabelecido dez dias depois com a renúncia do fundador da República. representam quase 40% – mais precisamente. Em seu “curto período de quinze anos”. foi o mineiro Artur Bernardes. a receber o poder de seu antecessor e passá-lo sob as mesmas regras a seu sucessor. por outro criou o péssimo hábito de institucionalizar o golpe e a autocracia política. A Revolução de 1930. e até mesmo ante a dissolução do Congresso em 11 de novembro de 1891. em duas obras polêmicas e raras: Fastos da ditadura militar no Brasil e O advento da ditadura militar no Brasil. se por um lado lançou as bases da modernização do sistema eleitoral. como solução para todas as crises que o sistema político não conseguiu resolver. sete meses depois de proclamar a República. nos 72 seguintes. em anexo.5% do total. depois de 1930. como fizeram Eduardo Prado e o visconde de Ouro Preto. E. Enquanto nos mais de 100 anos que separam 1823 de 1930. 16 . estava promulgado o novo texto constitucional. com a adoção do voto proporcional e a criação da Justiça Eleitoral. não há como se falar em ditadura militar.43%! Uma comparação com o Quadro II. não deixa dúvidas quanto aos resultados do balanço entre as carências do sistema político do Império e as fragilidades de nossa conflagrada República. reduzindo-se os poderes extraordinários do período de governo provisório a não mais que seis meses e seis dias. revisto por Rui Barbosa. o ato que aprovou o Regulamento para a eleição do primeiro Congresso Nacional. foram tão intermitentes e se sucederam com tal freqüência que. no dia seguinte.

Depois dele. Em 1947 as sobras passaram a ser divididas entre as maiores sobras em divisões sucessivas. lamentavelmente. Esse sistema vigorou até a adoção do Código Eleitoral de 1950. O golpe tornou-se o caminho para as crises que o sistema político não logrou resolver. As eleições de 2 de dezembro. o País viu três presidentes depostos. AUTORITÁRIA POR DENTRO restauração democrática de 1945 representou no Brasil a retomada do processo democrático que. O regime eleitoral era o mesmo de 1935. foram realizadas segundo as regras aprovadas pelo governo discricionário de Vargas. ainda uma vez.568. acentuaram-se as distorções entre a proporção de votos de cada partido e a das cadeiras por ele conquistadas. como mostra o Quadro III. A partir daí. o partido majoritário. nas 17 A . para a escolha do presidente da República e dos constituintes que deveriam consumar a transição política. Com essa disposição. atribuindo-se as “sobras” ao partido majoritário. beneficiando-se. as mudanças foram cada vez mais pontuais. dois que renunciaram e um que se suicidou no poder. de 28 de maio do ano de sua deposição. o Decreto-Lei n° 7. A REPÚBLICA DE 1946: LIBERAL POR FORA. não completaria sequer duas décadas.no longínquo ano de 1926.

uma unidade. para caracterizar o regime inaugurado em 1946. à semelhança da república velha. Entretanto. todos os regimes terminaram em tragédia. mas era autoritária por dentro. consistiu em tentar aprimorar a forma sem tocar na substância. as greves estavam literalmente proibidas pelo Decreto n° 9. A fórmula então adotada e até hoje seguida é a seguinte: Total de Votos Válidos = Quociente Eleitoral N° de Vagas N° de Votos do Partido = N° de Vagas do Partido Quociente Eleitoral Em 1955. por iniciativa do Presidente do TSE. O acesso ao rádio ficou proibido durante os cinco anos do Governo JK e as reformas sociais foram lentas. é preciso não esquecer que os analfabetos. como até hoje. A Edgar Carone se deve o consagrado rótulo de “república liberal”.quais se acrescentava ao número de cadeiras de cada partido beneficiado. conflitos e ditadura.070 de março de 1946. Uma nova embalagem para o sucedâneo do Estado Novo que a constituinte conservadora do PSD nos legou. a Lei n° 2. que em 1946 ainda representavam a maioria da população continuavam sem votar. estendida às eleições proporcionais pela Lei de n° 2. graduais e insuficientes. de 30 de novembro de 1956. Nesse mesmo ano a Lei n° 2. foi um sopro de liberdade depois de um interregno de 15 anos de crises. Sem dúvida. ANTES E DEPOIS DOS MILITARES D epois de 1889.962. Foram essas as únicas mudanças no período que.550 criou a folha individual de votação. A República Velha levou ao regime discricionário que du18 . Ministro Edgar Costa.582 instituiu a cédula oficial para as eleições presidenciais. embora o Brasil tivesse subscrito a Convenção n° 87 da Organização Internacional do Trabalho. sob o Governo Wenceslau Braz. e não havia liberdade de organização sindical. A República podia até ser liberal por fora.

conquistamos razoáveis avanços. assim como a efêmera democracia que se seguiu levou ao Estado Novo em 1937. como o Império com seus 67 anos de duração e a República velha com seus 40 anos de vigência terminaram sendo sucedidos por autocracias. tenham sido todos gerados no ventre das autocracias que as precederam. como a mais usual e conhecida de todas. Depois de todas as experiências eleitorais por que passou o País. Mais preocupante. De lá para cá. que devolveu aos analfabetos o direito de voto que eles perderam em 1889 e o segundo com a promulgação da Constituição de 5 de outubro de 1988. é que cada um desses regimes autocráticos tenha durado sempre mais que o anterior. banimento e prisão perpétua. Os que tinham sido regimes estáveis. entre 1964 e 1985. a República liberal de 1946 desaguou na ditadura militar de 1964. Graças à 19 .rou de 1930 a 1934. de 15 de maio de 1985. O governo provisório depois da Revolução de 30 viveu quatro anos. aprovada pelo Congresso permitiu à Justiça cancelar o registro dos candidatos flagrados em práticas que impliquem na compra de votos. e por fim a universalização da urna eletrônica para todo o eleitorado. sublegendas. cassações de mandatos. no entanto. das quais por sua vez surgiram novos regimes que novamente terminaram em tragédia. com julgamento dos civis pela Justiça Militar. desapareceram e uma lei de iniciativa da CNBB e da OAB. finalmente o País experimentou dois momentos de distensão. depois de 1930. O Estado Novo durou sete e a ditadura militar três vezes mais. primeiro a informatização do cadastro eleitoral. suspensão do Congresso e toda a série de arbitrariedades que foram dos decretos-leis aos atos institucionais. A idade mínima para o voto foi rebaixada de 18 para 16 anos e tiveram início. em que os votos migravam com inusitada freqüência. É mais que uma coincidência que os breves intervalos democráticos que tivemos. As fraudes mais ostensivas. Da mesma forma. com pena de morte. de uns para outros candidatos. com eleições indiretas. O primeiro com a Emenda Constitucional n° 25. a do “mapeamento”.

14 e 17 da Constituição. no seu distrito eleitoral. No primeiro. como já assinalei. No primeiro grupo. e a Lei n° 9. não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”. Tavares de Lira. Duas normas decisivas foram aprovadas pelo Congresso em relação ao sistema eleitoral e partidário na década de 90. por fim. apenas. que até hoje vem regulando as eleições. constituem apenas ensaios para debate. virtualmente sem mais mudanças. Pela proposta. se pôs fim a uma prática freqüente que viciava o processo de escolha dos candidatos nos anos de eleições. como e para que refor mar. Faltavam-nos. o voto proporcional e o voto feminino. parece termos entrado num regime de razoável estabilidade. prescrevendo-se que “A lei que alterar o processo eleitoral. algumas propostas já foram aprovadas pelo Senado na última legislatura e se encontram pendentes de decisão da Câmara. no centenário da primeira eleição nacional no Brasil. Em 1921.Emenda Constitucional n° 4. segundo ele. Outras são meramente cogitadas. sendo eleito aquele que obtiver o maior 20 A . ampliando o fundo partidário. escreveu que. em relação à estabilidade das leis que regem o sistema eleitoral e o sistema partidário. de 30 de setembro de 1997. E algumas. de 1993. cada eleitor dará dois votos nas eleições proporcionais. Pelo menos por enquanto. entrará em vigor na data de sua aplicação. que nada mais é que o modelo vigente na antiga Alemanha Federal e adaptado depois da unificação do país.096. COMO E PARA QUE REFORMAR? ntes mesmo de definirmos o que. Com isso. o que se pretende com a reforma política? O QUE.504. com casuísmos de toda ordem. de 15 de setembro de 1995. duas novas experiências. em matéria de sistemas eleitorais já tínhamos experimentado de tudo. encontra-se a adoção do chamado “voto distrital misto”. Como já adotamos ambas as inovações. escolherá entre um candidato de cada partido. 16 da Constituição. que dispõe sobre os partidos e regulamenta os arts. deu-se nova redação ao art. A Lei n° 9.

os eleitos poderão mudar de legenda. por eleição. por fim. no caso dos que já sejam detentores de mandatos eletivos. Se adotarmos o período de três anos. segundo o modelo americano e a que trata da duração dos mandatos. Entram aí. de forma estritamente proporcional à população. para o mandato seguinte. no primeiro ano depois de sua eleição. entre as que constituem ensaios para debate. e não em qualquer candidato. aqueles que não observarem o prazo que vier a ser estipulado. 21 . porém. O terceiro é o que aumenta o prazo de filiação partidária. é o que institui o financiamento público para as campanhas eleitorais. 2) o voto facultativo. só poderão mudar na legislatura seguinte. mas torna inelegíveis. Na hipótese de quatro anos. por exemplo: 1) a adoção do parlamentarismo.número de votos e no segundo votará no partido de sua preferência.8 bilhão. aumentar esse valor para R$1. O quarto. portanto. O elenco das que estão cogitadas não é maior. atualmente de um ano. assumindo o mandato o mais votado após o titular ou titulares. no caso de licença ou a ocorrência de vaga. Cogita-se. isto implicaria uma despesa de cerca de R$800 milhões. estão as mais polêmicas: a que redefine a representação federal na Câmara. O segundo projeto é o que proíbe as coligações nas eleições proporcionais. nas eleições majoritárias. 4) proibição de divulgação de pesquisas eleitorais no período imediatamente anterior à eleição. Finalmente. permitidas. A emenda não impede a mudança. com o que se evitará a “verticalização” aprovada arbitrariamente na última eleição pelo Tribunal Superior Eleitoral. 3) a eliminação dos suplentes de senadores. Nos valores atuais. para três ou quatro.

43% 22 .34% 38. Const. Prov.O que sabemos é que algumas delas ou todas essas propostas interessam a alguns partidos e a muitos parlamentares. 1930 Constituição 1934 Estado Novo Governo Transição Constituinte 1946 Constituição 1946 Reg. Constituição 1824 Governo Provisório Constituição 1891 Subtotal a Normalidade Período Meses Mai/Nov 1823 = Mar/24-Nov 89 = Fev/91-Out/30 = Dez/Mar 1824 = Nov/89-Jan91 = = 4 = 13 = 17 2 FASE: 1930/2002 6 = 777 = 466 1249 Gov. militar AI-5 Transição militar Transição civil Constituinte 88 Constituição 88 Subtotal Out/30-Jul/34 = Dez/37-Out/45 Nov/45-Jan/46 = = Abr/64-Jan/67 = Jan/67-Dez/78 Jan/79-Mar/85 Mar/85-Jan/87 = = 44 = 94 3 = = 34 = 23 75 22 = = 294 = Jul/34-Nov/37 = = Jan/Set 1946 Out/46-Mar/64 = Fev/67-Dez/68 = = = Fev/87-Out/88 Nov/88-Dez/2002 = 41 = = 9 221 = 23 = = = 20 157 471 Quadro II Períodos 1823/1930 1930/2002 Excep. Quadro I Períodos de normalidade e de excepcionalidade institucional no Brasil 1823 – 2002 FATOS Excepcionalidade Período Meses 1a FASE: 1823/1930 Constituinte 1823 Dissolução. Falta apenas indagarmos se interessa aos 115 milhões de eleitores brasileiros. (A) Normal. (B) 17 meses 294 meses 1249 meses 471 meses TOTAL (C) 1266 meses 765 meses % A/C 1. militar AI-1 Constituição 1967 Reg.

380 4.00 Absoluta 26 10 2 1 2 1 42 Relativa Absoluta 61.964 26.400 0.304 0.92 7.924.700 2.705 0.92 7.968 0.866 5.630 2.944 1.010 1.762 2.87 26.304 100.715 3.700 2.573 2.350 0.00 REPRESENTAÇÃO Absoluta 151 77 22 14 6 4 2 7 1 1 1 286 % 52.700 4.440 1.568 0.134 0.00 23 .590 10.762 2.010 1.321 101.302 165.350 0.318 4.380 100.500 511.906 23.187 8.350 0.900 2.350 100.341 33.575.Quadro III Representação partidária na Constituinte de 1946 – Deputados PARTIDOS PSD UDN PTB PCB PR/UDN PPS PDC PR PL PRD PAN TOTAL VOTAÇÃO Absoluta 2.700 4.00 Representação partidária na Constituinte de 1946 Deputados + Senadores PARTIDOS DEPUTADOS SENADORES TOTAL Absoluta Relativa PSD UDN PTB PCB PR/UDN PPS PDC PR PL PRD PAN TOTAL 151 77 22 14 6 4 2 7 1 1 1 286 52.87 26.450 0.122 107.647 17.531.00 177 87 24 15 8 5 2 7 1 1 1 328 Relativa 53.301 100.810 4.375 603.400 0.788 1.900 2.610 2.304 0.737 26.525 7.450 0.562 57.811 1.350 0.350 100.616 % 42.524 0.636 219.

Fax: (61) 311-3029 • Em Rio Branco – AC Rua Copacabana. Fone: (68) 612-2339 • Em Cruzeiro do Sul – AC Rua do Murú. Fones: (61) 311-1078/311-4619. Fones: (68) 244-1260/244-1994 • Em Sena Madureira – AC Avenida Avelino Chaves.gov.mesquita@senador. nº 906 – Centro CEP 69940-000. nº 230 – Bairro João Alves CEP 69980-000.br Da Assessoria de Comunicação: mesquitajr@senado. Fone: (68) 322-5580 .br Endereços: • Em Brasília – DF Senado Federal – Ala Senador Filinto Müller – Gabinete nº 12 CEP 70165-900. nº 148 – Bairro Vila Ivonete CEP 69914-380.gov.Contatos com o Senador Geraldo Mesquita Júnior ℡ A Voz do Cidadão (ligação gratuita): 0800-61-2211 Correio Eletrônico: Do Senador: geraldo.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful