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A VIDA COMO VOCAÇÃO
Anotações das intervenções de Davide Prosperi e Julián Carrón na Jornada de Início de Ano dos adultos e dos estudantes universitários de CL. Mediolanum Forum, Assago (Milão), 29 de setembro de 2012
Hendrick ter Brugghen, Chamamento de São Mateus (1961). Centraal Museum. Utreque, Holanda.
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posto a nu. Também nós corremos sempre este risco no modo de olhar para a realidade e para nós próprios. Carrón. L’uomo e il suo destino. Gênova. É esta a promessa de Jesus. em primeiro lugar. uma coisa que para mim se esclareceu melhor este ano é mesmo um aspecto fundamental do dever que temos diante do carisma. o início da causa de beatificação de Dom Giussani. e a palavra mais importante para designar o fator mais importante daquilo que existe é a palavra presença. nos Exercícios da Fraternidade Carrón sublinhava: “O Senhor. nos ajudar a não perder o gosto pelo caminho. Também este ano optamos por nos encontrar juntos como início. na sua verdade. 63). e todos que estão ligados via satélite na Itália e no exterior. que é dada pela Presença que afirmamos nos encontrando para retomar juntos o caminho. sempre presente na história. junho de 2012. Ó vinde. em Assago. Há um ano. 1° de fevereiro de 1995). não estamos habituados a fixar como presença as coisas presentes” (Milão. quis suscitar no meio do século XX um carisma como caminho para se conhecer a Cristo. Ora. o que nos faz estar seguros neste caminho não é tanto termos entendido o que nos foi dito (ou. Não reduzi-los e nem nos reduzirmos é uma graça que temos de invocar. mendigar Àquele que Cristo nos indicou. O objetivo deste momento não é tanto apontar uma palavra nova mas. pp. Compreendo que o primeiro encargo que nos é confiado é este: aceitar fazer o mesmo caminho. saúdo todos os que estão presentes aqui. 20-21). ou seja. pelas circunstâncias que Deus nos concede viver. Mediolanum Forum. uma flor presente. Mas nós não estamos habituados a ver como presença uma folha presente. . levando-o a sério até o fim. porque esse juízo é constantemente posto à prova.13). acima de tudo. porque o humus cultural que o Iluminismo introduziu na Europa determina em grande parte o nosso modo de viver o real e de viver a fé ([…] que reduz a fé a sentimento. Por que é que temos esta necessidade? Porque a verdade é continuamente ameaçada pela sua redução. pela ideologia. In cammino. Somos chamados a tomar consciência de que aquilo que investiu a vida de tantas pessoas que encontraram a experiência do Movimento não é nosso.a vida como vocação página um Anotações das intervenções de Davide Prosperi e Julián Carrón na Jornada de Início de Ano dos adultos e dos estudantes universitários de CL. os conteúdos da sua pregação. A este propósito. e teve de fazer ele próprio o caminho” (J. Ele vos guiará no caminho da verdade total” (Jo 16. o Espírito. p. justo nesta situação cultural em que vivemos. e já nisto há uma novidade que reacontece todas as vezes. de viver a vocação. porque viveu as mesmas circunstâncias nossas e teve de enfrentar os mesmos desafios. sem dar nada por óbvio. Giussani. mas é Cristo que vive em mim”. Digo o mais significativo para nós. Só Ele nos pode conduzir a essa autoconsciência verdadeira de que hoje temos especial necessidade para viver. 29 de setembro de 2012 JULIÁN CARRÓN “Quando vier o Espírito da verdade. Como o próprio Dom Giussani recordava: “As circunstâncias pelas quais Deus nos faz passar são fator essencial e não secundário da nossa vocação. que o Espírito Santo nos guiará no caminho da verdade total. com efeito. 16 II NOVEMBRO 2012 sem dúvida. supl. é para toda a Igreja e para o mundo. Assago (Milão). da missão a que nos chama” (L. Passos-Litterae Communionis. começamos o nosso gesto mendigando o Espírito. Espírito Criador O meu rosto DAVIDE PROSPERI Antes de mais nada. uma pessoa presente. “Já não sou eu que vivo. a devoção ou a ética). Não se trata de impingir o discurso de Giussani. os mesmos riscos. É por isso que a história de Dom Giussani é tão significativa. 1999. de nos concebermos. o que temos vivido manifesta que a nossa contribuição está. como estímulo agudo de consciên­ cia daquilo que nos aconteceu ao encontrarmos o carisma que lhe foi doado. Deste ponto de vista. Marietti. de conceber o acontecimento cristão. Começo logo por dizer que o fato mais significativo que nos foi dado viver este ano foi. precisamente aqui em Assago. nós estamos hoje aqui para nos ajudarmos a reconhecer esta presença. Assim. Por isso. Carrón citava uma frase de Dom Giussani de 1995: “A raiz da questão é o fator constitutivo daquilo que existe. na experiência que vivemos e no juízo que fazemos sobre aquilo que acontece.

aquilo que nos faz ter um passo seguro é termos sido cativados. Castel Gandolfo. qualquer um de nós pode reduzir a fé. Só se nos deixarmos guiar e mover por ela. um juízo sobre a experiência feita. permaneceremos nela. Missa com os ‘Ratzinger Schülerkreis’. precisamente por isso. até os Exercícios da Fraternidade). às vezes somos acusados de intolerância. e o Papa diz: não é que quando falam assim estejam enganados. principalmente. passando por todo o trabalho da Escola de Comunidade. Como disse o Papa Bento há algumas semanas aos seus antigos alunos numa homilia em Castel Gandolfo. como uma verdade que nós achamos que possuímos e. Basílica de São Ciro. o cristianismo. É a verdade que nos possui. atraídos por uma experiência de verdade totalizante como a que nos fascinou ao encontrarmos este homem e tudo quanto dele nasceu. porque “ninguém pode ter a verdade. Anunciação (1622). Gênova.pior. notamos que toda a trajetória educativa foi. mas somos arrebatados por ela. Homilia na S. é algo vivo [uma experiência]! Nós não somos os seus detentores. arrebatados. mais do » Orazio Gentileschi. pensarmos ter entendido) mas. […] peregrinos da verdade” (Bento XVI. Fazendo uma retrospectiva dos conteúdos da proposta do ano passado (desde a Jornada de Início de Ano. 2 de setembro de 2012). III NOVEMBRO 2012 17 . a um discurso. acima de tudo.

porque é maior do que nós e. Então a mãe. foi uma mola que nos pôs em movimento. foram afetados por ela. É Ele. No contexto geral de desconfiança. Têm uma para uma mudança. No entanto. nos tornamos reativos. ça”. Mas todas estas explicações. O Mistério tinha aberto uma fresta e se aproximado dela. Então esta menina disse: “Mãe.). Razão pela qual. como é costume as mães fazerem. que reacende ainda mais em nós o desejo de sermos seus” (J. Depois. instigando 18 IV NOVEMBRO 2012 » que um chamado a uma posição a ser assu- as já naturais incertezas. com a origem daquilo que nos cativou. de rancor e – diga-se também – até de mentira em que temos vivido e respirado. Tinha havido a festa de Natal anual e ficara impressionada com um colega que havia perdido o pai. há uma esperança. vimos isso sobretudo nos jornais. precisa no desígnio portanto. mesmo entre nós. como nós Perante tudo que vai acontecendo distantas vezes as semos que a realidade é positiva. a uma possibilidade nova de encarar as circunstâncias. à conversão Àquele que nos fascinou. Não não se concluiu mas. induzida principalmente pela discussão sobre a política. mas temos de aceitar nos abrir para podermos crescer. que nos desafiaram em relação a uma posição original: ou se mantém o vínculo com o tronco. p. Pensemos. para um melhofinalidade bem ramento. tentou logo pôr ‘panos quentes’ explicando que a mãe daquele menino é uma grande mulher. voltou para casa um pouco abalada. que não lhe faltará nada. E nós fizemos um Meeting neste Verão [europeu] para tentar dizer o que é esse destino: a . e quando uma hegemonia cultural e social tende a penetrar no coração. porque o via muitas vezes contente. recrudesceu também uma agressão midiática contra CL. justamente partindo da nossa história. não interpretamos por ingenuidade. são. Litterae Communionis CL. Carrón. mas é certamente um juízo que mobiliza. a afirmação de Dom Giussani: “Quando as garras de uma sociedade adversa se aperta em torno de nós a ponto de ameaçar a vivacidade da nossa expressão. porque ela tinha visto uma coisa ainda mais verdadeira. o seu incansável bater à porta do nosso esquecimento. Giussani. esta carta. não bastavam à filha. ocasião suportar. La Repubblica. tomou de surpresa a todos. desafio para uma mudanque sejam. ao ponto em que nos sentíamos seguros. certamente verdadeiras. na sua simplicidade de menina tinha visto mais em profundidade: tinha sido ferida. viu que tinha um destino (nós somos feitos para a felicidade).a vida como vocação página um mida no futuro. nº 1. então é chegado o tempo da pessoa” (L. e também aqui – bem o recordamos – a carta de Carrón. Próximo ao Natal uma amiga contou que um dia a filha. todas. antes ainda. ou então tornou-se claro que a alternativa é o predomínio de uma análise. por exemplo. entre nós. não sei se no lugar dele eu seria capaz de ser feliz”. a sua presença. Não existe juízo no mundo que possa vencer a afirmação de quem somos: somos Seus. da nossa distração. As circunstâncias. na vicissitude da crise econômica. janeiro de 1977. que nos são dadas para a construção de um bem maior. porventura com danos tremendos. Repetimos com frequência entre nós. porque lançou uma provocação sobre a raiz da questão. tentamos um juízo original com o panpor boas ou más fleto “A crise. inimaginável. na medida em que ela existe. Cioni (org. que medida. e por isso tinha-se interrogado logo acerca de si própria. 11). “Chegou o tempo da pessoa”. e este juízo foi – diria com surpresa são modos através – um fator de presença e de encontro com tanta gente que tem vontade de dos quais o Mistério se pôr em movimento. é uma tentação irresistível. não podede Deus mos esperar reduzir aquilo que existe à nossa medida. e que ainda nos chama. dentro e fora do Movimento. Vivemos também muitas circunstâncias que nos puseram à prova. a estocada nos testemunham que a realidade. tal como ela que temos de é. todos nos ressentimos dela e quantos até. este ano. etc. 1º de maio de 2012). publicada precisamente num dos jornais mais ferozmente distante em termos de disposição de pensamento. também na festa o tinha visto contente. que frequenta o ensino médio. “Carrón: de quem errou uma humilhação para CL”. porque também ela tinha um destino. Um juízo verdadeiro nem sempre é imediato. é uma grande provocação. mas porque vemos segundo a nossa muitas pessoas. Ela tinha vislumbrado naquele seu colega uma grandeza extraordinária. para sermos realistas. L. deu passagem a um olhar novo. “Por isso – dizia na carta – não temos outra leitura destes fatos a não ser a de que eles são um forte apelo à purificação. publicada no La Repubblica em 1° de maio. àquilo que já sabíamos.

unicamente com o critério empírico das suas próprias conquistas. por essa redução que não deixa de ter consequências: “A racionalidade científica e a cultura técnica não tendem só a uniformizar o mundo. a sua consistência. na pretensão de delinear o perímetro das certezas da razão. é uma síntese do percurso feito que ajuda a todos nós a fixá-lo com consciência na memória. op. é muito árduo percorrer o caminho para a realização do nosso destino humano. Impressiona que Bento XVI – não cede neste ponto –. O que é que tem a ver – ele pergunta – tudo quanto nos aconteceu. Vocação de Pedro e André (1603/1606). a sua grandeza é o relacionamento com o infinito. sem poder reconhecer a verdadeira consistência das coisas. Royal Collection. porque é um testemunho do que significa fazer um caminho. É precisamente por isso que. aquilo por que se levanta todas as manhãs e se esforça em todos os desafios que tem de enfrentar. de forma que não se perca. sem se poder reconhecer a verdadeira consistência das coisas. em primeiro lugar. perguntamos: O que quer dizer tudo aquilo que nos aconteceu? O que é que permite aprender a ver o que há dentro das circunstâncias e que muitas vezes nos custa tanto ver? Sentimos que isto é particularmente urgente porque. com a urgência de aprender a ver o que está dentro das circunstâncias e que muitas vezes nos custa tanto ver? Sentimos que isso é particularmente urgente porque. começando o novo ano. a » Caravaggio. tenha começado exatamente por aqui. Julián Carrón Espero. dirigindo-se à CEI. é muito árduo percorrer o caminho para a realização do nosso destino humano. O patrimônio espiritual e moral em que o Ocidente afunda as suas raízes e que constitui a sua seiva vital.natureza do homem. cit. Consistência e circunstâncias O esforço de perceber o que está dentro das circunstâncias tem a ver com a “hegemonia cultural e social [que] tende a penetrar o coração” (L.. e continua a acontecer. hoje já não é compreendido no seu valor profundo. Hampton Court. que cada um retome tudo quanto o Davide acaba de dizer. Então podemos ver que Deus nos deu este ano para nos tornar mais conscientes daquilo que somos. p. 1. do ideal a que estamos agarrados e pelo qual vivemos. o poder das capacidades humanas acaba por se considerar a medida do agir […]. 11) de cada um de nós. Assim. e nos esclareceu através das circunstâncias que nos deu. “Chegou o tempo da pessoa”. V NOVEMBRO 2012 19 . também aquelas nem sempre imediatamente desejáveis. Giussani. mas muitas vezes ultrapassam os respectivos âmbitos específicos. Londres.

Que finalidade? Isso se compreende bem a partir da concepção da realidade que Dom Giussani nunca se cansou de nos comunicar e testemunhar. 1979-1981. portanto. p. A razão do valor das circunstâncias é simples: “Deus não faz nada ao acaso” (L. para a vida de toda a comunidade […]. Até uma terra fecunda corre o risco de se transformar em deserto inóspito e a boa semente de ser sufocada. como faço habitualmente. a estocada que temos de suportar. 2007. o mesmo grito. é precisamente pela capacidade que cada um de nós e cada realidade eclesial tem (família. em todo o caso. Mas como se pode desafiar esta redução da razão? É desafiada pela realidade. vou ler apenas alguns. Milão. em última instância e mais profundamente. para a vida da sua Igreja e. porque é um fim já determinado’. 387). Vamos reler o que dizia perante um desafio ainda mais dramático que o de agora. Deus não permite nunca que aconteça alguma coisa que não seja para a nossa maturidade. mas a realidade nos pressiona. Não são. mas percebo que estou incomodada e não me demoro muito. que me fala de si. depois de um milagre (ter ficado grávida.a vida como vocação página um de verdade. é pela capacidade de transformar isso em instru- . Isto é válido em primeiro lugar para a vida da pessoa mas. são modos através dos quais o Mistério nos chama. Deus não permite que aconteça coisa alguma que não seja para a maturidade. Giussani. menos a minha habitual capa profissional se aguen20 VI NOVEMBRO 2012 » ponto de já não se captar nele a instância ta por si só. que não seja para um amadurecimento daqueles que Ele chamou. não encontro apoios. Porque sobrevivência. p. nos desafia reacendendo as mesmas perguntas: há mais!]. Quanto mais estou com ela. Igreja em geral) de valorizar como caminho de amadurecimento aquilo que parece objeção. “A vida é esta trama de circunstâncias que ao te assediar. o peso a suportar é excessivo. todas. introduzem uma Antes de a conhecer pessoalmente. Com o andamento da as circunstâncias gravidez aconselham a interrupção. quando por volta de 1968 o movimento foi dizimado: “Na vida dos que Ele chama. enquanto dentro de mim se abrem as mesmas perguntas dela. Aquela mulher grávida e doente coloca-me de novo perante toda a minha humanidade necessitada dentro do meu papel profissional”. finalmente. 24 de maio de 2012). das dores agudas no corpo. No primeiro contato as vicissitudes não lhe dão nenhuma esperança de da vida. onde começo a intuir que a minha capacidade profissional não conta. analogamente. 1984-1985. Bur. por boas ou más que sejam. perseguição ou. dificuldade. Há numerosos testemunhos disto. Giussani. Na vez seguinte entro de mansinho. paróquia. Têm uma finalidade bem precisa no desígnio de Deus. comunidade. O oposto de teorias da conspiração (em que tantas vezes nos detemos até cansar)! As circunstâncias. chega a gravidez tão sujeito capaz de esperada. pisada e perdida” (Discurso à Assembleia-Geral da Conferência Episcopal Italiana. é têm procurado entrar o menos possía luta que nos vel no quarto desta mulher porque mantém despertos. Milão. que vão comigo para fora do quarto. Um mês depois a mulher ter consistência é diagnosticada com um tumor nos no meio de todas pulmões com metástases em grande parte do corpo. te tocam e te provocam (‘provocam’: aqui está a raiz da mais bela palavra cristã sobre a vida: ‘Vocação’)” (L. que há mais [pensamos que nos safamos com a nossa racionalidade científica. Qui e ora. Aliás [eis o teste que Giussani propõe para verificar se estamos nos tornando mais maduros]. para o nosso amadurecimento. como Dom Giussani – tenham isto sempre em mente – nos indicou no décimo capítulo de O senso religioso: as pergun­tas da razão despertam no impacto com a realidade. fico a sós com ela. 446). como nós tantas vezes as interpretamos segundo a nossa medida (isto é. lhe podia ter sido dado um castigo (o tumor com as metástases). Bur. 2009. o serviço que o hospital oferece. encontro uma obstetra que me diz que luta: “Então. Certi di alcune grandi cose. o nosso racionalismo). Esta é a única leitura verdadeira da realidade. E um e esta luta é a trama ginecologista diz: ‘Eu tento entrar só para o que é estritamente indispensánormal da vida” vel. das circunstâncias. onde Em que consiste a lido com grávidas. pelas circunstâncias. “Sou psicóloga num hospital. da dificuldade em compreender como. Uma mulher e o nossa maturidade? seu marido procuraram durante muiÉ a geração de um to tempo ter um filho e em fevereiro. Da primeira vez que vou ao quarto ver esta mulher lhe apresento. aquilo que tanto desejava).

nos são dadas para que amadureça em nós a noção daquilo que é a nossa consistência. Espanha. 1979-1981. Giussani. Porque as circunstâncias introduzem uma luta: “Então. L. portanto. a nossa maturidade? É a maturidade da nossa autoconsciência. Passos. Porque esse canto – me surpreendi por pensar nisso com frequência nos últimos tempos – seria quase impossível que algum de nós o escrevesse hoje… “Deus. op. p.mento e momento de amadurecimento. que se demonstra a verdade da fé” (cf. cit. “A longa marcha da maturidade”. p. basta fazermos uma comparação com o canto que acabamos de cantar. é a geração de um sujeito capaz de ter consistência no meio de todas as vicissitudes da vida.. Para ver bem qual é a modalidade com que nós habitualmente enfrentamos estes desafios. que é um Outro” (L. Em que consiste. 21 NOVEMBRO 2012 VII . para que nós tomemos verdadeiramente consciência de que a nossa consistência é um Outro. e que nos deixemos tocar por ele. e esta luta é a trama normal da vida: nos mantém despertos. As circunstâncias. Cristo e os pescadores (1580/1583). Giussani. 17). ou seja. / olho no fundo e vejo o escuro / que não tem fim [verifiquem o que nós fazemos quando vemos a escuridão sem fim. abril de 2008. pra mim olho e eis que descubro: / não tenho rosto. é a luta que nos mantém despertos. 389). Certi di alcune grandi cose. amadurece a consciência do que é a nossa consistência ou a nossa dignidade. O meu rosto. Real Monasterio de San Lorenzo. pois. El Escorial. como a » Federico Barocci.

e depois vamos comparar com o que diz o canto]. no fundo da escuridão. / como um eco eu ouço a minha voz / e renasço” (A. no fundo de si mesmo. Quantas vezes. como reagimos. não tendo de fugir constantemente da escuridão.El Greco. fizesse aquilo que o canto diz: ver o fundo. » enfrentamos. não determinado constantemente pela escuridão. Sou dona de casa. em Quem o está fazendo naquele instante. como nos de- batemos. o único que torna a minha pessoa sólida e feliz. tenho três filhos. // E só quando percebo que tu és. Não! Reconheço isso por um fato real: eu renasço. cada um de nós se surpreende a fazer o percurso que o canto descreve? E. penso no meu eu. acontece-me pensar em ti. finalmente. se cada vez que alguém está na escuridão. a vida. até que reconhece o Tu que está no fundo de toda a escuridão. no fundo do real. torna-se cada dia mais fascinante. Como diz esta carta: “Caríssimo Julián. “O meu rosto”). Nunca me senti esmagada pela inevitável solidão que a minha vida proporciona. em vez disso. Que autoconsciência de si não ganharia todas as vezes! Que capacidade de viver na verdade de si. aquilo que o constitui! E qual é o sinal? Não é que te- nho outros pensamentos ou sentimentos. dando crédito à verdade daquilo que sempre nos diz (como sempre nos dizia Dom Gius). porque encontrou ali. Cada instante em que tomo consciência de quem sou e da relação com o Senhor. porque de fato. Nova York. e sou uma grande aventureira. perante a escuridão. ao contrário. Mascagni. torna-se a possibilidade de caminhar rumo à minha realização. The Metropolitan Museum of Art. nem pelo cansaço de um trabalho que não tem visibilidade (como mudar as fraldas ou preparar papinhas para as crianças). O milagre de Jesus curando o cego (1570). e tudo volta ao lugar certo e respiro o ar fresco da minha 22 VIII NOVEMBRO 2012 . seguindo. e imediatamente descubro a relação única e grande que me constitui. sem ficar parado num uso reduzido da razão. quantas vezes chegamos à escuridão e nos debatemos em busca de uma confirmação fora da experiência para nos agarrarmos a alguma coisa? Por isso digo: atualmente quem seria capaz de compor um canto assim? Imaginem. todas as vezes que aparece no horizonte do quotidiano alguma sensação de sufoco ou de mentira.

não há espaço para fugir: ou uma pessoa se deixa determinar pela reação e se reduzir a isto durante o dia todo. Viver a vida como vocação significa tender para o Mistério através das circunstâncias pelas quais o Senhor nos faz passar. E quando é que me dou conta que não parei no meio do caminho. [. Mas se uma pessoa reflete sobre si própria até o fundo. Quero só te agradecer porque nestes anos tenho começado realmente a conhecer e a seguir Dom Giussani. confesso. 9-16 de setembro de 1967. La Verna (AR).a vida como vocação página um liberdade. Não pode ser descrito nem imaginado. Caso connosso verdadeiro trário não estaremos no real. Diante de cada circunstância e de cada desafio. “o nosso verdadeiro problema é sair da imaturidade” (L. “Autoconsciência é a capacidade de refletir sobre si próprio até o fundo [o que não quer dizer ficar numa introspecção psicológica]. até renascer no reconhecimento do Tu? Eu. 67) (não aquelas que nós escolhemos. mas todas). para os que me são queridos e para todo o mundo”. Realidade e Juventude. ou recomeça a fazer um percurso e reconhece uma vez mais que não é aquilo que os jornais dizem. Esse destino é Mistério. p. O Senhor quer nos fazer sair da Mistério me chama. como vemos acontecer à problema é sair da nossa volta: os médicos já não entram imaturidade” nos quartos dos doentes porque é realidade demais para enfrentar. Lisboa. Diel. imaturidade gerando um sujeito tão O problema não consistente que seja capaz de desafiar é que nos tirem qualquer escuridão. tive de fazê-lo uma infinidade de vezes. fazem-nos sou obrigado a descobrir isso. Arquivo de CL). Porque a nossa imaturidade não é originada – como às vezes julgamos – pelos outros ou pelas circunstâncias ou pelos ataques que temos que enfrentar.. fazem-nos descobrir que muitas vezes somos mais determi. op. Percebem então por que motivo as circunstâncias são parte essencial da vocação: porque nos desafiam. p. O problema não é que nos tirem a escuridão. tentaremos fugir. aí. É esta a grande esperança para mim. sou obrigado a decidir entre ficar na lamentação ou encará-los como a possibilidade por meio da qual o Mistério me chama à renovação da minha autoconsciência. encontra um Outro. ou seja. Giussani. tornam-nos cientes até que circunstância ponto somos inconsistentes. Então a questão não é encará-la como a queixar-se das circunstâncias – quanto possibilidade por tempo perdemos com lamentações esmeio da qual o téreis! –. porque ao dizer ‘eu’ de modo totalmente autoconsciente. cit. » IX NOVEMBRO 2012 23 . e porque não passa um dia sem que eu perceba e peça que qualquer circunstância – atrevo-me a dizer também o meu mal. 1995. qualquer problema. e assim renascer.. caso contrário garanto que já não estaria aqui. É fixado pelo próprio Mistério que nos dá a vida. poderíamos viver sem se dar conta do Mistério. Não façam confusão: os outros não têm poder para originar esta nossa imatuDiante de cada ridade. Porque uma pessoa pode estar do outro lado do mundo e chega por e-mail o último artigo do jornal que nos ataca duramente e. L. o meu pecado – possa ser a grande ocasião para dar o passo certo e consciente para o meu destino.decidir entre ficar nados pelas circunstâncias do que pela na lamentação ou autoconsciência. 30).. O Desafio. Giussani.] A vocação consiste em caminhar para o destino. de modo totalmente consciente. sem a necessidade de me tornar verdadeiramente consciente do que sou e do fato de que Ele existe. respondendo a elas. mas sim vínculo com Alguém que nos faz. porque se às vezes não estivéssemos na escuridão mais escura. o ar fresco da Sua presença. que são constantes. “A longa marcha da maturidade”. E nós pensamos que conseguimos estar diante de todos os desafios sem termos consistência? É assim que se introduz um olhar diferente sobre as circunstâncias. Por isso é o tempo da pessoa. qualquer circunsa escuridão. quantas vezes fomos obrigados a fazer este percurso. abraçando todas as circunstâncias através das quais o destino nos faz passar” (cf. reparo que não me faço a mim mesmo” (Reunião de Sacerdotes. e se compreende qual é o sentido da vida como vocação: “Viver a vocação significa tender para o destino para o qual está feita a vida. apenas põem em evidência que ela existe. começar a dizer ‘eu’ como homens verdadeiramente cientes daquilo que são. que cheguei a este Outro? Por um raciocínio? Por um sentimento? Por um autoconvencimento? Porque renasço! Eu me pergunto: em todos estes períodos em que temos sido tão desafiados pelas circunstâncias. como se nós pudéssemos decidir. mas sair da imaturidade. “o tância. ou que nos poupem determinados ataques.

por conseguinte. “Chegou o tempo da pessoa”. na crença de se poder realizar sem Ele. sem isso. […] ‘Ó Deus. reparamos que isto. adversas é algo de É a verificação da fé. liberta da obstusidade instintiva do amor-próprio. capaz de afeição verdadeira a si mesmo. Por isso é que todas as circunstâncias perdidos na pelas quais o Senhor nos faz passar são banalidade mais para amadurecer em nós “a autoconsciência. ou melhor. Dependência originária: “Feitos” “Falar do homem e do seu anseio de infinito significa antes de tudo reconhecer a sua relação constitutiva com o Criador. chamado à vida para entrar em relação com a própria Vida. Não só a minha alma. nos perguntamos com frequência. qual é a força do eu? Onde se encontra? A força que. Continua o Papa: “O pecado original tem a sua raiz última exatamente na rejeição dos nossos progenitores a esta relação constitutiva. quando esta dependência originária não é assim tão consciente. a. lendo os jornais. com os amigos. mas se não as redescobrirmos respondendo às circunstâncias. por isso peço. no desejo de se pôr no lugar de Deus. nenhum ataque. e depois somos todos apanhados de surpresa por qualquer circunstância. porque constitui a verdade de nós mais do que os nossos pensamentos. a Bíblia recorda-nos sempre isso: “Os vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55. não fora da realidade. do eu está unicamente na autoconsciênnós ficaríamos cia. Só que acontecimento cristão: se o cristianismo é tão conveniente é capaz de gerar um sujeito consistente. não só não esconde nem diminui.a vida como vocação página um destino através de circunstâncias adversas é algo de misterioso. carregada de consciência do próprio destino e. p. vemos isso no trabalho. nós somos esta dependência originária e. sem isso. cit. ou a dos outros: não são os outros que definem o que nós somos. não no nosso para a geração quarto mas na realidade tal como a realide um sujeito dade nos desafia. “esta dependência. estando a sós. permanece no homem o desejo sofrido deste diálogo [que é o desejo de respirar. A consideração do homem como criatura parece ‘incômoda’. uma perceção clara e amorosa de absoluta si mesmo. a começar por mim. 2. a Alguém – não governável pelo homem – que entra de modo essencial na definição da sua identidade. todos as sabemos. uma identidade relacional. de maneira a ter o vigor que lhe de circunstâncias permite viver em qualquer contingência.8). na redução mais tremenda. op. és o meu Deus! Eu vos procuro! A minha alma tem sede de vós. Mensagem ao XXXIII Meeting pela Amizade entre os Povos. ficam ali na nossa gaveta dos conhecimentos inúteis. nós ficaríamos perdidos na banalidade mais absoluta. O homem é criatura de Deus [todos sabemos estas frases. Hoje esta palavra – criatura – parece quase fora de moda: prefere-se pensar no homem como um ser realizado em si mesmo e artífice absoluto do próprio destino. paradoxalmente. (como peço a mim próprio) que não 24 X NOVEMBRO 2012 » Que o Senhor nos faça caminhar para o caiam na tentação de pensar que já sabemos. como terra sedenta e sem água’ […]. os nossos sentimentos ou as nossas reações. Porque todas Que o Senhor nos as circunstâncias por meio das quais o faça caminhar para Mistério nos faz caminhar para o destino o destino através são para despertar o nosso sujeito humano. como uma marca impressa com fogo na sua alma e na sua carne pelo próprio Criador. Os elementos da nossa autoconsciência Os elementos da nossa autoconsciência foram recordados pelo Papa na sua mensagem ao Meeting de Rímini em agosto passado. 12). mesmo depois do pecado. Quando prestamos atenção. Contudo. e o pecado orginal?”. cujo primeiro dado é a dependência originária e ontológica d’Aquele que nos quis e nos criou”. 10 de agosto de 2012). mas todas as fibras da minha carne foram criadas para encontrar a . minha carne também vos deseja com ardor. E qual é o vigor.. pois implica uma referência essencial a algo. é a verificação do misterioso. o desejo de sair do bunker]. nenhum poder. “Mas. tudo é perdido” (L. na distração mais superficial. Giussani. Não sabemos! Senão viveríamos com uma intensidade que nós muitas vezes sonhamos no quotidiano]. nas relações. Isto não pode ser tirado de nós por nenhuma circunstância. Se perdemos essa indentidade. No entanto. com Deus” (Bento XVI. da qual o homem moderno e contemporâneo tenta libertar-se. mas revela de modo luminoso a grandeza e a dignidade suprema do homem. então ficamos à mercê de todos. é tão conveniente para a geração de um sujeito que. sublinha Bento XVI.

E esta tensão é indelével no coração do homem: mesmo quando se rejeita ou se nega a Deus. E. Florença. clama por Ele. ao invés. (românico). nenhuma distração. não imita a Deus em nada. que é o sinal de algo irrredutível. depois de todo o meu mal. é a surpresa de si como dom de outra coisa distinta. a sua realização em Deus. Departamento de Desenhos e Gravuras dos Ofícios. É este o nosso destino. Somos! E nenhum engano. Então. clama que há qualquer coisa em mim que resiste. depois de todo o meu confundir-me. XI NOVEMBRO 2012 25 . Porque a primeira coisa que Deus faz é te amar” (Memores Domini. és feito à Minha imagem e semelhança”. Este dado é o primeiro elemento da nossa autoconsciência. é o fundamento da afeição a si mesmo (e nós que tantas vezes andamos mendigando as migalhas que caem da mesa de algum poderoso!): “A afeição a si mesmo não pode ser motivada por aquilo que se é. de se querer” (Memores Domini. Digam se não permanece a sede. Tu és feito por Mim agora. porque a primeira coisa. que permanece depois de todas as minhas distrações.sua paz. se tomássemos consciência dela: “Deus criou o homem à Sua imagem. nos diz Dom Giussani. se uma pessoa não imita a Deus no amar. 8 de outubro de 1983. que nem nós. 3 de maio de 1987. como surpresa de ser. o Mistério que me faz está gritando para mim pelo fato de existir: “Tu és um ato de amor Meu. não desaparece a sede de infinito que reside no homem. » Escola siciliana. A dependência originária constitui a verdade de nós mesmos: somos fruto de um ato de amor de Deus. clama. Isto. podemos reduzir esta sede. é motivada pelo fato de que se é. e fundamental. qual é a imitação mais imediata de Deus? A imitação de Deus é a surpresa de se amar. se uma pessoa não tem ternura por si mesma. Começa. pro manuscripto). a primeira semelhança com Deus é amar-se a si mesmo. como feito por um Outro. nenhuma circunstância. de uma percepção clara e amorosa de si mesmo. Se a primeira coisa que Deus faz é te amar. como graça. criou-o à imagem de Deus” (Gen 1. uma busca ansiosa e estéril de ‘falsos infinitos’ que sejam capazes de satisfazer ao menos por um momento” (Idem). com que Deus se revela ao homem que é feito à Sua imagem e semelhança. Cristo curando uma doente. “Se uma pessoa não tem amor. um dado: somos feitos para o infinito. E então adquire toda a sua dimensão a frase que todos ‘sabemos’ e que nos daria alento. Somos de tal forma constituídos por este Mistério que nos quer bem. não pode imitar a Deus. pro manuscripto). esta sede clama. com todo o nosso mal. nenhum sofrimento pode anular o fato de que eu existo.27). se eu existo.

A partir da Encarnação. é que o meu eu és Tu. com uma grandeza. » Cada qual pode fazer a comparação entre a consciência que tem de si mesmo e aquilo que Dom Giussani diz. Igreja de Riverside. com uma plenitude que eu não consigo reproduzir com todos os meus esforços. como João e André. não para nos queixarmos de quanto ainda somos inconsistentes. o próprio Infinito para que se tornasse resposta que o homem pudesse [vejam o verbo que usa!] experimentar. que constitui o segundo elemento da nossa autoconsciência e que responde a uma pergunta que também muitas vezes nos fazemos e que o Papa formulou desta maneira: “Não será porventura estruturalmente impossível para o homem viver à altura da própria natureza? E não será porventura uma condenação este anseio pelo infinito que ele sente sem nunca poder satisfazer totalmente? Estas questões nos levam diretamente ao coração do cristianismo. Nova York. que estas não são palavras ditas ao vento? Porque também nós. ficou cancelada a impreenchível distância entre finito e infinito: o Deus eterno e infinito deixou o seu Céu e entrou no tempo. Cristo que aconteceu na minha vida. É este o conteúdo do experimentar Cristo. Tu és eu. do momento em que o Verbo se fez carne. O conteúdo da minha autoconsciência. Como é que cada um de nós sabe que aconteceu exatamente assim. fomos conquistados. cit. a tal ponto que cada um pode dizer: nunca fui tão eu mesmo como quando Tu me aconteceste. De fato. op.). Acontecimento cristão: “Seus” A nós aconteceu outro fato. Cristo e o jovem rico (1889).a vida como vocação página um Heinrich Hofmann. portanto. b. O segundo dado do conteúdo da minha autoconsciência é. Mensagem ao XXXIII Meeting pela Amizade entre os Povos. Cristo. para redescobrir a possibilidade de não perder aquilo que dizemos entre nós. que fez com que eu me experimentasse a mim mesmo com uma intensidade. do sentimento de mim. assumiu uma forma finita. Por isso pode-se sintetizar o 26 XII NOVEMBRO 2012 . mergulhou na finitude humana” (Bento XVI. Tu és o meu verdadeiro eu. mas para saborear uma promessa.

M. É espantoso como o Papa prossegue: “Dessa maneira. considerei-as como perdas por amor de Cristo. muito mais eu. porque o Senhor nos faz caminhar para o destino através de todas as circunstâncias que faz acontecer. nós é que somos os verdadeiros circuncidados. ouvi-lo falar! Chegado a este ponto o Papa arremata: “Portanto. mado. e – de mil maneiras diferentes – o repropões” (C. da tribo de Benjamim. O homem foi feito por um Deus infinito que se fez carne. como também cada dificuldade. encontra a sua razão última no ser ocasião de relação com o Infinito. hebreu filho de hebreus. E responder à situação e à provocação é impossível se não das circunstâncias nos colocarmos em jogo com todo especialíssimas. Sim. quanto ao zelo pela Lei. através que chama. experimentalmente o que quer dizer Cristo e o que quer dizer o fato de eu existir. Mensagem ao XXXIII Meeting pela Amizade entre os povos. nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne. aquela à qual o Servo de Deus. O Papa nos recorda a alegria e a gratidão que invadia a vida dos primeiros cristãos: “Com efeito. mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2. no Cristianismo das origens era assim: o ser libertado das trevas do caminhar como que às apalpadelas. Martini citado em J. é dado para a nossa maturidade. Uma gratidão que se irradiava ao redor e que assim unia os homens na Igreja de Jesus Cristo” (Bento XVI.). E é isso que a Revelação documenta.a vida como vocação página um conteúdo da minha autoconsciência com as palavras de São Paulo: “Já não sou que vivo. que sou da raça de Israel. cada vez que falas. Corriere della Sera. Todos sabemos como Giussani era tão dominado por esta consciência. Compreendem? Viver a vida como vocação é caminhar para o destino através de cada coisa. a responder a Cristo chamado. Se algum outro pode confiar na carne. Homilia na S. que é a Encarnação. voz de Deus que continuamente nos chama e convida a levantar o olhar. tanto que virou do avesso tudo o que ele considerava um valor: “Em realidade. relacionamento. não porque as circunstâncias nos possam dar aquilo que dissemos (o fato de existirmos e o fato de Cristo nos acontecer). 4 de setembro de 2012). feitos para o infinito. se bem que também eu poderia ter confiança na carne. tudo isso » impossível se não nos colocarmos em jogo com todo o nosso ser 27 NOVEMBRO 2012 XIII . perseguidor da Igreja. todas as vezes. aquelas coisas que eu considerara como lucro. As circunstâncias nos são dadas para despertar esta autoconsciência. Esta era a consciência fundamental. O Senhor exorta a todos a reconhecer a essência da nossa natureza de seres humanos. cada alegria. que fui circuncidado no oitavo dia. fariseu. mas adquire a capacidade de apelar à autoconsciência. que já não é banal e insignificante. op.). a descobrir na adesão a Ele a realização plena da nossa humanidade” (Bento XVI. nada [depois da Encarnação] é banal ou insignificante no caminho da vida e do mundo. E ção. assumiu a nossa humanidade para elevá-la às alturas do seu ser divino”. o tempo de cada um de nós. O que está em jogo em tudo isto responder à situação é a luta feroz para não reduzir o eu e à provocação é a todos os fatores precedentes. precisamente pela natureza do eu. voltas sempre a esse núcleo. continuamente repetia: a vida como vocação. podíamos colaborar mais”. na amplidão da verdade.20). irrepreensível no meu proceder. ou se é uma frase gravada numa parede. Missa com os ‘Ratzinger Schülerkreis’. Por isso: “Não devemos ter medo do que Deus nos pede através das circunstâncias da vida” (Idem). que tudo quanto nos é dado. quanto à justiça da Lei. op. mas porque as circunstâncias nos ajudam a descobrir carnalmente. segundo a lei. cit. Também a ele o encontro com Cristo marcou sua vida. a ponto de fazer o cardeal Martini dizer: “Então tu. descobrimos a dimensão mais verdadeira da existência humana. que fui. 3. padre Luigi Giussani. Cada um pode olhar e ver a que ponto é esta autoconsciência de Cristo que domina os dias. Cada coisa. Carrón. Porque somente a pesresponder a Cristo soa pode não sucumbir a esta situaque chama. O caminho da certeza São Paulo documenta isto de forma espetacular. da ignorância – O que sou? Por que sou? Como devo ir em frente? – o fato de ter sido libertado. “Carrón: estou triste. mas da qual não temos um real conteúdo de experiência. o estar na luz. através de circunstâncias esporque cada um é pecialíssimas. nós que servimos a Deus em espírito. Por isso este é o Este é o tempo tempo da pessoa. cit. para crescermos nesta autoconsciência. Porém. a o nosso ser. O que não seria. porque cada um é chada pessoa.

Tudo. frepoder vem de Deus quentes jejuns. e a vida em vós.24-28). fazendo-nos experimentar quem Ele é. também 28 XIV NOVEMBRO 2012 » tenho como perda. faça transbordar a ação de graças. nem as futuras. para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo. mas não aniquilados. nem a altura. não pela minha justiça que vem da Lei. para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. o perigo. mas não somos esmagados. para que gos na cidade. que nasce ainda mais conscientemente porque o Mistério não poupou coisa nenhuma a Paulo. Viagens a pé sem conta. pois. peride barro. tendo o mesmo espírito de fé. dizem o método de Deus: Deus não nos poupa coisa alguma para que possa aumentar esta gratidão sem fim. a perseguição. a força da Sua ressurreição. para a glória de Deus” (2Cor 4. É impressionante! Mas através de tudo isso que o Senhor o fez passar. perigos no deserto. fome e sede. Assim poderei conhecê-Lo e a força da Sua ressurreição e a participação dos Seus sofrimentos. Mas mesmo a ele. perigos da parte dos pagãos. Em tudo sofremos tribulação. que fazem parte da Revelação – as cartas de São Paulo fazem parte da Revelação. para ganhar a Cristo e ser encontrado n’Ele. basta ver as que o Senhor circunstâncias que teve de enfrentar: o fez passar. somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro. muiesse extraordinário irmãos! tas noites sem dormir. muito pelo contrário. embora vivamos.a vida como vocação página um nhecimento de Jesus Cristo. é para conhecer melhor Jesus. porém. nem os principados. do amor de Cristo? A tribulação. frio e nudez! Além de outras coisas. Quem os condenará? Cristo Jesus que morreu.31-39). pelo qual renunciei a todas as coisas e as considero como esterco. somos cercados de dificuldades. Efetivamente. O resultado deste método de Deus é descrito pelo próprio Paulo: a certeza adquirida. perigos nos rios. “trazemos este perigos da parte dos meus irmãos de tesouro em vasos raça. perigos de salteadores. nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao lado d’Ele. Essa é uma humanidade transbordante de gratidão. perante o sublime co- nós cremos. somos perseguidos. Três vezes fui mais fortemente flagelado. o poder d’Aquele a quem ele entregou a vida. como não nos dará também com Ele todas as coisas? Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus os justifica. Tudo quanto lhe é dado é para ele. nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor que Deus nos manifesta em Cristo Jesus. que ressuscitou. e passei uma noite e um na consciência de São Paulo que dia no alto mar. por isso falei. nós. . de todas estas coisas saímos mais que vencedores por Aquele que nos amou. uma vez apedrejado. mas por nós todos O entregou. somos continuamente entregues à morte por amor de Jesus. pois. assemelhando-me a Ele na Sua morte. vezes recebi dos Judeus os quaemergiu sempre “Cinco renta açoites menos um. Nosso Senhor” (Rm 8. a angústia. para que se veja bem que esse extraordinário poder vem de Deus e não de nós. Mas. com efeito.7-15). que tinha esta claAtravés de tudo reza acerca de Cristo. é por amor de vós para que a graça. três vezes naufraguei. para ver se de algum modo posso chegar à ressurreição dos mortos” (Fil 3. trazendo sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus. nem os anjos. perise veja bem que gos no mar. e mais ainda.3-11). a fome. nem as potestades. viver a vida como vocação com esta consciência (que é trazermos este tesouro em vasos de barro) é o caminho para não ficarmos esmagados na obtusidade e opacidade da nossa consciência. nem as coisas presentes. somos abatidos. meu Senhor. a minha preocupação quotie não de nós” diana. Porque eu estou certo que nem a morte. a nudez. mas não vencidos pelos impasses. mas por aquela que nasce da fé em Jesus Cristo. a solicitude por todas as igrejas!” (2Cor 11. nem a vida. de modo que a certeza de Cristo se possa tornar cada vez mais nossa. este tesouro em vasos de barro. atua em nós. Mas. Então. a justiça que vem de Deus pela fé. A morte. perigos da parte dos falsos Trabalhos e duras fadigas. Estas circunstâncias. nada foi poupado. segundo está escrito: Eu acreditei. multiplicando-se entre muitos. mas não desamparados. sabendo que Aquele. Nós não colocaríamos em questão as nossas ‘ideias’ sobre Cristo a não ser que Ele não rasgue constantemente a nossa redução. não são episódios ou acréscimos decorativos –. que está à direita de Deus e que também intercede por nós? Quem nos separará. e por isso também é que falamos. a espada? Segundo está escrito: Por Ti somos entregues à morte todos os dias. quem será contra nós? Ele que não poupou nem o Seu próprio Filho. o que foi que emergiu sempre mais fortemente na consciência de São Paulo? Que “trazemos. “Se Deus é por nós. que ressuscitou o Senhor Jesus.

a teremos esvaziado daquilo que nos aconteceu e a teremos preenchido com o que o poder quer. Utreque. Milão. Scola. isto dá origem a uma consistência que é única. Ser vitoriosos quer dizer ver a vitória de Cristo. A certeza de que fala São Paulo é a certeza da autoconsciência. Ser vitoriosos significa sermos transbordantes da Sua presença. mas porque Cristo nos amou). Holanda. Centro Ambrosiano. Só assim poderemos colaborar na missão da Igreja. é a capacidade de pensar e invocar Cristo. à qual dar espaço. de tal maneira que. no meio de tudo quanto estamos dizendo. se aqui. à qual dar o nosso coração. é o anseio de que todos sejam salvos” (A. precisamente aqui. Centraal Museum. Ser vitoriosos não quer dizer “tomar o poder”. se não nos surpreendermos desejando este silêncio para dar espaço à memória. 29 NOVEMBRO 2012 XV . Quem não deseja ao menos um grama desta certeza? Então. para aprender a rezar é necessário amar o silêncio. à qual dar tempo. temos de decidir onde encontramos a resposta ao desejo de felicidade que descobrimos em nós porque somos feitos para o infinito. que “não é a obstinação do proselitismo. Diante de testemunhas como São Paulo podemos ver o que Cristo pode se tornar para nós. mesmo nas circunstâncias mais prementes.Se nós não somos vencedores no meio de toda a situação de hegemonia cultural em que somos chamados a viver. Por isso. mesmo que sejamos despojados de tudo. só se vemos em ação a contemporaneidade de Cristo é que somos verdadeiramente vitoriosos. Alla scoperta del Dio vicino. qual é a razoabilidade da fé? Por que seria razoável acreditar em Cristo? Porém. Se não tivermos sempre mais desejo desta memória. isto é. de todos os desafios que temos de enfrentar. estamos já vencidos. Estar em silêncio é viver esta consciência de Cristo. 31). Chamamento de São Mateus (1961). mas um testemunho que deixa transparecer o atrativo de Jesus. como nos recordou o cardeal Scola na sua recente carta pastoral. p. porque teremos cedido no conteúdo da autoconsciência e. Portanto. clame dentro de nós a memória de Cristo como a coisa mais preciosa. a coisa mais desejável. vemos que somos mais que vencedores n’Ele (não por mérito nosso. por conseguinte. o sentimento profundo de si mesmo como pessoa que se encaminha » Hendrick ter Brugghen. cada vez mais o conteúdo da nossa autoconsciência nos encha de silêncio. de tudo aquilo que estamos vivendo. 2012.

Tendo reconhecer que to. num presença em toda a sua força e sugestividade. era melhor que Cristo.tenha presente Jesus! Isso é o que nos promete do. não estou triste. veu) quando soube o que estava para aconte. depois. mas avançar.poupada coisa alguma: Dom Giussani.sobretudo por causa das crianças’. através de no último a chegar! –. NOVEMBRO 2012 30 XVI . Não que Ele cure o cego dade última de tudo quanto existe cego que tem a de nascença e depois o retire do aqui: ‘Todas as coisas n’Ele consisreal por medo de que lhe seja tira. vida.poder e doçura” (L. lhe digo: ‘É mesmo verdade. como o nascença. sorrindo porque Discurso à Assembleia-Geral da Conferência já incrivelmente confortado pelo milagre que Episcopal Italiana.). Como o cego de de tudo quanto existe aqui. verdade e vida” (Bento XVI. Giussani. repitaÉ assim que. como nos testemunhou uma rosto. eu capaz de viver presença de Cristo. o Ano que estão nas mãos de um Outro’. diálogo que tivera com o marido (que me escre. se o silêncio não for tomar cons. as preocupações. nas não estou. e ‘meu nos olhos aquela Presença que o canto’. p. de todas encarar tudo. não tenho Assim – tendo isto no olhar – podemos nos medo. cada vez mais ma. acabava de ver. Que no viver eu determinada por aquilo que lhe havia aconteci. Ou seja: Cristo gera um me conduz na batalha. Pois bem. Bur. porque sei na grande companhia da Igreja inteira. 184-185). Tem de se tornar maduro. Talvez devesse estar triste. coincida com o Seu nome. estou curiosa pelo que me é a fé. Porque o silêncio é retomar consciência “Quando falarmos assim. […] ‘Minha força’ e. para caminhar dentro desta memória. Agora já nem sequer dispor a iniciar no próximo dia 11 de outubro. sinto angústia por ti e pelas crianças. se Nós temos uma testemunha a quem não foi não dermos espaço ao ganhar de novo cons. não porque seja mais forte. por aquilo que o Senhor me pre. Estou brir e voltar a acolher esta dádiva preciosa que certa de Jesus. caminho. a vero real. Com esta autoconsciência pode estar dian.simplicidade de tem’.Milão. L’attrattiva Gesù. a um renovado encontro com Jesus que a minha’. beleza que curou. para te de todos. durasse uma cego que tem a simplicidade de reconhecer que hora como se durasse cem dias. seremos arrastados por todo o força e meu canto é o Senhor” (Ex 15. como o sustento na batalha. de todas as coisas a fazer). tivesse sido ao contrário’. Com uma consistência assim pode-se vezes já cheia de todas as distrações. quer dizer. exisantes não via e agora vê. minha doçura antes não via e que perdura na batalha. porque o ‘Tu’ tinha esta autoconsciência. agora vê não o tira. que este Tu coincida com o Seu circunstância. por esta simplicidade em aderir àquilo que lhe santo Deus! É uma promessa dentro de cada aconteceu. não falemos com os da nossa relação com a grande presença do olhos opacos e cheios da presença dos outros! Mistério do Pai.a vida como vocação página um » para uma meta que é o Mistério de Cristo. E eu: ‘Mas da Fé que o Papa quis proclamar para “redesconão está triste?’. portando aquilo que lhe deu.zessete anos (doze de casamento e cinco de nabitualmente. que é a verdade na consciência. para levar o homem de hoje. A sua consciência era te a batalha que é a vida toda. muitas vezes Só tenho pena que a sua provação seja maior do distraído. É essa a força da autoconsciência – e batalha – enquanto dura a batalha. Jesus lança o cego na luta. até ao limiar do destino. ‘Não. que me dá eu capaz de viver o real. aliás. para conhecer de maneira mais profunirá acontecer. se diz a um presente: ‘Minha força e meu canto Desta forma podemos fazer frente a qualquer és tu’. podemos Cristo gera um mos esta frase tendo nos olhos a enfrentar o real tendo-O no olhar. e os sábios entre todos os todo o tempo da vida que seja luta e fadiga – de fariseus nada puderam em relação a um eu que entrar sempre mais dentro do Tu. op. Se não mesmo o mais ciência de si para encher a nossa pessoa (por belo”.a nossa amizade: uma ajuda para crescer. Nome: é uma amiga muito querida diante da morte. Se não chegarmos a dúvida um dos mais belos momentos dos defazer de modo diferente aquilo que fazemos ha. porque Jesus existe. Mas digamos esta palavra. minha arma de batalha. Ou antes. ‘Claro.2): resto. “Minha ciência de nós. cer: “Ela disse-me: ‘Estou tranquila. 1999. ‘Ora essa’. E eu. cit.da as verdades que constituem a seiva da nossa para.moro) passados juntos. Não. Este foi sem duro e grande o silêncio.