LEITURAS DE VEJA

A revista que virou panfleto
Por Luiz Antonio Magalhães em 14/10/2008 A revista Veja parece ter perdido definitivamente o rumo, talvez em função do vexame histórico na cobertura da crise financeira internacional. Afinal, não é todo dia que uma redação prepara uma capa espetacularmente incisiva, com Tio Sam de dedo em riste e a manchete garantindo "Eu salvei você" (edição 2079, com data de 24/9/2008), para, dias depois, essa mesma capa se transformar num case de "barriga" jornalística, uma vez o crash de 29 de setembro revelou não apenas que o Tio Sam não havia conseguido salvar ninguém como estava desesperadamente em busca de uma solução que envolvesse a União Européia e até países emergentes. A "barriga" foi tão descomunal que na semana seguinte a rival CartaCapital fez graça e repetiu a capa da Veja, com o mesmo Tio Sam de dedo em riste acompanhado por uma manchete marota: "Ele não salva ninguém". Se o problema fosse apenas na forma, tudo bem, "barrigas" acontecem nas melhores redações (em Veja, com uma freqüência um tanto maior, estão aí o boimate, os milhões do Ibsen Pinheiro e os dólares de Cuba que não me deixam mentir). A questão central não está na forma, está no conteúdo. Veja há muito tempo não é uma revista jornalística, mas um panfletão conservador, editado por uma equipe que conta com a fina flor do pensamento reacionário brasileiro. A crise global, porém, parece ter mexido com os nervos do pessoal da Veja e o panfletão perdeu o rumo.

Em um primeiro momento, Veja apresentou ao distinto público a idéia de que a crise já tinha acabado com o anúncio do primeiro pacote de Bush-Paulson; o que havia era um "soluço" absolutamente normal no capitalismo. Na semana seguinte, com data de capa de 1° de outubro, mas circulando no fim de semana de 27-28 de

portanto às vésperas do crash de 29/9. Veja. votar. poucos). aliás. com data de capa de 15/10). ao contrário do que ainda insistem em propalar os descrentes na democracia nacional (felizmente. de São Paulo: exemplo de que a maioria dos brasileiros sabe. Não funcionou. Primeiro. existe uma crise. contando com a certeza da impunidade. para a perplexidade dos jornalistas que cuidam de traduzir o pensamento reacionário norte-americano em uma linguagem acessível a qualquer idiota. "Depois do desastre" era a manchete da capa – mas o desastre real ainda nem tinha acontecido. O recado da revista ao seu público começa assim: "O primeiro turno das eleições municipais demonstrou. Na edição corrente (nº 2082. O povo não é bobo. no editorial. na legenda da foto ("Gilberto Kassab. espaço editorial da revista. sim. que a revista apóia os candidatos da oposição. Beto Richa (PSDB) e Fernando Gabeira (PV) são citados no texto. vem o argumento "racional" de que a população votou nos melhores. fazendo uma espécie de "balanço" do que vinha ocorrendo. ao contrário. É preciso muito mais. acompanhada de uma grande foto do prefeito Gilberto Kassab. mas Bush é "dos nossos". a revista da Editora Abril voltou a dar capa para crise." Em seguida. seria mais honesto e correto copiar o que de bom existe nos Estados Unidos e explicitar. gente que trabalha sério. provavelmente a próxima capa será um enorme "UFA!" – Veja não descuida do front interno. o veredicto final: "Não basta para um partido – qualquer um – contar só com a força de um presidente da República bem avaliado e simpático. .setembro. de fato o povo não é bobo e já sabe que Veja tem lado.Paulo. a Folha de S. editorializa as reportagens.Paulo e O Estado de S. outra vez. vai dar um tiro certeiro e cortar o mal pela raiz). muito menos com o disfarce de veículo jornalístico. em diversas ocasiões. desregulado e baseado na ganância de gente que vendia terrenos na Lua sem o menor escrúpulo. a "Carta ao Leitor"." Não. É assim que se faz lá fora e é assim que agiram CartaCapital e. Exemplo de fora O problema de Veja é que os valores nos quais a revista continua acreditando e defendendo estavam virando pó com a crise e não havia discurso coerente que servisse para manter o panfletão em pé. e a revista começou a tentar reconhecer que se tratava mesmo de uma crise gravíssima e que expõe as entranhas de um sistema podre. Neste ponto. especialmente os do PSDB e DEM – legendas que por sinal apóiam Gabeira no Rio. que a esmagadora maioria dos brasileiros sabe. e Kassab. No final do texto. reconhecemos. veio a euforia (ok. sim. votar"). Enquanto tateia em busca de um discurso para a crise – se os mercados continuarem eufóricos. "independente do partido". leva o título "O povo não é bobo".

viu seu eleitorado crescer 30%. Veja age na política e na economia seguindo a máxima do ex-ministro Rubens Ricúpero: o que é bom (para o ideário conservador). o PT cresceu 1% em relação a 2004. na reportagem que faz um balanço do resultado das urnas. A revista reconhece que o PT cresceu. Qualquer foca de jornalismo faz as contas. No fundo. mas diz que foi nos grotões. soma os danos e conclui que o lead é a derrota dos partidos de oposição. o pessoal da redação de Veja sabe fazer como ninguém. com conseqüências evidentes na corrida sucessória de 2010. e que tem na resiliência a sua maior virtude. o que é ruim. um partido-ônibus em que cabe qualquer um. Qualquer foca. menos a Veja. que perderam exatamente 25% do eleitorado de quatro anos atrás. líder no país pelo critério de prefeitos eleitos. mas é evidente que o fato político mais relevante é a estrondosa derrota da aliança demo-tucana. E isto. a gente mostra. É justo que se dê destaque à vitória peemedebista. que preferiu destacar o aumento de 30% do PMDB. o DEM teve 17% a menos do que na votação anterior e o PSDB perdeu 8% dos votantes de quatro anos atrás.Aritmética enviesada Um bom exemplo está também na edição desta semana. . a gente esconde. fica aqui o reconhecimento. O PMDB. Um infográfico está lá para quem quiser fazer contas: em número absoluto de votos.

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