SYSTEMA

S MY
RELIGIOSOS
POR
~ - P. OLIVEIRA MARTINS
LISBOA
LIVRARIA BERTRAND
VIUVA BERTRAND & C.a SUCCESSORES CARVALIIO & c.a
73, Chiado, 75
1882
s
tL
3/0
o
....
•).
INTRODUCCAO
o
Para escrever este livro eu queria dispôr de
uma penna que fosse como a vara das fadas, que-
ria poder rnolhal-a n'uma tinta semelhante aos
philtros dos magos, ou á sôma da immortalid.ade
dos deuses vedicos. Era mistér que o leitor, acor-
dado, se julgasse sonhando, porque este é o sonho
ou a visão do espírito humano. O estylo devia
corresponder ao assumpto e á idéa, e a penna
correr de leve, como uma sombra, como un1a nu-
vem, como um deus, como uma alma, etherea e
vaga, desde a penumbra do crepusculo primitivo
onde scintillam animadas as estrellas, onde reina a
lua pallida e mysteriosa, onde o ar está povoado
de espiritos e o cerebro do homem recheiado de
terrores. A minha penna, se tivesse azas, levar-
nos-hia comsigo para mais alto, e se fosse como a
vista subtil do adivinho, far-nos-hia penetrar nos
recessos mais mysteriosos da consciencia dos po-
vos. Subiríamos ao ether e mergulharíamos no
pensamento, para continuar, sonhando, a vêr os
sonhos do espírito, os sonhos da imaginação da
humanidade. Observaríamos como surge na ahna
collectiva uma luz precursora transformando os
terrores do principio em flocos de imagens indeci-
sas, á maneira da aurora que dissipa ao nascer as
figuras u1nbrosas da noute. Apparece depois o sol
1
VI A MYTHOLOGIA RELIGIOSA
-um globo de fogo no horisonte : vem co1n elle
a plena luz, vem o calor, vem a consciencia. Por
toda a parte o sol é o symbolo da civilisação ...
Deu-se o no1ne de tnythologia ao syste1na d'es-
ses sonhos priTTiitivos com que o pen·satnento in-
consciente dos povos representa a seu n1odo a na-
tureza. O mytho e o facto são, pois, na essencia,
uma e a mesma cousa vista por maneiras diversas.
Tanto o pensamento cria um n1ytho quando repre-
senta ou corporisa noções n1entaes, co1no quando
anima ou define objectos reaes. Tanto é u1n nly-
tho a alma_, ser de uma realidade phantastica, re-
presentação imaginativa das visões dos sonhos ou
das allucinações; como é um 1uytho o deus_, ser
não menos phantastico, interpretação aninutda de
um astro distante ou de um phenotueno cuja theo-
ria se desconhece. A n1ythologia inteira compre-
hende-se n'estas duas especies, a que sem duvida
podemos chamar subjectiva, a pri1neira, objectiva,
a segunda. D'estas duas raizes, astraes e psychi-
cas, nasce1n e cresce1n parallelamente as construc-
ções mythologicas- especie de vegetações aereas,
ondeantes, vagas, opacas ou luminosas, espessas
ou rendilhadas, co1no florestas negras sussurran-
tes, ou ondas de nuvens indeternlinudas.
Collectiva, espontanea, prilnitiva, a n1ythologia
denuncia cm cada un1 dos seus systen1as o tenl-
perarncnto, o caracter, ou o genio da raça que a
inventou. E' urna linguagen1 Sl'lll palavras, ou tuna
escripta sen1 letras. .1\Iais intilno do que qualquer
U
7
essas duas fórnlUS de representação das COUSas,
o mytho adquire logo um valor de realidade iutrin-
seca; c se é só c1n te1npos rela ti vatneutc aJiauta-
flos que os sons c as letras p<'rdcnl o caracter de
seres ou valores reacs, caracter que té1n no feti-
chisulo, na glossolalia, na kaLala, para. ficaren1
INTRODUCÇÃO VIl
.aprnas co1n a significação de instrumentos repre-
sentativos: nen1 ainda o nosso tmnpo, com todo
o saber c co1n toda a sua philosophia, pôde
.acabar de despir os 1nythos do seu trajo historico,
(lissecaHdo-os de todo e Inostrando-os como ·são:· a
linguage1n transcendente dos ho1nens, e a escripta
-ou o desenho do Universo.
Cada raça ten1 ou teve a sua língua, t cada u1na
das raças tmn a sua 1nythologia- espelho onde se
reflecte o pensa1nento espontaneo de cada variedade
-<:1e homens; ahna inti1na, ou expressão synthetica,
(para substituirn1os por u1na linguage1n critica a
linguage1n usual ainda mythica) onde se encon-
tnun fundidas e unificadas todas as faces e aspe-
ctos do genio de um povo. E tudo o que n'outr;o
}Í\To dito ácerca da evolução indepen-
-dente dos povos, dos cruzamentos ou 1nestiçagens,
das rrg1·essões, sobrevivencias e degenerações, 2
tudo isso, portanto, se applica á esphera especial
<le phenotnenos n1entaes estudados n'esta obra.
A 1nythologia prin1itiva torna-se logo religiosa,
porque para a in1aginaçào inconsciente o Universo
é un1 1nysterio: 1nysterio o mundo interior que ani-
nlisado produz a eschatologia, mysterio o Inundo
-exterior que, tarübe1n anilnisado, produz as theogo-
nias cosmicas. Que olhe para o fundo do seu pen-
samento, ou que olhe para os abys1nos do ether; que
intorrogue os sonhos e as visões da noute, ou os
astros e os phenon1enos celestes, o espirita
tivo vê-se assoberbado por u1n grande ignoto que
o aterrorisa ou o espanta. Da ad1niração e do
medo, gerados ·pelo instincto do conhecitnento ( ca-
l·acteristica intellectual da especie hun1ana), nascetn
()S n1ythos que são a raiz da religião.
t V. A11 1
7
17-8.--2 Ibid. J.III-J.XIII.
*
VIII A 1\IYTHOLOGI.-\ RELIGIOSA.
E', portanto, absurdo negar a quaesquer ho-
mens a faculdade mythogenica; é absurdo affir-
mar a existencia de raças sem religião, desde que
a esta palavra se der o unico sentido compatível
com o estado actual da sciencia. E' absurdo contes-
tar que haja uma unidade essencial na mythologia
dos povos, embora as mythologias se caracterisem
e se differenciem ethnicamente. Este vem dizer-
nos que os povos em cujas línguas o substantivo
não tem genero são incapazes de mythologia:
como se a sexualidade propria de certas mytholo-
gias, ou antes do momento já anthropomorpho ou
zoologico da mythologia, fossem essenciaes. As
línguas finnias não térn generos, e ninguem ne-
gará os mythos do l{alevala. Outro affirn1a que
ba raças monotheistas -as semitas; que os judeus
nunca adoraram mais do que um deus e por isso
não tém mythologia: e entretanto, ainda quando
hoje podesse admittir-se a affirmação, nem por
deus ser um só deixa de ser um mytho.
J{t não é licito confundir estas duas expressões:
polytheismo, mythologia; e da confusão d' ellas
vieram outr' ora erros ainda hoje vulgares. Negar
ao hon1em, ou a alguns homens, a faculdade my-
thogenica, equivale a dizer que esta on a.quclla
gente é dPstituida de poder digestivo ou gerador;
porque a creação de mythos é unta funcção espon-
tanea inherente ao espirita hu1nano, con1o a falia.
A mythologia é, j:í o dissen1os, tuna linguagem
mais comprehensiva, mais intin1a. Se no mundo ha
gente sem mythos, tambem entre os hotnens ha
surdo-mudos; e se os exentplares de teratologia
organica térn urn lugar na evolução, t ta1nbe1n es-
ses homens n1entalmcnte monstruosos, caso taes
t V. Elem. de A11lltropol. (2.• cd.) pp. 82 o 218 o eogg.
JNTRODUCÇÃO IX
11o1nens existissein, ser1am u1n documento de ata-
VISlllO.
Se1n n1ythos, por força seriam mudos, porque a
primeira palavra é coeva do primeiro mytho. As-
siln co1no é da natureza do hon1en1 fallar, assi1n
é o representar mythicarnente as visões da imagi-
nação . e as impressões dos sentidos. A funcção
psychologica inventora dos mythos é universal e
essenciahnente humana, e por isso idcntica e1n
toda a parte sobre a terra.
Já não succede porén1 o 1nestno desàe que tra-
tatnos dos caracteres particulares das mythologias,
caracteres determinados pelas duas funcções -lin-
guistica e historica. Ambas estas varia1n con1 as
g·entes, co1n os lugares e com o tempo; e por isso
os fructos da elaboração psychica adquire1n feitios
e cores diversas.
A fonnação e o desenvolvitnento das linguas são
<> processo pelo qual os tnythos adquiretn expres-
são, ou o n1olde em que se vasa1n. E1n hungaro,
refere Goldziher, alvorada diz-se pela palavra haj-
nal, cuja raiz é ho, significado de neve: portanto a
alvorada disse-se brancura, e a palavra hajnalpi1·_,
significado do rosado-da-aurora, traduzida litteral-
nlente, dá Este exen1plo, tnos-
trando tambmn co1no na linguagem pritnitiva a
brancura, a luz, e o vennelho se confundem n'utna
-expressão comtnuin, facto de resto conhecido, pa-
tenteia claratnente o papel da lingua na for1nação
dos 1nythos. De Brancura fez-se Aurora: um nome
generico tornou-se proprio de um objecto que in-
clue no principio da sua existencia o genero -tal
é o pri1ueiro passo da definição do mytho por via
X A 1\IYTHOLOGIA RELIGIOS.\
da linguagem. Depois, a selecção exclusiva da pa-
lavra para denominar um objecto, ou obedece ao
n1ovimento do pensamento tendendo a dar real i-
dade a tuna visão, ou concorre com elle n ~ e s s e
sentido, porque para a imaginação l?rimitiva não·
existe distincção entre o objecto e a sua image1n,
e tanto é real uma cousa como a palavra ou o signo·
que a representam. Os pheno1nenos, denOininados
com palavras suas, 'retteS_, adquire1n pois un1 aspe-
cto de existencia concreta : a percepç?to ganha o
valor de facto.
Por estes motiv·os a linguística é se1n duvida o
pri1neiro instrumento da sciencia dos 1nythos. Es-
tudando uma palavra na sua historia, regressando-
ás origens, e analysando que appellativo ella era.
antes de ser a denominação de un1 certo objecto, O·
linguista vae encontrar a chave dos enygn1as que
as historias extravagantes da iinaginaçâo prinli-
ti va propoem. 1.,ornando das pritneiras edades
aos períodos em que a faculdade n1ythogenica se·
obliterou pelos progressos do pensan1ento cons-
ciente, o linguista acha nas fórmas prosodicas do·
synonymo e da comparação- esqueleto, ou Inn-
mia resequida j:í inanituada- o docun1C'nto do pro-
cesso por via do qual nasceran1 a polyonyn1ia e a
1netaphora, quando á nndtidào de designaçoões con-
generes se ligavam Inultidões de quasi-realitlades,
e quando a comparação verbal exprin1ia 'para o·
pensatnento um parentesco natural.
l{uhn, o grande fundador da n1ythologia C'Onl-
paradâ, dernonstrou outro lado essencial pnra a
cornprchcnsão d'este phen01ncno do espirito colle-
ctivo, dizendo que cada n1onH'nto de dcs<'nvolvi-
mento social e politico tem n1n caracter n•ytholo-
gico proprio rnais ou n1enos acccntnado. A Inytl•o-
logia possue, portanto, tatnbcnl tuna historia-
INTRODUCÇÃO XI
nc1n poderia deixar de a ter con1o cousa viva, su-
jC'ita ao rytlnno universal da existcncia,- tem
tuna historia que acompanha a historia geral da
hunwnidade e a de cada um dos seus ramos- á
maneira de 11111 _espelho onde, vendo-nos diaria-
mente, poderíamos snppor que elle vae acompa-
nhando a transfonnação que o tempo in1prime na
nossa phisionon1ia.
1\Ias o leitor, conhecendo já a theoria dos mo-
vinlentos da sociedade carninhando no tempo; o
leitor, que já sabe não poder representar-se essa
marcha, essencialn1ente progressiva. pelo avançar
no sentido rectilíneo de un1 desenvolvin1ento nor-
n1al, 1-o leitor não esperará de certo que a my-
thologia infrinja a regra comn1um a todas as es-
pheras da vida Inental.
Não só as edades recentes apresentan1 ao lado
das sociedades mais cultas (e por isso menos my-
thologicas) sociedades existindo em todos os esta-
dos ou momentos historicos precedentes, até aos
primitivos ; con1o, no proprio seio da mais culta
das sociedades, o observador encontra, analysando
o estado Inental das C'lasses, exemplos de todos os
momentos da serie da civilisação. Por isso, con-
forme já dissemos n'outro lugar, para estudos da
natureza d'estes, nen1 a geographia ethnographica,
nem a chronologia podem ser a base do methodo :
só a ethnometria 2 é capaz de nos guiar. Os po-
vos sobre a terra, e as classes constituindo cada
uma das nações, apresentam no seu conjuncto,
qualquer que seja a data en1. que os estudemos, os
documentos de todos os estados anteriores : a his-
toria, ou a evolução, concebem-se por abstrac-
ção, analysando os elementos ethnometricamente-
1 V. As raças 1m-manas, XLIV-LVIII (introd.)- '2 l ~ i d . u, p. 93.
XII A 1\IYTHOLOGlA RELIGIOSA
como quem coordena as cartas confundidas de um
baralho.
Por isso (e não é necessario insistir 1nais n' esta
noção, depois de tudo o que dmnoradatnente ficou
escripto em lugares que já indicátnos ao leitor)
coordenámos a materia d'este livro se1n obedecer,
ne1n á chronologia, ne1n á ethnographia- obede-
cendo apenas á ethnon1etria n1ythologica, isto é, á
theoria do desenvolvimento d'essa especie de in-
venções mentaes dos homens e1n sociedade.
Cha1namos Animistno ao prirneiro n101nento, Na-
turalistno ao segundo, Idealis1no ao terceiro ; e pa-
rece-nos que de todas as n1ythologias conhecidas
(e não cremos que o ainda desconhecido venha al-
terar esta opinião) são as do Egypto, da Judéa e
da Grecia que 1nelhor, con1o typo,
cada un1 d'esses tres 11101nentos. Cha1nan1os Ani-
mismo ao pritneiro, porque predonüna ahi a inven-
ção dos espíritos ou ahnas, seres phantasticos da
sombra, co1no representação do Inundo cos1nico e
seus phenotnenos, e do n1undo psychico e seus so-
nhos e allucinações. Chan1a1nos Naturalistno ao se-
gundo, porque predomina então o pensatnento de
explicar por mythos o Universo cotno producto e
creação de utna Vontade que, antes de chegar a
ser transcendente na theologia jehovica, é a per-
cepção da força genesiaca da natureza. ChatnanlOS
Idealisn1o ao terceiro, porque nas 1uythologias arya-
nas o tnundo externo c o Iuunllo interior represen-
tam-se á itnaginação coJno aspectos Je substancias
que, no seu desensolver, o pcnsatnento reuuz;irá '"
pureza uiaphana ue idéas.
Não exagere porém o leitor o alcance d' esta
classificação - setn que hunLcu1 lhe conteste a
verdade c1n uo1ne das observações que sC'gumn.
()s tres Jnonlcutos, con1 as suas respectivas tlcuo-
INTRODUCÇÃO XIII
n1inaçõcs, são tres typos de mythologia, differen-
ciados ethnican1cntc ; mas con1o no homem ha,
para alétn das caracteristas de raça, utn fundo de
lnunanidade especifica, ctn cada utn dos typos
n1ythologicos proprios se observa, subordinada ou
subaltcrnatnente, a serie de docutncntos dos typos
estranhos. Assitn, no Anitnismo encontraremos os
1nythos da creação voluntaria e utn ruditnento de
noções substanciaes ; assitn, no Naturalismo c no
Idealistno acharetuos vivos os n1ythos anitnistas.
Cotntudo, netn isto destroe a exacção dos caracte-
res dotninantes etn cada um dos tres 1nomentos, /
netn a successão d'elles é tatnpouco arbitraria. A
série d'esses tres n1otnentos 1nostra-nos na nlytho-
logia a unidade 1noral da hutnanidade, paten-
teando-nos utna evolução que, setn ser continua
etn nenhutn dado povo, o é no conjuncto das ra-
ças lnunanas, attribuindo successivatnente a certas
d'ellas o lugar eminente, até se chegar á raça so-
bre todas superior- a aryana.
N' esta série e n' esta successão, do Animistno
para o Naturalistno e para o Idealistno- do ha-
mita, para o semita e para o aryano: talvez até
possatnos dizer, fugitivatnente, do selvagetn para o
barbaro e para o civilisado,- n'esta série obser-
va-se um desdobratnento ou utna evolução 4e ca-
pacidade mental e de profundidade comprehen-
siva. A pura imaginação por si só inventa as al-
mas; para inventar a vontade creadora é já mis-
tér um vislutnbre de percepções cosmogonicas e
n1oraes; e para conceber a substancia carece-se de
uma intuição aguda da essencia das cousas em si,
intuição que, ainda velada etn mythos, contétn já
a raiz das tnais bellas expansões do pensamento
metaphisico.
XIV A 1\IYTHOLOGIA RELIGIOSA
1\Iais de um author tem avançado a proposição
de que o fim da mythologia, ou antes, da edade
creadora dos mythos, coincide com o mon1ento em
que d'elles sae a concepção religiosa de um mundo
povoado po1 · deuses que o governam. O mytho
acaba, dizem, quando as figuras mythicas se tor-
nam deuses, patriarchas ou heroes- evolução co-
nhecida e constante. O mytho acaba, dizem, quan-
do se faz deus; o deus acaba quando se faz ho-
mem,-dissipando-se afinal essa sombra que appa-
recera para aterrar o selvagem, que enamorou ou
enlouqueceu o barbara, e qne se some no abysmo
puro do pensamento do homem culto. . . i A theo-
logia derruba o mytho do seu throno, conquistan-
do-o para os deuses, e repellindo os precursores
para o campo das lendas, dos contos, das sagas,
das fabulas, que são como uma poeira costnica de
religiões.
Esta doutrina affigura-se-nos corresponder á ou-
tra de qne já nos occnpámos quando dissetnos não
haver povos sem religião. Ambas as doutrinas pro-
vém de definições, e1n nosso entender acanhadas,
do valor das duas palavras - n1ythologia, religião.
Por isso nós preferimos para a nossa obra a ex-
pressão de mythologia religiosa. O nexo entre a
religião e o mytho é indissoluvel, e a opinião de
qne o mytho acaba quando a religião cotneça pa-
rece-nos insustentavel.
O deus on os deuses da theologia são definidos,
sim, pelo espírito individual especulativo, ou tneta-
phisico, mas nen1 por isso dcixant de ser Inythos :
cotno terminaria, pois, a Inytlwlogia quando su-
bsiste a ·matPria d'ella? A essa n1ateria applicant-
sc funcçõcs ntentacs diversas das funcções pritni-
f V • .Aa raçua l&umauas, 1'1'· J.xVIU-JX (lntrucl.)
JNTRODUCfJ:\0 XV
tivns- funcções intlividuaes e não collcctivas, fnn-
cçõcs theoricas e não creadoras. A mythologia su-
bsiste pois n' este periodo da religião: é a matrria-
pritna dos deuses, c ainda e sempre o nucleo da
sua existencia; e1nbora, com effeito, a civilisação
tenha esgotado a faculdade n1ythogenica religiosa;
etnbora, por isso Inestno, para o historiador da ci-
vilisação a_s religiões theologicas, caracterisarlas
pelas idéas da n1etaphisica, abram utna edade
nova, diversa d'aquella a que nós chama1nos pre-
historica, não tanto n'um sentido chronologico,
con1o n'um sentido ethnotnetrico.
Se vetnos, portanto,_ que o n1ytho subsiste no seio
da theologia, resta-nos saber se na mythologia ha
ou não ha os elen1entos essenciaes da religião.
Observando os phenomenos da ünaginação pri-
mitiva, achatnos duas ordens de factos: os espon-
taneos e os reflexos. Encontramos duas faces etn
todo e qualquer mytho: a que e a qne
com espanto, esperança, desejo ou tnedo.
A creação Inental, depois de explicar a seu modo,
adora aquelle ser ou aquelle objecto que inven-
tou; e no conjun:to cl'estes dois movi1nentos, o es-
pontaneo e o reflexo, esttí o dynatnismo da reli-
gião. Explicar o lugar do homem no mundo, de-
tenninar o systen1a das relações do individuo
com o todo, e depois venerar o ser ou a doutrina
que se descobriu: eis a religião. Que outra cousa
é a mythologia? Nós dire1nos pois que, na ma-
xima parte do seu contendo, a mythologia pri-
mitiva é o pritneiro tnomento da religião, á qual a
sociedade com as suas idéas moraes 1 e a sciencia
com as suas descobertas cosmologicas vén1 trazer
subsidies, sem duvida creadores de estados n1en-
t V. As raças lwmauas, u, pp. 14u c sctig. ·
XVI A MYTHOLOGIA RELIGIOSA
taes novos e determinantes de uma evolução lenta,
mas ne1n por isso capazes de alterar na sua essen-
cia o principio visceral, o nervo intimo d'esta in-
venção, a tnais bella por isso mesmo que é a mais
cbimerica de todas as que o homem construiu com
o seu pensamento.
Assente isto, e dadas esta explicações que o lei-
tor de certo reconhecerá indispensaveis' e1ubora fa-
tigantes, no decurso d'esta obra procurarei ca-
racterisar nitida1nente aquillo a que chamo movi-
mentos espontaneos e aquillo a que cha1no Inovi-
mentos reflexos da mythologia religiosa; distin-
guindo nos primeiros os que são provocados pela
observação do mundo externo e os que o são pelos
phenomenos psychicos, para podennos distinguir
nos cultos os que, provindo da pri1neira origem
tem un1 caracter de paganisn1o (se acaso a ex-
pressão é adequada), dos que, provindo da segunda,
constituen1 a eschatologia ou culto dos Inortos.
A' n1aneira que nos en1brenhartuos no estudo,
veretnos quanto estas distincções são essenciaes ~ í
con1prehensão da n1ateria. Veren1os cotno é in-
constante a relação das duas fontes da nlytholo-
gia religiosa- o mundo externo e o n1undo in-
terno- conforn1e o mon1ento ethn01uetrico e o ge-
nio elas raças; veretnos con1o no Animistno predo-
nlinam os 1nythos originados nos sonhos e nas al-
lucinações e co1n clles os ritos eschatologicos ; ve-
remos co1no esta esphera é subalterna no Idea-
lisnw; podendo tatnbetn observar a influencia que
a falta de ponderação entre as duas D>ntes parai-
leias da. n1ythologia religiosa tmn no dcsenvolvi-
tnento progt·cssivo, ou no atrophiatnento d'csscs
productos da iucouscicncia.
INTUODUCÇAO XVII
Resta-nos agora dar a razão do quarto livro
d'esta obra, livro em que estudamos os factos de
sobrcvivencia na Europa christan. Essa razão está
implícita em tudo o qne dissemos antes. N'uma so-
ciedade, por culta que seja, observa-se a serie de
todos os estados ethnometricos precedentes : d'ahi
vem o subsistirem massas de população n 'um es-
tado primitivo. São essas que, ainda capazes de
inventar mythos como os seus antepassados de
milhares de annos, revestem os personagens his-
toricos de traços legendarios : assim na Grecia.
culta Alexandre, assim em nossos dias Napoleão,
assi1n em Portugal D. Sebastião ; 1 assim J oanna
d' Are, assim Guilherme Tell, a Fonte; 2
assim, finalmente, quasi todos os soberanos e ho-
mens notaveis da historia de uma nação, tornados
heroes pela imagi.pação do povo que protesta sem-
pre que o escalpello da critica vem desmanchar a
nuvem creada pela imaginação sitnples, varrendo
a illusão em que ella se revia a si propria na sua
vaidade inconsciente.
Outro phenon1eno de sobrevivencia está nas
apotheoses religiosas e nos verdadeiros mythos
que, se para o homem culto revestem u1n cara-
cter e un1a significação theologica ou allegorica,
para o povo conservam-se como nasceram- aquel-
les que as religiões contemporaneas herdaram das
precedentes, ou como teriam nascido os de inven-
ção recente, se, en1 vez de teren1 sido creados pelo
zelo erudito dos sacerdotes, o. tivessem sido pelo
genio dos povos.
Finalmente, o ultin1o phenomeno de sobreviven-
cia está nas tradições, nas lendas, nas supersti-
1 V. Hi:;toria de Portugal (3.a ed.) u, pp. 74 e segg.- V. Port. cont.
1, pp. 813 e se;;g.
XVIII A MYTHOLOGIA llELIGIOSA
ções populares que chegaram até nós atravez de
tempos incontaveis e que são con1o frag1nentos,
1nigalhas de um passado retuoto, doctunentos cttio
valor archeologico-n1oral é incontestavel, 1nas cuja
importancia historica é tanto 1nenor, quanto na
vida de tuna sociedade foram preponderando 1nais
as forças de direcção consciente, indi,Tidnal, scien-
tifica, sobre as forças obscuras, espontaneas, colle-
cti,Tas c inconscientes.
Eis ahi dada a explicação cl'essa ulti1na parte
da nossa obra, parte indispensavel, porque sem
ella o leitor poderia suppôr que a n1ythologia com
effeito se extinguiu na Europa n'aqnella hora em
que o Christianismo veiu substituir os velhos deu-
ses pagãos que, corno deuses, co1no 111e1nbros de
un1a thcologia tão co1npleta no seu todo con1o a
christan, já ta1nben1 terian1 varrido para longe a
cdade 1nytlwlogica.
Não varreratu, nen1 a varreu tan1pouco o deus
christão. Ignorantes da theologia appolinea do hcl-
lenistno, ignorantes da theologia 1nosaica elo chris-
tiauisnio, grandes ·1nassas de povo, incapazes de
nttingir a reflexão, conservararn-se no estado pri-
n1itivo- pre-historico, Cinbora cn1 datas de his-
toria ben1 saLída. Nen1 A poli o, ne1n Christo, nen1
Zeus-J upiter, ue1n Jehovah; nen1 deus, nf'Ill os
deuses, nen1 os n1edianeiros, nen1 os 1ncssias; ne1n
iinaln1ente os hyn1nos dos antigos poetas, lteln os
psahnos dos prophetas, nen1 as theses do stoi-
t·isnlo, nen1 as sabias alkgorias dos doutores da
1-:gr<'ja, podera1n extcnninar do da Europa
a grannna tenaz dos n1ythos rcn1otos. Na flo-
resta oLseura de n1n povo infdiz, ('SSa Yf'getação
reverdecia co1n as 1niserias funt'Lres dos tetupos
(le ealnn1id:ulc; c en1 Vf'Z de trausfnnnar as sn-
{'lll fé, c os 1nythos cn1 idéas, o povo
INTHODUCf)ÃO XIX
rc·dnzia ú f,)nna n1ythologica os dogmas novos, fa-
zcn,lo da Ilostia o sununo fetiche e do Diabo o
grande rncdianciro, n'essa Edade-media que é vor
tautos la<.los tuna regressão ao estado mental das
edades pri1nitivas.
A IIYTIIOLOGIA RELIGIOSA
LIVRO P R I ~ I E I R O
Animismo
I
Genesis dos mythos
1.
As differentes direcções imprimidas pelo estudo
ao pensamento dos n1ythologos contemporaneos
crearam duas opiniões, acaso já duas escholas,
que poem a origem dos mythos religiosos em or-
dens diversas de phenomenos mentaes. Ao passo
que os discípulos e continuadores de l{uhn, e
acima de todos 1\'Iax lVIuller, vêem na contempla-
ção dos astros e na interpretação dos phe:Qomenos
celestes o nucleo original da mythologia, dedu-
. zindo d'ahi um pensamento religioso cuja essencia
é a «ambição do Infinito,» -outros escriptores, e á
frente d'esses o inglez Tylor, explorando as tradi-
ções e costumes dos selvagens, affirmam que o
embryão dos mythos religiosos se deve achar, não
nas concepções cosmicas, mas sim nas impressões
dos sonhos d'onde sáe a percepção de espíritos e
uma religião dos mortos, ou eschatologia. Un1
dos propositos audaciosos d'este livro será n1ostrar
2
2 L. I.- ANiliiSliO
que não existe similhante exclusão, e que para
o homem prirnitivo os mythos surgem, tanto da
observação do Inundo externo, cotno das impres-
sões psychicas: duas origens parallelas c t ~ j o nexo
é obscuro a principio, mas que a evolução par-
ticular de cada tnythologia vae definindo, até ao
ponto em que, encerrado o cyclo n1ythologico, a
critica lhes vê a relação e ao mesmo te1npo o va-
sio.
«E é de notar, diz um viajante nosso, fallando
das raças infimas do sertão de l\Ialaka, 1 {Eredia,
Desc. de Malaca) que gerahnente em Indias todos os
idolatras e gentios usão de dois generos de ido-
latria: o 1.
0
genero é o adoratorio celeste e ele-
mentos : fogo, ar, agua, terra; o 2.
0
genero é o
adoratorio de estatnas e sepulturas e pessoas assi-
gnaladas e anirnaes e aves.» Esta observação pers-
picaz do nosso viajante é o ponto de partida da
nossa theoria: a simultaneidade de representação
do n1undo externo e do mundo interno por via de
n1ytlws, a uns dos quaes podemos chamar cosrni-
cos e a outros psychicos; uns originados na obser- ·
vação da natureza e dos seus pheno1nenos, outros
originados nas i1npressões dos sonhos e ern todo o
corpo das visões tnentaes.
lia entre estas duas correntes de phenon1cnos
psychologicos, ou entre estas duas familias fle n•y-
thos, um nexo natural e evidente: o parallclisn1o
do Dia con1 o esta1· acordado, e da Nonte con1 o
estar donuindo. De dia vive-se, de noutP sonha-
se; o dia é lun1inoso con1o a vida, a. noute obs-
cura como o sornno. O selvagen1 não ten1 icléa da
1\Iorto cotno aniquihuuento, ncrn da Vitla cotno
eternidade: por isso nos Inonientos pri1uitivos se
1 V. llnçaa 1&umanas, 1, 1'1>· 80-5.
I.- GENESIS DOS 1\IYTHOS-t. 3
não deduz ainda, do Dia c do estar acordado o
Céu, llCHl da Noute e do estar dorn1indo a 1\'Iorte
c o inferno- conforn1c observaren1os e1n estados
mais elevados.
A invenção de u1n mytho provém da indetern1i-
nação- pri1nitiva do espírito t incapaz de distinguir
entre o objecto e a sua in1agen1 ou a sua repre-
sentação. Vendo o sol ou a lua caminhar no céu,
o selvagem deno1nina os astros com un1a certa
palavra e explica-lhes os movimentos de um certo
n1odo: desde logo inventou o mytho, porque essas
palavras e n1odos passam para elle a ser tão reaes
con1o os proprios phenomenos que os provocaram.
Succede · o mes1no ás creanças, pois cada un1 de
nós na prin1eira infancia reproduz o estado selva-
gem: o homem é a i1nagem individualisada da
hun1anidade e da sua historia.
Por outro lado, assin1 que baixa a so1nbra da
noute, e os me1nbros lassos convidam ao son1no,
desvenda-se o sonho mostrando ao hon1en1 prin1itivo
um n1undo obscuro e vago que se dissipa co1n o
acordar. Con1o será illusorio, phantastico, isso tudo
que elle reahnente viu e que, agora, acordado, a
n1en1oria lhe recorda? Evidenten1ente, é tão inca-
paz de explicar a phisiologia dos sonhos co1no o
systema dos mundos; e por isso, ao lado das ex-
plicações. que deu á existencia e ao movi1nento
dos astros, põe as explicações que dá ás visões
do SOl11nO.
Collocado entre dois ignotos, um tão evidente
que o offusca e tão grande que o enche de espanto,
-outro tão phantastico, tão irreal, tão n1ysterioso
que o aterrorisa, o selvage1n não póde referil-os
.ambos a si, e, enleiado n' esta dupla attracçào das
1 V. Raças humanas, u, pp. 12-14.
*
L. I. - ANIMISl\lO
illusões, cáe de joelhos, geme e treme. N' esse mo-
mento fórma-se a religião, ou antes, o my.tho tor-
na-se religioso. Principiou a adorar-se o que se
não comprehende; começaram a temer-se os ob-
jectos que nasceram espontaneamente n'um espi-
rito incapaz de definir a natureza das cousas.
Desde logo o mundo inteiro- o mundo interno·
e o mundo externo, o mundo dos astros e o
mundo dos sonhos- se povôa de espiritos, de al-
mas, de sombras, de terrores. A imaginação, obe-
decendo ás impressões dos sentidos, inventou es-
sas cohortes phantasticas, a que agora obedecem
os proprios sentidos allucinados. No estado de
uma perceptividade absoluta, o espirito recebeu
as impressões de fóra que, ou actuaran1 directa-
mente sobre os orgãos, ou indirectamente por via
dos sonhos; e desde logo, n'um estado ta1nhen1 ele
plasticidade ingenua, a iiuaginação deu a essas
impressões um corpo ou vida- uma fórma e uma
realidade. Reaes, portanto, as invenções esponta-
neas passan1 a fazer parte integrante do an1 biente
em que se existe e a actuar n'essa qualidade sobre
a imaginação. Dentro de utn mundo etn que a phi-
losophia vê apenas aspectos, e mais de uma nleta-
phisica méras illusões, poz a iiunginação prin1itiva
un1 outro mundo de chilneras. O vento correndo
no espaço vibra sons que os nossos ouvidos ou-
vem, scn1 que o vento seja tuna realidade, tnas-
unl movin1ento apenas: pois ben1, o son1 do vento
tornou-se para a in1aginação infantil do ho1nen1
prin1itivo o grito de utn espirito.
Ouvindo-o, ouvia a voz de ntn dcns, e essa
voz supposta, actuando-lhe sobre os sentidos con1o
qualqnPr realidade reahn<·ntc real, enchia-o de ter-
ror. Não trCine ainda hoje tanta gente percebendo
no trovão «a cólera divina»?
1.-GENESIS DOS MYTIIOS-i. 5
'r:uuLmn o sonho qne até ahi reproduzira ape-
nas as ilnprcssões 1nudas, as len1branças sc1n Inc-
rito- cotno devem ser os sonhos dos ani1nacs -
o sonho passou a povoar-se de recordações my-
thicas. O sonho é un1 espelho do estado men-
tal do individuo: apenas phisiologico en1 si, tor-
na-se pathologico desde que nasce no espirita a
doença da n1ythologia. Quem é capaz de desco-
brir n1uitas vezes os fila1nentos absconditos da re-
Dliniscencia e da analogia que dão lugar a histo-
rias tào extravagantes? Eu viajei uma noute por
todas as terras em cujo no1ne entra a letra P:
eis ahi um nucleo e u1n nexo da phantasia. Un1as
vezes esse nexo é obscuro, 1nuitas vezes é ren1oto:
renova1n-se pensamentos já esquecidos, surgmn idéas
apagadas, mas que o cerebro guardava n'tun es-
tado latente. Te1n havido quem componha discur-
sos, poetnas, Inusicas, dor1nindo. O isola1nento e o
socego absoluto do espirita, que o son1no defende
das excitações ambientes, dão á mmnoria uma po-
tencia excessiva. O eu cotno que se desdobra, e
dentro de cada u1n de nós ha então a noção
d'aquelle individuo que pensa e sente acordado,
e de un1 outro individuo que, sonhando, está com-
nosco pensando e sentindo.
Esse outro quen1 póde ser senão a alma, o espi-
rito que vem a tornar-se deus? Con1o ha de o sel-
vagmn conceber o desdobra1nento da sua indivi-
dualidade? E desde que no seu pensan1ento caíu
a serç.ente do aninlistno, esse outro com quem
falia é o outro que a sua in1aginação inventou no
mundo externo. Por isso os sonhos tiveratn desde
o con1eço un1a origetn sobrenatural e uma signifi-
cação prophetica.
A len1brança d'elles não se apaga quando se
.acorda. Ao acordar, levanta-se o sol no horisonte,
6 L. I. - ANil\IISMO
dir-se-hia que as estrellas adormece1n apagando--
se; se o dia é limpido, cresce uma onda de luz
batendo, banindo as trevas; se a ten1pestade ruge,
cámn das nuvens as serpentes de agua, e a voz-
dos trovões reboa pelas quebradas das serras. Que
seres são esses, que luzes, que vozes- senão a
realidade dos espiritos com quem fallei durante
os sonhos, que me disseram o passado e me pro-
gnosticaratn o futuro? O sonho da noute continúa
de dia; dia e noute são aspectos, o mundo todo
é uma visão. As impressões que se levaram para
o leito, germinando no somno, vicejam de dia: a
existencia inteira é tuna allucinação.
Sonha-se acordado, tanto ou n1ais do que dor-
mindo. O aspecto de realidade supposta das cousas
dá visões uma energia que as condições phan-
tasticas do sonho lhes negam. A in1agen1 nascida
no cerebro é tão capaz de ferir os sentidos con1o
qualquer objecto que existisse fóra d'elles- assi1n
o affinna diariamente a phisiologia. A ahna que
vimos em sonhos apparece-nos: ven1ol-a con1 os
nossos olhos, depois de a termos ouvido cotn os
nossos ouvidos no sussurrar da floresta ou no bra-
mir do vento. Uma lucidez Inorbida que, segundo
os graus, é poesia, visão, allucinação- eis o que
vem da faculdade ctninente do espirita : a facul-
dade de crer cm todas as suas invenções.
Assim se ten1 dito que o genio é uma loucura:
assirn se deve dizer que a lnunanidade, genial de
certo no seio da crcação, attcston a sua grandeza
n'tuna doença organica- a 1nythologia.
2.
Sentado á. porta <la sua curvado, na atti-
tudc de quem medita, co1n os olhos cravados no-
1.-GENESIS DOS MYTIIOS-t.
..,
'
firn1amento, o sclvagen1 interroga o céu. Dentro
do C'croLro corren1 confusas as len1branças dos ca-
sos da sua vida errante, ainda nua de noções nlo-
raes qne só a ·sociedade revelará: esses casos são
os cstnpros, as luctas, as n1ortes, as ciladas, as
aventuras da caca e as artes dos biehos dos mat-
tos. Outro tanto" vae por lá, pelo céu! Con1 a sua
face negra virada ao firmamento onde tremen1 as
estrellas, o austrnlio vê e conta o que se passa n'es-
sas fan1ilias lun1inosas. Em Orion dançam os rapa-
zes o corrobori
7
emquanto as Pleiades, con1o rapari-
gas, lhes fazem negaças de an1or. Esta estrella é
filha de aqnella: un1a é Inãe, a outra avó: ha ge-
ra<;Ões inteiras. Nos dois grandes astros de Cen-
tauro estão os dois irmãos que mataran1 Tchingal
cotn as settas cujas pontas se vêetn ainda a bri-
lhar ensanguentadas nas estrellas orientaes da Cruz.
O céu ten1 os seus dramas, os seus astros são os
espiritos .... qne partiran1 da terra antes da vinda
dos homens, levados pelo seu velho chefe, Gina-
bong-birp. -1\Iais alétn, para o tastnanio, Capella
é n1n kangnru caçado por Castor-e-Pollux, os ir-
nl?ios, que o matatn e o assam: o fumo da fo-
gueira vê-se até ao ontornno. Nas Pleiades estão
tan1 be1n raparigas desafiando os caçadores de Orion.
-O boschimano vê nas estrellas os anitnaes que
povoam os rios e as mattas africanas; descobre na
Via-lactea as cinzas que un1a rapariga errante es-
palhou para n1arcar o caminho de casa. -O fir-
111a1nento eskin1Ó é un1 poen1a de combates e hynl-
nos e um museu inteiro de anin1aes. Os kasia da
India trans-gangetica sabem como foi que os espí-
ritos chegaratn ao céu: eram pessoas que subiran1
ás arvores; cortaran1-lhes os troncos, ficaram no •
ar, elevaram-se, pairando do alto a olhar-nos com
8 L. I. - ANil\IISliO
os seus olhos luminosos. A's Pleiades chamam
ccum homem com um bando de pintos.>>
1\Iuda-se o aspecto do céu, mas não 1nuda o es-
pirito do que o vê: muda apenas a attitude do
que o interroga. E' dia, ergueu-se; erra no bos-
que procurando a caça ·quando subitamente vem
uma tortnenta. Pára. As nu vens crescmn negras,
ribomba o trovão voando. E' un1 grande passaro!
dizetn os dacotas ; é uma grande a v e que segue
com a ninhada! O pae troveja, os filhos repetem:
assi1n o trovão se prolonga. -E' Voe, o mensa-
geiro de Huracan, dizen1 os indios da Atnerica
central já inventores de deuses; é Voe, o lnercu-
rio alado do deus das tempestades. Por toda a
parte, na Africa, na A1nerica, o temporal é u1n
passaro, batendo as azas e1n cyclones que voan1,
soltando gritos que são trovões, despedindo raios
dos olhos fusilantes.- Por toda a parte as tronl-
bas, de areia nos desertos, de agua nos oceanos,
são monstros ou espiritos: são den1onios, quando a
n1ythologia entra n 'un1 periodo de distincção en-
tre be1n e mal. - Se a tr01n ba se ergue do n1ar
ás nuvens, os chinezes vêen1 Tatstnaki, o «dragão
que jorra>> ; o cafre vê 1\Ianika, a grande serpente
marinha: a agua, en1 trotnba, mn chuva, é sen1-
u1na Serpente. Quando nos desertos seccos se le-
vantatn as trotnbas de areia, o hcduiuo vê un1
djinn qne foge, e o cafrc un1 den1onio - P'hepo.
Passou como um rcla1npago a e 110
céu conturbado descnlHt-sc o arco Iris a que
ainda a 1nytlwlogia christan cha1na «O signal de
1,az entre Deus c os h01nens >>. Assin1 lhe cluuna-
vam os gregos. Para o karen da Binuania, para
o zulu de Africa, é ntn cspirito Inalf:tzPjo; no Da-
llOnté é «a serpente cdcstc da ftn'tuna>>; para os in-
sulares do 1uar do Sul é a escada por onde sohctu c
I.- GENESIS DOS 1\IYTIIOS- 2. 9
desce1n os heroes; para os scandinavos era Bifriist,
a ponte aerea tricolor que liga o céu {t terra.
O te1nporal é u1na grande ave, batendo as azas;
un1a ave é ta1nLe1n o sol no helio n1ytho algonqui.
O caçador Ojib,va nuttara um urso, con1eçava a
retalhai-o, quando o quer que é vermelho illumi-
nou o ar. O caçador largou a rez e olhou; foi até
{t borda ·do lago, e então viu sobre a agua um
helio cysne rubro com a plumagetn rutilante no
Annou o arco, despediu as settas: era
en1 vão. O cysne voava indifferente e intacto, lu-
Ininoso sobre o céu claro. O caçador lembrou-se
logo de que tinha e1n casa tres settas n1agicas
herdadas de seu pae; foi por ellas, e lançou a
primeira que, subindo, se aproximou do cysne;
a segunda aproximou-se ainda mais; a terceira
feriu-o, e então a ave, batendo as azas, caíu ra-
pidanJente no poente ...
O cysne rubro do algonqui é um mytho : não
é ainda tuna theoria do sol, nem do dia, nem dos
phenon1enos celestes. Assim, ta1nbem, West per-
guntando uma vez aos eskimós se sabiam quem
fizera o sol, elles lhes responderam: «lgnoratnos
se quem fez isto está vivo ou morto». Para o espí-
rito prin1itivo não existe a noção de causalidade :
percebetn-se apenas as relações. Os selvagens des-
crevem, não explicam- no sentido philosophico da
palavra. Não se busquem pois cosmogonias entre
os rnythos primitivos, ahi onde ha apenas repre-
sentações. Os n1intiras de l\Ialaka, os ho de Cho-
ta-Nagpore, curvados, acocorados na sua mesqui-
nhez selvagmu, vêen1 no céu uma grande cupula
-um vaso invertido, suspenso sobre a terra por
u1na corda. O medo de que ella se parta é a
fónna porque tmnem un1 cataclysmo sonhado, é o
rudimento do n1edo de deus.
10 L. I.-AXlliJSliO
Dentro d' essa concha representa-se o drama du-
plo dos casos da terra e dos casos do céu. Vendo
no firmamento alternar-se o sol e a lua, como per-
sonagens principaes da população astral, a imagi-
nação C?ncebe espontaneamente uma relação de
sexo, un1 casamento em que a vida dos esposos,
cortada de tragedias, reproduz os casos da vida
conjugal selvagem. Os esposos são frequentemEmte
irmãos, e a lua é quasi sempre homem : bello
symbolo que nos mostra como o hon1em procede da
sombra para a luz, da nonte para o dia, come-
çando por adorar a lua, passando a adorar o sol
-e depois do sol os pensamentos que são a unica
luz verdadeira, e o sol interior do nosso espirito.
Os indios selishes, da .America, poem na lua um
sapo que fugiu ao lobo; os vêen1 nn1a mu-
lher, Sina, que um dia foi llevoruda; mas a regra
é vêr um homem- por isso que na lna está o su-
premo espirito. Em todas as regiões polares o sol
é uma donzella, a lua seu irn1ào. Se o lua anda,
diz o australio, é porque um dia foi achado a se-
duzir a tnnlher de certa estrella: acudiu o marido,
o seductor fugiu, e vae fugindo sempre, perse-
guido. O sol boschimano é um hon1em: un1 ho-
menl de outra especie que os avós dos quaiquas
em creanças lançaran1 para o ar, emquanto dor-
mia. A lua é outro homem, que brigou com o sol,
foi esfaqueado esvaindo-se em sangue, e que por
pedir perdào tornou á vida: eis a explicação das
phases lunares. A lua, dizem os kasias, a lua
qne é homem, apaixonou-se uma vez pela sogra
c1uc lhe deita cinzas á cara- quando o disco lu-
nar se obscurece.
l)iariamentc o sol se some no firman1ento: :is
um cclypsc esconde-o, ou esconde a lun..
Diz(•rn os stunatras que então os esposos bata-
I.- DOS 2. t t
lhntn cntrcdt-..vornnflo-se; dizen1 en1 Cumana que
o astro ficou ferido; e para applacar a
batalha os ojiL,Yas entoatn algazarras, produzctn
bulhas cstrPpitosas, ordenando aos espit·itos que tcr-
Jnincn1 a. c.ontenda. Outro tnytho é o dos chiqni-
tos: viatn ca(lns enonnes mordendo, abocanhando
a lua nadando ('111 sangne das proprias feridas, e
por isso despelliatn settas para os tnonstros ela-
mando, chorando, gritando. Quando o sol se cclyp-
sa, os tupis dizetn que o jaguar o cotnen, e asse-
teiam tatnbcm o n1onstro. Por toda a A.tnerica
voga este· tnytho. lUas, en1 )[alaka, o eclypse e o
dia e a noute, i::;to é, o systetna inteiro das lnocli-
ficações da luz, é abrangido pelo n1ytho dos Inin-
tiras: As estrellas são ti lhos da lua; tamLetn o
sol tinha filhos ou estrellas, tnas devorou-os un1a
vez; e a lua, para que o sol lhe não roube os
seus, esconde-os de dia: quando o sol o soube ir-
ritou-se, e largou correndo. Por isso .vemos os dois
astros nas suas carreiras diurnas: quando o sol
apanha a lua, tnorde-a- eis ahi o eclypse ...
Tal é o céu, taes são os ares que os sehTagens
vêetn e conceben1. ...t\..ssi1n correm os dias, assin1
viven1 os phenmnenos sob a cupula material da
c.oncha aznl, onde a lua reina co1no senhor sobe-
rano. O ar, o céu, estão povoados de espíritos,
mas esses genios não possuetn substancia di versa
da substancia do homen1. O céu esüí perto, céu
e terra sào ntna e a tnestna c.ousa. Não ha vis-
hnnbre ele distinccão, en1bora exista a noc?lo de
categorias de forÇas: o chefe é 1nais fo;te do
que o soldado, mas o espírito é ainda n1ais forte
do que o chefe. Os chefes crêetn-se espíritos quan-
do são poderosos, os povos crêetn-se da n1assa
divina. Zulu quer diz céu; e Utshaka, un1 rei dos
zulus, 1nandou matar os doutores-da-chuva, por in-
t2 L. I. -
tervirem no seu imperio- un1 imperio que abran-
gia céus e terra.
Tal é o estado mental do homem prilnitivo, esse
estado em que as representações mythicas brotatn
espontaneas no cerebro enredando-o em tegumen-
tos de chiineras, mais espessos, n1ais tenazes do
que as tran1as co1n que as trepadeiras entretecetn
os corações dos bosques. Agitada a mente na acção
do dia, poderá socegar no re1nanso da nou te ? A
lua Inysteriosa apparece-lhe nas sotubras do céu,
nas voltas do cerebro, e evoca as legiües dos seres
da phantasia, chimeras filhas de chitueras.
3.
Schoolcraft diz-nos dos indios a1uericanos que
os 'sonhos e os factos tétn para elles un1 valor
egual de realidade; todos os viajantes observa-
dores da psychologia dos selvagens concordan1
adduzindo provas para detnonstrar esse estado
nebuloso do espirito e1n que se não distingue o
objecto da sua itnagetn, da sua sotnbra, da sua
representação, ou da sua len1brança.
Quando o hon1en1 prinlitivo dortue e sonha,
pois, suppõe viver de utn tnodo tão positivo cotno
quando está acordado. As evocações da Ineiuoria,
passando-lhe no cerebro cotno as phantasias Jnul-
ticolores do kalcidoscopo, tén1 para clle tanta
realidade co1no esse turbilhão de astros que lhe
}>assa diante da vista tuatizaudo o fundo oL::;enro
do fir1n:unento. D0pois, a propria singularidade (lo
que viu dormindo agnça-llte a ao desper-
tar: recorda, nH>Jnora, Jurdita, interpreta, c cu1
volta <las fogn<'iras, encruzatlos, scisntadorcs, os
sclvng<'us cont:un Pntrc si o (JUC vir:un, por onde
audanuu a uoute da vcspcra. O contacto da cu-


I. - GENESIS DOS 1\IYTI-IOS - 3. 13
riosidade é co1no a lenha no fogo: augmcnta o
volnn1c das labaredas de un1a imaginação plastica,
excitando o cercbro, lançando na mernoria semen-
tes que na noute Üninediata hão de genninar ein
sonhos on visões novas.
Fechados os olhos, donnindo, abrem-se as por-
tas de un1 n1undo incognito. Coineçam as viagens
da ahna, ou as visitas de outras almas que vém
tratar co1n a nossa. Assim Patrocles visitou a
alma de Achilles. Nas suas viagens a ahna que
vein exerce missões propheticas, e a alma que vae
perde-se por paraisos distantes, dançando, caçando,
gozando - conio crêem os groelandezes. O itongo
dos zulus é o espirito prophetico dos sonhos. Os
tangalas de Luçon nunca despertam o que dorme
«porque a sua altna e s t ~ i fóra».
Nasceu apenas do sonho esse mytho da alma,
coevo do hoinem? Não parece; porque a ser as-
siin o noine d'ella seria o do somno. Parece antes
que a ahna, concebida no mysterio dos sonhos,
len1brada ao acordar, tirou o noine e a essencia,
não da appariçào, Inas de certos phenoinenos reaes
con1 que se relacionaram os psychicos. Nas lin-
guas prin1itivas, alma quer dizer son1bra. Todo o
corpo, conforme o grau de obliquidade do foco
lun1inoso, projecta tuna ünagem obscura em que se
reproduz. Na pallidez da noute, ao clarão da lua,
as sombras são phantasticas, e quando o vento ba-
louça as arvores, as suas in1agens negras pare-
ce-nos dançaretn singulannente. A confusão do
objecto co1n a imagetn dá individualidade á som-
bra- e essa sombra é a que falia e vive nos sonhos.
A9sÜn na imaginação primitiva se confundem sem-
pre, relacionando-se, os phenoinenos do Inundo
externo e os do Inundo interno. Aln1a diz-se soinbra
em tasinanio ; diz-se otahchuk, significado de som- ....
·J4 L. I.-ANIMISliO
bra, en1 algonqui; é neja, sotnbra ou imagetn, em
aravaco; é estas duas cousas tua is a idéa de écco
e1n abipone; é tunzi em zulu; é seriti, o residuo
que fica depois da 1norte, e1n bassuto. Ahna é a
ünage1n das cousas, e as son1bras são in1agens pro-
duzidas espontaneamente.
E' de certo em edades n1ais avançadas que o
espirita principia a cogitar sobre phenOineno::; de
outra or<lem, e que a aln1a passa de ser Son1Lra
a ser \'"ida, deixando de exprinlir 1nythican1ente
un1a percepção sitnples, para crear u1n tnytho phi-
siologico. circulação do sangue e a respiraç1o,
nos symptomas que se affigur:11n á in1aginação
con1o o agitar-se de tun espirita interno, eis ahi o
nncleo do segundo 1nytho da alma, mytho póde
dizer-se que ainda hoje vivo nos paizes cultos. No
bater do coração ouvem os caraíbas mover de es-
piritos; e os bassutos dizen1 de un1a pessoa que
n1orreu: o coracão saíu! Na Australia oceidental
a ahna é 'vang, a respiração; na California é
piuts; para os gregos foi pneuma; para os hebreus
ncphcsh, a palavra que na Vulgata se traduz por
« spiracuhnn vitre. » O mytho groelandez, porén1,
n1ytho duplo en1 que a ahna, sen<lo sotnbra, é tam-
LCJn . espirita, como os lati nos dizi:nn,
1nostra-nos a affinidade das origens, on parallelas
ou suecessivas, no phen01neno hnninoso da s01nbra
c nos phenotnenos Liologicos da circulação c da
rcs pir:u;ào.
isto, seria para adrnirar, Sl'ria até incon-
gruente que, unut vez concebida a altua, o hon1e1n
deixasse t}p anitnisar tudo, absolntanwntc tn(lo. Se
a alma é Vi(la, tuJo o qnc vi v c ten1 uhna: v('ge-
tacs, animacs; se a alma é itnagl'tn, não h a objt>cto
i naninuvlo, por<ptc uào h a eousa vel.
Cotn cffeito, assin1 sueccdeu logo: o ntululo intL·iro
I.-GENESIS DOS .MYTIIOS- 3. f5
povoou -se de almas, e, para alé1n da realidade, a
iu1aginação lnunana creou un1 outro n1undo de som-
bras, de ünagens- que para o selvagmu são r0pre-
sPntações apenas, que depois serão substancias ou
idéas para a n1etaphisica- mundo 1nythologico
ainda hoje existente, até no seu typo selvagern
ou pritnitivo.
Descrever minuciosamente os exen1plos d'esse
estado de animisação universal seria demasiada e
desnecessarian1ente longo: demos apenas os traços
essenciaes. O primeiro e principal está e1n que,
sendo a alma pritnitiva uma representação, a sua
in1agem - i1nagen1 de uma imagem- não é . uma
invenção: é realista. A alma é um bicho para o
sei vagem e para a creança. São bichos, as almas
da terra e as do céu-quando as ahnas das nu-
vens são vaccas para o indio, camellos para o
arabe, etu cuja língua o rugir do leão e a tro-
voada tem o mesmo significado. A alma dos bru-
tos é cotno a alma dos homens: o indio nort' ame-
ricano discute com o cavallo, poupa a serpente
cascavel que teme, saúda os aniluaes como gente.
Os gritos das feras, os cantos dos passaras, os sil-
vos dos reptís, parecem tanto uma falia como a
hun1ana; e entre os brutos e os homens não ha dif-
ferença de essencia; não ha differença de especie
alguma, nas almas que passam, mudam, emigram.
Os ahfs do Vancouver crêem nos animaes almas
hutnanas, que depois virão habitar homens, para
regressaren1 depois ainda ao passaro, ao peixe, á
fera e1u que tinham andado. Os ursos tmn ahna
de gente para os siberianos, as phocas para os es-
quimós, as rolas para os hurões da America. As
n1ais bellas aves, de pennas rutilantes, são a mo-
rada das almas dos tlascalans do Mexico, dos
içannas do Brazil; e quando os patos em bandos
16 L. I. - ANll\fiS.:\10
grasnan1 de noute pelas lagoas, os abipones fi-
cam-se a ouvir o conversar das suas almas. A
communidade dos brutos e dos homens traduz-se
ainda por factos de outra orden1. Na sua rudeza,
o selvagem não faz idéa da morte, porque não tem
ainda nocão de nenhun1a lei. A morte é u1u acci-
dente, maleficio, e recla1na vingança. 1 Quando
na America, um urso matou um indio, fel-o para
vingar outro urso que outro hon1em n1atara : por
isso os caçadores, abatida a rez, pedem-lhe perdão,
fumando com ella o cachimbo-da-paz. Da mesma
fórma o cafre, caçador de elephantes, roga-lhes
que o não es1naguem sob os pés, e logo que os
mata enterra-lhes piedosamente a tro1nba. Os ai-
nos proceden1 com o urso co1uo os a1nericanos, e
os kariaks esfolam-no, vestem-lhe a pelle, dançando
como lupercaes em volta da rez que vão retalhar
e devorar. Os lapões te1nem tanto que a aln1a do
anin1al morto possa vingar-se, que antes ele come-
rem a carne, não só pedem perdão do feito, Inas
offereccm nozes e outros regalos- co1no se o
bruto fosse o conviva e não a materia do festim.
A população inteira dos ares, elos bosques, das
aguas, é uma cohortc de espíritos ou ahnas que
logo se divinisarão, conforme observaren1os. 1\las
nem só os ani1uaes são ahuas: são-no as rochas c
as arvores, tudo, até as cousas mais infitnas, até
os utensílios e vasos dotncsticos que se qnehrant
no fuucral para que e1u espirito acmnpnnhmn o
morto. Bcechcy diz-nos qnc os habitantes da ilha
elo Urso, no Pacifico, quando viran1 chegar o na-
vio cm que elle ia, acrcditara1n ser o de
un1 chefe 1norto pouco antes. Os dayaks de Bornco
conhcccrn o <<cspirito do arroz» -sanw,ngât-padi.
1 V. J•aças lunnanus, 11, pp. 76 o sogg.
I.- GENESIS DOS l\IYTIIOS- .1.. t7
4.
A imaginação apresenta os espiritos em sonhos,
a vista descortina utn mundo inaccessivel nos as-
tros: o nexo entre os dois phenomenos já o leitor
conhece. Vem o acaso (porque a noção da lei é
desconhecida) e traz com sigo a morte- tnn desap-
parecimento. A n1orte é, pois, a chave do enygma
das cousas e o tnytho dos mythos. A morte é
como o somno : o cadaver sonha, a sombra
a ahna fugiu, para habitar as regiões inaccessiveis
do céu n_octurno illnminado de estrellas, e das vi-
sões dos sonhos onde se desdobram os paizes
phantasticos. Quem sonha vive com os n1ortos ; a
noute é escura, o dormente é um cego- a terra
dos espiritos é, pois, um vasto can1po de treva, e
a noute e a morte, em todas as mythologias, uma
guela aberta que, devorando-nos, nos conduz ao
ventre dos monstros da sombra.
Se o homem, vivo ou acordado, parece a si
n1esmo duplo, como realidade e como ahna, o
mundo parece tambem um duplo mundo de al-
mas localisadas em corpos vivos, e ahnas erran-
tes em busca de moradia. Um certo numero de al-
mas habita um certo numero de corpos: quando
algumn morre, a sua aln1a revive n'u1na creança
que nasce. «E os idolatras do archipelago aro-
matico tém o abuso das almas que são iminor-
taes, de um corpo morto se passa a ahna
para outro corpo gerado por conceição na matriz.»
(Eredia, Desc. de lt!alaca) A idéa da in1mortalidade, idéa
inconciliavel com a realidade phisiologica, mas
enraizada no pensan1ento hu1nano e porventura
3
18 L.
ainda por definir na sua pureza, t surge como
uma. aurora, um rudimento, ou um embryão, n'es-
tes mythos animistas prhnitivos. Os khonds, os
lapões, os groelandezes, os atnericanos, os ne-
gros, todos dize1n cotn os yorubas africanos á
creança que nasce: <<afinal, voltaste!» Quem nasce,
resuscita. Por isso os algonquis enterranl os lllOr-
tos á borda dos caminhos, para que as ahnas pos-
sam passar da cova para o ventre das n1ulheres
gravidas transeuntes ; por isso entre os tacullis o
feiticeiro sopra a alma do n1orto para o corpo do
parente mais proxitno, cujo pritneiro filho herda o
nome e o lugar do fallecido; por isso os nutkas
diziam de uma tribu remqta, cuja lingua e usos
eram eguaes aos d'elles, que n'essa tribu vivian1
as almas dos seus antepassados.
Outras \
7
Czes não ha transnligração : ha resur-
reição simples de corpo e alma: assin1 os austra-
lios crêem que os brancos idos da Europa são ne-
gros resuscitados que no outro-n1undo p-ercleratn a
côr ; e os negros escravos no Brazil n1ais de u1na
vez se tétn suicidado para renasceretn na patria.
:Thfas o realistno constitucional de todas estas con-
cepções vê-se aqui, vê-se en1 toda a parte. O es-
pirita, irnagen1 real do corpo, reproduz todas as
suas feições: desde que os senhores ele roça de-
golaratn c tnutilaratn os cadavcres dos suicidas,
a mania cessou no 11razil, }JOrque o espirita renas-
ceria accphalo ou 1nutilado. Assitu, üuuLetn, quantlo
o australio Inata un1 inirnigo, corta-lho o pollegar
para que o espirita, buscando vingat\ça, não pos:sa.
jogar o dardo. 'ratnbetn o negro tc1ne u1orrer de
uma do0nça longa, porque ficar(t tuagro c feio no
outro-Jnundo; c o chincz tént o horror sabido {ts
l V. Ruças humanas, u, 1'· 80.
J.- GENESIS DOS MYTIIOS- I . t9
.atnputaçõcs. E quando, no systema de casos da
tnystagogia christan, os martyres appareciam aos
crentes, não vinham sempre crivados de settas
cmno S. Sebastião, ou como o Crucificado com as
:Suas cinco chagas, conforme foi visto por S. Fran-
cisco de Assiz e outros?
O iroquez faz buracos no tumulo para que a
alma possa sair e voltar. O chinez faz um buraco
no tecto da casa para que a alma passe, quando
alguem morre. O medico malgache vae aos tumu-
los, fura, colhe uma alma no seu barrete e ven1
n1ettel-a na cabeça do enfenno: a doença é uma
ausencia de ahna. l\fas de que especie de ahna?
Porque os tnalgaches concebe1n tres n'utn mesnto
corpo: o «saina» que se dissipa com a morte, o
«aina» espirito da vida que se transforma em ar
puro, e o <<matoatoa» phantasma do tun1ulo. Os
latinos tinha1n tarnbem a «anitna» e o «spiritus», 08
algonquis, egualmente, a alrna dos sonhos e a alma
dos tnmulos.-A concepção mythica primitiva des-
.dobrou-se em duas: a ahna que é ar, céu, lnz,-
essa ahna que para o iroquez voa para o ether
nas azas de um passaro, e ainda sob esta fónna
apparece representada nas estan1pas mysticas do
catholicis1no, -e a ahna que é sotnbra, sonho, tn-
mulo e morte.
No mytho da ahna vê-se a refracção da duali-
-dade organica da existencia astral e 1nental: a
noute e o dia, o pensamento e o sonho. U1n passo
mais, e a luz é virtude, a sombra é maldade; o
-ether do mundo cosn1ico é o céu, a noute das ap-
parições do son1no é inferno. Já relacionadas as
-duas ~ o n t e s da 1nythologia, estabelecido já o nexo
do Inundo exterior e do 1nundo interno, o destino
das almas dos mortos assignala-se depois con1o
consagração da existencia dos vivos. Os bons vão
*
20 L. I.- ANil\IISliO
para os astros, os maus erram pagando as suas
culpas ; os bons habitam uns animaes, os maus
habitam outros. Entre os maravís o bom é cha-
cal, o mau é serpente. A mythologia espontanea
começa a colorir-se de noções reflexas ; a moral,
collando-se ao mytho e dando-lhe expressão, é um
symptoma de progresso.
Assim brotaram na mente dos primeiros ho-
mens, como bolhas de agua fervendo em lagoas de·
crateras obscuras, os primeiros mythos religiosos,
exprimindo as noções provocadas pelo aspecto do
céu e da terra, e pelo ondear dos sonhos nos reces-
sos da memoria. Dentro do craneo passavam no
cerebro dramas phantasticos, dentro da abobada ce-
leste viam-se no ether historias estranhas. Presen-
tia-se n'essas interpretações infantis a essencia ver-
dadeira das cousas, exprimindo-se em palavras ru-
des, em rnythos grosseiros.
Se fitamos o ouvido, a perscrutar os sons do
Inundo remoto, chega até nós o vago sussurro das
almas que habitam por toda a parte os astros e
os homens, as arvores e as pedras, as trevas e a
luz, o dia e a noute, o tunndo e a casa, o bosque
e o mar, as feras e os peixes e os passaros. E'
o murmurio vasto da Inconscicncia Os espiritos
faliam baixo: na noute escura é um cantar de
grilos, diz o algonqui; lun piar de mocho, diz o
n1aori; um sibilar de cobra diz o zulo. E' un1 sus-
surro vago de sons esbatidos, nm palpitar de
idéas latentes, no crcpuscnlo pl1antastico de utn
dia de verão- o dia do pensan1C'nto que Yein sur-
gindo, vestido etn nevoas, involto cn1 n1ythos.
II
Invenção dos deuses
1.
Vogando no tneio d'esse oceano de espíritos, ou-
vindo-os, vendo-os surgir de toda a parte, que si-
tuação rnental póde ser a do hornern primitivo, se-
não a de un1a fragilidade tonta que ao primeiro
revez, ao primeiro caso itnprevisto, se torna em
medo? A creança é por egual Ílnprevidente, cruel
e n1edrosa: assitn é o hotnem pritnitivoo Se nós
não podernos dizer con1 o theologo Schleiermacher
que a essencia da religião seja o tnedo, devetnos
reconhecer que esse estado tnental é a nota predo-
Ininante no espírito do selvagem depois que a sua
imaginação creou os mythos anitnistaso A natureza
é cheia de espectros, a noute povoada de son1bras,
o bosque fechado murrnura. e geme; e quando a
lua do céu espalha rendas de luz pallida sobre os
macissos das arvores sacudidas pelo vento, parece
que a floresta inteira vive, com fórmas que se des-
tacarn e anda1n, com olhos accesos que vêetn, co1n
gemidos longos e 1nurn1urios entrecortadoso Sente-se
terror- o terror do innorninado, esse medo a que
os gregos chan1aran1 panicoo Todos nós experi-
mentámos isto algun1a vez na vida; todos nós vi-
mos alguma noute os deuses dos bosques nas suas
danças, ou o diabo cotn as suas feiticeiras n'um
sabbat o o o Nascidos já em tempos estereis não fi-
22 L. I. - ANil\IISMO
zemos das visões mythos, mas o medo que nos
fez tremer e fugir, o medo do innominado, produ-
zindo-nos o calafrio e a pallidez, foi a impressão-
que levou o homem primitivo a caír de rastos-
adorando um deus.
Esse deus era a alma que a sua imaginação fe-
cunda inventara, era o mytho provocado esponta-
neamente pela impressão dos phenomenos sobre u1n
espírito ingenuo. Desde que, reagindo, o mytho
actí1a, dominando, sobre aquelle que o creou, póde
dizer-se que existe deus e religião ... A. mythologia,
espontanea em si, toma um caracter reflexo, e as
interpretações primitivas das cousas ganhan1 u1n
valor que, sem ser ainda moral, é já irnperativo.
O corpo da mythologia religiosa proprian1ente dita
está pois fonnado : ha uma acção e uma reacção,.
um movimento espontaneo e um n1ovimento re-
flexo, que na sua simultaneidade abrangetn toda a
vida moral: exprimem primeiro a expansão da in-
telligencia sob uma fórma imaginativa, corporisam
depois os movimentos do sentimento sob tuna fórma
cultual.
Nós já vimos como a constituição dos rnythos
espontaneos provén1 das duas fontes parallelas, do
n1undo exterior e do mundo interior, ligadas por
um nexo mais ou n1enos definido. Digtunos ~ g o r a
que a mythologia religiosa -a religião até, pois
por largos periodos ella é apenas n1ythologica, -
consiste no conjuncto dos prodnctos da i•nagina-
ção espontanea e no corpo de scntitucntos qne,
reagindo, esses productos dctcnninatn. A religião
é o n1ytho e o n1cdo: é a invenção sotnnuula ao
effcito. O rnytho é a parte subjectiva da religião,
o medo a sua parte ohjcctiva. Não foi o Hlcuo que
inventou o mytho: foi a inulginação, indcp0nden-
temcntc c por força da actividade propria. J)o tny-
II. -INVENÇ:\0 DOS DEUSES- I. 23
tho, que deu realidade a chimeras, nasceu o medo
religioso: nasceu deus, cuja imagern é sempre du-
pla- be1n ou malfaseja, terrível como as sombras
errantes animadas, ou sytnpathica á maneira da
luz do céu sereno. Se o genio dos povos faz com
qne na esphera subjectiva das varias mythologias
predon1ine, ora o elemento a que chamitmos cos-
Iníco, ora o elemento a que chamán1os psychico, tor-
nando os cultos preponderantes, umas vezes escha-
tologicos, outras vezes pagãos (metereologicos, as-
tronon1icos, etc.), tambem nos deuses inventados
pelo ten1peramento das raças predomina umas ve-
zes a face terrível, outras vezes a face benigna,
conforn1e na alma dos crentes predomina o susto
ou a piedade. E sen1 termos constantemente pre-
sentes estas distincções essenciaes,- a dualidade
dos elen1entos da mythologia religiosa ( espontaneos
e reflexos) e a origem dupla. (cosmica e psychica)
dos mythos espontaneos, jit.mais poderemos em bre-
nhar-nos com segurança na selva obscura das al-
nlas da phantasia.
Selva, dizemos, e não ao acaso. Deus nasceu
nos bosques. A floresta é o berço do medo. Os
ares, os astros, os sonhos povoaram-se de espiri-
tos, mas esses seres eram inoffensivos, sem autho-
ridade: não eram ainda deuses. No seu conjunto
forn1avan1 antes uma theoria- se é licito dizei-o
assim-do Universo, do que um corpo de religião.
D' essa pleiade infinita de seres phantasticos des-
tacaram-se alguns, os poderosos, e o homem pas-
sou a crêr que dependia d'elles: tmneu-os, ado-
rou -os. Só esses foram deuses, ou almas divinisa-
das. Assim como na multidão dos individuos hu-
manos, congregando-se em bandos e tribus, surgi-
ram chefes : assim na multidão das almas se le-
vantaram deuses -almas revestidas de uma autho-
24 L. I. - ANIMISl\10
ridade e de um poder que é tão temivel como o
governo absoluto do regulo, do soba.
Se os deuses nascem principalmente na floresta,
berço dos medos, é eguahnente verdade que não
apparecem por via de regra senão ao homem só :
a companhia dissipa o susto, a conversa distrahe
a attenção. Sósinho á noute, pisando a vereda
afogada em matas, é então que os deuses se n1ani-
festa1n ao indigena das Antilhas- ao hmnem pritni-
tivo, em toda a parte. A raridade das apparições
accre.scenta ainda ao medo, consolidando a authori-
dade do feiticeiro que tem nas suas nú\os a força
de evocar a divindade. Con1 o primeiro deus sur-
giu o primeiro padre, porque uma authoridade que
se sente sem se vêr, a. que se obedece e se teme
sem se conhecer, involve en1 si a necessidade de
um medianeiro. E, na tendencia organica do espi-
rito prilnitivo para tornar reaes todas as apparen-
cias e effectivas todas as supposições, o feiticeiro
confunde-se cotn o proprio deus, encarnando em
si a authoridade mysteriosa. Evocar os espiritos,
communicar-lhes desejos ou ordens por 1neio de
encantamentos, ou propiciai-os por 1neio de offer-
tas e sacrificios rituaes : eis as funcções do mago,
do shaman, do feiticeiro, cuja dignidade sacerdotal
é hereditaria, porque os segredos ou sacra1nentos
(as palavras são synonyn1as) constitumn a tradição
de uma certa descendcncia: fan1ilia, como cn1 quasi
toda a parte, associações ou collegios 1nysteriosos
como os dos negros, dos polynesios e dos aincrica-
nos.
Esses deuses que se destacatn dos nevoeiros das
almas são ainda co1no ellas un1 espelho das fra-
quezas e violcncias dos hmncns. Se ainda a socie-
dade não coustituiu a Inoral, consagrando os usos
proprios, co1no póuc haver noção de justiça na idéa
II. -INVENÇÃO DOS DEUSES- 2. 25
de deuses que são apenas as invenções feitas á
ituagen1 do ho1nen1? O egoisn1o individualista pri-
mitivo, o 1nedo do forte, o atnor do lugar, estão
no coração dos selvagens e dos seus deuses. A ve-
neração é tanto 1naior quanto n1aior é o n1edo; e
o 1nedo cresce em razão directa da supposta força
do espirita, assin1 como a estima eni razão <la pro-
xinlidade. Atna-se o visinho: ama-se ta1nben1 o fe-
tiche do lar cotn quem vivemos, que nos acompa-
nha nas nossas esperanças, nas nossas illusões, nos
nossos planos de vingança, nos nossos projectos de
rapina. E' u1n protector que se invoca para tudo,
se1n dístincção de Len1 ou tnal, porque essa dis-
tincção não existe ainda no espírito do crente: as-
sitn o salteador da Apulia, ainda selvagetni deixa
as velas accesas á i1nagem da 1\Iadona dotnestica,
quando parte de trabuco ao hmnbro a esperar os ca-
mínheiros na serra. O espírito ou aln1a que o fei-
ticeiro evoca está 110 pedaço de pau ou pedra guar-
dado no recesso da choça: o fetiche é o proprio
deus que cada qual traz cotnsigo, escravisa11do-o e
adorando-o a u1n te1npo.
2.
A etytnologia demonstra a origem que détnos
aos deuses. Ahna é synonymo de Son1bra, Deus é
synonymo de Alma. Smnbra-ahna-deus, eis ahi a
tríada. Em toda a Polynesia oriental, affirma 1\'Iax
1\Iuller, deus tem por nome Atua ou Akua, e Ata,
n' essas línguas, significa sombra.
Se todas as sombras se tornaram espiritos ou
almas, concebe-se que as almas partilhe1n todas o
caracter de deuses, embora só se destaquem algu-
mas que se supponhan1 dotadas de potencias ex-
cepcionaes, con1o dissemos. O Inundo coalhado de
26 L. I.-ANil\IISMO
almas póde dizer-se que apparece afogado em deu-
ses. Os indios hidatsas do 1\Iissuri, diz 1\Iathews,
adoram tudo : adoram «o velho immortal », ado-
ram «O grande mysterio, » adoram o homem, o
sol, a lua, as estrellas, os animaes, as arvores e
as plantas, os rios e os lagos e as rochas; adoram
certas collinas isoladas, certas cavernas solitarias;
adoram tudo o que existe por si e independen-
tetnente- adorando a individualidade, nucleo .da
alma, nncleo da vida mental selvagen1, quer o in-
dividuo seja um animal, quer um monte ou uma
penha destacada.
Conforme o genio da raça, co11forme o clin1a e
o local, conforn1e a historia, assin1 o anitnisn1o pri-
mitivo, desde que se faz religioso, se torna n'um
pan-theismo ou n'u1n pan-demonismo; n'nm sys-
tema de nuvens divina& protectoras, ou de espiri-
tos malignos diabolicos. Pot· outro lado no proprio
seio da mythologia animista ha graus e na serie
das tribus selvagens u1na snccessào de estados
ethnometricos. A mythologia do negro é infantil,
simples e prosaica; a do pelle-ver111elha é poPtica,
son1hria e melancolica; mais aeria, mais Ílnagi-
nosa, mais alegre e feliz, é a do polynesio. O bos-
chimano cac;ador tem um animismo infin1o, o cafre
e o hottentote pastores tém uma n1ythologia mais
dôce. Os mythos das tribus guerreiras são crueis,
os dos povos con1n1erciantes c industriosos n1ais
mansos, porém mais cavilosos. E' infinto o ani-
misnlo dos fncgianos, dos ln·azis, dos parnpas, dos
botocndos, dos ototnaks, dos soshones, dos con1an-
ches; é superior o dos caraibas, dos hyperboreos
c dos csqninH)s ; é superior ainda o da3 triLns do
sul do Canad;i, do oriente do l\[issuri t qne os via-
I v. p:1.1·a ns clnes. •lnt1 t•ovoR, As 1·açaa 1uunm.as
1
r, pp. 31 o sogg.
11.- INVENÇ:\.0 DOS D E U S E S - ~ . 27
jantes cquiparan1 ao mon1cnto uttingido pelos po-
lyncsios, con1 os sens cultos organisados, até con1
unut thcoeracia Lascada na adoração do sol (lno-
lTIC'nto cnhninante da rnythologia, e expressão de
vida civil agrícola), conforme succede aos natchez.
Isso que nos natchez se observa ctn rudimento,
foi o que a historia viu- c nós contaremos a seu
tcn1po- nas n1ythologias dos mexicanos e perua-
nos, n1ythologias solares a que a Anterica chegou
evolutivatnente dentro do typo ani1nista. E' isso
tambem o que a n1ythologia do Egypto, summa do
animistno, nos demonstrará e1n breve, e o que pa-
tenteia a mythologia religiosa dos finnios. Na Asia
setentrional e austro-meridional, na Polynesia, na
Africa, na America, o ani1nistno, desenvolvendo-se
sobre si, deu typos mais ou menos avançados de
n1ythologia; en1 todas essas regiões a soberania
divina da Lua passou para o Sol, á maneira que
as sociedades passavam de um estado selvagen1 ou
barbaro para u1n estado ethnicamente culto. Che-
gou-se até a inferir d'esses exemplos de desenvol-
vintento parallelo uma affinidade de sangue, por se
esquecer a identidade do espirito hu1nano, ou o
caracter morahnente especifico do hon1em. Bopp
chegou a pretender mostrar a unidade dos polyne-
sios e dos indo-europeus; Gerland não é o unico a
enfeixar n'nn1 r:uno hottentotes, cafres, han1itas e
semitas; Hurnboldt defendeu o parentesco dos po-
Iynesios e dos an1ericanos. Não é este o lugar
para nos alargarmos n'esses problemas de ethno-
logia, tanto mais, que o assumpto vetn aqui apenas
incidentalmente e já foi tratado n'outro lugar. 1
O Egypto antigo mostra-nos n'um typo a evolu-
ção propria do animisrno e as mythologias polycle-
1 V. Ra;as lmmaltas, r, pp. 3G e segg.
28 L. I. - ANI.MISl\10
monistas dos selvagens vivos são-nos o docun1ento
de um estado que foi o estado commum da huma-
nidade. t
3.
N' essas edades, rernotas para nós, actuaes ainda
para u1n numero já rela ti va1nente nlinimo de ho-
mens, o nosso espírito está de joelhos, com as
mãos postas n'uma adoração ou n'un1 terror intiino
de tudo o que o rodeia, hesitante, vacillante, cheio
de escrupulos e superstições cujas reininiscencias
enredam ainda o viver das populações sitnples dos
nossos ca1upos europeus.
E' possível fazer o inventario dos deuses, quan-
do tudo são espíritos divinos ou de1noniacos? Esse
catalogo encheria volu1nes e ficaria setnpre incom-
pleto. Quen1 é capaz de contar a infinidade de fo-
lhas que rebenta1n pelas plantas de todo o n1undo,
nos ca1npos, nas serras, nos 1nares? Pois assim
rebenta1n os deuses quando a seiva da ünaginação
creadora corre con1 o sangue nas veias do cereLro
do h01nem prünitivo. Os deuses são os aspectos da
Inconsciencia.
E' deus para os fidjis a pedra que se ergue iso-
lada na crista de u1na 1nontanha; são deuses por
toda a parto, deuses ou fetiches (cousas qno para a
inutginação prinlitiva se confundCin), os Inetoreoli-
thos : não possumn ainda virtudes para o nosso
ca1nponoz as pedras-de-raio? 2 Os n10xicanos
ravaln a poch·a qne caiu porto do Chico1noztoll, as
Sete-Cavernas, co1no utn filho divino de Ü1ncteuctli
c ()rnccihautl. Os arabes adora1n aiuda a Santa-
1 V. l!:lem. tle Anll&roJlologia (2.• ml.) 1'1'· \'III; o Raças luun. Xl.lV-V
(intl"Oll.)- V. /mm. u,
11.- INVENÇÃO DOS DEUSES- 3. 29
kaaba, a pedra sagrada de Mcka, cuja tradição
rosa ter brilhado primeiro como lume, ter-se de-
pois apagado e ennegrecido de horror pelos pecca ..
dos dos ho1nens. Os mesmos arabes adoram tam-
benl a pedra da n1esqnita de Omar em J erusa-
lein; os christãos, na demonologia moderna, da-
vam u1n valor 1nysterioso ás pedras-de-ara, base
de tantos sortilegios e bruxarias. O mundo inteiro,
nos animismos actnaes e nos restos de mytholo-
gias archaicas, documenta o velho culto dos deu-
ses-de-pedra.
São mais ainda os deuses-do-mato, mais vasto
o reino da mythologia vegetal do que o da mine-
ral. Deus cresce co1n a natureza. Quando ainda
hoje o lenhador allemão resa á arvore antes de a
abater, ou lhe pede perdão de lhe cortar os ran1os ;
quando o inglez tem 1nedo de metter o sabugueiro
no hune; quando restam entre nós, europeus, tan-
tos vestigios do culto das arvores, estes exemplos
servem aos sabios para comporem os catalogos dos
velhos deuses vegetaes que mais de um povo ado-
ra ainda, como nós os adorá1nos ha seculos. Os
khyen do Arakan vão e1n romaria, prostram-se
em volta do subri, um zan1bujo das suas charne-
cas, immolando-lhe sacrificios de porcos e galli-
nhas.
Os deuses-do-sangue são mais numerosos ainda
do que os da vegetação: a natureza cresce. Só
algumas pedras, só alguns rios, só algumas arvo-
res se adoram; todos tém almas, mas nen1 todas
essas ahnas sobem á categoria de deuses. Tén1
alma tambem os ani1naes, mas nem todos, tã.o
pouco, appareeem divinisados. Conltudo ha mais
deuses entre os aninutes, do que entre os vegeiaes
e os elementos. O Nilo é deus no Egypto, mas o
pantheon egypcio é um museu zoologico. O lapão,
30 L. I.-ANIMIS::\10
o ostiak, os siberianos en1 geral, adora1n o urso; o
indio adora o tigre. Os de Fidji e Sa1noa veneram
passaros, os africanos crocodilos, n1acacos e serpen-
tes. Os tupis, dizia o nosso Vasconcellos, «cree1n
invisi \Tehnente o diabo em formas ridiculas de mos-
quitos, sapos e ratos,» e no Daho1ney é fortuna
ser n1orto por un1 leopardo. Os bijagoz adoran1 o
gallo, os benins o lagarto- e o rei. Por toda a
Africa a serpente é tun deus- sy1nbolo da eterni-
dade pelos circulas que descreve, pela pelle que
n1uda todos os annos.
Que ha os deuses-dos-astros já o leitor sabe;
que o firn1an1ento é povoado de aln1as já o viu.
lhe contá1nos· alguns dos dra1uas que vão pelo
céu; já assistiu ao ataque das 1uatilhas de caens
mordendo a lua nos eclypses. O desespero do sel-
vagem contra os demonios ou deuses-n1aus do ar é
universal: os nan1aquas crivam as trovoadas de
settas n1olhadas en1 veneno; os payaguas correm
de punhos cerrados ou brc1ndindo tições ardentes
contra o vento que lhes a1neaça as cabanas; os
esthonianos atiran1 pedras e navalhas aos turbi-
lhões de poeira tuneaçando-os co1n gritos; os kal-
niukos clisparan1 as espingardas contra o tmnpo-
ral; os zulus as8obia1n o relan1pago para que
deixe o céu, it n1aneira elo que fazCin ao gado
para largar o aprisco. Tudo o que entenebrcce o
ar, tudo o que vela a luz dos astros, tudo o que
destroe o equiliLrio da atinosphera -.- tuuo isso são
maus-deuses, srio den1onios. Deus é a estrclla,
<lcns é o sol, deus sobretuuo a lua. A nn1 n1issio-
nario que se qneixava de calor· un1 fuc-
giano cptc «não ofl"endcss0 o sol.»
,.J:í. nas 1nythologias nutis ru<litncntarPs apparccc
1un en1 Lryão Inonotheisnto. 0::; são deu-
ses, rnas o deu8 por cxeclleucia é o ar, a luz, o
11. -INVENÇÃO DOS DEUSES- 4. 3l
cther e111 que OS astros vivem e andam. rruni-
Go:un, o deus por excellencia dos hottentotes, é
traduzido pelos linguistas como o clard.o da alvo-
rada, un1 Dyaus d'esses africanos. O deus dos ca-
fres é o firtnainento inn01ninado; e o arahe do de-
serto, adorando as pedras e as montanhas, resi-
dencia de aln1as, adorando Turayyâ nas Pleiadas
e a triada dos deuses lunares, já adorava Allftt
ou Allilât ou Al'U zza, e todos os semitas Ilâh ou
Shatnsh, o sol.
Se, portanto, já no pensamento animista os deu-
ses astraes, se1n se fundirem ainda, estão subordi-
nados a un1 deus eminente, é que todo o ar ou
ether é um n1ysterio- utna alma diffusa. A emi-
nencia dos deuses foi subindo, desde a rocha até ao
céu: resta agora entrar no cerebro, para passar
do mundo externo para o interno e vêr os deuses
na fonte inti1na ou psychica de onde tatnbein saí-
ram as ahnas. A alma é sombra, deus é alma; a·
aln1a é ta1nbem o ar, esse ether que já vitnos di-
vinisado. Todas as visões, todas as allucinações
do espirito serão vozes de deuses vivos.
4.
Quando os láos de Sião penetram nas florestas
espessas d'essas regiões genesiacas apparece-lhes
Phi-phrai que os persegue. As febres que bebem
no ar carregado dos n1iasn1as do chão alagado e
podre s?to o maleficio do deus que a sua imagina-
ção inventou e a sua ingenuidade teme. Phi-phrai
são as visões da floresta, Phi-lok as apparições da
noute, nas encruzilhadas, á beira dos caininhos,
tre1nendo pallidas con1 o clarão da noute por entre
as ramas das arvores, vagueando em torno das al-
deias com vagidos, n1urmurios, sussurros - os ru-
32 L. I. - ANil\IISl\10
mores mysteriosos da noute dos campos, povoada
de sombras extravagantes. Os Phi-pob introduzem-
se no ventre dos homens e roem-lhes os intesti-
sos.
Como o Phib-pob de Sião é o Upir ou Upior dos
slavos, pae dos van1piros da Edade-media, que se
sentam sobre o peito dos que dormem e lhes chu-
pam o sangue. O Penyadin dos n1intiras de l\Ialaka
tem un1a cabeça de cão e uma guela de crocodilo :
chupa o sangue pelo artelho. l(oin suffoca o aus-
tralio a dormir ; Na esmaga o ventre do l{aren
birmane; 1\Iaboya fustiga o caraíba; e a Nova-Ze-
landia possue no seu inferno succubos e incubos,
como os da nossa Edade-media.
O somno é por toda a parte perseguido por
deuses-maus, por esses demonios que habitan1, não
só a floresta, como o deserto nú: «O deserto dos
demonios é aquelle deserto de Lot entre o Tur-
questan e o '_I:'ugut onde visivelmente encontram
os clemonios continuan1ente em figura de pessoas
conhecidas que chatnatu pelos can1inhantes por seu
nome como se os conhecera por algum ten1po; e
parecem d'estas visões nnlitas vezes n'aquelles de-
sertos e morn1ente se ouvem arn1onia de vozes,
suaves cantos e som de varies instrumentos de
musica, con1o tyrnpanos e alaudes e cravi-organos,
etc. ] ~ os idolatras tétn este deserto de Lot cotno
sitio de encantamentos em que os corpos estão inl-
mortaes gozando da quietação daquelles catnpos
clysios da fonte do Ganges.» (Eredia, Decl. u. descr. do
Catltay)
N'este n1omento do nosso estuclo, quando assis-
titnos :í. anitnisação universal, quando j:í. Yintos ex-
trahirPm-se df'nses do seio das almas diffnsas, é
neccssario insititir n\un ponto: o caracter dualista.
dos deuses, que são bons c n1aus, 11ão no sentido
11.- DOS DEliSES- '· 33
de serem virtuosos ou perversos, isto é, n'un1 sen-
tido ethico ainda por definir, n1as que são bons
on n1aus, conforn1e nos são ben1 ou n1alfasejos. E'
necessario notar ao mesmo tc1npo que, se na natu-
reza exterior ha deuses bons e deuses Inaus, os
deuses da allucinaç?ío, deuses da naturc7.a inte-
rior on psychicos são qnasi invariavehnente mali-
gnos. 1\['burri, o grande-espirito do ether na .Africa
equatorial é n'umas tribus um deus bom, e1n ou-
tras un1 deus mau; o l\:forin1o dos bechuanas é ori-
gein sünultanea de todo o bem e de todo o mal, e
são assim indistinctos os deuses dos siús egual-
mente. O caso dos yezidis que adoram no ser su-
prerno o mal absoluto não é u1na excepção, diz
Latham. A natureza exterior cria, pois, deuses de
toda a especie, bemfasejos, n1alfasejos e mixtos.
l\Ias todos os deuses da visão interior, todas as
som bras que n?ío té1n outra realidade mais do qne a
allucinaçâo ou o sonho, são por via de regra n1aus.
Diz-nos Lubbock que o australio tem u1n grande
medo da escuridão : ora esses deuses são os deuses
da so1nbra- sombra allucinante da noute. Como
deixaria de ser malfaseja a divindade que, ferin-
do-nos, produz e1n nós o medo? O pensan1ento
htn11ano, ainda involvido nos limbos mais espessos
da Inconsciencia, revela n'nm instincto organico a
ambição da luz que é o symbolo da realidade. Os
deuses do· ar são almas que ninguem vê co1no
taes: mas todos vêem os astros onile essas aln1as
vivem, todos vêem o ether, ou antes vêern) por
isso que ba atmosphera. O deus que se vê, é tnn
deus propicio ; o deus que só nos apparece cm
son1bras, nos sonhos, nos terrores da
deus obscuro, origem do medo, é um deus nlale-
fico.
D' estas duas gerações de deuses, filiadas nas
4
34 L. I. - ANIMISl\10
duas origens parallelas que observámos na mytho-
logia, forrnatn-se na religião dois corpos de dou-
trina correlativas: os astros medianeiros do ether,
a lua que preside á vida moral selvagem, e as
arvores, as pedras e os animaes, constituem essa
face do culto externo a que já mais de utna vez
chatnátnos paganistno; os Inortos, ou antes as al-
D1as dos mortos, errantes cotno son1bras, ou en-
carnadas em certos bichos, são os medianeiros do
vasto imperio da smnbra onde reinan1 deuses que
são de1nonios, e d'essa face obscura da tnythologia
religiosa nasce o systetna da eschatologia, ou culto
dos mortos.
Por ahi seguire1nos o nosso estudo.
III
Animisação dos mortos
1.
Já dissemos que para o selvagmn a morte é
urn caso fortuito: não ha morte natural. A morte
ó a acção 1ná de algun1 feitiço, de algum espi-
rita. O africano, o australio, interrogan1 o cada-
ver para que lhe diga o author do crilne- se foi
o fei ticciro e por meio de que sortilegios ; o cada-
ver responde sempre- de que milagres não é
capaz a superstição?- e entre os wakhutus, diz
Burton, ningumn está seguro de não ir arder na
fogueira, dia 1uais ou dia Inenos, e1u desaggravo de
un1 morto. D'este ponto de partida inteiramente
obscuro da fortuitidade da 1norte projecta-se urna
evolnçlo, a cujos primeiros termos va1nos assistir
agora; evolução que tem nos nossos dias, com o
espiritualisn1o da philosophia, a sua ultitna expres-
são na doutrina da in1mortalidade da ahna. O Iny-
tho que nasceu nas trévas do som no es vae-se no
fu1no de u1na chimera metaphisica herdada da re-
ligião.
O leitor sabe t que para o selvagem o morto é
u1n hon1c1n que donne o «SOn1no eterno»,- esta
nossa express:lo 1netaphorica expri1niu u1na noção
realista. Se o vivo tem uma ahna que se liberta
1 V. Raças liv. nr, c. u, 3.
*
36 L. I. - ANil\IISl\10
nos sonhos, se durante o somno essa alma
que será o cadaver senão o habitaculo vasio de
um espirito ondeante? De todas as almas dos se·-
res, e nenhum ha inanimado, a alma que o ho-
nlem conhece melhor, aquella com quetn pratíca
diariamente pela callada da noute, é a alma pro-
pria ou a alma do seu sin1ilhante. A alma humana
torna-se, pois, o typo dos espiritos tnysteriosos; a
morte apparece con1o somno por excellencia, em
que os sonhos fugitivos das noutes se tornam a
vida normal: o n1orto é un1 hotnetn anin1isado. Por
outro lado, sabe-se como foi que os deuses saíram
do mar in1n1enso das almas ondeantes em vagas :
o morto cohabita con1 os deuses, desde que se
torna da mesn1a substancia d'ellcs; o n1orto é, pois,
quasi como um deus, ou um de1nonio --é un1 espi-
rita, un1 demiurgo, un1 medianeiro entre o visivel
e o invisivel pela estrada 1nythologica de que a
porta, a «guela», é a morte.
Relacional' a 1\[orte com a Divinrlade é esbocar
nas suas primeiras linhas un1 systcnut
dente. A mythologia anin1ista dos selvagens, pelo
ca1ninho subtil que te1nos percorrido, attinge n'este
momento a etninencia de nn1 corpo ou de un1 ru-
diJnento de philosophia da existencia. Da selva
ondeante das ahnas s:íe nn1a noção da 1\-Torte que
é vagan1ente a esscncia elo pensatnento de Deus,
porr1ue o n1orto partilha a substancia da divindade
e as r(\giões onde existe são o n1undo onde os deu-
ses habitam.
Deus ou dcmiurgo da visão psychica, o n1orto é
por via de r(\gra nm 1nan-cspirito- cmno todas as
almas elo tnnn.lo subjectivo, todas as invenc;ões da
treva dos SOHinos; c o phenon1cno <l:t n1orte, typo
real elo atlonncciniCuto, é o ohjccto Cin qnc se
concentra toda a energia do 1ncdo. A «gucla» te-
..
III.-ANUIIS.\Ç:\0 DOS l\IOnTOS- t. 37
nlivel que absorve o h01nem, reduzindo a podridão
c nada. o corpo vivo, é o 1nysterio insonuavel
que povôa a vida de terrores affins dos terrores
divinos.
Quando a aln1a do que n1o1-rcu apparecc e falia
ao qne está vivo, erriça1n-se os caLellos, b·en1e a
pellc nas convulsões uo frio, confrange-se o ventre
e e1nn1udece a lingua: o vidcutc é a cstatua do
1\Iedo. Os sakalaves de 1\Iadagascar tén1 no terror
pelos zulus, ahnas-dos-n1ortos, o 1nesmo senti1nento
que muito hon1c1n dos nossos dias experin1enta pe-
las almas-do-outro-nn11Hlo.
1\las o Inundo invisivel dos espiritos, que está
para alé1n do tun1ulo, não é só a região da som-
bra: é tanlOCln o oceano do ether, o 1nar vasto e
lu1ninoso onue nadam os astros-deuses. Para além
da can1pa ha, portanto, un1 bmn e u1n 111au lugar,
assi1n con1o ha dia e noute na natureza, c 1naus e
bons espíritos- espiritos da tréva e do bosque, es-
l)iritos da luz e dos astros. O espectaculo da natu-
reza, as invenções da i1naginação, prepararan1 o
n1olue onde havia de ir caír a distinccào de be1n
e 1nal, de pena e premio - idéas 1 n ~ · a e s que o
desenvolver da sociedade formúla no pensamento.
O deus da 1norte, ou a l\1orte-divina, é o dispensa-
dor ou o juiz dos homens e o que abre as portas
do céu e as portas elo inferno, confonne o n1ereci-
1nento das acções elo que 1norreu.
A deternlinaçào de u1n destino na vida ultra-tu-
mular é a consequencia immediata da prilneira
comprehensão da 111orte como nucleo positivo de
todo o systmna da 1nythologia anitnista. Partindo
d'esse nucleo, a 1norte consagrada abrange no
seu seio os homens e os deuses, porque os deuses
do Inundo exterior, deuses da natureza real, té1n
co1no os homens u1na dualidade de existencia: in-
38 L. I. - ANil\IISl\10
definida (nen1 sempre eterna) como espíritos, mar-
redoura como seres.
Tal é, nas suas linl1as essenciaes, a. conclusão a
que por este caminl1o chega o animismo prilnitivo:
utna difinição do mundo que tem cotno nucleo a
morte. E' o que nós teremos occasiào de vêr pra-
ticamente no Egypto -o typo do anitnis1no. Pela
estrada parallela da n1ythologia cos1nica dá-se
uma evolução propria que notaremos a seu tempo.
2.
Agora necessitamos esboçar, documentando, os
momentos que deixámos indicados.
Dissen1os que o ponto de partida está na noção
simples da vida ultra-tumular cmno unut vida na-
tural: assitn é. não van1os entender por vida
natural tuna existencia nortnal: não. A existencia
do tnorto é realista, 1nas de tuna realidade phan-
tastica e extravagante, variavel co1n os povos. Vive,
cotno sombra, e a:pparecc durante
os sonhos, sen1 que, porétn, n'esse 1uodo de existir,
as necessitlades sejatn diversas das da vida terres-
tre. () pclle-vennclha é enterrado co1n o cavallo, o
groelandcz con1 o rengifer. São frequentes os sacri-
t!cios de escravos e nntlheres. Ainda até ha pouco,
na Suecia, n1cttia-se na cova o cachi1nbo e o sacco
de tabaco, phosphoros c n1oeda para uso do ntorto.
Não é geral entre nós enterrar os :pC'rsonagcus
corn as suas fardas c condecorações ( En1 ltei-
chelnbaeh, na AllC'tllanha, poetn na cova o chapeu
de sol c as galoclws; na l{nssia. u1n par de sapa-
tos novos- para a longa. viagcn1! O padre russo
lavra a cPrticlào do baptisn10 co1n o notnc c si-
gnacs do fallccido
7
attcstando a bondade dos seus


111.-ANIMISAÇÃO DOS l\IOUTOS-2. 39
costumes, a pureza da sua fé, c, dobrando o pa-
pel, 1nettc-o sobre o peito do cadaver, como passa-
porte.
J ~ í tamben1, ao desenhar no seu conjuncto o
processo de animisação universal, dissemos o que
era necessario para se comprehencler o destino da
ahna humana posterior1nente á morte. Antes que
houvesse icléa de u1n premio ou de um castigo ul-
tra-tuinular; antes que a ultra-vicla se tornasse
tuna consagração da vida real, já o animismo,
instinctivamente, procurara assentar doutrinas ácer-
ca da existencia das almas dos mortos. Entre os
beduinos, o morto apparece como coruja; os groe-
landezes poen1 na cova das creanças uma cabeça
de cão, para guiar a alma insipiente na sua via-
gem. Por toda a parte os n1ortos habitam ani-
Inaes : os bois e os porcos são por isso sagrados
entre o khyen do Arakan, e o tigre é o vehiculo
de tuna aln1a para os garos do Assa1u. Da idéa
de que as ahnas habitam os aniinaes, á opinião
de que se descende de alguma especie de brutos,
a transição é breve. O facto é con1mum. Os poly-
nesios « affirn1a1n descender as gentes de ani1naes,
aves e plantas. . . porque certificam as historias
nascer as famílias dos reis de Gilolo e l\:Ialuco de
ovos de cobra ou serpente, e os reis de Lubo do
JVIacasar da medula de bambu de canaveaes, e ou-
tros de pedras e cousas particulares e desnecessa-
rias.)) (Ercdia, Decl. de l'rlalaca) As opiniões ácerca da ori-
gem relacionam-se directamente com as theorias
da morte.
Quando as ahnas não resuscitam, porque a ul-
tra-vida se não formúla como metempsycose, po-
voatn em bandos o ar e as aguas : assim os sho- _
nis americanos cree1n ter perdido o privilegio que
tinham de andar sobre o oceano a resuscitar as
40 L. I. - .\NIMIS.:\10 .
ahnas elos mortos embaladas nas ondas. A arreben-
tação do mar sobre os baixios é para os 1nalayos a
legião de « aln1as que passe1lo por lo oceano de hua
})arte pera outra, ou cotno caffilas vão do Cherso-
neso aureo ou Viontana do Gunoledatn pera o ryo
Gange. » (lllid.J ------
Quando 'se c01neça a definir u1n mundo invisi-
vel de espiritos, parallelo ao mundo dos seres vi-
vos, concebe-se que os mortos, despida a fóriua
terrestre, reproduzan1 na outra-vida as condições
da existencia n'este. O rei é rei, escravo o escravo.
No Walhalla scanclinavo não tém lugar os servos
nem os pobres; o cotnn1un1 dos insulares de
'ronga ne1n tem ahna ne1n futuro : a inunortali-
dade é u1n privilegio. Se já quando habitava1n
animaes as almas se distinguiam, pois para o zulu
a cobra em que u1n chefe morto encarnou distin-
gue-se cl'aquella e1n que vive u1n popular, co1no
não hão de 1nanter-se as distinccões no n1undo
phantastico? Os 1naoris, para qt;etn as cstrcllas
são o olho esquerdo dos chefes fallecidos, crêem
que todas as ahnas sobe1n ao finna1ncnto e caetn:
só os chefes fica1n de là vigiando-os, protegendo-os,
ou a1ncaçando-os co1no e1n vida. Sú os chefes,
tan1bmn, ficavam nas nuvens caçando, pescando,
bebendo: assin1 o pensavan1 os scandinavos. Os
daho1nés ·n1o1:tos vão para o kuto1nen : o rei con-
tinúa ahi a ser rei, c o escravo, cscr,tvo. Por ou-
tro lado, nas idéas eschatologicas dos o
n1orto vac encontrar no outro Inundo as alnuts dos
iuirnigos protnptas a castigai-o, e até as ahnas elos
animaes que 1naltratou, pron1ptas a pcrscgnil-o. Da
lticrarchia social c do instincto da justiça, sae conl-
Linadmncnte a idéa de Ulll destino 1noral na e:xis-
tcncia ultra-tu1nular.
'rCinos já, portauto, não sú fonuula.ua. a illéa de
III.- ANI.\IISAÇÃO DOS 1\IOfiTOS- 2. 41
un1 u1nndo especial dos 1nortos, cotno csLoçado um
systerna de escolha no destino das ahnas. Un1a
doutrina diz que o paraizo cmnpete aos grandes,
acaso j<-t aos Lons: os 1nesquinhos fic[un errando
no vago. Outra, a dos nicaraguas, diz que apenas
os bons gosmn a itnmortalid<1de : os maus são ani-
quilados. Outra, a dos daho1nés, que o 1nundo ul-
terior é como este, ctu que os poderosos n1anté1n
o seu poder, os n1iseros a sua 1niseria.
Nasceu do nasceu da noute, a
idéa de que o 1nuudo ulterior dos 1nortos é subter-
raneo e escuro? A linguística, dissecando os rny-
thos, não o tetn dito ainda sufficientetnente. O
Atnenti, l{er-neter dos egypcios, I-Iades dos gre-
gos, Orco dos latinos, Hell dos povos germanicos,
é co1uo Scheol dos hebreus, -palavra que, desi-
gnando o tutnulo, designa o inferno.
Nunca o naturalis1no dos hebreus attingiu na
concepção da ultra-viJa a nitidez iJcalista dos gre-
gos ; o realistno anitnista- isto é, a noção de utn
viver en1 espirito a que não é essencial a idéa de
imtnortalidade por isso n1esn1o que o espirito não
é u1na suLstancia,- foi o estado 1nental d'onde
não pôde sair a 1nythologia dos smnitas. ·Entre-
tanto, não é nlistér estudar povos que entraram e1n
condições de vida civilisada para descobrir as co-
gitações tnais ou n1enos extra vagantes provocadas
pela concepção de utna existencia particular dos
1nortos ani1nisados, existcncia que é ao 1nesrno
tetn po a consagração da vida real por ser o pre-
lnio ou o castigo das acções.
Nós vi1nos que já a si1nples observação rudi-
Jnentar começou a distinguir no hotnetn duas es-
pecies de ahna : a alma-organica, da respiração ou
da circulação, e a ahna-sotnbra, a ahna-iinagein, a
aln1a-sonho. A concepção do outro-1nundo destaca
42 L. I. - .-\NIMISl\10
n1ais ainda a separação das almas individuaes. Os
dakotas tém quatro almas: tuna fica na cova com
o cadaver, outra vagueia na aldeia, outra anda er-
rante nos ares, a ultima, finalmente, vae habitar
no Inundo dos espíritos. Os karens binnanos cha-
Inam lá ou kelá á sorn bra viva do n1orto, e thah á
ahna responsavel. Os khonds de Orissa distinguem
no ho1ne1n quatro aln1as similhantes ás dos dako-
tas: uma que se dissoh.,.e com o corpo, outra que
vae povoar as sombras do ar, outra que pertence
á tribu e encarna de geração e111 geração transtni-
grando, outra finalmente que sobe ao céu de Bura
para ser beatificada. A' 1naneira que as noções ou
se dcsenrohnn, deduzindo-se no cere-
bro, assi1n a imaginação vae inventando novos
1nythos- ahnas que exprin1em cada utn dos no-
vos estados n1entaes.
A noção 1nnis recente, o strato superior da Iny-
thologia eschatologica, vê-se na idéa da ahna par-
ticular, quasi divina, que vae habitar a 1nansão
eterna e predestinada. As outras almas, vivendo
no tntnulo, errando nos ares, ruigranclo na aldeia
de corpo e1n corpo nos n1embros da tribu, ou de
animal ern anirnal, silo j{t ca1nadas retnotas ou do-
cumentos de u1n estado archaico do pensatnento
animista. A invenção consiste agora na ahna que
é deus ou deiniurgo, vivendo n'tun céu ou n'tun
inferno cm contacto con1 deuses, bons ou u1ans,
cuja substancia partilha. Os chinezcs, quando cunl-
prenl certas festas sngradas en1 honra dos a vós,
dizem exprcssivatnente que vão «fa7.cr compnnhia
aos deuses.>> E d'csscs n1csn1os chiuczcs nos conta
o nosso Fernão 1\Iendcs Pinto qnP d?io aos sacer-
dotes dinhPiro conh·a letras de curhimiocós,
cujo paganH·nto, a cento por nnt, se effectna no
paraizo. (PtTffJ1". u, 115) Assin1 tan1hCin o sacerdote ca-
III.-- .\Nl!\IISAÇÃO DOS MOHTOS- 3. 43
tholico vende ou vendeu por nntito tempo as In-
dulgencias.
3.
No seio da propria morte obscura, objecto de
un1 terror prirnitivo, o hon1cm co1n a sua itnagi-
nação creadora projectou un1 clarão do luz. A v c
co1n azas de icléas, a i1naginação poz na rnorte a
consngração da vida e desde logo o tumulo se
transfigurou. Prin1ciro, para soltar-se a s1 e ao
n1unclo da fatalidade obscura, inventou as ahnas;
depois, essas ahnas desdobran1-se em naturezas
di versas. Incapaz de conceber e de se confor-
niar com a idéa de un1 aniquilamento absoluto,
poz dentro do corpo tun sopro phantastico: o ca-
da ver sutnia-sc, poré1n a alrr1a errante, solta, con-
tinuava tuna existencia propria. Agora já isso nrio
basta. O cadaver fica no tumulo como o casulo va-
sio e n1orto do insecto alado, e junto á cova, errante
no ar, fluctna a ahna antiga- porque a no,va ãhna
voou, fugindo para o mundo dos deuses.
'roda a ruína é nliseravel, todo o residuo des-
presivel, toda a corrupção funesta. Se o cadaver
apodrecendo envenena, tambem a ahna inferior, a
da sotnbra, a da noute remota, a velha ahna pri-
Initiva, tan1ben1 ella é un1 ser maligno, uma exha-
lação da cova, um miasma da morte. A invenção
eminente subiu nas azas da alma subtil para as re-
giões do ether.
Por isso en1 toda a parte as apparições tumula-
res são tnalignas ou demoníacas, por isso a cova é
um lugar in1puro, e o ar e a caza onde alguem
morreu necessita ser expurgado. De que? do es-
pirita inferior do tnorto, que permanece, ondeando
na visinhança do cadaver, perseguindo os VIvos,
44 L. I. - ANDIJSliO
apparecendo-lhes, assustando-os como almas-do-ou-
tro-mundo. Os indigenas de Queen's-land varejam
o ar nas occasiões de festa para dissipar os formi-
gueiros invisíveis dos espiritos aereos ; os ameri-
canos fazmn outro tanto para afugentar a alma
vingadora elo initnigo, quando acabaram de o ma-
tar; os eskin1ós á mesa, perseguidos por espíritos,
sacodem-nos coino nós ás n1oscas; os congos não
varretn a caza por um anno depois de morte de
homen1, para não offenderen1 com à vassoura al-
gum espirita. Uns armam redes e laços para pren-
der as almas; outros, con1o os hottentotes, não
voltatn á casa onde houve morte, cotn 111edo de to-
par cmn o phantastna. O feiticeiro samoyede lison-
geia o 1norto cotn palavras pedindo-lhe que não
pC'rturbe os vivos, nem afaste a caça. O yakut
deixa caír em ruínas a cabana onde alguem mor-
reu : não ha pelas nossas cidades e aldeias casas
abandonadas por ahi appareceren1 aln1as? Os karens
chcga•n a arrasar aldeias para evitar as persegui-
ções aninlistas. Os groelandezcs fazcn1 sair o cada-
ver pela janclla, os san1oyedcs e os hottflntotes por
Uln buraco na parede, logo entaipado -para qne o
phantasn1a não volte. Asshu diz o povo etn Lisboa
de uni palacio cujo portão o dono n1anclara por tes-
tarncnto fechar logo que o seu caixito saísse. Os
siauiCzcs procede1n cotno os hottcntotes. Os chu-
vaskas da Sibcria lançan1 apoz o cadavcr tuna pe-
dra rubra cm fogo, para a aln1a não voltar; c os
<'arnponezes da Po1nerania <le hoje vasnn1 u1n balde
dn agua atraz elo caixão, os de llrandcburgo dei-
x:un no ccn1itcrio a palha do esquife: a ahna. fi-
car{t ahi. ·
~ à o raros os casos .ou exemplos de tentações
benignas, cotno a do índio "'ilnebago a qnCiu ap-
parcccu c1n sonhos tuna 1nulhcr bella rcquestan-
III.- ANJ:\IISAÇÃO DOS 1\IOTITOS- '·
45
do-o, ena1norando-o, a ponto de que clle se deixou
n1orrcr, na crença de ir casar cmn essa aln1a-do-
ontro-n1nndo.
A aln1a ten1ida por toda a parte é a sombra
prin1itiva- a ahna das pri1nciras invcnçÕC's rnythi-
cas. D'esses n1ythos brotaram outros, mais aereos
ainda, c j:.í illurninados por pensan1entos moraes:
são as almas do céu ou do inferno- as aln1as que
não voltam, e existem junto aos deuses, como di-
vindades ou medianeiros. A evolução da mytho-
logia apresenta aqui, e sempre, o desenvolvimento
do pensan1ento prin1itivo e1n dois sentidos paralle-
los: o. sentido n1oral ou social, e o sentido ideal
ou Inetaphisico.
4.
Espelho do pensamento, ou antes forn1ula em
que as idéas se definem, os mythos completatn o
systema das noções anin1istas d'este grau quando
representan1 as pontes ou passagens d' este mundo
para o mundo phantastico das ahnas invisíveis.
Desde que se inventou u1n paraiso e un1 inferno,
era n1istér inventar un1a estrada que conduzisse
d' este Inundo a esses lugares. Elles são dois, por-
que o destino da alma é uma apotheose ou u1na
condemnacão : de duas ordens té1n de ser os cami-
nhos. A s ~ i m os baperis africanos tém horror de
entrar na caverna de 1\iarimatlé, por onde as al-
mas vão ao inferno ; assitn as crateras de vulcões
são por toda a parte lugares povoados de medos.
Assim, por outro lado, os mexicanos veneravam a
gruta de Chalcathongo, portas do paraizo; e os fi-
djis de Sanc1wich vão e1n ron1arias festivas, coroa-
dos de flores, em grupos alegres, con1municar con1
os phantasn1as e con1 os deuses, n'essa ponta ex-
46 L. I. -
trema occidental de V anna Leva, lugar suave e
solitario, ú borda do oceano, indefinido corno um
fin1 de mundo, u1n acabar de vida,- lugar onde as
embarcam }Jara irem ao tribunal de Nden-
gei.
O 1nytho da ponte, da barca, da estrada dos mor-
tos, n1ytho universal e inherente ao do céu-inferno,
apresenta-se-nos co1n dois caracteres. Quando a
idéa de um tribunal ou de un1 juizo ultra-tumular
não apparece, indo as ahnas d'este Inundo jê.í sen-
tenciadas, o c::uninho é tuna estrada sitnples, uma
porta, tuna passagem tenebrosa ou illunJinada.
1\las quando o julga1nento existe post ?IWrtern_, a
ponte das ahnas é en1 si propria uma prova judi-
cial. o ar de espiritos, os karens ata1n
cardeis de n1arge1n a Inargern dos rios, afi1u de el-
les os podermu passar: d'esse n1odo são as pontes
da in1aginaçã.o sobre os abystnos. O angekok da
Groenlandia, ao passar á terra dos 1uortos ten1 de
galgar u1n golpho tre1nendo sobre 1una corda esti-
cada: para os ojib,vas a corda é n1na serpente-
symbolo da eternidade ; para os chochtós, e111 vez
de cordas, ha troncos de arvores, passados de lado
a lado. Cordas de hastes vcgetaes torcidas, tron-
cos de arvores horisontaes, foran1 as pontes pritni-
tivas. A ponte Es-Sirah do inferno 1noslen1ita é
mais fina do que u1n cabello, 1nais delgada do qne
o gurne de u1n alfange: os bons passé.un, os nulns
cácrn no abys1no. A ponte srnndinava do 1nytho
de Baldr atravessa o rio Gjoll onl1c se afog:un as
ahuas coudCinnadas; n1as cn1 l ;oruPo a f'strada. não
tcn1 abysn1o a galgar : é uma asrrnçâo ao e{·n pela
arvore s:•grada. só accessi vcl ao qnc 1natou.
r]., " • 1 t
aC's sao, entre IllllUlHCras, :ts pontt•s ( a 1nor c,
can1inho do céu atravcz do inferno: 11Ús dire1nos
ca111inho do céu atravcz da smnbra dos sonhos c
III.- ANIMISAÇAO DOS l\IOflTOS- '·
47
YISof's interpretes da 1nortc. Essas pontes são o
1nytho que exprin1e o nexo entre a religião do
n1untlo interno c a do mundo externo, religião
psychica e religião astral- duas correntes parai-
Idas que cn1 toda a parte c en1 todos os 1nomen-
tos vermnos relacionadas n'tuna n'uma
fusão, ou n'un1 equilíbrio mais ou menos insta-
vel.
O leitor não esqueceu, porém, que estas duas
fontes da 1nythologia religiosa, diversas em si, for ..
m nlatn as suas concepções de u1n tnodo analogo.
Ahnas são as imagens dos sonhos, aln1as as luzes
dos astros. Tan1ben1 o firn1an1ento ten1 pois as
suas pontes cotno o son1no. Sonhando vêem-se as
aln1as transitar sobre o cabello esticado no abysn1o;
levantando o olhar, vê-se de dia no céu o arco
Iris, a ponte tricolor dos norn1andos, escada por
onde so betn ao seu walhalla os heroes 1naorís ;
vê-se de noute a Via-lactea, essa poeira cosn1ica
de que a tradição n1ythica está ainda no proprio
non1e que lhe datnos ; essa estrada coalhada de
almas ca1ninhando para o céu, no mytbo dos indí-
genas da A1nerica.
A ponte que liga o n1undo real ao phantastico,
e o n1undo do sonho ao mundo dos astros, é tanl-
bem para a expressão de um outro nexo -e o
proprio sytnbolo da alma hun1ana, n'este 1110n1ento
da sua con1prehensão. No en1pyreo, junto dos deu-
ses, partilhando-lhes a essencia e a vida, a ahna é
u1n 1nedianeiro. E' a ponte que põe o ho1nen1 en1
relação co1n a divindade. Que sejatn os « pitris »
aryanos, os «lares» latinos, os « heroes » gregos, os
«santos» christãos, a alma dos mortos é quasi um
deus -um demiurgo.
IV
Os fetiches I
1.
Constituído na itnaginação simples dos pnmei-
ros hon1ens o céu animista, isto é, o conjunto de
deuses e espíritos snperi0res e inferiores, celestes
ou infernaes, e constituido pela acção reflexa dos
mythos inventados espontanean1ente- vamos agora
ob.servar a esphera pratica d'essa face objectiva
da religião, ou d'essa lllf'tade que, aggregada á my-
thologia proprian1ente dita, constitue a religião.
Se ao fetichismo não convém ainda ben1 o non1e
de culto, menos pódc ser considerado un1 período
ou phase da historia religiosa (como por tanto
tempo' se pensou), por isso que ellc não contén1
em si o principio da religião- principio que está
na mythologia. O fctichisn1o it npenas a fórtna enl-
bryonaria d'oncle, con1 a cvoluçrto, os cultos hão
de sair: c a é licito j:í confundir a reli-
gi:to, na sua cssencia, con1 os cultos, embora en-
tre os segundos c a prin1cira haja un1 nexo incvi-
tavel.
.A 1nythologia inteira, qner a tnetcrf'ologica c
astral, qner a das visões, dos sonhos, das alluci-
t 1-'f'fil'hO t• nma f,',rma cstropiacln do Foitiço, pnhn-rn.
Entretanto, closch• CJUO ele Ikosscs, no St'Cttlo pnssn.tlo, n introduziu com
f.'11·ma nn sciuncln o n.ssirn foi gonornlis;\cla, sori:t. protc·ncioso regl"c&-
fi&l" :'t. fcirrn:L gonuinn.
IV.-OS FETICHES-I.
nações, p<)dc dizer-se que nasce do estado mental
nebuloso do hotnem pri1nitivo- da <·onfusão do
objecto cmn a sua irnagem ou com o pensamento
e ünpressão que esse objecto provoca no cerebro.
A imngen1 ou a in1pressão tornam-se tão reacs
con1o o objecto, e como a natureza sensivel não
contén1 realidades d' essa especie, a ilnaginação in-
venta isso que se diz mytho- isso que é,
meiro, nm espirita, que depois se faz vontade, por
fim idéa, até chegar a ser definido como uma pura
invenção subjectiva quando a sciencia póde já re-
construir a historia da psychologia espontanea.
N'esse modo de proceder que gera os mythos
está a origem do rudimento de culto a que se
chama fetichismo. O fetiche é um determinado
objecto, representante de um espirito e de un1
principio, e contendo portanto etn si as virtudes
ou as efficacias, e as causas maleficas. Quando os
antes de partir para a caça, dançam as
suas rondas em volta de u1n kangurú de herva,
crêem que de tal fónna obrigam os kangurús do
bosque a esperar os tiros dos caçadores para que
elles não voltem com as mãos vasias. Catlin, o ce-
lebre investigador dos indios americanos, viu-se em
perigo uma vez por ter desenhado o perfil de um
chefe : diziam os indios que lhe roubara metade
da face. Não só a imagem, até o proprio non1e, é
um fetiche, isto é, un1 objecto que, representando
a cousa ou pessoa, adquire todas as propriedades
d'ella. Os indios da Columbia britannica tén1 um
grande horror a dizer os nomes proprios ; entre os
algonquís só os parentes proximos, os amigos n1ais
intitnos o sabem: o comtnum denon1ina o indivi-
duo por uma alcunha-o tote-1n. En1 Borneo, n'un1
outro n1undo, n'uma outra raça, muda-se o non1e
de uma creança doentia para enganar o espirito
5
50 L. I. -
que a atormenta. Os abipones e os lenguas,
quando alguem n1orre, mudam de non1es : a morte
não os conhecerá ao voltar. No Tonquim dão-se
nomes horríveis ás creanças para susto dos detno-
nios. Os judeus criatn que a sorte de um homem
mudava com a mudanca de no1ne.
Se assim é com notnes humanos, que será
com os nomes dos espíritos, dos deuses? Ainda
hoje o orador catholico, no pulpito, ajoelha ao fal-
lar em Deus, e as mulheres persignan1-se. Estas re-
miniscencias fugitivas de fetichis1no são 1nais ac-
centuadas entre os islanlitas, para quen1 o no1ne
de deus é um segredo e um n1ysterio. Pronunciai-o
valeria con1n1ungar. Só os prophetas, os apostolos,
os videntes o conhecmn, e á sua virtude deve1n os
milagres: a ubiquidade, a visão, o poder de
suscitar. Allah, den01ninação con1111Utn da divin-
dade que ainda assin1 se profere de rastos, batendo
nos peitos, não é n1n nome, é um titulo- o Senhor
-como a «l\Iagestade» para os reis. Ninguem igno-
ra o valor que os ron1anos davam ao facto de ser
ignoto o non1e da divindade tutelar da sua cidade:
por isso nenhurn inimigo podia vir invocai-a, con-
vidai-a, seduzil-a e vencei-os, a elles, rotuanos,
conquistando o deus local, cotno elles fazian1 con1
os deuses e cotn as cidades visinhas, confiscando-as
para o seu dominio e aos deuses para o seu
theon. Corria nas tradições de R01na que Valerio
Solano fôra morto, porque un1a vez pronunciou e1n
publico o nome do deus ignoto -o suprCino fetiche
da cidade.
2.
() non1e um fetiche incorporeo, n1as o pri-
tnciro na ordetn Iogica, porque os uonws, vchiculo
IV.- OS FETICHES- 2. 51
c 1nolde dos I11ytlws gerados no ccreLro, são como
a itnagCin ou a substancia das cousas. Fetiches
são os non1es das pessoas c dos deuses, os voca-
bnlos sagrados inintelligiveis cotu que o feiticeiro
cura as enfenuidadcs 1 e evoca os espiritos. Todo
esse lado objectivo da religião,- isso a que nos
pcriodos en1 que o espirita critico predomina se
-cha1na co1no disseram Plutarcho, Lu-
ciano c Cieero, -vem fonnular-se no systen1a dos
fetiches, para depois se tornar em cultos. Na ima-
ginação pri1nitiva, assim con1o a imagen1 equivale
ao objecto que representa, assin1 o fetiche equivale
ao principio divino que contém e1n si. A primeira
idéa dos deuses veiu de un1 1nedo organico: por
isso o fetiche é u1n objecto temivel. 1\Ias, con1o os
deuses-ahnas não té1n, afinal, luna substancia di-
versa das ahnas que habitan1 nos ho1nens, o pen-
san1ento rudo do homen1 prin1itivo não é adorar, é
ünpor, não é orar, é exigir. No fetichistno procu-
ra-se dotninar, enfrear, escravisar o deus de que
so ten1 1nedo. Essa especie de culto é como que
uma don1esticação dos deuses, e, se agora, resu-
nlindo a doutrina já exposta, quizermos estabele-
cer a relação e a serie dos eletnentos componentes
da 1nythologia religiosa no animisn1o, teren1os-
c1n primeiro lugar as creações espontaneas, 1néras
explicações in1aginativas, n1ythos simples provoca-
dos pelo aspecto do Inundo exterior e do mundo
interior; teremos, en1 segundo lugar, os phenomc-
nos reflexos, a acçuo d'esses suppostos seres sobre
a in1aginaçâo, a invenção dos deuses e a aninü-
sação dos n1ortos; teretnos, finahnente, o syste1ua
1 V. Bist. de P01·tugal (3.il ed.) u, p. 126, o sargento que curava os
fe1·idos com palavras; e Port. contemp. r, p. 334, o remedio contra acho-
lera.
*
52
L. I.-
de ritos e praticas da magia ou feiticeria, fórma
adequada de culto a deuses ou espíritos que, sem
enthusiasn1aren1 o coração, enchendo-o apenas ele
susto, :na sua propria potencia malefica poden1 ser·
contrariados.
Un1 facto attesta o caracter que damos ao fe-
tichismo : é o de que, por via de regra, o ani-
mista (á maneira de quen1 diz islamita, etc.) at-
tende sobre tudo aos deuses maleficos: quanto peo-
res são, maior é o culto que merece1n. Essa reli-
gião é um medo cristallisado em n1ythos. Os sacer-
dotes d'ella infundem un1 terror similhante ao di-
vino: são con10 que deuses, e tão merecedores
J'essa 111istura de oclio e medo propria do selva-
gen1, como o dens que elle inventou sna ima-
gem e sitnilhança. O sacerdote primitivo é n1ago,
é adivinho, é anruspice, é propheta, é exorcista,
é thaumarturgo, é Inedico, é fabricante d'essa es-
pecie de fetiches portateis- cotno os rosarios, os
bentinhos, as figas, as relíquias e outras especies
que entran1 no equipan1ento do supe1·sticioso dos
tetnpos modernos, especie particular de fetiches a
que convén1 o non1e de amuletos.
O sacerdote fabríca os atnuletos, cura as enfer-
tnidades expulsando os espíritos das doenças elo
corpo dos pacientes, quebra os fados, adivinha o
futuro, evoca os deuses, pratica os nlilagres-
torna reaes, no n1undo positi\.,.o, todas ns inven-
ções e chirneras qne a itnaginação dos povos creou
sonhando ou contetnplando. un1 charlatão?
Voltair(' n1orren ha j:í nn1 seculo; e o
seu predecessor, ha n1nitos. Essas explil'a<;Õrs não
servmn ao pensamento profundo ela critica. O
ruilagre csüí en1 quen1 o vê cmn os olhos da fé,
u:"to cst:'t na astucia ele ntn pclotiqnciro ou de un1
prestidigitador. E' tuna illnsão subjectiva, tuna al-
IV.- OS FETICHES- 3. 53
"lncinação, e não utn ctnbuste. l\Ial das theorias que
assentan1 sobre a theoria da perversidade ou da
astucia da hutnanidade. Ella é fraca, é siJnples, é
ingcnua- por isso é boa e digna de d<), e1n vez
de escarueo. Via-se a si nas suas illusões; essas
illusões eratn aspectos nebulosos da semente de
verdade in11nanente no seu espírito.
Certos pheno1nenos psychicos hoje 1nais ou me-
nos estudados, certas artes, certas drogas, certos
exercieios; o hysterismo, o sueco de hervas ine-
briantes, a allueinação produzida pelas vigílias e
pelos j<-'j n ns, a loucura originada pela fé-.- eis ahi,
no seu conjuncto sumtnario, a sciencia ou a divin-
dade do sacerdote priinitivo. Junte-se-lhe alguma
extravagancia para ünpressionar os sentidos dos fieis
-que é a potnpa das nossas egrejas?- e tere1nos
o feiticeit·o dos te1npos anÍlnistas. Nào é un1 charla-
tão, é un1 crente; não usa de en1bnstes, porque as
suas artes são sagradas. O sacerdocio é fan1ilia
ou collcgio: os segredos passan1 cotno un1a heran-
ça, cristallisarlos na tradição. Tudo é illusão, 1nas
de todos os illudidos o pritneiro é elle proprio. Se
o crente e o tartufo térn a n1esn1a face, tan1be1n
succede o 1nesn1o cotn o 1nago e o charlatão: hy-
pocritas e charlatães são o residuo que fica depois
de seccada a fé, mas não são os orgitos de ne-
nhnnla crença por extravagante ou rude que nos
pareça.
3.
Algtunas notas a respeito dos feiticeiros selva-
gens comn1entarão o nosso dizer. Na Australia, o
sacerdote cotupleta a iniciação visitando a região
dos espíritos n'u1n somno que dura dois ou tres
-dias : é n' esse periodo que o cerebro acaba de se
54 L. I.-
lhe saturar de chimeras. Volta da viagem educado
na loucura, depois do extasi ou do somno catale-
ptico. O kbond, para exercer funcções sagradas,
fica por tuna, por duas sen1anas, n'tun estado de
sonho e languidez, que algum sueco de nianclra-
gora provoca : uma das suas almas foi até ao céu,
emquanto a outra, vegetando, donnitava. A nossa
faculdade de crença nas proprias invenções é infi-
nita. O shan1an da Tartaria vae tambem ao céu
buscar as ordens_, cotno o khoncl, como o australio.
Iniciado, sagrado ou ordenado, o sacerdote ten1
poderes sobrenaturaes: «enl todo o gentio en1 ge-
ral ha certos homens e mulheres que por 1nilagre
podem suster a chuva ou fazer chover.» (Ilin. de Gar-
cia, nos Ann. mar. e col.) . Governar os phenonlenos tnete-
reologicos é nn1a das primeiras forças que crê em
si e que os fieis acreditan1 estar n'elle. Interrogar
o futuro pelo vôo e pelo canto elos passaras, como
entre os latinos da Antiguidade, entre os tnpis do
Brazil e os dayaks de_ Bornéo, é outra faeuldacle.
Curar as doenças, que são espiritos nutus insi-
nuando-se no corpo dos pacientes, nrto é tn('rito
1nenos grave, nen1 ceren1onia n1enos curiosa: o
feiticeiro-n1edico australio ata rnna corda ao n1en1-
bro enfermo, estende-a, e chupa a extren1idade·
opposta, para sorver de tal n1odo o espírito da tno-
lestia. Assin1 na costa de Orissa a feiticeira djcy-
pur desenrola un1 novello de fio soLre o teeto da
casa d'aquclle a qnen1 quer tnal e chupando a
ponta, est<i-lhe chupando o sangue, cotno os ,·:nn-
piros. Sen1 dnvida, o tnedico antralio sente pas::;ar-
Jhe a doença na garganta, sen1 dnvitla crê ser
esse urn n1odo de curar. Co1no o antralio procede
o sharnan (los tnngns, o poyang dos nialayos, o
payé dos tupis, o kalidcha dos gallas, o u1yanga
do alto-Nilo, o 1nariri dos caraiLas, o nutrhi dos
IV.- OS FETICHES- 3. 55
chilenos, o on1Liachc dos malgaches, o makahua.
<las ilhas l\Iariannas, o abyss dos mongolios, o
guif'ntlabe dos senegambios; assi1n procediam os
psyllas ela Lybia e os jograes (joculatores-jon-
glenrs) da India.
'ra1nLcn1 a nn1lher é por toda a parte sacerdote,
111as principahncntc prophetisa: o hysteristno cons-
titucional do sexo dú-lhe a visão frequente. O ho-
mem é medico e thaumaturgo; viaja, correndo as
aldeias 1nascarado nos seus habitas sagrados, to-
cando um tan1bor que é, como a campainha no
rito catholico, um meio de chatnar os fieis. Luzenl-
lhe hunes da bocca, traz a face velada por un1a
mascara horrenda, na cabeça barretinas extrava-
gantes. Vetn agigantado sobre andas, e por toda
a parte onde passa espalha o terror e a abjecção
como utn deus. As gentes caen1 de joelhos con1
medo, ou fogen1 co1u espanto : é adorado e odiado,
porque o te1nor tem em si estes dois elementos.
São elles que por seu lado, tornando-se de effei- ·
tos em cansas, augtnentam ainda o pavor ingenno
con1 as lendas dos poderes occultos das feiti-
ceiras dos bosques a cujas ordens obedecem as fe-
ras e que de alto dos ramos das arvores, pela
noute sombria, espalham a cornucopia das desgra-
ças. «E estas feiticeiras com palavras magicas
constrangem a obedecer lagartos ou crocodilos, ele-
phantes, tigres e grandes cobras e serpentes, e os
prenden1 e matan1. E ha outro genero de feiticei-
ras ou bruxas, chan1adas ponteanas que de ordi-
nario se acham dependuradas em arvores altas e
alemos ou brides, e estas ponteanas dize1n ser
aquellas ntulheres que fallecen1 de parto e por isso
são inimigas dos hon1ens e 1nonnente deven1 ser
den1onios porque as ponteanas tém as costas aber-
tas C0111 fogo)). (Eredia, Descr. de Maluca) Eis ahi como o
56 L. I. - ANil-IISliO
sacerdote e a feiticeira se confundem com os espíri-
tos e co1n os deuses.
Na sombra ou na nevoa do ani1nis1no tudo é vago
como n'un1 cháos: não se busque1n litnites nas de-
finições. Tudo é malefico, porque deus é um Inedo.
Tudo é escuro, porque a visão é nocturna, no céu
constellado de estrellas, no somno povoado de so-
nhos. Tudo é secreto como a impenetrabilidade da
sombra. As sociedades dos 1nagos, os collegios dos
sacerdotes, são aulas mysteriosas : os jossakied, os
n1edo, os 'vabeno da Atnerica, os areoi de 'l'aiti,
e outros n1uitos por todo o mundo re1noto. Taro-
bem o culto é um 1nysterio praticado en1 lugares
estranhos, ou pela callada da noute, no afasta-
mento. Prece, no sentido de um appello fervoroso
da ahua affiicta para utna divindade orgão da
justiça ideal, prece não existe ainda, nen1 hyn1nos
cantados em honra de urn deus que seja a sonuna
de todas as aspirações intellectuaes e moraes do
pensamento. A oração é u1na evocação, as cerenlo-
nias são laços armados aos deuses para os sub-
Inetter aos desejos ou vontades dos ho1nens. Sa-
crificam-se fructos, anin1aes e gente, t para propi-
ciar esses espíritos crueis e obscuros.
Nos recessos e1nn1aranhados das florestas da
Polynesia os selvagens das ilhas Hervey, en1 côro,
invoca1n l{ougo e Oro, os deuses da carnage1n,
para que os ajude na etnpreza de bandidos a que
vão lançar-se. Do mes1no modo o salteador i tal i ano
invocava l\Iercurio nos te1npos antigos e a l\ladona
nos te1npos n1odernos. D'u1n anin1Ís1uo extrava-
gante, o hon1cn1 priiuitivo passa scn1 transição a
urn evltcincrisnlo grosseiro: a 1uorte é a ponte. O
deus confunde-se cou1 a ahna de u1n finado, coinQ
t V. lluça.s "umanas
1
u, pp. 1G7 o eogg.
IV.- OS 1-'ETICIIES- 3. 57
se vê no Tsuni-Goatn dos lwtteutotes que foi na
terra utn medico-feiticeiro, c cujo culto se liga in-
tiniatnente co1n o dos antepassados de que são ten1-
plo os ttunulos. A tnorte e a noute, eis o a1ubicnte
proprio para excitar a imaginação religiosa do sel-
vagmn. E' de noute que se pratican1 as orgias sa-
gradas mn que a etnbriaguez, as torturas, as san-
grias etn certos pontos do corpo «onde a alma re-
side>>, o estalar sccco das tnatracas, as inhalações
de vapores narcoticos, as visagens, as attitudes
ferozes ou lubricas, as danças, os clarões das fo-
gueiras Yertnelhas povoando o ar de sornbras er-
rantes, produzen1 a exaltaçlo divina a que assis-
tem as estrellas fusilando e a lua placida ba-
nhando en1 luz fmninina os filhos no seu regaço.
A scena é a mesma na Africa, na Atnerica, por
toda a parte. Se são congos preparando-se para
uma Latida ao gorilla, as danças religiosas in1i tan1
as attitudes, os gestos, os saltos d' essa fé r a quasi
humana- a pantomitna de bestas quasi botnens
feita por homens quasi bestas, o dialogo travado
entre os fieis e a sotnbra invisível do anthropoide,
são um rudÍinento de oração. Inútando o acto da
caça, pedetu que a féra se sujeite a ser presa. As-
sim, tan1Lem, derratnando utn balde de agua so-
bre uma lage, pedem ao genio da chuva que or-
denhe os uberos das nuvens. Se são rnandanas,
preparando-se para a caça do buffalo, os viajantes
tém observado as rodas de caçadores con1 a cara
coberta pela n1ascara: cada cabeça é un1 buffalo
com orelhas e hastes, e na dança gritatu, urratn,
correm cotno os brutos da tnanada bravia que ao
dia seguinte vão perseguir. A masca.ra, guardada
religiosamente na choça, é o fetiche sagTado que
submetterá o buffalo na catnpina dirigindo o tiro
do caçador.
58 L. I. -ANIMISMO
4.
Tudo o que de longe ou de perto representa
ou se refere a uma pessoa ou a um espirita, tudo
é fetiche, tudo é instrun1ento de acção malefica ou
benefica. O cabello caído ou an·ancado do corpo,
uma gotta de sangue, um farrapo do vestuario, eis
ahi tres porções da pessoa sobre que a acção do
feiticeiro, exercendo-se, é efficaz. Os chefes selva-
gens das ilhas do n1ar do Sul vão seguidos por
servos com bandejas onde cospem : se o cuspo fi-
casse no chão, seria utn fetiche contra elles na
mão dos sacerdotes. O obiman da Africa occiden-
tal para chamar a 1norte sobre a cabeça d'alguem,
amassa terra de uma cova e ossos em pó com
sangue. O zulu vae n1ais longe: basta-lhe o pen-
samento dominante n'um neto para tornar Ulll ob-
jecto e1n fetiche; 1nascando u1n pedaço de pau
imagina estar a1nariando o coração da n1nlher que
requesta, ou as exigencias do visinho que tern
bois para vender. A virtude do pensatnento faz
de um cavaco un1 fetiche.
Em geral, porérn, o atnuleto tem uma relação
de fórn1a, de substancia, ou de nome, com o ob-
jecto do encanta1nento ou com o espirita qne se
invoca. Assim, o tnedico chinez, não achando o
medicamento necessario, escreve-lhe o notne n'nm
papel, queiina-o, recolhe as cinzas, e d:í-ns a beber
ao doente : o nome vale pela droga. Banhar um
vcrscto do Alcorão nn agun que vae b<·ber-se é
tornal-n m(ldicinnl para os mnsnhnanos. Conside-
rar a agua <'ln si con10 a1nnleto de puritieacão, é
um pensanu·nto quasi universal: ainda hoje nós
nos aincla nas egrcjas os fipis nwllw.n1
os dedos, aspergindo-se, c ungindo a testa cotn
IV.- OS FETICHES-!. 59
agua-Lenta. J;l, o tohunga da Nova Zclandia mo-
lha n'nnut cabaça de agua utn hyssope de hcrvas
e asperge os rC'ccn1-nascidos; já nas ilhas IIcrvey
a crea11ça é inun<:'rgida n'u1na folha de taro -um
baptisterio vegetal. Já na Guiana o sacer<lote
dauca en1 volta do recem-nascido borrifando-o <le
agn; ; e o ba ptis1no, geral a toda a An1crica sel-
vagen1, tambetn se tornou symbolico entre os chi-
roquczes, entre os azteques, os mayas e os peru-
vianos, isto é, entre aquclles dos an1ericanos que
passaratn, cmno nós, ele ·u1n estado selvagem e
barbaro para 1un estado civilisado.
Fetiche é, pois, tudo--· porque tudo tem a sua
aln1a, o seu espírito. Fetiche é a pedra sagrada
de Klan1bo Pennu, a pedra da porta da aldeia onde
o khond caçador afía os dardos e n1achados, onde
vae depositar as offertas sagradas. :B,etiches são os
edicnios que os nf'gros poem á entrada das suas
villas enchendo-os de conchas, craneos e itnagens
-os penates, protectores da cidade. Fetiches são
todos esses gris-gris, desde a concha e o dente do
anin1al, até ao bastão mais rendilhado, á estatueta
n1ais singular; desde o trapo mais mesquinho, até
ao pedaço de 1narroquim curtido e desenhado a
primor. Fetiches são os no1nes, confor1ne vilnos;
fetiches são as palavras sagradas, os textos dos li-
vros canonicos- finalmente, o proprio jnratnento
que se profere. Quando hoje um home1n sin1ples
jura «pela sua salvação,» ou dizendo «a terra
côn1a estes olhos» ou «os diabos 1ne leve1n, se ... »
ou pondo a m ~ o sobre os evangelhos, etc. esses
actos apresenta-m cotn transparencia o resíduo da
antiga crença fetichista na virtude das palavras
evocadoras. Ern Sa1nôa, para attesta.r a verdade de
um dito, toca-se nos olhos : a cegueira condemnará
sem duvida a mentira; ou cava-se o chão, porque
60 L. I. - AXIMJSliO
o mentiroso irá parar á cova. Da· mes1na fórma
os Juizos-de-Deus, geraes na ainda nossa Edade-
media e communs a todos os povos barbares, estão
e1n rudimento no costume do ostiak que, se suppõe
a mulher infiel, offerece-lhe u1n punhado de sedas
de urso : a féra a devorará, se ella ti ver peccado !
5.
O fetichismo não consiste pois n'um systema de
anutletos, nem n'um conjuncto de ritos determi-
nados. E' a face objectiva, a fórn1a cultual de um
estado do pensamento religioso. Tudo o que existe
é fetiche, ou capaz de se tornar atnuleto, pois to-
dos os objectos possuen1 virtudes ou aln1as pro-
prias. A 1nythologia religiosa é o systenut da n1e-
diação entre o mundo real e o n1nndo phantastico;
o fetichis1no é uma fórma concreta e uma expressão
}Jratica da mythologia rudin1entar.
Por isso a lua, deus soberano da noute selva-
gem, é, quando evocada, o fetiche supre1uo. De
rastos, com as n1àos erguidas para o finuan1ento
lnn1inoso dos tropicos, no cxtasi da ahjf'cção Inys-
teriosa, os tupis em côro chuuan1- Teh ! Te h! á
lua branca dos céus. O crescente enigmatico, 1uais
pessoal ainda do que o sol, porque se deixa fitar,
porque se não dissolve nas ondas da luz diffusa,
l'orque se destaca vivo n'nn1 lançol negro criYado
ele Pstrcllas, o crescente é nn1 pac. Taru· dos Loto-
cuJos, 1\atacntsic dos hurõcs, é o esposo ou avô
do dia, o crcador da terra c dos h01nens.
no céu alto se desenha a curva InystPriosa da luz
lnnae, to< la a Africa solta un1 hymno -1\:ua! l(ua!
Na pritn<'ira uontc da lua-nova, na noute da lua-
cheia, o hottcntote não uorn10: dança c resa. A
lna nasce, revi v c cada n1cz, c o seu appareccr, o
IV.- OS FETICHES- 5. 61
seu morrer, são o mystcrio supremo da 1nythologia
ani1nista. Quem lhe disputará o throno do céu?
Quen1 ter<i tnaior poder para regular as cousas da
terra? Os barbacins, diz Almada, «fazem reveren-
cia á lua quando é nova. Tmn umas arvores gran-
des que elles té1n por te1nplos e as caiam co1n fa-
rinha de arroz e sangue dos animaes sacrificados».
(Rios de Guiné) O astro da noute mysteriosa é o n1ytho
dos terrores sagrados e dos usos crueis do selva-
gem co1n o espírito afogado nas trevas da incons-
ciencia. O cyclo de cada n1ez, nas suas phases lu-
nares, é utn mysterio ; os dois Inoinentos do equi-
nocio são noutes de encantos nos sertões de Ma-
laca. «E não deixarey de fazer n1enção con1o nos
dias dos dois pontos do equinocio, morn1ente no
eqninocio da entrada de libra, dia chan1ado Di-
vftly, tern tal privilegio e virtude que obriga a fal-
lar as arvore;;, plantas e ervas, descobrindo cada
utna virtude par·a ren1edio de alguma obra ou en-
fennidade. E para este efeito algumas pessoas se
embosca1n n'aquelles matos aquella noyte para co-
nhecer as virtudes das ervas e assi me affirn1aram
1nuytas pessoas que acaso se acharam naquelle dia
nos matos que ouviran1 estas vozes no ponto da
Ineya-nonte, n1as parece obra do demonio. » (Eredia,
Declar. de Malaca)
O culto da noute em geral, de certas noutes em
partieular, o culto da lna e das suas phases, es-
ses estados ren1otos da mythologia religiosa, ainda
hoje apercebiveis no seio dos povos cultos en1 tan-
tos usos e Cl'enças, são parallelos, na esphera dos
astros, ao culto dos mortos na esphera do n1undo
interior. Na son1bra dos cerebros primitivos o mun-
do apparecia co1nposto de duas ahnas abraçadas
-a alma da e a alma da Lua que é u1n
astro morto e frio. O selvagen1 assistia-lhe ao re-
62 L. I.-
nascer mensal e acclamava-a batendo as mãos,
cantando, dançando, feliz e forte por vêr no firma-
nlento o seu astro protector. A lua-nova nascia da
n1orte da lua-cheia: assim tambetn nas creancas
renascia a ahna dos fallecidos. A morte é a
da vida- pensamento profundo, exacto, que o ho-
nlein pritnitivo formulou em n1ythos.
Nào foi o sol, diz Spiegel, que pritneiro chatnou
a .attenção do selvagen1. O céu nocturno, cujas lu-
zes contrasta1n com a escuridão da terra, itnpres-
siona muito mais a iluaginação ingenua. Entre as
luzes do céu, a lua dotnina pelo tatnanho, pela
originalidade das suas phases. A lua é o pae da
ninhada de estrellas; a lua é o hotnetn, o sol a es-
posa, por toda a America, por toda a Africa. O
culto lunar é o prituitivo, o solar é posterior.
O reinado religioso do sol co1neça com a civili-
saçâo. E' então que a lua, cotno todos os vencidos,
desce á condição fmninina c tnaligna. Torna-se um
dcn1onio, como os genios pagãos se tornaram no
seio da mythologia christan, ou os genios e ahnas
da n1ythologia finnia depois da irrupção dos arya-
nos na Europa. t Torna-se 1ntllher no en1pyreo, e
deusa elos Inaleficios e encantos das feiticeiras,
quando o céu e o sacerdocio antigo passan1 con-
dição de cousas conucnlnadas por pensatnentos c
instituicões novas.

t V. J:açnB l&umauas
1
1, l'P· lGS atl fi,,.
v
Deus-sol
1.
Quando u1na collecção de homens, aproveitando
ns condições favoraveis do local, desenvolve as
suas faculdades ingenitas nos termos em que os
casos da sua historia particular o até
ao ponto de attingir a agricultura e a vida civil, t
no corpo da sua mythologia astral o Sol substitue
a Lua con1o nucleo. A esta mudança que expri1ne
a :Substituição da caça e do pastoreio pela lavoura,
da vida sombria do bosque pela exploração da
campina ilhuninada, da cilada traiçoeira nas bre-
nhas dos mattos pelo con1bate regular de bata-
lhões arn1ados, do bando ou da horda errante pela
agrenliação fixada em villa ou cidades ; a esta
transforn1ação de 1nodo de existir, consagrada por
tuna 1nudança correlativa nos mythos religiosos
c1ninentes, correspondeu ta1nbem na esphera obje-
ctiva da religião uma substituição do sentimento
fundamental. E1n quanto a Lua reinou, reinou_ o
Medo no coração dos homens; desde que o Sol
venceu, co1neçou a dissipar-se essa nevoa prinlitiva,
e o temor fez-se piedade. Só o sol inspira hymnos
religiosos e preces repassadas de um sentilnento
huninosa1nente puro.
1 v. Raças 1mmanas
1
lutrod. LXVII.
64 L. I.-ANH\IIS.MO
O sol, endeusado, é por toda a parte um deus
bom: o deus-lua, nascido do medo, pronuncia-se
declaradatnente mau, desde que se varrem as tré-
vas do estado barbaro. Define-se então um dua-
listno que é tanto n1oral como é metereologico: o
dia e a noute, o sol e a lua, são os prototypos do
bem e do mal, da paz e do susto, do céu e do infer-
no, dos mortos e dos vivos. O sol, como symbolo de
toda uma face do systema dualista, é o nucleo de
urna n1ythologia astral nova, em que o sentimento
da protecção benefica é tão predominante, quanto
o fôra antes o malefico nas tnythologias lunares. O
seu espirito, ou a sua alma- porque, embora a
mythologia mude de objecto e de aspecto, a sua
essencia animista não se altera- é um olho prote-
ctor que vigia e acode. O sol que no Egypto pre-
sidia ao mundo era alado, porque a vista suprema
vôa por todo o céu. cmn un1a ubiquidade absoluta.
O olho solar de 1\[alacassa diz-se 1\lasovanru, o
dos dayaks Na mythologia polynesia o sol
é o olho esquerdo de Tangaloa- o sumrno deus do
céu, isto é, a luz que inunda o ar e tudo inclue
em si, -o deus dos deuses a que o cafre chama
Zulu, l{utka o kamchadal, a que o aryano cha-
tnou Dyaus, Zeus, J npiter, Deus.
:Em torno do Sol-df'us, co1no fatnilia., raios, ema-
nações ou hypostases, organisa-se tun pantheon de
deuses que são os fundadores das cidades, os in-
ventores do fogo, das artes, da lavoura, das se-
Jnentes, (la musica, da ntedicina, (la nav(\gação-
os espiritos da vida civilisada qnc o ho-
nlctn fruc :t luz do dia. Os deuses da nou te c da.
vi<la barbara c deus{'s venci(los,
tcncia transacta, cotno rc'eor<lação na.
ntcrrwria c cotno vestigios nos costnntcs. Assin1 na.
ehronologia cgypcia a não fez esquecer de
V.- DRPS-SOL- I. 65
todo n divisão anterior do m0z cm quatro scina-
nn.s de sete dias, divisão lunar; e parece que en-
tre os 1nexicanos coexistia1n os dois syste1nas de
contagmn do tetnpo -o systema lunar, ou metzla-
pohualli, e o systema solar, ou tonulpohualli.
A mythologia da America central, entre os chi-
bcas e muyscas de Nova-Granada,- esses povos
que, sen1 attingire1n o grau de civilisação relativa-
mente e1ninente do l\1exico e do Perú, caminha-
vain no rastro da historia que a invasão dos hes-
panhoes fez abortar, t - mostra-nos co1n uma
transparencia eloquente a transição de que trata-
mos. Nos prin1eiros tempos, diz a tradição muysca
de Bogota colligida por Piedrahita, antes que a
lua existisse, a planicie de, Cundinamarca era fe-
chada: não havia ainda o passo de Tequenda1na.
Os muyscas eram então selvagens, ignoravam a
agricultura, a religião, a moral, a sociedade. A ppa-
receu depois entre elles um velho «barbado» vindo
do Oriente: davam-lhe tres nomes- Bochica, Nenc-
quetheba e Zuhe, e sobre os ho1nbros tres cabeças.
Foi elle que ensinou a lavrar a terra, a usar o
vestuario, a adorar os deuses e a fundar as cida-
des. Tinha tuna mulher má co1n tres nomes tanl-
bem: Huythaca, Chia, Yubecayguaya. Essa mu-
lher era bella mas perversa : destrui a por ins-
tincto tudo o que o marido fazia. Para lhe ar-
ruinar as obras inundou con1 um diluvio toda a
terra de Funzha, e só uma pequena parte dos ha-
bitantes escapou. Então Bochica, afim de castigar
a esposa perversa, tirou-a do mundo, degredando-a
para o firmamento onde é a Lua. E para sal v ar
a terra, rasgou o passo de Tequendama, fendendo
i v. Raças humanas, intro<l. p. LXXVII.
6
66 L. I.- ANil\HS:\10
as rochas, vasando a agua pela cataracta que ahi
se precipita.
Esta lenda n1uysca é typica, e por isso a encon-
tran1os reproduzida como docutnento, setnpre que
se trata de 1nostrar como os 1nythos solares são os
mythos da civilisação, e os lunares os da barberie
ou do estado selvage1n. Bochica, o sol, te1n aquel-
las . «barbas» co1n que os heroes se representa1n
sen1pre, porque os cabellos são a traclucção Inytho-
logica dos raios da luz. V en1 do Oriente, con10 vem
o sol todos os dias. As relações sexuaes inverte-
ran1-se: o sol é o esposo, a lua a n1ulher. A lua é
malfazeja, o sol protector. Se Bachica é o funda-
dor dos estados 1nuyscas, sabe-se que o fundador
do Perú é tatnbem u1n filho do Sol-l\Ianco Cca-
}Jac, que veiu com sua irn1an e esposa, l\latna
Occllo, fundar as cidades da costa andina da Ame-
nca.
2.
O seu te1npo estudaren1os a 1nythologia solar
dos aryanos, e não o fazetnos aqui porque o Ino-
mento elos lredas, em que é possivel observai-a,
apresenta-nos no a1nago das concepções u1n nucleo
de pcnsatnento creador idealistan1ente diverso do
dos americanos de que tratan1os agora, c do Egy-
pto a que passaremos c1n Lreve. Por toda a parte
a agricultura, o cstabelecin1ento de estados regu-
lares, os c n1igrações de povos, dão
:i mythologia um caracter solar; n1as ncn1 por isso
o fH'nsamPnto religioso dos nHtyscas {\ dos chihcas
ele Nova-Granada, elos tnayas do Yucatan, dos
1ncxicanos e pcruvianos, nc1n o dos cgypcios, sac
ela PsphPra do ani1nisino. Os astros, oLjPcto de
culto, diz Ticlc, ainda não são deuses propria-
V.- DEUS-SOL- 2. 67
mente ditos, isto é, seres voluntarios co1no vere-
lnos entre os se1nitas naturalistas : pouco mais são
do que espíritos, representantes, coultud.o, das for-
ças c phenotnenos superiores da natureza. Estão
na passagen1 do anitnis1no para o dcistno obscuro
cn1 q no se esvae, esgotando o seu principio ou a
sua capacidade, esta especie de pensan1ento cos-
nlogonico. Teotl, nome dos deuses no panthcon
1nexicano, Guacas no peruviano, não quer dizer
mais do que espirita, ahna, sotnbra.
Assin1, o principio anitnista, cotno constitucional
<.1a 1nythologia religiosa, punha un1 lilnite á evolu-
ção do pcnsatnento -limite correspondente ao da
capacidade 1uental cthnica. Esses deuses que,
sendo espiritos, não podem ser concebi<los, nmn
co1no vontades, ne1n co1no idéas; deuses e1n que
nem un1a psychologia nen1 u1na n1etaphisica se re-
presentatn, apenas o realis1no psychico dos estados
pri1nitivos; esses deuses, dizemos, exprimem no
l1orror dos seus cultos, na grosseria dos sentirnen-
tos religiosos, a barberie 1nental de uma gente que,
por outro lado, attinge un1 estado relativan1ente
elevado de c i vilisação forn1al ou exterior.
Por isso vemos que, politica, artística, archite-
ctonican1ente, as civilisações americanas chegam
a un1 ponto indubitavehnente alto, sem que essa
elevaçrto corresponda a u1na elevação religiosa que
instinctiYainente nós julgaria1nos correlativa. V e-
mos até que a centralisação da authoridade poli-
tica na pessoa de iinperadores reage sobre os cul-
tos; e se a mythologia solar propria de civili-
sados chega a formular-se no seio do aniinisino,
sen1 se saír d' elle tambetn se attinge um estado
mais elevado ainda na fór1na ou na construcção
externa do edificio religioso. O Perú conseguiu
€sboçar uma theologia e utna trindade monotheis-
*
68 L. I. - ANil\IISl\10
ta. Conta a historia que em 1440 o inca
Yupanki, consagrando um templo do Sol em Cuz-
co, proclamou um deus novo: Illatici-Viracocha-
Pachacainac. Esse deus novo, mytho de invenção·
theologica (ou m"uclita, como se diz na eschola),
e1n vez de espontanea ou collectiva, era o espírito
synthetico dos espíritos naturaes: era a nuvem
prenhe de raios, ahna do fogo, era a esptuna do
1nar, aln1a da agua, era o espirito mysterioso da
terra.
A conquista dos hespanhoes veiu abortar o des-
envolvitnento cl'este período novo que se abria ao
anitnis1no peruviano; mas o exemplo do Egypto,
onde não houve cataclystno in1previsto e destrui-
dor, apenas a dissolução natural das cousas desde
que attingem a sua consumn1ação attingindo o li-
Inite restricto da sua capacidade, o exemplo do
Egypto 1nostra-nos que a evolução da mythologia
americana não daria resultados diversos se u1n
acaso historico a não tivesse destruido violenta-
Inente n'um mon1ento ainda transitorio da sua eYo-
lução.
3.
A' que o estabclcciinento da vida ci-
vilisada dctcrn1ina na mythologia astral, transfe-
rinJo o seu nuclco da lua para o sol, corresponrle,
n'essa esphera parallcla do pensamento religioso
oriunda dos phenoinf'nos psychicos, uma revoluçrio
tan1ben1, ou antes a definição clara de nn1a idéa
etnhryonaria j;t. no pcriodo anterior. A' jdi·a da.
. contintutção da vida sob a fúr1na de cspiritos vcn1
contrapôr-sc a idéa de 1una rcsurrcição fortnnlada.
:í iinagctn do dranw, diario das viagens do sol: é
esta a base de toda a cschatologia. do Egypto,
V.- DEUS-SOL- 3.
-conforn1c veren1os. A morte encontra tnn syn1bolo ·
no pôr-do-sol, a alvorada é uma resurreição. Desde
qne o sol se sun1iu no poente até que renasceu de
1nanhan, o espaço percorrido torna-se a região da
son1bra en1 que o astro viaja Iuorto para resusci-
tar. O dra1na elo sol vem incluir en1 si e dar u1na
fónna nova ás concepções de inferno, já mais ou
menos definidas nos períodos barbaros, perante o
contraste da noute c do dia, da vigília e do son1no.
Os n1ythos que nós estudaremos no Egypto, já
revestidos do caracter authropo1norphico de pai-
xões e de 1nysterios, esses n1ythos do dra1na solar
vêem-se esboçados sob a fórma de combates e1n
n1ais de utn povo já saído do estado primitivo.
Ningue1n ignora que a condição do cafre não é
selvagmn ; que são raros os povos cafres caçado-
res, sendo frequente a agricultura entre elles e re-
. gra _o estado nomada de pastores. Pois entre os
cafres o drama do dia é representado pelo mcsn10
mytho que ainda se observa na Bíblia dos judeus
na lenda de Jonas. O Jonas-sol dos basutos é Li-
toalenc, o que já nasceu co1n a edade e sabedoria
de ho1nem: o 1nonstro medonho e escuro da noute
veiu e enguliu a hutuanidade inteira; só Litoalene
e sua mãe-.-o sol e a lua-escaparan1, e então o
heroe atacou o 1nonstro, rasgou-lhe o ventre e li-
bertou a humanidade que ahi jazia. Na tradição
-dos zulus o n1onstro é utn elephante que devora
u1na fatnilia inteira; o ventre do animal é um
mundo -o mundo inferior da treva construido pe-
la itnaginação a exe1nplo do Inundo real, co1n os
seus rios, as suas montanhas, as suas cidades, os
seus rebanhos. A noute e o sonho, nos mythos
d' esta especie, são un1 ventre- o paiz destinad.o aos
mortos. A 1norte é a guela do monstro que devora
e que tem no seio o hades, o inferno. O cair do sol
70 L. I.-ANIMISMO
é· o symbolo da morte, a sua viagem supposta du-
rante a noute é a passagem no ventre do inferno,
para resuscitar na manhan seguinte. Assim os ho-
mens resuscitarão.
A intervenção da mythologia solar na_ esphera
psychica ou eschatologica não altera a essencia da
concepção animista n'esta segunda fonte da n1y-
thologia religiosa. No Perú, no 1\Iexico, e nas mais
nações americanas em que o desenvolvimento da
civilisacão levou ao culto do sol con1o desenvolvi-
mento Í)arallelo da mythologia astral, o leitor viu
a insufficiencia do realismo animista para a crea-
ção de urna theologia digna de um povo culto.
Faltam as nocões de vontade e de essencia ou
de idéa para,"' conjuntamente con1 a de realidade,
co1nporem o corpo de un1a doutrina superior. Por
outro lado, o ponto de vista animista, na sua ru-
deza infantil, não deixa que a moral intervenha
activan1ente na esphera das creações religiosas; e
por isso, essas religiões de povos sem duvida al-
guma senhores de leis, de um estado organisado,
de uma civilisação por 1nuitos lados consunlnu1.da,
mantivera1n u1n caracter ferino, sangrento, bestial
e tão horrido como é o dos cultos dos povos pri-
mitivos. O progresso ou evolução deu-se exclusi-
vamente na esphera exterior ou astral da Jnytho-
logia: a esphera parallela, interior ou psychica,
manteve-se no tnesn10 estado ruditnentar. V e r-
se-h a qne a mythologia"'religiosa produz n1onstros
ou dissolve-se con10 que abortando, sen1pre qne se
não dá um desenvolvi1nento ponderado c correla-
tivo nas duas fontes parallclas da invenção espon-
tanea.
A China offcrccc-nos- dentro do cyclo das n1y-
thologias anirnistas - un1 exetnplo inverso do Pcrú
c da An1erica de civilisação antochthona cn1 geral.
V.- DEUS-SOL- 3.
71
~ a An1eriea o dcsenvolvirnento exclusivo da my-
thologia astral produziu n1onstros; na China a re-
forina de Confucio, fazendo abortar a evolução ul-
terior d' essa 1nythologia pela pregação de uma
1noral extraída pren1aturamente do animismo pri-
tnitivo, condemnou a religião a un1 estado de pre-
cocidade caduca e it esterilidade consequente. U nut
1noral frequentemente digna do applauso da sabe-
düria mais pura, veiu assentar sobre uma concepção
rcalistamente selvagem do mundo ulterior. Dotado,
pois, com tuna moral pratica civilisada, o chinez
manteve uma n1ythologia primitiva, mostrando as-
:sitn na esphera religiosa esse aspecto duplo de ve-
lhice e de infapcia, visivel por tantos outros lados
nas civilisacões do extren1o Oriente. «Ü maior deus
que tém é" o Céu, pelo que a letra que o significa
é o principio e a priineira de todas as letras. Ado-
ratn o sol, a lua e as estrellas, e quantas imagens
fazem sem respeito nenhum. Térn todavia ilnagens
de Louthias que adoram por haverem sido em al-
gunla cousa ou cousas insignes. . . E não só mente
adoram estas in1agens, mas quaesquer pedras que
alevantam nos altares dentro nos seus tcn1plos ...
Em todas as cousas que hão-de cometter, ou cami-
nhos por mar, ou por terra, usa1n de sortes e lan-
çam-nas diante dos seus idolos. As sortes são dois
páos feitos ao modo de meia noz, chãos de uma
banda e roliços da outra, e maiores outro tanto
que meia noz, cosidos por um cordel. E quando
queretn lançar a sorte, faliam primeiro com o seu
Deus, namorando-o com palavras e promrnetten-
do-lhe algtuna offerta ... Q.uão polida é esta gente
no regimento e governo da terra e no com1num
trato, tão bestial é e1n suas gentilidades, no trata-
tnento de seus deuses e idolatrias.» (Gaspar da Cruz,
Trat. da China)
...
J ...
L. 1.-ANU\IISMO
O espiritismo pritnitivo 1nanteve-se: os preceitos
exteriores da moral não o podiam atacar, e o des-
envolvimento da mythologia do mundo exterior,
que deveria tel-o resolvido se a evolução não pa-
rasse, foi abortado pela refórma de Confucio. Os
exemplos que nos dá a nossa Europa de hoje, por
mais de um lado similhante á China,- exen1plos
de espiritismo, magnetisn1o ani1nal, etc. lavrandJ
e1n classes intellectuahnente educadas e Iuoralisa-
das, mostran1-nos em condições diversas e de um
n1oclo restricto o estado n1ental-religioso do chi-
nez.
A mythologia astral tornou-se u1na for1nula bu-
rocratica. Thian, o espirita do céu, é um in1perador
como o ilnperador da Flor-do-Centro; a mes1na
hierarchia da terra está n'um céu d'onde a reli-
gião espontanea fugiu varrida pelo for1nalismo
secco do espirito juridico. Veren1os um pheno1ueno
analogo dar-se en1 Rmna. - Expulsa do ether,
banida dos astros, a faculdade 1nythologica, essa
faculdade creadora da n1ente humana, concen-
trou-se toda na esphera do Inundo interior. Ne-
nhuina noute, nenhuns sonhos estão mais coalha-
dos de visões e de espíritos do que os do ehinez.
O mundo mysterioso, vedados os ares em que de-
v!a alongar-se, concentrou-se e deu ao
intin1o u1na energia c un1a fecundidade excepcio-
naes. O Tshow-li, Liblia da religião prinlitiva da
China colligida doze seculos antes ua nossa éra por
Tsho,v-kung, n1ostra-nos o corpo <l'cssa •nytlwlo-
gia que o taoismo e a n1oral de 1\::ong-tse (Confu-
c·io) fizerarn abortar na sua evolução. A nlytholo-
gia uo 'rsho,v-li é anin1ista no principio, fctiehista
nos cultos. O Universo ó u1n uggregauo de espíri-
tos, <<shin, » do ar, .da terra, dos elcnwntos, dos
anirnacs c do ho1ncin. O firnuuncnto, 'rhian, c a
V.- DEUS-SOL- 3. 73
terra, co1no esposos, foram a origem da creação ;
lllal:) já no Tshow-li, rrhian, considerado como pes-
soa, é Shangti- o in1pcrador, tnn deus civil, que
cmno orgão da lei pre1neia e pune, tendo a seu
lado cinco ministros e uma côrte forn1ada pelos es-
piritos-astros: a lua, o sol, as estrellas e constel-
lações.
Se o desenvolvitnento exclusivarnente astral das
mythologias americanas deu de si, co1no é de vêr,
theogonias superiores na sua expressão cosinologi-
ca, a moral manteve-se no estado prilnitivo e
barbaro. Na China succede o inverso: o desenvol-
vimento dos mythos psychicos leva a u1na depu-
ração precoce da moral (Confucio foi neto de
Thsow-kung, o redactor do Tshow-li) deixando a
theogonia n'um estado rudimentar. Os ele1nentos
1nentaes que a civilisaçâo junta á mythologia es-
pontanea,-idéas cos1nogonicas e preceitos n1oraes,
-procedem directamente das duas fontes paralle-
las do systema dos mythos prinlitivos: a cosmogo-
nia ven1 das concepções do n1undo externo, a 1uoral
das interpretações do mundo interno ; porque nos as-
ti·os não ha revelação de moral, nem na conscien-
cia ele1nentos de conhecimento do n1undo exterior.
E pai·a que se produza u1n typo acabado de mytho-
logia religiosa, quer animista, quer naturalista, quer
idealJsta, é mistér que se estabeleça uma pondera-
ção systematica da moral e da cosmogonia, ou da
n1ythologia astral e da escathologia. Tal condição
não se deu, nem na America,- nem na China: aqui
a moral e a eschatologia atrophiaram a mytholo-
gia astral e a cosmogonia; além succedeu o in-
verso. .
Onde a ponderação se deu, na esphera animista
que temos vindo percorrendo, foi no Egypto : por
isso a mythologia dos egypcios é o typo da my-

74 L. I. - ANil\IISl\10
thologia animista em todos os momentos da sua
evolução ; por isso o animismo egypcio não morreu
abafado por nenhuma invasão dogmatica: dissol-
veu-se e n1orreu naturalmente co1no tudo o que
realisou o principio inherente á sua existencia --
conlo o fructo que foi flôr, e acaba por ser podri-
dão.
VI
O Egypto
1.
Passou j:i o tempo em que se considerava a
tnythologia religiosa dos egypcios como a degene-
ração ele nn1 1nonotheismo primitivo; passou ta1n-
bmn a doutrina que via exemplos de degeneração
e1n todos os povos inferiores. 1 O Egypto dâ,-nos
o typo historico elas mythologias aninústas, e por
isso un1 systema de contrastes que a sciencia pódc
explicar hoje, n1as que passaram por muito tetnpo
como aberracões inheren tes a uma decadencia. Es-
se de profundidade mystica e de infan-
tilidade theologica, visível na nação do Nilo, é o
proprio caracter de uma mythologia que se desen-
volveu até attingir a eminencia de typo de um es-
tado ruditnentar da imaginação religiosa. Nunca o
pensan1ento ganhou no Egypto o caracter de um
theismo dogmatico e moral, porque nem a vontade
nem a idéa chegaram a ser substancia de deuses
que na profundidade da sua expressão jú1nais saí-
ram da esphera realista elo animismo primitivo. A
mythologia egypcia 1nostra-nos o lünite de capa-
cidade expressi \
7
a do anirnismo, e essa ci vilisação
do valle do Nilo é o fructo atuadurecido do pensa-
mento grosseiro de raças menos bem dotadas pela
i V. humanas, 1
1
p. LIV C segg.
76 L. I.-ANI!\IISi\10
natureza. Desde os cultos selvagens até aos cultos
dos sacerdotes de l\Iemphis ha uma serie evolu-
tiva, e quando hoje os viajantes nos descrevem
as mythologias dos povos africanos, desde o infimo
hottentote até ao imperio de Uganda, nós vemos
a série que teve na historia o Egypto co1no typo
e o hamita como orgão e1ninente.
Por isso, ainda ao lado dos elementos mais pro-
fundos da religião culta dos egypcios, são ben1 vi-
síveis os docu1nentos dos estados transactos, e es-
ses proprios elementos superiores 1nanté1n o cara-
cter e a câr original. O tabernaculo do ten1 pio
egypcio não continha imagens, apenas um sym-
bolo do deus: circumstancia que in1pressionou o
grego, quando a crença no seu polytheisn1o se es-
vaía, levando-o a suppôr nos seus visinhos africanos
uma profundidade de espiritualis1no que o enchia
de admiração. Entretanto, a ausencia de i1nagens
na náos do Egypto não exprinlia uma capacidade
mental ignota ao ha1nita: era apenas a consequen-
cia natural do caracter ani1nista, e não idealista,
da sua mythologia. Por toda a parte havia in1agens,
diz Tiele; só as não havia no templo, sacrario do
velho fetiche- objecto vivo ou n1orto, acaso de-
l>ois olhado já como symbolo, e não co1no fetiche
l>ropriamente dito.
'rampouco o estado quasi monotheista a que a
religião do Egypto chegou depõe contra o cara-
cter essencial ou organico que a distingue, porque
a tendencia para a unidade é ingenita no (lspirito
hutnano, c toda a· n1ythologia, que sPja aninlista,
11aturalista, ou idealista, procede unificando os deu-
ses 110 seio de uma doutrina 1nonotheista. Os as-
tros c as son1Lras passatn do individualisn10 anar-
chico para a ordmn systctnatica; c o ntundo phan-
tastico da Inythologia, expressão subjectiva da
VI. - O EGYPTO - 1. 77
realidade transfigurada, organisa-sc a exemplo do
mundo social. Assim que o grau de civilisação é
1nonarchico, a mythologia denuncía o Inonothcis1no
de ntn n1odo n1ais ou menos accentuado. Deus,
n1onarcha dos céns, é na terra o soberano abso-
luto. A evolução do poly para o monotheismo não
tetn pois nada de essencial na mythologia reli-
giosa, nem estas duas fórmas de conceber o céu
importan1 caracteres fundamentaes: exprimem ape-
nas estados de organisação social.
O Peru, imperial, esboçava um monotheis1no
quando acabou; o Egypto que foi um imperio não
podia deixar de ser tnonotheista, de un1 modo
tnais ou menos pronunciado. O pantheon crescia á
maneira que as fronteiras politicas se alargavan1;
crescia com a nacionalisação de cultos estranhos e
cotn a adopção de divindades forasteiras, ao mes-
tno ten1po que a consolidação intima do estado
detenninava o tnovi1nento no sentido de uma u n i ~
dacle que nunca chegou com effeito a ser clara e
inequívoca. Veiu a theologia dos sacerdotes e scri-
bas definir o para.llelismo d'estes dois movimentos
oppostos n 'un1 mytho erudito commum a todos os
monotheismos: o mytho que, traduzido clialectica-
Inente, significa a unidade na pluralidade. As di-
vindades que manifestam o deus occulto increado
são os n1embros d'esse deus auto-gerador.
Nem o n1onotheisn1o, pois, nem a ausencia de
deuses-idolos --esses dois traços que tanto impres-
sionaram o grego polytheista e pagão, concorrendo
poderosamente para a ruina da mythologia helio-
nica e para a fonnação do christianismo europeu
-denunciam na mythologia hamita caracteres di-
versos dos caracteres organicos do animismo. A
ausencia de idolos no tabernaculo prové1n do feti-
chisnlo; o monotheisn1o exprime o adiantamento
78 L. I. - ANIMIS:\10
da evoluçzto social. Nenhum d 'esses traços é in-
tin1o: são ambos apenas forrnaes.
O que é intitno e essencial é a noção da divin-
dade em si, que nem se 1nanifesta con1o utna von-
tade absoluta e por isso é estranha a qualquer
pensatnento moral, nem apparece como expressão
concreta de u1na idéa racional e por isso é estra-
nha a qualquer pensarnento scientifico ou philoso-
phico. O deus e os deuses do Egypto são, como
os dos sei vagens, espiritos reaes que ani1nan1 o
Inundo e a imaginação, o dia e a noute, a vida e
o sonho, tendo como dominio supren1o a 1norte
n1ysteriosa. Nem urna vontade, ne1n un1a idéa in-
troduziran1 ainda uma ordem systen1atica na cotn-
prehensação de um universo que ainda sussurra,
obscuro, confuso, palpitante de ahnas, nas collinas,
nos rios, nos astros, nos animaes e nos sonhos,
como un1a vasta phantasmagoria nebulosa onde
rutilam estrellas sobre o espelho enor1ne do lançol
das aguas do Nilo cobrindo a terra e fecundando-a
no leito da noute enygmatica.
A aragen1 que enruga a face do grande lago da
Yida palpitando no n1ysterio da geração, é Chnum,
o pritneiro deus, invisivel con1o vento que passa,
sopro creador, altna universal, pae suprerno. Satí,
a força geradora, Anuka, o abraço do an1or que
procria, são a terra e a agua que o espírito aniina
-os filhos de Chnun1 quando YÔa sobre o Nilo
abraçando a terra para a fecundar. Esse rio, nu-
cleo da nação dos han1itas, é por seu turno u1na
al1na e u1n deus - Ilâpi, o creador.
O vento inYisi vel sussurrante é o typo do deus
supremo na religião das ahnas que ta1nbCin se ou-
vem nos ruidos vagos c n1ystC'riosos da noute,
vendo-se npC'nas nas smnLras on na escnriJào dos
sonhos. Clnnnn, o vento inicial, dissipa-se cotno
Vl.-0 EGYPT0-1. 7'J
aragCin, quando os theologos c scriLas procuram
nehal-o c representai-o vivo: por isso, na religião
organisada, o deus· supremo é increauo- como ex-
pressão 1nythica do n1ytho espontanco do vento
pri1nitivo. A realidade e o no1ne d'essc deus abs-
condito estão nas oito potencias crea.doras, os ses-
?J1t1Ht ou sesennu_, que unidas a Thut fornuun aos
pares os quatro princípios elementares da creação.
Nnn c Nunt são o oceano celestial e o abysmo,
Ileh e Heht o tempo infinito, l(ek e l(ekt a tre-
ya, Neni e Nenit o sopro, o espirito, o vento. No
coração do Universo está Ptah, o deus de 1_\;Ienl-
phis, que é a ahna ou o fogo inti1no, 1noldador ou
esculptor das cousas; co1n Sechet, o bem amado,
na cham1na que destroe e purifica; com Neith,
Net ou Nit, a virgem-mãe, no poder de geração
1nysteriosa; co1n Bes e Bast, esposo e esposa, hune
vivo, chamn1a rutilante, calor benefico, luz condu-
ctora. As almas do fogo vém desde Ptah que é u1n
principio até Bes-Bast que são a realidade do
lume, co1no as almas do ar indefinido e da agua
vieram desde o sopro invisivel de. Chnutn até Ne-
ni-Nenit qne é o vento, e Hâpi que é o Nilo.
O rio, theatro da vida social e economica, é o
centro ou foco da mythologia. Elle que ali1nenta o
povo e consolida o estado, t elle é o primeiro en-
tre os espiritos proximos be1nfazejos ; as suas aguas
levan1 as se1nentes de fecundidade, no seu dorso
vão navegando as barcas engrinaldadas, condu-
zindo os romeiros ás festas de Sais, de Buto, de
Eu basta.
t V. Raças humanas, r, pp. 106-11 e n, 185 e segó.
80 L. I. - ANI!.IISliO
2.
Era em Sais, em Buto, nas boccas sebennyticas
do Nilo, e e1n Bubasta, no braço pelusiaco do rio,
que os egypcios adoravam aquella a que Herodoto
chamou Artmnisa. Dizia-se Bast on Pacht em Eu-
basta, Neith etn Sais. Hathor adorava-se em todo
o curso do Nilo egypcio, principaln1ente em Aphro-
ditopolis junto a JHmnphis, e em Edfu e em Den-
dera na região alta de Thebas. Esses deuses fe-
meas são os mythos da geração que é uma festà ;
veneram-se cantando, dançando, ao som do pan-
deiro e das castanholas sagradas. São mulheres
quasi, mas ainda não pertencem de todo á huma-
nidade, porque antes de se divinisar o homem di-
vinisou-se o animal. Os espiritos ou almas que Yi-
vem nos brutos são a substancia dos deuses do
Nilo. Essa mythologia, feita religiffo, é uma zoola-
tria.
Cada sacrario- tém o seu animal sagrado : em
Buto é o falcão, en1 Bubasta o gato, em Hermopo-
lis o ibis. No lago 1\Iom·is habitam os crocodilos
divinos que os sacerdotes alin1entam piedosamente
a pão, carne e vinho, embalsamando-os quando
morrem. O gato é symbolo do Deus-Sol e de sna
filha adorada en1 Bubasta ; o falcão é o sy1nbolo
de I-Iorns, o ibis o symbolo de Thut; o abutre
é o syn1bolo de 1\'Iut, e o touro de Osiris. O gato
sagrado de lleliopolis, no te'In}!lo de l{â, é nos
hy1nnos C'cclesiasticos um fe'tiche universal e ab-
soluto: «Tens a cabeça do deus-sol, tens a fau-
ce de 'rhnt, o que é duas vezes poderoso e se- .
nhor de lle'rmopolis ! As tuas orelhas são as de
()siris fpte onvt·tn todns as preces; a tua hocca é
a do deus 'rum, o deus da vida, qne te 1uantevc
VI.- O JW\l'TO- 2. 81
itnpollnto; o teu coração é o de Ptah, que te lavou
os 1netn Lros de toda a nodo a! 1,ens os d('utcs de
Chnnsn, o dons da I na, c as coxas de ] Iorus, o
que vingou sen pae Ü:-;iris! »
Os ani1naes que jú, não são deuses propriatnentc
ditos, 1nas apenas n1edianeiros, como o gato de
lieliopolis, repres<'ntaln a decadencia de cultos an-
teriores de tuna zoolatria pura como a do crocodilo
do lago l\Ioeris e a do Apis de 1\Iemphis. As ahnas
encarnadas nos brutos ainda vivetn ta1nbmn nos fa-
ctos phisicos- como nas cataractas de Syena, ahi
onde o Nilo começa a fecundar o chão do Egypto,
ahi onde Chntnn, o velho deus, remoto no tempo
e no lugar, é o 1nytho do «expandir das aguas».
Esse dens, e todos os deuses, representam-se en-
tre ani1naes e humanos: Chnum tetn cabeça e has-
tes de carneiro, Hathor que traz nas mãos as ca-
deias do amor e o pandeiro das danças sagradas,
te1n armas de vacca e entre ellas utn disco lnnar.
Quando as procissões festivas desciatn o Nilo em
barcos. até A phroditopolis, onde era o sen te1nplo,
levavam cotnsigo tuna vacca n'uma gondola engri-
naldada de plantas aquaticas. Bast-Pacht, a Arte-
n1isa de Bubasta, tinha a cabeça de um gato e o
disco lunar, coroando-a. A lua é femea no Egy-
pto, porque a sociedade chegou á civilisaçiTo; a
lua é deusa ou attributo de deuses- como hoje
ainda se vê ser o crescente sobre que pousa os
pés a Virgem-da-Conceição catholica. A fe1nea é
a deusa por excellencia genesiaca- o ventre da
geração.
E' lua ainda a Neith adorada em Sais, a mãe
do sol, a «vacca >> e1n cujo ventre elle se gerou--
porque o sol nasceu da lua, con1o o dia nasce da
noute que é o principio obscuro da geração. Neith
é verde como Ptah, verde como a campina palpi-
7
L. I.-
tante de sen1entes vivas quando o Nilo se retirou
para voltar propicio na estação seguinte. A' ro-
Juaria de Neith en1 Sais vinhan1 fieis dos pontos
1nais ren1otos. Era un1a festa nocturna, cotno to-
das as festas dos deuses prinlitivos. A noute mys-
tcriosa é a hora dos segredos sacran1entaes invol-
vidos na treva, presididos pelo disco de luz pallicla
cravado no céu negro. N'essa noute de Neith cada
ron1eiro trazia un1a lan1pacla, e todo aquelle que
não podia ir a Sais, accendia em casa a luz sa-
grada. O Egypto inteiro palpitava, por ·sobre o
labyrintho de canaes do delta, ao longo das mar-
gens largas do rio sacrosanto, e as luzes borbori-
nhavam na s01nbra, con1o almas, aos bandos, aos
Inilhões, anin1ando a noute n1ystica.
Neith gerara o sol; Bast-Pacht, a deusa de Eu-
basta, nascera de Râ : uma segunda noute que
succede ao dia anterior. O gato de Heliopolis é o
anin1al sagrado de Bast, cujo sanctuario era um
bosque erguido n'un1 cótnoro ao centro da cidade.
As alamedas' umbrosas descian1 até ao Nilo, bei-
jando a flôr das aguas. No rio coalhado de barcos
apinhavarn-se os ron1eiros chegados de todo o
Egypto- seis, setecent"os nlil, fora os bandos de
ereanças levadas pela nüio ou ao collo pelas nüies.
1\s chorêas de fieis subiatu dancando as alatne-
das, os gritos da flauta os detu;es, as
castanholas, con1o a antiga Inatraca selvagen1, ex-
citavan1 o fervor das danças sagradas. llalouça-
vatn-se as barcas no rio, levanclo, trazc11do gente;
snssurrava a turba c un1 côro de orações obscuras
enchia o ar de evocações phantasticas. Os talis-
Jnans de Bast afugentavan1 os nutus-espiritos: po1·
isso os rorneiros levavarn ao pescoço tuna cabeça-
de-gato, co1no Lcutinhos; por isso batiatu palnuts
cotno (lUCUl se persigna. O côro elas flautas, das
Vl.-0 EGYI)TO- 3. 83
castanholas, das paltnas, dos gritos, o sapatear da
dança c o ruido espesso de toda a turba, caminha-
vanl como utna nuven1 de piedade desde o Nilo
até ao sacrario da deusa no alto da collina, su-
bindo as alamedas sombrias de arvores. ·
no cirno via-se o portico e o sanctuario. I-Ia-
via estatuas de seis cubitos de altura, e as paredes
coloridas de pinturas mysticas onde a lua de Bast
e o sagrado a Râ enchia1n de contrição os
romeiros.
3.
Nas fórmas vivas e typicas dos animaes via o
egypcio o contraste co1n a natureza morta. A vida
tornava-se-lhe u1n sy1nbolo da creação, e um synl-
bolo da divindade cuja potencia essencial é para
o pensamento que acorda a cosn1ogonia. Adorar
os animaes era adorar os deuses ; cada ani1nal era,
ou um deus, ou a imagem viva de uma divindade
invisivel. Os specimens de anitnaes sagrados nos
templos representavarn á imaginação sitnples as
series ininterrompidas das encarnações da divindade
representada e1n uma raça particular. Assi1n ainda
hoje etn Lisboa se conserva1n na Sé os corvos de
S. Vicente, alimentados pela egreja. Esse animal
que se torna medianeiro ou symbolo, e que em lu-
gares é deus ainda, foi fetiche, quando o animistno,
ao depois transformado .no seio de um povo civili-
sado, em commuuidades barbaras.
Vimos os sacerdotes alilnentando os crocodilos
sagrados do lago Moeris: tambem os falcões vi-
nhain todos os dias receber a sua ração de carne
picada; os gatos cmniam pão e leite, cotniam pei-
xe pescado no Nilo. Cada casa tinha o seu gato
como penates, e quando morria, a familia rapava
*
84 L. I. -
os sobreolhes em signal de dó: Eram enterrados ri-
tualmente. A L'luna sagrada era enonne: já f<-llla-
mos no carneiro de Chnum, no falcão e no gato
das divindades astraes; o escaravelho era o animal
de Ptah, a garça de Osiris, o abutre de Isis, o
crocodilo de Sebek, o ibis de Thut. Quem matasse
uma cegonha soffria pena de morte. A vacca, de
Hathor, era sagrada ás deusas geradoras, deusas da
receptividade; o touro aos deuses da procreação.
O boi louro ou branco, 1\lnevis, ia para o sacra-
rio de Heliopolis; o boi negro, Apis, era levado a
)lemphis, ao templo de Ptah. Quando nas mana-
das das can1pinas do Nilo apparecia um Apis, o
egypcio separava-o levando-o por un1a quaresma a
engordar no prado sagrado de Nilopolis. D'ahi em-
barcava, já co1no um deus, e1n procissão, para o
templo de ouro de 1\Ietnphis onde era ungido, ba-
nhado, incensado com perfumes pelos sacerdotes
reverentes, que o recolhi:nn á sua abegoaria sa-
grada. Tinha vaccas escolhidas e tuna mangedoura
abbacial. Quando morria, o seu funeral era uma
paixão, e em volta do templo, na encosta pedre-
gosa, havia escavados na rocha os sarcophagos
onde o seu cadaver era recolhido 1nun1ificado. O
cemiterio dos Apis re1nonta á éra de A1nenophis
III. (1524-1488. A. C.) .
No boi n(\gro de l\Iemphis YiYia Osiris, cuja
fórma em espirito era taurina. Apis era tanto tuna
representação do deus que a denoininaç-ã.o dos seus
sacerdotes, « osarhapi », apresenta fundidos o notne
(lo animal e o do deus que o religioso
Pxtrahiu do fetiche zook·gieo pritnitivo. A rtrrnidadc
de ()siris rxistia na snccessào tlos touros s:lgrallos
de l\lt·mphis, na rtPrnidade d'rssa typica.
Se todos os touros nrgros fossrtn A pis, as aLe-
gearias do tetnplo de .l\l<·ntphis não os poderiatu
VI.- O EGYPTO- 85
'COnter. Apis era o touro negro coYrtçrt) cmn uma
1uaneha Leanca triangular na testa, CO!U pontos
brancos c1n fónna de aguia no dorso, c caLcllo bi-
·color na cauda. Taes caracteres denuncia v:un o
aninwJ predestinado que un1 raio do céu devia ter
gerado no ventre da n1ãe, quando sob a língua
tuna pequena tun1efacção accusa v a a cxistencia
1nysteriosa do escaravelho sagrado de Ptah. Então
o touro negro era tun A pis, era Osiris, era o synl-
bolo ou o deus da procreação, porque o escarave-
lho de Ptah, sen1ente do universo, attestava a sua
divindade. Apis-Osiris ia habitar a rnorada do
deus supretno de o deus-principio, o
deus-origen1.
O escaravelho (por se suppôr que todos esses
anin1aes eran1 n1achos e creava1n de si, sen1 fe1nea)
foi o syn1bolo da existencia, ou da substancia do
uniYerso. Do escaravelho gerou-se Ptah, pelo pro-
cesso de anthropon1orphisação constante nas rny-
thologias religiosas, e o anilnal ficou sendo a n1a-
nifestaÇ'àO de urn deus cuja fónna é ainda entre
auinud e hutnana. Sobre os seus hombros de ho-
n1e1n, Ptah figura-se tendo por cabeça o escarave-
lho. Assitn ta1nben1 a fúrma substancial de Osiris
é o touro negro de l\Iemphis.
Ptah, o «que tece os principies» é o pae do pae
dos deuses e o que rola no espaço <<o ovo do sol e
da lua»- assitn se exprin1en1 os sacerdotes na sua
linguage1n ainda mythologica, 1nas já dogtnatica. A
in1aginação ..espontanea pinta-o verde, corno todos
os deuses geradores n'essa viçosa região que o Nilo
fecunda, e faz d'esse espírito intin1o da terra, que
·é o fogo em si corno origmn de todo o calor e de
toda a luz, utn pequeno- anão ou creança- por
ser o principio, veste-o coino u1na mtnnia por ser
.eterno, e dá-lhe por attributos o chicote, o sceptro
86 L. :::.- ANil\IISl\10
e o anel do Nilo, por ser omnipotente,. soberano e
dispensador das aguas fertilisantes. Nas n1ãos dos
scribas e doutores, esse mytho espontaneo torna-se
a expressão da justiça, da ordetn, do metro das
cousas: o senhor ou pae da verdade. Elle que é
luz, é por isso mesmo verdade. Etn qualquer lugar,
em qualquer estado, en1 qualquer momento que
estudemos o pensamento vivo do homem, obser-
vamos como um bater d'azas para a região sobe-
rana e pura do Ideal. A mythologia parte da lua
para o sol, da noute para o dia: o pensamento
parte do facto para a lei'· da confusão para a or-
denl. A civilisaçào é um stn·sum co'rda!
Em o boi negro de Osiris tem sob a
1ingua o escaravelho de Ptah- substancia da luz
c da verdade; em Hertnopolis está o boi louro,
o boi branco de Thut que é tamben1 .«o senhor da
verdade divina». Hern1opolis, «a cidade da reve-
rencia», é o sacrario do i bis branco, a ave divina,
cujo collo e cujo bico são negros, que ua sua atti-
tude enygmatica symbolisa a attenção e a curiosi-
dade do hamita parando de pé a olhar o sol, a vêr
o Nilo encher, o vento a soprar as aguas, a terra
inteira a crear, a nascer-porque tnotivo? por vir-
tude de que principio?
Os_ espíritos que agitam a terra são os filhos de
Ptah, os ir1nàos de Thut. Quando nasceran1 os qua-
tro pares das almas elmnentares, nasceu a terra,
«os rios correram das fontes, o filho da flôr do lóto
surgiu no seu barco, radiante c bcllo, illutninando
a terra com os seus raios ! >>
4.
Começou então a representar-se o uranut do fir-
mamento. A n1ythologia astral c 1netcreologica ap-
VJ.- O RG\ PTO- 4. 87
parece-nos cmn um caractPr intciran1cntc solar por-
que o <lescnvolviincnto da civilisação oL]itcrou os
cst:ulos lunares c stellarcs precedentes. Por outro
lado, u'C's8a civilisaçrio typo do valle do Nilo, as
fontes parallclas da n1ythologia religiosa, astracs c
psychicas, externas e intC'rnas, desenvolveram-se
COJTelativamcnte, penetrando-se e unificando-se nos
n1ythos religiosos que son1n1an1 a vida com o dia
e a noute con1 a morte, vendo na succcssão das
vidas a iin1nortalidade propria dos deuses lun1ino-
sos, vencedores da tréva, do1ninadores da morte.
A victoria da luz e da vida, diz Tiele, está ex-
pressa na propria designação appellativa dos deu-
ses- nuteru_, «os que se renovam» ; está na sue-
cessão indefinida das triadas ou trindades divinas,
e1n que o filho é o proprio pae redivivo, «esposo
de sua 1nàc ».
O dra1na do finna1nento identifica-se co1n o da
vida, e da identificação nasce u1n pensamento j ~ i
systen1atieo da natureza das cousas, cunhado cotn
o sello profundo e 1nystico que a paysagen1 in1põe.
A noute engole o dia, a 1norte engole a vida,
COITIO e1n todas as 1nythologias pri1nitivas. 1\Ias, no
Egypto, para alén1 da terra negra e pingue do
Nilo, ficam os desertos fulvos d'onde os furacões
trazem as tempestades de areia ardente; fica1n
essas regiões desoladas que, contrastando con1 o
viço do valle do rio, são como a noute de u1n dia.
E para além dos 1nezes uberrimos em que os na-
teiros do Nilo, fecundando as terras, as inun-
dan1 ·de cearas, e até que, das suas cataractas de
Syena, Chnnm volte a espargir as agnas, fi.can1 os
mezes ardentes em que o sol quei1na, o ar abraza,
a terra escalda e todas as flores Inorrein. Não é
como a morte essa estação de fogo?
Assin1 os contrastes profundos da topographia e
88 L. I.-ANIMISliO
da thermometria concorriam com os contrastes na-
tnraes ordinarios para accentuar mais declarada-
n1ente a existencia cotno utn dratna, e sobretudo a
nwrte- nucleo obscuro do pensatnento aninlista
- con1o uma expiação, uma purificação, dando êÍ.
n1ythologia religiosa aquelle caracter 1noral que
ella só attinge quando, desenvolvendo-se, coincide
com um estado social civilisado.
A victoria do dia sobre a noute está no mytho
de Râ, o deus de Heliopolis, vencedor de Apap, a
serpente do tnal; a da vida sobre a 1norte está no
tnytho de Osiris. Assassinado por seu irmão Set,
chorado por sua irman e esposa, por Isis e Neph-
thys, dotado por Thut, é vingado por Horus, seu
filho. Osiris fica Ílnperando no reino dos 1nortos,
I-Iorus vem reinar sobre os vivos. No filho dá-se a
resurreiçào do pae. Astraes an1 bos os 1nythos de
Râ e de Osiris, é no segundo que se encorpora-
ram as idéas eschatologicas. 1\Iorrendo, o h01netn
vivia em Osiris, e assin1 cotno a ahna do deus
existe em Orion, assin1 as ahnas dos ho1nens scin-
tillan1 nas estrellas reca1nando o céu escuro das
noutes.
Râ., o deus solar de On ou Heliopolis, tinha ahi
o seu sanctuario e a sua côrte. O pantheon da ci-
dade santa do Nilo inferior, abaixo de l\len1phis,
unificara-se, e os deuses antigos apparecian1 co1no
aspectos ou hypostases do suprmuo 11â: llartna-
chis, o «visivel», é Rft-Ilarntachuti, o sol no seu
csplcnuor uiurno; Tnn1, o «encoberto», o sol du-
rante as trévas nocturnas. Chepra, u1n creador,
cmn o escaravelho, o sy1ubolo da creação; Shu,
<'Specie de J ano que é o ((expansivo l> COlHO deus
do firuiatnento, e o «devoraute» COlHO calor ar-
dente do sol, cncorporant-se cn1 l ~ â - 11\0narcha
de um cn1pyreo i1naginado {a. iulitação do estado
Vl.-0 HG\PT0--4. 8U
que te1n a sua capital c1n l\[crnpl•is. Cmno os reis
q ne rein:un soLre o E:gypto, assiut ltft i1npera so-
bre o Universo, revelando-se «llOS ahysmos do
céu», sentado no <( throno do sol». Elle que foi
o crcador de tudo, renasce de si proprio en1 cada
dia, cn1 cada anno.
Con1o o cgypcio na sua barca navega sobre o
Nilo, assi1n Rft, ctnbarcado no sol, vae navegando
nas ondas transparentes do oceano do ar. Cada
dia é u1n cyclo, é uma vida. De rnanhan, Râ
co1no n1n reccn1-nascido tem un1 berço na sua galé
solar: vê-se sentado n1ordendo o dedo con1o as
creanças. Sobe o astro no firmarnento: assim o
deus vae crescendo, crescendo a barca e o nun1ero
dos espíritos que a tripulan1. Pela tarde, surge
A pap, a nuí serpente,· para engulir o deus que se
so1ne, escondendo-se no seu relicario. A tripulação
dos espíritos defende o deus e leva o barco pelas
agnas do mundo inferior, para leste, n1areando
contra a corrente, n'esse Nilo escuro da noute para
alé1n do qual está outro dia e u1na resurreiçào.
O dratna dos dias é o dratna dos an:Qos. E' no
inverno que ven1 ao Inundo sobre 1una folha
de loto, é de manhan que appareceu sentado no
seu berço lu1ninoso. Na prin1avera o deus crescido
é un1 adolescente, no verào é tun ho1nen1 barbado,
no equinoxio un1 velho. A côr que a liturgia lhe
dá não é o verde proprio dos antigos deuses genc-
siacos: é o vennelho da luz solar. O touro sa-
grado do seu t.entplo de .i\len1phis não é negro
con1o o de Osiris, é louro ou branco. Râ é o deus
do firn1a1nento illutninado, O deuS da 1110rte
escura. Nascidos a1ubos da 1nythologia astral, un1
tnanteve o· seu lugar no ether, o outro, o per-
der, conquistou o don1inio n1ais intin1o e tnyste-
rioso da eschatologia. Rft tem por cabeça o globo
!10 L. I. -ANIMISMO
solar, em uma das mãos o sceptro, na outra o
symbolo da vida; representado assim nas suas
imagens, é a figura do Egypto soberano,- vence-
dor, conquistador. O falcão terrível dos ares tam-
ben1 presta a sua image1n para as figuras do deus
que sobre a cabeça da ave tem o globo solar. As
azas e o sol, ou u1n sol alado, eis ahi o syn1bolo
divino que encima as portas dos templos da ~ e r u ­
salein de Râ.
5.
\
1\Ias, se o deus omnipotente de Heliopolis absor-
veu em si o pantheon anterior, o deus supre1no de
1\Iemphis, Osiris, é mais poderoso ainda por ser
um Inytl1o que lavrou nulis fundo na alma nacio-
nal. Alétn do dia ha a noute, alé1n da vida a
morte, além das victorius e conquistas a Iniseria
·eterna e os 1nysterios itnpenetraveis. A luz do sol
é verdadeira, Inas não é toda a verdade. O finna-
mento ethereo é bello, n1as não é toda a belleza.
Alé1n da luz ha os enygn1as da terra, da n1orte.
O siris, no qual a iinaginação poz a sutn1na de to-
dos os 1nysterios, Osiris que é a vida e a n1orte,
o sol c a s01nbra, é por isso o deus snprenlo,-
dcus uno en1 cujo seio vén1 fundir-se todos os nly-
thos e todos os deuses, aln1a universal, e typo
da religião dos egypcios. «Râ den-te os raios de
Jnz que faiscmn mn teus olhos, Shu deu-te o ar
fagnciro que a tua Loca· inspira, 8cL deu-te os
frul'tos de qne vives, Osiris, tn proprio, dcst0-te
a agnn do Nilo donde nasceste!» No sC'io de ()si-
ris Pncoq>oran1-se o velho Ptah de l\[emphis, Tu1n
de 'rt.(·bas, o Sol de On; Isis i<lPntifica-se con1
n NPith (le Sais,. con1 l\Int de 'rhehas, con1 llathor,
con1 Bast de BuLas ta; llorns é ChCin, é l{â. Os
VI.- O EG\ l'TO- :J. 91
densos Iocacs unific:uu-sc {t InatH:ira que se ccntr:t-
lisa o itnpcrio, c os 1nythos solares o lunares, os
deuses da luz e os da crcação, os do dia o os da
noute, os rnasculinos e os feniininos, sotnmarn-se
todos na tríada supren1a de Isis-Osiris-Ilorus que
é a cristallisação da mythologia aninlista do Egy-
pto.
As lendas dos tempos posteriores ·em que, esgo-
tada a faculdade mythogenica, os egypcios vian1
na serie dos seus deuses as dynastias de sobera-
nos contadas por Diodoro, dizen1 que, reinando
Osiris, Typhon (Set) conspirou contra elle e ra-
ptando-o o u1etteu n'tuna cesta e o deitou ao Nilo
que o levou na corrente, 1uorto, até ao nutr. Isis
affiicta partiu chorando etn busca do esposo e
achou a cesta e o cadaver junto a Byblos. Quando
Horus, filho de Osiris e Isis, cresceu, pegou e1n
armas para vin'gar seu pae e bateu Typhon. Osi-
ris e Horus forarn os ultimos reis-deuses do Egy-
pto.
Tal foi a fórma ou evhemerista d'esse
mytho profundo do Egypto, cuja expressão é
transparente. Osiris morto vivia no reino inferior
-na região dos espiritos que o anitnisn1o tinha
por tão real como o mundo. Por Osiris e em Osi-
ris a alnta hun1ana passava atravez da n1orte para
a outra-vida da phantasia. O deus eschatologico
tinha por sytnbolo UITI olho mysteriosatnente aberto,
por animal o touro negro de 1\Iemphis, Apis-Osi-
ris, e representava-se como uma mun1ia envolvido
en1 lançoes brancos. Vivo na rnorte, reinando e1u
ahna na região das ahnas, renascia no filho, revi-
via em corpo, e1n realidade, e1n acto, na pessoa
de Râ-IIorus -o sol. A triada estabelecia n'um
mytho unico o nexo das relações entre a mytho-
logia astral e a psychica, estabelecendo o nexo
92 L. I.-
entre o n1ysterio da morte e o facto da vida.
Por isso disse1nos que o n1ytho de Isis-Ü:Siris-
llorus é a cristallisação religiosa do Egypto : é
o ponto culminante em que o ani1nisn1o se cons-
titue cmno um typo, attingiudo o li1nite da , sua
capacidade expressiva.
O contraste das cousas, a dualidade dos phe-
nomenos astraes e humanos, -dia e noute, luz e
sombra, somno e vigilia,- acordaratn, co1no vi-
n1os, a noção de un1a lucta: ao lado dos deuses
bons surgiram os deuses 1naus. E, con1o tambetn
dissemos, se havia local onde esses contrastes se
accentuasse1n, esse loc-al era o Egypto- um jar-
diin encravado em areaes adustos, co1n un1 clüna
benefico durante a visita do Nilo, co1n un1 verão
torrido durante a estiagetn. Set ou Typhon, o as-
sassino de 0Biris, era esse 1nal, sentido nos tempo-
raes do deserto, na calma abrasadora do verão,
nos 1nonstros do Nilo sagrado. O l\Ial é da côr do
fogo, vennelho como o sol estival: Set cavalga o
jtunento · do deserto das areias fulvas. O «destrui-
dor omnipotPntc» estú nas serpentes venenosas
das n1attas virgens, c nos crocodilos e hyppopota-
lllOS sagrados do Nilo.
Denunciada a guerra, o 1nedianeiro e salvador
dos hmnen:::;, christo da n1ythologia egypcia, e1n
cuja ahna renasce tatnbein a alma do Pae, é Ilo-
rn:::; crescido depois da catastrophe, j:í vigo-
roso, preparado para luctas que le1nLram as dos hc-
raldes smnitas. Já o sol rPitaseillo se leYauta no
céu, dissipando as trevas de Apap, os 1naleticios
de Set- ou j:í. o Nilo, soltas as eatnral"tas de
Sy<·na, vetn <lcsrcntlo revolto a <.•ntoriuu· soLre a
<·:unpina abrazatla a frf':::;cnra brotarão cea-
ras. E' então que, no 1nytho, lloru:::; vingador,
salvador, 1 lorus «o falcão de l{â », de pc soL1·c o
VI.- O EGYP'fO- 5.
!)3
carro <lo sol, esfaqueia Apap, ou 1nontad.o no
d o r ~ o dos crocollilos torce c 1nata as scrp0nt<·s fu-
nestas, ou alado cmnbate coutra os hyppopotamos
terríveis. Por isso o egypeio, contrito, o invo-
casn: «Vem a rnin1, acode-1nc ! vem, hoje m<'sino,
agora, depressa! V e1n para guiares a barca sa-
grada ! 'r en1 para repellircs para o deserto os
leões da terra do Egypto e todos os crocodilos
para o fundo do Nilo! A terra inteira surri
quando o sol se levanta: louvores ao filho de Osi-
ris! »
O Nilo entu1nescia, as aguas começavam a alas-
ti·ar-se pelos ca1npos, o ar enchia-se de uma fres-
cura voluptuosa, as ahnas de uma esperança nova.
C01n os lançoes das aguas vinha voando dos con-
fins 1nysteriosos da N ubia, banhando no vôo a
ponta das azas abertas, a ave sagrada de Osiris,
a garça Bennu (ardea purpurea) que é o proprio
deus- a phenix que de cinco em cinco seculos
arde na pyra e renasce.
Descian1 as garças voando largo, desenrolava-se
mansamento o Nilo inundando. Voltava Deus;
Set-Typhon ficara vencido. A ave de Osiris era a
garça, a sua côr liturgica o verde, a arvore sym-
bolica a tamargueira sempre-viva: assim o pinta-
vanl nos tetnplos, assitn o vian1 nos sonhos da ima-
ginação. En1 Phyla, em Abydos, no alto Egypto
d'onde o Nilo ven1 descendo, estavam os sacrarios
principaes de Osiris: ta1nbem a capital en1igra de
l\le1nphis para Thebas; mas o mysterio sagrado em
que toda a mythologia nacional se resumiu era o
culto do Egypto inteiro, e en1 parte alguma d'elle a
Paixão attrahia cada anno tão grande numero de
fieis como em Busiris, no grande templo á borda do
Nilo.
Além, na ilha que o rio inclue acima das cata-
L. I. - ANll\IISl\10
ractas de Syena, assistia-se ao precipitar ela cheia;
aqui, já em pleno delta sarjado de canaes e paúes,
ouvia-se o primeiro grito de Set- quando o Nilo
principiava a recuar e o sirocco batia a brisa re-
frigerante elo norte. O mysterio que abraçava os dias
e os annos abraçava o Egypto inteiro desde as ca-
taractas de onde cotneçam os desertos, até
as bocas do rio onde termina a terra. Set soprava
pela do sirocco, a vançanclo co1n os seus se-
tenta e dois cumplices- o numero dos dias ar-
dentes. Consummava-se então o assassinato ele Osi-
ris. A' os dias iam corrend_o, assitn o
cadaver do ... '\ na cesta ate parar em
Byblos. Isis tva no seu te1nplo, moça, com
hastes ele vacca e entre ellas um disco lunar-
Isis a velha deusa da geração nocturna. Diante da
sua imagem (que Herodoto viu em Sais, na fórma
de uma vacca, ajoelhada, coberta com u1n 1nanto
de J?urpura) de noute as latnpadas, de dia
queimava-se 1ncenso.
A chorar por Osiris, a consolar a .lllate1"-dolorosa
de Busiris, corriatn os fieis de todo o Egypto, e
os ritos, como na Paixão christan, reproduziam
os momentos do drama mythologico, tragedia sa-
grada de todos os annos. 17 do mez de a th yr,
quando o sol passa em Scorpio, er:1 a data da
morte do deus do Egypto. Os sacerdotes offerecian1
á viuva lachrimosa utna vacca dourada coberta
com um véu negro de byssus- coberta de dó,
como se cobrem os santos das nossas egr<'jas du-
rante o tnysterio da Paixão. TatnbCln na paixão
de Osiris havia penitencias, e lagri1nas e confissões;
tambcm se pedia tnisericordia, atnparo c perdão
-porque sernpre a fragilidade lnuuana careceu de
se amparar ao phantastna que a sua in1aginação
creou. No t01nplo de Bu::;iris sacrificava-se o boi
VI.- O EGYI)TO- G.
95
sagrado, extrahiaiu-sc-Ihe as entranhas, enchia-se-
lhe o ventre de Iucl, farinha c incenso regado COlll
azeite, c levava-se a qucin1ar na pyra. Das cinzas
rcsnscitaria outra vez redivivo o deus! Crepitava
a chau1n1a, caíatn as lngri1nas pelas faces doridas,
onviatn-se os getnidos abafados c os soluços bre-
ves dos fieis, e ao sussurro da allucinação da
gente vinha fazer côro o assobiar rnorno do si-
rocco- silvos de Set expulsando as agnas, de-
vorando a verdura con1 a sua guela ardente. Osi-
ris vogava 1norto navegando para Byblos, o seu
cada ver insepulto pedia quando che-
gava o dia de lançar as sement: · · ·:(·rra, n' esse
dia enterrava-se Osiris. A luz d6 pio á noute,
scintillando no disco argenteo de Isis, prenunciava
a vingança de Horus que a mãe carinhosa anla-
mentava. Os dias bellos voltaria1n! Osiris gern1Í-
nava na terra, Horus prepar.ava os braços para a
sua lucta da primavera.
6.
I ,
No mytho profundo do Egypto, vida, -morte e
resurreição, in1agem da existencia transitaria que
na successão dos seus momentos constitue a exis-
tencia eterna,- está tamben1 a historia do nascer,
do crescer e do morrer d' esse typo de mythologia
anitnista que o Egypto nos legou. Tambem ella
vmn da noute, como uma Isis lunar, da noute da
percepção primitiva; tambem cresce para o dia
cotn o sol, como Osiris. A resurreição em Horus
ve1nol-a nos montentos de evolução posterior que
racas tnais bem dotadas fonnularào.
Cristallisada na paixão de Osiris, a tnythologia
egypcia attingiu o momento culminante : só lhe
resta càír e morrer no seio do dogmatismo sacer-
96 L. I.-
dotai, do enkystan1ento ou ossificação em ritos
n1udos, do anthrop01norphis1no realista que ne-
nhuin Evhemero fonnúla ainda con1o doutrina,
1nas que é tão forn1al e positivo con1o o será pos-
terionnente no idealisn1o grego. Esse é o rytlnuo
natural da mythologia: as percepções que se tor-
naranl seres nas condições de deuses, fazem-se
hon1ens divinos; ao n1esn1o tempo que a unifica- •
ção, progredindo por obediencia a un1a exigencia
do pensamento a1nadurecido, an1algan1a todos os
deuses n'um deus unico. R.â é uma conglobação,
Osiris un1a conglobação n1aior ainda: An1un de
Thebas é a son11na absoluta, coeva do ten1po e1n
que os reis ainda em vida eram considerados co1no
deuses hun1anos.
A n1udança da capital de l\Iemphis para Thc-
bas e o predotninio do alto sobre o baixo Egypto
concorreran1 tan1ben1 para subalternisar os deuses
da região. antiga, n'essa segunda epocha religiosa
que vae da XI á XIV dynastias e coincide con1 o
esplendor da indust.ria, da riqueza, das victorias
e conquistas. An1un era un1 deus local e1n 1'hc-
bas: tornou-se o deus por excellencia e1n que
vieram unificar-se todos os deuses con1 todos os
mythos que os tinhan1 creado. A1nun era azul,
como o firn1an1ento diurno; da cabeça ergni:un-sc-
lhe duas plun1as syn1bolicas do duplo dmninio so-
bre a terra e sobre o céu; nas n1àos tinha, o scc-
ptro n'un1a, c o sy1nbolo ela vida, o phnllus g( .. ra-
dor, na outra. A triada repete-se no novo 1nytho
einincnte: 1\Iut é a sua Isis, a tnãe, deusa (la
nonte c da tréva cuja cabeça é df' abutre- do
abutre divino que protege nas batalhas os exerci-
tos dos plw.ra(js; Shn é o Sf'U o iilho, f'S-
pirito da ntnwt'phcra. l\Ias A1nnn-Hn, Râ-o-ignoto,
o invisivcl, não é só, co1no Ü::;h·is, ntn deus snpe-
VI.- O Er.YPTO- G. 97
rior: é nn1 deus qnasi nnico. O lado cschatologico
<la religião, cavado, profnn(lndo, levara a formu-
lar o mytho da immortalidaue da alma domi-
nado pela doutrina da retribuição de um modo
thcologico e absorvente; cncanlinhando a rnytho-
logia para o cspiritnalisn10 theorico e os pantheons
•livinos para o monotheismo ; dando no seio de
.Atnnn-Rft a expressão nitida de dogmas saídos de
tnn animismo qne tivera na triada de Osiris a
sua ultima n1anifestação espontanea. A rnonarchia
e o sacerdocio de Thebas exprime1n u1n estado
acabado de civilisação, em que os documentos de
atavis1no começam a surgir, corno aquelles sym-
ptornas de infancia que observamos nos velhos.
Se o Egypto chegon a mostrar, no mo1nento da
creação da triacla de Osiris, esse estado de combina-
ção on synthese dos elmnentos astraes e dos elemen-
tos psychicos da religião, attingindo a e m i n ~ n c i a do
typo na esphera do anin1isn1o, nem por isso a
phisionornia ethnica da n1ythologia perdeu nunca
unut feição eschatologica d'onde sae, desde que o
equilíbrio se destroe, o mysticismo funebre da de-
cadencia- abnosphp,ra propria onde vieram de-
pois florescer todas as phantasmagorias divinas do
fim da Antiguidade.
Para além do momento em que, sob as seis pri-
meiras dynastias, Osiris, Râ e Ptah eram os deu-
ses eminentes, vê-se u1n passado de rnythos e deu-
ses lunares que se cornbinan1, se1n se obliterarein,
com as concepções posteriores. Isis, a ou o (por-
que o sexo dos indivíduos mythicos é mudavel
com o tempo) velho, venerando, excelso, Neph-
thys (Nebt-ha) a matrona, deusa do mundo real,
. Thut (Thuti) cuja significação é incerta, são affio-
ramentos da n1ythologia lunar ou nocturna, no ter-
reno já coberto pelo strato solar do dualisn1o de
8
98 L. I. - ANll\flSl\10
Osiris (Asar, Asiri) e Set (Set, Suti). São affiora-
mentos porém, que valem mais do que reminiscen-
cias, porque no Egypto não succedeu, con1o na
.. l\merica, absorver o Sol todos os mythos prece-
dentes. O metro, o peso, a sciencia, as letras, to-
dos os elementos racionaes da civilisação que no
idealismo aryano serão propriedades dos deuses so-
lares, ficam no ani1nis1no egypcio dotando a pessoa
do velho e nocturno Thut. A evolução da mytho-
logia progride: confundem-se n'um os tres cul-
tos de Osiris, Râ e Ptah, e na éra das pyraulides
consumn1a-se a deificação dos monarchas; attin-
ge-se o monotheismo e a divinisação do home1n,
termos formaes derradeiros da mythologia, mas a
zoolatria presistente, a magia nos ritos e o culto
dos mortos ficam affirmando sempre que esses la-
dos nocturnos são os predominantes no animismo,
filhos da noute, da sombra e do sonho.
O pensamento que não teve capacidade para
sa.ír fóra da comprehensão ani1nista do mundo ex-
tingue-se n'utna velhice assustada de phantasmas,
da mesma fórma que veren1os ulterionnente ex-
tinguir-se n'um dilettantismo esteril o pensamento
grego por não ter podido alliar o caracter ou a
vontade psychologica á con1prehensão ideal, esthe-
tica, solar, que forn1ou do mundo no systema dos
seus mythos.
7.
,.
I ~ ' portanto chegado o m01nento de obscrvar-
Inos a cschatologia excessiva d'csse povo que fez
das pyra1uiu0s tun1ulares o tnaior dos seus Inonu-
Jnentos, deixando-nos o scFulchro cotno syn1Lolo
da stta passagen1 na terra. Este estudo coiuplctar<Í.
o da n1ythologia do ruundo externo, no qual Jl
VI. - O EGYPTO- 7 99
·vin1os os vestígios c docu1ncntos <los <lcuses pre-so-
lares c na zoolatria, intiinaincnte con1Linada com a
1'(\prcseutação d'esses deuses e de todos, o nexo
fonnal entre os mythos astracs ou 1netereologicos
c os n1ythos psychicos: os aniinaes são divinos
porque n'clles habita a alma, espírito, ou so1nbra
do deus, visível nos astros, ou vida nos sonhos.
Estudada a morte, o circulo da allucinação mytho-
logica ficará encerrado.
«Üs egypcios, diz Diodoro, faliam das habita-
ções dos vivos co1no de estalagens, mas dos tumu-
los dos mortos como <le vivendas eternas, porque
os n1ortos passam edades sem fim no Ilades. Por
isso attendern pouco ás habitações, pondo um cui-
dado extraordinario nos sepulchros. » A idéa pri-
nlitiva e sin1ples de que a morte é «o somno eter-
no» germinou e no pensa1nento egypcio de
fór1na a encerrar a série de concepções 1noraes e
transcendentes, passiveis no seio da n1ythologia
psychica. O Egypto escavou tanto o mysterio da
• Inorte, que o corpo das suas invenções a tal respeito
é un1 repositorio onde se encontra1n todas as in-
venções de todos os povos. Os n1ytlws propria-
Inentc psychicos, do sonho ou da allucinação, de-
pois os mythos moraes retributivos, depois os Jny-
thos transcendentes- a série inteira das invencões
passiveis realisadas espontanea ou
c u1n codigo co1npleto da morte, eis ahi o que a
ü:naginaçào funebre d'esse povo nos legou.
sempre a idéa realista da existencia
turnular, ficando selvagem ainda nos periodos de
111aior civilisacão. Reservavam-se com o caU.avcr
todas as cous;s, ou imagens das cousas que o vi v o
adquirira ou fizera: a cova era un1a summa das
occupações e das acções da vida; as paredes do
sarcophago, coalhadas de inscripções e pinturas,
*
tOO L. I. - ANI.:\IlSliO
um text0 biographico. O caixão, os lançoes do ca-
daver indicavam a sua posição no mundo e a sua
riqueza. Deitado no esquife, a face era velada por
uma mascara reproduzindo-lhe as feições: a ima-
getn equivale á pessoa.. O esquife era, con1o as
paredes elo carneiro, coalhado de letn h ranças e
memorias em imagens e inseripções. No seio do
cadaver pintava-se o escaravelho de Ptah, sym-
bolo do auto-renascimento d'esse que, tnorto, revi-
via; em um dos olhos, abertos, punha-se o synl-
bolo de Osiris. O pritneiro caixào tinha a fónna
do corpo a que se ajustava. Havia depois un1 se-
gundo, utn terceiro, até utn quarto: o tnorto ca-
rece ele defesa! Para os ricos, esta série de cai-
xões, tnnicas de que o cadaver era o nucleo, en-
trava n'tun sarcophago de granito cuja tatnpa era
sellada a ponto de se tornar itnpossi vel de abrir.
Assim se levava o corpo ao tutnulo-, n'urn barco
rolando sobre toros- con1o o barco do sol na sua
viage1n pelo espaço !
Sen1 ser encarnação ele divindades particulares
ou de attributos divinos, {t n1aneira dos anirnaes
vehiculos das almas dos dPnses, o h01netn era urna
manifestacito da viela transcentlente. Tinha nn1a.
parcella da iintnortalidade real elos deuses. e aquel-
Ie que durante a existencia estnílara e dnsejara o-
absoluto, chegava depois da tnorte a viver cmno
ahna divina. ..A sua persoualida<le não se perdia,
e por isso era religioso o cniclado na conservação
dos seus restos-i1nagen1 e vehicnlo d'essa allna
emigrada. Era rnistér dcfen<lel-os contra a corrup-
ção, contra os ataques da natureza c dos tnons-
tros. F<)J·a tlo alcance <los animacs <le rapina, a,
salvo <la UCstrnição, OS ca<lav<'rCS gnar<lav:un-se
co1no thf'sotu·os (\nl sepulturas frias, s0gnras, inac-
ccssivcis, irnJnacula<las c indc8tructivcis: baluartes
Yl.-0 EGYPT0-7 . 101
.da Juorte, con1o c1la eternos, voltados sen1pre ao
l)Onente, na deiTota de ()siris, profundos no solo,
ou eseavados na roeha, ou esn1agados soL n1ontanhas
de peth·a co1no são as Pynuuides. Lú dentro, na
cella interior da fortaleza inaccessivel que o de-
f<·nrlP, esbi o Inorto prC'parado para resistir incor-
ruptível ao tetnpo. Ou lhe extraíran1 as entranhas,
religio::;auwnte guarLladas 0m un1as, ou injeC'taram
o corpo com liquitlos enLalsatnantes, ou o guarda-
rain n 'utna salga e1n salitre durante o te1npo ne-
cessario. 1\Iutnitieado, é eterno; involvido em liga-
duras, encC'rra<lo en1 caixões que a rocha esconde,
é inaccessi 'Tcl.
A 'que111 do sacrario onde jaz o esquife ha a
capella onde se depositam as offertas: o 1norto é
quasi u1n dPns. Vive con1o aln1a, e as alrnas são a
substancia dos deuses. Despir o in volucro terres-
tre, voltar ao estado aereo, é adquirir, senão o fa-
cto, a virtualidade pelo n1enos da existencia sup-
posta dos deuses. Já o 1nytho da ahua se analy-
sou, dividindo-se ern substancias, cuja natureza,
cujo destino são diversos. Vivo, o hornem consiste
n'un1 involucro, o corpo, habitado por « Khou »,
que é o mytho da intelligencia ou do pensa1nento.
Khon, digamos uma rnonada animista, percorria li-
vreinente os n1undos, operando sobre os eletnentos,
coordenandó-os, fecundando-os : o espaço está coa-
lhado de espiritos que entratn um a tun nos cor-
pos no acto do nascimento. 1\Ias, ao entrar n'um
corpo hun1ano, a n1onada ánimista reveste-se d'uma
substancia inferior a si, porém divina ainda: a
alma propriamente dita. Khou encarna em Ba, a
ahna, demasiado divina ainda para comn1unicar
directamente com a carne - Khat ; por isso Ba
te1n corno medianeiro Niwu, o sopro-vital, alma
spirritus} pneuJrta} que anima o corpo.
i02 L. I. - A:'\IMISllO
-Tal foi o systema subtil de mythos eruditos que
os sacerdotes do Egypto deram co1no definição
transcendente dos mythos anitnistas espontaneos.
Por outro lado, fonnulado o mytho da nitra-
vida, typo e ideal d' esta, era necessario que o
destino das almas se consagrasse por uma doutrina
de penas e pretnios, desde que na vida real a so-
ciedade attingia o momento da concepção de un1a
moral imperativa, ou de uma justiça. O monarcha,
arbitro dos destinos dos povos, é o typo do deus,
supremo-juiz no tribunal das almas. Na passagem
de uma para a outra vida está pois o Juizo-final, e
para alétn d'elle o destino abençoado ou tnaldito.
A nuvem ou o clarão ( conforn1e agradar n1elhor·
ao pensamento dos metaphisicos) da allucinaçào
rnythologica acon1panhou sempre a viagen1 dos
hotnens até que chegaram ao porto da razão cri-
tica. O i1nperio na terra é o monotheisrno no céu,
a justiça na sociedade é o Juizo-final na morte.
O hotnem egypcio, producto da justaposição de
uma carne e de uma alma, de l{hou e de Khat,
elen1entos mysticamente antagonicos, é como que
o theatro de uma lucta real. Elle, homem, ne1n é
a carne nem a alma: carne e ahna vivem n ·esse
que por fitn se reduz a um lugar ou un1a condição
apenas. Quando, com a morte, essa condição ces-
sa, Ba apparece no tribunal de Osiris para ser
julgada- Da que é a alma responsavel, a ahna
hutnana, e não l{hou, a monada anin1ista, divina.
c1n essencia, incapaz de tnal, e que, introduzinrlo-se
cm Ba, a habilitou a cmnbater contra n. carne.
Exhalado o ultimo suspiro, a ahna desce ~ o tu o sol
poncnte ao fundo da terra pela estrada de o ~ i r i s .
E' ahi que reside o Snpremo-juiz, ahi esbí o tri-
Lunal temível da «avaliação das palavras» no «dia
da justificação>>. Ü8iris coroado tem nas n1ãos u1n
VJ.- O EG\PTO -7.
chicote c u1n baculo, sentado n'un1 throno que o
1nar rla virla rodeia coalhado de flores de lôto. En1
volta. do throno fican1 os quarenta e dois espiritos,
e 1\nnbis con1 cabeca de chàcal e I-Iorus con1 ca-
beça de falcão os 1neritos das ahnas. A
balança tem n'un1 prato o coração do 1norto, no
outro luna penna de avestruz- sytnboio da ver-
. dade in1ponderavf\l. Osiris, co1n a cabeça de ibis,
« seriba da verdade >), vae notando os pesos ...
Supprin1indo-se nos deuses bons as cabeças anintaes
conservadas ainda nos demonios, foi este o quadro
que Angelo pintou mn Roma. O juizo-final
christão é o egypcio.
O realisn10 da i1naginação espontanea é tenaz
como a gran1tna que resiste á charrua. As visões
phantasticas do outro-n1undo, originadas nos so-
nhos, nas son1bras, complica1n-se de extravagan-
cias, mas não mudam de essencia. São esse::; os
1nythos do realis1no vivo, a que ve1n juntar-se un1
outro genero de mythologia- a dos scribas e phi-
losophos que .definen1 e theorisam as essencias das
almas e os valores dos .destinos. E' o sacerdote
qnen1 distingue Ba e Khou: não é o povo incapaz
de subtilezas. Sobre u1n strato de ·mythos-de-re-
presentação assenta um strato de mythos-do-pen-
san1ento- os mythos metaphisicos.
Se a balança de Anubis ou de Horns pende e
Osiris conde1nna, IChou toma posse da ahna que
não soube ou não pôde obedecer-lhe na viagem da
vida, e principia com ella, con10 um carrasco, a via-
gem pelos espaços, viagem infernal de castigos,
até encontrar u1n corpo expiador das sentenças
do tribunal divino; até que, cun1pridas ellas, Ba
volta ao nada, Khou, a n1onada animista, ao seio
infinito d'onde tudo nasce.
1\ias se a balança annunciou virtude e innocen-
t04 L. I.-ANII\IISMO
cia, Ba recebe o coração e os tnembros, e Hathor
e N ut asperge1n-na co1n a agua da vida: está
pron1pta para a viagen1 do e1npyreo. O ca1ninho é
agreste, en·içado de perigos e con1bates. Deram-
lhe os deuses uma lança co1n a qual vence os es-
píritos maus na estrada do céu- crocodilos, co-
bras, as duas viboras e a serpente .Apap, o 1naior
dos den1onios. Afinal, passados os co1nbates, ter-
minada a viage1n, a alma ben1aventurada entra
nas campinas de Osiris, de cearas louras infinitas
em que as espigas n1edem dois cubitos, cearas Ina-
tizadas por bosques sen1pre verdes, co1n fontes de
agua cristallina e ribeiros lilnpidos onde se refle-
cte o azul puro do finna1nento da virtude.
8.
Eis ahi os InOinentos supretnos que a sen1ente
do animismo attinge. Viinol-a principiar a genui-
nar no seio da Ílnaginação creadora do selvagem;
vimos ir nascendo, crescendo, bracejando, subin-
do, essa vegetação de mythos que ten1 o seu typo
e1ninente nas idéas religiosas dos egypcios. Attin-
giu-se o lilnite de capacidade expressiva latente
n'esse 1nodo de percepção que se diz auitnisn1o, e
que, sendo o proprio do estado selvage1u, é tam-
benl o particular de certas raças capazes, si1u, de
alcançaren1 a civili:saçào fortual, co1no se viu no
Egypto, mas incapazes de conceberCin a existcn-
cia con1o tlllla vontade ou tuna idéa, con1o u1n acto
ou u1n
«A religião do Egypto, diz Ti ele, nunca se rc-
fonnou; os cle1umltos prin1itivos, dcsenvolvcnuo-se,
consc·rvara1n-se. Os prilnciros ritos lnautétn-sc atra-
vez U.e toda a historia ainua que :ís vezes a sua
significação se altere: estão n' este caso o culto U.os
Vl.-0 EGYl'T0-8.
nwrtos c a adoração dos anintacs que cn1 povo al-
gntn attingiu tanw.nlw. int portancia. »
J.ois cultos e zooloo-icos
' b b '
n. dos anituistas pritni-
1nostranuo-nos coino, se é geral o
rent-se vestígios das cdades prinlitivas durante os
pcriodos historicos ulteriores, o Egypto o
caso particular Ue Ulll povo que attingiu a civili-
saçào cn1 todas as suas fónuas, tatn-
benl a SUa religião rutle SClU a transfortnar. rralvez
possa dizer-se que o Egypto 1nostra a
de un1 estado selvagmn, c que a India dos Vedas
é a barberie da civilisaçào, se taes expressões não
raiassen1 con1 o paradoxo : que111 n1editar sobre
ellas verá que são exactas.
O percepção infantil do n1undo, te1n
no seu caracter realista o n1otivo do seu lin1ite.
Sen1 duvida o Egypto, civilisando-se, introduziu
noções n1oraes e idéas costnologicas no corpo da
sua tnythologia pri1nitiva; 1nas cotno ella era ani-
Inista apenas, a transcendencia das doutrinas dos
collegios de sacerdotes de Osiris e de A111un, de
1\Iemphis e de Thebas, conserva o 111esn1o caracter
de infantilidade realista: é a sabedoria de crean-
ças- é a doutrina sin1ples do juizo-final e o sys-
tema da e1nanaçào.
A triada n1ythologica, resutnindo as doutrinas
ácerca da existeneia n'un1a identidade absoluta,
exprin1e, sin1, utna idéa cos1110gonica (inherente ao
corpo da religião desde que a sociedade, co1no tal,
attinge um detern1inado tn0111ento de seu desenvol-
vimento) sem chegar poré1n a fonnular utna theo-
ria psychologica das Causas universaes. Na triada
egypcia, Deus, unico e1n essencia, não é unico em
pessoa. E' pae e por isso 111es1110 a potencia da
sua natureza tal que gera eternamente sem se di-
106 L. I. - ANll\liSl\10
minuir, se enfraquecer, nem se esgotar. Não
necessita saír de si proprio para ser fecundo. Uni-
co, na plenitude do ser, concebe; e como não tem
Inomentos, a concepção é identica ao acto, a con-
ceição ao parto. E' pois, a u1n ten1po, o pae, o
filho, a 1nãe: geradas e1n deus, nascidas e1n deus,
as tres pessoas - Isis-Osiris-Horus - se1n saírem
de deus, são Tudo.
Por isso, a ausencia de tuna idéa de vontade,
já na creação espontanea dos mythos pritnitivos,
já nas doutrinas con1 que se fortnam os 1nythos
theologicos, limita a capacidade do animis1no, con-
fundindo a substancia com o acto. Por isso os deu-
ses, como elen1entos, existem, n1as não tén1 que-
rer; por isso as creações mysticas mais requinta-
das dos egypcios vale1u tanto como os fetiches
pRssivos dos selvagens: não ha ahi vontade, não
ha querer, não ha caracter, e por isso nrio póde
haYer outra base para a moral, além d'aqnclla
que está na força organica da sociedade consti-
tuida. O herois1no é o traço distinctivo da
tnythologia elo semita, inventor de Heraldes e de
Jehovah, typos do querer indotnavel e da vontade
absoluta; o que põe no 1nytho un1a força
viva da ahna• do hoinetn, construindo-lhe o cara-
cter e dando ::í tnoral tnn apoio divino ou trans-
cendente; o heroistno, nueleo e alavanca, ahna e
braço do homen1, nexo activo entre o n1nndo real
c o imaginaria, e por isso cotno que a substancia
do proprio h01ne1n- é isso o que não cabe nos li-
do animistno.
Passivo por um lado, realista pdo outro; e
, identificando tudo na confusão indistincta das pcr-
('(•pções infantis, tan1bcrn não sente a ncccssid::ule
d'css<:>s nH•clian<:>iros qne o aryano concebeu para
pôr cm r('laçâo o Innndo incffavel das idéas cotu o
VI.- O EGYPTO- 8. 107
}Jobrc n1nndo da realidade. N01n ha n' 01le um deus-
vontade, ne1n nn1 verLo apollinco. 'rudo o que é
diYiuo é real: o invisível, o ignoto, vê-se na alln-
cinaç.ão, cmno lnna parte do n1un<lo de facto sepa-
rada da outra por u1n véu de nu vens que a visão
separa. Para :íqnCin estão as cearas do vallc d.o
Nilo e os crocodilos c hyppopota1nos do rio, para
aléin as cearas tnagnificas das cmnpinas d.c
e os monstros do cortejo de Apap. A morte é a
cortina que separa os dois ca1npos, é o nucleo de
todo o systen1a de idéas religiosas, o n1on1ento cul-
n1inante da existencia indivisa que, vindo do ven-
tre, sobe at0 ao turnulo, para descer d'ahi outra
vez ao seio de un1 Todo genesíaco.
Concebér a vida no acto, á n1aneira de un1 se-
mita, ou a eternidade e o infinito na successão das
vidas e dos ten1pos, á Inaneira de un1 aryano, eis
o que não eabin. na capacidade 1nental do hatnita
-selvagem civilisado. Aquelle sussurrar de al-
lnas, aquelle ondear de fogos fatuos, aqnelle for-
n1igar de so1nbras e visões povoando os sonhos,
anitnando os bosques ilhnninados pelo luar da nau-
te n1ysteriosa; aquella. confusão indistincta de sons,
fórmas, 1novilnentos, n'urn cháos phantastico in-
ventado pela ilnaginação sensível e infantil do sel-
vage•n: essa phantasmagoria por onde cotneçámos
a nossa viagem no matagal das almas, veiu caini-
nhando comnosco, e nebulosa.
Dos confins mais ren1otos do mundo, dos esta-
dos mais ruelas do homen1
7
chegá1nos a utna civi-
lisação que ensinou ao europeu variadas artes,
dando-lhe mais de uma licção ainda hoje repetida
e1n nossos dias. E esse nevoeiro ani1nista, fixan-
do-se sobre o Nilo, co1no a bruma que cobre os
rios, tornou-se o corpo da religião de u1n povo do-
tado de engenho e arte. O talento dos sabios e a
108 L. I.-ANIMISMO
visão dos mysticos, penetrando na ceara das ahnas,
analysaratn, estudaram, profundaratn o sentido de
cada utn d'esses 1nythos ingenuos; deratn-lhes in-
terpretações novas, revestiranl-llOs de ligaduras sa-
gt·adas co1u jerogliphos e imagens, invol veran1-nos
e1n caixões successivos, etn sarcophagos de gra-
nito, mettendo·-os em camaras escavadas nas en-
tranhfts das rochas; 1nas no an1ago de todas as
suas co1nbinações subtis, a munúa resequida ficou
sendo o sy1nbolo d'essas invenções de uma infan-
tilidade caduca.
liVRO SEGUNBO
Naturalismo
I
A oreação
1.
ngora n'un1 segundo momento da evo-
luç:to da mythologia religiosa: aquelle a que podc-
nlos chamar barbaro, porque é o mais geral no es-
tado ethnon1etrico assi1n denominado. Se para o
estado anterior achámos um typo na mythologia
dos hanlitas, para o actual encontramol-o na dos
se1nitas, onde os mythos da creação constituem o
nucleo do systema das idéas religiosas, denunciando
na cotnprehensão do Universo como um fiat_, con1o
n?1 acto, o apparecimento de uma noção psycholo-
gica.
Não quer isto dizer que nas mythologias selva-
gens, netn na do Egypto, a imaginação deixasse de
representar de um ou de outro modo o mundo e a
sua orige1n, isto é, nn1a astronomia e uma cosmo-
gonia: quer dizer que essas theorias, se tal nome
lhes convém, exprin1em uma ausencia de exigen-
cias rac.ionaes, ou prescindem de uma doutrina bas-
tante para satisfazer a intelligencia. A cosmogonia
é verdadeiramente uma fabula, dentro da qual se
não encontra expressa a causa da existencia, por-
110
L. II.- NATL"RALIS:\10
que, não se distinguindo da substancia animista os
deuses geradores, o cháos não se resolve.
Ha de certo abnas ou deuses geradores, n1as que
o são unica1nente por estar na natureza da subs-
tancia que os co1npõe o sere1n-no, o gerarem, o
produzirem u1n mundo que se não differencia d'el-
les. Sen1 duvida, a imaginação mythogenica dos
selvagens não attinge similhantes noções, mas a
cosn1ogonia dos egypcios mostra que fructos ou
doutrinas estão latentes na semente do realismo
animista primitivo.
A prin1eira impressão que o aspecto da terra e
do finna1nerito produz é a de uma superficie plana
coberta por utna especie de tampa concava. Os
yorubas africanos representam-se no seio de duas
metades de un1a cabaça gigantesca. A differença,
poré1n, evidente entre a terra e o firma1nento, cu-
jos aspectos, cujos phenomenos são tão diversos,
acorda logo o mytho da separação -porque o es-
pirito ·htuuano, unitario por excellencia, não con-
cebe a diversidade senão co1no
u1na divisão. Pua.ngku foi que1n na China separou
o céu da terra., e e1n todo o extre1no Oriente até
á Polynesia é geral a opinião de que pritnitiva-
lnente céu e terra, collados, eratn uma cousa unica.
Assim, a sen1entc da qual o sen1ita extrahirá
a sua concepção 1nythica de um deus pae on1nipo-
tente e creador encontra-se ta1nbem no fundo pri-
Jnitivo das in1pressões humanas, especie de
onde tudo se agita para se desenvolver, differen-
cianuo-sc. Em toda a parte o céu e a terra, ou o
sol c a terra, são os paes do 1nnndo e dos hon1ens;
1nas entre a descel)dencia por etnanação, ú 1naneira
do hmnita, c n. creação senlita ha tuna diffcrença
<'ssencial nas iuéas. l\latna-Ppaeha, a terra gera-
dora no Peru', a Inatcruidade dos cle1nentos que
I.- A CREAÇÃO -1. t li
se observa (\ntre os finnios, os laponios, os estho-
uianos e por toda a An1erica, não valctn n1ais n<'nt
ntenos para o nosso caso do que a filiação do
IllUtHlo en1 Ptah.
Conltudo, a voz de un1 dens que o australio ouve
110 rngir do trovão, voz que o assusta sen1 poder
definir o nwdo nem contém etn se-
Inente a possibilidade do rnytho de utn ser volun-
tario e creador. Não é j{t o esboço de uma noção
rl'esta espccie, o n1ytho de 1\laui, o deus-sol dos
1naorís, que creon a ilha pescando-a do seio do mar
con1 o seu anzol encantado? O selvagem, com ef-
fcito, restringe a área das suas noções ao pequeno
pedaço de Jnundo que habita, porque setnpre o
hon1en1 se considerou a si e á terra o centro das
cousas. Por isso o deus õu o espirito gerador ou
creador do pedaço particular de terra é tambem
quasi sempre o primeiro pae da tribu.
Na cosn1ogonia luunchadal ha um deus positi-
vatnente creador: l{utka, o que fez o céu e a
terra e os homens. A creação, porén1, é tão eterna
co1no o creador; e a alrna ou substancia do ho-
1ne1n tão identica á de l{utka, que o ka1nchadal
crê-se muito mais intelligente do que o seu deus,
notando-lhe os vicios da obra: as montanhas e
barreit·as a prurno, as torrentes precipites, os tem-
poraes de chuva e vento, as te1npestades do n1ar,
as correntes contrarias- todos os embaraços e pe-
rigos das regiões malfadadas do polo. Não obser-
varernos acaso, n'este exen1plo, o ponto de diver-
gcncia das duas concepções até ahi confundidas?
V etnos jú ntn ser creador, mas ·vemos urna crea-
tão identificada com elle,. e um deus que, ape-
stu· de voluntario, tem un1a intelligencia propria tão
litnitada, que se nos affigura encontrar no mytho
ka1nchadal, como dissemos, o ger1nen da Vontade
1 t L. II. - NA TVR.\
involvida ainda nos Iimbos nebulosos da Emana-
cão. A fabula dos tamauaks do Orinoco é simi-
ihante á de Kutka: tamben1 An1alivacco, o crea-
dor, discutindo muito a obra con1 seu irmão, fez
quanto pôrle para dar duas correntes inversas ao
Orinoco: os barcos snbiriatn por uma, desceria1n
por outra; n1as o deus não obteve o que desejava.
Esse desejo é o principio de uma Vontade que
ainda não consegue, porén1, don1inar, no espirito
rude do selvagem, a força bruta das cousas.
2.
Suban1os na escada dos povos; aprox1men1o-nos
do centro do mundo t-va1nos entrar no seio da
área semita.
Diz Diodoro que etn Eabylonia se adoravan1
doze deuses como senhores do céu: cada um d 'es-
ses deuses era nm n1ez consagrado n'nn1 signo do
Zodiaco. Acin1a de todos ficava El ou II, o que
denominou a grande cidade: Bab-El, Babylonia
-a porta-de-E I; depois de El vinham Anu, Bel,
Hea, Sin, Sanws, Bin; d(lpois os deuses dos pla-
netas- Auar, l\Ierodach, Nergal, Istar e Nebu .. A
n1ythologia astral apparecc-nos aqui j:í constituída
n'um corpo de divindades cnjas funcções e lugares
são definidos. .A <lar, o su blitne, está frente dos
cinco espiritos <los planetas cuja fnria cruel se
propiciava con1 o sacrificio (lc crC'ançns. 1\dar é
:--;atnrnó, Nergnl é e o Sf'U grande templo
estava en1 ](utha, a sna i1nage•n era un1 leão
alado com cabPça hnn1ana, o sen lugar :i frPntc
dos cxPrcitos conqnist:ulores, no frngor das bata-
lhas. Sin é a lua, :ulora<la cn1 Ur, in1agc1u bar-
tr.v. Rru;as ltumanas, u, p. !1.
1.-A CBEAfiÃ0-2.
ha<la con1 raios ou armas brancas Bamtnejantcs e o
crcse<'ntc por cmblCina; Sarnas o sol qnc « illu1nina
o eén c a terra>> e te111 por nrn disco de
ouro rutilante. Bin, o trovão, na plenitude do céu,
entpnnha urna espada de fogo qnc t• o raio; c
cotno as trovoadas Jintparn os ares c fecunuarn
fontes, Rin é o pac <la nbundancia e da fertili-
dade. A nn é o tirrnatncnto; Bel, o creador, varreu
as son1bras iniciacs, dividiu o Cháos-Ornorka e
forn1ou os hotnens e os animaes. Dei c El, «a lani-
pada dos deuses>>, a luz e o creador, são a di-
vindade snprenut c paternal da Chaldêa. « El e
Bel, diz o rei I-Ian1n1urabi, deran1-1ne o governo
dos povos de Sumir e Accad ! »
O pensamento de un1a creação voluntaria, a
idéa de luna Causa da existencia, a filiação dos
hon1ens, dos anitnaes e das cousas n'tun acto d' essa
Vontade-Causa em que a authoridade e o governo
de sociedades já organisadas encontran1 utn princi-
pio,- eis ahi o que se manifesta na mythologia na-
turalista dos setnitas, a qual, desde que se observa
con1 profundidade, differe visceralmente do systema
anitnista dos hamitas. Qualquer que seja o grau
de profundidade ou de elevação mystica a que o
Egypto leve a sua religião, é facto que ella nunca
chega a perder o caracter pritnitivo que a distin-
gue. Se, porétn, dizetnos que o naturalismo se-
nlita, animando o Universo con1 a concepção da
Vontade, 1narca um progresso na evolução suiu-
maria da mythologia, ninguem inferirá d'ahi que
queiramos dizer que as civilisações da Chaldêa e
da Judêa, que os in1perios de Babylonia e da As-
syria, ou a 1nonarchia dos judeus, ou as republicas
dos phenicios, ilnportetn utn progresso nas fórmas
extfriores do desenvolvimento das sociedades. Essa
questão não vem para aqui: apenas ten1os a Iuos-
9
114 L. II. -:NATUR.\LIS:\10
trar que da mythologia dos hamitas para a dos
setnitas ha um progresso no grau de expressão
philosophica, por isso que ha na concepção espon-
tanea da existencia como un1 acto, de deus cotno
uma vontade, uma base transcendente para a mo-
ral.
Ninguem ignora que tambem o Egypto- e
as n1ythologias, assin1 que a sociedade constituída
obedece a leis-· concebeu a ultra-vida como a con-
sagração d' esta,. pondo nos pre1nios e penas trans-
cendentes o destino das acções; 1nas a prosecução
do nosso estudo tnostrará como entre esta idÉ-a
simples, exterior e n'um sentido até estranha a
doutrina da etnanação, differe das idéas semitas,
nas quaes os premios e castigos ultra-ttuuulares
tém um outro valor por isso mesmo que o mytho
de Deus tetn um outro caracter.
Na zoolatria do Egypto vitnos o doctunento emi-
nente de animismo: os deuses já humanos _tém
ainda cabeças ani1naes. A regra entre os semitas
é o inverso: os deuses são frequentetuente anin1aes
com cabecas hun1anas -como o leão alaclo de Ner-
gal. Est; opposição nas itnagcns não traduzirit a
differença dos n1odos de percepção? Parece-nos que
sim. l\Ias o que, sem duvida, mostra que entratnos
n'nn1a csphera nova de representação da
ó, depois dos tnythos da creaçào, a dos n1ythos
dos castigos cosmicos- dos diluvias.
Logo que o mundo é a vontade de un1 deus e1n
acção e o hon1cm utna creatnra fortnada por (\lle, o
<lualis1no ingenito no espírito hutnano, dnalistuo
<tuc surge cmn as pritnciras reprcsentaçõPs tnytllo-
logicas, o dualistno da natureza nos dias e nas
noutcs, na luz e na tréva, c o Jnalisn1o do espí-
rito n'essc desdobrauwnto <luc se percebo no so-
nho; o Jualistno, dizctnos, fonnula-so entre deus c
I.- A CnEAÇÃ0-2. 115
<> hon1(lln de utn 1nodo incmnpativcl con1 as idéas
snbstanciaes c co1n o systerna das emanações
fornrnla<las cm doutrina pelo ani1nisn1o culto do
Egypto. Ahi, a esscncia de deus c a do hon1cn1
são n1na c a n1esn1a; para o semita, hotncm e deus
fonnan1 um contraste: creador e crcatura. Não ha
identidade, h a opposiçfio; e os e r r o ~ ou desvios das
nor1nas que a sociedade estabeleceu, crimes julga-
dos no tribunal de Osiris, sfio para o semita Pcc-
caclos- cri1nes contra a Vontade absoluta e crea-
<l.ora. Quando, no desenvolvi1nento das f<írn1as de
governo, se forn1úla a idéa ele u1n 1nonarcha abso-
luto por direito divino, apparece o crin1e de lesa-
Jnagestade, cri1ne diverso dos ordinarios, crilne que
não é só tuna infracção da lei, mas um ataque ao
proprio principio _da authoridade: assin1 tamben1
é o peccado entre os se1nitas.
O deus que fez o mundo e as creaturas tem en1
si o poder de castigos destruidores da propria
obra. A allucinação religiosa cresce á n1edida que
o espirito cava os mysterios da existencia: a
phantasn1agoria ani1nista dos elementos e dos es-
pirjtos faz-se agora a phantasmagoria n1oral de
nn1 mundo 1nesquinho baloiçado na n1lio de uma
divindade omnipotente, como a pella que se jogasse
pelos espaços infinitos. Se1npre se disse que deus
enlouquece: a loucura, ou ,a e1nbriaguez, ou a allu-
cinaçâo divina, cresce á n1aneira que sobe. Priini-
tivainente o ar soava compacto e uno co1n o sus-
surrar das almas substanciaes, agora ruge con1 os
clamores e gritos de colera de aln1as voluntarias.
As tetnpestades, os ca.taclystnos dos ares e das
aguas, as trovoadas, as cheias, os terramotos eran1
os espiritos na sua existencia natural: são agora
os actos de um espírito invisivel, omnipotente e
creador.
*
1 t6 L. H.-.NATuRALISl\10

3.
De tal modo se tornaram religiosos os mythos
dos diluvies na imaginação creadora dos povos,
mythos universaes, sem duvida, 1nas cujo lugar na
serie evolutiva é este.
O leitor já sabe por que 1nodos e e1n virtude ele
que necessidades o ho1nem pritnitivo representa
em n1ythos tudo aquillo que observa e não explica.
As cheias, facto anonnàl por chuvas ex-
cessivas, pelo derretin1ento de neves nas monta-
nhas, ou por con1moções do n1ar enviando lançoes
de ondas sobre as terras baixas, con1o succede e1n
Bengala por exen1plo; as cheias são factos univer-
saes, e por isso é universal tambem o rnytho elo di-
luvio fl,inda despido ele caracter religioso, sem si-
gnificação ele castigo, e inscripto na categoria
do que Tylor chan1a os «n1ythos de observação))-
isto é, os mythos si1nplcs ou inintencionaes ... Assi1n
v. g. a descoberta de uma caverna de ossos dá
lugar á formação elo mytho de tuna batalha esque-
cida; assin1 tambem, porventura, a observação dos
jazigos conchyliferos no interior elas terras ou nas
alturas elas n1ontanhas, inexplicaveis para que1n
ignora os factos ele sublevação, levaria a suppôr a
verdade ele un1 diluvio que tivesse coberto ns cu-
miadas dos Iuontes, da Inesina 1naneira que os
fosseis de anituacs pertlidos levanuu n1ais ele tuna..
vez :í invenção de aninutes Inythologicos.
Nada d'isto, poréu1, pertence ainda ao fôro da.
n1ythologia religiosa, porque os n1ythos só se tor-
naul religiosos, ou, por outra, st. existe religião
desde fpte as invenções ituaginati v as se propoCiu
cletcnuiuar utn systctua tlc relações entre o co-
nhecido c o ignoto, entre o hotne1n c esses cspi-
1.- A cnEAÇ:\0- 3.
t 17
t·itos qne então se torn:un d0uses. Assin1, por toda
a parte, os fios da chn v a descendo das nu vens
são «serp0ntes», n1as essas serpentes s6 são divi-
nas quando a n1ythologia se torna religiosa. Para
os akras da costa do ()uro expri1ncn1-se pelas Ines-
l11as palavras estas duas locuções: «choverú?-
deus ? >> E os Laghirnús da Africa C'entral, diz
Nachtigall, téu1 con10 nOine de divindade a pala-
vra « tonnc11ta ». Não afhnirará pois que os my-
thos diluvianos sejam universaes, porque o é o phe-
nomcno das cheias; nein que sejatn attributos da
divindade, porque tudo se torna n1ais ou menos di-
vino no n1undo percebido n1ythologicatnente.
Brinton achou n1ythos diluviauos em vinte c oito
nações a1nericanas. Na lenda arancania, apenas
tr0s pessons se sal vara1n refugiadas no alto do
1nonte Thegtheg que exerceu, flnctuando, o papel
de Arca. Na tradição cholula, do pre-azte-
que, o plan'alto de Anahuac inundou-se e todos
os hotnens, salvo sete que se refuginran1 c1n ca-
vernas, foratn transfonnados e1n peixes; na cos-
lnogonia azteque ficou -se contando un1a edade-da-
agua en1 que a humanidade fôra destruida. Es-
tes mythos, colligidos por Htunboldt no que diz
respeito ao 1\Iexico, são con1muns, sob fónnas va-
rias, a toda A1nerica. Nieuhoff conta os do Brazil,
ElJis os da Polyncsia.
O 1lfahabharata registra utn diluvio, o Zenda-
vesta outro; o Chu-king registra outro: Yao chatnou
os seus nlinistros : «Ai ! as aguas do céu propagatn
a destruição; abraçan1, galgando, as Inontanhas ;
sobem ás alturas!» Yao foi o constructor dos ca-
naes que tornaran1 habitaYel a China. Eis aqui a
versão do nosso Fernão l\Iendes Pinto, versão co-
lorida com tons biblicos, como era de suppôr
(Peregr. n, 103) : «Depois que Deus alagara o n1undo
118 L. II.-NATURALISl\10
com a agua dos rios do céu, vendo que a terra
fica v a deserta, mandara do céu a deusa A nliLla
para que restaurasse a perda de gente que se
afogara, a qual en1 pondo os pés e1n uma terra
que já era desalagada, ella se tornara toda en1
ouro e alli estando em pé e co rosto no céu suara
pelos subacos grande somn1a de creanças, pelo do
braço direito machos, e pelo do esquerdo fen1eas,
por nrto ter outro lugar no corpo por onde as pu-
desse parir ( co1no ten1 as mulheres do mundo que·
te1n peccado, em castigo do qual as sujeitara
Deus por orde1n ela natureza á miseria da condi-
ção suja e fedorenta: para mostrar quanto lhe fe-
dia o peccado commettido contra elle). E depois
de paridas ou lançadas pelos sobacos estas crean-
as quaes affirma1n que fora1n 33333, as duas
partes de fen1eas e tuna de Inachos, ficara tão de-
bilitada de aquelle parto por não ter quen1 a pro-
vesse do necessario, que lhe deu un1 vagado de
fraqueza tarnanho que caíra n1orta e1n terra sem
nunca n1ais se levantar até agora, pelo que a lua
cn1 men1oria do senti1nento d'esta n1orte se cobriu
de dó: que são aquellas nodoas de son1bra que·
conunumente lhe vemos; e que quando acordar qne
será depois de passaren1 tantos annos quantas fú-
ram as creanças qne pariu, tirará a lua
aquella n1ascara de dó e ficará a noutc d'alli por
diante tão clara con1o o dia.>> O leitor, j<í in;;-
truido sobre o caracter lunar da n1ythologia astral
selvage1n, jit conhecedor da doutrina da emana-
ção do aninlisnw, verá de certo n'este n1ytho dilu-
viano e cosrnogonico da. China n1n exmuplo interes-
sante, n1as qnc nada trtn de grave no ponto de
vista fJHC agora nos dirige.
'fan1Len1 por to<la a região boreal ha diluvios.
Os kainchaualcs salvarau1-se cn1 barcos, os csquin1ús.
J.- A CIU..:AÇÀO- :1.
11 ')
n1ontados cn1 ossos de Laleias; tnas onde a relação
do phC'non1Pno con1 a idéa de nn1 castigo prineipia
a diz Farrcr, parece ser nos 1nythos
das ilhas da l{enni:lo. Un1 pescador, dizern al1i,
lançando o harpil.o prendeu urn caLcllo do gran-
de deus do nutr CJUe dorrnia no seu leito de co-
ral. O deus, acordando irritado, levantou as aguas
e afogou todos os hotncns, salvo os poucos qnc
restara1n para contar a catastrophe. Em ]fidji o di-
luvio foi causado por dois netos de utn deus que
lhe n1ataram, caçando, o seu passaro favorito.
''_I:'odavia, n'estes n1ythos, os crimes não são in-
teneionaes ; se h a n 'elles o gennen de u1n peccado
por scrmn utn attentado contra deus, não ha a
idéa de perversidade organica e constitucional dos
hon1ens - esse traço característico do dualisn1o
tnythologico dos semitas, essa semente do pessi-
n1isn1o religioso. Assi1n, embora os 1nythos dilu-
vianos sejan1 nniversaes, porque os tetnporaes de
agua o são tan1ben1, nada ha de con1mn1n, 1nais
do que a fórn1a externa, entre esse corpo de in-
venções e o systetna cujo typo está na versrto
que recenternente S1nith, o celebre assyriologo in-
glez, desentranhou das tabuletas de Ninive attes-
tando a antiguidade do texto transnlittido por Be-
rosio. 1
Entretanto, Latham registra, nas tradições dos
singpho do Assa1n, a existencia de um mytho da
creação e do diluvio etn que se encontram, sob
fórn1as diversas, os 1nesn1os traços fundatnentaes
do senlÍta. Deus; ao crear o hometn, .. dize1n os
singpho, prohibiu-lhe banhar-se no rio Ramsita
sob pena de ser devorado pelo demonio Rakhas.
O hon1em peccou e a hu1nanidade foi com effeito
1 V. Raças ltumanas, J
7
pp. lGi)-3. ·
L. II. -NA TuRA.LlS.MO
devorada, salvo Siri Jiá e sua 1nulher Phaksat.
Sentados sob un1a ar,Tore, veiu o deus Gosein e
mandou-os caminhar para o sul: Phaksat, des-
obedecendo, foi para o norte caíndo en1 poder. do
detnonio; Siri Ji(t, para a salvar, passou o rio
prohibido, Ramsita, e o detnonio apoderou-se tam-
betn d'elle. Ia devorai-os a ambos, quando no acto
de os levar á bocca, saíram chamtnas de todo o
seu corpo consunlindo-o para sernpre. Nunca tnais,
por isso, se viu no Assan1 o diabo vivo. Gosein
poz então o par no 1\lujai Sangra-bhtun, alto
n1onte d'onde veiu toda a descendencia hun1ana.
1\Ias ao depois, tendo os hotnens co1nido e assado
bufalos e porcos se1n o:fferecerem sacrificio ao
deus, elle, na sua cólera, mandou un1 diluvio que
cobriu a terra e destruiu a raca inteira dos ho-
mens com excepção de dois e 1nnlheres que
voltaratn ao monte de Saugra-bhíun.
O parais o do Assan1. é como o biblico ; Siri Jiá
é um Adão, Phaksat, desobediente, e origem do
peccado, é con1o Eva; o diluvio é un1 castigo, e
a humanidade renova-se por via de Noé que n'esta
lenda é duplo. Na tradição chalJaica, herdada
dos accadios retnotos e confor1ne nos chegou pelos
fragamentos da obra de Berosio, diz-se
Utna noute o rei Xisuthros ouviu a voz de N uah
que lhe disse: « Hon1cn1 de Snrippak, filho de
Obartutu, faze para ti c para os teus u1n grande
navio, porque eu vou destruir os peccadore8 e a
vida. . . Reune dentro d'csse navio a smncnte da
vida dos seres, para que não desapp:u·cçatn de
todo.» O rei obedeceu e construiu u1n navio ca-
lafetado a Litun1e. 'renuiuada :t e reco-
lhido na Arca, o diluvio. Ao setin1o
d.ia a t01npestade acahnou, soccou-so a face da.
terra c scllou-so de novo a paz entre Deus e os
I.-A CHEAÇÃO- :;. 1 21
l•mnens.- Cotno se sabe, é este, c1n todos os
se11s caracteres, o n1ytll0 biLlico.
A. existcncia consiueraua con1o o acto, a crea-
çlo COlllO O producto Ue Ulll:l vontatlc sobre-hu-
lllana, eis ahi o caracter novo, pernlitta-se-nos di-
.z,er assiru, da n1ythologia dos se1nitas. l ~ s s e n1ouo
de representação que põe no n1undo tuna causa
estranha, e acin1a das leis da natureza un1a vontade
geradora, creadora, governadora do Universo, dá
de si phenornenos egualn1ente novos n'cssa es-
phera, que cha1nÚn1os objectiva, da religião- na
esphera dos sentimentos provocauos pelos n1ythos.
O rnedo prin1itivo das ahnas povoando o mundo é
aqui 1naior, porque essas ahuas são vontades e po-
tencias; porém ao lado do medo surge a piedade,
a co•npuncção, os scntitnentos que hão de fazer
dos psahnos dos prophetas de J erusalen1 os mais
bellos poe1nas lyricos da hu1nanidade. Por outro
lado, a n1oral que, no ani1nismo, não encontra base
fóra da esphera da lei, acha no naturalis1no trans-
cendente uma origem phantastica, e u1n apoio ex-
tra-hu•nano no mytho da vontade divina. Por outro
lado ainda, finahnente, o crin1e que na esphera
obscura do animistno era apenas un1 erro ou um
1naleficio para ser depois uma simples infracção
de lei julgada no tribunal de Osiris, ganha o valor
de peccado, isto é, de u1n ataque a essa vontade
absoluta que rege o mundo e cria o h01nen1.
O grande 1nytho da ahna voluntaria e pessoal
do Universo é sen1 a nlinin1a duvida um passo an-
dado na estrada do conheci1nento. A' sorte obs-
cura do anin1is1no, aos fetiches e n1aleficios, subs-
titue-se uma noção htunana, qual é a de utn que-
rer e de u1na intencão. A vontade dos deuses
dissipa o cháos da "'indeter1ninação pri1nitiva; e
á maneira que o homem reduz ao typo da sua
122 L. II.- .XATUllALISliO
consciencia os mythos da sua invenção, tornando
subjectivas as in1pressões do mundo externo, as-
sim vae consolidando e affirmando a sua existen-
cia. Já se nno sente con1o um griTo de areia. no
ondear tumultuoso das cousas, nem un1 sopro de
espirito na nebnlose das ahnas, porque ouve em si
a voz de um ser iinaginario, ser omnipotente a
quern pertence, que o fez, que o ampara e que o
pune.
II
A astrologia
1.
A astrologia, diz rrylor, não corresponde ás Iny-
thologias primitivas: é correlativa da éra cosino-
gonica. A astrologia esüí para a n1ythologia natn-
como o fetichismo para a 1nythologia ani-
mista. Na esphera que dizemos objectiva tla reli-
giuo ha sentiinentos e ha n1ediações cultnaes: o
sentitnento proprio no anin1ismo é o n1edo, o n1edia-
neiro o fetiche; o sentimento proprio no naturalistno
é a COITIJ:Rlncç_ão, un1 medo moralisac1o, e o Ineclia-
neiro ·é a Inag·ia que lê nos astros os destinos das
cousas e a sorte dos hon1ens. Almas, n1edo, feti-
ches- eis ahi o corpo dos eletnentos religiosos do
prilueiro periodo; vontade, co1npuncção, astrologia
-eis o corpo do segundo em que nos acha1nos. ()
astro jú não é para o mago um fetiche_, é un1 re-
velador; o astrologo não pensa, cotno o shan1an,
sub1netter a lua ou as estrellas ao seu donlinio
para as tornar instrn1nentos da sua vontade: pro-
cura apenas desvendar os segredos que acredita ·
inherentes localisação relativa, á n1archa, ao as-
pecto dos astros cujas influencias voluntaria& re-
gein os destinos hu1nanos.
Assin1, pois, é 1nistér não confundir a magia e
a astrologia co1n a feiticeria e os encantamentos,
conforme se faz coilln1umn1ente por un1a razão
t24 L. II.- NATliRALISliO
obvia. Esses resíduos de estados transactos appa-
recem entre nós confundidos e frequentemente
amalgatnados: o bruxo é nutgo, o feiticeiro astro-
logo; e o estado 1nental superior que nós attingi-
mos, fazendo-nos olhar con1 desdetn para essas re-
líquias do passado, condetnnadas pela sciencia,
anathetnatisadas pela religião- como os filhos que
se levantam contra os paes senectos -- leva-nos a
não distinguir aquillo que n'outras éras foi distincto.
Sem duvida, o sol adorado e1n l\Ien1phis teve culto
em Babylonia ou Sidon, por exemplo; n1as o in-
portante para nós não é essa ciretunstancia exte-
rior, 1nas sin1 o sentitnento ou a idéa d' esse genero
de astrolatria- anitnista n'ntn caso, naturalista no
outro. D'ahi vem que nos tetnplos do Egypto ha-
via verdadeiros fetiches con1o os gris-gris dos ne-
gros, ao passo que, no templo sen1ita, o mago pro-
cura descortinar o segredo das influencias e desti-
nos inclusos nos n1ovi1uentos dos astros que inter-
roga e cujas suppostas vontades pensa surprehen-
der.
E', porém, necessario len1branno-nos sen1prc de
que na successão dos estados hutnanos acontece o
1nesn1o que se dá na successào dos typos zoologi-
cos: qualquer 1non1ento actual inclue todos os n1o-
mentos anteriores, ou sob a fórma de eletnentos
transfonuados, ou sob a fór1ua de archaistno. Um
typo é a son1n1a dos typos anteriores; pred01nina
n'elle u1n traço qne o earncterisa, individualisan-
do-o, n1as é facil reconhecer a cocxistencia dos tra-
ços característicos precedentes. I ~ ~ ~ t e aximna zoo-
logico, indiscutível já hoje qne vão de vencida as
autigas i<léas elassicas da crcação nniv0rsal sinntl-
tnnPa, não é ainda n1na idéa corrente na historia
da evolução nlCntal c social dos h01nens. Entre-
tanto, o caso é aLsoluhunentc iucutico.
11.-A ASTHOLOGIA-1. 125
Não por isso di fficil f'ucontrar laivos de fc-
tichisrno na astrologia dos povos antigos, porque,
segundo a opinião dos 1nais ltaLci::; interpretes da
1nytlwlogia arehcologicn, se o fetichistno é a pra-
tica do selvagcn1, a astrologia é o rito do nornada,
e, . confonne as idéas qne temos da ev0lnçào das
agremiações humanas, as con1munidades non1adas
passara1n para esse estadõ saindo do estado ante-
rior de tribu ou bando selvagetn.
O n1ago de Chaldêa prophetisava a s?rte dos
hon1ens, tirando-lhes o horoscopo pela conjuncção
astral sob que vinhan1 ao n1undo ; mas é fúra de
duvida que para a astrologia semita havia astros
bcneficos e astros n1aleficos- idéa em que é ne-
cessario vêr tuna heranca de animis1no. Nào se di-
rá, porétn, o n1esn1o"" das relações substanciaes
entre os metaes e os astros ; relações nas quaes,
segundo é sabido, o sol era ouro, a lua prata, Sa-
turno chtunbo, l\Iarte ferro, Jupiter estanho; rela-
ções qne teria1n principiado pela affinidade de côr
no sol e na lua, para d'ahi adqniriren1, não a si-
gnificação dynan1ica de ahnas ou espíritos, 1nas
sitn o valor de substancias inflnenciaes -idéa que
se concf'be como se ligasse noções cosmogonicas
naturalistas, e que se sabe quanto durou, se não
dura acaso ainda nos ensaios contemporaneos da
1netallotherapia.
Co1no quer que seja, o facto é que o naturalismo
cos1nogonico e a astrologia consequente nos appa-
recem como característica do estado barbaro ou
non1acla, it n1aneira do anitnismo e do fetichis1no
caracterisa.ndo o estnclo selvagem. E se o leitor
viu no Egypto un1a ci vilisaçâo forn1al construi da
sobre o systema de tuna tnythologia anin1ista, vae
vêr agora a civilisação dos semitas edificar-se so-
bre o systeina de un1a n1ythologia naturalista- á
126 L. II.- NAT'CRALIS:\10
qual os prophetas de Jernsale1n darão cmn o jeho-
Yistno unut expressão tão profundatnente n1ystica,
con1o os sacerdotes de l\Ie1nphis e de Thebas de-
ranl ao aniinismo dos 1nythos pri1nitivos do Egy-
pto.
, Não é necessario reproduzir agora a doutrina
qne já ficou expressa no logar proprio : isto é, de
que na evoluç:to interna e particular de cada sys-
ten1a n1ythologico se repete sen1pre a passage1n da
contetnplação e adoração do céu nocturno, das es-
ti·ellas: da lua, para a conten1plação do céu diurno
c do sol; c que a substituição dos n1ythos solares
aos stellares ou lunares exprime a passagmn da
Yida barbara e non1nda para a vida nrhana, agri-
cola, • ou civilisada. Que nos ache1nos no seio do
animismo, do naturalis'lno, ou do idealismo, co1no
verCinos, o processo é identico.
2.
Não faltam aos mythologos docu1nentos que pro-
vcln a existencia selvagc1n e portanto aninlista dos
semitas, e 1nuito especiahncnte dos arabes ; exis-
tcncia prévia áquella em que o estado n01nada c
as idéas naturalistas, expressas nos n1ythos costno-
gonicos e na astrologia, elevan1 o sCinita ft altura
de typo de u1n n1o1nento da sumtnaria tla
1nythologia religiosa. Não faltatn, repetin1os; 1nas
esses docnn1Pntos anteriores, de utn valor de certo
gravissi1no para a historia do dcscnvolvin1cnto
1nental interno de u1na raça c para prova de que
desenvolvimento é fonnaln10nte itlcntico cn1
todas as raças, valen1 n1cnos para nós agora, estu-
dan(lo no scn1ita o typo de un1 dos tres InOinentos
fla <'Volução total on snn1nutria da tnythologia reli-
giosa- anirnis1no, naturalisn1o, idcalisn1o.
11.- A ASTnOLOGIA- 2. 127
Os astros que o nomada conhece intimarncnte c
cmn qne vive ctn espirito são ainda os da noutP.
U::; n1ezcs lunares são o ponto de partida <la chro-
uologia, 1 . a noutc o metro do ten1po. Ainda o
syn1bolo das nações islan1itas é hoje o crm;centc,
JJae da triLn dos araLes llanu 1-Iilâl; os Banu 13adr
!:':to «Os filhos da lua cheia», os Banu Sarfun ecos
ii lhos da noute», as donzellas bcduinas são «filhas
da estrella». A noute é a protectora das jornada-;
longas das caravanas atravez dos desertos que o
sol de dia incendeia. O céu nocturno é negro e vi v o,
c0alhado de estrellas, o ar tmnperado, a brisa hu-
Inidn. Sombra e agua, eis o a1nor e a a1nbição das
populações errantes nas zonas adustas. « Regae ó
nuvens a terra do 1neu · tutnulo h> exclama o poeta
beduino. A chuva é a benção dos n1ortos, o pa-
raizo do céu. ..As nuvens são o 1nanto protector
contra o sol nas jornadas diurnas; são o guia que
leva a caravana ao' oasis onde ha frescura e soin-
bra. Chuva e nuvens, porém, são imt'..gens da noute
<.leliciosa, esboços da sombra fagueira que rejuve-
nesce. Ainda e111 éras historicas o sacrificio da
filha de Jcphthah era recordado de te1npos a tem-
pos pelas n1ulheres de Israel ...
l\'lontaclo no seu camell<?, choiteando lentan1ente
nas planuras do deserto, o beduino saíu de tarde
para a jornada. E' absoluto o silencio, unifonne a
eôr e o contorno da paysage1n crepuscular. O sol
1norreu ,- e u1na brisa fresca annuncia o avançar da
noute. N' essa hora, o lavrador do valle do Nilo
adormecia, chorando a 1norte de Osiris; n'essa
hora o viajante nomada vê nas estrellas que prin-
cipiain a nascer no céu o começo da verdadeira
Yida. Palpita o firmaraento com luzes, a noute é
f V. Raças Tmmanas, n, p. 123 e seg·g.
128 L. II.- NATURALISliO
longa, segura e boa! A brisa fresca beija-lhe a
face, o ar acaricia-o, o céu vi-vo, animado-de histo-
rias multiformes, distrae-lhe o pensan1ento na mo-
notonia da viagem pelo silencioso deserto que é
o pae do beduino, Gradualmente vém su-
bindo no céu, como rainha, a lua, e a sua luz fria
e meiga inunda o espaço, offuscando o brilhar das
estrellas, ou pondo no meio d'essas constellações
que são a bussola nas viagens dos mares de areia,
o crescente n1ysterioso para guiar a derrota da
imaginação atravez dos oceanos da phantasia.
Essa lua que para o selvagen1 é homem, tan1-
bem para o non1ada é vencedor do sol : Dalila h
entregando Samsão depois de cortados os cabellos
fulvos do heroe- os cabellos que são e1n toda a
mythologia a imagem dos raios da luz, e no sym-
bolismo jurídico o attributo da força e da nobreza.
E' essa lua soberana, l\Iylitta-V enus dos syrios, a
que, por cima das tendas e dos apriscos onde os
rebanhos dormem, véla de guarda á frente do seu
exercito de estrellas ...
3.
1\Ias, se o semita non1ada dos desertos da Ara-
bia teve no solo un1 impcdi1nento fatal para subir
á condição ele agricultor e c i vilisado, o senlita
do vallc do Euphrates e do Tigre, o sen1ita de
Canaan, o senlita das enC'ostas viçosas do Libano,
-por toda a parte onde a brisa do mar ou a cor-
rente dos rios n1oclcra o ardor do sol, lnln1cdccc o
ar, :unpnra a vcgetaçiTo dos bosques e das cearas,
fixando c fecundando as s0n1cntcs, fixando c con-
gr0gando os hon10ns f'111 C'i<larlcs, -o scnlita saiu
(l'(•ssc estado rr1noto c appan•ce-nos na historia.
dPpois de ter substitniuo a lua pelo sol no do-
'
II.- A ASTnOLOGIA- 3.
1ninio da sna n1ythologia naturalista, e como nucleo
da sua astrologia religiosa.
a archcologia moderna da Assyria
rev<'la-nos hoje, para além dos imperios dos semi-
tas orientaes, a existcncia de um povo de que
os chaldClns c assyrios receberam como herança a
1nythologia. Esse povo é o accadio, e esssa nly-
thologia, não só é lunar, co1no mais affín do ani-
misnlo do que do naturalismo. Representará a my-
thologia accadia o estado anterior e evolutivo da
astrologia semita? ou serão os accadios gente de
stirpe não-semita, gente tu1·aniana, gente finnia?
Eis ahi o que nos não parece que a erudição tenha
detcnninado ainda. t Tiele, porém, considera a
mythologia accadia como um ramo d 'esse animismo
finlandez que é o typo bem conhecido da colle-
cção de povos a que se chama turanianos. No sys-
tema do J(ale?.:ala, o «velho», o patriarcha, o vene-
ravel, o «creador» (l-uoya) e divindade por excel-
lencia (yunuda), é Ukko, o mais poderoso de todos
os magos. Ynn1ala, segundo Castren, significa <<o
lugar do trovão»- o fir1namento onde habitam os
espiritos cujo chefe é Haltia. Os tres elementos,
fogo, terra e agua, são as tres grandes pessoas da
epopêa do J(alevala: W ainamoinen, Iln1arinen, e
Le1nn1inkainen, triada correspondente á triada ger-
manica de Odhinn, Loki e H unir.
Um animismo, com effeito, similhante é o dos
povos de Accad, com as suas legiões de espíritos,
com o seu culto dos elementos, co1n a sua hierar-
chia mythologica. A triada suprema dos espíritos
compõe-se de Ana, o céu altíssimo, 1\iulge-Ninge,
esposo e esposa do céu occulto sob a terra, e
· Ea ou Hêa, alma do ar e da agua desposada co1n
'
1 V. Raças humanas, 1, pp. 160-2.
10
\
130
L. JI. -NATURALISMO
Dav-Kina, alma da terra. Inferiormente, fica a
triada astral metereologica: Uru-Ki, a lua, Ud, o
sol, e · Iru, o vento. Nindar ou Ninib, senhor da
geração, filho de 1\Iulge-Ninge, é o espirito do sol
occulto durante a noute, do mysterio obscuro 'da
procreação. Amar-utuki, o brilho solar que veiu a
tornar-se o deus eminente de Babylonia, é o me-
dianeiro entre Hêa e os homens.
N'esta mythologia accadia-tanto quanto a eru-
dição e a perspicacia dos archeologos póde com
segurança traduzir -não se vê ainda apparecer
uma doutrina de penas e premios ultra-tumulares,
o que levaria a acreditar que o estado a que as
populações accadias teriam chegado não passaria
de uma barberie quasi selvagem. O animismo pro-
prio d'esse estado faz de Uru-ki (a Sin dos assy-
rios), ou da Lua, o espirito supremo, a protectora
universal-pae ou mãe de Sarnas, o Deus-Sol
da Assyria posterior. A genealogia dos deuses é
um attestado da chronologia mythologica.
Por outro lado, a superposição dos semitas aos
accadios dá um caracter particular ás mytho-
logias do valle do Tigre e do Enphrates, caracter
diverso, não só da dos arabes, como da dos semitas
occidentaes: arameanos, cananeos, phenicios. As
tres deusas lunares semitas, Allflt, a lua-brilhante,
l\Iauat a e Al'Uzza, a conjunção das
duas, reappareceram com os nomes alterados no
seio da mythologia astrologica assyro-babylonia.
Depois das descobertas recentes da archcologia
oriental, é corrente que os chaldeos ou babyloni-
cos provétn da fusão de gente, affin ou estranha,
imtnigrada, cotn accadios indigenas; e o in1pcrio
da A ssyria, cujo non1e se origina no do deus na-
cional Asur, nasceu de tuna colonia chaldaica es-
tabelecida nas terras ao norte do 'rigre-Euphratcs.
11. -A ASTROLOGIA - .t. t31
nabylonia c a Assyria, esses imperios tão celebres
c tão distinctos na historia, são para a mytholo-
gia, pois, um mesmo individuo.
Jft não succede porén1 o mesmo co1n os semitas
do occidente, canaanitas, arameanos e phenicios
(nem con1 os arabes), cujas mythologias apresen-
tan1 u1n caracter mais puro de ele1nentos accadios :
facto d'onde os ethnologos infercrn a supposiçâo de
que a separação dos ramos da familia semita se
teria dado antes do estabelecimento na Mesopota-
mia, ahi onde os futuros assyro-babylonios se fun-
diram cotn as populações accadias indígenas.
1\Ias, se a feiticeria, a magia e todos os restos
do animismo accadio, observaveis na mythologia
do Tigre-Enphrates, não se propagam tanto na
zona mediterranea da área semita, dando ao des-
envolvimento religioso d'essa região um caracter
orgíaco particular, é facto que a penetração dos cul-
tos chaldaicos já constituídos influe de um n1odo
grave na constituição das mythologias occidentaes
semitas. El, AI, Ba'al ou Ba'alith, o «Senhor)), ap-
pellativo das divindades ou dos deuses
particulares d'esses povos, tem uma origem chal-
daica. O culto de Sin e de Nabu, culto lunar de
que se vêen1 vestígios em Canaan, é babylonico; e
Ashtoreth (Astarte) Asher e Ashera são Istar,
Asir e Asirat, trazidas de Babylonia para a Phe-
nicia e denominadas na lingua propria dos semitas
mediterraneos.
4.
Antes de irmos estudar n'esses povos o desen-
volvimento orgíaco da semente naturalista, é n1is-
tér concluirmos a nossa viagetn no seio da astrolo-
gia accadio-semita, quando já os imperios do valle
*
132
L. II.- NATURALISliO
do Tigre e do Euphrates cresceram; quando já ahi
se fixou uma população agricola que as cheias dos
rios, como no Egypto, alimentan1; quando nascida-
des magnificas, em templos erguidos ao Sol da civi-
lisaçâo, o sacerdote, de rastos, adora o numero sa-
grado dos astros superiores, as sete chaves do li-
vro do destino escriptas no firn1amento em sete si-
gnaes que são o sol e a lua e os cinco planetas
divinos.
Levantados sobre a planicie monotona, de hori-
sontes longiquos banhados n'u1n ar lünpido, os ter-
raços dos templos são os observatorios onde o sa-
cerdote-astrologo interroga o manto palpitante e
vivo do firmamento, adivinhando na marcha dos
astros as influencias das constella.ções. A viagem
do sol tinha doze estações: o templo em si proprio
era uma d'ellas (Leo), e cada planeta u1n domi-
cilio e um imperio em cada un1a d' essas paragens.
Er::un vinte e quatro as estrellas das constellaçõe_s,
as doze de Accad e as doze de Occidente: vinte
e quatro juizes no tribunal do céu, onde o mago
lia a vontade dos deuses e os destinos futuros.
Quando Jupiter se vê no n1ez de Tamnn1z, haverá
cada veres! Se V cnus apparece opposta á estrella
dos peixes, haverá devastações! E as g u ~ r r a s d'es-
ses itnpcrios conquistadores respondia1n ás prophé-
cias dos sacerdotes. Se a lna fôr vista no prirnciro
dia do mez de Accad haverá fortuna; n1as se a
estrella de Leo apparecer baça não poderão luzir
alegrias no coração do povo!
E o povo ficava esperando etn Dabylonia a con-
sumn1\ção das prophccias dos n1agos, interrognndo
o céu, triste por não possuir a S('iencia sagrada
da. leitura no livro dos astros- co1no outr'ora,
quando ar c céu, planetas c estrf'llas, eram ahnas
viva::; como a sua, representando pelos espaços
11.-A ASTnOLOGIA-'.
133
'
dr:unas eguaes aos do n1undo! Essa sciencia sa-
grada era o segredo dos magos, escondido nos
textos da biLlia de Sippara, a biLlia accadia que
se salvAra do diluvio no ten1po antigo do rei Xisu- •
thros. Só os sacerdotes, tuna casta á parte, le-
gando o segredo dos textos de paes a filhos; só os
tnagos podian1 ler no céu as tradições escri ptas
herdadas de Accad e gravadas nas tabuletas de
Nini v e, da bibliotheca ceramica dos palacios de
AssurLanipal, decifradas e traduzidas pelos douto-
res da eschola palatina do grande satrapa de As-
sur. Só o sakan, o sakannakku, summo sacerdote
e1n cuja sciencia, em cujo no1ne, até, vivia1n as
tradições de Accad, rodeado dos patesi, vigarios
dos deuses, interpretava1n os textos que os em-
gas «illustres, gloriosos» iam dos terraços dos tem-
plos afferir, como 1nagos, na marcha e nas in-
fluencias dos astros.
l\iagia, sciencia sagrada, os mythos e os textos,
tudo vinha ao passado accadio: Hêa e Nergal con-
servavam o seu non1e antigo; Ana «O firn1amento>>
é visível sob a fórma de Anu; Amar-utuki «o sol
recondito>> é l\iarduck; Nindar é Adar. Não foram
só os 1nythos : foram os collegios sacerdotaes e a
propria fónna dos te1nplos, pyratnides de terraços
como os de Elatn, como os da velha 1\Iedia, como
os da India. Assin1 foi a torre fan1osa de Babel-,
andares sobre andares até ao céu! Degraus suc-
cessivos da escada para o firmatnento, onde pàlpi-
tam os deuses creadores do mundo, guia das acções,
protectores dos hotnens.
Por toda a parte o tetnplo é symbolico: é a
nave ou a arca, é a cruz no christianismo. A py-
ratnide dos terraços de Babylonia e de Assur sym-
bolisa a montanha dos «deuses do norte>>, isto é,
das espheras celestes; os terraços, no seu nutnero,
134 L. II.- NATURALISMO
dizem o numero dos elementos componentes do
deus que solemnisam. Eram tres os do tetnplo de
U r, onde se venera v a a segunda triada ; eram
cinco em Kalach, para representar os cinco plane-
tas; eram sette em Chorsabad, etn Borzipa, no
templo de Nebo ou Nabu, deus da revelação, das
letras e das artes, christo da civilisação caldaica;
eratn sete como as «sete lampadas do mundo»-
Istar-Bilit (Venus), Nergal (Marte), Nabu (l\Iercu-
rio), Merodach (Jupiter), Adar (Saturno), Sin, a
lua, e finalmente Sarnas, o sol glorioso.
Os terraços dos templos, no seu numero e na sua
serie, symbolisavam o céu: retratavam-no tambem
nas côres diversas de cada um dos degraus, como
se via em Ecbatana, na l\Iedia. Subindo em pyra-
Inide, na mole ponderosa dos degraus macissos de
tijolos de barro negro cosido ao sol e tinto em cô-
res rutilantes, o templo, como uma montanha mys-
tica, a pparecia corôado pela cella - o zikurat,
onde se guardava a imagem sagrada do deus. As-
sim, n'uma unidade summaria de que o monumento
é o symbolo, subia no espirita nacional a monta-
nha dos mythos sommando-se na cella intitna onde
vivia já um deus absoluto, um deus uno, un1 deus
que é substancia e vontade, n1ateria e força crea-
dora, alma da natureza em acto ...
::1_\;lerodach distribuía o calor benefico do ar, Bi-
lit, o rocio da noute; Nergal era pernicioso, A dar
«o mal dos males>). O dualismo da natureza for-
mula v a-se como a opposição do bem e do tnal, e
os astros eram tanto peiores quanto os mythos re-
presentativos provinham mais claramente d'essa
gente vencida e saqueada pelo semita- a gente
accad. Os deuses dos vencidos são sempre os deu-
ses maus, os seus ritos feiticerias c n1alcficios.
:1\-Ias, sobre esse residuo da mythologia accadia,
11.-A
o sCinita don1inante levantava o seu templo; sobre
esses deuses-maus punha os seus deuses- vencedo-
res; sobre as ruinas das antigas cidades (se acaso
cidades houve de accadios ), as cidades grandiosas
dos iiupcrios vencedores do Oriente. Sobre a pyra-
mide ou sobre a Inontanha sagrada cimentada corn
as ruinas do passado vencido, construida com os
ele1nentos mythicos da fecundidade propria, via-se,
repctitnos, a cella onde habita Deus- o mytho
sum1nario de u1na gente que attinge u1n estado de
civilisação eminente. Não é o tuna excepção
monotheista, co1no se tem pretendido, porque são
n1onotheistas, digamol-o mais tuna vez, todos os
povos que attingem o estado monarchico. A my-
thologia é o espelho da vida : o monotheismo é a
monarchia na cidade divina.
Na cella do babylonico está Bilu-Bili; na
cella do templo assyrio está Asur. I lu, na Chaldêa,
é a designação abstracta de deus; e os deuses su-
ou nacionaes dos iin perios do Tigre-Eu-
phrates são a so1nma da substancia dos astros, o
astro cujo influxo guia, protege e defende
os monarchas nas suas emprezas conquistadoras.
O deus que o israelita porá na cella do seu tem-
plo, sobre a 1nontanha dos seus mythos que a as-
trologia chaldaica não perturba, será tambem o mo-
narcha da Judêa, o soberano de um reino mystico,
o mytho da piedade transcendente, nua de corpo-
risações materialistas -expressão abstracta do na-
turalismo, co1no Vontade pura, creador do mundo
e senhor dos homens.
III
Os cultos orgiacos
1.
A' maneira que a imaginação cava na ceara dos
mythos profundando a expressão d'elles, trazendo
a religião do mundo externo para o interno, dando '
ás praticas um caracter 1nystico e ao fetichismo já
remoto uma significação symbolica; á 1naneira que
o hmnmn progride na evolução espontanea dos pro-
blemas transcendentes, cresce-lhe no espirito a allu-
cinação divina. Os sy•npto1nas objectivos da reli-
gião, isto é, os sentin1entos e os cultos provocados
pelos mythos, ganhan1 Uin lugar de pri1nazia, ten-
dendo a subalternisar a espontaneidade inventiva
da iinaginação. Pri1nitivamente, a loucura 1nystica
via-se no realismo, povoando de aln1as ou de espi-
ritos os ares e os sonhos, dando corpo a todas as
lembranças do cerehro e a todas as apparencias
externas: agora a allucinação está principahnente
nos sentimentos que as invenções antigas · provo-
cam. No ani1nis1no prinlitivo, a idéa de u1n pec-
cado e a pratica da confissão, da prece, da peni-
tencia, são cousas, ou desconhecidas, ou rudilnen-
tarcs apenas: o fetiche não ten1 tuua. substancia di-
versa da humana, c sobre hmncns e cspiritos paira,
don1iuando tudo, a fatalidade obscura que 1nauda
·em an1bos Of:; n1undos.
Agora, poré1n, já a i1naginação extraiu u'cssa
III.- OS CULTOS OHGIACOS- I. 137
fatalidade a vontade divina; jú. subordinou o mundo
transcendente a u1na ordCin analoga á ordem vio-
h·nta que o chefe guerreiro itnpõe á sociedade bar-
bara, j:l. concebo no regi1ne d' esse n1undo ignoto
essa anthoridade c essas leis que ta1nbetn existetn
jú. na sociedade; c, finaln1ente, o dualis1no dos as-
pectos pritni ti vos da vida e do céu, vigilia-sornno,
nouto-dia, vida-1norte, tornou-se 1noral c juridico,
apparecendo como a opposição do Bmn e do 1\Ial,
a doutrina da Virtude e do Peccado, consagrada no
systmna das penas e premias ultra-tun1ulares. A
faculdade mythogenica do ho1netn, desviada do pro-
cesso dos tmnpos prin1itivos, exerce-se agora, não
sobre ·os phenotnenos naturaes, n1as sobt·e os senti-
mentos religiosos a que a invenção dos 1nythos
prinlitivos deu lugar e origetn quando acordou o
l\Iedo no espirita do selvagem. A seu tempo vere-
nlos o latino fazer para os sentin1entos civicos e
moraes como os semitas fazem para a piedade e
devocão.
Éntretanto, é indispensavel não esquecer nunca
a realidade, nem suppôr que a penitencia, a con-
fissão e os sentimentos e praticas religiosas, cujo
tnon1m1to typico é aquelle e1n que os mythos da
divindade adquirem tun caracter psychologico-Ino-
ral, apparecmn abruptamente. Nào. Cousa algtuna
é abrupta nem isolada na creação: tudo se contém
e1n tudo, con1o gertnen, co1no flôr, con10 fructo ou
como podridão ; e a grande faculdade de analyse e
de coordenação racional, modo tão intitno e tão
unico de conhecer as cousas que levou á invenção
das philosophias idealistas para as q uaes os factos
era1n su pposições e a vida verdadeira a dialectica;
essa faculdade eminente do ho1netn, corôa do seu
espirita e alicerce do seu saber, é ella que separa
systematicamente os pheno1nenos e1n series, e co1n
138 J ... II.-
as series faz o systema d'essas construcções, só ra-
independentes, a que nós chama1nos
sciencias.
Assim, portanto, no 1\Iedo pri1nitivo do aniinisino
já o observador encontra o gennen d$3 sentiinen-
tos religiosos, que são uma abjecção e uma orgia
na mente affiicta e sensual do syrio e do phenicio,
e que, desenvolvendo-se aeria1nente, depurando-se,
nos darão o exemplo tragico da compuncção pro-
phetica de Israel. Se é só1nente e1n periodos rela-
tivalnente avançados e no pensamento de raças
mais bem dotadas que a idéa do peccado chega a
adquirir u1n valor psychologico-Inoral, é tambem,
co1ntudo, fóra de duvida que nas regiões 1nais re-
motas e nos povos mais rudes se encontra já o ru-
diinento d'essa idéa ainda vasia, com effeito, de al-
cance piedoso. Por toda a A1nerica, desde as ilhas
aleutianas, na Asia entre os habitantes de Ceylão,
no archipelago de Tonga, observa-se o mytho his-
torico de Uina edade-de-ouro perdida por u1n erro,
mytho que será piedoso quando a esse erro outros
povos derem o valor de u1n peccado. O sinhala
diz que no quinto periodo da energia creadora os
homens immortaes que então habitavam a terra
coinerain certas hervas: então veiu a morte, então
se tornaram em macho e fen1ea. A saga de Cha-
pewi, entre os indios norte-americanos, diz que o
primeiro homem, no paraizo, deu aos filhos duas
comidas -a branca e a preta- e prohibindo-lhes
tocar na segunda, foi de longada en1 busca do sol
para o pôr a alhuniar a terra. Voltou com o sol e
os filhos não tinharn peccado. Tornon a partir em
busca da lua, mas, demorando-se, os filhos faniin-
tos devoraran1 a co1nida negra: por isso ficaram
mortaes. Em Tonga corre qnc os velhos, outr'ora,
passavam uma certa montanha, banhavam-se n'u1n
III.- OS CULTOS ORGIACOS- J. 139
lago c rejuvenescian1 ; porétn as queixas de certa
nndher contra a imperfeição do mundo, fizenun
seccar a. lagoa tornando os homens mortaes : é o
tnesino que os aleutianos crêem.
O tncstno que succede cmn a idéa do peccado e
co1n o tuytho paradisíaco, succede con1 o rito da
confissão -typo da penitencia, expressão esponta-
nea do arrependimento. O sentiinento do erro, a
consciencia do crin1e, não se concebem senão n'um
certo grau de evolução social relativamente adian-
tada, porque, para o homem primitivo, não ha-
vendo ainda noções de leis naturaes nen1 sociaes,
não póde haver idéa de erros nem de crimes. Idéa
de peccado não existe, como sabemos, emquanto
se não deu a vontade como attributo aos deuses. A
confissão primitiva não mostra pois ainda o traço
que ulteriormente a distingue- a contrição, o ar-
rependituento: é apenas a revelação de um segredo
que pesa na consciencia nebulosa do réu. Entre
hon1ens, communicar é consolar; confessar u1n
erro é como que justificar-nos, confessar u1n crime
parece ao juiz e ao réu ser uma attenuante. Para o
selvagem e para os povos que entraram na civili-
sação sem saírem do animismo, a confissão tinha
além d'isso o caracter realista proprio d' essa con-
cepção infantil do mundo. Utn erro ou um crirne
eram utn espírito mau que entrava em nós, as
doenças phystcas eram as consequencias do domi-
cilio d 'esse espírito no nosso corpo : a confissão li-
berta o corpo e cura a molestia. Assim acontecia
no 1\fexico, no Peru ; assim os índios norte-ameri-
canos se abrem com um feiticeiro contando-lhe os
segredos dos crimes ; assim os samoas e os polyne-
sios em geral se confessam para se curare1n de
enfermidades. Assim, tambem, diremos nós, o fiel
catholico, se não crê tão rudemente na acção me-

t40
.._
L. II. -NATURALISl\10
dicatnentosa da confissão, sente, ao levantar-se de
ao pé do sacerdote, vasio o sacco dos peccados,
aquella satisfação simples que é natural do homem
quando, c01n1nunicando, expelliu de si uma preoc-
cupação absorvente.
Cukulkan, o deus, o heroe da civilisação yuca-
tan foi, no tnytho, o introductor da confissão no 1\Ie-
xico: quando o enfermo, comtnunicando o crime
secreto, o expellia de si, ia-se com elle a enfermi-
dade. Nas Honduras, os indigenas não se confes-
san1 só por doença: confessam-se diante de qual-
quer perigo imminente. Quando nas brenhas dos
paúes de o jaguar apparece com os olhos
fusilando entre a o bando dos caçado-
res mn côro, na afHicção do medo, confessa to-
dos os crin1es -como acontece entre nós ainda
quando as turbas desvairadas correm pelas ruas
de uma cidade açoitada e varrida por Ulll terra-
moto, clamando misericordia e rojando-se humil-
des, penitentes pelas !ages das calçadas. t
Taes são as raizes prinlitivas d'esse 1nytl1o do
peccado-original, nucleo de a religião dos se-
mitas, nexo do dualistno naturalista que é no pen-
samento o Bem e o 1\Ial; base de u1na theoria da
l\Iorte e de ntna concepção do Juizo-final di versa
da do aninlis1no; mytho que divide o tnundo ti·ans-
cenclente e o n1undo real etn dois n1undos cuja es-
sencia é tão diversa con1o a do Creador e a du.
Creatura, eterno e on1nipotente un1, nwrrcdoura e
escrava a outra. A existencia torna-se pois tuna
orgia de abjecção contrita ou de cnlbt·iagnez sen-
sual; a virtude é un1 sacrilicio, a vida u1n holo-
causto. Na adoração de u1n n1onstro voluntario
t V. Jlitilori.u de Portugal (S.
8
cd.) 1, lll>· 170-S.
III.- OS CULTOS OUGIACOS- 1. 14t
que é a vontade creadora do Universo, os hmnens
cactu de jodhos n1iscraveis na conscicncia ela abje-
cção, rojando-se cotno brutos nos delírios da sen-
sualidade. Deus é o nutndado tyrannico ! Deus é a
senwntc da procreação!
Se os n1ytlws divinos se não fundiram ainda
an1alg:unando-se n'tun deus unico, porque ainda
ao regin1e da tribu com os seus chefes ou juizes,
cotno os dos israelitas, não snccedeu o regime
n1onarchico, os tnythos-deuses são bons e maus,
voluntarios ou genesiacos, á maneira do que eram
na terra de Canaan. A abstinencia severa, o as-=
cetisn1o duro, as n1utilações, o rojar-se no pó, o
afogar a garganta e1n cinza, o chorar miseraYel e
contrito, tornam-se o culto dos deuses voluntarios
que reclamam as penitencias em expiação dos pec-
cados ; ao passo que a promiscuidade desa vergo-
nha da, a prostituição sacran1ental, a orgia na sua
hediondez solta, torna1n-se o culto dos deuses ge-
nesiacos. Uma argatnassa de cinza e sangue, um
cla1uor feito de ais e gen1idos de gozo e de dôr,
uma loucura de carnalidade e açoites- eis a
fórn1a ritual que esta especie de allucinação Inys-
tica ilnpõe na· esphera objectiva, na esphera dos
sentin1erltos e cultos religiosos.
Quando a unidade se consum1na no Olympo
naturalista e tudo obedece á vontade de um chefe
on1nipotente e creador ao mestno tempo, assim
como o exercito dos crentes obedece á vontade de
utn kalifa, o delirio funde-se no culto d' essa gente
que oscilla entre a luxuria e o ascetismo, entre a
servidão e a heroicidade, tendo de u1n lado o ha-
rem cotn as suas orgias, do outro o campo de bata-
lha com as suas carnagens.
E' assim pelas terras do interior queimadas
pelo sol, ennovoadas de areia solta do deserto que
142 L. II.- NATURALISMO
o vento levanta e1n rolos suffocantes. E' mais
suave a orgia nas encostas floridas da Syria, nas
vertentes un1brosas do Líbano, descendo para o
na Phenicia cujas cidades receben1
a brisa fecundante e rociada, banhando os pés na
praia onde se estendem os n1olhes das alfandegas
de Sidon e de Tyro -a terra dos mercadores e
marinheiros. E' ahi, é em Byblos que o «Senhor»
-Adonis- tem o seu sanctuario; ahi, onde o rio,
cujo nome é o do deus porque outr' ora foi como
utn Nilo, vasa no Mediterraneo as suas aguas ver-
melhas dos saibros que traz dos montes renlo-
tos no 1nez de Thammuz. N'esse mez, o nosso
-julho, o phenicio em Byblos via na vermelhidão
da agua o sangue divino: era então que nos fojos
das matas do Líbano o javardo bravio de
estava matando Adonis. O sangue do deus corria,
corrian1 pelas faces dos fieis as lagrimas de dó e
arrependimento. As mulheres, chorosas, cortavan1
o ar com o seu clamor estridulo de angustias, ar-
rancavam os cabellos, feriam as faces, batiam o
peito com punhadas; os homens de rastos, no si-
lencio do terror masculino, soluçavam, e as ondas
vern1elhas do rio, rolavam tamben1 comsigo os co-
ros mysticos dos penitentes-Ailam! Ailam! 1\Ii-
sericordia ! 1\Iisericordia !
Esse 1nesmo Adonis-'rhatnmuz, o fugido,-
resuscitava, ou voltava, quando, passadas as cal-
tnas seccas do verão, a natureza rejuvenescia, e
os itnpetos sensuaes, e a alegria dos bosq nes hum i-
dos, a festa universal chamava a n1ente piedosa
da penitencia para a orgia. Adonis, o segredo da
1nortc, era o principio da crcação; e n'tun mcs1no
deus o ph('nicio punha as duas faces da sua lou-
cura n1ystica- os desvairatncntos do seu asce-
III.- OS CULTOS ORGIACOS- !. 143
tisn1o funcbre, c a soltura das suas orgias sagra-
das. t
2.
Os cultos syrios e os chaldeus são no fundo
identicos, observa Duncker ; Inas a lascivia e a
erucldadc predominam mais na Syria do que em
llabylonia, ao passo que o desenvolvimento da as-
trologia, visivel sobre o Euphrates, é ignorado na
Syria. Por outro lado, como o leitor notou, attribue-
se esta peculiaridade ao facto das tradições accadias
que entraram na constituição religiosa das nações
do Euphrates e não entraram na dos senlitas oc-
cidentaes. O desvairamento que os mythos de
deus ou deuses voluntarios põe nos phenomenos
objectivos da religião- nos sentimentos e nos ri-
tos- encontra nos segredos e n1ysterios da astro-
logia um alimento que o syrio e o phenicio en-
contram no ascetismo e na lascivia.
Entretanto, não se pense que Assur nem Baby-
lonia, apesar de absorvidas na contemplação dos
astros e na adivinhação dos seus segredos e in-
fluencias, desconhecem a orgia sanguinaria e sen-
sual propria da religião dos sen1itas. Os mythos
ethnicos são os mesmos : a sua influencia, deter-
nlinante dos sentin1entos e ritos, tem de ser egual.
Todavia, n'isto, como em tudo, a acção regulari-
sadora do clima e da historia é evidente ; e Ti ele
attribue a esta causa a differença de caracter das
orgias religiosas de Babylonia e de Assur. O re-
quinte da civilisação babylonica, o caracter mais
1 v. o leitor os traços que o desenvolvimento necessario do assum-
J . ~ t o nos levou a pôr nas Raças humanas, u, pp. 168-84, e que por isso não
repro(luzimos aqui.
144 L. Jl.- NATURALISMO
temperado do lugar, a maior uberdade do solo, fa-
zem com que ahi o sacrificio da nos tem-
plos onde as virgens iam vender-se, exprima o ho-
locausto exigido por um deus absorvente, que na
Assyria, pobre e agreste, reclama sacrifieios de
sangue humano. Do mesmo 1nodo, a Vontade
omnipotente que na Assyria é o attributo dos my-
thos divinos da guerra, passa e1n Babylonia para
os deuses da civilisação e das artes. O proprio Ra-
manu (Y a v) que em Nini v e e em l{alack era ado-
rado como a potencia .destructiva dos ares, fal-
lando pela voz dos trovões, n1anifestando-se no
raio e nas chammas ondeantes das quei1nadas de
sarças nas charnecas: esse mes1no Raruanu era e1n
Babylonia a intelligencia das artes e o guia da
virtude.
Nem a di:fferença dos caracteres da adoração,
nem a dos momentos de concepção dos
mythos divinos alteram, pois, o caracter d'esse pen-
samento que, vendo em deus tuna vontade crea-
dora, põe do Inundo creado uma servidão misera-
vel, e na vida uma penitencia, na virtude um sa-
crificio. Uma tal idéa das cousas, observavcl mais
ou 1nenos fugitivamente en1 toda a parte e na evo-
lução de todas as mythologias, é porétn idéa es-
sencial da 1nythologia dos sernitas, o nuclco do seu
pensa1nento, a semente particular germinada n'es-
ses cerebros- é, finahnente, o temperamento mytho-
Iogico d'cssa raça, cn1bora en1 outras ou e1n todas
se encontre1n doctunentos transitorios ou subalter-
nos de u1n n1odo de S('r egnal. Todo o hmnen1
contém {'fi si os traços de todos os hotncns, o que
não impede qne, estudado cn1 si, ea(la hon1e1n nos
nppar('ça co1no typo do traço caract('ristico donli-
nante n'(·lle.
A v0ntade transcendente é, pois, o traço donli-
III.- OS CULTOS OUGIACOS -3. 145
nantc da 1nythologia religiosa elos scmitas7 e a pe-
nitencia c o sacrificio os scntitncntos eminentes
qne caractcrisatn objcctivan1Pnte essa 1uythologia
-da n1esn1a ft'n·n1a que a apathia n1ystica c a aLsor-
pção no seio de tuna divindade substancial foram
os sentitncntos proprios ela tnythologia anitnista do
Egypto, qnando essa 1nythologia, saíndo do estado
ruditncntar selvagem, se tornou o alimento mental
de um povo culto.
3.
O sacrificio, a penitencia, eis ahi, pois, os senti-
mentos intitnos e a ahna, digamos assim mytholo-
gicarnente, da religião dos senlitas. A virgindade
e o sangue, eis ahi os dois holocaustos preferidos
pelos deuses da Vontade obscura e tren1enda. Os
kahím arabes, sacerdotes (kohên, dos hebreus),
offereciam em 1\Ieka aos deuses creanças femini-
nas; e Luciano diz-nos dos tyrios que enlaçavam
grandes arvores pondo-as de pé nos largos pateos
dos templos, amarrando-lhes cabras, carneiros, pas-
saros, colchas preciosas, alfayas e joias. Formado
assim um cargo 1 colossal, os deuses eram levados
em procissão em volta e, terminada a ceremonia,
ardia tudo n'uma fogueira sagrada-devoradora,
como a potencia terrível da divindade.
Esse poder devorador é o poder da creação con-
cebido negativamente. O El de Babylonia, vene-
rado em Canaan, foi quem mutilou Baal-Sol, Baal-
1 Cargo diz-se nos arrayaes da E3tremadnra portugueza de uma ar-
mação pyramidal de pau onde se penduram imagens, doces, flores, e que
os festeiros levam -nos braços sobre uma bandeja, pregoando-a em leilão.
O fiel que arremata o cargo tem de dar um outro, ntelhorado, na festa do
anno seguinte. E' de crer que o cargo seja a reminiscencia de sacrificios
antigos.
11
146 L. II.- NATURALISliO
Sanlim, cujo sangue veiu fecundar as ribeiras e as
fontes sagradas dos phenicios. Havia em Cartha-
go, diz Diodoro, uma image1n de ferro de Chro-
nos (El-1\Ioloch) com as mãos estendidas de fórma
que a victima collocada sobre ellas rolava para o
ventre do ido lo -uma fornalha accesa. As mães
traziam os :filhos, e assistia1n alegres ao saprificio.
Chorando, pecca vam. A labareda sagrada do des-
vairamento religioso quei1nava-lhes a face, enxu-
gando á nascença os lagrimas que o instincto ge-
rava. Crepitavam as victimas no ventre ardente
do monstro, e na imaginação dos crentes ardia a
loucura nascida pela acção do m ytho que a pro-
pria imaginação inventara. A religião, n'um cir-
culo 1nystico de sonhos e de fé, de creações phan-
tasticas e de sentimentos lugubres filhos d'ellas,
era a verdadeira labareda da fornalha de 1\Ioloch,
onde as creanças ardiam ; era como o rufar dos
ta1nbores e o assobiar dos pifanos sagrados que,
abafando os ais agudos das victimas, abafavam a
hun1anidade dos crentes.
O l\Ioloch dos phenicios tinha cabeça e hastes
de touro, co1no o El, o Saturno ou Chronos da
Chaldêa. Era o n1ytho do Sol abrazador do verão,
deus terrível, devorador de vidas,- deus pae_, que
nnttilando Baal derramou o sangue fecundante
das fontes e dos rios. Não basta1n para o alimentar,
para o propiciar, afitn de que abençoe as cearas,
não bastan1 as victimas impuras, o sangue dos es-
cravos e dos prisioneiros das guerras: nos lllOlnen-
tos crueis, o deus recla1na holocaustos superiores
- con1o o do filho do rei de l\Ioab sobre os n1uros
de J(ir llaroshcth, quando Joran1 de Israel tinha
cercado a cidade; co1no o de Ilaniilcar, filho de
1 fanno, quando os carthaginezes tiulw.n1 perdido a
Latalha de llimcra. Diodoro diz-nos que 1\Ioloch
111.-0S CULTOS OUGIACOS-3. 147
devorou cn1 Carthago n1ais de trezentas crcanças
das f.·unilias principacs, quando Agatoclcs de Sy-
racnza, descrnbarcando cn1 Africa, derrotou os exer-
ci tos da republica phenicia.
Ern Tyro, n1etropole das colonias rnediterraneas,
estava a Jerusaletn dos phenicios con1 os seus
tetnplos gigantescos c funebres -pateos rectangu-
lares ou ovaes, fechados por altas rnuralhas, recin-
tos successivos que levavam á cella, no centro,
con1o os terraços de Babylonia ao zakarut, no
alto. Nos pateos havia os pilares onde se suspen-
diam as offertas, as aras onde se irnmolavam as
victitnas, as piscinas onde os animaes sagrados,
symbolos da creação, os peixes das deusas rnyste-
riosas da noute, eram alimentados pelo enxa1ne de
velhos suffetas, seguidos pela cauda de servos e
servas das ceremonias sagradas. Annualmente vi-
nha a Tyro a embaixada de Carthago corno dizilno
das rendas da colonia para alimentar opiparamente
os sacerdotes, senhores das vastas granjas da fa-
brica e do pé-d'altar das ceremonias rituaes. Eram
elles quem sacrificava as victirnas hun1anas, quern
mutilava os fieis, qumn desflorava as donzellas, co-
brando a esmola devida como instru1nento dos tri-
butos do culto sagrado. O sangue avermelhava ·
as aras sacrosantas : sangue de bois, de carnei-
ros, de bodes, de pornbos, de perdizes, de patos
-sangue rnasculino sempre nos altares de 1\Iel-
karth; sangue offerecido pelos fieis atormentados
pelos rnales da sorte, ao deus rede1nptor dos in-
fortunios.
A lua das adorações rernotas, a lua rnysteriosa
das noutes negras do deserto, orgão do rnysterio
genesíaco, apparece ao lado dos deuses solares
na rnythologia dos sernitas como a 1\lãe univer-
sal. Ern Babylonia era Bilit (Mylitta) ; em Bor-
*
148 L. II.- NATURALISl\10
Nana. Rainha, mãe-dos-deuses, mytho da
pnmavera e ela fecundidade, a lasciva cidade do
Euphrates dedicou-lhe os seus n1elhores templos-
com alamedas umbrosas onde, por entre as arvo-
res, no frescor elas sombras verdes, as chorêas dos
fieis, sacrificando os peixes prolificos elas piscinas
sagradas e o pombo mystico, sacrificavam a virgin-
dade das donzellas que iam buscar aos degraus do
templo. A orgia requintada de Babylonia era n1ais
solta pelos paizes livres da Syria. Bilit, a V enus
do Euphrates, era Derceto em Ascalon, Atargatis
em Hierapolis, Ashera na Juclêa; era Baaltis em
Byblos, ahi onde as donzellas iam sacrificar-lhe a
virgindade entregando-se na praia nua aos braços
dos marinheiros phenicios. Na terra de Canaan,
Gaza, centro da federação- dos philisteus, tinha o
templo de Dagon- um peixe, o deus masculo ela
procreação; e pelas encostas do Libano, nos bos-
ques de cedros negros consagrados ao culto, nas
alamedas, nas grutas, nas clareiras, por entre a
avelleira mystica, o cypreste esguio e funebre, o
pinheiro de rezina acre, e a roman cuja flôr ruti-
lante era o symbolo ela fecundidade, embriagados
pelas essencias do matto em abril, inundados pela
luz do cén lin1pido, com o lançol ceruleo do 1\Iedi-
terraneo aos pés, e as aguas do rio sagrado de
Adonis descendo n'utn leito ele areia vermelha, os
servos de llaaltis, an1anclo, resavam de caminho
para a cella encastoada no bosque; ele catninho
para as piscinas onde os cardntnes de peixes co-
loridos e os bandos esvonçando en1 torno dos pom-
Laes acordavam na n1ente dos fieis o erotistno sa-
crosanto de uma rC'ligião de orgia.
1\Ias o leitor sabe já qne essa orgia é dupla:
tão <'arnal corno sangninaria. Assim tan1bcm a Ve-
nns babylonica, an1orosa, era lstar con1o guer-
III.- OS CULTOS onGIACOS- 3.
rcira. ccA estrella de Dilbat (V enus), Jiz o texto
sagrado, ao nascer do sol é Istar entre os deuses;
a Incsuut estrella, ao pôr do sol, é llilit entre os
deuses». Quando a noute vem e o astro reina no
céu, é llilit- o atnor, a vida, a orgia sensual da
procrcação c do sacrificio da virgindade ; quando
apparece o sol, Istar nasce no apagar da estrclla
- l::;tar que, representando a guerra, a ruina, a
destruição, é o mytho <l'esse mundo das trevas in-
feriores onde o sen1ita cotn a sua 1nythologia activa
e naturalista vê utn aniquilatnento, em vez da im-
nlortalidade animista concebida pela mythologia
substancialista ·do ha1nita.
En1 Carthago, Istar dizia-se Astarte. O seu culto
é o do de Bilit, urn culto de penitencia e
de sangue. Deusa da carnage1n das batalhas, As-
tarte n1onta utn leão e tem nas mãos a lança de
guerreiro. Indefinida ou confusa nas suas origens
da 1nythologia astral pri1nitiva, é V enus, o planeta,
mas é Lua, como todas as deusas nocturnas. As-
taroth-l{arnaim, Astarte-hastata, era a de Car-
thago com o disco lunar na fronte bovina ladeada
de arn1as. Deusa do mundo inferior e da 1\forte
que é utna destruição, Astarte é venerada con1 o
celibato dos sacerdotes e a virgindade das sacer-
dotisas. A morte é esteril, a vida é o acto da orgia
sensual- ao contrario do Egypto que via na morte
do corpo a libertação da alma, e a porta da eter-
nidade.
Por isso no te1nplo de Astarte em Carthago não
entrava mulher casada; e o seu culto, co1no o de
lVIoloch, era terrível: pedia o sangue iintnacnlado
das donzellas, e não a virgindade, como Bilit. Por
isso os sacerdotes eram eunuchos e os fieis castra-
vain-se por devoção. Nas festas solemnes a orgia
era funebre e doida, em vez de lubrica: a allucina-
150 L. II.- NATURALISMO
ção da morte nihilista produzia vertigens oppostas
~ \ s de embriaguez da vida sensual. E1n vez de
abraços nos bosques das avelleiras mysticas, havia
golpes; em vez de suspiros de goso beato, ais de
desespero e soluços de agonia. O phrenesi da al-
lucinação mystica, a doidice mythologica era egual:
os motivos eran1 oppostos- a morte nas suas amea-
ças funebres, e a vida nos seus arrebatamentos
sensuaes.
Avançavam as columnas de fieis para o templo,
com tymbales e pandeiros, com pifanos e trombe-
tas, entoando os córos sagrados. As notas stridulas
do canto, o som metallico dos instrumentos excita-
vatn a furia sagrada dos cerebros transportados.
Cotneçava a furia, soltavatn-se os diques da inun-
daç?to . religiosa, e e1n volta dos altares da deusa
desenrolavam-se em ondas os grupos dos doidos
da fé. Na vertigem os moços corriam ao sacrario,
tomavam ahi a espada e mutilavatu-se, caíndo, a
gemer em dores, banhados em sangue no n1eio das
rodas que dançando desabridamente com gestos de
loucura, visagens de ilhullinados, extasis de mysti-
cos, combatiam annados, acutilando-se para se ci-
liciarem, nüsturando o sangue ás preces, os reta-
lhos de carne despedaçada aos canticos, e hynu1os
:í negação da vida, á negação do atnor, á morte
rnedonha que viam sentada sobre o leão cotn a
lança em punho, e o disco lunar argenteo na fronte·
bovina con1 hastes erguidas.
Na furia dos ciiicios, no ardor da penitencia,
acudiam as visões, as revelações, as prophecias .
.. \ loucura que Deus põe no juizo hurnano, to-
Inando os sentidos, fazia-os vêr o que não viam,
ouvir o qnc não ouviatn, palpar o que não palpa-
vam. O 1nundo tornava-se un1a grande phantas-
Inagona sentida, depois que a imaginação inven-
111.-0S CULTOS ORGIACOS-.t.. 151
tara para o conceber a phantasmagoria rnythica.
O ar, cheio de gritos de affiicção, povoava-se de vi-
sões, os cerebros affiictos de remorsos enchia1n-se
de n1edos. Vinhan1 aos labios as prophecias e as
confissões, e emquanto a bocca proferia as pala-
vras de. loucura, os braços dilacerados nas danças
despeclian1 con1 fnria os açoites con1 disciplinas no-
dosas que rasgava as feridas, abrindo os golpes
mn chagas, sa1jando a pelle de ecchymoses lividas.
O turbilhão de gritos, ele ais, ele golpes, ele solu-
ços, rolando no ar co1n o assobio stridente elo pi-
fano, com o rufo surdo dos tympanos, era o in-
censo de piedade que subia e1n nuvens de desvai-
rainento até ao altar onde Astarte, coroada ele has-
tes, presidia. A noute vinha vindo; co1n a so1nbra,
co1n o cansaço, a vertige1n caía 1nolleinente ; e
quando no ·finnamento a verdadeira Astarte, a lua,
banhava em luz mystica a scena da orgia asceta,
a 1nó da gente escura, coroada e contrita, roja-
va-se no lodo ensanguentado das ruas do templo
funesto ...
4.
A' Inaneira dos arabes, e, e1n theoria, segundo
a regra comrnn1n a todos os povos, os sen1itas
occiclentaes, antes de adorarem deuses sob a
fórma ele iclolos, adoraram pedras, montanhas e
rios: isto é, a sua mythologia, antes ele entrar
nos n1olcles quasi-humanos e1n que no culto ha
iclolos, passou pelo estado anterior e1n que se ado-
ram (se tal expressão conve1n) fetiches. Dos feti-
ches naturaes vieram, como em toda a parte, os
fetiches artificiaes ou portateis: pilares ele ma-
deira, cones ele pedra- assim eram as i?nagens
da Bilit ou Baaltis de Byblos. Assi1n era a ima-
152 L. II. -NATURALISMO
gem de Amma, a Rhea ou Cybele phrigia do
monte Agdo, junto a Pessino. A deusa era uma
pedra informe, não tão grande que um home1n a
não levantasse, uma pedra sagrada confiada á
guarda de leões e pantheras. Como no culto de
Astarte, no de Amma o sentimento religioso era
o ascetistno. Se em Cathago os fieis se vestiam
de mulher para mendigar os obulos sacratnentaes,
na Phrigia os sectarios de Atuma constituiam
collegios mendicantes, do typo dos franciscanos
modernos. Tambem. em honra de A1nn1a, na sua
festa, os 1noços se castravam con1 uma concha
cortante offerecendo os testiculos em homenagem
on holocausto á deusa- á imagem de Attis, o
filho divino, tambem mutilado, que se assenta ao
lado de sua tnãe. Essa a que os gregos chalna-
ram Detneter e os latinos Cybele, representando-a
já com fórma humana n'um carro tirado por leões
e pantheras, essa é a deusa orgiaca da Phrigia
entre ariana e semita, zona de contacto de helle-
nos e syrios, porta por onde hão de vasar-se na
Grecia classica os cultos dissolventes do helle-
ntsmo.
Amma, Bilit, Istar-Astarte, representa1n-nos po-
rén1 agora, n' este mon1ento do nosso estudo, a pas-
sagmn de uma zoolatria coeva de estados transa-
ctos para um anthropomorphisrno correspondente
á humanisação da essencia dos mythos religiosos.
Os deuses semitas, no estado em que os ternos
estudado, são jit homens, ou n1onstros humanos, na
intenção, na vontade, na força, na actividade;
são porém ainda, nas fórmas syJubolicas, ou idolos,
ou f()nnas entre lnunanas e anin1aes. En1 breve
observaremos o mo1ncnto seguinte, estudando os
n1ythos hcroicos.
1\Ias antes d'isso é necessario registrar u1n outro
III.- OS CULTOS ORGIACOS- 4.. 153
processo na evolução da mythologia naturalista.
O 1nytho prin1itivo não tem sexo por isso que
ainda não é pessoal; só quando essa ficção, conce-
bida a principio co1no um espirito vago, pouco a
pouco ven1 descendo c tornando-se algutna cousa,
só então, dizen1os, representando-o cotno animal ou
hotncm, a imaginação tem de lhe dar u1n sexo.
O sexo dos mythos divinos é oscillantc, conforme
a iinaginação attribuc ao individuo mythico um
papel predominante ou subalterno : o leitor viu os
sexos varios do sol e da lua, nos diversos estados
ethnometricos.
O naturalismo, como se tem notado, poz o seu
dualismo ta1nbem no sexo; e ao mesmo tempo que
fixava com caracteres zoologicos a nebulose do
mytho primitivo, chamava á humanidade os deu-
ses-a.nimaes. O mar co1n os seus peixes, symbolo
genesíaco da mythologia da Chaldêa, dá de si Oda-
kon, o ultimo homem que foi peixe, ou o primeiro
peixe que foi homem; e se nos templos da Pheni-
cia, e por toda a área semita, as piscinas são o ha-
bitaculo dos velhos fetiches - corno A pis semitas
-já o creador não é o animal, mas sin1 um ser
masculino conforme se vê nos monumentos de Ni-
nive: hon1em coroado com um gorro cornuda, aca-
bando em fórma de peixe. Os sacerdotes tém por
mantos pelles de peixe. Dag quer dizer peixe, e
Odakon, Dakan, Dagon, o homem-peixe, deus
creador, deus de todos os canaanitas, de todos os
phenicios, revela a transição da zoolatria para o
anthropomorphismo. Etn breve, repetimos, vere-
mos nos heroes semitas a inteira humanisação da
divindade.
Todavia, a mythologia naturalista, catninhando
para essa unidade que é a exigencia constitucio-
nal do espirito humano, encontrava-se de frente
154 L. II.- NATURALISMO
com o problema da sexualidade, e sem capaci-
dade para proceder d' outra fórma, ella que dera
sexo aos deuses desde que os tornara animaes-ho-
mens, supprimiu-lh'o inventando o androgynismo.
O creador, vontade e potencia absoluta, não tem
sexo: é em si os dois sexos, homem e 1nulher a
um tempo.
E' isso que, definidamente claro no mytho do
creador mosaico, se vê em esboço e em processo
nos mythos de Tyro e Carthago, da Phenicia e
da Syria em geral. Baal e Astarte fundem-se, uni-
ficando-se, confundindo-se os sexos. Astarte subor-
dina a si Baal, Baal subordina a si Astarte, cujo
nome é agora Ashera. O deus occupa-se de mis-
teres femininos, a deusa empunha as armas- a
lança, com que a vimos em Carthago no dia da
sua festa. Fundidos, são um deus unico, sutnma do
poder creador e da potencia receptiva. Astarte
apparece com a barba solar de Baal; e nas festas
solemnes da nova divindade androgyna, os sacer-
dotes vestem mantos vermelhos transparentes de
mulher, e as sacerdotizas tu nicas de homem e es-
cudos, espadas e lanças de guerreiros.
Assi1n o elemento masculino e feminino do dua-
lismo se confundia n 'uma unidade synthetica in-
dispensavel á noção de u1n creador voluntario;
da mesma fórma que a idéa da vontade, idéa hu-
mana com a qnal se concebia a natureza, ia pela
evolução natural do pensamento tornar-se- inteira-
mente pessoal nos mythos dos heroes.
IV
Os heroes
1.
E' n'esta esphera da religião dos setnitas que
os traços da 1nythologia astral primitiva se rnan-
tént com u1na persistencia maior. Todos os heroos
ten1 o caracter solar- esse caracter proprio dos ini-
ciadores de vida culta, se encaramos o mytho sob
o ponto de vista do seu valor ou da sua expressão
no desenvolvirnento formal da civilisaçiTo dos po-
vos. Todos os heroes são na esphera religiosa os
medianeiros entre a potencia creadora e a creatura
- idéa que procede do facto observado da viagen1
diurna do sol, e da sua jornada mysteriosa da
noute. E' então que o sol-heroe comnntnica co1n
os deuses absconditos, para voltar no dia seguinte
a derramar entre os homens os beneficias da von-
tade di vi na.
Assim é o Oannes assyrio, assitn o Dagon ca-
naanita. An1bos «passam a noute no n1ar)), con-
forme Bcrosio se exprime ácerca do primeiro, e,
filhos das ondas, reunem em si aos caracteres
solares os caracteres ichtyologicos- mitras em
fórn1a de peixe, con1 hastes que representan1 os
raios do sol. Durante o dia, co1nmunicando com
os homens, ensinara1n-lhes as sciencias e as artes,
a construcção dos ten1plos e cidades, as leis e as
medidas, o semear e ceifar, tudo e1nfi1n o ·que é
necessario á vida social. A viagem da noute é a
I
t56 L. II.-
jornada sytnbolica, a navegação mystica, d'onde
sem duvida procede a fabula da passagem do mar
Vertnelho pelos israelitas que tomaratn para si,
como povo, um papel de heroe collectivo e messias
ou medianeiro universal, quando elaboraram inde-
pendentemente os germens communs das mytholo-
gias sem i tas.
A viagem mythica pelos fundos dos mares, ou
por Inares ignotos inferiores, é a representação es-
pontanea do facto ainda inexplicavel do sol se su-
mir no oceano, ao poente, para sair, na manhã se-
guinte, das ondas do nascente. Essa viagem faz-se
no ventre de um monstro, como já observámos ;
faz-se n barca mystica, á 1naneira da de O si-
ris; faz-se na taça de ouro, presente de Helios,
quando o heroe é Herackles- denonlinação gre-
ga do 1\Ielkarth phenicio.
O heroe phenicio cujas façanhas mediterraneas
nós lemos já em outro lugar, t medianeiro entre as
divindades dualistas, e, como tal, nexo entre o crea-
dor e a creatura, é ao mesn1o tetnpo a synthese do
dualismo sexual quando se confunde con1 Tanith,
no deus androgyno Baal-Astarte que ha pouco ob-
servátnos en1 Tyro. E' pois no herois1no que vem
consun1mar-se ou cristallisar essa mythologia cujo
centro psychologico é a vontade, da n1esma fórn1a
que n? morte cristallisa nas mãos dos
egypctos o antnusmo.
Povo industrioso, tnarinheiro, comn1ercial, o phe-
nicio, dando aos seus heroes a substancia do seu
gcnio, crcou o typo do heroe da vontade e da
acção hu1nana, c esgotou ahi a sua capacidade tny-
thogf'nica. No tmnplo de l\[elkarth c1u Tyro duas
colun1nas, tuna de ouro outra de estneralda, utna
t V. Raçaslmmancu, u, p. l!)G o sogg.
IV.-OS llEROES-2. 157
verde a outra fulva, côr do sol, symbolisavatn os
dois ventres cm que se gerara o hcroe: o mar
glauco, seio da crcação, c o fogo rubro, o sol me-
dianeiro. D'csta semente cresceu o hcroe que, hu-
nul.nisado, obedecendo á sorte com1nun1 a todos os
1nytl10s religiosos, conquistou para 'ryro as costas -
1ncditcrraneas, avassallando o mar até ao Atlan-
tico e a terra até aos seus confins conhecidos, nas
costas da IIespanha austral. Ahi acabava o nlun-
do, ahi terminou, parando, a capacidade inventiva
e creadora do povo que consummara os «trabalhos
de Hercules ».
2.
O limite expressivo do naturalismo, a capaci-
dade do genio semita não coincidiam, porém, com
o ponto que o phenicio attingira. Do hercules de
Tyro faz Israel u1n santo; o heroismo activo tor-
na-o mystico; a vontade, expressa nos combates
com os monstros n1ythicos, será a vontade de um
Job combatendo contra as crueldades da sorte e
• contra as provações do deus absorvente.
Eis ahi o que nós iremos estudar, assim que
registremos os traços necessarios para accentuar a
transição do naturalismo para o mysticismo, por
via dos heroes que são como que a ponte por onde
se passa, da n1ythologia geral dos se1nitas, para
essa mythologia profunda da allucinação mystica
de Israel. Se a morte é para o animisn1o o que o
heroe é para o naturalismo, sem duvida alguma
tambem os sacerdotes de Jerusalem, prostrados
diante do mytho de Jehovah, tém para nós a
1nesma attitude e a 1nesn1a significação que os sa-
cerdotes de Thebas adorando Amun. Deus tor-
nou-se uno no Egypto e na Judêa, embora a uni-
t58 L. II.- NATURALISMO
dade não fosse tão absolutamente egual, por isso
que eran1 diversas as idéas geradoras dos dois
mythos sunnnarios formados qo amalgatna ou da
synthese de todos os precedentes.
].las antes que o deus·vontade, deus absoluto e
uno de Israel, vivesse na mente dos judeus, esse
ran1o dos semitas, que passara pelos estados n1y-
tllico:..religiosos precedentes na evolução, conforme
va1nos vê r, teve tatn bem o seu 1\Ielkarth na pes-
soa de Sam são.
Todos os traços caracteristicos da n1ythificação
do sol n'um heroe apparecem na figura do perso-
nngein que a Bíblia tornou ou patriar-
chal,- como os escriptores latinos por exetnplo,
fizeran1 a R01nulo. Sabetnol-o hoje, desde que os
estudos de Steinthal e Goldziher fizeram para os
hebreus um trabalho analogo ao que Niebuhr fez
para Ro1na.
A principiar pelo n01ne que a linguistica tradu-
ziu, Samsão quer dizer deus-soL O sol diz-se em
hebraico Shetnesh: Shilnsh·ôn = Satnsão. E' o Ines-
mo heroe a que os assyrios e os lydios chamava1n
ou Sandon. A sua historia e as suas faça-
nhas reproduzen1 os traços dos trabalhos de todos
os IIerakles. Ten1 a força e o privilegio nos cabei-
los que são por toda a parte o symbolo dos raios
do sol; e estrangula o leão con1o I-Ierakles -o
leão que nos n1ontunentos lycios é o ani1nal de
A poli o, o leão que para os se1nitas representa o
estio, fulvo na côr, impetuoso na ardencia. E' esse
o anin1al da estação correspondente no Zodiaco ; é
então qne no céu dotnina Orion, o poderoso caçador,
c Sirius C'ttjo n01ne arabe é cabellltdo. Sandon-
SaJnsão, ou IIerakles, matando o leão, cxpritnir:un
para os pri1neiros inventores do tnytho (no estado
re1uoto c1uc j:i fica distante no nosso estudo) o po-
IV.- OS I-IEROES - ~ . 159
der bencfico c protector da terra contra os raios
abrazadores do sol do estio.
Na fórn1a de lenda sob que o mytho heroico se
vê na. lliblia, Satnsão queüna as cearas dos phi-
listcns soltando rapozas com brandões accesos nas
caudas : as rapozas são anünaes solares co1no os
leões. Para se vingarem, os philisteus quei1nam a
noiva e o pae do heroe, que, depois de os dei-ro-
tar, se esconde n'urna caverna. Assim Apollo se
esconde, n1orto o dragão ; assim Indra, depois da
n1orte de Vrtra. O heroe astral so1ne-se encoberto
p e l ~ s nu vens.
Filho tambem dos deuses genesiacos, o Heraldes
semita não occulta a sua phisionomia orgíaca. Na
Lydia, Sandon anda associado co1n Ütnphale; na
Assyria, Ninyas com Se1niramis; na Phenicia, lVIel-
karth con1 Dido: a amante do heroe é a deusa do
an1or, da receptividade, do parto- a natureza
passiva, concebendo ao calor do sol. E' umas ve-
zes Lua, outras vezes Terra, e n1ais frequente-
mente ainda Agua- a agua creadora d' onde nas-
ceu V enus, e que enche as piscinas sagradas dos
templos de Mylitta, de Tanit, de Baaltis. Ora,
na lenda biblica, das tres amantes de Sam são
(Terra, Agua, Lua?) só se denon1ina un1a, Delila,
cujo non1e quer dizer «ratno de cepa)) ou antes
«ramo da palmeira» (d'onde tambem se extrae vi-
nho) que é a arvore sagrada de As hera- a Lua,
o astro da noute, nefasto, assim que os povos o
substituíram pelo astro do dia, trocando a vida
barbara pela vida culta. A' maneira de Semiramis
que n1ata os amantes, assim Delila entrega Sam-
são aos philisteus que, cortando-lhe os cabellos,
lhe destroen1 a força. ,
Mas os cabellos-raios do sol-heroe crescem de
novo, á maneira dos dias que se succedem tambem
160 L. II. -NATURALISMO
ás noutes ; e com os cabellos volta a força do he-
roe para despedaçar os grilhões que prendem o
sol do inverno. Samsão parte-os e abraçando-se
ás columnas do templo- as columnas de Hercu-
les, fim dos trabalhos, consummação da empreza,
-despedaça-as, morrendo sob as ruinas.
Assim acaba o heroe- n' aquelle ponto a que
chegou a capacidade imaginativa de que os phe-
nicios deram o typo e1n 1\Ielkarth. Acaba um cy-
clo do naturalismo, mas das ruinas do templo e
da poeira heroica do· cada ver de Sam são, a Iny-
thologia naturalista dos semitas, na mente mys-
tica de Israel, vae tirar invenções novas: um deus-
vontade transcendente, e um medianeiro positivo
na visão prophetica.
v
A Judêa
1.
O lugar da mythologia hebraica é este: um lu-
gar correspondente ao do Egypto na esphera do
animismo, porque foi Israel o povo que tornou
mystica a mythologia da vontade creadora ou na-
turalista.
Egypto e J udêa, passando além dos momentos
mythologicos precedentes, extraindo dos mythos
primitivos ou selvagens de pura representação e
dos mythos barbaros secundarias, ou mythos de
invenção, uma terceira categoria á qual nós cha-
maremos «mythos do pensamento», deram, cada
qual por seu modo, a definição pura das perce-
pções nebulosas do principio. A allucinação das
divindades nascidas da observação dos phenome-
nos externos e internos, astraes e psychicos, e
combinadas ao depois com as idéas moraes e ra-
cionaes nascentes, tornou-se psychologica ou mys-
tica; e os deuses que começaram por ser entre-
vistos nos astros e nos sonhos, os deuses a que
se attribuiu depois a creação do mundo e a civi-
lisação das sociedades, ganharam por esse processo
um lugar absoluto no pensamento humano, já ca-
paz de se conceber a si proprio de um modo que
ainda não é critico, sem duvida, mas já é reflectido.
Tal é a elevação ou a profundidade que o my-
t2
162 L. II.- NATURALISl\10
tho remoto do sol e do sonho adquire no culto de
Amun-Râ de Thebas; tal é, ainda mais pronun-
-ciadamente, o valor do culto de J ehovah, o deus
de Israel.
A par da evolução mental que deixatnos regis-
trada, e como causa ou effeito d'ella, observatnos
na J udêa (e em toda a parte) a evolução organica
das fórmas sociaes. No XIII seculo antes da nossa
éra os israelitas conquistaram uma parte conside-
ravel da terra de Canaan. A sua mythologia reli-
giosa era, ao tempo, ânaloga á dos outros ramos
occidentaes semitas, tendo um deus nacional e1n
El-Shaddai, nos Elohim deuses subalternos, e em
Samsão-Sandon utn Melkarth. Conquistadores, pro-
cederam como haviam de proceder os romanos e
tantos outroi;
7
fundindo as divindades ela terra cotn
as suas proprias divindades, levantando no mesn1o
altar Jehovah e o Baal canaanita. Reis e sacer-
dotes, Samuel, Saul, David, reconhecem os deu-
ses de Canaan; e Salornão, levantando en1 Jeru-
salem o seu templo magnifico, não receiou cons-
truir sanctuarios para. os deuses indigenas da terra.
sobre que reinava.
A.. Bíblia, redigida n'un1 espírito exclusivo,
como é o espírito prophetico posterior, pulula ue
condemna.ções para esses que chan1a crin1es. «To-
nlaram por esposas filhas dos hittitas, dos anthor-
renos, dos pheresianos, dos hivvitas, dos jebusitas;
deram suas filhas aos filhos d' elles, c· os
seus deuses, adoraran1 os llaali1n. » (Jud. m, 5-7)
nú'to enchia os seus harens uc escravas estran-
geiras, recrutando no Egypto e na I>llCnicia, ou
apartando-as entre os captivos das batalhas. A 1nãe
de era anuuonita, a rainha egypcia.
«Adorou Astartc, a divindaue de Sidon, c l\lilkom,
deus dos arnmonitas. . . levautou altares a l(.a-
V.-A JUDÊA-f. 163
1nosh, deus dos moabitas, sobre a montanha fron-
teira a Jcrusalem, c a Moloch, tieus tios filhos de
Ann1n. » (Reg. x1, 1-13, 33) Akhab desposou IscLcl, fi-
lha de Ithobaal, gran-sacertiote de Astarte, e res-
tabeleceu os cultos phenicios. Baal c Astartc ti-
nh:un tetnplos etn Samaria e bosques sagrados cm
todas as collinas, altares sobre o Sion, depois que
J\Ianasheh, subindo ao throno, levantou o partitio
pagão que governou com Akhaz.
Elias (Elijah), o propheta, clamava já contra a
orgia phenicia introduzida na mansão de Jeho-
vah: «8e Jehovah é deus, segui-o; se Baal é deus,
.segui-o ! >> Ezechiel descreve assim o interior tio
Ten1plo: «Vi toda a especie de animaes e reptís e
as paredes do tetnplo de Israel estavam coalhadas
de pinturas de idolos; e entrando pela porta que
-dá para o norte, vi mulheres sentadas chorantio
Attis; e no atrio vi hon1ens com a face voltada
ao oriente adorando o nascer do sol ! »
Essa inundação de idolatria contra a qual os
prophetas claman1 é, porém, utn relapso apenas na
orgia phenicia introduzida por Jesebel na Judêa:
não é a idolatria do tempo de Saul, de David, de
SalOinão, quando os deuses canaanitas se confun-
diran1 com os de Israel no ternplo. O Baal contra
que Elias troveja não é o de Canaan, é o de Sidon
trazido na côrte da esposa de Akhab. O Baal ca-
naanita e a cos1nogonia, o mytho do paraíso e o
do diluvio, o de Samsão c o de Jacob-Israel, tudo
isso foi amalgamado e fundido na elaboração reli-
giosa dos judeus na sua nova patria. Jehovah, o
terrível mytho dos desertos ardentes, modera a sua
colera no chão pingue de Canaan «a terra onde
-0 leite e o mel correm em ribeiras » e accei ta do
baal indígena os traços phisiononlicos de um deus
benefico, deus das bençãos e da abundancia.
. *
164 J ~ . 11.-NATURALISMO
D'esse ponto de partida vem a construcção pro-
phetica- essa mythologia nova a que chamámos.
«do pensamento». A intelligencia e a piedade, o sen-
timento e a reflexão- e não já a imaginação, os.
sentidos e o medo apenas, como nas edades primi-
tivas- elaborando combinadamente o mytho da
suprema vontade que é a suprema lei e a n1oral
transcendente, originam o typo das religiões his-
toricas em que a philosophia e a sciencia alliadas
á piedade e á esthetica constituem uma metaphi-
sica mythologica. ..
Esse deus unico, mytho por fim racional ou
abstracto, esse deus filho do naturalis1no semita,
só é Jehovah, o absoluto, no seculo VIII, isto é, qui-
nhentos annos depois de Israel ter entrado em Ca-
naan, quando a visão dos prophetas o annuncia;
só é o deus-unico, depois do estabelecimento de
um estado theocratico pela parte da nação que
voltou do captiveiro.
Então, concebido o mytho da vontade abstracta
e da summa lei, os deuses visinhos, até ahi inimi-
gos, passam a ser falsos; desce1n á condição de
demonios- como os genios do paganismo europeu,
depois do estabeleci1nento do christianis1no; e as
sentenças e jeremiadas dos prophetas contra os la-
psos da população no naturalismo realista do pas-
sado, vivo nos exemplos visinhos, denunciam-nos a
realidade de estados transactos d' onde o espirito
prophctico abstrahira um <<mytho do pensamento)),
tnas em que o povo se conservava ainda archaica-
mcnte. Assim, na Europa christan, os prophetas-
modernos condemnarão o paganistno das 1nassas.
2.
A provcitrn1os ngora das inuagaçõcs subtis e sa-
bias dos Inythologos, cotno Stcinthal, Goldzihcr,
V.-A JUDÊA-2. t65
-rricle, para escavar no passado israelita, vendo
-que raizes prcndmn á trama dos n1ythos esponta-
neos os mythos psychologicos ou abstractos do
1n·ophetisn1o da Judêa.
A unidade da raça semita é conhecida; t com
relação poré1n ao seu habitat primitivo, ao seu
foco de expansão, não ha, netn póde haver 1nais do
-que hypotheses. A de Schrader colloca esse nu-
cleo no norte da Arabia, fazendo provir d 'ahi as
migrações que levaram para o norte os futuros ba-
bylonios e assyrios, os arameanos, canaanitas, phe-
nicios c israelitas, e para o sul os ethiopes. Seja
pois na Arabia, n'esses desertos onde já observá-
n1os o beduino errante com a sua mythologia as-
tral ·nocturna, seja ahi que representmnos a exis-
tencia pri1nitiva do judeu. Nomada então, como
até hoje o beduino ficou, o hebreu vê tan1bem o
-céu da noute animar-se e viver nas pleiadas de
estrellas rutilantes, nos planetas, na lua Inyste-
t·iosa e pallida. O ar fresco da noute ou a sombra
be1ufaseja das nuvens apresentam-se-lhe como os
genios protectores da sua existencia errante nos
desertos adustos. Essas que depois serão imagens
do poderoso deus de Israel- a columna de fogo
que encatninha os noctambulos, a columna de
nuvens que os guia de dia, o 1nanná que não é
senão a chuva mitigando a sede no deserto rese-
quido -essas são as divindades beneficas de uma
gente primitiva que, como se vê em toda a parte,
confunde na sua adoração a noute e a nuvmn :
toda a especie de treva que obscureça o sol terri-
vel dardcjante. Ainda hoje tambem o arabe adora
pedras e certos montes: assim fizeram os hebreus
.ao Sinai, reunindo n'esse fetiche geologico as duas
t V. Raças humanas, 1, pp. 33 e 96-105.
t66 L. 11.- NATURALJSl\10
faces da sua mythologia primitiva: o monte e a
lua. Porque Sin é um dos nomes semitas d' esse
astro a que a montanha deveu ter sido consagra-
da. Adorada no Sinai, a lua manteve-se na reli-
gião dos judeus até períodos conhecidos, como
um substrato de mythologia archaica, preferido
ainda pelas mulheres piedosas, quando já na terra
de Canaan os habitos agrícolas tinham substituído
os nomadas. São as mulheres que por toda a parte
guardam o thesouro das supe1·stições -isto é, das
crenças archaicas.
1\Ias não é só na imaginação viva das mulheres
que se conserva a memoria dos estados trans-
actos: por entre as linhas, por entre as letras dos
textos sagrados, descobre hoje a erudição os ves-
tígios transparentes da significação de lendas ou
de historias, singulares umas, repugnantes outras,
para serem actos de homens conservados na I-ne-
moria dos povos. Assim, o episodio das filhas de
Lot, pagina obscena da Bíblia sagrada, é incon1-
prehensivel fóra da mythologica. A"
maneira dos incestos da mythologia aryana, este
e os mais incestos semitas são apenas o n1ytho
do caír ou do nascer do dia- pois para a iinagi-
nação primitiva do hotnem, núa ainda de idéas
moraes, os actos com que ella representa os phe-
nomenos astraes não podem ter moralidade. Rubcn
casa com a esposa de seu pae, Bilha h; e no epi-
sodio de Lot, conforme o ve1nos revestido de unut
fórn1a historica, foi depois da queitna ue Sodo1na
e de Gomorrha que pac e filhas viernm fugindo
esconder-se n'uma gruta: a 1nãe, por ter olhudo
para a cidade perdida, ficara transfonnada cn1 es-
tatua de sal. As filhas c1nbriag:nn o pne c, cada
uma por sua vez, introduzc>ni-se-lhc no leito, co1no
esposas. Essas filhas, cujo nome a lliblia não diz
V.-A JUHÊA-2.
1(37
são, na versão arabe do mytho, Ragya, a maior,
Zogar, a : sã.o o crcpusculo, da tarde e da
alvorada, que Lot (da raiz lút, cobrir) cobre como
a noute, a escuridão da tréva.
Ainda hoje commum1nente se diz «o manto da
noute». Pois bem : a noute ou a nuvem -a my-
thologia confunde sempre as duas sombras - é
uma capa no mytho semita expresso pela lenda
de José e Putiphar no Egypto. Paradigma he-
braico do mytho egypcio de Osiris, e do mytho
phenicio de Adonis, José não morre, mas é ven-
dido, indo parar ao Egypto. como o sarchophago
de Osiris a Byblos, depois de combater com seus
innãos armados de settas : são settas os raios sola-
res, e José a que o sol dissipa. E' filho de
Raehel (a nuvem) e o seu nome, signifieando <nnul-
tiplicador», define a chuva que nasce das nuvens
e fecunda o solo. Chamado para o leito por Zali-
châ, «a rapida>>, a aurora, foge, largando-lhe a
capa. Ainda na imaginação do hebreu nomada a
capa da noute, ou da nuvem, ou da chuva, não
perdeu o lugar eminente. Jos·é entrará no leito, e
a noute perderá a sua pureza e o seu eneanto,
quando o agricultor preferir os raios genesiacos do
sol que germina a semente e amadureee a ceara.
Esse céu nocturno que o alegra, bafejando-o
com a sua aragem fresca, libertando-o da luz of-
fuseante e do calor do dia, é Jacob,
o pae das doze tribus errantes do deserto; Abra-
ham, o futuro patriareha -Abh-râm, o pae (abh),
elevado, alto, celeste (râm), com a sua hoste innu-
mera de deseendentes. E' elle o que sacrifica
Isaac (Yischâk =risonho, sorridente, celeste); é
elle, a noute, que leva ao altar (onde provavel-
mente os hebreus immolavam victimas hun1anas)
o dia luminoso, o pôr-do-sol sorridente- porque

168 L. 11. -NATURALISMO
na linguagem primitiva rir e brilhar são synoni-
mos; é elle, o pae.7 porque o dia gera-se da noute.
Elle, Abh-râm, céu nocturno, tem por esposa a
lua- Sara, que, ciumenta, expulsa do leito Agar
a concubina. Quem é Agar ou Hâgâr? Dil-o a
raiz arabe da palavra: hajara.7 correr. Agar é o
nome feminino do sol ; o sol e a lua disputam o
leito do céu que, para o nomada, prefere o astro da
noute como esposa e repelle o do dia como concu-
bina. ·
Tambem Jacob, o outro mytho do céu nocturno,
tem esposas e concubinas, mulheres legitimas e ii-
legitimas- e sempre as primeiras são a lua, as se-
gundas o sol. Assim como Sara é princeza, se-
nhora, lua-rainha no céu estrellado, assim é Leah,
assim Rachel, imagens da nonte e das nuvens.
Râchêl significa ovelha, ovelha quer dizer nuvem:
os arabes veneram a nuven1 n'u1n carneiro branco
e crespo de lan. Quando a chuva descia das nu-
vens, os hebreus diziam que «Rachel chorava por
seus filhos», expressão de Jeremias e que veiu da
mythologia para a metaphora poetica. Ainda hoje
o arabe diz «chover>) pela palavra «chorar». E en-
tre os filhos de Jacob, os de Levi são os filhos da
serpente (Leviathan) do temporal que devora ( en-
cobre) o sol, como os dragões e n1onstros de todas
as mythologias.
Os doze filhos do céu nocturno, filhos de Jacob,
no sentido em que Isaac o é de Abrahan1 e José
de Rachel, filhos por ordem de successão nos phe-
nomenos celestes, são a lua e as onze estrellas ;
são as doze tribus de Israel, algntnas das quaes
vieram a adoptar nomes geographicos. Assin1 a
historia se relacionou co1n a tnythologia na consti-
tuição do povo que, tenninada. a sua cxistencia
nomada do deserto, vae entrando na terra 1)romet-
V.-A JUDÊ.\ -3. 169
tida de Canaan. visão do paraizo terrestre
aonde o mel e o leite corrern mn ribeiras» é a es-
}1erança que allnrina o espirito Larbaro das triLus
errantes e nliseraveis, das tribus dos 1noabitas, dos
edonlitas, dos sarracenos, dos ismaelitas, dos ara-
bes, -dos hebreus, no caso especial de que nos
occupa1uos; dos hebreus para quem a vida é um
perpetuo combate, e un1a provação dura, e o tni-
lagre a norma de uma existencia atribulada. Os
deuses que vêen1 no céu, sente1n-nos na allucina-
ção do cerebro a condemnal-os, a regei-os, a vi-
giai-os, a defendei-os: são os reis ornni potentes das
creaturas ·os que são os supremos creadores. D'el-
les- porque ainda a synthese unificadora da tny-
thologia se não consutnmou n'um throno celeste,
nem a authoridade politica se concentrou n'um
sceptro- d'elles espera1n a redempção.
3.
Estudemos agora o desenvolvimento (l'esta my-
thologia astral nocturna no systema da sua oppo-
sição aos mythos solares : o drama que vae pela
atmosphera, tal como a imaginação a representa,
exprime-nos o choque entre as duas condições de
vida, n'esse periodo transitorio da barberie para a
civilisação, e do estado nomada e pastor para o
urbano e agricola. No ether, o antithese astral
sol-lua dá lugar á invenção de casaes mythi-
cos: Milka (a esposa de Nahor na lenda biblica) é
o feminino de 1\lelekh, rei, sol; Ashêrâ, Thanit
ou Balatis hebraica, é esposa de Ashêr, o sol, tatu-
bem, que sob o nome de Lâbhân, o tem
por contraste Lebhânâ, · a lua. Os mythos prece-
dentes, mythos da noute barbara, como que se il-
luminam, transformando-se sem se alterarem: as-
170 L. II.-NATURALISMO
s1m o céu é o mesmo de noute e de dia, apenas
diverso no aspecto e na luz. Tambem o instru-
mento inventor da mythologia, a imaginação viva,
não mudou- mudou apenas a condição que impõe
os typos aos desejos e sympathias humanas.
Isaac renasce á maneira de O siris - resurreicão
que no texto sagrado se oblitera,
apenas na redacção o sacrificio intencional que Je-
hovah impede, porque j{t os costumes não consen-
tem holocaustos humanos, nem a imaginação apa-
gada concebe mais do que heroes ou patriarchas.
Isaac renasce á maneira de Osiris, a exernplo do
sol resuscitado cada manhan, sacrificado todas as
noutes. Casa com Ribhkâ (Rebecca), nome que
para o sabio Tiele equivale a Terra: assim o sol
e a terra são frequentemente a origem mythologica
dos homens. Envelhece, perde a vista- porque
tambe1n, como nos monumentos egypcios, o sol
hebraico é um olho, e a velhice é uma cegueira,
-e manda _para longes terras seu filho
(Ya'akôbh) para que volte só depois de orphão e
preparado para a lncta com seu irmão. O drama
que se dera entre o pae e o filho, Abrahatn e
Isaac, agora entre os irmãos: Jacob, Esaú,
-e Laban, parente proximo na tradição, e de certo
irmão tamben1 no n1ytho primitivo. O sol não ama
a noute: por isso Jacob é expulso da casa pa-
terna, da casa do risonho Isaac, pelo odio de .Esaú,
o indo f'nc-ontrar-se no exilio em opposi-
ção a Laban (Lâbhân), o branco. A noute, j:l. re-
pcllida, por toda a parte encontra inimigos. Esaú
tonut do irn1ão «pelo calcnnhar», como no proYC'r-
bio arabe que diz: co1. nonte nasce corn o calc-a-
nlwr do mundo na mão!» (Esâv) é caçador,
cmno todo o sol, e despede contra as nuvens ou
<Cmanadas» scttas que são raios. Esaú-Laban são
V.-A JUDÊA-3. t7t
duas imagens parallclas do sol, cm opposição no
Jacob nocturno, e todos vém de Isaac o «sorri-
dente».
No n1ytho de Jephthah sacrificando sua filha
descobriu a erudição o desenvolvimento do 1nytho
antigo de Abraham, já por nós estudado. N'este, a
victoria da noute sobre o dia é decisiva: no pri-
meiro observa-se a vietoria do dia sobre a noute.
Jephthah (Yiphtâch) significa «a que abre, oU: ini-
cia>), aspecto feminino do sol que sacrifica sua
propria filha, Alvorada, e é como Enoch (Chânokh)
um inceptor, utn inventor. Da mesma fórma, no
mytho anthropogenico de Adão e Eva, Edôtn
(Adão) rival de Jacob, é linguisticamente «o ver-
melho», e Chawnâ (Eva), «mãe de tudo o que
existe» e a «circulante», um sol-femea cujo attri-
buto está na redondeza e no movimento circulato-
rio, attributo que, entre outros, os aryanos ta1nbem
figuraram nos carros e nas rodas do sol.
Vão-se pois dissipando as trévas da noute, as
sombras das nuvens; vae dominando o sol á ma-
neira que a gente hebrêa passa da barberie do de-
serto para as veigas de Canaan. Transformam-se
os mythos, apparecem os heroes-inventores. En1
tempos remotos, Jabal (Yâbhâl) ou Abel (Hebhel)
fôra n1orto por seu pae Lemech : agora o assas-
sino é Cain (Kayin) o ferreiro, inventor das al-
fayas agricolas com que se lavra a terra e se co-
lhem as cearas. Outr'ora Jacob achou-se a braços
com o «vermelho» Edôn: agora debate-se contra
Esâv <<o trabalhador» nos campos que pedem sol.
Os dois filhos de Adão são dois typos novos do
dualismo astral, duas expressões do dualismo ethno-
metrico, exprimindo no seu drama a passagem da
barberie para a civilisação. Cain é o sol ardente e
terrivel, Abel a noute pallida e meiga, assassinada
172 L. II.- NA TUR:\LISMO
sim, 1nas ne1n por isso condetnnada. Cain é la-
vrador, Abel é pastor: assim -acabava para o he-
breu a antiga existencia do deserto perante a nova
existencia agricola. Com saudades? Sim; com sau-
dades e syn1pathia por esse viver adequado ao seu
genio, só abandonado perante a fecundidade da
terra de Canaan. Hebhel (Abel) em hebraico signi-
fica o «sopro do vento», a aragem da nou te fresca
borrifada de orvalho ; e essa chuva é o ordenhar
das vaccas ou ovelhas-nuvens do céu. Abel é o
pastor celeste da existencia passada. Cain é o tra·
balhador rudo da vida de agora - vida agricola
sem dó da terra que se rasga, vida que exige o
sopro ardente da forja onde ruborescem os ferros
dos primeiros arados.
O duello de Abel e Cain, o assassinato do pas-
tor, a conden1nação do passado, é o 1nesmo duello
de Romulo e Re1no. A civilisacão assenta em san-
gue. Na I tal ia é o sangue de R e ~ n o , na J udêa o san-
gue de Abel, sobre cujo cada.ver o irmão vence·
dor, iniciador, levanta a cidade a que deu o nome
do filho -Enoch. Por toda a parte a rnythologia ex·
prin1e as 1nesn1as itnpressões. As cidades e a la-
voura condemnan1 a liberdade da vida errante, o
mysterio da vida nf>cturna, a paz dos campos no
meio dos rebanhos. A disputa do lugar traz a guer-
ra, e o sangue fictício cotn que o tnytho rega os
alicerces da Arx é o sangue real das populações
vencidas que a historia vê derratnado. O sangue
de Abel é o dos eanaanitas.
A victoria do::; invHsores consagra-se na apotheose
da vida solar. O dia vae alto no cén e na terra. A
luz vermelha inunda o ar e reflpetc-se no e hão ver-
nwlho tatnbCin de sangue. C> cnthusiasn1o da victo-
ria e da viJa é a apothf'ose de Enoch (Chânokh), o
:filho de Cain, o que dcnonlinou ou fundou a pri-
V.-A JUDÊA-3. 173
n1cira Jerusalem. Foi sen1prc o sol o constructor
das cidades. Ellc, Enoch, «O que abre» ou inicia
a vida urbana, vive 3G5 annos- exactamente o
nutnero de dias uo anno solar. E nen1 depois
111orre: sóbe, vagueia con1 Elohitn no ether abs-
condito, co1no todos os heroes fundadores de cida-
des- con1o lleraldes, cotno R01nulo.
Jerusalem está levantada, conquistada a terra
de Canaan. Serão tudo porétn alegrias na vi c to-
ria'? A etnbriaguez da conquista, o instincto da ci-
vilisação, o atnor da lavoura enchem os corações
do semita de hynu1os similhantes aos do arya?
Não; o seu genio é outro, a sua sympathia di-
versa. Nasceu barbaro, non1ada, errante, con1o
pastor ou cmno mercador. A cidade é uma prisão
para a sua ahna livre, a civilisação e a ordem são
um sacrificio para o seu genio bravio e solto. A
vida que hoje con1eça é o sacrificio permanente
que elle fez a essencia da virtude: é a obediencia
ao seu deus; porque no fundo da sua alma está a
saudade pela vida errante e aventureira que o be-
duíno continuou e continua levando nos desertos da
Arabia remota.
Essa apotheose da vida barbara é evidente na
mythologia, onde os vencedores são, co1n effeito,
os mythos solares da civilisação, como Cain, 1nas
onde os patriarchas são pastores- Abel, Jacob,
1\Ioisés, David. Não foi um castigo divino a orden1
de «Ia vrar a terra cmn o suor do rosto» '? Assim
os beduínos faliam com desprezo dos hadarís- os
arabes agricultores; assim os dinka chatnam sel-
vagens ou « sylvestres.» aos seus lavradores. E'
que os litnites de capacidade ethnometrica dão
idiosincrasias varias aos povos: este não poderá
sair do estado selvagetn, aquelle do estado bar-
baro : se as condições o forçarem a tanto, extin-

174 L. II. -NATURALISMO
guir-se-ha. O hebreu ficou barbaro e nomada por
indole, embora civilisado por historia: de pastor
tornou-se mercador; expulso da Judêa, dessimi-
nou-se na Europa, sem se enraizar nos campos,
errando nas cidades, vivendo de rapina, fazendo
de modo diverso e com outros elementos o 1nesmo
que faz o beduino na Arabia. Esse é o seu ideal
eterno, ideal diverso do aryano que tem no san-
gue o instincto da ci vilisação e no braço o genio
da lavoura:
. . . U t prisca gens mortali um
Paterna xura bobus exercet suis.
4.
A historia diz-nos que a entrada dos judeus em
Canaan não foi co1no tuna conquista regular a que
succedesse o estabeleci1nento de u1u governo fixo.
A irrupção das tribus teve o caracter migratorio,
caracter obscuro e collectivo que ainda se observa
até certo ponto nas invasões dos gennanos na Eu-
ropa occidental pelos primeiros seculos da nossa
éra. Esse prin1eiro periodo de occupação da terra
canaanita- perioclo chamado dos Juizes -é utna
cspecie de feodalismo espontaneo, e1n que os ba-
rões adopta1n em grande parte as instituições phe-
nicias, e1u que até o proprio notne dos juizes-
shôphctín-é, segundo se pretende, a traducção do
non1e dos suffctas de Carthago, ~ í 1uaneira da. dc-
nOlninação dos sacerdotes- kôhên- que é sabi-
damcntc phenicia. Os judeus e1n Canaan n.•pre-
scntatn pois um papel si1nilhante ao dos barba1·os,
na Gallia, na Italia, ou na Ilespanha. Assi1uil:un
os ritos, as instituições, e qncrcn1 alg·nns que até a
lingua dos vencidos. o ~ J uizcs são, COlllO os Larõcs
V.-A JUDÊA-'- t75
g<'rnutnicos, chefes de nlilieia; c se a ünaginação
popular já não teve na Europa tnoderna inven-
Làstante para erear personagens n1ythieos,
ch(•gando apenas a revestir de caracteres nlytholo-
gicos os personagens historicos, a iinaginação dos
hebreus foi ainda capaz de conceber como
são nntitos dos Juizes- Satnsão, J ephtah, Gedeão,
-e de cotubinar a invenção co1n a historia n'utn
grau que é hoje difficil ou impossível á erudição
destrinçar, fazendo aos Juizes hebreus o que por
exeu1plo Dozy fez para o Cid das Hespanhas.
Aquillo que, por outro lado, se observou na Eu-
ropa, isto é, a obliteração da mythologia indígena
e a acceitação dos ritos e crenças dos povos affins
em cujo seio os barbaras entravam, foi o que sue-
cedeu em Canaan com os judeus, affins tambem
dos naturaes da. terra. A identidade fundatnental
do systetua dos tnythos religiosos de invasores e
invadidos torna facil aos primeiros a adopção dos
ritos canaanitas e determina o aborto da evolução
natural das fórmas particulares dos judeus : assim
aconteceu á mythologia ger1nanica abafada pela
christan. 1\Ias, encravados entre populações hostis,
acaso inconscientemente envergonhados da sua bar-
berie, os hebreus, reflectindo, regressam depois á
sua antiga tnythologia nacional que; não podendo
já crear um pantheon divino para oppôr aos elohim
canaanitas adoptados, torna-se uma arvore de ge-
ração, un1 cadastro de nobreza, um livro de linha-
gens. De tal 1nodo os antigos 1nythos se transfor-
lnaram, não em deuses, não em heroes como os
eponytnos gregos, por exen1plo, mas sim pa-
triarchas á maneira de utn Romulo, talvez de um
Nun1a.
Em Canaan os hebreus tinham conservado a sua
antiga divisão de tribus: cada tribu teve o seu pa-
t76 L. H. -NATt:RALISMO
triarcha, filho de Jacob- o pae do povo de Israel.
Os doze astros tornaram-se outros tantos avós. Ab-
hrâm «O pae supretno» converteu-se e1n Abhrâhâm
«o pae das nações», e etn I!a-Ibhri «Os hebreus».
Do incesto 1nythico das filhas de Lot veiu a ori-
gem itnpura dos inimigos : n1oabitas, an1monitas.
O antigo « rei » celeste Abirnelek, o que concebera
um arnor ardente pela esposa da l\Ianhan e pre-
tendia raptai-a, passa á condição de rei dos philis-
teus; Shechem, a alv6rada, o seductor de Dinah, é
convertido em principe tlos hivvitas. O odio:aos de
Canaan vê-se na lenda que attribue a Cham, o
1nau filho que revela a nudez do heroe solar, a pa-
ternidade d' essa gente. De tal modo as arYores ge-
nealogicas das nações raclicatu o patriotismo e o
odio ao inin1igo: assim Israel achou na sua cons-
trucção patriarchal, extraída das ruinas de un1a
mythologia abortada, o alicerce para a futura ele-
vação do seu genio politico e 1nystico. As bases
do imperio estavan1 fundadas no odio aos visinhos,
as do te1nplo na solução evhernerista que li1npava
as imaginações dos fungos 1nythologicos para que
no vasio imperasse absoluto Jehovah.
Exhausta a actividade 1nental. creaclora dos my·
thos (prinlitivos ou espontaneos ), diz Golclziher,
exhaure-se a faculdade ele percepção subtil d 'es-
sas invenções, e os homens perdem a noção
d'aquillo a que se pócle chan1ar a etymologia elo
1nytho. As figuras tnythologicas incliviclualisan1-se
ao rnesmo tmupo que, na linguística, dcsapparece
a polyonimia, isto é, que todas as phases antc-
rionnente expressas por nmncs diversos se fnn-
dctn n'ntn uuico ou en1 poucos notues. Os varies
synonyn1os que havia para o sol, para a sotnLra,
<l<>sapparccem diante d 'tnn non1e sununario que
reune cu1 si, cotno designação de un1 individuo,
V.- A J U D J ~ a - '·
177
c, nos mon1cntos c casos da sua existencia, todas
as pltases c aspectos dos phenorncnos. Shemesh
substitue, por excn1plo, as rnultiplas designações
solares precedentes, como são entre os hebreus
.J ephthah, Ashcr, Edom e outros, designações que,
de rnythos, passan1 a ser pessoas rnythicas. Assiln,
das representaç-ões phisicas nascetn as historias de
deuses e heroes.
Entretanto, como resto d' esse estado mental
outr'ora exclusivo, fica ainda a faculdade de bordar
de caracteres tnythologicos a biographia positiva
de certos h01nens que de um ou de outro modo
feriram a itnaginaçã.o; e se ha, pois, os heroes
n1ythicos nascidos dos astros, ha tambem os he-
roes reaes que o mytho põe ao lado dos primeiros.
Jonas ou Jonah, cuja realidade historica é posi-
tiva, apparece-nos revestido pelo trajo tnythico,
sendo tragado e vomitado pela baleia em cujo
ventre viajou como um sol. Moysés tem a sua
historia tecida com urna trama de mythos solares.
Recem-nascido, é lançado ao Nilo n'urna condeça,
con1o Osiris, corno Perseo. Vê a sarça ardente
e inconsumivel, con1o a alameda de Feronia que
arde se1n se queimar. A sua vara milagrosa é um
Pramantha: tarnbem Dyonisos faz rebentar das
pedras as nascentes de agua e vinho. Se não
lucta com leões como Samsão, mata um egypcio,
e, conforme os mythos do sol fazem sempre, corre
logo a esconder-se. O mar que Moysés divide para
os hebreus passarem, são as nuvens que o sol com
effeito rasga caminhando no firmamento.
Ainda pois nos periodos em que a faculdade
mythogenica deixa de presidir ao systen1a das
noções hun1anas, ou, por outra, ainda quando o
conhecimento sáe da nebulose mythologica para
se formular empírica ou racionalmente: ainda en-
13
178 L. II.- NATURALISMO
tão se conserva, como uma reminiscencia ou um
archaismo, a capacidade de attribuir aos persona-
gens historicos feições mythicas. Os exe1nplos
abundam aos milhares : todo o heroe se torna
mais ou menos mythologico- desde Alexandre
até Napoleão. O sebastianismo é na nossa histo-
ria um documento eminente da especie.
Não pára, com tudo, aqui o que cumpre dizer.
Determinados os li1nites· en1 que se póde affirmar
que a faculdade mythogenica se extingue, resta
ainda notar que o pensamento, substituindo a ima-
ginação, e a reflexão a espontaneidade, na cons-
trucçào systematica do conhecünento humano, in-
ventam por seu turno seres novos a que nós po-
denlos chamar talvez «mythos eruditos», porque
sae1n, não das impressões, mas sim da elaboração
do pensamento aquecido pela chamma da piedade.
Israel, vasio o firmatnento de deuses mytholo-
gicos transferidos para os annaes de uma historia
entre phantastica e real, consolidada com a gran-
deza dos seus patriarchas a eminencia da sua ori-
gem, Israel gerou com o seu pensamento simples,
con1 a sua piedade ardente, o mytho erudito ou
theologico de J ehovah- o deus absoluto.
5.
Ahi se pôde observar com claresa o limite de
capacidade mental do semita: ahi, n'essa conce-
pção suintnaria do seu genio, quando já o pensa-
Inento collaborava cmu a in1aginação e con1 os
sentimentos na creacão de deus. Vin-se então com
nitidez que essa apotheose dos Inytl10s barbaros
nocturnos, victoria 1nystica de Abel o puro con-
tra Cain, o forte, iniciador da vida urbana e
agricola; que essa noção da lavoura como u1n cas-
V.- A JlJDÊA. -5. t79
tigo - «regarás a terra con1 o suor do teu rosto ! »
- expri1nia um instincto de barberie nativa, agora
expresso no caracter duro do deus absoluto e
unico.
J chovah governa o céu, governa o Inundo e os
boincns, creação sua. Entre o creador e a creatura
não ha outra relação. A prece do crente é a sup-
plica do escravo a n1n senhor que, como abstracto,
sen1 relação essencial com o mundo, tanto póde ser
clen1ente co1no terrivel. Elle é só Vontade- uma
vontade tão absoluta co1no i1nperscrutavel! A ora-
ção sobe dos labias e do coração do crente co1no
um rolo de incenso do thuribulo nos degraus do
altar. Quem sabe coino o Senhor ouvirá os queixu-
111es e as preces do escravo miseravel? Que sabe o
n1esquinho ácerca da essencia d'esse mytho phan-
tastico, tanto 1nais adorado quanto é n1ais pura a
expressão da sua inconsciencia?
Rolando no mundo á 1nercê d'uma vontade in-
sondavel, ignorante de si, ignorante da essencia
de deus, o judeu não pensa sequer em destinos
ultra-tu1nulares, nem fónna theorias, como o egy-
pcio, ácerca da vida futura, nem possue noção de
ahna n'um sentido transcendente. A sua alrna é o
sopro de J ehovah, a sua morte é a sentença da
suprema Vontade. Por isso é pobre ou nulla a es-
chatologia dos hebreus : toda a face psychica das
mythologias animistas e idealistas foi absorvida no
seio da Vontade suu1ma, creadora e governadora
do mundo. Os que assustam o hamita e
despertam no aryano a curiosidade scientifica são
para o semita revelações positivas e reaes d'essa
vontade mysteriosa que, se dissipa as sombras do
medo animista, fecha tan1bem as portas ás ambi-
ções do pensamento indagador. Deus, imperando
€m tudo, é a theoria de tudo.
*
t80 L. 11. -NA TURALISliO
1\Ias esse mytho da Vontade absoluta, pondo no-
n1nndo u1na causa e por tanto um fim, retira o es-
pirito humano da nebulose inexpressiva do cháos
anitnista, dando ao pensamento hutnano uma si-
gnificação, á virtude uma sancção transcendente,
ao critne o valor de um peccado. A lei torna-se a
revelação de utna ordem superior á natureza das
cousas reaes, porque para alé1n do mundo e dos
homens está o deus que creou e governa ambos.
Esta segurança dos fracos, este terror dos maus,
esta exaltação dos bons, tornam a virtude em san-
tidade e a sabedoria em visao prophetica, dei-ra-
n1ando balsa1nos de perdão sobre as fraquezas, ao
n1esrno tempo que fulminam raios de castigo contra
os peccados. Transforn1ado o Inundo n'um thea-
tro, a vida n'um drama, cujas peripecias o su-
pren1o author combina, os homens são actores, e
o que fazem é apenas aquillo que deus destina.
De utn tal estado as conclusões são duas : a do
fatalismo que, enlouquecendo, estcrilisou os arabes,
conservando-os barbares no seio do requinte da ci-
Yilisaçào; e a do heroismo que, endoidecendo os
judeus, os matou, depois de. deixarem nas paginas
da Biblia da lnuuanidade os mais profundos e
n1ais bcllos hymnos de poesia mystica.
A' força de engrandecere1n deus tornar:nn esse
mytho do pensmnento utn 1nonstro da ituaginac;ão:
fi.zera1n d'elle o supren1o tyranno do céu; e a '' on-
taclP que, para ser absoluta, tinha de tornar-se in-
dependente da bondade ou n1aldade dos seus actos,
ch<'gou a fazer-se nuí, pnra n'essa mesma p<'rvcrsi-
dade 1nostrar a sna ornnipotcncia. Assirn
prcniCia os peccadores e atorrncnta .J oh, para con1
nn1 paradoxo dar a prova da sua abso-
luta. () mytho da abstracção tinha de produzir o
rito rlo paradoxo- pois as duas csphcras religio-
V.- A JUDÊA - 5. 18t
:Sas, a subjectiva c a objectiva, se encontrarn sern-
pre en1 equação.
Ao aniluisn1o han1ita faltou a noção de urna
vontade creadora: rnantinha-se tudo n'urn cháos
selvagem de substancia identica; do susurro das
ahnas, que fica v a ou vindo-se pelas paragens rerno-
tas, fez-se no Nilo o systema de ritos e1n que o
n1ysticisrno do homen1 culto não distinguia no tri-
bunal do Osiris n1ais do que o peso do 1nerito ou
demerito das acções. O naturalisn1o semita extraiu
do cháos um acto, da substancia uma vontade, da
vida urna orgia. Os barLaros parararn quando in-
ventaram os heroes, pararan1 celebrando as ceretno-
nias funebres ou esplendidas, ascetas ou lubricas;
mas Israel abstraíu do rnundo essa potencia crea-
dora, inventando um deus que é, fonnalmente, para
a gente semita, como Osiris, o mystico, fôra para o
anilnisn1o. O Inundo, que era u1n cháos no Egy-
pto, torna-se na Judêa un1a tragedia: a allucina-
ção, fazendo-se mais intima, n1ais psychologica,
vae crescendo : era uma indecisão? torna-se uma
loucura ; era uma aberração? torna-se u1na verti-
ge1n.
Falta que o aryano, produzindo ta1nbe1n o seu
mytho surnmario do pensa1nento, o seu deus-idéa,
venha consum1nar a triada, para que, ao depois, per-
·corrida a viagem, se possa dizer que a rnythogenia
.acabou, dissipando-se no seio da critica as visões da
imaginação creadora e do pensamento allucinado.
A critica é incapaz de inventar, de sentir, de
vêr o que não é, e de ou vir o que não sôa: é
-capaz apenas de desempenhar este dever triste
mas forte de dizer a ho1nens feitos quanto eram
illusorias essas nuvens doiradas da sua mocidade !
LIVRO TERCEIRO
Idealismo
I
Os Vedas
1.
Quando nos nossos climas meridionaes, á en-
trada do estio, o calor principia a seccar o ar, for-
mam-se com frequencia as vagas de nuvens que
toldam o céu, a atmosphera saturada de electri-
cidade pesa, o vento é morno, o firmamento baixo.
São as tempestades de n1aio. De repente estoira
o trovão, fusila o relampago, chove em grossas
bagas, e o temporal ruge pelas quebradas das
serras, caminhando. Depois o céu é purissimo, o
ar refresca, a vegetação hun1edece, e o sol paira
radiante: dir-se-hia que do seio da nuvem caíu
sobre a terra uma chuva de bençãos.
Assim parece agora, quando entramos nas vei-
gas do Punjab, regadas pelo Indo, habitadas pelo
aryano cujos hymnos soam co1no um ciciar de
brisa que vae subindo beijar as cristas doiradas
do Hi1nalaya; assirn parece agora, que descansa-
mos o ouvido fatigado com o rugir dos trovões do
deus de Israel e os olhos cegos com o fusilar dos
relampagos de Jehovah. Esse temporal divino re-
bentou dos ares carregados da electricidade natu-
18-t L. III.- IDEALISMO
ralista, da embriaguez orgiaca dos cultos da Phe-
nicia, dos mysterios de Babylonia ...
A Biblia do arya chama-se o Livro da sciencia
-Rig- r·eda quer dizer «sciencia do agradeci-
mento». O coração entôa os hymnos de acção-de-
graças, a cabeça aspira ao céu da intelligencia
pura, ahi onde se aprende a conhecer a essencia
das cousas.
Leva-me, ó Sôma! para o imperio da luz eterna, para
o mundo immorredouro que o sol habita.
a immortalidade, ahi onde Vaivasvata reina,
no sacrario do céu regado pelas aguas caudalosas.
Dá-me a immortalidade, no terceiro céu onde a vida é
livre e os mundos são radiantes.
Dá-me a immortalidade, no lugar onde nascem os vo-
tos e as ambições, onde o sol rutila e tudo é liberdaue e
gozo.
Dá-me a immortalidade na mansão da ventura e das
delicias, da alegria e dos prazeres, consummação dos nos-
sos desejos.
Assin1, ao alvorecer, ao meio-dia e á noute; as-
sim, ao regar a lenha dos sacrificios com o leite e
a manteiga sacramentaes; assim nas phases da
lua e na passagem das estações, o arya, descendo
para os valles do Djun1na e do Ganges, pisanuo
o Punjab, no decurso da sua viagem épica para a
conquista do mundo inteiro, invocava os «devas», os
deuses do ar subtil, acclamando-os para que lhe
dessern a fortuna e o saber, a victoria na terra e
a eternidade na gloria bemaven turada.
Já lá fica, para além da muralha espessa e al-
tissima do I-Iimalaya, a região, qualquer que
fosse, t onde, reunidos ainda, os futuros europeus,
os futuros persas e os futuros indios passararn a
t V. llaçcu humana., 1, pp. U2-4:.
I.- OS VEDAS-L 185
~ u a infancia c csLoçaram os rudimentos da sua
1uythologia. A religião vcdica c o bralunan.isrno e o
hndhisn1o, o tnazdeisn1o e o hcllcnisrno, com as Iny-
thologias abortadas dos celtas, slavos c teutões --
eis ahi os rios divergentes que vierarn sarjar o solo
do pcnsan1ento religioso, nascidos todos ·da fonte
desconhecida do prinlitivo habitat aryano. -Ahi? o
dnuna constante do dia e da noute, ferindo a
ünaginação infantil do barbaro, foi a pri1neira se-
HlCnte d'onde nasceu a floresta rurnorosa dos rny-
thos. Passando da terra para o ether, essa gente cuja
força latente continha o destino do n1undo, via já
nos céus guerreiros e cmnbates, via dardos e lan-
ças, e via os rebanhos pastoreando nas ca1npinas
de V aruna, onde o dia alvorecendo lhe apparecia
como um esquadrão de carros de guerra puxados
por tiros de cavallos indomitos.
Alegravam-se então os corações, entoavam-se
os hy1nnos ordenhando as vaccas fecundas : a luz
era a alegria, a vida e a esperança- a luz era o
sy1nbolo de um pensan1ento de sabedoria indeciso
ainda nos limbos da inconsciencia. Se acaso as
nuvens toldavam o sol protector e amigo, vinha
o tremor de um medo como o da creança que se
encontra só na vereda afastada do monte. Rou-
bar-lhe-hiam o sol que loureja as messes e doira
de alegria o coração? E quando a noute descia,
essa gente, quasi feminina apesar de forte, fazia
con1o certas flores que fecha1n a corolla adonne-
cendo. Elles encerravam a choça para se defen-
derem da treva 1nedonha e sonhavam terrores na
esperança do dia vindouro.
Entretanto, as indagações subtis da erudição fa-
zem suspeitar que antes do 1nomento pastoril em
que nos apparecem, os aryas, obedecendo ás re-
gras constantes da evolução, tivessem possuído
186 L. III. -IDEALISMO
tambem uma mythologia lunar: Dyu, o deus so-
lar, diz G·oldziher, não é primitivan1ente o espírito
supremo, mas sim Indra, o céu pluvioso, com V a-
runa que, em contraste com 1\Iitra_, radiante, é o
céu estrellado da noute. A lua, adduz-se, é a base
da chronologia vedica, na qual o anno lunar tem
doze mezes com a intercalação accidental de um
decimo terceiro. l\laiores reminiscencias, accrescen-
ta-se, se encontram no Avesta_, onde a série dos
corpos celestes principia sempre pelas estrellas, se-
guindo pela luaJ acabando no sol ; entre os persas
onde o tempo se conta por noutes como entre os
arabes.
Como quer que seja, o céu aryano que se des-
cobre nas auroras da historia não é nocturno : é o
ar do dia illuminado, o ether que os devas (de div_,
brilhar) habitam. E' Varuna; é o sol radiante
de l\Iitra que persegue a mentira dos falsarios e
ladrões: é Aryaman, é Bhaga,- o deus generico
dos sla vos e dos persas- que determina a sorte
dos mortaes ; são estes «devas>> e1ninentes com o
seu cortejo de «asuras» ou <<ithuras», os «vivos», os
«espíritos», anjos e medianeiros. Em honra de to-
dos o arya consu1nma os sacriticios rituaes comtnun-
gando a sôma ou haoma que é a bebida dos iln-
mortaes, e praticando as artes da magia prinlitiva.
en1 volta do lar onde arde o fogo n1ysterioso e di-
VIno.
'fodos esses mythos da invenção rernota são
apenas representações sin1ples dos ce-
lestes; mas en1 Varuna-1\litra, «O que }Wrst.lgue a
mPntira», vê-se já u1n nódulo de cristallisaçâo lU O-
ral, nnut sen1ente do idealistno profundo qne ha (lo
caraC'tPrisar o pantheon dos deuses vediC'os. .Ahi,
d.iz Ti('IP, os devas que não cran1 llHtis do que os
I>henOUlCnOS C potencias do céu huninoso COllCCUi-
1.-US VED:\S-2.
187
dos co1no pessoas, filhos de Dyaus, o deus-céu, e
de Príthivi, a densa-terra, apparecem como seres
dotados de qualidades moraes, superiores á natu-
reza o ao mundo. Se na doutrina dos espiritos c
no culto dos avós, bem como no caracter infantil
de 1nais de u1na idéa, se vêem os restos da conce-
pção ani1nista do mundo, é facto o predominio da
idéa de uma divindade que encarna em cada u1n
dos deuses superiores por fôrma a elevai-o á pri-
masia se1npre que é venerado pelos fieis.
Acima pois dos devas, surge a idéa pura da
divindade como a luz intangivel que involve o sol
e as nuvens e os rios e a terra com os picos altis-
simos dos montes, cada um dos quaes parece um
altar erguido até ao céu, regado em baixo pelas
aguas do Indo onde corre a sôma fertilisante das
veigas do Punjab.
2.
A religião não é um n1edo, nem uma sub1nissão
servil: deus não é uma substancia, nem uma von-
tade. Passou o Egypto, e o trovão de Israel ca-
lou-se. A prece não é u1na evocação con1o no ani-
mismo, nem uma penitencia co1no no naturalismo:
é um hy1nno- o cantico entoado em honra da
idéa essencial das cousas que anima os deuses e dá
força aos homens para as fainas da lavoura e para
os trabalhos da guerra. Não se vêem os beiços
tremer de medo, ne1n o ciciar dos beijos no pó,
nem as 1nâos batendo nos peitos, nem os ais da
gente affiicta. A cabeça erguida, os labios fran-
cos, soltam o hymno sagrado que sobe para o céu
co1no um rolar de incenso : assim vão para o ar as
exhalações da terra e a evaporação dos rios !
t88 L. III.- IDEALIS:\10
Invocamos em nosso auxilio a protecção dos tres rios
caudalosos, as grandes aguas, as arvores, as montanhas, o
fogo.
Abracem com a sua protecção a nossa sorte, e as n1on-
tanhas e as aguas e as plantas generosas, e o céu e a
terra com as arvores e ambos os mundos.
propicio o sol que se levanta caminhando para
longe! propicias as quatro regiões do céu! pro-
picias as montanhas espessas ! propicias as ribeiras e as
aguas!
Ouçam-nos os montes poderosos!
Protejam-nos as cordilheiras abençoadas e os rios bri-
lhantes.
Protejam-nos as auroras nascentes e as ribeiras que en-
tumescem e as montanhas firmes. Protejam-nos os manes
quando invocamos os deuses.
Queremos em nosso auxilio o céu e a terra : pedimos
aos rios geradores e ás montanhas copadas de verdura, ao
sol e á aurora, que nos mantenham puros.
Tal foi o hymno do arya nas raizes do Hima-
laya, debruçado na margen1 do Indo. Sente-se o fi-
lho querido da natureza inteira: os 1nontes defen-
dem-no da seccura adusta dos desertos da .Asia in-
terior, os rios sarjatn o terreno que pisa tapetan-
do-o de verdura e flores. O heroistno accende-o; a
sua prece é um cantico ; pede como que111 sente
en1 si o direito de exigir. Para que existe o
mundo, senão para elle? As do seu fu-
turo fervetn-lhe na 1nente e o ar que respira, etn-
balsatnado e fresco, etnbriaga-o. l\Ias a força que
sente en1 si, vê-a na candidez da sua ahna, na in-
noccncia do seu coração: pede a todos, ao céu e á.
terra, aos n1ontes, aos rios, ao sol e á aurora, que
o tnantenhatn puro, porque a virtude é a sua

OH V('ntos ucrramam o mel sobre o homem pi('lloso, as
1·i hr·i raB levam mel no seu seio : circule o mel nas nossas
})lautas !
'
I.- OS VEDAS- 3. 189
Seja m('l a lna e a aurora, chC'io de mel o firmanwnto
8ohrc a nontc c o cún inteiro- nosso pae!
l\Iel (n1adhu) é todo o alimento e toda a bebida:
é a agna, é o leite, é tudo o que delicia: o mel é o
RytnLolo dos premios que esperam o homem
doso. A n1orte in1pura é a conden1nação dos n1aus
qne V aruna abandona. A n1orte não affiige o arya
como aterrava o sernita: affiige-o a impureza e o
peccado.
Desliga-me do meu peccado como de uma cadeia, e fa-
remos crescer, ó Yaruna! a fonte da tua lei. Que o fio se
não quebre emquanto eu vou tecendo o meu hymno. Que
se não parta o molde do artista antes do soar da hora.
Poupa-me a este susto, ó Varuna ! rei justo, havei pie-
nade ele mim. Desliga-me do peccado, como quem tira a
soga do pescoço do vitello. Longe de ti nem posso mover
os olhos!
· Não nos castigues, ó Varuna! com as armas guardadas
para os malfeitores. Não nos mandes para a região onde se
apagou a luz!
Eis ahi o estado mental formado pela invenção
mythologica; eis ahi a esphera da reli-
gião ou o corpo de sentimentos religiosos que, for-
mulados sobre os mythos primitivos, reagem sobre
elles, dando-lhes uma expressão moral. ·A luz tor-
na-se virtude.
'
3.
O céu diurno, na successão dos seus phenome-
nos, desdobra no pensamento um hymno de pie-
dade. Tudo é optimo -ao contrario do semita
para quem tudo é pessimo, á excepção da graça
com que ao tyranno omnipotente apraz escolher
algum mortal. No ar que respiramos na India, o
t90 L. II(.- IDEALISMO
mundo inteiro, com a luz que nos illumina, com
as n1ontanhas que recortan1 o céu, com os rios
que sarjam a terra, tudo é bom, tudo é helio,
tudo é santo. A graça divina é a propria alma do
uni verso : respira-se a fortuna e a pureza. Foi um
parto doloroso quando a ilnaginação semita deu á
luz um deus gerado do dualismo grosseiro do na-
turalismo primitivo: é um nascer sorrindo o modo
porque os deuses da piedade bella saem dos my-
thos astraes da India. O traço remoto, o peccado
original, vê -se alé1n distinctamente : aqui perde-se
a sÍlnilhança do passado. Nos Asvins, «Os medi-
cos do céu», diz Tiele, observa-se un1a tal eleva-
ção de caracteres racionaes co1n paixões e e1noções
l1umanas, que é difficil dizer quaes eram os pbeno-
Jnenos naturaes com que uma vez estiveram rela-
cionados.
O caracter subalterno dos deuses femininos, Iny--
thos da receptividade genesiaca, é outra prova da
elevação idealista a que o pensarnento aryano che-
gara na edade vedica. As deusas que restam são
tambmn principias ou idéas, piedosas ou intelle-
ctuaes : Sraddha, a fé, V ach, a língua, confun-
dida con1 a deusa antiga dos sete rios, Sarasvati;
e as Ushas- a alvorada, rasgando as trevas da
noute, dissipando as so1nbras do pensamento. Quem
lhe atrela o carro são os asvins mysticos; e con1o
nma vacca dourada, ou urna cgua fulva, isto é,
con1o uma nuvem luminosa, nasce todos os dias
para afugentar as trévas e desvendar os thesonros
do Inundo velado. E' a donzella adornada para a
dança, é a filha que sua n1ãe vestiu, é a noiva
:unorosa quando se aproxima do esposo, é a tnn-
lher encantadora que se levanta do Lanho c con-
fiada na scdncção descobre o seio aos olhos do
:unantc. Assin1 dizCln os V cdas, Inostrando-nol-a
1.-0S VEDAS-J. 191
no seu carro huninoso subindo nas ca1npinas de
Varuna tirado por cavallos côr de ouro e por vac-
cas da côr do sol, derra1nando a vida que é luz,
soltando o gado do cstaLulo nocturno e as aves
dos ninhos escondidos nas ra1uarias das arvores.
Elia vciu, trazendo a luz que é paz e virtude; e
o n1undo alegre cantou, pelo 1nugir dos rebanhos,
pelo triuar dos passaros, pelos hy1nnos que o arya
entôa ao sol que ven1 surgindo.
E' Sfirya «O brilhante» que se levanta no hori-
sonte co1uo um gloLo de lun1e, doirando as neves
das cristas himalayas, in1pellindo diante de si os
bandos alados da aragem da Inanhan, os maruts
que passan1 «adornados como n1ulheres ». São os
filhos de Rudra, obreiros das boas obras, origem
da fortuna e da riqueza da terra e do céu. He-
roes, roçando no vôo as penhas das serranias,
amam os sacrificios piedosos!- A aragem da ma-
nhan, vivificante, passou: a terra folga, o gado
pasta nos rebanhos, e nas campinas do céu ünpera
o sol do meio-dia, Savitri ou Savitar, com a sua
luz que dá força e vida. Por toda a parte corre
tuna onda de alegria, sôa o hy1nno da felicidade
pura do lavrador cavando a sua terra, ao som dos
cantos das aves que chilram nas ramadas frescas
das arvores. . . Assi1n o dia vae andando, a har-
monia vae seguindo, o hymno da vida vae desenro-
lando as suas estrophes de paz e innocencia. Pas-
sou a calma, vém a tarde com as suas brizas: os
maruts abençoados que regressam. O lavrador en-
carando o céu vê o sol do ponente, Pusham, ir
descendo brandamente para as terras distantes :
vae com elle a vaga esperança dos destinos que
lhe germinam no cerebro. E' elle «o que faz cres-
cer as cousas>>, o que alimenta, o que pastoreia os
rebanhos do céu- essas nuvens rubras, de con-
HJ2 L. III. -IDEALISMO
tornos phantasticos acompanhando o occaso· do
sol, estendendo-se na vasta campina do firma-
tnento azul avermelhado. Tambem elle, o lavrador
da India, está recolhendo o seu gado, juntando as
vaccas para as encerrar no estabulo. Pusham é
como o arya: tecem a lan dos rebanhos, guian1
as manadas de vaccas e os bandos de cavallos,
um no céu sereno, outro na campina verde do
Punjab.
Sumiu-se agora, ao largo, o sol de hoje. V aru-
na-l\Iitra, na immensidade do seu manto azul, na
pureza doce do firmamento crepuscular onde os
tons suaves se esbatem quando as agulhas bri-
lhantes das estrellas apenas começa1n a oscillar
duvidosas, Varuna enche a alma do trabalhador,
caminhando para a sua cabana ao repouso da
noute, enche-a de uma satisfação quieta e doce.
O sol é o olhar de V aruna; foi Varuna quenr lhe
ensinou a jornada- elle que tudo vê, tudo sabe,
tudo anima! E' a guarda da elle que é
em si a luz que desvenda as perfidias da noute,
escura como a sombra das intenções do h01nem
mau. E' a verdade, a confiança, a fé, e a vir-
tude: tudo isto contém en1 si a luz candida, pene-
trante e inevitavel. Elia vae aos mais ultünos re-
cessos, do n1undo e da nlma, desfazer a tréva
e patentear o crime, punindo os impios, castigando
os falsos. As sombras somem-se, as virtudes tnani-
fcstam-se e são amadas : esse é o seu pren1io!
V <"'ndo tudo, governa tudo c está en1 toda a parte.
Foi quen1 descreveu o seu gyro ao sol: 1uareon
tan1bem a d<"'rrota dos rios, abrindo-lhes o leito
fofo das terras fcrtcis, e sabe, porque o traçon,
sabe o caminho por onde voatn os ventos c os ban-
dos de pnssaros que povoan1 o ar ...
(luando se reuncm dois ho1nens, ha sen1pre co1u
I.- OS VEDAS- .t.. 193
ellcs u1n terceiro: '' aruna. Agora que anoiteceu,
crepita o fogo no lar, e os dois esposos, acabado
tun dia, ao recolhcre1n-se ao leito, sentem a pre-
sença do deus da virtude que os guarda. Assi1n
na vespcra da n1ortc o hão de sentir chamando-os
a si!
4.
Porém a vida não é apenas o pastorear dos re-
banhos, nem o céu é se1npre lin1pidez e paz. A
vida. são ta1nbe1n as batalhas con1 que os invasores
conquista1n o solo dos rios sagrados; e o céu taln-
benl te1n as suas batalhas, etn que Indra, colerico
e forte, despedaça os exercitos das sombras ne-
voentas. O homem é virtude e forca: o lavrador é
utn soldado, o crente é u1n heroe. "'A sô1na da iln-
mortalidade na fé é a bebida que avigora o braço
--a bebida querida de Indra, o forte:
Vem Indra! vem regalar-te com as comidas e libações,
pa1·a que te prepares para a victoria !
Na batalha com as nuvens que abafam, pou-
sando no dorso das montanhas, Indra solta as
«serpentes» do céu derramando as chuvas fertili-
sadoras. Indra ve1n como um rei ou tun· general
conduzindo os esquadrões dos 1naruts, capitaneados
por V ayu e Rudra. O despojo da batalha é a
rega, a victoria está nas fontes que rebenta1n de-
pois da trovoada. De verão as pastagens seccam
no Punjab, seccam as nascentes, e o calor engrossa
as nuvens encostadas contra o 1nuro do Hima1aya:
é então que Indra acode e1n defeza da terra da
sua escolha. As nuvens slo Vritra e Ahi, nlons-
tros escuros a1neaçando prender o sol e conde1nnar
14
194 L. IH.- IDEALISMO
a terra á sede. Quando a trovoada con1eça, Indra
entrou en1 campo, as chuvas torrenciaes que se
soltam do céu attesta1n a sua victoria, os eccos
dos trovões reboando pelas quebradas do I-limà-
laya, os que o ar, são os cla-
Inores e OS golpes d·essa batalha :phantastica em
que a lança da Indra tetn um fnsilar de hune. In-'
dra e o exercito dos n1aruts vén1 das 1nontanhas,
nos seus carros de combate -lin1pando a estrada
do sol - co1no ele.phantes selYagens que despe-
daçaln tudo na carreira. Assim tambem o arya,
descendo dos 1nontes sobre as nuvens negras da
população dravida da lndia, corria con1o os ele-
phantes triturando tudo sob o seu pé invencivel.
Guia-nos, ó lndra! manda que os esquadrões dos ma-
nlts avancem á frente dos exercitos.
Ergue a tua lança, ó deus O}ntlento, leYanta o coração
dos nossos guerreiros, fortalece o Yigor dos fortes, faze com
que os clamores da victoria se ouçam do alto dos nossos
carros triumphantes.
Sê comnosco, ó lndra ! quando as bandeiras fluctuam ao
yento ; guia para a victoria os nossos dardos, protege- nos
na p;nerra.
Venha o medo comprimir o coração dos nossos Inimi-
gos, grudando-lhes os labios.
E á maneira que a n1igração aryana descia
c01nbatendo, á 1naneira que a guerra se tornava o
offieio por excelleneia nobre, assim o throno de
In(h·a ia subindo levantado pelas victoria8, dei-
xando na sotnbra o velho dens 1\litra dos tctupos
sin1ples de outr'ora. Indra guarda o districto sacro-
santo do nordeste, on<le, para alént dos lliutalayas,
fica o ntonte divino de l\Ieru que ilhunin:t o norte
c crn cujo circulo se lHOYCin o sol, a lua e as
cont;h·llaçõrs. Indra protege a rrgiào abençoada
dos sete-rios, sapta o PnnjaL regado
..
I.- OS \'EDAS- 4. 195
]JPlo Sarasvnti c pelo Indo co1n os seus cinco af-
flncntcs de lrstc -·o Vi tas ta, o Asikni, o lravadi,
'
T" ]
o I}_J::tÇ'::t, o ata(ru.
ahi, n'cssa patria nova, que se constitue1n os
novos estados nlilitarcs de um povo que tão Len1
111an0ja a espada cotno o arado, ordenhando o leite
das vaccas dos seus rebanhos e derramando o san-
gnc dos seus inimigos. Assin1 Indra faz ás nuvens,
:ttravcssando 'Tritra com a sua lanca e rerrando a
'
terra cmn o leite das «vaccas» do céu. Das con-
quistas nascem reinos, das batalhas cidades: tanl-
bcm a lança, como o arado, abre a valia que cir-
cunda a fortaleza. Os chefes, rrajas, sfio imagens
terrestres do Indra celeste. Govcrna1n as villas,
c os castellos, zntra; tém exerci tos e n1e-
11estreis c bardos que celebram as victorias dos
conquistadores da India. Vestem cotas de n1alha
de ouro, corre1n sobre os carros de guerra tirados
por cavallos. A vida é u1n con1bate desde que á
la v oura se alliou a conquista; é uma apotheosr-
desde que da conquista veiu a riqueza. Os deu-
ses tém palacios de n1il columnas cmn n1il por-
tas: slto assim os palacios dos rajás que viven1 elo
saque da India opulenta, coalhando-a de fortalezas
que enfreia.m o dravida sob a guarda dos barões
fcorlatarios.
Beben-se a sôma da immortalidade que um fal-
trouxe do lugar aereo onde Varuna a collocara.
Entrou a força no braço do guerreiro, a confiança
no seu peito, e a piedade que existia em seu cora-
ção desenrola-se em hymnos e visões durante a
embriaguez que a bebida produz, dando a saude
aos enfermos, a riqueza aos ricos, e ao sabio o se-
gredo da in1mortalidade ideal. Indra concedeu-lhe::;
.a grande victoria!
*
196 L. III.- IDEALIS.l\10
Tu és grande, ó Indra ! Terra e céu obedecem ao teu
imperio.
Quando nasces, o céu treme, treme a terra, de te1·ror
pela colera do seu filho. Dançam as fortes 1nontanhas,
os desertos, con·em as aguas ...
Cantamos a tua gloria, ó lndra! eterno malhador, po-
tente, audaz, grande, infinito, heroe viril cujo raio é
hom ...
Cantamos as tuas victorias e as carnagens.
Para nós qne queremos rebanhos de vaccas e cayallos,
ambiciosos de riquezas e mulheres, Indra, o poderoso deus,
{· o -vaso Pm que bebPmos como o balde bebe na cisterna.
5.
A ingenuidade das ambições simples, - reba-
nhos, riqnezas, mulheres,-exprime o optimismo
ingenito d'esses homens para quem o mundo é
deus e a eternidade. Viver, gozar, amar, n'um es-
tado de innocencia forte- eis ahi o céu. De tal
modo vivem os deuses. A propria virtude e a can-
didez da ahna piedosa são um sentimento innocente
tamben1, ingenuo, instavel con1o a limpidez do céu
de Varuna qne o inspira. O aryano esboça nos
seus hymnos a suintna sabedoria a que na velhice,
Yarridas todas as illusões, dissipadas todas as vi-
sões chin1cricas dos mythos, a hnn1anidade che-
garú; mas esse esboço é inconsciente e por isso in-
eonsistente. O céu conturba-se, o vencedor é ba-
tido: vacilla a confiança ingenua e das agonias
nascetn fraquezas c crimes. A força da harn1onia
é con1o as victorias e riquezas : só é
('terna a confiança na vontade que o sctnita poz
cn1 (lcus e que o abrazou. O aryano perdeu-se no
vago acrco elo seu optin1istno. Nós, filhos n1oracs de
sernitas P. aryanos, educados por dezenas de sccu-
los dP tuna vida atribulada, scntintos a hartnonia
optirua no nosHo pensatncnto c a força indon1avcl
'
I.- OS VEDAS- r). 197
no nosso caracter. A nossa ahna, que é a essencia
<los deuses, fez-se con1 o residuo dos n1ythos.
O aryano dos Vedas apparece-nos corno o filho
do ar inconsit;tente c forte ao Incs1no tCinpo: é
con10 V aruna, transparente na innocencia piedosa,
cotno lndra, valente na tempestade passageira. O
ether subtil é a essencia do seu pensamento Iny-
thologieo.
l\1as nós saben1os que a imaginação infantil é
ferida sitnultanean1ente pelos aspectos do Inundo
externo e pelas allucinações e sonhos- orige1n
que dissetnos psychica da tnythologia, nexo inevi-
tavcl entre o Inundo astral inattingivel e o mundo
da realidade positiva. Nós vin1os de que n1odo, nos
typos 1nythologicos já estudados, a Ílnaginação dos
poyos concebe e representa os phenornenos psy-
chicos e os põe em relação com a n1ythologia as-
tral.
Para o aryano idealista, o fogo -esse objecto
indefinível, vivo no aspecto, cotno tuna a h n a ~ - é
o nucleo e o nexo do systema da sua representa-
çuo do n1undo. Agni é a ahna intin1a e a origcrn
prinutria - o medianeiro entre os hotnens e os
deuses.
Eu, Agni, sou a origem, dotada com a sciencia de tudo
o que existe. Sou o sopro vivo da natureza triplice. Sou o
metro do firmamento. Sou o calor eterno. Sou a oblação.
A natureza triplice do gno1no do Universo está
nas tres fórmas por que apparece: no raio, no re-
lanlpago e no roçar da Inadeira que o produz.
Agni vive no coração de tudo- no céu e na terra.
Saltitante na labareda, coxêa) andando nas voltas
irregulares da chamma: assi1n é côxo Wayland,
.assim Haphaestos, assim o proprio deus dos na-
198 L. III. - IDEALIS::\10
1naquas. Fugidio, esconde-se quando se apaga: é
mistér geral-o de novo roçando a haste (matha_,·
pramatha) no disco de madeira, pelo processo
quasi universal da invenção do lume. A haste é·
pae -l\Iatarisvân- o disco é n1ãe: da copula
gera-se o filho que, nascendo, consome os paes. E'
a itnagem da creação. Geral-o, comtudo, é pren-
dei-o, captival-o- de outro modo fugirá: por isso
o verbo que dizia roçar, passou a significar pren-
der- pramantha, o captiveiro do fogo= pran1âtha,
e o que rouba e prende= Pramathyus ou Prome-
theu. 1\Iatarisvân, a haste que gera ou encadeia o
lume, é o Prometheu da India.
Assitn a in vencão do lume era utn sacramento
(ainda hoje nos ritos da Semana-santa
catholica) e o fogo o genio intin1o do Universo, o me-
dianeiro, -diriam os a Idéa, involvida n'un1 1nanto
de cha1nn1a crepitando no lar do arya piedoso. Do
sol distante o raio de Agni era o en1issario, da
força nbscondita a ahna era a scentelha cuspida
pelo friccionar da haste no disco de madeira.
1,ainbem no céu havia pois bosques e arvores
onde vivia escondido o fogo aereo. Assitn ·na tny-
thologia dos germanos as nuvens encastelladas,
prenhes de raios, são a 'Vetterbaun1-a ar'-'ore
da tormenta. O espírito da terra e do céu era un1
e o mesn1o, e no seio de Agni constnntnava-se o
mysterio da identidade do Universo, na channua
crepitando no lar o sacramento da tnediaçào entre
o homPm e os deuses. '
Agni é calor, é a côr rubra, é o voar do pas-
sara de azas de ouro- o cotno o
cysne-sol do mytho algonqui. Voando entre a terra
c o cén, habitando o ar, põe cn1 cotntnnnieação as
duas r<'\giõPs clistinctas. Vê-se na vern1clhid:l.o dos
fructos q uc auuulurecCJu, vê-se nos cspiuhos e
I.- OS YEDAS-
pcnnachos rubros das plantas qac sfio as pcnnas
e as garras da ave de azas de ouro.
A vida é fogo que arde etn nt)R, a n1orte o fu-
gir de Agni. De dia é sol, de noutc é a fogueira
que afugenta as feras, ou a chantn1a do lar que
prende e1n torno a fatnilia e a acompanha prote-
gendo-a como penates. Ltí por fóra, de
nha, é elle qnem ven1 afugentar os espiritos da
noute, qr!ando os asvins precursores da alvorada.
largam as redeas dos cavallos. dois cysn(>s,
dois falcões, dois ga1nos, dois bufalos, dois mas-
tins de guarda, esses a que os gregos chamaran1
Dioscuros. V ém voando, mais leves que o vento
ou do que as idéas dos hmnens ; vé1n visitar as
moradas dos crentes; vém encher os nberos das
vaccas, dar a raçfto aos rebanhos e fecundar as
esposas. Amanhecendo, Agni en1pallidece na la-
reira para brilhar no céu illuminado.
Então, sobre os altares, off(>recem-se os sacri-
ficios aos deuses, e a cha1nn1a que os conson1e é
Agni - Agni é o summo-sacerdote, sernpre n1edia-
neiro. Nas suas azas de fogo· vão as oblações. E'
para os deuses o que a taça é para a bocca do
hon1ern : leva en1 si as hmnenagens da gente pie-
dosa!
tamben1, quando a cólera o exeita, a bon-
dade protectora de Agni torna-se en1 furia tre-
lli(>nda. Solta os cavallos vern1elhos do seu can·o,
ruge, strue, correndo a mugir con10 ntn toiro. Os
passaras caen1 de puro rnedo quando elle passa
consumindo as hervas da campina en1 labaredas,
ou quando, como um leão, Iam be a floresta com os
dardos flan1n1ejantes da sua lingua. As chan1n1as
crepitam correndo como ondas de mar, soltando
pennachos de tuna esptnna de faulhas rubras. Os
deuses tém n' elle o seu grande guerreiro para
200 L. III.- IDEALISl\10
lin1par a face da terra, deixando-a nua como a
face rapada do arya.
Por isso o homen1 piedoso, seguro da protecção
de Agni, lhe pede que desencadeie contra o ini-
migo as suas espadas ele fogo, elle que, n1anso
1
tren1e submisso e captivo sobre a lareira.
Vem! Sobe rapido em nosso auxilio. Luz, protege-
nos contra o peccado. Dá-nos força para a acção e para a
Yida.
Destroe nossos inimigos. Defende-nos contra os Raks-
hasas. ·
Livra-nos da aye de rapina assassina e cruel, e do ad-
versario que medita a nossa ruina.
Repelle os inimigos que nos não trazem dadi vas : ape-
nas settas Yiradas contra nós- repelle-os tu, que tens por
arma a clava rutilante !
Ninguem póde acercar-se de tuas chammas terrivei:;:
consome pois os maus espil'itos!
6.
No recesso intitno do pensamento do arya ha
pois nn1 ponto obscuro, uma sombra de n1edos.
Nem tudo- é luz no Universo, ne1n tudo harn1onia,
nem tudo forças a1uigas protectoras. U1u nevoeiro
de aln1as, u1u esquadrão de espíritos 1naus, perse-
gue e affiige ainda o espirita cl.'.essa gente. crente
etu si, no seu optin1isn1o. São as visões dos so-
nhos, as allucinações da son1bra, que o tenlpera-
men to innocente dos hon1ens bons não profunda,
antes evita con1 un1 te1nor e rcpugnancia instin-
ctiva. Agni, o protector, não absorve en1 si todas
as visões psychieas: é utn espirita sitn, 1nas um
clernento, e por isso 1nestno tangi vel. Para nlén1
d'ellc fica ainda o mysterio das cousas abscondi-
tas, conservadas na lembrança do anin1isn1o pri-
mitivo. A representação épica do Universo não in-
I.- OS VEDAS- G. 20l
clnc o episo<lio da n1orte, ou antes, não o contém
systcn1atican1ente cnt si. Jú tudo se organisou
n'tuu corpo de har1nonias, 1nas quando a ·noutc
chega, o aryano fceha-se temeroso e antipathico á
sontLra: da tncstna f()nna a sua mythologia -ao
inverso da do Egypto e da J udêa -ao passo que
se eleva lts n1aiores alturas nas azas da piedade
huninosa, desdenha de profundar o abysrno, dei-
xando o ruytLo da nwrte no estado ruditnentar
do anitnis1no pritnitivo. As icléas eschatologicas e
o culto dos avós eratn entre os aryanos exacta-
Inente eguaes aos dos selvagens; era grosseira a
noção da betuaventurança, en1bora j{t tivesse1n for-
mulado a theoria de pre1nios e castigos ultra-tuiuu-
lares.
A elevaçrto e a originalidade aryana terminam,
pois, logo que passan1os da mythologia astral para
a psychica e das representações da vida para as
da 1norte. O leitor que sabe qual é o systen1a dos
mythos eschatologicos dos selvagens, pouco ou
nada vae encontrar original n'estes barbaros da
India, cuja piedade idealista chega aos píncaros
da sabedoria no systema das representações da
vida.
O pritnitivo uso aryano parece ter sido o enter-
ramento. Só depois da separação, no Iran, ado-
ptaram a exposição, e na India juntara1n ao enter-
ramento a cren1ação. 1 Os hy1nnos vedicos mos-
traiu-nos clara1nente o systema de ilnpressões
acordadas pelo pheno1neno da morte. Quando o
cada ver era enterrado, no sacrificio que precedia
a inhumação, levantava-se um marco de pedra
symbolico a separar os vivos do morto, para de-
fender, os que ficava1n, da ·perseguição da lVIorte.
1 V. Raças humanas, n, pp. 78-85.
L. III.- IDEALIS:.\IO
Prosegue ó mm·te o teu caminho- caminho diYet·so da
estrada. dos deuses.
Vê e ouve o que te digo: não offendas as creanças nem
os homens.
Este marco é a divisoria dos que existem : ninguem se
aproxime da méta.
Fique a morte abafada n'esta pedra, e vivam os Yivos
cem outomnos.
Eis as esposas, alegres, trazendo a manteiga e as un-
turas sacramentaes, subindo a olhos enxutos os degraus
do altar.
Sobe, ó mulher, para o mundo da vida! Apagou-se
o sopro do que celebras; consummou-se o casamento de
aquelle que um dia te desejou, levando-te pela mão.
Tire-se da mão do mm·to o arco, symbolo da honra e da
cm·agcm na sobet·ania. Leve-se á terra-mãe que se abre
para o receber.
Abre-te, ó tet·ra! não sejas mesquinha para elle: co-
bre-o como a mãe que involve o filho no seu manto.
A aln1a-elemento do mundo, Agni, o n1edia-
neiro, intervén1 depois nas cere1nonias mortuarias
quando a cremação se estabelece co1no uso: a
morte espiritualisa-se, cmnbinando-se a sorte do
defuncto com as concepções feitas ácerca do n1undo
inferior de Y :una. As velhas familias sacerdotaes,
senhoras dos segredos da invocaÇ,iàO dos deuses,
sabedoras do n1odo de entoar os hynu1os dos
sacriticios, herdeiras da tradição da feiticeria pri-
:nitiva, pr:paravam a fogueira en1 que o cadaver
Ia consumir-se.
VA o olho ao sol e o ('Spirito ao v<'nto! V a(', ó mm·to !
vac ao e v:.c á terra, como ronv{·m! Vae <lS agnas se
ahi (•ahcs; l"<'ponsa os m<'mht·oR no s<'io
Aqnclla parte que não wtRC('ll, arpH'<'('-a, () fogo ! rom
o <·:tlor da tna chamma brilhante; lt>Ya-a, t) Agni ! nas
tuas fi)rmas mais carinhosas :í. 8(\lc dos h<·nmn•ntnrado:4.
1.-0S VEDAS- G. 203
Assitn os srlr<'rdotes cantavant cliantc ela fo-
gueira consntnindo o o corpo vac ús
nguas, lts hcrvas; a alrna, nos braçoos de Agni, vac
bctnavcnturança. Esses hytnnos cratn a h<=·rança.
de seus avós, c cada familia tinha un1 signal sa-
grado: os vasishtha um laço de cabel!o soLre a
lado os ntri tres, os augiras einco, os
bhrigus o cranco rapado. SabiaiU o destino nl-
mas:
Accendc, ó Agni, arcende o teu olhar c o teu ardor,
e leva-o á região do Bem, a juntar-se aos paPs, porqne
elle vinha jnnto de ti fazer as libações do sacrifieio.
Eleyem-tc os marnts noa ares, com
chuva!
Conduza-te Pushan, o sabio, o pastor do mundo qnc
nunca dcixon b·esmalhar uma ovelha. E' ellc quem sabe
as ve·redas do Ef.:paçc) : irá diante, como uma lampada.,
elle, o perfeito hf'1·oe que distribue as bençãos.
a antiga estrada que nossos paes trilharam.
Ver:ls então Varuna e Yama, bebendo as libaç.õcs di-
VInas.
Vae para junto <los paes, viver no céu altissimo com
Y ama : assim o mereces !
No caminho venladciro, foge aos dois perros de quatro
olhos, filhos de Sara.ma, para que chegues onde estão os
paes em união com Yama.
Abraça-o tu, ó Yama! com a tua protecção contra os
perros da tua guarda ...
Com a fauce aberta, ·ávidos de homens, com os pcllos
1·ubros de sangue, os dois mensageiros de Y ama y[;.o por
meio dos homens. Deixe1n-nos elles respirar mais nm dia,
vendo o sol !
A morte é pois ainda um maleficio, co1no no
anin1isn1o primitivo: não é um castigo con1o entre
semitas, nem uma consun1maç·ão cotno entre
tas. A inferioridade expressiva e 1noral-religiosa
da tnythologia vedica é evidente n' esta esphera da
eschatologia-facto qne o syste1na dos 1nythos at-
204 L. III.- IDEALIS:\10
testa. A n1orte e a vida, o dia e a noute, a vigília
e o sonho, as representações astraes e psychicas,
isto é, os polos do dualistno fundan1ental que tanto
se observa nos mythos como nos sentilnentos, não
se combinatn. Yama está no céu ao lado de Varu-
na, a morte ao lado da vida, sem se penetrare1n
explicando-se reciprocamente n'utna theoria unita-
ria como succede no 1nytho de Osiris e na vontade
jehovica. O desenvolvitnento das duas correntes
visceraes da tnythologia religiosa não é parallello:
ao passo que os mythos astraes define1n un1 es-
tado tnental de uma elevação augusta, os n1ythos
psychicos tnantém-se nos lin1bos do realismo sel-
vagen1.
A concepção dos pretnios e castigos é infantil
ainda: nada se vê c01nparavel co1n o tribunal de
Ü;::;iris. A be1naventurança é u1na ca1npina alegre
-o ideal das veigas do Indo «onde ha a luz e o
esplendor eternos, onde Vaivasvata (Yatna) reina,
onde corrmn as grandes aguas, onde ha a paz e a
ambrozia, a alegria e o deleite, e onde se cum-
pre•n as esperanças e os desejos».
E' utn paraizo infantil ou selvagetn, e os ritos
familiares são con1o os dos selvagens. Os n1ortos
aos banquetes sacratnetltaes, sen-
tados em volta do lar, conwnt c os dons que
se lhes poem sobre a relva das sepulturas. Diaria-
Incntc a fan1ilia offerece libações aos avós e cada
lua nova celebra nina festa de finados con1 offcr-
tas cspeciaes.
Y tuna, o deus dos n1ortos, foi o pritnciro que
Inm-rcu. Subindo das profundidades da terra :ts al-
turas do céu, traçou o caminho dos finados. No
seu paraiso habitan1 os bons-- os hcroes 1nortos
ctn os piedosos, os intnw.cuhulos- con10
corpos huninosos .. Não ha ahi servos nc1n scnho-
1.-0S VEDAS-7. 205
rcs. O paraiso de Yanut está para o Sueste a mil
dias de jornada a cavallo.
Eis ahi co1no se desce das etnincncias do céu
de V aruna- u1n céu ele piedade idealista- ~ í in-
fantilidade das concepções eschatologicas. A im-
propriedade de conceber a morte foi a fraqueza
do genio aryano na Inclia e na Grecia: por isso,
alén1, caíu na mete1npsycose elo brahmanismo e do
buddhistno, descendo it barberie ; por isso na Gre-
cia o hellenis1no foi abafado pela eschatologia egy-
pcia e pelo 1nessianismo sen1ita, quando o christia-
nisn1o se for1nou.
Yan1a, para mostrar o can1inho elos 1nortos, atra-
vessou «as aguas rapiclas». D'este n1ytho antigo
faz o indio moderno a pratica ridícula de se segu-
rar, 1norrendo, ao rabo ele uma vacca para ser le-
vado por ella a salvamento atravez do rio terrível,
Vaitaraní:-o stygio aryano.
7.
Desequilibrada pois no desenvolvimento parai-
leio dos mythos do mundo externo e elos elo Inundo
interno, a religião veclica, sen1 poder fonnular uma
synthese con1o a ele Jehovah ou ele Osiris, cáe. Os
seus elen1entos inferiores abafam a effiorescencia
do seu idealisn1o astral, ela n1esn1a fórma que tam-
betn a Inclia passa ele mão em mão, presa ele to-
elos os invasores. Quando uma raça perde a eini-
nencia elo seu pensatnento religioso (ou Inytholo-
gico, ou critico) as nações em que essa raça se or-
ganisou dissolvem-se.
As religiões clogmaticas nascidas da n1ythologia
veclica e assentes sobre «mythos do pensamento»
demonstram na rigidez systematica, commum a
essa especie de construcções n1entaes, as aberrações
necessarias a que a inconsistencia das noções con1-
206 L. III.-
Li nadas da Yida e da Inorte devia1n levar. A falta
ele un1 n1ytho synthetico apparece no parsis1no
fnrmulada no dualismo organico da religião de
Zoroastro. «Tenho duas almas, diz Araspo a
Cyro, porque Ulna só alnla nrto póde ser boa e má
ao mesmo teinpo». Ornn1zd faz 24 deuses e Ine-
te-os n'um ovo, Ahriinan faz outros 24 que par-
tenl o ovo : d' ahi o bmn e o 1nal.
Por seu turno, o brahmanismo cáe do ani1nistno
si1nples e ingenuo na theoria da metempsycose que
a vassallou todo o Oriente, introduzindo-se no corpo
de crenças das raças sujeitas ou ao domínio ou á
influencia aryana. Os castigos ultra-ttunulares pas-
sain a ter realidade nas reincarnações das uln1as, e
a doutrina attinge o ridículo de u1na casuística.
«Qualquer que seja a disposição de espírito em
que o homen1 pratica um certo acto, supportará as
consequencias d 'elle, reincarnando n'um corpo do-
tado de tal ou tal qualidade, ou _Inaculado por este
ou aquE>lle defeito», diz a lei de l\1anu. Na segunda
existencia expiam-se os crilnes da primeira: o que
roubou alitnentos, renasce dyspeptico; o calunlnia-
(1or, cotn mau halito; o ladd\o de cavallos, côxo;
outros os iJ.iotas, os cegos, os surdos, etc. O
nssassino de un1 brahmane ter{t urna sorte pavo-
rosa: depois de torturado n\nu inferno terri vel,
renascerá anin1al ou pária. O adultero renascerá
ccn1 vezes como herYa trepadeira, o cruel co1no
fera sanguinaria, o ladrão con1o rato ou abutre,
c·tc. Ao padre Godinho, viajando na India,
um hralunane: queiniatnos os corpos (los
nossos defuntos para qne as al1nas, ll'Yantada a
que lhes tinh:un dada, possan1 passar
(lc uns a outros; c os christãos cutcrratn os ch.fun-
tos, fazcnllo con1 isso qnc as almas presas
ltqncllcs corpos, sctn potlerc1n 1undnr-:sc para ou-
J.- OS VEIHS- ';. 207
tros, ou s('jmn de hon1c11s ou de v::iccas, o que é
grande pena para as ahnas que té1n a sua gloria
n'estas nludancas>>. (llcl. do novo cam. etc.\".)
A da cos1nogonia aryana é outra
consequencia da inconsistencia da sua Inyth(>logia
considerada no systerna con1 binado dos cleinentos
originaes parallclos. Só se póde attingir 111na con-
cevção finne da creação quando se chegue ú syn-
these (l'esses elmnentos n'tun 1nytho unitario con1o
o de Osiris, ou quando se cotuo fazian1 os
sCiuitas, do n1ytl1o abstracto de n1ua vontade in-
ventiva. Con1 a cabeça e1ubriagada pela sô1na da
sua 1nythologia astral, onde com effeito luzia o cla-
rão da verdade e u1na irradiacão de innocencia
pura, o aryano · não podia lenta1nente os
outros rudin1entos dos proble1nas das cousas.
O seu Inundo, tão bello, tão puro co1no iJéa, é,
cotno construcçào real, tão infantil co1no as repre-
sentações barbaras dos a1nericanos. Tam ben1 na
America tuna tartaruga n1onstruosa sustenta o
n1undo no seu dorso-·- co1no a Kunnaraja sans-
krita. E se não é a tartaruga directa1nente, é a
cobra Sesha, ou um elevhante, que tmn o globo na
cabeça ou no dorso ; cobra ou elephante, poré1n,
}Jousam sobre a tartaruga que é Vishnn sobre o
qual gyra a montanha de l\Iandara 1noviàa pela
currêa ou serpente V asuki, con1 que os daityas e
os danavas batiam o lago de leite para fazer a
anu·ita sagrada.
Dado o desequilibrio de desenvolvin1eato nas
duas correntes parallelas da 1nythologia esponta-
nea, quanto 1nais o pensan1ento profunda e escava,
1naiores 1nonstruosidades encontra; e uma vez per-
dido o fio conductor, ás extravagancias snccedem
as aberrações: assitn veiu á Iudia o diluvio de
dogtuas de n1orte e de protervia etn que agonisou
~ 0 8 L. III.- IDEALISl\10
por seculos; assim á Persia o delirio barbaro dos
seus satrapas precursores de u1na ruina egual.
Xerxes açoitou ·o Hellesponto agrilhoando-o, e en-
terrou vivos uns centos de rapazes e raparigas
para propiciar os deuses da terra : quando no re-
quinte da civilisaçã.o se conservam as crenças ani-
mistas da selvageria, a vida, àesordenada, produz
monstros. Era essa mesma a Persia que adorava
no branco da pureza im1narcessivel a côr sagrada
dos cavallos do Nisam! E' essa mes1na India que
divinisa a paz cerulea ào céu, a innocencia forte
do espirito, é essa a que 1nais tarde se agita nos
terrores do medo animista e nos àelirios do asce-
tistno, regressando ao estado selvagem. O calen-
der, ou derviche baneano donne sobre a terra nua,
co1ne apenas arroz, anda nú com um farrapo a
cobrir-lhe as vergonhas. Descalço, descoberto, con1
um bordão na mão, estnolando, resando, acotnpa-
nhando os enterros, os derviches vão aos pares,
humildes e nliseraveis. Tambem nós aryanos àa
Europa, depois do hellenismo- a nossa edade v e-
dica- tivetnos derviches: os franciscanos. Tam-
bein na nossa Edade-tnedia o anitnistno, renas-
cendo com a crise, sussurrava agoirentatnente aos
ouvidos das populações atnedrontadas. Os denlo-
nios formigam na India, os maus espiritos habi-
tam a gruta, a arvore que está proxima da ca-
bana da aldeia. De noutc o ar povôa-se de tnc-
dos: qual é o que se atreve a arrostar cmn a
somhra? Se tuna obrigação o impclle, o indio
avança cautelosa1nente con1 o ouvido attrnto. He-
petc os exorcismos, traz no pescoço os antule-
tos a que se abraça, n1tu·n1nra resas, leva na tnão
un1 tiç·ào de huno para afugentar os initnigos in-
visivcis. R:unalhatn as arvores? Pia algnuta ave
nocturna? l ;i v a algnnta rcz nos apriscos, ou ai-
I. -OS VEn AS - 7. 20U
gnma féra nas brenhas? 1.,remc, vacilla, recua, e
para vencer o sen mf'do grita.
A sombra da nontc povoada de ahnas obscure-
ceu o céu de V a.rnna, a allncinação do n1cdo baniu
a piedarle innocentc e candida. Na phantasmago-
ria mythologica, rcgressa.ratn n 'um turbilhão as
nuvens do principio. Porque? Falta-nos dizer agora
o nosso pensan1ento ácerca da ruina da mythologia
vedica-rnina que veren1os repetir-se, nos seus ca-
racteres essenciaes, na mythologia hellenica.
O idealisrno não podia resolver o problema da
morte. Era antipathico ao seu principio proceder
como o Egypto ou a J udêa; não tinha dados
para conceber a absorpção na substancia, nem a
vontade abstracta- por isso mes1no que era uma
representação ideal da existencia. Formular a
theoria dynamica da n1orte no seio da mythologia
que é o systema das representações realistas, isto
é, inventar o mytho do nada, seria contraprodu-
cente. Apenas como inrlicio, mais accentuado ao
depois no bnddhismo, se percebe o vasio da ultra-
vida, e como a eternidade é apenas o mytho dos
mythos- o mytho de un1a existencia phantastica
cuja nnica realidade está na successão das exis-
tencias individnaes. O Nirvana buddhista é, po-
rém, apesar de nihilista, ainda um céu. A doutrina
critica que só vinte on trinta seculos de elabora-
ção e de ensaios, de pensan1ento e de observação,
de estudos e de reflexão, cotneçam a affirmar-
não podia a capacidade espontanea dos aryas for-
mulai-a. Decaíram por isso; não chegaram á syn-
these dos deuses da vida c dos da morte, e, não
lhes consentindo o genio inventar um phantasma
transcendente, ficaram presos pela superstição das
almas emquanto voavam livres para a região pura
das idéas percebidas nos astros.
15
II
A mythologia slavo-germanica
'
1.
Começaren1os por este ran1o da arvore indo-eu-
ropêa, para passarmos depois á Italia, finalmente
{L Grecia nossa educadora. t
A inferioridade das tnythologias indo-europêas,
quando cotnparadas ao typo vedico, inferioridade
que é maior entre os "\vendes ou slavos do que en-
tre os gennanos, e entre os italianos do que entre
os gregos, parece achar-se etn relação directa cotn
o grau de desenvolvimento que cada utn d' esses
povos attingiu antes de christianisado.
1\Ias parece tatn bem que todos elles, no decurso
das suas migrações, como que se engolpharam na
barberie, vindo a apparecer na Europa n'um estado
quasi selvagem con1o constituição, e n1ais ou 1nenos
degradado con1o n1ythologia. A tuythologia slava
era um anin1ismo só cotnparavel ao dos selvagens
remotos. Ao passo qne o aryano da lndia caía
na degradação pelo cncerratnento de uni cyclo, o
f:ilavo, ou nunca saíra do estado selvagetn, ou re-
gressara a clle no decurso das migrações
atravcz da Asia, com destino á Europa.
1 cAquillo <!lln so consirlora. como hist01·ia c\'osta rl•li-
gião (a cnlti<"a) parece-me tão duvidoso c vago quo profol"i dnixnl-n in-
teiramente de parto n. propagar múrns conjtJctum.li qno pothn·iam ati.n:1.l
ser npcnas erros.• 'fich-, of the uist. ujrel. (tr. do holl.)
11.- A MYTIIOLOGIA SLA \"0-GEIUIANICA- i. I
Os slavos orientacs parece que nunca chcgar;un
a ter sacerdotes ncrn tmnplos: tinhant apenas lu-
gares sagrados e feiticeiros; os lithuanios apreseu-
tam, COintudo, já Ulll esboço Ue saceruocio digno
de tal no1ue; e entre os prussos existia nu1 <du-i-we>J
ou (<griwe»' especie ue patriarcha, habitando
um recinto sagrado «ro1nowe» onàe se guardavan1
Ílnagens dos deuses e d'onde partian1 as cncyclicas
e pastoraes. O culto primitivo dos slavos é o feti-
chisiuo, proprio dó estado animista da mythologia.
Os amuletos, compostos de toda a cspecie de feti-
ches, to1nan1 setnpre a fórn1a de um botão, de u1n
fecho, de u1na rede: servem para prender o
espirita protector- o anjo-da-guarda- atin1 de que
elle defenda o portador, dos espiritos ini1nigos ! Os
oraculos, para conhecer o tempo, o rrsultado das
cearas e das guerras, e o destino da vida, tétu
sempre o caracter de sm·te genuinan1ente animista.
Os sacrificios fazem-se á 1nargem de un1 rio, ou
sob a arvore sagrada que é de preferencia o car-
valho. As ceremonias tém un1a efficacia 1nagica:
nas festas estivaes os servios vasam ainda hoje
baldes de agua sobre un1a rapariga adornada de
folhas de arvores : assi1u peden1 ás << n1ulheres do
céu», os espíritos das nuvens, que lhes deCin ehuva.
São espiritos as nuvens, espiritos os astros e o
ar e todas as cousas -segundo a regra do ani-
misino, áeerca do qual não é mistér fatigar de
novo o leitor. Dos espiritos astraes sae1n deuses-
de·vas
7
dizen1 os lettos, usando ainda a propria
palavra aryana; bogu
7
os slavos. Sobranceiro a to-
dos, no firma1nento, está o novo Indra que é Pe-
run ou Perkun, deus do trovão, cujos raios dis-
persan1 os den1onios, ferindo-os e
o sangue en1 chuva sobre a terra. Em sua honra
ardia perennemente uma fogueira de carYalhos. O
*
212 L. III. - IDEALISl\10
empyreo é numeroso, sem ser novo, nen1
de observações singulares. Os lithuanios tém dois.
soes: Patrimpo, o diurno, alegre e jovial, e Pecol-
los, o escondido. Os cazaes de mythos astraes for-
1nigan1: Dazhbog, o deus do dia, é filho de Sva-
rog, o do firmamento crepuscular; Lado é esposo
de Lada- uma é a mulher, mãe de todas as estrel-
las do céu, o outro, o hotnem, é a Lua cujo sexo,
cot?o. se sabe, é masculino por via de regra no
an1nusmo.
O ar, a agua, as arvores, o fogo, a casa, são o
habitaculo dos espiritos que enchem o alnbiente
phantastico da imaginação do slavo. O inverno é
duro n'essas regiões geladas: é 1nau Koshchei, o
seu genio. As molestias andam errando levadas
pelas velhas e pelos homens hediondos. A noute
povoa-se de bruxas e feiticeiros que affectarn em
vida a fórma dos lobis-hon1ens, e depois da nlorte-
a dos vampiros qne vão sugar o sangue aos que
dortnem. Un1 1nedo obscuro inunda a sombra da
noute e a pallidez dos invernos. Nos pinhaes sus-
surranrlo com o vento ouvem-se os lycshis, demo-
nios-do-bosque, e os deuses da tortnenta qne tén1
nos furacões o cortejo nupcial e nos redoutoinhos
as danças do noivado. Nos charcos, nos rios e nas
lagoas que o inverno gela e que ás vezes fenden-
do-se engolem, na agua transparente, traiçoeira, en-
ganadora, n1as maravilhosa e tnystica, espelho onde
se vê o que não existe, viven1 os vodyannís cotn o
seu rei 1\Iorskoi, um tsar rodeado de cysnes, de
filhas, com a côrte das rusalkas traiçoeiras. 1\las
para defender a choça. do todos os perigos, habita
l:i dentro o dmnovoy, cspirito da casa c do lar,
prott>ctor e arnigo dos h01nens c dos anintaes
clon1esticos. o .Agni slavo, e te1n co1no voz o
cauto do gallo que afugenta os dmnonios da noute-
II. -A l\IYTIIOLOGIA SLAYO-GEni\IANICA -1. 213
smnbria, annunciando a volta da manhan lunli-
nosa.
Não se imagine, poré1n, que ao rmnper do dia
resplende a luz n'essas vastas steppes que o slavo
habita. De in\"'erno o ar é pardo, o sol côr de
occa, e no espaço frio treiTI(llll descendo eomo far-
J·apos os nevões. O chão é un1 lançol branco, as
, ' d
arvores, as casas, con1oros n u1n oceano e neve.
O vento levanta ondas brancas jogando co1n essa
poeira frigida con1o faz na Arabia con1 a areia
ardente: os ten1poraes da steppe são como os do
sahará, e as cohunnas de neve quei1nan1 co1no as
de areia.
E' pelo tncio d'esse ar torvo que as aln1as dos
finados vão, vétn, errando nas suas vingens inde-
finidas, scn1 que os actos da vida s<:>jam rnotiYo
para utn destino de pren1io ou castigo, setn que
em si propria a existencia ultra-tlunular diffira da
existencia. real. Se o cadaver foi enterrado, o
reino da alma é o Inundo inferior; se foi cluei-
mado, ella sobe no futno para o ar; n1as ne1n o
céu netn o inferno ne1n Rai nen1 Peklo,
correspondem ainda a lugares de premios ou pe-
nas. A 's vezes o cada ver queima-se ou enterra-se
n'um barco: então a ahna segue viagt>n1 co1n des-
tino a Buyan, a ilha do sol. l\fas, d'onde quer que
resida, vétn constanten1ente ao mundo, pairando
nos ares, apparecendo aos vivos que tre1nen1 d'ella
e repetem festas e sacrifieios para a propiciar. As
almas são como deuses, desde que existen1 na esve-
cie imaginada para as divindades. Vêetn-nas cotno
um lutne vago que o deus do raio accendeu, co1no
utna estrella que fulge no céu, cmno um vapor,
u1n sopro uma sombra-como tudo o que é
sensível sendo incorporeo; vêem-nas porétn egual-
mente anitnando as aves cujo vôo tem o quer que
L. 111. - IDEALISMO
é ile singular ou espiritual, e os insectos alados-
dushickhas, «alminhas» ; vêem-nas ainda nos ratos
fugitivos, e, relacionando ratos, estrellas e almas,
chamam á via-lactea, estrada dos mortos, o « cami-
nho dos ratos».
Por um dado tempo a alma ficou junto do ca-
da ver, balouçando-se no ar livremente; depois
larga para o seu mundo, « Nava», o mundo dos
das almas e dos n1ortos, ou jornadeando a
pé pela via lactea ou pelo arco-iris, ou indo por mar
ao seu destino.
A imaginação sla v a não terminou a viagem; a
mythologia d'esses povos não saiu da edade ani-
mista. Achavam-se ainda perdidos no turbilhão
dos espíritos, quando veiu do Occi-
dente o christianistno impôr-lhes leis e crenças es-
tranhas.
2.
Outrotanto aconteceu aos germanos e scandina-
vos : nem era maior a lucidez da sua visão. O culto
era uma magia, o sacerdote,- «ê·warto>), aquelle
que sabe a c<êwa,>, lei divina e humana,-o sacer-
dote era utn mago. A prece era uma evocação, o sa-
crificio uma seducção: os deuses, em rudimento, obe-
deciam aos exorcisrnos e encantos dos sacerdotes-fei-
ticeiros, das prophetisas como Veleda e Ganna.
'rhcoria de penas e premias ultra-tlunnlares não
exi8tia, on era um esboço apenas cm via de ex-
tracção do dualistno metcreologico. Coalhado o ar
de nlmas, a tctTa estava inundada de Lrnxas-
vülva -c os rios, as fontes, as arvores, as pedras
habitadas por genios.
Hão o ori<'ntc e o oct'itl<'nte; são o vento do snl, de
lcsb·, de oeHtc; são as hri::3a.8 constantes ou caprichosas,.
voando asp<'ras ou fagueiras.
11.- A l\IYTIIOI.OGJA 2. 215
Hão os furacões impetuosos que dm;trocm i são as for-
c;as adstriugcntes c cx1musivas que se cho('am c se comhiuam
no fundo da tC'rra.
os gcrmPns activos que fecundam o humus c dão ás
arvores a sua i são as fórmas c côres mudaveis
c todos os gf'nios pod('rosos do ar.
as gotas leves, as torrentes, Hs cataractas, os ribei-
ros que serpeiam c os orvalhos que reluzem.
Hão as neves, as geadas e o gelo i são as estre-
pitosas.
Não se ouve n' este sussurrnr dos genios do Edda
un1 movimento mais vivo? Não se sente que dei-
xátnos a charneca fria e nua pelas terras da G(Jr-
mania umbrosa, da Gallia snrjada de rios fertili-
santes? Os genios que tremem nos farrapos de
neve, rugindo no cascalhar dns ondas, são os que
habitatn para alérn, na Scandinavia, tranzidos de
frio, ao clarão d::ts auroras phantasticas pelo meio
da noute fatigante.
Para áquen1 do Baltico a natureza ri, o bosque
viçoso sussura, os rios não gelam de inverno. As
arvores são altares, templos as florestas, offertas
os fructos da terra. Nas ceifas dá-se aos deuses
um 1nolho de espigas; nas macieiras deixan1-se
cinco ou seis fructos como offerta; nas arvores
pendnram-se corôa.s e festões de flôres: as terras
da Hesse pagam aos deuses a renda de um ramo
de lvrios.
E.,ntremos na floresta sagrada. Os carvalhos no-
dosos, sempre verdes, con1 a sua folhagem rendi-
lhada por onde a luz passa como n 'um crivo, dis-
tribuem no ar uma chuva de scentelhas de sol.
Tremem com o vento as ra1narias sussurrando com
vozes divinas, e assim treme a poeira de luz que
allumia a clareira do bosque. O ar vive, palpita
e falia ; nos altos ramos das arvores, bordando no
céu uma renda n1ysteriosa, pousam os deuses invi-
216
L. 111.- IDEALISMO
si veis ; dos troncos rugosos pendetn as pelles e as
cabeças dos anitnaes sacrificado& no altar. A gente
entra no sanctuario e1nbriagada de religião, e ouve
e sente em si o viver dos espiritos sagrados. E'
utna gente barbara e iugenua: tão forte quanto
sitnples, com a imaginação atinada para os sonhos
e invenções das idéas inconscientes, cotn o braço
nu, musculoso, prompto para a carnagem das bata-
lhas. lnnocente e forte, sanguinario na candidez,
poeta con1 tnãos de lavrador e soldado, é este o
aryano que passou das faldas do Himalaya para os
bosques da Gerrnania.
En1 volta do tronco do 1naior dos carvalhos
está o segundo o denonlinou Tacito, o ZJU/1·_,
como elles, indigeuas, dizen1. E' tuna cella de to-
ros cosidos con1 vitnes, coLertos de ratnos: utna
choça. Ha itnagens lá dentro? Tacito dizia que
não; a erudição de hoje (Grimtn) affirtna que os
gennanos já tinham passado do culto dos fetiches
para o elos idolos. E1n volta do a gente
q ne entra ven1 de pôr as offertas : os caçadores
traze1n as primicias do tnatto, os pastores cavai-
los, bois, carneiros, os lavradores trazen1 fructos,
espigas, flores etn corôas e grinaldas. E' Inistér
alitnentar os deuses para que nos protejatn! Os
pratos de Berhta e de Ilulda estão sobre a tnesa,
e, ao vasar o copo da cerveja e:;pumante, não se
esqueça o hotuetn piedoso de cuspir un1 trago no
chão -para Zetnylene, a deusa da terra! Nas fes-
tas sponsalicias da Norwcga, 'fhor despPja as ta-
ças de cerveja co111 os convi v as : assim o conta tu
as sagas.
Assi1n agora, tatnbetn, rodeando o altar, a ccr-
V(•ja. csputnaute, avcrtuelhada. con1 o sangue da
victitna, passa de tnão Clll 1não uos vasos sagra-
dos. A victitna-uin cavallo, pois esse era o animal
11.- A 1\lYTIIOLOGIA SLA VO-GEUMANICA- 2. 217
prefl'rido nas solmnnidades, -jaz estendida e n1orta
sobre o altar: fôra presa da ultitna batalha, aban-
donado por algutn chefe caído na lu c ta ... O sangue
derr:unado punha a sua côr ctn tudo- nos vasos
sagrados cotn que cran1 ungidos, na cerveja das
!iLações, na face agreste, nos peitos e nos braços
nus, da gente que o sacerdote aspergia ritual-
utente. A luz coada pelas franjas dos carvalhos
vinha pousar sobre essa nodoa vennclha engastada
no viço da floresta, e o cheiro acre da carnagem,
o balito de calor das entranhas despedaçadal:5, su-
biain cotno incenso aos deuses invisiveis no seu
throno aereo de ratnaria verde e murmurosa.
Já o sacerdote, cotno um carniceiro, partia e1n
pedaços a rez, e as urnas aquecian1 sobre as fo-
gueiras: a carne cozia-se, não se assa v a; das cal-
deiras untadas de sangue o sacerdote repartia
pelo povo os retalhos abençoados, guardando para
alirnento dos deuses o figado, o coração e a lín-
gua. A pelle, cou1 a cabeça, ficava pendente dos
galhos das arvores como os estandartes da victo-
ria qne se collocaratn depois nas naves dos tem-
plos. sangue, baloiçando-se ao vento, a
pelle da vietitna ia augn1entar o nutuero d'essas
sanefas singulares que adornavam a clareira do
bosque dos carvalhos sagrados.
Se o cavallo era a rez escolhida para os sacrifi-
cios soletnnes, o hon1en1 era a victima nos momen-
tos graves. 1\Iatavam-se inimigos captivos, escra-
vos comprados para o altar, ou critninosos: po-
rém nas grandes affiicções os deuses reclan1a vam
victitnas puras. Assirn, á maneira dos diabate'ria
dos gregos, os frankos, ao atra vessaren1 uu1 rio,
immolavam tnulheres e creanças. Contra a lepra,
emparedavam-nas; e nos n1omentos extraordina-
rios eram sacrificados os filhos dos proprios reis,
218 L. III. -IDEALISMO
cotno succedeu a Thoro, como Oen, o velho, que
successivamente offereceu nove filhos a Odhin para
que lhe conservasse a vida; eram sacrificados os mo-
narchas em pessoa, cotno Domaldi que os suecos
immolaram na affiicção de uma fome.
3.
Entre o céu vedico e o germanico -visto atra-
vez das tradições e lendas e pelos Eddas., biblia
commum de teutões, scandinavos e normandos-
são graves as differenças. A mythologia germa-
nica manifesta um estado mental superior ao dos
slavos, mas nem por isso comparavel em pureza
idealista ás remotas invenções aryanas. A nligra-
ção com as suas cruezas, o contacto com outros
povos, a natureza, finalmente, da Europa ne-
voenta que habitam, altera nos germanos a quali-
dade tnythogenica.
Distinguem-se ainda os deuses da antiguidade
aryana, n1as etn pequeno ntunero e subalternos.
Dyaus vê-se em Tyr que para certas tribus, cotno
os suabios e semnones, é ainda o mytho supremo
do ar e da luz, mas que no Edda baixa á condi-
ção de deus da espada e das lnctas fraternas : a
espada é a representação n1ythica do raio, e a
lncta a das te1npestades 1uetereologicas. Etn Fior-
gyn encontra-se o parndign1a nacional do Pcrnn
ou Perkun slavo, nos elfes e nos 'tncu·es acaso os
ribhavas e os nutruts da mythologia verlica ; tnas
nenhum d ·esses, neru Tyr, nen1 :Fiorgyn, ll(llll os
Inares, t(lm papel prPponderante. A sobet·ania tny-
thologica passa a Odhin e a seu nrto, Thorr, d t ~ n s c s
puramente gerrnanicos, inventados j:í cotno druses
c uão por urna subjectivação de n1ythos astraPs pri-
mitivos. As n1ythologias secundarias, ratuiticadas
11.- A MYTIIOLOGIA SLAVO-GRnMANICA- 3. 219
de um tronco commum, á n1ancira de todas ns
dos europeus, forn1am-se já n'un1 período avançado
de evolução. .
N:to se pPrde entre os germanos o antigo non1c
tle divindade, Deva, n1as as designações gencrica:;,
pnranH'nte gerrnanicas, de « aesir » e « vanir )) prcdo-
nlina rn. Os deuses são principes on soberanos entre
os aesir ou divindades. Estas são o opposto das
potcn('ias rnaleficas da natureza representadas con1o
gig:tntes -ji)tunn, os devoradores, thnrs, os bebe-
dores, que eran1 venerados ·com violencia e terror
e propiciados com sacriticios humanos. Entre o:;
gigantes e os aesir-vanir collocavam-se as tr(·S
clnsses de elfes, genios indecisos entre o ben1 e o
mal, atnbiguos, sen1i-humanos na sua fónna de
anões-«liõs» os da luz, «soart» os negros, «dück»
os so1nbrios. Sombra e negrume vivia1n no seio da
terra .
. Sobre este alicerce de espiritos naturaes que, se
por um lado nos aesir-devas se prende á conce-
pção idealista aryana, por outro, nos elfes, raia
eon1 o animistno slavo; n'este cortejo de genios
palpitantes na terra e no ar, destacam-se as di-
vindades já individualisadas. Freyer ou Fro, qne
tem na mão a espada da virtude, é o deus do céu
brilhante, origem da vida e da fertilidade, e cren.-
dor- tanto quanto esta noção era compatível con1
o idealismo ingenito dos aryanos. No seio dos ac-
sir tornou-se o deus da paz e do amor. Sua irn1an,
Vana Freya, «a dan1a», esposa de Njõrdr, deus do
mar, mytho da terra ou da lua, torna-se a Venus
forn1osa e fecunda do en1pyreo germanico, rou-
bando a Frigg o lugar ao .lado de Odhin, o deus
eminente de quem Tyr-Tiw-Ziu ( dyaus) passa a
ser apenas um f i l h o ~ quer dizer, um aspecto.
O principio de unidade mythologica de utn povo
220 L. III. -lDEALISl\10
guerreiro está no deus das batalhas- en1 Indra,
e1n Odhin. Na pessoa d'elle vém reunir-se todos
os traços característicos da moral e da força, su-
bordinando a si os mythos dos elen1entos. Odhin-
'Vuotan-Wodan é a sabedoria que rege o n1undo,
o general supremo: é «sigtyr», o deus, «sigfõdr»,
o pae da victoria, é «vigsigor», o- vencedor. Iden-
tificar a sabedoria co1n a victoria, a força cotu o
saber, o combate con1 a curiosidade e o estudo, eis
o proprio do pensamento de u1na gente e1n cujo ce-
rebro fervem as idéas de envolta cotn a a1nbicão
do iinperio. Sentado no Hlidskialf, o seu t h r o ~ o ,
Odhin vê e governa o mundo, servido pela força
ardilosa de Geri e de Freki, os dois lobos, guiado
pela cogitação e pelo pensamento de Hugiun e de
1\Iuniun, os dois corvos que lhe poisan1 nos hom-
bros. O 'Valhalla a que preside está na cidade
santa de Asgard, ahi onde te1n o seu throno, ro-
deado dos aesirs n'uma gloria sin1ilhante áqnella
em que se representam os deuses christãos entre
nuvens de anjos.
A' frente d'esses, con1o utn archanjo, pritneiro
entre os acsir ou âsa por excellencia, âsabn?g_,
está Thorr-Donar-Thunar, cuja voz é o trovão. O
seu olhar é o relam pago e o raio- o de Odhin é
o sol. \Tive nas nuvens, rega con1 a chuva os
campos dos lavradores lnunildcs, atnaciando os ar-
dores do verão e dotnando as potencias más do
inverno. O servo adora-o : o guerreiro adora
Odhin- deus dos nobres e senhores.
Descidos {t condição de 1naus, vêmn-se os deuses
remotos, n1ythos da noute selvngetn e do inverno
fnnPsto. Assitn cae I_.Joki (de lukan, fechar, scg.
Grinun), o que Inonta o cavallo das vcntauins fri-
gidas, Svadilfari, para se collocar :í fr<>nte de
todos os dCinonios: o lobo .Fcnrir, a serpente
11. - .\ 1\IYTIIOLOGlA SLA VO-GErll\IANICA- 3. 221
1\Iidhgardh, c Ilcll, a deusa da treva inferior ou no-
cturna, aquclla que ainda hoje denomina o inferno.
A crise do pcns:unento, d.ctenninada pela passa-
genl . da vida barbara para a vida agricola que
conden1na os deuses d.a noute, vê-se retratada no
dnuna 1nythico de Dald1· que é ao n1esmo ten1po o
esboço de u1n Genesis, e uma theoria do Peccado.
A crise dctcrn1ina a constituição de um dualismo,
pois que todos os aesir ton1an1 parte na contenda
mythica: Odhin bate-se corn Fenrir, Tyr contra
1\iana.garm, Thorr contra a serpente de 1\lidhgardh,
Ileindall contra Loki -o pae dos n1onstros.
O crepusculo dos deuses, foi a tra-
gedia de Baldr-Baldiig, o deus branco do dia. O
novo empyreo começava corn um novo estado do
povo. Ao n1esmo tempo que os deuses emergiam
da noute, saímn os selvagens da sna barberie. Es-
ses tempos remotos appareciarn-lhes escuros de cri-
mes, e para além d'elles collocavam u1na edade pri-
mitiva de innocencia- a edade ideal, veneida pela
mentira e pelo roubo. O crime dos crimes foi a
1norte de Baldr, o melhor e o n1ais sabia dos aesir
- con1o um .Attis germanico, ou un1 Jesus, se
Jesus, qne existiu, fosse ntn tnytho e não um he-
roe (como um Alexandre ou UITI D. Sebastião) em
quem o povo in1pri1ne as feições n1ythicas. Loki,
o nocturno, é o assassino de Baldr. Do crÍlne vém
as trevas de u1n inverno obscuro de tres annos, e
uma guerra feroz. Os deuses tinham dominado os
gigantes, n1as estes quebraratn as cadeias e Loki
gerou n'uma gigante os rnonstros que faze1n do
mundo um cháos de peccados, e destroem a hu-
manidade. Elia resuscita con1 Baldr que volta do
mundo inferior cotn os aesir purificados; e o
mundo dividido em dois, o mal e o bem, recon-
quista a paz na ordem e na virtude.
L. lU.- JDEALJS)IO
A erudição attribue a influencias persas este
n1ytho que dá ao syste1na das invenções germa-
nicas um caracter de moral subjectiva desconhe-
cida á mythologia infantihnente optitnista dos
aryas. A 1nortalidade dos deuses revela uma per-
cepção mais profunda, e põe acitna da representa-
ç;io puramente intellectual do Inundo exterior uma
força eminente. Se os deuses tambem Inorrem, é
porque o pheno1neno da Inorte acordou na 1nente
gerrnanica idéas n1ais profundas do que as do ani-
Inisino primitivo dos aryas. O mytho de Baldr ex-
prime o nexo das percepções do Inundo externo e
do n1undo interno, e un1 rudimento de theoria.
dua)ista sin1ili-persa. Para além do turbilhão de
deuses do céu, para além do fonnigueiro das al-
Inas da terra, da noute, dos bosques, dos sonhos,
presente-se algutna cousa- a necessidade de utn
principio de unidade que ·o semita definiu tragica-
no seu tnytho abstracto do Deus .volunta-
no.
O europeu esboçou de utn n1odo vago o 1nytho
de tuna força obscura, indetertninada, a que o la-
tino chatna Fatutn, o grego Moira, o teutào Norn .
... \s norns gern1anicas são tres : U rdhr, o passado ;
Verdandi, o presente; Skuld, o futuro. São con1o
ns Parcas dos latinos, que tecen1 a vida e cor-
tando o fio detenninatn a rnorte. O lugar obscuro
que occupan1 no corpo da n1ythologia tnostra
quanto é rudimentar ainda o pcnsanlPnto da Inortc,
1nas o seu apparecitnento, na nchulose das idéas,
prova que o problcn1a existeneia, dcsapPrceLillo
eon1o tal pelo arya.no, con1eça a fornndar-se no ce-
reLro do europeu.
Qna.ndo a invasão do chrit;tianisn1o ab,lrtar
n ntytholog-ia gcrn1anica, o Fado tentonico Í<li ab-
pela Vontade do deus uovo to1uado dos tiC-
11.- A 1\II'J'IIOLOGIA SLA VO-GEIC\L\NJCA - 3. 2'23
tnitas. A Europa moderna passou a existir, lny-
tllOlogic:unentc, da cOJnbiuaç:to d.oH <lois 1nytl10s
C'Jninentcs. A invenção teutonica não ptJde pois d.es-
C'uvolver-sc: não degenerou, abortou.
(luanto custou a deitar por terra a arvore n1ys-
tica de Ygdrasil, viu-se no caracter particular do
<·hristianistno gennanico c nos traba-
lhos que teve Carlos 1\tlagno para derrubar o co-
losso de Ennensul. Para que o povo entrasse no
tmnplo de Christo foi nlistér que o sacerdocio coi-
locasse os novos altares no lugar dos antigos-
nas clareiras dos bosques utn brosos tintas de san-
gne, cotn as colgaduras de pellcs de victin1as pen-
dentes dos ramos das arvores.
III
A mythologia Italiana
1.
Dos bosques da Germania, passemos agora aos
ela Italia: a paysagem é outra, outra a luz, outro
o genio d 'esse povo que tem pela terra um culto
profundo e 1nystico.
Fechado de tnattas embrenhadas, o solo da !ta-
lia a vassallado pelos invasores era o theatro dos
dramas sangrentos da existencia d'csses povos, ou
ainda ignorantes da agricultura, ou impedidos ain-
da pela guerra e pela espessura dos bosques de
trilhar a terra com o arado. A floresta da Italia é
diversa da Germania, tnas as impressões que as
sombras e rnn1ores das arvores acordam no espi-
rito ingenuo da gente bravia são identicas. O car-
valho veiu a ser a arvore de J npiter, o loureiro
de Apollo, a oliveira de l\Iinerva, o ruyrtho de
Venus, o alamo de Ilercules- quando no pan-
theon de Roma construida houve nomes e lugares
para todos esses deuses, nacionaes uns, tomados
outros aos gregos.
Agora, porétn, o sussurrar do b o s q ~ 1 e n1cridional,
onde ao lado do carvalho arrendado est;i. a figueira
caprichosa nos seus troncos, de folhas an1plas e
espessas, é ainda n1n positivo n1nnnurar de deu-
ses, urn sussurro dP ahnas que pcrpass:nn com o
vento, como sotnbras, C]_Uando a arage1n põe cn1
111.- A MYTIIOLOGIA ITALIANA- t. 2 ~ 5
movimento a teia espessa de folhagcn1 tremendo
nos ramos entretecidos. O bosque é povoado de al-
mas, cotno os rios e as nascentes, capita fontium_,
con1o o fogo, cotno o ar. Cada arvore é u1n espi-
rito- Gepois será O templo OU habitacu)o de Ulfi
deus, como o carvalho vetusto do Capitolio em
Rotna, primeira tnorada de Jupiter, onde Romulo
vae depô r os fructos das suas ·batalhas ; como o
carvalho de Lucano
Exuvias populi veteris, sacrataque gestans
Dona ducum.
E na floresta obscura e palpitante, cujo ratna-
lhar infunde o terror religioso na ahna sombria do
italiano, n'essas grutas escuras de folhagem verde-
negra, em que o pinheiro esguio alterna com a oli-
veira suave e co1n a figueira extravagante, é ahi
que habita, restnnindo em si a somma de todos os
run1ores sagrados, Fauno, o deus da floresta, o
mytho do bosque animado pelo zephyro de oeste
na primavera- favonio.
A vida é cruel no meio d'esses bosques que as
féras infestam, erriçados de espinhos das arvores,
impenetraveis ou hostís. São sempre crueis os
deuses da vida agreste, invenções de gente endure-
cida na lucta cotn a natureza. Os mythos são
monstros, a devoção tnedo, o culto holocaustos.
Dos ritos primitivos do italiano sanguinario fica-
ratn em Roma vestigios tnais do que bastantes
para se entreverem essas ceretnonias barbaras nos
bosques dos tempos primitivos. A religião sombria
do rotnano nunca perdeu de todo o tom que lhe
impriiniu o genio das primeiras edades. Fauno foi
sempre adorado ao ar livre, nas cavernas e nos
bosques sagrados que ficaratn bordando os campos
16

226 L. III.- IDEALISliO
em metnoria já inconsciente das brenhas do pas-
sado: ne1n a civilisação pôde tornai-o dotnestico.
'rambetn nos ritos dos tmnpos historicos se
vêem como symbolos as provas dos hon1icidios sa-
grados de outr' ora. Povoada de almas a natureza
inteira, quando o lavrador incendeia o bosque para
arar a terra, ou quando o pont1jex_, engenheiro,
lança a ponte para galgar o rio, é tuistér propiciar
o genio que de tal n1odo se offende. Por isso em
Roma, nos idos de tnaio, se deitavam ao Tibre do
alto da ponte Sublicia trinta cu·gei-· mannequins
de vime, ilnagens humanas com as 1nãos e pés
atados: imagens dos sexagenarii de ponte_, os ve-
lhos que n'outras edades era1n sacrificados ao pa-
ter_, ao genio, Tiberinus. Da tnesma fórma as oscilla
que tren1em pendentes nos ramos das arvores, re-
presentando vultos e üuagens, representan1 o que
se fazia com os rue1n bros e cabeças dos h01nens e
anitnaes itnmolados nos sacriticios. Ver sacrum
n1atava-se gente e rezes em honra de de-
pois abandonavam-se symbolicatnente creanças para
que fossem buscar utna nova patria sob a pro-
tecção do deu::;. Nas Fe1·ias latinas ainda até ao
tetnro dos iu1peradores o sangue de urn crin1inoso
devia regar o altar Je J upiter. Nas Lupercales_,
em que se sacrificava u1n bode, o sacerdote tocava
na frente de dois rapazes nobres cotn unut faca
ensanguentada: tne1noria do h01nicidio sagrado de
outros temros. A nodoa de sangue era lavada cmu
lan ntolhada e1n leite; e depois da cermuonia co-
niCçava a orgia e1n q ne os luperci, cobrindo-se
corn as pellcs oo::; bodes iuuuolatlos, pcr('orriain a
cioade dançando. Nos bosques rrimitivos cra1n as-
situ as danças dos caçadore8, vestidos coJn as pel-
lcs <las rezes, corno viuws ent•·e os in(lios da .Atne-
rica. Nas tllâos levaJu O:) lttjJerci chicotc8 da pellt}

JII.-A 1\IYTIIOLOGIA ITALIANA- J. 227
da victinut con1 que açoitam as mulheres para as
tornar fecundas; c caindo a noute, pela escuridão
das viellas de Rotna, desencadeia-se desenfreada a
luxuria mystiea. Assim nos bosques, depois das
danças guerreiras e eroticas, {t luz fugaz c avcr-
das fogueiras a orgia renutta v a a ccre-
lllOnia.
:Fauno, a abna da floresta (paradigma italiano do
Pan grego con1 que depois se identificou) era o
mytho da fecundidade, animal, vegetal. Tocou
1fiaia-Fauna, ou Bona-Dca, com o ra1no de tnyrtho,
como o favonio que desce dos montes vasando no
seio virginal da terra a seiva abundante e vigo-
l'Osa- embriagando a esposa, como qnando, ao re-
bentar das nascentes, os carnpos se vêe1n florir na
primavera. Fauna apparece no mytho sob a fórtna
da serpente que enroscada fórn1a o o an-
nel sy1nbolico do rejuvenescimento periodico dos
ean1pos.
Do bosque, arroteado, veiu a campina que o la-
vrador semeia. Por isso tambem Marte, o genio
das brenhas do Apennino, com o seu
de lobos e a sua ave sagrada, o pico, operaria e
cantor das florestas cujo bico con1o n1na verruma
penetra nos troncos das arvores sacando-lhe o cer-
ne; :\Iarte é o defensor dos campos, e do pico faz
a itnaginação historica a lenda de Picun1nns, o ve-
rei bene1nerito dos lavradores. Tatnbetn Fauno, o
espirita n1ysterioso da floresta cuja voz aterrori-
sava, atribulando os corações, se transforma n'lun
deus protector. Quando o ho1nen1 lavra a terra, o
trabalho abençôa-o e o interesse torna-o born: os
seus deuses tre1nendos fazem-se benignos. Fauno
ouve-se agora, n1as no fragor das batalhas atemo-
risanclo o inimigo. A sua so1nbra vagueia por en-
tre as arvores de noute na indecisão da luz, ou
*
228 L. III. -IDEALISMO
apparece nos sonhos do lavrador; n1as esse velhO>
genio tremendo dos bosques, dotnesticando-se con1
os hon1ens, é agora o genio das pastagens suaves-
que tapetam de relva o chão, é o que ensina a
domar o boi agreste da campina, o que defende
os rebanhos das féras que descetn dos montes, O·
protector dos pastores que o denominatn Inuus,
Lupercus. As lupercalia terriveis da caça primi-
tiva são agora danças pastorís.
A civilisação tornou campinas e pastagens as
brenhas de outr'ora. Trilharam-se, queimaratn-se
os bosques : a terra pôde receber em cheio a luz.
do sol e abrir o ventre fecundo ás sementes. As-
sim ta1nben1 no ar se dissiparam as sombras ani-
Inistas e ao sussurro obscuro dos espiritos primiti-
vos succedeu o silencio da paz luminosa ou O·
canto largo do vento correndo livremente sobre as
cearas louras ondeantes. l\Ias não se apagam as-
siin as lembranças do passado, netn morre na alma
mystica do italiano o culto das edades antigas. Os
espíritos dos bosques vivem ainda pelas brenhas
dos montes, nos pendores do Apennino, con1 os
seus sanctuarios nas clareiras - nwmol'·a, lucus
d' onde veiu o nome á Lucania. O deus dos caça-
dores antigos é agora o velho Sylvano, de longas
barbas brancas, deus dos lenhadores e tnateiros.
E o proprio lavrador das varzcas e terras bai-
xas, arroteando as !eiras, deixa de espaço a es-
paço, tnosqueando a can1pina, grupos de arvores
sagradas que são os sanctnarios vcnerandos do
passado. Ahi o fugitivo encontra asylo, c ai do que
pisar o chão divino setn iniciação! Vivo na ratna.
'lns arvores o terror dos dPnscs retnotos. Bor-
dando os e as estradas, a ltalia inteira
('St:i coalhada tcn1plos vivos, rtunorosos;
ua propria }{orna o Vinlinal, o Esqnilino são bos-
li
111.- A MYTIIOLOGIA ITALIANA- 2. 229
qucs sacrosantos de velhas arvores divinas, c o
.arnor do italiano é tão forte por esses dcu:-;es an-
tigos qnc Pliuio conta o caso de u1n romano que
definhou e 1norreu de paixão l)Or un1a faia.
2.
Arados porén1 os campos, os deuses antigos
transforrna1n-se ou envelhecem. O pico de l\Iarte
torna-se o gcnio da lavoura con1o filho de St(\rcu-
tus -o dens dos adnbos da terra. O velho Syl-
vano apparece caduco, abordoado a un1 cypreste
ou a u1n chorão, as arvores da n1orte, lá para o
longe onde restatn ainda florestas, co1no um de-
fensor das fronteiras, tutm· jinium. Só ás vezes
ven1 visitar os seus dotninios antigos, hoje coalha-
dos de granjas e cearas, e chega cotno un1 velho
bon1, arrastando os annos: Sylvanus dornesticus.
A in1aginação dura do italiano é solicitada
agora por outros 1notivos: os deuses dos bosques
não são os dos lavradores. Os deuses de agora
são os genios inventados para presidir e proteger,
nno só todas as condições da vida social, con1o
cada Uin dos mom(Jntos dos trabalhos agrícolas. O
lavrar, o sernear, o ceifar, o encelleirar, tétn geuios
seus; tein-no até o suppritnento annual de trigo no
mercado (Annona). A' frente do systen1a do ani-
misJno rural está Tenuinus, o deus-marco, divisor
dos can1pos, dando á propriedade utna sagraçfío.
Delinlitar as terras era utna festa- as Tern1i-
nalia. Os proprios eram como fetiches.
Abria-se a cova, e em torno, ungidos, adornados
de festões e ra1nos floridos, os lavradores celebra-
va1u o sacrificio que ardia lá dentro. O chão
-era regado co1n o sangue da victi1na, havia li-
bações de mel e vinho e offertas de incenso e
230 L. III. - IDEALISl\10
fructos ao genio dos limites ; e quando o lume con-
suinira o animal i1nmolado, sobre os ossos e sobre
os restos ainda fumegantes colloca v a-se o marco
divisorio, nivelando-se a terra em volta ao som de
hyn1nos graves em honra do deus Terminus.
Consagrada a propriedade, podia começar a la-
voura com as suas festas e sacrificios. Nas Arnbar-
valia, em que se invocava Ceres, hnrnolava-se uma.
porca, po1·ca praeciclanea; nas Suovetaurilia, pela
primavera, immolava-se a Jupiter u1n porco, uma
ovelha e um touro para purificar os campos; a
l\Iarte sylvanus sacrificava-se por tenção dos reba-
nhos ; nas Hm .. dicidia, em abril, quando, passadas
as geadas do inverno, se celebra Tellus, o genio
da gleba, sacrifica-se utna vacca prenhe, arrancan-
do..:lhe a cria do ventre e queimando-a á parte: as
cinzas, recolhidas pelas vestaes, serviam para as
purificações das Palilia. Saturno (ainda não iden-
tificado com o Chronos grego), o pae universal,
que vive no coração da terra, tinha na sua se-
mana sagrada un1a celebração en1 que tnda a vida
se interrompia : trabalhos, triLunaes, castigos-
até a sorte do proprio escravo desapparecia, co-
mendo á mesa do seu dono. Nas Saturnalia, o
mundo invertido era um entrudo sagrado, e os la-
vradores em bandos pelos campos soltava1n os có-
ros do hymno divino- lo Saturnalia ! . . Ops era
ainda a terra, como fernea, cmno fcennda: adora-
va-se de rastos, palpando o solo 1nysticanwnte con1
as 1nãos.
Não será, no ani1nis1no rnral italiano, tuna re-
miniscencia da antiga barberie o genio da terra-
nocturna, Lua-matPr ou Lna-Satnrni, qnc é a
gleba estcaril on malfaseja? ParC'Ce. Entn·tanto, os
genios chtonicos da 1nythologia italiana prcnJen1-se
todos ao systcn1a das psychicas dotni-
III.- A l\IYTHOLOfaA ITALJANA- 2. 231
nantcs no anin1ismo, ligando-se intimamente aos
da n1orte c não aos mythos astracs. Acea
Consus, Tellus, Ceres, e todas as divin-
dades ruraes srl.o genios do n1undo inferior. ()
cmnponcz, semeanrlo e ceifando, tinha diante de si
o sonho da morte e da vida que o fazia
pa
1
pitar de esperança e tnedo.
Recolhido á granja, o qne é o sa-
cerdote d'uma religião don1estica,. sacrifica aos ge-
nios do lar -gPnios obscuros tambem con1o os da
gleba. No atrio está o altar que é mesa: t a casa
é templo, a comida sacramento, o pae sacerdote :
«Sabei que é o atno quem sacrifica por toda a fa-
milia,>, diz Catão. Lá por fóra viven1 os genios da
terra, para áquem do vestibulo estão os genios do
lar-lares (do etrusco lars =senhores, potenta-
dos) e penates (de penus=lar domestico). 'Em
todo o ar, por toda a parte, os espiritos dos rnor-
tos ondeiatn: os rnatutinos, brilhantes,
bemfasejos; as as phantasmas er-
rantes da sombra, mais ou n1enos tnaleficos. O ar
está cheio de visões, os sonhos de apparições
phantastieas. Tudo tem o seu genio, o seu espi-
rito: as n1olestias são aln1as, a sande, visivel na
carne vermelha do corpo hun1ano, é Carnia, o ge-
nio que afugenta os vampiros.
Por isso, não só a casa, tambem o tumulo é u1n
altar. Ainda no tempo ele Cicero os rmnanos acre-
ditavam que na cova ficava habitando a alma do
n1orto : sub terra1n vitam agi mortuora1n.
Sobre o tumulo depunharn as offertas- bolos, fru-
ctas, sal, leite, vinho, ás vezes o sangue de algurna
victima- abrindo um furo no chão para que os ali-
mentos chegassem ao n1orto, pedindo-lhe em ora-
1 V. Raças humanas. u, pp. 121-2.
232
L. III.- JDEALISl\10
ções que acceitasse, engrinaldando-lhe o tumulo
cotn festões de ramaria florida. Os ?nanes
vam co1no sombras em volta do cadaver, sem po-
derem passar, c01ntudo, do seu mundo inferior
para o céu dos deuses astraes- nurnina; sem po-
derem tornar-se heroes como os gregos. A separa-
ção das duas fontes mythologicas, psychica e as-
tral, interna e externa, mantem-se até ao fim na
Italia, 1nostrande como o systema das invenções
religiosas nunca chegou ahi a u1n periodo synthe-
tico similhante ao do Egypto e ao da J udêa- si-
milhante ao que veremos esboçar-se de um modo
- ephetnero na Grecia. Nu1na ján1ais passou de ho-
lllem: nunca foi divinisado como Theseo em Athe-
nas.
As lendas mythologicas são pobres e simples.
N asei das do trabalho rude da vida agrícola, são
prosaicas, praticas e monotonas. O heroe prote-
ctor ou fundador da cidade é um filho mara vi-
lhoso do deus lar que protege algun1a familia ii-
lustre: ás vezes nasce d'uma faulha despedida
pela lareira domestica. Assim nasceu R.on1ulo, as-
sim Servio 'rullio, assim Cceculo, de Pre-
nesto. A auréola (appendice iconographico adoptado
pelo christianisn1o) em volta da cabeça attesta a
sua origem, annunciando a sua grandeza futura.
Na vida é sabio, piedoso, bom, legislador justo e
venerador dos ritos. Consun1mada a sua e1npreza,
esvae-se ou so1ne-se, voltando á existencia ani-
mista- non compa1·uit!
E' tamben1 do seio d'esse mundo de cspiritos
que se ergue o alicerce da cidade, cujo funda-
dor nasceu do lar e se consumiu desa}Jpareccndo.
Corn o arado abria-se utn rego fuudo- o munJus.,
consagrado aos esJ:>iritos dos ntortos e aos deuses
chtouicos, do ventre da terra. No interior da valia
III. -A MYTIIOJ..OGIA ITALIANA -2. 233
eollocava-sc u1na lagc, lapis 'lnanalis, a lage dos
1nan(\s, porta do in1pcrio subtcrraneo sobre a qual
cada utn lançava um punhado da sua terra indí-
gena e as prinlicias das producçõcs ruraes. O
mundus era o coração da cidade cujo perímetro se
1narca v a con1 a charrúa tirada por um touro e
llllHt vacca, a1nbos brancos, a vacca no introdorso,
o tonro no extradorso da linha circular -prirnige-
nius sulcus.
A cidade desentranhava-se pois dos campos e
dos 1nanes, da vida rural e da 1nythologia eschato-
logica. Esse povo curvado para a terra cotno la-
'Tador, te1nia sobretudo os espíritos obscuros da
t(\rra e do sonho, os deuses tutelares domesticos e
chtonicos. V esta, o lutne sagrado, e os Penates,
no culto publico, os Lares na casa, os Sylvanos no
can1po, eis ahi os cotnpanheiros queridos da sua
Ílnaginaçâo 1nysticamente obscura. No pantheon,
os nzunina_, deuses da 1nythologia astral, erarn hie-
rarchicanlente superiores : .no coração intin1o eran1
e1ninentes os deuses da visão mystica. O grego
orando, levanta, cotno u1n aryano, os olhos ao -céu:
o latino ( co1no etrusco?) vela a face, contrito e
pensa ti v o. Absorve-o a visão d 'esse Inundo interno,
tão 1nais tenli vel quanto é obscuro. Don1ina-o o
terror sagrado que põe nos ritos um caracter san-
guinario, tornando o hyrnno e111 de-votio- a abne-
gação tren1enda que precipita Curcio no vortice de
Roma, que 1nata os velhos na batalha de Allia,
que 1nanda os Decios imn1olarern-se nas guerras
tren1endas dos latinos e dos satnnitas.
Nos perigos crueis, o crente sente-se victima de
expiação necessaria, no decorrer suave da existen-
cia sente-se orgão obediente de un1 pensa1nento
que se manifesta nos ritos da vida rural santifi-
cada. O casamento é o sacra1nento de Ceres ou de
234 L. III. -IDEALIS!\10
Tellus, o nascer dos :filhos é como as colheitas, o
fundar as cidades é lavrar o sulco, em torno do
munclus onde se evocam os penates e todos os
deuses chtonicos.
Sobre o Capitolio, porém, levanta-se o templo
onde vivem os num i na- deuses do ar e dos as-
tros, deuses mais urbanos do que ruraes, muitos
d'elles mais gregos do que latinos: especie de su-
perstrucção mythologica erguida na cidade que
vae tambem transformar o arado em espada, o do-
tninio da Italia no dominio do mundo, os lavrado-
res em soldados, a vida rural n'uma vida de bata-
lhas e debates forenses. A devotio latina tornar-
se-ha uma religião da lei, a visão mystica un1a
revelação do direito, os ritos um formalismo juri-
dico, os deuses uma tabula de abstracções que
seccaruo a fonte religiosa por esgotarem o veio da
piedade poetica.
o
i).
Do seio da nuvem de almas que povoam a
mente do italiano, o latino abstrae, porétn, j::í um
certo grupo de numina- isto é, de d(luses cuja
qualidade excede a esphera expressiva do anitnis-
mo, deuses cotn caracter positivo hutnano, inten-
ções e vontades. Se Robigo, o fnngào· ou ferrugem
das cearas, Consus, os germens absronditos, Car-
mrntis, as encantações nu1.gicas, e outros, se não
destaean1 b(ltn ainda da pleiade dos genios indeter-
minados, Fauno, o deus dos pastores, Saturno, o
das sementPiras, Vul<'ano e Vesta, .Jupiter Jnno e
são pPssoas-denses, dir·i. ou olympieos
na piPna Pxpressão da palavra; são-no ta1nbPtn
1,cllus, a terra alimPntadora, ( ,eres, Pal(•s, Ops,
'rf'rntino, NPptnno, Tib<>r, .1\Tat<:>r e Libcr-Libera.
l\T nitos dos antigos mythos ruracs c chtonicos so-
111.-A l\IYTIJOLOGIA ITALIANA-3. 235
b<'IU para o Olympo onde residem os mythos ns-
tra{'S qnc na sériP pritnitiva dos deuses precf'den-
tcs são representados por Jupiter, Jano, 1\Iater-
nultuta.
1\[arte, o deus italiano por excellencia, o qno
dcfr>ndc e nul.ta, o campeão que etnpunhando a
lan<;a prot<'ge os rebanhos e seguido pelos seus lo-
bos sagrados desce dos matos etn defeza da gente
que prot<'ge; o que den01nina o pritneiro n1ez do
caiPnclario romano e dêí o nome aos rotnanos pri-
mitivos (l\Iarcus, lVIatnercus, 1\iatnurius), aqnelle a
qumn no TTer sacrunt se sacrif-ica gente e gado, em
non1e da paz dos lavradores e da fecundidade dos
rebanhps, abafando-se os gerniclos das victitnas
co1n o som agreste. das flautas «ne B.ebilis hostia
inunoletur! ,> l\Iarte, deus dos deuses, tetn nlere-
cido aos criticos descend(lncias varias. 1\Tonnnsen
filia-o na 1\Iorte -l\Iavors, lVIaurs, J\tlors; Roscher
no sol, da origem '11Utr =brilhar; Preller fal-o des-
cender de o poder masculo, e d' ahi o mytho
da vida e o genio da guerra.
Ninguem contesta, porém, a origem astral de
J a tnais peculiar de todas as fórtnas da di-
vindade etn R01na, e proventura a unica para cujo
culto havia uma effigie particularmente italiana,
diz l\Iom1nsen. Jano é a porta, é o que abre, é
dianus «O brilhante» ; tnytho do verão e do dia,
deu o seu n01ne ao prin1eiro mez depois do inverno
-januaT'Íus. No itdito de Roma, ás portas da Ita-
lia culta, Jano abre a estrada da civilisação que o
sol allutnia, ao passo que 1\Iarte, fundido com o
Quirino dos sabinos, empresta a sua lança á ci-
dade soberana para impôr o seu dotninio etninente
á Italia e abrir o antigo pantheon dos pastores do
Lacio aos deuses indigenas. J ano é bifronte, por-
que abre e encerra o dia; é como sol o esposo da
236 L. III.- IDEALISMO
lua : Dianus-Diana. Quando Numa lhe ergueu a
estatua no Forum, uma das faces olhava para o
nascente, a outra para o poente. Jano é o pater
matutinus., a luz creadora e geradora, esposo tam-
bem de J uturna, a deusa das nascentes, e como
tal progenitor, quasi-creador, supprindo vagan1ente
a ausencia dos · 1nythos cosmogonicos no pensa-
mento espontaneo dos latinos.
Não é só Dianus-J ano, porétn, o unico 1nytho so-
lar da I tal ia: as renliniscencias aryanas são muitas
e mais de um dos deuses do Ganges é venerado
no Tibre (e no Ilissus) co1n o proprio nome remoto.
Urano é Varuna; Jovis-pater, Jupiter, é Diespiter,
Diaus-pita: o céu azul do crepusculo e o céu bri-
lhante do dia tém na India e na Italia o 1nesn1o
nome. A lenda latina de Caco, diz l\lotnn1sen, é o
ultin1o ecco d' esse antigo n1ytho naturalista aryano
em que o divino galgo Saran1â, guardando para o
senhor do céu o rebanho das estrellas, reunindo as
nuvens para ordenhar «as Yaccas celestes», condu-
zindo os mortos á bmn-aventurança, se tornou en-
tre os gr<'gos Hern1es, na historia enygmatica do
roubo do gaclo de Helios.
As retniniscencias da noute selvagetn encon-
tratn-se no culto sabino do obscuro Sntnn1ano (1ue,
como todos os deuses da trC'va, é t:nubPHl o g<'uio
do ar carregado de nuvens nas teJnp<>stadPs nH·te-
reologicas. Poré1n os genios da noute são en1 geral
femeas desde que n vida rural deu a cminPncia
aos mythos solares. Para alén1 da I>iana que che-
gou até n6s confundida jit cotn a 1\rtemisa grega,
depois (la do Olyn1po latino, houve
uma Lua ignota, inrlig0na, aflorada na smnbra dos
h·lsq H<'S (l(l A rieia, bm·llas do lago N cm i-g(•nio
ohs('nro da noute s0rvido pt'lo sf'n dt•ntonio negro
''irhio, cujo sacerdote 0ra ungi<lo eotn sangue hu-
III.- A MYTIIOLOGIA ITALIANA- 3. 237
1nano sobre o cadavPr do antecessor que devia
nwJar en1 duelo depois de ter quebrado a haste do
pinheiro sagrado.
;\. Diana hcllenica tornou -se depois bemfaseja.
l{aion no céu a deusa da manhan, 1\later-matuta,
ajn<lando as nntlhercs nos partos, ella que é a par-
teira do dia, nas 1natralia jocundas.
Todo o ar illun1inado canta a festa de Juno-Jo-
vina, a esposa de J o vis, rainha e matrona do céu,
que tem no bosque de Lanuvio a caverna sagrada
con1 a serpente sy1nbolica da geração, onde cada
anno un1a virgem lhe vae offerecer o bolo ritual.
Regina-mater, à Juno é lucina quando a lua nova
desenha no azul do céu a sua curva enygmatica.
Então as mulheres gravidas consagra1n-lhe as so-
que protege1n os olhos, luz do corpo, e
as sabinas estereis vão iinplorar a lua para que as
fecunde. Cresce a onda das superstições entre as
nntlheres, conservadoras de todos os velhos ritos,
amigas por instincto e genio da protecção dos feti-
ches que ajudam nas afflicções ...
No céu romano, illutninado pelo clarão de Jove,
não se dissipam as sombras, nem no pensamento
religioso se dissipa esse medo proprio dos cultos
anhnistas. A voz profunda do italiano não pôde
entoar os hymnos antigos na sua pureza innocente.
Os deuses assustam, infundindo um n1edo simi-
lhante ao dos espiritos: não é um temor 1netaphi-
sico ou piedoso, é o temor do réu perante o juiz
ou do devedor perante o crédor- assim se ex-
prime Mommsen ; não é a con1puncção profunda
do semita perante a Omnipotencia, é o receio de
gente dura, simples e terra-a-terra, o receio de ter
faltado aos deveres para com os deuses.
Ainda no tempo de N un1a os cultos romanos não
tinham entrado no período idolatra, e Varrão lem-
L. III. -IDEALISl\10
bra com saudade os dias em que os deuses eram
adorados sine si?nulacro. Não havia então em Roma
te1pplos propriamente ditos: apenas espaços sagra-
dos onde se sacrificava e se orava em commum-
curias e atrios com mesas simples onde se depu-
nham as offerendas e1n cestos e· bandejas. Os alta-
res era1n bancos de relva; já se não sacrificava gen-
te: apenas animaes, apenas flores, fructos e legutnes
-a ?nola salsa de todas as festividades. Os vestigios
do fetichis1no eram evidentes nos symbolos ainda
não substituidos por esta tuas : a pedra de J u pi ter
( Jupiter os animaes como o lobo e o pico
de 1\Iarte, as arvores sagradas, etc. Uma lança
cravada no chão é lVIarte, e a esta tua de J upiter
elevou-se no Capitolio por imitação da Etruria.
:Xos campos, um tronco de arvore ornado de liga-
duras e flores servia de deus. E ainda quando,
depois de dois seculos (170 annos, diz Varrão), os
ten1plos romanos se encheram cotn as obras prin1as
da estatuaria grega, ainda então V esta, a deusa
1nysteriosa, continuou a ser adorada sem ünagens
-apenas na chamma perpetua que ardia sobre o
do seu te1nplo.
O medo do ro1nano pelos deuses, esse senti-
Incuto opposto ao lyrisrno appolineo helleuico, vern
do cunho aninlista que a religião nunca perdeu,
}JÓde dizer-se, a pesar das transforn1ações por q ne
passou. Ha deuses 1naus, os ve-divvis, ha espíritos
das feLres, das doenças, talvez até do roubo (La-
verna) ; ha apparições phantasticas das lmuures,
1nas não se observa aquella con1pnncçào profunda.
fine é o sentin1ento proprio .da Inythologia quantlo
sae da esphcra realista <lo para a es-
}Jhcra de u1n pensatnento naturalista ou illealista.
I>ropria c espoutaucanwntc, diz 1\louunseu, a re-
ligião ron1ana nada teve sinlilhantc ao culto de
li(.- A MY'l'IIULOGIA l'fALL\NA- 4..
.Apollo a Inoraliuaue cotn uma
:lllréola ue gloria, llClll ao culto de Dionysos, ou aos
de cultos
c1n tpte se exprituiatn sentinwntos profun-
tlob e tos.
En1 Rotna ha apenas u1n tnedo ingenuo e uma
veneração pies. O rotnano vela a face para não
encarar os o cntnponez tretne de encontrar
uu1 fauno. Na oração a Pales, diz Ovídio : <<Livra-
uos de ver as dryadas ou o banho de Diana, ou
]i.,auno quando nos campos durante o dia.»
o tnedo é tal que, invocando os deuses, não se
lhes pronuncia o umue: o hornetn, sabendo que ha
pessoas divinas distinctas, não se atreve a indivi-
dualisal-as quando ora: «Si v e deo, sive dea; sive
n1as, sive fetnina, sive quo alio no1nine te appellari
volucri::; ! J>
4.
D'este estado mental primitivo a consciencia
r01nana formou, desenvolvendo-se, um typo mytho-
logico seu proprio embora nos traços essenciaed
n1uito sirnilhante ao parsisrno, conforme observa
rriele. Na Per::;ia e em lloma, os elementos moraes
011 ethico::; iinpritnetn urn cunho á dos tny-
thos psychicos e astraes; os deuses tornam-se vir-
tudes, e este desvio da evolução normal synthetica
faz con1 que ao lado das divindades principahnente
saídas dos mythos astraes se mantenha o cortejo
de genios oriundos das antigas aln1as. A mytholo-
gia, nas suas duas faces parallelas, não se chega
a fundir n'un1 pensamento synthetico, cotno nos
utythos de O siris ou de J ehovah.7 e a separação
primitiva das duas espheras mantem-se nos perío-
dos avançados de evolução.
240 L. III. -IDEALISMO
Por isso, muitos d' esses proprios deuses astraes,
cuja determinação é sempre mais rapida e mais
facil, póde dizer-se que nunca attingem em Ron1a
a interpretação pessoal, ou anthropomorphica, por
via de regra commum. As potencias naturaes
que em epochas anteriores não chegaram a ser
humanisadas ficaram na condição de espíritos, ou
tornaram-se symbolos de idéas abstractas. Os deu-
ses romanos casam pouco e raras vezes tém filhos.
O genio da abstracção que a vida civilisada acor-
dou poz ponto á vida imaginativa, e a mythologia
foi abafada por um pensamento jurídico. A idéa
de ordem, entrando no Olympo em via de cons-
trucção, fixou as attitudes, organisou os elmnentos
rudimentares ainda, e manteve severo, imtnovel e
monotono um edificio ainda não rematado. O
Olympo ficou, pois, regular, unificado, como a
U1'bs; mas dentro das rnuralhas da cidade não
cabem a compuncção, nem a piedade, essencias sen-
timentaes da religião. O desenvolvimento da civili-
saçào como typo social e como idéa juridica abafa
o desenvolvimento n1ystico dos mythos.
Uma faculdade innata de analyse abstracta dá
feições proprias a muitos d'esses proprios mythos
em que o grego põe uma expressão de individua-
lidade ideal. J upiter e Juno tornam-se representa-
ções sumrnarias da hutnanidade nos seus dois se-
xos; Dea, Dia on Ceres torna-se o principio do
poder creador, 1\Iinerva figura a memoria, Dea-
l ~ o n a a bondade. O Olympo não tem pois dramas;
a sua arvore da vida seccou, os deuses são princí-
pios abstractos, os cultos são formulas. Varrcn1-se
da lembrança os tnythos rnais geraes da cosmogo-
nia e da anthropogenia: a in1aginação abafada.
p«"'lo pensamf'nto rigido não tctn nw.is curiosidade.
Por tudo isso o rou1ano inventa tuna palavra sua
111.-A ITALIANA-!.. 2-i.l
CJHP tornon nnivPrsal- ltdigi:ío, isto é, o la<;o
<('t<' nrH\. congrPga, os hontf'ns na ohscrvan-
eia. df' utn <'Orpo <lc leis dichulas por nma corpo-
ra<:?to dP. jni.t.f'S ahstraetos ou divinos.
s:t h ido qnauto os elf'n1entos estranhos de va-
rias orig-ens eoncorr<\ram para formar o panthcon
ebssi<>o de Hmna. A Etruria, o Oriente, a Gre<'ia
principalmeute, utn papel eminente n'este
tnoviruento de aLsorpção que data da epocha dos
Tarqninios. De nn1 lado observa-se a introdueçào
de deuses novos que mudam de nome para se
i1acionalisarent, cotno llerrnes donominado lVIercu-
ri0, Athena 1\linerva, f:Jersephone Proserpina; do
outro vê-se a fnsrto dos d('uses distinctos, gregos e
italos, representantes porén1 de um mesmo my-
tho original, como V a Ferorâa dos sabinos,
un1 brios e etruscos, dos latinos e dos volscos ; a
Flora, a l\Iurcia, indigena da Italia, identificada
con1 a Aphrorlite grega; vê-se Bakchos fundido
con1 Liber, Dmneter com Ceres, Artemis com Dia-
na, etc.
1,odavia este facto da nacionalisação de divin-
d:ulPs estranhas e da fusão de nacionaes cmn fo-
rasteiras é apenas formal ou exterior, porqne os
dPHSPS estrangeiros nacionalisam-se
em Ron1a. N'essa edade dos reis, em que a ci-
d:ule soberana se id-ealn1ente, a revolu-
ç:to intitna e grave está na expressão abstracta
quP os ntythos adquiren1 no Capitolio rla urbs .
. J u pite r: n1ytho do céu e da luz, da paz e do
r:-1io, summa dos phenomenos metereo]ogicos, tor-
na-se na éra dos Tarqninios, diz Preller, um
politico e social: Jupiter optinnts) nlaxinnts)
soberano idPal, rex dotado de todos os attributos
rla monarchia. Os feeiaes, seus sacerdotes, são os
1nagistrados supremos da republica, o seu culto é
14
L. III. -IDEALISMO
o pacto A verbena sagrada colhida ex arce
('Om a raiz e o e levada nas procissões ri-
tuaes pelo veruenarius diante do fecial, symboli-
sava o territorio inteiro da cidade e o laço reli-
gioso dos cidadãos. Ligados pela lei, tinham em
Jupiter o deus do juran1ento- Jupiter-fidius-
pelo qual o fecial jurava os tratados e allianças,
empunhando a lapide herdada do fetichismo já re-
moto mas ainda tradicional.
Em J upiter unifica-se o pantheon e quasi se
póde dizer que se attinge um monotheismo : tal é
a distancia que separa esse deus de todo o cortejo
de deuses e genios. Elle é o principio de unidade
mythologica, percebido na soberania da lei e na
religião da fidelidade. 'Te lhos deuses como Fides,
co1no Terminus, são quasi absorvidos, ficando como
hypostases ou attributos da divindade: Fides é a
consciencia e a honra do cidadão, attributo de J u-
piter-Lucetio; Terminus é a ordem, o limite- Jo-
'Vl8 terminus.
O passo que apenas falta dar para dissipar de
todo as nevoas da índetern1inação mythologica,
deu-se qnando no Cn pitolio se ergueu a
f\Statua da Fides-publica- a consciencia do povo
romano. Dissipado o 1nytho primitivo, ficou a irléa
ou o nncleo representado n'um «mytho do pensa-
mento» : o deus é nn1 principio de moral abstracta,
o ()lympo é a cidade, a religião é a lei positiva,
o saccrdocio é o 1nagisterio, o culto são ns
monins socincs, politiens.
E a piedade? () duro ro1nano, cidadão por ge-
nio c qualidade f\mincnte, sentia poucas nf\ccssilla-
dPs mysticas. SPcco c forte, bastava-lhe pnra df\us
n conscif'ncia moral : era stoico antes do stoicisn1o
que appnrf\ccna Jnais t:u·df\ como a philosophia
d'cHtc instincto. Entretanto, a hunu1nidndc não
111.- A MYTHOLOGIA ITALIANA- 4.. 243
prescinue d'essa ordCin de chin1eras que são a
parte nulis doce da existcneia c co1no que o fundo
vago, cnftunado, <}111 que as realidades se desrnham
nos seus contornos nitidos. AssiJn os coruchcos c
nli11arctes de u1na cidade se rccortan1 con1 dureza
no horisonte in1n1enso, indefinido.
H.otna, atrophiando con1 abstracções o descnvol-
vinlento acreo das Yegetaçõrs in1aginativas, aba-
fando a mythologia com a religião jurista, deixava
por isso n1es1no abertas as portas ao forn1igar das
superstições archnicas. Assin1 na China a moral
de Confucio, varrendo para longe a Inythologia, é
a conservadora do anitnisn1o. Tainhenl em Ro1na,
ao lado da religião publica ou social, cada h01nem
tem o seu genio, cada n1ulher a sua Juno, cada
objecto, cada acçrio, cada qualidade, cada nlo-
rnento, cada un1 dos deuses até, o seu espírito, ou
a sua ahna. Esse bando de espiritos aereos da
phantasia, con1o os insectos alados que repelli-
Inos co1n a 1não, volta zun1 binllo, sussurrando,
1nordendo, porque o pensa1nento, en1 vez de os
fundir n'ntna synthese, con1o a de JehoYah por
exen1plo, julgou suppri1nil-os negando-os.
Elles voltan1, e não voltam só co1n a fórma pri-
Initiva de ahnas: voltan1 nos lndigitamenta, es-
ses roes de genios en1 que a abstracção rmnana
quer fazer para as creações da visão psychica o
n1esino que realisou para os grandes n1ythos as-
traes. O lndigitam.enta são as listas dos deuses es-
peciaes e exclusivos que acolnpanhanl os actos da
vida desde o berço até ao tu1nulo, attendendo ás
necessidades n1ais con1muns, con1o o ali1nento, a
moradia, o vestuario. Vaticanus é o que dá o pri-
meiro grito á creança rece1n-nascida, FaLulinus o
que soletra a prin1eira palavra, Educa o que en-
sina a comer, Potina o que ensina a beber, Cuba
*
L. III.- IDEALJSl\10
o que mantétn o berço quieto; Abeona, Adeona,.
Iterduca, Dotniduca ensinam a andar, etc. E' a
forn1açào completa de um animismo, em vez de es-
pontaneo, systematico, en1 vez de imaginativo, abs-
tracto.
O genio jurídico-social que assim transfórma o
animismo sem lhe alterar a essencia, prosegnindo,
reage sobre o Olympo abstracto e ataca a solidez
do n1onotheismo. instavel. Crescendo todos os dias
o nu1nero dos genii_, os attributos destacam-se das
divindades, e a religião romana, que no principio é
un1 polydemonismo, é no fim uma phantastnago-
ria. O terror e a pallidez nas batalhas, a paz e a
1iberdadP, a esperança e a boa-sorte, tornatn-se
objectos de culto real. Depois de terem elevado
Fides no Capitolio, os romanos levantaram ahi
Concordia, Pudicitia, ~ I e n s , Pietas, lEquitas; de-
pois Constantia, Librralitas, Prudentia; depois Se-
curitates-sreculum, Indulgentia-domini-nostri, Cle-
nlentia Cmsaris. As virtutes_, primeiras que se tor-
naram genii_, destacaran1-se dos deuses cujos attri-
butos eram: fides de J upiter, conc01·dia de V e nus,
pudicitia de Juno, rnens de Fortuna. DPpois, <'ada
sentimPnto, cada idéa moral, foi indiviclnalisada;
e por fhn quando a evolução so<'ial chega v a ao seu
destino na eonstitnição do i1nperio e quando o
pcnsa.n1ento religioso cléra tudo quanto era capaz
de proclnzir, vin se clnnnnente expresso o tt>rrno
ultimo fla religi:to, iclPntico en1 todas as rf'ligiões
-a apotlwose do hon1en1. Esse é o cerne do tuy-
tho de Deus, espPllw vago crn que nos vemos a
nf)s TnPsntos. Roma tlivinisou Cesar, a Jn<lêa ftlz.
outro tanto ao seu 1\lessias.
111.- A MYTIIOLOGJA ITALIANA-::>. 245
5.
Acabando, a tnythologia roinana dcrnonstrava
utna vez nutis a constancia dos probletnas Incta-
I>hisicos inevitaveis, e das ntysticas
intprescindiveis. Cotn o seu genio abstracto pen-
sou dissipar o nevoeiro das ahnas, e reuuzindo o
Olyn1po á Urbs, a piedade it n1oral, se1n resol-
ver nenhuut probletna, apenas soube vestir con1_
.abstracções os bandos de espiritos que ondea-
vatn no at·. Chan1ou-lhes genios: a ilnaginação
popular, sen1 perceber as abstracções sacerdotaes,
continuou a tel-os por ahnas, e a vel-os, a sentil-os,
não na elareza do pensatnento, mas nas sotnbras
da noute durante os sonhos, ou á luz do dia nas
allucina<;Ões da vigi]ia.
As invencões dos doutores expnnnatn apenas
e1n fórn1as a grosseria ou o aeanhatnento
do geuio da raça- etninente para vida pratica,
incapaz de elevação poetica ou tnystica. Do medo
prinlitivo extrahiu ella a idéa de utn pacto entrt·
os genios ou deuses e os homens. As relações
transcendentes foratn cotno as civis, os ritos como
o processo, para essa gente de legistas que ,-ia nos
critues offensas aos deuses, e que fez do direito pe-
nal utn direito canonico, da religião un1 codigo, sec-
cando co1u o espirito juridico o desenvolvimento
do pensan1ento artistico e ntetaphisico, ou mos-
trando n 'esse espirito a ausencia de se1nentes de
tal pensatnento.
No tribunal e no te1nplo a fonnuia· é tudo. «Qui
virgula cadit, causa cadit >> diz a jurisprudencia.
A religião diz outro tanto. Não se pede cotnpun-
cção, piedade, candura, atnor, no trato com os deu-
.ses: exige-se observancia dos ritos no sacerdote e
2!6 L. III. -IDEALISMO
no crente. A oração eleve ser proferida ·con1 cla-
reza e nitidez, sem hesitações, nem duvidas. Ex-
tasis, contemplação n1ystica, não existem: o ro-
lnano é positivo e pratico, e os deuses que conce-
beu são (c01no os deuses são se1npre) a itnagem
ideal do genio que os creou.
Por isto abundam os traços que den1onstra1n no
rmnano um tetnperatnento moral forte na estreiteza.
cousa sitnilhante por varias lados ao
genio dos inglezes n1odernos. Tito Livio conta de
uns soldados que na vespera da rebelliào, ten1endo
o pe1jurio, pensavatn em 1natar prin1eiro o ge-
neral : o crin1e era a infracção do juramento pres-
tado nas n1âos d'elle, não era o assassinato.
A propria castitas_, tão venerada, vinha das lus-
trações, das fun1igações, das aspersões sagt·adas.
A oração tinha nn1 poder magico : alterar-lhe as
fórn1as era o peecaclo, peccar apenas n1n erro. A
pureza é o vestnario lintpo: « Casta placent supe-
ris, pnra cnn1 veste venite >J diz TiLullo. O Fla-
men dialis não podia tocar objecto itnpnrn, nem
ouvir as nénias pelos mortos, netn pisar o chão de
utna sepultura. () horror ú 11101tc proYa a exterio-
ridade rla religião : só é inti1na a que se praz na
contemplação do fim.
Cada nn1 dos deuses era ainda, foi setnpre, o
espírito de un1 acto, o patrono especial de nn1 1no-
n1ento. Escolher, pois, o verdadeiro deus qne se
deve invocar, irnporta o n1es1no para o saet·r•lote,
que para o ad \rogado o dctPrminar a nwneira de
propor urna de1nanda: a é nm deLate cmn
os <• su peri01·cs ,, . CausiJico, o sacerdote, Val'i lia ndo,
appf'lla para a an1 Liguidade in voe:uulo. .J u pitPr U .
.:\1. c< sivc quo alio n01nine te appellari volncris »-
opti1no, tnaximo, ou qnalqtH'r outro nonw por que
te ngradc seres invocado ! Escolhido o deus, c as-
111.-A MYTIIOLUGIA I T A L I A N A - ~ - 247
sente a fónna do processo, os canones rnarcam es-
peciosanlentc as 111anciras de pedir : se dedica urn
ten1plo, o sacerdote segura a porta; se invoca
'rellus, bate no chã.o; se se dirige a Jupiter, le-
vanta os braços ao ar.
O culto é uma especie de tnagia, a prece con1o
uma evocação, o sacerdote um feiticeiro -porque
de faeto, embora petrificada etn abstracções, a
rnythologia romana não sae cmnpletamente da es-
phera do animis1no. D'entre os ratnos da fanlilia
indo-europêa o latino, quaesqucr que sejan1 as
causas determinantes do phenotneno, apresenta,
com effeito, un1 caso de paraly:sação de desenvol-
vimento na esphera da rnythologia. Estará o n1otivo
do phenomcno no desenvolvin1ento excepcional que
deu ás instituições civis e politicas, ú iJéa do di-
reito e aos preceitos da 1noral? Talvez. A defini-
ção da ... cidade social parece ter reagido sobre a
definição da cidade u1ystica, fixando-a n'urn ponto
rudimentar e ünprinlindo-lhe um cunho estranho.
O idealismo ingenito do aryano vasou-se aqui
en1 1noldes jurídicos, ton1ando por typo a Jus-
tiça e por nonna o Caracter : a 111etaphisica e a
poesia voara1n, fugindo, do seio forte e duro d'essa
gente pratica.
D'ahi resultou utna religião official, severa, for-
Inalista e secca ... A.ccessivel a todos, capaz de ligar
forten1ente a 1nediania da gente na sua Inediocri-
dade constante, a religião ro1nana era adequada
a utna nação de do1ninadores e conquistadores :
religião de ferro e for1nulas, sen1 as hesitações do-
ces do 1nystieis1no. 1\las quando o in1perio es-
tretnecendo propoz a crise, essa religião on1nipo-
tente para o tnando viu-se mesquinha para a obe-
diencia : os servos e os infelizes carecen1 de deuses
que os consolem! Deu-se então algu1na cousa si1ui-
2-i8 L. 111.- JDEALIS.L\10
lhante ao aspecto da agua n'um charco se se re-
solvem os lodos do fundo. Conturbou-se tudo, e o
côro de gritos desordenados, as loucuras desvaira-
das que surgiram, deram a prova de quanto era
inconsistente o do Capitolio con1eçado des-
de o tempo dos reis.
Isso a que os philosophos chamam supm·stitio é
para o povo a verdadeira religião: u1n aniutismo
prirnitivo que o culto vestia de trajos classicos,
n1as qne nenhtuna theologia digna de tal non1e pu-
dera resolver en1 mythos syntheticos dos n1ysterios
astraes e psychicos, etn <nnythos do pensamento>)
(IJara us:1rn1os da expressão que adoptitn1os) eyui-
valentes aos de Osiris ou de Jehovah,- svnthese
da substancia no Egypto e synthese da
na Judêa.
Nüo ha duvida que, no tneio da tempestade de
loucura anitnista, da vertigem mystiea da quéda
do itllperio, surge o pensan1ento atheu con1 a sua
critica ou o seu sarcasmo, mas esses factos spora-
dicos pre1naturos. Para que o espirito lnunano
chegue a dissipar de todo a nevoa u1ythica, ven-
do-se a si na sua propria invenção, é que
essa vegetação espontanea alargue os ramos, crPs-
cendo, até cair por fim, esgotada a seiva. Quando
a qneretn derrubar a machado, nasce1n das feridas
rebentos mais viçosos. Por isso o critieismo antigo
não fazia senão precipitar cada vez ntais o romano
no desvario da allucinaçâo aninlista, provocando
u1n movinwnto regressivo e1n vez de incitar it
n1archa no sentido do progresso.
IV
A Grecia
1.
Fossetn quetn fossem os pelasgos, esses prede-
cessores dos hellenos no solo grego, e a quetn elles
ehamava1n «filhos da terra negra» pelos considera·-
reni autochtonas, t é facto que as triLus iminigra-
<las posterionnente, e1n vez de extenninaretn os
<leuses indígenas, os incluíram no corpo das suas
tnytltologias.
Esses deuses attestan1 os motuentos primordiaes
das creações imaginativas, mostrando uma vez
<linda a constancia da evolução dos pensamentos e
fónnas 1nythicas. Diz-nos Hesiodo que o «reinado»
de Zeus foi precedido pelo de V aruna, noticia
que, traduzida criticamente, significa a preceden-
cia do tuytho do céu nocturno ou crepuscular do
C:-Jtado nomada, ao céu luminoso da vida agrícola.
Nos animaes que posteriormente são os con1pa-
n heiros ou servos dos deuses, vê-se tambmn o
resto do animis1no zoolatra en1 que esses animaes
eran1 os proprios deuses: a aguia de Zeus, o lobo
de Apollo, o mocho de Athenea, etc. Por outro
lado, encontram-se numerosos fetiches, cotn a vara
ou « sceptro » de Pelopidas em Cheronea, como as
pedras sagradas de Delphos e outras; como, entre
1 V. Raças humanas, 1, pp. 175-8.
L. III.- IDEALIS!\10
muitas arvores, o carvalho de Dodona, no templo
do Zeus pelasgo do Epiro que adquiriu utn lugar
en1inente na mythologia dos gregos, continuando-
se a ouvir o oraculo no ciciar da ramaria da ar-
vore santa. Os seus fieis, selloi_, foram tantos que
d' esse non1e, diz Ti ele, veiu o nome nacional de
hellenos substituir a antiga denominação de grai-
koi. Oraculos de um povo rural, os pelasgos ou os
gregos pri1nitivos adoravam ao lado de Zeus u1na
deusa que em Dodona se chama\"a Dionê, etn
Olympia Hera, adorando tambem em Pan um
fauno protector das pastagens e das cearas.
N' este m01nento retnoto, as n1ythologias poste-
riorrnente divergentes de italos e gregos denun-
cian1 un1a identidade. Dio,,.is-Jupiter é o proprio
mytho de Dyaus-Zeus, V esta é flestia, Juno é
prova vehnente Dionê; J ano, ao que se pretende,
corresr)onde fórtua o-reo-a de Zen · 1\Ials e Ares
b b '
são identicos; Neptuno, o Apâ1u-napat dos anti-
gos aryanos, não apparece, perdeu-se entre os
gregos. O leitor sabe que a theoria da identidade
primordiHl dos povoadores da Italia e da Grecia,
isto é, de que a Grecia foi povoada por un1 ramo
de italos é acceite por 1nais de um nH•stre en1
ethnog-enia: t 1\Ias, ao passo que a formação da
n1ythologia latina se fez sobre si, vindo a sof-
frer influencias nào-aryanns só e1n tetnpos ple-
nanlt>Hte historicos, as immigTações de italo-gre-
gos na Greeia foran1 snecessivas, e a ultima, a
dos doricos, no XII seculo antes da nossa.
lançon para a Asia-nH·no•· os eolios, os aehaios,
os jonios, pon<lo essas familias lwllenicas em con-
taeto proxi1no corn os phrigios c coin os senlitas
da Phenicia.
1 V. • 1, )'Jl. 180-1.
IV.- A GRECIA- f. 251
l)'essc contacto resultou a civilisaeão brillw.nte
que precedeu a grega propria1nentc dfta c avassal-
lou a costa occidental da Asia-tnenor e Creta, con1
a supre1nacia. dos lydios na Troada e na Lycia e
co1n o reino poderoso de l\Iinos. Da penetração
dos povos diversos no extremo golpho mcditerra;
neo, da disputa das colonias em que o grego sue-
cedeu ·ao phenicio, t veiu a introducçào dos ele-
mentos nrlo-aryanos no corpo da mythologia rural
prirnitiva. Na tradição troyana vê hoje a critica
os docurnentos da justaposição : ao lado de no1nes
assyrios con10 Ilos (Ilu) e Assarakos, ha no1nes
phrigios cotno 1{apys, Dymas, Askanios, Kasan-
dra, e puros no1nes gregos como Andromacha, As-
tyanax, etc. Curtius, o perspicaz e sabio historia-
dor da Grecia, den1onstra o facto, nos nmnes du-.
pios de mais de u1n dos personagens da epopêa
troyana, como Paris-Alexandros, Dareius-Hector,
notnes em que a primeira fórma é phrigia, a se-
gunda grega.
O n1ytho do heroe, tnytho do pensamento se-
mita no qual o 1nedianeiro (que por varias fórn1as
a imaginação nunca póde deixar de conceber), é
um homein e um luctador- isto é, a vontade
omnipotente tornando-se real e por isso limitada
etn bora desco•nn1unal na força e na piedade- o
n1ytho. s01nita do heroe, dizen1os, nacionalisou-se
grego. O Sandâm assyrio, Samsão israelita, l\Iel-
karth phenicio, fez-se l\Ielikertes ou l\iakar e en-
carnou no Heraldes neo-aryano, que com Diony-
sos, Danaos, Argos, Agenor e outros representan1
a pleiade propria1nente grega, a cujo lado Cadmo,
o irmão de l{ilix e Phenix, ve1n assentar a tradi-
ção setnita.
1 V. Raças humanas, u, pp. 202-5.
L. III.-
Além do n1 ytho do heroe com os seus h·aba-
lhos -noção distincta da dos eponymos cuja ori-
gem é em toda a parte autochtona por ser psy-
chica- o grego, ao que se crê, recebeu do phe-
nicio o culto dos planetas, a divindade das es-
trellas e a arte de representar os deuses por
itnagens. E alétn das tnodificações formaes que
dão para logo á mythologia grega utn caracter
novo, observam-se influencias tnais intimas que
1nodificam a expressão religiosa do Olytnpo, por
introduziretn na piedade sitnples do grego ele-
lnentos de un1a con1puncção profunJa. dando um
(•unho de mysticistno n1etaphisico aos sentitnentos
que, entregues a si, os italianos formulatn n'utn
ritualisn1o jurídico.
. Qualquer que seja o valor da palavra l{ronos,
é certo que nada ha de con1mntn entre ella c o
Chronos «tetnpo>>, e que o deus que n1utila seu
pae e devora seus filhos é de provenicneia ge-
nuína norte-setnita: um deus da treva que devora
a luz, deus da noute que absorve o sol, seu filho
na fúrma d'essa pedra que é Zeus, e que o pae é
forçado a votnitar na n1anhan seguinte. O Oly1npo
rural nco-aryano rejnvenesria-se de tal Juodo com
1nythos astraes for1nulados pelos setnitas, e, assitn
con1o o Zeus pelasgico de 8alamis, tnodificnudo a
sua phision01nia sob a. influencia de
se tornava Zeus-Epikoinios, tambern o .Zeus de
Creta veiu para a vcninsula e supplantou na vene-
ração geral o de Dodona.
No etnpyreo fen1inino a lubrica Astarte ou
Ashtoreth de Sidon, ou Istar de Babylonia, fez-se
.Aphrollite e os elmncntos que c01npunhatu a I>hi-
sionmnia sagt·:-ula de Tanith cspalharatu-se por
outras divirHhules. Os tnythos situplPs da flo-
resccncia rural ganharanl assi111 lia Ü rccia Ulll
IV.- A GHECIA- 1. 253
cunho qnc não tive1·am na I tal ia- u1n fundo de
expressão tnystica genesiaca, expresso comtuao em
f<)rmas de uma poesia alegre, cm vez de o ser
nos ritos da orgia funcbre. De tal f<)rma o my-
tho ing<."\nuo da Derneter benefica, a terra-m:lc
que fructifiea cm sna filha J{ore, florida prima-
vera creada por um Zeus protector da agricul-
tura e distribuidor da abundancia: de tal f()nna,
esse n1ytho rural genuinamente greg0, adquire
u1na expressão mystica no mysterio eleusino e1n
qne a influencia estranha juntou a noção profunda
dn 1norte na pessoa da deusa obscura do n1undo
inferior que Poscidon torna mãe de Persephonê.
Do tnesmo modo, ao lado do tnytho de Prometheu,
1nytl1o neo-aryano, co1n as suas 'paixões e attribu-
tos humanos, na lucta parallela de Zeus
c Kronos e Ouranos um dran1a cosrnogonico de
carncter e de origem semitas.
Assim, emquanto umas vezes a assimilação de
eletnentos estranhos nos mythos indígenas é per-
feita, como nos exemplos de Dionysos, de A poli o, ,
de Athenea, outras vezes n1antém-se o duplo as-
pecto, como se observa na A.rtemisa joven, pura e.
casta, proteetora Q.a 1nodestia. e da innocencia,
hostil a tudo o que é selvagem e lubrico; n'essa
hellenisada que o grego não póde Inais iden-
titicar co1n a densa sanguinaria e sensual da Tau-
rida, da Asia-menor e de Creta. Hellisando umas
vezes os n1ythos estranhos, introduzindo outras
nos mythos ruraes indígenas as idéas n1ysticas dos
povos visinhos, a Grecia coloriu cotn un1a tinta es-
batida de sen1itisn1o o corpo das suas invenções
rusticas. A creaçào e a morte, a cosmogonia e a
eschatologia irn prirniram de tal fórma um caracter
metaphisico á mythologia ingenua, pondo as pre-
' · missas de problemas que o pensamento dos philo-
254 L. lU.-IDEALISMO
sophos rumina, buscando explicar dentro do opti-
misnlo poetico dos neo-aryanos as invenções do
pessimis1no terrível ou orgiaco dos sen1itas.
Da Asia-menor e d' esse n1ovin1ento de penetra-
ção semita não veiu porén1 á Grccia apenas a vi-
são de nn1a costnogonia suave, nen1 o receio vago
da n1orte n1ysteriosa. O sol tnedianeiro ganhou
tamben1 ahi nma expressão n1ystica; e Apollo,
collocado ao lado de Zeus, n'nrn empyreo esbo-
çado con1 linhas de piedade e justiça, tornou-se na
itnaginação da Lycia o rudimento de un1 futuro
«mytho do pensamento))- o Inedianeiro ideal, verbo
de justiça e atnor, christo da theologia delphica.
2.
Pequenos sytnptotnas dão a chave de grandes
cnygtnas. Já dissen1os que, orando, o rotnano ve-
lava a face: o grego olhava para o deus con1 a
cabeça descoberta. Na attitude encontra-se a reve-
lação do sentin1ento piedoso, e n'este a idéa que
anin1a o n1ytho da invençã.o religiosa. O grego,
perante o altar de Apollo c1u Dclphos, não teinia
-adorava.
O 1nytho apollineo dos doricos é a 1nais elevada
c a 1nais pura concepção religiosa do idealisrno
aryano- a tnais Lella invenção lntn1ana na região
aerea da phantasia piedosa. No hellenisn1o, que
ten1 cn1 Delphos o seu nncleo, encontra-se a syn-
these snpren1a da n1ythologia aryaua, formulada
n'un1 <<lllytho do pcnsatncuto)), n'tuna in-
Yeução divina de caracter tnetaphi::;ico c HlOral, fi-
lha, sc1n tlnviJa, das imagiuativas
pt·i monliaes, tnas revcsti<la c eomo q nc rPu1oddada
}H'lo )'f'llsmnPnto piecloso. a rl'ligi<tO de Es-
chylo, t! ai nua a de Soplaoclcti- c por Í::;so o thea-
IV.-A GRECJA--2.
255
tro gr0go do grande scculo é para nós, europeus,
-:una fliLlia tão sagrada co1no os hymnos da cotn-
pnn<'ção prophctica de Israel. ..
• J{t, antes ele Ilomero, cm Delphos, no sopé do
n1ontc Parnasso, havia um oraculo • fatnoso de
Apollo. Zeus e Dionysos habitava1n tatnLeni o tem-
plo que se tornou sacrario da força dorica quando
essas tribus hellenicas deixar:un a Thessalia, e,
emigl'ando, levara1n por toda a Grecia o culto da
divindade pythica. Delphos tornou-se a capital da
liga amphyctionica e o centro da unidade nacional
dos gregos da grande éra; os sacerdotes do tenl-
plo ganharam un1a influencia soberana nas insti-
tuições, nos cultos, nas festas; o oraculo pythico
tornou-se a voz protectora da Hellade, e A poli o o
orgão do bellenismo, n' esse período da hegemo-
nia spartana que é o acn1ne do desenvohTitnento
do idealismo Inythologico dos gregos.
A legislação de Lycnrgo foi sanccionada em
Dclphos: o sanctuario do deus era o supren1o tri-
bunal da ordem e da paz na virtude limpida. Da
Phrigia, da Lydia, da Italia inteira e até da pro-
pria R01na, vinham a Delphos consultar o orarulo
de um templo onde o estrangeiro era hospede c não
hostis} onde não havia lugar para os tropheus nem
para as offertas sangrentas das guerras civís. Na
placitude lnnlinosa do céu do idealismo grego, o
antigo optin1ismo solar do aryano attinge uma pura
expressão Inetaphisica- é a ordem, a lin1pidez do
coração piedoso. Ao passo que o romano punha
toda a virtude no rito, o grego apollineo punha o
tnererimento inteiro no estado da ahna: uma gota
apenas da agua sagrada de Castalia bastava para
a purificação, e nem todo o mar com as suas on-
das seria capaz de lavar as nodoas do coraçuo
polluido!
256 L. IIJ.- IDEALISMO
O genio dorico, imprimindo assim um caracter
metaphisico e moral ao culto apollineo, transfi-
gurava tatnbem o Olympo inteiro, dando ao Zeus
de Elis o cunho sagrado que fez d' essa região da
Grecia a terra santa do hellenismo, depois da ins-
tituição dos jogos olyrnpicos, durante a hegernonia
ele Sparta. O monotheisrno, ou pelo menos um
monarchisn1o olyrnpico sob a soberania de Zeus, é
o aspecto de unidade necessaria que na evolução
formal do mytho exprime a sua idealisaçâo. Zeus,
-o ar luminoso dos prirnordios, o dyaus da my-
thologia aryana, ainda hoje Deus,- é absoluto,
não á n1aneira de utna potencia voluntaria e crea-
dora, conforme o concebeu o naturalistno rlos se-
mitas, mas á n1aneira de uma idéa synthetica, a
idéa do « pensamento em si » do Universo. Hera,
sua esposa, velho mytho lunar obliterado, embora
se lhe opponha, é tão incapaz de o dominar como
seu irmão Poseidon. O verbo da divindade é
Athena e é Apollo, o medianeiro-a1nbos filhos. A
genealogia mythologica é sabidamente o n1ytho da
dcscendencia das percepções no seu encadeamento
logico.
Em AthPna, a l\{êtis, estava a razão e1n pessoa
c a sabedoria do divino pae, que o aeompanha e o
inspira obedecendo-lhe, porque a sabedoria que é
filha da nossa é ao n1estno ten1po
aquclla que nos dirige, obedecendo-nos porém
eorno instrumento da nossa vontade em aecào.
A poli o é o proprio Zeus lnunanisado, o filho. ;ne-
dian('iro ou vc>rbo: cinco seenlos depois, r ... eus
S(Têt o Padre-eterno, Apollo sC'r:Í Jesus, (1uando o
rnessinnismo de lsraei, fundindo-se na eo1n
ns rPliqnias do lwllPnismo caído, produzir a tny-
thologia. (•hristan. rl,:unb<'nl então lr·is ou J[erm('s,
os rnensagPiros da divindade no tnnndo, dentro da
IV.- A GRECL\- 2.
rcnlid:ulc do qnnl o idcnlisrno mythologico não
concebe que a <livindade pnra possa manifestar-se,
se tornarão archanjos revestindo os caracteres dos
dcnlinrgos c dos hcroes que o povo ru<le, incapaz
de attingir a snbliinidadc da interpretação thcolo-
gica, continúa a ver nos lugares sagrados, continúa
a implorar con1o 1nedicos nas fontes maravilhos8s
qne docuincntam os restos archaicos do ani1nismo.
J<í no período homerico, todavia, já antes da
edade pura do idealismo dorico, a mythologia dos
hellenos apresenta un1 estado de anthropOinor-
phisrno que Inanifesta ao mesmo tetnpo a linha do
seu desenvolvimento e un1 vicio organico, tam ben1,
na sna constituição. Os deuses perderam já todo o
caracter nebuloso de mythos astraes: são concebi-
dos con1o homens d'tnn mundo superior contraposto
ao 1nu:odo real, que só se distingue d'elle por ser
finito. Assin1 tamben1 os olympicos se distinguen1
dos hon1ens principalmente por serem Ün1nortaes,
não por virtude de um principio transcendente ou
ideal, n1as apenas pelo fluido particular que ern
vez de sangue lhes corre nas veias : o ixog da
1nythologia achaia é a súnuJ, da mythologia ve-
dica. Desenvolvendo-se, pois, porque a humanisa-
ção dos deuses extrahidos dos mythos é um pro-
gresso, a mythologia mantinha-se no terreno de
um realismo infantil conciliavel co1n todas as allu-
cinações do animismo. As apparições de almas ne-
bulosas eram visões de homens transfigurados, o
Olympo uma phantasmagoria, a mythologia tuna
fabula- c, sobre esse eh aos de pensa1nentos, a
morte indefinida e obscura pairava, como nos pro-
prios mythos primitivos, na fórma de uma guela
aberta para tragar os homens- para tragar o pro-
prio Olympo, quando as idéas do Egypto e os cul-
to:::; do Oriente viessem invadir o solo da Grecia.
I 18
I
I

I
258 L. III.- IDEALIS.MO
1\Ias o instincto de idealisn1o que corria no ce-
rebro dos como piedade e;n uns, como
poesia em outros, como religião nos doricos, e
co1no arte e1n Athenas, dava já nos ten1pos hoine-
ricos aos deuses recebidos prinlitivatnente dos as-
cendentes aryanos e dos se1nitas na Asia menor,
uma côr sua propria. Hennes, o antigo n1ytho
arya.no do vento conductor das ahnas, podengo
de Yama no céu vedico - mytho conservado na
sua pureza ainda visivel nas fabulas que a in1agi-
naçào poctica lhe attribue, co1no o rapto das vaccas
(nuvens) de Apollo, a morte ele Argus, o duello
com Stentor, etc.- Hermes torna-se na mão dos
gregos o medianeiro e o arauto de Zeus, e o deus
da Inusica, da eloquencia, da rhetorica dos argu-
mentadores. Por outro lado, a deusa
phenicia de Chipre e de Cythera (Astarte-Ashto-
reth-Istar) que os gregos adoptara1n cotn l{inyras,
con1 Adonis, com Pigmalião; deusa senlita que
( cotno o leitor viu) era o mytho da fecundidade
geradora da agua cotnbinada com a influencia ge-
nesiaca da lua; A phrodite, dizetnos, sáe da onda.
c·o1no o typo da belleza e da graça na alvura da
e na fluidez voluptuosa da vaga. ondeante,
YivelHlo n;> Olyn1po co1no a deusa da priuutYera.
nas suas flores, da geração no seu erotistno.
Dir-se-hia que o n1undo, co1n os mysterios pro-
fundos que o agitatn, apparece ao grego cotno
UHUt paysagen1 suave, de contornos breves, senl-
pre graciosos, n'un1a atlnosphera de luz doce e
1wrfurnada. A sua vista. não penetra o
ao seu olfacto repugn:un as exhal:u;ões do labora-
torio da vida. () dia corre plaei(lo, a onda Lrinca.
sobre a praia loura, o sol sciutilla na;:; tnattas de
l(Jtu·eiros viçosos: a vida é al•grc, a falia utn
canto, co1no o do rouxinol, <lc tuua tneloJ.ia. nítida.
IV.-A GfiECIA-3. 259
-e breve. Tudo é classico cm bclleza harmonica.
Do conductor das ahnas no céu profundo fez-se o
1uensageiro alegre de L;cus; do 1nytho obscuro da
geração, a voluptuosidade encantadora do amor.
Ao idcalis1no csthctico veiu o dorico dar uma
expressão piedosa. Podia o grego entoar outra vez
o canto largo dos hytnnos veclicos? Não. A Grc-
cia é tninuscul:t diante da Asia; o Parnasso tuna
collina diante do Himalaya. O canto que se ou v e
en1 Dclphos é fugitivo: ha apenas u1n Eschylo,
con1o nn1 dia ele sol claro e forte no meio de utna
longa pri1navera atnena. As leis de Lycurgo srio
tanto un1 esforço co1no a piedade ideal de Es-
chylo: o grego, fatigado de heroisn1o, an1hiciona
a vida solta da democracia, e o culto alegre de
Dionysos, enchendo os bosques de 1nurta e louro
com os sons festivos da flauta. amena.
A hegetnonia spartana cáe, cáe a aristocracia
dorica, despovoa-se o sanctuario de Delphos, Athe-
nas succecle a Sparta, depois que a Grecia attin-
gin a gloria b3.tendo o persa. Victoriosa, torna a
si, relembrando-se do passado alegre e solto.
3.
Deve-se attribuir ao contacto retnoto dos gre-
_gos co1n o naturalistno profundo dos semitas o ca-
racter superior que tetn a eschatologia hellenica,
se a comparatnos á latina? E' natural. A se-
mente do christianistno europeu foi lançada á terra
doze ou quinze seculos antes do apparecimento
de Jesus e da crise que rev·olucionou a mythologia
classica.
Entretanto, nas concepções da vida ultra-tumu-
lar encontra-se o tnestno dualistno que obser\Tá-
mos no syste1na dos mythos astraes: a penetração
*
260 L. III.- JDEALISliO
dá-se, 1nas vê-se ao mesmo ten1po um parallelisino-
nos elementos que não poderam chegar a fun-
dir-se. A morte se1nita, realista, faz do defuncto
um ser que existe em sombra, sen1 acção nem
consciencia, prolongando melancolica1nente un1a
vida como a real, uma vida escravisada ao desi-
gnio da vontade transcendente. E ao lado d'esta
vê-se a morte indo-europêa co1n os seus mythos de
viagens afortunadas em que a alma era levada
para o occidente ao pôr-do-sol, entrando nas ilhas
abençoadas do Elysio.
Os mortos de Homero te1n uma existencia nitra-
tumular realista. A forn1ula usada ainda hoje «que
a terra lhe seja leve!» vem d'então; o defunto re-
clama domicilio, alimentos, vestnario : por isso lhe
dão sepultura, por isso ha banquetes e offertas fu-
nebres. Que lhe não faltem a1nantes! Quando, to-
mada Troya, cada qual voltava a casa trazendo
comsigo uma captiva, os gregos immolavam Poly-
xena aos manes de Achilles para que ta1nbem elle
tivesse no outro-Inundo a sua parte de regalos.
Os proprios hcroes vivem no ttunulo como os
mortaes, apparecendo como ahnas-penadas. O seu
culto é un1 systema de praticas fetichistas ou ani-
mistas, em que se vê o residuo das invenções pri-
mitivas. Os 1narinheiros que navegavam no Ponto-
enxino, ao passaren1 {t foz do Ister, onde estava o
tumulo de Achilles, viam o heroe, divina1ncnte
bello com a sua ar1nadura de ouro e os seus ca-
bellos louros, dançando e cantando um pean de
victoria. Os habitantes da Troada diziatn qne Jici-
tor habitava a sua terra, c viam-no tan1Lcn1 :is
noutcs nas exhalações dos rela1npagos ilhuninando
a can1pina. Em 1\Iarn.thona npparec0u o espectro
de r·rhescn vf'stirlo co1n lUlU\ arnuulnra de luz a
guiar os batalhões gregos contra os Larbaros. En1
IV.-A GRECIA-3.
26t
·Sahunina, conta Plutarcho referir a lenda que
no decurso da batalha surgiu utna grande luz do
lado de Elcusis e a planieie desde 'l'hriasia até ao
1uar repercutiu vozes confusas con1o de multidão
cantando o côro 1nystico de lacchos. Viu-se utna
nuve1n de pó ir subindo pouco a pouco nos ares,
depois baixar c cair sobre os navios; viu-se no
céu unut legião de hotnens arn1ados vindo desde
a ilha de Egino en1 soccorro dos trir01uos dos gre-
gos. A allueinação collectiva, nos 1nomentos febrís
das batalhas, não acabou co1n os gregos: todas as
chronicas de todas as nações tnoclcrnas estão cheias
de n1ilagres sitnilhantes. Na exaltação do perigo, o
fundo de instinctos hutnanos sobe corno un1a eru-
pção, c o pcnsan1ento, por claro que seja, contur-
ba-se na nntltidão delirante.
O heroe grego é con1o o penate latino, corno o
santo christào -. ou utn protector local, ou utn anti-
doto contra certos males. Contava Isocrates que
u1na sécca assolava a Grecia, quando os habitan-
tes de Egino resolveram fazer preces ad petendcnn
pluviam a Eaco :. o filho de Zeus intercedeu e o
flagello cessou. O poeta Stesichore cegou por ter
fallado n1al de I-Ielena, n1as confessando o seu
erro, Ilclena restituiu-lhe a vista. Nas suas luctas,
as cidades oppunhaJ!l os seus penates: quando Ar-
gos invocava Adrasto contra os ini1uigos, Cli;:;the-
nes soccorria-se a l\Ielanippo. Os restos dos heroes
eran1 un1 thesouro, con1o o foram depois as reli-
quias dos santos na Edade-media. Quando Citnon
cercava Skyros, a Pythia, consultada, respondeu
que Athenas só venceria se trouxesse para dentro
de seus muros os restos de Theseu. O resto do
heroe, ou do santo, é um fetiche, mas no facto do
non1e e da personalidade nitida vê-se todo o pro-
gresso d' este mytho sobre o dos penates innomina-
262 L. III. -IDEALISMO
dos de Roma, espíritos que ainda não chegam a
ser gente. A individualisação anthropomorpha é o
processo constante da evolução de todos os mythos
animistas, e, como Tiele diz, uma divindade sem
nome denota uma potencia que ainda não foi hu-
manisada.
Todo o pantheon grego, astral e psychico, su-
perior e inferior, nun1Z.na e geni-i_, para usarmos
dos termos latinos, nos apparece já sob o aspect()
de figuras humanas. E já en1 Hesiodo ven1os tam-
bem formulado o mytho das ilhas beatas, região-
mysteriosa, Elysio de delicias reservado para al-
guns heroes e para raros Inortaes, como Radha-
manto ou 1\Ieneláo, Dio1nedes, llarmodio e Aris-
togiton. Con1tudo, se dos heroes só Herakles en-
tra no Olympo, tambem dos mortaes são poucos os
que deixam de obedecer ao destino commum ~ a
humanidade-o obscuro Hades. A idéa de que a
personalidade consiste nos men1 bros e o principio
da vida no diaphragn1a, implica a noção do acaba-
mento com a morte. O Tartaro, residencia dos ty-
taens vencidos, onde habitam Sisipho ou Ixion e
Tantalo, é tambem um destino excepcional reser-
vado aos grandes mythos do crin1e. Absorvidos no
nada os hontens na sua generalidade, e errantes
na terra como divindades chtonicas os heroes, a
eschatologia grega mostra-nos u1na construcção in-
consistente na qual a doutrina das penas e casti-
gos é apenas o privilegio de seres cxcepcionnes,
ou a consagração n1oral de velhos tnythos aniruis-
tas.
O espírito mystico não profnndon ao ponto de
incluir a humanidade inteira n 'nnt destino aecen-
tnado por utna idéa moral, saíndo cmntudo da es-
phera II<!Lulosa da iwl('terminaç:to nnitnista abso-
luta. Sobre o fundo do nevoeiro das ahnas desta-
IV.-.\ GTIF.CIA-!..
cam-sE' illun1inadas com a luz elo Elysio, ou agri-
lhoadas no 'rartRro, pessoas qnc, sendo typos,
conseguem chC'gar a representar no seu todo a fa-
milia hnnutna. (J religioso oscillava in-
deciso: proseguiria na estrada lutninosa do idC'a-
lisnlo apollinco? ou inelinar-se-hia fatigado de t{·n-
são heroica, para o mysticismo realista, accessivc>l
ao commnm, facil, ingenuo, e alliavel á divinisa-
ção espontanea da natureza?
4.
Nós já indicámos o caminho que a Grecia to-
Jnou. O culto de Dionysos e o mysterio de Denle-
têr, nas suas origens aryanas eivadas já de mys-
ticismo orgiaco e de phantasmagorias penitE>ntes,
servia aos tyrannos melhor do que o culto de
Apollo, o ideal creador dos heroes. Porventura a
capacidade dos gregos não chegava para consti-
tuir em nortna o estado de elevação mental que
a nação attingiu na pessoa dos grandes homens
do v seculo; on acaso foi a sua historia que,
dando a hegemonia ás plebes, impoz á socie-
dade como typo utn pensamento mythologicamente
archaico e metaphisicamente inferior. Com effeito,
os sacerdotes de Delphos, não chegando a cons-
tituir-se e1n classe dominante como os brahn1a-
nes, não poderam tirar do culto apollineo uma re-
ligião theologica á maneira da India. O hellenisino
ficou ondeante como theologia, sem se consolidar
como religião: da mesma fórma, como um esboço,
ficou o socialismo spartano. Utn e outro viverão até
ao fim: Platão virá as reminiscencias
classicas eivadas de todos os ele1nentos posteriores
dissolventes que o povo, dotninando na pessoa dos
tyrannos ou dos demagogos, vae introduzir, rea-
2ô4 L. III. -
gindo contra u1na idéa de orde1n supenor e de li-
Lerdade 1uoral que não attinge.
Pisitrates e os seus successores favoreceran1 a
expansão do culto de Dionysos que as 1nassas ac-
clanJavaiu chorando no n1ysterio sagrado de Delne-
ter, en1 Eleusis. Onon1akrito deu ao mytho do
dPus da 'fhracia um novo requinte tnystico. Pin-
àaro, iniciado nos n1ysterios eleusinos, desenvol-
Yeu os dithyra1nbos coraes bacchicos, lançando a
setnente d'onde nasceu o theatro. Surgiu então a
grande éra de Eschylo e de Phidias, Inmnento de
equilibrio fugitivo en1 que o idealis1no grego se
n1anifesta co1uo arte na Athena do Parthenon e no
Zeus de Oly1npia, manifestando-se cotno pensa-
Inento nas tragedias do propheta incon1paravel.
.. A.hi, n'tnna co1nbinação excepcional, apparece1n as
lieções nitidas co1no os raios do puro hellenisn1o
dorico, fulgurando sobre o firn1a1nento profundo
das sombras n1ysteriosas de Elcusis. Apollo co-
roado de gloria heroiea destaca-se da nuven1 da
indeterminação, co1no tun 1ned.ianeiro e un1 Ycrbo
- co1no um tnytho pura1nente racional.
1\las por isso n1esiuo a imaginação vulgar · con1
as suas necessidades de 1nythos realistas não é ca-
paz de a ttingir a subli1nidade da fé, pura de repre-
sentações nitidas. O instincto da grosseria d.mui-
na-a. O senlita creou con1 elle J ehovah, que ab-
sorvendo tudo na sua vontade absoluta, não iiu-
plica duvidas por isso n1esn1o qnc destroc o ho-
Incnl. () grego, cheganJ.o aos confins do pcnsa-
lllcnto, para alént de A pollo punlw, Zeus- e para.
alént de Zeus? Para além do Zeus, a a
fatalidade, u1n deus innotninatlo c por isso obscuro,
tuna gncla ele SOJuLra qnc, expri1nin<lo a obscuri-
dade da n1orte, estava abPrta c inuuiuPnte para
tragar o Olyu1po iutciro. 'rodo cllc lhe obedecia..
IV.-A GltEGIA-,. 265
O grego que não pouia achar theoria para a
1norte, deixava con1 u1na ferida aberta as suas bel-
las e eternas theoria8 ua vida. J\l01·tc c vida cxpli-
cmu-se rcciproeanwntc no seio da natureza in-
consciente cn1 transÍ<)rlnacão COilstaute, e no seio
da força,- vontade- e
ch•rua. A 1\Ioira g1·cga é cotuo a rocha escura do
r<:'cife rc1noto onde vae naufragar a Lella nau, na
sua viage1n pelos 1nares de Aphroditc doirados
pelo sol de Apollo.
Por ci1na de atnbos, natureza fonnosa e crea-
dora e idéas puras e piedosas, por citna de atnbos,
paira o darão de Zeus ; 111as o pensan1ento in-
daga, ao caír da noute, ao caí r da vida, qual
é o Principio : se a l\Ioira innonlinada, ou Zeus co-
nhecido? Nasceu o dia da noute, ou a noute do dia?
l\Ianda a vida sobre a morte, ou a 1norte sobre a
vida? En1quanto este dualismo 1nythologico se não
resolve n'tuu 1nytho synthetico, á maneira do de
O siris ou de J ehovah, o pensa1nento fluctua inde-
ciso, e a religião precaria. A situação a que o helle-
nisiuo chega, é aquella a que chegou a mythologia
dos Vedas. Dir-se-hia que ao aryano faltava a ca-
pacidade para defhlir a 1norte com a sua repu-
gnancia ingenita pela sombra. 1\lariposa, voando en1
torno da luz, ia quei1nar-se n' ella.
Introduzir a tnoralidade social no Olympo huma-
nisado, fazer dos deuses typos de virtude e pie-
dade, de heroisn1o e abnegação, já o grego conse-
guira, desenvolvendo a sua n1ythologia astral.
Doirar esse Olyn1po co111 tuna compuncção suave
e até uns longes de penitencia n1ystica, pudera
tan1be1u fazei-o depois da educação recebida na
Asia-1uenor. 1\'Ias fundir os tnythos do sonho e da
son1bra com os da luz, a n1orte con1 a vida, a
noute co1u o dia, isso não. Etnquanto o pensa-
266 L. 111. -
mento alado subia no ether, a meditação profunda
conservava-se nas regiões sombrias do animistno
psychico, conseguindo apenas pôr á frente da le-
gião dos espíritos phantasticos um mytho negro,
innominado e infurme- a l\Ioira.
No dia, pois, em que a crise ameaçou as institui-
ções e as idéas, alastrando sobre a Grecia a inva-
são de gente e de cultos de todas as partes, n'esse
dia o povo affiicto pela obscuridade da sua sorte,
dorido pela crueza dos males da sua vida, parado
diante do enygma da morte, absorto perante a vi-
são negra da l\loira -o povo lançou-se nos braços
de todas as superstições velhas e novas que pullu-
lavam nas cidades maritimas como as :Bôres de
peste nas lagoas putridas. Os deuses de fóra so-
pram no lar os mythos animistas, o ar povoa-se
de phantasmas, as ruas de santões, adivinhos, nla-
gos, ventriloquos. l\lultiplicam-se as sociedades se-
cretas, os conventiculos tnysticos. Toda a gente
endoidece, e Alexandre, na sua loucura épi('a, itna-
geJn da allucinação universal, é o Ante-christo. A
religião nova, formada com os detritos de tudo o··
que a historia trouxe para as praias mediterra-
neas, vae appare('er iniciando a Edacle-media, pe-
ríodo de gestação 1nythologica egual por tantos
lados aos periodos primitivos.
I

I
LIVRO QUAllTO
A mythologia christan
I
Crise da mythologia classica
1.
O desenvolvimento da civilisação antiga poz,
como é sabido, em contacto as mythologias j{t dif-
ferenciadas da I ta lia e da Grecia com as dos se-
mitas e dos egypcios. Não é menos sabido ta1nbem
que a mythologia latina obedeceu no seu desenvol-
vimento a poderosas influencias hellenicas, em pe-
ríodos já claramente historicos e quando a n1y-
thologia dos gregos, a principio á italiana,
se constituíra tambmn já sob a influencia de ele-
mentos phrigios e phenicios.
No ponto de vista a que obedece o nosso es-
tudo, nós podemos, pois, reunir agora n'tun só
corpo os dois ramos· da mythologia classica, para
observar a acção dissolvente que tem sobre ella
as duas noções profundadas pelo pensamento dos
semitas e dos harnitas, isto é, a 1\Iorte egypcia e a
Vontade hebraica. Parece-nos ocioso insistir de
novo sobre a theoria da formacão d'estas duas no-
ções que os povos da costa do 1\Ieàiterra-
neo formulam nos sens mythos theologicos ou «do
pensamento>). Parece-nos tambem desnecessario vol-
2ô8 L. IV.- A l\IYTHOLOGIA CIIRISTAN
tar a mostrar os 1110ti vos ou pelo menos o modo
porque a mythologia classica não chega a consoli-
dar isso a que chan1atnos mythos syntheticos, pro-
venientes da fusão intitna e da comprehensão reci-
proca das representações dos phenotnenos astraes
e psychicos.
A noção da que o Egypto concebe é
grosseira; a noção de Causa que o naturalisn10 se-
ln i ta imagina, e a Vontade transcendente e1n que
a localisa, são barbaras. Porém o pensatuento hu-
mano não socega se1n que ache tuna solução a
taes problemas- para que, finaln1ente, esgotada a
serie das soluções (1nythos racionaes successivos),
chegue a reconhecer o contrasenso de procurar em
si e comsigo a razão de si proprio ! U 111 tal es-
tado, que principia a ser o do nosso tempo, era
inconcebível ainda ha dezoito ou vinte seculos:
sabia-se 1nuito pouco, vivia-se apenas n'u1n canto
acanhado do Inundo.
Por gt·osseiras, pois, que fossen1 as noções de
Causa e 1\Iorte, por barbaras que parecesse1n com
razão ao idealistno indo-europeu os 1nythos theolo-
gicos do Egypto e da J udêa, é facto que o coin-
Jnun1 da gente encontrava n'elles u1na satisfação
intellectnal, que ne1n a l\loira grega nen1 o Fattunla-
tino podiatn dar, encontrando na cotnpuncção, na
penitencia e na orgia n1ystica, un1 alitnento para o
piedoso. A fonnação do ehristiauisn1o, vasta
nggregação espontanea das sn1nn1as das tres Iuy-
thologias nwditerraneas, affigura-sc-nos, pois, cotno
a traducção religiosa cl'csse tnovinu•nto de gcnC'ra-
lisaçâo hititorica deternlinallo pela fusão nutis ou
1ncnos eotnpleta das nações visiuha::; no corpo de
tnn i1nperio. t
t V. Ra.;as lmmauas, u, l'll· 25u-8.
I.-CRISE 0.\ !\IYTIIOI.OGIA CLASSICA- t. 2G9
Obedecendo j:í. pressão cxcrci<la pela invasão
das (loutrinas estranhas, tanto a Grccia co1no
Ron1a no platonismo c no stoicismo
<luas 'religiües (esse é o nome que convé1n ás phi-
losophias antigas) parciahncnte pcrcursoras da chris-
tan. Platão c os stoicos pretcndcran1 introduzir
no idcalisn1o as noções novas·_ estranhas, quer
ao hcllcnisn1o, quer ê.Í 1nythologia historica de
Ron1a. O platonis1no caracterisa mais propria-
Inentc este 1novin1ento na Grecia, o stoicismo é
mais particularmente italiano. Platão, para achar
a Causa e explicar a l\Iorte, inventa um mundo
phantastico de n1ythos racionaes- as Idéas, que
ta1nben1 volteian1 no ar ondeando como puros es-
piritos animistas. Os stoicos, appellando, con1o os
prophctas de Israel, para as revelações da cons-
ciencia, não chegam con1 effeito a definir o grande
n1ytho do dens-ex-n1achina da Judêa, e por isso
mantém a morte na sua obscuridade, deixando de
pé as superstições anitnistas que o romano alliava
á sua n1ythologia abstracta. En1 Platão e nos stoi-
cos vê-se pois o genio creador das duas mytholo-
gias parallelas formular metaphisicamente as suas
conclusões, sob a influencia externa das idéas ha-
n1ito-semitas, e sob a pressão de u1na crise social
dia a dia mais grave.
Vêen1-se ao mesmo tempo, na evolução do espi-
rito classico, os sy1npton1as que denunciatn a con-
elusão natural de um cyclo mythologico. Em
Roma, a tentativa de Augusto para restaurar a
religião de Numa. torna-se apenas uma consuin-
Inação do civilismo. O imperador é o deus-dos-
deuses; os la1·es são augusti; o pantheon inteiro e
todas as cohortes de genios reduzem-se ás propor-
ções de um culto burocratico, em que a extrava-
gancia dos scribas inventa o genio das Contribui-
L. IV.- A 1\IYTHOLOGlA CHRISTAN
ções-directas, genius porto1·ii publici! A faculdade
1nythogenica, munlificada nas secretarias imperiaes,
não póde evidentemente alimentar a piedade pro-
funda de un1 povo que, tendo vi vi do no medo das -
almas, gera na mente de ''irgilio um evangelho
mystico, tão precursor co1no o evangelho de Platão.
Ao inverso de Ro1na que divinisava os monar-
chas e as instituições, a Grecia de Evhemero hu-
manisava o Olympo, dizendo que os deuses eram
apenas homens-celebres de que1n a itnaginação
si1nples fizera indivíduos sobrenatnraes.
E assi1n, por duas vias oppostas, a Antiguidade
patenteava a conclusão do cyclo da sua Inytholo-
gia, reduzindo os deuses, nascidos das representa-
ções prin1itivas, á condição natural de pessoas hu-
Inanal:;. Não ha duvida que n' este mon1ento u1n
grão de sabedoria inspirava os homens, tnostran-
do-lhes os céus vasios, e dizendo-lhes que os seres
phantasticos era1n invenções do seu pensan1ento,
delírios da sua imaginação. E' o que o scepticisn1o
unctuoso de Plutarcho e o n1aterialismo das philo-
sophias e dos poe1nas nos affirman1.
Entretanto, os problmnas da Causa e da l\Iorte
1icavam se1n solução, ao 1nesmo tempo que, do ou-
tro lado do 1\Iediterranco, o Egypto e a Judêa.
acenava1n com dois espectros que faziam scisn1ar
c tremer, ao 1nesn1o ternpo que a invasão de fo-
rasteiros inundava co1n o::; seus cultos a Italia. e :t
Grecia, ao 1nesmo tcrnpo que o povo gentia na8
affiicç:ões da crise provocada pela tyrannia c pela
dcsordCiu mil i ta r e cconotnica, no 1nesn1o te1u po
que os philosophos e os poetas, Platão e \rirgilio,
:•prcsentavan1 as suas religiões antigas
}lOr u1n scntÍlneilto de piedade profunda c por UIU
de rnytho8 novos -n.s ldéas.
Conltudo, ncn1 a e8clmtologia virgiliana, IH'lll o
I.-CHI SE DA 1\IYTllúLUGlA 2. 27l
nmn as idéas platonicas- conjunto de
noções por via das quacs, parece-nos, a InytltOlo-
gia classica poderia ter continuado, smn christia-
nismo, a sua evolução nos tmnpos tuodcrno::;- ser-
vianl ás 1nassas ignaras c infelizes, estranhas á cul-
tura scicntifica, syn1pathicas á penitencia que lhes
consolava os a1nargores da vida, syn1pathicas á
protecção, ao dclirio, á vertigc1n, ti loucura tnystica
dos novos cultos qne invadiam a Italia e a Grecia
como precursores do christianisn1o e das cpochas
degeneradas que ellc dcnonlinou, consagrando-as.
2.
As guerras n1edicas, motncnto cuhninante da
historia grega, 1narcam a éra da invasão dos cul-
tos barbaros. Athenas levara as suas frotas e es-
quadras por todos os portos do mar Egêo, e os
n1arinheiros e soldados trouxeram para a patria as
relio·iões da Thracia da Phryo·ia de Chipre. Por
o ' b '
todas as colonias lavrava a propaganda dos cultos
indígenas no seio dos habitantes gregos, e as ci-
dades n1arititnas da península, onde o ntunero de
estrangeiros era cada vez mais numeroso, tinha1n-se
tornado focos de iniciação no delirio tnythologico.
A nova expressão m ystica e orgíaca dada ao
culto antigo de Dionysos e ao mysterio de De-
Jneter, sob a influencia dos paradigmas phrigios
d'estes ritos, produzia os desvairamentos Inystago-
gicos de Sabazios e as penitencias que con1punhan1
as ceremonias n1ysteriosas dos adoradores da 1\Iãe-
dos-Deuses. Dionysos, o deus bifronte da orgia e
do rnysticismo, é o nucleo em volta do qual se
consutnma a perversão da mythologia hellenica.
Sobre os momentos de un1 1nytho agrícola assenta-
ram os traços dos n1ysterios · genesiacos das lendas
272 L. IV.-A 1\IYTHOLOGJA CHRISTAN
de Attis-Adonis de origem norte-semita, dando
ao antigo deus aryano uma phisionomia nova: o
aspecto duplo de creação e morte. Baccho tornou-se
o deus funebre das angustias e penitencias; e o
mytho da n1ocidade florente, do gozo carnal da
·vida, do poder fecundante, como diz Pfl.eiderer,
appareceu co1no deus da natureza agonizante e re.
juvenescida, fluctuando entre a dor e a alegria ex-
tremas- as si 111 se exprime Otf. l\Iuller.
O seu culto fôra sempre um 1nysterio, por ser a
representação do drama da vida que tinha no or-
phismo um alcance acaso tão profundo cotno o do
Egypto. En1 vez da alegria desvairada, o pensan1ento
do antigo deus provocava nn1a tendencia asceta para
a pureza immaculada da vida exterior, fundada na
crença da ilnmortalidade e na esperança da purifi-
cação abencoada das almas. A abstencão de ali-
mento o celibato, a alvura dos:> vestidos e
todos os detalhes do culto descripto por Herodoto,
precedem os ritos das connnunidades therapentas,
essenianas e christans- d'esse christianismo que
se caracterisou no Egypto con1 os traços predonli-
nantes de uma theoria da morte.
O orphismo dionysiaco era, pois, esse terreno
ben1 preparado para servir á expansão dos senti-
mentos desorganisadores da mythologia classica,
amparado pelos tyrannos da den1agogia a quem o
hellenismo heroico e aristocratico não convinha por
não convir ao povo- conforme já indicêimos n'on-
tro lugar. E é a partir do IV secnlo que Dionysos
toma o nome de Sabazios, non1e phrigio, vestindo
a mascara. de Attis, o messias semita, e presidindo
ao soltar da orgia lubrica c asceta a que n()s as-
sistirnos c1n A sna missa celebra-se de
nonte, no segredo c na. f'scnri<lão da treva, con1
um rito de prornisC'uidaLle Iny::;tiea, ((porque o pu-
I.-CRISE DA MYTIIOLOGJA CLASSICA- 2. 273
dor 1nanda esconder o com1n0rcio entre os dois se-
xos» diz o Sicnlo. () deus é a serpente sagrada
fecundadora das 1nulhcres atacadas de erotismo di-
vino. Assirn foi a 1nãe de Alexandre que gerou o
heroe ao contacto das serpentes que no seu leito
snbstitniatn Philippe, o rei da 1\[acedonia; assin1
C'lla c as devotas do deus da Phrigia se mostrava1n
en1 publico com esses animaes enroscados. nos
seus thyrsos e corôas de bacchantes, ou deitados
sobre as ahuofndas de hera dos seus açafates mys-
ticos.
Sabazios, filho de Zeus, tem as hastes de touro,
vestigio da sua obliterada origem solar; a ser-
pente é o proprio Zeus, que introduzindo-se pelas
roupas, no seio das bacchantes, representa o mo-
mento e a fórn1a em que o pae dos numes vio-
lou Pherpbatta, a filha de Kore. A. lubricidade
sanctificada larga o freio á orgia que se solta em
danças desgrenhadas por toda a Grecia. As pros-
titutas são sacerdotisas, co1no Glaucothea; a prosti-
tuição é um rito: como em Babylonia nos degraus
do ten1plo de Istar. Ninos, Theoris, Trypheria,
Aristion, fazem do leito um altar, e nos conventicu-
los secretos dos fieis, eranos e thiasios, vêem-se
mulheres corr1o Phryné presidindo ás ceremonias
desvairadas. Evoé! Evoé! Os córos das bacchantes
offegando no delirio da orgia ou na loucura da pe-
nitencia, batendo nos peitos, expondo simulacros de
mortos, ou trazendo ao seio phallus in1pudicos: re-
presentando o enterro ou o amor, o leito ou o tu-
mula, n'um delirio que ve1n da allucinação do mys-
terio : esses bandos de mulheres religiosamente doi-
das dançatn por toda a Grecia, enchendo com os
seus gritos agudos o mesmo ar onde se ouviu a
nota suave, purissima da lyra apollinea.
Ouve-se agora o assobio excitante da flauta de
19
274 L. IV.- A MYTHOLOGIA CHRISTAN
lóto do Sabazio. Evoé! Evoé! A ronda das bac-
chantes vem descendo afogueada, ao sotn das cas-
ütnholas sagradas, nos pinhaes de Cybele. O vinho
espluna, os braços torcetn-se, o corpo inteiro, na
embriaguez da orgia, curva-se, enrolando-se cotno
a serpente 1nystica. Soltos os cabellos ao vento,
purpurina a face, offegante o peito, o proprio atnor
conforta Aristion, a bella entre as bellas bacchan-
tcs! A so1nbra do bosque enrarnado, a sombra do
antro sagrado de Creta onde habitaram os cure-
tes, assistiu ás festas dos dias passados, quando o
thyrso girava no rodopio das danças phreneticas ao
som do }Janeleiro e da flauta de Cybele, tocados pe-
los satyros, inventados pelos corybantes, nas trieté-
ridas em honra de Dionysos. Evoé! Evoé! O an1or
é cruel, a orgia pede sangue, os abraços reclan1am
cilicios. Roje1n-se pelo chão as bacchantes, dilace-
rando co1n as 1nàos a carne ver1nelha elas victi1nas.
O vinho e o sangue ruborisam os braços, pondo nos
seios e nos labios a côr Jo fogo. A noute desce, a
1norte chega, e ouve-se a voz de Bronlios cha-
n1ando- Evoé! Evoé! São as cha1nmas do facho
de llaccho despedindo no ar as faulhas vi v as,
coino ahnas, chatnando para a outra vida, n\una
ernbriaguez de incensos funebres, o côro que, rodo-
I)iando, cantando, no negrun1e da noute vae fu-
ginJ.o por entre as arvores, chorando em grita,
la v ado e ln lagritnas, para as terra8 distantes dos
altos uwntes da l)hrigia sagrada ...
Depois da orgia, a peniteneia; depois do :uuor,
a morte; depois do leito ve1n o tutuulo, UC'pois do
Sabazio ve111 A ttis·-Adouis, vc1n .t\titarte, a deusa
de llaLylonia a qnCin o ~ iniciados pagavarn con1o
a deusa-prostituta, juraudo pda anwlulo .. ira, a ar-
vore nascida da sen1cntc de A t t i ~ 'luatu.lo o n•uti-
laratn; ve1n Cotytto-Cybcle, a nova. Dmnctcr, l\Iãe-
'
I.- CJUSE D.\ 1\IYTIIULOGIA CLASS!CA- 3. 275
,}os-deuses cuja iniciação era.. ntn baptisrno cele-
brado ao sont do tan1Lor c <lo r;·um,oos_, disco de
cobre ou tatn-tarn sobre que se batia com u1n chi-
c·ote de tres ran1os de ossos. () delirio da tnortc
cotnpleta a. orgia <la vida: a paixão de Attis,
n1essia:5 do atnor carnal, rnutilado pol' ciurnes, so-
bre cujo cadaver a arnante chora, é o m01ncnto
<.le erupção do desespero agonisante, em que os
fieis se rojatn no pó, cobrindo-se de cinza., ex-
penitencia cruel os peccados de uma
or1gmn 1n1pura.
vcrtigen1 que endoiclece a Grecia, tresvaria
a Italia, invadida üunbcrn pelos deuses da orgia
n1ystica. No i\ .. ventino ergue-se uma Diana nova:
a Artmnisa de .1\Iassilia, deusa de Epheso. Do
Egypto vetn Isis e Serapis; <la Phrigia e da Cap-
pndocia. vern a Bellona, 1\Iagna-mater (Demeter),
ven1 Atti:5, vén1 por via da Grecia os thiasios de
SaLazio c a loucura ·das bacchantes; de Carthago
veni D·Ja.-Syria. (Bilit-Tanit), vém l\Iaiuma, Deus-
Sol, Elegabal: de toda a parte tuua nuvem de
nnrnes desvairados invad.en1 o pantheon ron1ano
que se despedaça apesar dos protestos dos stoicos
c das reformas de Augusto. Os felizes, os ricos,
escarnecen1 da religião antiga, as plebes n1iscra-
Yeis espera1u n1ilagres da allucinação dos cultos
novos. A Italia inteira, coalhada de funccionarios
e soldados, inventa, de rastos, abjecta e ridicula,
unut mythologia diversa- a dos in1peradores. Au-
gusto e Tiberio re:5istetn, V espasiano ri-se, mas
Adriano foi o olyrnpio_, e Nero o proprio Zeus, li-
bertador e salvad.or do mundo !
3.
Tamanha vertigmn obscurece a lucidez do pen-
sanlento. O mundo apresenta-se con1o un1 charco
*
2i6 L. IV. -A 1\IYTHOLOGIA CHRlST .-\N
onde as aguas quietas e transparentes se contur-
bam, subindo ao de cin1a os lodos do fundo revol-
vidos pelo tropear de um rebanho de elephantes
fugindo. A vasa das superstições anin1istas jazia
por baixo das camadas superiores de mythos pie-
dosos e racionaes ; jazia no fundo das aldeias afas-
tadas, em que as populações se conservam sem-
pre n'utn estado anachronico; jazia nos recessos
íntimos do pensan1ento das plebes das cidades, in-
capazes de attingir a elevação ela philosophia, n1as
passivas e guiadas durante os periodos de ordem
social.
Foi essa ordmu que a Antiguidade perdeu, e,
perdendo-a, desencadeou-se utn desvario de su-
perstição, onda obscura em que o n1undo europeu
como que recotneçou a historia. Obliterou-se o que
se sabia; desvirtuou-se o que se pensava. A socie-
dade foi decapitada intellectualtnente, e as popu-
lações, ainda no seio das fórnHlS civilisadas que a
itn"asão dos barbaros destruir, apresenta já
no religioso utu estado de barberie re-
gressiva.
O ar povoa-se de phantasmas, a in1aginação de
n1edos; nas ruas das grandes cidades antigns for-
n1ignm os adivinhos, os feiticeiros e mystagogos.
A tnythologia que deixara a l\Iorte esquecida,
acnba afogada n'tn11a erupção de anin1isn1o spiri-
tista que sobe no ar obscurecendo-o, e substituindo
:i. veneração dos oly1npicos huuinosos o culto da
Ilccatc nocturna- a lua dos ten1pos remotos, a
lua, pritnciro entre os fetiches cotu que o 1ungo
PYoca os mortos dos seus tutnnlos e chanw. os dcu-
Rf'S i1npondo-lhcs as suas ordens. Caligula, que
fclra cntf'rrado setn as ccrcmonias rituacs, errava
f'1ll ahna pelo espaço, c o n1l•<lo foi tau to, as n ppa-
ric;õcs tão n·pctidas, que o dcscntcrraratn para o
I.- CRISE DA 1\IYTHOI OGIA CLASSlCA- 3. 277
cnt0rrar de novo convenienternente, segnn<lo conta
Suctonio. Plauto falia de outro phantasrna. As al-
nlas ütTantes eran1 Inalcticas, á Inancira. dos tCJn-
})OS prilllitivos: ntalcficas, porque o n10<lo é affii-
ctivo. Atonncntavan1 os vivos, soltavatn as epiae-
mias, estragavan1 as cearas, arruinavatn o pobre
})OVO dC'svair:ulo que recorria aos <loidos c aos
<.·harlntàes pc<lindo soccorro. A loucura conside-
t·ava-se tuna possessão: diziam os gregos, de
1nan ou signiiica<lo de alma, d'onde vérn os
'IJuuzes latinos. O doi<lo denorninava-se em llo1na
cheio de larvas, cheio de almas de n1ortos.
E na divinisação espontanea das ahnas, o rotnano
chan1ava á epilepsia utua enfennidade sagrada ou
prophetica-lues deifica. As palavras entn1 feti-
ches, con1o nos ten1pos prinlitivos, con10 o vã.o ser
na glossolalia tnystica dos christãos; curavatn mo-
les tias con1o se vê n' esta receita contra as luxa-
ções: r_I:'ome-se Ull1 vime verde de quatro OU cinco
pés de longo, corte-se pelo meio; dois homens o
terão apontado á côxa; cante-se logo « Daries clar-
daries astataries dissunapiter», repetindo, até que as
extrmnidades dos dois pedaços se toquem. Então
corten1-se en1 pedaços fazendo uma ligadura para
o 1nen1bro luxado ou roto, e cante-se todos os dias
aHuat hanat huat esta pista sista dotniabo d::un-
nanstra. » - Ninguem ria d' esta receita deixada por
Ca.tão, porque estamos na vespera dos exorcisn1os
catholicos, dos bentinhos que curam molestias, dos
santos collados nas portas para afugentar as epi-
demias, das aguas therapeutieas das fontes nlila-
grosas, de toda a farragetn fetichista que se pro-
trahe gravemente até aos nossos dias. t
Recate in1J:>era no céu obscuro da Antiguidade
' V. Portugal conlemporaneo, 1, p. 334.
2i8 L. IV.- A MYTHOLOGIA CHRISTAN
agora que descetn sobre ella as so1nbras de um-.
noute final. As artes dos charlataens valen1 tanto
para o espirito desvairado das gentes caducas,
como o charlatanismo ingenuo e crente dos feiti-
ceiros prin1iti,?os valia nos te1npos barbaros. O
templo da nigromancia é uma camara escura: o
tecto é azul, no chão está tnn tanque com a agua
das evocações ; esse tanque tem u1n vidro no
fundo e n'u1n recinto inferior ficam os co1nparsas
que fazem de deuses e den1onios, pron1ptos á cha-
mada do 1nago. O céu reflecte-se na agua e, assns-
tada, a mulher crente vê no fundo a Recate dos
n1ysterios terriveis. 1\Ias nem só a agua evoca os
deuses: o fogo é tun ele1nento eguahnente magico :
uma figura desenhada na parede con1 un1a 1nistura
de bittnne inflanuna vel, ou un1 passaro solto no ar
com tuna cauda de estopa accesa- eis ahi cotno
Ilecate apparece á gente prostrada de joelhos, con-
trita e crente, soluçando de medo na camara obs-
cura.
Todas as velhas grutas se repovoa111 de genios,
todas as fontes de milagres, por toda a parte ha.
1nanteions, sanctnarios de acli,·inhuções, ou n1agos
an1bulantes que prognostican1 o futuro. A vida é
urna phantas1nagoria e nn1a penitencia; os charla-
taens e os crentes de n1ãos dadas, perdida a no-
ção da realidade de nn1 n1undo que se despedaça,
vi vem de jejuns e allucinações, de sonhos e doidi-
ces. A Thessalia era povoada de bruxas; os psyl-
los de Pariunl c da Lybia tinluuu o podPr do-
mar as serpentes, de conjurar os ventos, de trans-
forJnar o·s honiCns em anitnaes. Assim ncont(\cia
nos rnythos da r(\ligião antiga: c se os honwns
subiam :í. condição de dcnses, porque não stwce<lc-
ria na realidade o que se dera na re-
mota? Nada parecia impossivcl dr·pois das
I.-CRISE DA l\1YTIIOLOr.IA CLASSICA - 3. 27V
nhas de Al0xandrc. O tnilagrc invaflia tudo, res-
pirando-se no ar inteiro e cm touas as {'Ousas que
se observavatn. Ningunm dava pelos artificios
1nais transparent0s, ningncm curava do indagar a
:teção n01n o {'a.racter natural dos phenon1enos. As
grutas sotnLrias eram boceas do inferno; as ca-
vernas fl'ondc saem aguas ou vapores therapeuti-
cos, as nascentes thermaes sulphurosas ou carre-
gadas de acido carbonico, eram tetnplos da Cy-
bele phrigia, como em Hierapolis, ou de lsis c Es-
culapio de Serapis. A fé auxiliando o medicamento
produzia os milagres sonhados no delirio da alluci-
nação. A 1nedicina e a prophecia, de dadas,
repartiatn entre si todos os lugares que de qual-
quer fór1na impressionavam a in1aginação excitada
pelas bebidas narcoticas, pelos anesthesios, pela
enervação dos jejuns que davam a prophecia its
pythonisas, o delírio sagrado aos thaumaturgos, e
a sande aos hystericos e rheumaticos.
Nos raanteion.Ci, com os seus feiticeiros vindos da
Syria, da Asia-l\ienor, da Phrigia, da Thracia, do
Egypto, os oraculos proferidos en1 línguas estran-
geiras, desconhecidas do vulgo, impressiona vatn
por isso mesmo muito mais os crentes que attri-
buiam u1n valor sagrado a sons vocaes inintelligi-
veis: assim o nosso povo adora fetichistamente o
latim da missa que não entende. O es-
trangeiro das novidades auxiliava-lhes a propaga-
ção e1n nações que tinham chegado a perder a
confiança em si. A magia era uma cousa nova_ até
na propria palavra que só entra no diccionario
grego depois das invasões de Dario e Xerxes. Os
sacerdotes chaldeus, dispersos depois da queda de
Babylonia, inundaram a Asia-Menor fundando es-
chola em Cós. Os mathematicos do Egypto trouxe-
ram co1nsigo a astrologia judiciaria. Plutarcho fal-
280 L. IV.- A l\IYTHOLOGIA CHRISTAN
la-nos dos sectarios de Serapis e de Cybele que
fo1javam oraculos para os escravos e para as HlU-
Jheres «a quem a medida dos versos e o esplendor
poetico das expressões seduzenl>>. Platào conheceu
e descreveu o orpheoleta, mystagogo e sacerdote
do orphisn1o bacchico, levando comsigo «Uma col-
lecçào de suppostos livros de Orpheu e de l\Iuseu
sobre os quaes funda as suas prophecias » ; viu e
retratou «o sacrificador ambulante, o adi vinho que
põe cerco ás dos ricos, persuadindo-lhes
que obteve dos deuses, por 1neio de certos sacrifi-
cios e encantos, o poder de perdoar os crin1es dos
vivos e de seus antepassados». Plutarcho e Theo-
phrasto pinta1n-nos os escrupulos d'esse em
que o ho1nem possuído de utn 1nedo regressivo
vae a cada instante á confissão pedir ao orpheo-
tela que o absolva das faltas conunettidas. «Quando
a desgraça o assaltou, senta-se inerte e sub1uisso
á 'porta de sua casa; cobre-se de farrapos itn-
mundos; roja-se na lama confessando em voz alta
os seus peccados: con1eu tal especie de alimentos,
bebeu u1na certa bebida, seguiu um caminho op-
posto ao que a divindade ordena».
E' como un1 fakir da lndia: por caminhos di-
versos, no Oriente e na Europa, os dois ra1nos fi-
lhos da 1ucsma raça chegaran1 ao n1esn1o porto.
O supersticioso de Plutarcho parece-se exterior-
mente com J ob sobre o 1nonturo: por dentro são
diversos. Um te1n apenas o medo aniniista, o ou-
tJ·o sente a con1puncção profunda que ve1n da vi-
são de um mytho n1oral-o deus da vonüttle que
faz os heroes, capazes de soffrcrem todas as desgra-
ças, por isso que os hotnens se consid(•rain a cousa,.,
o escravo miscravel de u1u deus onulipotcntc.
I.- DA l\1\TIIOLOGIA CLASSICA- A.. 281
4.
Eis ahi o sentin1cnto intin1o que o christianis1no
virú introduzir no <lesvairan1ento da rnystagogia,
sc1n o dissipar- pelo contrario, sanetificando-o.
Da coopcraç<lo dos factores historicos- a piedade
israelita, a eschntologia egypcia, o idealismo helle-
nico, e a universalidade ou catholicismo da abs-
tracçfio latina- do ainalgatna de elementos for-
Ululados pelas ci vilisações circunnnediterraneas,
unificadas pelo impcrio romano, saíu
n1n corpo novo de mythologia theologica, ou un1a
religifto -a christan, cujo verbo vae abafar o des-
envolvinlento das rnythologias nacionaes de slavos,
celtas, e genuanos, á maneira que esses povos fo-
renl entrando, com o decorrer dos ten1pos moder-
nos, no seio da civilisação occidental europêa.
Generalisação sununaria e não synthetica, o
christianismo ten1 sido e será por muito o assuin-
pto de theorias oppostas e egualmente fundalnen-
tadas. Terão razão os que virem n'elle uma reli-
gião da l\Iorte, porque toda a eschatologia egy-
pcia, com o tribunal de Osiris, entrou no seu
crédo. Terão razão os que vire1n n'elle a colnpun-
cçf;,o prophetica de Israel, porque a alma de J eho-
vah e o n1essianismo co1npozera1n a figura do Pae
e do Filho, dando á divindade u1n caracter de
Vontade creadora, causa e architecto do Universo.
ri'erão razão, tambem, os que affirmaretn a suprema-
cia do idealismo classico, porque o Filho, n1essias,
é con1 effeito o Verbo, isto é, a Idéa absoluta re-
velando-se ao 1nundo na fórma e portanto no pen-
salnento humano. Não errarão, finalmente, os que,
encarando sobretudo a constituição da Egreja e as
praticas e os princípios da moral, affirmarem que
282 · L. IV. -A 1\IYTHOLOGIA CHRIST AN
o stoicismo latino, a moral social, o instincto juri-
' dico e o pensamento catholico são os traços origi-
naes da religião nova.
Tudo isto é assim ; todas as opiniões são susten-
ta veis, pela razão allegada de que o christianismo
amalgamou historicamente sen1 fundir synthetica-
mente essas conclusões dos pensamentos nacionaes
congregados. D'ahi veiu a sua força de expans?io
e a sua inconsistencia theologica. Pulverisado em
seitas até ao momento em que, tornando-se religião
official do lmpf'rio pôde n1andar em vez de con-
vencer, o christianisn1o incluia e1n si tantas egrejas
quantas nações, e etn cada uma d'ellas dominava o
principio mais sympathico ao temperamento ethnico.
SerYindo a todos, na sua modalidade excessiva
tornou-se ubiquo em torno do 1\Iediterraneo, até
que o islamismo lhe roubou as costas austraes
scindindo essa região do gremio europeu etn que o
don1inio romano a fizera entrar.
Chegados, pois, a este motnento em que todas as
linhas da nossa viagem convergem a um ponto-
pois tudo converge para o centro mediterraneo do
mnndo- achando no pensamento enúnente aca-
bada a evolução da rnythologia, j:í nos seus tres
mo1nentos metaphisicos (anirnis1no, natnralisn1o,
idealismo), já na série das fórmas c o n s t a n t ~ s que,
partindo das representações ingenuas, seguetn p(•las
divinisaç:ões para acabar no hurnanistno; chegados,
pois, a este momento, e observnndo uma r('grcssão
nnivC'rsal formulada nos 1nythos no,Tos do christia-
nismo, que conelusão dev<'mos adoptar?
J)f'sflc o con1cço not:bnos qn(' na ronstrtt<.·ção
{'Spontanca flas n1ythologins ha dnas origens paral-
)p)as- a astral c a psyehira. () honH•tn primitivo
anintisa os astros c os ph{'non1enos tnctercologieos
quP vê, c os sonhos c as soJnbras qtH' imagtna
I.- CniSE DA Ml:TITOLOGIA CLASSrCA- .t.. ~ 8 3
ver: d'ahi sa0m os olympos c a cschatologia, as
theorias da villa e da Iuorte, cvolvcndo-se parallc-
lanlcntc, chegando umas vezes a fundir-se n\nna
religião syntlietica (como no Egypto c na J udêa),
mantendo-se outras vezes separadas c mn graus
diversos. de evolução- con1o entre os indo-euro-
peus. As synthescs porén1 não trazmn a paz, tra-
zem a n1orte- ao Egypto afogado en1 sonhos es-
chatologicos, e lt .J uclêa sufocada pela V ontaclc es-
_magadora do sen deus. Por outro lado, o idcalisn1o,
chegando na esphcra da 1nythologia astral a mos-
trar o vazio dos céus ou o hnmanistno das idéas
mythicas, pi'tra na esphcra da rnytholcgia psychica
sem poder saír elo estado ani1nista na interpreta-
ção da l\Iorte; vindo-lhe d'esse desequiliLrio a dc>s-
organisação e o regresso evolutivo que, depois ele
produzir o desvairarnento orgíaco, se consoliJa no
christianistuo.
Parece-nos a nós, presentes os documentos acl-
duziclos, que a theoria d'estes casos está na pro-
pria natureza elas duas grandes regiê)es de rnythos
-os reaes· e os phantasticos: as invenções acha-
das para explicar o que se vê_, e aquellas que ex-
plicatn o que se julga ver. O Egypto e a J udêa
reduziram tudo á allucinação, descobrindo a uni-
dade na morte ou animista ou psychologica. O idea-
lismo classico, por virtude da superioridade cons-
titucional d' esse pensamento, genio ou vts intitna
da raça entre todas eminente, não podia enlou-
quecer. A sua definição hu1uanista da tnythologia
astral era um primeiro tern1o da evolução do es-
pirito critico. Dissipando as nuvens do ar, não
podia comtudo dissipar ainda as sombras cln. allu-
cinação e do sonho. Vendo que a mythologia das
cousas reaes ou visiveis era uma ficção, não pos-
suia ainda saber sufficiente para vêr tan1be1n que
284 L. IV.-A MYTHOLOGIA CHRISTAN
eram illusões subjectivas os mythos das cousas
suppostas. Pôde fazer do céu phantastico u1n fir-
1nan1ento astronomico, n1as não podendo varrer
dos ares as almas dos mortos nem os deuses da
visão, inventou o mytbo das Idéas para os conce-
ber. E' muito 1naior a difficuldade de analysar e
definir as illusões do nosso pensamento, do que as
supposições da nossa vista; e o estado mental que
deu de si o regresso ao aninlismo con1 a oblitera-
ção da sciencia e da philosophia antiga, é sem du-
vida alguma uma possibilidade actual ainda- ein-
bora seja muito 1naior e 1nais forte o alicerce de
saber positivo que temos para estribar o nosso
pensamento.
A superstição rebenta no seio da propria scien-
cia, e o fetichismo viça dentro da religião herdeira
dos senlitas e dos gregos. Un1as paginas de exen1-
plos documentarão estas affirmações, completando
o circulo do nosso estudo.
I
II
Os factos de sobrevivencia nos tempos modernos
1.
Todos os povos tem, qualquer que seja a reli-
gião que reconheçam, um conjunto de superstiçves
archaicas: na Europa Inoderna essas superstições,
resíduo de mythos, já remotos durante a Antigui-
dade, são as do animistno, porque o christianis1no,
ad1nittiu no seu seio, mudando-lhes os nomes para
mais tarde lhes n1ndar o significado, todos ou quasi
todos os ele1nentos mythologicos das religiões que
o precedera ln concorrendo para o constituir. E1n
n1a.is de um caso, porém, o fetichismo dos ritos an-
tigos passou tal qual para os novos: assün no
as relíquias de S. Galderico são mergu-
lhadas, como outr'ora a in1agem de Cybele, para
obter chuva; assim o phallus dos cultos genesiacos
é venerado n'uma capella de S. Vito, junto de
Sclnvitzerho:ff, e para nào ir mais longe nem fatigar
o leitor com exmnplos de um caso sabido, citare1nos
apenas os «testiculos de S. Gonçalo» que se vendem
co1no pãesinhos bentos na romaria de Amarante.
S. Vito foi o herdeiro dos templos dos Hennes,
substituindo-se-lhes no .culto; a Virgem tomou o lu-
gar de Ceres ; na Allen1anha, o Christo, S. 1\liguel
ou S. Martinho succederam a Odhin, e a Donar
S. Pedro ou o proprio Jesus; Fró foi supplantado
por S. André, S. Estevam, S. Nicolau. Nossa-Se-
286 L. IV.- A MYTHOLOGIA CHRIST AN
nhora herdou o culto de muitas deusas, S. Ger-
trudes o de Gerdha, etc. n'esses ternplos da flo-
resta que os missionarias, não podendo destruir,
sanctifica vam adaptando-os á religião nova. t
De Loki fez-se o den1onio, e, ao lado dos anjos
que se filiatn nas icléas platonicas e nas virtudes
latinas, os genios obscuros da _terra e do ar passa-
rarn a fonnar a cohorte dos espíritos infernaes.
Pela porta do inferno, que não é o Hades grego,
1nas situ un1 Tartaro desenhado corn feições egy-
pcias principahnente, os genii entrararn no corpo da
1nythologia neo-mediterranea ou christan, con1 um
caracter nega ti v o. Recate era tan1 he1n o detnonio
que apparecia de nas cncrusilhadas e que
as casulae evoca van1 nos fana consagrados aos ve-
lhos deuses. A Antiguidade pela bocca dos seus
philosophos condemnara con1o 'lxtn a tuagia, e a
Egreja pela bocca dos seus doutores conden1nava.-a
coino iufernal: n'isto se vê o grau d 'essa crise que,
corno todas as crises sociaes, exacerbando as ten-
dencias 1nystagogicas, conturbando a pureza do
pensarnento, desequilibrando a balança da orde1n
ideal, fazen1 reviver os archaistnos n1ythicos.
No inferno se congregarant todos os ele1ucntos
da n1ythologia eschatologica dos antigos, e dos
genios, lares; penates, rnanes, fizeran1-se dmnonios.
Os heroes fora1n archanjos, diabos os deuses chto-
nicos e os do céu nocturno. A alluvião de gnmnos
das 1nythologia::; celto-gcr1nanicas deu o n1aior con-
tingente ao inferno da i1naginnção popular : os
tt·olls, kobol1ls, clfcs, ondinas, nix, da. .Allernanha
" fla Scandiuavia; os follets, goblins, lntins, da
França ; os bro,vnics c clnrieannes da c
1rlanda; os dusii (deuce, dmuonio) c os uikr, nick,
1 V. lli:Jt. tla citil. ibcr. (2.
11
oll.) l'l'· 2tHI.
11.- OS FACTOS DE SOliHEVIVENCIA -1. 287
da Inglaterra, onde hoje aiuà.a o povo chatua ao
diaLo olfl nick.
'rransf.H·nut<.las nos notnes ntuito 1nais do que
na expressão, as tnythologias ueo-aryanas da Eu-
ropa, christiauisadas, tornavarn-se subalternas do
1nonotheistno psychologico sentita. c da esehatolo-
gia egypeia co1n qne os doutores <la Egreja. cons-
truiatn o edificio theologico do christianisnto. Sobre
a structnra dos espontaneos, vistos agora
pelo povo co1n nnHt côr nova, .assentava a stru-
ctura dos n1ythos «do pensmnento >> -deus, verbo,
idéas, juizo-final, pecca<lo-original, reden1pção, etc.
isto é, a herança aggregada do hellenistno, do se-
mitistuo e <la religião dos egypcios.
O recrudescitueuto da superstição_, ou dos stra-
tos inferiores da n1ythologia, nas epochas de deca-
dencia ou reconstrucçZto soeial, é u1n facto já in-
dicado por nós n1ais de utna vez, já estuda<lo na
Antiguidade, e que se repete na Europa 1noderna
quando na Renasceuça os do pensa-
mento c01neçatn a desconjuntar o systema da con1-
binação chri::;tan. Ob::;crva-se entào unta série de
pheno1ucnos regres;:;ivos : vêen1-se n1ythos de re-
presentaçu.o grosseira e o fetichisino correlativo to-
filarem o lugar dos n1ythos do pensa1uento ou ra-
cionaes ; e do sei o da religião herdeira do helle-
nismo saetn por degeneração os fetiches theologi-
cos- os bentinhos, as 1nedalhas, as irnagens, as
cruzes, e a hostia. Conto os áugures de lt01na na
decadencia, parece qne tambe1n na Ron1a de
Leão X os padres, consagrando, dizian1 co1n unta
ironia abjecta, JHtnis es et panis n"tanebis! Encer-
rado, assim, un1 circulo historico, o sacerdote sce-
ptico, verdadeiro charlatão, vale menos do qne o fei-
ticeiro com o seu charlatanis1no sin1ples e ingenuo.
Dadas estas explicações su1n1narias, exclua1no::;
(
288 L. IV.- A 1\IYTHOLOGIA CHRiSTAN
do quadro do nosso estudo os mythos «do pensa-
mento» no christianismo, productos da consc1enc1a
individual que pertencem á theologia ou á philoso-
phia,_ e entram por isso na esphera da historia
propriamente dita. N'essa que nós chamamos pro-
historia, isto é, na esphera do collectivo, do espon-
taneo e do inconsciente, ficam-nos os n1ythos da
in1aginação, factos de sobrevivencia ou de regres-
são. E das observações sum1nariadas resulta que o
systema d'esses mythos na Europa moderna se
póde dividir em quatro grandes categorias: a) os
aninlistas primitivos; b) os traàicionaes indo-euro-
peus, suffocados e condemnaclos pelo christianisn1o ;
c) os christianisados ; e d) os que nascem por de-
generação da propria religião nova.
Destrinçar e1n cada exemplo a parte que com-
pete a cada um d'estes ele1nentos, é trabalho qne
não cabe, senão de um n1odo grosseiro, nos lin1ites
nem no quadro elo nosso estudo :. a perspicacia e
o saber de quem lê poderão supprir, co1ntudo,
mnitas vezes a deficiencia do texto.
2.
As festas do S. João e elo Natal, t chegan1 até
t Para não repetir citações, convém dizer que, afórn. das origens
men<'iona.<las no texto, colhi os matoriaes d'cste estudo, no que diz res-
peito á Península, na sabia obra de Peln.yo, Jli.,t. de los heterodoxos, o nas
monographias com que os srs . .Ad. Coelho e-Considicri Pc<ll"OSO ini<'iar:un
(•ntro nós o <'Studo critico dos mythos populares (A. C. J'tlwo-
rrraphia portugueza, no llol. da Soe. de Goo. do o Ret•ista de Ethno-
login, J-IV; o c. r. Estudos de mythograpl&ia porlugueza o ContJ·ilmiçties 11a'l'a
uma mythologia popular porluqtteza, r-vn). Estes h":\balhos E::i.tl mntori:l.l'S
<·olligitl()s com Bnbl•r e pa.ci<'ncia. Alguma cousa <hwo t:unbom ao st·. Th.
Ht•Rg:t nas suas Epo]Jêas ele raça mosarnl•e, livro t•m qun, pot·úm, :1. prOOl'l'U-
f'ação Rystomatica do gormanista de então lovn.v:t a vl\r ol'igons gtHl:t.s om
•·•m)iae qut• j{L Strabii.o dava como oxistontos nn.
11.- OS FACTOS DE SOBREVI VENCIA- 2. 2H9
n()s desde os tctnpos primitivos e01no rcsiduo de
cultos nwtereologieos a que as mytlwlogias neo-
aryanas, prinwiro, e depois a christan dcratn signi-
tieacão religiosa. Nos dois solsticim; do verão e do
i n v ~ r n o , a ..__natureza anitnisada desfolha-se e1n tni-
lagrcs. () nosso povo diz ainda: «Depois que o
?nenino nasceu, tudo cresceu». Esse 'Jnenhw que
no christianisrno é Jesus, apparece no momento
etn que os dias cotneçain a augtuentar, na noute
e1n que na Allemanha e na Scandinavia appare-
ciatn os genios eletnentares, a noute de Iole, Joel
ou Geole. Seis n1ezes depois, quando principia o
movimento inverso, celebra-se o precursor, o Ba-
ptista, nas fogueiras nocturnas que já desde o
te1npo de Strabào eran1 o culto celtiberico por ex-
cellencia. E' por toda a parte essa a noute dos en-
cantos e dos milagres ingenuos, smn caracter theo-
logico. No nosso 1\Iinho dança-se e1n torno de utn
pinheiro ou de um n1astro enfeitado, saltam-se por
todas as provineias as fogueiras, queimam-se as
alcaxofras, colhetn-se nos mattos as hervas e as flo-
res tnysticas, bebe-se a agua de sete fontes, não
se dorme para receber o orvalho da manhan que
dá fonnosura aos rnoços e vida aos velhos, to-
lua-se o bochecho esperando o nome do noivo, dei-
tanl-se os ovos propheticos, vê-se a lua serena es-
pelhar-se na agua dos tanques. As «mouras encan-
tadas» soltarn-se n'essa noute luminosa que é a an-
tithese das noutes escuras do Sabbat, noute divina
e boa. São tito simples na sua candura, tão re1notos
e obliterados no seu valor religioso esses ritos, que
a Egreja não se offende, nem condemna. Elia pro-
pria ignora que de tão velhas invenções, como
d'un1a sen1ente sáe uma arvore, ou d'um tronco
a rede dos ramos, saíram os cultos que defende e
propaga como sagrados.
20

290 L. IV.- A 1\IYTHOLOGIA CHRISTAN
As ceretnonias populares são o docun1ento de
mythos que ainda viven1 ou se dissiparan1 já na
mente do povo- os mythos da representação pri-
mitiva em que se dava utna aln1a ao ar e ao fogo
e aos dias e ás pedras e ás arvores: a tudo. Es-
ses cultos das fontes thennaes tuilagrosas, da agua
que preserva de bruxedos, da que mata o piolho
das favas e o pulgão das vinhas, superstições cor-
rentes entre nós, são o residuo de un1 estado re-
nloto da imaginação popular. Ainda no VI seeulo
da nossa €ra, diz-nos o livro de S. 1riartinho Du-
nliense De correctione 'I'Usticonun, duravatn entre
os gallegos as invocações aos genios de todos os
actos da os sacriticios e offertas ás fontes
sagradas, o rnaleficio poi.· hervas, o culto das pe-
dras e das arvores, de envolta con1 os rc:stos da
mythologia latina no rito ro1nano das l(alendêlS,
e na venPração dos tri vi os, lugar predilecto para
as evocacões de Recate.
O periodo 'visig9do da Peninsula foi apenas um
acto da dissolução da sociedade antiga; t o re-
gresso á superstição retnota deu-se tanto aqui con1o
na ltalia, na Gallia, na Grecia. O n1es1no de:svai-
ramcnto ele fciticcria e aninlisn1o abraça os pag:los
e os christãos, os grandes e os pequenos, os sact'r-
dotes, os n1onarchas e o povo. h a q nen1 hoje
ainda consulte bruxas, esses soberunos dos pritnei-
ros scculos christàos tinhan1 nos feiticeiros os seus
pritnPiros ministros -depois de l\Iarco Aurelio ter
tido stoicos por cons(\lheiros!
Assim se retrogada. Para o povo da llrctanha
as avenidas de n1onolithos de Carnac t bata-
lhões <le guerreiros petrificados: é o n1cstno estado
1 V. llist. da civil. (2.a (:d.) pp. i V. Haças lu11nmws, u,
}Jo
H.-OS FACTOS DE SoDnEVIVENCIA-2. 2Uf
mental qne na Africa e na India vê gigantes nas
cristas <lc rochas erguidas, t c a Niobe do monte
Si pylo, c cdwrncns de pedra» nas esta tuas pPrn via-
nas de Tiahuanaco. Assirn t:unbetn certas cavida-
des de rochas qnc são por todo o Inundo prin1itivo
J)égadas de deuses ou heroes, tornam a ser no seio
do christianismo as passadas de .Adão- con1o a que
se vê en1 Ccylào c recebe as adorações de brah-
mancs, 1noslerns e buddhistas. Para os primeiros é
Si v a, para os segundos Adão, para os terceiros
Buddha: os christàos vacillam entre S. Thomé e
o eunueho de Candaeia, rei da Ethiopia. my-
' tho, da ordetn d'aquelles a que Tylor chama «ele
observação», acha-se etn todo o mund•l primitivo:
e1n Samôa são as duas pégadas de Tiitii quando
a.hi, de pé, levantou a cu pula do céu; na roca de
Tlanepautla os mexicanos viam a 1não e o pé de
Quetzaleoatl; e no seculo XVII os jesuítas acha-
·vam na Bahia o paraizo e as pégadas de Adão.
2
Não pôde o christia.nismo, pois, varrer com o
grande 1nytho da vontade jehovica as alln v iões de
espiritos que anitnavam a natureza. A
do povo continuou a vê1· ondinas nos rios, fadas
nas ft>ntes, e nas son1bras escuras da noute, nas
apparições dos sonhos, visões de almas-do-outro-
mundo perseguindo como remorsos vivos a n1ente
dos crirninosos, 3 ou affiigindo com letnbranças as
saudades dos vi vos. A Egreja, que ainda hoje, por
exemplo, etn Traz-os-Montes, benze os rebanhos e
()S animaes domesticos como se fazia na data das
Ordenações, fechava os olhos a essas crenças inge-
nuas, naturaes no seio do spiritisrno christào, e
comtnuns ao povo e ao sacerdote rural que é
i V. Raças humanas, I, p. 102.-2 Risl. de Portugal (3.a ed.) n, pp.
197-9.-3 lbirl. (3.a cd.) I, p. 179 as apparições de D. João n.
*
L. IV.-A l\IYTHOLOGIA CHRISTAN
povo tambe1n. Na Alle1nanha da Eclade-n1edia o-
padre que dizia a nlissa-nova devia dançar com a.
1nàe: se era orfão, dançava co1n a aln1a n1aterna.
que se introduzia sob o calix salvando-se do pur-
gatorio. O animisn1o re1noto entrelaçava-se de tal
modo como fetichismo da nova mythologia. Na.
Bulgaria de hoje visitam -se os 111ortos no doming()
de Ratnos con1 banquetes nos cemiterios, deixan-
do-se os restos para pasto dos defuntos que, na
crença popnlar, vivem alli, nas suas habitações
n1ortuarias. No domingo seguinte de Paschoa, o
povo entra na egreja co1n velas que o padre ac-
cende dizendo «recebei o Espírito-santo!» A vela
accesa no altar é levada a casa, e vasculhan1-se
os cantos para afugentar os espiritos. A semana
depois da Ascenção é consagrada ás
7
as fa-
das dos prados e das fontes que se ali1nentan1 de
certas flores cuja virtude cura a epilepsia e a es-
terilidade das mulheres que se roja1n sobre a herva
rociada. Não se levam entre nós para casa as ve-
las da Ascenção que livran1 de trovões, e as velas
accesas em sabbado de Allelnia, boas para partos
clifficeis? Nas egrejas aldeans tla Hespanha llH--'ri-
dional, á n1issa, as 1nulheres vestidas de negro
té1n diante de si un1a peanha con1 velas accesas --
tantas, quantos os mortos por qne1n choran1. Vêt•m-
nos ainda no tremer da luz sobre a vela de CC'ra?
:E' natural qne mais de nn1a os
As rPpresentações dissipadas ticatn cmno cccos
nas palavras. «Arden1-lhe as orelhas)> diz-se ainda
, qnando se falia de alguctn, porque ontr'ora se
acrcclitava no poder das palavras para aprc•ssar
as pnlsaçõrs do sangnr d'aqndlP a qtt<'m rt•fe-
riam. l\las os n1vthos das almas não l::it) vivPm eotuo
viv<'nl co;no rea<'s. It<'}Hlgna.
a totlol-3 o uivo do cão, nw.s ainda o c:unponcz
11.- OS FACTOS DE SOllfiEVJVEI\CIA -2. 2U3
.All<·nulnha ouve n'clle u1na prcdicção de morte
para o ('Hfenno; aiuda para lntlita gente é Inau-
agonro. E quando o doente acabou, o can1poncz
ahre as portas da casa para que a alu1a possa
saír. O gall<·go considera funesto receber o ultin10
olhar dl> 1noriLundo : não se feclu•n1 de repente as
portelas para se não feriren1 as ahnas que expiatn
os seus peccados ; uctn ao ir á rornaria de San-
Andres de Teixido se pise nenhun1 reptil, porque
as almas dos 1nortos andan1 assin1 curnprindo a
t;·onutxe_, a penitencia (equivalente ao jJardon bre-
tão) que não cnmpriran1 en1 vivos. A noção smnita
do pcccado e a pe11itcneia co1nbina1n-se no chris-
tianistuo con1 a transtnigraçâo, con10 já vin1os na
ahna da Inàe do padre novo que vae collocar-se-
lhe sob o calix. lncrustan1-se na n1ythologia nova
os resíduos do animismo pritnmvo.
E não se creia que, ainda ha tres ou quatro se-
culos. enun do povo apenas estas superstições,
mais ou n1enos retiradas hoje para os confins das
aldeias retnntas. Eran1 de todos : ingennas nos
sin1ples, theologicas e sabias nos doutores. Lu-
thero, fallando da morte do seu inimigo Carlostad,
diz que u1n a1nigo lhe notieía de Basilêa andar
un1 speetro errante en1 volta do ttunulo e na pro-
pria casa do morto, deitando pedras e terra que
.sujan1 e poe1n tudo e1n desordem. l\Ias, no espírito
dos doutores, as ahuas nào tém o caracter sin1ples
que térn no do povo. O n1edo vago do animistno
torna-se horror theologico, e os spectros apparições
infernaes. Carlostad 1norrera ás tntios do diabo,
cujas vi:;;itas sào frequentes. Na Saxonia, conta o
frade, junto a. HaiLersdat nasceu un1 l{ilkropff:
man1ando seccou a tnâe, e tantas n1ulheres quantas
lhe deram; levaran1-no no berço e baloiçando-o
.sobre o altar da Virgmn de Holckelstadt, su1niu-
294 L. IV.- A 1\IYTHOLOGIA CHRISTAN
se, fugindo para o demonio que o gerara. Em
Ba1n berg nasce uma. creança con1 cabeça de leão :
viram-se logo cruzes no céu; os padres abafaram
a noticia. sendo grande n'esse anno (1525) a mor-
tandade de principes. ,
1\las antes de travarmos relncões mais deJnora-
das com o demonio n1oderno, é ;11istér deixar indi-
cado o lo bis- homen1- esse mytho em que o ani-
mismo, sin1ples nas apparições dos phantas1nas, se
combina cmn a zoologia religiosa, para dar de si
uma enfermidade real, correspondente á doença dos
visionarios do medo, con1binando-se tamben1, como
alma-penada, com a idéa do peccado e da peni-
tencia. O loLis-hon1en1, vervolje, loup-garo1.t_, vou-
kodlo.k, dos allen1lles, francezes e sla vos, tnytho
geral aos povos indo-europeus, é aquelle que por
um fHdo se transforma de noute em lobo, jntnento,
bode ou cabrito 1nontez. Os sacerdotes do Sorano
sabino, nos bosques da I tal ia primitiva que nós
visitámos, vestiarn-se com as pelles do lobo, ani-
mal do deus: a imagetn confunde-se con1 o ob-
jecto na imaginaçZ'to infantil, o sacerdote cotn o
deus, a profissrto eom o fado. PorYentnra o n1ytho
naseeu do rito, assim con1o da crença veiu a enfer--

Os traços com que a do nõsso povo
retratou o são duplos, porque tmnbent
essa creatnra infeliz, confonue o nome o tno8tra,
é dual. COJno hon1e1n, é extren1amento pallirlo,
tnngro, Tnacill(•nto, de ordhas cmnpriclas e nariz
levHntndo. A sua sorte é 11111 fado, talvez a re-
Inissào de nm pe<·cado; 1nas esta· a<ldis;ão vê-se
quanto é f'stranlta no tnytho na pouea genPrali-
snçi'to. Por via de rPgra, o j"ado é a-mornl - é lliUU.
sorte Nast'e-sc lohis-homPtn: {'111 lugares
são os Jilhos do incc:sto, 1nas
7
0111 geral, a predes-
Il.-OS FACTOS DE SOlll\EVlVENCIA
tinação não vmn senão de n1n caso fortuito, e li-
ga-se emn o nnnlf'ro que a astrologia acead.ia on
chaldaica tornou fatidico- o nntnero 7. O IoLis-
hotnetn é o filho que nasceu depois Je uma série
de s<·te filhas. Aos treze annos, n 'uma terça ou
quinta feira, de noute e topando cotn utn lu-
gnr oncle n1n jumento se espojou, o fado.
D'ahi por dia11te, todas as terças e sextas feiras,
da tnf'ia noute its (luas horas, o lobis-homem tmn
de a sua corrida visitando sete adros ( cmni.-
tf'rios) de f'grf'ja, sete villas acastelladas, sete par-
tidas do mundo, sete outeiros, sete encruzilhadas,
até regrPssar ao n1estno espojadonro onde read-
quit·e a fónna hntnana. Sáe ta1nbetn ao escurecer,
atravessando na carrei1·a as aldeias onde os lavra-
dores recolhidos não adm·1neceran1 ainda. Apaga
todas as luzes, passa cotn tuna frecha, e as Jnati-
lhas dos câe8 ladrando perseguem-no até longe
das casas. Diga-se tres vezes « A ve-1.\Iaria » que
elle dará um gt·and.e estouro, rebentando e snmin-
do-se. O sino-sairn?to (signo de Salon1ào) é um feti-
che contra o maleficio. Quem ferir o lobis-hmnetn
quPbra-lhe o f:1do: mas que se não suje no sangne,
de outro modo het·dará a triste sorte.
Eis ahi nos seus traços mais ger3:es essa inven-
çãn da imaginaçfto rural, nascida das sombras dos
bosques anitnadas pelo vento e. povoadas pelo
n1edo primitivo. Na imagem que primeiro se dese-
nhou na mente fixaram-se todos os traços mytho-
logicos posteriores, e, afinal, crida como realidade
a invenção, essa crença, actuando sobre a imagi-
nação, produziu uma especie de loucura conhecida
-a lycanthropia. Se o leitor tem presente a ana-
lyse psychologica por onde corneçámos este livro,
facilmente constroe o processo do pensan1ento in-
consciente. ((Por força d'este delirio, diz o nosso
296 I.. IV.- A MYTHOLOGIA CHRISTAN
Braz Luis d' Abreu (Portugal JJiedico ), se obri-
gam os que padecem a rmnper em todas as ac-
ções do Lobo; e especialmente os inclina esta me-
lancolia ferina a andar de noute, como lobos, por
lugares obscuros, tristes e funebres; e até pelos
cetniterios e adros desenterrando os mortos e ce-
vando-se nos corpos fétidos e corrOinpidos». t
Desde a representação espontanea no 1nytho até
á loucura na allucinação completa-se, pois, uma
série ou um circulo em que o effeito anterior se
torna em causa posterior. Pritneiratnente, só se
viatn almas na phantasia, depois existe1n doidos
que essa phantasia tresvariou. O que succede cmn
lobis-homens succede co1n as bruxas, succede, di-
gainol-coln finneza scientifica, até com os proprios
deuses. Invenções espontaneas, a sua acção re-
flexa cria a superstição e a allucinação que endoi-
dece; e os que creem ter ficado etn seu juizo
vêem no louco, senão o proprio deus inventado,
utna creatura quasi divina en1 que elle habita.
Na passage1n da n1ythologia classica para a
christan, Luciano e l\Iarciano 1norreram santos e
martyres, en1 Vich, da Catalunha, durante a per-
seguição de Decio, ao que se crê. AntPs de chris-
tàos eram magos, e possuiatn artes e philtros para
vencer donzellas e casadas ; poré1n
utn dia de u1na christan, os detnonios que evoca-
1 O snr. Cons. Pedroso aC'bou no Lil1era1 de Madrid (l!l dl' julho do
1881) a noticia authentica de um C'aso actual de monomania bcst.i:ll, rt·f,,.
rido pdo mcdiC'o de Ca1·mona. E' um Jmstor, de IJnem o mcllico diz:
cUnas vcccs, cuando se vê ata1•ado, anda vt•lozmcntc hasta quo, rendido,
C'ao C'aRi cxanimo. Ot1·as, las mas, adopta la cxistoncia l'Undt·upt•da y
pára cn t'lla varias horas- do sois á dit•z- nnthmclo du cli1·hn m:murn ó
imitando ron la I•osiblc 1•xaet.itud lo!'! movimtmtos y las funrioncs do un
huoy, in1•luso t'l pneur yt•I·bn y ruminada, sogun ol dico, y no es dudoso,
dada b' pot.lerosa influencia do su monomania•. V. a Noth•ia, no Positi-
vf.,mo, I>JJ· 82:.1-30.
11.-og FACTOS DE SOBfiEVlVENCIA-3. 297
r:lln disscr:un-lhcs: << quizcstcs vencer
almas inii.Pis <' ignorantes do d.cns que cst:í no céu,
foi-nos facil ajudar-vos, 1nas contt·a esta aln1a cas-
tissinw, que gnarda a sua virgindaflc para Jesus
Christo não pod<>tnos ». E d'ahi convcrteratn-se, e
corn tão sinc<'ra fé, cmn unta allucinaçâo tão po-
dc•·osa, qne sofl'n•ran1 n1artyrio.
() christianismo, pois, rnantendo, com o seu in-
ferno e con1 as suas visões, a esphera anin1ista no
proprio seio da theologia, não siguiticava para o
povo senão urna dcfiniçào nova dos seus 1nythos
espontaneos. Que outros deuses podia conceber e
vêr a inwginaçào rude das populações sin1ples?
Esses espiritos, gnomas, alnu•s, são os deuses
mesquinhos dos paúes e das florestas, germinados
nos sonhos tristes do camponez lavrando o campo,
pastoreando as cabras, accesos á fogueira do lar
pela n1nlher fiando, scisrnando. Ha tuna grande
religião sabia que cobre o n1undo COITIO uma nuve1n
espessa de dogmas e canones; n1as o povo, não
os percebendo, não sente n'(Jssas fonnulas e n'es-
sas doutrinas o poema aereo do seu espirita. Obe-
dece e repete inachinalmente as orações e credos
que os padres ensina1n, Inas os seus deuses intimas
e Yerdadeiros são, serão seinpre, os gnon1os da
phanta.sia, as sombras dos terrores ruraes e no-
cturnos.
3.
Façamos agora para os fetiches e para os feiti-
ceiros o· mesuw que fizernos para os 1nythos ani-
mistas: o leitor sabe qne a feiticeria é a esphera
objectiva ou cultual do estado anitnista, d'onde pro-
vetn. E procuren1os tatnben1, quanto possível, dar
a preferencia a exen1 pios caseiros, para fixar os
traços d'esta. historia couunum a toda a Europa
298 L. IV.- A :MYTHOLOGIA CHRISTAN
chistianisada com os documentos do pensan1ento
archaico de utn povo conhecido na Antiguidade
como supersticioso: Strabào e Silio Ita-
lico descreve os gallegos como fibrarum et pennae
di-vinoru/nique sagaces.
Vimos os mythos dos elementos, vejamos os ri-
tos da ntetereologia A' maneira dos po-
vos sei vagens, ainda os serbios de hoje, pedindo
chuva, levatn en1 procissão uma creança ornada
de flores, dançando e cantando etn volta d' ella
emquanto lhe vão despejando baldes de agua na
cabeça : a affinidade auiinista entre a imagem e o
objecto -a agua dos baldes e a das nu vens - é
evidente. Não o é menos, quando o n1arinheiro in-
glez assobia a bordo durante a calma para cha-
n1ar o vento, não consentindo que se assobie
quando elle sopra porque vir::í demais, en1 ten1pes-
tade. Ainda ha um seculo, senão hoje 1nesn1o, a
Galliza possuia os seus nubeil·os
7
herdeiros dos
ternpestarii dos antigos, que exorcisa vam o ar para
afugentar os d<:'rnonios das nu vens tonuentosas cotu
palavras e ceren1onias.
Exnctamente como o selvag-en1 do Taiti que
despedaça os fetiches quando elles não respondem
aos seus desPjos •; exact:unente eon1o os ostiaks da
Siberia, <'OlllO os singnlezes e os chin<'zes, assi1n
entre nós se rlPita o Santo-J-\nto11io, fetiehe por
excellPncia popular, dentro do poço, à Jo
pP.scador de Napoles que lança pela borda fc'11·a os
santos qne o n;lo OU\?<'Hl no t<>mporal, nos
p<'·s as da Virg<'n1 c de S. Jannario pre-
sns no sPn gorro; ou n1anPira do pescador da
Povoa qn<' aJH·dr<·ja o sanl'tnario da Sl'nhora da
onde arde o farol da Larra, <ptanllo, apagada.
essa luz, nas sornhras da uonte as ondas C'IH'apel-
ladas cünd(•tnnain ao nanfragio lanehas retarda-
II.- OS FACTOS SODl\EVIVENCIA- 3. 2!)!)
r1as qne as mnlhC'r('s C'm turba duunan1 da praia
<'Olll gritos s<·lv••gens . .i\laltratar o feti-
(•hc, é maltratar o genio, espírito ou alma, porque
na imag<•nJ de un1a está para a imaginação
rude a esl:'encia d \·ssa propria cousa.
()s eainponf'zcs rns::;os c•>bretn a cara dos san-
tos que térn nas casas quando fazem cousa indi-
gna perante <'lles; e na J{ussia, conto por toda a
parte, as imagens tént valores particulares, crc<li-
tos adquiritlos, pas::;ando por empresti1no nas occa-
siõ(•s adequadas. Frazier eonta de un1 capitão hes-
panhol que atava ao mastro do navio uma pequena
imagen1 da Vir·gern l\Iaria que a teria.
alli ::;usp<·nsa u de eastigo » até que·Ihe desse vento
favoravel. Della Valle refere o caso sabido dos
portuguezes atando Santo-Antonio ao
n1astro da mez<"na para o mesn1o tin1. E na Histo-
'ria ao contar-se a viagem de Je-
ronynw de A ILuquerque, lê-se assim: «O dia ern
qne nos deu a tonnenta mandou J. de A. por
conselho de alguns companheiros lançar no 1nar
uma cruz de ouro qnc trazia u1na partícula do
Santo-LPnho da Vera-Cruz e outras nnlitas relí-
quias, nn1arrando a dita ('rUZ con1 utn cordão de
retroz verde a uma corda tnuito forte com nm
prf'go grande por ehumbada e o cabo e ponta
d'esta corda ataram it dita nau». Amansou o teln-
poral, e o tnilagre ficou consu1nmado.
E::;te fetichismo que se n1anté1n entre christãos
e Cfll11 reliqnias sagradas, tnantém-se paraJlela-
mente nas religiões correlativas ao christianisn1o,
con1o s?w o buddhistno e o islan1Ísmo. Na
do padre Godinho, preciosa por tantos títulos,
acharnos praticas identicas ás precedentes. Uma
vez, a bordo de un1a nau de n1ouros, o remedio
contra a calmaria «foi pendurare1n por pôpa u1n
300 L. IV.- A MYTHOLOGIA CHRISTAN
cavallinho feito de pau com uma cauda tnuito com-
prida a som de frautas e atabalinhos ». Outra vez,
contra o temporal no tnar da India, a bordo de
ntna nau de gentios, cctirou um d'elles da sua ca-
nastra por utn idolo de 1netal, figura de Rama,
uma campainha e duas soalhas do tnesmo n1etal e
foi-se com tudo isto á prôa do na vi o, donde se lhe
ajuntaram todos os outros gentios vestidos de
roupa lavada, e depois de cantarem, tangerem e
bailarem ante o idolo, se en1polvarisaratn de sen-
dur: logo saíram em volta da nau em proeissão
entoando cantigas ao som das soalhas. Depois lan-
çarain um côco ao mar, contra o vento».
A palavra é, como o leitor sabe, utn dos gran-
des fetiches pritnitivos: não é ella a representação
D1ais viva de Unla cousa? Os ensalrnadores que cu-
ratu com palavras e exorcis1nos hon1ens e animaes
-do mes1no ntodo que na Egreja o sacerdote ex-
pulsa o demonio do corpo do possf'sso- são entre
nós os herdeiros dos salutatores antigos; e a crença
é t:to geral e tão profunda que etn 1654 D. João IV,
a braços cotn a guerra castelhana, pron1ulga o se-
guinte ah·arit: <c Eu elrey faço saber aos que este
n1eu alvará virem que tendo respeito á infonnaçào
que se tne deu das curas que Antonio Rodrigues,
soldado, ten1 feito con1 palavras em alguns cabos,
capitães e soldatlos do exercito do Aletntejo, etc.»
nuuu1o se lhe dê 40$000 réis de accrescent:unento
do seu soldo cotn obrigação de assistir no ext'rcito
para se p o r l P r ~ m valet· d'elle os referidos e os cu-
rar. 1 rfal era O <'Siaflo ll1Cntal, nâo do povo,
I nas do rei c da côrte: de q nc 1notlo, senão de 1un
ntcHlo anitnista, podi:un conceber-se os tnythos
claristàos? Cotno não vivcriatn no povo as supcrs-
I V. lli1l. de l'orlugn.l (3.
8
ed.) u, p. 126.
II.- OS FACTOS l)E SOHHEVIVENCIA- !. 301
tic;õcs fetichistas, quando assi1n grassavam na
côrte?
Por isso é cotTf'utc no seculo xvu, c não é rara
ainda no nosso, a crença no «mal de olhado» : a
vista possue o cond?i:o de transtnittir os desejos de
qncn1 te1n o poder de introduzir doenças no corpo
alheio. Se o cén tcn1 na Galliza os seus nubeiros-7
se as cearas tétn os excommungadores do pulgão
e dos gaJa n h o tos, para os hotnens h a os que sa-
ca ln os espiritos, os desulhadei1·os que cotnbatetn
co1n nn1 feitiço opposto. E, para enriquecer ou ser
afortunado en1 amores, h a q uen1 escreve cedulas de
virtude en1 papel ou pergaminho virgem, cedulas
que se trazen1 ao peito ou se suspendetn nos fe-
chos das portas, ou se enterram nas hortas, nas
vinhns e nos potnares; sen1 faltar quem ainda in-
terrogue os agouros como o Cid, consultando á
n1oda antiga o vôo dos corvos, das codornizes, dos
açores e das aguias.
1\Ias a tradição astrologica da influição dos pla-
netas é mais persistente na Europa, onde o astro-
logo é pessoa obrigada das côrtes medievaes, onde
os cotnetas são u1n objecto de terror ainda não iu-
teiranlente dissipado cm nossos dias. Luthero con-
testa a theoria nova de Copernico da rotação da
terra, cotno utua tetneridade que a historia de J o-
sué condetnna; os astrologos erram, diz elle, attri-
buindo ás estrellas influencias tnús : só os cotnetas
as tétn. O de 1531 «que voltou a eauda .prÍineiro
para o sul, depois para o norte» prenunciava-lhe
atneaças para o In1perador e para o príncipe seu
irnü\o.
4.
Depois cl' estes breves exemplos vê-se a ineffica-
cia da legislação canonica e civil no sentido de
'
302 L. IV.- A :MYTHOLOGIA CHRISTAN
arrancar do corac?io do povo as crencas vetustas.
As nossas classificando crin1e a
feiticeria, perdian1 bastante authoridade dPsde que
o povo lia docu1nentos como o alvará de D. João IV.
A Egreja, nos canones dos Concilios tJCninsulaTes e
nas prescripções constitucionaes dos Bispados, con-
demnando a feiticeria antiga, podia destruil-a
desde que n1antinha no corpo dos seus dogn1as o
1nytho do Diabo e o do inferno, dando ao espil'ito
1naligno uma potencia quasi divina. Se esses ritos
eratn diabolicos e o diabo tão poderoso, como lhe
resistiria o pobre povo? Por isso, a legislação ci-
vil e a canonica (que 1nostram na repetiç?to mono-
tona das suas condetnnações atravez dos seculns
a sua inefficacia) ficaram-nos corno catalogo do fe-
tichismo vetusto, ao mesmo tempo que os ritos e
usos da superstição catholiea nos dà.o os docun.en-
tos do fetichismo novo, filiado na mcstna origem
do antigo- isto é, no estado ani1nista da cons-
cicncia popular.
Os primeiros concilios peninsulares t condenl-
nam sobre tudo os ritos pagãos que se Inantinhatn
apesar do estabelecirnento do christianisn1o. O illi-
bf'rritano (300-5) prohibe a conservação dos idolos
<loinesticos; o luc,cnse (569) que os clerigos sej:un
feitic<_•iros, qne os fieis leven1 comidas aos tnHllllos
ilos defuntos, que se adore o sol, a lua, o cnrso
dns cstrellas, que se adornetn as casas co1n louro
c folhagens, que usern h('rvas co1no <_•ncantos; o
nnrbon('nse (589), no ten1po de Reecar('do, contlc-
Inna. o dcscanço quinta-feira ( dies Jovis), 1nanda.
eastigar os feiticeiros, caJ'a[Jios c sorticularios; o
I II de 'foledo (f>8!l) prohibe as n(•nias nos funenws,
• c os cantos c danças por occasião da. •ni::;sa; e sue-
1 V. /Ji,fllria rltt citil. i!u:rica

ccl.) pp. 48-51.
U. -OS FACTOS DE SOBnEVIVENCIA- !. 303
c0ssivarncnte as asscrnbléas canonicas <la Ilespa-
n h a, por corn uma constancia
n1onotona as prohiLiçõcs e castigos, Inostran<lo
d 'esse rnodo a sua inefficacia.
Quando á legi8laçâo clm:ical se substituiu a ci-
vil, os co<.ligos a}Jrf'sent:un o 1nesn1o phenorneno, a
partir do Ji'ue1'o Juzgo (L. m, tit. n, liv. v11 e até á ui-
ti r na redacção das nossas Ordenações portuguezas.
As (1446) tnandatn que ninguem busque
ouro ou prata ou outro haver, nem lance varas,
netn faça circo, nern Vflja en1 espelho. U tna pos-
tura da Canutra de Lisboa, em 1385, Ol'dena que
«ninguen1 u::;e nen1 obre de feitiços, nen1 de liga-
n1ento, nmn de chamar os diabos, nmn lance roda,
nem sortes, nern ponha 1nào, netn meça atá, netn
escante olhado corn ningumn, nem lance agua por
joeira>>. Nào se cantetn Janeiras nem Mayas; o
carpir e depennar sobre os finados é costutne que
descende dos gentios.- E' quasi um catalogo das
superstições, co1no o que as Ordenações posteriores
formularn, incluindo n'utn mesmo rol o fetichistno
vetusto e o novo que se serve das itnagens catho-
licas : fica apenas de fóra o ortodoxo.
A Ordenação manuelina (1521), 1 cujo texto,
n'esta especie, é quasi fielrnente reproduzido na
redacção philippina (1603), conté1n o quadro tnais
completo das superstições historicas populares.
Nilo se tl'\nham mandragoras, nen1 cabeças de sau-
dadores engastadas en1 ouro e prata; não se "pre-
goem os endemoninhados; não se ton1e pedra-d'ara,
nem corporaes; não se espiritos diaboli-
cos em circulo ou encrusilhada; não se lancem
sortes, nern se veJa em cristal, nmn em agua,
nem ern espelho, ne1n em espada, ne1n em espa-
t V. Hisi. de Pwt.ugo.l (3.a ed.) E, pp. !O e segg.
304 L. IV.- A l\IYTHOLOGIA CHRISTAN
dua de carneiro; não se adivinhe ern imagens de
tnetal, ne1n em cabeça de animal ou de hon1en1
morto; não se traga dente ou baraço de enforcado,
nem 1nembro de homem morto; não se passetn ·
doentes por silvão, ou .machieiro, on lan1eira vir-
getn; não se benza com espada que matou hometn
ou que passasse 1\linho e Douro tres vezes; não
se cortem solas em figueira baforeira, netn cobro
etn Iumiar de porta; não se levem os santos á
agua pedindo chuva e ameaçando afogai-os; não
se revolvatn penedos, nem se lancen1 á agua para
haver chuva; não se lance joeira; não se dê bolo
a co1ner para saber de furto; não se passe agua
por cabeça de cão para conseguir algum provei to.
-A lei condemna e castiga taes actos <cperoo esto
non1 auerá luguar nos astrologos que por sçiençia
e arte de astrologia, vendo pryn1eiro as naçenças
da pessoa, disseretn algüa cousa segundo seu
juyzo e regra da dita sçiençia».
De todos estes usos ren1otos, fragmentos de nly-
thologias passadas, mais de um vi v e ainda co1n
tenacidade no espírito popular; e as investigações
contemporaneas mostram-nos que o rol das Orde-
nações era apenas utn indice snn11nario de crenc;as
que involviam e involvent a itnaginação do povo
n'um espesso nevoeiro de crenças animistas. BPijar
as solas dos sapatos livra de espectros e sonhos
maus; beber agua corn tuna luz na ntào, p(,de tra-
zer n1orte repentina; deitar na eova de utn c.le-
fnnto tuna mão-cheia de terra, é o tneio de e\·itar
qnc a alrna nos não persiga; se o ntorto fiea de
olhos abertos, é que chama por aJgnn1 parente ;
cp.wime-se a ca1na do tnorto, para <ple não volte a
este nutnclo; pcwl nrf>tn-se cinc.·o- n·is ;l porta, par a
se ter clinhc>iro todo o anuo; tl<·itP-se alc.•crim no
huno quando trov(•ja, para afugentar o raio; dê-so
11. -OS FACTOS BE SOBilEVIVENCL\- 4. 305
:ís rCC('Hl-p:triclas caldo de gallinha preta; trazPr
d0ntc de e;.,o ao pefwoç-o livra de consas rn:ts; o
chavelho de eanwiro livra de qn<-·branto, c, quanto
ntais rr·torcido, nwlhor; un1a batata no bolso livra
de pisar a smnbra de luna pessoa
é 1nan; n:to se ponha a luz no chão ao deitar,
porque apparecen1 almas; pregue-se na roupa do
defunto nn1 alfinete : ellc pedirá a Deus por nós;
se brinqne cmn a propria sombra: é brincar
cotn o diabo- etc. O catalogo das nossas supers-
tições populares nen1 está feito, nem que o esti-
vesse caberia aqui, nem porventura poderá conl-
pletar-se nunca. Quem é capaz de enumerar todas
as folhas e botões que nascem no campo ao reben-
tar das arvores? Poi.s assirn rebenta na ilnagina-
ção do povo a vegetnção dos mythos. As crenças
novns condemnam as velhas, mas as invenções re-
centes são, no fundo, identicas ás vetustas, porque
o hon1en1 rude de hoje vive como viveu o home1n
do passado.
As Constituições dos nossos bispados, datando
dos seculos xvr e xvn, são ainda uma fonte de
estudo do animismo popular porque todas insistern
na condeinnacào dos ritos fetichistas. Não se benza
:>
con1 eutellos de taxas pretas, nem se vista camisa
fiada e tecifla en1 um dia, diz a de Evora (153±);
não se leYantetn figuras pelo movin1ento ou aspe-
ctos do sol, da lua, ou das estrellas, nen1 por si-
gnaes do corpo hun1ano, riscas e Yeias das tnãos
e outras partes, ordena a de Braga (1639); não se
deitern sortes de chu1nbo, ou de estanho, ou de cera
derretida, manda a de Gôa (1568) ; não se rese á
lua, ne1n ás estrellas, não se observetn os dias
para bons e maus agouros pelas vozes e encontro
dos anin1aes ou pelo cantar e voar das aves, ne1n
se exorcise pulgão, lagarta ou gusanos, nen1 se
21
306 L. IV.- A :MYTHOLOGlA CHRIST AN
usem ensalmos ou palavras para curar feridas ou
doenças, ou levantar a espinhela, prescreve a do
Porto (1G87); e todas condemnam os feitiços, su-
perstições, artes magicas, etc.
Todavia, a Egreja dava ao povo que não podia
passar sem elles, en1 troca dos fetiches condeiuna-
dos, fetiches sagrados- con1o a agua-benta, o si-
gnal-da-cruz, as velas da Ascenção, as paln1as de
donúngo de Ramos, os rozarios, as Inedalhas, os
bentinhos que se traze1n ao pescoço, os santos de
papel que se collam nas portas ou en1 cima da::;
feridas, todos os amuletos e talistnans do novo
strato religioso; sem impedir que os antigos votos
animistas renascessem sob a 1nesma fórma, na::;
velas que os marinheiros offerecem depois do nau-
fragio, nas offertas das pessoas que se pesau1 ê.J.
cera, nos quadros dos milagres que adorna1u os
sanctuarios, nas oscilla de cera que se pendurau1
nos altares, nas pronwssas que se cutupreiu uos
dias festivos, indo nas procissões descalso, t ou
canlinhando de rastos para o te1nplo.
t V. llist. de Portuaal (3.
8
cd.) u, pp. 22-3.
III
Demonologia
1.
O christianismo, adoptando na sua eschatologia
o inferno, isto é, o Hadcs classico e o Scheol ou
Gehenna dos hebreus c01nbinados co1n o tnytho
egypcio do Juizo-de-Osiris, designou desde logo a
patria de todos os mythos anteriores .
.t\ insufficiencia do saber deu pela observação u1n
caracter cotno que scientifico ao inferno, cujas
boccas se continuaram a vêr nas grutas singula-
res onde ha erupções gazosas ou thennaes e nas
crateras dos vulcões activos corno o Vesnvio, o
Etna e o Hecla.
un1 facto sabido que entre homens e deuses
os vencidos suo egualmente condemnados. A tre-
n1enda sentenca que o latim forrnulou- V re victis !
.
- apparece consagrada na esphera espontanea e
ingenua da mythologia. A raça estnagada passa <:Í
eonuição de feiticeira, e os deuses vencidos á de
-dCinonios. Na I-Iespanha, depois da Renascença, os
moriscos andaluzes, perseguidos e errantes são fei-
ticeiros e bruxos. Os lavas da Binnania, suppostos
restoB de u1n povo extertninado, são tetnidos co1no
hmnens-tigres. Os budas da Abyssinia vivetn n'tnna
condição sitnilhante á dos nossos ciganos: são fer-
reiros, caldeireiros, louceiros, feiticeiros e lo bis-ho-
Os orang-benuas para os malayos, con1o 0s
*
308 L. IV.- A 1\IYTHOLOGIA CHRISTAN.
dravidas Inundas para os inclios de Chota-Nagpnr
e ele Singhbnn, con1o os kununbas para os todas
e badagas, são creaturas temi veis dotadas de po-
deres maravilhosos, ele segredos singulares e n1ale-
ficios obscuros. Assi1n na Europa do norte o finnio
e o lapão se tornara1n Inalignos, chegando a fazer-
se do nome de finnio un1 synonyn1o de feiticeiro, á
1naneira do que snccede no sul com o de eignno .
... .\ssi1n tambetn, na Allemanha, os protestantes vão
ter con1 o padre catholico para os exorcisar, para
consngrar as hervas, para dar 'reraedios e descobrir
os ladrões.
Un1a reforma religiosa é como a victoria de nn1
povo- a consagração de u1na força mais elevada.
() facto é u1na sentença quasi se1npre ben1 fun-
dada. Qnen1 vence ten1 razão -ou o po,To por va-
let· n1ais. ou o culto por ser mais elevado. Por isso
o vencido é un1 ·eondemnado. Por isso as ahnas c
os clenses pre-christftos desceran1 ao inferno; e enl-
bora a religiào nova puzesse no céu outras ahnas
e outros deuses da n1esn1a especie, havia pnrn.
alé1n d 'essa rrprtição utna innovação- o graúde
n1ytho de un1 Drus, vontacle e consciencia do
n1nndo, deus abstracto e psychologico, ainda visto,
atraxez da inutginação se1nita., n'tnna opposiç:to
n1ystica {t natureza real e :i vida activa cuja apo-
thPosf' a mythologia classica fizera. Todos os pen-
=':ltnf'ntos e vontades humanas se rPprcsenta vmn
0111 J)f'lW, uni hl'ando-sr 1nystieanwnte n 'tun i n ~ t i n c t o
<10 nf'gaçào do 1nnnclo: por isso todas as forc;as e
potrncias da rc•alidaflc, divinisadas a t t ~ f'ntào, se
nni ticar:nn t:un brtn n'ntn n1ytho opposto- o f)c-
tnonio. A tragcdia divina transct'lltl(•ntalison-sc:
o (l('n1onio tornou-se tão ahHtra<'tn con1o tlPus. ()
{TniVf'l"SO intf'iro eaÍll SOh O impt•rio <l'PSÍ:\S dnaq
p·ltPneias autith<·ticas, C'gnaluwntc aLstractas, e cn-
IH.- DEMONOLOGIA- J. 309
jas rcvC'laç:õcs ou hypostascs cr:un de urn lado as
do pensanteHto 1nystico, do outro as
<lo i nstineto reali:sta. Deu::; cu1 toda a parte,
e1n toda a parte o })C'tnonio -- ubique dceu1on!
Na nova phantasmagoria, pois, são tão verda-
deiros c rPacs os 1nilagres di vi nos cotuo os delno-
lliaeos. Atubo::; nasC'cin de u1n 1nesm.o estado lucn-
tal, gc·rados co1n as niCSinas faculdades; 1nas uns
são o::; que oLedecen1 visão da vontade 1nystica,
outros os que obcdeee1n aos in1pulsos do instincto
earnal; uns são os qne entran) no corpo dos do-
gnias reconllecidos bons, outros os que pcrten-
cmn aos n1ythos re1uotos conden1nados. Theologi-
camentc, Dmnonio é o l\Ial, Deus é o Betn.
!\las para o povo, ignorante da theologia e con-
SCITador das suas tradições, usos e atnores antigos,
o de1nonio, nas suas hypostases diversas (repre-
sentantes rnodernos dos antigos typos de di vinda-
dos chtonicas ou eschatologicas, principaltnente)
11ào é nuu1 ab:3oluhuuente: é un1 vencido que fre-
quenteincnte 1nerece achniraçào, syn1pathia, quasi
nn1or. O nosso povo cha1na-lhe Cornuda, Uulta-re-
volta, 'riçào-nC'gro, Barzabú, Fusco, Zarapclho,
A-cousa-1nú, Pedro-de-Inalas-artes, Tisnado, 1\Ltca-
uito, Satanaz, l\Iafarrico, Carocha, Galhardo, etc.
--e nenhun1 d'estes ílOines exprime odio: uns di-
zcn1 1uedo, outros até sy1npathia. «Ü diabo não é
tão feio co1no o pintain» é tuna expressão vulgar
ainda, e usada n'um sentido n1etaphorico. O diabo
do povo não é o dos theologos, e os diabretes,
dragos, fradinhos-da-n1ão-furada, que habitam nas
casas co1no genios ou gnomos que são, herda-
elos das n1ythologias anteriores, não tén1 n1aldade,
são apenas travessos : quebra1n a louça, apaga1n
ns luzes, divertem a Iuonotonia silenciosa da noute.
O povo que os não teme, põe en1 Satanaz as len-
310 L. IV.-A l\IYTHOLOGIA CHRISTAN
das antigas dos tytaens e os trabalhos dos heroes:
o diabo é o author das grandes obras que in1pres-
siona1n a imaginação, como as pontes sobre as tor-
rentes- como a bossa ponte da l\Iisarela, alta de
23 m. sobre o rio. As «obras do diabo» são os
grandes arrojos da arte humana, como mais de
uma cathedral.
O povo, no seu sentir collectivo, é como as crean-
ças que desconhecem a caridade: põe o nos
côxos e aleijados, como o selvagern que concebe
nas doencas a visita de uma certa ahna. Os doi-
dos, os cÔxos, os cegos, os mudos, dizia Lnthero,
são homens em que o diabo habita : os rnedicos,
tratando estas enfern1idades como tendo causas
naturaes, são ignorantes que desconhecem a po-
tençia do demonio. Luthero, o representante n1ais
genuíno d"a alma popular germanica, via a patria
do diabo por toda a parte: havia muitos na Prus-
sia; na Suissa, junto de Lucerna, no lago de Pila-
tos, morava um demonio terrível ; em Eisleben,
terra natal do protestante, conhecia elle UIU paul
similhante : era un1a prisão ele diabos ; se se dei-
tava u1na pedra na agua, levantaYan1-se ondas e
tremia a terra. Em Sussen, n'utna sexta-feira
santa, o diabo levou tres escudeiros que se lhe ti-
nham vendido.
Para a flespanha do seculo XVI o livro do Ci-
rnelo (ll··p'robaciorl de las supersticiones, 1556) é o tratado da
demonologia peninsular. Ahi, esse 1nytho snnlnla-
rio da Edade-rnedia mn cuja rt>alidade o anthor
crê, em hora não creia nas ,ç;uper:4iç'ües do nnirnisn1o
pritnrevo, apparcce dotado de todo o sabC'r :
h(' los moYim('ntos tlc y tlt> dPIHl'ntos, y
El:thP laH virtndPs clP las (':.;tn•ll:u-;, loH ,.,.Jip:-'t'S y laH eou-
jmH'ionPs y otros a;-;p<'l'tns de los pl:md:ts. las pro-
pil'dadcs dP los mctalcs y piedras, yerbas y ,{(, todas
111.- DE!\IONOLOGIA- f. 31 I
nwdirinas y las de los pN·es y de ]as animalias de ]a
tiPrra. la aHtrologia., philosophia y mPdeeina, mPjor y
mas pcrfPPtanwnte qne todos loR y sahios del
mmulo ... I )n las roRaH ya pasa(las en rl mnndo, tiene me-
moria, y las sahe ra:-;i todaH corno y en ({HP rn:-mPra aeaes-
f'i<'ron y las pnP<lc rontar romo 1m gramlr corouista, por-
'i.UC todas las ticne cn sn nwmoria y pnPclc lncgo recontar
lar; historiaR dP los s:mtoR patriarchas de las prinwras
rclwleR dPl mundo y las de los llPbreos, Grirgos y Latinos
y de todas las oh·aR uaciones barbaras ponp.te el He halló
('11 tol\as ellaR don(le qui era que acontecieron ... Y todas
estas rosas rl diablo las pucde revelar {t los malos hom-
brcs siervos suyos.
A sciencia do diabo não é pois má em si pro-
pria : é a sciencia verdadeira, vista atravez do in-
ferno. A irnaginação synthetica inventou para op-
pôr ao Deus semita um Dernonio formado com to-
dos os elementos tnythologicos do pensamento neo-
aryano, n'esse mytho novo em que vém som-
mar-se tambem todas as tradições animistas. Se
Deus, pensamento ou vontnde do n1undo, esüí en1
toda a parte, em toda a parte está egualn1ente
a sua antithese e o seu émulo-visto e ouvido nos
sonhos e nas allucinações. «De nonte, quando
acordo, diz Luthero, apparece o diabo que disputa
con1igo e n1e propõe idéas singulares, até que eu,
animando-me, o dispeço dizendo-lhe : beija-Ine o
c .. ! » Não houve grande espirita, n'essas edades
geradoras precedentes da nossa, que não visse o
demonio: era uma apparição que saía das entranhas
do pensamento universal, como o fun1o das caba-
nas das aldeias se levanta de madrugada dos vales,
subindo e involvendo os montes erguidos.
Pico de lVIirandola attesta as visões de Savana-
rola, e nlelanchton consulta spectros que lhe res-
pondem. O demonio vivo apparece a Luthero na
'V artburg e é repellido com o tinteiro do doutor :

312
L. IV.- A l\IYTHOLOGIA CHRISTAN
ai·nda hoje se mostra a nodoa da tinta na parede.
<c O ini1nigo de todo o betn e de toda a saude ga-
lopa: ln e ás vezes na cabeça ilnpedindo-n1e de ler
ou escrever o quer que seja.» 1\Ias a allucinação
não pára na região do pensan1en to : chega a per-
verter os sentidos : vêmn-se dragos, serpentes e
n1onstros inominados.
E' só aos espíritos agitados pelo protestan6$lllO
que o diabo apparece? Não. Os melhores dos san-
tos são perseguidos; e quasi se póde dizer que a
tentacào é utna condic?io de santidade. Santa The-
reza "'conta no Libro de su vida que, estando u1na
vez rezando, o diabo lhe appareceu do lado es-
querdo : saía-lhe uma grande chatnn1a branca do
corpo, utna chatnma que não dava s01nbra. Dizia-
lhe que ella se lhe escapara das 1nãos, Inas que
voltaria. A santa fez o signal da cruz, o. diabo
dcsapva1·eceu. De outra vez deitou agua benta
cotu o mes1no exito. Resanclo co1n fervor, na
egreja, o diabo veiu e sentou-se-lhe sobre o livro;
repelliu-o, elle fugiu e voltou: isto por varias ve-
zes. A santa 1:ia o purgatorio e as ahnas que a
sua J?rece ia renlindo : por isso o diabo a inter-
ro1np1a.
O problcn1a da synthese sununaria das duas
origens parallelas da 1nythologia, problen1a que o
ehristianis1no devia resolver con1 o 1nytho da Von-
talle abstracta, rcsnscitava no dnalis1no sin1nltaneo
da theologia dos doutores c da alluein:H.;ào llos
santos. Porque? Porque a Europa, avnssalhula utu
u10mento pela icléa <los sCinitas, não podia snbmet-
V•r a essa dura a sna ttis Cr(•atlora.
!'assado o terror do ntillenio, c prov:ulo que o
llllliHlo viv('ria, os filhos dos aryas, oln·«lel'entlo a
un1 instincto, atonn<·ntallos, unw,
}neta derraueira Clll busca ua SUIUHla. tiaLeuoria.
III.- DEMONOLOGIA -1. 313
A grande phantastnagoria do 111nn<lo enlouquece,
e n'essa <'poeha (la e1n que cada dia
:surgl'tll d<'scobcrtas tào intprevi::;tas conto as -dos
1n:tres c continetltes incognitos, as caL('<;as andam
êÍ roda- cnmo o nHnHlo que novos sabios affirtu:un
girar no espas;o! 'Taeilla tuJo, segundo Luthero Jiz .
.. \ poz frente a frente, sobre a 1\loHtanha,
Deu::; e o Diabo mn opposiçrio : nen1 os sabios,
llCHl o povo, sabcn1 qual dos dois póde ou vale
1unis, chegando a confundil-os. «A tentação Ja
carne é pouco : a prin1eira n1ulher a cura. .Eusta-
('hia teria curado S. Jeronynto. Deus nos li-
Yrc das gTande::; tentações da Eternidade! Nào se
sabe entào se o diabo é deus, ou deus é o diabo.»
Nas palavras de Lnthcro vê-se, ao acabar Ja
EJ.ade-nwdia, que a u1ythologia religiosa, digeriJo
o setnitistno, se encontra no tnes1no e::;tado etn que
se viu a Antiguidade platoniea: assitn uu1a alvo-
rada torna depoi::; de tuna noute escura. A situa-
çã.o 1nental de Luthero é a de Loyola t_ é a si-
tuação da Europa inteira, que achou para ella
duas solut;Ões oppostas : a Obediencia e o raciona-
lisn1o dos jesuitas, e a Liberdade e a illunlinação
dos protestantes. A solução de Loyola, abraçan-
do-se aos joelhos de Deus e rojando cotno un1 J oh
a face no pó, é a solução orthodoxa; a de Lnthero,
protestando, abre a nn1 ten1po o carninho parallelo
da extravagancia illunlinada, da ironia acerba, e
do bon1-senso pratico. O re1nedio contra as tenta-
ções, diz o doutor·, é resar, trabalhar e não estar
só. O diabo é triste, a Juusica afugenta-o : se não
bastaren1 contra elle as palavras da Escriptura,
tern1os picantes e n1otejos.
A orthodoxia 1nandava usar cilicios, jejuns, peni-
1 V. lli;,;l. da civi.l. iúerica (2.a cd.) pp. 190 202.
314 L. IV.- A l\IYTHOLOGJA CHRISTAN
tenc.ias; mandava castigar a carne rebelde, casti-
gar os desejos, o mundo: tudo isso era o Demonio,
e Deus a paz do aniquilamento mystico. Por isso,
o diabo que resutnira em si toda a realidade da
viela na Edade-media, a pparecia agora aos c a tholi-
cos encarnado na propria pessoa do herege que
scindia a Egt·eja. Luthero e o Papa repetiam na
historia o fa1noso duello da Cochheo
affinnava que o doutor provinha de um inc.ubo; os
hespanhoes na dieta de Augsburgo (1530) acredita-
vam que Luthero e Catharina engendrariam o
Ante-christo.
Nno será porventura temerario vêr n'esta huma-
nisaçào positiva do Diabo a sua n1orte. O denlo-
nio é um deus, e os deuses acaba1n no dia em que
attingern a phisiono1nia de homens.
2.
1\las falta-nos ainda estndar a feiticeria sob o
seu aspecto particular á Edade-1nerlia e ao chris-
tianisn1o, isto é, a feiticeria detnoniaca, para nos
aproximarmos do tern1o dn nossa viagem.
O feiticeiro, que n'ontros tPmpos on n'outros lu-
gares é o medianeiro das altnas e dos deuses da
nonte on elos sonhos, torna-se na o
filho do detnonio, desde que toda essa phalange de
mythos se fundiu na pessoa de Ratnnaz. A bruxa
nasce de um coito cotn o clcmonio, on vPnl do nn1
Prro litnrgico do baptistno, ou de ter sido Lapti-
s:ula. por utn padre bPbado, etc. E' urna allnci-
nacla, uma hysterica- por isso, con1o diz :\[iehPIPt,
por cada fPiticciro ha dPz tnil bruxas. A 1nnlhcr
nnscc f:ula: a exaltação torna-a sihylla, o amor
brnxn, a tnali('i:t fPitieeira. EntrP Lrnxa P f<'iticeit·a.
a ... dil5tancia é grande: a Lruxa é apenas a crcaturn.
\
III.- DRMONOLOGIA - 2.
315
do d(ltnonio, passiva; a f(litic(lira tem o poder de
evocar e rnandar sobre os espíritos maleficos. « Ne-
nlnuna p<'•de S(lr bruxa, diz, comtndo, uma sen-
tença da Inquisição portngucza (155U), sem subir
pdos degraus de feiticeira e alcoviteira»- o qne
dá :i bruxa o lugar eminente: graduação conccbi-
vel, pois se a feiticeira é aquella que tem pacto
con1 o den1onio, a Lruxa, embora passiva, é em
si utn quast-gcnto, u1na larva que torna a fórma
de tnulher.
Bruxas e feiticeiras são boas para o pobre
povo: não vi1nos nós que o diabo, tão odiado p(lla
theologia, n:\o deixava de ser simpathico? Para
quem hão de appellar as populações que uma vida
cruel affiige e que a Egreja an1eaça com as suas
orações funebres, os seus ritos egypeios- ritos de
morte e1n que se esvaíram todas as notas da ale-
gria pagan? Vimos quantas sciencias o demonio
sabe:· é astrologo, é medico, é adivinho de theson-
ros e venturas inaccessiveis. A bruxa, seu sacer-
dote, conhece os segredos das hervas consolado-
ras (solaneas), hervas que en1briagam e adorme-
cendo fazem esquecer uma vida funebre, sonhar
COI_TI um paraiso similhan te aos dos fumadores de
opto.
E são terríveis os tratos que soffrem para pode-
rem distribuir as consolações, livrar dos partos as
mulheres affiictas. Renegaram de toda a fé: çstão
perdidas para todo o sen1pre. O diabo, a quem se
venderam, assignando o livro negro do juramento,
vem de noute e leva-as comsigo, arrastando-as
pelos ares, arrancando-as do leito onde dormiam
ao lado do marido ignorante ...
Vôa, vôa,
Por cima de toda a folha!
316 L. IV.-A MYTHOLOGlA CHRISTAN
Assi111 viaja111 por longes terras, vão á India,
vão ao Brazil, e volta111 e1n barcadas e111 cascas de
O\ .. OS; e o povo que as procura de dia a pedir-lhes
hervas e receitas, terne-as de noute, aferrolhando
as portas, vedando as janellas. E' de noute, n'es-
sas viagens da phantasia pelos ares, que a bruxa
se torna 1nalefica : é má quando é apenas u111 so-
nho, e111 realidade é boa. l\Ias o 1nedo anin1ista re-
con1o gato, sentada na borda do berço
dos netos, sugando-lhes o sangue ; Yê-a vestida de
branco, desgrenhada, alta noute, errando nas en-
cruzilhadas por entre os pinheiraes á espera do
diabo. Forn1a111 n111a confraria de servas do de-
lnonio, conjurando-se para o infanticídio, e do san-
gue que chnpan1 fazem os unguentos con1 que se
untatn para irem á meia noute ao Sabbat. Contra
essas perseguições funestas, o povo affiicto nlulti-
lJlica os remedios: rarnos de alecri1n e arruda co1n
uma thesoura aLerta e111 cruz sob o travesseiro do
filho ; urn rosario de cabeças de alhos ao pescoço ;
tuna figa, con1o gesto e co1110 a1ntdeto; chinelos
velhos quein1ados ; u1ua luz accesa smupre desde
que a creança nasce até que se baptisa; tnua fer-
radura pregada na porta; 1neias calçarlas ao aves-
so, espada núa á cabeceira, etc. C01n estes rcn1e-
dios as bruxas serão i1upotentes durante a noute,
e1nquanto se dorrne.
A saudade do 1narido ou do filho que partiu nas
naus da Inuia ou nos galeões do l\lt>xieo, e anda
por longes 1nares, affiigia os dias na edade das con-
quistas. (lne1n o dint, senão a feiticeira
para qnen1 o n1nndo não tern sPgrcdos? O seu
poder é cnornlC: a Cmuaeha, ue ::\lontilla, conYcr-
tPu enl cavallo a D. Alonso de .. Agnilar. o diabo
obedece-lhe c acoile logo (pte ella o eh:una. Untas
urn cirenlo no chão, diz Ciruelo, outras
lU.- DEl\IONOLOfiiA - 2. 317
n'un1a r('dmna cheia de agua, on n'ntn espelho, ou
c1n pP(lras JH"<•ciosas, on no policlo clas unhas elas
n1àos. (_) diabo appar<'ce lhe apraz: utnas
vezes honwtn, outras de saias, outras de cão, tlc
gn to, de lobo, de leão, de gallo, assin1 que foi
chmnado.
En te encanto e te recanto c sohrcen<>anto com todos os
cncnnhulcwcs c com a casa santa de David. e com a hostia
consagrada se é assim
Allclnia, Allclnia
Ham :\la rcos te amarque
Ham te amanse
A graça do Espirito santo te abrande
A consagrada te encarne
Qnanflo me vires
Em mim te remires
Qnnndo me não Yires
Por mim gemas e suspires.
A feiticeira é a amante do demonio ; os seus
amuletos são os fetiches orthodoxos : a hostia, a pe-
dra-d'ara, os corporaes do altar. Sacerdotisa de uin
deus que é a antithese do verdadeiro, os seus ritos
são as forn1nlas satanicas da
Ao esconjuro textual de un1a feiticeira nacional
qne ahi cleixamos exarado, é necessario juntar os
traços que a litteratnra nos fornece? Gil-Vicente,
no seu Auto elas Fadas_, d<í-nos nn1 tratado da fei-
ticeria classica portugneza. A feiticeira retrata-se
a Sl aSSllll:
Ando nas encruzilhadas
A's horas que as bem fadadas
Dormem somno repouf;ado,
E estou com nm enforcado
Papeando-lhe á orelha ...
E havendo piedade
318 L. IY.- A MYTHOLOGIA CHRiST AN
Das mulheres mal casadas
Pera as ver bem maridadas,
Ando pelos adros nua
Sem companhia nenl1uma
Benão um sino samào
J\Iettido n'um coracão
De gato preto, e não al ..•
Faz-se em scena a evocação, n'um alguidar
<<feito ao luar, debaixo das sete estrellas, cotn cus-
pinhos de donzellas » onde vem toda a se ri e dos
feitiços : sangue de leão 1nexido com rabo da Huja,
fel de cornja, fressura de sapo, mama de porca,
barbas de bode furtado, fel de morto exconunun-
gado, seixinho de ao pé da forca, bolo de trigo,
bico de pega, aza de morcego, bafo de drago
... reliquias minhas
agua clara mcttidas
Ha vedes mister mexidas
C'o lixo das andorinhas.
A noute, porém, caminha, e o diabo espera as
bruxa::; e feiticeiras nos oli vaes remotos para a
1\lissa-negra do Sabbat:
Cavalgo no meu cabrão
E vou-me a. Vai ue Cavallinhos
E ando quebrando os focinhos
Por actuPllas oliveiras
ehaman<lo frades e freiras
Que morreram por amores ...
No Diabo totnaratn corpo todos os 1nythos cou-
deJnHados: no SaLLat praticatu-se os velhos
prohibiJos, dando-se largas ao deses}Jero q llC 0}->-
prime as povulaçõcs pür8eguidas yur tuna clercz.ia
Ú,\·ida. c por uma nobreza cruel. O <tue foratn cc-
rentonias tornatu-sc c1n sonho::; e X a
III.- DEMONOLOGIA - 2. 319
] lespanha, a região do Sabbat é a das n1ontanhas,
na serra l\[orena, na ::;erra Nevada, nas faldas vas-
congadas do Pyrencu onde está. o Prauo-Jcl-ca-
bron. 1\hi as feiticeiras ou xorguinas iam ouvir a
1\[issa.-uegra a que o diabo presidia en1 fórrna de
satyro ou sc1ni-capro negro e feio. Parodiava-se a
confissão, a eucharistia e a ulissa, acabando o car-
naval satauico por un1a orgia lubrica em que os
assistentes se soltava1n aos bandos, sob a fórma
de gatos, lobos, talando os carnpos. Ei::;
nq ui a descri pção dada por umas bruxas por tu-
guezas, penitenciadas pela Inquisição e1u
Sendo nos ditos campos, disse que se achava lá outra
muita gente de muytas partes, a saber, portuguezes de
todo este reino, mouros, judeus, fraucezes, e de outras
mnita::; uaçõm; e línguas e muytas mulheres e ho-
mPn::; portuguezes e algum; muito fidalgos com algumas
filhas moça::; e formosas ; e alguns levava;m cousas Je co-
mer, e tanto que lá chegavam, muito com ellas os demo-
uios em pouco espaço de tempo dormiam com ellas muita::;
vezc::; carnalmente. . . e q ne elles ( demonios) tambem dor-
mem com moças virgens as quaes suas mães por serem bru-
xas c outras tambcm bruxas lhe alcovitam e provocam a
que pequem e durmam com elles e com os mais da sua
dia.bolica ::;eita. . . Nos campos onde se ajuntam, os demo-
nio8 dão aos mesmo::; homens bruxos mulheres muito for-
mosas com que durmam, as quaes eram os mesmos demo-
nios que tomavam a figura de Inulheres. . . Depois de
fo1garem uos campos e ajuntamento::; com clles (demouios)
lhes pocm uma mui eomprida mesa uc umas taboas ne-
gras, estas em cima da terra sem toalhas e sem mais ontra
cousa, e lhes trazem em uns pratos de púo preto e delles
nas mãos muita somma de carne de bode muito cosida e
c lelida e a lançmn pelas meza para que ellas com
comam. E as que não querem comer andam em seus pas-
sa-tempos carnaes e !;CUS torpe::; ajuntamentos pelos cam-
pos folgando. A qual comida... fedia muito a enxofre c
alcatrão: e nas mesas estavam por candeias umas tochas
('Olll cabos de cordas alcatroadas com breu c alcatrão que
davam um negro, escuro e fedorento lume. E na cabeceira
da mesa estava sentad.o o seu maioral em sua cadeira de
320 L. IV.- A l\lYTHOLOGlA CHRISTAN
espaldas negra, com mn roupão, com o capuz frizado e ás
vezes o tinha tosado muy negro e uma barba muito com-
prida e como rei o e obedeciam todos os outros
e o de joelhos e na mesa serviam muitos (raquelles
espiritos malignos ... E estando n 'estes desenfadam eu tos e
folgares cantaya no campo um gallo preto que estrngia as
orelhas que devia ser algum demouio que sempre cantava
á meia nonte e a modo de gallo. E logo u 'um momento se
desfaz a festa e o folgar e todos os demonios desappare-
cem e os que lá tém suas amigas e mancebas as tornam
n'um momento a trazer do uwdo que as levaram as suas
casas.
O Sabbat portuguez é apenas carnal ; é sim-
ples e grosseiro co1no a imaginação rude do poYo
que o concebe. Quasi não ten1 caracteres satani-
cos, cmno a l\[issa-negra da Biscaya. Sonho de
espiritos allncinados, apparece con1o um espelho
da vida : o Sabbat não é outra cousa 1nais do que
a visão nocturna, a apparição e1n sonhos d'aquillo
que durante o dia parece ser o sutnnto da orgia.
A mareha cl'esta crença é correlativa á outra,
-dos lobis-hon1ens: dos trajos nos sacrifieios dos
bosques veiu a confusão dos hmnens e das bestas,
e d 'essa confnsà,o snpposta a allucinaçào da lycan-
thropia. Com o SaLbat succede outro tanto. Até
ao anno 1000, as reuniões nocturnas fazern-se para
a cPlcbraçào das cerernonias pagans que a EgrC'ja
condemna; fazc1n-se de noute, en1 ean1pinas afas-
tadas. A turba confusa de gC'nte que os sPnhores
lançaran1 na condição de servos adora Dianon1
(l)iana-llf'cate-Lua) accendendo-lltP yt>Jas; o lu-
p(··r<'al persf'gne as tnnlheres e as cn·an<;as cont a
vdha tnaseara negra do I lall(•qnin
(ArlPqnin). Assin1 se cPkLra fit·lnu·ntP o JJerrili-
!JÍ1un ntata-sc no S . .João o Lode de Pria-
po-Bac<'ho-Saba7.io, essP earnaYal pnpnlar
que a Egn·ja repelle para a noutc c para a smn-
III.- DEMONOLOC:JA- 2. 321
hra <los O latitn C'tn qne C'lla profere a
l\lissa Htn 1nystf'rio para o sC'rvo, c á ma-
n<'ira rptn a Antiguidade se afasta, os seus deuses
o detnonio (confonne vimos) c as SaLa-
zias a :\Iissa-nrgra on Anti-tnissa do Dernonio que
ú o A nti-I )Pu!;: tatnbenl o servo é o inin1igo do se-
nhor feodal!
Por dois on trcs seculos - a edadc anrea dos
pactos- o l)cmonio é o protector de todos os affii-
ctos, dos 1niseros na sua mesq ninhez, dos sabios e
dontores nas C'mnplicnçõcs e enygmas dn escholas-
tiea e (la alchytnia, dos artífices nos atrevin1entos
dns . snns constrncções aereas que desafiain as leis
da estabili(hule- prineipaln1ente do povo dos cam-
pos, perseguido pela crueldade dos senhores, per-
pela f(nne, perseguido pelos filhos cho-
rando por pilo ! As orgias do Demonio são este-
rf\i:.;, as brnxas afogan1 as creanças no berço :
Viva qnen1 nos livra da affiicção dos ti lhos ! A
negra, cspeciahnentc na Europa central, onde os
servos se congregavan1 ás noutes em multidões de
seis, de doze nlil cabeças, é o fennento das jacque-
'J·ias levedado pelo satanistno, excitado pelas bebi-
narcoticas e pelo delirio das rondas de Saba-
zio. O Baccho antigo é jêí clara mente o Demonio :
um itlolo de pau, hastato, com o bode symbolico
ao lado, sobre o altar onde a feiticeira celebra a
missa ao clarão das fogueiras lugubres que fazem
dançar no fundo negro do ar as dnas moles nledo-
nhas- a da torre feodal distante que é a persegui-
ção na terra, e a do corucheu da egrf'ja onde o
latim dos padres repete en1 permanencia as ora-
ções da 1norte com ameaças de torn1entos eternos.
Tudo é lugubre- a terra e o céu ! Satan é o unico
protector e messias do servo.
A partir do scculo XIV a !\Iissa-negra de Saba-
22
322 L. IV.- A MYTHOLOGIA CHRISTA.N
zios-Satan já se não celebra nos campos, 1nas fica
por le1nbrança na imaginação do povo, para arre-
batar as 1nulheres hystericas -as bruxas. A fa-
Inoza untura com que ellas se preparan1 para a
viagen1 pelos ares con1põe-se dos suecos da datura
da belladona, da mandragora, suecos
excitantes, narcoticos poderosos que produzen1 as
allucinacões do sonho : o alcaloide da dat. stra·m.
é a 1nes;na atropina que se extrae da belladona, e
n1açan-d'espinho, maçan-do-son1no, maçan-do-diabo
são denmninações da planta celebre das feiticeiras.
Gassendi conheceu ainda no principio do XVII se-
culo um hotnmn do Languedoc que usando do oleo
de stran1onia tinha a certeza de ir passar a noute
ao Sabbat: sabia nnlito ben1 que donnia, mas sabia
ta1nben1 que as viagens dos sonhos eran1 'J'ea-
lidacles.
Cotn que argtunentos se lhe provaria não o se-
reni, se elle via, sentia, gosava? E o leitor não
esqueceu de certo ainda con1o a psychologia do
hmnen1 pritnitivo vê acordado o que sonhou dornlin-
do, e co1no as apparições da noute se tornam al-
lucinações de dia. D 'esse estado pathologico do
systema nervoso veiu a lycanthropia e vmn bunLetu
outra Inolf'stia cguahnente filiada nas superstições
ou factos de sobrevi vencia da nossa Edade-media:
a choreotnania. No tc-se o facto sabido do caracter
contagioso das affecções nervosas, e cmnprehender-
so-ha a realidade phantastica de un1 tmnpo en1 que
tudo são bruxas, tuJo lobis-hmnens, tudo rondas
de gente desvairada no delirio da dança-Jnacabra,
a qnc os allmnães chan1alll ue San-'Vitt, os frauee-
zes ele San-Guy, os hollandezes de. Ban-João, que
parn os italianos da CalaLria é a rrarentula, c para
os }'uwpe1·s do 1\Ionnwuthshirc, ahi por 1785, tuna.
III.-DEMONOLOGIA- 2. 323
hmncHa.g·mn a Deus ctn n1cn1oria de Daviíl, o que
da11çon perante a Arca!
1\s nn V(\llS de altnas que povoan1 a phantasia
a vcnhvlcira nutndragm·a da imaginaçào : são
(•lias qne cnlouquecmn o povo, uesdc que os tlouto-
rC8 fizcnun COill todos OS 1nytlws O Uua(iSlllO trans-
f'Cllllentc de l)eus-Dmnonio. O dcsvairaincnto é
(\gn:d, na vm-tigmn <lcn1oniaca e no extasis tnys-
tieo; a loucura iuentiea, para o critico, nos que
rêem, o Detnonio porque un1 pessi1nisrno
satanico, e nos que vêem Dens porque respiran1
un1 optitni8tno religioso. A Egrej<-t, porén1, não
podia p(•nsar assi1n. Elia viu, vê ta!nbmn o Dctno-
nio que é o seu ini1nigo; c cmnbatia-o cotn as ar-
Inas do inferno, co1n as tenazes e o lutne, condc-
lnnanuo ús eluunnu1.s reaes aqueUes que a theologia
contletnna :ís chammas i)hantasticas de outra-vida.
vão surgcn1 sporaclica1ncnte os protestos con-
tr:t a crueldade: nen1 os inquisidores ne1n os fei-
ticeiros se crêmn victi1nas de u1na allucinac:Lo. En1
1518 vVier, de \Vestphalia, dil-o porém,
:i lycanthropia, ao Sabbat, ás feiticeiras, casos de
hysterio-dmnonopathia; em 1463 Edelino, doutor
da SorLonna, affinnara que as saturnac8 diaboli-
cran1 apenas sonhos doentios; e, cn1 1320,
Grillando, utn inquisidor de Arezzo, ven1 declarar
que os SaLbnts sào iu1aginarios e as bruxas pes-
soas atacadas ele hysterisn1o. l\Ias estes prenun-
cias de utna lucidez scientifica c critica luzcrn
ainda apenas con1o alvoradas. A Europa é nnut
casa-de-doidos, hystericos ela sabedoria que vêe1n
Deus, hystericos da feiticeria que vêetn Dento-
nios: os pri1neiros qucitnain os segundos. As fo-
gnciras da Inquisição crcpitan1 e a diabolatria
nasce, con1o tuna phenix, das cinzas dos quc•iin;l-
d<>iros. Desde a l-Iespanha até á Allen1anha, a Eu-
*
L. IV.- A MYTHOLOGlA CHRISTAN
ropa é uma fogueira em que uns doidos quei-
n1an1 outros doidos: em 'Vurtzburgo arderatn de
unu1 vez 800, en1 Bamberg 1:500, em Genebra no
anno de 513 n1ataran1-se 500 feiticeiros em tres n1e
zes. A Hespanha, á sua parte, quein1ou (13-!7-1806}
32:000 pessoas, entre feiticeiros judeus e hereges;
Portugal (até 1732) 1:454. t
3.
l\Ias quetn ignora hoje a influencia anesthesica
da allncinação? O fogo não queima, as feridas
não doetn, a 1norte não assusta. Em todas as per-
seguições se observa a mnbriagnez do 1nartyrio
que é contagiosa, e se os Acta sanctorlon conside-
ranl tuilagre a coragem dos christàos, os feiticeiros
tétn tan1bmn o seu n1artyrologio, e qnasi e1n nossos
dias a Liberdade, ídolo novo, o teve tan1ben1. Na
revolução franceza tnorria-se corn indifferença, qua-
si con1 prazer, e de certo con1 vaidade. A un1 doi-
do que tentou suicidar-se cortando as gnelas no
hospital de Paris, ouviu-se dizer: «Tive logo· a
voluptuosidade ineffavel de cortar o pescoço e vêr
correr o n1cu sangue!>>
O hysteristno produz utna cmno loucura, porque,
se as facnldndcs n1enül.es nrío cstfío .desorganisadas,
a dcsonlen1 nas sensações dcí-lhes in1pressões erro-
neas : é un1a loucura reflexa, se assi1n é licito di-
zer. .Affinnan1 os Inedicos qne no h'ysteris1no o
cnferrno sente subir do hypognstro ao pescoço
co1no un1 nó que teria sen1 se salH:r
c_·otno, no organisn1o. As constriC'çõcs, os tnovimen-
tos involuntarios, a desortlcn1 qne sPntin1os não
poder clotniuar, fazem-nos que oLedecciuos a
1 V. IJU. de l'urlutjal (3.
8
O(l.) n, pp. 31-·10 o 18t.i-9J.
III.-DE:\fONOLOGIA- 3.
llllUt vontade allwia. a sensação
de fonnigneiros, oppressão na pclle n
nas Vl8CPras, c cotn isto furias, ntna força Inns-
t•nlar extJ·aordinaria, a Locea cscutnante cn1 aeces-
sos llc gritos c palavras sen1 nexo. Eu vi unta hys-
teriea racltar eotn nnu1. pahnada utn tijollo arga-
lnassado no chão de uma casa aletntejana; vi-a
por horas fixanuo o sol setn cegar; ouvi-a ladrar
cmno un1 c:to. Todos conh0cetn os factos observa-
dos de analgesia ou insensibilidade local : cotno as
1nordcduras nã.o domu 1nais aos lipenutniacos do
que o varão de ferro cn1 braza que o cão damna-
do cotnprin1c na bocca ; cotno se tétn nas 1uãos
carYÕes ardentes e se pratican1 sen1 soffrin1enti>
tantos actos dolorosos -explicação obvia de 1nais
de utna das p1·ovas dos Juizos-de-Deus dos povos
prilnitivos.
O hysterico é o possesso: o nó que sobe do
hypogastro é o de11wnio que presta a sna força
itquelle e1n que entrou, fallando-lhe pela bocca es-
pnn1ante, n1anifestando-se na insensibilidade da
pelle. Chan1ava-se signal-do-dia bo ao ponto em
que itnpunen1ente o exorcista enterrava tuna agu-
lha, prova evidente da possessão de1noniaca. Essa
condição morbida en1 que o hotnetn apresenta fa-
culdades anorn1aes não podia ter outra explicação
senão a transcendente : Deus ou o Demonio, seres
que se confundem nas raias da visão, não se sa-
bendo ben1, mais de un1a vez, se a allucinação de
um alun1-brado
7
t por exemplo, é divina ou demo-
niaca, heretica ou santa. 1\Ias os sy1npton1as ex-
travagantes ou repellentes do hysteristno quadran1
melhor ao den1onio do que ao deus, e é un1 instin-
cto que estabelece a distincção, quando não é o
1 V. Hüt. da civil. iberica (2.a cd.) pp. 183-!) e 98.
326 L. IV.- A 1\IYTHOLOGI.\ CHRISTAN
con1portamento ou a doutrina seguida pelo en-
fermo na lucidez. Subjectivamente, o paciente ex-
perimenta a n1esma illusào. Todo o ar que respira
é divino ou demoníaco: crê-se visitado por deus
ou pelo demonio. Já de1nos exen1plos bastantes
d' este estado de imaginação que, se hoje é talvez
só dos alienados, foi já commum a toda a gente.
Vin1os a opinião de Luthero, ven1os con1 elle sabios
e doutores defendere1n n1uito positivamente a rea-
lidade da possessão. l\lartin dei Rio allega o caso
de l\Iaria Pacheco, a senhora de Coin1Lra e1n qne1n
o demonio entrou e que, feita hon1em, partiu para
a India onde praticou façanhas. AnibrQsio Paré, o
celebre naturalista, crê na possessão, nos pactos,
nas sortes e maleficios; c·lassifica os de1nonios e1n
varias ordens : cacodemonios, coquen1ares, gobeli-
nos, incubos, succubos, lutins ; diz que se trans-
fornlam em bodes, jun1entos, cues, lobos, corvos,
lagartos, para apparecerem no mundo; e que in-
troduzindo-se nos possessos, falla1n linguas igno-
tas, fazem tremer a terra, chan1am relan1pngos e
trovões.
O paciente experimenta a mesma crença qne
está no espirita dos que o rodeiam; julga-se a si
aquillo que os mais crêen1 que elle é, e por isso se
observavam possessos que se delicia van1 na honra
ou que se penitenciavam d'ella. Esses casos, ge-
raes outr'ora, rcpetitnos, são hoje relativanwnte
raros fúra dos hospitaes de loucos. Ahi observa-se
que á 1naneira que o chC'fe do estado é rei, intpc-
rador ou presidente, assi1n os doi<los se crêen1 a si
quando a mania das grandezas os ataca : nos
hospitacs de l)aris, (h•pois da Connunna, fonun
nunwrosos os casos de nutlhercs safanisada8 que
SP confcssav:un }Wtr·olciras ou gnias dos prnssianos
ctn Sedan. A afllicção universal intpriiuia na lou-
III.- DE!\IONOLOHIA- 3. 327
cura u1n cunho de protesto que é cmno u1n ecco dis-
tante dos protestos de1noniacos do povo na affiic-
ção da E<ladc-n1cdia; c entre a loucura constitu-
cional c a loucura reflexa pC'las alluci-
IHlÇÕC's do hysterisn1o (casos distinctos para o
1ncdico) não h a, soL o nosso ponto de vista, diffe-
rençoa, porque :unhas leva1n a u1n tnesn1o estado
1neutal que nos doidos é constante e nos hysteri-
cos intertnittente.
Cotntudo, co1no em outros tempos se dava rea-
lidade {t possessão, a intermittencia das crises tor-
nava-se utna loucura chronica, porque até na luci-
dez o hoinetn sujeito a accessos se acreditava e
era ton1ado co1no presa do demonio. Passivo, e
não quasi-dcmonio como as bruxas e feiticeiras,
vehiculo apenas e não sacerdote ou filho elo diabo,
os que com elle, repetimos, ou abraça-
vatn ou repelliam o tentador. Não ha santo a
que1n o diabo não falle, não ha ho1ne1n que elle
não tente, não ha corpo que não visite : é abraçado
on repellido, e d'ahi vém as numerosas lendas dos
cujo destino é o céu ou o inferno, con-
na vida ·escolheram deus e o mosteiro ou o
den1onio e o mundo.
Torralba, medico ela rainha D. Leonor, mulher
do nosso D. l\Ianuel, é um Fausto h espanhol cujo
l\Iephisto foi Zequiel. Em sua con1panhia viajou
pelos ares a assistir á tomada de Ro1na pelo
Bourbon (6 de maio <le 1527) conforme D. Quichote o
conta em Clavileiio.
Acuerda-te clel verdadero cuento del licenceado Tor-
ralba a quien llevaron los diahlos en volandas por el aire,
caballero en nna ca:fia, cerrados los ojos y en doce horas
llegó á Roma y se apeó en Torre de Nona, ... y vió todo
el fracaso, asalto y mnerte de Borbon ; y por la maiiana
estaba de vuelta á l\Iadrid ya, donde dió cuenta de todo lo
3:28 I •. IV. -A MYTHOLOGIA CHRISTAN
qne habia visto : el cual asimismo dijo que cumlClo iba por
el aire le mandó diablo que abriese los ojos y los abrió
y se vió tau cerca á su parecer dei cuerpo de la luna que
la pudiera asir por la Inano y que nó osó mirar á la tierra
por nó desvanecer-se.
A ironia caustica de Cervantes abracava na sua
conde1nnação pelo bom-senso a cavalla;.ia e a feiti-
ceria, t n1as na historia 1nonastica portugueza de
S. Frei Gil, confor1ne a conta Fr. Luis de Sousa
(llüt. de s. Domingos)_, vê-se quanto os pactos eram ainda
considerados realidades no fi1n do seculo XVI, e
ta1nben1 1nuito mais tarde. 2 8. Frei Gil nascera
en1 v· OUzeJla en1 1190 e estudava llledicina quando
o de1nonio o tentou- porque na Edade-n1edia o
diabo tenta de preferencia os medicos que estu-
danl os segredos da vida. Fez-se o pacto. «Foi-se
co1n elle onde o esperavan1 os 111inistros da offieina
infernal. Era un1a gruta na raiz de un1 n1onte en1
lugar enno e longe de povoado. Aqui entrou ·e re-
sidiu, feito discipulo de Lucifer. » Essas covas, onde
Gil esteve, eran1 junto de Toledo, e d'ahi foi a Pa-
ris ton1ar grau, e entregava-se á deYassiJào do
mundo quando lhe appareceu u1n cavalleiro bran-
dindo un1a lança e dizendo-lhe: «J\Iuda a vida, ho-
mem, n1uda a vida!» aterrado, vindo parar
a l)alencia, onde ao tempo se erguia u1n convento
de S. D01ningos. Confessou-se e ton1ou habito, vindo
transferido para Santarcn1 proseguir a sua vida de
penitencias e cilicios para rehaver o papel que
dera ao diabo. Na allucinação das orações, a terra.
abria-se c via o inferno co1n as suas channnas, e
vozes diJr.iaru-lhc qne seria essa a sua IHornda
(•terna. O diaLo apparccia-lhc ent fúnnas dc:::;vaira-
1 V. lli•l. tia ridf. ib•·rit·a (2.n ml.) pp. 2J0-3. -! Y. llillf. tle Portugal
(3.
8
cd.) u, 1'1'· 153-5 u
III. -llEl\lONOLOGIA- .i. 3'29
das : tle tuna vez « tonutndo a figura de unt n1ons-
trno:so ceutanro annatlo de arco c frccha::; e1nbebia
unia no arco l'OIH tanta força que lhe fazia juntar
as pontas c apontava c1n Frei Gil cmn geito e fe-
roci<ladc tal que lhe parecia 11ào podia escapar de
atravessado » ; tle outra vez « arrc1ncte a elle feito
unw. feia c diHfonne tartaruga de cabeça e bocca
tão desnwsurada que pr01nettia podei-o engulir ».
O n1artyrio durou sete annos, ao ti1n dos quacs,
n\una batalha derradeira, «llotou que vinha des-
cendo do alto lla capella da parte onde a vazava
1una abertura. pela qual os (diabos) vira ir fugindo
de tropel, lnun pedaço de pergan1inho que pera
signal do que era c de quem o ganhara e dera a
victoria se veio co1no po:sto á 1nào offerecer e a s ~
sentar aos pés da Senhora sobre o altar».
Reconquistado o papel-fetiche, roto o pacto,
Frei Gil volta a Paris estudar theologia e as suas
visões 1nudan1. Não vê o inferno, vê o céu. «Acon-
tecia-lhe n1nitas vezes arrebatar-se subita1nente e
ficar alienado de todos os se11tidos, de tal sorte
que entrando algun1as pessoas onde estava, de ne-
nlnuna dava fé.'' Ex-possesso do De1nonio, passou
ao poder de Deus: ficou o n1esn1o hon1en1, gover-
nado por outro espírito. Regressa a Hespanha
co1no Provincial da Orden1 : é santo, faz 1nilagres
depois de ter connnettido feiticerias, e é que1n in-
tinla ao nosso Sancho II a deposição tra1nada pelo
clero e ordenada pelo papa. l\Iorre en1 12G5, e as
suas relíquias fican1 sendo dos 1uelhores remedias
contra os doentes de possessão- u1u antídoto para
o vi-nho-dantnado !
4.
Na historia de S. Frei Gil vê-se utn typo do
animisn1o bifronte ou dual que inspira v a a theolo-
330 L. IV.- A l\IYTHOLOGIA CHRISTAN
gia e a de1nonologia. O feiticeiro é u1n santo-do-
nini ; o santo, 11111 feiticeiro diviuo. Un1 -vê e falla
co1n o Demonio, o outro con1 Deus. no dua-
lisn10 dos factos de sobrevivencia, moldados e1n
dognu1s ou crenças 1noclernas, observa-se ainda o
1nesn1o eararter que notá.mos con1o fundatnental no
anitnismo prin1itivo: o 1nal é a n1orte, o betn é a
deus é o ar lnn1inoso d'onde sae1n os mvthos
diurnos, o den1onio é a escuridão da
e a visão do sonho. O inferno é obscuro, o diabo
apparere de noute; deus é ilhuninado e vê-se mn
aureolas de sol, entre as nnvens. Deus é o genio
dos astros e da vida, o diabo un1 deus chtonico c
esehatologico. Transfigurada a existeneia, o céu e
o inferno são os 1nythos da vida e da 1norte : por
isso o instineto faz de Deus uma apotheose e do
Den1onio u1na conde1nnação.
1\Ias, na apotheose e na condr1nnação, o estado
n1entnl e o processo psychologico são identicos.
As apparições do ar, tão frequentes, tão eons-
tantes con1o as evocacões das sotnbras, valen1
para a critica a cousa. Santa '.rhereza,
allucinada celebre, perguntada como via, respon-
deu - « co1n os olhos da ahna! » (LiLro de su vida) Era
com esses olhos qne via os padres da co1npanhia
de J esns <c en cielo con banderas blancas en las
1nanos, y he visto de ellos otras rosas U.e 1nucha
:ulmiraeion. » (Obras,,, 7) 'Tisões con1o as de Loyola, t
de S. _Francisco de Assiz, de Santa Cathnrina
de. Sena; visões C'Onlo a de S. papa
quando, na peste de Rmna, S. l\Iigurl apparf'ccu
soLrc o rnansolPn de Aclriano Lrantlintlo nnut
ensanguentada, valmn o qtH' as
<los r)('r:;as que vê01n AI, o C8pirito da febre es-
III.- .l. 331
carlatina, ou dos l\:arrian vendo I.4a, o gcnio da.
() proprio l\fnlcLrnnche olu;ia dentro de
si a. voz de })<ms, c isto nos ITIOHtra c1uanto utn
ph<-•nonH•no anitnista, identico sempre, póde trazer
conJsigo, aggrf'gados, corpos di,·ersos d<' pcnsainen-
tos n1oraes ou nH'taphisicos, desde a inconsciencia
selvagc1n, até ao lteroistuo de un1 Loyola on de
u1n .Albuqnerqnc·, t até, finalrncntc, ú. lucidez do
philosopho dotado de tnna segunda-vista.
se a n1edicina explica a theoria
d' estes anachronismos psyclticos, porque não tem
outro notne a eoexistcncia de vi;::;õcs animistas co1n
ntu estado uulis ou tncnos critico do pensan1e•nto,
é necessario dizern1os duas palavra::; ácerca do lu-
gar dos en1Lustes. Pareceu-nos smnpre absurda a
doutrina que pretende explicar por artiticios os
tnilagres e as fciticerias, snppondo nos anthores
uma conscicncia con1pleta e nos espectadores uma
obtusidade inconcebível. Da allncinacão crente até
ao charlatanistno ha tuna successão
3
de moinf'ntos
em que os dois elen1entos se co1nbinan1 de n1odos
variados, tnas parece-nos poder-se affirnutr que o
charlatão puro é n1uito n1ais raro do que o puro
allucinado. Entre a1nbos, porétn, e co1no quantida-
de tnaxitna, é nlÍstér collocar as allucinações pro-
vocadas etn vez de espontaneas, e distinguir as que
se provocam inconscienten1ente e por vontade. 2
Já. Ibn-I(aklhun dizia que «quando se receberam
revelaç-ões varias vezes, supporta-se mais faciln1ente
o contacto do n1undo espiritual.>) O mistér da py-
thonissa, do propheta, do energurneno, do santo,
torna-se profissional; e o syste1na nervoso, solicita-
I V. Hist. de Po'rlugal (3.a ecl.) 1, pp. 241-64.- 2 V. a estP. respeito
a monogt·aphia do sr. Julio de 1\Iattos, .All'ttcinações; Porto, 1880 (2.a cd.)
trabalho copioso e luciuo.
332 L. IY.- A l\IYTHOLOGIA CHniSTAN
do cmn frequencia, habitua-se a obedecer céga-
lnente ás itnpressões 111entaes. A itnaginação for-
teJuente sobreexcitada, escreveu Goerres, póde
111odificar a nutrição do tecido cutaneo sobre o pon-
to desejado co1n energia e persistencia, até deter-
lninar sobre esse ponto ecchyn1ozes, exsudações
sanguineas e especies de chagas. Eis ahi como ar-
tificias, 1nas inconscientes, e que en1 nada se pare-
ceJu con1 o charlatanis1no, provocatn os extasis dos
santos, a visão dos prophetas, e até os stygtnas
sagrados ou as Santas-chagas de Christo que S.
Francisco de Assiz teve e que por um tetnpo fo-
ranl o cutnulo da atnbição piedosa de tantos doi-
dos de santidade.
Não tétn o 111esn1o caracter da inconsciencia e
innoccncia os cilicios, os jejuns, as fadigas, as vigi-
lias,- as orações que tatnbein artificiahuente provo-
canl a visào e o extasis? Artificio existe pois, n1as
involuntario e inconsciente, e por isso inconfun-
divel co1n o charlatanistno. Na 1nesn1a categoria
será nli:stér collocar utuas vezes, ontras não, o hy-
pnotisnlo provocado pela fixação prolongada da
vista n'u1n objecto lutninoso, n'tuna superficie, e até
n'nma cousa qualquer indetern1inada. E o n1esn1o
caracter a1nbiguo convén1 eguahnentc aos sonhos c
delirios produzidos por substancias anesthesicas,
nareoticas c inebriantes, con1o o ellcboro, o stranlo-
nio, o aconito, a bellatlona, a 1nandragora, a papou-
la-todos os venenos das solaneas das feiticeiras, c
que para ellas tanto podmn ser segredos saer:-nnen-
taC's :i 1naneira dos tctnpos rmnotos e dos Psta-
clos pri1nitivos, cmno artes puras e charlatancscas.
Aqui, a linha divisaria não cst:í no proeC'sso que
(· sempre o Inestno: cst<í no cspirito de quetn o
pratica. ] ~ é incontC'stavcl qnC', ao. decair da verti-
gCin da l
4
:dadc-uwdia, qnanuo a ironia c o sar-
III.- DEMO.NOLO(I(A- .t.. 333
casn1o, de tnãos dadas a tuna scicneia incipiente,
a loucura divina c dcntoniaca, houve
charlataens nas egrejas c nas j(nut dos feiticeiros;
houve gente que viveu- c vive!- de explorar a
frio a cre<lnlidade ingenua. Un1 fogareiro, cera
virgcn1, nnut esponja cn1bcbida en1 sangue c agua
-basta isso para suar os Christos c chorar
as l\fadonas. No ntnseu de Cluny ha mais de um
crncitixo qnc, it maneira das bonecas Nuretnberg,
n1ove a cabeça, os olhos e a lingua.
Essas artes, por grutescas, não tém alcance.
l\Ias não succede o n1cSn1o aos verdadeiros nlila-
grcs- verdadeiros no sentido de serf'nl cridos por
gente qne ten1 o espirita n'un1 estado archaico-
da religião c da scicncia de hoje. Casos con1o o
de Lourdes e reputações como as de um l{ardec,
levan1 a ten1er que, nen1 ao lado de nina sciencia
con1o a nossa, o anin1istno possa desapparecer de
todo, pois o ve1nos renascer sobre as ruinas do ve-
lho inferno na idolatria das fontes sagradas da
Virgen1 e nas aberrações do spiritis1no. A obser-
vação clara da sciencia dissipa o nevoeiro dos n1y-
thos nascidos no estado crcpnscnlar en1 que a in-
telligencia confunde as in1agens con1 os obje-
ctos reaes : n1as póde a sciencia por si só affinnar-
nos que nós e o InutHlo Sf'jan1os a verdadeira rea-
lidade, e não apenas tuna imagen1 de outros seres
c outros mun<los que a razão, n'tun estado de nly-
thologia n1etaphisica, póde se1n duvida conceber?
:Não : a sciencia não basta; o pensan1ento carece
de fnndan1entar o systen1a das suas observações
no alicerce inabalavel do senso intirno e da cons-
ciencia- as duas bases da philosophia.
Essas duas vozes fundan1entaes do nosso pensa-
lnento rlizen1-nos que nós son1os nma realidade do-
tada de un1a vontade : eis a definic1o derradeira


\
\
33-i L. 1\-.- A :MYTHOLOGIA CHRISTAN
do 1nytho obscuro da altna, na qual a in1aginação
ingenna poz a theoria da causa e a explicação da
1norte .. A. unica ahua verdadeira é a nossa perso-
nalidade revelada na orgão claro da.
Yontade organica; a alma de cada um de nós é
con1o a chan1ma produzida por tuna co1nbustlí.o :
essa. coinbustão é a vida, e no seio de tudo está
latente o fogo de que o aryano fez o 1nedianeiro,
e ele que nós nos servimos con1o con1paração. Os
1nytlws do passado são as 1netaphoras do presente.
}lonâna-'JntminaJ era o aphorisn1o de Burnouf; l\Iax
:Thluller chama aos tnythos u1n dialecto, e Breal
identifica-os na sua essencia con1 as suas denotnina-
ções. Assitn, o que nasceu das palavras acaba por
ficar apenas no estylo.
O vento sopra, a chamn1a apaga-se, a ahna
foge, o hmnen1 n1orre : então o e a von-
tade que arderan1 e1n nós voltam ao seio do Incons-
cirnte, não como algu1ua cousa tangível, 1nas co1no
o sotu de utn instrutnento partido. V olt:un con1
a fór1na que se destnancha, cotn a In[tteria que se
des:tggregn. A 1norte é absolnhunente fiual, por-
que a prrsonali(lade on a ahna que foi dissipa-se,
peruendo a consciencia de si; 1nas o pensan1ento é
eterno, porque a possibilidade de prrsonalidndes ou
indiviclnnes é a propria existencia da grande
ahna do Universo, que n1ostra nos factos de trnn-
utissào a prova da sua unidade. A nossa peuua
ohc•(lecc agora, por cxen1plo, ao pens:uncnto de nn1
l'latào, scn1 qne por isso estf'ja mn nós a alma do
philnsopho gt·ego.
Foi este facto tla transrnissão -facto que rx-
primc eone1·et:uncnte para nós a unidade c a rter-
niclauc elo P(·ns:unento-Vontade,- o qnr, fi}H'rec-
hi(lo inwginação prin1itiva, deu •lP si o n1ytho
da elas ahnas : forn1nla. gros:seira.
III.- DF.J\IONOJ.Or.IA - .&. 3
')-
tJJ
de r0prcsentar, co1no na realidade• üuJgivcl, mys-
Í0rios tle tuna realitladc s{nnelltc racioual. O pcn-
srunento inconscif'ute,- algu1na cousa militante,
cotno ao lnme que arde e1n chanuna c
se a paga, torna a anler, e é uLiq uo, etL•rno cn1 si
c fugitivo uas snas appari<;Õcs : o }>f'nsaJnctlto in-
consciente é o grancle rescrvatorio ela vida, <l'ondc
tndo nasce, onde tudo volta ... serú, Deus, se tatn-
benl esta p::da\Ta se despir de todos os caracteres
anin1istas e n1ytltieos.
Na chanuna fugitiva do peusan1ento de cada ho-
n1en1 a psychologia descobre un1:1. dualidade, por-
que a nossa razão consciente faz ue nós Ines-
Inos, cotno instrunH'nto raciocinante, um objecto de
raciocinio. Visto atravez da in1aginaçào sobreexci-
tada, este phenon1eno dá as allucinações; sonhado,
dá as visões tl'ondc a pleiade dos deuses.
Jnento de pcnsa1nento }Jroprio e consciente, nós,
con1o personaliaade, sentin1os e1n nós o Inconscien-
te. Deus in nvbis, disse o apostolo. E essa vi-
são, prodüzitla pelo desdobran1ento do nosso pen-
saniento; essa visào que uas suas alvoradas obscu-
ras gerou os deuses n1ysteriosos, que foi depois o
dcn1onio de Socra.tes, a voz abscondita de 1\Iale-
branche, que o céu aos santos nos seus
extasis, é para o critico a revelação do Inconscien-
te na Consciencia, ou da Eternidade na Vida, ou
do Universo no Individuo.
E' ella o 1nais suLli1ne estado do espírito - se1n
s_er o 1nais forte, nen1 até o nutis Iucido. E' ella a
fonte do enthusiastuo e Ja fé, que dão ao pensa-
Inento nn1a energia correlativa á energia n1uscular
do hysterico. E' ella que faz os heroes e os san-
tos, dando-lhes a ?nens divinio1· de u1na J oanna
d' ... L\.rc, segredando-lhes as hannonias classicas da
arte, as notas penetrantes da 111usica, o verbo pro-
336 L. IV.- A MYTHOLOGL\. CHTIIST AN
phetico da poesia, a uncção doce da caridade, e a
piedade augusta que divinisa o hon1e1n.
Assitn, o sonho n1ythologico, ou a selva enlma-
ranhada dos mythos, dissipa-se on desfaz-se, dei-
xando pura a noção de utn estado que se sente
smu poder definir-se. Encarar de frente o Incons.
ciente sem tentar reduzil-o ás formulas inadequa-
das da realidade que nós podemos con1prehender, é
a summa sabedoria e o estado do espirito Yerda-
. deiramente critico e religioso a nm tempo. As re-
presentações mythologicas são infantis, a negação
é grosseira, as phantasias da invenção costnogo-
nica são pueris, e as aberrações do realisn1o spiri-
tista são symptomas de uma senilidade que volta
á primeira infancia.
IV
Religião e religiões
1.
Procuraretnos resutnir agora e accentuar niti-
damente as conclusões do nosso estudo.
Houve quem religião uma doença
(Feuerbach) e quem a radicasse psychologicamente
no n1edo (Schleiermacher) : a religião seria pois a
doença do n1edo. Ontros (l\Iax l\Iuller) chainani-
lhe a «ambição do Infinito» -expressão metaphi-
sica que resntne a theologia orthodoxa nos seus elc-
n1entos classicos. A nós parece-nos que, se é pos-
sivel tnna definição snn1n1aria, essa definição não
deve buscar-se nos sentin1entos nem na imagina-
ção : nós definiríamos a religião como «a theoria
das relações entre o homen1 e o universo».
Essa theoria, forn1ulando-se por via de faculda-
des mentaes, successivas conforme os estados de
cultura, é, evolntivamente, uma representação in-
fantil e grosseira, uma percepção systematica,
tuna intuição Inoral, un1a fortnula metaphisica-
e afinal, despidos todos os caracteres transitorios
e historicos, uma noção pura. t
Por outro lado, n'este pheno1neno n1ental a que
se cha1na religião é mistér distinguir dois momen-
tos ou duas phases -o espontaneo e o reflexo.
i V. Raças lmmanas, 1, p. LXIX, nota.
338 CONCLl:SÃO
·o primeiro é como a evaporação ele utn lançol
cl 'agua; o segundo con1o o nevoeiro ou a chnYa,
agua que torna e luuneclece qu tnolha os campos.
Do cerebro htunano sáe utna concepção con1 que
elle define a existencia: essa icléa, que se forn1úla
en1 n1ythos, condensada nos ares, cite sobre os ho-
mens cotno aguaceiros que fazem brotar no senti-
tnento as devoções- os ritos, os cultos, as preces
e as penitencias. Quando se diz, pois, que a reli-
gião é o 1nedo, comn1etten1-se dois erros: primeiro,
vê-se o phenon1eno só nos seus actos reflexos, es-
quecendo-se o n1ovitnento anterior ele invenção es-
pontanea; segundo, to1na-se o sentimento que é,
se1n duvida, chronologica ou evolutivamente o pri-
nlordial, corno sendo o nucleo e o principio erga-
nico. 1\Iedo, cotnpuncção, e amor, piedade ou cari-
dade, eis, parece-nos, a successão ou a série dos
sentimentos visceraes da religião objectiva, ou re-
flexa.
Na esphera subjectiva ou espontanea, ao inven-
tar dos 1uythos, ao conceber elos deuses, o espirito
lnnnano, dize1n outros, possuido por un1a illusão,
obedecendo a uma allucinação, é victin1a de tuna
doença. Nó:S diren1os que então o espirito hun1ano
vê n'nn1 sonho, sob aspectos phantasticos, cousas
qne não existmn, con1 effeito, n1as que só debaixo
do aspecto de realidades são ainda conccLi,-eis.
sentido, a religião é o sonho ou o deli rio do
Inconseicnte- doença, se se quizer, 1nas sen1 a
qual a saude do espirito era in1possivel, porque a
evolução pelos 1nythos é a estrada que lPva suc-
á lucidez da razão e candura pie-
dosa, ci1ncntando no saber do passado a inlpossiLi-
lifl:ulc das
A exprPssão de doença, portanto, é inatlcqnatla :
diga-se rudiutcnto. Assiu1 coJuo os organisn1os su-
'
RELIGI:\0 E RELIGIÕES- t. 339
}H'riorcs sactn por evolução dos precedentes, afi-
confonuando-sc: assin1 dos 1nythos, a ..
partir dos nw.is grosseiros, saCin as noções puras
da nossa intelligeucia c os dietan1es da nossa cons-
cieneia. atravez dos sonhos eran1 con1o o
sol encoberto por nuvens: allun1iavan1 se1n se de-
finirCin nitid:uncntc.
Essas nuvens, poré1n, essa so1nbra que involve
as noções, dizCin, são a propria essencia da reli-
gião- a doença que conturba o pensa1nento. 1\Ias
n1na tal doutrina de nos 1nostrar a ori-
gmn ex ?nachina d' esse elmnento estranho ; esque-
cendo-lhe ta1nbem que os instinctos e seuti1nentos
religiosos que na visão produzeu1, co1n a fé, as
apparições dos deuses, são aquelle mes1no enthu-
siasnlo c aquella que na lucidez dão o ge-
nio Jo heroe, do artista e do poeta. A visão, fa-
culdade por exccllencia religiosa, a religião entra-
nhas vivas do pensatnento hu1nano, saem ao mes1no
tcn1po, e por un1a relação uecessaria, da nebnlose
1nythologica para a lucidez da critica, 1nas nen1' se
extinguetn ne1n se alteran1. A poesia será a corôa
eterna da hutnanidade (se ella não 1nentir aos seus
destinos) ; a religião, na pureza aerea do pensa-
nlcnto 1nystico, será se1npre a alegria infi1na e sa-
grada do hon1en1 digno d'esse nOine.
Con1o que encerrado u1u cyclo e1n que a cons-
trucção 1nythica se consolida para se dissipar-á
1naneira de u1na trovoada que se fórn1a, e afinal se
resolve- torna1nos ao estado religiosa1nente vago
do arya prinlitivo, mas cotnbinando com esse esta-
do utna firtneza de pensa1nento critico que, iinpe-
dindo-nos de voltar a inventar mythos, não póde
iinpedir-nos de penetrar nas regiões n1ysticas da
piedade, do an1or, da caridade. A nossa razão,
analysando e definindo, pára diante do Absoluto,
*
3!0
e, não podendo definil-o, cha1na-lhe o Nada -no-
. ção inconcebível. Fica pois um mysterio no coração
de um mundo que nós podemos todavia explicar
intellectual ou racionaln1ente, se1n o poder sentir
senão religiosamente, ou no fundo da nossa cons-
ciencia tnoral, ou no fundo das nossas faculdades
piedosas. A rigidez do stoico póde ainda basear-se
n'tun principio racional, n1as a uncção do santo é
estranha ás definicões e o ·enthusiasmo alheio aos
raciocínios: se dei;a de ser uma percepção nebulosa
e vaga, cáe no amor negativo da paz bucldhista
ou no amor mystico dos christàos, para condemnar
logo formalmente a realidade. A religião é pois
irreductivel á metaphisica; o corpo de idéas e sen-
timentos com que a mythologia formou os deuses,
e a theologia Deus, excede os limites de uma con-
cepção racional como é a noção do Absoluto. Deus
pensa-se, mas sente-se ta1nbem; a vida humana
não é apenas uma dialectica, é tambe1n un1 a1nor
e um enthusiasmo. :Esses sentimentos, ainda obscu-
ros sob a fórma de medo, foram a argila con1 que
os primeiros hon1ens amassaram as itnagens dos
deuses: são ainda o nucleo do Deus da theolo-
gia, e serão a expressão poetica do home1n ainda
quando se tiver dissipado no mundo o ultimo dos
mythos inventados á sua imagem.
O schema que expomos, para ter1ninar, sumnla-
risa tudo o que temos escripto no decurso d'esta
obra:
1\ELIGL\0 E 1\ELIGIÕES- i.
Rt·li;:;iuo:
PorC'epção das relações do homem
com o Universo, pela allucinação ou en-
thusi:l.smo.
I Animismo
noção da Sub;;tancia,
ou realismo religioso,
cujo typo
é a rel. de Osiris.
II Naturalismo
noção da Vontade, ou
espiritualismo religioso,
cujo typo é a
rei. de J ehovah.
Estes dois typos são syutheticos : i. é. propoem
um systema em que se fundem os elementos astraes
e psychicos; nas outras relig. animistas dá-se uma
paralysação de desenvolvimento e por isso não ha
synthese.
III Idealismo
noção do Pensamento, ou racionalismo religioso,
cujo typo é a religião de Apollo.
3íl
3.12 CONCLl:SÃO
2.
Radicada a religião espontanea na faculdade enli-
nente e creadora do pensa1nento, o enthusiasn1o, e
tendo de explicar a existencia, absorve em si, pro-
gressivamente, todas as espheras do conhecin1cnto,
tornando-se uma theoria.
A prineipio, a theoria não sáe da esphera inex-
pressiva de uma representação grosseira, e ne1n os
inventores dos mythos rudimentares são capazes
de medir o alcance da obra que encetam. Os ho-
mens vêetn, sente1n, explica1n a seu n1odo, e caen1
de joelhos transidos de medo. Tudo em volta é
sombra e noute; não ha sociedade, nem leis ; não
ha moral, nem sciencias-n'esse n1omento gene-
siaco do anin1ismo em que, para explicar o Inundo
externo e o interno, apparecem os ares e os sonhos
coalhados de espiritos. Ao systen1a dos n1ythos
cl'esta categoria chamaren1os nós «da representa-
ção simples ».
Depois, a sociedade constitue-se como uma cris-
tallisaçuo, e esboçam-se idéa.s scientificas, isto é,
percepções e opiniões obtidas pela con1paraçào,
pela observação. Surge outra esphera de tnythos
que nós dizemos « da invenção » porque é por via
d'elles que o pensan1ento inventa_, na sua defini-
ção, os casos que solicitam a sua curiosidad0. O
medo re1noto torna-se n'utn grande respeito, n'nnut
compuncção profunda pelos deuses que se t•rô pre-
s i d i r e ~ it. n1oral na sociedade, c ao n1 undo na cos-
mogonia.
Depois, ainda a religião progride, qnan<lo nos
tnythos sQ_ciaes e cos1nogonicos, dC'nscs nwraes e
creadores, se introcluzC'nl ao hulo das f'c.'n·tnas repr0-
scntativas as idéas snLsta.nciacs, pondo a par da
"
RELIGIÃO E TIF.l.IGIÕES-
3.í3
n1ythologin. rc1notn. aqnclles qnc n()s dizemos « my-
thos do pensamento )) e que são as invenções aus-
tractns da t1H'ologin. c da philosophia- como o
· Verbo alcxan<lrino e as ldéaH de Plotino. N'este
mon1cnto, mn que a revolução da religião csponta-
nea é profnnda
1
. vê-se tan1Lcm un1a revolnçào na
religião reflexa: o 1ncdo, já transfor1nado em res-
p«?ito c snbtnissão, torna-se um a1nor, uma pie-
dade, un1a caridade fervente.
E' obvio que na religião succede o que succede em
tudo: estes n1on1entos ou typos successivos nPm são
universaes, ncn1 synchronicos, nem exclusivos. Os
doeiunentos archaicos accunnllam-se, e todos os es-
tados coexistetn na realidade : só a razão abstrae
das realidades, na sua confusão, as leis na nitidez
das suas linhas.
Na successâo d'estes tres mo1nentos ou phases
-representação sirnples, pensamento-
observa-se un1 movin1ento constante de lnunanisa-
ção de um lado, de unificação do outro. Con1o
circulos concentricos, deli1nitanclo cada vez nutis
un1a área, assim os movitnentos da religião can1i-
nham constantemente para um foco de mono-
theisnlo e para a explicação de Deus pelo homen1.
O principio de unidade está n'estes dois phenonle-
nos correlativas, porque á maneira que as nevoas
se dissipatn, assim se vae vendo que todas as fa-
culdades e attributos divinos se reduzem a n1n
unico, e que esse unico é a in1agem ideal humana
reproduzida no espelho dos céus.
lHas a derrota para este destino permanente
não é constante, nen1 são identicos os mon1entos etn
que paratn e se petrificam as construcções religio-
sas. Cada raça tem o seu temperan1ento e a sua
capacidade limitada; cada povo e cada, historia
tem os seus acasos. O que succecle com o desen-

volvimento social, succede co1n o desenvolvitnento
religioso. O judeu attinge a unidade pela noção
do caracter, o grego pela da intelligencia: um
tem por faculdade e1niuente a cotnpuncção, o outro
o raciocinio. No bucldbisn1o da India acaba por
dar-se utna cotnbinação degradante entre a tueta-
phisica vedica e o anin1isn1o indigeua. O ishunistno
dus negros do Sudão e o christianis1no dos de
Angola ou dos indios do Brazil reduz-se a um
fetichisnw assente sobre os dogmas do catholicis-
mo ou sobre· os versetos do Alcorão. Na l\longolia
o buddhisn1o é tatnbetn utn shatnanistno lJrimi-
tivo. Entre os persas chiitas, a adoração de A.li
transformou o islatuisn1o n'un1a idolatria pratica
em que os traços de InazJei::;tuo affiora1u. Por
toda a parte as cOinbinações ethnicas dào de si
cotnbinações 1nythologicas ou religiosas, á tnaneira
do que succede co1n as linguas, porque as reli-
giões são, como as linguas, productos espontaneos
que desabrochan1 e floresce1n confonne o torrão
em que as sen1entes foran1 lançadas. Por isso as
c01nbinações são fecundas ou estereis; por isso os
factos de degeneração abunda1n; e da confusão enor-
me da realidade só a analyse cxtrae as linhas ele-
mentares da ordem.
3.
Classificar, conltudo, as religiões, isto é, aquel-
las 1nythologias que attingirrun a idéa de unidade
no pantheon divino c idéas 1netaphisicas 11as re-
ln·esentaçõcs do n1nndo; classilicar, dizentos, pelos
aspectos dos dogmas ou pC'la natureza uo culto é
in1possivcl. 1\s rubricas de sabeis1uo, au-
polytheiswo, nionotlteisnio, etc.
'
REI.Ir.IÃO E RELIGIÕES- 3. 345
correspontlCin a traços 1norphologicos exteriores
não só incaracteristieo::;, co1no conununs, póJe di-
zer-se, a todas as religiões, por i::;::;o que são lno-
nlcntos fonnacs por onde todas cllas, no seu des-
cnvolvinwuto, c1u regra dcve1n passar. Por outro
lado, tonutr con1o typo o culto, é tautbCin inlpro-
prio, pois não só os cultos se reprouuzCin, cotno,
ainda quando assin1 não fosse, nós saben1os já que
essa phase da religião é apP.JlaS reflexa ou obje-
ctiva.
Feitas estas observações e considerando que a
religião é, cotno a civilisação, utna e a n1esma en1
tecla a parte, variavcl porém nos aspectos, na his ...
toria e nos linlites, con1 a capacidade, cotn os do-
tes e com a natureza da vida dos povos, conclui-
re1nos facihnente que a unica possível classifica-
ção das religiões é a ethnologica. Uma religião é
un1a raça: assin1 se teni dito e não se1n funda-
lllento. E é no tnornento etn que as tnythologias
primitivas, identicas ou quasi na sua obscuridade
indetertninada, attinge1n caracteres unitarios e Ine-
taphisicos: é n'esse lllOinento que as religiões se
differenceiam, tornando-se a su1nma do pensan1en-
to particular de cada povo.
N'esta categoria a historia encontra varios ty-
pos. Da 1nythologia aryana sáe o bralunanistno
na India e o n1azdeisn1o na Persia ; e na Europa,
abortadas as mythologias particulares dos celtas,
slavos e gern1anos, póde talvez elevar-se á cate-
goria de religião o hellenistno delphico e o stoi-
cisino latino que resun1en1 as 1nythologias dos gre-
gos e italos. Os judeus, dão no jahveis1no pro-
phetico a sununa do pensan1ento sen1ita, e os chi-
nezes no taoismo e na doutrina de Confucio uma
construcção sinlilhante ao que foi o stoicisn1o euro-
peu, mas que se tornou religião constituída, ao
346 CONCLl"SÃO
passo que este não passou da esphera particular
da philosophia religiosa.
'I'aes são os typos de religiões ethnicas - hiera-
ticas, chama-lhes Conrnot,- un1as das quaes (hel-
lenismo, stoicismo) foram absor, .. idas e dissolvidas,
outras ainda vi vem, embora concorrentes con1 as
posteriores ou esterilisadas por e lias. N' essas reli-
giões posteriores, catholicas ou proselyticas, obser-
va-se um n1omento novo. Não se póde dizer que
a essencia do pensamento se altere, mas vê-se que
se expande. O deus de l\Iahon1et não é intrinseca-
mente superior ao dos judeus, pelo contrario, n1as
de nm deus nacional passa-se para um deus uni-
versal. A unidade, consagrada na esphera do pen-
samento metaphisico, torna-se geral á terra e á
humanidade, de particular que era de um certo
poYo e de um dado lugar.
O islamisn1o nascido dos semitas, o buddhisn1o
nascido dos indios e o christianisn1o gerado no seio
dos povos mediterraneos, eis-ahi os tres crédos ca-
tholicos ou universaes- concorrentes no sentido
da conquista da hegen1onia religiosa, localisados
hoje pela ponderação externa das forças sociaes
cm conflicto, um na Europa e na An1erica, outro
na Africa e na Asia anterior, outro em todo o
Oriente.
() christianisn10 póde dizer-se a religião da raça
indo-(\uropêa, o buddhismo da raça n1ongolica, e o .
islnmisn1o da raça sen1ita expandindo-se na raça
n(\g1·a e na cafre. J)ividido en1 seitas, o christia-
nisn1o é ortlwdoxo entre os slavos, é 1·omano entre
os italo-celtas ou latinos, c é 1n·otet:tante entre os
teutonicos; assin1 como o islan1istno é chiita entre
os persas, c sunita entre os arabes, syrios e luuni-
tas.
Ao 1a(lo das trcs religiões ecumenicas ou univcr-
TIEUGI:\0 E RELIGIÕES- 3.
sacs, mantén1-se (alént de ritos n1innsculos a que
n:\o é possiv(\l dar attcnç?lo) as grandes c antigas
religiões ethnicas: o jn<laisnto e111 via de extin-
cção, o ntazdeismo dos persas, o Lralnnanisn1o da
Inclia c o shi11toistno privativo da China. 1 ~ para
alén1 ainda clns rcligit>es nacionaes estende-se a
mnltidào de enltos Larbaros nas populações in(E-
genas, atrophindas na Oceania e na An1erica, mas
nnn1crosissimas ainda na Asia e na Afriea, patrias
de (h·avidas e Inalayos, de negros, cafres e hotten-
totes. t
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A RELIGIÕES PROSEL YTICAS
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a) Ortbodoxo, grego, russo, ar-
mcnio .•.•.•.......•••.••..• 89 6 95
b) Catbolico romano .••.•....•• 135 0,8 0,6 38 0,4 175
c) Protestante .•...•.••..•..•.• 68 0,7 0,4 41 2,2 112
d) Abexi •.•••.••.••••..•••••.• 3,5 4
Total ••• (292) (7,5) (4,5) (79) (2,6) (386)
II Dudtlhismo 484 0,1 0,2 844
III lslan1isn•o 11 92 108 0,1 211
Somma geral •.• (303) (583,5) (112,5) (79,1) (2,!l) (1:081)
B RELIGIÕES NACIONAES
I Judaísmo .•.•••••.•.••.••.• 4 0,1 0,1 4
II l\Iazdeismo ••.•••••.•..•...• 18 18
III Hrabmanismo •..•.•..•.•.••• 148 148
IV Sbintoismo .•...••.••.••••.• 38 38
Somma geral ••• (4) (204,1) (0,1) ( ~ 0 8 )
C CULTOS BARBAROS
36 86 5 2,1 129
Diversos ..••••••••••.••..•.•••• 2 0,4 0,4 0,9 4
----
Sommas •.• 309 824 199 85 5 1:422
----
Os numeros não podem, evidentemente, valer senão como aproxima-
ções grosseiras. Além das deficiencias estatísticas, ba a considerar a mul-
tidão de gente couvertida que só nominalmente pertence ás religiões su-
periores, e a somma crescente de deistas ou atheus, muito considcravel
sobretudo entre os christãos da Europa e da America.
3í8

Póde pois affirmar-se que desde que a humani-
dade attingiu religiosan1ente a unidade n1etaphisica
dos ruythos, a lnunanisaçào transcPndente dos deu-
ses, e por fim a idéa do a evolução
iniciada pelas representações grosseiras do realistno
pritnitivo ter1ninou. Não parece crivei a inven-
ção de religiões, assim corno se não concebe a
invenção de línguas. Essas vegetações da mente
humana requereru a espontaneidade da infancia
ignorante e ingenua. O n1undo envelhece, o pen-
sainento dos hotnens ganha consistencia e madu-
reza. Perderá en1 poesia, virão saudades co1no as
que nos assaltam ao recordar os prin1eiros annos,
1nas a infancia não torna. Apenas ás vezes, nas
crises da senectude, o ho1nen1 volta á rneninice ca-
duca: assitn tambem o nosso tetnpo tetn observado
as invenções· ridiculas de 1nais de tun extravagan-
te. Caírào n'un1 côro de gargalhadas e desdens ·
todos os que quizeren1 erguer novos idolos sobre
altares novos: os que restan1, e cotn Inotivo, ser-
ven1 para as phalanges retardatarias que en1 toda
a sociedade se alongatu, co1no a esteira de nn1 na-
vio qne passa, até se perderen1 nas nevoas das
super::;tições rernotas pelas aldeias sósinhas nos
ucs vi os das serras ...
4.
Não se exija cl'csscs, qne acon1panhetn os que
vão á fn·11te co1n passo lal'go: todas as aves
tént a :unp1i<lào de azas da fragata ! Nào se lhes
ron Lf'tn OH dcnsPs q ne são o sPn consolo e a sna
al(·gria; não se llws destrnan1 os altares a que se
:1jrwlh:un; 11ào se pt·etl\lula qno galgnctn c.le utn
salto a <listancia percorrida por outros. Caíri:.un,
RELIGI:\0 E 1\ELIGIÕES- .l. 3-í9
prostraflos no e1nLrntecitnento, infelizmente ma1s
conin1un1 do qne devera ser.
Nil.o se npplaud:un poré1n, tan1poueo, os esfor-
ços corrnptores (los fptc imnginatn «restaurar a
religião» e regressar ao tempo en1 que os mythos
vivi:un, desenterrando do passado os fetiches e os
1nilngrcs que par('cen1 um escarneo e fazmn do
sacerdote um charlatão. Não se confunda a con-
servação con1 a reacção ; nem se applauda o pha-
risaisnlo brutal dos iconoclastas, nem as artes dos
novos orpheotelas.
Ampare-se o passado ainda vivo, para que pela
vida e não pela violencia venhatn a ratninhar na
estrada aberta da religão pura os que ainda tri-
lhatn a vereda nebulosa da n1ythologia. Elia não
é nn1 erro, nen1 un1a enfertnidade: é un1a iniciaçlo
e uma aprendizagetn. E' nos n1ythos que o ho-
nlein soletra aprendendo a ler na Biblia humana-
esse livro en1 que o nascer e o n1orrer são co1no o
florir das arvores e o cair das folhas na floresta
rurnorosa de un1a eternidade que está na succes-
são das nossas existencias fugitivas e no absoluto
dos nossos pensan1entos ideaes; esse livro en1 que o
céu é a apotheose dada aos justos e aos piedosos,
e o inferno, para os nullos, un1 Hades de esqueci-
tnento e para os maus tun Tartaro de condemnação
exacranda.
Lancemos corajosa1nente para ahi tambmn os
pedantes e os doutores, os mystagogos e os ho-
mens seccos, esses que aspiran1 a um estado de
en1bruteci1nento no cretinistno milagreiro, ou a um
estado acaso peior ainda de n1aterialismo chatin.
lVIal da sociedade que repellir os primeiros para
se entregar nas mãos dos segundos: como utn rei
descoroado descerá do throno a confundir-se na
350 CONCLUSÃO
plebe das gentes que a natureza destinou para es-
cravos!
A in1piedade do coração é a fraqueza no braço
e o latego no dorso. Un1a sociedade 1naterialista
en1 que os hotnens litnitatn a vida aos annos de
gozo, perdendo o senti1nento do nexo do passado
e da responsabilidade para co1n o porvir, abando-
nando-se ao requinte e ao diléttantistno cotno os
athenienses de outro tetnpo, ou it brutaJidade da
riqueza con1 que se paga o fausto e as n1ulheres,
corno os ro1nanos do passado ; tuna sociedade sur-
da pelos gemidos dos q ne soffrern, pelas Yozes dos
que claman1, está condetnnada a caír. No gozo
Yae-se a força, no optilnisn1o ingenuo pelas « tna-
ravilhas da civilisação» perde-se o sentin1ento do
que a civilisação é, identificando-a
co1n o luxo de artes 1nercenarias ou cotn a gran-
dPza de obras apenas utilitarias. Perdido o norte,
obliterada a 1noral, ignota a caridaue, a vida tor-
na-se un1a lucta sen1 nexo, e cada hmnen1 para o
seu similhante, hostis, ini1nigo, con1o era o estran-
geiro na llon1a barbara. A sciencia. generali::;ada,
c de::;tnoralisada, é uru instrutnento gray·e na 1não
de homens bestificados: {t navalha succeJe o re-
vôlver, ao revólver os venenos subtis (strichinina,
aconitina), aos venenos, qucn1 sabe? o raio pr,)du-
ziJo por pilhas portateis, q nando a electricidade ti-
ver dito (1uanto póde. l\Iatar é a regra de todo
a.quC'lle que não soube viver.
A1nplitiquC'-se o quadro que nos offerecc1n as
grandes ('idaucs co1n os seus cx<'rcitos de prolcta-
rios, as opnleheias vulgares dos seus ricos, os
<lPsvairaulelltos das suas Bobas, os seus b:.uHlos de
faf'inorns, as suas plebes depravadas, a sua pro-
Jnisenid:ul<· r<'pngnantc: nntplif1<pw-sc, ab::;orYcndo
a aintla ingcuua. dos caiu pos, c tal vez
RELIGIÃO E HELIGIÕES- '·
3ãt
uão parcçatn chinH·ricos os receios de u1na nova
• cotno a <la Antiguidade, que ta1nben1 ou vira
Platão c obedecera a l\larco-Aurclio. As oligar-
('hias dos nossos ricos pedirão co1no as antigas
luna esp:ula que as defenua· das plebes tuiscraveis
üuubmu de gozar, e a espada seni u1n
c·sporas c Uln freio- se porventura h ou ver
janisaros bastantes para es1nagar as n1ultidõcs dos
novos barbaros. Chegarão a vêr-se na Europa
exercito::; de berberes, de indios, de turcos assol-
dados pela França, pela Inglaterra, pela. Italia,
pela Ru::;sia? O caso não seria novo, nmn a solu-
ção ilnprevista.
l\Ias no dia en1 que tal succedesse, a Europa
acabaria, e sobre as ruinas de utna civilisação al-
gunt futuro Dante veria no ondear funebre das
tnultidões barbarisadas
le genti dolorose
Ch'hanno pcrduto'l ben dcllo'ntelletto.
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*
INDICE
Introducção. v
LIVRO PRIMEIRO
Animismo
I
GENESIS DOS MYTHOS
1. Parallelismo de origem dos mythos, na observação dos astros
e nas visões dos sonhos . . • • • 1
2. Representação do espcctaculo celeste na imagiaação do homem
primitivo. • . • • • 6
3. Mytho da alma, como nexo entl·c as representações astraes e
psychicas e explicação do sonho e da. sombra. 15
4. Animisação universal 17
II
INVENÇÃO DOS DEUSES
1. O terror panico. Origem dos deuses no medo da sombra •
2. Divinisação das almas pelo medo . • •
3. Catalogo dos primeiros deuses cosmicos •
4. Id. dos primeiros deuses psychicos
III
ANil\USAÇÃO DOS MORTOS
1. A f f i n i d ~ d e substancial das almas dos mortos e (los deuses ani-
21
25
28
31
mistas. Theoria da morte. • • 35
2. Realidade phantastica da existencia nitra-tumular. Hierarchia
eschatologica • 38
3. As almas funestas. 43
4. As pontes do outro-mundo: nexo entre o céu e a terra inferior,
ou entre a mythologia astral e a psychica 43
IV
OS FETICHES
1. Theoria do fetiehismo: identificação do objecto com a imagem;
substancialidade da t'irturle • • 48
2. A evocação; estado mental do feiticeiro. 50
3. Iniciações e ritos fetichistas 53
4. Catalogo dos fetiches. • • • • • • • 58
5. A lua, fetiche supremo; transição para a mythologia solar • 60
358 INDICE
v
DEUS-SOL
1. Correlação da mythologia solar com o estado agrícola e civili-
sado ; genealogia astral nas lendas • • . 63
2. 1\lythologia solar nas civilisações extinctas da America. Limi-
tes do animismo • . • . 66
3. O drama do sol como theoria da existencia. Falta de pondera-
ção no desenvolvimento parallelo da mythologia astral c
psychica : a America e a China. 68
VI
O EGYPTO
1. Summa da historia da mythologia egypcia: os deuses elemen-
tares . • • . . . . . • 75
2. Os deuses-femeas, mybos da procreação; os animaes sagrados.
A lua nos templos do baixo Nilo : Bast em Bubasta. 81)
3. A zoolatria. Os touros de Heliopolis e de Memphis. O escarave-
lho mystico de Ptah, semente do mundo . . • • . • 83
4. Synthese das reprPsentações astraes e psychicas no myt.ho de
deus - mtleru. Os mythos solares como explicação da exis-
tencia e theoria da morte 86
5. A triada mystica- Isis-Osiris-Horus. O drama do Nilo, drama
do céu, drama da vida !lO
6. Decadeneü ... da mythologia egypcia. Amun e Thebas. 95
'l. A eschatologia; ritos mMtuarios. Eternidade da alma na triada
de Khou-Ba-Khat. - O tl"ibunal de Osiris 98
8. Conclusão. Limites da capacidade expressiva do realismo ani-
mista. 104
LIVRO SEGUNDO
Naturalismo
I
A CREAÇÃO
1. Correlação entre o naturalismo e o estado barbaro. Rudimen-
tos do cosmogonia. . . . • . . • 109
2. Os <louses-crcadorcs de Habylonia. Appan·cimento da. noção de
Causa o do \·ontado na concepção dos mytho:J scmita:J; con-
soquoncias moraes-roligiosus na invenção elo 112
3. Os mythos diluvianos o Oii onti'O o }n'C-
cndo o o crime. Unificação do mundo na Vont:Ltlo omnipo-
1ffi
INDICE
359
II
A ASTHOLOGIA
1. Correlação da astrologia com a cosmogonia; differcnça entre
o astl'Ologo e o feiticdro. 123
2. A!';ti"Olatda primitiva. O céu nocturno dos arabcs nomadas. 12G
3. :Mythologia lunar dos accadios: passado animista prc-semita
da A:>syda . 128
4. Os templos·observatorios de Babylonia e Asur • 131
III
OS CULTOS ORGIACOS
1. Os sentimentos religiosos provocados pela idéa drJs deuses crea-
dores e voluntarios: orgia e penitencia . 136
2. Affinidades dos cultos svrios e chaldaicos 143
3. O culto de .1\Ioloch cm Ca1·tbago.- O tempo de Melkarth em
Tyro.- As fe:>tas da Bilit ba.bylonica e da Istar punica • 145
4. Os deuses syntheticos do naturalismo: os androgynos. 151
IV
OS HEROES
1. Dos mythos solares, os medianeiros : Melkarth. õ 155
2. Transformação do heroismo activo em mystico por via dos he-
roes. O mytho de Samsão. 157
v
A JUDÉA
I. Parallelismo do Egypto e da Jndêa no animismo e no natura·
lismo. ::5umma da historia religiosa ile Israel 161
2. Reconstrucção da mythologia primitiva dos hebreus. A vida no
deserto e a adoração do céu noctm·no atravez das lendas bí-
blicas. . 164
3. Contrastes da mythologia astral nocturna com a diurna nas
historias dos patriarchas. Estabelecimento em Canaan : vi-
ctoria dos mythos miares. 1G9
4. A epocha dos Juizes; assimilação dos ritos canaanitas; oblite-
ração da mytbologia propria ; reacção nacionalista formu-
lada e consagrada pelas historias dos patriarchas . 174
5. Jehovah, deus dos israelitas, mytho da Vontade transcen-
dente; estado paradoxal do sentimento religioso. Conclusão. 178
360 INDICE
LIVRO TERCEIRO
Idealismo
I
OS VEDAS
1. A piedade innocente do aryano ; visão de deus na luz do dia • 183
2. A oração-hymno. Optimismo universal. . • • _ 187
3. l"ystema dos mythos solares ; transparencia ideal dos deuses 18!)
4. Indra, a tempestade e a guerra . • • Hl3
5. Agni, o medianeiro, alma do mundo, nexo da terra e do céu • 196
6. Obscuridade da morte, indeterminação do mysterio. O céu de
Yama é um mytho animista. Falta de ponderação no desen-
volvimento parallelo dos mythos astraes e psychicos: esta-
cionamento d'estes, progresso d'aquelles. • • • • • 200
7. Esterilidade e caracteres regressivos das religiões consequen-
tes. Insufficiencia dos mythos theologicos no brahmanismo,
no buddhismo, no mazdeismo 205
II
A 1\fYTHOLOGIA SLA VO-GERMANICA
1. Regressão ao animismo selvagem nos slavos • 210
2. O animismo dos germanos ; os templos das florestas. Sacrificios. 214
3. Os deuses do 'Valhalla nos Eddas. Abortamento da mythologia
pela introducção do cbristianismo • 218
III
A MYTHOLOGIA ITALIANA
1. Os bosques sagrados do povo primitivo. Fauno e os genios da
terra. Transição para a lavoura . • • 224
2. Os deuses protectores do campo e os deuses chtonicos. Os ge-
nios domesticos; as cvocaçôes dos mortos. Construcção da ci-
dade • • 229
3. Os nztmina no capitolio. Odgens mythologicas dos olympicos. O
terror religioso. • • . . • • • • • • 234
4. Paralisação no desenvolvimento metaphisico e poetico da my-
thnlogia pela expansão do espírito jurídico e politico. Os
deuses-princípios . • . • • • • 239
5. Conclusão da m) thologia romana; seccnra formalista dos ri-
tos; reacção da superstição animista- dissolução • 245
IV
A
1. Constituição da mytl1ologia grega sob u. influencia phrigia e
phnni1•ia na Asia-mcnor •

2. O culto rlo Dclphos c o temperamento idt•alistn lla nre('ia 254
S. Es('hatologia : limites do desenvolvimento do. mythologio. psy-
('hÍ('lL • 259
4.
},alta do
ponderação no parnlh•lismo do desenvolvimento. A
.Moira. 268
INDir.E 361
J,IVRO QUARTO
A mytholo,gia christan
I
CRISE nA lllYTIIOLOGIA APOLLINEA
1. NE>ccssidado da penetração das id(:as ha.mito-scmitas: nulli-
dade das tentativas de conservação na Grccia c na ltalia 267
2. O culto do Sabazios c os o1·gia<'oS em geral • 271
3. Os mortos. A a thanmaturgia. • 275
4. Caracter da solução pelo chl"istianismo. Conclusão. 281
II
OS FACTOS DE SOBREVIVENCIA NOS TEMPOS 1\IODERNOS
1. Christianisação dos deuses pagãos, classificaçãCl summaria dos
mythos religiosos nos tempos modernos . . • . • 285
2. Resíduos do animismo primitivo nas c superstições popu-
lares : os lobis-homcus e a lycanthropia. 288
3. 03 Í•}tiches e os feiticeiros . . • . . • . • 297
4. A legislação canonica e civil perante as superstições 301
III
DEIHONOLOGIA
1. O inferno, lugar dos deuses desthronados; a feiticeira, destino
da gente vencida. O diabo . 307
2. Bruxas e feiticeiras. O Sabbat e a 1\lissa-negra. Dcmonopathia
hystel"ica . • • • • . . • • • • 314
3. A allucinação e os symptomas do hysterismo. A possessão de-
moníaca : Torralba e S. Frey Gil. 324
4. As visões dos santos, os stygffias. Graus de consciencia da
allucinação, até ao charlatanismo. Conclusão • 320
IV
RELIGIÃO E RELIGIÕES
1. Definições da religião • • • • • • • 337
2. Evolução summaria: formação das religiões ethnicas 342
3. Classificação das religiões ethnicas ; apparecimento das pro-
selyticas. 344
4. Ultimas palavras 348
Bibliographia • 353
ERRATA
PAG. LINHAS ERROS EMENDAS
VJI 28 intorrogue interrogue
38 5 ditinição definição
46 19 dos mortos dos mo•·tos,
54 33 aut1·alio aust•·a·io
55 24 de do alto
60 2 na ainda ainda na
95 20 vida,- -
107 6 separa lev .nta
151 8 rasg-ava ra:;gavam
152 7
Cath·,go Cartha.go
156 16 Hclrackles Heraklcs
1G9 25 o antithese a :mtithese
29 Bala tis Bani tis
173 18-9 pm·m mente que permanente de que
227 27 o vc- o velho
2-:18 1-2 re-solvem re-volvem
260 12 tem tém

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