BAS SCIE!

\CIAS UE LJSBOA

Srp:rratn do ccHolrtim d.1 Srgunda Claue,,, •olumr V
NOVOS ESr-fUDC)S
SÔBAE
SÁ DE MIRANDA
POR
CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELOS
LISBOA
J:llii.[PRENS.A. NA.C:IONA.L
1911
Novos Estudos sôbre Sá de Miranda
PJesias extraídas de um códice inédito e autógrafo
Em :l\Iaio de 19UH recebi, e li com sobressalto, uma
carta particular, vinda de Lisboa. Era de Delfim Guima-
rães, o gentil poeta, empenhado então em apea-r do pe-
destal a que o carinho de sucessivas gerações de leitores
o havia erguido, o quinhentista Cristóvam Falcão, autor
da suavíssima e ingénua Églo.qa Orisfal; tema êste, sôbre
o qual estávamos a trocar larga correspondência, sem
podermos harmonizar as nossas idéias.
Desta vez dava-me êle, a boa nova de,.
dias antes, ao folhear na Biblioteca Nacional papéis do
século XVI (por catalogar), haver descoberto, num volume
de .J.lliscel/ineas, um caderno-borrão de Sá de 1\'Iiranda.
Isto é: textos com numerosas emendas, quer entrelinha-
das, quer marginais. Autúg'rafo_. a seu ver, cuja auten-
ticidade não merecia a menor suspeita, porque ao alto de
uma página havia a assinatura do poeta.
Certo de que eu acolheria com grande prazer espiritual
comunicações pormenorizadas a êsse respeito, copiou act(}
contínuo, para mim, alguns trechos, que acompanhava da.
1
2
pregunta: l qual seria a significação da fórmula em que
se lia a tal assinatura: «ajudou fr.co dP de )liranda»?,
a qual me enviava fac-similada.
Claro que examinei, com a lente dos míopes, as peque-
nas amostras, conferindo-as os textos e variantes que
eu publicara em Respondendo ao quesito, expliquei
que· não era a fórmula em si que podia autenticar o có-
dice, porque existia idêntica no lugar correspondente (e
. em outros semelhantes) em todos os ap6fp·afos das Poe-
sias; mas que provAvelmente o conjunto dos textos e dos
retoques autenticaria a •assinatura». .
E fiz voto, a mim mesma e ao generoso informador,
que exploraria o manuscrito, mal me fc)sse dado passar
uma temporada em Lisboa; com o intuito, bem se vê, de
aproveitar os resultados na segunda edição• das
que preparo há muito, desejosa de a mandar para o
prelo, logo que .a primeira, deficiente e antiquada, estiver
exausta.
No mesmo ano ainda .puderam tódos os admiradores do
Jiorácio português inteirar-se do auspicioso achado, visto
que Delfim Guimarães o anunciava no livro de combate,
em que atrihuía a Égloga Crisfal, e mais alguns versos
controvertidos, a Bernardim Ribeiro t, e naturalmente se
ocupava tambêm das relações de amill.ade entre os pri-
meiros tres Bucolistas portugueses.
Outros escritores vieram, durante o inverno, chamar a
minha atenção para o assunto, requerendo que me pro-
nunciasse quanto antes sôbre os problemas discutidos.
Reconhecendo, porêm, que não me seria dado ir breve à
capital, aventei em carta a Edgar Prestage, nosso bom
amigo, a idéia de mandar fotografar, à minha custa, o
1 Delfim Guimarães, Bernardim Ribeú·o (O Potta Crisfal)-
Subridios para a História da literatura 1Jortugttesa, Lisboa
Vid. p. 114.
3
prt•eioso manuscrito, para assim o salvarmos de qualqw·r
acidl'nte, e para eu o tt'r à mão em ocasião propicia.
Combinando us seus esforço-s eom os do ilustre anglo-
luso é que o Secretário da Secção de Belas-Letras .da
Academia, e solícito Inspector da sua Livraria, melhorou
êsse plano. E sugeriu aos consócios reimido.s a resolução
de a pr{,pria . \cademia realizar êsse intento .
. Com feliz êxito.
Em lü de de 1909 Cristtívam Aires .1a pôde
apresentar, em sessão da Segunda Classe, nítidas provas
fotogr·áficas, e conseguiu se aprovasse que elas fí)ssem en-
viadas oficialmente à editora das PoesiaB, cujo afecto ao
carácter e obra de Sá de l\Iiranda não precisava de largos
encómios.
Confesso que olhei com alegria comovida, e afaguei com
carinho, a reprodução elas páginas em que o grande re-
formador havia documentado o seu nohve afan de subir
a.lto, e de consigo levantar todos os cultores das musas, ao
som da sua lira, grave e b-randa. Xem ao rei nem ao povo
lisonjeiro. Verdadeiro mestre da virtude e mestre da arte.
Agradecendo com sinceridade a ho;menagem da sábia
corporação, prometi torná-la proveitosa, estudando os
textos, e expondo em seguida largamente a sua .impor-
tância.
É o que faço boje- feliz p€)r poder atestar o valor ex-
traordinário do pequeno manuscrito, de cuja antentic·i-
dade gráfica já não duvido. Faço-o relativamente tarde,
porque sou tambêm da raça dos que emendam e
vão de ano em ano. Entusiasmada e activíssima emquanto
se trata de juntar materiais, de resolver problemas e de
lançar ao papel factos e idéias, como elementos de qual-
quer estudo,- mas vagarosa em copiar e tirar a
lume as minhas lucuhrações.
Porto, Outubro de 1910.
\

4
II
Segundo as informações que pedi e prontamente me
foram dadas, o volume que contêm as poesias de lliranda
é do nucleo antigo da Biblioteca Xacional. .\inda foi en-
cadernado no século XYIII, simultâneamente com outras
Miscelâneas exteriormente iguais. As pastas (cujas di-
mensões são 0,320 X O, 220), colJertas de papel azulado,
tem cantos de carneira vulgar. A lombada, tambêm de
carneira, tem alguns filetes dourados e o rótulo Poesias
Portuguezas. A rubrica é n.
0
335f>. Os opúsculos de que
se compõe, reimidos para fazerem volume, preenchem
juntos umas 85 folhas (de 0,305X0,205).
Eis o seu Índice que alguêm definiu no título geral
Poesias Lyricas Latinas e Pm·tuguezas, e hurn Elogio
Dramático-Bucólico em Castelhano.
1. «V o tum si v e Poeticü Anathema pro solemnissima
Pompa ac collocatione Reliquiarum Sanctissimi
Thomae de Villanova ..... Emmanuel Duarte So-
cietatis Jezu Vigesima Kalendis Februarii anno
Domini 1687>>.-FI. 2 a 7 v.-Letra do sec. XYIII.
2. «Annulum Pyrrhi Epirotarum Regis Qui in digito
gessisse refertur Achatem, cujus plena novem si-
gnabat pagina musas: Naturae non artis opus
Sanctiss.
0
Thomé de Villa-Nova, Emeritiss.
0
Ya-
lentire Archiepiscopo ..... ».-FI. 8 a 15, sem
nome de autor nem data.-Letra do sec. XYIII.
3. Excerpto de poesias latinas de fL 16 a 16 't', sem
título e sem data.- Letra do sec. xvnr.
4. c<ln Duplici et festivo Principum Lusitanorum et
Hispanorum Conjugio .Amorem inter et Hymen::eum
Pax Epitalamium>>. -FI. 17 a 18 t·, sem
nome de autor nem data. -I do se c. XYIII.

r). «l'harmaccutica•. Poesia latina, de fL 1 a 1, sem
nome de autor nem data.-Letra do sec. xn1.
H. aEpitalamio. Ao lliminf'O do 111.
1110
e Ex.'"
0
Snor
V. João de .\lmcida, 4.
0
(-.umle de .\ssumar, e da
lll.
111
a c Ex.ma H. Leonor, filha dos 111.
11101
e
Ex.
11101
)Jarquezes de Tavora. Offerccido e
dedicado au 111.
1110
e Ex.mo :-;nor )larquez de (ias-
tello Novo, V. c Hey, e Capitão General deste Est.
0
da lndia, por :l\lanuel Antonio de ::\leyrelles:e.-
Principia por um soneto a fl. e segue o Epita-
lâmio até fl. 37.- Letra do sec. XVIII.
7. «Na occasião das festas de N. Snr.a do Cabo, onde
se achava .. \nt.
0
da Cunha de Souto·)layor, se na-
morou de h\ia Snr.• ij la andava tambem e ulti-
mam.te cazou com ella, e naquella oceasião lhe fez
estas Decimas)).-Vão as decimas de fl. 38 até
41 v, a qual principia por uMinha Snr. a D. }fi-
caella» e termina por ((De V. )[.te. O mais dilatado
X ar Letra do se c. XVII.
8. ((Elogio dramatico en cumplimento de anos dei Ex.mo
Seiior D. Rodrigo Xavier Telles Castro y Sylveira,
Conde de L nhon, etc. -Poesia dramatica. Perso-
nas, etc.:
ENEIW-D .. Margarita Juliana.
PuuiAYEUA-D. Juanna Vicencia Caffen.
ESTIO- D. Antonia 1\l. a de :Menezes.
AUIWRA-La Ex.
1113
s.ra D. )La Thereza Teles.
EL DIA-D. Josepha Angelica.
EL APPLAL"Sn-D. l\l.a lzabel.
EL AMOU - D. Rosa.
ASTUEA-D. )faria de la (irnz.
FI. 42 a 52. Sem nome de autor nem data, mas ter-
minando pela seguinte nota: aRtp'resf'ntuuse en el
Palado de Lagos el ano de 1722_».
,
« • l'oesia Pm português, sem nome
de autor nem data, a fi. 54.- Letra do sec. xnu.
lO. fi compos ·hü poeta de ordens menores a Sua
)fag.de na occasião em q milagrosam.te liurou do
perigo fi lhe estaua ordenado pello Uey de Cas-
tella». -FI. a b8, sem nome de autor nem
data.- L<'tra do sec. XVIII.
11. «Trovas que se mandaram a El Rey Dom João o 3.
0
que as lia e conservou m.to tempo, porem em hum
dia (j veyo da :\fisericordia as mandou queimar por
)[anoel de Sampayo q foi trez annos do seu
falecimento. no anno de 1554, etc. Ficou esta copia
de que o ditto s.r nR.m sabia e menos o autor della,
(j se afirma ser hum cavalheyro da caza de
lha».- Com letra differente, tem a seguir .....
«aUas Damião de he q."' foy A. tambem se
a"t,ribuem» uma anotação do P.e
D. Manoel Caetano de Sousa R.; fi. GOa 63.-
Letra do sec. XVIII.
12. «Compondo o Duque de Cadaval D. Jayme de )lello
hu livro das ultimas acções de seu Pay D. :Xuno
Alvares Per.
3
de l\Iello, e mandando-o p.
3
rever ao
Conde de Tarouca, João Gomes da Sylva, lhe fes
em louvor este soneto:>>.- f\oneto a fi. 6-!, seguido
de redondilhas até fi. G6 v, sem data.- Letra do
sec. XVIII •.
13 . .Sá dé Poesias authographas, fL 68 a 84 v,
sem Letra do sec. xn.
14. Excerpto de poesia em hespa.nhol, sem nome de au-
tor, nem data, nem titulo. fl. 8;) a 85 v.- Letra
do sec. XYJII.
Como se vê, doze parcelas são do século
: XVIIC e ma é. do século XVII •. Apenas o fragmento de Sá
de )liranda data do século áureo da literatura portuguesa
7
A letra correspund" t'm geral a idade das composiçõl's.'"
O primeiro pof•meto é de o oitavo é de o
sexto é. postr-rior a 17-13, ano em que aind:t vivia o ter-
ceiro ( iondP de .\ssumar, emquanto seu filho e herdeiro,
o futuro quartu Cond<', D .. João de Almeida, estudava em
Paris
1
• O duodécimo opúsculo diz respeito a uma ohl:a
pnblif'ada em 1 •. Qmisi todas sãu anónimas. Dois auto-
res designados com os seus nomes (lvianuel Duarte e Ma-
nuel .\ntc)nio dP Meyrelles) são de tam pouca polpa que
nem mesmo figuram entre as avultadas legiões de escri-
tores, em parte hem obscuros, que foram catalogados .por
Barbosa Machado e Innocêncio da Ró D. Jaime de
.Melo é conhecido como autor das mtirn(UJ acções du Duque
D. 1Vunu Az,,w·ez Pereira._, seu
A era de l\Iiranda pertencem apenas as def'antadas Tro-
vas satíricas de D. J.f,11'ia Pinhei1·o3. Urna nota que as
acompanha documenta que êsse traslado fôra propriedade
do benemérito fundador da Academia Real da História, o
Padre .1\Iannel Caetano de 8ousa. A conjectura que todos
derivem do seu espólio, seria todavia falsa, pois
cm 173;!
4
• Dc>sconhecendo a letra dêle, ignoro se por-
ventura uma nota marginal que há no autógrafo de l\li-
1
Nascido em 1126, êste ainda não tinha idade canónica para
casar. Vid. Sousa, História Genea!óyica, vol. x, p. 818.
2
Diccionario JJiMiographico, III, p. 256.- De passagem SPja dito
que o rctrato·dêl:>te Álvarez Pereit·a é que, em mais df' uma
obra de vulgarização moderna, passou a ser .... o do Gt•ande Con-
destável!
3
Vid. C. C. Branco, Curtw de Litte1·atura P01·tugneza, pp. 310-322,
·e A. Braamcamp Freire, Brasões de Cintra,, I, 429. Camilo, que cx-
tractou dizeres do próprio D. :\Ianuel Caetano de Sousa, atribuiu as
1'1·ovaJJ, sem prova, a Damião de Góis, do qual ninguêm conhecia
ou conhece versos, e classifica o portador de familiar do Conde
da Portella (lapso evidente por S01·telha).
4
Antes da composição do Epitafâmio n.
0
8.


randa, e que não sei decifrar t -a únba alheia que nele
se acha-, foi lançada, ou nãn, pelo fecundo orador.
A hstenho-me por isso de aventar conjecturas a respeito
da procedência do volume inteiro. e em especial do ca-
derno, que tanto podia ter vindo com os papéis e ·livros
da Companhia de Jesus!!, como com os da Reall\lesa Cen-
sória, porque juntos êsses constituíram o núcleo inicial da
Biblioteca, como é sabido.
Em todo o caso bemdigo as mãos desconhecidas que sal;
varam da ruína completa o fragmento deteriorado, quer
fôssem as de Ribeiro dos Santos, quer as dalgum em-
pregado subalterno, que de 1796 em diante o auxiliasse na
organização e guarda dêsses volumes manuscritos e Im-
pressos, que são propriedade nacional.
III
O caderno com poesias' de .Miranda, penúltima parcela
da !J,Jiscelânea n.
0
3355, ocupa dezassete fôlhas (68 a 84)
ou 34 páginas, cada uma das quais tPm H3 linhas, termo
médio
3

As fôlhas (de quatro páginas) e meias-folhas (de duas},
muito gastas nas bordas, e ratadas em numerosos sítios,
são evidentemente restos avulsos
4
dum manuscrito maior.
O texto ocupa sempre uma coluna; mais ou menos larga,
I No alto da p. 13 (fi. 74).
2 Não esqueçamos que foram dois Padres da Companhia que lhe
melhoraram a sepultura e compuseram epitáfios, seguramente por-
que eram admiradores da sua índole austera e das suas obras de
moralista exímio. Martim Gonçalves da Câmara favoreceu tambêm
a Diogo Bernárdez, cm vida, e ao Cantor dos Lusíadas, depois de
enterrado.
3 Em geral tem mais.- Duas ou três páginas, em que acabam
composições maiores, estão quiLsi vazias.
4 Se não fôsse assim, o encadernador não os teria baralhado tão
descaroávelmente .

a medida dos versos. (
1
reio IJlW
<>staria l't'rcado de margens espaçosas. cstfío muito
cc·yceudas. Do lado direito, onde ainda h<í bastante papel
hranco, faltam :is vezes letl'as, pertencentes a emendas
a,·rescentadas. Do lado esquerdo o eódice está menos
danitieado, a não ser no canto de baixo duma fc)lha
1

Ignoro, se tem sinais de· costura, antigos, e tambêm se
o papel tC"m marca de água. Em eima e em baixo estamos
com a parte esl'rita. Acontece mesmo que da car-
reira inicial permanecem partes tão deminutas que ninguêm
pode reconstituir os dizeres, sem recorrer aos textos pa-
ralelos impressos i. Por isso não resta vestígio da. (even-
tual) paginação primitiva; nem .tam pouco de indieações
remissivas de uma página a outra. E como as poesias
carecem tamhêm de numeração, que poderia ter servido
de fio de Ariadne no labirinto de versos que as compõem,-
o encadernador, ou encarregado da constituição do volume,
pegou nas fôlhas a esmo, de sorte que nos apresenta tex-
tos não st:1mente incompletos mas tambêm desconexos.
As emendas, numerosas e funda!Jlentais, como mostra-
rei em outro capítulo, estão na própria letra do texto.
Em geral são acrescentos; ou substituições de vocábulos,
frases, ou versos inteiros; ora entrelinhadas, ora margi-
nais. Outras consistem na eliminação de versos uu estro-
fes: canceladas em cruz, ou riscadas verso a verso com
traÇos horizontais, singelos ou entrelaçados.
let1·a, sempre igual, embora menos cuidada nas emen-
das, é a dos Humanistas, Doutores e Licenciados de 1550.
Clara, sóbria; escassa com relação a arabescos dPcorati-
vos. Clássica. Pareeida portanto com a caligrafia formosa
1 P. 6 = 70 v.
2
É o que se dá com a epígrafe da Sextinn, a fl. 32: Sextinn á
itnlinna (ou á mnnei1·a itnliana) na noua medidn; c com a da Cnn-
tiqa-Endeclw, a fl. 31: A. e&te cnntm· vellto n qtte ajudm·am. 11luito•.
10
de .:\lestre André de H(·sende
1
, de l'ero Andrade Cami-
do Dr. Ferreira 3 e tamhêm com a menos
correcta e cuiclada de lJiogo llernárdez
4
: muito superior
(segundo o meu gôsto) ao· tipo meió-gongórico (Barock.stylj
que foi fixado de 157::? a 1577 por aquele )[anuel Barata
5
,
cuja ditosa penna teve a gloria de ser enaltecida pelo Prín-
cipe dos Poetas Portugueses (talvez por êle ser o primeiro
que em Portugal tratava pedagrjgicamente do assunto)
6

K os caracteres há algumas reminiscências medievais;
p. ex., nos rr iniciais e nos aa. Tambêm se empregam,
alêm das abreviaturas usuais (como q), outras já então
antiquadas, p. ex., v obliquamente cancelado, como repre-
sentante de ve1·- (em vm·gonha, verdade); ou como re-
presentante de chris (ch-ristào, Ch1-isto'Pam). lias em geral
tudo é claro, distinto, hem feito, mesmo a ortografia e a
pontuação, de que logo hei-de dizer mais alguma cousa,
pela importância relativa que tem para a editora.
1 Conheço-a por numerosas notas marginais em obras dêle, que
possuo, e pelo belo fac-símile publicado por A. Braamcamp Freire
em Critica e Historia.
2 V cjam os Cancioneiros autógrafos conservados na Biblioteca
de Lisboa (1\lss. 6383 e 6384), e J. Priebsch, Pouia& Inedi-
tas de Pero de Andra.de Caminha, Halle 1898 (p. xxn sgs.).
3 Yid. Cancioneiro da vol. u, p. 127, e Archi·vo Histórico,
vol. 1, pp. 138-148.
· 4 Arcltivo Histórico, L c. As cartas aí fac-:ümiladas de Ferreira
f' Bernárd(•z são escritas com pouco esmêro, à pressa.
Os Exemplos saíram cm 1590; as chapas tem todavia
indicadas no texto. Vid. Brito Circulo Camoniano, I, p. 342,
ou Diccionado Bibliographico, xvi, p. 129 sgs.
6 Vid. Soneto 2-10 da ed. da Actualidade: Ditosa penna, ditosa
mão que a guia. Da arte de escrever do Poeta não temos amostras,
infelizmente. O exemplar dos Lusíadas que tem a inscrição Lu.iz.
de Camões &eu dono 576 não prova cmquanto não houver ou-
tros- documentos autênticos. Nem está em harmonia com a tradição,
relativa à entreg-a, no leito da morte, do seu exemplar de uso a
Frei Josepe Indio.
('orno frag-mentu mutilado no pr·inclJHO, o l'Ótlice nlio-
tem título. s,; de .Jiú·anda foi esl'rito re('cntemente a lápis
verm•·llw na fi,Jha que lH'upa o primeiro pclsto. sei
por quem.
Nos par·ágrafos relativos ao conteúdo (e à soi-disante
assinatura) <·onto mostrar que ela é plenamente
IV
fotografias que me foram f'onfiadas, estão redu-
zidas a 0,3U X 0.::!5. Perfeitamente nítidas deixam distin-
guir em geral tanto a primeira redaf'ção <·omo as emendas
sucessivas. De longP em longe há letras que ficam duvi-
dosas; e como a cancelação ora não abrange todas as
letras que o Poeta tinha em mente, ora mais, é preciso
ler sempre com grande atenção e critério. Na margem de
dentro não se vê senão parte dos nomes dos interlor·utores
do pequeno drama bucólico que encerra -o suficiente,
porêm, para distribuirmos com exactidão as partes do
diálogo. :No verso estão numeradas. no canto superior-
esquerdo, em harmonia com a colocação das fôlhas no
códice. J untei-lhe·s logo. entre parênteses, a numeração
que aí tem, de fj8 a 8-!. E depois de haver ligado pelo
sentido as par·celas do texto, à vista, bem se vê, das
redacções que eu havia explorado de lHSO a Hi85, inscrevi
a numeração legítima no canto inferior direito. Alêm disso-
juntei, no referências à minha Pdição.
De mão e letra estranha da que traçara o texto, di:;tingo
apenas uma nota marginal, ilegível t. A p. 3 vêem-se al-
gumas rubricas a lápis: BB no canto esquerdo superior;
1 Na fotogrnfia 13 ( = p. 74). Começa mal q tão •.• Refere-se à
reflexão de l\liran•la: que há muitos talentos não cultivados e· não
aproveitados em Portugal. porque os estragam <>om mimos e lou-
vores.

e lJ 421 no canto oposto: provávelmente marcas
tccárias, anteriores à moderna? Talvez mesmo ant(•riores
à entrada do caderno na livraria nacional?
v
l'ôr cm ordem racional as fôlhas sem nexo era o que
importava fazer, antes de_ tudo. Hegulan<lo-me pelo sentido
e pela contextura estabeleci que possuímos cinco
parcelas desconexas e truncadas . .As primeiras duas par-
celas perfazem um todo. As outras são avulsas.
A primeira abrange oito fôlhas: pp. 1 a 16 ( 11-12,
3-4, 1-2, 21-22, 25-26, 7-8, 5-6, 9-10 da paginação
antiga •).
A segunda, quatro fôlhas: pp. 17 a 24 ( 13 a 20) :!.
A terceira, uma só fôlha: pp. 25 a 26 ( 27 a 2>;)
3

A quarta, tambêm uma: pp. 27 a 28 ( 29 a 32) '·
A quinta, as ültimas três: pp. 29 a34 ( 33-34)
5

Das lacunas interiores, a primeira é calculável, porque
interrompe a Éyloga Alexo. O que lhe falta, corresponde
a dezasseis estâncias, de oito v<>rsos octonários cada uma,
devendo por isso ter preenchido duas fíllhas.
A extensão das outras três lacunas, provávelmente
maiores, não se pode medir ao certo, porque as composi-
ções incompletas, que atestam a existência delas, são can-
tigas e vilancetPs ; isto é, curtas poesias líricas, cuja dis-
posição e número varia de manuscrito em manuscrito.
Entre as fôlhas 30 e 31 talvPz haja tambêm lacuna.
Não se pode todavia comprovar, porque a 30a termina
1 Fls. 73, 69, 68, 78, 80, 71, 70, 72, do volume.
2 Fls. 7 4, 75, 76, 77.
3
1<,1. 81.
4 FI. 82.
;, Fls. 83, 79, 84.

13
com a conclusão de uma cantiga, e a a começa com n.
epígrafe de outra.
Com relação ao- princípio c ao fim do caderno, é igual·
mente duvidoso quanto falta, como é duvidosa a colocação
das últimas parcelas, entre si, e para com as duas
primeiras. Voltarei a êste ponto quando confrontar o con-
teúdo com o dos uutrus manuscritos, que manuseei, e -ao
formular hip«'•teses acêrca do cartapácio de que o caderno
(. fragmento escasso
1

A fim de facilitar êsses confrontos elaborei quatro Índices
ou Tabelas. Numa (A) os antepostos indicam
a sucessão arbitrária das páginas no códice fotografado;
os pospostos, a verdadeira. Na segunda (B) inverti essa
ordem, dando o lugar primacial à transposição por mim
realizada, e que adopto na impressão dos textos. Na ter-
ceira (C) principio com a numeração que dei às poesias;
segue-se a que lhe corresponde na minha edição das Poe-
sias; depois vem o verso inicial (sem exclusão do das
poesias incompletas), indo todavia, como de costume, em
itálico e entre parênteses [ ], por ser parte acrescentada;
mas sempre o acompanho do verso que, de facto, é hoje
o primeiro no inanuscrito mutilado. O quarto índice {D) 2
é alfabético, e leva a indicação dos apógrafos por mim
explorados, e dos impressos antigos em que figura a res-
pectiva composição, acompanhada novamente do número
de ordem da edic;ão de 1885. Incluo nele, marcadas com
asterisco, as cinco canções com que o poeta engalanou as
scenas principais do pequeno drama pastoril
3
• Dês se
modo a Tltbela consta, não de 18 como as outras, mas
sim de 23 quinhões. Treze estão em castelhano,. e dez em
1 Nos capítulos I, IX e xu.
2 Logo explicarei as abreviaturas D PJ E F A B.
3 Cinco no autógmfo. Nas páginas perdidas havia provável-
mente mais duas.
14
vernáculo. l'or esta razão tive de omitir referí:ncias, aliás
justas, à vulgarização meritória das PoeBias de Sá de
)liranda, empreendida por Delfim Guimarães
1
, pois êle
repudia todos os textos castelhanos, sem se lembrar de
que, aplicando·se, por exemplo·, a Gil \·icente, e a Camões,
êsse procedimento pseudo-patriótico, pelo qual se renegam
factos históricós, privaríamos a literatura portuguesa, já
-em si pouco abundante, de numerosas obras-primas.
J Sá de Miranda, Versos Portuguestn, vol. u de tuna Biblioteca,
Clússica Popular, Lisboa 1909.
];>
.
.
'l'ABELA A
TABELA 11
I•u.glnn•:A Puglnaçllo l'111dnaçi\o

antba 110\'a nova llllliJCa
1 5
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lkdll·atóa·la.
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!)
25 Printipio da
10 16 10
26
Alexo.
11 1
11 7.
12 2
12 8
13 17
13 5
14 18
14 G
15 19 15 9
16 20 16
10
Lacuna I
1

17 21
17
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18 22 18
1-l
19 23
19 15
20 24 20 16
Fim da Égloga.
21 7 21 17
l
22 8
22 18
')''
31 23 19 ..,a
24 32 24 20
Lacuna II.
25 9 25 27
26 10 26 28
Lacuna III.
27 25
'>-
.... 2fl
28 26 28
;)()
J,acuna IV.
29 27 29 31
30 28 30 32
31 29 31 23
32 30 32 24
33 33 33 33
34 34 34 3-1
1
É o principio da Scena VI que nos falta, llesde t(tlt' sm·gr> o pastor ToriLio até
'() momr>nto em que êle a•,aba dr> cantar o Vilancet"e: J/ienf7·w• Y" tanto a 1oM njn• (v. 544
a 677).
16
1"AHJ-:r.A C
11f> Estos pastores mios, los primcros (Oitava italiana).
II Y o vcugu cumo pasmado (i.:gloya •).
III [Tu, pre3encia de.tseada ],
sccossc el vallc sombrio ( Vilancete).
IV 70 Pulo bem mal me fezestes (Vilancde).
v 1:13 De quem me elevo queixar (Cantiga).
VI
.
51 [ Xaquella serra],
ao sf'u passar ( Vilancde ).
VII 50 Posicra los mis amores . ( Filancete).
VIII 53 SL•caronme los pesares ( Vilancdel.
IX 55 En toda la trasmontaria fCantiya).
X 26 [Todos vienen ele la vela] (_ ritancete·).
Quantos buPlven, triste yo
XI 2-1 Los agravios que recibo fCantigat.
XII 2..;
Nada do que ves he assi I Cantiga).
XIII 30 Coração, onde jouvestes ( rilancete).
XIV 3H Nam vejo o rosto a ninguem IE.tpar.ta).
XT 136 Quicn viesse aquel dia • ( Cant.-E1U.leclta).
XVI 74 posso tornar os olhos (Sextina).
XVII 19()
Menina fermosa ( Filancete).
XVIII 169 Amor e fortuna são ( EBtant;a).
1
Com cinco Intm·mC'zzos JÍJ·icos:
l Bud\"e acá • sin tlcnto
2 [)'Amor bion dizl'n quo os <'i c go
S Amor burlando ,.a, muerto me dt'xa
4 Los guisados d' Amor son corazones
5 Quando tanto alabns, Clara
(Cantiga)
(Cmdiga)
{Oitara11)
( J
(Cantiga)

H v. -ltJG""
XVIII
II v.113""
Xlll
II v. 325 *
v
IX
I
XI
II v. G02 *
XVII
XII
VI
XVI
XIV
lV
VII
II v. 658 *
XV
VIII
X
III
II
17
'l'AIIEI.A D
Amor lml"lan•lo v a, muerto me dPxa IIJ E F.l.IJJ 102)
.\mor c fortuna são c.E 1G!.I)
Btwlvo acá, pastor sin ticnto 1 LJ E FJ.I lJ 102)
Coração, onde jouvostcs 11 J /'E./ .1/J 30)
D'.\mor bicn tlizcn que es ciego 1/ J E F./A lJ 102)
De quem me •levo queixar {./ .l/J 131)
En toda la trasmontaua tDP E.J.lB 55) l
Estos pastores mios, los primeros 1:111 U5)
Los agravios que recibo (D 1' E AB 24) 2
Los guisados de . \mo r sou corazoncs U J E F.J _t B 102)
Menina fermosa (.! 190)
Nada ,lo que ves é assi t/JPEJ-:JAB 28)
alta serra tDP E.J AB 54)
.Não posso tornar os olhos (lJJ',JAB 74)
vl'jo o rosto a ninguem (})P E.IAB 38)
Polq, bem mal me fezestes ( 1J P E .I A B 55)
Posicra los mis amores ( 1 J P E .I _t B 50)
Quando tanto alabas, Clara UiEF.I.AB 102)
Quien viesse aquel dia t.I.l B 1361
Secaronme los pesares 11) P E .I A B 53)
Todos v-ienen de la vela ( D P E .I A B 26)
Tu presencia desse ada ( D P E J -1 B 68)
Y o vengo como pasmado 1 DE P.I ..:1 B 102)
1
O .lloto (alhdo) é castdhano, mas as l"olfas de :Wiranda são portuguesas.
2
Falta em Jporque bit ncssü manuscrito uma lacuna no lugar respectivo.
)lais abaixo llarei ainda outras duas Tabelas comple-
mentart•s, com todas as estanças que constituPm o principal
Intermezzo lírico do drama pastoril. e com as quadras sôltas
cantadas por Alexo.
2
18
VI
Cumpre-me 'xpor aqui a significa<;:ão das abreviaturas
f{U(> emprego, e '·aracterizar os diversos manuscritos a que
krei de . referir-me repetidas vezes, melhor do que ;em
tempos o fiz
1

Com a letra /J designo o códice que .serviu de base à
minha edição, propriedade outrora do lusitanófilo francês
:Ferdinand Denis !, único que ministra as poesias· líricas
de Miranda, tais como, depois de cuidadosamente polidas
foram enviadas por êle, entre lúi''O e em três re-
messas sucessivas, ao Príncipe D. João de Portugal que
lhas mandara pedir
3
: segundo cál<'nlos fundamentados.
em lf,f> 1 e lf>52. Apúgrafo, letra do sé('nlo XYI, não du
exemplar (seguramente caligráfico) destinado ao herdeiro

da coroa, mas do borrão original ·muito emendado, . foi
escrito por um copista conscieneioso, mas pouco experto
em língua <'astelhana. Cada. uma cbs Três Part"s é pre-
cedida de nm Soneto de homenagem.
é composta cem poesias menores (a maior
parte da Escola velha·). Em teoria são todas quantas o au-
tor a<'hou dig-nas de serem publicadas
4
: Glosas, Cantigas,
1 Estas notícias são resumo do que esPrevi cm Creio to-
davia que posso evidenciar agora melhor o;; pontos que são essen-
ciais para a história dos textos.
2
E8te letrado legou os seus livros e manuscritos à Biblioteea. de
Sainte Genevieve (de Paris), cujo chefe fôra durante longos anos.
3 Os editores das f JIJra.<J tinham notícia vaga dessa colecção.
Domingos Fernández deelara expressamente não haver alcançado
quais o Poeta mandara de carla vez ao Príncipe.
t Na realidade faltam bastantes, tanto nos cadernos ou volumes
oferecidos ao filho de D. João III, como nos que mandou a outros
personagel'ls, ou legou à família, sendo de notar que em todos são
omitidas várius Clas suas primícias, qne foram acolhidas no Can-
ciúlleiro Ge1·al por Garcia d<' Resende em 1516.
1
Vilancdes, Esparsas, Trovas. l'histes; mas ta!nhf.rn flan-
çõas e no dulce Htil wwvo. l'or êst,, motivo êle
não lhe quis dar· o título impr·ópriu de Caucionei'l·u, pre-
ferindo o dc:LIVIW DE OnAs, a'l·remedfmdu 1/oracio, isto
l-, o seu LiiJP.r Cw·minum '·
.. \ !'arte abrange seis Cartas e duas
(SÓ a última Carta cm tcrt'etos; todo o resto em metr·o
nacional). seyu·indo a llm·acio foi que pensou em
chamar a essa parte Lim·v de Sâtiras
Na Terceira h<i as suas Bnc6licas artísticas, sendo uma
cm . rcdondilha: algumas poesias menores omitidas por
descuido ou de prop•)sito na parte primeira; e um I)iálogo
t."'m prosa
3
• Suponho que o título," .desta vez vergiliano,
seria Livro de Buc,;licas. -
P simboliza um traslado antigo da Primeira Parte, o
qual se conserva na Biblioteca Nacional de .Paris
4
• Datado
de 15G-!, pode ser derivasse directamente do original.
Igual a D, em quási todos os pormenores
5
, autentica-o e
serve para sanarmos alguns erros daquele exemplar.-
./ é outro eancioneiro, precioso, exclusivamente com
obras de de l\Iiranda, e que pertenceu ao Visconde de
Juromenha
6
• Apógrafo eom boa caligrafia, de fins do sé-
l Vid. C. Vasconcellos, Poe8ias de Sà de .Miranda, p. 3.
2 Vid. ibid., p. 185.
3 No fim do apógrafu que designo por D há umas nove composi-
ç:ões de Felipe de Aguilar: acrescento postiço, provávelmente dêssc
amigo de Falcão de Resende, ou rloutro qualquer coleccionador.
1 .\marcação moderna é: N.o 6'8 du·l!'ondb Pm·tuyais. A antiga
fura 829-i. Dera entraua na Biblioteca com a colecção Jlazarin, cm
1668.-Vid . .A. Morci-Patio, Catalogue, p. 336.
5 Vid. C. 1\I. de Yasconcellos, Poesla3, p. Ln Ap. 3 registei
a divergência relativa à epígrafe inicial.
6
lbid., p. LV sgs .• \ •lescriç.ão que lá. dei é insuficiente.-1\luito
t!stimaria poder refazê-la, <' conferir ao mesmo tempo a letra com
a do caderno autógrafo. Ignoro todavia quem arrematou o códict'
no leilão do e:-;pólio. (' onde pára actualmPnto.

20
culo xn, foi extraído aparentemente também dum bor-
rão de difícil leitura, mas por um artista háhil e cuidadoso,
naturalmente errasse às vezes t. Por desgraça
está truncado, no princípio e no fim, tendo alêm disso
pelo menos três falhas no meio. Sem divisão declarada
em Livros, contêm, em boa ordem, que não se afasta
muito da observada em D, parcelas importantes das úl1ras
de Miranda,- talvez três quartas partes: de fl. l a 25,
umas 04 composições menores, algumas das quais não
haviam figurado em lJ 2; de fl. :?G a 36, uns 32 Sonetos,
nove dos quais não se conhPcem doutra fonte
3
, ao passo
que outros três, acrescentados à colecção primeira, exis-
tem tambêm nas impressões antigas
4
; de a6 v. a 111, as
H Églogas principais 5.
Se com relação às lacunas intermédias
6
, e mesmo quanto
à do princípio
7
, é possível formular conjecturas prováveis,
por analogia com ninguêm pode calcular se no fim
estariam, ou não, as Cartas (cuja falta é notória); e por-
ventura algumas das composições que o Poeta escreveu
1 Não sabendo 1lecifrar bem um Soneto (n." 83), apontou êsse
.facto em nota marginal (vid. p. 685).
2 Poesias, n.o• 133 a 137. De algumas hei-de tornar a falar; so-
bretudo da que, até agora privativa de J (100), surgiu no autó-
grafo N, como verifiquei com verdadeira alegria.
3 N.o• 181-189.
4 N.os 138-14{).
5
1llondego, Célia, Alexo, Basto,
6 As lacunas que há no Livro das Redondilhas (entre fi. 9 e 10,
13 e li, 16 e 17) privaram-nos, salvo êrro, das Cantigas e dos Vilan-
cetes que são, na edição, 11.
05
7, 12, 13, 1G, 17, 19, 22, 24,33,
34, 39, 40, 42, 68; e talvez das Trovas 76, 98, 99. Em outras
duas fôlhas, cujo sítio não sei determinar, estariam os Sonetos 2,
101, 87, 95, 98, 99.
7 No princípio haveria o Soneto Dedicatório 1, e a Glosa No
porque me fatigo.
:!I
depois de I:>::>:!. e tam ht·m algumas das do 1.
11
e
0
pe-
ríodo, omitidas por deseuido.
A prova que o borrão-original, de que .l <leriva direc-
tamente·, fui elaborado posteriormente a essa data, temo-la
em diYersos af'rescentos signiiicativos. Entre êles avul-
tam duas composições dirigidas a Pero de Andrade Ca-
minha i, São respostas a homenagens dêsse poeta ánlico,
que seguramente foram suscitadas pelos triunfos ohtidos
por Miranda na côrte, com a tríplice remessa de suas
obras «maravilhosas»
2
• O No banes más tus ojos:t
imagino-o dirigido a D. Briolanja, sua mulher, inconso-
lável pela morte <.lo primogénito. Em fins portanto de
15:1B, ou em 1654. Para a Epístola-Del1icatfíria, ante-
posta à Égloga Alexo, a data mais temporã possível é
155-! (primavera), como adiante se verá. O Soneto que
principia Em pena tam e está à frente do respectivo
Livro em tem em J a epígrafe Soneto prúnei'io .• emen-
dado
4
, e de facto está transformado, pôsto que continue
com os defeitos de pesadez e falta de euritmia musicaL
inerentes nos hendecassílabos mais antigos do Reforma-
dor. Outro, tambêm dos primordia_is, Não sei que em vós.
mais o Poeta apresenta-o até em duas redacções; e
a que chama mais antiga é a que se lê no manuscrito de
F. Denis
5

1 Poesias, n.o• 135 e 140.
2
É assim que as chama o próprio Caminha na Cartct a João
Rolb·i!Jttes ele Srí e }.fcneses, em que se documenta como bom e sin-
cero imitador do grande Sá. de Miranda (Poesias, ed. p. 103,
Epist. xxu).
3 N.
0
189.
4 N.o 78 (pp. 67 e 681). Os outros Sonetos não tem numeração
no Cancioneiro de Juromcnha, nem tambem na impressão de 1595.
5
X.o• 89 e 162 (p. 537). Nas outras colecções, o teor do Soneto
parece-se ao de D.
Em geral, nas obras comuns a ambas as colecções, os
textos de J são, como essas duas amostras, refundições
dos contidos cm D
1
, ora totais, ora parciais: aperfeiçoa-
mentos quanto às intenções do autor, e em muitos casos
superiores realmente não só às poesias que foram envia-
das ao Príncipe, mas também às que, por terem sido
impressas em 1 f)!)f) e ](; 14, são, para certos cr1ticos, a
última palavra do Poeta.
Parece-me, contudo, que a derivação de V não foi
imediata e que houve elos de transição que se perderam.
l'elo menos, o borrão com emen.ias numerosíssimas, do
qual se extraiu o traslado limpo de quP trato.
Dalguns pormenores podíamos concluir que o Poeta,
na tirme· tC'nção de legar à posteridade textos definith·os,
prontos para o prelo, os destinava, depois do falecimento
prematuro do Príncipe
2
, a outra Alteza,, a que costumava
tributar obras de arte, quer fôsse o próprio rei, quer seu
irmão magnânimo, o Infante l ). J. .. uís 3. nótnla,
relativa a dois curiosos Diálogos, trocados entre
Bernardim Ui beiro e D. )Iascarenhas ', o Poeta
dirige-se evidt>ntemente a um personagem da casa reinante,
dizendo E pus isto aqui polo d'ela, p(Yrque saiba V. A. que
tambtrn Portugal teve a sua marquestl de Pescara, ao passo
que eni D há a fórmula impessoal polo d'ela., que é cousa
1 Em prova da dependência (indirecta) do Canc-ioneiro de Ju-
romenha, da colecção D, podia alegar, alêm Ja coordenaç.ãõ, e
dalguns textos, diversas epigrafes que ocorrem exclu-
sivamente naquelas duas fontt>s, por exemplo, as relativas às Poe-
sia3 n."
8
51 c 52 (pp. 40 e 681).
2 Jorge Ferreira fie Vasconcelos, que havia dedicadd todo
quanto escreveu ao mesmo Príncipe D. João, ft•z depois homenagem
das suas obras ao filho, o infeliz D. Sebastião.
3

51 e 52.
1
.Xas impressões de 1595 • 1614 não hà nada parecido.
23
.
'rara, pus aqni isto porque se veja, ett·. t Eudando as suas
Olr,-as· ao Principe, jft pensava no púJ,lic-o em geral. Hem
a aloc·ução Fossa Alteza, podíamos p('nsar no Henhor de
Basto, seu amigo e 'izinho, e seu correligionário (salv-o
êrro l cm tudo quanto se rd'rria a livros divinos e assuntos
sagrados. No te-se> que numa poesia, qtw não figura f•m D,
Pl'reira nos surge inesperadamente (em J) como
autor de uma 1'rova-.AJuda2.
no seu estado primitivo Uancion<'Íro, (h·sgra<;a-
damente fragmentado, fôsse uma colecção integral, seria
pelas a mais complC'ta
3
e a melhor de todas.
)las não a mais tardia, porque não as t'Omposições
derradeiras do Poeta q ne, profundamente abalado pela
morte do filho, do )fecenas, do Infante D. Luís e de elrei,
e principalmente pela perda da mulher, ia morrendo pouco
a para todas as cousas de seu gt)sto e antigos exer-
cícios.-
Com E designo exce1·ptos do códice- cxrv-:2:2 da lliblio-
teca de 4: isto é, dum grande Cancioveiro Geral,
de muitos autores, sobretudo quinhentistas, coligido por
algum amador de bons versos :s. As 76 composições de
::\Iiranda que contêm
7
de todos os géneros, incluindo algu-
mas das compostas antes de 1616, parecem ser cópia· de
1 N.o 137, No pregunte/s a mis males (vid. V· 734). Em B (onde
está. .entre os textos recolhidos de várias mãos) não
se encontra a aludida estrofe.
2
Ambos faleceram antes de :\Iiranda. Por isso haverià precisão
de substituir novamente o de-stinatário.
1
·Já 11isse que no livro, truncado, dos Sonetos há em J: 32; em
A: só 28; cm B: 31 (com acreseent.o dos três compostos cm 1555 e
1556), e em D: 27.
· 4 Vid. Poesias, p. LXV.
;, Extractos dêle; com exclusão das obras de l\liranda.
1
foram
p"!Jblicados f'm 1902 por A. F. Barata, com o título de Cancioneiro
Geral. Infl'lizmente, com pouco e comentário insuficiente
2-l
exemplares avulsos, dedicados p(·lo autor a personagens
<'minentes da cú.-te, como o Infante D. Luís t. Embora o
traslado não fôss(' feito com muito esmrro, há ahi redac-
ções divergentes (talvez primordiais) dignas de toda a
atenção
2
, e alguns textos raros. Encontrei nele mesmo
encorporada uma Trova, como no Cancionei1·o de Juro-
menha, inédita até 1885, que só agora é autenticada e
valorizada superiormente pelo autógrafo existente na Bi-
hlioteca Xacional. -
F é outro cancioneiro de muitos, guardado na Biblio-
teca Nacional de Lisboa, coligido de 1Zl57 a 158U ade
papéis da letra dos mesmos» por Luís Franco Correia,
que no frontispício se c·hama companheiro de I .. uís de
Camões na Índia
3
• A maior parte são dêsse Príncipe dos
Poetas. Poucas são de :Miranda; e essas em parte tam
incompletas e deturpadas, que, se realmente derivam di-
rectamente de autógrafos, êsses estavam bastante estra-
gados- talvez borrões muito emendados
4
• Das atribuídas
a F'-l·.co de Saa, várias me pare<:'em mesmo ser obra não do
Pof>ta-filósofo, mas antes do seu valc·nte imitador Fran-
cisco de Sâ e JJ1eneses. Convêm estabelecer que nenhuma
dessas duvidosas se encontra no caderno da Biblioteca
NacionaL-
A é a impressão-príncipe das Of,r((s. Todos sabem que
1 .A Égloga Célia, que :Miranda dedicou • ao vencedor de Túnis
em 1536, diverge tanto que a imprimi como composição indepen-
dente, com o n.
0
165 (p. 563).
2 Alêm da Célia, o Basto (n.
0
164). Isto é: uma curiosa refun-
dição da i:gloga moml ou Éyloga-Sátira, que o preocupou mais
intensamente do que qualquer outra, e talvez seja a melhor e mais
nacional.das suas criações.
3 Yid. p. LX.
4 Estrofes que eram meras variantes {por exemplo, a do A.lexo,
que transcrevi a p. 109 das Poesias) entraram como parte do corpo
do texto na transcrição de Luis Franco.
25
.
ela fui realizada em 1 GUG à vista do ap(•grafo tirado di-
rectanwnte dum volumt', b;u;tantP maltratado, mas de mão
c letra do prt•prio l\Iiranda, conforme fui atestado, perante
um juiz de Br·aga, por testemunhas fideàignas. Pode-se
supor a priori que êssc original fi'Jra propri(·dadf' de pes-
soas de família, e qm' }Jur iniciativa dessas se· procederia
à publicação t._ .As composições que conWm são as mesmas,
legítimas, de D, cm ordem pom·o alterada
2
, mas cm re-
dacções que tanto se afastam dêlc corno de J. Algumas
poesias foram omitidas 3.
Outras foram acrescc·ntadas. V árias destas últimas cer-
tificam que o manuserito foi ultimado em 1554 ou depois.
Alêm de duas Églogas artístic·as (Encantamento e Epita-
l(lmio), dedicadas a dois amigos, mas cuja data exacta
ignoro ainda, as mais notáveis são duas Ca'J'Ias em terce-
tos; ambas em resposta a outras que )liranda recebera de
dois adeptos eminentes: Jorge de :Montemor e o Dr·. An-
tónio Ferreira, admiradort>s ferventes, como ~ \ n d r a d e Ca-
1 Nada seguro apurei todavia acêrca de D. Jerónimo de Castro,
promotor da edição, e suas supostas relações de parentesco com
os S{LS.
2
~ \ entrada do volume estão os três /)onctos Dcdicatórios ao Prín-
cipe D. João. Seguem-se a Canção, pctrarquesca, à Virgem; 25
Sonetos; as cinco Cartas em Redomlilhas, duas em tercetos (pri-
meiro a dirigida a D. Fernando de )feneses, n.
0
109, depois a que
escreveu .a uma senhora muito lida, cm nome alheio, n.
0
114); e
duas novas, digo posteriores a 1552, que são respostas a missivas
de Jorge de )lontemor c António Ferreira. Após essas vem as
Églogas Jlfondeyo, Alexo, Basto, Célia_. André&, Nemoroso, seguidas
das acrescentadas Encantamento c Ep·italâmio, e por 1Htimo as
Redondilhas. sem serem distribuídas, scgu11do os géneros; com al-
guns acrescentos, acompanhadas do Soneto lt llfadalena (já impresso
a fi. 5) e das T1·ovas a Y. S. da Conceição (n.
0
98). Por junto 128
composições.
3 Vid. Poe&ias, p. r.xxn sgs.
2(-)
minha, das maravilhas com qu(·, de ];,;,()a êle saíra
à, praça, mercê dos esforços· do J'rfncip ..... O capítulo a
Jorge de )lontemor foi escrito durante a curta estada
dele na côrte portuguesa., de Dt·zemhro de 155:! até )laio
de 1554. A Elegia ao Dr. António FerrPira, formosa ré-
plica aos pêsames pela morte de seu filho Gonçalo )fendes
de Sá t, julgo-a poster-ior (muito pouco embora) ao Soneto
dirigido à desconsolada mulher, que apontei no Cancio-
nei1·o de J uromenha. Se uma alusão ao desamparo dos
poetas se relacionar com a morte do Príncipe, como é
justo supor, ela foi escrita pouco depois de de Janeiro
de 155-!. Escrita em pu1·idade, porque, após esse tristís-
simo acontecimento, a primeira obra que Sá de )liranda
necessáriamente havia de publicar era um pranto afliti\
7
0
ao monarca tam duramente ferido.
A tem muitos pontos de contacto com J e com D,
donde deriva, conquanto por outro caminho, sendo elabo
ração div.ersa. Comparando o seu conteúdo com os frag-
mentos de J qu_e possuímos, suponho que foi ultimado
posteriormente
2
, repito-o.-
B é a segunda edição das Ob1·as (de cuja des-
semelhança e variedade, ou desconformidade da que em
1595 fôra judicialmente autenticada, tem dado muito que
falar, mas·ainda não está .bem esclarecida. Tão dúbias são
as explicações esboçadas pelos editores )Januel de Lyra
e Domingos Fernández, e- pelo autor da rida!
Ela contêm, em redacções que muitas vezes ficam pró-
ximas de D e J, outras vezes são iguais às de A, e
freqi1entemente se afastam de todas as restantes, mas em
1 Mais abaixo terei de pormenorizar este trágico sucesso.
2 ::\Ias a suposição pode ser érrónea, por dcseonhecermos o con-
teúdo das partes que faltam.
27
.
-ordem modificada um tanto •, os textos já apontados, e
-como acrescentos as composi<;Ües ulteriores a lf'JÜH
2
• Isto
é, a Elegia à 'mU7'tt• do Prí11cipe, em que por V<'ntura :\[i-
randa já· trabalhava quando respondia em princípios de
15[,-l a Ferreira3. Em seguJHlo htga.r dois formosos Sone-
tos, inspirados pela perda da ineonsolávci mulher (1G55) ',
e outro a Diogo Bernárdez, qne julgo dever colocar em
de lf>511
5
.... \.lêm disso, algumas das miudezas,
que positivamente faltavam em A
6
, mas úão na colecç-ão
tripartida
7

(.-lual seria a fonte ou as fontes de que deriva?
Tratando de justificar as «novidades», dando a razão
delas, é que o editor fala, no Prólogo, dum importantís-
simo cartapácio-borrão, mas sem a devida clareza. Se o
entendo bem, esta relíquia formava parte do dote duma
neta do filósofo (isto é, D. Antónia ·de ){eneses, filha de
t Começa com 31 Sonetos (os três primeiros são os com que
-preludiara as remessas ao Príncipe); continua com 8 Églogas-
...1/ondego, Célia, Encantamento (sem indicação dêste título),
Nemoroso, Epitalâmio, Alexo, Basto-; as 10 Cartas ou Elegias;
3 Canções a Nossa Senhora; a SPxtina; e as Redondilhas- orde-
nadas, segundo os géneros, evidentemrnte pelo editor. As compo-
siçõei alheias a que Miranda respondia (de 'fontemor c Ferreira),.
impressas em A, foram excluírlas.
2 N.
0
148.
3 Algumas faltam, pelo contrário. Tambêm os Diálogos em que
'firanda e Bernarrlim Ribeiro colaboraram.
4 N.
0
142, Este retrato vosso; n.
0
143, Aquele esprito.
ã N.o 144, Neste começo d'ano.
6 Os n.
05
17, 18, 39, 75, 76, 77 das Poesias. Tabela, sobres-
critada O que vay acrescentado nesta segunda imp1·essam, figuram in-
justificadamcnte os n.o• 45 e 136, Como no se desespera e Quien viesse
aquel dia, pois já saíram em 1595.
7 Os n.o• 137 e 145 encontram-se em J; 131 e 132 já andavam
desde 1516 no Cancioneiro Geral. Exclusivo de B são portanto
apenas a Elegia, os três Sonetos e a Canção: Dia [)1"acioso e cla'ro
-(n.
0
149).
t8
.Jer«'mimo de Sá e D. :\Iaria de ~ i l v a e Meneses) já fale-
cida em lf>!JH, e fôra por da levado a Sah·aterra da
G-aliza, ao solar de seu marido D. Fernando Osores de
Rotomayor
1
• Expressamente o designa como primeiro ori-
[p:nrtl que continha tantas riscas e emendas, entrelinhadas
e marginais, que mal se podia lPr, mostrando pela partí-
cula latina vel "el, freqitentemente usada, que o pr<jprio
JlOcta duvidava a qual das lições havia de dar a preferên-
cia. Quanto mais o editor! Segundo dá a entender, essas
emendas eram. em grande parte fruto do tempo em que
~ á de )[iranda ia limando, polindo e purificando as suas
obras, a fim de as copiar caligráficamente para o l)ríncipe;
em parte eram fruto de revisão posterior, durante a qual,
arrependido, reintroduziu lições rejeitadas, ou substituiu
retoques mal sucedidos por outros melhores. A decisão
sôbre as duas eventualidades, o editor deixava-a ao juízo
dos curiosos.
De modo algum afirma que tal Livro-rnest1·e ou Li-vro-
razão - que em gérmen continha muitas ou todas as
redac<;ões - serviu de base directa à sua impressão.
Pelo contrário; pelo que diz e pelo que não diz conhece-se
que nem mesmo o vira. A meu ver, só o conhecia de
fama, pelas informações do autor da Vida:!, ponto que já
estabeleci em 1885
3
• Agora. vou todavia mais longe.
t Cores, por êrro, em vez de (/ores: má ortografia de Osm·u,
Fernandozores, que Domingos Fernández encontrara na Yida.
2 Depois de haver falado dos descendentes do Poeta diz, che-
gado à esposa de Dom Fernando CoreB Sotomayor, que vivia em
Sulvatcn·a o anno de 1593, jà viuvo cl'ela: e lte rezão que digamos
aqui que quando aquclle fidalgo caBou com esta neta de FranciBco de
Sa quis que no dote que lhe deram entrasBe em hum grande preço o
Livro Original ele BltaB Poe8ias, o qual tem e estima como ellas me-
recem.
3 PoeBiaB, p. Lxxv. Do que então assentei, subscreveria boje
apenas os pontos em que toco no texto.
.
. Analisando a fundo cada uma das asserções de Domin- •
gos Fernámlez cheguei a entender que f.le estava inteirauo,
e <pleria informar o leitor, da identidade dêsse primeiro
original guardado em (com ciumes tais que
não se mostrava a ninguêm), e do volume j:i vdho, enca-
dernado em pergaminho branco, que D . .Jerónimo de
( iastro conseguira explorar (de a l:'>H[)J t, passando
de reino a 'reino i, a fim de sempre de novo conferir (em
casos duvidosos) a letra do próprio
3
com a impressão
(em Lisboa) do traslado que êsse cavalheiro mandara
extrair do cc)dice e havia submetido à sentença do tribunal
de Braga. O que êle Domingos Fernández diz do estado
do códice original parece até destinado, quando não a
abalar a fé nos textos da edição-príncipe, pelo menos a
robustecer o crédito nos que inseria na segunda impressão.
l.J,ua.nto a êsses, põe em relêvo o trabalho que teve em
recolhê-los das mãos de vários
4
, em que andavam espa-
lhados. Trata-se portanto de traslados diversos dos origi-
nais, segundo êle fidedignos, que o Poeta havia remetido
t O passo mais sujeito a discussão diz: Pequena maravilha he
logo que di.ffirão estes papeis que são a3 copiaJJ daquelles, dos que se
treslada1·ão do p1·imei1·o m·iginal que nem 3e mostrava a alguem nem
ainda 3e pôde bem ler seg·undo está de riscailo, entrelinhado e margi-
nado. Antes o editor falara dos papéis enviados ao Príncipe. Por
isso interpreto-o do modo seguinte: Não a.dmira que estes papéis
(que agora puf.Jlico ou que mandei imprimir e são cópia daqueles que
Miranda dedicon ao Príncipe D. João) difiram dos que D. Jerónimo
mandou extrair do primeiro e deu à luz em 1595.
2
A menção da data 1593 na Vida é significativa, a meu ver.
3 São frases de Manuel de Lyra, na Carta Dedicató-ria a D. J e-
rónimo de Castro (Vid. Poesias, p. Lxxm). Pena é que nem êle nem
o Juiz de Braga dessem pormenores a respeito do volume que viram.
4 Amigos contemplados pelo Poeta, como os Pereiras, de Cabe-
ceiras de Basto, os Sás de )lencscs, do Pôr to, D.l\Ianuel de Portugal,
Diogo Bernardes, Pero de Caminha. Ou coleccionadores
de
30
• ao herdeiro da coroa. De modo algum alude ao trabalho
melindroso da es(·olha que, em vista do cartapácio, teria
tido!
Com relação aos.Jnéditos, não contidos em A, parece-me
portanto ·que, no profundo desânimo dos últimos anos, o
autor não se havia lPmhrado de os encorporar no car-
tapácio grande. Os demais textos, comunicados em 1614,
devem ser apreciados não em globo, mas um a um, por-
que, saindo de fontes várias, tanto podem ser· primitivos
como tardios, puros ou deturpados. Quanto aos oferecidos
em devemos aplicar-lhes as ponderaÇÕes criticas
aconselhadas até hoje para os de 1614, porque, apesar
de todos os cuidados de.U .• Jerónimo de Castro, a escolha
entre as lições divergentes deve ter sido arbitrária.-
N será a sigla com que doravante designarei o caderno
trun<'ado da Biblioteca Nacional. cujas relações de paren-
tesco com as já mencionadas tentarei apurar nos capítulos
seguintes.
VII
Interpretando os Índices assentemos, numa estatística
menos sumária, que, da totalidade de 10U3 versos que o
caderno autógrafo contêm, 845 são castelhanos. .:\s dez
compo,ições portuguesas que neles estão registadas, em
parte incompletas, dão apenas 1-18 versos.
· (1,uási todas as poesias, tanto as castelhanas como as
portuguesas, estão escritas em octonários ou senários
1

Xão sômente as dezasseis poesias líricas menores, mas
tambêm o único . poema -e.xtenso .que o caderno contêm :
o drama bucólico Alexo !com 801 As líricas são:
t &\o todo: 140 versos.
2
Incompleto, ainda assim, no meio. minha ediçro de 1885
compõe-se de 95!; e redacções há que vão muito alêm :disl'õo.
at
ou 'L'ruvas duas; Vilancetes, oit·o;
Cantigas, cinco, uma das quais tem feitio de Bndecha •.
Todas tem a forma e medida nacional (mais correcta-
mente peninsular) da redundilha maior ou meno1·.
Apenas h<í. tres excepções: em metro largo de onze
sílabas, que é costume chamar hendecassílabo italiano,
ou em queb1·ado. E são a Epístola-dedicàt,)ria a
D. .\ntónio Pt·reira, senhor de Basto, que acompanha o
Alca:o, e dois dos Intermezzos líricos com que êle está
eugalanado. l'or junto 152 versos.
Sobretudo estes bitermezzos são de grande importância.
Temos neles as primícias do gôsto novo introduzido por
de )[iranda, quando, de regresso da Itália, tomou
sôbre si o dificílimo e melindros? papel de Reformador
ela arte vigente na côrte, medieval e dessorada. Refor-
maclor, porêm, não • da forma, mas tambêm e princi-
palmente da essência, porque alêm dnm metro desusado,
de estrofes desqonhecidas (Oitavas, Sextinas, Tercetos,
etc.), e de géneros estr:ingeiros (Sonetos, Canções, Capí-
tulos, Elegias, Epitáfios, Sextinas, Églogas), Sá de 1\Ii-
randa trouxe comsigo idéias novas e ideais novos. Os
ideais do Renascimento clássico, bebidos em Vergílio e
Horácio, em Plauto e Terêncio, em Cícero e Platão, mas
sobretmlo em Sannazzaro e Ariosto, Dante e Petrarca.
Procedendo criteriosamente, começara todavia com ten-
tativas que eram transições do gôsto indígena para o e;;-
trangeiro.
O Alexo -mesmo se foi precedido, como penso, dalguns
di_álogos pastoris de Bernardim Ribeiro, ou de todos
quantos devemos a essa alma de poeta- o .Alezo é o
primeiro drama bucólico que foi composto ·Portugal
1 A quási igualdade numérica entre os versos portugueses e os
de Redondilha é portanto fortuita.
em linguagem '· IJr·ama, ou de muitas figuras, divi-
uido r·m cinco ou seis scenas, c em metros variados
2
: a
primr·ira no estilo polido dos grandes mestres
neo-latinos que haviam renovado a arte do )Jantuano e
de Teócrito. Seguido muito de perto da do .1Jfon-
dego
3
, êsse Auto artístico era a grande novidade que
ao homem de bom saber» lançava em desafio e como
protesto contra Gil Yicente e os demais representantes
da :Escola V e lha &. • )fas novidade transitoria, repito-o.
Idcada e a modo de fora-parte, onde a Ar-
cádia já fizera escola:;, o poeta escrevera-a, ainda assim,
na nossa de actlrdo com o suave autor dos Idilios
de Jano e Jano e que êle glorifica nesse mesmo
Auto. Na Epístola explicativa que posteriormente juntou
ao chama aos interlocutores
estos pastores mios, los primeros
que por aqui cantaron. hicn ó mal,
a la sampoib versos cstrangeros.
1 No idioma de Lácio já existiam as nove Égloga8 de Enrique
(Hermígio) CayaG.o, impressas em 1501.
2 Bernardim Ribeiro só empregou a usadíssima décima e o
nonário.
3 Fábula com forma de Canção, mas de carácter bucólico. Inspi-
rada pelo (hjeo de Poliziano, versa sôbre um assunto português:
o mesmo tema arqueológico -o brasão de Coimbra- que Gil
Vicente tratou, ao sc.u modo humorístico, na Comedia sob1·e a De-,:isa
da Cidade de Coimbra (1527).
4 Outrora pensei que a Fábula fôra escrita antes do Alexo
(sem a Dedicatória a D .• João III, que é seguramente de 1537, ou
posterior, porque alude it Universidade). Em dh-ersas colecções,
por exemplo no Cancioneiro de Juromenba e na impressão de 1595,
o .Mondego "está anteposto ao .Alexo. Xa edição de 1614 todas as
Églogas cm metro italiano precedem as compostas em metro na-
cional. Por isso o Mondego tem ai o primeiro e o Alexo o
sétimo.
á .A primeira eJição da .lrcltdia é tle 150-t
Pois bem: dêsses versos estrangeiros, cantados na scena
principal, uns, que começam
Amor burlando va, muerto me dexa.
são igualmente uma novidade transitoria. A estrutura é
a velha das oitavas à castelhana (abi.Jacddc), usadíssimas
entre os poetas do Cancioneiro Geral, sobretudo em poemas
narrativos, de alto coturno; mas agora enfeitadas e tor-
nadas dramáticas pela introdução dum quebrado
1
, que
interrompe a monotonia elas metades iguais
2
• Novo era,
pelo contrário, o metro: o hendecassílabo à italiana, com
acentos na 4.
3
, 6.
3
e 10.
3
sílaba. Nova era tambêm a
factura elo canto, distribuído por partes simétricas entre
dois pastores: João Pastor e- Antão, que neste caso per-
sonificam os dois amigos João e Franco, ou Bernarclim
Ribeiro e FranCisco ele Sá de Miranda, que juntos esti-
veram longe da pátria, e juntos iam iniciando, de modo
individual embora, o género pastoril em diálogos idílicos
ou dramas líricos. Canto alternado ou amebeu, no dizer
1 Miranda introduziu o quebrado tambêm nas oitavas espa-
nholas de arte menor, de dois modos diversos: em substituição do
primeiro octonário com a rima d (ababcdde), por exemplo nos
versos 5 ~ 6 - 7 2 5 , 758-781 e 831-838 do Alexo (PoetJia8
1
n.
0
102); ou
como acrescento entre c e d (abbaccdcd; ibid., 114-239; vid. p. cxm).
2 Como o quebrado se ligue, pela consoante, à primeira metade,
temos o esquema abbaacdd. Do assunto, que tem importância, trato
em Notas Vicentinas, que estão qu{tsi prestes a irem ao prelo. Por
ora veja-se M. )lenéndez Pelayo, Bartolomé Torres Naltarro y 8U
Propaládia, Madrid 1900. Aí se demonstra que a nova forma, in-
.. ventada pelo dramaturgo espanhol em 1512, ou pouco depois, foi
imitada por Gil Vicente, no ano de 1527, em dois Autos diversos.
l\Ias não há referência ao Alexo; nem se pondera se porventura
êle é anterior ao Auto da Feira e à Hi8toria de Deus.
3
34
de V ergílio e Teócrito j. Novo era tamb&m, relativamente
embora, o artifício do leixa-prem, que Miranda emprega.
em algumas estâncias. A repetição do último verso de
uma estrofe como primeiro da imediata era moda de origem
popular, como a do canto alternado, adoptada pelos tro-
vadores provençais e pelos seus antigos sequazes, incluindo-
os esquecida contudo, de 1300 em
diante, e reno-vada (em 15fJO e tantos) pelo bom velho
Sannazzaro, isto é, pelo V ergílio neo-latino, cujas Bucólicas
o nosso poeta conhecera na viagem
3
, admirava, enaltecia
e imitava.
Na segunda tentativa, Los guisados de Amor aon cora-
çones, apresenta, de caso pensado, verdadeiras Oitavas à
italiana ( abababcc) : as precursoras primeiras das ·estâncias-
maravilhosas dos Lusíadas.
A Epístola-Dedicatória compõe-se tambem de Oitavas
típicas à italiana. :!\Ias essa não é das primeiras amostras
da arte nova, como logo hei-de mostrar.
Alêm das trfs que apontei, há no caderno tmncado
mais uma- novidade transitoria. Em português. É a Se:x-
tina, Não posso tornar os olhos. O próprio autor explica
neste caso que a fez à maneira italiana, mas na
medida
4

O complicado processo, tambêm provençal,.
realizado magistralmente e amiude pelos corifeus do doce-
1 Nas Églogas 111 e vn Vergílio imitava Teócrito (ldiliosvevm),
o qual, pela sua vez, havia nobilitado um costume j)Opular dos.
da Sicília. Costume que tambêm vigorava, aparentemente,.
entre os pastores da Lusitânia (Portugal e -Galiza).
2 Vid. C. M. de Vasconcellos, O Caneioneiro da .A.juda, vol. n,.
pp. 455, 530, 399,904, 925.
!I As traduções castelhanas são muito posteriores. De 1547.
4 Estas palavras são de J; ,a rubrica de D está deturpada_
Vid. Poe3ia3, }>· 58.
estilo novo
1
, consiste (como todos sal)('m) em co]oC"ar os
mesmos seis nomes, indicativos das idéias duminantc·s, nu
tim dos sf•is versos de cada uma das seis estrofes de que
consta; mas por engenhosa derivação do sentido, em
ordem sempre diversa. O conjunto termina com um re-
mate de trPs versos, que tamLêm acabam com três dêsses
vocábulos, livremente escolhidos t. O aprêço que :Miranda
dava a essa forma, por ser «de grande maestria», muito
superior, do ponto de vista técnico, às quadras e trovas,
conhece-se bem na nota com que a acompanhou no Can-
cioneiro destinado ao Príncipe: Esta composição das Seis-
tinas é a de mais artificio de quantas ern Italia se usam, e
pois que tudo ha de ·ir
3
• Entendo: por êste motivo ponho-a
(ou eleve ir) no fim de todas as composições líricas, me-
Chave de ouro da abóbada gótica das Redondilhas
medievais 5.
VIII
O contéúdo do C'aderno N - canções curtas de amor e
melancolia, em metro nacional, que constituem a primeira
1 Dante, Petrarca e todos os Petrarquistas dos países românicos.
Em Portugal temos Sextinas de Luís de Camões, Diogo Bernárdez,
Falcão de Resende, Gonçalo Coutinho, é outros. Em geral nos
Quinhentistas clássicos. A de Miranda parece-me ser a melhor de
todas; exemplar quanto à forma e quanto ao sentido.
2 Na Sextina de que trato, essas pseudo-rimas são olho3, razão,
vontade, costume, lei, fô,ça. Dessa ordem, que é fundamental, elas
passam a ocupar os lugares 6-1, 5-2, 4-3; depois 3-6, 4-1, 2-5;
5-3, 2-6, 1-4; 4-5, 1-3, 6-3; 2-4, 6-5, 3-1; 3, 4, 2.
3 Poesias, p. 60.
4 Apesar disso, seguem-se-lhe três Chistu (omitidos talvez an-
teriormente, por descuido).
5
Em B a Sextina está tambêm entre os metros italianos
dum lado e o ramilhete de versos peninsulares pelo outro.
i36
fase da actividade literária de Miranda, de 151G
1
a 1521',
e a Égloga Alexo da segunda época palaciana, de 1526
a lf>i34 a, e dentro dessa sua estreia de arte nova alguns
trechos de grande ingenuidade- esse conteúdo ' levou
Delfim Guimarães, escritor único que antes de mim se
ocupou do assunto, a tratá-lo de cronológicamente tempo-
rão, e as redacções dos textos de primitivas ; ou de meros
rascunhos, por das numerosas emendas.
1 Ou: antes de 1516, ano da publicação do Cancioneiro Geral,
em que há treze composições do Doutor Francisco de Sá.
2 No segundo e terceiro período escreveu só excepcionalmente
(por convite de poetas áulicos) Cantigas, Vilancetes e Endechai
como &e naquele tempo costumava, ou ao costume d'aquelell tempos,
segundo dizeres retrospectivos, que empregou de 1550 em diante.
Vid. Poesia&, p. 7.
3 A data 1526 para o regresso de :Miranda da sua viagem de
arte, inferida apenas da fórmula no tempo de Hespanhoes e de
Franceses, estriba-se em não haver entre as suas obras à italiana
nenhuma com indícios de ser anterior a essa data. A ser verdadeira,
seria provável que, voltando por Sevilha e Granada, assistisse às
festas do casamento de Carlos V com D. Isabel de Portugal, encon-
trando-se aí de novo com duas damas que venerava: D. Isabel
Freire e D. Mascarenhas. É possível tomasse parte, nos
jardins do Generalife, nas conversas fecundas do embaixador Na-
vagero com Boscan e Garcilaso. Devo confessar todavia que, desde
que se descobriu o documento relativo à nomeação de Bernardim
Ribeiro para. escrivão da câmara de D. João III, fiquei a duvidar
se a data válida para o poeta da Menina e Moça, 1524, o seria
tambêm para Sá de Miranda. Três anos nos parece pouco, só se
os compararmos com os nove que Francisco de Holanda se demo-
rou no estrangeiro. Ainda assim, a dí1vida não se transformou f'm
convicção, por não haver prova alguma de que os dois amigos fizes-
sem juntos toda a sua peregrinação.
4 Por junto 11 composições da Primeira Parte (24, 28, 30, 38,
50, 53, 55, 68, 70, 74); 1 da Segunda (102); e 4 da Quarta (133, 136,
145, 169, 190); isto é, de Poesias que Miranda não mandara ao
Príncipe.
B7

Esta interpretação é todavia enc)nea. Do confronto
minucioso dos t e ~ t o s (corpo e emendas) com os das res-
tantes colecções resulta, pelo contrário, que essa ingenui-
dade é uma feliz maneira artística de caracterizar a índole
do portuguesíssimo zagal- doido de amor sem saber dP
quem- t, que é o protagonista da }:gloga. E resulta tambêm
que há no caderno uma composição posterior não só às
que o I>oeta mandara ao Príncipe, e às que entraram nas
:Miscelâneas E e F, mas tambêm às que do cartapácio
famigerado de Salvaterra foram extraídas por D. Jerónimo
de Castro e serviram de base à impressão de 15D5 .
. Jà falei das poesias do último período, frutos que de-
vemos não só ao trato prolongado e intenso com as 1\'Iusas
durante a revisão das obras com que resolvera sair à
praça, instigado pelo herdeiro da coroa, mas tambêm ao
entusiasmo que estas revelações despertaram na côrte,
levando os melhores engenhos a glorificar Miranda em
homenagens que exigiam resposta.
Referi-me à Carta gentil a Jorge de 1\'Iontemor, anterior
seguramente à desgraça que depois de 18 de Abril de
1553 envolveu o espírito do Poeta em nevoa g1·ossa. Falei
da outra a António Ferreira, que tentara consolá-lo da
dô1· ·recente (impressas ambas em A e B); do Soneto à
mulher profundamente abalada (e que existe únicamente
em J); da Elegia sôbre a morte de D. João, que é ex-
clusivo de B, como igualmente são os Sonetos inspirados
pelo rápido definhar de D. Briolanja.
I Não resisto ao prazer de lembrar o fino epigrama castelhano,
sôbre o Português muerto de puro amor:
A un Português que lloraba
preguntaron ia ocasion;
respondió que el cora•mt
y que enamorado estaba, etc.
38
De passagem mencionei a Epístola-Dedicatcjria, ante-
püsta ao Alexo em J e B; e que tambêm existe em N
1

Pelo assunto de que trata, é impossível fôsse escrita
antes do verão de 1553. )luito mais provável é contudo
ser de 1554 (ou mesmo de 1555); quando a acerba dor
que Miranda experimentara com a perda do filho, morto
em Ceuta às lançadas ·Mouros, e o profundo desânimo
causado em todo o país pelo falecimento do Príncipe, seu
:Mecenas, já haviam sido acalmados pela acção niveladora
do tempo, de modo tal que podia serenamente tomar parte
na alegria do amigo e vizinho, cujo primogénito escapara
quási milagrosamente do desbarato no monte da Condessa
de Ceuta, um só de trezentos moços-fidalgos que serviam
Comendas na ... Á.frica 2. Uma alusão curta ao •milagre•,
que já reconduzira
3
à cidade do Pôrto (onde Ferreira
então se achava) o jovem João Rodríguez Pereira
-um só que em sangue aberta traz a cruz
branca por armas-
perfaz o remate da Carta a Ferreira"· O mesmo milagre
é assunto ou motivo principal da Epístola-Dedicatória,
que l\iiranda destinava a ser recitada no dia festivo com
que celebravam o seu regresso à casa paterna em Cabe-
l Vid. Poesias, 1!.
0
145. Por ser de metrificação diversa, crono-
muito posterior à redacção primt·ira da É9loga, e não
se encontrar no códice D, tive de lhe dar numeração própriamente
sua.-Cfr. n.o 152: Epístola Dedicatória a João Rodríguez de Sá
e Meneses.
2
A peleja desastrosa deu brado, porque nela pereceram muitos
dos rapazes nobres que haviam tomado parte no Torneio de Xa-
bregas. Entre êles o predilecto de Camões, D. António de Noronha.
3 Fora de tempo, se a Epístola fôr de 155-t. Em regra, os que
((serviam uma comenda» na África ficavam lá dois anos; quatro,
se eram degradados por qualquer delito.
4 Poesias, n.
0
vid. v. 112.
-ceiras de Basto, como prt·lúdio da representação do . A l e ~ o
(refundido). É justo portanto inferirmos que essa.s dua.s
-composições são coevas, ou quási: a Df'dicatrJria um tanto
posterior à Ca'rta. Em todo o caso, ela ohriga-nos a colocar
o autógrafo nos últimos cinco anos da vida do solitário da
Tapada.
*
Entre as poesias líricas menores, todas as que faltam
na colecção tripartida merecem especial at-':!nção t, con-
-quanto não possam ministrar elementos cronológicos tam
positivos. A Tabela D mostra quais são as que tenho em
mente: o Vilancete da 11/enina je1·mosa, inédito até eu o
haver extraído em 1885 do Cancioneiro de Jnromenha ;
a Trova de Amor e E'm·tuna, tambêm desconhecida até
eu ter manuseado a .:\liscelânea eborense; a triste Cantiga
De quem me devo queixar; e a Endecha Quien viesse aquel
-dia.
O caderno N_, que autentica o Vilancete e a Trova_,'
revela-nos com relação a esta uma importante notícia.
Segundo a epígrafe, ela é uma Estamça tirada de uma
sua Tragédia intitulada Cleopatra, que anda assi por fúra •
. Que perda tamanha a dêsse drama históri(!o, que seria
·O primeiro da literatura portuguesa, anterior à Inês de
Castro de Ferreira, e, quanto ao assunto, precursor de
Shakespeare
3
• Que perda tamanha !
Pode ser que tudo. isso seja do último quinquénio tor-
mentoso da vida do Poeta. A Endecha -verdadeira
1 Tudo quanto falta em D é significativo. Pelo contrário, o que
falta em J e N nada prova, visto ambos estarem truncados.
2 Das variantes tenho de tratar no capítulo seguinte.
3 Facto ignorado por todos, mesmo pelo autor da Vida, pois lá.
:ite fala apenas das duas Comédia& em prosa, impressas em 1559 e
1561, mercê do Infante-Cardeal D. Henrique.
,
40
Canção de amor à Morte- podia mesmo ser o seu canto
de cisne
1
• A inexplicada omissão de diversas poesias em
todas as colecções não nos permite todavia conclusões

Da coordenação não se podem deduzir conclusões algu-
mas. No estado actual do caderno não há meio de apurar
se os Vilancetcs e as Cantigas ocupariam o primeiro lugar
como na colecção tripartida e em J (em harmonia com a
evolução poética de Sá de )[iranda, pois tinham sido a
sua estreia nos Serões Manuelinos), ou o derradeiro lugar,
como nas duas impressões
3
antigas; nem tam pouco para
determinar com acêrto a sucessão dos quatro grupos de
fôlhas em que estão.
É muito possível que N se parecesse, quando completo,
com J (e nesta particularidade tambêm com D).
mesmo se assim fôsse -tendo nós portanto de conceder
o lugar da frente à fôlha que contêm os n. os 26, 28, 30,
38 da minha edição ; o segundo, aos n. os_ 5-!, 50, 53, õõ;
, o terceiro aos n.
08
68, 70, 133; e o quarto aos n.
01
136,
7-!, 169, 190- a ordem das poesias se conservava diversa,
sensivelmente afastada da estabelecida em como se vê
da numeração; e algo diferente da observada em pois
aí as poesias correspondentes
4
estão nas fôlhas 4, 2, 3;
9, 10; 14_; 15; 18, 20, 19.
t Talvez estivesse em alguma àas fôlhas àe J que se peràeram.
Talvez-porque, apesar da; granàe semelhança de N e J, há ainda
assim bastantes divergências, como se verá.
2 Completando o que apontei mais acima, lembrarei que as cinco
composições àe l\Iiranàa, que figuram no Cancioneiro Geral (fi. 109
e 110) e faltam em todas as colecções, são os n.
08
128-132 da minha
eàição.
3
Os eàitores, danào importância maior às obras à maneira ita-
liana, proceàeriam à transmutação àos Livros, separados por fôlhas
brancas, àe que se compunha o Cartapácio de Salvaterra. .
4 N.
08
24 e 169 faltam em J.
41
l'or isso não alterei a ordem das reproduções fotográ-
ficas, às Hedondilhas.
IX
Continuando com o confronto dos textos, na esperança
df' ver confirmado o resultado, que colhi, e de talvez se
apurarem mais alguns factos cronológicos, a fim de definir
mais de perto o grau parentesco e a autenticidade dos
diversos manuscritos, passo redacções das peças prin-
cipais.
A Epistola-Dedicató,ria compõe-se de cinco Oitavas,
em N, e de seis em J e B. Na estância primeira há no
autógrafo um verso que é privativo dêle; de difícil inter-
pretação por ser alusão pessoal. Logo após os três versos
iniciais, que já citei no capítulo vn, o Poeta (ou o per-
sonagem incumbido da recitação do Prólogo em nome do
Poeta) continua com relação aos pastores:
demandando su puerto principal
van--que sois vós. De nuevo quieren veros
dei Conde don Emundo el memorial.
Como mais minuciosamente conto expor nas Anotações
ao texto, há aqui referência a um vetusto acontecimento
familial, a que de qualquer forma estava ligado o Conde
de Cambridge, Don Edmundo, príncipe inglês e chefe dos
que em 1381, na guerra contra Espanha, combateram a
favor de Portugal: qualquer acção heróica de um bisdono
de D. António Pereira, o MarTamaque. Acção, a respeito
da qual existia um memorial, outorgado por aquele Conde.
Considerado como monumento e título de glória dos Pe-
reiras de Basto, o chefe da casa só o mostrava aos intimos
em ocasiões solenes, como prémio a novos feitos heróicos.
Estando em festa a casa toda no regresso do primogénito
de D. António, que escapara ao desbarato fatal no :l\Ionte
42
da Condessa, é que ::\[iranda envia ao amigo a refundição
de uma evidentemente para que, de antemão
estudada, fússe representada por amigos e parentes
1

Essa alusão, homenagem delicada, comprensível só aos
íntimos, era misteriosa para os alheios e indiferentes. Por
isso, creio, seria eliminada nas c,)pia.s alteradas depois de
1553, que )liranda destinava quer ao público em geral,
quer à Alteza visada no Cancioneiro de Juromenha.
Eis a redacção contida em J (com variantes insignifi-
cantes em B). A emenda anúdina que a ver os vengan en
todas maneras é comum a ambos :
Estas nuestras sampoilas, las prirneras
que por aqui cantaron (a) bien ó mal
como pudieron (b), rimas estrangeras,
envia-os-las (c) el nuestro mayoral
que a ver os vengan de todas maneras,
que de mas (d) de ser el dia festival2
supo por ser venido el mayor hijo
que anda toda esta casa en regozijo.
[B (a) cantaran-(b) pudiel'an-(c) envialas-(d) a
Nas Oitavas que se lhe seguem, as alusões pessoais,
relativas aos filhos do Marramaque, são, pelo- contrário,
1 Não creio que o Alexo fura positivamente dedicado a António
Pereira logo na primeira elaboração. A Dedicatória falta em DE F
e A, e a fórmula el vuestro Alexo ocorre exclusivamente em J. Certo
é, por outro lado, que não sabemos de qualquer destinatário di-
verso. Na estreia, quando o Alexo foi pela primeira vez represen-
t.ado na côrte, entre 1527 e 1534, tabez em 1532, não tinha Dedi-
catória. alguma: a grande novidade era destinada à parte culta
da nação, a todos quantos na côrte, ou fora dela, se preocupavam
com problemas de arte. Vejam-se as Anotações finais.
2 L"m dia que era de festa para todo o mundo (Xatal? Páscoa?
S. João?) fura escolhido para celebração ão regres5o de João Ro-
dríguez Pereira dos campos africanos.
mais exactas em .J e 11 do que em N. A meu ver;porque
só posteriormente ao dia festivo o Poeta foi informado
dos pormenores não s(, do milagre de (
1
enta, mas tamhêm
e principalmente da vitória contra os Turcos de Ormuz,
em que tomara parte preponderante ] >. Gonçalo Pereira,
filho segundo de .Ant•jnio. Se a princípio (em N) chamava
ao protagonista <lo sucesso africano tan euerdo capitan,
tan moço d'aiios, referindo-se ao filho segundo apenas com
as palavras não menos vagas
bolved los ojos ai hijo segundo,
vereis vuestros Froais.dar vuelta ai mundo,
porque apenas sabia que êle, para ganhar as esporas de
cavaleiro, fôra às Indias Orientais e lá batalhava, intro-
duziu nas duas refundições posteriores indicações mais
.explícitas. No Cancioneiro de .J uromenha diz:
Tornó (a) quien esa casa ha de heredar,
tan grande capitan, tan moço de anos (b).
Los Turcos vencedores por el.mundo
peleando venció el hijo segundo.
Del qual caso espantoso dicho sea
solamente de una ave que iba a vuelo
mientras que ardia la fiera ptlea (c)
sin resguardo de daiio y sin recelo ( d)
acá ni allá no vista tal ralea (e)
todo agua, todo fuego, y todo cielo
Seas el buen venido (/), hermoso aguero!
tornan (g) nuestros milagros de primero.
[B (a) bolvio-(b).en tiernos aiios-(c) acá y aliá por la mortal pelea- (d) sin
tenl:'r de algun mal algnn receio- (e} no siendo nunca vista tal relea-lf) Seaf' pues
bico venido-(g) buelvan].
Gramaticalmente devemos referir a oração, relativa ao
milagre,' ao filho segundo sem hesitar. A historiografia
não regista todavia nenhum milagre de Ormuz t. E no
1
" Couto, Década VI, li no x, cap. xvx. -Andrade, Crónica de
D. João III, parte IV, cap. cu. ·
44
que aconteceu no solo africano -o estandarte guião da
companhia salvo no bôlso da faltriqueira de .João Hodríguez
Pereira- não ent.rou, que eu saiba, nenhuma Ave-fenix •.
Vom relação aos positivos feitos, poéticamente enaltecidos
nas Oitavas da Epístola, não faltam porem datas exactas.
O primeiro deu-se a 18 de Abril de 15f>3, e o segundo em
Hetembro do mesmo ano. Ignoro se .João Rodríguez só
voltou ao cabo dos dois anos obrigaMrios para quantos
serviam uma Comenda i, ou se, por causa do milagre, teve
licença de adiantar o regresso à patria e aos penates. E
ignoro igualmente se as primeiras cartas, relativas ão su-
cesso de Ormuz, viriam logo em lf>õ4 com a primeira
monção favorável
3
, chegando a Lisboa na primavera de
1555. Restrinjo-me por isso ao resultado que a redacção
contida em N é anterior" à de J e B.
Na Trova da Menina fermosa, caracterizada como po-
pular pela epígrafe de cantar de moças, as relações de
dependência de J da colecção N são ainda mais flagrantes.
O poeta escrevera originAriamente:
Em pago de tal vontade
que vistes e espirmentastes,
de todo assi m'os quebrastes
sem algüa piedade.
1
Vid. Storck, Camões,§ 116; Faria e Sou8a, Rima& de Camõea,
1, 34.•, e África, passim; as8im como C. M. de Vasconcellos, Pouias
ele Sá de Jliranda, pp. 739, 847, 851, e Zeitschrift, vn, p. 497.
2 Neste caso o regresso e os festejos em Cabeceiras de Basto
cairiam no verão de 1555.
3 Das naus de 1553 -ano da partida de Camões- a ·s. Bento
perdeu-se na costa do Natal vindo para o reino; a Santo António
queimou-se estando à. carga; duas caravelas arribaram (entre elas
a A.<Jcensão ou Santa Cruz); a Loreto (ou Roaário), que invernou
em Moçambique, ultimou a torna-viagem a 24 de Maio de 1556.
Outras naus podem todavia haver levado as notícias.
45
l>rpois riscou essa redacção e substituiu-a pela t.ieguinte:
Em pago <Insta verdade
<JHC estrauhais _porque n(ão] rso Usa],
quebrais-mos; a [alma confusa]
não sabe mudar vontade.
E assim mesmo est<i, limpa e lisa, no Cancioneiro de
Juromenha, embora com erros de copista te com algumas
leves introduzidas provávelmente no acto de
o I>oeta _passar os versos a outro cartapácio
3

Na saiulosa Endecha Quien viesse aquel dia, o texto
quási igual de J e N parece ser, de facto, rascunho pri-
meiro, mas muito belo, ao passo que em A e B temos
redacção ainda melhorada. Em J falta a quadra:
Vistes esperanças,
vientos, vicntos, vientús!
Quantas de mudanças!
quantos de tormentos!
Não sei se de propósito ou por descuido do copista.-Na
última escrevera:
A la suerte mia
pluguiesse, pluguiesse
que veniesse un dia
que otro no siguiesse!
Finalmente riscou as últimas duas palavras e substituiu-as
por müs no viesse. E assim mesmo se lê em J 4.
t Quebrais mas é lapso de copista.
2 Quebrar, em vez de mudar. No verso 17 está: cruel sois cada
vez mais; no 20.
0
ou de que? d'alma que vive (preferível à lição
deturpada que imprimi a p. 599 das Poesias); no 21.
0
por vossa.
3 Não ao volume do Visconde de J uromenha, pois é apógnfo,
mas sim ao original, de que aquele se extraiu posteriormente.
4 Ai-na, em vez de aina, (. lapso de copista. Lusismo (influxo de
asinha. a!Jinlta). O mesmo vale de viesse, em vez de viniese.
4G
A Sextina é igual em a m b o ~ , muito diversa de DA B,
quási uma composição nova, depurada, sem ter perdido
o car·ácter original austero e sentencioso que o distingue.
Só na pénúltima parcela há emendas. O poeta dissera no
princípio:
Erguidas contra ·a rezão.
Não satisfeito corrigiu t:
A la fé, dorme ha rezão,
adormentava ho costume.
1\lenos contente ainda, cancelou em seguida as primeiras
palavras dos dois versos, emendando :
[Não s Jey que faz ha rezão;
desatinou ho costume.
E a:;sim está no Cancioneiro de Juromenha !.
Para findar tratarei do passo que ministrou a Delfim
Guimarães os elementos para a sua concepção errónea
acêrca do carácter primordial do autógrafo. É uma das
apaixonadas quadras de amor, de forma popular, que o
zagal Alexo, doido de amor, entoa em solilóquio, e que
os companheiros, meio-escondidos, escutam e acompanham
de comentários, cheios de piedade e de entusiasmo.
A redacção que afinal prevaleceu em N, tem o teor
seguinte:
Estes ojos tan sandios
que me solian ser buenos,
otros eran quando mios,
otros quando 60n agenos.
1 Esta correcção é uma dM que o próprio poeta classificou de
más ao confessar que emendando danava muitas vezes.
2 No último verso da. estrofe 6.• (Poe1r,:as, p. 684), lnU é êrro de
impressão por seus.
47
O verso segundo é ac·ompanhado da variante aun,'l'Je nunca
fueron lmenos, teor que passou posteriormente, melhorado
ainda, para o original de J, pois diz :
Aunquc nunca fueron bw·nos
estos mis ojos áandios,
otros eran quando mios,
otros quan!lo son agenos t.
Antes de chegar a essa forma, o Poeta tentara todavia
várias outras, de ingenuidade tão excessiva, no sentir do
próprio, que não as inseriu em mais nenhum traslado.
Primeiramente escrevera:
Seanme todos testigos:
soy un coytado zagal
que nunca hizo á nadie mal;
hanme cercado enemigos.
Depois alterou os versos do meio, pondo:
nunqa a moços ni a viejos
hize mal; soy zagalejo.
Não satisfeito, cancelou-os de novo e arrependido voltou
à redacção inicial, modificando-a um pouco:
soy me un simple zagal
ou:
soy me tan simple zagal
que nunca hize a nadie mal.
Quanto ao último verso, substituiu-o depois por tengo cien
mil enemigos, exagêro que reprovou, reintegrando hanme
cercado enemigos. Finalmente riscou tudo., decididamente,
lançando então a quadra Estos ojos, que trasladei.
1 Talvez: otros son quando age:nos f
48
Creio que estas amostras, que podia multiplicar, serão
prova suficiente de que J, posterior a N, é, de ·todos os
manuscritos devassados até hoje, o 'fUe tem maiores se-
melhanças com o caderno da Biblioteca Nacional - o
manuscrito portanto cujos textos já classifiquei em 1885
de refundições muito formosas das redacções limadas e
polidas entre 1550 e 1551 para o Príncipe D. João.
Ainda assim há no Alexo t numerosos trechos em que
J se afasta de N, e Nora se aproxima de D, ora de A,
ora de B ~ , ora fica totalmente isolada. Privativa dêle
fcJra, por exemplo, a estrofe final da Égloga, pronunciada,
à maneira de epílogo, pela Ninfa da Ponte- digo fôra
(e não: é) porque o próprio )Iiranda tornou a riscá-Ia, re-
jeitando-a
3

Em vista dessas circunstâncias não me é possível de-
terminar com exactidão o grau de parentesco de todos os
manuscritos'·
Contento-me com o dito de Ovídio, tantas vezes apli-
cado aos idiomas neo-latinos :
facies non omnibus una
nec diversa tamen, qualem decet esse sororum.
1 E na Epístola Dedicatória.
2 Para dar ao leitor idéia aproximada das semelhanças e deti-
semelhanças das cinco redacções principais que possuímos do Alexo,
completo este capítulo juntando-lhe em Apêndice duas scenas: as
estrofes amebeias, cantadas por Antão e João Pastor, e o solilóquio
em quadras de Alexo.
3 Alêm disso, são-lhe particulares algumas epigrafes, como por
exemplo Espart;a ao Tempo.
4 Não me atrevo a simbolizar essas relações complicadas numa
árvore genealógica (como é costume entre os Romanistas). O melhor
será elaborar para a reedição das Poe3ia& tabela especial para
cada uma das composições maiores.
4U
Isto é: todos de quantos até agora sei, os recunlteço como
filhos legítimos do mesmo pm t, constantemente empenhado
em aperfeiçoar as obras que ia legar à posteridade-
embora alguns (F E) tivessem vida tam aventureira que
lhes deteriorou a pura fisionomia original.
X
Os exemplos típicos dos processos de 1.\Iiranda que dei
até aqui, trasladando algumas das lições que se acham
sobrepostas umas às outras no caderno inédito, autêntica-
ram completamente
2
, a meu ver, tanto o texto basilar
nele contido, como os retoques ulteriormente acrescentados,
porque grandes partes do texto e numerosas variantes se
reencontram em outros manuscritos e impressos do Poeta.
Sobretudo em J. .
Estabeleci que possuímos refundições" de originais· que
o pré•prio autor chama com respeito aos pri-
mordiais conservados em D
3
• E poderia h a ver notado
que mesmo nessa colecção dedicada ao Príncipe figuram
duas redacções diferentes do Basto, isto é, da mais signi-
ficativa e mais nacional das suas Églogas: a segunda com
a declaração expressa «que é a mesma que Francisco de
1 Com as excepções, naturalmente, que se dlo em todos os
apógrafos- deturpações involuntárias de copistas, que não per-
cebem o original. Das que notei no Cancioneiro de F. Denis e no
de .Juromenha podia hoje emendar diversas, à vista de N .
.2 Queira o leitor meter em linha de conta os passos importantes
que constituem o Apêndice complementar do capítulo xx.
:i Alêm dos que já. mencionei, apontarei ainda a refundição do
Soneto Amor tirando va (PoeJias, n.
0
138), que extraí do Cancioneiro
de .Juromenha (ibid., p. 734); e a de n.
0
60 (ibid., p. 681).
4
50
.Sá mandou a Nunu Alvm·ez Pereú·a, m,ts emendada em
muitas partes»
1

Sendo facto incontestável que )liranda fí'lra levado pelo
pedido do herdeiro da coroa a limar, polir e aperfeiçoar
com o máximo f'uidado, vagarosamente, as suas obras já
meio esquecidas,
encomendadas
á traça e ao pó da aldeia e sua rudeza,
entre teias de aranha sq,ultadas,
-é certo tambi::m que já muito antes êle documentado
.a mesma

o mesmo desejo de acertar, o mesmo
.talant de bien fere
3
, o respeito das regras hora-
·cianas : nonumque prematu.r in annum -- guardar durante
nove anos! e limae lahor et. mora- dar tempo e melhorar
-constantemente. Certo também que assim continuou até
·o fim dos se'us dias, retocando sempre de novo os versos
-encorporados no grande Livro-Razão, e modificando cada
·uma das cópias parciais ou integrais que Jêle extraía
para os interessados: reis, infantes, cortesãos, amigos e
,pessoas de família'·
1 Assim se lê no apógrafo pertencente a F. Denis. Êle contêm,
• ·eonforme expliquei mais acima, no fim algumas poesias alheias.
O n.
0
116, a que aqui me refiro, é todavia evidentemente obra
legítima de Miranda.
· 2 l\lesmo as obras da mociuade (cantigas, vilancetes e glosas,
·do período palaciano) foram por êle refeitas, como se pode verificar
!DOS n. o• 155 a 165 da minha edição.
3 Não me conformo com o pensar mesquinho do editor Domingos
Fernández c<que só o receio das invejas, murmurações e calúnias
·dos cortesãos o levaram a emendar constantemente as suas cria-
·ções,>.
4 Alêm dos manuscritos que subsistem e caracterizei no capí-
tulo vx, houve muitos outros. Sabemos, por exemplo, de papéis que
·existiam no século xvu em poder dos Condes de Penaguião, vindos
·do espólio dos seus antecessores, os Sás e )Ieneses, do Pôrto (Foz
·t1 l\Iatozinhos): o velho João Rodriguez, e seus filhos Francisco e
51
Conforme pitorescamente diz numa das poesias, êle as
lambia:
Como ussa os filhos mal proporcionados ...
Eu risço e risco, vou-me dt> ano c·m ano •..
Emendo muito, e cmcm]ando dano ...
Ando c'os meus papeis cm diferenças.
Estas e outr·as confissões, segredadas nos Sonetos ao
Príncipe e em respostas a dedicatórias de imitadores e
.adeptos, apresentadas como desculpa pelo longo tempo
que gastara em cumprir as ordens do novel }f ecenas, são
testemunhos suficientes da existência de refundições e
emendas.
As circunstâncias peculiares da actividade que exerceu
:reforçam-nos particularmente.
todos os três íntimos amigos e correligionários Poeta
·em assuntos de arte (vid. Poesias, pp. Lxnu e 731). Outros havia
no palacete da Condessa de Linhares, D. Beatriz de Sá, filha de
seu irmão de Sá (ibid., pp. Lxxv, LXXXIX e 729). D. Francisco
:Manuel de 1\Ielo, que tencionava conwntar o Poeta, como digo na
minha edição e repito neste estudo (vid. pp. cxxx1n e uxxiv);
D. Francisco de Portugal que cita aforismos de Miranda a cada
·pA.sso, em lições das que se conhecem; Manuel de Faria
·e Sousa, que faz o mesmo, guardavam autógrafos de 1\:liranda nas
·suas livrarias (vid. Lusíada3 Comentados, ed. 1683, vol. 1
7
p. 37),
No século xvxn achava-se um em posse do Cavaleiro de Oliveira
·com obras nunca impressas, segundo diz (vid. Mémoires, La Haie,
1743, vol. I, p. 389). Alêm dêsses, de que ficaram vestígios, quantos
-outros circulariam durante os primeiros sessf'nta anos da sugestão
mirandesca, de 1535 a 1595, entre os adeptos da Arte Nova! Todos
·quantos o enalteciam como duca signore e mae3tro- D. Manuel de
.Portugal, D. Simão da Silveira, Jorge da Silva, Montemor, Andrade
Caminha, Francisco de Andrade, Bernárdez, Falcão de Resende.
etc.- precisavam possuir e consultar textos autênticos das suas
Poesias. E mesmo depois do aparecimento das duas edições prín-
cipes, tão diversas, e das Sátiras (de 1626), a discussão acalorada
:a respeito da maior ou menor autenticidade dum texto ou outro
:texto, devia levar os criteriosos a recorrerem sempre de novo aos
.originais.
f>2
Como inovador de idéias e de formas, em duas língnas,
a nenhuma das quais era fácil adaptar as leis do gr.sto
italiano, Sá de l\Iiranda teve de lutar com dificuldades
enormes. Era preciso fixar, pelo exemplo, após longas
hesitações e experiências, os acentos obrigatórios do hen-
decassílabo e do septenário, a contagem poética das sílabas
gramaticais, o emprêgo da diérese e da elisão, o do hiato
e da cesura, o valor das nasais portuguesas, a admissi-
bilidade ou não-admissibilidade de rimas agudas
1

Quanto à essência (as idéias e sua exteriorização), o
firme propcjsito de evitar temas e fórmulas convencionais,
já gastas pelo uso de decénios, o desejo de ser novo e
culto, mas conciso e seivoso em tudo, a nobre ambição
de condensar o maior número possível de pensamentos,
originais ou derivados, no menor número possível de
palavras- tudo isso levou naturalmente o Reformador,
homem de alto e heróico entendimento, em cujo peito o santo
fogo ardia, a trabalhar com assiduidade, reiterando os
seus esforços de acertar antes de sair à praça i.
Nem devemos esquecer que, quando o Príncipe o per-
suadiu a finalmente entregar a sua obra ao prelo, sob a
sua égide tutelar, as Rimas suavíssimas de Garcilaso de
la Vega, juntamente com as dP- Boscan, já estavam diYul-
gadas. E (o que importa mais) em Portugal o sol luminoso
da lírica camoniana já ia culminando na côrte, aureolado
por uma pléiada brilhante de estrêlas de menor grandeza.
Discípulos todos êles de Miranda, mas discípulos que,
1 Vid. Poesias, p. :z:c1x sgs.
2 A protecção do Príncipe, que outro fim podia ter? E que outro
significado havemos de dar à frase sair c'i praça? Para exemplificar,
lembrarei que Jorge de Montemor, valido da Princesa D. Joana,
mais expedito do que Miranda, deu ao prelo logo em 1553 o seu
Cnncionei1·o que dedicava <caos Príncipes».
53
influídos pelos dic',scm·os qn<' no pais vizinhe haviam rea-
lizado a reforma, o ultrapassavam naturalmente, quanto
à musica e euritmia. <los versos e rotnndez e elegância ·a a
dição t.
Em teoria não é pois de admirar se, aWm de variantes
numerosíssimas, possuímos refundições completas de tan-
tas obras de Miranda; em especial das mais difíceis 2.
As duas tentativas prineipais de nacionalizar as Bucó-
licas clássicas de Teúcrito e Sannazzaro, transformando
a região de Entre-Douro-e-1\'Iinho numa nova Arcádia-
o Alexo (castelhano) e o Basto (português), em que tenta
aproveitar elementos folclóricos extraindo dêles a quinta-
essência de poesia que encerram, e enobrecer a dição
popular - ocuparam-no aparentemente durante três a
quatro lustros. Do Alexo há, pelo menos, cinco redacções;
do Basto doze, quatro das quais refundições
novas, ao passo que as outras são estádios de transição,
com variantes at1tênticas.
Como porêm, na realidade, há em Portugal como alhures
retoques apócrifos, modificações arbitrárias de copistas, lei-
tores e editores, dispostos a acomodar ao gôsto da maioria
do público do seu tempo textos que julgam imperfeitos
1 Os hendecassílabos dos primeiro8 adeptos (D. de Por-
tugal, Francisco de Sá e :Meneses) e mesmo os de Andrade Caminha
e António Ferreira, são duros e ásperos como os do :Mestre. Os de
Bernárdez e os castelhanos de l\Iontemor rivalizam em suavidade
com os de Garcilaso.
2 Canções, Sextinas, Églo_qas. Todavia ha tambêm redacções
diversas de Ca1·tas e, repito-o, mesmo de Glosas e Canti!JaS. A
Canção à Virgem e a Carta a D. João III (vid. Poesias, pp. Lxxxn
e 537) completam a lista das reelaborações principais de que pouco
a pouco fui dando conta neste estudo. Na nova edição que preparo
hei-de imprimi-las todas por inteiro, sciente de que o público por-
tuguês não gosta de recorrer a variantes sôltas.
54
e antiquados t, e como no caso de 1\liranda não faltou quem
tratasse de crenfeites espúrios de um peralvilho e enrama-
lhetado» as lições impressas por Domingos Fernández em
1614, cumpre-me descartar suspeitas tais a respeito das
emendas inscritas no caderno N com as seguintes reflexões.
Todas .as três eventualidades possíveis de falsificação-
estão excluídas: materialmente, porque a letra das emen-
das é do mesmo Quinhentista que traçou o texto basilar;:
espiritualmente, porque as mais incisivas revelam não só
a mão mas tambêm o engenho do poeta-filósofo, e mesmo
as mais superficiais apresentam-no empenhado na sua
laboriosidade reflexiva de inovador, na luta com as difi-
culdades que o material" lingUístico opunha à realização.
dos seus ideais.
De mais a mais não sei de nenhum letrado que cari-
nhosamente houvesse pensado a sério em publicar os versos
de :Miranda, antes ou depois de :Manuel de Lyra, de
combinação com D. Jerónimo de Castro, e Domingos
Fernández talvez com D. Gonçalo Coutinho (suposto autor
da Vida) e com :l\Iartim Gonçálvez da Câmara (autor do-
epitáfio), haverem publicado as edições de 15!)5 e 1614 .
Verdade é que D. Francisco :Manuel de l\Ielo tencionava
comentar as Ca'rtas de :Miranda; mas se êste homem,
«em tudo grande», houvesse resolvido realmente juntar
seus comentários a uma edição nova 3, com as redacções
do cartapácio antigo que possuía, não creio que teria
constituído eclécticamente o texto· fundamental, aformo-
1 Basta lembrar a actividade, muitas vezes benéfica e plausível,.
mas mais vezes arbitrária, de Faria e Sousa, com relação às Rimas
de Luís de Camões.
2 As relações mútuas dessas personagens podem ser documen-
tadas por meio de edições camoneanas.
l A Dedicatória da edição de 1651 é dêle, conforme indiquei
nas Poesias. Quanto aos textos, ela não se afasta todavia da im-
pressão de 1632 que, pela sua vez, é reprodução da de 1614.
scando-o ainda l'Om retoques da sua lavra. De resto- a
letra a,-:lc .não é a do caderno N
1
, e nesse não ha Cm·tas!
Quanto às emendas, que julgo autógrafas em globo, é
possível calc·ular em numerosos casos qual seria o motivo
da alteração 2. O Poeta elimina estrofes frouxas (como a
itltima do Alt·xo
3
); condensa duas em uma', a fim de tornar
a exteriorizaç:ão da sua idéia mais concisa e o nexo mais
J.(,gico. vomibulos arcaicos e plebeus por outros
palacianos, ou vice-versa onde trata de imitar a linguagem
rústica dos pastores. Risca, transfere ou introduz partículas
monossilábicas meramente expletivas, ora para melhorar
a música dos versos, ora para evitar equívocos (como
ya mas 5) ou cacofonias (como que o, cayo ya).
páginas, e só algumas composições curtas estão
completamentf· livres de emendas - o que não quer dizer
que essas sejam cópia inalterada de D ou de qualquer
redacção anterior; mas apen_as que a faina do polimento
já estava terminada antes de o Poeta as trasladar para o
Caderno N.
4-.o todo registei e numerei cento e tantos retoques 6,
alguns em tripla ou quadrupla, como já mostrei.
1 Vid. A1·cltivo Histórico Portuguez, vol. vn.
2
Claro que não me ponho a conjecturar por que motivo )liranda
daria ao zagal Alexo ora a idade de dezassete anos (A B F); ora
a de dezoito (N); ora a de dezanove (D E).
3 E tambêm a 34.• de D.
4 A estrofe 37.• e 38.a de D corresponde à 35.• de Y; à 55.• e
56.• daquela redacção a 52.• de N.
5
:Mais duma vez êle separa na emenda, por meio de partícu]as,
ya mas (quando não equivale a nunca).
6
Numerei de 1 a 116 apenas os que são realmente variantes,
deixando fora da contagem meras rectificações gráficas de lapsos.
Todas se querem lidas com critério. Já disse que mais duma vez
aconteceu ao Poeta riscar letras de mais ou de menos. Querendo
transformar, por exemplo, muerome cm nmrjiendo saiu-lhe muerjiendo,
porque lhe esqueceu substituir ue por u. .·
56
XI
E a assinatura do Poeta?
Não precisamos dela para autenticar o caderno, mas
todos os admiradores do estóico de «antes quebrar que
torcer» gostarão de certo de que afoitamente podemos
juntar ao seu retrato a de sa (?u sãa) de mjrda.
Creio que poderemos realizar êste desejo sem receio
de porque, conquanto a assinatura não exista no
caderno-borrão t (falho no princípio e no fim), como au-
tenticadora das poesias todas nele contidas, ela aí está,
como classificadora de duas Voltas de )lotes alheios que
:Miranda escreveu em ajuda de amigos, a fim de elas
brindar qualquer dama gentil da côrte.
A primeira vez o nome frco de Sa de mjrda encima as
variações da melancólica endecha de amor à :Morte Quien
viesse aquel dia, a que já tive de referir-me repetidamente.
A epígrafe geral A este cantm· velho a que ajudaram muitos,
ao alto duma página i, está contudo tam cerceada que
só a decifra quem já a sabe de cor, por a ter lido no
Cancioneiro de J uromenha, ou na minha reprodução
3

À segunda vez o nome, precedido do verbo ajudou,
está
4
por baixo de três versos, a -respeito dos quais
1 Por ora não se descobriu em documento algum. Nem mesmo
no recibo da cota que do rendimento das suas duas comendas o
Poeta tinha de pagar para as obras do convento de Cristo de Tomar,
documento publicado por Sousa Viterbo com as preciosas cartas de
legitimação de Os fil/tos do Conego Gonçalo .Jllendes, que êsse bene-
mérito investigador descobrira na Tôrre do Tombo (Coimbra 1895).
2 P. 31, fotografia 23.
3 Vid. Poesf,as, n.
0
136, pp. 447 e 733. Alêm da rubrica geral há
ainda no Cancioneiro de Juromenha o acrescento .Ajuda de Frco
de Sá de Miranda.
4 P. 25, fotografia 27. -
õ7
Delfim Ouimarães dizia o seguinte quando, jubiloso, me
dava conta do achado da. assinatura:
c Numa página, após os versos
Secosse el valle sombrio
con la tu triste partida,
zagala desconoçida,
encontra-se escrito na própria letra do códice a palavra
aJudou; e logo depois a assinatura .•. Esta palavra ajudou,
intriga-me bastante, mas é natural que para V. Ex.a não
constitua enigma».
Na volta do correio respondi que ajudou se relaciona
com a estrofe imediata, e não com a antecedente, que
é de Sá de :Meneses, e apontei a composição n.
0
68 da
minha edição, por ser a própria do manuscrito
1
, assim
como mais algumas, do mesmo tipo
2
, compostas dum
tema (cabeça de mote), da paráfrase dum primeiro glosador
3
ou trovador 4, e duma ajuda ou varias ajudas doutros
vates
5
• Em poucas palavras expliquei que em todas se
t Vid. Poesias, pp. 53 e 682.
2 Ibid., n.
0
51 (pp. 39 e 680 sgs.); 56 (p. 681); 58, 71, 135 (pp. 733);
136 e 137 (p. 734).
3 Origináriamente não se distinguiam com rigor Glosa (ou
Grosa), Trova e rolta. No Cancionei1·o Geral chamam muitas vezes
Grosa o que os Quinhentistas denominavam Volta. Vejam vol. III,
337, 351, 352, 448, 470, 471; II, 207; I, 134. O opítsculo de \V. Storck,
Glosas und Voltas des Luis de Camoens, 1877, do qual Leite de
Vasconcellos se ocupou proficientemente no belo volume que de-
dicou à memoria do grande Lusitanófilo (O Doutor Storck e a
Litteratura Portuguesa, Lisboa 1910), não contêm, de modo algum,
materiais suficientes para solução do problema.
4 Temos Trovas a este Vilancete no vol. III, 599, 635, 637; Tro1;a •
a este Moto, III, 423.
" Ibid., I, 29 (ajudmulo o sospirar); 252, 253,470, 471 (ajuda);
II, 154; III, 52, 76, 95, 163, 441 (pede ajuda); 441, 460, 557. Nos
Cancioneiros, manuscritos e impressos, do século XVI faltam amiude
as ajudas dos colaboradores, pelo motivo justificado Je êles desco-
nhecerem as composições dos colegas.

tratava de empresas galantes como o louvor duma dama
1
muito em voga, tanto entre os Quatrocentistas (reinados
de Afonso Y e D . .João II), como entre os Quinhentistas,
nos afamados Serões de D. e ainda nos de
D. João III e D. Sebastião.
Qualquer cavaleiro-fidalgo, namorado e poeta- e qual
dos mancebos nobres do período áureo da literatura não
sabia versejar?- enviava um JJioto!! significativo à dama
cujo servidor era, Moto ora inventado ad hoc.? ora escolhido
no vasto repertório musical que a nação inteira sabia de
cor: provérbio ou sentença proverbial dum só verso; can-
tar velho, de dois; vilancete, de tres; cantiga.? de quatro;
ou parcela duma composição maior.
A dama, autorizada em nome da rainha, por um aceno-
da lia então em voz alta o tema superior-
mente aprovado, e passava-o transcrito aos trovadores que
desejava distinguir, incitando-os a explicar a «tenção», a
dar o «entendimento», isto é, a glosá-lo. O servidor princi-
pal improvisava logo, se era repentista, ou apresentava e
recitava ou lia, em outro Serão
3
, o seu comentário mais ou
menos espiritoso (a «explicação de alma», como se dizia no
século XYII
4
), conforme convinha à sua pretensão, convi-
dando os amigos a secundá-lo, cada um com uma ajuda,
t Uma parte do Cancioneiro Geral compõe-se de tais Lourores-
ou Receios de louvar.
2 Muito de propósito digo Moto, e não 11/ote, porque tal era o-
nome que os antigos davam aos versos que serviam de tema a
Glosas e roltas. Oportunamente hei-de esboçar a história dos dois
vocábulos, que não é tarn simples como parece. Por ora baste dizer
que o próprio Sá de !\Iiranda se serve de .Moto nos versos muito cita-
dos sôbre os Serões (serãos, seraos,_ saraos) de D. (n.
0
109,.
v. 126-132); e que mote (motejar, motejador, etc.) designava versos on
ditos de escúrnio e maldizer (sátiras, picuinhas, picardias, etc.).
3
Cancioneiro Ge1·al, 111
7
265: vossas trovas forltm lidas: n,
mande Vossa .1.:1/ercê ler.
4 Arte de Galantan·a, de D. Francisco de Portugal.
on com várias. Quantos mais acudiam a socorrê-lo, tanto·
mais satisfeita ficava a dama e o empresário •, mesmo
quando havia verdadeiros torneios poéticos, por alguêm se
leiJlbrar de o contradizer, defendf'lH.lo outra inte1·pretação.
As damas pela sua vez, que agradeciam tais homena-
gens pondo o ftlotu, isto é, colocando ostensivamente o
papel do galan entre as ondas do seu cabelo t ou encorpo-
rando-o no seu Cancioneiro de mão
3
, inventavam, propu-
nham e enviavam tambêm lriotos, a sério ou de zombaria.
Parece mesmo que no século xvesse costume predominava
4
e que tam belá liberdade só foi cerceada e quási abolida.
durante o regime, cada vez mais austero, de D. João III
e da Hainha D. Catarina, cujas praxes cerimoniáticas se
comunicaram à côrte do Senhor D. Duarte, filho do In-
fante D. Duarte e de D. Isabel de Bragança
5

1 Tanto no Cancioneiro Ge1·al como nos do século xv1
7
há empresas de louvor e de escárnio em que lemos trinta a qua-
renta vezes um mesmo estribilho banal; por exemplo: que ninguêm
era capaz de louvar condignamente certa dama ou certo feito.
Vejam Caminha, Poesias Inéditas, n.
08
301 (composição cujas estrofes
·43 a 45 são de Sá de l\Iiranda), 338 e 351 a 354.
2 Na cabeça, segundo Garcia de Resende. Vid. Cancioneiro Ge1·al
1
u, 118 e 119.
3
Escrevendo-o, segundo o mesmo Garcia. lbid., u, 176 e 502.
4 Temos exemplos no Cancioneiro Geral, x, 109, 331; u, 23, 64,
118, 310, 501, 502; xn, 317, 596, 611 e 615, sobrescritados !Jfoto
d'uma senhora.
5 As mais ilustres inspiradoras do tempo de Miranda e dos
)Iirandistas foram, até 1526, D. Leonor Mascarenhas e D. Isabel
Freire; e posteriormente D. Guiomar Henríquez, D. da
Silva, D. Guiomar Blaesfeldt, D. Caterina de Ataíde e D. Francisca
de· Aragão. (Vid. C. M. de Vasconcellos, Pero de Andrade Caminha,
p. 84). D. Leonor figura como poetisa nos versos de Miranda
(n.
0
51); D. Francisca nos de Camões. Antes de 1516 houve muitas.
Por exemplo: D. Lianor da Silva (a do Cuidar e sospirar, que veia:
ser a Bela mal-maridada); D. Bmnca Coutinho, D. Beatriz de Sá,
D. Guiomar de 1\f eneses, D. Beatriz de Vilhena, D. Joana de
.l\lendoza, O. Joana Manuel.
60
Solicitar ajudas de poetas ausentes, o que até 1516 fôra
rara excepção •, tornou-se então corrente, em benefício da
modai das Glosas e JT,Jltas, de modo tal que, alêm da alu-
vião de semsaborias pêcas e convencionais do Cancioneiro
de Uesende, sazonou nas mãos de :Miranda
3
, Hernárdez,
D. ::\Tanud de Portugal, Luís de Camões e Andrade Ca-
minha, frutos muito saborosos.
L"m dos mais perfeitos, se não o melhor de todos, é o
cantar velho, anónimo, Quien viesse aquel dia ', tam sua-
vemente musical, que não me admiraria se a pessoa que
o apontou aos vates palacianos e extra-palacianos, como
tema para variações, tivesse sido alguma dama de delicado
gôsto
5
• Alêm das seis quadras que êle inspirou ao Velho
da Tapada
6
, há outras de J>edro de Andrade Caminha i,
1
Há algumas ajuda8 mandada8 ou mandadas de longe, na colecção
de Resende.
z Moda que se perpetuou nas Academias de Singularu, Nocturn08
1
etc., e nos Outeiros dos abadessados, e ainda subsiste nas províncias
entre os cantatlores do povo, assim como entre os fadistas da capital.
3
Declaradamente são ajudas dêle apenas os exemplos citados
neste capítulo. É todavia possível que, entre as paráfrases de Motos
alheios, algumas pertençam à mesma categoria.
'-.4 Nnm meu estudo sôbre o Condestável D. Pedro de Portugal
aventurei a hipótese que êsse seria autor do ]Jfoto. Desde então para
cá não encontrei todavia pormenores que a validassem.
5 Se eu fôsse poeta ou mítsico, já teria nacionalizado as voltas
de Miranda e o formosíssimo .Moto.
6
Va1·iações ou voltas livres, feitas apenas ao som do Moto, porque
sómente na quadra final se repete a consonância ia, iuse. Nas
t,•olta8 quinhentistas, compostas segundo as regras de arte, era uso
reproduzir, alêm do sentido e da consonância, o teor do mote, pouco
mais ou menos.
7
Poesia8 Inéditas, n.
0
225 A. mi vida llena (ao som de Quien
' vie88e aquel dia). Vejam ainda o n. o 312 Vai-se a vida e foge e n. o 387
Sin que yo la viesse (ao som de Pariú-me mi madre).
Gl
1 )iogo Bernardes t e .Luís de Uamões j. Ig-noro se só estes
são os mrtitos que ajudaram o desconhecido empresário,
ou se há mais relíquias em manuscritos escondidos
3

O segundo exemplo, indigitado por Delfim Guimarães,
incompleto no caderno N, é paráfrase do Vilancete
Tu presencia desscada,
zagala desconocida,
di: porquê la has escondida?
dirigido por D. Simão da Silveira, irmão do Conde D. Luís,
e um dos mais afamados dizedores da côrte, à formosa
D. Guiomar Henríquez, quando um dia êsse astro da
côrte de D. João III se eclipsou
4
• A êle se associaram
de perto D. Francisco de Sá e :Meneses
5
, D. ~ [ a n u e l de
Portugal
6
e Pedro de Andrade Caminha
7
·; de longe o
1 Flore8 do Lima, p. 147, En mis esperanças. Especialmente uma
quadra denuncia a derivação:
Ah si viesse un dia
si viesse, ah si viesse
la tristeza mia
que mia no fuesse!
2 Vai o bem fugindo. Numa das quadras escritas, segundo a
edição de Soropita, por fim do Livro (?), há os versos:
Quem já visse o dia
Que tanto lhe tarda!
3 Já. falei do assunto no opúsculo sôbre Pedro de Andrade Ca-
minha (pp. 33 e 55), onde dei a lista dos Moto8, tratados tanto por
Luís de Camões como por seu rival na côrte, o camareiro de
D. Duarte.
4 Não subsiste a volta de D. Simão.
5 Vid. Miranda, Poesias, pp. 53, 682 e 748. O que lá digo de
Simão da Silveira precisa de retoques.
6 Vid. Zeitschr1"jt, vxu, pp. 439 e 600.
7 Poesias Inédita8, n.
0
272. Cfr. n.
0
470.
62
nosso Poeta, e porventura D. Diego de llendoza que a
celebrou na Carta afamada que principia
e termina:
Doiia Guiomar Ilenriquez sea loaJa
Doiia Guiomar,- dt:bria tu deidad
hacer algun regalo a Don Simon
pues lo merece bien su voluntad.
XII
De que espeCie seria o volume, autógrafo, cujos ma-
gríssimos restos possuímos?
Quanto ao teor dos textos e à coordenação, caracteri-
zei-o como irmão mais velho de J; quanto ao seu carácter
de borrão emendado, não como e s bôço primeiro, mas
antes como derivado daquele grande cartapácio ou Livro-
Razão que na repartição do espólio coube ao filho, sendo
levado a Sah
7
aterra pela neta de ·Miranda- cartapácio
que irmana com o livro muito grande em que Gil Vicente
começara de inscrever no fim da sua .vida as suas obras
joco-sérias. 1\fas ainda não ventilei a questão de qual seria
o seu conteúdo quando completo.
Vejo quatro eventualidades. O traslado autográfico era
(como o original em que estavam in nuce todos os poste-
riores, e como as obras enviadas ao Príncipe em três
remessas sucessivas) uma colecção teóricamente integral
das poesias de Sá de )liranda
1
; ou uma colecção parcial
só de poesias francamente líricas, com exclusão das Sátiras
1 Nos capítulos VI e vni aludi às composições omitidas nas im-
pressões antigas e nos manuscritos. Repetirei aqui que em D não
faltam apenas as posteriores a 1553, mas tamb&m várias da moci-
dade; por exemplo, cinco das treze que foram encorporadas no
Cancioneiro Geral.
(ou Cartas e Rglogas ;Aforais) que, destinadas ao escol
dos tlc então, se propagaram aparentemente
em numerosos manuscritos separados
1
• tc·rcciró lugar
podia ter sido apenas um cadf'rno, relativamente volumoso,
.com obras dedicadas a um só e determinado personagem;
<>U finalmente um Florilégio, uma )liscelâuea, um Cancio-
neirinho selecto com versos apresentados a êsse algufm
por serem de interêsse partil'ular para êle, por causa dos
.assuntos tratados, dos ensejos e do lugar da composição
e do espírito que os animava
2
• Digamos para um ac,)lito
-entusiasta da Es<·ola Velha ou peninsular.
A fim de apurar qual dessas e\-entualidades é mais
provável, repensei o que sabemos dCJs processos de pro-
paganda usados no tempo de :Miranda, e dos particulares
dêle; c examinei os distintivos do próprio caderno trun-
-cado, conferinclo-os com os dos autógrafos dedicados ao
Príncipe, por êsses serem a base cronológica e textual-
mente mais segura de todas as investigações mirandescas.
cheguei toda\Tia a resultados qlíe satisfaçam, porque
-os meios são insuficientes.
Apenas estabeleço que a primeira hipótese é a mais
verosímil. Alêm disso só conjecturo qu..; Pm todos os qua-
tro casos o volume, de que subsi:stem <lezassete fôlhas
.-com a Égloga Alexo e umas dezassete composições me-
1
A concluir das citações c imitações de coevos e de seiscentistas
-essas Cartas e a Égloga moral são as obra:> Je )liranda que mais
agradaram. Tão lidas foram que não subsiste um único manuscrito;
nem exemplares acessíveis da impressão de 1626.
2 Vid. Poesia3, p. xxxm. Em geral tais Cancioneiros-Florilégios
-eram oferecidos a alguma •lama. Exemplo, a bela Selecta de Cami-
nha para D. Francisca •lc Aragão, conservada em Londres, con-
forme foi explicado por .T. Priebsch nas Poe3ia3 lnéditas, e por mim
no opt"tsculo que lhes dediquei. ·
J Uma «le nove.
64
nores t, seria destinado à familia Pereira :Marramaque,
vizinhos, amigos e correligionários do Poeta. Com fies
conviveu intimamente durante os largos e fecundos anos
do seu isolamento arcádico de Entre-Douro-e-:\linho !!. A
êles dirigiu positivamente quatro das suas criações me-
lhores
3
, que juntas constituem um caderno razoável, so-
bretudo se o diálogo pastoril, intitulado Basto, entrasse
não sómcnte na redacção primordial, mas tambêm com
as refundições principais
4
; ou se l\liranda tivesse reunido
para António e Nunálvarez Pereira tudo quanto escrevera
de 1534 em diante, no solar dêles, ao pé da fonte da
Barroca, e na sua própria quinta da Tapada. Para êles
deve ter extraído do grande Inventário um dos primeiros
. traslados, depois de haver ultimado o caligráfico para o
Príncipe D. João- quer completo, quer parcial no sentido
exposto. Amigos verdadeiros como êles não podiam tomar
a mal que tivesse introduzido emendas numerosas. Jluito
pelo contrário, elas aumentavam o valor da preciosa ho-
menagem.
Até 1550 parece que apesar de haver ultra-
passado os sessenta, não havia pensado a sério em preparar
para a imprensa uma colecção das obras que desejava
legar à posteridade- desejo que naturalmente nutria no
1 De 84, se metermos em conta apenas a Sextina, as Cantigas
(38, três das quais subsistem em duas lições), os Vilancetes (32),
e as Esparsas (11 ou 13, se dermos êsse a uma Décima e uma
Sétima), uma delas tambêrn refundida. Isto é: géneros de que
subsistem amostras no caderno autógrafo. Chegam a 94, se lhes
juntarmos os Epitáfios (2), os Epigramas (2), as Trovas ou Redon-
dilhas (4) e as Canções (2), assim corno as Glosas (2; uma em duas
redacções).
2
Antes e depois de o chefe da casa Pereira-Marramaque ter
passado à côrte, a fim de encarreirar os filhos.
3 Poesia3, n.
0
" 102, 103, 108, 115, 145.
4 Ibid., n.
0
" 116, 145 e pp. 686 a 712, 730, 735.
G5
imo tlo seu coração. em especial de 15-!H cm d i ~ n t c
1

Emendando embora semp1·e que relia ou reescrevia uma
ou outra composição par·a a enviar a algum admirador,
não havia coll'ccionadl' as lír·icas dispersas, coonlenando-as
em seguida e fixando definitivamente as rf'dacções que
preferia j. Apenas as suas estreias juvenis, contribuições
para os Serões famigerados do reinado de D. ·1\fanucl,
saíram impressas no Cancioneiro Geral, de par a par com
algumas trovas de Bcrnardim Hibeiro, Gil Vicente, João
Hodríguez de ~ á e Meneses, D. João )[anuel e I>. João
de :Meneses 3.
As composições posteriores à sua grande viagem de
arte e profundos estudos dos mestr·es italianos e latinos-
tanto as primeiras tentativas no estilo Renascença que
lançou logo depois do seu regresso de Itália e Espanha
(152G a 1534), como tudo quanto produziu com actividade
febril no primeiro decénio do seu Rom-Retiro- a Sextina,
os Sonetos, as Canções, a Fábula do Mondego e o Ale:ro,
os Capítulos e as Elegias, as Sátiras e as Églogas artísticas
em estrofes variadas, as duas Comédias em prosa, a
Tragédia Cleopatra, e o Poema de S. Jlaria Egipcíaca-
tudo divulgara, com largueza relativa, em exemplares
1 De 1543 a 1550 )liranda vira sair oito edições das Obra& de
Boscan e Garcilaso de la Vega (duas em Lisboa), das oficinas de
Luís Rodríguez.
2 Se em 1550 houvesse tido à mão tudo quanto escrevera, não
tardava três anos com as remessas, nem omitia tantas poesias, nem
hesitava quanto aos títulos que havia de dar aos três Livros, como
logo se verá. Por junto enviou ao Príncipe apenas 117 composições;
e na minha edição ha 190! Mesmo abatendo as que são duvidosas
ou seguramente alheias, ainda assim a diferença é grande.
3 Vol. u, pp. 316-325. Elas foram inspiradas, quanto à forma c
quanto à essência sentimental e melancólica, por Garci S{mchez
de Badajoz e Jorge Manrique; e quanto ao carácter pastoril, por
Juan d<'l Encina.
5
66
manuscritos avulsos, no pequeno circulo de iniciados que
se deleitavam com a leitura de Bernbo, .Ariosto
e Petrarca, Garcilaso e lloscan, Vergílio e Horácio, assim
como com livros sagrados. Fiel ao costume medieval, que
continuou a vigorar entre a nobreza portuguesa durante
todo o século XYI e posteriormente, ccomnnica,·a•
(como se dizia) manuscritos, fazendo-os circular entre
superiores, parentes e amigos
1
• à medida que ia gerando
e refazendo as suas dedicando umas a D. João III
(Poes·ias, n.
08
104 e 10ü); outras ao Infante D. Luis
(ibid., 115, 148, 165); ao Infante Cardeal e a D. Duarte
(56, 98, _ü9
2
); ao Duque de Aveiro (113), aD. :Manuel
de Portugal (150; 91, 92); D. António de Sá e
(151, 75, 79); ao venerando João Rodriguez (103"1; a Pero
Carvalho (106 e 77); seu próprio irmão :\I em de Sá (107·;:
e aos dois Pereiras: Kunálvarez (103 e 116) e AntónitJ
(108, 11G, 145). Só algumas Églogas seriam recitadas ou
I:epresentadas em ocasiões festivas.
De 154-! a 1550 houve aparentemente
3
um curto período
de retraimento e silêncio. Satisfeito por ver nascer e medrar
as sementes que desesperando porventura de
1 Meio perigoso de propaganda. Furtos (inocentes e malvados),
plágios, impressões não autorizadas foram a consequência em Por-
tugal, em Espanha e na Itália. Cúpias fiéis ou deturpadas entravam
sem licença nos Cancioneiros de mão de afeiçoados. Por exemplo,
no caso de Miranda: na colecção de Luís Franco; na :\liscalânea
de Juromenha; e no Cancioneiro Eborense.
2 As relações de l\Iiranda com o Infante Cardeal D. Monso,
o Cardeal Infante D. Henrique. o Infante D. Duarte e o Senhor
D. Duarte (filho ilegítimo de D. João III), ainda não estão sufi-
cientemente esclarecidas, nem tampouco outros problemas relativos
à Dedicatória das Comédias e das Trovas premiadas em Alcalá-
3 Digo apa1•entemente, porque ainda não estão bem as
datas dalgumas Églogas e Cartas, nem as das obras dramáticas e
do Poema sacro.
67
igualar Garcilaso e Boscan e os da côrte
1
, des-
culpava-se com as suas ocupações de agricultor e com os
seus deveres de esposo e pai de dois moços, cuja educação
moral, intelectual e artística dirigia no sossêgo idílico da
sua Quinta.
Afastado do centro,. duvido que sustentasse relações
com impressores. Os materiais góticos de Gennão Ga.
lharde, único que florescia em Lisboa antes de 1 f>B4, mal
serviam para uma edição-Renascença como a devia am-
bicionar o introdutor da arte nova, habituado a manusear
livros italianos e latinos, saídos dos prelos dos Aldos e
vindos de Veneza e Roma
2
• Para tratar da im-
pressão havia de ausentar-se forçosamente dos seus, e a
idéia de deixar a doce companhia de D. Briolanja de
Azevedo não lhe sorriria. Sem a protecção dum Mecenas
magnânimo tambêm não se atrevia a sair à praça, dando
·ao mundo em que falar, quem como êle confessava o seu
,
Gram medo ,ao mau engano
D'este amor que a nós temos desigual.
Sú quando o jovem e precoz Príncipe D. João, suges-
tionado por dois dos mais sinceros e entusiásticos admi-
t As estreias geniais de Luís de Camões e as de Jorge de
)lontemor -para mencionar apenas os mais distintos- recaem
no lustre indicado, e mal podiam ficar desconhecidas para quem
contava- tantos amigos e correspondentes entre os Poetas palacia-
nos. Tambem está para mim fora de dúvida que o autor dosLvsiada&
estudou as obras de Miranda, como as de Bernardim Ribeiro,
Cristóvam Falcão, Francisco de Morais.
2 Luís Rodríguez começou tambêm (em 1539) com materiais
antiquados, góticos (por exemplo, na edição de Boscan de 1543).
Os Cónegos de Santa Cruz mal se teriam encarregado da impressão
de versos profanos em linguagem. João iivarez, João da Barreira
e André de Burg9s (cuja actividade principiou em 1542) ainda
eram pouco acreditados.
G8
radorcs de Sá de )lirancla e cultores da arte nova t,
comP.çou a erigir-se em :Mecenas dos solicitando em
primeiro lugar àS Obras do Ueformador !, venerado por
todos como aantigo pai das Musas• (exactamente por já
não fazer concorrência aos novos), êle viu-se obrigado a
sacá-las à luz.
De 1550 a 1553 desenterrou as minutas que possuía-
fc'Jlhas sôltas, cadernos, volumes desordenados, encomen-
dados à traça e pó da aldeia e sua baixeza, entre teias
de aranhas conforme já ouvimos
3
• Solicitou
dos destinatários os papéis que lhes mandara outrora.
Releu tudo. Acrescentou epigrafes e notas explicativas;
fez a repartição em Livros; compôs Sonetos dedicatórios.
E limando, polindo e depurando sempre, inscreveu tudo
no grande cartapácio tantas vezes citado, para finalmente
. extrair dêle o traslado caligráfico, omitindo o que bem
lhe parecia
4

Perda sensível é a das Cartas em prosa, à maneira de
Prólogo, com que seguramente acompanhou as remessas,
1 Francisco de Sá e seu camareiro-mor desde 1549, e
D. Manuel de Portugal, com entrada franca no paço.
2 Com o fim, bem se vê, de as publicar pela imprensa, torno a
afirmá-lo. Embora o herdeiro da coroa honrasse com pedido igual
ainda outros poetas, não é de crer pensasse num Cancioneiro Geral
quinhentista, que sairia monstro.!oso.
3 Não há motivo para considerar como grande exagêro poético
essas modestas confissões. Cinco anos de prisão numa gaveta ou
numa arca são bem suficientes para encherem de pó papeis e livros.
4 A fim de não tardar excessivamente, não esperaria pela che-
gada de todos os manuscritos espalhados pelo país fora, de 1510
em diante. Ainda assim haverá quem se admire de que excluísse da
primeira remessa várias das composições impressas no Cancioneiro
Ge1·al. Seguramente não as descartou por querer publicar apenas
Inéditos, visto que há em D oito das treze Redondilhas qoe entraram
na publicação de Resende. Das cinco excluídas, duas entraram na
impressão de 1614, e só três, conservadas no Cancioneiro Eb01·eme,
não lhe voltaram às mãos, nem cedo, nem tarde.
expondo criteriosamente a histú1·ia d.:t. refo•·ma e suas
teorias de arte t.
A repartição das poesias em Livros não era fácil. Havia
poucos modelos. Até 1 f>f>O nenhum poeta português, nem
mesmo dos que viviam e medravam na Côrte, havia da.do
ao prelo uma colecção das suas Rimas Os moldes do
Cancionero General ele lf> 11, com a colheita do século xv,
repartida sensatamente por H. de Castillo em Ob-ras de
Obras de amor, Obras de burlas
3
, não serviam
para :Miranda
4
, porque, cantando melancólicamente de
amor na mocidade e ainda na idade viril, só de longe em
longe compusera versos ao divino, e ainda mais espaçada-
mente inventara algum chiste
5
, dedicando, pelo contrário,
t Quf'm quiser avaliar devidamente o tamanho da perda, leia a
Cm·ta de Boscan à Duquesa de Soma que precede o Livro II das
suas Obras.
2 Só uma ou outra Égloga de Bernardim Ribeiro e os Autos de
Gil Vicente e Baltasar Diaz saíram em fôlhas volantes entre 1516
e 1550. As Obrall de Garcia de Resende, privilegiadas em 1536,
dias antes dêle morrer, mas publicadas em 1545, são Prosas. As
T1·ovas JfillceUineas só entraram na reimpressão de 1551. Do último
quartel do século xv há o J.fenosprezo do Mundo, do Condestável •
D. Pedro. Mas composto em castelhano foi impresso provávelmente
no reino vizinho.
3 No Cancioneiro Geral português há igualmente versos de amor,
convencionais embora, muitíssimos de folgar c rir, e alguns de
devoção; mas não há divisão sistemática em Livros. Coligindo
pouco a pouco, Garcia de Resende imprimia os caderuos conforme
os ia recebendo, sem os ordenar, cronológica ou genéricamente.
4 Serviram, isso sim, para Jorge de Montemor. O Cancioneiro
que dedicava ao Príncipe D. João e à Princesa D. Joana, sua
protectora (Anvers 1554), ia dividido em uma metade de amor e
outra espiritual.
:; O termo chistes ocorre na edição de 1595 (fi. 148 v), com a
especificação ao modo italiano, que me parece errónea. Os {micos
versos a que podemos aplicá-lo, a meu Yer, são a Esparsa a PPro
Carvalho (n.
0
77) e as Redondilhas n.
0
" 75 e 76- três engraçadas
bagatelas de ocasião.
70
de preferêm·ia as vigílias de inspiração da sua estóica
)lusa a assuntos de filosofia moral.
Taro pouco o satisfazia a repartição por línguas t, nem
a genérica - as quais vemos realizadas (ambas) um
decénio mais tarde nos manuscritos de Pero de Andrade
Caminha 2_ porque como inovador niio dera senão poucos
exemplos de cada uma das novidades que introduzia.
Outro expediente prático, o de reunir num Livro todas
as composições no metro nacional das Redondilhas
3
e em
outro todos os hendecassílabos ao modo italiano
4
, não
podia contentar ao autor das Cartas e Églogas
1 Em todas as edições antigas e em todos os manuscritos vão
de mistura as poesias portuguesas e castelhanas de lliranda (como
as de Bernárdez e Camões). Compreende-se todavia que os leitores
de hoje não gostem desta igualdade de direitos que era efectiva
na côrte portuguesa· de 1490 a 1580, e depois.
2 Andrade Caminha repartiu as suas composições em nove livros:
Églogas (4); Epístolas (23); Elegias (23); Odas (18); Epitalâmios (2);
Epitáfios (81); Epigramas (287); Sonetos, Balatas, Sextinas e Can-
ções. Todos estes em português. Só o último Livro, composto de
Cantigas, Vilancetes, Glosas, Esparsas, Endechas, Trovas e um
Romance, é bipartido, e a parte castelhana talvez seja a mais
bela. Essa maneira de dividir foi posteriormente aperfeiçoada por
D. Francisco .Manuel de pois (como Quevedo) fez presidir a
cada um dos nove géneros consagrados uma das )lusas do Parnaso
helénico.
3 Esta denominação, aplicada por Sá de lliranda só às duas
Trovas mencionadas acima em nota, fôra inventada pouco antes
pelo grande letrado, diplomata e poeta, D. Diego de l\Iendoza-que
tambêm já citei como amigo de D. Simão da Silveira e de D. Guio-
mar Henriques.
4 O título Cancioneiro para versos da escola velha, e o de
Parna•o para os da escola nova, é muito da terminologia de Teófilo
Braga. Ignoro todavia se êle se baseia em mais algum documento
do que o passo conhecido da Decada Vlll, de Diogo do Couto
(capítulo 28), porque êsse refere-se, na minha opinião, a uma
colecção integral das Rimas de Luís de Camões.
71
porque o lugar não era junto a (lantigas arcaicas
e Vilancetes musicais.
)luito mais lhe devia agradar, por todos os motivos, o
exemplo dos reformadores castelhanos Boscan e G arcilaso.
O mais velho e único sobrevivente dos dois arbitrara
constituir o seu Livro I de poesias menores no estilo antigo
(Coplas hechas â la CastellmUJl
1
; o Livro II, mais grave
e artístico, de netos e Canções ( Hechas al modo italiano) ;
o Livro lii do poema narrativo de lle'ro e Leandro (em
verso sôlto), das Oitavas-Rimas (li35) sôbre o reino do
... -\.mor, e de alguns Capítulos
2

O carácter diverso da sua veia não admitia, ainda assim,
que se regulasse por essa distribuição
3
• Disposto a do-
cumentar dum lado a sua independência, mesmo .em tais
pormenores, e pelo ·outro lado o seu parentesco electivo
com vultos clássicos como Horácio e V ergílio, Sá de l\Iiranda
formou o seu Livro I de todas as suas composições meno-
res, em ambos os estilos, começando em Glosas, Vilancetes,
Cantigas, Esparsas e Trovas, e acabando com Sonetos e
Canções'·
1 Décimas, com quebrados, ou sem êles, na maioria dos casos.
2 O Livro IV das ediçõE:s comuns contêm as Rimas de Garcilaso.
3 É justo lembrar que Diogo Bernárdez procedeu tambêm com
desassombro - em fins do século- quando a edição-príncipe de
Sá de )liranda ia ser «comunicada a todos». )luito mais fecundo,
fez dos seus versos, como todos sabem, três volumes independentes:
As Rimas Viu·ia& ao Bom-Je8Us (1594) constituem o seu Cancioneiro
Espiritual; as do Lima (1596) são um Cancioneiro de amor,
composto de Sonetos (158), Sextinas (2), Canções (5), Elegias (5),
Epigramas (2) e Cantigas (83).- O Lima (Lyma, 1596) contêm
Églogas (20) e Cartas (33)- isto é, as obras mais extensas, mais
graves e artísticas.
4 Por não ser Sonetista fecundo e elegante, fundiu num só Livro
os géneros de que Boscan fizera dois. Ha cem composições, curtas
na maioria, na remessa inicial ao Prínc.ipe. Propositadamente. Para
não exceder esse número omitiu diversas, conforme já está dito.
7t
A êsse resolveu dar o nome de Licro de Odas. Hesitou
todavia. Pelo menos, é apenas numa No ta, que do original,
mandado ao Príncipe, passou ao traslado de H){j4 e que
se conserva em Paris, que lemos o título: CantigWJ, Vilan-
cetes,Espa'l'sas, Canções e Sonetos, que arremedandollorácio
tudo pode passar por Odas t.
O Livro II compõe-se das sete Cartas filosóficas i e das
duas Églogas em octonários. O diálogo pastoril de Basto-
obra-prima em que o Poeta se desdobra, personificando
em Gil e Bieito a parte contemplativa e activa da sua
alma-está bem entre as obras a que chamava Sátiras
no manuscrito que serviu de base à edição de 1626
3

Não posso dizer o mesmo do Alereo, cujo assunto é de
amor apaixonado, conquanto nele faça a reivindicação
dos direitos ideais de Bernardim Ribeiro. O mesmo título
de Sátiras tinha êle em mente quando, em harmonia com
a Nota citada, relativa ao Livro I, traçava outra relativa
às Cartas que diz: Estas são as Cartas, tambe:m seguindo
a Oracio
Para o Livro III reservara as sete Eglogas artísticas
(e uma Elegia). Não tem título no manuscrito D. Suponho
todavia que, se chegasse a imprimir as suas
Obras, lhe teria dado o de Bucólicas seguindo a Vergílio.
Esta ordem corresponde, mais ou menos, à evolução
da arte nova em Portugal. Dentro de cada Livro seguiria
igualmente a ordem cronológica, tanto quanto lhe era
possível restabelecê-la ao cabo de meio século
5

Se o Príncipe. vivesse, ou se o Poeta alcançasse a
t p. 3.
2 Apenas uma em tercetos.
3 Poesias, p. LXXXIX.
4 Ibid., p. 185.
5 Se a ordem cronológica fôsse perfeita, são as treze composições,
impressas em 1516, que deviam figurar à frente do Livro I.
73
maioridade de D. Sebastião
1
, é possível que, obedecendo
a nova reclamação, tivesse preparado para a imprensa as
Comédias', a Tragédia
3
e o Poema sacro, e talvez mais
algumas poesias espirituais, inspiradas pelos infortúnios
que o atormentavam de 155-! a 1558.
Que êsses não apagaram o fogo sagrado em que ardia,
como é costume asseverar; que, pelo contrário, êle foi
reaceso, parte por tam tristes emoções e parte pelo íntimo
trato trienal com as l\Iusas: devemos inferi-lo das compo-
sições derradeiras que faltam em D, mas existem em
outras colecções: umas em A, outras em B, várias em J
e algumas mesmo em N, se a minha interpretação da
Epístola e da Endecha, Quien viesse aqu'.!l dia, fôr aceitável.
Retido no seu gabinete por lutos sucessivos, creio não
procuraria outras distracções do que a dos livros e do
doce estudo -mais certo manjar enfim que tudo- até a
pena lhe cair das mãos em 1558.
Voltando de novo ao caderno emendado, torno a registar
que vejo nele (como em J) um -traslado posterior a 1553;
traslado purificado do Livro-Hazão, cuja ordem e redacção
ainda não era definitiva
4
, e que o poeta iria completando
pouco a pouco com obras antigas que lhe vinham às mãos,
1 :Mais urna vez lembro que Jorge Ferreira de Vasconcelos en-
dereçou a D. Sebastião obras que a princípio havia dedicado ao
Príncipe.
2
Compreende-se que as Comédias (Estrangeiros e Villtalpandos)
constituíssem um cartapÁcio àparte.
3 É coincidência curiosa que tanto a Cleopatra de Miranda como
a lfigénia (?) de Boscan (tradução de Eurípides) se perdessem, sem
deixar rasto algum.
4 O Alexo e o Basto talvez formasse:m grupo com as outras
Églogas, como em AB ( ~ )

74
-e com obras novas cujo teor o contentava momentânea-
-mente. Traslado destinado a seus melhores amigos, se os
indícios que passo a relembrar não mentem.
À testa do .Alea:o lê-se o titulo geral Églogaa_, seguido
·do especial Égloga primeira. Lógicamente se entende que
se seguiam mais algumas. )las quantas e quais? Todas?
ou apenas as dedicadas aos Senhores de Cabeceiras de
Ba.Sto? Entre as duas epigrafes está o enderêço A Antonio
Pereira__, Se'llhor de Basto.
O conjunto aÉglogas a Antonio Pereira__, Stmlwr do Basto.
Égloga primeira. .Alereo» incute a persuasão que após o
.Alea-:o vinha outra ofertada ao mesmo fidalgo (ou vinham
·.<Outras). E já sabemos que ela é secundada pela existência
de mais duas homenagens bucólicas aos Pereiras: o diálogo
pastoril Basto, sua obra predilecta, refundida tantas vezes,
e o Nemoroso_, com que em 1537 agradeceu um. exemplar
manuscrito das Obras deliciosas de Garcilaso. A alusão
na Epístola Dedicatória ao Conde D. Edmundo, protector
·dos ascendentes de António e Nunálvarez, compreensível
só a êles, favorece o meu modo de ver.
:àias pelo outro lado, quem nos diz que após o Basto e
o Nemoroso não se seguiam outras Bucólicas, subordinadas
ao títu] o geral de Églogas _, mas especificadas com acres-
-centos, como: .Ao Infante D. Luís__, Ao Duque de Aveiro_,
A João Rodríguez de Sá e },feneses__, .A .António de Sá e
Meneses__, .A D. Manuel de Portugal, A D. João III; e se
alêm de Églogas e Redondilhas o códice hoje truncado
-não continha tambêm Cartas, Canções, Sonetos, etc.?
A existência nele de Cantigas, Yilancetes e Esparsas
1
,
1 Entre as Cantigas que se perderam houve poryentura o n.
0
137
das Poes-ias, com a Ajuda de António Pereira, que subsiste em J
(p. 134). :Mas isso reforçaria apenas a conjectura de termos em N
uma colecção destinada aos mas nada a rP.speito do
seu carácter e tamanho.
75
compostas em épocas diversas da sua vida, mas sobretudo
de 1516 a antes da viagem de arte, depõe a favor
dum:t colecção integral, fragmentada no decurso dos
séculos.
Não pode ser um resto do pr{,priô cartapácio de Sal-
vaterra que no século XVH ou XVIII viesse, ou
mutilado, parar nas mãos dalgum coleccionador de Lisboa,
livreiro ou bibliófilo. l,elo menos, não há nele nenhum
Vcl vel que o testemunhasse. Nem ha concordância, senão
acidental, com as lições da impressão de que reputo
ser reflexo legítimo do famoso volume.
A prova de que não é borrão primeiro, mas antes traslado
autográfico, está nas variantes e emendas que analisei mais
acima
1
• Está tambêm no modo como o Poeta inscreveu o
corpo dos textos- cingindo-se a um padrão pre-estabele-
cido, muito embora o alterasse durante o acto de copiar,
e na revisão.
As )faiúsculas, com que prinéipiam as estrofes do Alexo,
e tambêm as da e das composições menores,
-ocupam, muito bem traçadas, pontos préviamente :fixados
1 As emendas são muito mais numerosas do que as do Cancioneiro
de Pedro de Andrade Caminha, que subsiste em Lisboa; e muito
menos numerosas do que as do cartapácio de Salvaterra, se não
houve exageros na descrição dada por Domingos Fernández no
Prólogo da edição de 1614. Quem se admirar da existência de
manuscritos com emendas sucessivas (por nunca ter examinado
com atenção autógrafos de Reine, Goethe ou qualquer outro Corifeu)
lembre-se dos cinco borrões dos Comentários às Rimas de Camões-
elaborados por Faria e SQusa-fruto dum esfôrço colossal e dum
amor às letras como raras vezes se encontra, apesar de todas as
gravíssimas pechas que os desfeiam. E pense nas divergências de
texto que distinguem essas mesmas Rimas, não só na edição que
preparou, mas tambêm nas de 1595, 1598, 1616, 1666, assim como
nas que apontei na Zeitschrift com relação a obras manuscritas e
impressas de Diogo Bernárdez.
76
em· carreira perpendicular- processo que ainda hoje se-
guimos quando desejamos que os nossos textos saiam
«vistosos» do enfadonho passatempo de copiar, e tambem
para evitar omissões e facilitar a fiscalização das trans-
crições.
Tambem há erros e lapsos emendados acto-continuo,
em linha, antes que Sá de ::\Iiranda continuasse com a sua
tarefa, conforme já expliquei no Capítulo X.
XIII
No Capitulo III mencionei o feitio antiquado dalgumas
letras t e de certas abreviatura:s ~ , usadas no caderno
autógrafo.
Alhures
3
caracterizei os modos de escrever do poeta
como sóbrios, disciplinados, reflectidos, mais em harmonia
com as tendt?ncias fonéticas· da· boa ortografia do que a
que lhe foi atribuída em apógrafos e, de 15tt5 em diante,
em impressões, por compositores e copistas que artificio-
samente ora aproximavam a língua nacional da latina
4
,
ora se serviam voluntariosa e anárquicamente de grafias
contraditórias s.
Como aqui reimprimo os textos sem alteração
6
, posso
t R, v, a.
2 Alêm da representação de sons nasais por til, )liranda emprega
as abreviaturas medievais de que [(jJ; p1·e pri pro [p J; per por [pI;
os f 9]; e as de ver [1] e cris chris [X].
3 Em artigos relativos à reforma da ortografia, que publiquei no
Primeiro de Janeiro de 14 a 18 de l\Iarço de 1911.
4 Home[ m ], haver, honra, hora por ome, aver, onra, ora; etc.
s Quem puder compare, por exemplo, a Carta de Camões, publi-
cada por Xavier da Cunha, com os textos autógrafos de Miranda .
. 6 Apenas resolvo abreviaturas; substituo u consoante por v nos
raríssimos casos em ·que Miranda seguia o uso antigo, escrevendo
vn avn; substituo f longo por s curto; e o circunflexo virado pelo
usual. '
77
restringir-me a um breve resumo tanto das qualidades
que lingüisticamente os distinguem, como das hesitaç3es
e irregularidades tradicionais que de :Miranda não
soube· ou não quis eliminar.
Apesa.r de Pie, infelizmente, haver favorecido o caste-
lhano, por motivos que expliquei, não era amigo de es-
trangeirismos, neologismos e vozes cultas
1
• Uontentava-se
com o abundante núcleo herdado, de ambas as línguas·, e
nobilitou dições populares, arcaicas, pelas idéias às quais
as directa ou figuradamente .
.. \ sua grafia é por isso mesmo tambêm antiquada 3-
reflexo assaz fiel da pronúncia medieval - regularizadc.
porêm com escrúpulo e tino, embora sem rigor.
As oscilações entre formas e símbolos divergentes, e a
conservação de traços tradicionais, justificados outrora,
mas já desvalorizados, são indicadoras das evoluções por
que os vocábulos passaram, e ·tentativas de fixar em
transcrições adequadas as formas preferíveis
4

Quanto às poesias em castelhano - o Ale:vo e algumas
Cantigas- baste lembrar duas cousas: as letras ç (sempre
cedilhado, mesmo antes de e_, i
5
), sç_, ss, s, z_, :v_, jg_, b, h_,
1 Na 2.• edição das Poe3ias terei de publicar a lista dos neolo-
gismos de que êle se serviu.
2 As Carta3 e as Églogas Jl,foral:3 são exemplares, tambêm neste
sentido.
3 Quanto ao castelhano, é usada e suficiente a divisão em um
período antigo e outro moderno. Quanto ao português é preciso
subdividir o período antigo numa metade arcaica, galego-portu-
guesa, e outra medieval (de 1385 a 1521). É a esta que me refiro,
tal qual é representada pelo Cancione-iro Geral.
4 Reprovo hoje a regularização excessiva que adoptei cm 1885.
s seria mau se hoje renovássemos êsse uso antigo. Em vez
de ce c:i, çe çi; em vez de ye gi, je ji, facilitaria enormemente a arte
de ler.
7f;
tem o seu valor antigo t. E não estão isentas de lusismos,
muito embora seja possível explicar vários como arcaísmos
ou peculiaridades dos dialectos fronteiriços ou· de transi-
ção, empregados nos diálogos pastoris de Juan dei Encina
e Lucas Fernández. Em todo o caso êles são tam poucos
que claramente se infere a culpabilidade principal neases
pequenos senões (que não devem fazer corar nenhum bom
Português, no dizer de D. Francisco ]\lanuel de Melo)
de copistas e impressores, e não dos Poetas i.
A pontuação, auxiliar poderosa na compreensão dos tex-
tos, é digna de louvor e muito superior à desacertada que
em regra desfigura manuscritos e impressos quinhentistas.
Alêm de ponto e de v_irgula, Sá de ~ I i r a n d a emprega
sistemáticamente sinais de interrogação, parênteses, traços
de suspensão. Utiliza tambêm.apóstrofos (a par de d'amor_,
d'andar_, d"'entrar_. há todavia duna_, despuela) e mesmo
acentos. Agudos e circunflexos; e êsses mesmo virados.
Não entendo bem para que servem estes últimos, suspei-
tando apenas, fôsse com o intuito de distinguir sons fe-
chados dos abertos 3.
O circunflexo usual, êsse serve sobretudo para indicar
que duas vogais idênticas, que no período arcaico valiam
por duas silabas, eram agora contadas por uma só (tó-
1
O som único do j actual não existia; distinguia-se entre dize,
dexa, abaxa, lexos, Alexo e hijo, viejo, vermejo, trabajo, mijor_,j'IU!go,
jurado, aojado; ageno, acoger, recoger, muger, estrangero; o h prove-
niente de f ainda era levemente aspirado; ç surdo (çaharetia, çieg08,
prinçipal, terçero, braço8
1
fi.terças, coraçon) e z sonoro (em ve3e8
1
razon, reirien) não eram confundidos, etc., etc.
2 Sem falar de meros lapsos ou usos gráficos (como ninhos,
montanhas, quam, agoa) registei: pera (=para) B1·D,f, Clarença,
fazer, Taresa, c1·ego; o infinitivo 8eres; e daiocho, dezanue11e, leis;
ltuente, huego.
3 Se houve essa tendência, ela não se manifesta claramente:
temos j'ór, dur, mõr, milltõr, mayúr, JÕrça, mas tambêm r:õs, mã8,
apõs.
7!)
nica) -iw. ·num Sâà, ve"'e1·, úU (= ao), moor
1
• l\Ias o
costume de empregar vogais geminadas nesse sentido
levou a usar o mesmo processo tambêm sem base etimo-
lt')gica, por exemplo em fezt':'estes. del>stes, tt":'egora, estêe,.
j(íà, porâa.
2
, e de aplicar o a<."ento simplesmente para mar-
car a Mnica, sem consideração do timbre, por exemplo.
em nôs, vôs, jura (= Jtíra), fôsse, podê·ra, milhôr, mayôr,.
mêdo, quêdo, mudo, mâs. Em castelhano, onde não houve
proximidade de vogais em virtude da queda de
-.l-, -n-, prefere o agudo; por exemplo em allá, quiçá,.
abrá, cayó, pedió.
Quanto às átonas há as hesitações conhecidas, provenien-
tes da pronúncia surda e do influxo das consoantes ime-
diatas, e não meramente gráficas entre e, a (rezão, razão;
Tares.a, Teresa; pera, para). e, i (mejm·, mijor; dezir, dizer;
dest-into, distinto; letigo, litijo; desigoal, disigoal; menina,.
minina; divism·; adevirw.; Antoneo, Antonio); o, u. (costume,.
custume; sospirar, suspú·ar; agua_, agoa; magoa, mingoa)
3
•.
A vogal i é simbolizada de três modos: por i curto·
(sem ponto em casos não contados
4
); em geral por j longo,.
não sómente onde funções de semi-consoante em
ditongos qujen, qujeren, mas tambêm onde é tónico, como
em trjste, venja, mjos, mj; e por y grego na conjunção-
castelhana e nos ditongos decrescentes ay, ey, oy, uy
(ay, eyslo, sey, foy, soy ( solet), vag, dOJJ, muy, cuytado,.
mayo, rayo, mayor, queyra, pellegey, pereyra, primeyra).
Finais e mediais, e tambêm iniciais como em yazia.
U-vogal é só excepcionalmente por v.
t Em áàborrecer = a aborrecer; jáàq1;i =já as6i; cadôra = cada
hora, o circunflexo tambêm assinala fusão.
2
Sem acento há duplicação em casos como corrij, abrij, vij, dij,.
hij, allij.
3 Há tambêm hesitação entre nã ·e não, sem distinção entre
funções f'nclíticas ou independentes.
_ 4 Pode ser qtw eu às vezes tomasse por ee êsses ii sem ponto.
80
Temo-lo mudo e em -qua -quo, -gua -guo, por -ca
-co, -ga-go, não só em formas origináriamente duplas, como
!Jltasajado, gasajado e cm nwlqua, nunca, mas tambfm em
loquo, fiqua, paguar (quási sempre na grafia loqo, fiqa f).
U-consoante é sempre v em vocábulos portugueses; nos
castelhanos há vacilação entre v e b (de haste alta). Entre
vogais predomina v; em inicial, onde é mais enfáticamente
explosiva, b, sobretuclo antes de ue, ie (buelve, buelto, buelo,
mueba, nuebo, bivo). Mas a distinção não é rigorosa: ao
lado de villano, verano, ·vez, vas, van, vado, vos, vuestro,
ha a!Jelenado, Azebedo, andaban, abra, bõs, bez, ban, etc.!
1
Com relação às mais consoantes, já disse que c as sibilado
tem sempre cedilha, mesmo antes de e, i (vençe, vençido).
Há hesitações entre ç e sç. Como em castelhano haja pa-
desco, jlo1·esco (transformados posteriormente em jl01·ezco
1
padezco, etc.), donde provêm as grafiasjlo·resces,padesces, .
jlorescm·, nascer, anochesce, estas influíram talvez na es-
crita portuguesa, apesar de na pronúncia haver a tendên-
cia de confundir numa só as duas sibilantes. Ao lado de
creçer, deçer, aborreçer, pareçer, resprandeçer, ocorre nas-
cido, enloquesce; e em castelhano escureciú.
H proveniente de h latino caiu em regra (uUmos, ubieron,
abrá); como representante de f ainda era levemente
aspirado. Por isso encontramos haze·r, fazer; huyendo,
fuyendo; e tambêm hiel, huego, huerte, huente e huessos.
Em português é utilizado, alêm disso, para dar mais
corpo aos monossílabos ho, ha, hos, has, hum, hüa, hij,
hia, hes .• hu (<ubt), he (<est) (assim diferençado de e <et
3
).
Ora substitue consoantes geminadas por singelas, ora
não: ao lado de sofrer, meter, falar, há vaUes, aballes,
1 Vasq
08
, vos(_f, cltarq
08
, poqa, ap1·isq
08

2 Como as duas letras não se diferencem muito, pode ser me
enganasse na leitura mais dÜma vez.
3 Com o mesmo fim escrevia ha, lwn, lwy, a par de al1rá, ubimo8
ubieron.
81
attiendo, a.O'atigo, affano, ajj'renta, aJJpocm·, approvechar,
etc.
Jlreposição e artigo, verbo e pronome, etc., ora aparecem
unido·s, ora separados: a caso, a tiento, aun que, en quanto,
surgem ao pé de ala, aZos, nolo, eyslo, dixome, lava·rte,
diessele.
XIV
H.ecapitulemos.
O caderno truncado e danificado pela acção do tempo,
que figura na l\iiscelânea 3355 da Biblioteca Nacional, é
de grande, de extraordinário valor.
Contêm, inquestionávelmente, versos de Sá de Miranda.
Versos emendados pela mão do próprio, no acto de escre-
ver, e posteriormente. De todos os manuscritos das obras
dêle, até hoje explorados, é o único autógrafo. Único
portanto que nos dá idéia certa da ortografia e pontuação
do poeta e dos seus sólidos conhecimentos do idioma
castelhano. Nele vemo-lo em plena actividade literária.
Não no acto de criar, mas como corrector de criações
antigas, que desejava aperfeiçoar, não só depurando a
dição e pulindo o ritmo, mas tambêm quanto à exteriori-
zação das idéias.
As numerosas emendas sobrepostas, duas, três, quatro
vezes em alguns casos, confirmam as confissões poéticas
que êle fez ao Príncipe D ~ João. Emendo muito. E emen-
dando dano. Porque realmente a forma primordial é às
vezes superior aos retoques. Por exemplo, nas ingénuas
quadras do Alexo.
Confirma111 tambêm os dizeres dos editores 1.\Ianuel de
Lyra e Domingos Fernández sôbre o estado do cartapácio
de Salvaterra que serviu de base à edição-príncipe, ou, se
a minha interpretação fôr errónea t, sobre o estado de
dois cartapácios antigos de que êles se serviram.
l No Apêndice há, nas quadras de Alexo, tllpicos que podiam ser
entendidos assim.
6
82
Não ·autentica as poesias insignificantes que com o
nome de Felipe de Aguilar andam no códice D
1
, nem os
versos atribuídos a um Francisco de Sá nas :Miscelâneas
E e P, que ainda carecem de legitimação t. Autentica
contudo duas delas: a Trova ·n.
0
169, colhida em E, e
o Cantar de Moças n.
0
190, proveniente de J. Dá-nos a
novidade de a primeira ser tirada duma sua Tragédia,
intitulada Cleopatra, totalmente desconhecida.
Habilita-nos a corrigir erros cometidos por impressores
e copistas
3

Justifica o alto aprêço que dera e dou ao Candooeiro
de Juromenha.
Aumenta o nosso respeito e amor ao admirável poeta-
-filósofo, autor das Cartas JJforais, que não tem igual em
toda a -literatura portuguesa.
Para adiantar e aprofundar mais o conhecimento das
suas obras, torna-se necessária a libertação do Poema,
sequestrado, de Santa lJfaria Egipcíaca, e a edição crítica
e comentada das Comédias em prosa.
Para popularizar as belas criações poéticas a que deu
trajes castelhanos, é preciso que algum patriota como
Afonso Lopes Vieira ou Júlio Dan tas- resuscitadores de
Gil Vicente-as nacionalize com arte e engenho, tarefa
melindrosa, facilitada talvez pelas variantes de texto.
Escolhendo entre as que· o velho da Tapada havia
marcado com vel vel, realizariam o ideal a que aspirava,
mas que não atingiu.
1 PoeBiaB, n.
05
118-126.
2 Ibid., n.os 166-189.
3 Do Cancioneiro de Juromenha transcrevi, por exemplo, o verso
Ca e a la mi fé gran "jieBta. Hoje sei que devemos ler: Cae, a la
mi fé, gran siesta. (Alexo, v. 723; Poesias, p. 705).
TEXTOS
. \
85
XV
Eglogaat
A Antonio Pereyra, Senhor de Basto
ALEXO
Egloga primeyra
I
Estos pastores mjos, los primeros
que por acá cantaron, bien o mal,
a la sampoiia versos estrangeros,
demandando su puerto principal
van-que sois vos-: de nuevo qujeren veros 5
del conde don Emundo el memorial:
como ciegos andaban, poco y a tiento 2;
agora van ya mas
3
cobrando aliento.
El vuestro Alexo mueresse
4
d'amores,
y no sabe de qujen! No os espanteis!
que a mas
5
aconteçio que a los pastores.
Con Amor ni d'Amor nunqua os burleis!
quando nolo pensais, eyslo a mayores,
desobligado de todas las leis:
no ay caso tan dudoso, a poder ser,
que ayudado d' Amor no se baga crer.
10
15
1 Repito que reproduzo os textos sem alteração. Apenas resolvo
as abreviaturas; reúno sílabas separadas sem razão; escrevo nomes
próprios com maiúsculas iniciais; completo a pontuação; substituo
u consoante por v; f longo por & curto; e o circunflexo virado pelo
usual. As lições riscadas vão como Notas. Assim mesmo, os lapsos
que emendei.
2 como a tiento.
3 ya van mas.
4 va murir.
5 que ya a mas.

86
Teneys en que, pensando, os emplear
mil bienes; no os andeis siempr'alos danos;
har[t]o es dudoso el vado, es de p)ssar];
hazed a vuestros pesare[ s en ]gafios: 20
pensad qujen essa casa [ha d]e heredar,
tan cuerdo capitan, tan moço d'afios;
bolved los ojos al hijo seg[ un ]do:
vereis vuestros Froais dar v[ u Jelta al mundo.
El terçero, que está como en el njdo, 25
[antes] su tiempo las sus alas prueba t;
anda todo en alçarse a buelo erguido ! ;
apena lo teneis que 1:10 se mueva
3
:
por de dentro se ve todo
por de fuera aun
4
la tierna y nueva. 30
Esto v esse a los ojos --no son cuentos;-
abrid el pecho a l<?s contentamientos!
El rayo, quando abaxa, en sus desvios
hiere los altos; de la flaqa gente
suele dizir fortuna aestos son mjos», 35
luego al primer espanto que arrebiente.
Dexeis los lodos y. charqos sombrios
5
;
buscad aquella clara y biva fuente;
poned con gran confiança
6
todo en dios.
Lo que ha de hazer el hazeldo vos. 40
1 alçasse en alto y l. s. a. p.
2 andasse en tomar buelo cumplido.
3 que ya n. s. m.
4 A princípio sem aun.
5 los arroy.Js dexeis y charqos frios.
6 con gran, 1·epetido por en9ano, e.!tá ri1cado.
87
II
Pastores da Egloga
ALE XO- Zagal.
SANCHO- Un vjejo.
LA NINPIIA de la fuentP.
JOAN -pastor.
AN'fON I
'fURIBIO pastores.
PELAYO
ALEXO. Yo vengo como pasmado
y no sé lo que me diga t,
que el mj coraçon l i t i g a ~
entre cuydado y cuydado.
V alasme Dios! que pecado
pudo el mjo ser tamaiio!
que no soy el que era. antaiio,
hanme todo barajado
3

Dias ha que no me entiendo,
no percundo este mal mjo:
al sol hielome
4
de frio,
a la sombra en huego ardiendo;
en njngnna parte attiendo;
no quellotro lo que fuesse 5;
como si dotre fuyesse
ansi de mj voy fuyendo!
I soncas no sé lo que diga.
2 q11e el coraçon se affatiga.
3 como barajado.
45
50
55
4 Em lugar de hielome havia na primeira redacção uma palavra
hoje ilegível, que acabava em rgendo.
5
no sé por qual causa fuesse.- Depois riscou as palavras do
meio, substituindo-as .por como o porque; mas tornou a elimiJa·á-las,
escrevendo à margem as que vão no texto.
88
Heme ahorrescido el bato,
los apriscos y majadas;
ando apos unos nonadas,
no sé tras ellos que cato.
que ganancia y negro tr[ ato]!
[mal] el tiempo en porfias,
[ m ]al las noches, mal los dias,
p[ eor] siempre a cada rato
1

Acaso del tal error
que en ley de razon no cabe
la benzedera que sabe
lo quellotrará mijor?
Acudeme un mal temblor,
el coraçon se apressurai:
quiçá puede ser locura,
quiçá puede ser dolo r 3.
Si aquj estobiera mi hermana
(que nos la Uevó su esposo)
quiçá que ubiera reposo
esta alma mia mal sana;
fantasia loqa e vana
4
,
que me passaba tan presto
5
de la manana al sol puesto,
dei sol puesto a la manana!
No turan las cosas, no!
llevaránla lexos tierra;
60
65
70
75
80
1 suspirar noches y dias, loqas de mis fantasias (modificado em
de mis loqa8 fantesias) enganado a cada rato. A primeira sílaba das
emendas está ratada.
2 La cabeça al darredor
anda, o que se me affigura.
3 amor. ,
4 que la oya (emendada em oyala) de tal gana.
s de presto.
por el valle y por la sier1·a t
todo se me escurescic'•;
el coraçon me cayt) 85
soncas en tal desamparo'
que a pensar ratos me paro 3
si soy o si no soy yo.
l Iablar dotro no sabia,
de dos hermanas contaba. !)0
Con que sabor escuchaba
quanto dellas me dizia!
Era como a la porfia
dellas siempre ella contando;
yo no sabia 95
si era noche, o si era dia.
Soncas si fue [as ]sombramjento?
destos cuer[pos h Juidizos?
O me diero[ n bebe ]di zos?
que ando assi d[ e vien ]to en viento. 100
Acudiome al piensamiento
que en las bodas de Gujomar
quan ledo dixe el cantar
4
«Buelve acá pastor sin tiento•.
l\las po[ r ]que as si me acordé 105
de tal fies ta y tal guasajo:;
quiçá que en el mj trabajo
6
cantando descansaré7.
t «y,> foi escrito, riscado, e tornado a escrever.
, 2 quedéme a t. d.
3 que yo miamo a pensar me paro.
4 Primeiro escrevera el; depois riscou-o, pondo mi, que traçou
novamente, repondo el.
ã fiesta y guasajo.
6 cantando en e. m. t.
7 quiçá que descansar{:.
I•
!JO
Dias ha que no canté,
con el coraçon no puedo.
Estonces cantara ledo;
triste t, como cantaré?
Bnelve acá, pastor• sin tiento!
buelve! a que peligro vas!
no te engane el piensamjento.
Cata que te perderás!
Porque ansi te acucias, di?
las mentes enagenadas?
cata que a poqas passadas'!
nj humo no abrá de tj 3:
BuE>lve, loqo! ah perdimjento!
que si no buelves atrás,
solo en ver tu atrebimjento
de mjedo te morirás.
Aun estonces yo era sano;
fue (me. acuerdo) por el mayo;
luché; . corrij como un rayo,
riame bien
4
del verano.
Despues este mal.villano
a poqas muerto me tiene;
bien dizen que se nos viene
el mal de suyo a la mano.
Ay que locura he pensado!
quanto aquel yerro me plugo!
aora J?letido al yugo,
tirar! no saltar al prado!
t triBtrjste, lapso de pena.
2 soncas a poqas passadas.
3 no abrá humo de ... tj.
-i bien bien, lapso de pena.
110
113
120
125
130
135
91
1\las que ]mente aquj me he hallado t!
quan fria, clara, y quan fresca!
puede ser que me adormesca,
que me cayo de cansado 2, 110.
(II)
SANCHO, cl vl<ljo
En v ano el viejo affanó:
soncas, lo que me paresce,
que el mj moço no apparesce,
antes desaparesció.
Quantas vezes
3
esto he hecho. 145-
sin provecho!
aquj va, por ally va;·
desque he buscado
4
un buen trecho,
otro lo vido acullá.
Con el hijo yuntamente
te nasce mucha fatiga;
mas ya. por costumbre antiga
tras su daiio anda la gente.
Que descanso me fue dado,
mal pecado!
Ochenta anos quando menos!
mal con hijos que he engendrado,
mal con los hij os age nos !
Un lunes por suerte estraiia
(aun no me dexa
5
aquel dia)
del mal tiempo me acogia
1 aqui he hallado.
2 que cayo ya de cansado.
3 Quãtas est (riscado), lapso de pen3-.
4 corrido.
& no dexa.
150
155
160
..
92
por el pie de
1
la montai1a;
y una cabra çaharefia,
de la breiía
saliendo, que se perdiera,
por el hueqo duna pefia2
acoger se me qujsiera.
Doy tras mj cabra; plaiija3
un njfio rezien nascido;
como me toqó el oydo,
entro aliá
4
como venja.
Que mas me a h ia d' estar
son entrar
osadamente a ver que era?
Como jva sin embaraços
5
,
por mijo r i o divisar
6
saquélo fuera en los braços
7

Cierto es con razon aevido
al ganado mucho amor
y que no parta el pastor
nunqua dél todo el sentido;
que el su grande entendimjento
es sin cuento!
Digo os
8
de la cabra mj a
que con grande atrevimjento
defenderme lo queria.
1 de de, lapso não emendado.
2 d'una brei'ia
al encuentro me saliera,
mja, que se me perdiera,
3 Doy tras ella; aliá plai'iia.
4 entrome c. v.
165
170
175
180
185
a Faltava a princípio. A estrofe s•í tinha nove versos ( c u j a ~
consonâncias eram ia, ido, a.r, e1·a).
6 no pude bien devisar.
7 saqueio en los braços fuera.
I digoos.
93
Vilo emhuclto en tales panos,
el nino gracioso, y tal
que harto allij yazia mal.
y esto ha bien sus deziocho anos! 190
Qujen dei tiempo no se vela,
como vuela!
Paresçe que fue esto ayer!
Dandose como despuela
que prissa lleva a correr! 195
Truxelo a la mj Taresa t,
que podria ser dun mes 2:
eyslo que anda en quatro pies!
eyslo en dos, alto a la mesa 3!
lu ego [a J mayores alcança 200
en criança, .
en fuerças, más en saber .
. v ed de tamaiia' esperança
que uvimos de recoger 5!
Era a pensallo un espanto 205
los sus sesos y donayres ;
despues llevanse los ayres,
da les ojado y quebranto!
Saoia más que el jurado
bien jurado; 210
ayudaba a la mjssa al crego;
aunque es un mal muy usado
seres con tu hijo çiego.
t teresa.
2 mei3 (lapso não emendado por mie3, êrro freqüente entre luso-
castelhanos).
3 eyslo que se alça a la mesa.
4 tamanha.
s lo que tobe de r.
94
En amor harto era hijo
1
,
y el amor, esse es el que çiega
2
; 215
pero lo que nauie njega
que es menester más litijo?
No sé lo que diga, no;
triste yo,
que de dias a esta parte 220
dei guanado descuydó
y de si no sabe parte 3.
Dixome uno que lo vido
aun ao r a por. aquj.
Que es dei? bien diran- por mj 225
«perdido tras el perdido•.
Ando cansado y soy viej o ;
l que consej o
tomaré de mj camjno? .
Veis el mj perro ·vermejo 230
a la fé, tras mj se vino!
Y tu, hijo, andas huyendo
de mj, de val en collado!
Que mal consej o has tomado !
El porque, yo no lo entiendo; 235
sigues los vientos livianos,
no los sanos
consejos deste tu p a d r e ~ ;
olvidaste tus hermanos
con la vieja de tu madre. 2-10
H ame dicho un escolar
5
que sabe de encantar males,
t este hes hijo.
2 esse es que ciega.
3 A estrofe inteira está riscada de um só traço oblíquo.
4 dei viejo padre.
5 escollar.

que si e te rios ca huales
te conviene de passar,
y nadar por la laguna 245
con la luna
nueva, y buscar siete fuentes
perenales, y en caduna
lavarte, y cobrar las mentes.
Ay qujen tenga otra sospecha, ·250
ay qujen otra, y dicho me han·
muchas, y muchas diran;
mas sin tj que me approvecha?
La vejez es, çierto, cosa
trabajosa, 255
njiiez, sin distinto alguno,
moçedad, tan peligrosa
que de ciento no escapa uno.
Este flaqo cuerpo cansa,
d' andar tanto me despeo, 260
mas puede tanto el desseo
que algo el coraçon descansa.
Qujero dar vuelta all aldea.
Que pelea
tan luenga, en que este amor qujere I 265
que todo lo pruebe y vea
antes que me desespere.
Ay Alexo, ay hijo Alexo 2!
puede ser que te me escondes;
çierto que no me respondes 3; 270
yo por tj todo atrás dexo.
1 en que Amor quiere. •
2 ay mi h. A.
3 o fuyes y no respondes (ou no me r.).
U6
Matas aquel viejo loqo t,
a que tan poqo
de consejo y vida avança,
de li amar por ti ya roqo 2,
peor es, sin esperança.
(III)
LA I N F A de Ja fuente
Duerme el hermoso donzel,
no zagal, rio pastor, no .
.Mjentras al sueílo se dió,
275
mj alma diosele a el. 280
V a el sol alto, y con el
dei dia es jdo buen trecho;
no sé que de mj se es hecho!
será lo que fuere dei!
Loqa de mj, que a mjrar 285
me pu se, y dixe, tal Yiendo:
((qujen tanto applaze dormjendo
despierto, que es de pensar?»
Qujsierame desviar;
no sé qujen me buelve aquj. 290
Quan 3 tarde me lo entendij
que peligro es començar?
Cruel consejo me ha dado,
sin bien pensallo primero,
Anior, cruel consejero
4
, 295
((que lo tenga aqui encantado».
1
Alexo, a. v. 1.
2 ando cansado, ya roqo- ando tan cansado ya roco.
3 quam, lapso não emendado.
4 Os versos 254 e 255 estavam a principio invertidos.
ü7
Abiame yo sospl·clmdo
(nunqua se amú sin sospceha)
que la su via dcreclm
se jria, el sueno passado;
Assi que esta agoa eneanté.
Enquanto me la encantaba t
qujen las palabras gujaba
~ E l me es testigo) Amor fue.
A ora:! que más pc·nsé
a la sn cuyta mortal,
pudiera sufrir mj mal;
· el suyo, como podré?
Y quando el mjo qnjçá
no podiera sufrir yo,
que pagasse el que peq(j,
que la razon ansi v a 3.
Qual otra alguna será
que me quite desta culpa?
su beldad no me desculpa
antes más culpa me dá.
Ora, los ojos, dexeis
paguar a Amor su tributo;
no quede aquj nada enxuto,
llorad que gelo deveis!
Aves que os assi sabeis
qujçá quexaudo aliviar,
mjentras mj oyerdes quexar
ruegoos que me acompaõeis
4
:
1 en quanto ansi la encantaba.
2 aora.
305
310
315
320
3 Entre 271 e 272 o poeta escrevera primeiro su beldad, que culpa
ene ha? que riscou, dando outra expressão às suas idéias.
t O poeta escrcycra acomJJanh; reconsiderando riscou nh e con-
tinuou üci11.
7
98
D"Amor bien dizen que es ciego:
nino. liviano, y cruel.
:-ii en mj fuente açendió fuego,
qujen podrá valerse dei?
Poderoso Amor alti\·o,
qujcn darme razon sabria?
mj vida era agoa
como agora es fuego bivo?
Sordo en todo, en todo çiegoJ
todo bebrages t de hiel.
todo sangre, y tudo
tal es el, tal dizen dei!
ALEXO
Que es esto? soncas durmja?
Andaba por unas
d'nna parte y d'otra penas
do nunqa el $Ol deticubria.
Pnesto en mortal agonja3
no vien<lo -esperança alguna;
quexoso de la fortuna
en lloros me deshazia.
Y entretanto que me quexo
1 brebages.
solo a la muerte pensando
4

oya de quando en quando
a gritos llamar
2 soílaba con u. b.
l Era puesto en agonia.
4 sola la muerte esperando.
3:15
330
3.35
3t0
3!5
Si es qujç:í. que si me alexo,
que lexos me jrá mjjor? 350
En cortesia f d' Amor
y de Ventura lo df'XO.
Semejaba çiertamente
la voz· dei buen viejo rnjo;
abaxo -espumaba un rio 355
que nunqa sufriera pu ente;
via la muerte presente.
Siendo.en tal aprieto puesto
halléme fuera de presto
dei sueiio y del açidente. 360
1\Iifé, sea lo que fuere,
mal paresçe · y mal será;
el coraçon me lo dá;
haga Dios lo que quisiere!
Huertemente me. requiere' 365
Soledad, huerte el desse o;
que vida sobre mj voo?
Sofri ré lo ·que pudiere!
La voluntad se me ençierra;
afuera, afuera consejos! 370
Adios mj tierra y mjs viejos!
gran mal de vos me destierra.
Si me muero en otra ·ti erra
los huessos acá me trayan!
Q.ue mundos piensas que vayan 37ã.
aliá tras aquella si erra?
No cale· tiempo perder;
mas del perdido, que es mengoa?
palabras vanas la lengoa,
los ojos, agoas correr. 380
t contetJia, lapso de pena, emendado.
2 hue1·te me requiso, lapsos logo emenda•Jos.
100
Lo que ha de ser ha de ser;
<le que sirve el dilatar?
de los niiíos
1
es hablar,
de los zagales, hazer.
::\Iatarmehe la sed de nuevo!
que gran secura que ·tengo!
Con que cuyta ora a tj vengo,
fuente que en mj alma llevo!
8i tanto a bevir me
que ann bolviendo por aquj,
beviesse más ledo en tj
de lo que aora en tj bebo! 3
Encantado dize
No veo al bosque salida.
La vista se me esvanesce;
por toda parte anochesce;
mal se ordena e[ sta p Jartida!
ala fé que se m[ e olvi]da
lo que queria de[ zir!. .. ]
Y o era el per a hu[yr],
vos no pera ser hu[yd]a.
(Y)
ANTON -JOAN PASTOR •
[ J s·uspirado has, companero?
[.J]. PAS. No sé como no lloraba! .
t ninhos.
Sabes porque suspiraba?
porque aquj cantó R ibero;
2 Si a bevir t. m. a.
390
395
400
3 aora bebia, lapso logo emeudado. Era lição antiga de D, a qual
o poeta ia modificando.
·• Por lapso Miranda começara com o nome de .Toan pastm·, que
llOr isso cancelou.
101
aquj nucstl·amo escuchaba;
rodcahanlo pastores,
colgados de la su boca,
cantando el los sus amores!
Gente de firmeza poca
que le dió tantos loores
y agora appoca!
ANT. Esso falta, Joan pastor!
soncas, porque suspirar?
a que se pueden alçar
ya los ojos sin dolor?
y a que se pneden baxar?
donde los pornás enxutos?
adelante? o cara atrás? t
La tierra njega sus frutos,
el seml>ralla es por demas,
los ayres todos
los hombres cada vez más.
A la sombra d'aquel pino,
que a tal dicha se planM
(no ha pero mucho, no)
que todo el campo vezino
de la su rueda assombró,
vineme á R ibero ver 2
como otras vezes solia
(quan presto huye el plazer!);
consigo te tenja,
a cantar y a taiier
mjentras la siesta cahia.
Rebuelvo .. en el piensamjento
lo que cantastes, estando.
t ao delante, lapso logo emendado.
vineme Ribcro a ver.
4.05
410
4:15
420
425
.{30
435
102
La memoria v a bolando;
del ton me acuerdo y del cuento,
en busqa. del cantar ando.
Ora atinemos: al ton,
amjgo, que jure a mj: 440
este era el. tiempo y sazon,
el lugar este era aqnj.
Las pala bras , tras el. son.
ellas se vernan por. si.
Jo. PAS. Porqu'esse cantar fue elllanto
1
445
del cisne, como se cuenta,
en su postrimer affrenta,
qujerote ayudar enquanto
2
corre tanta y tal tormenta
3

ya vees que mundos son estos!
nunqua tales fueron, creo, 4W
en las mudanças tan prestos;
truecansete a cada oteo:
aquj quantos buenos gestos
vij poqo ha! y uno no veo!
l\Ias las quexas a de parte ! 455
1 fue llanto.
a lo que mandas vengamos.
El cantar. que aquj cantámos
fue sabes de lexos parte,
do buenos dias passamos.
Yo le llevaba el descante; 460
el començara primero
con aquel triste semblante
suyo, en un modo estrangero
4


2 ya quanto ou son quanto.
3 vees que corre tal tormenta.
-t suyo y m. e.
A-s.T.
103
Y a, ya. ya, voyme delante
en persbna de Ribero:
Amor burlando Ya; muerto me dexa;
tiene de que por cierto; a su merced
465
como de seiwr L vi]ne; armei la red;
pusome en prisio[ n dura], onde me aquéxa;
ead'ora más se [alexa] 460
de mj, mucho cr[uel.] Qujen me desmiente?
[A h] que lo saben tod[ os] : qu j en gaíió t
[ el] preçio de la lucha, esse perdio.
[Enem ]igo seno r que tal consiente!
(J. PAs.] '[Enemigo se]fíor que tal consiente! -175
[o antes favor ]esçe tal maldad!
2
[Todo se rige] por la voluntad!
Si esto alguna ora fue, eslo al presente!
un pastor
3
inocente
la sampoiia tanja en regia estrecha -180
del tafier affinado, y ansi cantaba;
pingo más un zagal que ende silbaba!
Ved Razon ante Amor quanto aprovecha!
A:sT. Ved Razon ante Amor quanto
1 ganó.
moçuelo antojadizo y voluntario, -185
al servidor mayor mayor contrario;
turbado y siempre
4
lleno de sospecha,
uno, porque coecha?
otro, por atrevido y mal criado?
otro, por no sé que- qujen lo adevina? -190
qujen lo piensa enloquesce, y se esmagina.
Sin ventura que hará qujen lo ha provado?
2 tanta desigoaldad. ·X a parte ratada talvez houvesse: [y fa-
vo(esce. '
3 O poeta quis pôr escreveu as }1rimeiras duas letras e
tornou a riscá-las.
4 bolando, torlo 11: d. s.
104
Jo. PAs. t;in ventura que hará qujen lo ha provado
y lo prueha cadora? Estrafia suerte!
pudo aver qujen assi corra a la muerte,
d' otre cuydoso, de si descuydado?
Amor cruel te ha dado,
Zagala hC'rmosa, pero fémentida,
enteramente todos sus
más jngrata muger de las mugeres 500
qujen el alma llevó
1
, lleve la vida!
ANT. Dime, Zagala, y como puedes ver
el sol en paz? y como !as
de dia, viendolo a el, de noche a ellas,
como puedes dormjr? como come[ r]? :,o;>
que piensas al tremer
de tierra como ogaiio? o si ar[ de el çi]elo
piensas que es juego? o que? n[ o pien ]ses tal
que un rayo fue v ano, [ otro] hizo
y adonde no caye el, caye el reçelo. 51•)
Jo. PAs. Aquellos ojos tuyos que al passar
AN'f.
1 levó.
:r t;C!.
no sé lo que callando me dizian,
aquellos qu ·esta triste Alma 3 embaian,
un tiempo ·a mj plazer, otro a pesar;
el dulçe mormurar 515
con la tu compaiija, y de color
mjl vezes trastrocars'e en un
todo soltaste olvidadiza al viento.
y bives; muero yo; snfrelo Amor.
Hasta quando seré tan loqo yo? hasta 52().
quando tan sin juizio y buen sentido?
El tiempo y la Razon piden olbido.
J la mj alma.
105
Amor solo no qujere; y sul o cl hasta.
(lne niehla esta tan hasta
entre t el triste de mi se pone y el puerto? 52á
que viendo lo rnijor lu pior sigo,
tamb.ien oydos çerrando al castigo
con mjs cuydados vanos de concierto.
Jo. I,AI3. \a sé que has de fazer quanto qujsieres1
Pero díj : que seíior nunqua tan bravo 530
fue que dixiesse tal creres mj esclavo,
yo no tu senor, no, nj sé qujen eres»?
Fiaste en tns poderes
y disigoal. Sobervia es esta
que se pueda sofrir con paçiençia? 535
no basta tanto mal? no la jnnoçencia?
mas ai cabo, en fin fin, tal la respuesta?
3
ANT. Quando lu ego te vi, vi te piedosa;
yendo adelante, sin más lo pensar
4
supitamente te mudar. 540
Que es esto? es bien querer tan mala cosa?
Ora se vaya el carro ante los bueis!
los pexes a pascer vayanse ai
Labren millanos
5
, buele el ganado!
Oydo
6
avia [Amor] destas tus leis! 545
Jo. PAs. No prossigujo má[s Ribero];
antes, (como era c[uydo]so)
alçó los ojos pens[ oso]!
1 que entre.
2 ufano, lapso não emendado.
l ah que respuesta!
t por mj amor sin par.
5 labren las aves.
6 Antes de oydo está por lapso a primeira sílaba de sabido, logo
riscada.
106
Que es de tj, buen compaiiero? I
donde escondido te me h as? 550
hablaba a tiempo y lugar
[mas] despaçio.
Pastor bueno, si al palaçio
no dexaraste enganar!
Lacuna 1.
3
-Falta o texto correspondente às estrofes 63
a 78 da minha edição. Isto é: a conversa de Toríbio com
João Pastor e com Antão, cujos versos alternados êle ou-
vira, escondido; sendo por êste motivo obrigado a, pela
sua vez, .cantar uns vilançetes à maneira nacional- com-
posições que os dois elogiam muito.
(VI)
Jo. PAs. [Quantos buenos naturales]
hay a quanto aquj parescen '·
lias, delicados zagales
en deleytes se esvanescen!
3
Cuerpo delicado y tierno
se demuda
al trabajo quando suda,
al salir fuera, en jnvierno.
A la risa (no digo al ')
a vezes no sé valerme,
que se qujere hazer jgoal
555
560
I A lição primitiva rrque fue de tj, compaíiero» teve duas emendas
(cque es de tj, mi compaíiero», e (cque fue de tj mi compaiiero».
Finalmente riscou tudo, escrevendo à margem apenas •huen eom-
paíiero», de sorte que é preciso completar o verso com partes,
ri'icadas indevidamente.
2 hay por aqui si qujsiessen (lição de .A). Na margem há a nota
que não sei decifrar. Já disse que a letra parece do seculo rm.
3 se enternescen. ·
ya no digo ai.
107
el que t duerme al que no duerme, 565
y ans_i tendido y dorrnjente
qual se- yaze,
dizir «esto [no] me plaze11
le es razon muy suficiente!
ANT. Es ansi çierto, sin falia; 570
mas caduno aliá lo vea!
V engamos a qujen se .calla,
y sabe dios que dessea!
De cantares estrangeros
sed nos muestra
2
; 575
seria la debda nuestra
pagar, y mas sin dineros.
Jo. PAs. _Grande o pequena que. sea,
cosa que Turibio mande,
cuyde por çierto, antes crea, 580
que holgaré más de ser grande 3;
queria en toda manera
el cantar hueno! .
no tomára de lo ageno
si de mjo lo tubiera!' 585
Desseoso de ver tierras,
uve de passar los puertos;
puseme a las altas sierras
por camjnos poqo abiertos;
aliá que pastores vij ! 590
quan ensefiados
a cantar versos rimados !
dirvoshe lo que oij 5.
1 el q que, lapso emendado.
2 gran sed muestra.
3
grande foi mal traçado, riscado e escrito· de novo.
4 començaré por lo. ageno,
despues todo quanto el qujera.
r. d'unos que oyhij.
108
Vi no un dia t un viej o cano
allij ; acaso, a mj ver;
tomó la sampona en mano
toq,;, bolviola a poner;
todos, sobre todos yo
desseando
de oyr más, y porfiando, 600
el buen viejo assi cantó:
Los gujsados d'Amor son coraçones;
los nuestros ojos son sabrosas fuentes
de que beve con sed; son suaves sones
estos nuestros suspiros jnocentes; 605
tratados cruelmente en sus [pri]siones,
del todo enagenados de las mentes,
celos, cuydados, desto üS dá.
Lo que tiene Amor, como os dará?
No veis que v a desnudo? y que no lleva 610
syno con que haga mal; bien no njnguno?
3
arqo, fuego, saetas con que os prueva
y da tormentos cadora, importuno
4

Vos uno al otro
5
os hijs dando la nueva
que es falso, que es cruel, no queda alguno
6
• 615
Loqos ( aun diré más: loqos perdidos)
ya que ojos no teneis, tened oydos!
Y tu, que enfingimjento es esse tuyo,
njiio (verguença nuestra), atado y çiego?
Huyes si voy a ti; sigues quando huyo, 620
vençedor y vençido luego y luego.
1 un dia em entrelinha.
2 Primeiro no fôra omitido por lapso.
3 mal baga y b. n. n.
·i tormentos disiguales uno a uno .
.!J vos uno a uno.
que es jmportuno.
ANT.
f veer.
109
~ o veis que Amor nu tif'n nada de suyo?
Nos las flechas le damos, nos el fucgo.
Quereis ver I su deidad tan e'spantosa?
Abrid lus ujos bicn, no verPis cosa. 132á
No os pongan mjedos sus espantos v anos,
no la.s sus! truhanarias, que esvanesce
como vee ·que con el sois alas manos;
a.lli fuycndo en ligereza cresce
engano (ah tan comun) de los humanos! 630
encantamjcnto que nos enloquesce! ·
niebla que con un soplo se llevanta,
mafioso njfio que njiios espanta!
3
Cantado que el buen viejo ubo
toda aquella nuestra gente 635
como personage estubo;
yo tambien por consigujente.
En esto liçençia toma
el viej o fino;
paresçia peregrino
que j ba en romaria a Roma.
l'rfas no es bien que esto assi passe
y que solo Anton se quede
riendosse si no cantasse;
que sabe, que vale, y puede.
Si no que nos quexaremos
al mayoral!
La su sampoiia zagal
tomado ha; bien lo tenemos.
A veis tan corteses sido
uno, y luego otro despues
645
650
~ no sus truhanarias.
3 njü.o que otrosi si njiios espanta.
110
que aunque aya. a ·quedar. corrido
sea antes que descortés •.
La mj sampofia aldeana.,
(.,que os dirá? 655
Sea un cantar de: .acá
destos de la tierra llana.
Villanciqo2
Quando tanto alabas, Clara,
Bras que a luchar se desnuda,
la ·mortaP de· la mj cara ·
que ·frios sudores suda!
Ora alabas la blancura
del bivo y dei blanqo pecho
con toda aquella hermosura
del su cuerpo alto y derecho
qujen fuera que tal pensara?
ah la mj suerte saJiuda!'
verte contra tj
5
tan clara,
verte contra mj tan cruda.
Los sus cabellos- son d' oro,
la mansedumbre- suave,
las fuerças-como d'nn toro,
la ligereza- d'una ave.
Comjgo el alma no para,
huyendo a la cuyta aguda,
quando tal passion dispara
y al gesto sale desnuda.
1 que no descortes.
2 Ri3cado; mas não substituído por Cantiga.
3 la triste.
' Entre parenteses.
s Por lapso o poeta pusera primeiro mi, en1 logar de ti.
660
665
670_
675
111
Tambien de los mjs· cordojos,
de les mjs vasqos y fuegos
son testigos muchos ojos,
que lo ven hasta los. çiegos.
Las mudanças de mj cara,
el mj pecho que amcnuda
muestran la mj passion clara;
la mj lengoa sola ·es muda.
Entre des males tamaiios
que .no sé, triste, qual vença
1
,
grandes fuegos de mj-s·
grandes de la tu verguença
3

680
685·
Si del todo
4
me· pasmara . 600
(que era de pasmar sin duda),
el mal mucho me a.yudara .
que en todo me desayuda.
J o. PAS. Turibio, que. te paresce,.
d'Anton, mj buen compaiier-o? 695·
No menos loor meresçe
5

esto tal que lo estrangero.
TUR. Estarseha con -qualqujer
6
modo
a la pareja!
l\Ias. . . q uien viene; .aliá conto do? 700
El Bobo· -es en la conseja!
(VII)
PELAYO. Yo vengo fuera de mj,
mis amigos, y no poqo!
que en el bosque un zagal vij
que yo juzgaria por loqo.
1 ardo que no sé qual vença.
2 gran fuego de los mis danos.
3 grandes de la mi verguença.
t ·Por lapso o poeta primeiro tomo.
s loor menos no meresce.
6
qual está entre linhas, por haver sido omitido por engano.
705-
112
:rtlas porque son muy
los modos de enloqucç(.•r,
deste diria, a mj ver,
que anda componjendo versos.
Jo. PAS. Dalo por mal remediado! 7'10
quantas, si essa es su dolençia,
comerseha como arraviado t
sin njnguna paçiençia!
Destempladas las tus venas
que temblan y arden despues, 715
pera todo ay cosas buenas,
esse mal sin remedio es.
PEL. Juro y perjuro a mj fe,
amjgos, si no lo veis,
claramente me lo sé 720
que nunqua me lo c.rereis.
TuR. Eya pues, toma la guja;
veamos que es lo que
PEL. Siguidme, mj compafiia! 3
alafé yo dixe y fize !
V eislo! que anda çaharefio
acá y allá, murmurando
4
;
en espaçio tan pequeno
tantas vezes suspirando!
(VIII)
ALEX. (1.) :Mal aya un mal tan estrano!
pienso veros, nnnqua os Yeo!
1 araraviado.
730
2 Por engano, o JlOCta escrevera la antes de toma, e di;:u em
lugar de dize.
3 Por engano, o poeta antepusera o segundo verso, tendo de
riscá-lo em seguida: <1alafe y (sic) y fize,>.
t acá y aliá mjrando.
llH
Quanto que elevo al tlesseo
1
,
y quan pO«fO ai desengano!!.
To1:. O bien de mj! y que bueno!
mjl cosas t<tlcs se dexa 735
dizir; q ujcn tan bien se «tncxa
no está de si muy ageno!
PEL. Que hermoso y 'lu e bien dispucsto!
mas con
3
que ansia que suspira!
Veislo 'lue bnelto acá mira; 7t0
veislo allá, buelto tan presto.
ALEX. [2.) El mj coraçon mal sano
fuessemc, no sé tras qujen;
esso se buscan tambien
mjs loqos ojos en vano! 74.3
.Jo. PAs. Segun suenan sus palabras
diria yo dd mochacho
que el amor lc daba empacho,
ni guardaba aquj otras cabras
5

ALEX. ,3.) Aquel gran golpe, por medio 750
que este mj pecho me abrio,
de quantos males me dio
no me dió solo un remedio.
Tu R. Cata, cata, Joan pastor!
aotas hien lo entendiste! 755
luego en !o viendo dexiste
él su mal
6
que era d'amor.
ALEX. (4.! Que la mj alma se vea
en tal aprieto y fatiga!
t ay que desseo y engai'io.
2 ay quan p. a. d.
3 con faltava a princípio.
4 diria d'este mochacho.
5 y el no guarda a. o. c.
6 que el su 1n.
8
114
pues la fortuna encmiga,
pues amor q ujere, ansi sea!
AN'l. No sé que d' esto creyesse t
con el mj seso harto poqo:!;
mas nunqna conocij loqo 3
que enamorado no fuesse '.
Jo. PAs. Si ya la vista no se embrusqa
fneme 5 alçando el sobrecejo.
y este es dei viejo
Sancho, de qujen anda en busca.
ALEX. (5.) Por estos bosques sombrios
6
,
por puertos tan mal seguros,
entre enemjgos tan duros
que descuydos son los mjos 7
ANT. Habló contigo?·o con qujen?
digote que este zagal
ansi se quexa del mal,
soncas, que paresce bien!
TlJR. Ah nora mala ello se a!
io puede ver sin duelo!
que tan sesudo moçuelo
nunqua viosse 8 en nnestra aldea.
Jo. PAs. :Moço pera dal" · consejo
no es cosa de mucha tura;
más assiento haze locura
en la cabeça d'un viejo.
1 No (modificado em no) sé que desto me crea.
2 mas con el mi seso poqo.
3 nunqa, per nunqa vij loqo.
4 que enamorado no sea. :
!i fuesse.
6 por un bosque tan sombrio.
7 que descuydo es este mio?
s vvo, lapso logo emendado.
760
765
770
775
780
7135
ALEX.(G.)
PEL •.
Jo. PAs·.
115
'
Estos ojos tan sandios
que me solian ser buenos,
otros eran quando mjos .
otros sEm •. quando agenos t.
V amos su padre a. llamar! t
~ l , u a l padre? vamos al enra
(que es demonio, no·locura3)
que· lo. venga a .. esconjura.r.
Amor cruel, y no tal
co!Do a gra.n tuerto se nombra,
nolo• dexa a sol nj a sombra;
haze· como suele mal.
190
795
1 Desta quadra há no manuscrito tr&s ou quatro redacções
diversas, entreveradas de tal modo que não sei se cheguei a
desenvencilhá-las. Parece-me que o poeta <>screveu na primitiva :
Seanme todos lestigos :
aoy nn coyl&do zagal
que nunqua hizo a nadie mal!
haume cercado enemigoF.
Depois pensou em alterar o primeiro verso; começou a escrever
devian me, mas reconsiderou e riscou os dois vocábulos. Em seguida
substituíu as linhas do meio, pondo:
nn11qa a moço Di a viejo •
bize mal, soy zagalPjo.
Não gostando, tentou=
aoy me un simple zag&l,
(ou: aoy me ao tan afmple zagal)
q ~ nunqa llize a ll.&die. mal.
Quanto ao verso final, ba o ensaio:
leugo çien mjl enemigos.
Logo reintegrou todavia a lição:
han me cercado enemlgos.
Afinal renegou todas, pondo à margem a que vai no texto. M a ~
mesmo nessa hesitou, escrevendo primeiro: c<Estos mis ojos san-
dios», e alterando aEstos ojos tan sandios».
2 Por engano o poeta escrevera ramos a llamm·, ,-endo-se por
isso. obrigado a riscar o verbo.
3 (que esto es demonio o locura).
116
(AI.EX.] (7.) Consejos no me convienen
con mjs v anos piensamjentos:
unos se van con los vientos,
800
otros con ellos se vienen.
PEL. No es tiempo d'otra respucsta
son que a la fuente te espero.
Tun. Como corres tan ligero?
paresçe que es sobre apuesta.
805
.Jo. PAS. Estos corriendo a que van
uno tras otro a porfia?
..ANT. Corren a la fuente fria,
pienso que la beveran t.
Jo. PAS. Todos nos vamos aliá,
810
que nunqua tube tal sed;

si no la mato, sabed
que ella a mj me matará.
Encantados dizen:
ANT. Viste jurar Violante,
viste que fue por demás!
815
Como quies, pastor, que cante?
O rios corred atrás
y IllOntes id adelante!
'roR. El monte arde ai d' arredor,
tira Amor flechas a pares.
820
Piedad, o piedad, seiior!
quando más crueldad pensares,
mjembrate que eres Amor.
PEL. Por estos buenos abrigos
ay que zagala, Clarença! 825
sean los ojos testigos!
Reyne, biva Amor y vença
y mueran sus enemjgos!
I tan bien de sed tengo afan- tan bien de sed siento afan-
pienso que aber (lapso por bebe1" n me la han.
117
Jo. l)AS. çegucdad humana
que assi a todos nos destruye,
vedes que es jncierta y vana,
vedes que la vida fuye ·
andais os de oy en maf\ana.
(IX)
LA NrN.t'A de la ful'ntr
mja dulce y clara,
turbia agora y mudada
1
,
d'estos no <jUÍsiera nada;
solo el primero abastara!
Lavará aquj la su cara,
beviendo, un santo romero.
Bolverás; como primero
verán estos a la clara i.) •
f
III
r Vilancete ele D. Simão tla Silveira
Tu presencia desseada,
zagala desconocida,
l do la tienes escondida?
Ajuda de F1·ancisco de Sit de },feneses
El cielo niega el rocio,
el ganado se nos pierde,
el campo ya no es verde
ni corre tan claro el rio; ]
t turbia agoa, agoa mudada.
sao
835
8!0
2 Entre (cbevanu e (cestos»> há y; entre (<estosu e (tau há veran.
Como tudo esteja riscado, não sei bem se no verso modificado ha-
víamos de eliminar (cestos»>, lendo (<Bevan y veran a la clara?,,,
Conforme já expliquei, o poeta rejeitou a estrofe final, pondo o si-
:J.al do remate f por baixo das últimas palavras de João Pastor.

118
secósse el va.lle smnbrio
con la. tu triste partida,
zag&la desconocida.
Ajudou Fr[ancis]co de 8âa de Miranda
Has la tu tierra assolada, 845
siendo tu la su riqueza;
nasçida en ella y criada
podiste hazer tal crueza?
En miseria y en pobreza
la dexaste en tu partida, 850
y a mj coytado en tal vida.
Oidos que ensordecistes
a suspiros y ..a los ruegos,
que veran los ojos tristes,
aqui dexados tan çiegos? 855
Vasqos y desassossiegos
dexas en lugar de vida,
tras los tus ojos fuida.
Las yerbas, las fuentes frias
y las -flores
1
qne has pisado 860
. qnan.to te via y ·u vias,
iodo queda avelenado.
U n triste un Çiego, un coytado:!
un loqo ·en la tn partida
pasmando pierde la vida. 865
IV
Vilancete d' Ant[ oniJo d' Azevedo
Polo bem mal me fezêestes!
mas nunqua eu tenha prazer,
· se mal vos posso querer!
t fuentes '(lapso de pena:).
2 un. cansado.
llU
.Fôr' ela t rezão jgoal!
mas vede. as l(•is 'lu e amor tem:
que em vez dP vos querer mal,
assi vos quero mor
1
bem.
E passo tanto jnda alem
llo que soy d'aconteçer
que me venh' a aborreçer3.
v
Cantiga
De quem me devo queyxar?
De vós (que podera ser)?
Xam vos sey, triste, culpar;
fiqa súniente h o sofrer;
se mais fiqa, h e suspirar!
Ilos meus suspiros teegora
casi eram contentamentos.
(tambem de prazer se chora)
Entraram males de fóra
8i0
875
880
nam hum, nam dez, mas seisçentos ;: ~ f 885
nam lhes abastou entrar
mas jnda sempre creçer.
Ronde ha d'ir jsto a parar?
nam fiqa se nam sofrer
e o mudo do suspi:far.
)las h os sospiros. que são
1 Fô rêela.
2
môor.
salvo ar espalhado uo vento?
Ronde brada ho coração,
[nossos ouvidos não vão;
deixam tudo ao entendimento.
890
3
Acento circunflexo virado sôbre: for, ma3, v ~ 3 , aaborre&cer.
ltO
Que m'eu quisesse queixar,
qut·m me poderia
Deixai e venha o pesar!
(-lue pode o pouco empecer?
que pode o muito
Lacuna 3.
3
, cuja extensão é impossível calcular, visto
a coordenação ser diversa nos manuscritos subsistentes.
VI
lA e8te cantctr de moças ao adufe:
Naquella serra quero ir a morar,
quem me bem quiser, lá me irá buscar.
Nestes povoados
tudo sam requestas
1
;
deixaime os cuidados,
que eu vos deixo as festas!
D'aquelas florestas
verei longe o mar:
pôr-me-hei a cuidar.
Responde-lhe outra companheira cl'O'Itlra opinião:
Sombras e agoas frias,
cantar de aves . . bem!
Quando as tardes vem,
por cá bradarias.
V es que pressa os dias
levam sem cansar!
nunca hão de tornar!
A primei?·a:
Não julgue ninguem
nunca outrem por si!
1 Ou com J: ((São os povoados- todos de requestas».
121
mais d'mn bem que vi
a vida nam h•m.
Não deixa este berr.,
onde se ele acha. r,
mais que desejar .
. l otth·a:
1 )eixa as vaidades,
que da mão á boca
o sabor se troca,
trocam:-se as vontades.
Sam essas suida(les
armadas no ar;
nam podem durar .
• 11n-imeira:
Naquella espessura
me hei de ir
venha o que vier,
achar-me-hei segura.
·Se tal bem nam dura]
ao seu passar
tudo ha d'acabar.
; VII
A este Vilancete velho
Posiera los t mjs amores
en un tan alto lugar
que no los puedo olvidar.
A mj mal, tan mal creyuo,
sin cura, sin fin, sir1 medio.
era remedio el olbido,
yo olbidéme del remedio.
895
fi{)()
t Antes de loll lta y riscado. Prodxelmcnte um yo interrompido.


1 2 ~
Por vós no duelen dolores,
por vós no pesa el pesa.r :
como os podré olbidar?
Por vós el contentamjento
(qujen nunqua tal cosa oyó?)
entre la muerte y tormento
lugar pera si falló;
y en medio de mjs dolores
que en fin fin me han de matar
a plazer se puede estar.
VIII
A Esto1.ttro
Secaronme los pesares
los ojos y el coraçon;
que no puedo llorar, no.
De quedar ansi t qual quedo,
no sé como pudo ser;
otros lloran con plazer,
yo con tristeza no puedo.
Ora, si un coraçon
2
ledo
puede li orar, como no
Hora un [tr ]is te· coraçon?
IX
A e L sta ca ]ntiga t·elha:
En toda la trasmontaiia3
nunqua vij cosa mjjor
905
910
920
I
que era la esposa de Anton, 925
vaquerizo de )fourana.
:X aquelle longo desterro
que por vontade segui 4,
1 De quedar qual asi quêdo.
2 co1·acon, por lapso:
3 trasmontanha.
4
que sem força -outra. seguj.
1 ~ 3
(quer fosBe rezão, quer rrro,
quis ho coração aesi),
vij h lia visão illfana t
nam sey h o que era, ou 'fUC n ã o ~ :
fosse verdade ou visão,
hia em trajos de serrana.
Xam era ho coração quedo,
hia e tornava a mjude:
ora ôo prazer, ora ôo medo
tiveme h o milho r que pude
3

)laa sorte quantos bens· dana?
bradar e queixar em vão!
Suspirava por ..Antão
hum vaqueyro de )fourana.
[Olhos que taes olhos vistes,
vivei bem aventurados!
• e porém ouYidos tristes
pera tanto mal guardados!
Que é isto que assi engana
e assi despreza a razão
que sospira por Antão
quem não tem nada de humana?]
Lacuna 4.a
lA ette cantar 1:elho:
Todos vienen de la vela,
no viene Domenga J
Quantas buelven, triste yo
todas aflimencié bien:
1 humana.
una falta; y es por qujen
quanto a mj, nadie bolvió!
2 aas vezes cuido que não.
3 Circunflexo virado sobre quedo, medo, millwr.
930
935

940
945
..
124
Que haré, desdichàdo yo
1
,
con que la vida sostenga
hasta que mj vida venga?
XI
Cantiya
I.Jos agravios que recibo
de qujen yo menos deviera,
dexadme llorar siqujera
ya que pera más no bivo!
Dadme esta amarga salida
al dolo r! esto que os cu esta?
No deçienda a la otra vida
con tantas mjs j quexas d'esta!
l\ljentras d'un mal tan esquivo
no qujere más mal que yo muera,
955
dexadme llorar siqujera! • 960
Terné solo esto de bivo.
XII
Cantiga
Nada do que vees h e assi !
nam te mudes! nam te a bailes!
tudo he atirem-me d'aquj
matem-me nessoutros v alies!»
Nam te engane ho que parece!
Isto he sonho e mostra vãa,
que de fora 3 resprandeçP.,
dentro nam ha cousa sãa.
1 ah que haré coytado yo.
2 Talvez mil?
3 fôra.
965
(•orrij montes, corrij valles, !170
Vilcwçctc
desatinado apc'ts tj.
Dejxa-me acabar ja assi
1
n:un me ver mais males.
XIII
fcyto (por outro que diz
Serrana, honde jouvcst('s, •·te.)
casi ('m sonhos.
Cor·ação, bonde jouvestes,
que tam maa noute me deestes?
Toda a noute pelegey3
eu, que mais já' podia;
busquey vós, nam vos achey;
sem vós, eu soo que faria?
Deestesme dôres de "dia;
pollo que assi me fezeestes
de noute dôres me deestes!
XIV
E3pctrça aos tempo3
N am vejo ho rosto a njnguem;
cuydais que são e nam são;
homens que nam vão nem vem
pareçe que avante vão.
antre h o doente e h o são 5
mente cadora ha espia;
no meo do craro dia
andais antre lobo e cão.
l jltasi.
2 deixes (lapso, corrigido imediatamente).
3
ba .. pelegey.
jâ.a.
;, .Êste verso, omitido por lapso, foi lancado à margem.
975
!l80
985
990
12(:)
XV
P01· este cnntar velho a q ~ U ajudo.raon muito8: 1
Qujt>n viesse aquel dia
quando, quando, quando
saliesse mj vida
de tanto vando!
Franci8co de Sá de Jliranda
Los mjs tristes ojos.
tan tristes, tan tristes,
quantos mjl enojos,
que plazeres vistes!
Vistes esperanças,
vientos, vientos, vientos!
quantas de mudanças,
quantos de tormentos·!
Vistes aiiadidas
a mjs penas, penas;
vistes muchas vidas,
vistes, mas agenas.
Consej os me dieron
tan sanos, tan sanos,
que ayna me uvieron
muerto a las mjs manos!
A las manos mj as ;
por çierto, por çierto
manos no sandias
si me u bieron muerto!
A la suerte mja
plugujesse, plugujesse
• que venjesse un d i a ~
que otro mãs· no viesse! 2
1 A fôlha est{l tam aparada que mal se lf.em as palavras.
2 que otro no sigujesse.
995
1000
lt)()5
1010
1015
l senã.
127
XVI
[ Sextina ti italiana, porém na notsa ntedida J
Não posso tornar hos olhos
donde hus nam leva ha rezão.
quem porâa ley âa vontade,
ajudada do costume?
vontade que has S\l&S leis
manda defender por força "t 1025
Isto que al he senão t força
que me fazem estes olhos?
quebrantadores de leis
brada após mi a rezão ;
por demais! vence ho costume,
vençe ha vençida vontade. 1030
Aquela jsenta vontade
cahio ante ha mayor força:
segue cativa ho costume.
Nam posso soomente hos olhos
alevantar aa rezão, 1035
que faz e desfaz has leis.
Alçouse Amor e fez leis
como foy sua vontade
: a gram mjngoa da rezão.
ou nam he por força 1040
que lá se me vão hos olhos,
honde se vão, por costume.
Nam valem leis sem costume,
val costume contra has leis.
Coytados destes meus olhos 1045
que assi seguem ha vontade
por ti ranja e po1' força!
N am val, nem ousa, h a
2 erguida contra a .rezão.
.128
[Nam s]ey que faz ha rezão
1
,
desatinou ho eostume '·
Que farei âa mayor força?
ajam piedade has leis
de quem, entregue âa vontade,
vay em poder dos seus olhos!
Olhos, após a vontade,
as leis, apf)s ho costume,
após ha força, ha rezão!
3
X.YII
A e3te cantar de mor;a3:
)finjna fermosa
que nos meus olhos andais,
1050
1055
dizêe, porque m'os quebrais. 1060
Em vos vendo volos dey;
logo vos passastes hij ;
nunqua mais olhos abrij,
nunqua mais olhos çarrey.
Vós lhe soes regra, vós ley: 1065
nam fazem menos nem mais
d'aquillo que lhes mandais.
Em pago d' esta verdade
que estranhais porque n[am se usa],
quebraismos; [h a alma confusa] 1070
nam sabe mu[dar] vontade'.
1 A la fé dorme ba rezão.
2 adormentoua bo costume.
3 Circunflexo virado sobre apo3, llas, força.
4 Estes quatro versos tiveram primeiro a redacção seguinte:
Em pago de tal vontade
que vistes c csplrmentastca
de todo aasi m'oB quebrastes
sem algua (aic) piedadP..
Da emenda lançada à margem faltam nas proyas fotográficas as
letras que yão entre parl-nteses. Por informação particular sei que
estão no manuscrito, onde falta apenas a ítltima letra de confusa,
cortada quando apararam o papel para a encadernação.
129
1\Ijnjna, contra a jdadc,
contra todos hos sinais,
PJ'uel de cada vez mais!
Tomais vingança da fé 1075
que sempre comvosqo tive?
ou de que? d'alma que vive
por vossa, honde quer que estêe?
Dizee •, mjnjna, por que
tam vossos olhos quebrais? 1080
nam volos referto mais.
Estança
XVIII
tirada d'üa sua Tragedia,
intitularla Cleopatra
que anda assi por fúra.
Amor e j Fortuna são
I dizêe.
dons deoses que hos antigos
ambos hos pintaram çegos.
Ambos nam seguem rezão,
ambos hos mores amjgos
poem em mais desassessegos.
Ambos sam sem piedade
ambos se passam: sem tino,
do querer ôo nam-querer.
Ambos nam tratam verdade:
Amor he cego e mjnjno
Fortuna, çega e molher.
f
1085
2 y, emendado; o último braço do e foi prolongado para cima, de
l!orte que parece ser et.
9
130
XVI
Apêndice ao Capitulo IX
Conforme prometi, transcrevo: I) as estrofes arnebeias
cantadas pelos pastores Antão e .João, que personificam
Bernardim Ribeiro e Sá de l\liranda; II) as quadras im-
provisadas pelo zagal Alexo, endoidecido de amor, pondo
todavia de parte a conversa dos outros pastores que es-
cutam.
I). Para texto basilar escolhi o que fôra enviado ao
Príncipe D. João, reproduzindo as estrofes uma a uma
a fim de facilitar o confronto. Junto-lhe as variantes de
E e F; A e B; N e J•; e transcrevo no fim as partes
que nesse derradeiro e melhor dos manuscritos subsistentes
se distanciam sensivelmente.
É notavel que só as primeiras cinco estrofes [sete em J]
sejam de leixa-prernJ o que é contra as regras de arte;
uma fica sem réplica; e nessa, falta o quebrado que nas
outras vai entreposto entre as duas metades - irregula-
ridades que talvez ·se devam atribuir à falta de experiência
ou rotina do Poeta no tempo em que, entre 1526 e 1534,
compunha o AlexoJ sua Égloga Primeira, e como enfeite
particular dela as suas primeiras tentativas ao modo es-
trangeiro.
1. Antão c o m e ç a ~ como se Ribeiro fosse:
Amor burlando va, muerto me dc:xa;
tienc de que por cicrto; a su merced
como de seiior vine: agora ved
si es justa su razoo, si la mi quexa!
1 As de E que, como F, deriva directamente do original de D,
são, na sua maior parte, ineras alterações dum copista, descuidado
de modo tal que bastas vezes deturpou o metro e o sentido.
131
Y lo qtH' más me al)uexa
que estás Ieda, gozosa y aun l'lazientt>,
y aun ufana .. Qu•· es esto? El qne vencio
Inchando, piPrtle'? gana d que cayú?
Ciego y cruel Amor qnl' tal consÍ•'Dtt•l
5
Variantes: (3) F como de amor v iene- (4) A quanta
de razon tengo en la mi quexa (intei1·o., e não quebrado).-
(5-9) A N J são iguaes no esseneial.
Cada ora más se alt•xa
de mi, mucho cruel; quien me desmicnte?
Ah que lo saben todos: quien ganó
el precio de la lucha, esse perdi•''!
Enemigo seüor que tal consiente!
B afasta-se pouco (de D) nos versos 5 a 7, conquanto
altere o género dos qualificativos:
Y lo que más me aquexa
Que está ledo, gozoso y aplaziente
Y aun ufano.
X o verso 9 (e 10) concorda com A N J. -E F tem
Ciego y cruel serwr que tal
2. João Pastor replica:
• Ciego y cruel Amor que tal consiente!
y ado la razoo buena y la verdad?
De-hoy-más traia la noche clarida.d!
el sol venga a nacer de bacia poniPntc!
Con un mozo un valien te
y buen pastor cantaba en cuenta estrecha
del canto, y la su voz blanda entonaba;
diú-se el prccio al mochacho que asilbaba.
Vcd Razon ante Amor, de que aprovecba?
10
15
1ll) A B J N mas antes favoresce tal maldad. -Na.
primeira redacção de N havia tanta desigualdad- (12)
A B J N todo se rige por la voluntad- (13) J esto
132
alguna ora fue, es lo al presente- A B y si esto fue
alguna ora, es al presente -(14-15) .J B J }{:
un pastor inocente
la sampoiia taiiia en regia estrecha.
Em No poeta começara a escrever za[!lal], por lapso-
(16-17) A B:
JN:
dei cierto y buen taiicr y assi cantaba;
plugo más un zagal que alto silhaba.
dei taiier affinado, y ansi cantaba;
plugo más un zagal que ende silbaba.
E F afastam-se de D apenas pela variante sillJaba-
(18 e 19) E tem (mal, como de costume) Ved razon entre
amor que aprovecha- J N quanto aprovecha.
3. Jlntão recomeça:
V ed Razon ante Amor de que aproveeha!
Un eiego. un sospechoso, un voluntario, 20
al mayor servidor mayor contrario,
antojadizo, lleno de sospecha
este porque coecba,
por atreYido cstotro y mal mirado,
aquel por no sé que, veislo adelante. 25
Quien se pone a pensar que no se encante?
Sin ventura que harà quien lo ha provado?
(20) A J N moçuelo antojadizo y voluntario- (22'1 A
volando acá y aliá siempre en sospecha- N J turbado y
siempre lleno de sospecha.-A primeira lição inscrita em
N fôra bolando todo lleno de sospeclza- (23) A 1V Juno
porque coecha- (24) A N J otro por atrevido y mal
criado- (:?5) A Otro por no sé qué, quien lo adivina?
(26) A N J qnien lo piensa enloquece y se esmagina-
B, fiel a D
7
tem só dois retoques: (26) ot1·o por, e (27) 'il"
se e.'1_)((nfe.
.tsa
4. .Juan I ,astor rf'spomle:
VPntura que har;Í quit•u lu ha pt·o1tado
y lo prueba ora? C Jh 8Ucrtc fiera
quP biva en d cuerpo dutrcu y cn (•I snyu moera,
tle ut.ren cu idoso, dt• si d1•scui,Iadu!
'fo1lo me han trastornadu,
ante ti•• los mia dias ViPjo y cano.
No dt·x··, c•n su ser cosa este accidente,
y pienso enterne('er uua serpiente 35
llamando noche y dia un nombre en v ano?
5. Anton ainda não deixa o tema.
Llamando noche y dia nn nombre en vano,
con ansia tanta de las mia cntrailas,
antes enterneci las alimmlas,
passando d'ellas seguro cercano.
Y a ya que alzlt la mano
zagala hermosa pero fcmentida
en tantas partes que estos ojos fieres
m:is ingrata mujcr de las mujercs,
quien todo lo llevó 11m· e la vida.!
Fica todavia sem a devida resposta de João Pastor.
40
43
N rstas duas estrofes, e· daí em diante, as divergências
são consideráveis.
B conserva tambêm o teor de D com leves alterações,
E F concordam com J).
(:!U) estrana suerte- (30) puede a ver quien assi corra .
a la muerte- (31) cuydoso d'otro, y de si descuydado-
(33) antes - (34) No dexa- (3b) pudiera- (38) fne tanta
el ansia-(3!)) que enternecidas vilas a.-(40) y cercano-
(41-43) Y solo fue liviano (sic), Aquella fiera humana y
fementida, A quien Amor ha dado sus poderes.
A J N contraem, pelo contrário, ambas as estrofes
numa única, atribuída a .Juan Pastor. Começando quási
<>orno B, ela diz:
Sin ventura que hará quicn lo ha provado?
y lo prueva cada hora (1)- ( estrai'ia suerte)?!
134
Puede (2) aver quicn assi corra á la muerte,
dotro (3) cuirloso, de si
Amor cruel te ha dado
(zagala hermosa, pero femcntida)
enteramente todos sus poderes,
más ingrata mugcr de las mugeres.
Quien el alma llevó, lleve la vida.
Na lmpressii.o de 1595: -(11 Ncadora-(21 NJpudo-(3J Jde otro-Ndotrt'.
Os papéis dos dois pastores ficam invertidos daí em
diante. Em D B E Fé naturalmente Juan Pastor quem
canta:
6.
Dime, zagala, como puedes ver
el sol que has perjurado, y las cstrellas,
de dia viendo a el, de noche a ellas?
quando puedes dormir? quando comer?
Que cuidas ai tremer 50
de ti erra como hogaüo? o si arde el ciclo?
piensas que es burla? o que? No pienses tal!
que si fue vano un raio, otro hizo mal,
y donde el no cayó, caye· el receio.
Em  N é Anton.-(46) A B N y como puedes-
(47) A el sol en paz, en quien juraste, y estrellas?-
}..T el sol en paz? y como las estrellas?- B E el sol por
que has jurado? y las estrellas?-F el sol que has perjurado
y las estrellas? - ( 48) N viendolo a el-( 49) A N como
puedes dormir? como comer?-(50) A B N que piensas-
A si arde- (52) N juego- (53) N B que si un rayo fue
v ano -(54) y adonde no caye el, eaye el receio.
7.
Aquellos ojos tuyos que ai passar
no sé lo que callados me dezian.
aquellos ojos que el alma embaian.
un ticmpo a mi plazer, otro al pesar;
55
135
(•1 blando murmurar
con las amigas, mutlar la color
una y aun otra vez en uu momento,
todo has soltarlo, olvidadiza, al vicnto!
Y bives. l\luero yo. Sufrc-lo Amor.
60
(56) A ,B E N callando- (57) N esta triste alma; e
em primeira redacção la mi como B-E el alma
mia-(58) B N:
N:
un tiempo a mi plazer, otro a pesar,-
el dulcc murmurar
con la tu compaiiia y de colúr
mudartc a cada passo en un momento
mil vezes trastrocarte en un momento.
(62) A N todo soltaste-E soltaste todo.
8.
Hasta quando seré tan c i ego yo? hasta
quando tan sin-razon y sin-sen tido?
(y) cl tiempo y la razon piden olvido;
Amor solo no quiere, y solo él basta.
Que ceguedad tau basta!
Viendo tau claramente lo mejor
tomé a la mano czquierda, y csa sigo,
los oidos cerrando al buen castigo,
de amor. desenganado y desamor.
65
70
(64) A N A N F sin juizio-N y buen
sentido- (66) A B E F 1V el tiempo- A solo él basta-
(68-70) A B:
N:
Quicn assi me contrasta
que viendo claramente lo mas cicrto
tomo el camino aviesso y.esse sigo?
Que niebla esta tan basta
entre el triste de mi se pone y el puerto
que viendo lo mPjor lo pior sigo?
1i36
Cfr. J.-(71) A N tambien oydos cerrando al castigo-
E los oidos tambien cierro al castigo- E F los oidos
cerrados al buen castigo-A B N con mis cuidados vanos
de concierto.
9 ..
Zagala, altiva coo los tus poderes,
qual fue nunca el S('fior tan ficro y bravo
que nunca tal dixese: creres mi esclavo,
yo no soy tu sefior, ni sé quien te eres?»
Parecen las mugeres
más piedosas.- Di, sobervia es esta
que se pueda sufrir tan desigual?
no basta tanto agravio? y tanto mal?
mas tal (aun sobrctodo) la respuesta?
(73-76) N:
Ya sé que has de hazer quanto quisieres;
pero di: que seiior nunca tan bravo
fue que dixiesse tal ((eras mi esclavo,
yo no tu seiior, no, no sé quien cres.
A B:
[B:
:\Ias dexadas un poco las pelcas,
di-me qual seiior fue nunca tan bravo
que tal dixese ((enfin eres mi esclavo,
qual que dixesse ansi ((cres mi esclavo ],
yo no soy tu seiior, ni sé quien seas,>
~ 7 7 - 8 1 ) N:
Fiaste en tus poderes,
ufano y disigoal; sobervia es esta
que se pueda sufrir con paciencia?
no basta tanto mal? no la inocencia?
mas al cabo, enfin fin, tal la respuesta.
retoque da redacção a.IJ que respuesta!
75
80
A B:
10.
137
A palabras tan fcas
te trao ,.1 tu raucor? sobt•rvia es esta
que se pueda sufrir t•n dicho ú (_•n hcchn '/
a que somos venitlos, tit·mpo ostreí'ho?
:tssaz hastaba 1'1 mal sin ht rospucsta!
luego to vi, vi te piedosa;
despues por te querer y te adorar
supitamcnte te senti mudar.
Que es esto? es bien amar tan mala cosa?
quien es que amar osa?
Ora se vaya el carro ante los bul'is!
vengan los pexes l>oblar los currales!
pazca ganado los rios cabdales!
Oido havia :\mor d'cstas tus leis.
85
90
(8H) N yendo adelante sin mas lo pensar; e em primeira
redacção por mi amor sin pa'r-A B por te adorar-
(84) A B subitamente- (85) N A E bien querer-
E querer bien- (86) Falta em N.- A B Ay vida dolo-
rosa-(87) B bueyes-(88) N los pexes a pascer vayan-se
al prado-A los peces a pacer los montes vayan-B los
peces retozar vengan al prado- )wT labren millanos,
-buele «?I ganado; em primeira redacção labren las a·ves-
A los ganados cubiertos d'agua vayan-B a los rios pacer
vaya el ganado- (90) B Ohi ohi d'Amor estas sus leyes-
E F estas tus leis.
:Xo Canc·ioneiro de Jurome'nha as cinco estrofes (5-10)
são substituídas por quatro oitavas à castelhana, as quais
contudo vão à frente, antes de Amor burlando va (1-5).
Todas são de leixa-p1·em. Alêm delas há outra, final, sôlta,
de nove versos. idéias e em algumas locuções há
reminiscências das redacções já transcritas; sobretudo dos
versos 70 e 87-90.
A.n.lo. Traspuso{ buyendo mi alegria
bien como un breve sueilo .sin sentido.
El tiempo la razoo piden oh·ido;
y no &e parte amor d' ca alma mia.
Zaga1a, aunque eslks toda embevida
PD amar un zagal que bien ha luchado,
pero que yo anai soy deaeebado,
tu siempre ercs mi muerte, to Ia vida.
Jou. Tu siempre eres mi muerte, tu la vida,
que ansi lo quiso amor, y no razoo.
Lo que bazer deviera el corazon
en vieodo que te ,-e, luego se olvida.
Zagala, bien que el &ormento se agrave,
a tuerto otro zagal iendo delante,
no porque mejor baile o mejor cante,
tu la mi prision erea, tu la llave .
..\.nlo. Tu Ia mi prision eres, tu la Ilave
tu la mi tempestad, tu el mi abrigo.
Lo que es mejor vicndo, el peor
qual es el pecbo en que tal erro cabe?
qual e.s el anll.aal que a la su mnerte
y ai su daiio no bnya ai más correr?
Y o corro tras el mio! y puede ser
desdicba tan est1aiia y mala suerte?
Jo.u Desdicha tan estraiia y mala suerte!
a quien te sigue hnyes, y siguiendo
a quien te buye vas; aqui atiendo;
no seré en mi mal tan firme y fuerte.
Ansi vaya el carro ante los bueis,
y los peees yengan pacer ai prado!
a los rios y ai mar corra el ganado!
Oido havia Amor d"estas tng leis.
Em vez de ganadv ha pescado no manuscrito. com êrro
evidente.
Eis a última estância:
Ano:s. Con el tiempo perdi lo que se deve
a serrir luengo con tan buena fé.
Qnien te dirá el porque dei sin porqué?
quien teroá que no fuya et yiento leve?

Huyma:; la blanca uic\ e
se bud,·a como pcz, que no polco!
que al mediu-dia aqui nos auochczca,
por estrai'iu quo soa, no os par1•zca,
que quanto no pcnsaba. agora. vt>o.
Essa refundição parece-me superior às antecedentes,.
mas não em tndo.
A Canção rlo Velho, entoada por João Pastor
1
,-outro
Intermezzo lírico da Égloga,- não tem variantes tam inci-
sivas que valha a pena apresentá-las aqui. Prefiro dar o
Índice das estt-lncias que transcrevi:
Amor burlando v a, muerto me dexa (D E F A B; X 1-J 5)
Aquellos ojos tuyos que al pesar (DE F B 7 -A N 6)
Ciego y cruel Amor que tal consiente (DE F 2).-Vid. Enemtyo.
Con el ticrnpo perdi lo que se deve (J 9)
Desdicha tau estrafia y mala suerte (J 4)
Di-me, zagala, y corno pue1les ver (LJ E F B X 5)
Enemigo seõor que tal consiente (.4 B N 2-J 6)
Hasta quando seré tau loco yo? hasta. (DE F B 8-A 7)
Llamando noche y dia un nornbre en vano (lJ E F B 5)
l\Ias dexadas un poco las peleas (A 8-B 9)
Quando luego te vi, vi te piedosa (DE F B 10-A X 9)
Sin ventura que hará quien lo ha provado (DE F B .1. X 4-./ 8)
Traspuso huyendo mi alegria (./ 1)
Tu la mi prisión eres, tu la llave (J 3)
Tu siempre eres mi muerte, tu mi vida (.J 2)
Ved razon ante amor que aprovecha 1D E F; A X 3-./ 3)
Ya sé que has de fazer quanto quisieres (X 8).-Vid. Zagttla.
Zagala altiva, con los tm poderes (D 9)
t Vid. Poesias 102, 726-757 v= v. 602-633 de X. Em todos os
manuscritos ela compõe-se de quatro estrofes -estâncias ao modo
italiano- as primeiras em Portugal : 1.• Los manjares de Amor
son corazones, em D A B E F- Los guisados d'amor, em N-
Mau tiense de los tristes corazones, em J.- 2.• veis que v a
desnudo?- 3.a Y tu que enfingimiento es este tuyo.-4.a No os
pongan miedo sus espantos vauo.;.-As últimas duas invertidas
em J (Poesias, p. 701).
140
II. Quadras improvisadas por Alexo. Na edição de D,
elas seis:
1. Los mis dcsscos san<Jios
que adrode a su mal se dieron!
Para v··,s, que uuuca vicrou
guardan estos ojos mios.
2. Este mi mal tan estraiio,
si os viesse, aunque mayor,
nunca seria dolor,
por mucho que fuese el claiio.
3. A todas partes, pensando
verte, miro-y no te vco;
si no moere este dcsseo
morir-me-he yo desscando.
4. El mi corazon liviano
fueseme, no tras quien;
van buscando el su bien
trás él los ojos cn 'v ano.
5. Aqucl cuidado, por medio
que el mi corazon abriú,
de ·quantos males me diú
no me diú solo un rcmedio.
6. Por un bosque tan sombrio
y puertos tan mal seguros,
entre enernigos tan duros
que descuido es este mio.
O texto da impressão de 1595 não se afasta muito
dessa redacção. Quatro quadras são iguais na esst:ncia,
embora alteradas na ordem e no teor. A 1. a de D falta .
.A. 2. a corresponde :
Eng afia-me cl mal estraiío!
• coitado que os veia;
mas bien, que no mal seria
a durar solo el eugaiio (A 1).
141
D H a f): A toda parte pensando- El mi
corazon mal-sano -Aquel grau golpe por medio-Por el
bosque tan somhrio.-A última, nova, tem o teor seguinte:
Que mi alma se vea
1'11 tal apricto y fatiga!
Pues la Ventura inimiga,
pnes Amor qniere, ansi se a!
E concorda, na seqiu!neia. e na letra, afastando-se de D
apenas em miudezas insignificantes, conforme deixei dito
nas Poesias (p. 1-!6). Em F h<i uma quadra a mais.
Entre 4 e 5, a derradeira de A, com· a variante en tanta
cttita y fatiga, e no fim a que diz:
Sca pucs lo qnc se fucrc,
eorazC'n mio engai'íado,
que este sohe•·vio cuidado
todo lo fjUe quicre quiere.
No caderno-borrão há igualmente sete. A primeira é
substituinte de D 2 e D 3.
)fal.aya un mal tan _estrai'io!
pienso veros, nunqua os veo.
Quanto que devo ai desseo,
y quan poqo ai desengai'io!
(ou, em lição mais antiga, ay que desseo y engano).
Continua com El mi coJ·açon malsano (correspondente
a D 4 e A 3, mas com a variante mis locos ojos en vano),
Aquel gran golpe (D ZJ, A 4); Que la nd alma se vea (A 6).
Depois vem a quadra ingénua, reescrita três ou quatro
vezes, de que já me ocupei mais acima, Estos mis o}os
sandios; e finalmente a nova:
Consejos no me convienen
con mis vanos piensamientos (sic)
unos se van con los vientos,
otros con cllos se vic·nen.
142
J não se destac·a com traços particulares. Igual em
algumas quadras a D A, cinge-se em três a N, cujos
últimos retoques altera ainda. Quanto à ordem, a La, 2.•,
4.a e 7.
8
corresponde à a.a, 4.a, 5.a e 2.• de D; a ?-a, 5.•
e 6. a à 1. a, 6.
3
t e 7. a de N. Entre as variantes cumpre
notar Remedios no se con-vienen A tan vanos pemamientos.
B, pelo contrário, apresenta divergências muito dignas
de consideração: em lugar de G ou 7 quadras tem 10,
porque entreteceu as substituintes na conversa dos pasto-
rés que escutam
2
• Outrora julguei que se tratava de
meras variantes do cartapácio de Salvaterra, com os seus
rel vel marginais. Hoje penso que o original seria uma
refundição ofertada, avulsa, a qualquer amigo.
1. Engai'iú-me el mal estraii.o (A 1)
2. Los mis desseos sandios (DF 1)
-3. Que remedios se convienen (./ 7- X 6)
a tan varios pensamientos
4. A todas partes pensando (D P 3)
5. El mi coraçon liviano (D 4; 3 este su bien)
6. Este mi mal tan estrafio tD 2)
esta mi cnyta, si os viesse
no puede ser que doliesse,
por mucbo que fuesso el dano.
7. Que la mi vida se vea (A 6-F 5)
en tanta cuyta y fatiga (S 4)
8. Por un bosque tau sombrio (D 6-A 5)
por pucrtos tan mal seguros.
9. Sea pues lo que se fucre (F 5)
10. Aquel cuidado que en medio (D 5-A 4)
de rni pecbo el alma abrió.
A unque nunca fueron buenos
Estos mis ojos sandios,
Otros ea·an quando mios,
Otros quando son. agenos.
2 Esta t ~ ~ m tambêm três quadras a mais.
143
.Eis o sum:írio alfabétil·o de todas:
jA toda parte pensando (.1 2)
lA todas partes (IJ E F 3- J 2-./ 1-lJ t)
l
Aquel cuidado por medio (!J E .>- F 6)
.\quel cuidado qne en mellio ( /J 10)
Aquel gran golpe por mocHo (.l ./-!-_v 3)
Aunque nunca fueran.buenos (./ 5.- Cfr. Esto3 ojo3).
Consejos no me conviencn (.Y 7.-Cfr. Rernedios c Que 1·emedio8)
) El mi corazon li vi ano (D E P 4 -JJ 5)
!El mi corazon mal sano (.1 3-./ S 2)
Engaiia-me el 111:al estraüo (..:1 1)
fEngaiió-me el mal cstraiio (B 1)
Este mi mal tan estrai'io (DE F 2-B fj-. .f Í)
Estos ojos tan sandios (X 6)
Los mi os desseos sandios ( lJ E F 1 - B 2)
)fal aya un mal tan cstraiio (.Y 1-. .J 3)
\Por estos bosques sombrios (X 5)
tPor un bosque tan sombrio (lJ E 6-A. 5-fJ
la mi alma se vea (A. 4)
lQue la mi vida se vea (F 5-B 7)
'Que remedios se convienen ( B 3)
f Remedi os no se convienen (·T 6)
Sea pues lo que se fuere (F 7 -B 9)
Sean me todos testigos (S 6)
XVII
Algumas Anotações aos Textos
1. lj. Alexo.- O nome pastoril não é anagrama (como
Bimnarder), nem criptónomo transparente (como
Crisfal, Franco de Sanduvir), nem forma masculinizada do
nome da mulher querida (como Jano, amador de Joana-
Aónia), nem alcunha significativa (como Amador, Silves-
tre, etc.). :Miranda não se cingiu portanto a nenhum dos
processos internacionais, pomposamente crismados de ca-
balísticos, empregados por Bernardim Ribeiro nos seus
cinco Idílios e na Menina e moça. É um simples nome-
144
próprio greco-latino tirado das Buc,)licas do e
do Siciliano (como Tirse, J'Jelibeu, Coridon, Palemoln,)
Ergasto, Alfesibeo, etc.), já utilizado de mais a mais por
um precursor nacional, como logo mostrarei. :Xos ver-
sos 349 e 3[>0 )liranda tenta nacionalizá-lo. Ouvindo ao
longe os gritos aflitivos do velho Sancho que chama Alexo!
Alexo!, o zagal pregunta a si prf)prio:
Si c5 que si me alexo
que lexos me irá mejor?
ou, na redacção enviada ao Príncipe D. João:
Si es quiçá que si me alexo
de aqui, que me irá mcjor?
E visto que Alexo personifica :Miranda, pode ser haja
aí uma pontinha de simbolismo- alusão à sua fugida ao
ermo, já mentalmente decidida, depois das experiências
feitas, durante a estada de D. João III com a sua côrte
em Coimbra, em 1527. Vid. Poesias, n.
05
lOô e 111.
O nome Alexia provêm da Égloga II de V ergilio
(e da VII). O tema de Formosum pastor Corydon ardebat
Alexim é a paixão juvenil não correspondida de Corydon
pelo fermoso Alexo (VII, 55, formosus Alexis); imitação
da XXIII de Teócrito (E·1·astes). Na curiosa transposição
política de Juan del Encina, o nome do pastor foi oblite-
rado: o próprio trovador é o amante; o amado, el-rei
D. Fernando. l\Iiranda conhecia e aproveitou ambos os
autores, e provávelmente tambêm o tradutor castelhano.
Se o 1\Iantuano lhe proporcionou o nome Alexo, e traços
para a demência do apaixonado, o grande poeta do Etna
inspirQu-lhe o canto amebeu e os epitáfios poéticos doutros
moços infelizes, doidos e mortos de amor, como o seu
Andrés e o seu Diego (Pot>sias, n.
08
111 e 113). O ver-
dadeiro entrecho, a urdidura do Alexo está todavia no
ldílio XIII, denominado cm que Teócrito '!pica-
mente narra um f'pisódio da lf'nda de J lércules.
O semi-deus, prutt'•tipo da fílrça másc·ula, origináriamente
divindade solar, enamora-se da id0al beh·za primaveril do
rapaz Ililas pue•·). Rouba-o (como .Júpiter a Ga-
nimedes), educa-lhe a alma e o corpo, e associa-o a todas
as suas expedições. Na a.rgonáuti<·a, manda-o, na costa da
l\lísia, buscar água. O côro das Ninfas aquáticas arrebata-o
-Naiadumque tener crimine rapttts If.'llas-(Ovídio, Ars
Amandi). Hércules, que não o vê voltar, percorre deses-
perado montes e vales, gritando o seu nome ut litus Hyla
llyla omne sonm·et (Vergílio. Ecl. VI, 43), scena que os
habitantes de Quios renovavam religiosamente todos os
anos. Hilas, que bem ouvira os gritos, não pode responder:
a água abafa a sua voz.
O zagal Alexo (ou antes donzel, nobre), criado e educado
pelo velho Sancho, é encantado por uma Ninfa. Desespe-
rado, o velho percorre montes e vales gritando Alexo,
Alexo. Êste ouve tambêm a voz do velho, mas só entre
sonhos, e não responde.
É possível que l\[iranda, afeito a estudos de filosofia,
conhecesse a interpretação aleg•)rica do mito, pelos neo-
-platónicos, contida no tratado lJe Anima_, de Plotino. A
alma, dualística ou anfíbia como então diziam, espiritual e
material, tende, pela lei da gravitação, a transmudar-se da
morada celeste à terrestre, atraída pela água, nunca quieta,
em movimento constante, símbolo do de-vir. Presa por ela.,
concretizada, a alma de Hylas não mais pôde acompanhar
o seu guia e mestre paternal, Héracles, às regiões solares.
Em todo o caso não a -aproveitou, cônscio de que as
novidades técnicas e artísticas que ia introduzindo eram
mais que suficientes para ass'?mbrar os palacianos, ainda
assim muito mais afectos às Trovas tantas vezes banais
e dessoradas do Cancionei1·o de Resende e às Farças e
Representações tantas vezes rudes do genial mas indisci-
10 -
1-!ô
}>liriado Uil Vicente, embora êles já houvessem escutado
e aplaudido os novos acentos pastoris de Hibeiro. Passa-
geiramente.
Ularo que, como verdadeiro poeta, :\liranda se serviu
com liberdade do mito clássico, consagrado por mais de
um poeta. .A trama do Auto pastoril é obra dt-le: os
ornatos e_J"ecamos, os pensamentos e sentimentos de que
o satura, são outras tantas refert-:ncias a acontecimentos
interiores e exteriores da sua vida, e da de amigos e
inimigos. Poetizados, bem se vê. Enganam-se os que
·procuram, nesta e nas outras Églogas do poeta,
nada mais do que relatos e retratos, inalterados,
do natural- tam fiéis que a crítica os possa utili-
zar como documentos biográficos.
2. Epístola Dt>dicatú,·ia.- As Oitavas à italiana, de
que ela consta, compostas entre a primavera de 1.:l53 e o
verão de 1555, cinco na redacção do caderno aut6grafo,
seis na refundição impressa em 1614 e 1885 (conforme
expliquei na lntroduçãf!, (
1
apítulo X), não são nenhum
primor de elegância, clareza e inspiração lírica. )lera obra
de ocasião, despretenciosa, escrita quando o espírito do
Poeta ainda andava envolvido uem névoa grossa•, pela
perda do filho (e porventura pelo falecimento do Príncipe),
elas versam scihre cousas intimas, familiais, compreensíveis
·e caras só ao Destinat:irio.
3. Antúnio Pereira 11/arramaqltP._, 6.
0
Senhm· dos Coutos
do Lamegal e Lttmiares, e 5.
0
SenhoT de Cabeceiras de
Basto.- A respeito dêste, e do irmão X uno
amigos íntimos e. vizinhos do Poeta, que os contemplou
com ·quatro das suas criações: - as Églogas
Ãlexo (Poesias, n.
08
102 e 145), }tenwroso (n.
0
115),
Basto (n.
08
103 e 116), e a Carta M01·al V (n.
0
108) -,
ó curioso encontra informações valiosas, muito mais com-
147
pletas e exactas do que as (jllC puhlirpwi cm 18Jo3f) <Poe-
pp. 77H, 7!JH, HOfJ, HHf) ), num artigo de combate
de A. Braamcamp Freire, intitulaao O 11/a,J·ramaque.
Vid. C'rttica e Lisboa lUJO, pp. 181-212 •• Jun-
tamlo aos factos aí dcwnm<'ntados alguns materiais his-
tórieos e linguísti<·os (!Ue fui recolhendo pouc·o a pouco,
com destino pat·a a 2.a edição das condensei em
outro artigo,· de título igual. os tllpicos c1ue o leitor precisa
conhec('r. Vid. A1·chivu llistrJrico voL XIII.
4. V. 1-2.- O Alexo é aqui claramentP. designado
como primeiro Auto pastoril de .:\Iiranda e primeira I::gloga
de arte em Portugal- primeiro drama bucólico, sem
partes narrativas (como as que caracterizam os formosís-
simos Iclílios de Bcrnardim Hibciro e o Orisfal), e enga-
lanado com versoR estrangeiros - estt1ncias ao modo ita-
liano, estrofes trazidas de estrana de
de fúra pa1'te- como êle mesmo explica, chamando-os
até com excessiva modéstia.
Quanto à data da originária, apenas é certo
ser posterior ao seu regresso da Itália, onde se penetrara
da excelência tanto da comédia togata em prosa, como do
metro hendecassilábico, e em especial da formosura do
género bucólico, tal como foi cultivado por .Jacopo San-
nazzaro, que entregou aos pastores da sua Arcádia (1504)
a zampona de Teócrito e V ergílio. Certo tambêm que é
anterior às relaçÕPs que )[iranda travou com a :\lusa de
Garcilaso de la Vega, muito embora não se tivesse re-
solvido a sacar à luz a sua tentativa a fim de submetê-Ia
à crítica elos cortesãos, senão depois de haver lido a
aclmirável estreia buc{,Jica do cisne de Toledo-a f:gloga I
de Nemoroso e Salicio- num manuscrito adquirido pelo
próprio António Pereira. Assim o diz na Epístola-Canção
de homenagem ao amigo generoso, que serve de prólogo
à glorificação do Castelhano, à qual de propósito deu,
148
sincero e grato, o mesmo titulo de Nem(Jroso (_e Salicio ).
Depúis de se à oferta das Obras de Garcilaso
continua:
Luego Alexo qne tanto al bosque se escondia
Perdido el rniedo, acometió la gente.
e, com respeito aos ;mos anteriores:
No me ntrevia a tanto que el son que me aplazia
Por mi aplazer fiziesse a nuestra gente ..•
Aqui cabe esta fuente jogaba solo el jtH·go.
p. 852).
Para determinar com segurança á data dêstes aconte-
cimentos, importantes para as letras portuguesas, espere-
mos pelo vol. xrv da Antologia, relativo a Garcilaso,
que y Pelayo tem no prelo. Em 1R85 indiquei
1532 como data provável da representação; e não tive
até hoje motivos para mudar de opinião.
5. V. 3.-Sampo·na, no ms. J zampona, nome caste-
lhano e italiano da flauta pastoril (Schalmei, Hi1·tenjlote);
do grego-latim sinfonia. Figuradamente: poesia e música
pastoril. Vid. Poesias, 112, 147. Em Portugal sanfona
denomina outro vulgar e antigo, de música:
espécie de alaúde com cordas de tripa, friccionadas por
uma roda, posta em movimento por uma manivela (Leier-
geige); sanfonina (masc.), o que toca êsse instrumento; em
regra, um cego. Para o sentido castelhano os poetas bu-
cólicos de cá servem-se de sanfonha. Sobretudo F. Ro-
driguez Lobo.
6. V. 4.-A residência dos amigos nos territórios de
Cabeceiras de Basto, a casa da Taipa, celebrada por Sá
de l\Iiranda com carinhosa amizade, fôra o pôrto principal
a que haviam arribado, a cabana abrigadora onde, fugindo
14U
do tempo importuno, os pastores nacionais se haviam
recolhido (c salvo tambiO:rn alguns castrlhanos), tra!ls-
furmandu em ArctÍtlia portuguesa a amena região de Entr<·-
Douro-e-)linho.
7. V. u.-Os rapazes que em H)r'>-1 ou l:J5f> repre-
sentaram na casa da Taipa ou viram representar nela a
refundição do Alexo deviam ser, alêm de Jerónimo de Sá,
vizinhos e amigos: como os de Castro; Azeve-
dos, de S. João e Bouro; Limas, de Vila Nova de Cer-
veira; A breus, de Pico de Regalados; Cunhas, de Celorico
de Basto; Sás e :Meneses, da Foz, l\[atozinhos e Pôrto;
de Salvaterra; etc., etc.-Vid. Brasões de
Cintra_, n, 303-4; Critica e Historia, p. 198.
8. V. 6.-No autógrafo está literalmente del conde
don E müdo, el memorial. Não entendi logo à primeira
vista. Só depois de conhecer O ftlarramaque de A. Braam-
camp Freire interpretei afoitamente del Conde Don Emundo
el memorial_, referindo a alnsã9 a:o Conde de Cambridge,
posteriormente Duque de York, que, em cumprimento de
convenções entre a coroa inglesa e a portuguesa (1373
e 1380), veio, em nome de Ricardo II (1377-99), em
1381 auxiliar elrei D. Fernando cmitra Castela, com 600
homens de armas e 400 frecheiros (2:000 por junto, se-
gundo os historiadores peninsulares). Isto é: J'Jfossé Aymon,
Haymon Heynwn; de Cantabrigia (o Conte de Cantebruge_,
de Froissart); filho de Eduardo III (1327-77), irmão do
Príncipe Negro, e de João de Gaunt, aquele Duque de
Lencastre que em 1387 entreveio, a pedido de D. João I,
com a mesma voz e demanda.
Não alusão alguma a feitos ou façanhas de
qualquer Pereira (dos do Lamegal e Basto) nos Cronistas
que narram os desposórios simbólicos do filhinho do Conde
D. Edmundo com a filha única de D. Fernando e Leonor
lf>O
Telles de .Mr·neses- êsses noivos, efémeros, de seis a sete
anos; a pilhagem da soldadf'sca infrene do príncipe, e a
inconstância doentia do reinante português, que fez as
pazes com o adversário e tratou doutro casamento (cas-
telhano) da pequenina D. Beatriz, sem se importar com
o «fiel aliad<;))> e o desposado D. Duarte.
De pouca importância para a nação e para os reinantes,
os sucessos que motivaram o !Jfemorial podiam ainda assim
ser gloriosos para a linhagem dos lvlarramaques.
Com respeito a D. Edmundo as únicas fontes que pude
consultar são: Rymer, Poede1·a, Yn, pp. 16 e 263;
rêm, Quadro XIV, pp. 67, 68, 71, 73; Figaniere,
Manuscritos, p. 56; Froissart, Chroniques, III, cap. :XXIX;
Fernam López, Crónica de D. Fernando, cap. cxvi,
CXXVIII-CXXX
7
CXLYII, ('LIII-C'LYI, CLXII-CLXY (sobretudo
cxxx); Crónica de D. João I, parte n, cap. LXXX.Yin;
Crónica de. D. Juan Primero, Ano 13tH, cap. III-V e
Ano 1382, cap. II e sgs.; Conde de Villafranca, D. João 1
e a Alliançalngleza, pp. 59, G1, 68,107,111, 17.1; Oliveira
)[artins, 1Vunalvarez Pereira, O fim da dinastia, cap. 11.
Suponho que os pontos essenciais do guar-
dado no arquivo da Casa da Taipa, passariam às :Xotas
genealógicas de António Pereira, João Rodríguez de Sá
e :Meneses, Damião de Góis e D. António de Lima. Oxalá
as últimas duas venham à luz qualquer dia!
9. V. 7-8.- X os dois decénios que decorreram desde
a criação· e primeira representação do Alexo na côrte de
D. João III (à sombra do Conde da Castanheira?) até a
enscenação na residência dos Pereiras, o número. dos
adeptos da Escola nova havia aumentado considerá\?el-
mente. Os que não podiam visitar pessoalmente.o maioral,
como Diogo Bcrnárdez, enviavam-lhe as suas tentativas.
Por exemplo: D. l\Iamrel de Portugal, Francisco de e
.l\Ieneses, Pedro de Andrade Caminha, Jorge de )Iontemor.
Com relação à qualidade, baste l('mhrar as obras-primas,
df'dicadas por Luís de ( 'amÕ<>s ao falecimento prematuro
do l'rineipe D. João e ao desastrt• afri<'anu, em •1ue pcr('ccn,
com os outros trezentos moc;os-fidalgos, lJ. Ant,jnio de
Noronha, seu pupilo.
10. Y. U.- El vuest·ro Alexu.- Na Dedicatf',ria do
Nemo1·oso_, os seis interlocutores são t a m b í ~ m chamados
vuest1·os pastm·es. Outras vezes l\1iranda diz meus pastm·es.
Entendo: a l::gloga que agora ,·os dedico, e que vos per-
tence desde o dia em que a protegestes, sem receio,
quando os trechos relativos a Bernardim Hibeiro pro-
vocaram o antagonismo dum poderoso, em desfavor do
qual os palacianos os interpretaram. (Vid. Scena V).
O convite do Senhor de Cabeceiras de Basto levaria então
o Poeta, resolvido ou mesmo obrigado a afastar-se da
côrte, a refugiar-se nas terras do )linho, e não nas que
possuía na região conimbricense (na sua comenda de S. J u-
lião de 1\Ioronho). Suspeito que com :Miranda iria Bernardim
Ribéiro, profundamente abalado pela derradeira afronta
que sofrera; e tambêm pelo desgôsto de haver atraído o
raio da desgraça sôbre o amigo- «eomo quem os dados
lança».
11. Y. 9-10.- Alereo mue·re-se de amores y no sabe de
quien- ou Entrar-se-h a aqui un zagal muerto de amores
Sin que el lo sepa bien (em .I e B). -A proverbial paixão
amorosa dos Portugueses que «morrem de puro amor»,
segundo a doce-amarga ironia do epigrama castelhano, ou
enloquecem de amor, como acontecera a Jano, a Diego,
And·rés e .Alexo, eis o tema da primeira Égloga de arte
em Portugal. (Cfr. p. 45, nota).
12. V. J 1.- A más aconteçio que a los pasto1·es.-
Creio que o poeta pensa no assunto mitológico que resus-
152
cita, na figura her•;ica de 1 Iercules, mas tambPm nos seus
próprios amores juvenis. Na Cm·ta a .Jorge de .!\Iontemor
.confessara, pouco antes de redigir a EpiHitJla:
tras el eiego
niiio que vuela perdi cl tiempo andando,
uno de los sns locos, no lo niego.
Y aun aora la memoria quando
lmelvo por las pisadas que atrás dPxo,
lo que me bago no sé, si ando ó desando!
.\ tal sazon talvez <le Amor me quexo,
(si viste algunos de los mis renglones)!
Triste .tndrés, triste Diego, triste .llexo.
poderá negar que aqui se identifica com êsses
tres tipos poéticos? sem contar as vezes em que se apos-
trofa loco! otra vez loco! otra vez loco! loco sin tino, etc.
13. V. 17-20.- Nada sei das .mágoas de António Pe-
reira- mágoas tam profundas que )[iranda, cruelmente
ferido pela perda do filho às lançadas dos no
próprio sucesso de que escapara incólume e glorioso o
primogénito do amigo, é quem tenta consolá-lo. Seria a
morte da mulher? a do irmão Xunalvarez? ou antes lutas
espirituais do pensador erasmista, que pretendia provar
que a llíhlia deve correr em linguagem? e scismava sôbre
os problemas De gratia jide et operibusCJ
14. V. 21.-0 herdeiro da casa, cujo regresso dos
campos africanos se festejava num dia já em si de regozijo,
quer universal, quer familial, é João Rodríguez. {Iv), con-
forme expliquei nas Poesias (pp. 847 e 851) e torno a
explicar no Archivo Historico Português (l. Em Ceuta,
onde fôra servir uma comenda (juntamente com Gonçalo
:\lendes de Sá, D. António de Xoronha, Paulo de Beja e
outros moços-fidalgos, de nobreza qualificada, que pouco
antes haviam em Xabregas cingido armas no Torneio do
153
Príncipe D. João), o rapaz havia tomado parte no desafio
bélico de 18 de Ahril de lf'>:>a, traiçoeiramente decidido
no .Monte da Condessa p<'IO desbarato <le aoo I>ortugueses
por 3:000 l\louros de 'l'etuào, salvando-se sú ou quasi só:
um só, que em ,;angu•} aberta traz a cruz
branca por armas.
A essa salvação milagrosa-
milagre que em sinais claros reluz-
completada pela circunstância de haver guardado no bôlso
da faldra (faltriquera) o guião do Conde D. Pedro de
)[eneses, aludem diversos historiadores e poetas. Aos já
citados acrescento António Qabedo, Epicedium in milites
ad Septa,m occisos (Corpus lllust1·ium Poeta1'Um Lusitano-
rltm),vol. I, p. 459;W. Storck, Vida deCamões;J §§ 116, 1DO
e 263; .... \. Braamcamp Freire, B1·asões de Cintra;J n, 172).
As palavras que c.itei são da Carta com que :Miranda res-
pondeu à Consolatória de António Ferreira (Poesias;J n.
0
147,
112-115). Êste parece assistiu no Pôrto, hospedado na
casa dos Sás e :Meneses, ao regresso de João Rodríguez.
15. V. 22.- Ignoro se depois do combate João Rodri-
guez foi realmente nomeado Capitão de Ceuta. Pela sua
pouca idade, e por eu ignorar os feitos valorosos, que
talvez praticasse no dia nefasto, duvido se lhe confiariam,
ou não, pôsto de tanta responsabilidade. :\Ias o irmão,
mais novo, tambêm já era capitão duma nau grossa.
16. V. 23-2-!. -- Dêsse filho segundo, Gonçalo Pereira
l\Iarramaque, ocupei-me nos dois lugares indicadGs, no
último naturalmente com maior precisão do que no pri-
meiro. Encostando-me a Diogo do Couto, que dedicou um
capítulo inteiro à notável vitória sôbre os Turcos a que
:Miranda alude, estabeleci no .A1·chivo que essa tambêm se

154
realizou em 1 f>53 (em Retcmbro) no mar de Ormuz, da
banda da Pérsia. Foi aí que o jóvem Capitão, afastado das
outras naus por ventos contrários, teve de debelar-se, só,
contra quinze galés turcas. (Vid. ('ou to, lJecada VI, livro x,
cap. XIII, e Andrade, Crónica de D. João III, IV, cap. CII).
Os historiadores não consignam porêm outro milagre, a
não ser a heroicidade e bravura de Gonçalo e dos cento
e vinte homens que comandava, entre diversos outros
descendentes do Conde D. (por exemplo, dois filhos
• do Conde da Feira, D. Leonis e D. Luis, e um Pereira
de Berredo). (luanto ao acaso espantoso• e uformoso
agouro» a que Miranda se refere na Pstrofe (3.a) interca-
lada na redaeção ulterior, conservada. no manuscrito J, e
na que serviu para a impressão B, suponho que no ardor
da refrega naval o rapaz, e só o rapaz, veria milagres
onde os outros viam mara-cühas, e que êsses avultariam,
tomando a forma duma ave toda agua, toda fuego, toda
cielo, que o protegera, quando em casa o irmão João
Rodríguez relatava o caso da faltriqueira.
Gonçalo fôra à India em 15:>0, como morador da casa
de D. João III, com o Yisorei D. Afonso de :Soronha
(Couto, Decada VI, li v. IX, cap. I; e da Casa da
lndia, p. 55). Teve a fortuna de breve tomar parte numa
expedição a Ceilão (1551-52, Decada VI, liv. IX, cap. XVI), ,
e depois na de Ormuz (Decada XI, liv. x, cap. YI, x, XITI).
Regressou ao reino, não sei quando, e voltou ao Oriente
com o Visorei D. Antão, em 1564, pro,·ido na Capitania-
mor do mar da Índia. l\Iorreu, após fortuna vária, mise-
rávelmente em Amboino, ou na viagem para lá, em 1571.
(Vid. Decada VIII-IX,• e em especial IX, cap. IX).
17. V. 24.-Vuestros F·roais.-Vid. Poesias, p. 805.-
São os ascendentes de António Pereira, cuja genealogia,
exposta no Livro de Linhagens, do Conde, titulo XXI, foi
extraída e sintetizada em tabela por Aires de Sá: no seu
155
Frei Gonçalo Vellto, vol. 11, tábua XVH (entre pp. 214 e
215), e c·omentada por A. Braameamp Freire em Brasões
de Cint1·,, I, pp. lU:!-17::?. Nobilíssima geração, de tronco
grosso e ramas que produziram muitas notahilidades; por
exemplo, o Arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira; o
Prior dos Hospitaleiros, Frei }). Álvaro; e o grande Con-
destável.
18. V. 25.- O terceiro filho é desconhecido. É de crer
morresse antes de haver vestido a toga viril.
19. V. 38-39.- A «clara luz» e «viva fonte» deve ser
a Bíblia. Tanto ~ á de :l\Iiranda como António Pereira
liam-na com fervorosa veneração, antes e depois dos ter-
rores da Inquisição, estabelecida em 15116.
20. II). V. 40-41.- A lista de figuras, anteposta ao
Alexo_, parece indicar que o Poeta o considerava como
drama pastoril, muito embora não o repartisse em scenas.
Quem o confe1·ir com outros Autos pastoris t, dos coevos
iniciadores da a.rte dramática, em especial com os de Gil
Vicente, há-de reconhecer seguramente que a acção de
amor que se desenrola entre sete pastores em oito ou nove
scenas (quatro monólogos, e quatro dialogadas, com dois,
três, quatro, cinco interlocutores) justificaria plenamente
a classificação. Tendo em conta que :Miranda visa prová-
velmente o p9eta cómico na Ca'rfa moral em que se insurge
1 I. Alexo, v. 41-140-11. Sancho, 141--276-111. Ninfa, 277-336-
IV. Alexo, 337-400-V. Antão e João Pastor, 401-554-VI. Falta
o princípio, uma fôlha com versos correspondentes a 544-676 de D;
Toríbio, Antão, João Pastor, 555-701-Vll. Os mesmos e Pelaio,
702-729-VIII. Os mesmos e ao longe Alexo, 730-833- Em nossa
redacção há o Epílogo (IX, 834--841) pronunciado pela Ninfa. Vejam
a Nota correspondente.
contra os Pasquinos que df'sacatam e maltratam os livros
divinos n.
0
108), e que êste visava provávelmente
o reformador, ao falar de homens de bom saber que rne-
noscabavam a musa folgazã que durante três decénios
havia divertido a côrte, é que vejo na Fábula do Mondego
um desafio ideal, lançado contra o autor da Comédia da
Devisa da (}idade de Coimbra, e na composição do Alezo
um acto de oposição aberta: réplica critica a qualquer
peça do mesmo, das proibidas e perdidas t. Procuro
mesmo (mas não encontro) a Gil Yicente no pastor que
silvara alto e se rira estrondosamente quando, pouco antes,
Bernardim Ribeiro com o seu rosto melancólico, já enca-
necido, todo lágrimas e suspiros, havia entoado versos
idílicos, de ternura inexcedível, versos aplaudidos então
frenéticamente pela maior parte dos cortesãos, acolgados
da sua boca», mas que aos primeiros embates da desgraça
lhe viraram costas (Vid. v. 482).
21. Alexo e Sancho.- Com relação às :figuras princi-
pais do drama pastoril houve e há críticos de arte que,
conforme já indiquei, as encaram como personagens de-
terminados e a acção como história real. Em. Alezo querem
reconhecer Bernwrdim Ribei1·o; em Sancho seu pai adop-
tivo; e até nas duas Teresas
7
mulher e filha do velho, só
mencionadas de passagem, a mãe (adoptiva) e uma irmã
(carnal) dêsse poeta (genealógicamente ignorada).
A motivação tem aparências de verdadeira, se nos res-
tringirmos aos traços essenciais. Desfaz-se contudo logo
que se fitem os pormenores com atenção e vagar, des-
preocupadamente. Alexo, pensam êles, é um enjeitadinho
nobre, recolhido e criado por um velho, chamado Sancho,
1 Talvez o Jubileu de Amor, totalmente desconbeciào em Portu-
gal, embora haja um valioso vestígio dêle, como conto expor nas
minhas Notas Yicentinas.
1(>7
em terra montanhosa. Bcrnat·dim Hibeit·o, órfão desde
pequenino, dum pai homiziado, foi recolhido e criado ]>O r
um ::;ancho: Sancho Tavares, primeiro em H intra,
em Estremoz. Alexo endoidece amor. A Bernardim
Hibeiro coube a mesma sorte infeliz.
1\Ias logo aqni surgem senões da idcntific·ação (a mnlhf·r
de Hancho Tavares chamava-se lnês .Zagalo, etc., etc.).
Só falarei do principal. Alexo só endoidece cum grano
salis, como todos os apaixonados: por exemplo o Coridon
de Vergílio (quae te dem,entia Miranda, que a cada
passo se trata de louco a si próprio, nas poesias líricas, e
tambêm às figuras das outras Églogas; e pouco mais ou
menos todos os Quinhentistas portugueses. Alt:m disso a
loucura de Bernardim é, salvo êrro, posterior à composi-
ção do Alereo. «Nos ultimos anos da sua vida. (transcrevo
o único documento que subsiste, tardio e pouco explícito)
perdeu a luz do entendimento, já fraca desde muito, mor-
rendo numa cela do Hospital de Todos os Santos». Em
1552. Com setenta anos. E Alereo é um rapaz t.
Não nego que no pequeno drama, como no Andrés, na
Célia, no Mondego e no Basto, ta(qual na maior parte das
poesias e prosas com pastoril, quer nacionais,
quer internacionais, haja lembranças de factos positivos
e reminiscências sobretudo de sensações, tormentas e de-
vaneios de alma. l\Ias que elas são em regra
pessoais, subjectivas; e em segundo lugar vagas, inde-
terminadas, misteriosas, como toda a verdadeira poesia
lírica.
Repetindo sem insistir o que apontei nas Notas 1, 11
e 12: literáriamente o Alereo é, quanto à confabulação,
1 .\. sua libertação pela morte, então recente, há alusão na re-
fundição do Basto, que em 1553 foi enviada ao Prínripe D. João,
na Terceira Parte das Poesia8.-Vid. 116, 297: O meu bom Ribeirt
amigo, Que em melhor parte ora 3ê.
158
um reflexo do conto helénico de Hércules e 1 lilas, tratado
por 'feócrito (na Égloga XIII). O tema é a índole apaixo-
nada dos Portugueses, exemplificada num rapaz imberbe,
perturbado pelos primeiros assaltos de Amor. Na sua
caracterização fantasiosa utilizou o Poeta elementos de
várias Églogas de V ergílio e Teócrito e elementos reais,
da própria experiência, a fim de lhe dar côr de vida. O
citado passo àa Ca'rta a l\Iontemor, em que o poeta se
identifica claramente com três pastores seus, desassisados
pelo furor divino, é irrespondível:
Triste Andrés! triste Diego! e triste Alexo!
Portanto Alexo não é Bernardim Ribeiro.·
Apesar disso há no Alexo alusões intencionais, positivas
_e significativas, a Bernardim Ribeiro; tantas e tais que
'o seu nome lhe podia servir de subtítulo. A êle, seu
o de To·rrão (Poesias, n.
08
103 v. 352 e 164 v. 402), com
quem boa camaradagem tanto na Universidade como
nos serões manuelinos (n.
0
51), durante a viagem à Itália
(vv. 404 e 428) e depois na côrte de D .• João III, à qual
o sonhador esteve adido como escrivão da câmara, de
1524 em diante-a êle erigiu um monumento na Scena Yt.
Isto é : no pdncipal lnte·rmezzo lírico da Égloga, indepen-
dente da história do zagal encantado. O único nexo com
esta está nos pastores Antão e João Pastor que, tendo
assistido à desgraça de Ribeiro, causada ou não por en-
redos de amor dalguma Circe feiticeira, assistem tambêm
aos devaneios de Alexo.
Todo o colóquio dos dois versa sôbre o afastamento, do
t É sabido ·que Bernardim Ribeiro, pela sua vez, introduziu a
Franco de Sandor:ir na sua i.:glo!Ja II, c que nela se refere à paixão
do amigo por Célia, e a poesias pastoris que a ausência e perda
dela lhe haviam inspirado.
15U
primeiro, da C"•irte. l>a luica di:les saem louvores do seu
espírito gentil, abalado por essa derradeira afronta; lou-
vores tamhêm da sua inocência, imprópria para o meio;
queixas sôLre a inconstância dos palacianos qlle há pouco o
aplaudiram,
gcn te de firmeza poca
que lc diú tantos loures
y aora gelos apoca.
Com sincera admiração enaltecem a sua veia brandissima
e em espec·ial o último cântico que entoara no mesmo sítio
e com o mesmo ensejo em que se apresentou e represen-
tou, ou se entendia apresentar o Alereo_,
ou
porque esse cantar fue llanto
como dei cisne se cuenta
quando la su muerte aventa
porque esse cantar fue elllanto
dei cisne como se cueuta
en su postrimera afrenta.
l\Iesmo se esta conversa e a declaração expressa de
. .Miranda não fôssem redondamente contrárias à identifica-
ção de Bernardim Ribeiro e Alexo, duvido que um homem
como l\Iiranda, delicado e discreto, houvesse exposto em
público, como rapaz doido de amor, ora exaltado, ora
deprimido e que foge à serra, a um infeliz sonhador, já
ancião, caído em desfavor e a tal ponto perturbado que
se viam nele prenúncios e ameaças de verdadeira alienação
mental. Acho muito mais delicado, discreto e carinhoso o
modo como êle toma decididamente o partido do amigo e
o defende não só na Scena V do· Alea:o, mas tambêm no
Basto, e de novo . no Epitalâmio pastoril_, designando-o
sempre directamente com o seu nome.
22. Antão e João Pastm·.- Os dois pastores que falam
de Ribeiro e cantam versos dêle ao modo estrangeiro,
com alusão ao gôsto pastoril de que êle fôra introduto:-

em Portugal, pode ser representem Antonio Pereira Jlar-
ramaque, destinatário da refundição de 1554, e João Ro-
driguez de Sá e Meneses, destinatário duma Cm·ta moral
(Poesias, n.
0
105) e duma versão de Basto, em que
tambêm há referências a Hernardim (ibid., n.
01
116, 154
e 16-!). Quanto a João Rodríguez-antigo pai das )lusas,
espírito culto, admirador da antiguidade clássica e do
Renascimento uas artes e letras, cujo gôsto trouxe de fora
da terra (Vid. Poesias, p. 788), isto é, da Itália, onde êle
andara- a conjectura já foi enunciada por Delfim Gui-
marães (p. 59). O Epitalâmio, em que há novas referências
a Ribeiro- sendo êle próprio introduzido como prisioneiro
de amor que canta os seus males- é dedicado a um dos
filhos de João Rodríguez. Ao todo temos nas Poesias de
Miranda seis composições em que êle intervêm: n.
01
51,
102, 103, 116, 151, 164 (vid. pp. 39, 116, 169, 391, 510,
553, 603, 680, 694, 697, 709 da minha edição).
Isso baste aqui. Apenas lembrarei que Bernardim Ri-
beiro (lançador dos dados, quando ~ I i r a n d a ainda hesitava
com relação à sua fugida da côrte-Poesias_. n.
01
103, 355)
contava 34 anos quando Garcia de Resende acolheu algu-
mas Trovas dêle no Cancioneiro Geral; 42 ao vültar da
Itália, e 50 quando teve de ausentar-se da côrte. Os seus
primeiros amores devem ser portanto de princípios do
século, o mais tardar.
23. V. 67-68. -A respeito das alusões a costumes e
superstições populares, vejam-se as Notas às Poesias. Se
a cronologia das diversas redacções do Alexo estivesse
averiguada, valeria a pena examinar se nas limadas em
Cabeceiras de Basto e na Tapada há maior número de
elementos folclóricos do que nas anteriores.
24. V. 73.- Não ligo importância a êsses traços fan-
tasiados. Fixemos todavia que Alexo fala duma irmã
lül
I
sua, <·asada e levada ao longe pelo esposo (c·fr. J 8U).
Mais abaixo Sane h o fala de ltermanos do zagal (v. 23U)
e da. mãe (240). Em ouh·o passo (v. lHü) chama Teresa
a sua mulher. Só em J (v. 1Gl) fala, no trecho corres-
pondente, de duas Teresas, filha e mulher. ~ a l v o êrro,
temos: Sancho e Teresa, pais adoptivos; uma filha dêles,
solteira quando recolheram o rapaz recemnascido, mas ca-
sada quando êle, na puberdade, se namorou; e um ou mais
irmãos, sem mais indicações-o que não combina nem com
o Sá de Miranda histórico, nem com Bernardim Ribeiro,.
mesmo sP por irmãos e Í'rmã entendermos adoptivos.
25. V. 156.- Ochen.ta anos quando menos. Em J (183)
Sancho é passado de los setenta. Quanto ao moço, êle conta
dezoito na redacção do caderno autógrafo (v. 190); deza-
nove em J E (155); dezassete em A B F (153). Tais
variantes mostram à evidência que se trata de criações
da fantasia do autor, cópias livres do puer Hylas e de
Hercules. l Ou haverá a.Iguêm capaz de sustentar que, es-
critas em épocas diversas, se cingem à realidade? e que,
emquanto o velho dava um salto de 70 a 80, o moço se
arrastava apenas de 17 a 18 ou 19?-Talvez, talvez!
26. V. 401-554.- É a Scena principal da Égloga:
formalmente, por conter as primeiras tentativas bucólicas
em metro italiano; idealmente, como defesa de Ribeiro,
critica à inconstância e injustiça dos palacianos; lamentos
piedosos sôbre o desacêrto fatal de o amigo ingénuo e
sonhador (inocente pastor) se ter dado a pahwiego.
27. V. 404.-Aqui. Cfr. 441-42. Este era el tiempo y
sazon, El lugar estP. era aqui.-(, Qual seria o sitio e o en-
sejo da representação (só planeada, ou de facto realizada?)
do Alemo, e ao mesmo tempo da festa anterior em que
Bernardim Ribeiro havia cantado, em regra estreita, se-
11
1H2
gundo preceitos ue arte, o seu último poema, em desafio
com um rapaz que, assovianuo, improvisava trovas, talvez
de folgar? l Uma sala. no paço ue Sintra, donde se avis-
tavam as árvores do parque? ou um terreiro aberto? :X'·m
seria impossível que D. João III, fugido da peste e dos
tremores de terra do ano de 1531, que haviam derrocado
grandes partes dos paços de Lisboa, Santarêm, Almeirim,
etc., se houvesse hospedado em alguma proprie-
dade alheia, e que ahi houvesse festejado duas vezes o
·seu aniversário. Sei que esteve no Lavradio. Ignoro,
porêm, quanto tempo se demorou aí, e também se por
acaso lá possuía casas o seu ministro plenipotenciário e
valido, D. António de Ataide. Sei tambêm que em 1 de
N ovemhro estava em Ah·ito.
28. V. 405. -Nuestr'amo. O amo ria!, D. João IIL
29. V. 414-422.- O ano de 1531 fíJr.t infeliz. Houve
cometa, peste, fome, terremotos repetidos, sublevação
contra os cristãos novos. Ko verso- 507 há referência
especial aos tremores de Janeiro, assinalados gloriosamente
pela audacio:;a intervenção de Gil \Ticente; aos mais te-
merosos e espaventosos que se houvessem visto•,
segundo testemunhos de vista, como Garcia de Resende
estrofes 289-99); o depoimento duma freira
do Cartaxo; e um anónimo italiano.
30. V. 423-433.- O autor antigo da Vida de Sá de
Miranda designa o Al,.xo em geral como causador do
ostracismo a que o poeta foi votado. Um anotador coevo
(dum exemplar de 1614) indica em particular a estrofe 49
Daquel gran pino a la sombra como origem do ressenti-
mento dum poderoso, em desfavor do qual ela fôra escrita
e era interpretada, ou antes o ressentimento de toda a
família dos Ataídes (Vid. p. 766).
Do t·ontexto vê-se elaramente que ::\1 iranda ahHl•• a
uma entidade dl'terminada, malfazt-ja, à qual at1·ihuia a
desgraça de· Uilu-.irn, e não à mona1·qnia portuguesa, como
entencle Delfim Guimarãt•s (O Poeta ('ris_f'al, p. fi2),
sem se importar t•om as restantes alusões du que
versam exclusivamente sôhre amores infelizes, seus e, na
Scena V, do amigo; em desarmonia C'omplcta tamht:m com
as idéias patrióticas do homem de «antes quebrar que
torcer)), num· a louvaminheiro, nem mesmo na Carta moral
a elrei, tão cLeia de advertências polítiC'as e filosóficas
31. V. 423.-0 gran phw-Pinlwú·o em português-
plantado pouco antes, era já tam crescido que C"Om a sua
rama assombrava(- causava espanto desagradável, e não
admiração e aplausos) aos vizinhos, isto é, a?s _outros
cortesãos, pretendentes e aderentes. A meu ver pino é
alegoria. Simboliza o já mencionado ministro e valido de
D. João III: o bisneto de D. l\Iaria Pinhei1·o, D. António
de Ataíde, Senhor de Castanheira, Povos e Cheleiros,
vedor da fazenda desde 1530, elevado a Conde em 1 de
:Maio de 1532 (Vid. Brasões de Cintra, II, 449), o qual
suplantara logo nos princípios do reinado (1522) nas
boas graças delrei a D. Luís da Silveira, seu rival, o de
Gói,. Êste, Conde da So1·telh.a, tambêm desde 1532, era
gentil poeta, amigo e colaborador de 1\Iira.nda e aparentado
com João Rodríguez de Sá e :Ueneses.
O caso particular que indispôs o Ataíde contra Ribeiro
e Sá de provávelmente mais literário ou pessoal
do que político, não se regista nos anais da história portu-
guesa. Certo é todavia que, alêm do antagonismo natural
dos três palacianos nomeados, êle provocou o de muitos
outros, e que a nação em geral lhe atribuía os males e
desacertos do govêrno: o casamento da Princesa D. Maria
com Felipe II, em lugar de lhe darem por esposo o Infante
D. Luis, que a amava, segurando assim a o
lfi4
abandono das praças africanas; suspeições de heresia lan-
çadas contra o Duque de Aveiro, etc., etc. I>rovam-no
aquelas famigeradas G4 quadras virulentas, chamadas em
geral Trovas de D. Maria Pinheira., cheias de avisos e
conselhos sãos, verdades nuas e ·cruas, mas que descambam
em pasquinadas, apoucando a fisionomia e a geração do
Conde
por ser parente d'Abrahão
e tambem de Mafamede.
:Muito posteriores à 1. a redacção do Alexo (como se vê
das alusões históricas que contêm), do último lustro do
govêrno de D. João III, segúndo tradições literárias, essas
Trovas (dum género que era costume pôr, em papéis
sem nome, onde os reis as vissem) não tem nada com as
queixas comedidas de Sá de )liranda. Ainda assim, mesmo
estas deviam incomodar o Conde e todos quantos o o:ado-
ravam como Deus ou temiam como diabo», se realmente
no pedigree dêle o nome Pinheiro significava mancha, no
entender da X obreza de então. (Vid. Brasões, 1, 429-30).
Estilísticamente as Trovas não são inferiores às restantes
do mesmo género, dos séculos xv e XVI (Vic.l. Poesias_,
n.
08
153 e 208). A atribuição a Damião de Góis (baseada
em que, perto de 1600, havia um traslado no seu Nobiliário!)
parece-me insustentável por muitos motivos, um dos quais
é não conheC'ermos versos alguns, em linguagem, do grande
· historiador, em geral franco e justiceiro. )fais razão de
ser tem a que se liga à circunstância de as Trovas terem
sido entregues a D. .João III por um familiar da Casa
de Sortelha, tam prejudicada por D. António de Ataíde,
porque tanto o Conde prejudicado e seu irmão carnal
Simão, como seu filho D. Simão, poetavam. (Vid. Intro-
dução_, cap. n; Delfim Guimarães, O Poeta Orisfal, p. 60).
32. V. 425.- No ha pero mttcho_, no- deve aludir à
elevação recente de D. António a Conde da Castanheira.
.
Nas outt·as redal'<;Ões não se vê ta.m <'laramente que essa
oração temporal se rcfcrf" à plantação do pino (e não à
última festa palat·iana. a quP Bcrnanlim Hiheiro assistiu).
33. V. 44f>.-lQual será êsse prnntu de cisne, chorado
na côrte? Nas obras de Bernardim Ribeiro não ha indícios
suficientes para fixarmos a ordem eronolúgica das suas
poesias. Nem internos, nem extrínsecos. Das fcJlhas vo-
lantes em que pouco a pouco sairiam as cinco Églogas e
os versos menores, uma só subsiste, imllressa em 1636,
ou depois. Os versos mais traspassados de melancolia são,
para mim, o Romance Ao longo de uma e os
intercalados nos fragmentos ela 1lfenina e Prfoça. Com
relação às partes autênticas desta novela- verdadeira
mina de formosura, mas singularmente confusas- creio
que foram escritas posteriormente, longe da talvez
em Ca_beceiras de Basto-quando os sintomas da alienação
mental eram intermitentes, e à oração Veni creator spiritus
a sua delicada 1\Iusa já nem sempre acudia. Outros poetas
há_-por exemplo o nosso Hoelderlin, Lenau e Nietzsche-
de que subsistem obras interrompidas e perturbadas pela
doença fatal.
34. V. 451. -<,Quais são as mudanças a que o Poeta
alude? quais os bons gestos que debalde procura? Pode
ser pensasse em especial nas figuras lindas e simpáticas
de D. Luís da Rilveira e seu irmão, descritos em verso
como
tam alvos e tam louçãos,
cujos geytos, pees e mãos
sam muy doçes de notar.
Como guarda-mor D. Luís devia estar presente, a não
ser que já estivesse prostrado pela idade ou pela enfer-
midade que o levou a 10 de Junho de 1533. Pode ser
tambêm que, abrangendo um espaço maior de tempo, 1\li-
lGH
ramla opusesse, em geral, as caras alegres dos Herões
manuelinos (com os t:;ilveiras, lJ. João de )leneses, o
Conde de Vimioso, etc.) aos rostos carregados e soturnos
da côrte de D .. João IH; e em particular ao sobrecenho
orgulhoso de D. António de Ataide.
No Capítulo I dêste estudo já se viu que a fama atribuía
as T1·ovas ao Conde da Sortelha, ou a alguêm da sua casa
35. v. 457-!59:
Variantes:
u
El cantar que aqui cantámos
Fue, sabes, de lcxos parte
Do bucnos dias passámos.
Fne sabes de estraila parte
Donde un tiempo ambos andámos
Sabes que traído avemos
Sampoilas de cstraiias partes.
Sempre referi essas indicações aos dois introdutores do
género pastoril, persuadida de que Uibeiro esteve tambêm
na Itália, de 1521 a 1524. E continuo a pensar do mesmo
modo, embora (leva levantar uma objecção. Quem enuncia
os dizeres citados é João Pastor, el maestro, como Antão
o chama n.
0
v. 6-!0), personificação de João
Rodríguez de Sá e :Meneses, conforme disse na X o ta 21.
Êste bem latinista, bom humanista, trovador distinto,
amigo (le :Miranda e todos os esteve na
Itália exactamente na época da viagem dos dois amigos:
no séquito de D. Beatriz (1521) •. Talvez tambêm, com
muito maior demora, na sua mocidade, como discípulo de
Cataldo Sículo, juntãmente com Hermigio (ou Henrique)
1 Vid. Garcia de Resende, Obras (p. 324 da ed. de 1788). Vejam
agora os que ainda dão fé à mais antiga, mais.poética e afinal de
contas mais verosímil das lendas relativas aos amores de Bernardim
Ribeiro, se da minha interpretação querem tirar novos argumentos.
JU7
Cayadu. O que não eon:-;ta, por,:m, é que, como êssc, to·
casse a flauta pastoril, vergiliana. Por isso crnio '{li! , pela
hôca de .João Pastor e .\ntão, como pela de Alexo e
cho, é sempre l\liranda quem Tivera todavia o cui-
(bdo de esc·olher como modelos e tamb,-:m pa1·a actores do
Alexo- d1Ytmatis personae- amigos que pudessem pro-
nunciar essas e outras alusões, sem pro\·ocar sorrisos mo-
tejadores.
36. V. 4G0-4Gl. -]\'liranda confessa, sem ciumes nem
invejas, que Hibeiro foi o que começou a cantar ao som e
modo estrangeiros, segundo o exemplo de Sannazzaro, o
renovador das cantilenas pastoris sicilianas. Se entender-
mos que êle foi o primeiro que escreveu, em língua por·
tuguesa e metro nacional, idílios de comoção lírica pessoal,
sem dependência qualquer dos Autos do Natal, nada há
que replicar. Todavia, não devemos esquecer que todas
as dez Églogas de V ergílio já foram nacionalizadas desem-
penadamente por Juan dei Encina (reconhecido de há
muito como pre(lecessor de Gil Vicente) antes de 1500.
Nem tam pouco devemos esquecer outro Peninsular,
mas êsse Português, havia imitado com igual liberdade o
em latim, para documentar quanto apren-
dera na bela Itália, diis sacra, perante D. )lanuel, ao qual
dedicou em 1n01 as suas Bucólicas: o já citado Ermigio
(ou Henrique) Cayado. (Vid. Cm·pus Poetarum lllut>trium
Lusitanon.tm, vol. I). Na IX :figura um Alexis. Vid. a nota
imediata.
37. V. 466-545.- É o terceiro -internzezzo musical da
Égloga. Ao todo há sete (ou oito, se contarmos as quadras
sôltas entoadas por Alexo na Scena final): uma por scena
e por pessoa. Os que são Cantigas ou Vilancetes em
octonários não dão margem a observações de pêso: nem a
Cantiga de Alexo: Buelve acá patJtm· cansado (v. 113-141);

nem a da Ninfa: D' Amor bien dizen que es ci(go (v.
nem o quarto e o quinto, que faltam no caderno autógrafo:
De mi tormiento vencido e Miwnt1·as yo tanto a los ojos,
ambos de Toríbio; nem o sétimo: Quando tanto alubas,
Clara (v. Gf>8-G9B). Digno de nota é que todas, sobre-
tudo a última, são eflúvios duma alma verdadeiramente
apaixonada (mui.to mais vigorosos do que a maioria das
trovas que andam no Cancioneiro Ge1·al), correndo parelhas
com os versos de Bernardim Ribeiro e Cristóvam Falcão.
Só o sexto /nte1·mezzo (v. G02-633) e o terceiro- o
canto alternado, bipartido, de Antão, como primeiro vio-
lino, e João Pastor que, na lhe leva o descante
(no verdadeiro sentido medieval da palavra)- merecem
atenção especial. Da novidade técnica das estanças já falei
na lnt'rodução, advertindo que essa tentativa de criar uma
forma nova, pela fusão de elementos nacionais e estran-
geiros, não vingou, e que venceu a maior singeleza e
perfeição da pura Oitava italiana, tal como a apresentou
no sexto interrnezzo. As numerosas e incisivas variantes
dessas estâncias, publiquei-as no Apêndice ao Capítulo IX.
Tantos e tais retoques afastam por completo a conjectura
que Bernardim Ribeiro, cujas palavras e melodias os dois
cantores fingem repetir, fôsse seu autor verdadeiro. Neles
se vê mui claro ·que foi l\Iiranda quem, laboriosamente,
compôs êsses primeiros hendecassílabos pastoris; êsses
primeiros amebeus da literatura portuguesa, pri-
meiras estrofes de arte em que platónicamente idealiza os
doce-amargos contrastes de amor que sofrera e viu sofrer
ao amigo-a luta árdua entre a sua Razão e a sua Vontade
(como costuma denominar os impulsos do seu coração sen-
sibilíssimo de mi.morado português) que o torturava a êle, e
a que ia sucumbindo o menos resistente dos dois amigos.
Imperfeitas ainda, elas são o que a poesia nacional havia
produzido mais penetrantemente apaixonado até 1532.
O canto alternado da poesia pastoril- amebeu na ter-
lGU
minologia de amoebaeus ( Vr·rgílio, J::gloga I I I,
que é o gn'go citJ.o&b:i'o.; (Tec)<:rito, VIII, 31), dt•rivado
de amoibe t JVecluJel, transmutação, alternação), do verbo
amr.·ibo- é, a IIH'U ver, fruto c·ulto, sahoroso e artístico,
duma planta rústica, bem singc·la: os dnos com que na
realidade, tanto na Sicília eomo em Portugal e alhurt's,
pastores e pastorinhas se respondiam, de monte a monte,
ora com meros sons da. débil cana de aveia, ora com versos
soltos ou pa1·Pados. Irmão. portanto, dos arcaicos cantos
paralelísticos, concatenados, do povo e dos trovadores
galego-portugueses. Se nesses, pobres de sciência e de
arte, a repetição quási literal da mesma idéia envolvia o
paralelismo gramatical dos versos, a regra estreita do
cantar afinado requer, da parte dó que responde e leva o
descante, conformidade formal ( Cúnci1mitas) com a estrofe
de arte (quanto mais nova, tanto melhor) do que começara,
e idéias semelhantes, expressas todavia em dição diversa,
superior, sublimada. Em Teócrito e Vergílio é em geral
por sortes que se distribuem os papéis. Ambos os con-
tendentes destinam qual prémio darão ao vencedor. Um
pastor velho é juiz; mas, contente com ambas as produções,
às vezes não assina melhoria a nenhuma. Exemplos típicos,
que :Miranda estudara a fundo, são os Idílios Bukoliastai,
de Teócrito (V, Lakon e Kornalas; VIII, Daphnis e
Men,l-lkas); as Églogas, III (Damoetas e ltfenalcas) e
VII (C01·ydon e Thyrsis), de Vergílio; e sobretudo I e IX
da Arcádia, de Sannazzaro (Montano e U1·anio; Ofelia e
Elenco); assim como a IX de Cayado ( Alexis e Polyphemus).
Juan dei Encina não guardou a regra na Égloga III, mas
sim na VII, onde os dois pastores cantam en apuesta ou
à porfia:
cada qual su vez por si;
que a las musas place assi
cantar el canto a vegadas.
Amant alterna Camoenae.
170
38. V. 465. -Como si Ribe1·o - En persona de
R ibero.- Encina, com respeito à Égloga VII, emprega a
fórmula em sentido invertido ( en pe1·sona del autor
de aquesta obra, canta la soledad que sentia).
Bernardim Ribeiro tambêm havia intercalado numa das
suas Églogas (II) versos seus, como obra de :Miranda
(Franco de Sandovir).
39. V.


154.
40. V. 462.-:Miranda parece caracterizar bem o amigo
e a sua índole melancólica: de semblante triste; encanecido
cedo; lloroso ou todo e suspiros (151, 321); de
fala vagarosa, e muito pensar; c ui doso; de brandissima
veia; etc.
41. V. 4 74.- Claro que esse Senhor, inimigo e cruel,
é Amor (á su mm·ced como de se-nor vúze). Referir essa
exclamação a D. :Manuel ou a D. João III é tão ilusório
como a interpretação de Pino por Portugal.
42. V. 482.-0 que ende silbaba ou motejador
das novidades artísticas, apresentadas por pastores pla-
tónicamente namorados, devia ser forçosamente adepto
acérrimo da Escola velha
1
• Os representantes mais ilustres
dela são Gil Vicente e Garcia de Resende, activos ainda
em 1532; mas velhos. E :Miranda classifica o silvador
como zagal e mochacho. Ignoro qual dos continuadores do
Plauto português era do agrado da côrte; protegido do
Conde da Castanheira. O Chiado? António Prestes? De
1 Há ironia tambêm na citação dos rouxinoes assoviadores pela&
hortas d'Enxobregas, 108, 349. Quanto ao vocábulo &ilvar no Ne-
moroso (115, 73), não percebo a intenção.
171
quem seria por CXl'mplu o auto, rf'JH"f'sentado rm
em li"'>-!3, para. despPdida da Princesa D. Maria?
43. v. r,o:!.- ..:\s estanças de lt·ix·a-prem acalmm aqui.
No canto alternado de Daphnis e l\lrnalkas tambêm se
empregam duas formas líricas diversas.
44. V. 52G:
Variantes:
Que vicndo lo mejor, lo pior sigo.
Lo que es mejor vicndo, cl peor sigo.
Viendo tan claramente lo mcjor
Tomé a la mano ezquierda y esa sigo.
Que viendo claramente lo mas cierto
Tomo el camino avieso i ese sigo.
É imitação de Ovídio l Vídeo meliora proboque, deteriora
sequor), ao qual se encostaram Petrarca (E veggio 'l meglio
e al peggio Tn/appiglio), Garcilaso_ (Conozco lo mejor_, lo peor
aprztevo). Posteriormente o verso foi glosado por D. Fran-
cisco :Manuel de l\Ielo e Luís de Camões, o qual de resto
mais duma vez aproveitou pensamentos de :Miranda. Na
incomparável Canção autobiográfica diz:
Com ter livre alvedrio não m'o deram,
qu'eu conheci mil vezes na ventura
o melhor e o peor segui, forçado.
E novamente na Elegia, até 1H02, do Cancioneiro
de A. F. Thomas:
fujo do melhor sempre e o peor sigo.
Vid. Sociedade Nacional Camoniana, 1902 (p. 4 7).
45. v. 553-555:
Pastor bueno, si al palaçio
dexáraste engaüar!
Variantes:
Pastor bueno, si ai palacio
dexáraste caçar!
Ah buen pastor, en tu mal ciego!
Más en darte a. palaciego !
O paço o levou quando a ôlho crescia em tudo, quando
colgavam da sua bôca. Kão foram. portanto os amores
juvenis do tempo em que a barba lhe pungia, aos vinte
e um anos, conforme conta, mas desgostos tardios
roubaram a luz do entendimento ao homem maduro, mas
talvez ainda sensível a encantos feminis: desgostos que
lhe sucederam na côrte, emquanto exPrcia o cargo de
escrivão da câmara de D. João III.
46. V. 555-556.-Para preencher a lacuna que aqui há
(uma fôlha com setenta e tantos versos) temos, em redacção
alargada, os versos 545-681 do manuscrito D. Xeles há
as duas Cantigas ao modo nacional, já citadas. Alêm disso
há menção doutra, real ou fictícia. Toríbio, rogado pelos
companheiros, pregunta:
Qual diré?
Amor en que anda?
No! mas la
De mi tormento.
(ou De mis tormientos), exactamente como o de
Sannazzaro dissera:
Or qual canteró io, che n·ho ben cento?
Que lia del fier tormento'!
O quella che comincia: alma mia
Diró qucll' altra force: aM cruda atella.-
Cfr. Vergílio, Égloga V, 86 e 87.
173
47. V. 55G-GI.in.-Na conversa sliLre os modos pátrios
<·a.ntados:
a fuer tlo Espaíia
com música alth•ana
,restos de la ticrra lla.na
há elogios da boa disposição dos d0 cá, e queixas a respeito
da omnipotência do costume, da tradição e da preguiça dos
que não querendo aprender e desenvolver os seus talentos
viçosos, ridi<•tllarizam os que nadam contra a veia. lJezir
solo <(1W me plaze» no es ra,zon tmficiente.
48. V. G02-633. -Falei das Oitavas na lntrodaçãu.
)[ais abaixo (D, v. 835) o poeta trata-as de roubo. Como
desconheço o modêlo em que por ventura se inspirou,
entendo que fala assim como imitador, com probidade e
modéstia rara. A cada pouco repete que canta ao modo
estrangeiro, à maneira italiana (vid. Sextina, Canção à
Vú·gem). Com relação às Comédias tambêm ex-
pressamente que seguia a Ariosto, e arremedava em luga-
res a Plauto e Terêncio.
49. V. 641.- Não apurei quem possa ser esse velho
poeta, peregrino, com o qual João Pastor (ou Sá de )[i-
randa) se encontrou, caminho de Roma.
50. V. 696.- Novamente se afirma que tambêm em
verso de redondilha, à antiga maneira peninsular, se po-
diam dizer cousas de pêso.
51. V. 700. -El lobo es en la conseja -0 lobo na
conselha (no dizer de Jorge Ferreira de Vasconcelos) -
Lupus in fabula. -Quem avista o lobo, perde a fala de
susto, ou enrouquece. Enrouquecemos, emmudecemos,
ou pelo menos sustamos conversas quando de repente
surge alguma pessoa de respeito. Vid. Vergílio, Égloga IX;
Sannazzaro, Égloga VJ.
174
52. V. 708.- Na exposição dramática da loucura de
Alexo o traço prineipal é a sua repentina trctnsformação
em poeta. Os pastores <JUe tal vêem e ouvem (que a11da
componiendo versos) deelaram logo ineurável a sua doença.
53. III). Tu presencia dessearla.- autógrafo falta o
princípio: o Afoto e quatro versos da 1. a Volta, com as
epigrafes respectivas. de Juromenha, cujo
texto concorda com o nosso (nesse caso especial e em
globo f), e tambêm nas edições de 1595 e 1614, o .J.lfoto é
atribuído a D. Simão da Silveira, e a primeira Ajuda a
Francisco de Sá e Meneses. Suponho por isso que tambêm
na fôlha haveria indicações iguais sôbre o empresá-
rio e seu colaborador. Como já pudesse revelar mais algu-
mas paráfrases de D. :Manuel de Por1ugal (vid. Zeitschrift,
VIII, pp. 439 e 600), de Pedro de Andrade Caminha (vid. Poe-
sias Inéditas., n.
0
272), assim como uma alusão de Jorge
de l\Iontemor (ibid.), julgo que todas seriam compostas na
mesma ocasião: a pedido de D. Simão da Silveira, que
desejava enviar à dama que servia e com a qual casou
após longos anos de um cortejo galantíssimo, na ausência
dela, êsses suspiros saudosos ao modo pastoril:
Tu presencia desseada,
Zagala desconocida,
onde Ia tienes escondida?
D. Simão, servidor de D. Guiomar Henríquez. um dos
mais discretos cortesãos do seu tempo, cujos ditos e practical
jokes são citados na A1;te nas colecções de
Apophthegmas., e nos Dialogos Apoloqaes de D. Francisco
:Manuel de :Melo, era filho do Conde D. Luís da Silveira;
relacionado e em correspondência poética não só com os
1 Duas emendas que eu propusera nas Poe,;;ias, a p. 682, são
confirmadas pelo autógrafo.
Quinhentistas j:i. citados, ma.s tambt!m ('Om .Tc·rt'mimo de
Cortereal, Ferreira, .Franciseo de Andrade, D. Diego <le
1\ll'ntloLa, e mesmo com Luís de Camões. Y ersos seus
subsistem nas Obras e em vários Cancioneiros
m:.tnuscritos (Luís Franco; Evora, cxn·, 2, 2; CXIV, 1, 17);
Cfr. Th. Braga, J.listo·ria, de Camües
7
II, pp. 2UfJ-:30G, 51-!
e 5l)(j. Nu Cancioneiro Gaal figura um Simão da Silveira
com diversas «coisinhas» de folgar (III, 3t, 57, 68, 2GG,
2(j0, 27!): 2!)4, 301, 3tl; u, G!J5; cfr. 111
7
265,273, 430,
43:!). Era seu tio, irmão do 1. ° Conde da Sortelha.
E, como ês.se, filho de Nuno :Martins da Silveira, o de
Góis. Embora o Conde, ::\Iarte e Apolo, segundo os en-
cómios entusiásticos dos amigos, colaborasse de facto com
Miranda (na paráfrase do En mi corazon os tengo),
Barbosa :\!achado fundiu num só os dois homónimos, o
que não mais devemos porque só ao Conde e seus
filhos competia o título de Dom (Brasões, 1
7
210). Apesar
das recomendações de Ferreira (Carta X, do livro n), o
amigo e adepto de :Miranda não deixou ao vulgo as antigas
Trovas de I-Iespanha. Alêm do Moto Tu desseada,
escreveu, por exemplo, Para que me dan tormento ( Can-
cioneiro Geral, ed. por F. Barata). ·
54. IV). Polo bem mal me fezestes. Vid. Poesias
7
pp. 55
e 682.- Ignoro quem seja .António de Azevedo. Suspeito
apenas fôsse vizinho, amigo e parente de Sá de 1\Iiranda,
por sua mulher D. Briolanja de Azevedo; da família dos
Senhores de S. João de Rei e Bouro. Vid. Poesias, Tabela;
e Brasões de Cint1·a, n, 303.
55. V). De qzte me devo queixar. Vid. Poesia3, n.
0
133.-
Excluído da colecção enviada ao Príncipe. Porquê? Por
ser posterior a 1553?
56. VI). Naquela ser'ra. Poesias, pp. 42, 746 e 876.-
Frei Agostinho da Cruz parafraseou o mesmo Cantar de
176
moças em Vúltas que principiam A tra-lús-montes. Vid. Va-
'rias Poesias) p. 15G.-.J orge Ferreira de Yasconcelús cita-o
na Ulysipo.
57. lll ). Posiera los mis amores. Po,sias) pp. 3!t e 6RO.-
~ o Cancione1·o Musical do tempo dos Reis Católicos, pu-
blicado por Barbieri, há o mesmo Vilanccte velho, com
música de Badajoz. :Miranda modificou a letra, transpon-
do-a de senários em octonários.
58. \III). Secaron-me los pesares. Poesias) pp. 41 e 681;
746 e 876.
59. 1\). En toda la Trasmontana. Vid. Poesias) pp. 43,
681 e 746, e Romances Velhos) p. 247.- Serranilha, que
já era velha no tempo do :Marquês de Santilhana.
60. X). Todos vienen de la vela. Poesias) pp. 24, 679,
743 e 875.
61. XI). Los agravios que recibo. Poesias, p. 23. -
Bastante alterado. A vista do autógrafo eu modificaria a
pontuação, lendo esto que ns cuestal e pondo sinal de ex-
clamação aos dois versos imediatos.
62. XII). Nada do que vês he assi. Poesias) pp. 25, 680
e 743.- Bastante modificado. Os versos 8 e 9 lembram
o provérbio De fora) cordas de viola; de dentro) pão
bolorento.
63. XIII). Ser'rana, onde jouvestes. Poesias) pp. 27 e
680.- Êste seria o teor velho da Serranilha; e Coração,
onde estivestes) variante do poeta, que a escreveu numa
noite de insónia.
64. Xlf). Não vejo o rosto a ninguem. Poesias) pp. 31
e 680.
177
65. xn. Qtâen vif'SSC aqrtel dia. PoesittB, PP· 447'
HJ-L- Falei dt'':ssc lindo Cantar velho, que a meu ver
exige música, mais acima, por mais de urna V(·z. }J ova-
mente peço que o t1·aduzam para A linda com-
posição musical de Schumann Lú·dcrxJitl·l.
n.
0
li, bem merece que a cantem em l)cll·tu-
gal com let1·a vernácula.
66. \H). Não posso tonw1· os olhos. Poesia11, pp. f>H,
HH3 e 7úl.- Seis fôrças se combatem na psique do autor.
A vontade (mais voluptas do que volunfas) que se no
costume, mal admite as leis ditadas pela razão. go-
vernar-se pelas regras e pelos impulsos que individnalmentP
emanam do instinto da vontade. Os olhos bandeiam-se
com a vontade, que a violência, cada vez que a
razão lhes queira dar ordens. Acima de todas está Amor.
Onmia vincit Amor, segundo Vergílio, Bueólica X, 6B. Ver-
giliana é tambêm a sentença Não valem leis sem, costume-
Quid leges sine moribus vanae p'roficiunt (Carm. III, 24, 35 ).
67. XIII). Menina ferrnosa. Poesias, pp. 5!t8 e 8f)9.-
De outro Cantar velho de moças, bonito mas vulgar, que
principia do mesmo modo, e que Delfim Guimarães atribuiu
a Bernardim Ribeiro (p. 255), sem razão nenhuma, conto
ocupar-me no estudo crítico do Crisfal.
68. X\111). Amor e Fortuna são. Vid. Poesias, pp. 58-l e
86i">.- É importantíssimo o facto, até hoje ignorado, de
o autor dos Vilhalpandos e dos Est1·angeiros havm· com-
posto uma T1·agédia, de assunto clássico, aparentemente
perdida. Como. nas duas comédias togatas, à maneira de
Plauto, Terêncio e Ariosto, e na Pastoril de Alexo, deli-
beradamente se esforçasse por erguer o Auto à altura de
verdadeiro drama, é de crer não desse o nome de Tragédia
a uma narmtiva em prosa, como a IJ-Ji,.rlw de Vill:ilon
12
1 7 ~
(Jf>ar,; vid. Revue 1/ispani'lue, XIX). J>rovável é, pelo
contrário, que se cingisse à maneira de Séneca ou à dos
Gregos, visto que na Itália não havia modelos dignos da
atenção de um Sá de )liranda. (O 1'imr.m, de llojardo, é
Comédia ou Sátira; o Aman, anónimo, representação
bíblica). Quanto à cronologia, :Miranda precedeu com a
sua Cleopatra os precursores castelhanos: Juan de 1\Ialara,
Bermúdez, Juan de la Cueva, Cristóval de Viruês, Ar-
gensola, Cervantes. Quanto ao assunto, antecipou-se não
sómente a Shakespeare, mas tambêm, e em três decénios,
a Diego_ López de Castro, pois êste acabou a sua T..,-agedia
de Marto Antonio y Cleopatra a 7 de Setembro de 1582.
(Vid. Hugo A. Hennert, em Revue 1/ispanique, XIX,
pp. 184-237
1
).
l Não pude con::mltar os livros, ai citatlos: Georg Hermano
:\locllcr, Die Auffaslmny der KleoptJ.b•a in der Trayoedien-literatur
der llomanisclten und Geniwnisc/ten XaUouen, Ulm 1888; Horace
Howard Furncss, Tlte Trayctlie of -'tntlwuie aml Uleopatra, Phila-
clclphia 1 ~ 0 7 .
1 7 ~ l
lHO
181
182
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INDICE ALFABÉTICO DE NOMES E DE COUSAS
A 1ni 1Jida llena : 60.
-1 un Portttguês que llora/,a: 37, 151.
Abreviaturas no autógrafo tle S:'t de .Miranda: 10, 76.
_icademia de Nocturnos: 60.
-- de Singulares: 60.
Afonso (D.). Vid. Infante-Cardeal.
Aft·ica (serviço militar nas praças da): 38 .
.:\guilar (Felipe de): lU, 1'32.
Alt si viesse dia: 61. Cfr. Quien vies.se aquel dia.
Aires (Cristovam): 3.
--de Sá, autor rle Frei Gonçalo Vellto: 15-!.
(poéticas), 9, 23, 51i, 57, 59, t30, U, 17-t.
_\jurla. Vid. Cancioneiro da .Ajuda.
Alexis: 144.
Alexo, Égloga de S:L de Miranda, e seu IH·incipal prutaguuista: 2ã,
27, 30, 31, 32, 33, 36, 38, 39, 42, 53, 72, 73, 74, 130, 1-!0, 1-t3;t4J,
lt5, 1..17, 150, 155.
_\tvarez (.João), impressor: 67.
Aman, • anónima italiana de assunto Líhlico: 178.
Amant alterna Camocnae: 169.
Amcheu (cauto) = altt-rnadu: 33, t:-;n, l-U, 1fj8 sg:;.
Amor burlando va, muerto me dexa-: 16, 17. 3:3, UW, 170.
Amor tirando 1Ja por cielo !/ tierra: 19.
Amor e fortuna lfão: 16, 17, 39, 177.
em que anrla!: 172.
143.
_\utlra . .te (Franci::wo •lc): &3, 15-l, 175.

A•ulra•le Camiuha (Pedro •lc): 10, 21, 29, 51, 5!J, fj(J, Gl, fj3, 70, 75,
150, 174.
Andrés (figura pal)toril): 20, 144, 151, 152, 157.
Antão (pastor) : 33, 48.
Apophtegmas: 174.
Aquele esprito ja tam bem pa!Jado: 27.
Aragão (D. Francisco de) : 5!l, 63.
Aranha. Vid. Brito Aranha.
Arcadia: 32, 53, 147, 169. Vid. Sanuazzaro.
Argensola (Lupércio Leonardo de): 17H.
Archivo Histórico Portu9uez: 10, 55, lH, 153.
Ariosto (Ludovico): 173, 177.
de Galantaria: 114. Vid. Portugal (D. Franci:;coJ.
A1·te maior (versos de): 33. .
Assumar (Conde de): 5, 7.
Ataíde (D. António de), Conde da Castauheira: 58, 130, lfj2, 163,
164, 166, 170.
-- (D. Caterina) : 59.
Aveiro (Duque de): 66, 74, 16-t.
Aymon de Cantabrigia: 149.
Azevedo (António de): 21, 23, 4-l, 175.
-- (D. Briolanja de): 21, 37, 67, 175:
Badajoz (Garci Sánchez de): 65.
Barata (A. F.), publicou um Cancioneiro Geral de vários: 23.
175.
Barata (.Manuel), calígrafo quinhentista, louvado por Luís de Ca-
mões: 10.
Barbosa Machado: 175.
Barreira (João da), impressor: 67.
Basto (Cabeceiras tle): 23
1
24J, 38, 3!l, 72, 73,116,165. Vid. Pereira.
Basto, Êgloga de Sá de Miranda, dedicada a um Senhor de Cabe-
ceiras de Basto: 20, 2-1, 25, 27, 4!l, 53, 6!, 7-1. U!l, 157, 159, 160.
Vid. Égloga Moral.
Beatriz (Infanta D.) de 8aboia: 178.
Beja (Paulo de): 152.
Bela mal-maridada: 5!>.
Bermúdez (Jerónimo): 178.
Bernárdez (Diogo): 8, 10, 27, 35, 51, 61, 70, 71, 75, 150.
Bernardim. Vid. Ribeiro.
Blaesfeldt (D. Gniomar}: 59, 63.
Bojardo, autor do drama Timon: 11H.
Bol::icau (.Juau): 36, 52, 65. G7, 71.
Braanll'amp Frt•in• (.\u:·wluw): ll!l.
-- .lrcltivo /lilftorieo l
1
ortuynez: W.
-- /Jra.,Üelf tlc 7, lá.i, Jtn. IIi I. 1 j;).
-- C1·ítica c 11 i&túria,: to, 1-17, ll!).
--Ementas da, Ca&a da lfil.
lh·aga (TeóJilo ), llistfíria de Camiics: 70, 175.
Briolanja ( D. ). I "it/, Azevcclo.
])ll.cúlica& de :Mirancla, Saunazzal"ll, Vergiliu, Tcúerit.u: 1!1, ;J:.),
7:!, 157, W9.
Burgos (Andrú de), impressor: 67.
Buelvc acá, pastor sin tiento: 17, 90, 167.
llrito Aranha, continuaclor do Diccionm·io liii.Jlioyrapltico l'urtu·
guez: 10.
Cabedo (Antônio de): 160.
Câmara (Martim Gonçálvez 54.
Cambridge (Conde de): 41, H9.
Camões (Luís de): 8, 10, 14, 24,35, 70, 75, 7G, 151, 171.17:,.
Canções à Virgem: 25, 53, 179.
Cancioneiro (colecção de Redondilhas) : 70.
Cancioneiro da Ajuda: 10.
-- de Évora (ou Eborense): 23, 68.
-- de l
1
'ernandes Thomas: 171.
-- de Luis Franco Correia: 2-1.
-- de Pedro de Anrlrade Caminha: 75.
-- do Visconde de J uromenha: 24, 32, 39, -12, 15, Ui, -ln, 5G, 1 ;jj.
--Geral, de A. F. Barata: 23, 175.
-- Geral, de Garcia de Resencle: 18, 27, 33, 3fi, -!0, 57, ;)!l, (i2,
65, 68, 69, 77' 145.
-- General: 69.
Cantigas paralelísticas: 169.
Cartas Morais ou Filosóficas: 72.
-- a D. João III: 25, 53, 162.
-- a António Pereira: 116, 156.
-- a João Rodriguez de Sá e l\lcueses: 160.
('arvalho (Pero) : 66, 69.
Castanheira. Vid. Ataíde.
Castelo Branco (Camilo): 7.
Castro (Diego López de): 178.
--(Inês de), do Dr. António Ferreira: 3tl.
-- (.Jerónimo de): 25, 29, 30, 37, 5-t.
I :a tale lu Sículu: 166.
Cayatlo ( llermígiu): 16G, Hi7,
Célia, 1le de Mirauda: 20, !H, 157.
Ceuta: 38. Vid. Condessa.
Chiado (Antúnio Ribeiro): 170.
C!tisteiJ: 35, 69.
Círculo Camoniano: 10.
Cleopatra, tragédia perdida de Sá. de Miranda: 39, 65, 7:1, 82, 17i.
Coidar e Sospirar (P1·oce1Jso do): 59.
Comendas de Sá de Miranda: 56.
--ganhas por serviço militar voluntário nas praças africauas:
38, 44.
Gamo no se desespera: 27.
Condessa (Monte da), peleja desastrosa: 37, 38, 41, 42, 153.
Condestável Nunalvarez Pereira: 155.
Coração, onde jouvestes: 16, 17, 125, 176.
Co,-pus Illustrium Poetarum: 153, 167.
Correia (Luís Franco) : 24.
Cortereal (Jerónimo de): 175.
Coutinho (D. Branca): 59.
-- (Gonçalo), suposto autor da Vida de 8lí de Jliranda: 29,
35, 54.
Couto (Diogo do): 43, 70, 153, 154.
Criptónimos: 143.
Crisfal: 1, 2, 143, 147. Vid. Falcão (Cristóvam) c Guimarães (Del-
fim).
Cueva (Juan de la): 178.
Cunha (Xavier da) : 76.
Dantas (Jítlio): 82.
Dante: 31, 35.
D'Amor bien dizen que es ciefJO: 17, 98, 167.
De mi tormiento vencido: 168, 172.
De que[m] me devo queixar: 16, 17, 39, 119, 175.
Denis (Ferdinand): 18, 21, 49, 50.
Devisa da Cidade de Coimbra: 32, 62, 65, 69, 156.
Dia gracioso e claro : 27.
Diego (figura pastoril): 144, 151, 152, 157.
Diàz (Baltasar): 69.
Ditosa pena, ditQSa a mão q"e a yuia: lO.
Doidos de amor na poesia pastoril portuguesa: 37, 46, 144. 152, 157 ..
Duarte (Senhor D.), :filho do Infante D. Duarte: fi9, 61, 66.
-- (:\lanuel): 4, 7.
Edmundo (D.): 41, 74, 14.!J.
Égloga :\I oral: 24. Vid. lJul!to.
217
Em pcmt lttm crlwl, tal sofrimento:
Bn mi coraum os tengo: 175.
En toda la 1'1·as-Montaüa: 1 G, 17, 1:!2, 176.
Encltntmnento ( Égloga): 25.
Encina (.Juan Jel): 65, 78, H1, 167, 170.
entendimento de nm .lfotc: 58.
Epitalâmio pastoril (Égloga): 7, 25, 159, 1GO.
RpUafios 1mstori&: 144.
Epístola DedicaMria: :!1, 31, 3:!, 31, 3H, 41, 4H, l4(j. Vitl. Esta• nue8-
trtt& :zampoüas.
Rsta& nuestra& zampoitas, las prime1'a&: 10, 42.
Este retrato vo&so é o sinal: 27.
Ratos pa&tores mios los prime1·os: 16, 17, 32.
Estrangeiros (Os): 71, 73, 177.
Fábula do :Mondego: 32. Vid. Montlego.
l•'acies non omnibus una: 48.
Falcão (Cristúvam) : 1, 2, 67, 168.
-- de Resende: 19, 35, 51.
Faria e Sousa (1\Ianuel de): 51, 54, 75.
Fernández (Domingos), editor: 18, 26, 28, 29, 50, 54, 75, 81.
-(Lucas): 78.
Ferreira (Dr. Antônio): 10, 25, 26, 27, 37, 39, 53, 153, 175.
--de Vasconcelos (Jorge): 22, 73, 179.
Flores do Lima: 61, 71. Vid. Berná.rdoz (Diogo).
Folhas volantes: 144.
Formos um pastor Corydo11 m·debat: 69, 164.
Franco. Vid. Correia.
Freire (D. Isabel): 36, 59.
Froais ( an teceden tcs dos Pereiras) : 43, 154.
Galharde (Germão): 67.
Garcilaso de la Vega: 36, 52, 53, G5, 67, 71, 147, 148.
Gil Vicente: 14, 32, 33, 145, 146, 141, 155, 162, 1G7, 170, 171. ritl.
Devi& a.
Góis, residência dos Silveiras: 175.
-- (Damião de): 6, 7, 150, 164.
Glosas, Grosas: 51, 60.
nuimarães (Delfim): 1, 2, 14, 36, 46, 61, 160, 163, 177.
llendecassílabos à italiana de 1\firantla c dos Mirandistas: 21, 33,
52, 53, 70, 71.
Henriques (D. Guiomar): 59, 61, 62, 70, 174.
Hércules, 145, 152, 161.
llcro Poem_a de Bo:;can: 71.
llilas, Ilylas: H5, 161.
Holauda (Francisco de) : 36.
Horácio: 19, 71, 72.
lfigénia (tragédia pen1ida de lloscan}: 73.
Infanta. J'id. D. Heatriz.
--Vid. D. Maria.
-- Vid. D. Isabel.
Infante (D. Luís): 22, 23, 24, 66, 74.
-- D. Duarte: f;6, 163.
-- Cardeal D. Afonso: 66.
-- D. Henrique: 39, 66.
Intermezzos líricos da Alexo: 31, 167, 168.
Isabel (D.), filha de D . .Manuel, mulher de Carlos V: 3G .
• Jmw (figura pastoril): 143, 151.
-- e Fra,nco (Égloga tle Bernartlim Ribeiro): 32.
João Pastor: 33, 48.
-- (D.) III: 22, 23, 32, 59, 66, 74, 144, 162.
-- (D.) Príncipe: 22, 26, 27, 29, 37, 38, 52, 64:G7,G9,H1, 130,
153, 157.
Josepe Índio (Frei): 10 .
• Jubileu de Amor: 156.
Juromenha (Visconde rle): 19, 24.
Leite de Vasconcellos (Dr. J.): 57.
leixa-_prem: 34, 130, 137, 171.
J,ima (D. António de), genealogista: 150.
Lima (O): 71.
Limae labor et mora : 50.
l.inhares (Condessa de): 51.
· Livros de Linhagens: 154.
Lopes Vieira (Afonso): 82.
Los a9ravios qtte recibo: 16, 17, 12!, 176.
Lo& guisado& dt> amor son corazones: 17, 3'1: 108.
Lup1t8 in fabula: 173.
Lusíadas ( 0&) : 10, 34.
Lyra (Manuel de): 26, 29, 54, 81.
Malara (Juan de): 178.
Manuel (D. João): 65.
1\Ianrique (.Jorge): 65.
Maria (V.), Infanta de Portugal e Princesa dt! CastPia: 163.
-- (S.) Egipcíaca: 65, 82.
l\larramaque: 41, 42, G4, 74, U6, 149. Fid. Pereira (.:\ntúuit•) ,.
(Gonçalo).
.1\1 ascarPnhas (Leonor l!t•): 3f), 5U.
l\ldo (H. Francisco dC') : 51, 5-1, 55, 70, 78, 171, 17 4.
-- (ll. Jaime), Últimas acçõrs do Duqu,e JJ. Nuno .Ílvarez /
1
erei-
ra: 6, 7.
Men•loza (IJ. Diego de): 6:!, 70, 175.
l\lenéndez y Pelayo (.:\larcelino) : 3.3, 148.
!\lencses (H. Antónia de), neta de Sá de 1\liranda: 27, G2.
-- (1>. l•'erna.ndo): 25.
-- ( D. João de) : 65, 166.
-- (H. Pedro), Conde: 153.
J.Icnina e J.foça: 143.
·--:-- fermosa: 16, 17, 39, 44, 128, 177.
l\leyrellcs (MamtPI António de): 5, 7.
Michaelis (C. M. de Vasconcellos): 13, 19, 3.3, 3l, 4,1, 59, fj(), 61, 75,
76, etc.
J.licntraJJ yo tanto a los ojos: 15, 168.
11fondego (Égloga): 20, 25, 32, 65, 156, 157.
)[ontcmor (Jorge de): 25, 26, 37, 52, 67, 6U, 150, 151, 174.
::\Iorais (I<'rancisco de): 67.
l\IorPl-Fatio ( Alfred), Catalogue: 19.
11/ote, 11/oto: 58, 59, 60.
Nada do que vcs é assi: 16, 17, 124:, 176 .
• Vaquela serra: 16, 17, 18, 120, 127, 175.
Não posso tornm· os olhos: 16, 17, 3t, 177.
Não sei qtte em vó& mais vejo: 21.
Não valem leis sem costume: 1 '17.
Não vejo o rosto a ninguem: 16, 176.
Navagero: 36.
Nemoroso (Égloga): 20, 25, 27, 74,116, 1l7, 118, 151.
Neste começo d' ano em tam bom dia: 21.
No banes más tus ojos ni de1·retiendo: 21, 37.
No prcgunteis a mis males: 23.
No sé porque me fatigo: 20, 82.
No tempo de Hespanlwes e de Pra1wc1Jes: 36.
Noronha (D. António de): 38, 151, 152.
--(}).Antão): 154.
-- (IJ. Afonso): 154.
N onumque prcmatur in annum: 50.
Oitavas à italiana: 3!, 146, 161, 173.
-- à castelhana: 33.
Oliveira (Cavaleiro de): 51.
Omnia vincit Amar: 1.77.
Otfeo (ele l'uliziauo): 3:!.
Ormuz (vitória coutra ljS Turcot! clcJ: J;), ·H. J;j I.
Ortograiia simplificarla: 76.
Outeiros: GO.
Para que me dan tormento: 175.
Parió-nw mi madre: 60.
l'arnaso, título •lc colecções de Rimas :i italiana: 70.
Paris (Ms. de Sá tle )[irantla na Bibliothcque National•·):
Pereiras (fainilia descendente do Contle D. Mendo): :w, Ha.
-- D. Gonçalo, .\rcehispo de Braga: 155.
-- Frei D . .Alvaro: 155.
-- Marramaqucs, Senhores de Cabeceiras de Hasto: -U, 6t.
--(António): 23, 29, 41, G4, 66, 74, U6, 1-H, 15t, 100.
--{Gonçalo): 43, 153, 154.
--- (João Rodríguez): 38, 42, 4-l, 53, 15':!.
-- (Nunálvarcs): 50, 64, 66, 14, 14G.
Pescara prarqucsa de): 2:!.
Petrarca: 31, 35, 171.
Pinheiro (D. Maria): 163.
Plauto: 173, 177.
Plotino: 155.
Poliziano : 32.
l'olo bem mal me quiseste&: lfj, 17, 118.
Portela. Vid. Sortelha.
.
Portugal (D. Francisco de): -lt, 58: l"id . .Arte de Uttla.uúu ia.
-- (D. Manuel de): 29, 51, 53, 61, 6G, 7-1, 150, 17-1.
-- (D. Pedro, Contlestavcl): 60, 69.
l'osiera los mis amore&: 16, 17, 121, l7G.
Prestage (Edgar): 2.
Prestes (António): 170.
Priebscb (Dr. Jos.): 10. 63.
Quando tanto alabas, Clara: 17, 110, 168.
Quae te dementia cepit? (Vergilio, Ecl. u,-69 e n, !.17): 157.
(luevedo: 70.
quebrado (verso) na o i ta v a à castelhana: 33.
Qu,id le!JC& &ine morihus -cunae projiciwtl: 177.
Quicn vies&e aquel dia: 16, 17, 39, 45, 56, 60, 73, 126, 177.
Redondilhas = nostJa mef-ida: 25, 27, 30, 32., 35, 36.
-- = met1·o nac-ional = ti r.a.tlPl/wna: 11.
Rennert (Hugo): 178.
Resende ("\ndré de): 10.
-- (Uarcia dl•): 69, 1GO. 1G:?, lGG, 170. J"id. Caucioueiru H-t:'.ral
:!:!I
llt:Vm! li ilfJifWi'J"·'': li H.
IWu·iro (Bnrn:u·dim): :?, :!:!, at, a:?, aa, fi7, 7:!, ll:l, Hli,
117,100, l!'H_, 151i, 161, lfi:?, ltili, W'i, WH, 170,
-- dos Santos: H.
R i mas I ·,íria.s ao /lom-.1 esu,s : 11.
Rodrigues (Luis), imprt•ssur: fi5, 67.
S{L (!\lem ele): 51, fitL
-- 1 Gonçalo llc•nclcs di"') : :?tj, 1 fi:!.
-- (_Jc•rónimo de): 28,
-- di' llcmeses (cln Pôl'to): f)(,: lf.il.
-- (Antúnio): 36, 50, Gü, 74. HiO.
-- Conde e ln Penagnião: -1:?.
-- (Francisco rlo): 24, 50, G1, 6H, 7-1, 150, 160, 174.
-- (João Rodriguez rlc): 38, -t t, fJ()
7
üf;, fifj, H, 150, Ui(), lG:l, lf)!f.
Salí.cio (nome pastoril): 147, 148.
Salvaterra (residência na. naliza ela. neta r1e• S:í. cle 1\lir:uula, uncle·
se guardava um códice aut•'•gt·afiJ das suas :?8, 40,
62, 75.
Sampoi'ta, 3anfonlta, sanfonina: 1-18. rid. Zampoí'ia.
Sandovir (Franco de), nome pastoril: 33, 143, 170.
Sannazzaro (Jacopo): 32, 31, 53, G6, G7, 147, 172, 173.
Santillana (1\larquês de): 1 IG.
Sittiras de Sá de Miranda: 1!'t, 51; 6:!, 72.
Schumann musicou uma poesia tlc Sá ele 1\Iir:uula: 177.
Seca1·on-me lo3 pe3m·es: 16, 17, 122, 171i.
Serrana onde jmwestes: 125, 176.
Sextina: 9, 3-1, 35, 46. Vid. Niio posso tirar os olhos.
Shakespeare, Antltony anrl Glropnf1·a: 17H.
Silva (lnnocencio rla): 7.
-- (Jorge rla): 51.
Silveira (Nuno Martins da), Senhor ele f;óis: 175.
-- (D. Luís): 163, Ha, lf);), 171, 175. rid. fo;urt.,.lha.
-- Luís (3enior): 175.
-- (0. Simão): 43, 61, fj I, 70, \r,t, 17-t, 175.
Sin qne yo la vies.<Je: 60.
Socierlarle Nacional Camonia1m: 171.
Sortelha (C:on,fe rla): 7, 1G3, 1fj4, lü6.
Sotomayor (D. Fernanc1o Osorf':' 1lc):
Som"a (D. Manuel Caetano rlf'): 7.
--Viterbo: 56.
Storf'k (Dr. \Vilhelm): 44, 57, 153.
Taipa {f'asa el:t) f'm f:nhf'f't"lira!' 1lf' 1-tS, 150.
tenção df' um llote:
Teúcrito: 34, 53, 144, 115, 117, 1fj9.
TerênPio: 173, 171.
Todos vienen de la 'IJela: 1G, 123, 17G.
Trovas: 24, 57, 145.
1'1·ovas de 1 J. Maria Pinlteiro: 6, 7, 164.
, Tu preseucia desseada: 16, 117, 174, 175.
(de Jorge Ferreira de Vaseonc•·los): 17ü
Um só que em sangue aberta traz a cru::: /Jranr'':
Vai o bem fugindo: 61.
Vai-se a vida e foye: 60.
Vasconcelos. Vid. Ferreira.
-- Vid. 1\lichaelis.
Vergílio: 19, 34, 71, 72, 14-t, 145, 147,157, 1m, 1G9, 172: 173,177.
Vicente. Vid. G i I.
Yida de Sá de Jfh·anda: 28, 29, 162. Vid. Coutinho (Gonçalo).
Vídeo meliora prolJoque deteriora 11eqnor: 171.
Villtalpandos (Us): 71, 73.
Villalon, autor do drama },fyrrlla: 177.
Vilanova (Tomé de) : 4.
Vimioso (Conde de): 66.
Viruês: 178.
Voltas: 57, 60.
Xabregas (Torneio t.le): 152.
Yo vengo como paHmado: 1G, 17.
Zamp• ,fia: 148.
ERRA TAS
P. 2, I. 2- redondilhas.
P. 5, I. 27- como ello nos diz,
Id. 1. 31- lhe parecia ser do poeta.,>
P. 10, 1. 30- engenho ou arte.
P. 15, 1. 27- «Porem se estas finezas,u
P. 16, I. 31- O terceiro verso
P. 23, I. 21- com o terceiro do primeiro terceto.
P. 66, 1. 33- Alegria tão tarde consentida.
P. 77, I. 3- CXVII.
Id. 1. 7- engenho ou arte.
P. '18, 1. 7- «dardo ardente.»
P. 79, 1. 2- engenho ou arte,
P. 85, 1. 3- Favorecem
P. 89, 1. 28- os versos primeiro, sctimo,
INDICE
I.- Dc:;;cobrimcnto da n.
0
3:355 na Biblioteca
Nacional de Lisboa ..•....•.................••.
II. - Descrição do Códice. . . • . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • ,t
III. - Descrição do caderno autógrafo . . . . . . . . . . . . • . . . . . 8
IV.- As provas fotográficas de que me servi............ 11
V.- Ordem provável das fôlhas e seu contcú1lo... . . • . . . 1.2
VI.- Manu:;;critos e impressos que explorei cm 1H85..... 18
VII.- Pormenores acêrca do conteúdo do caderno autó-
grafo............................... . . . . . . . . . 30
VIII.- Confronto geral com os outros manuscritos e impre:;;-
sos explorados.. . . . . . . . . . . . . . . . . • . . • . . . . . . • . . • . 35
IX.- Relações de parentesco das diversas redacções.. . . • 41
X·.- As emendas do autógrafo..... . . . . . . . . • . . . . . . . . . • 49
XI.- A assinatura. . • . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . • . . . . . . . . . 56
XII.- Conjecturas sôbre o cartapácio maior, de que o ca-
derno é fragmcn to . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . . . . . 62
XIII.- A linguagem e a ortografia de !\liranda . . . . . . . . • . . 76
XIV·- Recapitulação.................................. 81
. XV.- Os textos . . • . . • . . . . • . . . . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
XVI. -Apêndice ao Capítulo IX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130
XVII.- Notas aos textos .••.•...•.....................•. 143
Índice alfabético de nomcB e de cousas. A • • • • • • • • • • • • • • • • • 213

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