DAMAS E DEVASSAS: A REPRESENTAÇÃO DA MULHER BRASILEIRA NA SÉRIE AS CARIOCAS1 LADIES AND IMMORALS: THE REPRESENTATION OF BRAZILIAN WOMAN IN THE

CARIOCAS TV SERIES RESUMO: Com o objetivo de identificar as formas de representação da mulher brasileira na mídia, particularmente na televisão, e a maneira que esta influencia na construção de suas subjetividades, levando em conta as relações de gênero, comportamento, imagem, representação e construção de estereótipos, este artigo se propõe a fazer uma análise das diversas mulheres representadas na série televisiva As Cariocas – veiculada pela Rede Globo de Televisão em sua grade do horário noturno. O artigo perpassa por um caminho teórico apresentando os conceitos de representação, gênero, mídia e televisão, a fim de embasar a análise da série – tanto em sua totalidade quanto ao detalhamento de alguns episódios – buscando os sentidos que emergem da formação discursiva da mesma, enquanto produto cultural simbólico, reforçando e naturalizando conceitos, comportamentos, características físicas e psicológicas da mulher brasileira, da qual a série As Cariocas se coloca habilitada a tratar. ABSTRACT: With the objective to identify the forms of Brazilian women‟s representation in media, particularly television, and how this influences the construction of their subjectivities, taking into account gender relations, behavior, image, representation and stereotyping, this article proposes to do an analysis of the various women represented in the television series The Cariocas, transmitted by the Globo Television Network in your grade evening hours. The article runs through a theoretical way by introducing the concepts of representation, gender, media and television, to support the series‟ analysis – both in its totality as the detailing of some episodes – looking for directions that emerge from the same discursive formation, as a cultural product symbolic, increasing and naturalizing Brazilian women‟s concepts, behaviors, physical and psychological characteristics, whose series The Cariocas arises empowered to deal with. PALAVRAS-CHAVE: As Cariocas, Televisão, Mulher, Gênero, Representação. KEYWORDS: The Cariocas, Television, Woman, Gender, Representation.

1. Introdução As relações de gênero, implícita ou explicitamente, sempre estiveram na agenda da mídia brasileira. Em se tratando particularmente de televisão é possível observar as várias formas de representação de valores, comportamentos e idéias que perpassam as relações de gênero, e, especificamente, entrando na temática deste artigo, da mulher brasileira. No Brasil, assistir televisão se tornou um hábito. Um hábito, que se tornou educativo, no sentido de que ela “educa”, institui, ensina, fornece meios, informações e dados para a constituição das
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Artigo submetido à Revista Sociais e Humanas – Edição temática Gênero, da Universidade Federal de Santa Maria.

KELLNER) como educativo. as pessoas de classes sociais. dessa forma. de valores que são reconhecidos pela sociedade. com enredos que tratam do cotidiano. Ao retratar a vida de mulheres cariocas em seu cotidiano. falar. Portanto. neste caso. raça e regiões diferentes se posicionam e se reconhecem umas às outras. ou episódios. ao ponto de influenciar a construção de sua subjetividade. sexo. As Cariocas se aproxima muito de um outro formato bastante conhecido da sociedade brasileira: a telenovela. que alcançam altos índices de audiência e é também um produto rentável.142). mas não quando terminará – de veiculação diária. está em sua abordagem. p. texto e som. notícias e ao entretenimento para grande parte da população. “Principal produto da indústria televisiva brasileira. devido a combinação sedutora do uso de imagens. não é entendido desta maneira pela sociedade em geral. A telenovela. por temporada. também. veiculada pela Rede Globo de Televisão. Mesmo que o contexto dos episódios e as idéias estejam conectadas. uma pesquisa que investigue a tendência de anulação das subjetividades próprias das mulheres brasileiras. Entendendo toda esta importância. gerações. Sendo assim. a série analisada se assemelha à telenovela. em troca de uma realidade representada pela televisão. e na duração da mesma. Este artigo – recorte de uma pesquisa maior envolvendo a temática mulher. FISCHER. de inserções. subjetividade e televisão no Brasil – tem como objeto a análise da série As Cariocas. inseguranças. nota-se a necessidade de uma investigação mais aprofundada a respeito deste meio de comunicação. Esta análise tem como objetivo compreender de que maneira a mulher brasileira é influenciada pela televisão – tendo como foco a série – considerando o poder simbólico que este meio exerce. na representação. desejos. e a popularidade da televisão proporciona a condição de importante via de acesso à informação. Enquanto a telenovela é uma obra aberta – se sabe onde começa. enfim. Embora no formato de série.subjetividades da sociedade. reforçando e estimulando determinados . agir. 2009). algo que faz parte da rotina dos brasileiros. sendo que cada episódio tem início. e. ela procura mostrar à sociedade como as mulheres devem pensar. apesar de ficcional. medos. Aplicando este conceito à mídia. as telenovelas constituem o gênero [televisivo] que agrega o maior número de telespectadores e são o negócio mais rentável da televisão brasileira atual” (REIMÃO. como elas devem ser. A pesquisa mostra também que aproximadamente 60% dos brasileiros permanecem com seus televisores ligados no horário nobre e noturno (das 18h às 00h) da programação da TV brasileira. se torna importante no sentido de contribuir para o aprofundamento da discussão de gênero e mídia no Brasil. portanto. A diferença está apenas no número de capítulos. Ela desenvolve temas que abordam o cotidiano dos brasileiros: relações amorosas. conflitos internos. E. 2. os receptores se identificam mais facilmente. p. Relações de gênero na mídia Goffman (1985. O hábito se tornou algo associado ao lazer e ao prazer. tem muitas semelhanças com o real. embasado em teorias e pesquisas já existentes. Este hábito se fortalece a cada dia. da vida real. o brasileiro passa em média dezessete horas por semana assistindo televisão.29) define representação como “toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência”. 2011). Sendo assim. políticas. na série cada episódio possui sua individualidade. amar. embora visto por alguns pesquisadores (DE LAURETIS. Nesta mesma intenção são produzidas as séries. pode-se entender essa influência como a capacidade de incorporação. Segundo dados do IBOPE (MÍDIA DADOS. A semelhança. e com duração prolongada. econômicas. meio e fim. sua veiculação é semanal. E o recurso da imagem auxilia neste processo de credibilidade da telenovela entre os receptores. O hábito de assistir televisão. 2006. que figura entre as quatro maiores emissoras do mundo (TEMER e TONDATO. assim como as novelas. a série possui um número definido de emissões.

o cidadão e o estrangeiro. de classe média ou superior” (KELLNER.10). escola. transformada e transfigurada das outras formas de poder. substituindo as antigas instituições sociais – família. 2001. A forma como a televisão comercial constrói seus personagens (condutas. do poder material ou simbólico acumulado pelos agentes envolvidos nessas relações.. Para ele. Além disso. p. ocidental. igreja – na tarefa de disciplinar o gosto. que todos são como eu. p. ajudam a demarcar a fronteira entre “o normal e o anormal. 2001.83). embora não atuem de forma determinante. a posição da qual a ideologia fala. Freire Filho (2005.86) “gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas . Enquanto sistema simbólico. onde as aparências podem ser manipuladas. a utilização de estereótipos está intimamente relacionada à representação desfavorável das minorias. sempre.] O „eu‟. p. por meio da alteridade.” Essas relações. comportamentos) possibilita também o reforço dos estereótipos. convenções e mensagens familiares e reconhecíveis” (KELLNER. funcionando de maneira invisível e tendendo a impor a aceitação da ordem estabelecida (discurso hegemônico) como natural. a mídia detém uma função social de reprodução da ordem. o valor e o pensamento. argumentos.25) nominou como “representação falsa”. desempenha mais fortemente esse papel nas representações e construções da identidade contemporânea. o integrado e o desviante. Ele acrescenta ainda que os estereótipos atuam na imposição de uma organização do mundo social.comportamentos e discursos hegemônicos. o senso de identidade e sexo. consumando estilos e modos de vida. de modo inseparável. o que Kellner (2001) define como “cultura da mídia”. é notório que grande parte dos produtos culturais midiáticos. educam e conquistam o público. p. o aceitável e o inaceitável. relações de poder que dependem. das quais fala o autor. possuem força por manifestarem-se como forma irreconhecível.301) entretêm. Sendo assim. ou seja. 2001.. Nós e Eles” (FREIRE FILHO. que qualquer coisa diferente ou outra não é normal. [. infensas à ponderação racional e resistentes à mudança social”. Dessa forma.22) apresenta os estereótipos como “construções simbólicas enviesadas. Suas formas visuais. como instrumento de conhecimento e construção do mundo dos objetos. é (geralmente) a do branco masculino. na forma e no conteúdo. constitui uma força dominante de socialização que ajuda a estabelecer a hegemonia de determinados grupos sociais. p. “As relações de comunicação são. evidenciando e omitindo certas característica dos personagens representados em prol de uma maior identificação do público com estes. legitimando o domínio da classe. produzindo novos modelos de identificação e comportamento. Kellner (2001) ao refletir sobre o casamento ideologia/cultura da mídia. Concordando com essa visão.82). onde as classes dominantes habitualmente tentam modelar toda a sociedade de acordo com seus valores e sua visão de mundo. suas imagens e celebridades. suas narrativas contendo “personagens. Ainda que se considere a forma de assimilação das mensagens veiculadas pela mídia como relativa a cada indivíduo ou grupo social. Segundo Scott (1995. grupos dentre os quais a mulher está completamente internalizada. 2005. também concorda com essa visão que funciona como uma forma permanente de controle social: “a ideologia pressupõe que „eu‟ sou a norma. Segundo Bourdieu (2001. p. ou seja. p. Numa cultura da imagem dos meios de comunicação de massa. o natural e o patológico. grupos sociais cujas vozes são marginalizadas pelas estruturas de poder. existe o que Goffman (1985. dentro da cultura da mídia e suas representações. a televisão em especial. aparências. imagem e retórica quanto um processo de discursos e idéias (KELLNER. A ideologia é tanto um processo de representação. raça ou do sexo hegemônico. p. são as representações que ajudam a construir a visão de mundo do indivíduo. agem de forma partidária à cultura hegemônica.23). A construção de gênero se dá através das relações sociais. Assim. os insiders e os outsiders.

práticas da vida cotidiana. de executivos e funcionários do sexo masculino. São imagens “negativas. baseadas em interesses e fantasias masculinas” (FREIRE FILHO. desvirtuadas das mulheres. propôs o fim da diferenciação de gênero.A diferença biológica vai se transformar em desigualdade social e tomar uma aparência de naturalidade. artes. Ortner (1979) já afirmava que devido às funções reprodutivas de seu corpo. A televisão e o discurso de gênero Os bens culturais industrializados e distribuídos pela mídia eletrônica têm a capacidade de produzir certas construções simbólicas. portanto. 1994). como diz Saffioti (1992). representações e simbolismos que compõe um universo ideológico onde a mulher recebe um tratamento superficial e “parcial”. discurso este que disponibiliza um repertório de imagens. entendendo que a construção do(s) feminino(s) e do(s) masculino(s) é resultado do arbitrário cultural de cada configuração social historicamente situada (MACHADO. reconhecendo a construção social do gênero como construção social de dominação. incluindo-se trabalho posterior de Ortner e de Strathern. Dentre estes dispositivos da tecnologia do gênero. Todos os espaços de aprendizado. ou seja. e nem as relações de poder envolvidas na temática de gênero. do inquestionável. p. hegemônico.. constituindo um discurso hegemônico sobre o gênero.21). é possível perceber que: Gayle Rubin se perguntou sobre o sistema de sexo-gênero e. onde o gênero feminino é pensado como hierarquicamente inferior e concluíram sobre a universalidade da imbricação universal dos pares dicotômicos: cultura e natureza e masculino e feminino e da supremacia do cultural e do masculino. como vai ser possível perceber mais adiante durante a análise da série. saberes. mas os reforçam e naturalizam. Fazendo um percurso sobre as grandes conceituações de gênero.108-109). vai ter a marca da naturalização. 3. críticas. é a presença predominante no campo da produção televisiva. enquanto o homem estava mais ligado à cultura. imagens. a televisão se torna um dos principais veículos na difusão destas construções simbólicas. os processos de socialização vão reforçar os estereótipos dos gêneros como próprios de uma suposta natureza (feminina e/ou masculina). MacCormack e Strathern e outras(os). A definição daquilo que é. televisão. dentre outros. como dominada-explorada. que atravessa e articula todas essas esferas. revistas e jornais. estereotipado. discursos. limitadas.] é uma forma primária de dar significado às relações de poder”.nas diferenças percebidas entre os sexos e [. A mídia classifica e. É nesse sentido que a mídia pode ser vista como uma “tecnologia do gênero” (DE LAURETIS. senso comum. a mulher permanecia ligada à natureza. já que dado pela natureza. Ortner. para justificar este fato. Uma das razões apontadas pelo autor. recorta e fixa a imagem da mulher. valores. Portanto. p. pode ou deve ser o mundo feminino ali representado torna-se então um tipo de experiência cultural e coletiva. do normal. como dito anteriormente.. ou melhor. apoiando-se sobretudo na determinação biológica. apropriandose de elementos que já circulam na cultura que produz tais bens. criando estereótipos que não levam em conta suas múltiplas identidades. . 2005. 1998. nota-se a influência de um discurso masculinizado. no que tange especificamente à representação feminina na mídia brasileira. onde as relações de gênero são construídas a partir de tecnologias sociais como cinema. criticaram a universalidade da dicotomização simbólica entre cultura e natureza e seu entrelaçamento com as categorias de feminino e masculino. A tentativa de construir a “mulher” enquanto ser subordinado. Chodorov e outras(os) se perguntaram sobre a generalização das relações entre sexo e gênero.

a discussão não termina neste ponto. Segundo sua afirmação de naturalismo e realismo colocadas acima. ele afirma que certos códigos podem ser tão amplamente distribuídos em uma cultura. O autor trabalha com a conceituação de codificar e decodificar. Teorizando sobre essa questão de real e imaginário. por exemplo). exponha. na verdade. p. Com essa mistura entre imagem e som. existem propriedades reais da representação. em suma. a interação entre espectador/programa passou a ser uma “quase interação mediada”. interpretando. o que está sendo representado. a televisão utiliza dois tipos de discurso: o visual e o auditivo. e o decodificador o receptor. Elas estão agindo. e a identidade e subjetividade do espectador fica cada vez mais mediada. tem um único sentido: do emissor para o receptor. Hall (2003 p. ou melhor dizendo. Os acontecimentos não têm mais necessidade de existir porque as imagens existem sem eles” (TEMER e TONDATO. a sua “verdade” – que “nós” (a TV e seus especialistas) acolheremos você. que aparentam não terem sido construídos. ofereceremos todas as explicações e lhe devolveremos novas verdades. Elas representam mulheres e são mulheres. condutas. em uma programação variada. sobre o enredo. 2003.A popularidade que se dá a este instrumento midiático é resultado de uma combinação do uso sedutor e indiscriminado das imagens. Exemplificando. ou seja. 2009. Neste tipo de interação. modelada pela mídia.17). p.79). funciona de outra maneira. p. grifo do autor). exponha seu erro. Essas imagens fornecem modelos de aparência. esse novo espectador apenas continua reproduzindo o discurso e os códigos naturalizados? (MACHADO. Na televisão comercial. tem procurado mostrar-se como espaço privilegiado de "educação" das pessoas.261-262).12). com o advento da internet. possui de fato propriedades daquilo que está sendo representado. “Dizem que tanto os textos quanto os eus pós-modernos carecem de profundidade. p. as imagens têm predominância sobre a narração. p. porque elas seduzem e fascinam. de uma certa articulação específica da linguagem sobre o „real‟”. principalmente a televisão. exponha sua pieguice. onde o codificador seria o produtor (a Rede Globo de televisão. Exponha sua doença. a partir do advento dos meios de comunicação de massa. e serem aprendidos tão cedo. que logo serão suas (FISCHER. “Graças a essa estratégia. 2005. o conteúdo e as formas simbólicas são produzidas para um número indefinido de receptores. por meio de diversas estratégias de linguagem. Apesar de poder haver a interação no processo de decodificação. exponha seu corpo.393. exponha sua dor. “A tela da TV torna a realidade um simulacro. pois o espectador encontra meios para transformar essa interação em dialógica. 2007). será que esse receptor realmente utiliza essa interação? Ou será que mesmo interagindo. Mas. Nos dias atuais. a imagem muitas vezes descentra a importância da narrativa. Ou seja. Ou seja. mas terem sido dados “naturalmente”. exponha seu sonho. O que acontece na verdade é que os “códigos foram profundamente naturalizados” (Hall. valores. ou seja. essa interação quase mediada. descrita por Thompson. Segundo Thompson (2004. E isso acaba encobrindo as práticas de codificação presentes. o efeito. e o fluxo da comunicação é monológico. modificando hábitos familiares e obtendo o status de importante meio de comunicação” (TEMER e TONDATO. ou seja. 393) explica: “Naturalismo e „realismo‟ – a aparente fidelidade da representação à coisa ou ao conceito representado – é o resultado. Fischer (2005) em sua pesquisa sobre subjetividade feminina utiliza o termo “dispositivo pedagógico da mídia” que é o modo pelo qual a mídia. 2009. são . o meio penetra no dia a dia de pessoas de diferentes faixas etárias e condições sociais. falando. em relação às imagens? Por mais que o espectador atual encontre facilidades para tornar esse fluxo comunicacional mais dialógico. com o auxílio do som. tendo fluxo em dois sentidos. diante desse pensamento é possível se perguntar: Qual é o espectador hoje. realmente estão lá. na série em análise as atrizes que representam as personagens.

conta histórias relacionadas à psicologia da mulher. em nome do Brasil.1. os diálogos. Pode-se considerar elementos verbais dentro da série. a utilização da Análise de Imagem aliada a Análise de Discurso – de linha francesa – na metodologia da pesquisa realizada para este artigo. . Portanto. por quanto tempo se exibe determinada imagem. sem existência de substância por detrás das imagens. Por meio da metodologia utilizada é possível compreender como os objetos simbólicos e a ideologia se manifesta. p. Em função deste fato.. que.302). 2004). podendo compreender um pouco mais a influência que a televisão exerce sobre o comportamento e a formação da subjetividade da mulher brasileira. indo da comédia ao drama. em cada um deles. a edição das cenas. produzindo determinados sentidos para o sujeito receptor. superficiais e estão perdidos na intensidade e na vacuidade do momento. sem nexo com o passado” (KELLNER. 4. contou com dez episódios. se encontra implícito na obra. 2 As Cariocas: série televisiva com dez episódios. tais como iluminação. ângulos de câmera e enquadramentos. Por essa justificativa. 4. fluidos. Como o discurso hegemônico. Foucault (1996. 2001. como se fosse todo o Brasil. encarando essa visão das imagens na televisão como pós-modernas. das brasileiras. pois assim como a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para representar o país.16): “É o sudeste branco falando para o Brasil. uma história diferente. p. os recursos que. sem multiplicidade de significados. pois. E ainda se poderia acrescentar: um sudeste branco e masculino. Com essa afirmação compreende-se que a série é vendida como se a construção das personagens retratasse o perfil psicológico das mulheres cariocas. o figurino. estrelou a faixa do horário noturno da TV Globo nas noites de terça-feira. p. as mulheres cariocas representam também as mulheres brasileiras no contexto da série. visto que a entrada no simbólico é irremediável. o texto. implicitamente. compõem o ambiente da mesma. com a finalidade de compreender e identificar sentido nas imagens. E. [. segundo o plano comercial da TV Globo. É como afirma Priolli (2000. e os movimentos de câmera (AUMONT.2. escrita por Euclydes Marinho e dirigida por Daniel Filho. A série As Cariocas A série As Cariocas2. em conteúdo e forma. o autor trabalha com uma televisão com conteúdos superficiais. sem substância e significado.37) afirmava que não existe neutralidade nem no uso dos mais cotidianos signos: “Ninguém entrará na ordem do discurso se não for qualificado para fazê-lo”. a trilha sonora e demais recursos que constroem explicitamente a imagem da personagem. Analisando a série As Cariocas 4. elementos não-verbais. Metodologia utilizada Consciente da não neutralidade da linguagem na televisão. a ideologia empregada em seus códigos. não há como não interpretar o discurso envolvido na série. de 19 de outubro a 21 de dezembro de 2010. considerando o contexto histórico-social-cultural de produção.34). a análise proposta no artigo leva em conta os elementos verbais e os elementos não-verbais incorporados na série. mesmo nas imagens – quando estas é que são o próprio texto do produto televisivo – buscando não o conteúdo aprofundado sobre algum assunto. e com a anuência pacífica da maioria dos brasileiros”. p. e. ou melhor. A Análise de Imagem tem por método interpretar e desconstruir as imagens. tendo sempre como protagonista uma mulher – carioca – envolvendo assuntos variados. 2001. é necessário dominar a metodologia para conseguir “ler nas entrelinhas”. e.. na maioria das vezes. foi fundamental para alcançar o objetivo da análise de As Cariocas. procurar o que há de implícito. o ritmo de montagem. mas. o cenário. Deve-se levar em conta o tempo da duração das cenas e dos diálogos.] Mesmo o que ele não diz significa em suas palavras” (ORLANDI.planos. inspirada na obra homônima de Sérgio Porto. a forma de encadeamento dos registros visuais. é necessário “escutar o não-dito daquilo que é dito.

diz: “Mesmo não tendo mar. A desinibida do Grajaú. Em nenhum momento é abordado algum problema da cidade. são homens. ao apresentar a personagem principal da história – personagens. a Baía de Guanabara. a grande predominância é masculina. Uma comprovação de que a série As Cariocas pretende realmente vender a imagem da mulher brasileira e de um Brasil de belezas. o médico. aliás. o lugar do saber científico) e da mulher (a sensualidade. Mas. pessoas conhecidas que já moraram ou freqüentaram a região. belas mulheres como Alinne Moraes e nomes internacionalmente conhecidos como Sônia Braga vão conquistar os compradores estrangeiros” (JIMENEZ. um homem. o papel de guia turístico. mas também. o Pão de açúcar e o bondinho. de alguma forma.3. Portanto. pois o enredo vai se construindo de acordo com as características (físicas. 2010). “extremamente devotado às mulheres” (AS CARIOCAS. A vingativa do Méier. aqui tem um monte de sereias dando mole na piscina do clube”. Ainda no mesmo episódio. O narrador e seu “ouvinte” O narrador. A internauta da Mangueira. “Apostando na força e na beleza do elenco e do lugar. ele aconselha novamente seu espectador: “Só existe uma coisa pior que mulher bonita. a imagem de um país de belezas infindáveis. Ao iniciar cada episódio. p. e todos os aspectos principais do local. o narrador. No episódio A vingativa do Méier. nessa frase existe a expressão “meu camarada”. Mesmo que alguns episódios contem com mulheres na colaboração do texto e até mesmo na direção.260) diz sobre os “lugares do homem (o especialista. A suicida da Lapa e a Traída da Barra – vem acompanhado. a série expressa o perfil psicológico feminino. O Rio de Janeiro como personagem A cidade do Rio de Janeiro se torna também.4. tendo as próprias mulheres da equipe em segundo plano. a beleza. antes mesmo de se começar a falar do bairro. a ponte Rio-Niterói. o escritor e diretor principais. utilizando-se de planos gerais de câmera. A iludida de Copacabana. logo no início. o desejo)”. 2010). os principais pontos turísticos do Rio de Janeiro. por exemplo. ao apresentar o bairro da história. na formação desse perfil. meu camarada: mulher bonita e honesta” (grifo nosso). o que evidencia o espectador masculino com quem ele dialoga. são mostradas sempre as mesmas imagens: O Cristo redentor. seja ele de estrutura física. nota-se um paradoxo. de uma característica psicológica da personagem. enfim. As frases sempre se referem as mulheres com um olhar – e um desejo – totalmente masculino. as personagens estão representadas com um olhar e uma escrita predominantemente masculina. 4. 4. Marina da Glória. A atormentada da Tijuca. O narrador assume neste momento. . Nesse momento surge a primeira indagação: Quem é este espectador a quem o narrador se dirige? Com quem ele conversa? Analisando várias das frases que o narrador diz ao longo das histórias da série. A invejosa de Ipanema. é notável que ele se dirija a um espectador masculino. A adúltera da Urca. que é exatamente a característica que vai marcar a narrativa central de cada história. de forma dialógica. que ele sempre denomina de “heroína” – diz: “Foi aqui que encarnaram a alma e o corpinho da nossa heroína de hoje” (grifo nosso). além do nome do bairro. transforma a narração em conselhos ao telespectador. cujo nome vai ao título de cada episódio. em uma tentativa de vender não só a imagem da mulher brasileira.analisando a ficha técnica da série. e começa a mostrar lugares importantes no bairro. Ou seja. e. cultural ou social. Inclusive. em seguida. culturais e sociais) do bairro. a Globo acredita que o apelo sensual da série. Os títulos – A noiva do Catete. em todos os episódios. o narrador apresenta o bairro aonde irá se passar a história. confirmando o que Fischer (2005. protagonista na série. é a exportação da série. mais adiante.

ora elas se sentam. fazendo jus aos “mitos” em que o narrador as transforma. numa tentativa mais informativa. bela. Mais uma vez o corpo e a beleza são enaltecidos de tal forma. quando se refere ao bairro afirma: “Aqui tem Colombinas pra todos os Pierrôs e Arlequins”.5. um mito. A visão de mito ou divindade destas heroínas. Ou seja. porque de vez em quando passa uma princesa capaz de fazer qualquer rei perder a coroa”. mas com toda a série. que é capaz de provocar transtornos como . e fazer loucuras por ela. onde o mundo por onde ela passa – que pertence a ela. desfilando. de forma elegante e sensual. O mundo é dela”. Quanto ao ângulo de câmera nota-se a utilização apenas do plongeé. A letra diz: “Bela. retratando “as heroínas”. A vinheta de abertura traz um desfile. num sentido simbólico de desvalorização e fragilidade. a fim de evidenciar o estado psicológico das personagens. quando ele coloca: “O coração da cidade bate mais forte aqui. um estado predominantemente sedutor. uma santidade. onde ela pode e deve exibir sua exuberância e beleza. onde ora elas sobem e descem. Continuando a letra diz: “Linda. porque tem muita princesa por aqui”. uma princesa. o narrador sempre compara as personagens principais. permitindo assim. novamente é retomada a questão do mito. No cenário existem também algumas escadas e assentos. Este plano proporciona um olhar de encantamento por parte do receptor que pode focar a sua atenção no rosto da personagem. realezas. Outra análise que se pode fazer é a respeito da música que é utilizada na vinheta de abertura. onde ele coloca que no bairro “não é preciso chamar estrelas de fora. ou seja. usando vestidos finos. encontra-se o plano geral. fazendo alusão as deusas da beleza. os planos médios e de primeiro plano. e faz total conexão não só com a vinheta. concordando com o discurso de toda a série. fera. por exemplo. o que traz uma diminuição das personagens. justamente para envolver a emoção do espectador dentro da cena. A propósito. ou divindade. espectador). mulher em abundância. Afrodite (segundo os gregos) e/ou Vênus (segundo os romanos). no episódio A invejosa de Ipanema.No episódio A atormentada da Tijuca. doce. ou heroínas – como ele mesmo nomeia – a lendas ou mitos de beleza. exibindo as personagens desfilando. Seu corpo provoca engarrafamento. Ela anda na rua como quem passa na passarela. de mostrar ao público quais serão as personagens presentes na série. 2007). Heroínas porque nas histórias da série as protagonistas “lutam” contra diversos tipos de dificuldades até o final feliz do encontro amoroso definitivo. Uma passarela na abertura Por meio da Análise de Imagem foi possível também analisar a vinheta que abre a série. Ou ainda. o endeusamento da mulher carioca/brasileira. onde elas viverão “felizes para sempre” com o homem escolhido. ao apresentar a personagem principal ele diz: “Uma deusa como a nossa heroína de hoje” (grifo nosso). No mesmo episódio. com um cenário composto por um fundo totalmente branco – justamente para que as atenções se voltem exclusivamente para as modelos – onde as personagens ficam caminhando. no episódio A internauta da Mangueira. bem como muitas utilizações do zoom. numa verdadeira linguagem corporal. E é exatamente dessa maneira que As Cariocas é apresentada pelo narrador ao seu “ouvinte” (receptor. de maneira mais aproximada – quase chegando a um close – estabelecendo um efeito mais lento nesse instante. fazendo referência a Colombina que teve que escolher entre Arlequim e Pierrô. mas que pode levar o homem a perder a cabeça. mudança de vento. pode ser percebida. 4. que ele possa admirar melhor as suas “qualidades” físicas. querendo despreocupar o seu espectador. Quanto aos planos de câmera (MARTIN. Analisando os movimentos de câmera observa-se um uso constante do travelling (horizontal e vertical). a maioria delas com as pernas à mostra. mostrando que ali existem mulheres para todos os homens. bela. inclusive – é uma constante passarela. ou seja. faz fila de espera”. fazendo “caras e bocas” – sempre olhando para a câmera –.

mesmo sendo amante. se faz a pergunta: Por que essa cerveja quer vincular sua marca à série As Cariocas? Primeiramente é necessário entender o que a palavra “devassa” significa na língua portuguesa. A música termina dizendo: “A bela é carioca. maquiagem. em destaque – com os dizeres: “As Cariocas. e grande conexão com a “mulher devassa”. 4. Nádia é a personagem onde se pode ver mais claramente. segunda. Com Carlinhos.6. E é exatamente de acordo com esse sentido. onde o narrador completa dizendo: “Nádia não dizia certos nomes considerados feios. E. Nas cenas onde aparecem os dois na rua. ou seja. Segundo Ferreira (1999). com um simples truque de câmera e edição. perante a sociedade. No episódio que inicia a série – A noiva do Catete – consegue-se perceber vários estereótipos presentes na sociedade. mas na hora do vamos ver. A análise de alguns episódios da série vai ajudar a entender se existe alguma conexão entre a marca de cerveja Devassa – juntamente com seu sentido na língua portuguesa – e esse ditado popular tão conhecido na linguagem e na cultura brasileira. o mais importante: a personalidade. na sociedade. Mas no momento em que está com ele. e ficou sob essa condição tentando defender Nádia de um assalto. os nomes que Nádia não dizia. Verificado então o seu significado. na rua. se tornava uma devassa. sozinhos. devassa entre quatro paredes. Fagundes (Nelson Baskerville). rapidamente. com tranças no cabelo. ela se veste quase infantilmente (para demonstrar ingenuidade – uma característica da personalidade “dama”). dama na sociedade. Sempre que Carlinhos aparece na vida dela. bem gelada. ela assume uma personalidade diferente: com o mais jovem. volta-se a questão: Por que a cerveja Devassa quer sua marca vinculada à série? Será que é porque querem dizer que aquelas personagens. entra em cena a vinheta de cota de patrocínio – única. para simbolizar ainda mais essa dupla personalidade. sem muitos atrativos – até mesmo as roupas que a personagem veste nesse momento. contida. ainda no mesmo episódio. tendo como sinônimos: pessoa libidinosa. uma jovem que mora sozinha em seu apartamento. gestos e maneira de falar infantis. ela só tem cenas entre quatro paredes. Já com Fagundes. Sempre ao início e ao término de As Cariocas. entre quatro paredes. e sempre assumindo um papel de . as histórias e as personagens se referem a todas as mulheres do Brasil. a marca de cerveja Devassa. apesar de ser escolhida a cidade do Rio de Janeiro. são menos chamativas. as quais representam as mulheres brasileiras. Carlinhos (Pedro Nercessian). Seu noivo (Ângelo Antônio) é paraplégico. ela assume a “devassa”. que a palavra “devassa” encontra significado na linguagem popular. a personalidade “dama” jamais ousaria sequer dizer o nome. A cerveja bem devassa”. e suas moradoras para ilustrar a série. Mas quando assumia a personalidade “devassa” entre quatro paredes – explicitamente demonstrado pelo plano de detalhe na chave que tranca a porta do quarto – ela sabia “ligar o nome a pessoa”. mas é da cor do Brasil”. e. assume o papel de “dama”. com cada um dos outros dois homens que ela se relaciona. o que vem confirmar que. “considerados feios”. sabia muito bem ligar o nome a pessoa” (grifo nosso). do qual ela é amante. Bem refrescante. um oferecimento Devassa. homem casado. Diante deste patrocínio. acontece uma cena implícita sexo oral entre os dois. mudar o clima. ou seja. mas mantém relacionamentos com outros homens. cabelo. eram apenas enquanto personalidade “dama”. sensual e depravada.engarrafamento no trânsito. as supostas duplas personalidades da mulher brasileira: primeira. e uma devassa entre quatro paredes”. ela se comporta como uma mulher “dama” – educada. As Cariocas e a cerveja Devassa Um dos fatores mais importantes para a análise da série é a questão do seu patrocinador. são devassas? Existe um ditado popular que diz que “a mulher tem que ser uma dama para a sociedade. com o mais velho. simples. perante a sociedade. e fazer fila para esperar as deusas passarem. A personagem principal é Nádia (Alinne Moraes). ela muda completamente sua roupa. De “dama” ela passa à “devassa”. fazendo coisas que. uma pessoa devassa é alguém desregrada nos costumes. está noiva.

em que já estava cansada de ser assediada pelo seu chefe. filhos problemáticos. ou seja. ele não falava assim comigo”. parece assumir papel de esposa). Durante a trama. começa a sofrer assédios em seu trabalho. ela. Cely enquanto “dama”. quando pede ajuda à vizinha.“dama”: boa esposa (apesar de ser amante. mais uma vez. na verdade. Enfim. compreendida enquanto ausência de vínculos amorosos e sexuais e. cozinha muito bem. são mais curtas e com mais decotes. podendo-se dizer até. Solteira demonstrada pela mídia. Ela sofre com o marido que a rejeita sexualmente. pelo discurso hegemônico da sociedade. ausência de companheirismo. e na intimidade do casal é recatada. assumindo as personalidades em separado. o enredo da história e suas imagens vão assumindo papel didático mostrando ao espectador – masculino e feminino – mais uma vez. a partir do momento em que ela arranja um falso namorado – única solução que ela encontra para se livrar dos assédios. sem muitos acessórios. problemas financeiros. problemas sexuais decorrentes da idade. que em todos os episódios. ela se comporta com a personalidade de “dama”. com uma visão masculina a respeito do casamento. utiliza mais acessórios a partir do momento em . não reclama. filhos. neste primeiro episódio da série. parentes. É possível afirmar também. escuta o marido atentamente. de cumprimento mais longo. serve sua comida. “Ser sozinha é frequentemente associado à idéia de estar „solteira‟. a relação sexual tem uma importância fundamental dentro do casamento. Não significa que a mulher esteja triste por estar sem marido. do casamento. Neste episódio o foco central nao é o da dupla personalidade da mulher. A personagem também passa a se vestir com roupas mais sensuais. assim como o narrador vai aconselhando o seu espectador masculino. coloridas. Cely. é uma mulher que acabou de se separar do marido e. e de uma forma integrada. a personagem só começa a ter paz. ela reflete: “Quando eu era casada. consequentemente. correta e ideal. por este motivo. tanto pelo conselho da vizinha. Durante a história. Em um determinado momento. Em resumo. são duas coisas completamente diferentes. e só assim o marido volta a sentir atração por ela (como se a partir desse momento ela finalmente se tornasse completa para ele). animais de estimação. É como se não existissem outros tipos de problemas dentro de um casamento. ocre. mas a partir do momento em que ela percebe a rejeição do marido. veste roupas fechadas. didaticamente visível – remetendo ao conceito de “dispositivo pedagógico da mídia” (FISCHER. assumindo o ditado de “dama” na sociedade. Rejeição inclusive que é o maior problema de seu casamento. e sem chamar muita atenção. No terceiro episódio – A atormentada da Tijuca – a personagem Clarisse (Paola Oliveira). um marido. o que. a figura central do homem. utilizando cores cinza. Já quando Cely assume a personalidade “devassa” as roupas passam a ter mais cor. ou até mesmo de sua vida. Apenas isso. tais como falta de diálogo. recebe o seguinte conselho: “Mulher que usa brinco pequeno é mulher que não gosta de sexo”. esta dupla personalidade feminina. na vida da mulher: Clarisse não conseguiu ficar em paz enquanto não se casou novamente. e deixa de ser assediada. bege. tanto para a mulher quanto para o homem. a ênfase é. e “devassa” entre quatro paredes. esta dupla personalidade que é imposta à mulher. mas.1). ela começa a se transformar em “devassa”. etc. Mais uma vez o discurso da série se mostra hegemônico. com o noivo. A mulher sozinha tem amigos. traduzido como „solidão‟” (GONÇALVES. visto que sua maior preocupação durante toda a história é em relação a este fato. No segundo episódio – A vingativa do Méier – a personagem é Cely (Adriana Esteves). Estar sozinha é não ter um par. se enfeita mais. tanto pelas roupas e acessórios. na história. 2005) – de formas individuais com Carlinhos (devassa) e Fagundes (dama). 2007. e muitos acessórios. p. é bem visível. estampas fortes. de uma maneira didática (por meio dos “ensinamentos” do narrador) para o público feminino. como sinônimo de sozinha. demonstrando que a mulher não nasceu para ficar solteira. para que este aprenda qual é a verdadeira preocupação de um casamento – visto que todos os outros fatores presentes dentro de uma relação conjugal ficam silenciados. solta os cabelos.

além de continuar sua abordagem central no marido ou companheiro. como em todos os outros episódios? Ou. com mais cenas seminuas. que pode ser percebida pelos sons emitidos pelo casal no quarto ao lado da sala em que está sendo filmada a cena. quase chorando. e rapidamente volta a sorrir. a personagem tem como sua maior conquista um carro que ganhou em um concurso de Miss. acrescenta uma outra questão: o consumismo desmedido. e. As maiores preocupações da vida destas protagonistas são jóias. com o marido – e com os muitos amantes virtuais – assume a segunda personalidade: “devassa”. festas e dinheiro. Já no A desinibida do Grajaú. bem como o discurso introjetado na história. entre eles. Em um episódio em especial – A internauta da Mangueira – vale a pena ressaltar o quanto a questão do discurso hegemônico referente à classe social também está presente na série As Cariocas. Sua mãe diz que “o carro é a prova da tua beleza”. pensando sempre no carro para conseguir concluir o ato. o qual se casou apenas por dinheiro. de uma maneira bem “devassa”. o narrador. atuando assim na construção de sua . e formar hábitos. pobre e moradora de favela? Por que não poderia ser uma mulher de classe alta. carros. fica claro que a série global As Cariocas reafirma o discurso hegemônico e masculino relativo à mulher. continua o mesmo: a figura do homem e do casamento como essencial na vida da mulher. aparência essa que vai ao encontro com a personalidade “dama” da mulher. Nos episódios A iludida de Copacabana. e diz: “colarzinho. o desejo de morrer. como a que se vivencia no mundo atual.que consegue o namorado. mas não gosta dele. em casa.. carros. Todo o episódio se passa em torno dos extremos cuidados que a personagem tem com seu carro. e presentinhos além. Já os episódios A invejosa de Ipanema. valores. acima de tudo. E. Após a cena implícita de sexo. relativo à rejeição do marido. bateria e etc. Este é o único episódio que se passa em uma favela. Tão bonita que a especialidade dela é deixar a mocidade louca”. fazendo referência aos seios e glúteos da personagem. e. Em A suicida da Lapa a protagonista é casada com um homem rico. Gleicy (Cintia Rosa) é mais uma das personagens que assume o papel de “dama” na sociedade. colarzinho. Mas. por que não poderia ser uma mulher branca. ela se olha no espelho. enojada. e comportamentos. a protagonista deste episódio é uma mulher negra. inclusive comissão de frente. Pergunta-se: Por que a única história em que se tem uma protagonista negra. totalmente acabada. enfatizando a importância do homem na vida da mulher. justamente. E o narrador ainda completa: “E nós achando que vida de perua é mole”. e também o único onde há uma heroína pobre. colarzinho”. esse é o episódio em que o corpo da personagem fica mais a mostra. ela procura um amante para satisfazer os seus desejos mais ocultos. e o enredo. Já para conseguir o carro importado troca sexo com um dos amantes. ou ainda: “Gleicy era boa em todos os quesitos. fazendo esse papel? Mais uma prova da força que existe nos estereótipos reforçados pelo discurso hegemônico da mídia. A adultera da Urca. ela é. e A traída da Barra. por um colar de esmeraldas. Então.”. 5. em manter as aparências para a sociedade. sempre fazendo questão de ser a melhor e mais poderosa do agrupamento social ao qual pertencem – como se o objetivo de vida destas mulheres fosse apenas competir com as outras do “bando” para ver quem consegue o melhor “macho” – assumem o papel de “devassa” para conseguir o que querem. e com a preocupação em arrumar um companheiro rico e famoso. para brilharem com suas jóias. Importam-se. Além disso. No episódio A invejosa de Ipanema a personagem principal (Fernanda Torres) troca sexo com o marido (bem mais velho que ela). considerando-o como único atributo da protagonista: “O nome dela é Gleicy. são as representações que ajudam a construir a visão de mundo do indivíduo. ajuda a enaltecer ainda mais o seu corpo. as protagonistas passam por dramas parecidos. A desinibida do Grajaú e A suicida da Lapa. para que ela embarque junto em seu sucesso e dinheiro. como já era de se imaginar. Considerações Finais Considerando que em uma cultura da imagem..

e sabem ser “devassa” quando tem que ser devassa. destes novos arranjos familiares os quais são cada vez mais comuns. (Org. Rio de Janeiro 2010. O poder simbólico. pois tem mais de 60 anos – a produção e direção da série teve o cuidado de escolher uma “senhora” que atendesse aos padrões midiáticos idealizados. economia). trabalho doméstico). Em nenhum momento criou-se um episódio que tratasse. como que em uma confirmação do que Rosaldo (1979) fala sobre a predominância da mulher no espaço privado (lar. cheio de riquezas. e que não pensam em se casar ou arrumar um companheiro. ou que o corpo fica em grande evidência. enfim. Isso revela a idéia de que a série reforça os estereótipos mais comuns sobre a mulher brasileira “tradicional”: aquela que está sempre disponível ao marido e aos problemas da casa. 1994. Divisão de Planejamento de Marketing. corpos estes que devem também ser seguidos pelas mulheres que assistem à série. Referências AS CARIOCAS – A SÉRIE. e com mulheres bonitas. que são bem sucedidas profissionalmente. 2004. mesmo no ambiente de trabalho. J. O único fato que foi abordado eram as personagens ora conversando. e do homem no espaço público (trabalho. Dir. DE LAURETIS. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.subjetividade. Todas as atrizes apresentam um corpo dentro de um padrão estético dado pela mídia: magro e jovem. e que. por exemplo. 1999. 206-242. A imagem. BOURDIEU. a figura central do homem na vida da mulher. não tiveram destaque ao falar da profissão. Em todos os episódios existem muitas cenas em que as personagens ficam seminuas. In: HOLLANDA. AS CARIOCAS – PLANO COMERCIAL. Campinas. para causar desejo e ser vendida logo. P. como único objetivo a ser alcançado em suas vidas. Daniel Filho. intelectual. Em todos os episódios. Dir. A. T. atraentes e sensuais. protagonizado pela atriz Sônia Braga – que pode ser considerada como integrante da “terceira idade”. TV Globo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Com tudo isso. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Daniel Filho. política. onde a mulher busca sua independência financeira. A tecnologia do gênero. Júlio Uchoa. de acordo com os modelos ideais oferecidos naturalmente pela mídia. H. p. O que se espera de uma série que se propõe a retratar o perfil psicológico da mulher é que ela abordasse essas questões de forma semelhante. tal como um manequim se exibindo em uma vitrine. e amorosa. 1998. Júlio Uchoa. não deixa dúvidas a respeito disso. por exemplo. . Rio de Janeiro: Rocco. As poucas “heroínas” que possuíam uma vida profissional fora de seu lar (quatro das dez personagens trabalhavam). Novo Aurélio: Dicionário da língua Portuguesa – Século XXI. corpos considerados belos. Bem como um episódio que tratasse de um relacionamento homossexual entre as mulheres. sabem ser “dama” quando tem que ser dama. Há silenciamentos significativos e omissões. SP: Papirus. Rio de Janeiro 2010 2010. Prod. TV Globo.). AUMONT. FERREIRA. ora preocupadas com seus relacionamentos conjugais. conclui-se que a série é uma pretensa vitrine do Brasil e das mulheres brasileiras – aqui representadas pela cidade do Rio de Janeiro e pelas cariocas – em uma tentativa de realmente vender a idéia deste Brasil bonito. pois vivem bem e felizes sozinhas. Até mesmo no episódio A adúltera da Urca. de mulheres solteiras. Prod.

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