© Antologia Literária Cidade by respectivos autores 2009 Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização por escrito dos respectivos autores dos textos. Projeto gráfico, editoração eletrônica: Abilio Pacheco Capa: Concepção: Abilio Pacheco; Desenho: Cleber. Montagem: Eduardo Jardim. Foto da contra-capa: Estação Ferroviária – Coroatá-MA. Seleção e revisão: Abilio Pacheco, Deurilene Sousa (organizadores) e os próprios autores. Impressão e acabamento: Gráfica da UFPA

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A634 Antologia Literária Cidade: poemas, contos & crônicas / organizadores Abílio Pacheco, Deurilene Sousa. – Belém: L&A Editores, 2009. 112 p. ISBN 978-85-89377-11-9 1 Literatura Brasileira. 2. Poemas. 3. Contos. 4. Crônicas. I Pacheco, Abílio. II Sousa, Deurilene. CDD: 869.80981
Clarice P. B. da Silva Neta – CRB/2 - 1085

Organizadores: Abilio Pacheco e Deurilene Sousa Endereço para contato: Caixa Postal 5098 CEP 66645- 972 Belém-PA antologiacidade.wordpress.com // antologiacidade@bol.com.br

organização: Abilio Pacheco & Deurilene Sousa

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propiciar oportunidade a poetas e escritores cujos trabalhos ainda não tivessem sido publicados e que lhes permitisse publicação acessível. Abilio Pacheco. com textos suficientes para um segundo volume. Assim. uma verdadeira Cidade do mundo cercada de zelo e apreço. e experimentar as sendas pelas quais seus autores têm “alimentado” suas inspirações. com o intuito de concelebrar em um mesmo espaço a arte de poetas e escritores com publicação no circuito literário nacional. suscitando a diversidade literária tão peculiar de cada obra/autor e que nos permite exibir um panorama daquilo que é hoje produzido.Prefácio A Antologia Literária Cidade – volume I chega a lume. quarenta escritores. integram este primeiro volume. definido pelo professor Abilio como “fora do eixo”. que fora ganhando corpo e forma de literatura brasileira. um participante da Áustria e outro da Austrália. a partir de um projeto idealizado pelo prof. a princípio acanhado. para nós é um sinal mais que positivo para este trabalho. ora narradas ora declamadas. dentre estes. e mais que isto. dez autores que ainda não haviam publicado em livro. . organizado na região Norte. A perspectiva de dar continuidade a publicações vindouras. fora das regiões que tradicionalmente lançam este tipo de coletânea. O projeto nasceu do desejo de um livro com essa estrutura. defrontamo-nos com as diferentes poéticas apresentadas. ou seja. a ser lançado na Feira PanAmazônica do Livro. Nossa chamada foi recebida com muito entusiasmo pelos autores de diversas cidades brasileiras e autores de língua portuguesa em outros países. um livro dessa natureza gerado em espaço amazônico. universal. Neste volume.

Estudos Literários (UFPA) . a Antologia Literária Cidade – Volume I é constituída de passos novos. passos calejados. caminhos que se constroem na árdua labuta com a pena. a cidade acolhe a diversidade. bem como textos selecionados de alunos secundaristas apoiados por sua professora. congratulamo-nos com textos de autores experientes na arte de fazer prosa e versejar. Deurilene Sousa Mestre em Letras . num exemplo de estímulo ao labor com as palavras. Neste sentido. Afinal.Aqui. traço característico dos conglomerados urbanos.

esbarraria nas pessoas. O motorista – horário a cumprir – arranca. quase um ano. Pegou o ônibus e pela pressa quase caíra de bunda nos degraus ou no assoalho. Você acha que se eu tivesse dinheiro trocado eu estaria pagando a passagem com uma nota de cinquenta? Uma caixa de bombons de banana. . inventado uns compromissos ter ficado dias sem me ver.Eu vou pular.Não. . matuta? – versos o mais miudamente possível picados chovem irregulares pelo espelho retrovisor. Tivesse pego um táxi. Antologia Literária Cidade 7 Volume I . Transaram? Tá vendo!? Faz o que eu te digo enquanto é tempo...Abilio Pacheco Quase um anagrama I Pegou o ônibus.. um moto-táxi..Pois saiba que fez a coisa certa.Será que é o ônibus dela? Tenho para mim que ela não vai perguntar qual o letreiro. Já não pude estudar bem como antes. escrever.Sujando a cidade. Palavras minhas num bilhete. depois desses.. Ouve tua mãe! II Pegou o ônibus.que o olho que olha é que é culpado. meu blog. Em pensar que ontem estava tão bem... minha dificuldade. Amanhã a gente faz três meses de namoro e ela é louca por poesia.. E ele diz não haver outra. Ninguém? Ninguém! Eu queria tanto xingá-lo. só vai te trazer confusão. tá louco? . descarte ou mesa? Certeza – quiçá! . Sinto que perdi meu tempo. Pegou o primeiro que viu. Eu bem que deveria ter uma amiga com quem conversar nessas horas. São três fotos como cartas de baralho na mão. Pela pressa. torceria o tornozelo.. Dá para crer que fui até o ponto final distraída? Acho que ele poderia ter se afastado aos poucos... pé no veículo. Quatro anos. Ele poderia.. Morto. Pela pressa.. Copiei este poema de seu autor preferido. já te avisei. um táxi-lotação.Eu já disse que pulo – Abre a porta! – vocês não estão acreditando... . culpador ou culpante. A porta batida treme o apartamento todo. meu filho. não tenho. Sei lá. Este menino tem um olhar culposo. . outro na calçada.Essa moça. . Sei que ela adora.. Larga dela.Não faz isso. .. . toparia na quina da calçada ou do meio-fio. mas fazer o que se me julgo tão difícil de fazer amizade e se te gosto de escrever..

A gente termina ficando meio louco também. Tivesse caído. mana. quebrado uma perna. . um braço. Já te conto uma.. quiçá o tivesse jogado de vez pela janela de sua lembrança com os versos picados. Pensa. Raclemo. Sente bem ali.Mas quando. Talvez ele saiba que estamos brigados. – Eu sou sua mãe e – viu! – você vai ter que me ouvir.. Cralome. Não tive intenção.. Com as sílabas ao contrário: Locemar (se menina.. Ele é o filhinho da mamãe. Homem assim é o fim.A senhora não tem – Tenho! – o direito – Tenho! – de se meter – Claro – na minha – que tenho! – vida. Ande com ele na bolsa. Essa atenção repentina agora. Carlome.É menino! Palíndromo ou anagrama com o nome dele? Nos planos que fazia – pelos tímpanos ainda hoje: Vento no litoral. Como não. esse stress. Ele faz tudo que ela quer. Ou o melhor. Arclome. Depois – era o nome dele que você teria. É o fim.Você tem que descer. Essa cidade louca... Tem mais: esses bombons de banana.. preferia ter batido a cabeça. Nos dois outros aniversários sequer um telefonema. Sabe o que é tudo? Ele é um frouxo. Aquela história da mãe..Te garanto. De quê? Que tristeza! Tudo bem. Palíndromo: Olecram. tu não sabias? Ele ameaçou pular do quinto andar no dia que o Eleomar nasceu. taí!). A gente se vê lá. Qualquer dia desses. A dor: motivo de choro. Anagramas: Calomer... É o fim – já te disse – cara desse tipo. Bonito seu nome. Eleomar. . ele tinha outra. O povo do prédio – imagina o espetáculo – diz que o pai ainda ficou com ele pendurado pela perna. . . moça. ficado inconsciente umas tantas horas. .. As pedras se encontram. que é verdade. jorrado sangue.. Coisa de casal. Seu irmão.... pelo menino. Esquece! Enfrentar a mãe. Ramocle. Antologia Literária Cidade 8 Volume I . Não tem problema depois você me devolve. Um pouco diferente. III Pegou o ônibus feito uma louca..Pense um pouco melhor. Enquanto isso vê só aqueles meus álbuns de fotografias. Acrilic on Canvas. .Estive com ele na bolsa todos esses dias.Abilio Pacheco . juro. minina. Pegue aqui este lenço. Enfrentar a mãe. Chorando? Minhas desculpas.

. Antes de ontem recebi um par de brincos. Cramole. A toalha ficou contrastando com o cimento. Implicava com os brinquedos pela casa. Vamos bater um raio-X por via das dúvidas. Pronto: CLEOMAR. Não conheci minha verdadeira. Arclemo.Abilio Pacheco Lecarmo. Carmole. Estamos já mais de meio ano juntos. É o fim! Mas também ele. Dizia: “Eu nunca pensei... . não são? Sua esposa. certo? Antes de ser farmacêutico dava aulas! Mas que barato! Seu pai? Essa deve ser sua mãe. VI Pegou o ônibus. Encarasse a mãe. Não vai deixar sequela. É uma moça bonita.. Nunca pensei que fosse ficar tanto tempo sem ele no bolso. Filhos. Vai ser bom.. Não é mesmo. acho que de tucum.O senhor tem uma bela família. Estou satisfeita. Queria outro filho.. Antologia Literária Cidade 9 Volume I . O troco. Ainda é viva? Que pergunta! Devem ser seus irmãos. de lá para cá ele está sozinho. a pior parte foi decidir o que fazer com as coisas dele. Leomarc. meu rapaz.Morreu-lhe a mãe.” Trate de se reparar.. Nunca se deram bem. .. frouxo. Um dele. não foi? Ela não merece. A pancada não deve ter sido muito forte. Daí. Zangada. São seus netos esses aqui. Cleomar. Nunca soube que eu escrevia um blog. delirou um pouco. O senhor deve de gostar muito dela. depois o papel pela janela e a bronca do motorista. Consciente. coitado. Você foi pego no flagra.Embora ela tenha tentado várias vezes quando estava grávida me abortar. quando vocês terminaram. . E pior: por besteira. É.Ela está bem. Violento? Só com as coisas. A toalhinha bordada caíra quando topou na calçada. Por opção.. pega o primeiro que vê. será? Tenho medo. tinha feito você chorar. Fiquei sempre com esse lenço. Já havia desistido de insistir. blog? Creio que nos conhecemos bem. . A mãe? Coitado nada. Incrível como daquela época.. ele e o menino. Marcleo.Depois que o meu irmão Eleomar se foi. Ele vai ficar surpreso. .. Daí decidi: vamos transar. Você deve ter aprontado uma daquelas. Tinha um mal humor intermitente.. Não quebrou a unha. Bebia e se emporreava. Ele me traindo.. Tá livre agora. O diabo da mulher queria – era? – o filho para si. Falou. Descobriu – ficou puto – que era goro.. Implicava com o computador. sou adotada... A unha intacta. Deve ser bom conhecer a mãe da gente.

Levei as coisas. Sarcástica. Queria estar lá para lhe oferecer meu ombro. hoje em dia? Não é bem uma amiga. Ela me disse que não te quer. três. É ela que me faz desesquecer dele. Enquete! Dá até para pensar bobagem. Cinco horas – acho – que você está inconsciente. Peraí. O menino não vai sentir falta mesmo. só um pouquinho. Fiquei estático na calçada... Será que alguém que lê este blog – se é que alguém além de mim mesma lê – tem o nome de Eleomar? Estou até mais calma agora. Enfermeira. Tenho raiva desse ditado de rima -uta em -ulpa . Ele virá? Me sinto mais maduro agora. Não. Era a minha mãe. Está com 7 anos? Vocês se desentenderam. acompanhe o moço. Antologia Literária Cidade 10 Volume I . Dizem que o menino tem a minha cara. E a Débora – é o fim – tangendo o esquecimento que tanto almeja. Há quase oito anos – tive raiva de mim – você correu. Está doendo a cabeça? O médico acredita que a pancada não foi forte. não vou fazer enquete. Queria me livrar dessa aproximação. Tem a cara do Marcelo. Ligaram.. Perdoar? Vou tentar esquecer. “É o fim” diria Débora. É ela que me traz notícias do Marcelo. está? Você já embuchou a menina? Por que vocês não se preveniram? Tanto jeito que há. a matuta que jogou lixo pela janela. Eleomar tem quatro anos e meio. Parece sempre alguém a martelá-lo ao tímpano. Esperarei (em tom solene) que os meus leitores (como se ‘sessem’ muitos) espontaneamente comentem.Abilio Pacheco O cobrador me emprestou um lenço. Não precisa se justificar tanto. Sofri quando ela morreu. entretanto.. Longe! Bem longe! Como diz a Débora: É o fim. casamento? Aquela moça.. ESPERAREI QUE OS MEUS LEITORES ESPONTANEAMENTE COMENTEM. É só uma conhecida em comum. Hoje me contou que sua mãe morreu.Convite. Ele chorou. Vê só o nome dele: Eleomar. Agora me deixa falar. né? Mas passa! Eu sei. Não havia outra. queria me dizer umas coisas. ainda bem. Essa menina do “é-o-fim”. Os doces de banana. Vou repetir em alta voz sem os parênteses. foi até o ponto final e chorava feito bezerro sem mãe? Você não acha que foram rápido demais? Ela não está grávida. Ouvi. . Também não te quero. Arrependeu-se de ter mandado as fotos.. Quero que você seja feliz. honestamente. Escrevi uma página A4 inteira em fonte 15 e.

Quer a morte. menos que um ano. Ein! Estou pasma! Me conta essa história todinha. Acho que sei mas não digo. O Marcelo é o pai do Eleomar? Como? Despeje! . Você se importa demais com o que os outros vão dizer. mora comigo. Mas ele já sabia que eu estava ‘pregnant’ quando nos conhecemos. Produção independente.Vocês vão casar. Lágrimas no rosto. Devo confessar... Mas esqueci a senha. Isso não vai dar certo. Mais tarde – será? – vamos ter problemas. Pode ficar o tempo que você quiser. que vem te ver. Antologia Literária Cidade 11 Volume I . Tá alugado. Sapatão? Nunca deletei meu blog da INTERNET. Clique aqui e comentem. quase oito. Minha cólera? Perdi meu tempo. Não sei porque aceitei. Não é uma situação nada boa. Não perdoarei. morreu com ela. terá muitos acessos? Senti vontade de escrever nele hoje. você e o seu menino. Se existe.. É o fim. Existe ainda? O provedor deve têlo apagado. É o fim.. Marcelo. Aquela história da minha mãe. Tropeça ao entrar no ônibus. Reconhece um rapaz – ele está mais velho um pouco – que filma sua queda. mas eu resolvo. “Vamos Eleomar! Morar na casa da tia Lúcia até a gente arrumar um lugar nosso mesmo.Vamos esquecer tudo aquilo. esse desconjurado. eu sei. Motorista – horário a cumprir. Imagens distorcidas – impressionistas. Só não gosto desse seu aí. Parece fazer a corte. Depois levo o restante.. Não teria papéis para picar e jogar pela janela. Vai assumir o filho de outro? Coisa de louco. É a fotografia dele que você está vendo. Podemos mudar de cidade. minha filha. mesmo copiado. Deixa de ser caretinha. Você ainda me ama. Ah!. . Fui idiota. isso não. Escolheu o nome do irmão. Cortejar mulher dos outros. Aquele que estava no lenço e pensei que fosse o nome dele. Com este.Continuo com a opinião que você deveria perdoá-lo. Você não vai confessar!? O menino é meu? Olha só quando eu tinha a idade dele. Aceitei.Abilio Pacheco V Pegou o ônibus.. Fica lá em casa. não é? Moraremos num apto que tenho perto do centro. É. Ele nunca lhe mandou um poema. Paixão!? É o fim.” . Com o outro. Fazia muito sol. eu te ajudo. Deixei ele escolher o nome.

mas moeda alguma caiu. Só sua!? Esse romantismo besta. Dividindo as despesas. Vou mandar uma mensagem para ela. As moedas vão-se metalizantes pelo assoalho. As moedas tilintam. Basta dizer sim. VII Ela pegou o ônibus. Juntou umas tantas. Antologia Literária Cidade 12 Volume I .Nosso rolo termina aqui. Quero compromisso não. Cai no assoalho. Mas estou sem scanner. Disse para ele que vamos morar numa espécie de república. . um pé ainda no chão. Sempre comigo. Esta scaneei e imprimi ao lado da minha na mesma idade. Brilharam ao sol. até. O primeiro. O interior do ônibus: quadro impressionista. Safada? Problema meu. Ficou comigo por que quis. . Sem inveja. Mas optara pelo coletivo. Não lembro o autor. É o fim mesmo.. Um rosto lhe gruda na retina. . E transo. a belezinha que é a minha toalha. Ela julgava ter deixado esse um na calçada ao longe. E ainda queria exclusividade. . Ela está bem aqui comigo. O Marcelo. Mudamos amanhã. Topou. mas deixou cair a toalhinha bordada. Bate a cabeça. Não aceitaria o lenço de ninguém. As lágrimas embaçavam o rosto. Dormiremos em quarto separados. Um pé dentro do ônibus. Que chifre nada? Tu não és casado? Eu namoro. A mão se abre. O motorista arranca. Queria compartilhar com vocês.Abilio Pacheco VI Pegou o ônibus. Vê! Não precisa DNA. Já sentiu isso antes. Desmaia. Não caiu. Em pensar como isso começou. É mais ou menos isso.. os poucos que lêem este blog. Se ela descobrir é o fim.. Quisera deixá-lo também lá desprezado.Mãe! Esta moça aqui do site quer saber se algum leitor se chama Eleomar. Vira um táxi. Tropeçou na quina da calçada.Tia. ele entendeu.. Sou livre. Quer tempo? Por mais sete serviria não fosse tão grande amor tão curta a vida. tá? Minha toalhinha. Ganhei dele uma toalhinha bordada. É o fim... Horário a cumprir. eu e o Marcelo.. é o fim. Tinha dessa vez o dinheiro trocado.Ando com as fotos dele no bolso o tempo todo. Moedinhas na mão. A toalhinha sim. Linda! Decidimos morar juntos. abrupto.. Qualquer um. Um kitnet. Mudamos amanhã. Correndo metia a mão no compartimento de moedas. você já conhece a nossa história. Com o tempo.

Gravei teu rosto!? Teu cabelo preso!? Três passos após. Antologia Literária Cidade 13 Volume I .. Que impulso. que lógica nesses vinte segundos? Não fecho – é impossível – os olhos e sigo (ah! multimensnada!) meio desperto. a felicidade curta – a mesma – outra vez (multidão de imenso nada). Evito – em vão – molhar o dorso do calçado – minúsculos lagamares –. Ergo – minha passante – meu olhar exato ao teu e sigo. desvio-me de ombros e braços – retorço-me. para reter – como Zambraia – .Abilio Pacheco A uma Passante Avanço zumbizando pela – apressado – multidão (a multidão que é um imenso nada). Eu deveria. Quarta – dois de maio. meias e pés. a bainha da calça – em vãos de pisadas – . em síncrono viramonos. Usava batom? Tinha – é certo! – delineada a sobrancelha. Como num duelo – (multidão de indiferentes padrinhos) minha terceira (última?) felicidade curta – miramo-nos outra vez. contorciono-me – e sacolas infladas de compras.. fechar os olhos. a tua face.

Adeilton Oliveira de Queiroz (Gama-DF) A medida da água A ciência ainda não sabe Mas a água tem cor e sabor. A água tem espaços que os arquitetos não conseguem medir. Antologia Literária Cidade 14 Volume I . A água tem linguagem independente das estações. E sei também que os peixes. as árvores e as flores realizam maravilhosos saraus. A maravilhosa arte de perdoar os peixes Eu sei pouco sobre o perdão e sobre os peixes Mas sobre a arte de perdoar os peixes Eu sei tudo. Eu sei pouco sobre a beleza e sobre as árvores Mas sobre a beleza das raízes das árvores Eu sei tudo.

Spider Violeta é aranha Violetaranha Violetazul Violeta da pétala da cor escurazul Violeta da cor do lilás da noite Cor que prende e transforma Mas a ovelha despetalada e distraída não percebe A ovelha pousa na vil e lenta violeta violácea violenta Que viola agora a liberdade da ovelha A ovelha fica presa na pétala telha. Antologia Literária Cidade 15 Volume I .Adeilton Oliveira de Queiroz (Gama-DF) Da paciência Da paciência da inteligência Vem a sabedoria Da paciência do tempo Vem o deserto Da paciência do espaço Vem a eternidade Da paciência da estalactite Vem a estalagmite.

Segredo Se a nuvem falar pra terra o segredo do vento Eu tenho certeza que a água dominará o tempo. pro aeroporto. rodoviária ou pro cais Eu quero agora a boa sorte e a possível paz que a sua ausência faz.Adeilton Oliveira de Queiroz (Gama-DF) Não mais Não mais Não mais Vou perguntar pra onde você vai Agora tanto faz Tanto faz Tanto faz como tanto fez Se você vai pra praça. não mais Não volte mais Não mais volte Nunca mais Não mais me interessa Não mais Não mais Vá pra onde quiser Pra praça. Antologia Literária Cidade 16 Volume I . rodoviária ou pro cais Te falo agora Não mais. pro aeroporto.

Antologia Literária Cidade 17 Volume I .Adeilton Oliveira de Queiroz (Gama-DF) Melhor texto Um tempo que sem gasto de tempo se apresenta Um tempo de círculos de anzóis verdes Tempo de água desvinculada de créditos solares Tempo de texto conversível porque ninguém precisa de capota Tempo de veneziana limpa e sem moldura De limpidez esférica e sem advérbio Tempo assim é poesia clara Que economiza adjetivos e malabares verbais Tempo de retenção total das gengivas Só o dente necessário é apresentado num sorriso coesamente conciso. Haiku Cavalo iluminado Cavalo mínimo e cheio da metáfora amarelazul Cavalo é haiku.

Antologia Literária Cidade 18 Volume I .Adeilton Oliveira de Queiroz (Gama-DF) Amores floras lilases amoras flores brancas De tanto abraçar a transparência dos amores floras lilases e das amoras [flores brancas Sua história produziu um love cordel ou Um feliz final pra Florbela Espanca. Tijolos que não fazem boas paredes Meu verbo preferido é não participar Gosto de não dar minha mão e nem meu coração Gosto de não receber mão alheia Não peço abrigo e nem cobertura Sou tijolo sozinho Sei que preciso dos outros tijolos Mas eles são escorregadios Só acidentalmente é que nos juntamos Somos paredes de vidros comprometidos Nossos dentes são feitos de ouro absurdo e cariado Só a construção de paredes falhas são possíveis pra nós Tijolos desamparados.

e o sorriso trágico é um mero riso de um clown decaído. Encaro a minha própria face escura como face escura que é.Alberoni (São Paulo-SP) O louco decaído Arcano 22 Era uma face escura mas o Sol a tornou esplêndida e como arco íris sorria em cores por todos os lados. Já bebi da água. Também já me alimentei e meu olhar busca agora novas planuras. Cavalguei a miragem como ilusão de todos os atos que faço. Agora sou lúcido. Afasto a imagem como quem afasta um copo de água vazio. Isso noutros tempos. Nunca mais estarei sozinho Antologia Literária Cidade 19 Volume I . Corria leve no campo e seus cabelos eram crinas ao vento espalhadas pelo rosto e pelo seu tronco. já me dessedentei.

Alberoni (São Paulo-SP) Confiança Olhar e ver é um atributo de quem sabe.) Caminho como cego apoiado na bengala. Ainda não vejo quando olho mas sinto o reflexo nas sombras e na luz que repousa nas pedras. nem percebo os sentimentos de maneira total. Chegarei lá. Antologia Literária Cidade 20 Volume I . (Também não sinto o aroma... Vou devagar. pois quem olha e não vê apenas se perde no mar das energias. andando com sutileza.

Verei este amanhecer cinzento como se fosse uma primavera Ouvirei as maritacas na lembrança pois elas dormem pela chuva e não voltarei o rosto ao sentir um toque de dedos nas costas.. e um hálito morno na sombra do pescoço.Alberoni (São Paulo-SP) Só para românticos Eu te dou bom dia pois nada mais é preciso que um bom dia para me invadir algo terno chegando como lembrança. Não deixarei meus pensamentos soltos não tocarei em você. não tocarei em seu corpo. E isto basta para mim. Antologia Literária Cidade 21 Volume I .. Sei que é você. sequer em pensamento.

poetas e profetas À procura de paz no ocidente e no oriente. Ouço passos em direção ao novo caminho Que atravessa os continentes e que me levam À procura do alimento vital para a arte da alma E dos novos códigos . Escuto a palavra dos sábios. a canção dos poetas A voz dos filósofos.. Antes da primeira grande palavra de Deus.Ana Félix Garjan (Belo Horizonte-MG) Profecia do Silêncio I Vejo nas estrelas a procura que atravessa séculos Vêem-se sábios. Escuto o som do silêncio antes da palavra de Deus. a voz dos filósofos O choro das mães. novos mundos. Façam-se novas terras.. filósofos.segredos essenciais da vida. a luz e o som do silêncio. a ira forte e justa dos inocentes O gemido de recém-nascidos. novas vidas Façam-se novos jardins e caminhos nos corações! E façam-se novas luzes de paz E faça-se uma nova humanidade! Antologia Literária Cidade 22 Volume I . das crianças E o som do martelo da nova sentença que está vindo.. o riso das crianças O som do martelo da sentença da nova lei da vida. o choro das mães. santos. Escuto a palavra dos poetas. a canção dos poetas A voz dos filósofos.. Escuto a palavra dos sábios.

O mundo está cheio de palavras Quero gestos de paz nas praças Quero tua presença e força agora Pela minha Paz e da Humanidade. O mundo precisa acordar Ser justo e verdadeiro. A Paz que é minha eu te dou Poderá ajudar você e o irmão A descobrir sua paz interior Mas eu preciso de Tua voz Pela Paz da Humanidade.. Já se faz necessário mais muito mais gestos. Pela Paz da Humanidade. coração e mãos pela Paz da Humanidade..Ana Félix Garjan (Belo Horizonte-MG) Meu poema pela paz Já é tempo de soltarmos a voz pela PAZ da Humanidade. atitudes e ações. Antologia Literária Cidade 23 Volume I . As pessoas precisam Ser As pessoas precisam Sentir E juntos precisamos Agir Pela Paz da Humanidade. A minha Paz é essencial para mim A tua Paz é fundamental para ti E juntos seremos mais que dois Pela Paz Maior da Humanidade.

Andreev Veiga (Belém-PA) persiana a luz listrada acende o mofo que ilustra a vida no estreito da cama minha mãe atravessa a morte sem fazer barulho me assusto com o copo d'água pousa uma gaivota em meus lábios se afogando a morte surge sempre suave para os mortos deus não haverá de conceber a saudade ao mar só aos que ficarão pois estes não têm barcos nem são deuses mas suficientemente estúpidos como o céu de pessoa a persiana retém os desfiladeiros neste cômodo o que escrevo desaparece com a noite fica na memória o eco fragmentando o pouco do café os vendavais precisam das chuvas para que as horas revelem às montanhas o suicídio que as habita já não atento migrar para o imenso da areia (tudo é indefinido até as horas das ondas) Antologia Literária Cidade 24 Volume I .

.. a voz que é muda me é sempre a outra que à beira da voz e abismo no fundo silêncio-amalgamado distrai tuas nadadeiras com o áspero sal do meu amor Antologia Literária Cidade 25 Volume I .Andreev Veiga (Belém-PA) morada para a gena na morada desse silêncio num presente que chega com o verão e estende seu instrumento na areia.

inspiram felicidade. O vento fraco da noite nas folhas a balançar. A lua.Araci Barreto (Itaboraí_RJ) Para o Alto O luar das noites quentes e as estrelas a brilhar sempre dão a sensação que a vida vai melhorar. dão vontade de dançar! As estrelas em fileira. uma da uma a cintilar nos ensinam. com cadência conjugar o verbo Amar. sempre calada. Antologia Literária Cidade 26 Volume I . nos acompanha o andar parece que sente e sofre quando vê alguém chorar.

O dinheiro falta. véspera de carnaval). 04/02/2005 (sexta-feira. Desfiles e tanto Redobram-me o encanto: Minha escola passa.. Deixá-lo não posso. Há só de ano em ano. O carro alegórico É mais que lendário. Fantasia em alta.Benedito Pereira (Brasília-DF) Carnaval (*) Lindíssima festa. Sou humano! (*) Brasília. Um momento eufórico. Com força incomum. Que a todos empresta Alegria e graça. Patrimônio nosso.. Mas eu?. DF.. Muda este cenário. Antologia Literária Cidade 27 Volume I . Monarca nenhum.

12/01/2006. Prostra-se e cumpre a sina de faquir.. Um apelido Somente. E apenas.. que desiste.R$ 0.03" (CB. Inerte e humilde. três centavos. Nem dá pra comprar comida. Como um pássaro. espera que haja alpiste E crê que encontrará algum vizir. E apenas.Benedito Pereira (Brasília-DF) Ralé (*) "Só o preço do álcool vai cair. Antologia Literária Cidade 28 Volume I .. vê tudo subir: O pão.. o leite e o ônibus! Subsiste... O aumento não a encanta: ele é perdido E frustra-lhe a esperança mais querida! (*) Por ocasião da matéria "Prepare a lupa: só o preço do álcool vai cair. Capa e p. Sabe que está lutando contra a vida. O salário é detalhe.. 15).. Encurtam-se-lhe os dias. Tem sofrido." Momento triste Vive a população.

nem lágrimas. O andante ainda anda sobre si mesmo. olhos. boca. nem risos.Bernadete de Lourdes Michelato (Curitiba-PR) (I) Andança O andante fétido suja as estradas. O andante tem cabelos. O andante anda às margens. O andante é gente que não é mais. O andante tem os pés cor de sangue. O andante não tem sonhos. Antologia Literária Cidade 29 Volume I .

sem eira nem beira. São estes.Bernadete de Lourdes Michelato (Curitiba-PR) (II) Canto dos pássaros São pássaros que cantam que brincam que sonham. Onde a flor? as casas? as crianças? Apenas pássaros sem eira nem beira. Antologia Literária Cidade 30 Volume I . Perdidos à toa na vida.

Da luta ao descanso. Ouviram um clarim. Mostrou a saga de um Campeão. Em Interlagos. será lembrado sempre. Você. Hoje. Uniram-se ao sim. choramos e enlutados estamos. Que atinge a perfeição e a glória.Custódio Formoso (Santa Rita do Passa Quatro-SP) Saga de um Campeão (A Ayrton Senna da Silva – In memorian) Você. Mônaco e Estoril. Simboliza uma bandeira. Não é todo dia que nasce um ídolo. Você Ayrton. PAZ Cessaram os canhões. representou o Brasil. em cada vitória. Antologia Literária Cidade 31 Volume I . que ganhou tantos troféus. Dignificou o Brasil com lauréis. Em cada curva. Da gruta ao remanso. Realiza a aliança verdadeira. Libertaram-se as nações. Ayrton.

Reuniu inúmeros voluntários na Itália. Oh! Bendita seja a Solidariedade! Numa prova de amor.Custódio Formoso (Santa Rita do Passa Quatro-SP) Solidariedade Depois da terrível devastação Causada por um forte furacão O país pediu auxílio humanitário. Assustava os moradores e atirava Lavas incandescentes na explosão. de caridade. roupas sapatos. Ousou salvar vidas em plena batalha! Antologia Literária Cidade 32 Volume I . O resgate às vítimas era muito lento E elas entraram em uma embarcação. Providenciou abrigos seguros. Um difícil recomeço. triste retrato! Na montanha o vulcão estrondava. E o que lhes reservará o Futuro? O Mundo provou ser Solidário. Enviaram remédios. Agasalhos e alimentos aos irmãos Que perderam casas na inundação. mostrou amor. membro fundador Da Cruz Vermelha. Há anos ele não se fazia barulhento. Ele deu o exemplo do Bom Samaritano E. Jean Henri Dunant. num gesto tão solidário e humano.

Antologia Literária Cidade 33 Volume I .Deborah Dornelles (Brasília-DF) Urdidura na pintura adivinho relevos e palmilho reentrâncias. quase-pássaros em revoada. flores. matizando a tarde seca e quente e o escuro lento da boca da noite. sombreado. peixes. insetos. sombra. nas cores juntas da substância. luz. esfuma-se no papel algum passado presente futuro. penetro mundos de inconstância: matéria mesma da urdidura. mandalas. como uma pintura de muro aqui e ali e renovada.

saliva antiga. ondas de promessa nova. Antologia Literária Cidade 34 Volume I . suor encharca o corpo ímpar. e panos limpos para as lágrimas de sempre. saudosa daquilo que ainda não.Deborah Dornelles (Brasília-DF) Esboço de armas depostas e recomeços entende a poeta. a boca seca. seu sono tarda. oferto um esboço de hoje no lugar do gosto de ontem. outros passos no coração. de olhos úmidos na madrugada. para o poeta atrás da tela de cristal líquido.

não sei se sei amar daqui de outras eras. amor de outros meridianos. chove muito lá fora quisera teu beijo de língua macia sugando as angústias do meu peito repleto. Antologia Literária Cidade 35 Volume I . noutros anos.Deborah Dornelles (Brasília-DF) Amor de meridianos faz de conta que você me pegou noutra época da vida afastada estou agora. ainda por cima. e treme e transpira e espera e deseja e demanda. corpo vivo: este é o meu.

a quem tudo fere de morte. seios à mostra. de suspiro. em matéria fugidia. Nua o encanto quebrou-se.Deborah Dornelles (Brasília-DF) escrevo (ainda respiro) e repouso no teu braço alguma poesia de espaço. no meio da grande praça. para escárnio de todos. Antologia Literária Cidade 36 Volume I . E de repente eu era uma mulher nua. como uma flecha ao fruto maduro. uma mulher antiga de belas formas e coração puro.

não quero homem para ter costume. e que faísquem corpos em que se fundam perfumes. quero homem. costume de homem. sombra de homem que em mim se esfume. quero calores e fagulhas de outro lume. ciúme. Antologia Literária Cidade 37 Volume I .Deborah Dornelles (Brasília-DF) Desejo não quero homem para esfumar-me em sua sombra. sim é o que quero.

se antes ficar velha. dançarei contigo um bolero. a ler mais versos teus. exausta de estridências e esperas. mas. poeta.Deborah Dornelles (Brasília-DF) Loa alta noite. precisando de cuidado. chego da festa cult com calor excessivo. Antologia Literária Cidade 38 Volume I . recolho despojos. Testemunha se eu puder carregar-te ainda. vem. deveras. beija-me a bandeira e o mote entoa. poderei rodopiar e te beijar como quero. meu canto responsório segue a tua loa. gozarei todas as noites só olhando teu retrato. capitão da guarda. teus festejos e paramentos de esteta. ponho-me em reverência.

O asfalto. O tom da canção. nos estáveis ares Do meu azul infinito. deserto. a flor azul dos nossos sonhos Ou a grama verde-formosa. Um mato. A cor da música apaixonada. Sorriem a procurar os sonhos Nos cantos. A inspiração dos números pares Na calculadora pulsante do seio da amada Procuram a taça com vinho e sabor de carinho. um fato. Procuram o dono da inspiração. Percorre o deserto de asfalto. Procuram o cheiro da noite e do clarão. Procuram pairando no infinito dos ares.Denise Santos de Oliveira (São Sebastião-DF) Olhares Curiosos Minha sombra na luz do dia Aos poucos se fantasia. E meus olhos castanho-risonhos. Procuram o som das nuvens caindo incolor Procuram a origem do amor. morto. Antologia Literária Cidade 39 Volume I . Procuram o riso das peças de xadrez E a semente que nunca tem vez. escuro Resume-se a um olhar imaturo E meus olhos castanho-risonhos procuram no asfalto A rosa. as asas no chão. E os meus olhos castanho-risonhos procuram no asfalto Um ato.

Mulheres de meia idade. possível. Querem encontrar razões. os capítulos. portanto. Várias idades se interessam pela compreensão das sagradas escrituras. Aprendem entre outras coisas. Uma nova visão da religião se faz verdade. Fortaleço-me.Djanira Pio (São Paulo-SP) A Bíblia Eles estudam a Bíblia. que viver é interessante. Estão ali. E seus estudos. os versículos. Com olhos pesquisadores interpretam as parábolas. justificativas. Parece-me. respeitosos e interessados. Ganho nova força para compreender a vida em sua complexidade. enfim. possível e bom. querem saber de seus mundos. sempre. o livro sagrado. Antologia Literária Cidade 40 Volume I . Atentos procuram as páginas. sozinhas vem de longe. Firmes. O mestre se faz presente com seu dom e seu talento. Simples em suas aparências opinam de maneira correta e coerente. A lealdade como meio e fim. a interpretar a figura de Cristo-Deushomem. contritos.

Crendo transformei-me no que sou: humana e mortal. Adorei-me. Mas vi que tudo era vaidade. Restei-me só. Antologia Literária Cidade 41 Volume I . Esperei tratamento diferenciado. Os deuses não habitam a terra.Djanira Pio (São Paulo-SP) Poema Posicionei-me como Deus.

eles nos come Antologia Literária Cidade 42 Volume I .Ducarmo Souza (Belém-PA) A Floresta Amazônica A floresta Amazônica Está desaparecendo E a ganância crescendo A cada dia. a cada hora Coração sensível chora Quando vê as nossas árvores Transformadas Em grandes toras Nas matas verdejantes Onde vivem os passarinhos Na sua lida constante Para fazerem os seus ninhos Eles andam assustados Pois estão sendo obrigados A seguir outros caminhos Os animais da floresta Já começam a sentir fome Estão se aproximando O desespero os consome Não tendo pra onde irem Chegam mais perto do homem Se não forem protegidos No futuro.

O homem já foi à lua e continua a insistir. Antologia Literária Cidade 43 Volume I . às vezes nem isso tinha. lá no canto da cozinha. Ele fala do espaço. Era apenas uma trempe. Só não se cria um espírito. Chegou a eletricidade. plantas. e tinha um gostinho bom. As coisas foram mudando. quer visitar planetas. como se estivesse aqui. O fogão era de lenha. logo irá conseguir. A medicina moderna faz transplantes e tudo mais. Insetos e animais E a nossa flora belíssima Que benefício nos traz No final lhe faltará Água.Ducarmo Souza (Belém-PA) O homem perdeu a cabeça E vai perder muito mais Fazendo desmatamento Secam os mananciais Acaba com os passarinhos. os que vivem na cidade. depois a TV em cores. Hoje com a modernidade quase tudo é digital. Era coado no saco. saúde e paz ONTEM E HOJE Lembro-me muito bem quando era pequenina: as casas eram alumiadas com o uso da lamparina. Faz-se clonagem de tudo. telefones celulares. também os computadores. Veio a televisão. gente e animais. Arruma-se até casamento num programa virtual. O café era torrado em casa e pisado no pilão. A ciência evoluiu e hoje tudo é capaz. que é coisa celestial. Primeiro quem usufruiu.

E o prédio não entenderá o que Van Morrison tem a ver com Daft Punk. A televisão será apenas um elemento da decoração auto-imposta. Jamais terás uma adega. reclamando visitas. mas comprarás um abridor. a luz Agora que estás (tu o sentes) só.Eleazar Venancio Carrias (Tucuruí-PA) O abridor. Agora que estás só. Revistas e roupas espalhadas negarão que há um vaso à porta. Tu o usarás até que o amarelo cristalino no copo seja a única luz nos teus olhos. se te revelam novas regras de não-destino. mas amarás tuas filhas. pouco importa falte água: só precisas de luz. Antologia Literária Cidade 44 Volume I . Não serás nunca poeta.

Eliane Machado (Marabá-PA) Infâmia “Amei e morri uma vez. agora me tornei minha própria tumba e epitáfio.” John Donne Foi por não saber amar que amei assim: procurando luz no lado escuro da lua dardejando lanças em alvos invisíveis navegando em mares dantes naufragados travando lutas com versos decassílabos (Não me avisaram das noites insones dos olhos exangues que coagulam em agosto da amargura que cinge a fartura dos dilúvios da imensidão dos livros que ironizam à meia-noite) Foi por não saber esquecer que fiquei assim: extorquindo à palavra seus segredos infames traindo o poema por trinta dinheiros empobrecendo a rima por pura vingança seduzindo a inspiração com vil metal tirando poesia de pedra. Antologia Literária Cidade 45 Volume I .

Se te busco.Eliane Machado (Marabá-PA) Melpômene “escavação no outro em direção do outro em que o mesmo procura seu veio e o ouro verdadeiro do seu fenômeno. é porque te enxergo se foges. No teu reflexo invertido exorcizo-me. Enfim. Antologia Literária Cidade 46 Volume I . é porque te sinto: pela tua existência em avesso pelo lado reverso de tua medalha pelo teu silêncio no excesso de sons e sentidos.” (J. Derrida) Te conheço. Extraio do teu não-ser a certeza do que sou: a minha significância a luta contra a arbitrariedade de minha existência face a minha necessidade de existir. Porque sei o que tu não és. reconheço-me e construo minha simulação e o meu simulacro.

Eliane Machado

(Marabá-PA)

Hieróglifo Quisera ler tua escrita negros caracteres Oriente longínquo de meu desejo ocidental. Enreda-me nas entrelinhas de tua página em branco Braile sob meus dedos cegos de dureza e angústia. Busco-me no teu tecido bordado de paralelas Relevo antigo feito por mãos de tristes Parcas. (Antes houvesse outras vidas e o tigre amasse o falcão e os anjos se rebelassem e os tempos fossem antigos...) Há texto demais numa vida para Escribas bêbados e loucos Há vida demais nos bêbados loucos de texto e ânsia. Uma vez só é pouco.

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Volume I

Eliane Machado

(Marabá-PA)

Marabá Est Mesopotâmia quase-ilha dos risos, dos minérios, dos rios Babilônia das dores, dos sonhos, dos furores de tudo te nutriste a céu aberto o sol por testemunha. Das noites em que ocultaste homens em delírio mulheres em desafio gentios. Fim último dos conquistadores do amanhã misto de claro-escuro fronteiras sem muro. Canaã maná e deserto fogo e dilúvio perda e conquista filha da Cruz e de Tupã. Obra surrealista: Flor escarlate que desabrocha no asfalto Criança mestiça sobre nuvens amarelas Rosa mística a exalar sons e cores Índia de arasóia transformada em Barbarela. Quem é ela? Não a conheço, mas sei quem é a cada dia Utopia
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Eliane Machado

(Marabá-PA)

Palácio sobre rocha e mangue Cabana em diamante e concreto Amazona, solitária, irmã de sangue. Minhas palavras não mudarão seu destino: - Tu não pertences a ninguém mas somos todos teus filhos teus amantes, teu harém, tua espécie, tua tribo, teus consentidos reféns!

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Teia fina feita de aço Prendo teu desejo O meu laço Seda chinesa Envolvendo Enfeitando Estrangulando Como um abraço Eu. Renda negra Tramada em aço Visto teu corpo-santo Devasso Degradando Eternamente Os teus passos Antologia Literária Cidade 50 Volume I .Eliane Machado (Marabá-PA) Aço Eu. Bibelô de vidro e aço Me perco me despedaço Mil fragmentos estilhaços Voando Brilhando Perfurando O teu espaço Eu.

Pelo mar nos vêm as notícias de um mundo ultramarino. cidades e almas penadas. que ficaram na infância. a fita azulada das águas se banha. no seu modo líquido de existir. no toque da areia fina. mas o que haverá no fundo destas águas irrequietas. e. que se perderam em nós? Como. silêncios. que são jangadas perdidas na ânsia das ondas. de um mundo fora de nós. nesta bacia feroz? Onde se escondem os peixes. gigantes. nas águas profundas. vêem-se vírgulas sonoras. achar pérolas fabulosas e o grito de alguma voz? Antologia Literária Cidade 51 Volume I .Evaldo Balbino (Belo Horizonte-MG) O mar Na carícia do vento. sereias.

ficam à espera. Antologia Literária Cidade 52 Volume I . rejeitam os nossos corpos. mas parecem. batendo nas rochas. desse amor tão rude e sedento do ímpeto das águas do mar. E as ondas. na dança veloz. calado. E estas não dizem nada. a esmo. amam pedras e mais ninguém. desejar a praia inteira. ensimesmado. nesse vai e vem. querendo vê-las por dentro. a areia e o que nela está. paradas.Evaldo Balbino (Belo Horizonte-MG) E o mar não nos responde.

Amar é também brincadeira. Ondas vêm derrubando muros Pilastras caem com as ondas Quem constrói não sabe parar.Evandro Brandão (Manaus-AM) Namorado de Areia Construir castelos é bom Mesmo sendo à beira-mar É viver um diferente tom Um constante recomeçar. É diferente quando se tem Um amor recém-nascido Um sentimento correspondido Diante de um tempo bandido. É possível ser feliz Por um tempo pré-determinado Mesmo sendo. Viver bem cada momento Com intensidade verdadeira Só importa o sentimento. Que está sempre a te dizer Como deve amar uma sereia Seu lindo namorado de areia. Antologia Literária Cidade 53 Volume I . de areia o namorado.

flores negras de ressecado sangue denso dos pomares urbanos. pudores? E quantos amores. Você que corre. nas suas águas. é todo morte. cheio de flores. em velhos de memórias de vinil não rolaram em suas águas? Cemitério de cidade. passado.. quantas horas e horas não morrem? Quantas paixões e dores. feito um menino de pés sujos e farrapos e sorriso cariado: Antologia Literária Cidade 54 Volume I .Fernando Paganatto (São Paulo-SP) Urubu que canta Nestas águas que correm calmas (como asfalto verde-morte inacabado) quantas almas. em cada papel amassado. em velhos discos de vinil. espectros afogados.. em sofás de dois ou três lugares. não ficaram. Mas você. cemitério. e todo lápides e saudades. E você não é sua beleza aos olhos de quem passa: é somente estorvo.

Fernando Paganatto (São Paulo-SP) Você é a vida escondida. Antologia Literária Cidade 55 Volume I . Canto surdo e estável. verdade que esvazia o desvario cínico. daquele que passa. Urubu que canta a um sinal mórbido. de sons dos leitos de hospital. daquele que não vê. É um urubu que canta e assim segue. como a guarda um urubu que canta. o sadismo psiquiátrico. que você é a beleza que tem guardada.

segurando com tanta força. Olharemos para baixo e veremos o rio. então ele nos diz que não há como subir novamente O despenhadeiro. naquela situação o melhor seria soltar-se e caindo.Isabel Cristina da Silva Ferreira (São Sebastião-DF) Do Outro Lado do Rio Haverá momentos em que estaremos pendurados no despenhadeiro nas raízes. a sua correnteza forte. ainda que ela nos leve à margem segura do outro lado do rio. o desespero congelar o coração. que Nossas mãos estarão sangrando. deixar-se levar nas águas da correnteza. O socorro chegou. Antologia Literária Cidade 56 Volume I . Pois que. ainda que ele pudesse segurar minha mão. Pediremos socorro e esperaremos que esse socorro venha de alguém que por acaso passe pela estrada lá em cima e nos ouça aqui embaixo.

Caminhe por ela ainda que seja contra todos os ventos. irão sarar todas as feridas.Isabel Cristina da Silva Ferreira (São Sebastião-DF) Não lutemos contra a correnteza. Antologia Literária Cidade 57 Volume I . Perto dali haverá um novo caminho. uma nova estrada. pois ela nos levará à margem segura do outro lado do rio. Essas águas irão levar todas as dores.

serviu-me o pedaço de bolo de chocolate a la americana e a caneca preta com café forte melado de açúcar. E em menos de cinco minutos a waitress uma morena linda de olhos muito pretos. me amando por um instante ela se foi. porque o bar sou eu. escurecidos ainda mais pela maquiagem. de pele branca como a luz do fim do túnel e lindas mãos grandes e delicadas . Não tem muitas mesas. mas só o chamo em pensamento. com algumas poucas luzes fracas no balcão. Não tem nome nem existe. muito bem decorado de escuro. esbanjando sorrisos honestos de bomhumor e sensualidade. e quem o conhece não divulga. Antologia Literária Cidade 58 Volume I . do jeito que eu gosto. Não é famoso. O bar era muito bem escondido. nem as obscenidades exageradas dos outros bares.Ivan Grycuk (Graz-Áustria) O bar Pedi um café e um brownie. Eu o chamo de refúgio.voltou a minha mesa e. nem muita gente. Não tem fotos nas paredes nem preços nos vendidos. Dei-lhe alguns dinheiros para a conta e a gorjeta e ela se foi.

de cansaço. Era delicada. Chorou no escuro do bar. Coração fraco. Olhou em volta. Sempre quis ser bailarina. As formas das linhas e os desenhos dos signos.Ivan Grycuk (Graz-Áustria) O mesmo bar Ela vestia um sobretudo lie de vin e mascava chiclete. recompôs-se. Arrancou a goma da boca e lançou-a ao lixo. escuros. ainda bem quente. Ela tinha cabelos longos. chorona. Mas ela chorou. Antologia Literária Cidade 59 Volume I . feminina. Tomou uma caneta como companheira e pôs-se a degustar do prazer de escrever. No escuro que não existe. acesos. Estava feliz por estar triste. Gostava de ouvir Maria Rita. Sentimental. Não chamou a waitress. Olhos verdes. chorou por abrigo. Lindos lábios nus. Não olhou para os lados e não cumprimentou ninguém quando entrou. Golou o cappuccino e sorriu por dentro um sorriso de alívio. Sobrancelhas grossas muito bem cuidadas e não grossas demais. Sentiase completa com sua bebida quente e sua vida de papel. pediu-me um beijo que não pude dar. Chorou novamente e. Tomou outro gole do cappuccino. mas a moça levou-lhe um cappuccino. evasiva. chorou e chorou. Porque ela também sou eu. em prantos. Sentou-se e abriu um caderno.

eu feito um cascudo a bater desajeitado os braços e os pés não fui um menino-peixe (até hoje não sei nadar) nem cacei passarinhos..Jair Barbosa (Belo Horizonte-MG) rio sem dono rio sem dono rio barrento rio brando rio bravo rio da dor rio do amor rio das lavadeiras com suas rodilhas de pano as bacias cheias de [roupas o rio doce o rio cercando o rio lambendo as pedras o rio levando a vida [as lavadeiras cantando ensaboando cheirinho de lavanda águas do rio correndo espumam roupas quarando: de vez em quando a correnteza levando uma camisa. Antologia Literária Cidade 60 Volume I . admirava-me o balanço das águas o vai e vem sem cessar e o mistério escondido naquela ilha distante: quem seriam os seus habitantes? por horas eu ficava a cismar chegava o crepúsculo a ave maria e a vastidão do céu dentro do meu olhar..

Sei que mesmo sem você Vou ter que viver. Vou conseguir Deixar de amar. Não para. Sei que. Vou novamente me apaixonar. A lua vai aparecer O sol vai nascer.Jhonny Vieira Brito (São Sebastião-DF) Sei Sei. A fisionomia se muda O olhar a acompanha. Que mesmo sem você As estrelas vão brilhar. Os sonhos não vão deixar de existir. Ter que sonhar. O tempo não volta. O tempo só passa. Vou ter que crescer. Podem anos se passar E mesmo assim. O mundo não vai parar de girar. Antologia Literária Cidade 61 Volume I .

Muito mais do que cada um era capaz de fazer. Uma vez que ele era muito lento em corrida. Eles haviam ouvido que um novo mundo iria exigir muito de cada um deles. mesmo sendo muitos bons naquilo para o qual foram criados por Deus. todos os animais deveriam estudar todas as matérias. não voltaria a praticar a natação que era a coisa que ele mais gostava na vida. indiscriminadamente. pois ouviram os homens dizerem que se cada um não se adaptasse para atender às novas exigências de capacitação individual. A todo momento. para tentar aprender a correr bem. sem chances de progredir na vida e serem felizes. aliás.José Araújo (São Paulo-SP) A tal da “Globalização” Em meio à floresta amazônica havia um burburinho enorme entre os animais. seriam excluídos. até que seus pés ficaram tão machucados. não deixando ninguém fora das aulas práticas e teóricas. assim não havia dificuldade em se ministrar qualquer uma das matérias adotadas no currículo. claro. que nem que ele se esforçasse ao máximo. que de boca em boca. Assim foi feito. falava-se de uma tal de “Globalização” e eles estavam muito preocupados. estudar bastante e se formarem obtendo um diploma que certificasse a capacitação de cada um evitando assim os sofrimentos que iriam ocorrer com o novo mundo que estava para chegar. o mundo dos animais estava em pânico e resolveram se unir e criar uma nova escola. não Antologia Literária Cidade 62 Volume I . Para ficar fácil a administração do currículo. logo. porém manteve ao longo das aulas uma media razoável em voo e era muito fraco em corrida. simplesmente deixados de lado. O pobre pato tentou. a sala de aula dos animais era toda a floresta. O professor lhe disse que enquanto ele não ficasse realmente bom em corrida. sempre ficava após as aulas para praticar e teve que deixar a natação de lado. para que todos pudessem frequentar. o pato se destacou em natação. A preocupação entre todos era tanta. ele era muito melhor nisso que seu próprio professor. Logo nas primeiras aulas. tentou e tentou. Claro. logo.

é lógico. O gavião então. mas claro. foi proibido de subir nas árvores.José Araújo (São Paulo-SP) conseguiria sequer correr para dar impulso e voar. não mais corria. este era um aluno-problema. no que ele era craque. era o primeiro da classe em corrida. do mundo novo e exigente que estava para surgir em sua vida e que iria tentar mudá-lo de qualquer forma. pois a vida não tinha mais sentido. que foi preciso levá-lo ao consultório da Dra. pois nas aulas de escalada ele superava a todos os outros alunos chegando ao topo das árvores em segundos. foi castigado várias vezes severamente. que nem mais se levantava do lugar. nem tentava nadar. deu-lhe um abraço fatal. sem mesmo perguntar se ele era capaz de fazer coisas para o qual ele não foi criado. ele não mais ia às aulas. A situação ficou tão séria para o macaco. No final de sua vida. ou seja voando como um relâmpago. foi o fim do macaco. tirava dez em todas as aulas. nem voava. pois nem mesmo conseguia média em notas para passar de ano naquela matéria e isto acabou com o pobre bichinho psicologicamente e ele ficou tão deprimido. nem andava. pois só tirava zero em vôo. ele se considerava um incapacitado para enfrentar as exigências da tal “Globalização”. até que o pobre animal desenvolveu uma frustração profunda. o coitado não mais nadava. não mais voava de galho em galho. O coelho. pelo que se sabe. estava acabado de tanto treinar a fazer aquilo para o qual não foi feito. Desse modo ninguém se atrevia a tentar impedi-lo e logo foi expulso da escola. desde que seu professor o obrigava a começar do chão ao invés do topo das arvores. Jibóia. assim. pessoa com uma grande capacidade hipnótica. mas logo teve um colapso nervoso de tanto tentar aprender a nadar bem o suficiente para ser aprovado nos exames finais. Antologia Literária Cidade 63 Volume I . coisa que tanto amava fazer e. não é que ele não tinha mais forças para se defender quando a cobra o comeu. nem corria. notando que o pobre não tinha nem mais forças para se defender. o que ele queria mesmo era morrer. Afinal. O macaco era um espanto em escalada. não mais queria andar. a maior psicóloga da floresta. quebrou todos os seus ossos e o engoliu. usando seus próprios meios de chegara até lá. não subia nas arvores.

sendo considerado apto a enfrentar as mudanças que estavam por vir. pois nela. foi o único aprovado e recebeu o diploma.José Araújo (São Paulo-SP) Assim as matérias foram sendo aplicadas dia a dia. não destinada ensinar matérias diferentes aos animais. que podia nadar. todos os alunos sofreram o peso e a responsabilidade de tentar aprender a fazer coisas para o qual não foram criados e um a um foram sendo reprovados e os que sobreviveram. não havia sobrado mais ninguém que pudesse ser considerado ao menos normal. ficaram psicologicamente traumatizados. o que eles também sabiam fazer muito bem. ninguém era obrigado a aprender a fazer nada para o qual Deus não os tivesse criado. nos padrões de suas respectivas raças. Assim. que eram mestras na arte de se esconder em seus próprios cascos. criado pela sociedade dos homens e isto sem mesmo que a tal “Globalização” tivesse chegado efetivamente ao mundo dos animais. os Tatus resolveram se juntar às tartarugas. eles ensinaram aos seus filhos tudo que sabiam sobre a matéria cavar na qual eles sempre foram mestres e conforme eles iam crescendo via-se claramente que eram alegres e felizes. No final do ano letivo. Então fundaram uma nova escola que se tornou um sucesso. os Tatus se recusaram a entrar na escola porque a administração havia se recusado a incluir no currículo a matéria cavar e eles acharam isto uma discriminação muito grande. pois a notícia correu entre os animais sobreviventes e em cada canto surgia uma nova escola. se recusando a passar por tamanha humilhação. além de voar um pouco. sofrendo as consequências disto. geração após geração. eles continuaram suas vidas agindo normalmente. um lagarto estranho e anormal. correr e escalar muito bem. cada vez mais experts na matéria cavar. Tempos depois. Além dele. realizando tudo aquilo para o qual Deus os criou com perfeição e. mas para Antologia Literária Cidade 64 Volume I . Aos poucos. haviam sido praticamente destruídos por um sistema louco e insano. Graças a Deus. a vida voltou ao normal na floresta Amazônica. não queriam que seus filhos presenciassem tanta maldade.

Somos o que somos. apenas isto e nada mais. recriminar. não existem as palavras. mesmo que sejamos todos diferentes uns dos outros. não podemos admitir que por questões de convenções sociais. por regras criadas pela dita sociedade. não aquilo que querem que sejamos e em nosso próprio benefício. somos iguais e seus filhos. se não fossem uns poucos que tiveram coragem de se recusar a se submeter às regras absurdas do tal mundo novo. que queria impor mudanças a eles. sem ao menos querer saber se eles haviam sido criados para isto. certamente tinha muito bons motivos para isto. pois se ele nos fez como somos. discutir ou tentar fazer dos outros aquilo que a dita “sociedade” dos homens diz que eles tem que ser. Antologia Literária Cidade 65 Volume I . mas que quase extinguiu a vida animal da floresta e o teria feito. coisa de bicho homem. orgulho.José Araújo (São Paulo-SP) aperfeiçoar e desenvolver o que cada raça específica sabia fazer. mas o fato é que no dicionário de Deus. outros não. preconceito ou discriminação. Não somos ninguém para questionar. tenhamos que fazer aquilo para o qual Deus não nos criou. Cada um de nós é um universo diferente. discriminar. pois em seu coração. Nunca mais ouviu se falar na tal “Globalização”. uns se parecem.

a cerimônia de pose ocorreu normalmente com os devidos discursos. gritar pela liberdade que a minha carne necessitava.e até escandalizar. lembranças das lembranças daquele mês de agosto de 1968 – ano do século XX de maior simbologia do idealismo juvenil . Quitutes iniciais servidos. Professora ANA CRISTINA DE OLIVEIRA. Paredes sujas.José Maria (Castanhal-PA) Parede-Alma Corroída Estas paredes corroídas não são paredes. . quando fui tomando conhecimento de alguns fatos Antologia Literária Cidade 66 Volume I . são partes da minha alma corroída pela dor de ver o atual estado que a educação se encontra neste País! A fria e chuvosa noite de 20 de março do ano em curso não me convidou para sair de casa. muito triste. Adentrei no prédio do Colégio Lameira Bittecourt para participar da cerimônia de posse da nova Diretoria. em estado de abandono. piso desgastado por quase meio século de uso e tantos outros descalabros que deixaram minha alma triste.quando adentrei pela primeira vez neste prédio para concluir o curso ginasial. quando também foram tomadas as primeiras providências para a fundação da Associação dos Ex-Alunos do Colégio Lameira Bittecourt. impor minhas idéias de jovem idealista. O meu orgulho de ter feito toda a minha trajetória estudantil em escola pública estava ferido. Passaram vários filmes na minha cabeça. Triste por ver este prédio que já produziu tanto conhecimento. remendadas. uma viagem de poucos segundos e repentinamente percebi que estava entre as paredes sujas e corroídas do Velho Lameira Bittecourt e a minha alma ficou triste. retratando o atual quadro de descaso que vive a educação pública no Brasil. exorcizar ideários que considerava limitadores das minhas exigências. Lembranças excelentes. O estado físico que se encontra o prédio do Colégio Lameira Bittecourt simboliza o atual quadro que se encontra a educação pública neste País chamado Brasil. . mas sai e fui. Professor ADALBERTO DE MORAES FILHO e Professora MIRIÃ OHAGE.

seis são do LAMEIRA BITTECOURT. Antologia Literária Cidade 67 Volume I .. a nível estadual.. dezenas de concluintes aprovados em concursos público e que dos onze estudantes ganhadores. da gincana de matemática. São jovens idealistas.descobrir que os diretores empossados são jovens e não esperam acontecer. construtores e sabem fazer acontecer na hora.José Maria (Castanhal-PA) recentes ocorridos na vida atual do Velho Lameira: dezenas de alunos concluintes do 2º grau aprovados no vestibular da Universidade Federal do Pará – UFPA e no da Universidade do Estado do Pará – UEPA. E os fatos foram sendo revelados e o meu orgulho foi se restabelecendo – é verdade o prédio está velho . com relevância para os fatos de a concluinte lameirense STELLA FERNANDA BERNADES ter sido a 1º lugar na classificação geral no curso de geologia. como a minha geração de 1968! Há esperanças. renovadores.

terra. . veredas. terra. Para tão grande castigo? Terra.. . terra. Quero ir pelos ares. estradas Quero outros limites Outras fronteiras Oh Deus! Porque me limitaste? Porque me condenaste? Porque me atrofiaste? Qual meu grande pecado.. Caminhos. terra. terra. Meu Deus! Quero outros limites Daí-me outros limites Terra.José Maria (Castanhal-PA) Outros Caminhos Terra. . . terra. Quero ir pelos mares! Antologia Literária Cidade 68 Volume I .

que talvez esteja cem anos à frente do seu tempo.. O que mudou para os pobres. . É assim nas fábricas onde os patrões gritam para os empregados.. com as mãos nos bolsos das calças amarrotadas. para a gente humilde? Todos continuam escravos! Seja em 1822. muito posterior. mas tão bêbado. que a cachaça "Parati" acabou por lhe abrir a porta. simplesmente foi cambaleando através dele. como propõe a ciência positivista que classificou todas as coisas segundo Darwin e segundo as implacáveis leis naturais. tropeçando e caindo nas sarjetas. A loucura lhe põe visionário como um Júlio Verne mestiço. Cem anos à frente de 1922.. Foi assim no Ipiranga.. Antologia Literária Cidade 69 Volume I . que lhe fazem ver coisas fantásticas. A gente humilde.Josiel Vieira de Araújo (São Paulo-SP) Lima Barreto no ano 2022 E estava tão bêbado naquele início de noite de setembro. E lhe bate um medo sobre o quanto tudo isso é hereditário. todos gritam. igual à época que esteja passeando como um fantasma bêbado. mas somente quem tem muitos contos de réis é que impõe o seu grito para o resto. em seu estado não atinava muito com a explicação que lhe abriu momentaneamente um caminho para seguir. Escorou-se num poste. num delírio sem sentido e sem razão. Os necessitados. dum jeito boêmio.Para o diabo com o centenário da independência! . seu olhar entorpecido tentava reconhecer as ruas por onde passava. Cem anos haviam passado desde que no Ipiranga houve o grito de Independência ou Morte. da loucura que pretende esquecer através das muitas garrafas de Parati. os explorados. mas sempre avançando por aquele caminho noturno. seja naquele ano da Semana de Arte Moderna na mesma São Paulo do grito do Ipiranga. mas num ano muito. As favelas. Chapéu para trás da cabeça. Algo havia se rasgado. talvez um tecido. como por exemplo. Logo reconheceu o contorno escuro dos morros cariocas.grunhiu com a voz pastosa de cachaça e loucura. e não se sabe se o cerebral ou se a trama invisível onde se entrelaçam os acontecimentos que se rompera. São muitos os tipos de grito. que talvez não esteja mais no centenário da independência.. O seu grito é contra a loucura que herdou do pai. Caminhou um certo tempo na escuridão que parecia separar as coisas do tempo. e por ela ele escapou..

sem camisa. decerto de tostões. culpados ou inocentes . gente dormindo no lixo. seus livros eram usados nos vestibulares que fabricariam os diplomas da burguesia que perpetuaria aquele estado de coisas . Vê gente catando lixo. As máquinas voadoras possuem portas por onde seus ocupantes revidam aos disparos com outras armas estranhas. sendo chorados por mães de aparência humilde. Ainda bem que isso ele não chegou a ver. mas que fazem um barulho horrível e que conseguem ficar paradas no ar. Pois a gente humilde. impensável demais. rebeldia e arte. pois todos morrem nessa guerra impressionante. tão desiludido quanto seu personagem Policarpo Quaresma.ainda que essa burguesia passasse em si o verniz do politicamente correto. de aparência indescritível e cara. Vê também as pessoas ricas andando em veículos enormes. Era-lhe inadmissível que até isso lhe fosse negado! Maldita loucura! É impossível que o futuro seja tão triste e tão sujo quanto a visão que ele está tendo! Não é possível que os ricos continuem a explorar os pobres para sempre! Saber que haverá favelas cem anos no futuro era cruel demais. que lhe trouxeram uma centelha de esperança nas eras futuras. graças a isso. que sempre encontrou em sua literatura uma voz de denúncia.isso é indiferente.Josiel Vieira de Araújo (São Paulo-SP) E. fazendo malabarismos como animais de circo na frente desses veículos. Morreria naquele mesmo ano de 1922. ele vê pessoas no morro. certamente sua doidice havia definitivamente se aliado ao seu alcoolismo para criar aquela dantesca visão. que sempre fora tema dos seus escritos.conforme ele ficou sabendo pelos jornais. Vê a miséria e a indiferença à miséria. Antologia Literária Cidade 70 Volume I . e então um vidro abaixa e uma mão lhes atira algumas moedas. Nota: Cem anos no futuro. não ligaria a mínima para sua literatura. vê então moleques magríssimos. gente comendo lixo. Aquele era o autêntico "cemitério dos vivos". Não! o futuro não pode ser assim! Não pode! Ele sempre gostou dos livros de Júlio Verne. usando estranhas armas. Elas atiram contra máquinas voadoras de um tipo que ele não sabe com que comparar. muito mais avançadas do que qualquer coisa que foi usada nas trincheiras da recente Primeira Guerra Mundial . Ele vê muitos mortos. de maneira incompreensível.

Antologia Literária Cidade 71 Volume I . Ninguém nunca tinha visto a cor daqueles olhos. E realmente a urina tinha em si a doçura daquele olhar que há tanto eles queriam extrair! E todos os civilizados queriam beber daquela essência. mas mesmo assim virou uma estátua de uma espécie de areia. De noite. que conforme o vento foi soprando. a fim de que aquela desconhecida seiva lhe escorresse do coração em direção aos cálices dos seus dominadores. e por isso.. Assim que apareceu. Ele não se revelava.. tolhido de tudo.. servia nas roças. ficando triste. a estátua foi se desmanchando. De dia. entretanto. açoitando as caras carrancudas das pessoas.Josiel Vieira de Araújo (São Paulo-SP) Areia Doce A vida era amarga quando ele surgiu.. Que de tudo faziam com ele de perverso e degradante. o povo civilizado o escravizou. pelas praças. servia na alcova dos homens e mulheres seus senhores. cada vez mais triste e cansado. Insondável. triste. espremê-lo. E foi assim que surgiu o açúcar. Sim. Pessoas amargas não têm limites. O pobre selvagem. Até que ele ficou tão triste que não fugiu e nem olhou para trás.. e aquela areia doce ia sendo jogada pelas ruas. Como era possível um olhar daqueles diante de um mundo como este? E ele não revelava. com beijos e chicote tentavam dobrá-lo.. eles fizeram isso. Algo que adoçasse suas existências. E assim. Um selvagem com a doçura da floresta no olhar. pelos caminhos do mundo afora. que tentavam a todo custo lhe extrair o segredo dos olhos e sorver um pouco o mistério que emanava da sua alma tão distante. Foi quando notaram que a urina do forasteiro era da mesma cor dos olhos dele.

mas deito e em fundo d’alma. Mais quieta do que eu. a cidade que me assusta. E deixo-me ficar na tua calma. a cidade que te ausenta. mas deito. Ermo. Há. Chama se acende em mim. E uma mata que aos dois nos acalenta. Com estrelas e mistérios nada custa. mas acalenta. tudo se evade e se derrama Por teu escuro céu. E a tua cama Que não vejo. Sirvo-me dela e acendo minha chama.Juarez Francisco da Costa (São José do Vale do Rio Preto-RJ) Noite Os meus pés no teu chão. noite.) Há. Antologia Literária Cidade 72 Volume I . Queima na cama Que não vejo. noite. serve-me a alma. meus olhos susta. que inspira calma. (Noite serena e só.

Sou protagonista da minha triste história. esta tristeza que não sai. Sou um pedaço de nada agora. mesmo olhando em frente. Imune a todas as dores que há. andando a pé. Sem ter companhia. Só tenho você gravada na mente. Caminho. Antologia Literária Cidade 73 Volume I . Embotados pelas lágrimas que teimam em brotar.Lenir Moura (Arraial do Cabo-RJ) Farrapo Numa rua vazia de uma noite qualquer. vagando. Percebo a noite encobrindo a vida E a vida escurecendo o dia que vai Deixando na rua uma beleza escondida E ficando em mim. um farrapo. Sou um trapo. Meus olhos não vêm a vida. Sou agora um pedaço Do meu mundo que caiu. andando sem rumo. o mundo. Sou escombros de um castelo que há pouco ruiu. Sigo sem ver.

Pois descrevê-lo inteiro eu não conseguiria. que o meu amor vai muito além Dos quartetos e tercetos de um soneto Tamanha a grandiosidade que ele tem! Amor imenso como o meu não caberia Na extensão de um só texto em verso ou prosa. Vi. Antologia Literária Cidade 74 Volume I . Eu pensei em expressar meu sentimento Na cadência das sílabas em simetria Flutuar por seus sonhos e pensamentos Nas asas imaginárias da poesia.Lourdes Neves Cúrcio (Barra Mansa-RJ) Apenas um Soneto Eu pensei em demonstrar o meu amor Exprimi-lo nas estrofes de um poema Transmiti-lo com eloquência e ardor Permitir que a emoção fosse seu tema. porém.

. nem tão sujo.. comida boa. não deve ser aqui no Brasil .. mas um rolante buzina quase passando por cima do meu corpo já esquelético pela fome.e me vem à mente a indagação sobre como será a vida das pessoas que têm teto.então. penso no meu pé dolorido que torci num daqueles buracos.então.esse lixo é quase limpo. assim.. Por outro lado. Será esse o meu destino? Será .. ouvi dizer que tem gente que come as ratazanas que eles pegam nos lixões.. não sei bem onde.ninguém lhes dirige o olhar de medo e repugnância como fazem para mim e para os ratos que vagueiam pela sarjeta.até hoje só vi ratos nele umas duas ou três vezes. Sento-me na calçada para ingerir esse banquete enquanto observo os prédios ao meu redor. como a gente que mora na rua e come do lixo....eles têm casa. Enquanto caminho pela calçada cheia de ondulações.. rato não deve ser de todo mal.elas devem ser mais felizes do que eu.e são bichos.. passam perfume... com restos de comida para manter-me vivo por mais um dia. Depois de uma noite de pesadelos aterrorizantes.. Temos coisas em comum: o lixo. Eu e os ratos comemos do lixo. cobertos pelas mantas ásperas da mesquinharia humana. O cabelo já eriçado pela tormenta noturna.. saio para a fumaça do ouro negro que enriquece alguns com bilhões e polui o planeta. e mata as pessoas pelo ar. afinal..... pela comida e pelas armas bélicas.então. comemos do lixo. sou bicho ou sou gente? Só porque Antologia Literária Cidade 75 Volume I . comida. ao relento. tomam banho. têm cheiro bom..Maria Cilia (Curitiba-PR) Reflexões de um mendigo Acordo. Procuro desesperadamente um cesto de lixo.. Como se os ratos e eu fóssemos uma coisa só. Eu tenho sorte.. encontro um resto de refrigerante de cor verde fosforescente e um pedaço de pizza que mais parece uma borracha colorida.o meu destino dormir na rua e comer os restos dos cestos de lixo? Dividir com os ratos? Mas a vida não é de todo ruim. Tratam-me como se bicho fosse.tento caminhar pela rua. lixo e humanos dormindo no chão. torna-se agora negro pela turbulenta cidade negra de peste.talvez seja porque não resta nada dos restos.não são gente. Ambos não tomamos banho.e depois já ouvi dizer que num lugar aí. dormimos em buracos. o desprezo e o asco das pessoas. Enfim... eu.. Será? Ratos e gente que comem do lixo.. já senti o cheiro de um cachorro de madame.

ou...gente que mora na rua e come restos do lixo. sei lá...já comer.vou parar de pensar e comer. Bicho que toma banho e come comida boa....é só enfiar a cabeça no cesto de lixo e pegar.Maria Cilia (Curitiba-PR) não tomo banho e como comida do lixo? Algo não soa bem nessa balada.. afinal o que é mais importante? Pensar ou comer? Comer. Antologia Literária Cidade 76 Volume I ... é claro!!! Pensar dá um nó na cabeça da gente...

.. do sol. Assim como o rio tem amor pelas árvores que o circundam. da água. Assim como a praia sente amor pelo mar Que a banha nas suas Idas e vindas ondulosas. do mar. Tenho amor por ti. de tudo. Assim como o Sol ama As raízes que brotam com seu calor Como as raízes amam a Terra que as alimentam Tenho amor por ti. do vento.Maria Cilia (Curitiba-PR) Tenho amor por ti Tenho amor por ti. Como as árvores têm pela chuva que lava as suas folhas Empoeiradas pelo tempo e pelo homem. Antologia Literária Cidade 77 Volume I . da vida. e eu sou parte de ti. Como o mar sente amor pelas conchas que o abandonam Nas areias brancas da vida Tenho amor por ti.. Por que tu faz parte de mim. do mundo. da terra.

tanto quanto foram ontem e o serão amanhã.. O dia prometedor! A palidez transforma-se em vivacidade. Repara nas horas e sai correndo. enfim. Fim de expediente. na grande espera que ela é.. fixando-se no teto. Gente casmurra e indiferente. Um leve rosnado. prefere voltar para casa a pé. Empina o peito. desconexos.Maria da Luz (Belém-PA) A fio Era madrugada e já estava de olhos abertos. É longe.. algumas linhas a mais. de paz sem tédio. pequena pausa. Inútil. a tarde transcorre sem rosas: papéis. Suspira molemente. os lábios. Mas na hora do almoço. Não há tempo para sequer um afago.. No escritório. tem de enfrentar outro espelho. porque não dá para separar uma coisa da outra. É um momento de galos cantando. ou o fio de Ariadne. O cachorro estranha. as idéias. nem estranham a cara pintada de sol. Sobe a ladeira bem disposta e lá em cima começa a distinguir as cores. Mil palavras não ensinam mais sobre a vida do que esse sol surgindo. Mas está feliz porque o dia está nascendo. Em sua mesa. Olha o seu retrato no espelho embaçado.. Quanto tempo teria ficado ali. Hoje alguma coisa há de acontecer. o sorriso se desfaz. Sorri. Ao sair do banheiro. Os sons que emite são roucos. desenha um fio. os números. Pensa na vida. Até quando? Pensa na morte. papéis e mais papéis. seguir a estrada até encontrar o caminho. Ia ver o sol nascer. Sob o chuveiro — fio — ensaia os passos de uma estranha dança. Realça os olhos. O dia teria de ser vivido plenamente. Ainda é cedo. muito serviço a faz esquecer.. Antologia Literária Cidade 78 Volume I .? As pessoas na rua parece não desconfiarem de nada. Olhar de aranha escalando parede. não houvesse a vida. Nua no quarto. o trabalho. mas quer caminhar. a esperança rói e agiganta-se. expulsando a noite e fazendo dela o dia. rastro que segue até o quarto.

um pouco de si irá junto para o lixo. Imagina os pingos molhando-a. Come sem fome ante os gestos medidos e a mesma conversa fútil na tevê. soltando-se da frágil coleira. correndo em sua direção.. silêncio. E não adiantaria gritar.. Mas. deveriam estar esperando. por sorte. sente medo. A quietude e o marasmo de todos os dias e noites. luz apagada. Hoje a solidão teria de ser mais aguda. Mas. Um fio de esperança. Requenta o minguado jantar numa cena idêntica à das noites anteriores. Antologia Literária Cidade 79 Volume I . seja o que Deus quiser. que o silêncio ficaria ainda mais retumbante. com aquele olhar que só a ela era endereçado. Como não ouve mais nada. Seria A Chuva? Onde a teria ouvido? Sim. abre a porta de uma vez. terá de ser A Chuva. Que terá acontecido com todo o mundo? Ao rasgar a página do calendário. Solfeja um trecho das Quatro Estações de Vivaldi.. desliga.? Mas. como se não estivesse a vida inteira assim – só. o corpo todo em volteios desengonçados.Maria da Luz (Belém-PA) Quer estar um pouco mais consigo mesma. veio lamber-lhe as mãos num genuíno desejo de felicidades – o cão. diante de casa.. como reza o figurino. longas horas na noite. Quem sabe? Para tentar ser natural. Segue uma mosca sonolenta que voeja até o quarto. E se todos se esquecerem? Retoma a coragem. Quem sabe em casa.

As musicas de ontem. O vento a natureza e se deixe embalar Amorosamente com seus sons Um amor eterno.. duradouro.. Cheio de carinho e de abraços Eu queria você. Que adore as crianças e os bichos também Um amor que me leve a dançar. Um amor de entender o olhar. Imaginário Amor! Antologia Literária Cidade 80 Volume I . Cheio de fé com mansidão e paz Um amor protetor que se deixe amar Também sem constrangimento Que aceite a felicidade de ter um alguém Eu queria um amor que adorasse o mar. Cheio de esperanças e vida. Que me leva a passear De mãos dadas Um amor que não percebe as rugas do tempo. Com emoção Eu queria um amor que acredite em Deus. de beijo no rosto. E me ache sempre linda Eu queria um amor sonhador.Marlene Cerviglieri (Ribeirão Preto-SP) Imaginário Amor. Eu queria um amor maduro Que entendesse o meu cochilo Minha falta de vontade às vezes. De rosto colado.

. com toda devoção: Não deixe que a esperança morra em meu coração. a guerra. se um pedido a mais posso fazer Eu te peço estrela amada. brilhante.. translúcido.. Antologia Literária Cidade 81 Volume I .. Apagas da humanidade as três feras: A fome. centelha de luz De véu longo... sobretudo..Marta Cosmo (Belém-PA) Estrela Cadente Ah estrela cadente. Pois elas não destroem apenas uma nação. Que riscas de prata o negro céu Com teu brilho flamejante.. A ti quero fazer um pedido somente Antes que correndo entre as outras estrelas Desmanche-te tocando a atmosfera. Destroem. sonhos e almas. E ainda. vidas. a ambição.

...... Teu olhar. Meu tormento! Teu sorriso... Teu rosto.. Teu ser metade de mim. raios cristalinos de alegria imaginações Divagações.. Teus cabelos.. fios da noite brincam com o teu rosto.. Transcendência de ti... Antologia Literária Cidade 82 Volume I ..Marta Cosmo (Belém-PA) Metade de Mim Teus olhos. Galáxia do meu mundo agreste.. e ruflam ao vento..... Um discurso Palavras Leitura Meu percurso. candura celeste...

Tem rosas cor de céu e outras morenas com lábios pintadinhos de carmim. (vi-as assim) Desde então planto flores.. Antologia Literária Cidade 83 Volume I . No meu caderno as sílabas e as flores quando falam de amor. cada qual uma flor.. cada qual com o seu jeito. sei que existe.. Pois inveja entre flores. nem vou falar do ciúme do jasmim que abandonado foi pelas verbenas.Miguel Russowsky (Joaçaba-SC) Caderno ou jardim? Verdade. eu conheci três Madalenas. o mal-me-quer desfez o amor-perfeito. os desamores germinam.. No meu buquê da vida. gasta e triste. Meu jardim tem canteiros de rimas e açucenas.

Nazilda Corrêa (Belém-PA) Terra Bebo no teu olhar verde água cheiro o teu cio terra molhada contemplo tua montanha e vou escalo teu muro varo do outro lado amanhece assim cada vez dia ensolarado Viajante Todo dia viajante paisagens sobrepostas pela janela aceleram e param meu coração só preciso olhar pra dentro é festa! Antologia Literária Cidade 84 Volume I .

.. nada ultrapassa a película do vidro abalroado o sonho murcha todo frenesi à posse impossível imaginar o desperdício de tempo sustentar quimeras com as noites mal dormidas porque ao canto o sonho se explicita braços levantam e sonoros gritos pedem bis Antologia Literária Cidade 85 Volume I .Nazilda Corrêa (Belém-PA) O Beijo do Vento O peso no meio espanta a leveza a música não toca se o toque sutil da língua não deixa rolar o disco as mãos agitadas fremem diante da inusitada cena o aceno não alcança.

uma gama infinita de acordes! criam-se novos sons modulações de vozes sobrepondo-se em frações infinitesimamente perfeitas e sem ter ido atraio do universo este abraço suado e suave é o beijo que recebo do vento..Nazilda Corrêa (Belém-PA) a reprise é concedida e a cena se expressa em formas diversas agora a musicalidade escapa e penetra expandindo-se ultrapassa o vidro abrindo uma janela de acesso garantido e vem jorrar.. Antologia Literária Cidade 86 Volume I .

sem que eu recorde. repentinamente descobrisse o meu bando. Como se minhas mãos seguissem apenas o impulso e o sonho se escrevesse nessa hora. tela de cinema ou qualquer forma que garanta que os acontecimentos seguirão um roteiro. estrangeira e sem ter um esquema antecipado. Toda trama se desenvolve. como se apenas eu aportasse de repente. em que. O doído é esperar o intervalo que irá ocorrer até o próximo encontrar. assim fazemos até o seguinte encontro.Nazilda Corrêa (Belém-PA) Encontro Todas as vezes em que me encontras te noto determinado em envolverme no toque. Como se desgarrada. passando a outro a determinação e. O que em lugar de desestabilizar me deixa confortável. Antologia Literária Cidade 87 Volume I . ou um esquema pré-definido. como forma clara de um acerto de há muito tempo estabelecido. como se esse fosse exatamente o lugar que me compete nesse script. utilizasse exatamente a resposta esperada. Tendo que reagir ao deus dará do momento. deixando-me ficar suavemente conduzida nem sei bem para onde e descobrir que isso não tem a menor importância. que rua ou cidade é essa. mas de algum modo tê-la esquecido. se bem que tua chegada é sempre um presente. Tudo vem de não sei onde. que eu deveria conhecer. a minha turma e. completamente desconhecida. Até o ponto em que afastando a multidão com delicadeza te liberas para a atenção destinar as coisas de que devemos cuidar. escrevendo a história no instante mesmo em que te encontro. Então todo o movimento parece vir de uma energia nova. um comportamento pré-determinado. Como se o agora fosse parte de uma rotina. Sem cena. que nos esperam e. dessa vez estamos. e não da vida presente. Então fico a cismar se vens de outro planeta ou galáxia. E assim te vejo na simplicidade do comando. sequer. O rastro da luz que te acompanha é tanto que consigo iluminar os próximos dias de espera. Tuas mãos buscam e nos teus braços me sinto tranquila.

Nazilda Corrêa (Belém-PA) PEGADA Pega leve é só um gemido e nem tem sentido apertar Pega lento é só um sentido e nem tem gemido capaz de alertar Pega leve porque a força das mãos pode machucar Pega sem medo porque o que machuca pode até agradar Pega sempre porque o toque expressa um sentido mesmo sem segurar Pega manso como se tivesse pena de apertar Pega sempre como se tudo fosse logo acabar Pega agora senão passa a hora e ninguém mais vai poder segurar Pega e larga como se fosse um brinquedo que tenha sempre que [compartilhar Pega cada vez como nunca se pudesse fartar Pega e retira toda forma de sonho que seja capaz de sonhar Pega como se o segredo fosse aquele que pode aflorar Antologia Literária Cidade 88 Volume I .

dilúvios na tarde quente na parede as marcas da enchente . igual medo da chuva daquele Rio que subia.dentro de mim a tempestade já passava da altura dos joelhos.Paula Cajaty (Rio de Janeiro-RJ) Cidade do Rio quase todos aqueles anos vivi na mesma rua do rio à sombra mansa das acácias as cigarras e eu. me alagando a infância. Antologia Literária Cidade 89 Volume I . a casa.

primitivos. um outro homem) Já chegou à lua E navega velozmente Entre as mais longínquas estrelas (A caminho de marte e da morte) Estrelas ante cuja dimensão e luz O nosso pequenino e limitado sol Empalidece... adormecidas. que outro homem (e existe sim.) Que nem sabem. (selvagens.) Amazônia! Celeiro de homens!. Que podem salvar Milhões de vidas E a vida do planeta Que tropega Que vejeta Pela ação dos insensatos Pretensos proprietários Dos sonhos de toda a vida.. inertes... Amazônia! Celeiro de vidas! Ah! Vidas....Raimundo Nonato (Rio Branco-AC) Amazônia "Inferno verde!.." (é o que dizem... Ávidas." "Pulmão do mundo!. arredios. Antologia Literária Cidade 90 Volume I .... ainda." "Celeiro do planeta!...

Raimundo Nonato (Rio Branco-AC) Amazônia! Quantos mistérios Segredos. encantos Recursos. essa insanidade vorás Traz? Amazônia! Quem te protegerá E te defenderá Da sagacidade dos que te reclamam A vida A propriedade A posse A paternidade? Quem sabe um novo sonho Gerado em tuas entranhas E novas e intrépidas Amazonas Cavalgando no teu seio Regenere tuas fibras Tua história Teus valores O teu amor por ti mesma Por teus seres Por teus filhos Por todos teus ancestrais? Antologia Literária Cidade 91 Volume I . quantos! Para salvar o país Da eterna etérea dívida Já há muito. não devida E da leviandade dos seus pretensos donos E quantos danos A ti.

. acorda!!! A corda arrebenta sempre.. do lado mais frágil Sempre. Amazônia! Ama-te. do lago mais árido Sempre. os teus limites Estão. A chama e a gana Não conhecem limites Amazônia. à tarde Foi tarde demais. no limite! Amazônia. antes que seja tarde E tarde.Raimundo Nonato (Rio Branco-AC) Amazônia Quando queima em meu peito O ardor pelo desprezo Dos que juram a ti querer E o fazem. Antologia Literária Cidade 92 Volume I . Amazônia! Arma-te Enquanto tens Se é que ainda tens. Não é possível esquecer Que neste exato momento Num macabro investimento Cuja gana é o sentimento O teu seio em fogo arde. do leito mais tênue. Ama-te Enquanto é tempo Se é que ainda há tempo. foi ontem à tarde Ontem. com alarde.

Raimundo Nonato (Rio Branco-AC) Amazônia O teu tempo está nublado O teu tempo... é tenebroso O te clima. Antologia Literária Cidade 93 Volume I . esquentou muito O teu tempo está contado Amazônia! Ainda terás Tempo?.

Ela me puxava pela mão e eu relutava. Íamos pelo lado da sombra. Atravessamos a esquina da rua onde morava a minha tia. fazendo xixi no laguinho daquele jardim enorme. Achava que a estátua era uma criança que virou pedra porque fez muita traquinagem. Ele se vestia de verde e tinha um capacete redondo. Eu gostava muito da tia e das Antologia Literária Cidade 94 Volume I . atravessando os quarteirões. porém o que me dava medo é que ele tinha nas mãos uma arma comprida. o sol estava a pino. olha para onde anda. Ela reclamava: – Olha pra frente. Meus sentimentos eram confusos. Eu sentia medo e respeito pelo guarda. Seriam seis blocos para andarmos até chegar à loja em São Braz. eu tinha grande pena da estátua e queria entrar naquele jardim. O dia era claro. Ela é de pedra. mesmo assim minha mãe carregava uma sombrinha. parecia que ele poderia usá-la contra mim a qualquer momento. passávamos na frente de uma casa muito grande que tinha um jardim com uma estátua de um menino nu fazendo xixi. Gente não vira pedra. e eu pedia à mamãe para irmos visitá-la quando voltássemos. Nós passamos pela frente do estádio do Paissandu e do batalhão da polícia onde sempre tinha um guarda em sentinela sobre um pedestal de madeira. E eu ficava olhando para ele até o perder de vista. sozinho. acordar o menino e fazê-lo voltar a viver outra vez. Queria estar certa de que ele não iria atirar em mim ou na minha mãe. menina. se não podes cair! Continuávamos andando. não é de verdade. Minha mãe me puxava: – Já chega de ficar olhando essa estátua.Sandra Bentes (Sidney-Austrália) Fantasias de infância Minha mãe me segurava pela mão e me levava junto com ela para a loja de ferragens. Eu parava na frente da grade da casa e ficava olhandoa por longo tempo. Não queria deixar o menino de pedra ali.

E o cheiro de incenso me dava mais medo ainda. fechei os olhos bem apertados. que eu acreditava ser o diabo em forma de gente. não fazem mal a ninguém. Se der tempo.Sandra Bentes (Sidney-Austrália) primas. Soltei as mãos de mamãe e saí correndo. teríamos de passar na frente da loja que vendia produtos de umbanda. Isso não existe. Dentro. Aquilo já era demais. menina! Deixa de ser tola. – Para com isso. Porém eu não acreditava no que ela dizia. Parei e não queria atravessar a rua e passar na frente daquela loja que tinha na porta uma estátua de um índio. porém. Estávamos quase chegando. não queria nem olhar na direção da loja. Meus olhos se arregalaram. quando estávamos bem na frente da loja. não acreditava neles! Olhei para o diabo vermelho e ele virou os olhos em minha direção. antes. uma preta velha com cachimbo na boca e uma figura em tamanho gigantesco de um ser todo vermelho. O diabo vai sair correndo atrás de mim. Parei. A rua cheirava a incenso que era aceso na frente da loja. Ele vinha me pegar. Minha mãe falou: –Vou pensar nisso. Isso me aterrorizava. Vi a preta velha rir para mim com o cachimbo pendurado na boca. é tudo de mentira. nós paramos lá. tenho medo. Minha mãe foi me puxando e eu tapei os olhos com as mãos. Afastei a mão um pouco de cima dos olhos e olhei para dentro da loja. É tudo estátua. Sentia náuseas e ficava toda arrepiada só de pensar em passar na frente daquela loja. e era uma oportunidade de olhar as bonecas de cabelos loiros de minha prima. Fiquei toda contente e nem percebi que tínhamos avançado mais um quarteirão em que fica o estádio do Clube do Remo. com chifres e bigodes. gritando de tanto medo: – SOCOOORRROOOOO! Antologia Literária Cidade 95 Volume I . E disse para mamãe: – Não quero passar na frente da loja de macumba.

Olhei para cima e a vi. Comecei a ficar com medo daquelas pessoas. ficava no centro de uma redoma de madeira preta. MENINA! Quanto mais minha mãe gritava. todos pesados. O ponteiro pequenino mexia muito rápido. Fiquei quieta. por que estás sozinha na rua?”. Usava óculos Antologia Literária Cidade 96 Volume I . Eu não sabia que horas eram. ficava localizada a caixa registradora. dourada. Ela começou a ralhar comigo assim que me viu. antigos. Dentro da redoma trabalhava a operadora da caixa registradora. Corri até chegar à loja de ferragens. E que tinha homem mau que gostava de roubar criança que não segurava a mão da mãe. Eu estava apavorada. de cor marrom escura. circundada por barras redondas de madeira trabalhada.Sandra Bentes (Sidney-Austrália) –PARA! PARA. até as fitas cor de rosa que amarravam meu cabelo em mariachiquinha se soltaram e caíram na calçada. Falou que eu não soltasse a mão dela. Implorei para não passar mais na frente da loja de macumba. Entrei ofegante. sentindo um pouco de vergonha por estar recebendo uma bronca num lugar tão público. os móveis da loja. com uma alavanca que era rodada a mão. Fiquei esperando por minha mãe. Ela vinha andando bem depressa para me alcançar. Trabalhavam muitos homens lá. E contei que a preta velha estava rindo para mim e que o diabo virou os olhos para mim. Alguns pareciam estar lá por toda a vida deles. No meio do balcão. Era uma máquina registradora muito antiga. Ela tinha cabelos loiros presos num coque. Eu olhava para cima e via todo mundo muito grande. Minha mãe não me deu atenção e se dirigiu ao balcão para comprar o que estava procurando. que ia de um lado ao outro da loja. Olhei para o grande relógio que ficava no meio da loja. mais eu corria. Não conseguia respirar e me encostei na porta de entrada para tomar fôlego. A loja estava cheia de homens e mulheres altos que olhavam para mim como se quisessem perguntar “Menina. cadê tua mãe. Minha mãe entrou na loja e eu estava encolhida ao lado da porta. A loja era antiga.

blusa branca de mangas compridas e sapatos altos vermelhos. Vestia saia muito justa cinza. Sabendo que eu estava apavorada. Lá. nada de mal poderia me acontecer. Estando do lado dela. falava o mínimo possível e mantinha uma posição de torso reto e queixo empinado. porque ela sabia de tudo. Não existia nada para nos perturbar ou dar medo. Ali eu estava segura. na mais pura e inocente das fantasias de uma criança. Ela nunca sorria. de volta para casa mamãe resolveu atravessar a rua e não mais passar na frente da loja de macumba. Assemelhava-se com uma dessas extra-terrestres saídas do seriado “Perdidos no Espaço”. que era como se fosse um anjinho bom. E tivemos de atravessar novamente para ir à casa da titia. dizia que ela era metida a besta. encontrei a minha prima. Parecia uma garça. Mamãe não gostava dela. Ela era dois anos mais velha que eu. instantaneamente esqueci tudo que tinha visto durante a caminhada com minha mãe. A mulher nem me notou – ela não mexia a cabeça para nada. de pescoço e nariz compridos. Fiquei atrás de minha mãe quando ela foi pagar. que mais se parecia com um robô. E nos demos as mãos e fomos buscar as bonecas para brincarmos. Chegando lá. Para mim. Antologia Literária Cidade 97 Volume I . era uma extra-terrestre. Agora éramos apenas as mães de nossas bonecas.Sandra Bentes (Sidney-Austrália) redondos e um batom vermelho e tinha um nariz bem comprido.

Doem com uma dor confortadora Essa tua beleza tão grande. Que me traz em tormento. esse medo que tenho de ti Medo que me acomete enquanto escrevo O quanto de ti tenho asco! O quanto a ti devo.. Só poderiam vir de ti! Antologia Literária Cidade 98 Volume I ... esses olhos grandes e dúbios.... esse teu estranho semblante Que evito. Esse medo. O tanto que já de mim mesmo escondi.... que procuro! Odeio-te e amo-te a um só instante! Ah! Esse sentimento.........fulvos. em apuro..Sarah Ibrahim Caçon (Santos-SP) Paradoxo Esses olhos.. tão desafiadora! Esses teus cabelos negros. esses olhos.. Esse teu rosto...

Tânia Sarmento-Pantoja (Belém-PA) Acobreadamente Para Augusto Acobreadamente (assim se me parece) em lampejo corpo-goal olhar oblíquo boca oblíqua palavras líquidas sem cor novelo e ócio se enerva em outridade enleva gorjeia (a cor cobre conspira) difícil equilíbrio na ordem da suspeita (Suspeita tem ordem? Vá lá que tenha.. contudo malevolente ubíqua) se instaura.. E o olhar fere posto que o desejo é ubíquo acobreadamente oblíquo Antologia Literária Cidade 99 Volume I .

Bem ali onde a palavra não alcança que bem que te quis que bem se quis eis a súplica da fera doida doida A imponderável ausência justifica a imponderável falta do imponderável excesso de ti clamor de abandono e dolência.. Que imponderáveis não revelas ocultos entre os lábios de febre o mesmo lábio rutilante sedicioso do lúpen da alegria imponderável do grito liberto meigo menino traquina macho infalível em cada gota suor pingado sobre os líquens. tão perto.. Tão longe. um fantasma pousa trazendo palavras de falta e morte Antologia Literária Cidade 100 Volume I .Tânia Sarmento-Pantoja (Belém-PA) Acobreadamente II Sorriso meio de lado escancarado brilho cobre na íris espalhafatosa segredos nas dobras das calças nos bolsos macerados: conversas na madrugada ao pé do ouvido na manhã preguiçosa buliçosa de chuva na penumbra da tarde insidiosa após o jantar com os cheiros francos e fortes perfilados ao pé direito da rudeza humana.

um ponto de apoio no inconstante Apoio-me nas ondas. paixão. ao mesmo tempo. como uma sereia ao pescador Penso em ficar em terra.Valdeck de Jesus (Salvador-BA) Eu. de novo. navegante de mim mesmo Sem o mar?? Antologia Literária Cidade 101 Volume I . sempre. nas marolas. o vazio profundo da alma me tira a calma E sofro. navegante O mar me chama. ele. Um homem sem mundo. no horizonte Esse mesmo horizonte que me chama e fascina Foge de mim eternamente Assim também são meus amores. sem lar. balanço. esse ir e vir já faz parte de mim Já me habituei a não ter porto. nessa hora. A saudade de não ter do que ter saudade me corrói Ela. pelo amor que não sei Pelo abraço e afago da terra natal Que não sei. sem laço e sem amor Então. me chamam de volta Para um lugar que desconheço Para um lugar pra onde nunca retorno E este retorno eterno me leva a um encontro Um encontro entre a terra e o mar Onde eu quero ouvir o canto da sereia O que seria de mim sem esta saudade Sem esta incerteza de não ter onde estar O que seria de mim. sentimento. minha saudade Este aperto no peito se afrouxa quando o vento. meu coração balança também E pende para dentro da embarcação Essa rotina. a não ter pátria Buscando. o canto das águas me seduz Maresia. a calmaria me deixa nauseabundo. preso aos amores daqui Mas. A brisa e o assombro da morte me vão Aí.

sem destino e sem esperança De humano só resta a lágrima e o desespero Quero sair desta treva. a dor.. fugir desse labirinto Mas a dívida contraída pesa na consciência Minha ficha tem mortes. afundei na escuridão “Viajei”. traições. mentiras. Antologia Literária Cidade 102 Volume I . lutas vãs e perdas irreparáveis Só me resta ficar. pagar com a vida e com a morte A morte do meu coração e da minha alma Droga de vida. a sede de consumo A droga saciou meus desejos Mas me aprisionou na teia No vício. afundei mais e morri Matei meus sonhos e meus sentimentos Agora sou um trapo de carne e osso Vazio. na fome de querer mais E tudo me confundiu muito Como num redemoinho.. viagem sem volta.Valdeck de Jesus (Salvador-BA) Droga de vida Busquei no tráfico a solução Para a fome. Angústias. fugi.

evapora! No sertão não tem governo. sem futuro No horizonte.Valdeck de Jesus (Salvador-BA) Sertanejo Nasce sem destino. continua forte (?). horpital. mas não exige CONTRAPARTIDA O tempo passa e nada muda O sertanejo. Antologia Literária Cidade 103 Volume I . Não tem gente que mereça. a seca: O rio corre. Deixa pra lá Medicina. só a popular: O sertanejo é forte Não precisa de suporte Ele paga imposto. Estrada. no entanto. a miséria. e morre.

Valdeck de Jesus

(Salvador-BA)

Amor com ela Ela me quer Ela me ama Ela me beija E não reclama. Dá-me a vida Faz-me feliz Ajuda-me sempre Sempre me quis. Ela me adora Não me deixa só Por mim ela desata Da vida o nó. Não a ajudo Não a recompenso Faço pouco por ela Só em mim penso. Ela é a natureza. Eu sou o homem.

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Biografias dos participantes Abilio Pacheco Abilio Pacheco de Souza, nasceu em Juazeiro (BA), viveu a primeira infância em Coroatá (MA), dos 07 aos 27 morou em Marabá, e hoje reside em Belém (PA). Estudou Eletricidade no SENAI-Marabá, fez Magistério na E.E. Dr. Gaspar Vianna, cursou Licenciatura Plena em Letras na UFPA-Marabá e Mestrado em Letras – Estudos Literários na UFPA-Belém. Trabalhou como eletricista, foi bibliotecário por cinco anos. Como professor trabalhou 05 anos no CEFET-PA (hoje IFPa). Atualmente leciona na UFPA, Campus de Bragança. Aos 17 anos obteve o primeiro destaque em certames literários com o poema “Elegia de Maria”. Publicou Poemia (poesia - formato semiartesanal) em 1998 e Mosaico Primevo (poesia) em 2008. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense com sede em Marabá. É também contista e cronista, e está com um projeto de narrativa longa ‘em gestação’. É um dos organizadores da Antologia Literária Cidade. Contato: Caixa Postal 5098 – CEP 66645-972 – Belém-Pa. Email:abiliopacheco@bol.com.br. Adeilton Oliveira de Queiroz Adeilton Oliveira de Queiroz nasceu em Brasília no dia 14 de setembro de 1974. É escritor, pedagogo e funcionário da Secretaria de Educação do DF. Participou da coletânea "Universo Paulistano" lançado esse ano pela Andross Editora - SP. Publicou em 2008 o livro A maravilhosa arte de perdoar os peixes pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores – RJ. Tem poemas publicados nas páginas www.camarabrasileira.com/adeilton.htm, recantodasletras.uol.com.br/poesias/828423, www.gargantadaserpente.com/toca/poetas/adeiltonoliveira.php, Contato: adeilton.adeilton@yahoo.com.br, escritor900@yahoo.com.br Alberoni Alberoni é dentista há 40 anos, sem formação literária acadêmica. Desenvolveu sua expressão poética, participando de uma lista de literatura na internet: Andarilhos das Letras. Mas, escreve poemas bem antes disso. Uma parte de seus textos podem ser encontrados em www.notivaga.com.br, ou www.clubedotaro.com.br. Alagoano, de uma família de 13 irmãos, natural de Maceió. Passou a infância na cidade de Itajubá, MG, e toda adolescência e maturidade na cidade de São Paulo. Andreev Veiga Andreev Veiga, poeta. Nasceu em Belém do Pará. Tem trabalhos publicados em algumas antologias, dentre elas "IV Antologia Poética Valdeck Almeida de Jesus na Bahia" e "IX Antologia Poética da Universidade Federal de São João Del-Rei, MG". É autor do livro de poemas letrário (no prelo). Contato: andreevveiga@hotmail.com. Ana Felix Garjan Ana Felix Garjan é socióloga, pesquisadora em arte, poetisa, escritora e artista plástica e curadora. É autora de Na Clave de Sol - poesia (1998), “Além dos Jardins Siderais”, conto premiado 2º Lugar pela Fundação de Cultura de São Luis-MA em 1997 e do "Manifesto Verde pela Paz da Humanidade e do Planeta" – 2001. Tem textos, artigos e crônicas em jornais de São Luis–MA. Poesias, textos e pesquisa cultural na Internet. Participa do Fórum Internacional de Mulheres do Futuro pela Paz, do Fórum Cidade3 Artes do Mundo, da Academia de Artes e Poéticas Clarice Lispector, do Poetas e Artistas do Mundo e outros. Participou das Antologias: Latinidade - Coletânea da Sociedade Latina (1998), Universum Uma poesia pela Vida" - 2000 (Trento-Itália) e Delicatta 2007 e 2008. Administra o site do Artforum Mundi Planet & Artforum Brasil XXI: www.cidadeartesdomundo.com.br. Contato: anafelixgarjan@gmail.com. Araci Barreto Araci Barreto da Costa idealizou, fundou e dirige o Postal Clube – Amizade com Poesia – Um clube para quem gosta de ler, escrever e fazer amigos. Organiza, produz e edita Antologias. Criou, produz e publica O Jornalzinho e o Site do Postal Clube. www.imagina.com.br/postalclube. Contato: araci@imagina.com.br.
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Biografias dos participantes Benedito Pereira Benedito Pereira da Costa, pioneiro de Brasília, professor universitário, autor destes livros: Bem-querer, Estrada, Lilases, Magia, Pélago, Reminiscências, Saldunes e Saudade (crônicas). No prelo: Fibra (poesias) e Harmonia (crônicas). Participação em mais de 200 antologias. Bernadete de Lourdes Michelato Bernadete de Lourdes Michelato nasceu em Cambará (PR), em 10 de agosto de 1947. Foi professora do Ensino Primário e de Língua Portuguesa durante dezessete anos e Auditora Fiscal da Receita Federal durante treze anos. Hoje está aposentada e reside em Curitiba (PR). Em 2007, recebeu o Prêmio Afrânio Coutinho da Academia Brasileira de Letras pela obra Diálogos com a coleção de Franklin de Oliveira. Suas obras ainda não publicadas são: Espectro de Thanatos em Água Viva (estudo dessa obra de Clarice Lispector); Sumo Artífice (estudo sobre Rui Barbosa); Diacronia Nórdica, crônicas de viagem; Causos hodiernos, contos. Custódio Martins Formoso Custódio Martins Formoso nasceu aos 19 de janeiro de 1951, em Santa Rita do Passa Quatro-SP. Suas participações em jornais culturais, como o Literarte, já atingiram 27 países incluindo o Brasil. É poeta/compositor e pesquisa nomes excêntricos e pertence às Academias de Uruguaiana-RS. Contato: cmformoso@yahoo.com.br / cmmformoso@itelefonica.com.br Deborah Dornellas Deborah Dornellas nasceu no Rio de Janeiro – RJ e foi criada em Brasília – DF, onde reside atualmente. Viveu alguns anos em Campinas – SP e São Paulo – SP. É jornalista, roteirista, poeta, formada em Letras e mestra em História Cultural. Nos últimos anos, trabalha como produtora de audiovisual. Está montando seu primeiro filme, o documentário, Mar Pequeno. Contatos: ddornellas@uol.com.br. Denise Santos de Oliveira Denise Santos de Oliveira é uma estudante de 16 anos além de poetisa e artista plástica desde os 13. Nasceu em Brasília e passou toda a infância na cidade satélite de São Sebastião-DF. Atualmente cursa a 3ª série do Ensino Médio no Centro de Ensino Médio 01 de São Sebastião. Já participou do Projeto Memória com o Concurso Nacional de Redação Assis Chatteaubriand ficando entre os semifinalistas em 2008. Suas poesias procuram levar o leitor à essência de seus sonhos e aspirações, pois o bom é se permitir sonhar prósperos dias de muita felicidade. Djanira Pio Djanira Pio, professora aposentada, escreve poemas, contos, minicontos, crônicas e romances. É participante da literatura alternativa de todo o Brasil. Ducarmo Souza Maria do Carmo A. de Sousa nasceu no dia 10/09/1934 em Acaraú-CE. É autora de Belém – Cidade Faceira (2008), livro em que canta seu amor pela cidade onde mora a 50 anos. Os poemas desse livro falam sobre vários pontos turísticos dessa capital da Amazônia. Email para contato: ducarmosouza@bol.com.br. Eleazar Venancio Carrias Paraense nascido num sítio à margem da Transamazônica, Eleazar Venancio Carrias viveu duas décadas em Breu Branco e atualmente mora em Tucuruí. Embora avesso a regionalismos, faz questão de confessar os lugares que até agora marcaram sua vida, por acreditar que o lugar é o fator mais determinante da nossa identidade. Em 2008, venceu o Prêmio Dalcídio Jurandir de Literatura (Poesia) com o livro Quatro Gavetas. Tem apenas dois projetos importantes: criar as filhas Eidra e Pietra, e chegar à velhice bebendo com os mesmos amigos com quem bebe hoje. Contato: quatrogavetas@bol.com.
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com. Ama a poesia. Blog: ocondei.Melhor Ensaio Socioeconômico. Mora em Marabá dede os 15 anos. Londrina (PR). mestre em Educação e professor de Ensino Superior.com. Mudou-se para Belo Horizonte em 1995. administrador. É estudante de Administração pela UFSM e viciado em café e olhos verdes pela manhā. reside há oito anos em São Sebastião-DF e cursa a 3ª série do Ensino Médio no CEM 01 de São Sebastião. tornou-se Mestre em Literatura Brasileira (2001) e Doutor em Literatura Comparada (2005). livro publicado pela editora Muiraquitã. Contato: valdobalbino@yahoo. Betim. livro de poesias premiado em 2005 pelo Suplemento Literário de Minas Gerais e editado em 2006 pela Editora Scriptum. Desde 1999 vem atuando. poemas e um conto já publicados em revistas. Escreve em Jornais e em 2008 ganhou o Concurso Prêmios Literários Cidade de Manaus. MG. política-social e moda. Poeta. com a obra “Uma Viagem pelo Analfabetismo do Alto Solimões”.blogspot. onde. Sociologia é sua matéria favorita. Vive fora de Salvador desde o ano de 1979. morou novamente em São Paulo. EUA). Adora falar sobre política. como professor de Português e Literatura.br. Curador do Sarau de Poesia para o Corpo e a Alma. pela UFMG. Trabalha com Linguística. 1º lugar no III Concurso Alfenense de Poesia e Menção Honrosa no Prêmio Eugênio Coimbra de Poesia Cidade do Recife. Dentre os 14 prêmios recebidos por ele. Vencedor do IV Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia (2008) e 2º colocado no I Concurso de Poesias do GASP (2009). Evandro Barbosa O aquariano Evandro Brandão Barbosa nasceu no bairro Santa Luzia.br. Mineira de nascimento. Desenha. migrou com a família para o Nordeste aos 9 anos. Isabel Cristina da Silva Ferreira Isabel Cristina da Silva Ferreira nasceu em 1992 na cidade de Terezina-PI. É autor de Moinho. sob a responsabilidade do Conselho Municipal de Cultura da Cidade de Manaus – Concultura. o livro de poemas: Sobre Ventos e Sementes. com bolsa de pesquisa concedida pelo governo brasileiro. viveu também em Itapecerica da Serra (SP). Desde 1984 está radicado em Belo Horizonte. é casado e tem dois filhos (25 e 27 anos). Evaldo Balbino Evaldo Balbino nasceu em 1976 em Resende Costa.br.com. em 1957. Pretende cursar Ciência Política e tem como sonho ter um orfanato. Fernando Paganatto Fernando Ferragut Paganatto.com. Westminster (Maryland. Troféu Florbela Espanca de Poesia. natural de São Paulo/SP. médio e universitário. fixou residência em Manaus-AM no ano 2000. MG. poeta com poemas publicados em sites e antologias. Contato: fernandopaganatto@yahoo. mas tem uma irrestível e irreversível queda pela literatura. Ivan Grycuk Ivan Grycuk nasceu e morou em São Paulo (SP). mudou-se para Palmeira das Missões (RS) e atualmente participa de intercâmbio em Graz. Áustria. Residiu na Espanha entre novembro de 2004 e agosto de 2005.com. Trabalhos publicados: O Conde (2007) e Entrelinhas (2008). Professora universitária do curso de Letras (UFPA). 1º lugar no III Concurso de Poesias Fábio Montenegro. Possui artigos de crítica literária. lê e escreve nos horários livres. Jair Barbosa Jair Barbosa (Vitória-ES) morou em Governador Valadares por 20 anos. na cidade de Salvador-BA. nos níveis fundamental. crônicas. Antologia Literária Cidade 107 Volume I . jornais e antologias. Contato (e-mail): igrycuk@gmail. destacam-se: Menção Honrosa no VII Concurso de Contos Paulo Leminski. Editor da Contemporânea: revista de literatura. Contato: pintorverdadeiro@yahoo. Em preparação. na categoria Samuel Benchimol . onde é economista. na capital mineira. formou-se em Letras (1998).Biografias dos participantes Eliane Soares Eliane Pereira Machado Soares.

uma pequena cidade situada no nordeste do país. de garimpar livros em sebos.blogspot.araujo@gmail. em SP. de música gótica. Tem trabalhos publicados em coletâneas: Letras no Brasil X.br e o segundo estará também brevemente.br. Apesar disso. Capital. começou a interessar-se por poemas e poesias aos 12 anos. seu primeiro livro solo de poesia. É autor de Umas histórias de José e outras histórias de Maria. de Art Noveau. da editora Câmara Brasileira de Jovens Escritores. nascido a 26 de março de 1955. tem crônicas publicadas em jornais do Pará. MG. ou talvez por isso. 54. já tem textos publicados em várias Antologias. recebendo por algumas delas. Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos Vol. RJ.br. do Clube da Esquina. Endereço para contato: estevaoleninha@arraialweb. vem encantando os leitores ao escrever de uma forma bem “tocante”. Escritora amadora escreve desde sua adolescência. Contato: castanhais@yahoo.virtualbooks.br da Andross Editora de S. Virtual Books. Contato: jufrance. Universo Paulistano. onde atua como administrador na área jurídica. dos quais o primeiro está disponível em PDF no site www. é servidor público federal. de intuições.com. na função de Oficial de Justiça. está escrevendo um livro “Palavras contra Palavras". nos momentos em que traça essas linhas sua esposa Maria Andréia da Silva espera pela neném Janaína. Poesia e Prosa Verão e Preces e Reflexões da Editora Taba Cultural e Coletânea 10 Anos da Usina de Letras.br Lenir Moura Lenir Moura nasceu no Rio de Janeiro. Casado.com/ Contato: artes. com o qual participou da Bienal do Livro de 2008 de São Paulo. RJ) e Barco à Deriva (Ed. atualmente mora na Cidade de São Sebastião-DF e cursa a 1ª série do Ensino Médio no CEM 01 de São Sebastião.blogspot. ama arte e cultura. Pretende publicar ainda este semestre. Câmara Brasileira de Jovens Escritores. tenta levar uma vida feliz.com. Gosta de gatos.costa@terra. e também nos livros Enigmas do Amor e Delicatta IV da Scortecci Editora em São Paulo. tendo contos publicados em várias antologias no eixo São Paulo/Rio através dos livros Entrelinhas. Mantém um Blog: estevaoleninha. No momento. de amar e de cachoeiras.j. e selecionado (iminente lançamento) para publicação de antologia no 9º Concurso de Poesia da Universidade Federal de São João del-Rei. no bairro de Olaria e hoje reside na cidade litorânea do RJ – Arraial do Cabo. Formado em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis.Biografias dos participantes Jhonny Vieira Brito Jhonny Vieira Brito tem 16 anos. É também a cidade com o maior nome do Brasil. Sempre com um jeito simples e honesto. Josiel Vieira Josiel Vieira de Araújo é um cara de 33 anos que mora na Freguesia do Ó.com. do movimento simbolista. A Cidade das Águas de Março (inspirou a canção com esse nome ao compositor Tom Jobim). RJ.com. Desde então.com. Nasceu em Viçosa do Ceará-CE. José Araújo O escritor José Araújo é natural de São Paulo. Juarez Francisco da Costa Juarez Francisco da Costa nasceu em São José do Vale do Rio Preto. 2008. mas somente há três anos resolveu mostrar seus trabalhos e hoje. No Rio de Janeiro participou também das antologias Foi Assim e Contos Escolhidos da Editora Farol das Letras. MG). Nunca terminou nenhuma faculdade — tentou fazer artes plásticas e filosofia. José Maria José Maria Azevedo Costa é Serventuário do Tribunal de Justiça do Estado do Pará. É membro da Academia Itaitubense de Letras e da Academia Castanhalense de Letras (sendo seu atual presidente). diplomas por Mérito e por Destaque em concursos. Antologia Literária Cidade 108 Volume I . 2009. Blog: http://imagens-e-reflexoes.P. Participou de várias antologias literárias. de Lua.com. Está com dois livros no prelo: Das Entranhas para a Luz (Ed. Dimensões. RJ. da editora Taba Cultural.

de Curitiba no presente. escreve desde criança.com. foram publicados em jornais de circulação estadual e via on-line. Entre 2006 e 2009 participou das publicações da RG Ed. Formei-me em Letras e especializei-me em Literatura Infantil e Juvenil na PUC do Paraná. Hoje reside em Belém. crônicas e outros. Miguel Russowsky Miguel Kopstein Russowsky é médico. Trabalhos divulgados em diversos sites: Recanto das Letras Usina das Palavras. bacharel em Direito. O Conto Brasileiro Hoje (vol. (SP).com. ELF . mineira. crônicas e contos publicados em dezenas de Antologias Literárias. Ligada às artes em geral.Jornal Guarazão Editorial. Escritora.br. CEJUP (PA) e Moeda de Troca (2009) RG Ed. 33. nasceu em São João Nepomuceno-MG. Pedagoga. Psicóloga.Agenda Literária . gosto de escrever. Orelhando (2003) – Ed. Fez teatro na adolescência. é autora do livro Reflexões Poéticas e de poesias. Poesias e Histórias Infantis.com. Filha de pais cearenses. III. Escritora e Acadêmica. hoje Festival Internacional de Teatro de Londrina (FILO). É Professora. trilha sonora e musicou alguns dos poemas.com. Ganhou um concurso de Redação na 8ª Série 1º grau e um de literatura no 3º ano do 2º grau com uma peça de teatro. em parceria com a cantora Lucina (MPB) que fez a locução. é autor de 10 livros de poesia e teatro. sempre quis ser escritora. Marlene Cerviglieri Marlene Bernardo Cerviglieri. Membro efetivo da Fundação Cultural Del’Secchi.Conto Infantil Poemas da Maturidade-Poesia. X e XI) e de coletâneas de poesia . Nos raros momentos de folga. Como amante da literatura que sou. Marta Cosmo Marta Cosmo nasceu em Itapajé (CE) onde viveu até a adolescência. Suas Obras: E a alma chorou-Poesias Rua da Fonte. Alguns de seus textos. cidade da Zona da Mata mineira.com. Atualmente ministro aulas no ensino Médio e no curso de Licenciatura em Letras no Instituto Federal do Pará. na época.Revista Literária. Membro da Academia Sul Riograndense de Letras. Contato: mcilia3@hotmail. Tem poesias no www. Em 2008 produziu o CD de poesias As Águas. VI.recantodasletras. VIII. em Curitiba. Reside atualmente em Barra Mansa-RJ e trabalha como funcionária pública em Volta Redonda-RJ. Magriça .Conto. Nascida em Santo André SP atuou como Conselheira de Cultura e Presidente do Grupo de Escritores GESA.br/autores/ mariacilia e no site Releituras. Atualmente reside em Ribeirão Preto. publiquei algumas historietas em jornais do IFPA. na Antologia Literária Cidade. Contos e PoesiasSite da Web.br. exerce atividade jurídica como assessora no Ministério Público Federal. Contato: mcerviglieri@yahoo.com. no passado do interior. Contato: lnc@portalvr. De Contos. Atualmente dedica-se às aulas de Tango. do Festival Nacional de Teatro de Londrina. Maria Auxiliadora Maria Cilia é Maria Auxiliadora Furtado.com. obteve classificação em diversos Concursos Literários de âmbito nacional e internacional. E agora.br. Contato: madaluz@gmail. Nasci em Belém (Pará) e aos 15 anos mudei-me com a família para Curitiba (Paraná). escritora.em Belém. tendo participado. Maria da Luz Maria da Luz Lima Sales. tem 85 anos. onde exerceu suas atividades como funcionária do Cartório de Registro de Imóveis e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais-EMATER-MG. Apaixonada por Literatura. Antologia Literária Cidade 109 Volume I . Livros publicados: Passeios da Alma em Festa (2002).c@uol. Contato: martacosmo@yahoo. Graduada em Direito pela UFPR. IX. Nazilda Corrêa Nazilda Corrêa é escritora e poeta.Biografias dos participantes Lourdes Neves Cúrcio Lourdes Neves Cúrcio. cidade onde comecei a lecionar. Os dois primeiros lançados por ocasião da Feira Pan-Amazônica do Livro . em papel. é paranaense. Contato: nazilda.

com. de Rio Branco. Em 1991. Participa de mais de 30 antologias. é professora Adjunto I da Universidade Federal do Pará (Campus de Abaetetuba). 1954. foi morar no Acre e em Manaus. que tem como principais componentes a sensualidade. o jornalismo e outras tantas atividades (como se diz popularmente. É autora do romance “Como é feito um adulto”. trabalha. doutora em Letras – Estudos Literários. Contatos pelo email: paulacajaty@yahoo. Raimundo Nonato Raimundo Nonato é acreano. Depois retornou a Belém onde completou o curso de Pedagogia – Orientação Educacional – pela Universidade Federal do Pará. iniciou a carreira no Direito. Tem poemas registrados em publicações locais e nacionais. atualmente. Atualmente edita o site próprio www. em 1966. em 08/03/1986. dentre outros.com. Antologia Literária Cidade 110 Volume I . e elogios de diversos escritores já consagrados por crítica e público. promovido pela Universidade Federal do Pará. é poeta. Classificou algumas de suas canções em festivais locais.bentes@gmail. Continua escrevendo (poemando) ativamente e declamando seus poemas nos saraus da vida. fêz de tudo prá viver) em sua cidade natal e hoje é servidor público do Tribunal de Justiça do Acre. Depois que se casou. Sandra Bentes Sandra Helena Lucena Bentes nasceu em Belém do Pará e morou até os 20 anos no Marco. desde 2005.paulacajaty. publicado em 2008 pela editora Corifeu.revista eletrônica de cultura. poeta carioca nascida em 1975. o romantismo e a poesia. Profisionalmente já exerceu o magistério.". Feitiço contra o feiticeiro. com ilustrações da escritora e poetisa gaúcha Amarina Prado.com. músico e compositor e escreve desde a adolescência. com o poema "Conflito I" e em 2009 foi mensão honrosa no VI Concurso literário Virarte. Valdeck de Jesus Valdeck Almeida de Jesus nasceu em Jequié. Em 2008 foi o primeiro classificado no VIII Concurso nacional de poemas Santanense-RS. retornou ao Pará e morou em Capanema e em Santarém. escritora e poeta. Heartache Poems. mas se encontra na literatura. 30 Anos de Poesia. Sua paixão pela Amazônia e as recordações da infância na década de 60 são as maiores inspirações para suas estórias. Em 2008. mudou-se para a Austrália e reside em Sydney até os dias de hoje. O livro ganhou orelha do poeta Fabrício Carpinejar. Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia. Expõe seus textos no site www. Bahia. Tânia Sarmento-Pantoja Tânia Maria Pereira Sarmento-Pantoja. Endereço para contato: sandra. Sarah Ibrahim Cançon Sarah Ibrahim Cançon é nascida em Santos-SP. Tendo participado de concursos literários diversos e em 1999. de Santa Maria-RS. Em 2006 publicou seu livro "As Curvas dos Rios da Vida.br. sido classificada em 1º lugar no Concurso Literário . É organizador e patrocinador do Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia.Biografias dos participantes Paula Cajaty Paula Roméro Cajaty Lopes. com o poema "Conflito II". como funcionário público. editor de livros e palestrante.. É formada em Letras e pós-graduanda em psicopedagogia.categoria Poesia. Contato com o autor: valdeck2007@gmail. Participou de vários concursos literários em sua cidade natal.com e é consultora editorial e cronista exclusiva da Aliás . Acadêmico de Jornalismo. lançou o primeiro livro "Afrodite in verso".com. Publicou os livros Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden.galinhapulando.

.......................................................................................22 Meu poema pela paz.........................................32 Deborah Dornellas Urdidura .......24 Morada ..................................................................37 Loa / Testemunha .......................13 Adeilton Oliveira de Queiroz A medida da água / A maravilhosa arte de perdoar os peixes .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................40 Poema..........................................................................................................................................................................................................................................................................44 Eliane Soares Infâmia..............................31 Solidariedade..............................................45 Melpômene................................................................................................................................36 Desejo ............................................................................................18 Alberoni O louco decaído (Arcano 22).................................................35 Nua ............................................26 Benedito Pereira Carnaval.............................................................................................................................20 Só para os românticos ...............................................................................................................34 Amor de meridianos ...........................07 A uma passante ..............14 Da paciência / Spider..30 Custódio Formoso Saga de um Campeão / Paz ........................................................................................................................................................................................................................................16 Melhor texto / Haiku...........................................................................19 Confiança...................................................................................................................................................................46 Hieróglifo .........................................................................................................................50 Evaldo Balbino O mar ......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................39 Djanira Pio A Bíblia...........................................................................................................27 Ralé.........................25 Araci Barreto Para o alto ...Índice Abilio Pacheco Quase um anagrama ..................................29 Canto dos pássaros .............................................................................................................................................................................................................................................................................................................21 Ana Felix Garjan Profecia do Silêncio I...........................................28 Bernadete de Lourdes Michelato Andança ..............................................................................41 Ducarmo Souza A Floresta Amazônica ....................................................................................................................................53 Antologia Literária Cidade 111 Volume I ....................................................48 Aço ...................................................38 Denise Santos de Oliveira Olhares Curiosos ...........23 Andreev Veiga Persiana............................................................................................................................................................................ a luz...........................................................................................33 Esboço ....................................................................................................................................................................47 Marabá Est .............................15 Não mais / Segredo............................51 Evandro Barbosa Namorado de areia .....................................17 Amores floras lilases amoras flores brancas / Tijolos que não fazem boas paredes..............................................42 Ontem e Hoje................................................................................................................43 Eleazar Carrias O abridor...........................................................

............................................................................................ 74 Maria Auxiliadora Reflexões de um mendigo............ 58 O mesmo bar ............................................................................................................ 85 Encontro ..................... 98 Tânia Sarmento-Pantoja Acobreadamente................................................................................................................................................................................................................................ 66 Outros Caminhos ................................................. 61 José Araújo A tal da “Globalização”.........................................................................................................................................102 Sertanejo........................................................ 82 Miguel Russowsky Caderno ou jardim? ....... 54 Isabel Cristina da Silva Ferreira Do Outro Lado do Rio ................................................................................................................................................................................... 87 Pegada ................................ 83 Nazilda Corrêa Terra / Viajante ............................................. navegante ..103 Amor com ela .................................................................................................................................104 Biografias dos participantes................... 84 O Beijo do Vento................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................101 Droga de Vida...................................... 60 Jhonny Vieira Brito Sei ................................. 75 Tenho amor por ti .......... 72 Lenir Moura Farrapo........................... 81 Metade de Mim ........................................................................................................................................................................................................... 94 Sarah Ibrahim Cançon Paradoxo................................................................................................................................................. 78 Marlene Cerviglieri Imaginário Amor.....................105 Antologia Literária Cidade 112 Volume I ........................................................... 90 Sandra Bentes Fantasias de infância........................................................ 73 Lourdes Neves Cúrcio Apenas um Soneto................................................................ 99 Acobreadamente II ............................................................................... 56 Ivan Grycuk O bar ....................................................................................................................................... 69 Areia Doce .Fernando Paganatto Urubu que canta............ 71 Juarez Francisco da Costa Noite .............................................................................................................................. 77 Maria da Luz A fio....................................100 Valdeck de Jesus Eu............................................................................................................................................................................................................................................................................... 68 Josiel Vieira Lima Barreto no ano 2022....... 80 Marta Cosmo Estrela Cadente......................................................................................................................................................................................................................................... 62 José Maria Parede-Alma Corroída......................... .................................................................................................................................................................................. 59 Jair Barbosa Rio sem dono....................................................................................................................................................... 88 Paula Cajaty Cidade do Rio ....................................... 89 Raimundo Nonato Amazônia..........................................................................................................

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